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FICHAMENTO DE RESENHA – ANTROPOLOGIA DO DIREITO – PROFESSOR ROBSON

MATA
MACONHA, CAPOEIRA E SAMBA: A CONSTRUÇÃO DO PROIBICIONISMO COMO UMA
POLÍTICA DE CRIMINALIZAÇÃO SOCIAL – por Jonas Araujo Lunardon.
Alan de Carvalho Cisne

“A partir do contexto do início do século XX, é possível estabelecer como políticas


públicas foram criadas com o propósito de marginalizar comunidades específicas,
notadamente a população negra ex-escrava da época. O título do trabalho se dá pela
correlação existente entre as tentativas estatais de criminalizações de elementos
característicos da cultura negra – tal qual samba, capoeira e umbanda – e a proibição
de drogas, neste caso, da maconha.” – p.1
O autor pretende provar que as políticas antidrogas objetivam marginalizar
comunidades específicas, que, segundo sua opinião, usufruem com maior frequência
essas drogas, como a maconha. No entanto, essa é, por si só, uma visão mesquinha da
realidade. Uma vez que adentramos em países de comunidades com maioria “branca”
ou “rica”, como ele imagina não ser marginalizada por uso de drogas, temos as
mesmas proibições. Países como Áustria, Dinamarca, Eslováquia, Finlândia, França,
Grécia, Hungria, Noruega, Polônia, Inglaterra, etc., todos países europeus ‘ricos’ e
majoritariamente ‘brancos’, cultura ‘cristã’, ateia ou outras afins ‘ocidentais’, e todos
não só são contra o uso como criminalizam o pequeno porte com cadeia. Então,
imaginar que a proibição de drogas é particular de uma repressão étnica ou elitista, é
em si mesma, uma afirmação parcial.

FONTE (2016):
https://exame.abril.com.br/mundo/como-47-paises-tratam-o-uso-e-o-porte-de-
maconha/ Último acesso 20/04/19

“Tomemos de exemplo o caso brasileiro e a proibição da maconha aqui. A cannabis


chega à terra onde agora chamamos Brasil antes de sermos pátria. As caravelas de
Pedro Álvares tinham velas, cordas, trapos feitos da planta. Seu óleo possuía diversas
utilidades, fazia-se papel com seu caule e vestiam-se roupas produzidas com sua fibra,
muito mais resistentes que fibras como a do algodão – imagine-se o trabalho das velas
naquelas naus atravessando o oceano. Já o uso psicotrópico da maconha veio junto
com os escravos, principalmente os oriundos de Angola, que escondiam nas suas
vestes as sementes.” – p.3

Este detalhe é deveras importante. Quando se fala em maconha, não significa, não nos
casos razoáveis, da proibição do uso da plana cannabis; e sim, do mal uso da planta
como substrato químico entorpecente recreativo. No entanto, sem dúvidas, os
benefícios da cannabis são altíssimos. Sua exploração comercial deveria sim ser
incentivada no país, para os fins adequados. O próprio uso do princípio ativo da
cannabis é interessante, mas, o uso da erva para tragar fumaça tóxica nos pulmões,
não existe nem porque se permitir isso, tendo o Estado uma grande faceta paternalista
para com seus cidadãos.
“A necessidade da repressão às drogas nasce com as contradições do processo de
abolição da escravatura no Brasil, em 1888. Com a perda da ferramenta da escravidão
há de se criar outras para que se possa controlar a cultura negra que agora luta para
fazer parte do tecido social existente. Não se pode correr o risco de os negros
impregnarem os brancos e seus costumes, diziam à época políticos, governantes,
cidadãos. Segundo Henrique Carneiro (2002), Câmaras Municipais do Rio de Janeiro,
em 1830, de Santos, em 1870, e de Campinas, em 1876, já emitiam documentos com
vistas à proibição do uso recreativo de maconha. Estas, apesar de iniciarem um
processo, não foram efetivadas. Nessa época, cigarros de maconha eram vendidos em
lojas e tabacarias, também no centro, mas principalmente nas periferias das cidades.
Seu uso crescia entre os brancos pobres, fazendo-se notar nas elites abastadas. Nas
primeiras décadas dos 1900 isso já era evidente. Clubes de diambistas eram frequentes
entre as comunidades negras, músicas exaltando a erva tornavam-se populares e o
folclore com relação à cultura da maconha crescia.” – p.4

Primeiro, precisamos desconstruir essa ideia de que existia alguma forma de


“repressão” implícita às camadas mais pobres e negras da sociedade brasileira
baseadas na repressão da droga, pois, configuramos uma outra realidade ao longo
tempo. Segundo FGV (2007), a Classe A é a maior consumidora de drogas, totalizando
62% do consumo total do país. Isso significa que apenas 38% de todo o consumo de
drogas está associado as classes B, C, D, E. Se dividirmos grosseiramente, não levando
em consideração que o aumento da renda das classes superiores aumentaria ainda
mais o consumo dessas classes, menos de 10% do consumo apenas estariam em cada
uma das classes mais baixas. Desde o passado, o consumo dos itens está associado a
sua vinculação com a “classe A” de sua época. Do mesmo modo que o fumo se
popularizou partindo dos grandes artistas que deram-no o status que possuiu de
“elegante”; a maconha possui sua fama no “descolado”, no ‘good vibes’, no símbolo de
poder e liberdade, graças aos grandes, relevantes e midiáticos personagens de sua
época que a eternizaram como parte da sua vida diária. Nesse aspecto, o próprio autor
admite que os colonizadores já usavam a cannabis para fins produtivos e recreativos
no século 16. No entanto, não se lembra que a escravidão só ocorreu 40 anos depois.
Ele se esquece, por exemplo, que os primeiros pés de maconha plantados em larga
escala na América do Sul foram plantações espanholas no século 15. Muito antes disso,
bebidas entorpecentes já eram produzidas pelos índios e tomadas como símbolos
ritualísticos de poder e prestígio. Sim, da mesma forma como hoje temos uma grande
população católica no Brasil, graças as expedições desses colonizadores, do mesmo
modo como temos palavras com herança portuguesa em nossa gramática, foram com
a influência deles que os brasileiros internalizaram a cultura de fumar maconha.
Digamos que sejamos céticos em relação a esses dados, seria possível testá-lo?
Certamente que sim. Consideremos duas formas:
1. Por meio da cultura africana e afro-brasileira. É sabido entre nós que a religião
puramente africana era o candomblé. Esta foi a religião que veio escondida
com os escravos nos navios negreiros. No entanto, ao se misturar com a cultura
portuguesa e hispânica, essa religião foi sofrendo mutações, formando a
Umbanda. Embora elas se pareçam, percebemos claramente suas distinções
práticas, e veremos como elas se relacionam perfeitamente com a tese
levantada. O candomblé não crer na “incorporação” de Orixás. Eles creem que
esses Orixás apenas transmitem energias puras que guiam mensagens como na
leitura de búzios. Já na Umbanda, a consulta ao Orixá se dá por meio de uma
“incorporação”. Ou seja, antes da consulta, é feito um ritual para que o Orixá
incorpore (possua) o médium para que ele faça o “trabalho”. Do que isso
importa? A forma como se dá essa “incorporação”. No candomblé tradicional,
uma vez que não é aceita a ideia de incorporações, não se usa álcool, fumo ou
quaisquer outras drogas para atingir nenhum estado “transcendental”, porém,
na Umbanda, a religião produto da mistura com a cultura brasileira, o uso de
drogas na incorporação é normal e até necessária.
2. Como poderiam os escravos, presos acorrentados sem muitas vezes nem a
vestimenta, traficar drogas do seu país para o Brasil? Não faz o menor sentido
crer que fosse possível um tráfico substancial de drogas por meio dos escravos.
Pelo contrário, quem comprava, quem comercializava, quem popularizava, era
sempre os colonizadores. Foram eles, a elite, que estabeleceram “costumes”,
costumes estes que foram sendo passados inclusive dentro da cultura religiosa
dos negros, como mostrado acima. Sobre essa aculturação, certo pesquisador
disse: “Nós logo percebemos que, enquanto houvessem ricos usuários de certa
droga, haveriam pessoas mais pobres dispostas a fornecê-la, independente de
qual proibição fosse feita.”
Em certa obra de referência, outro autor relaciona o discurso de que a droga é produto
de uma cultura negra, vindo com os negros escravos, como uma forma de estigmatizar
e marginalizar ainda mais os negros, culpando eles pelo péssimo hábito do uso de
drogas no país.

FONTE:
https://www.estadao.com.br/noticias/geral,classe-a-e-maior-consumidora-de-drogas-
revela-fgv,69531. Último acesso em 21/04/19.

http://www.wemystic.com.br/artigos/candomble-e-umbanda-conheca-as-diferencas-
entre-as-duas-religioes/. Último acesso 21/04/19.

https://psicodelia.org/noticias/a-historia-da-maconha-a-droga-mais-polemica-do-
mundo. Último acesso em 21/04/19.

“O crescimento dos centros urbanos tanto acelerava o processo de aumento do uso


quanto preocupava aqueles interessados na repressão. Outros fenômenos também se
alastravam pela sociedade brasileira e mereciam controle das autoridades: o samba, a
capoeira e a umbanda – todos partícipes fundamentais na construção do significado de
uma coletividade negra brasileira. Nos anos 1920, instaurou-se, de fato, a
criminalização do uso da maconha no território brasileiro. O decreto federal de 6 de
julho de 1921 assim deliberava sobre o tema: Decreto nº 4.294, de 6 de Julho de 1921
Estabelece penalidades para os contraventores na venda de cocaina, opio, morphina e
seus derivados; crêa um estabelecimento especial para internação dos intoxicados
pelo álcool ou substancias venenosas; estabelece as formas de processo e julgamento
e manda abrir os créditos necessários.” – p.5
Os fenômenos de samba e capoeira não possuíram nenhuma ligação com a repressão
da droga, como demonstrou o decreto que ele mesmo mostrou. Porém, o mais
gritante, é que enquanto estávamos falando de por volta do ano 1540, pulamos para o
ano de 1921. 381 anos depois do período no império que ele achou que houve alguma
repressão sem evidências, é que surge, na república, uma repressão legal às drogas,
em 1921, e nem surge contra a maconha, de tão comum que ela era na nossa
sociedade.

“Nota-se que a maconha (cannabis, diamba ou outra denominação para a erva) não é
citada nominalmente na legislação, mesmo que as autoridades estendessem a
repressão ao uso e comércio da planta. Porém, a substância cannabis indica é listada
oficialmente no Decreto nº. 20.930, de 11 de janeiro de 1932, quando o Congresso
Nacional ratifica a Convenção de Genebra. Tal documento, assinado em 13 de julho de
1931 pelo Brasil, é destinado à criação de uma política global de combate às drogas
no âmbito da Liga das Nações, instituída pelo Comitê Central Permanente do Ópio da
Liga das Nações.” – p.5, 6

E agora, o autor descobriu realmente o que levou a proibição da maconha e outras


drogas: Pressões internacionais da Liga das Nações (outrora, pós-2WW, chamada de
ONU). Por que tais órgãos fariam essas exigências? Será que a ONU é racista e contra a
cultura negra? Ou será que eles perceberam que drogas não fazem bem aos cidadãos e
portanto exigiram a proibição com fins paternalistas?

“nos Estados Unidos a fracassada Lei Seca (de 1919 a 1932) teve como objetivo conter
os hábitos dos miseráveis imigrantes irlandeses e italianos chegados ao país. A Lei
Seca, além de desastrosa em outros sentidos, também serviu para o aumento do
consumo de maconha na puritana sociedade estaduninense. Lá, o proibicionismo
também incluiu prática preconceituosa e políticas de exclusão social dos latinos e
negros vindos, principalmente, do sul.” – p.7

A Lei Seca nos Estados Unidos também tinham intuitos paternalistas, e tinha como
intuito não reprimir os miseráveis imigrantes italianos e irlandeses, e sim os ricos e
poderosos chefes de máfias irlandesas e italianas que ganhavam muito dinheiro
traficando aquelas drogas. Assim como Napoleão não criou um bloqueio continental
para reprimir um miserável inglês, e sim os ricos ingleses que poderiam financiar uma
revolta contra ele, os EUA precisava reprimir as máfias que cresciam dentro do país
com suas milícias armadas tomando territórios inteiros do país. Assim como eu já disse
acima, são pessoas de relevo que popularizam condutas nos lugares, e esse autor
estudando sobre a cronologia da maconha nos EUA, diz o seguinte:
“Em 1890, o cânhamo havia sido substituído pelo algodão como uma das principais
culturas de rendimento nos estados do sul. Alguns medicamentos patenteados durante
esta época continham maconha, mas era uma pequena porcentagem em comparação
com o número que continha ópio ou cocaína. Foi na década de 1920 que a maconha
começou a pegar. Alguns historiadores dizem que seu surgimento foi causado pela Lei
Seca. Seu uso recreativo era restrito a músicos de jazz e pessoas no show
business. “Reefer songs” tornou-se a fúria do mundo do jazz. Clubes de maconha,
chamados de almofadas de chá, surgiram em todas as grandes cidades. Esses
estabelecimentos de maconha eram tolerados pelas autoridades porque a maconha
não era ilegal e os patronos não mostravam evidências de incomodar ou perturbar a
comunidade. A maconha não foi considerada uma ameaça social. A maconha foi
listada na Farmacopéia dos Estados Unidos de 1850 até 1942 e foi prescrita para várias
condições, incluindo dores de parto, náusea e reumatismo. Seu uso como um
intoxicante também era comum entre 1850 e 1930. Uma campanha conduzida nos
anos 1930 pelo Bureau Federal de Narcóticos dos EUA (agora o Escritório de Narcóticos
e Drogas Perigosas) procurou retratar a maconha como uma substância poderosa e
viciante que levaria os usuários ao vício em narcóticos. Ainda é considerado uma droga
de “gateway” por algumas autoridades. Na década de 1950, era um acessório da
geração beat; na década de 1960, foi usado por estudantes universitários e “hippies”
e se tornou um símbolo de rebelião contra a autoridade.

FONTE:
https://www.narconon.org/drug-information/marijuana-history.html. Último acesso:
22/04/19

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