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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

Cartilha de Relações Étnico-Raciais na Escola

Projeto desenvolvido por: Bruna Torman, Lisandra Roman, Marina Widholzer e


Thiago Arend
Disciplina: Oficina de Leitura e Escrita de Textos Históricos - Turma A
Professora: Caroline Silveira Bauer
Introdução

O objetivo dessa cartilha é ajudar professores (as) da rede municipal e


estadual de ensino a desenvolver a temática das relações étnico-raciais dentro da
sala de aula. O público - alvo são alunos do ensino fundamental, a cartilha tem
como proposta contribuir com um material para ser apresentado em uma aula, e o
tempo de desenvolvimento da atividade final fica a critério do (a) professor (a).

Por que o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e dos povos


indígenas na educação básica é importante?

A sociedade brasileira é altamente plural e diversificada. Nela estão


presentes pessoas negras, representantes de povos indígenas, brancas,
descendentes de asiáticos e tantas outras etnias. Pela quantidade de línguas
faladas entre os povos indígenas, somente na América do Sul aproximadamente
500 dialetos diferentes, podemos ter uma noção da quantidade de povos que vivem
no Brasil. Os negros, que foram trazidos para o Brasil desde o início da povoação
do território, assim como os mais variados povos indígenas que existiam e ainda
existem, ajudaram a construir a nação que vemos hoje. O trabalho dessas pessoas
foi utilizado à força e, quando elas deixaram de ser úteis para o crescimento do
Brasil, suas culturas e modos de vida foram postos em dúvida. Muito se fala que os
indígenas deixaram de existir ou que as pessoas que se chamam de índios no Brasil
hoje não são mais índios. É muito comum escutar que os indígenas vivem na
floresta amazônica, que existiria um tipo ideal de índio, e que qualquer outra pessoa
que se identifique como índio está errada.

❏ Pergunta: Você já ouviu esses pensamentos em algum lugar? Você já


viu algum desenho de um indígena na sua escola? Como essas pessoas
eram retratadas?

Os descendentes de africanos no Brasil, assim como representantes dos


povos indígenas, são também pouco valorizados. Apesar de terem sido libertos com
a Lei Áurea de 1888, os ex-escravizados continuaram trabalhando na propriedade
dos senhores de escravos, pois não havia qualquer tipo de assistência a essas
pessoas. Aos poucos, elas foram sendo excluídas e esquecidas da sociedade e foi
sendo criada uma imagem pouco significativa ou até mesmo negativa de suas
contribuições para o desenvolvimento brasileiro. Há ainda na sociedade brasileira
um forte preconceito contra a população afro-brasileira. Ela continua sendo excluída
dos espaços de poder – recebe os menores salários, é menos representada nas
escolas e universidades, e têm os empregos que envolvem mais trabalho manual,
como o doméstico, por exemplo. Se pensarmos nas mulheres negras, elas têm
ainda menos possibilidades de melhorar de vida do que homens negros.
Há um artigo que fala sobre uma pesquisa que mostrou os seguintes
resultados: as cotas raciais auxiliaram muitos negros a entrarem no ensino superior,
porém alcançou muito mais os homens negros do que as mulheres negras. O
motivo? Além de encararem no seu cotidiano o preconceito por serem negras,
também encaram as dificuldades impostas na vida das mulheres, como serem
responsáveis pelos cuidados dos filhos e da casa. Mesmo em cursos em que a
maioria dos alunos são mulheres, as negras são a minoria.
❏ O que você aprendeu sobre os africanos no espaço brasileiro? Você
sabe o que foi a escravidão? O que você estudou sobre esse período da
História do Brasil?
Por estes motivos – o preconceito que existe de maneira forte na sociedade
brasileira – marcando as trajetórias de mulheres e homens, negros e indígenas é
que surge a lei 10.639/2003, que altera a lei já existente de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional, lei 9394/96. Ainda, foi a lei 11645/2008 que acrescentou na lei
9394/96 a obrigatoriedade do ensino de história indígena. Estas pessoas ainda não
tiveram seus direitos e suas contribuições reconhecidos pelo restante da população
brasileira. A lei, então, funciona como não somente uma equiparação, um ajuste de
contas com estas pessoas, mas também significa dizer que reconhecemos a
participação delas na história brasileira como agentes fundamentais, como criadores
de modos de agir, pensar e ver o mundo sob um olhar próprio. O parecer e seus
caminhos norteadores para a criação de projetos de educação étnico-racial só foram
possíveis com as propostas e reivindicações do ​Movimento Negro ao longo do
século XX. Essa organização vem buscando novos direitos e um reconhecimento
mais amplo e justo da população negra brasileira, criando contatos entre o Brasil e
países africanos para gerar trocas de conhecimento e mobilizações que permitam a
tomada de consciência da população negra brasileira para a procura por melhores
condições de vida.

Como isso se aplica ao cotidiano?

Muitas das relações que existem no trabalho doméstico se parecem com


aquelas que existiam no período escravista brasileiro, por exemplo. As mulheres
libertas, sem perspectiva de trabalho, continuavam trabalhando na casa de seus
senhores. Algumas novelas atualmente mostram esse tipo de relação através da
empregada, quase sempre interpretada por uma mulher negra, e o dono da casa,
homem branco que faz piadas de teor sexual com a mulher, muitas vezes forçando
uma relação, e sempre rindo de maneira que a cena pareça uma “brincadeira”.
Também podemos perceber essas representações nas histórias que por
vezes lemos. No Sítio do Picapau Amarelo, por exemplo, Tia Anastácia é chamada
de “negra de estimação”. Ela é sempre colocada em uma posição inferior que a dos
outros personagens é retratada como a eterna cozinheira e babá, sem
conhecimentos para além da cozinha.

(“Tia Anastácia”, atriz Dhu Moraes - Sítio do Picapau Amarelo)

Uma outra Anastácia existe na história do Brasil e da África, entretanto. É


uma personagem que está no imaginário popular e é cultuada religiosamente, desde
1968, quando faziam 80 anos da abolição da escravidão no Brasil e um desenho de
Étienne Victor Arago foi exposto na Igreja do Rosário, no Rio de Janeiro. Esse
desenho representava uma escrava do século XVIII usando uma Máscara de
Flandres, que não a permitia levar nada à boca, apenas enxergar e respirar, sendo
retirada apenas em algumas refeições. Anastácia teria se negado a ter relações
com o seu senhor e a máscara de ferro teria sido, junto com espancamentos, o seu
castigo. Sendo assim, ela é um símbolo de resistência, uma mulher que ousou se
rebelar contra as imposições de seu escravizador.
(Imagem da escrava Anastácia por Étienne Victor Arago)
Proposta de Atividade

Vamos jogar e aprender?

Que tal criar você mesmo (ou em grupo com os seus colegas) um jogo que
busquem abordar alguma das inúmeras temáticas que envolvem a África e a cultura
afro-brasileira? Você pode se inspirar nas suas vivências e no seu cotidiano. A partir
disso, pensar em situações racistas e discriminatórias, buscando a valorização da
história e cultura dos negros, procurando por influências e contribuições que
aparecem na sua vida.
O jogo não necessita ser feito através de um material físico: pode utilizar a
oralidade, a corporeidade e a arte. Além disso, você pode se inspirar em um jogo
que você já conhece e gosta, adaptando para essa temática.
Exemplos ilustrativos de propostas de jogos:
★ um jogo de memória no qual as cartinhas são fotos de cidades africanas;
★ a elaboração de um “palavras-cruzadas” envolvendo nomes de objetos e
lugares que fazem parte da cultura africana e indígena;
★ jogo da forca no qual as palavras escolhidas são nomes de tribos indígenas;
★ uma roda de conversa na qual cada um conta para os colegas qual foi a parte
mais marcante em aprender o conteúdo dessa temática.

O importante é aprender a aplicar a teoria no seu cotidiano! O respeito a todos


que adentrarem o nosso caminho é necessário para que possamos viver em
um mundo que aprecie a pluralidade!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino das Relações Étnico-Raciais e da


História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, 2004.

Plano Estadual de Implementação das Diretrizes Curriculares - Educação das


relações étnico-raciais e o ensino das Culturas e Histórias Afro-Brasileiras,
Africanas e dos Povos Indígenas. Secretária de Estado da Educação, Porto Alegre,
2017.

QUEIROZ, Delcele Mascarenhas; SANTOS, Carlinda Moreira dos. “As mulheres


negras brasileiras e o acesso à educação superior”. In: ​Revista da FAEEBA –
Educação e Contemporaneidade​, Salvador, v. 25, n. 45, p. 71-87, jan./abr. 2016.