Você está na página 1de 440

O LUGAR

DA TEORIA
LITERÁRIA

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 1 21/03/16 14:11


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA Universidade do Extremo Sul
CATARINA Catarinense
Reitora Reitor
Roselane Neckel Gildo Volpato
Vice-Reitora Pró-Reitora de Ensino de Graduação
Lúcia Helena Martins Pacheco Maria Aparecida Melo
Pró-Reitora de Pós-Graduação, Pesquisa e
Extensão
Luciane Bisognin Ceretta
Pró-Reitora de Administração e Finanças
Kátia Aurora Dalla Líbera Sorato

EDITORA DA UFSC EDIUNESC


Diretor Executivo Conselho Editorial
Fábio Lopes da Silva Dimas de Oliveira Estevam (Presidente)
Conselho Editorial Alex Sander da Silva
Fábio Lopes da Silva (Presidente) Álvaro José Back
Ana Lice Brancher Fabiane Ferraz
Andréa Vieira Zanella Marco Antonio da Silva
Andreia Guerini Melissa Watanabe
Clélia Maria Lima de Mello e Campigotto Nilzo Ivo Ladwig
João Luiz Dornelles Bastos Oscar Rubem Klegues Montedo
Luiz Alberto Gómez Reginaldo de Souza Vieira
Marilda Aparecida de Oliveira Effting Ricardo Luiz de Bittencourt
Vidalcir Ortigara
Willians Cassiano Longen

Editora da UFSC Ediunesc


Campus Universitário – Trindade Av. Universitária, 1105 – Bairro
Caixa Postal 476 Universitário
88010-970 – Florianópolis-SC Caixa Postal 3167
Fones: (48) 3721-9408, 3721-9605 e 88806-000 – Criciúma – SC
3721-9686 Fone: (48) 3431-2500
editora@editora.ufsc.br Fax: +55 (48) 3431-2750
www.editora.ufsc.br

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 2 21/03/16 14:11


André Cechinel
(Organização)

O LUGAR
DA TEORIA
LITERÁRIA

2016

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 3 21/03/16 14:11


© 2016 Dos autores

Coordenação editorial:
Paulo Roberto da Silva
Capa:
Leonardo Gomes da Silva
Editoração:
Carla da Silva Flor
Revisão:
Heloisa Hübbe de Miranda

Ficha Catalográfica
(Catalogação na publicação pela Biblioteca Universitária da Universidade
Federal de Santa Catarina)

L951 O lugar da teoria literária / Organização, André Cechinel. – Florianó-


polis : EdUFSC ; Criciúma : Ediunesc, 2016.
441 p. : il.

Inclui bibliografia.
1. Literatura – História e crítica – Teoria, etc. 2. Literatura – Estudo e
ensino. I. Cechinel, André.
CDU: 82.0
ISBN 978-85-328-0752-6

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá


ser reproduzida, arquivada ou transmitida por qualquer meio ou
forma sem prévia permissão por escrito da Editora da UFSC.
Impresso no Brasil

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 4 21/03/16 14:11


Sumário

Apresentação........................................................................................................ 7
André Cechinel

I Fim da Teoria..................................................................... 11
1 ­– O que aconteceu com a Teoria?............................................................... 13
Fabio Akcelrud Durão
2 ­– Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)......................... 29
Sérgio Luiz Prado Bellei
3 ­– Os fins da teoria......................................................................................... 57
Peter Barry

II Estado da teoria................................................................ 81
4 ­– Teoria literária hoje................................................................................... 83
Jonathan Culler
5 ­– Teoria e software: reflexões sobre a divisão de trabalho nas
Letras ontem e hoje................................................................................. 101
Márcio Seligmann-Silva
6 ­– Sem a imagem, a vida seria impossível: um trajeto sobre a
recente produção de Luiz Costa Lima.................................................. 113
Aline Magalhães Pinto
7 ­– Crise ou drástica mudança? Análise de um caso................................ 145
Luiz Costa Lima

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 5 21/03/16 14:11


III Lugares da teoria.......................................................... 159
8 ­– Lugares da (teoria da) literatura: desafios............................................ 161
Ivete Walty
9 ­– Da teoria como resposta: a modernidade crítica e o
(ter) lugar da teoria literária................................................................... 179
Nabil Araújo
10 ­– Teorizar é metaforizar............................................................................. 217
Eneida Maria de Souza

IV Literatura pós-Teoria.................................................... 225


11 ­– Rastros Autorais da Teoria: o caso Bartleby......................................... 227
André Cechinel
12 ­– Kakfa, Rulfo, Beckett: retorno ao mito................................................. 241
Eduardo Subirats
13 ­– Literatura digital, uma experiência possível........................................ 261
Cristiano de Sales

V Poesia, corpo, psicanálise.............................................. 273


14 ­– A identidade da poesia e as teorias do poético.................................... 275
Maria da Glória Bordini
15 ­– Algumas questões sobre corpo e literatura.......................................... 293
Alckmar Luiz dos Santos
16 ­– Algumas questões sobre a voz e(m) performance na Literatura....... 319
Dalva de Souza Lobo
17 ­– Literatura e psicanálise: escrita e teoria como práticas da
destituição................................................................................................. 353
Flavia Trocoli

VI Literatura e ensino........................................................ 371


18 ­– Há lugar para a teoria da literatura na sala de aula?.......................... 373
Alamir Aquino Corrêa
19 ­– A Teoria da Literatura nos bancos escolares....................................... 395
Regina Zilberman
20 ­– O que fica do que passa: considerações sobre o estudo e o
ensino da literatura.................................................................................. 419
Paulo Franchetti
Sobre os autores .............................................................................................. 435

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 6 21/03/16 14:11


Apresentação

“Teoria literária”, “teoria (literária)” ou simplesmente “Teoria”, com


“T” maiúsculo, conforme sinaliza, entre outros, a Norton Anthology of
Theory and Criticism? Ou estaríamos vivenciando, então, uma condição
“pós-Teórica”, a célebre “teoria depois da Teoria”, debatida à exaustão por
livros como Reading After Theory (2002), de Valentine Cunningham, The
Future of Theory (2002), de Jean-Michel Rabaté, e After Theory (2003),
de Terry Eagleton? Ora, se, por um lado, os desdobramentos recentes da
teoria literária (permanece a incerteza em torno da nomenclatura) indicam
certa vitalidade do campo – cabe citar, por exemplo, os “estudos animais”,
a “ecocrítica”, os “estudos pós-humanos”, os novos rumos tomados pela
“narratologia” etc., desenvolvimentos discutidos por Jonathan Culler em
capítulo presente neste volume –, é bem verdade que, por outro lado, as
antologias ou reader’s guides não raro agora incluem seções sobre os duros
golpes desferidos contra a Teoria nas últimas décadas do século XX.
O livro Beginning Theory: An Introduction to Literary and Cultural
Theory (2009), de Peter Barry, por exemplo, ao recontar a história da
teoria literária em dez eventos, estabelece um movimento progressivo que
culmina com episódios que, segundo o autor, antecipam os sintomas do
que seria o inevitável declínio do império teórico: entre outros, a revelação
dos escritos antissemitas que Paul de Man redigiu durante os anos de 1939-
1943; o famoso “escândalo Sokal”, em que um artigo repleto de clichês pós-
modernos conquista as páginas de um importante periódico acadêmico
da Duke University, o Social Text; por fim, a publicação dos ensaios em

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 7 21/03/16 14:11


que Jean Baudrillard defende a improvável tese de que “A Guerra do Golfo
nunca aconteceu”. Já o livro Theory’s empire, editado por Daphne Patai e
Will H. Corral e publicado em 2005, parte para um embate ainda mais
direto contra os supostos detratores da literatura: a antologia do dissenso
surge, segundo os organizadores, “num momento em que as discussões
teóricas sobre literatura não apenas tornaram-se estagnantes, como livros
e artigos são publicados em defesa dos próprios impasses teóricos que
conduziram a essa imobilidade” (PATAI; CORRAL, 2005, p. 1). Haveria
nas operações da Teoria, portanto, um gesto circular e autorregulador,
capaz tão somente de reafirmar de um ponto de vista teórico as condições
produtoras de determinados impasses.
No Brasil, paralelamente a essas questões, o debate aproxima-se
também das condições de pesquisa em teoria literária – e em Letras, de
modo geral – num país que reserva às chamadas “humanidades” um lugar
marginal. Por aqui – talvez ainda, por sorte, sem os mesmos resultados
alcançados em outros países –, buscamos nos aproximar do universo da
literatura administrada, do management acadêmico que automatiza as
pesquisas em nome de um produtivismo inofensivo. Em texto intitulado
“A pesquisa como desejo de vazio”, Raúl Antelo chama a atenção para o
processo de expansão inflacionária que toca alguns departamentos de
teoria literária: “[...] sempre me questiono acerca da destinação efetiva
desses jovens pesquisadores maciçamente recrutados. Haverá instituições
para absorvê-los ou seu cotidiano será só frustração, entregues que estão
à mais cruel disputa por um posto ao sol?” (ANTELO, 2012, p. 21).
Prevalecem, nesse contexto, as produções esquemáticas, os repetitivos
artigos “x em y”, “[...] sendo x um gênero ou uma corrente de pensamento
dada e sendo y um autor ou uma obra específica” (ANTELO, 2012, p. 22).
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Luiz Costa Lima, por sua vez, no livro Frestras: a teorização em um país
periférico, acrescenta a este uma série de outros problemas, constatados
em tom de incredulidade: alunos pouco qualificados, condições salariais
precárias, a pobreza de nossas bibliotecas etc. – “tudo isso nos leva a pensar
que é a própria sociedade brasileira que desqualifica a relevância da questão
intelectual” (LIMA, 2013, p. 475). Como deixar de associar essas questões
aos problemas que se referem especificamente à teoria literária e ao seu
lugar na universidade?
Logo no início do capítulo intitulado “O que aconteceu com a teoria?”,
8 que integra este volume, o professor da Unicamp Fabio Akcelrud Durão

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 8 21/03/16 14:11


(p. 13) observa que “a controvérsia em torno da morte ou fim da Teoria
ainda é nova; de fato, é um dos primeiros filhos legítimos do século XXI”.
Ora, o objetivo do livro O lugar da teoria literária é justamente debater
os impasses que pairam sobre a teoria literária e o lugar ocupado pela
disciplina hoje na universidade, mas também seu impacto sobre o ensino
de literatura na escola. Eis o que foi proposto na ementa enviada aos autores
que aceitaram o desafio de participar deste livro:

Em 2003, a partir de uma conferência organizada em torno de nomes


como Jacques Derrida, Frank Kermode, Toril Moi e Christopher
Norris, Michael Payne e John Schad publicam o livro life. after. theory,
cujo intuito é, em linhas gerais, “discutir se a coruja de Minerva, o
pássaro da teoria, foi finalmente abatida, se ela está desgastada como
um albatroz morto, ou se então se lança a um último voo, tardio e
glorioso”. Ora, mais que um tratado sobre a chamada crise da teoria,
o livro pode ser visto como sintoma de um problema que, ao longo
da última década, foi repetidas vezes diagnosticado [...]. No Brasil,
também voltada ao problema particular da “teorização em um país
periférico”, como indica o subtítulo de um dos livros recentes de Luiz
Costa Lima, a questão da crise da teoria não deixou de preocupar
teóricos como Eneida Maria de Souza, Leyla Perrone-Moisés e o
próprio Luiz Costa Lima, apenas para citar alguns exemplos. Inserido
nessa discussão, o presente livro, intitulado O lugar da teoria literária,
propõe-se a reunir trabalhos que problematizem justamente o
espaço ocupado pela teoria literária como disciplina acadêmica num
momento dominado pelo discurso da suposta crise da teoria.

Todos os vinte capítulos que compõem O lugar da teoria literária


são, em suma, possibilidades de respostas às questões apresentadas pela
ementa acima ou que dela decorrem. Gostaria de agradecer a todos os
autores o gentil retorno que deram à proposta desde o primeiro contato.
Agradeço, ainda, à Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc)
APRESENTAÇÃO

e ao Grupo de Pesquisa Littera (Unesc), pela concessão de parte dos


recursos que possibilitaram a publicação do volume, bem como à Editora
da Universidade Federal de Santa Catarina (EdUFSC), na figura de seu
diretor executivo, Fábio Luiz Lopes da Silva, que acolheu a ideia inicial com
entusiasmo e conduziu a execução do livro com dedicação. Por fim, sou
grato à Editora da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Ediunesc), 9

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 9 21/03/16 14:11


que também recebeu o projeto com interesse e aceitou a parceria com a
EdUFSC.
Sobre a disposição dos capítulos, a partir de uma sugestão inicial feita
por Fabio Durão – a quem sou particularmente grato pela atenção concedida
ao projeto desde o primeiro momento –, optei por dividir o livro em seis
seções fundamentais, de acordo com os debates travados pelos autores:
“I Fim da Teoria”; “II Estado da teoria”; “III Lugares da teoria”; “IV Literatura
pós-Teoria”; “V Poesia, corpo, psicanálise”; e “VI Literatura e ensino”. Ao
estabelecer como ponto de partida um balanço do suposto “fim da Teoria”, o
volume busca tanto assinalar a permanência do discurso teórico depois do
chamado “império da Teoria” quanto sinalizar a possibilidade de travessia
da “Teoria” para a “teoria”, conforme indicam os títulos das demais seções.
Seja como for, independentemente do agrupamento aqui proposto, vale
a pena ressaltar uma vez mais que cada capítulo constitui uma tentativa
de resposta aos problemas lançados pela ementa, o que permite ao leitor
reconfigurar os vínculos entre os vários autores e textos.
Por fim, é evidente que o lugar da teoria literária é sempre um lugar
plural. Preservei o título do livro no singular, no entanto, apenas para
acentuar que a pluralidade da disciplina não pode apagar a singularidade
de seus objetos. “Ser singular plural”, eis uma das tarefas que ora ainda nos
cabe.

André Cechinel
Organizador

Referências
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

ANTELO, Raúl. A pesquisa como desejo de vazio. In: SCRAMIM, Susana (Org.).
O contemporâneo na crítica literária. São Paulo: Iluminuras, 2012. p. 15-33.
BARRY, Peter. Beginning Theory. 3. ed. Machester: Manchester University Press,
2009.
LIMA, Luiz Costa. Frestas: a teorização em um país periférico. Rio de Janeiro:
Contraponto, Ed. PUC-Rio, 2013.
PATAI, Daphne; CORRAL, Will H. (Ed.). Theory’s empire: an anthology of
dissent. New York: Columbia University Press, 2005.
10

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 10 21/03/16 14:11


I Fim da Teoria

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 11 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 12 21/03/16 14:11
1

O que aconteceu
com a Teoria?

Fabio Akcelrud Durão

A queda não estava prestes a acontecer, mas já tinha acontecido.


José Paulo Paes

I
A controvérsia em torno da morte ou fim da Teoria ainda é nova; de
fato, é um dos primeiros filhos legítimos do século XXI. Ela compreende
diferentes pontos de vista: reivindicações de falta de novidade, pois,
“na verdade, não há nada na Teoria que tenha se mostrado realmente
revolucionário” (CUNNINGHAM, 2002, p. 29); proclamações cheias de
regozijo dos puristas, geralmente conservadores, para quem a Teoria é um
entrave; queixas daqueles que creem que falta o contrário, que a Teoria é
insuficientemente teorizada, que foi domesticada pelos readers e cursos
introdutórios de graduação. Para uns a Teoria sucumbe por ser politizada
demais, para outros, só poderá sobreviver com uma politização crescente
(BUTLER, GUILLORY; THOMAS, 2000); existem críticos que reclamam do
esquecimento do estético, ao passo que outros se queixam da incapacidade
da Teoria de exorcizar a estética por completo – com efeito, para cada um de
seus aspectos há posições contrastantes, muitas delas polêmicas, e algumas
com certa repercussão para além do espaço estritamente universitário.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 13 21/03/16 14:11


Algo dessa discussão será retomado abaixo; no entanto, é preciso começar
chamando a atenção para o que há de desconcertante em trazer para o
Brasil a questão do término ou falecimento da Teoria, pois por aqui ela mal
surgiu como um objeto de investigação. Seu estatuto ontológico, por assim
dizer, é o da ferramenta: entre nós, a Teoria é algo que primordialmente se
usa, aplica-se. As reflexões metateóricas (e não o comentário de autores:
mais uma introdução a Agamben...) geralmente aparecem em português
em textos traduzidos, como os de Culler (1999, p. 11-25), Jameson (1992)
ou Cusset (2008). Para dizer muito sucintamente, e à guisa de definição: a
Teoria (com “T” maiúsculo)1 representa o resultado de um processo de
autonomização, de separação vis-à-vis a teoria literária, que, como o próprio
nome atesta, ainda guardava alguma espécie de vínculo necessário, por mais
tênue que fosse, com a literatura. Embora a Teoria hoje ainda ocasionalmente
lide com obras ficcionais, isso já não é mais imprescindível: seu escopo de
atuação confunde-se com o das práticas significantes e suas metodologias
são variadas, o que faz com que não mais respeite as divisões disciplinares
usuais das ciências humanas. Essa promessa de liberdade, no entanto, sempre
encontrou empecilhos consideráveis, e a Teoria desde seu nascimento esteve
sob o signo da crise, tanto seu resultado como resposta a ela.2
A descrição do estado atual da Teoria sofre a interferência do lugar
no qual se origina. Os antiteóricos identificam uma situação de desgaste
resultante de seus próprios excessos: da linguagem arcana, do afastamento
do estético, do apagamento do humano. A Teoria seria assim tão somente
um interlúdio, um intervalo motivado pelas exorbitâncias de 1968, já em
vias de esgotamento. O momento atual seria o do retorno à apreciação
das grandes obras, até então ofuscadas por palavras de ordem. Uma outra
narrativa, talvez mais interna, associa-a à absorção do pós-estruturalismo,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

nos EUA, durante os anos 1960. Seu ápice teria sido alcançado com a
desconstrução da Yale School3 nas décadas de 1970 e 1980, que promoveu

1
Ainda que a distinção seja frouxa, “Teoria” refere-se ao campo reflexivo autonomizado, e
“teoria”, ao termo não marcado em seu uso geral.
2
Para uma introdução crítica a essa nova formação discursiva, que salienta tanto seus
ganhos quanto seus impasses, cf. Duráo (2011b). O presente texto é um desdobramento
desse livro.
3
Compondo a primeira geração estavam Paul de Man, Geoffrey Hartman, Harold Bloom e
14 J. Hillis Miller (cf. BLOOM et al., 1979). Dentre a segunda, destacam-se G. Spivak, Barbara
Johnson e Samuel Weber, entre outros.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 14 21/03/16 14:11


uma total rearticulação dos estudos literários, para em seguida começar um
declínio que estenderia até hoje. A consolidação dos Estudos Culturais, com
sua tendência para lidar com objetos materiais determinados, e o advento
da crítica pós-colonial, imbuída de um ímpeto político explícito, teriam
desempenhado um papel significativo nesse processo. Embora fossem
influenciados pela própria Teoria, tanto os Estudos Culturais quanto a
crítica pós-colonial nela encontraram deficiências: para os primeiros, a
Teoria seria por demais abstrata, no fundo, elitista, por não se voltar para
os conteúdos concretos das vidas das pessoas; para esta última, sofreria de
uma neutralidade que por fim a marcaria ideologicamente.
O problema com a postura revisionista é que o ar que respiramos é
ele mesmo teórico; prova disso é que com muita facilidade aceitamos que
a recusa da teoria encobertaria uma teoria da recusa da teoria – ou, para
dizer com outras palavras, temos muita relutância em acreditar que uma
relação imediata com as obras, livre de julgamentos prévios, seja possível,
ou ao menos que tal imediatidade possa ser construída. Quanto à superação
da Teoria sugerida pelos Estudos Culturais ou pela crítica pós-colonial,
uma Pós-Teoria vernácula (do latim, “verna”, um escravo doméstico) ou
ativista,4 fica a impressão de que a recusa às grandes teorizações poderia ser
antes de qualquer coisa um sintoma de uma fraca imaginação teórica, uma
incapacidade de criar conceitos capazes de abrir horizontes novos. Além
disso, se considerarmos que a Teoria muitas vezes é confundida com o pós-
estruturalismo ou, em outra chave, com o pós-modernismo, o que viria
depois do pós? Como escapar à fragilidade (ou ridículo) do pós-pós?5
Existe, porém, um argumento interessante que coloca a Teoria em

1 – O que aconteceu com a Teoria?


perspectiva, e que retoma uma posição já expressada anteriormente. Em
Professing Literature, Gerald Graff (2007) mostra que a história da crítica
literária da universidade norte-americana apresenta um padrão subjacente
a toda mudança conceitual proporcionada pelos diferentes movimentos
teóricos: dos classicistas, que foram substituídos pelos filólogos, que
foram sucedidos pelos Novos Críticos, que perderam lugar para os

4
“Se a tarefa política é mostrar que a teoria nunca é meramente theoria, no sentido de uma
contemplação desinteressada, e insistir que é plenamente política (phronesis ou mesmo praxis),
por que não chamar simplesmente essa operação de política, ou alguma permutação necessária
de si?” (BUTLER apud RABATÉ, 2002, p. 2, grifo do autor).
5
A Duke University Press possui uma série chamada de Post-Contemporary Interventions, 15
editada por Fredric Jameson e Stanley Fish.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 15 21/03/16 14:11


estruturalistas – em todos esses casos uma lógica intelectual estava em
jogo, que fazia com que novos espaços fossem abertos na academia para
receber os recém-chegados, sem no entanto haver uma confrontação de
fato entre as novas teorias e as outras, até há pouco em voga. Ao invés de
se questionar a compartimentalização departamental abre-se um espaço
para os novos teóricos – os queer, por exemplo – que doravante conviverão
com os velhos professores Novos Críticos, até que estes se aposentem e
os primeiros tornem-se dominantes... Por debaixo do aparente progresso
científico manifesta-se assim uma dinâmica institucional pouco afeita ao
verdadeiro debate, que no fim tem por objetivo a reprodução das estruturas
de saber existentes. Longe de ser o arauto de um admirável mundo novo, a
Teoria estaria simplesmente seguindo o percurso tradicional das inovações
acadêmicas das ciências humanas.
Por outro lado, no entanto, é impossível negar que a Teoria trouxe em
seu bojo um grau inédito de autoconsciência de si, que ela de certa maneira
abriu um horizonte do qual dificilmente se sai sem a rendição que é fechar
os olhos. Não seria demais propor que o próprio livro de Graff tem a Teoria
como condição de possibilidade de existência, como aquilo que permite o
campo de visão dentro do qual se move, que é o da equalização das teorias,
sua indistinção a priori. De novo, tentar fazer uma simples superação da
Teoria, seja em que sentido for, traz em si um problema performativo,
porque será necessário uma teoria para levar a cabo tal superação. É como
lembrar-se de esquecer. Some-se a isso que o tema do fim ou da morte
exige ele mesmo bastante cautela, pois se trata de um gesto argumentativo
já bem conhecido, desde Hegel pelos menos, se não de antes. Sua repetida
ocorrência requer uma teorização de segundo grau, que não tome esse tipo
de pronunciamento at face value, mas encare-o como figura capaz de ser
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

analisada. A atribuição da morte pode ser vista como pertencendo a um


gênero específico, no qual Nietzsche ocuparia um lugar importante; mas
ela também pode ser pensada como uma categoria narrativa, uma forma
de organização textual que visa a gerar uma dissociação entre o passado
e o presente, seja para fazer o luto do primeiro, ou o elogio do último. No
caso particular da teoria, restará sempre a suspeita de que a enunciação da
morte é na realidade uma estratégia de sobrevivência, porque um de seus
procedimentos de perpetuação tem sido o de uma disjunção interna, da
16 geração de um outro a partir de si, uma exterioridade que no fim se mostra

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 16 21/03/16 14:11


interior, por assim dizer. A maneira avassaladora como foi aceita pelos
críticos a matriz argumentativa básica de um Derrida, a projeção reduzida
e abstrata de uma continuidade da metafísica da presença, é exemplo disso.
A construção dessa homogeneidade (e, é claro, existem várias outras)
aponta irresistivelmente para algo que se oponha a ela, a prática de leitura
micrológica da desconstrução, que todavia nunca conseguirá subtrair-se
à metafísica. Ou seja, defender que a teoria morreu ou findou, e com isso
propor alguma alternativa, significa permanecer no âmbito da própria
Teoria. Um exemplo disso são as considerações a respeito da preposição
“after”, que em inglês (como no alemão “nach”) pode significar tanto após,
aquilo que deixa algo para trás, que rompe, quanto “de acordo, segundo”,
algo que leva a uma continuidade (PAYNE; SHAD, 2003, p. 10). No limite,
em sua manifestação mais superficial, a suposta morte da Teoria pode não
ser mais do que uma campanha publicitária; no mundo do espírito.
Não obstante, é necessário reconhecer que algo de fato aconteceu
com a Teoria. Seus anos heroicos já se foram. Vários de seus conceitos,
que tantas promessas traziam, a partir dos quais novas dimensões de
sentido pareciam descortinar-se, foram incorporados à rotina acadêmica
de produção;6 os novos termos cunhados pelos teóricos de hoje têm um
gosto requentado. A Teoria parece não mais conseguir gerar surpresas e
abrir caminhos realmente novos (compare-se Agamben com Foucault ou
Benjamin, Žižek com Lacan, Flusser com McLuhan): nesse sentido, não
mais vive; ainda assim, não está exatamente morta, se isso significar que ela
deva (ou possa) ser abandonada por alguma espécie de imediatidade da vida
ou frescor da existência. O nome daquilo que não está vivo nem realmente

1 – O que aconteceu com a Teoria?


morreu é zumbi. A tarefa de pensar a Teoria hoje é refletir sobre aquilo
que fez dela um morto-vivo, um ente que não consegue verdadeiramente
morrer – ainda mais uma vez: porque o decretar da morte já implicaria
uma teoria – mas cuja vitalidade não se aproxima daquilo que um dia já foi.

II
Para tentar explicar, ainda que um tanto grosseiramente, como
esse estado de coisas veio a ser, gostaria de propor um conjunto de quatro

17
6
Cf. Durão (2011a) para o caso da noção de “texto”.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 17 21/03/16 14:11


ideias inter-relacionadas, que se reforçam mutuamente. Certamente, cada
uma delas poderia ser expandida para o tamanho de um capítulo, porém
o aqui exposto deverá ser o suficiente para que o leitor tire suas próprias
conclusões. A primeira delas tem um escopo mais amplo e refere-se
à natureza geral da cultura hoje. O preço pago pela total absorção desta
em um aparato mercantil – essa grande indústria produtora de signos,
responsável por fluxos ininterruptos de semiose cada vez mais abrangentes
social e psiquicamente (cf. CRARY, 2014; DURÃO, 2008) – é o de uma
crescente domesticação. A subsunção, cada vez mais intensa, das mais
diversas esferas da vida em uma lógica de mercado traz em si um conjunto
de determinantes nocivos, dentre os quais vale salientar: a) o antagonismo
como primado ostensivo e geral de socialização: os indivíduos concebem-
se como mônadas em competição; b) a distinção rígida entre meios e
fins: o princípio de uma calculabilidade extrema para um objetivo nunca
questionado; e c) o conformismo: a necessidade de se adequar a um aparato
de produção cada vez mais centralizado.7 Tudo isso leva a um fechamento
do horizonte do pensável, da capacidade de vislumbrar, não exatamente
o diferente, mas aquilo que, na realidade, a ultrapassa. Ou para dizer
mais claramente: desde o século XIX pelo menos, a cultura floresceu pela
erupção de ideias contestatórias em momentos históricos de ebulição
cultural. É quase como uma regra geral: a existência do inconformismo
– mesmo quando surgindo de mentes a princípio conservadoras – é um
pré-requisito para a vitalidade da cultura. Seja nos anos 1920 na Alemanha,
que gestaram Adorno, Benjamin, Marcuse e Bloch entre tantos outros;8
na década de 1950 na França, que formou Derrida, Foucault e Deleuze;
ou na de 1960 no Brasil, tão bem analisada por Roberto Schwarz (1978)
– em todos esses casos efervescência cultural e oposição andam de mãos
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

7
Sem dúvida, haverá sempre aqueles que defenderão a capilaridade e multiplicidade irredutíveis
dos meios de comunicação digitais, da internet e dos celulares. Os argumentos de reivindicação
de liberdade no universo dos computadores já existem desde a década de 1990 e têm sido
desmentidos um por um. Que haja uma concentração dos aparatos comunicacionais, não
significa que o sistema seja fechado. Ele funciona porosamente: o Porta dos Fundos (produtora
de vídeos de comédia veiculados na internet) é um exemplo contundente de sucesso meteórico
de quem estava de fora, e de adaptação sem fricção ao que já estava montado.
8
Vale aqui chamar a atenção para o livro de Alex Demirovič, Der Nonkonformistische
Intellektuelle (1999), que mostra pormenorizadamente como T. W. Adorno e Max Horkheimer,
18 longe de ser mandarins da torre de marfim, estavam empenhados em uma práxis intelectual
incessante.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 18 21/03/16 14:11


dadas.9 Ora, a revolta cultural não existe sem uma cultura da revolta, que
não tenha medo da negatividade e seja capaz de criticar a cultura de dentro.
Consequentemente, neste nível mais amplo e abstrato, a revitalização da
Teoria dependeria de transformações que levassem ao fortalecimento do
inconformismo, tanto político-econômico quanto cultural, do qual a Teoria
então faria parte, e não apenas analisaria.
Paralela à pressão que tende a converter a cultura em espetáculo,
há as mutações por que tem passado a universidade. A agenda neoliberal
levou simultaneamente a uma burocratização e precarização estrutural do
trabalho acadêmico, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Donoghue
(2008) e Ginsberg (2011) apresentam um quadro sombrio para o contexto
norte-americano, que contém as universidades que servem de modelo para
o resto do mundo. Este último observa que, quando a universidade passa
a ser concebida como uma empresa, e a administração é retirada das mãos
dos professores, sua natureza muda.

A universidade pode ser uma instituição no melhor sentido da


palavra, mostrando, com o ensino, que novas formas de pensamento
e ação são possíveis. Controlada por administradores, por outro
lado, ela não pode ser mais do que aquilo que Stanley Aronowitz
com acerto chamou de uma fábrica de pensamento, que oferece um
treinamento vocacional mais ou menos sofisticado, voltado para
satisfazer às necessidade de outras instituições já estabelecidas nos
setores público e privado. (GINSBERG, 2011, p. 3).

Os efeitos da burocratização vão desde os mais inócuos, como

1 – O que aconteceu com a Teoria?


desperdício de recursos com um conjunto de funcionários que não têm
o que fazer, até os mais nocivos, como a imposição de códigos de conduta
ao corpo docente, a restrição da liberdade de expressão, e a mudança
de concepção do que seria a pesquisa acadêmica e a própria ideia de
universidade. Como categoria, os professores tendem

[...] a ver o estudo e o ensino como fins em si mesmos e a universidade


como um meio ou instrumento institucional por meio do qual esses

9
Uma outra maneira de observar o fechamento da cultura é por meio do desaparecimento
de qualquer forma de alteridade. Na ausência do outro da cultura, ela converte-se em uma
mediação universal, tal qual o dinheiro. Este, por sua vez, passa a confundir-se com a 19
transcendência religiosa, como muito bem articula Teschke (2014).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 19 21/03/16 14:11


fins podem ser alcançados. Para os administradores, por outro lado,
é a pesquisa e a docência que são os meios e não os fins. [...] A maior
parte deles manifesta uma perspectiva similar àquela exibida por
gerentes ou proprietários. Veem a universidade como o equivalente
de uma firma que manufatura bens e que oferece serviços, cujos
produtos principais calham ser várias formas de conhecimento ao
invés de automóveis, computadores ou alguma engenhoca qualquer.
(GINSBERG, 2011, p. 167-168).

Donoghue oferece um quadro abrangente de enfraquecimento


das humanidades em várias esferas, tanto do ponto de vista da estrutura
curricular, da erosão da estabilidade no emprego, da imagem social daquilo
que chama de liberal education, quanto do mercado de trabalho. O ponto
mais saliente de sua análise refere-se ao crescimento e fortalecimento da
imagem profissionalizante do ensino superior, para a qual as universidades
privadas (for-profit) estão mais bem adequadas.10 Não é de espantar que o
trabalho acadêmico tenha sofrido um processo de precarização, pois “entre
1975 e 2007, os professores substitutos [adjuncts] cresceram de 43,2%
do corpo docente para 68,7%. Isso coincidiu com a queda do número de
professores com estabilidade [tenure] de 56,8% para 31,2%” (ORBESEN,
2013). É necessário reconhecer, como demostra Newfield (2004), que desde
o começo a universidade americana esteve intimamente ligada à economia
(além da religião) dos Estados Unidos. Isso não quer dizer, entretanto, que
aquilo que está sendo imposto à universidade não possa, no final, desfigurar
seu próprio conceito a ponto de se transfigurar em outra coisa.11
As consequências disso para a formulação da teoria são óbvias, pois
em uma situação de difícil empregabilidade a ousadia da experimentação
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

e a coragem para a crítica ficam inibidas diante da vontade de participar


do sistema.12 Fica encorajado, assim, um tipo de docilidade teórica em
relação aos pressupostos do fazer da teoria. É possível criticar a estrutura

10
A University of Phoenix é geralmente citada como o exemplo mais consumado de identificação
entre universidade e empresa.
11
Para uma boa discussão das transformações por que tem passado a universidade desde o século
XVIII, cf. Readings (1997).
12
É claro, sempre haverá a possibilidade de não participar do sistema; com efeito, a presença
de muitos Ph.D’s em filosofia, sociologia, história ou literatura interagindo com pessoas do
20 povo teria o potencial de catalisar a contestação. Cf. aqui o que diz Robert Hullot-Kentor (in
DURÃO, 2012, p. 36-39).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 20 21/03/16 14:11


dos argumentos de uma análise pós-colonial, ou a acuidade de uma
interpretação queer, mas questionar a crítica pós-colonial como tal, ou as
bases da sexualização queer, é algo que recém-doutor algum ousará, sob o
risco de não encontrar emprego. Os professores seniors, quem poderiam
fazê-lo, provavelmente não terão mais energia para tanto, se já não tiverem
interiorizado os mecanismos que os levaram à tenure. Esse modus operandi
da universidade empresarial incentiva o mecanismo da moda, pois a
novidade que traz é forte bastante para promover alterações, mas inócua
o suficiente para não alterar os fundamentos sobre os quais se move a
discussão. Sem dúvida, a crítica à moda pode ser ela mesma criticada por
supostamente desconsiderar o aspecto utópico da mudança, a vitalidade
do novo; o que é irrefutável, entretanto, é que, com a Teoria, não apenas
aumentou o ritmo das publicações, como foi radicalmente reduzida a vida
útil destas. São poucos os livros ou artigos que serão lidos depois de vinte
anos. O caso mais espantoso disso talvez seja o Empire de Antonio Negri e
Michael Hardt. Publicado em 2000 e saudado como “profético”, “a primeira
grande e nova síntese teórica do novo milênio” por Jameson, e como “the
next big idea” em um longo artigo do New York Times (EAKIN, 2001),
teve sua primeira tiragem esgotada em duas semanas. Hoje é muito pouco
citado.
No Brasil, certamente, o panorama (por enquanto) é outro.13
O sistema nacional de universidades públicas está em expansão, tentando
dar conta de uma demanda reprimida. Nosso ensino superior estatal ainda é
gratuito, o que facilita que se torne um veículo de mobilidade social; nossos
reitores, na maior parte dos casos, são indivíduos que ainda se lembram do

1 – O que aconteceu com a Teoria?


que é ser professor; a estabilidade é garantida após o período probatório;
a representação da universidade como fixada no tripé ensino-pesquisa-
extensão é forte o suficiente para não precisar de justificação. Tal grau
relativo de autonomia e independência, no entanto, ainda não foi traduzido
em imaginação conceitual, mesmo levando em consideração que gozamos

13
Com efeito, para um acadêmico brasileiro, há um estranhamento quase etnográfico no encontro
com a bibliografia sobre a universidade norte-americana. É impossível não se encher de espanto
(ou mesmo incredulidade), quando se lê, por exemplo, que nos últimos anos dois terços dos
reitores das grandes universidades foram escolhidos por meio de firmas de head hunters. É
importante levar em conta, porém, que esse cenário não seria tão distante se houvesse no Brasil
uma preponderância das universidades privadas, como parece desejar a política educacional 21
dos partidos de centro-direita do país.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 21 21/03/16 14:11


de notável liberdade ideológica, algo que na Europa já não ocorre com
tanta facilidade. É possível postular que o modo de produção intelectual,
ao qual as universidades brasileiras tão rapidamente se ajustaram, favorece
a quantificação. A implantação da pós-graduação na área de Letras ocorreu
na década de 1970, no auge do estruturalismo, que, como é sabido, tinha
como norte um ideal de ciência unificador das humanidades. Os Estudos
Literários nunca conseguiram impor uma visão própria de si. A única
alternativa à cientifização foi por meio da ideia de nação, da literatura como
instrumento fundamental para a construção de uma cultura brasileira.
Seja como for, o ethos teórico pode ser sentido em vários fenômenos
como, por exemplo, uma certa concepção da forma-comentário que prima
pelo name dropping, a listagem de autores e a falta de penetração nos
objetos. O paroxismo disso acontece quando lemos um artigo e temos a
impressão de que tudo está ordenado de maneira a permitir a enunciação
de determinadas palavras, toda a economia textual existindo como uma
motivação do procedimento – para usar a ideia dos Formalistas Russos
– para a invocação de certos conceitos. Em suma, a falta de inventividade
no Brasil não emerge da carência de postos de trabalho, mas da velocidade
sem razão de ser. Pensando bem, nesse sentido, muito da teoria no Brasil
coaduna-se com o pior do que é feito nos Estados Unidos e Europa – o que
não deixa de ser um tipo de internacionalização.
A teoria não pode ser culpabilizada pelo marasmo da cultura, nem
pela transformação da universidade em empresa ou corporação; com
efeito, é até mesmo possível postular, como já aludido acima, que ela surge
tanto como resistência quanto como resultado desses fatores. Também
não é justo condená-la por um terceiro dado fundamental: a fragilidade
dos objetos, diretamente proporcional à sua multiplicação. A repetição de
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

padrões narrativos, da maneira de conectar eventos e lidar com relações


de causalidade; a persistência do antropomorfismo e do ideal de indivíduo,
que leva à naturalização do processo de identificação com o personagem
principal; a consolidação de fórmulas oriundas das convenções do gênero dos
artefatos (incluindo, é claro, o rótulo de “alta cultura”), ao qual docilmente
se submetem; a incorporação do novo ou diferente como elemento
rigorosamente superficial, que inexoravelmente será contido pela dinâmica
interna do objeto – tudo isso dificulta muito o trabalho de teorização, pois
22 não resta muito a teorizar. Não é à toa que com frequência a análise pareça
querer tirar leite de pedra, valorizando o detalhe que não tem implicação

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 22 21/03/16 14:11


para o todo, ou sucumbindo à autorrepresentação que o objeto faz de si – o
estudo, nesse caso, sendo no fundo indistinguível da campanha publicitária
da mercadoria cultural. Lendo os Estudos Culturais muitas vezes tem-se a
impressão de que a realidade está sendo heroicizada, que Madonna não é
um baluarte de resistência, que a autoironia não é uma transcendência, que
há uma discrepância ontológica intransponível entre Orgulho e preconceito e
as dezenas de continuações do romance, como Orgulho, preconceito e zumbis
(GRAHAME-SMITH, 2010), que por sua vez incidem sobre o original,
alterando-o e finalmente minando suas forças.14 Talvez o campo que mais
sofra com a fraqueza dos objetos seja o dos estudos de cinema, nos Estados
Unidos por tradição intimamente ligados aos departamentos de inglês.
Diferentemente da televisão, que já nasceu imersa sob a lógica comercial,
o cinema ainda aspira à pretensão de arte. Aplicar-lhe uma versão forte do
conceito, porém, significa descartar mais de 99% da produção mundial. Os
críticos de cinema veem-se, portanto, obrigados a ignorar a grande massa
de artefatos que compõe o seu campo de estudo, direcionando seu foco às
poucas obras significativas, ou a louvar traços particulares de filmes ruins,
como as cores em Avatar (2009), por exemplo.
Isso explica, ao menos parcialmente, por que a teoria tenha a
tendência a se converter em um gênero próprio – de fato, muito próximo
ao épico, devido à sua pretensão de universalidade – e tenha assumido um
caráter tão autorreferencial, pelo qual é veementemente criticada por seus
detratores. A razão para isso é que, muitas vezes, a teoria é mais interessante
do que o mundo que ela se propõe explicar. Por outro lado, isso não significa
que a Teoria possa simplesmente ser encarada como um tipo de literatura,

1 – O que aconteceu com a Teoria?


como faz Richter (2007), por exemplo, que chama Benjamin e Adorno de
escritores. Seja como for, muitas das falhas da Teoria, como, por exemplo,
apontadas por Cunningham (2002), podem ser explicadas, ainda que não
justificadas, pelo fato de que apresenta demandas aos objetos (incluindo
a própria Teoria), que não são capazes de satisfazer. Daí a vontade de
ver cesura, silêncio, diferença, infinitude, indeterminação, ambiguidade,
indecidibilidade, dialogismo, resistência etc. etc.
Mas o que dizer dos problemas mais propriamente internos à Teoria,
aqueles que não podem ser reduzidos ao desenvolvimento catastrófico

14
Baseio-me aqui no trabalho de doutorado em andamento de Maria Clara Biajoli, que oriento, 23
Lições de como matar a literatura: continuações de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 23 21/03/16 14:11


do capitalismo, nem ao desmanche da universidade, nem à precarização
dos objetos? Vários argumentos já foram invocados para criticá-la; um
livro como Theory’s Empire (PATAI; CORRAL, 2005) apresenta uma lista
considerável deles, que resumi em 26 pontos (DURÃO, 2011b, p. 42-47), e
que seria ocioso retomar aqui. Gostaria ao invés de abordar um tópico já
bastante discutido, a saber, o do valor das obras literárias e dos artefatos
culturais. Qual a contribuição ainda possível diante da multidão de escritos
dedicados ao tema? A ideia é a de que a opulência do debate é ela mesma
significativa e já faz parte da questão. Para dizer diretamente: a obsessão com
o valor estético e sua denúncia – que, abarca também todas as abordagens
relativistas e antifundacionistas, como os canônicos livros de Stanley Fish
(1982) ou Barbara Herrnstein Smith (1991), por exemplo – testemunha uma
dificuldade geral de julgar, de ordenar objetos e implicar o sujeito no ato
valorativo. É instrutivo, neste contexto, invocar a escrita de Adorno, na qual
nunca se encontrará uma estrutura predicativa do tipo “x é bom [gut]” ou “y é
ruim [schlecht]”, mas que está imbuída até as raízes de um impulso valorativo
oriundo da própria imersão no objeto.15 O valor, em outras palavras, é imanente
à escrita e não algo que necessite ser tematizado. O foco colocado sobre ele é
sintomático de uma incapacidade de experienciá-lo, em um momento no
qual a valoração extraestética é uma força motriz avassaladora socialmente.
O questionamento do valor literário sem dúvida teve um momento positivo
ao colocar em cheque o capital simbólico da arte, sua contribuição para a
reprodução das relações de classe; no entanto, essa crítica não apenas levou
ao ofuscamento daquilo que na arte alça-se para além de um mero ser-
para-o-outro, que constitui o em-si do objeto; ela também funcionou como
um veículo para expressar um ódio à arte que obliquamente comprova sua
existência. Ausente em todas as acusações de privilégio e opressão está uma
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

incapacidade de conceber a cultura como sendo, ao mesmo tempo, culpada,


partícipe na dominação social, e agente de crítica desse estado de coisas.
Um recente editorial da n+1 traduzido e publicado na revista Alea
(2014) discute como a denúncia ao elitismo da literatura converte-se em um
novo aristocratismo. Ironicamente, o ataque à chamada alta literatura leva a
um novo tipo de competência cultural, que para além de Dante, Shakespeare
ou Goethe passa a englobar os quadrinhos, as séries televisivas, o cinema
etc., fazendo com que seja muito mais difícil e oneroso acompanhar aquilo
24
15
Para as implicações disso no debate sobre o cânone literário, cf. Durão (2013).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 24 21/03/16 14:11


que todos estão falando. A abertura do horizonte do citável implica um
acesso muito mais irrestrito aos meios de difusão do que algumas dezenas
de livros em domínio público, de fácil acesso em bibliotecas. Por fim, o ethos
incriminatório combina-se bem tanto com o populismo anti-intelectual
brasileiro quanto com o cinismo pós-moderno,16 que permite, por exemplo,
que se critique a universidade como aparato repressor e se construa toda
uma carreira acadêmica baseada na ocupação de cargos administrativos.
Com isso é possível perceber como a mercadorização da cultura, o “tornar-
empresa” da universidade, a fragilização dos objetos e a precarização da
condição de possibilidade do valor implicam-se mutuamente. Tirar a teoria
de seu estado de zumbi (possivelmente abrindo mão do “T” maiúsculo) só
poderá ocorrer quando esse campo de forças for positivamente rompido, o
que, sem uma teorização adequada, não acontecerá.

Referências
BEWES, Timothy. Cynicism and Postmodernity. Londres: Verso, 1997.
BLOOM, Harold et al. Deconstruction and Criticism. Nova York: Continuum,
1979.
BUTLER, Judith. Imitation and Gender Insubordination. In: FUSS, Diana (Org.).
Inside/Out: Lesbian Theories, Gay Theories. Londres: Routledge, 1991.
BUTLER, Judith; John GUILLORY; Kendall THOMAS. What’s left of theory?
Nova York: Routledge, 2000.
CRARY, Jonathan. 24/7. Londres: Verso, 2014.

1 – O que aconteceu com a Teoria?


CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. Trad. Sandra G. T.
Vasconcelos. São Paulo: Beca, 1999 [1997].
CUNNINGHAM, Valentine. Reading after Theory. Oxford: Blackwell, 2002.
CUSSET, François. Filosofia francesa. Trad. Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed,
2008 [2003].
DEMIROVIČ, Alex. Der Nonkonformistische Intellektuelle. Die Entwicklung der
Kritischen Theorie zur Frankfurter Schule. Frankfurt: Suhrkamp, 1999.
DONOGHUE, Frank. The Last Professors. Nova York: Fordham U.P., 2008.
DURÃO, F. A. Variaciones acerca de los equívocos del debate sobre el canon.
Literatura: teoría, historia y crítica, Colômbia, v. 15, p. 187-200, 2013.
25
16
Para a elaboração deste conceito, cf. Bewes (1997).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 25 21/03/16 14:11


DURÃO, F. A. (Ed.). Entrevistas com Robert Hullot-Kentor. São Paulo: Nankin,
2012.
DURÃO, F. A. Do texto à obra. Alea, v. 13, p. 67-81, 2011a.
DURÃO, F. A. Teoria (literária) americana. Campinas: Autores Associados,
2011b.
DURÃO, F. A. Da superprodução semiótica: caracterização e implicações
estéticas. In: DURÃO, F. A.; ZUIN, A.; VAZ, A. (Ed.) A indústria cultural hoje.
São Paulo: Boitempo, 2008.
EAGLETON, Terry. Depois da teoria. Trad. Maria Lucia Oliveira. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2005 [2003].
EDITORES DA REVISTA N+1. “Sociologia demais”. Trad. Marcelo Moreschi.
Alea 16.2, 2014 [2013].
EAKIN, Emily. What Is The Next Big Idea? The Buzz Is Growing. New York
Times, 7 jul. 2001. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2001/07/07/arts/
what-is-the-next-big-idea-the-buzz-is-growing.html?src=pm&pagewanted=1>.
Acesso em: 20 jul. 2014.
FISH, Stanley. Is there a text in this class? Harvard: Havard U.P., 1982.
GINSBERG, Benjamin. The Fall of the Faculty. Oxford: O.U.P., 2011.
GRAFF, Gerald. Professing literature: an institutional history. Chicago: University
of Chicago Press, 2007 [1987].
GRAHAME-SMITH, Seth. Orgulho e preconceito e zumbis. Trad. Luiz Antônio
Aguiar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.
JAMESON, Fredric. Periodizando os anos 60. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque
de (Ed.). Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1992 [1984].
NEGRI, Antonio; Michael HARDT. Empire. Cambridge: Harvard U.P., 2000.
NEWFIELD, Christopher. Ivy and Industry: Business and the Making of the
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

American University, 1880-1980. Durham: Duke U.P., 2004.


ORBESEN, James. The Worst Time of the Year to Be an Adjunct Professor.
The Atlantic. 13 dez. 2013. Disponível em: <http://www.theatlantic.com/
education/archive/2013/12/the-worst-time-of-the-year-to-be-an-adjunct-
professor/282314/>. Acesso em: 14 jul. 2014.
PATAI, Daphne; CORRAL, Will H. (Ed.). Theory’s empire: an anthology of
dissent. Nova York: Columbia University Press, 2005.
PAYNE, Michael; SCHAD, John (Ed.). life. after. theory. London: Continuum,
2003.
26 RABATÉ, Jean Michel. The Future of Theory. Oxford: Blackwell, 2002.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 26 21/03/16 14:11


READINGS, Bill. The University in Ruins. Harvard: Harvard U.P., 1997.
RICHTER, Gerhard. Thought-Images: Frankfurt School Writers’ Reflection from
Damaged Life. Stanford: Stanford U.P., 2007.
SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-1969. In: SCHWARZ, Roberto.
O pai de família e outros ensaios. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1978. p. 61-92.
SMITH, Barbara Herrnstein. Contingencies of Value. Alternative Perspectives for
Critical Theory. Harvard: Harvard U.P., 1991.
TESCHKE, Henning. Sobre as formas contemporâneas do absoluto. Alea 16.2,
2014.

1 – O que aconteceu com a Teoria?

27

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 27 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 28 21/03/16 14:11
2

Sobre a estranha morte da


Teoria (com tê maiúsculo)

Sérgio Luiz Prado Bellei

2.1 Teoria
Falar da Teoria que vem sendo declarada morta há algum tempo
exige um trabalho preliminar de definição de termos que leve em conta
a distinção, usada com frequência em certos setores da academia anglo-
americana, entre “Teoria” e “teorias”. Não é tarefa fácil porque a Teoria
constitui um campo discursivo que resiste sistematicamente a qualquer
modalidade de mapeamento de um objeto específico de estudos a partir
da prática de seus representantes maiores. Preparar uma listagem exemplar
destes últimos, ainda que incompleta, não constitui grande problema:
Jacques Lacan, Roland Barthes, Michel Foucault, Jacques Derrida, Jurgen
Habermas, Fredric Jameson, Edward Said, Hélène Cixoux, Julia Kristeva...
Estabelecer um objeto de estudos a partir de tais nomes é praticamente
impossível. A Teoria, a rigor, não existe enquanto um campo coerente de
pressupostos, metodologias, crenças ou preferências ideológicas aplicáveis a
um objeto de estudos. Não se pode, portanto, falar com propriedade de uma
nova Teoria da literatura no sentido em que era possível falar anteriormente
de uma teoria marxista, ou psicanalítica, ou estilística, ou formalista da
literatura. O New Criticism ou o Formalismo Russo constituíam campos

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 29 21/03/16 14:11


discursivos que podiam ser descritos, com relativa facilidade, em termos
de uma metodologia de trabalho e objetivos programados. Para o New
Criticism, por exemplo, a tarefa da interpretação bem-sucedida do texto
literário dependia de um close reading dedicado ao levantamento de
estruturações semânticas sofisticadas, paralelismos, tensões entre sentidos e
paradoxos, com o objetivo de tornar visível o texto enquanto objeto estético
isolado, na medida do possível, de contextos sociológicos, psicológicos,
intencionais ou biográficos. No caso da Teoria, um mapeamento análogo
seria impossível. Daí a dificuldade de se produzir uma história da Teoria
nos mesmos moldes em que se escreviam histórias das teorias anteriores,
que teorizavam sobre um objeto. Como observa Ian Hunter,

[...] não faz sentido iniciar uma história da teoria com a tentativa de
identificar o seu objeto comum ou uma linguagem compartilhada. Ao
contrário das teorias científicas, a teoria que surgiu nas humanidades
e nas ciências sociais na década de 60 do século passado não era
definida por seu objeto porque se constituía a partir de disciplinas
voltadas para objetos diversos: a linguística e estudos jurídicos,
a literatura e a antropologia, o estudo de narrativas populares e a
análise de modalidades econômicas de produção. (HUNTER, 2006,
p. 80).

A Teoria, em resumo, volta-se para objetos dispersos (entre eles,


ocasionalmente, a própria literatura) e sem um protocolo comum de
expressão. E tanto os objetos como o protocolo podem ser definidos de
formas diferentes dependendo da escolha feita pelo teórico em questão.
Embora fale com certa regularidade sobre a literatura, Jacques Derrida
não a entende como um objeto de estudos e, a rigor, tampouco oferece
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

uma metodologia de leitura do literário. Se há algum “objeto” (o termo


é evidentemente inapropriado no caso da desconstrução derridiana) nos
estudos de Derrida, este seria a différance que faz da linguagem um horizonte
estruturante e não estruturável. Michel Foucault, por outro lado, volta a
sua atenção para discursos de poder institucional a serem trabalhados por
uma forma de expressão e uma metodologia peculiares e apropriadas ao
problema escolhido para exame (a proposta de uma arqueologia do saber
em As Palavras e As Coisas, a distinção histórica entre vigiar e punir em
30 questões de poder, o tratamento descontínuo da história, as formas de
repressão e controle no excesso discursivo sobre a sexualidade...). O objeto

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 30 21/03/16 14:11


da Teoria apresenta-se, portanto, em termos de uma dispersão de propostas
alternativas definidas pela escolha idiossincrática do teórico, o que implica
a perda do consenso sobre o objeto.
Resistindo a definições fáceis, a Teoria pode contudo ser pensada em
termos de uma via negativa, ou seja, com a utilização de um procedimento
analítico voltado para o que ela não é ou para o que ela rejeita. A lista de
rejeições é longa, mas vale a pena citar algumas: a filosofia da presença e
das origens, o logocentrismo, o essencialismo, a ontoteologia, as teorias
da correspondência entre representação e verdade (inclusive as teorias da
mimese, que necessariamente postulam a anterioridade do real em relação
à linguagem). O que a Teoria rejeita, em outras palavras, é toda e qualquer
possibilidade de fundacionalismo, ou seja, da crença dominante da cultura
ocidental que atrela, particularmente a partir de Platão e Aristóteles, a
possibilidade de todo conhecimento válido a uma fundação segura que
torna possível uma representação verdadeira ou próxima da verdade.
E trata-se de uma rejeição que se torna visível na medida em que se desloca
o foco de atenção da linguagem enquanto expressão e comunicação para
a sua materialidade enquanto sistema de signos sem origem e sem centro.

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


No caso do fundacionalismo, estabelecida uma fundação segura (o sujeito
pensante no caso de Descartes, por exemplo), torna-se possível a produção
do que Richard Rorty chama de a “representação privilegiada”, ou seja, aquela
marcada pela legitimidade da origem fundadora (RORTY, 1979, p. 165).
A ruptura com a tradição dominante do fundacionalismo, efetivada
a partir do reconhecimento da materialidade da linguagem, não se
faz sem os problemas típicos dos conflitos entre ideologias: rejeições
fundamentadas e outras nem tanto (a desconstrução de Derrida foi, em
seus momentos iniciais, apressadamente entendida como destruição e
nihilismo), ressentimentos, discursos passionais. Para ilustrar brevemente
esse conflito ideológico escolho, entre várias possibilidades, dois textos
exemplares: “A estrutura, o signo e o jogo”, de Jacques Derrida, trabalho
originalmente apresentado na Universidade de Johns Hopkins em 21 de
outubro de 1966 e publicado posteriormente em A escritura e diferença
(DERRIDA, 2005), e o texto do historiador Hayden White, publicado em
1972, em uma coletânea de ensaios sob o título de Liberations e dedicada ao
exame de um tema central: “As humanidades em revolução”. Muito embora
não haja nenhuma conexão explícita entre os dois textos, a referência de 31

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 31 21/03/16 14:11


White à uma vanguarda contemporânea (representada por nomes como
Joyce, Becket, Robbe-Grillet e Cage, entre outros) que ameaça as tradições
do humanismo e da mimese porque questiona as hierarquias tradicionais e
a possibilidade de precisar “quais seriam os ‘verdadeiros’ objetivos da arte
e da vida” (WHITE, 1979, p. 69, grifo do autor) está claramente próxima
das propostas de Derrida (na época associadas à vanguarda) a respeito
da instabilidade de uma linguagem sem centro. Não custa lembrar, de
passagem, a bem conhecida importância que teve a obra de Joyce para a
desconstrução derridiana.
O texto de Derrida enfatiza, no tratamento da linguagem, um olhar
alternativo mais para a sua força do que para o seu poder de produzir
significados. Esse olhar tornara-se inevitável após o evento da revolução
dos estudos linguísticos promovida por Saussure, que abriu caminho para
o “acontecimento de ruptura” em que o conceito dominante de “estrutura
centrada” já não conseguia neutralizar, como tinha feito no passado, a força
do “jogo da estrutura” (DERRIDA, 2005, p. 230). A estrutura centrada
tinha tornado possível à metafísica ocidental garantir, durante séculos,
uma “imobilidade fundadora” e uma “certeza tranquilizadora”, ambas
operando para aliviar a “angústia” de um sujeito que, incapaz de dominar
o jogo, se vê por ele implicado e tem o seu próprio ser por ele constituído.
No evento de que fala Derrida, torna-se possível pensar o centro não mais
como “lugar fixo”, mas como uma função e um “não lugar” no qual se
fazem “indefinidamente substituições de signos” (DERRIDA, 2005, p. 232).
O centro existe mas, paradoxalmente, já não pode mais ser simplesmente
o centro: estabelecendo-se a si mesmo como presença fundadora, já não
pode mais, simultaneamente, deixar de ser afetado por um jogo de sentidos
questionadores de sua centralidade. Após tal evento, torna-se inevitável
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

reconhecer a possibilidade de uma outra forma de interpretação que


poderia ser chamada de “hermenêutica negativa”: aquela que, justamente,
substitui a certeza e o conforto propiciados por centros e origens pela
incerteza do jogo fora de controle. Se a hermenêutica positiva “procura
decifrar, sonha decifrar uma verdade ou uma origem que escapam ao jogo
e à ordem do signo”, a hermenêutica negativa, em contrapartida, “afirma o
jogo” e, portanto, recusa-se a aceitar a “presença plena” e o “fundamento
tranquilizador” (DERRIDA, 2005, p. 249).
Ao questionar o fundacionalismo da hermenêutica positiva, o texto
32 de Derrida coloca em xeque a tradição do humanismo e da mimese na

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 32 21/03/16 14:11


cultura ocidental. Hayden White percebe a magnitude dessa crise em
virtude do seu potencial para abalar as propostas maiores dos grandes
defensores das duas tradições centrais da cultura ocidental: a da mimese
e a da hermenêutica positiva. Constituem ambas nada mais nada menos
do que as bases de sustentação do projeto de realismo humanista de
compreensão do mundo que, originado pelos gregos, chega ao século XX
como força dominante, apesar dos esforços iconoclastas das vanguardas.
Consiste o projeto, basicamente, na defesa intransigente do princípio
da mimese realista não apenas nas artes e na literatura, mas também na
ciência. No século XX, são representantes maiores dessa tradição cultural
Erich Auerbach, E. H Gombrich e Karl R. Popper. É no potencial da mimese
que testa e aperfeiçoa, em um movimento de progressão temporal, modelos
ficcionais diversos de representação do mundo que está a grande conquista
da cultura ocidental. Trata-se de movimento que vai, aos poucos, deixando
para trás as ficções precárias do mito e desenvolve formas de representação
mais próximas do real, ainda que a representação perfeita seja inatingível.
Para Auerbach, como explica White, a história do realismo avança “do
cancelamento dos poderes míticos enquanto conceitos explicativos em

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


questões sociais e psicológicas” e em direção do “cultivo de forças sociais,
naturais e psicológicas” enquanto “forças racionais de compreensão intra-
histórica” de validade imanente (WHITE, 1972, p. 63). Na teoria da arte de
Gombrich, o desenvolvimento da técnica narrativa (na pintura, na escultura,
na literatura) de estruturar e fixar o significado de “um momento no tempo”
(sem a interferência de princípios explicativos universais) e a conquista
“do espaço autônomo estruturado em perspectiva” tornaram possível a
“libertação da imaginação humana de sua procura mítica por verdades
eternas e absolutas”. E essa libertação abre caminho para o desenvolvimento
“da tarefa mais mundana, mas também mais humanamente vantajosa, de
controlar a coleta de informações” (WHITE, 1972, p. 61). Karl Popper, por
sua vez, envidou esforço heroico para demonstrar que, muito embora a
ciência não produza “verdades absolutas nem na investigação da natureza e
nem no entendimento da sociedade”, a estratégia por ela desenvolvida para
gerar “hipóteses descartáveis” acaba por produzir “descrições cada vez mais
elegantes e abrangentes [...] da ‘verdadeira’ natureza do real” (WHITE, 1972,
p. 63, grifo do autor). Para os três pensadores, portanto, a ciência, a arte e a
literatura ocidentais renunciam ao conhecimento absoluto com o objetivo de 33

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 33 21/03/16 14:11


levar adiante “o mapeamento cuidadoso e controlado da realidade de forma
fragmentária, provisória e evolucionária” (WHITE, 1972). O procedimento
é de extrema relevância porque permitiu “a expansão do controle que tem
o homem sobre o mundo, seja ele natural ou social” (WHITE, 1972, p. 63).
Optar por modelos alternativos de conhecimento que venham a negar a
mimese e o poder da imaginação significaria escolher o atraso e o “regresso
a formas anteriores, arcaicas, infantis e selvagens de imaginação opressora”
(WHITE, 1972, p. 61). O questionamento das tradições milenares de
que fala White, em resumo, instala uma crise nas formas dominantes de
representação ao propor que a hermenêutica positiva, no dizer de Jacques
Derrida, é sempre um equívoco, ou seja, o equívoco que consiste em “fixar
o texto em uma certa posição, estabelecendo uma tese, um significado,
ou uma verdade” (DERRIDA, 1995, p. 96). Trata-se, em outras palavras,
do equívoco do fundacionalismo em geral e de sua prática específica no
campo dos estudos literários.
O questionamento da hermenêutica positiva enquanto discurso
hegemônico do Ocidente não poderia deixar de abrir caminho para uma
outra crise, de ordem institucional. O ensaio de White ajuda a entender
também a natureza desta última ao lembrar que, tradicionalmente, os
modelos alternativos de conhecimento questionadores da mimese e do
poder da imaginação criativa podiam ser facilmente reprimidos porque
não representavam mais do que um “regresso a formas anteriores, arcaicas,
infantis e selvagens de imaginação opressora” e, portanto, um perigo a ser
evitado (WHITE, 1972, p. 61). Na área de estudos literários, James Joyce seria,
por exemplo, um autor que, ao afastar-se da mimese e correr o risco do jogo
excessivo do significado, deveria ser olhado com cautela. Na perspectiva
dos defensores do que venho chamando aqui de hermenêutica positiva,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

como diz White (1972, p. 63), “se abandonarmos o contexto histórico


– como faz Joyce – estaremos caminhando em direção ao desastre”. O jogo
intertextual desprovido da procura pela origem e pelo centro seria mais um
momento de decadência cultural em que o jogo da linguagem substitui a
verdadeira procura pelo conhecimento. A crise institucional ocorre quando
aquilo que podia anteriormente ser entendido como formas arcaicas e
infantis de representação torna-se, em relação à hermenêutica positiva, um
valor cultural em pé de igualdade e com legitimidade suficiente para ser
34 praticado institucionalmente e, em particular, na instituição universitária.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 34 21/03/16 14:11


Como consequência prática dessa legitimação de uma nova forma
de conhecimento, o que conhecemos hoje como “literatura”, por exemplo,
vai aos poucos perdendo o prestígio que teve na primeira metade do século
XX e o seu estudo passa a ser relegado, em muitos casos, a um segundo
plano. É que a literatura pode ser vista agora não mais como uma forma
culturalmente privilegiada de expressão e de mapeamento do real, mas
apenas como mais uma modalidade da écriture, muito embora marcada
por especificidades. René Wellek atenta para o problema já em 1983, em
ensaio originalmente publicado em The New Criterion, significativamente
denominado “Destroying Literary Studies”. Defensor ferrenho dos esforços
realizados para um entendimento da literatura “pelo menos a partir de
Aristarco de Alexandria” (circa 220 a 143 BC), passando pelos autores
renascentistas e românticos que culminaram nas profundas mudanças
metodológicas que surgiram na primeira metade do século XX (o manual
de Wellek e Warren (2003), Teoria da Literatura e metodologia dos estudos
literários, é evidentemente um marco fundamental na promoção dessas
mudanças), Wellek (2005) entende o aparecimento das novas propostas
teóricas como um atentado fatal contra os estudos literários que, entenda-

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


se, promoveram sempre a valorização da literatura em termos de estética.
A teoria resultante de tais esforços “dedica-se ao estudo dos princípios,
categorias, funções e critérios aplicáveis à literatura em geral” (WELLEK,
2005, p. 41). Essa Teoria é colocada em xeque pelo que Wellek chama de
“nova teoria”, aquela que afirma que “o homem vive aprisionado em uma
linguagem que não mais se relaciona com a realidade” (WELLEK, 2005).
Na sua formulação mais radical, a nova teoria “que promove o fim do
homem, nega o indivíduo, e entende a linguagem enquanto um sistema
de signos flutuantes [...] conduz a um ceticismo completo e, no limite, ao
nihilismo” (WELLEK, 2005, p. 43). E questionando radicalmente as teorias
tradicionais, a nova teoria promove a desvalorização do literário.

Se desaparece a distinção entre a literatura produzida pela


imaginação e outros tipos de discurso, se tudo não passa de um
jogo de linguagem, os conceitos abrangentes de écriture e “texto”
abrem caminho para a afirmação de que o crítico opera em nível
de igualdade em relação ao escritor criativo. (WELLEK, 2005, p. 43,
grifo do autor).
35

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 35 21/03/16 14:11


Lida retrospectivamente, após mais de três décadas de estudos
sistemáticos de pensadores como Derrida e Foucault, as afirmações de
Wellek soam infundadas na melhor das hipóteses, absurdas na pior. Mas
são historicamente importantes para o entendimento da crise institucional
gerada pelo conflito entre a teoria tradicional e a “nova”. No ambiente
acadêmico norte-americano (mas também em outros, embora talvez de
forma menos intensa) essa crise, pelo menos em um de seus aspectos,
colocou em lados opostos os professores antigos que continuavam a cultivar
o amor pela literatura e os novos que, equipados com o arsenal teórico,
acabavam por promover a marginalização do literário, talvez até mesmo a
sua morte. E para os que consideravam o triunfo da teoria responsável pela
morte do literário, a morte da Teoria e da sua vocação assassina só poderia
ser considerada desejável ou, até mesmo necessária. Quando essa morte
ocorre, aparentemente para valer, no final do século XX, uma das perguntas
razoáveis a respeito dela diz respeito à possibilidade de ser tal morte,
pelo menos em parte, promovida por aqueles acadêmicos que viram, de
repente, sua esfera de poder e ação reduzida pelo aparecimento daquilo que
caracterizariam como um novo “modismo” teórico predominantemente
parisiense. Seja como for, é hora de lançar um olhar mais demorado à
morte da teoria.

2.2 A estranha morte da Teoria


For, those, whom thou think’st, thou dost overthrow,
Die not, poore death, nor yet canst thou kill me.
[…]
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

One short sleepe past, wee wake eternally,


And death shall be no more; death, thou shalt die.
John Donne

HAMLET
What?

GHOST
I am thy father’s spirit,
Doom’d for a certain term to walk the night,
36 And for the day confined to fast in fires,

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 36 21/03/16 14:11


Till the foul crimes done in my days of nature
Are burnt and purged away.
(Act 1. Scene V)1

Esse estranho hábito que têm os mortos em geral de não morrer, ou


seja, de deixar para os vivos espectros perturbadores, rastros intrigantes,
tarefas infinitas e legados perenes parece repetir-se novamente na vasta
série de óbitos que vêm sendo constatados nas últimas seis ou sete décadas,
todos com frequência atribuídos ao avanço da Teoria que, a partir da década
de sessenta do século passado, abalou as certezas fundacionalistas. Uma
lista incompleta de falecidos não poderia deixar de incluir, por exemplo,
o autor, o sujeito, os grandes relatos, a mimese, a literatura, a obra de arte.
E entre os principais praticantes da Teoria responsáveis pelos assassinatos
encontraríamos os nomes de, por exemplo, Jacques Derrida, Jean-François
Lyotard, Roland Barthes, Michel Foucault, Jacques Lacan, todos associados
a um tempo e lugar específicos: a intelectualidade parisiense das décadas
de 1960 a 1980. Em todos os casos, um olhar mais atento perceberia
uma certa pressa na produção de atestados de óbito. A morte do autor é
provavelmente o exemplo mais visível dessa pressa, particularmente nas

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


propostas de Roland Barthes e Michel Foucault. Morrendo de repente em
Barthes, o autor reaparece logo depois em Foucault.
No ensaio “A morte do autor”, publicado por Barthes (2004a) em
inglês, no periódico norte-americano Aspen, em 1967, a dimensão que
adquire maior visibilidade é aquela de uma teoria que pretendia ser, na
época, nova e revolucionária. A proposta era questionar radicalmente toda
e qualquer origem, marcada sempre pelo estigma do desejo de controle e
da tirania, na tentativa de entender o texto enquanto espaço não unificado
de dispersão e disseminação de significados fora de controle. Um texto
passa, portanto, a ser visto como um intertexto que nenhum autor pode
controlar porque cada significado alude não a um ou mais sentidos
específicos (ou seja, a uma pluralidade controlável de significados), mas a
uma multiplicidade sem limites porque desprovida de centro ou origem.

1
“Pois aqueles que pensas destruir / Não morrem, pobre morte, e a mim não podes matar.
[...] / Terminado um sono breve, acordamos para a eternidade / E a morte deixará de existir.
Morte, tu morrerás! John Donne. HAMLET: O que? / ESPECTRO: De teu pai sou o espírito, /
Destinado por algum tempo a vagar pela noite, / E no dia confinado a jejuar no fogo, / Até que 37
dos crimes que quando vivo cometi / Pelas chamas seja purificado.”

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 37 21/03/16 14:11


O texto, dirá Barthes em ensaio posterior (“Da obra ao texto”) “pratica o
recuo infinito do significado” (BARTHES, 2004b, p. 69). Ora, um texto que
resiste à domesticação em termos da escolha de um ou mais significados
totalizantes não apenas reduz o poder de quem o escreve, mas acaba por
assumir o controle sobre ele. Já não se pode dizer que o autor é o sujeito
que fala. É a linguagem que fala através dele. A proposta é revolucionária
principalmente porque se insurge contra o cogito cartesiano que Jacques
Lacan já havia questionado em texto de 1966. Aceito o pensamento da
textualidade sem centro, tornava-se necessário substituir o cogito ergo
sum por ubi cogito ergo sum (LACAN, 1966, p. 275). No segundo cogito,
evidentemente, o “eu” desaparece ou morre ao se tornar um efeito do
pensamento ou da linguagem. No ensaio de Barthes, é um texto de Balzac
que serve para ilustrar a questão. Citando uma frase que apresenta o
protagonista de Sarrasine (um castrado disfarçado de mulher), Barthes
indaga a respeito de quem poderia ser o autor da descrição e conclui pela
impossibilidade de sua determinação, já que a voz que fala não pode ser
identificada nem com o “herói da novela”, nem com o “indivíduo Balzac”,
nem com a “sabedoria universal” e nem com a “psicologia romântica”.
Barthes conclui:

Não será jamais possível saber, pela simples razão que a escritura é
a destruição de toda voz, de toda origem. A escritura é esse neutro,
esse composto, esse oblíquo pelo qual foge o nosso sujeito, o branco-
e-preto em que vem se perder toda identidade, a começar pela do
corpo que escreve. (BARTHES, 2004a, p. 57).

É bem possível que o uso da expressão “morte do autor”, em Barthes,


O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

seja motivado mais por um desejo de radicalização de uma teoria que se


quer nova do que pelo rigor teórico que seria de se esperar de um expoente
maior do pensamento francês da época. É nesse contexto que a conclusão
do ensaio acaba por qualificar e enfraquecer a proposta de “morte”,
apresentada no início em termos da dissolução de origens e unidades
totalizantes causada pelo intertexto desprovido de centros, inícios ou finais.
“O nascimento do leitor” diz Barthes, “deve pagar-se com a morte do Autor”
(BARTHES, 2004a, p. 64). Apesar do uso da maiúscula para diferenciar o
autor do leitor, não deixam ambos de ter semelhanças profundas, uma vez
38 que é ele, o leitor,

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 38 21/03/16 14:11


[...] o espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca,
todas as citações de que é feita uma escritura: a unidade do texto
não está em sua origem, mas no seu destino, mas esse destino já não
pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia,
sem psicologia; ele é apenas esse alguém que mantêm reunidos em
um mesmo campo todos os traços de que é constituído o escrito.
(BARTHES, 2004a, p. 64, grifo do autor).

Muito embora haja aqui um esforço para esvaziar esse leitor das
marcas clássicas do humanismo tradicional (a sua biografia, história e
psicologia), não deixa ele de constituir-se precisamente como um autor:
um sujeito definido como origem e centro produtor de sentidos a serem
unificados em um processo de leitura que deve cobrir todos os traços do
texto a ser lido. Assassinado na porta de entrada do ensaio, o autor, por
assim dizer, retorna pela porta dos fundos. Sua condição é menos a de um
morto do que a de um morto-vivo ou de um espectro que retorna.
O ensaio de Michel Foucault, “O que é um autor?” ([1969] 2009)
complementa e problematiza o texto de Barthes principalmente porque,
ao enfatizar as dimensões históricas, econômicas e sociais do conceito de

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


“autor”, consegue entender com mais rigor o que poderia significar a morte
da figura autoral em uma dinâmica de aparecimento e desaparecimento.
“Não basta”, diz Foucault (2009), “repetir perpetuamente como afirmação
vazia que o autor desapareceu”. Para além do desaparecimento, é preciso
“localizar o espaço assim deixado vago pela desaparição do autor, seguir
atentamente a repartição das lacunas e das falhas e espreitar os locais,
as funções livres que essa desaparição faz aparecer” (FOUCAULT, 2009,
p. 271). É preciso, em outras palavras, estudar a função autoral em suas
quatro características fundamentais: como “forma de propriedade”
historicamente codificada no “final do século XVIII e no início do século
XIX” (FOUCAULT, 2009, p. 274-275); como forma também historicamente
codificada de diferenciação de origens discursivas, de forma a estabelecer
a distinção, por exemplo, entre o autor moderno e o autor medieval;
como forma de diferenciação entre práticas discursivas em um momento
histórico, estabelecendo distinções, por exemplo, entre um “autor
filosófico” e um “poeta” (FOUCAULT, 2009, p. 277); e, finalmente, como
força discursiva capaz de constituir uma pluralidade de posições autorais
que permite diferenciar em um romance, por exemplo, “o relato de um 39

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 39 21/03/16 14:11


narrador” enquanto um “alter ego” cuja distância em relação ao escritor
pode ser maior ou menor e variar ao longo da mesma obra” (FOUCAULT,
2009, p. 279).
Em Foucault, contudo, a proposta de uma leitura teórica alternativa
da morte do autor não significa uma discordância radical em relação ao
texto de Barthes. Também em Foucault, a figura autoral não deixa de estar
associada a uma certa tirania, já que “o autor é a figura ideológica pela qual
se afasta a proliferação de sentido” (FOUCAULT, 2009, p. 288). A ideologia
é aqui entendida no sentido proposto por Marx em A ideologia alemã, ou
seja, é uma produção discursiva mistificadora que projeta uma imagem
invertida do real (MARX; ENGELS, 2001, p. 19). “A ideologia existe”, explica
didaticamente Terry Eagleton, “porque há certas coisas que não devem ser
ditas” (EAGLETON, 1976, p. 91, tradução minha). O sentido de “autor”
que pode ser dito sem causar desconforto é aquele que o define como uma
“instância criadora que emerge de uma obra em que ele deposita, com uma
infinita riqueza e generosidade, um mundo inesgotável de significações”
(FOUCAULT, 2009, p. 288). Para Foucault, a verdade é “completamente
diferente”:

Se temos o hábito de apresentar o autor como gênio, como


emergência perpétua de novidade, é porque na realidade nós o
fazemos funcionar de um modo exatamente inverso. Diremos que
o autor é uma produção ideológica na medida em que temos uma
representação invertida de sua função histórica real. (FOUCAULT,
2009, p. 288).

A necessidade do autor está, portanto, associada à fobia cultural


O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

da proliferação e disseminação desordenada e descontrolada de sentidos.


Constituindo-se como proprietário de uma obra em que limites são
precisamente definidos por comunidades de poder institucional (como, por
exemplo, aquelas formadas por editores, críticos e acadêmicos), “o autor
torna possível uma limitação da proliferação cancerígena perigosa das
significações em um mundo onde se é parcimonioso não apenas em relação
aos seus recursos e riquezas, mas também aos seus próprios discursos e
suas significações” (FOUCAULT, 2009, p. 287).
Embora entendendo o autor enquanto força repressiva do discurso,
40 Foucault evita repetir o gesto utópico de Barthes que sonha com o

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 40 21/03/16 14:11


desaparecimento da tirania autoral. “Seria puro romantismo”, afirma,
“imaginar uma cultura em que a ficção circularia em estado absolutamente
livre, à disposição de cada um, desenvolver-se-ia sem atribuição a uma
figura necessária ou obrigatória” (FOUCAULT, 2009, p. 288). Pertencendo
ao devir histórico, a função autoral pode mudar de forma, mas dificilmente
desaparecerá. Poderá “funcionar de novo de acordo com um outro modo,
mas sempre segundo um sistema obrigatório que não será mais o do autor,
mas que fica ainda por determinar e talvez por experimentar” (FOUCAULT,
2009, p. 288). Subjacente a essa afirmação está o Foucault que formulou
uma teoria do poder onipresente que preenche todo e qualquer espaço. Se
uma forma de poder desaparece em certo momento histórico, ressurgirá de
outra forma mais adiante. Resta saber se outras eventuais formas de poder
“por determinar” seriam menos opressivas, e portanto mais desejáveis, do
que o poder autoral.
Essa estranha lógica da morte e ressurreição do autor repete-se, com
diferenças, no caso da morte da Teoria. Por razões que serão examinadas
em mais detalhe a seguir, essa dinâmica de morte e ressurreição ocorre
de forma mais intensa no contexto acadêmico norte-americano. É nesse

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


ambiente que, no início da década de oitenta do século passado, críticos
de estatura maior começam a se insurgir contra a teoria e a desejar o seu
enfraquecimento ou desaparecimento como algo culturalmente saudável.
Aparece em 1982 um importante manifesto intitulado “Against Theory”,
publicado por Steven Knapp e Walter Benn Michaels. A proposta era
defender práticas disciplinares contra as investidas nefastas do que viria
posteriormente a ser chamado de Teoria. “A Teoria”, afirmavam os autores
do manifesto, “não é apenas um outro nome para a prática”, mas também
e principalmente “a designação utilizada por todos aqueles que tentam
posicionar-se do outro lado da prática para controlá-la do lado de fora”
(KNAPP; MICHAELS, 1982, p. 742). Não custa lembrar que, aqui, a tirania
que Barthes e Foucault atribuíam à função autoral é transferida para a
Teoria, agora entendida como força opressora que, como deixa claro o
ensaio de Knapp e Michaels, tenta destruir as intenções de significado que
precedem o texto e sem as quais toda prática hermenêutica tornar-se-ia
impossível. Seja como for, o manifesto de Knapp e Michaels abre caminho
para a afirmação categórica de Stanley Fish, em 1985: “os dias da teoria
estão contados; já passou da hora; e a única opção que resta ao teórico é 41

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 41 21/03/16 14:11


admitir a chegada do fim” (FISH apud JAY, 1998, p. 17). Declarada morta
em 1985, contudo, a teoria ressurge no ano seguinte, quando J. Hillis Miller,
então presidente da Modern Language Association, proclama o “triunfo
da Teoria” (MILLER, 1987, p. 281). Repete-se aqui com a teoria a mesma
dinâmica percebida por Foucault com relação ao autor: a teoria desaparece
ou morre em certos tempos e lugares apenas para reaparecer ou ressuscitar
em outros.
É importante enfatizar, contudo, que as idas e vindas da Teoria não
ocorrem apenas no ambiente acadêmico norte-americano, muito embora
seja este o local de sua maior visibilidade. Tendo sua morte anunciada a
partir de meados da década de 1980, a Teoria retorna forte e firme lá onde,
à primeira vista, não seria de se esperar. Em junho de 2004, realiza-se na
Universidade de Remnim, na China, um congresso dedicado à Teoria
Literária e à recepção chinesa de Fredric Jameson e, ainda, na Universidade
de Tsinghua, um congresso sobre “Critical Inquiry”, uma referêntia tanto
ao título do periódico norte-americano como à temática dominante nele
trabalhada. “The Ends of Theory”, o subtítulo dado a este último congresso,
aponta para o duplo sentido de morte (end: final) e ressurgimento (ends:
objetivos) da Teoria. Comentando o evento, W. J. T. Mitchell e Wang Ning
lembram que o congresso representava um prolongamento de um outro,
realizado em Chicago no ano anterior e dedicado à temática do “futuro
da teoria e da crítica”. Acontecendo no momento da invasão do Iraque em
2003, o Congresso não poderia deixar de ser assombrado pelo espectro
da ação militar norte-americana. E o desdobramento mais evidente da
presença desse espectro apontava para a falência da teoria. A indagação
óbvia, nas palavras de Mitchell e Wang, dizia respeito “à aparente impotência
da teoria e da crítica diante da insensatez e da ignorância resultantes do
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

fanatismo, da cobiça e da hubris (MITCHELL; NING, 2005, p. 265). Em


um piscar de olhos, toda a energia dedicada ao desenvolvimento de um
arsenal crítico-teórico, do qual se esperava que não fosse restrito apenas ao
interior dos muros universitários, torna-se quase absolutamente irrelevante
diante do que Mitchell e Ning denominam uma “forma superior de teoria
ideológica atrelada ao poder militar norte-americano e à crença na missão
salvadora da equivocada “Guerra ao Terror” (MITCHELL; NING, 2005,
p. 265). Apoiavam a ideologia da guerra ao terror, tornando-a invencível,
42 os meios de comunicação de massa e teóricos neoconservadores como

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 42 21/03/16 14:11


Paul Wolfowitz e Richard Perle, que proclamavam o início de uma nova
era do triunfo da democracia no Oriente Médio. O momento em que
“o New York Times declarava a invasão do Iraque um grande sucesso”
afirmam Mitchell e Ning (2005, p. 265), é também o momento “da morte
da teoria” no Congresso realizado em Chicago.
Morta em Chicago, portanto, a Teoria ressuscita na China com vigor
surpreendente. Com a presença de mais de oitenta pesquisadores chineses,
asiáticos, europeus e americanos, o Congresso abrigava workshops e mesas-
redondas voltados para as seguintes discussões temáticas, entre outras:
hermenêutica e estética da recepção; estudos literários no contexto da
globalização; a modernidade e a pós-modernidade revisitadas; relendo
as literaturas pós-coloniais e diaspóricas; mutações na função da teoria.
E os dois principais conferencistas convidados tinham como seu país
de origem os Estados Unidos: Fredric Jameson e J. Hillis Miller, muito
provavelmente os dois teóricos que mais contribuíram para introduzir na
China a Teoria ocidental. O caso de Jameson é particularmente relevante
para o entendimento da dinâmica da vida e da morte da teoria, e da teoria
pós-marxista em particular, porque a sua proposta de releitura de Marx

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


no momento da pós-modernidade, como lembram Mitchell e Ning, teve
impacto significativo na modernidade maoista chinesa:

Na qualidade de representante maior de um marxismo ocidental


amplamente considerado obsoleto, o pensamento de Jameson
permanece não apenas vivo na China, mas também ganha
importância primordial em uma situação em que o mapeamento
global, a análise dialética das transformações culturais e materiais
e a determinação para pensar a totalidade do capitalismo parecem
agora mais urgentes e oportunas do que nunca. (MITCHELL; NING,
2005, p. 268, tradução minha).

Situada em um contexto internacional, a lógica da morte e ressurreição


da Teoria ajuda a compreender aspectos importantes da sua dinâmica em
termos de uma geopolítica globalizante, da divisão intelectual do trabalho
ligado ao capital cultural e, principalmente, da oferta e procura de ideias
no mercado internacional de práticas culturais. A Teoria, como indicado
anteriormente, tem o seu local geopolítico de origem na intelectualidade
parisiense da segunda metade do século XX. Essa geopolítica local, 43

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 43 21/03/16 14:11


particularmente no caso de Jacques Derrida, expande-se rapidamente em
uma dimensão planetária. Trata-se de movimento centrífugo impulsionado
em grande parte (mas não exclusivamente) pelo ambiente universitário
norte-americano, que se transforma, por assim dizer, em uma poderosa
caixa de ressonância com potencial de distorção a ser ouvida em uma
dimensão globalizante. É nesse contexto que é preciso entender a afirmação
de Derrida a respeito da “origem” norte-americana do pós-estruturalismo
e da desconstrução. Afirma Derrida do pós-estruturalismo que é ele “um
conceito puramente norte-americano”, e do desconstrucionista como
“mais uma invenção norte-americana” (DERRIDA, 2001, p. 16, tradução
minha). Dizer que o pós-estruturalismo ou a desconstrução são invenções
norte-americanas significa dizer que, nesse contexto de reprodução para
consumo da teoria parisiense, podem ocorrer distorções tão profundas que
tornam irreconhecíveis as teorias originais, apesar da presença importante
de leitores atentos e rigorosos que, no limite, questionam e enriquecem as
contribuições francesas, como é o caso de um J. Hillis Miller ou de um
Paul De Man.
O caso do Congresso de Beijim é, mais uma vez, exemplar. O ano
em que se realiza o Congresso (2004) é também o ano da morte de Jacques
Derrida, certamente o praticante de maior visibilidade do que venho aqui
chamando de Teoria. A presença de Hillis Miller na academia chinesa pode
bem ser vista, por assim dizer, como um retorno de Derrida na forma de
um discípulo que opera como espectro do mestre. E a função do espectro
é reproduzir, com diferenças e possíveis distorções, as lições herdadas.
O texto de Miller apresentado no Congresso é mais uma de suas releituras
de textos canônicos anglo-americanos visivelmente influenciados pela obra
de Jacques Derrida e pelas contribuições da teoria pós-colonial recente.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Como relatam concisamente Mitchell e Ning,

[...] a leitura sutil que faz Miller do romance Nostromo, de Joseph


Conrad, sob a perspectiva de teorias recentes sobre império e pós-
colonialismo, constituiu uma demonstração eloquente das formas
pelas quais a teoria recente retorna ao cânone literário do passado
e redefine respostas, desenvolvendo novas provocações para
questionamentos e respostas e, até mesmo, para novos arquivos.
(MITCHELL; NING, 2005, p. 268, tradução minha).
44

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 44 21/03/16 14:11


Nessa dimensão de uma geopolítica globalizante da Teoria, é
importante reconhecer também uma profunda divisão de trabalho
intelectual que compreende produtores, reprodutores e consumidores.
A escolha de Jameson e Miller como conferencistas maiores não é gratuita
ou inocente. Obedece à lógica do mercado cultural, em que a produção
teórica ocorre em certos espaços e não em outros, cabendo a estes últimos
a função primária (mas não exclusiva) de consumidores, não de produtores
ou reprodutores. Dados os limites deste ensaio, não é possível examinar
mais detalhadamente a complexidade desse contexto mercadológico.
Assinalo apenas, de passagem, dois de seus componentes principais: a
formação de um estrelato que, mutatis mutantis, opera de forma análoga
ao estrelato hollywoodiano na medida em que produz imagens com valor
cultural de alcance planetário (Derrida, Jameson e, em menor escala, Miller,
por exemplo);2 e a constituição de um campo discursivo (a ser trabalhado
adiante em mais detalhes) que tenta dar uma resposta a anseios e ansiedades
de um período histórico específico (é nesse contexto de demandas históricas
por sentidos que Jameson, por exemplo, define o pós-modernismo como a
lógica do capitalismo tardio). Dito isso, é importante acrescentar depressa

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


que a circulação de bens culturais, em tempos de globalização, não é uma
via de mão única, dos produtores e reprodutores para os consumidores.
A história vem mostrando que as periferias culturais têm, com alguma
frequência, contribuições a oferecer aos centros de cultura. Mas este é, mais
uma vez, um problema complexo que não pode ser trabalhado em detalhes
no presente ensaio.
Se a Teoria resiste à morte porque consegue ganhar sobrevidas
advindas de forças ideológicas e mercadológicas que atuam de forma
simultaneamente localizada e globalizada e se, como no caso da morte
do autor, ela desaparece ou tem a demanda por sua relevância ideológica
reduzida em certos tempos e lugares apenas para ver essa demanda ressurgir
com vigor em outras, então a atenção a ser dada à sua morte é menos
relevante do que aquela a ser dirigida para a sua permanência em outras
formas e para o seu legado. Torna-se necessário, por assim dizer, tomar
conhecimento do seu enfraquecimento ou desaparecimento apenas para,
depressa, reconhecer também a sua sobrevivência e, talvez, até mesmo a

2
Para um exame detalhado da formação do estrelismo na área de Teoria, ver o importante 45
estudo de Shumway (1977).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 45 21/03/16 14:11


sua relevância ou força de fecundidade. É esse exercício de olhar ao mesmo
tempo para a sua morte e para as forças residuais após a morte que é
magistralmente exemplificado por Terry Eagleton nas primeiras páginas
de After Theory. Após afirmar que a “idade de ouro” do que chama de “Alta
Teoria” chegou ao seu fim, Eagleton oferece ao leitor uma longa lista de
nomes representativos (Bourdieu, Cixous, Derrida, Edward Said, Jameson,
Kristeva, Raymond Williams...) e não resiste à tentação de mostrar sua
veia humorística ao registrar a morte de vários deles, dos franceses em
particular:

Alguns deles [representantes da Alta Teoria] já sentiram o golpe da


morte. O destino empurrou Roland Barthes para debaixo de um
carro de lavanderia e infectou Michel Foucault com Aids. Despachou
Lacan, Williams e Bourdieu, e aprisionou Louis Althusser em um
hospital psiquiátrico pelo assassinato de sua mulher. Ao que parece,
Deus não era um estruturalista. (EAGLETON, 2003, p. 1, tradução
minha).

Essas referências à morte da teoria e de alguns de seus expoentes,


contudo, vem logo acompanhada de uma referência à sua sobrevida:

Muitas das ideias desses pensadores continuam a ter valor


incomparável. Alguns ainda produzem obras de importância
maior. Para todos aqueles que o título desse livro sugere que a
“teoria” morreu, e que pensam que podem agora voltar a uma
época de inocência pré-teórica, um aviso: preparem-se para o
desapontamento. Não é mais possível retornar a uma época em que
era suficiente declarar que Keats é deleitável ou que Milton é um
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

espírito intrépido. (EAGLETON, 2003, p. 1, grifo do autor, tradução


minha).

2.3 O legado
O que se poderia então dizer, para além da morte da Teoria, a respeito
do seu legado? Um bom começo seria refletir brevemente sobre a sugestão de
Eagleton a respeito da impossibilidade de retorno a um passado de inocência
em relação à tradição literária. Nesse passado, o nome “John Milton”
46 apontaria para aquele escritor maior da literatura inglesa que produziu

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 46 21/03/16 14:11


uma obra clássica de valor universal a ser institucionalmente preservada
ou eternizada na medida em que nela se manifestam os valores maiores do
espírito humano em todos os tempos, mesmo que possa haver alguma dúvida
interpretativa sobre quais, exatamente, seriam os valores expressos. Dada
a possibilidade de mais de uma interpretação, entra em cena o intérprete
competente que, equipado com um instrumental exegético culturalmente
legitimado por uma comunidade interpretativa, produz uma leitura válida
ou privilegiada: “Milton é um espírito intrépido”. O instrumental exegético
permite um resgate, a partir do exame sistematicamente documentado, do
que foi intencionalmente dito nos textos do escritor (Milton escreveu isso
e não aquilo, o que mostra que foi intrépido). Esse resgate hermenêutico
das intenções autorais deve ser fundamentado e coerente para ter a sua
validade garantida e capaz de competir com outras possíveis validades
resgatadas. O intérprete competente, portanto, produz uma interpretação
institucionalmente legitimada de um ato intencional (que não se restringe
ao significado explícito declarado por um autor, mas inclui evidências extra-
autorais das quais o autor pode ou não estar consciente) em um contexto
de pluralismo interpretativo. É por esse motivo que M. H. Abrams, que

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


se define um “crítico pluralista”, pode concordar com “uma diversidade
de interpretações válidas (sound)” e, ao mesmo tempo, acreditar na
possibilidade de uma hierarquia interpretativa fundamentada no resgate
da intenção autoral e na estabilidade do sentido. “Como sou um crítico
pluralista”, diz Abrams,

[...] posso concordar com a existência de uma diversidade de


interpretações válidas (muito embora não sejam todas igualmente
adequadas) da peça teatral King Lear, e mesmo assim posso dizer
que sei exatamente qual é o significado das palavras de Lear quando
diz: ‘Por favor, solte este botão’. (ABRAMS, 2005, p. 205, grifo do
autor, tradução minha).

E qual seria a interpretação mais convincente? “Aquela”, Abrams


(2005, p. 200) conclui, que mais se aproxima “do que o autor quis dizer”.
Não custa lembrar que esse procedimento interpretativo é análogo àquele
descrito por White como típico da grande tradição hermenêutica e
humanística no Ocidente: existe uma fundação de verdade (o autor que
escreve) que, muito embora inatingível em alguns casos, deve ser perseguida 47

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 47 21/03/16 14:11


por atos interpretativos que se mostram mais adequados na medida em que
mais dela (da verdade) se aproximam.
As afirmações de Abrams são importantes tanto pelo que dizem
como pelo que deixam de dizer ou de questionar. Não está em questão, por
exemplo, indagar a respeito do que é um autor; da intencionalidade que o
caracteriza ao escrever, ou que marca um texto qualquer, mesmo que seja
anônimo; da impossibilidade de reconstruir uma intenção, qualquer que
seja; dos problemas existentes no conceito de “uma interpretação válida”; da
crença no pressuposto de que a comunicação de um significado é o aspecto
mais significativo de um texto literário. São indagações às quais o senso
comum responde de uma vez por todas e que dispensam atenção: existe
um autor (Milton) que armazena em um texto sentido ou sentidos a serem
descodificados e interpretados corretamente por um leitor competente.
Mas suponha-se, por um momento, que tais indagações não sejam válidas
e que, por exemplo, um autor não seja um produtor de sentido porque
sentidos, no final das contas, são produzidos por um sistema de signos que
precede o autor, que existirá após sua morte e que, em certa medida, fala
por ele; que toda intencionalidade, em consequência, pode ser uma ficção
impossível de ser resgatada; que toda interpretação é uma prática violenta
de controle da disseminação infinita de sentidos do texto, com o objetivo
de garantir a segurança e o conforto do leitor diante do incontrolável; que
a crença da importância da comunicação do sentido em literatura talvez
seja infundada, uma vez que um bom número de autores importantes
(como James Joyce, por exemplo), parecem dar a ela pouca importância.
O que a Teoria fez, entre outras coisas, foi levar tais indagações às últimas
consequências e mostrar, no limite, que elas não podem ser descartadas.
E se não podem mais ser descartadas, torna-se impossível, como sugere
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Eagleton, retornar a um momento em que podiam ser consideradas como


eram questões irrelevantes porque respondidas de uma vez por todas pelo
senso comum.
É este um dos mais significativos legados da Teoria: motivar uma
prática de questionamentos anteriormente relegados ao silêncio. Não
seria exagero dizer de tal prática que ela pode bem constituir, ao lado
das hermenêuticas positiva e negativa anteriormente discutidas, o que se
poderia chamar de uma “hermenêutica salutar da suspeita” e uma nova
48 ética da leitura. A importância dessa ética torna-se visível na medida em

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 48 21/03/16 14:11


que se atenta para a sua natureza enquanto motor da mudança histórica que,
evidentemente, seria neutralizada sem a presença de novos paradigmas. E
essa mudança para uma ética alternativa seria necessariamente derivada
do abalo das certezas fundadoras anteriormente examinadas: do autor, do
sujeito, da obra, da intencionalidade, etc. No caso do autor, se retornarmos
por um momento aos textos de Barthes e Foucault, teremos já indícios
claros do modus operandi dos valores éticos da hermenêutica da suspeita.
Colocando o autor sob suspeita, por exemplo, Barthes valoriza a participação
ativa do leitor e a ele atribui aquela liberdade de ação expandida porque
liberta, agora, da anterior “tirania” autoral. “Dar ao texto um autor”, diz
Barthes, “é impor-lhe um travão, é provê-lo de um significado último, é
fechar a escritura” (BARTHES, 2004a, p. 63). Recuperar esse significado
último em cada construção de um ato interpretativo (a interpretação
sendo aqui entendida como forma de controle do texto) que fixa e unifica,
ainda que apenas por um momento, um sentido textual é o princípio ético
básico do crítico e do leitor tradicionais. A concepção de autor é, nesse
contexto, conveniente e necessária para atividade do crítico que tem como
objetivo “descobrir o Autor (ou as suas hipóstases: a sociedade, a história,

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


a psique, a liberdade) sob a obra” (BARTHES, 2004a, p. 63). A existência
da crítica depende da autoridade do autor: “encontrado o autor, o texto
está explicado, o crítico venceu” (BARTHES, 2004a, p. 63). Morto o autor
e suas hipóstases, essa ética interpretativa entraria em crise e deveria ser
substituída por uma outra que, para Barthes, poderia ser definida em
termos da lógica de leitura que evita controlar o sentido (e, portanto,
produzir interpretações) e procura o “prazer do texto”. O texto, para o
leitor disposto a praticar essa ética de leitura, “é um espaço de dimensões
múltiplas, onde se casam e se contestam escrituras variadas, das quais
nenhuma é original: o texto é um tecido de citações, oriundas dos mil focos
da cultura” (BARTHES, 2004a, p. 62). E a prática de leitura solicitada por
tal texto desprovido da mensagem do “Autor-Deus” é aquela que seleciona
para leitura alguns dos fios desse tecido, evitando todo e qualquer impulso
dirigido para totalizações interpretativas. Um dos textos utilizados por
Barthes para exemplificar essa prática de leitura é o conto “A verdade sobre o
caso do Sr. Valdemar”, de Edgar Allan Poe. Transferida a autoridade autoral
do Autor-Deus-Poe para o Barthes-leitor, pode este explorar o plural do
texto em seus vários códigos culturais sem jamais chegar a um sentido 49

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 49 21/03/16 14:11


final. O interdito imposto à produção do sentido final é uma consequência
da definição de texto proposta: “o texto não é uma estrutura interna,
fechada, contabilizável, mas o desembocar do texto noutros textos, noutros
códigos, noutros signos; o que faz o texto é o intertextual (BARTHES,
2001, p. 307). O procedimento analítico consiste em recortar o texto em
segmentos curtos e arbitrariamente definidos (“lexias”) para neles observar
“os sentidos [...] suscitados” sem que haja, contudo, qualquer pretensão
de esgotar possibilidades de significado (BARTHES, 2001, p. 306). “O que
nos importa”, diz Barthes (2001, p. 307), “é mostrar pontos de partida dos
sentidos, não pontos de chegada”. Tomando como ponto de partida, por
exemplo, o nome próprio “Sr. Valdemar”, Barthes inicia a procura não
teleológica de sentidos e códigos: o termo “senhor” aponta para um código
social, já que “carrega um efeito de realidade social, de real histórico”; em
“Valdemar” há um código “sócio-étnico”, e a indicação de um enigma para
o leitor, uma vez que o nome não é anglo-saxão e o seu significado será
revelado mais tarde (Valdemar é polonês); há em Valdemar também um
código simbólico importante: significa “o vale do mar” e aponta para um
tema recorrente em Poe: “o abismo oceânico, a profundeza marinha [...]
a voragem [...] que está duas vezes fora da natureza, debaixo das águas e
debaixo da terra” (BARTHES, 2001, p. 311).
Nessa forma de leitura governada pelo prazer do texto caem por
terra os valores anteriormente preconizados pela procura do sentido típica
da hermenêutica positiva:

Nosso objetivo não é encontrar o sentido, nem mesmo um sentido


do texto, e nosso trabalho não se apresenta como uma crítica
literária do tipo hermenêutico (que procura interpretar o texto
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

segundo a verdade que ela acredita estar escondida nele) como é


o caso, por exemplo, da crítica marxista ou da crítica psicanalítica.
Nosso objetivo é chegar a conceber, a imaginar, a viver o plural do
texto, a abertura da significância. (BARTHES, 2001, p. 304-305).

Como em Barthes, existe em Foucault um questionamento radical


do autor que, contudo, recusa-se a morrer e reaparece em formas opressivas
de poder que exigem do leitor não uma entrega ao prazer, mas uma postura
de vigilância. Enquanto para Barthes a pergunta a respeito de quem fala no
50 texto de Balzac deve ser respondida em termos da ausência de uma origem,

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 50 21/03/16 14:11


para Foucault, essa ausência não pode ser apenas constatada, mas deve
ser também examinada enquanto um espaço vazio problemático porque
se trata de esvaziamento que tem consequências importantes em termos
de um deslocamento de poder. A pergunta apropriada a ser feita não é
“quem fala?”, mas antes “o que importa quem fala?”, extraída de um texto
de Beckett (FOUCAULT, 2009, p. 265). E a pergunta é de fundamental
importância porque “é preciso descobrir, como lugar vazio – ao mesmo
tempo indiferente e obrigatório –, os locais onde sua função é exercida”
(FOUCAULT, 2009, p. 265). Esvaziado de seu lugar tradicional, o autor
continua a atuar em um campo de distribuição de poder em que a prática da
violência ou da opressão só desaparece em certos espaços para reaparecer
em outros. Ou então, de forma talvez mais insidiosa, aparece e desaparece
no espaço por excelência de seu desaparecimento, ou seja, na escrita. “Na
escrita”, diz Foucault, “não se trata da amarração de um sujeito em uma
linguagem; trata-se da abertura de um espaço onde o sujeito que escreve
não para de desaparecer” (FOUCAULT, 2009, p. 268). Como ler um texto
em que o autor é uma força ativa que, aparecendo e desaparecendo sem
cessar, na realidade torna-se imortal? Como responder a esse poderoso

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


desaparecimento que nunca deixa de se manifestar em exercícios de poder
de inclusão e de exclusão a respeito, por exemplo, de quem pode escrever e
de quem pode somente ler, ou sobre quem decide a respeito de cada um dos
casos? O leitor atento a essas armadilhas de poder e controle poderia ser
talvez caracterizado como um leitor curioso, desconfiado (inclusive de si
mesmo) e dedicado a uma prática de leitura sempre marcada pela suspeita.
É que a leitura passa a ser vista, nesse contexto, como o que Foucault chamou
de “tecnologia de dominação”, ou seja, aquela que, dispersa em mecanismos
de normalização que saturam qualquer grupo social, “determina a conduta
de indivíduos com o objetivo de direcioná-los para certas finalidades”
(FOUCAULT, 1988, p. 18, tradução minha). Boa parte da obra de Foucault
é dedicada ao estudo desses mecanismos que operam de forma disciplinar
em discursos e instituições: nas prisões, nos hospitais, nas escolas, nos
discursos da medicina, da psiquiatria e da loucura. E operam também nas
práticas de leitura definidas em campos normativos de poder que produzem
sujeitos-leitores através do uso sistemático de tecnologias disciplinares de
controle. A ética da leitura da suspeita que Foucault pratica em seus escritos,
e que deveria motivar os que nela acreditam, supõe um leitor em constante 51

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 51 21/03/16 14:11


questionamento da sua condição enquanto sujeito-leitor, das formas que
o constituíram enquanto tal, do relacionamento que estabelece com um
texto. De que forma, por exemplo, deve o leitor comportar-se diante dos
textos canônicos, dos clássicos, do autor enquanto gênio e produtor da
abundância inesgotável de sentido? Seria necessário, por exemplo, olhar
para o seu valor cultural acumulado ou, ao contrário, para o seu poder de
inclusão e exclusão de textos?
Assim entendido, o leitor é, sobretudo, um curioso. “A curiosidade”,
diz Foucault em “O filósofo mascarado”:

[...] foi estigmatizada pelo cristianismo, pela filosofia, e até mesmo


por uma certa concepção da ciência. A curiosidade é entendida como
futilidade. Mas eu gosto da palavra. Para mim, sugere algo bem diferente.
Lembra “cuidado”; faz pensar no cuidado que se tem com o que existe
e com o que poderia existir; um senso apurado da realidade, mas que
não é jamais imobilizado diante dela; uma prontidão para perceber
que o que nos cerca é estranho e singular; um certa determinação para
descartar os caminhos familiares do pensamento e para olhar as mesmas
coisas de forma diferente; uma paixão para captar o que acontece agora
e o que desaparece; uma falta de respeito pelas hierarquias tradicionais
a respeito do que é importante e fundamental. (FOUCAULT, 1988,
p. 325, grifo do autor, tradução minha).

Há, pelo menos, duas razões por que legados como a ética de
leitura representada por Foucault ou Barthes não deveria ser esquecida.
Quando bem utilizados, procedimentos que tentam perceber o “estranho
e o singular” no que era anteriormente aceito como “senso comum” e que,
consequentemente, desrespeitam hierarquias tradicionais constituem
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

uma postura de vigilância crítica que pode levar a formas alternativas de


pensar e a um discurso mais rigoroso, aquele que, no dizer de Foucault,
pode desembocar em “um senso apurado da realidade”. No caso do próprio
Foucault, essa curiosidade motivou novas indagações que continuam
pertinentes nos dias de hoje:
– Por que um autor deve ser visto apenas como um gênio doador de
sentidos?
– Por que a narrativa da história deve ser feita em termos de
continuidade e de causa e efeito e não em termos de uma descontinuidade
52
arqueológica?

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 52 21/03/16 14:11


– Por que o excesso de discursos sobre a sexualidade deve ser visto
como uma forma de libertação e não como uma forma de controle?
– Por que o poder deve ser visto em termos de senhor e escravo e não
nos moldes de uma microfísica?
Cito aqui alguns exemplos no caso de Foucault, mas a leitura que
desrespeita hierarquias ocorre também em outros representantes da Teoria.
Acontece também quando Derrida, por exemplo, questiona a “verdade”
filosófica do logocentrismo na cultura ocidental e sugere que se trata antes
de algo inventado a partir de um desejo e de uma nostalgia por centros
e origens. O desrespeito às hierarquias não deve, portanto, ser entendido
apenas em termos iconoclastas, mas em termos de uma crise que pode
abrir caminhos para a renovação do conhecimento ou do saber.
O legado dessa ética de leitura não deveria ser esquecido também
porque dele depende o surgimento de um segundo legado: a formação
de novos campos discursivos que dificilmente apareceriam se perguntas
análogas às de Foucault e Derrida não fossem feitas por seus representantes.
Nas páginas finais de The Future of Theory, Jean-Michel Rabaté (2002)
anota dez desses campos discursivos, por ele denominados de “escolas”, que

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)


“dão testemunho da sobrevivência da Teoria na primeira década do século
presente”: a crítica tecnológica (as interações infinitamente produtivas entre
o homem e a máquina); a crítica diaspórica; a crítica ética (focalizada em
revisões da diferença sexual); a crítica genética e os novos estudos textuais
(como praticados, por exemplo, por Jerome McGann); os estudos de ciência
e textos (teoria do caos); e espectrologia (a partir da desconstrução); os
estudos de hibridismo e de tradução, entre outros (RABATÉ, 2002, p. 147-
148, tradução minha). Escrevendo em 2002, Rabaté enfatiza a presença do
legado da Teoria no momento presente. Mas não custa lembrar que o final do
século passado testemunhou também o aparecimento de desdobramentos
importantes da Teoria, entre eles o Pós-colonialismo e o New Historicism.
Influenciado por Foucault, Stephen Greenblatt foi responsável por
importantes revisões nos estudos shakespearianos. E não seria descabido
afirmar que um livro como Orientalismo (SAID, 2007) dificilmente
apareceria na forma como apareceu se Said não tivesse absorvido em
profundidade, principalmente nos seus anos iniciais de formação e em
livros como Beginnings, a obra até então conhecida de Michel Foucault.
53

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 53 21/03/16 14:11


Referências
ABRAMS, M. H. The Deconstructive Angel. In: PATHAI, Daphne; CORRAL;
WILL, H. (Ed.). Theory’s Empire: An Anthology of Dissent. New York: Columbia
University Press, 2005. p. 199-212.
BARTHES, Roland. Análise textual de um conto de Edgar Allan Poe. In:
BARTHES, Roland. A aventura semiológica. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BARTHES, Roland. A morte do autor. In: BARTHES, Roland. O rumor da língua.
São Paulo: Martins Fontes, 2004a.
BARTHES, Roland. Da obra ao texto. In: BARTHES, Roland. O rumor da língua.
São Paulo: Martins Fontes, 2004b.
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. Trad. Maria Beatriz Marques Nizza
da Silva. São Paulo: Perspectiva, 2005.
DERRIDA, Jacques. Deconstructions: The Impossible. In: LOTRINGER, Slyvère;
COHEN, Sande (Ed.). French Theory in America. New York: Routledge, 2001.
p. 13-20.
DERRIDA, Jacques. Points… Interviews, 1974-94, ed. Elisabeth Weber, Trad.
Peggy Kamuf. Stanford: Stanford University Press, 1995.
EAGLETON, Terry. After Theory. New York: Basic Books, 2003.
EAGLETON, Terry. Criticism and Ideology. London: Verso, 1976.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: FOUCAULT, Michel. Estética,
literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.
FOUCAULT, Michel. The Masked Philosopher. In: FOUCAULT, Michel. Politics
Philosophy, Culture. New York: Routledge, 1988.
HUNTER, Ian. The History of Theory. Critical Inquiry, v. 33, n. 1, p. 78-112,
Autumn 2006.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

JAY, Martin. For Theory. In: JAY, Martin. Cultural semantics: Keywords for our
Time. Amherst: University of Massachusetts Press, 1998.
KNAPP, Steven K.; MICHAELS, Walter Benn. Against Theory. Critical Inquiry
8.4, p. 723-742, 1982.
LACAN, Jacques. Écrits I. Paris: Éditions du Seuil, 1966.
MARX, K.; ENGELS, E. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
MILLER, J. Hillis. The Triumph of Theory, the Resistance to Reading, and the
Question of the Material Base. PMLA: Publications of the Modern Language
54 Association, 102: 3, p. 281-191, May 1987.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 54 21/03/16 14:11


MITCHEL, W. J. T.; NING, Wang. The Ends of Theory: The Beijing Symposium
on Critical Inquiry. Critical Inquiry, 31.2, p. 265-270, Winter 2005.
RABATÉ, Jean Michel. The Future of Theory. Oxford: Blackwell, 2002.
RORTY, Richard. Philosophy and the mirror of nature. Princeton: Princeton
University Press, 1979.
SAID, Eduard. Beginnings. New York: Columbia University Press, 1985.
SAID, Edward. Orientalismo. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Cia das
Letras, 2007.
SHUMWAY, David R. The Star System in Literary Studies. PMLA, v. 112,
p. 85-100, Jan., 1977.
WELLEK, René. Destroying Literary Studies. In: PATHAI, Daphne; CORRAL;
WILL, H. (Ed). Theory’s Empire: An Anthology of Dissent. New York: Columbia
University Press, 2005. p. 41-51.
WELLEK, René; WARREN, Austin. Teoria da literatura e metodologia dos estudos
literários. Trad. Luis Carlos Borges. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
WHITE, Hayden. The Culture of Criticism. In: HASSAN, Ihab. Liberations.
Connecticut: Wesleyan University Press, 1972.

2 – Sobre a estranha morte da Teoria (com tê maiúsculo)

55

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 55 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 56 21/03/16 14:11
3

Os fins da teoria 1

Peter Barry

1
Por volta do fim do milênio, houve muitas discussões aflitas
sobre o fim da teoria. Os teóricos gostam de falar sobre a morte disso e
daquilo, e há um frisson extra quando a morte em questão é a da própria
teoria. A teoria sempre se sentiu atraída por posições extremas – por
formulações polarizantes, por uma prosa que habita constantemente as
margens da incompreensibilidade, por narrativas melodramáticas sobre
crise e perda e por declarações descompromissadas que varrem do mapa
todas as certezas possíveis. Diante desse cenário apocalíptico, ela celebra
a coragem de alguns poucos (isto é, dos próprios teóricos) que suportam
olhar para o abismo e contemplar a dissolução final das estruturas e
ilusões reconfortantes que guiam as vidas das pessoas. Dessa forma,
imaginar a destruição da própria teoria é algo que teve um forte apelo
intelectual e emocional. O meu argumento aqui é simples: toda a energia
dedicada a refletir sobre o fim da teoria teria sido mais bem empregada
na tentativa de reconsiderar para que serve a teoria. Em outras palavras,
nossa atenção precisa voltar-se não para o fim da teoria, mas para os fins
da teoria.

1
Traduzido do inglês pelo organizador do volume.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 57 21/03/16 14:11


2
Quanto à morte da teoria, não há necessidade de se preocupar
com isso. Ela já aconteceu e a vida continuou. Todos aqueles rumores
milenares sobre a sua morte estavam longe de ser exagerados; antes, eles
subestimavam a situação. Um dos anúncios que eu vejo com frequência na
tela do meu computador me faz a seguinte pergunta: “Você está preocupado
com a queda de cabelo?”. A minha resposta é não, nem um pouco – já
aconteceu há vinte anos. Eu digo o mesmo quando perguntado se estou
preocupado com a morte da teoria. Se a seguir me perguntam quando foi
que a teoria começou a morrer, respondo que foi, é claro, no momento
do seu maior triunfo, o que significa dizer que foi em meados da década
de 1980, quando ela venceu a Guerra das Teorias e passou a acreditar que
viveria para sempre. Esse momento pode ser indicado com exatidão – foi
na (ou perto da) hora do chá do dia 30 de dezembro de 1986, quando
J. Hillis Miller (1987) levantou-se para anunciar o triunfo da teoria em seu
discurso presidencial da MLA. A fala intitulava-se “O triunfo da teoria, a
resistência à leitura e a questão da base material”. Trata-se de um momento
que podemos agora observar como uma pálida antecipação acadêmica de
um outro pronunciamento presidencial, a saber, o discurso de George W.
Bush “Missão Cumprida” no USS Abraham Lincoln, no dia 1o de maio de
2003. O espírito de ambos foi o mesmo – o inimigo havia sido derrotado,
apesar de algumas poucas áreas de resistência local. No caso de Miller, a
resistência local vinha do que ele chamava de “questão da base material”,
ou seja, o aumento inexplicável do historicismo nos estudos literários.
A questão permanece até hoje sem uma resposta, pois o historicismo
rapidamente tornou-se a forma-padrão de fazer literatura, e no modo slow-
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

mo de nossa disciplina literária, cada “virada” desse tipo dura pelo menos
trinta anos.2

3
Quando a ascensão da teoria teve início, nas décadas de 1960 e
1970, argumentava-se (e com razão) que a crítica literária era uma prática
58
2
Ver Barry (2007), capítulos 1 e 2, sobre a “historicização” dos estudos literários.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 58 21/03/16 14:11


intelectual construída sobre uma base teórica estreita – tão estreita, de fato,
que era composta de apenas uma dúzia de ensaios. A conclusão era óbvia –
começar a teorizar, fazer as perguntas fundamentais e construir um corpo
teórico rigoroso e consistente sobre o papel, a natureza, a proveniência, o
potencial e as limitações da literatura. Mas o próximo passo introduziu um
mal-entendido que conduziria à eventual dissolução da teoria. O modo de
realizar essa teorização, assim se dizia, havia sido indicado pelo trabalho então
recente de uma gama de linguistas, antropólogos, filósofos, cientistas políticos
e psicanalistas contemporâneos, a maioria deles da Europa continental.
Deveríamos primeiro ler o trabalho deles, para então começar a construir
uma teoria de rigor e perspicácia intelectual semelhantes para a literatura.
A mensagem era boa, mas nós não a compreendemos. A mensagem que
ouvimos foi a de que a teorização já havia sido feita para nós, bastava-nos agora
apenas ler e digerir a obra de todas essas pessoas (antropólogos estruturalistas,
cientistas políticos, filósofos da linguagem e todo o resto) para aplicar seus
conhecimentos aos nossos encontros com a literatura, pois assim as leituras
se tornariam teorizadas e sofisticadas, e não mais o que supostamente eram
até então, empíricas e ingênuas. O resultado foi a infantilização intelectual
dos estudos literários, pois passamos a nos considerar incapazes de teorizar
nosso próprio objeto intelectual. Onde estaríamos, imaginávamos, sem as
gentis contribuições dos verdadeiros pensadores das outras disciplinas –
eles sim podem nos fornecer as teorias já sedimentadas de que precisamos,
deixando-nos a tarefa mais simples (mais adequada às nossas capacidades e
imaginações limitadas) de meramente “aplicá-las”.

4
Uma correspondente recente me relatou suas experiências ao encontrar 3 – Os fins da teoria
esse tipo de teoria nos cursos de Mestrado. Após uma longa exposição às
noções pós-estruturalistas em torno do caráter inerentemente “escorregadio”
da linguagem e da consequente flutuação do significante (e outras noções
“líquidas” sobre a natureza da linguagem), ela perguntou à professora
“como seria possível falar sobre literatura se tudo era tão escorregadio?”3

3
A palavra de Derrida para “escorregadio” é “jogo” ou “jogo livre”, como no título “Estrutura,
signo e jogo no discurso das ciências humanas”, o ensaio fundador do pensamento pós- 59
estruturalista. A resposta de Derrida à minha questão correspondente seria a de que caberia

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 59 21/03/16 14:11


Não houve nenhuma resposta, é claro, pois se a proposição sobre o aspecto
deslizante da linguagem é verdadeira, então tudo o que a literatura pode
fazer é incorporar esse aspecto indefinidamente. Isso me fez lembrar do
modo como eventualmente admiti (primeiro a mim mesmo e, em seguida,
aos outros) que cada vez mais o pensamento pós-estruturalista parece-me
monológico e previsível. O pós-estruturalismo continuou insistindo na
noção de jogo linguístico e semântico e, dessa forma, acabou necessariamente
comprometendo a si mesmo e a toda a literatura. Após sustentar a tese do jogo
livre, você precisa ou permanecer em silêncio, ou seguir provando, livro após
livro, que você não acredita muito nisso, reivindicando implicitamente para
si mesmo uma isenção extraordinária de suas consequências. Exatamente
o mesmo é verdadeiro para o argumento defendido pelos teóricos de que
não existe isso que chamamos de objetividade imparcial. Sempre que essa
afirmação é feita, ela implicitamente exige privilégios intelectuais de isenção
para a pessoa que defende o argumento.
Pode-se contra-argumentar que essas reservas quanto ao pós-
estruturalismo derivam de uma forma redutiva de fundamentalismo
intelectual. Pode até ser, mas, por outro lado, a crença tanto na
indeterminação linguística quanto na impossibilidade de objetividade
parecem conduzir as pessoas a um impasse intelectual a que muitos
permanecem presos por anos. Tais posições exercem um grande apelo para
alguns estudantes (geralmente do sexo masculino), mas os aprisionam a um
sentimento debilitante de superioridade intelectual. Quando menciono, em
discussões em conferências ou simpósios, que hoje acho o estruturalismo
mais interessante que o pós-estruturalismo, a reação não é tanto de
indignação, mas de incompreensão.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

5
O estruturalismo me parece mais interessante porque é sobre
literatura e porque está relacionado à prática – ele nos conduz a algum

“empregar o termo [isto é, qualquer termo ou conceito de que você queira falar] com precaução
e como se estivesse entre aspas”. Esse é o mecanismo mágico acionado ao utilizar as palavras
sous rature (“sob rasura”), um truque heideggeriano que permite ao falante reconhecer a
instabilidade do significado, ao mesmo tempo que continua falando como se tanto esse fato
60 quanto o seu reconhecimento não tivessem consequências práticas para o teórico, mas somente
para os demais usuários da linguagem.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 60 21/03/16 14:11


lugar, mais precisamente, a algum lugar em que começamos a pensar sobre
literatura e sobre como ela funciona (pois, na prática, ela inegavelmente
funciona), em vez de constantemente pensar por que motivo, na teoria,
ela não deveria funcionar. Após o estruturalismo, a literatura pareceu
ter sido conduzida para as margens de seu próprio campo disciplinar, de
modo que o foco real de interesse e atenção sempre foi uma outra coisa – a
história, a linguagem, a ideologia, a filosofia, a política – qualquer coisa,
exceto a literatura. Assim, os ensaios teóricos sobre literatura costumavam
começar com a exposição de um aspecto da teoria literária, citando
longamente algum teórico. As ideias e motivações dos teóricos pareciam
fora de questão; como detentores de uma forma misteriosa de imunidade
diplomática, eles estavam sempre autorizados a circular livremente pela
alfândega intelectual. Os autores de textos literários, em contrapartida,
eram invariavelmente parados e submetidos a rigorosos interrogatórios.
Quando isso não acontecia, era porque eles eram vistos como meras ilusões
geradas pela linguagem, ou então considerados desde sempre mortos. Após
expor a teoria da mais alta importância no começo do ensaio, o autor enfim
se voltaria para a obra literária mencionada no título do texto, apenas para
mostrar que, realmente, ela de fato incorpora e ilustra as teorias recém-
explicadas. Assim, a leitura teorizada tornou-se uma maneira de recusar a
leitura dos textos literários.
Alguém contrário à teoria, decidido a arquitetar a sua própria morte,
poderia construir uma teoria simplista para explicar como essa resistência
à leitura surgiu. Seria algo mais ou menos assim: os teóricos da literatura
sofrem de uma fobia literária; eles têm um medo reprimido do poder
do texto literário e constroem defesas elaboradas contra ele, provando
obsessivamente a si mesmos, repetidas vezes, que não há nada por trás do
texto, absolutamente nada a temer, e que o texto já se desconstruiu a si
mesmo desde sempre. É como um pai que tranquiliza seu filho depois de um
3 – Os fins da teoria

pesadelo, mostrando que não há absolutamente nada por detrás da cortina.


Assim, os teóricos nos dizem, em seu vocabulário soporífero, que não há
nada ali exceto a expressão do autointeresse ou interesse de classe, ou (na
melhor das hipóteses) algo incompreendido até mesmo (ou especialmente)
pelo autor, algo que para sempre se implode dentro de suas próprias
contradições. Logicamente, essa é uma visão extrema e injusta dos teóricos
e de suas motivações. No entanto, não é mais injusta que a “hermenêutica 61

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 61 21/03/16 14:11


da suspeita” que governou a visão da literatura por mais de trinta anos pós-
estruturalistas.4 Então o estruturalismo, que trabalha com as complexidades
dos textos literários em si e busca explicá-las (mesmo que constantemente
resmungando sobre a irredutível natureza burguesa da literatura), começou
a me parecer mais interessante que o pós-estruturalismo.

6
Os historiadores da internet dividem a web em duas fases
distintas, que eles designam por meio dos termos abreviados “Web 1.0”
e “Web 2.0”. Na primeira fase, a web era apenas uma fonte de informação
– você podia fazer downloads mas não uploads –, ou seja, um sistema de sentido
único com “domínios” controlados que, em vez de participantes, tinham
“consumidores”. Na fase posterior – Web 2.0 –, a rede tornou-se um processo
de duplo sentido: os consumidores passivos tornaram-se participantes
ativos e tiveram sua criatividade potencializada pela rede, pois contribuíam
e partilhavam informação como colaboradores, de modo que (nas palavras
de Tim O’Reilly (2005) “os usuários adicionaram valor” ao sistema, sem
qualquer entendimento de que diluíam sua autoridade. Na teoria literária, é
possível discernir entre duas fases potencialmente análogas, que poderíamos
chamar de Teoria 1.0 e Teoria 2.0. Só que a teoria tem, em grande parte,
resistido à transição do 1.0 ao 2.0, sem modificar suas rígidas estruturas de
poder intelectual. O resultado é inevitável: a teoria literária é agora uma igreja
sem quaisquer seguidores (que falem dela); ela ainda mantém o sacerdócio,
mas seus membros, em sua grande maioria, falam e escrevem apenas uns aos
outros, e já não há mais qualquer grupo significativo de verdadeiros crentes.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

De modo geral, a igreja da teoria sobrevive apenas porque é capaz de recrutar


os seguidores, uma vez que os cursos permanecem sendo componentes
obrigatórios nos currículos de graduação. Os recrutas repetem as orações
obrigatórias, mas sem realmente acreditar nelas, e abandonam a fé que nunca
tiveram logo que podem, ou seja, assim que entregam os artigos ou ensaios
previstos para o curso. Também nesse sentido a teoria já está morta, e não
haverá qualquer milagre de ressurreição.

62
4
Sobre a hermenêutica da suspeita, ver Scott-Baumann (2011).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 62 21/03/16 14:11


7
A Web 1.0, segundo a lista de características típicas que O’Reilly
nos oferece dela, é liderada pelo Ofoto, um sistema de armazenamento
de fotos fundado em 1999 e adquirido pela Kodak em 2001. As imagens
armazenadas eram deletadas, a menos que alguém adquirisse os materiais
fotográficos em questão, consolidando, portanto, o poder institucional da
Kodak, porém, ao mesmo tempo, acelerando seu inevitável desaparecimento.
A Web 2.0, em contrapartida, é caracterizada pelo Flikr, que é uma ferramenta
aberta utilizada para armazenar e compartilhar fotos. No começo dos anos
2000, a resposta da teoria à mudança dos tempos foi como a da Kodak. Ela
se recusou a reconhecer novas realidades e pensou que o desejo de seguir
adiante poderia ser satisfeito por meio da incorporação de uma nova geração
de superteóricos, dentro da mesma estrutura institucional existente, em que a
teoria era repassada por nomes cujos pontos de vista, métodos e autoridade
tinham de ser aceitos como inquestionáveis. Dessa forma, a literatura e aqueles
que a estudam permaneceriam em sua posição subserviente, infantilizada
e colonizada, aceitando passivamente as ideias dos teóricos mundialmente
conhecidos, muito embora poucos entre eles fossem especialistas em literatura.
Assim, teremos um novo Derrida e estudaremos Being and Event (2005), de
Alain Badiou (n. 1937); um novo Althusser, e leremos The Politics of Aesthetics
(2006), de Jacques Rancière (n. 1940); um novo Foucault, e ensinaremos Homo
Sacer (1998), de Giorgio Agamben (n. 1942); um novo Lacan, e enfrentaremos
Interrogating the Real (2005), de Slavoj Žižek (n. 1949).5 E assim por diante. Os
papéis permanecem os mesmos, porém com outros atores. A natureza falha
dessa empresa é revelada pelas datas de nascimento dos novos superteóricos:
eles são todos velhos demais e estão muito próximos, em sua aliança intelectual,
da geração que supostamente substituem.
3 – Os fins da teoria

8
A Web 2.0 começou com o “estouro da bolha da internet no outono
de 2001” (O’Reilly), que abalou a fé ingênua do mundo nas infinitas

5
Esse ponto de vista (de que a teoria, depois da “teoria”, vai manter o seu domínio anterior, mais
ou menos da mesma maneira) é amplamente incorporado nos seguintes livros: Attridge; Elliot 63
(2011) e Leitch (2014).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 63 21/03/16 14:11


possibilidades da internet. Da mesma forma, por trás do impulso que
deveria ter conduzido à Teoria 2.0, vimos uma série de golpes significativos
desferidos contra o prestígio da teoria, incluindo o homicídio da
esposa de Althusser, cometido por ele em 1981, a revelação dos escritos
antissemitas de Paul de Man, em 1987,6 e o caso Sokal, de 1996, em que
um artigo composto de clichês pós-modernos e um pastiche de ciência
mal compreendida, realizado a partir das obras dos teóricos, foi aceito para
publicação em uma importante revista de teoria.7 Em todos esses casos, o
dano à teoria foi causado não tanto pelos acontecimentos em si quanto pelo
modo como os teóricos mais conhecidos utilizaram a teoria para explicá-
los.8 Os aspectos mais reveladores da forma como a teoria reagiu a esses
eventos estão no fato de que não ficou claro de imediato aos teóricos que
o uso da teoria para defender assassinato, antissemitismo e a publicação
de disparates inevitavelmente conduziria ao descrédito da própria teoria.
Apenas teóricos aprisionados há muito tempo à adulação acrítica seriam
incapazes de perceber isso.

9
Seja como for, não há profissionais no mundo que desfrutem, nos
dias de hoje, do mesmo tipo de fidelidade inquestionável de que os teóricos
do primeiro escalão pareciam há muito tempo desfrutar e desejar para si.
Em outra oportunidade, descrevi a inabalável confiança do deslumbrante
grupo de grandes teóricos que palestraram na Universidade de Strathclyde,
em 1986, como parte da conferência intitulada “A linguística da escrita”.
Depois de vários dias ouvindo um discurso impositivo, o público se revoltou
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

e a conferência acabou em confusão.9 Um outro momento semelhante e

6
Ver Hamacher; Hertz; Keenan (1988).
7
Ver Sokal (2003).
8
Sobre Althusser, ver Roudinesco (2010) (edição francesa original de 2005), Capítulo 4, “Louis
Althusser: The Murder Scene”, p. 97-131; sobre de Man, ver Derrida, (1988, p. 590-652). Para
“Respostas Críticas” ao texto de Derrida, ver Critical Inquiry 15, Summer 1989, p. 765-811, mais
outras sessenta páginas de Derrida respondendo às respostas ao seu texto no número seguinte;
sobre Sokal, ver Sokal; Bricmont (2003) (publicado primeiro em francês, em 1997, e depois em
inglês, em 1998); e, para uma lista abrangente de respostas e reações ao embuste, basta visitar o
64 site disponível em: <http://www.physics.nyu.edu/sokal/>.
9
Ver Barry (2009, p. 276-279) para uma descrição desse episódio.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 64 21/03/16 14:11


não menos revelador ocorreu em 2003, na conferência intitulada “Depois
da teoria”, quando perguntaram a Frank Kermode qual a relevância da
obra de Jacques Derrida. Ele respondeu o seguinte: “Bem, eu só acho que
vinte anos de bajulação são suficientes”. Esses momentos indicam uma
maneira de distinguir entre os críticos literários e os teóricos da literatura.
Os primeiros sabem que não é possível ou desejável obter uma resposta
final para obras como Rei Lear, Coração das Trevas ou The Waste Land,
pois a discussão da crítica literária é inerentemente colaborativa, aberta e
contingente. Os teóricos da literatura, contudo, parecem ter acreditado que
haviam alterado permanentemente o discurso sobre a literatura, de modo
que suas conclusões jamais poderiam ser superadas. Eles deveriam ter
sempre em mente o destino da empresa Kodak, que faliu em 2012 graças à
incapacidade de reconhecer a chegada da era digital. O Ofoto chegou um
pouco tarde demais e foi, de todo modo, um tipo de resposta equivocada,
pois tentou adentrar a nova era sem deixar para trás as velhas formas.

10
Assim, os teóricos da literatura interpretaram mal as importantes
mudanças nas estruturas de poder da nossa própria era. Nenhum teórico
terá novamente o mesmo crédito intelectual ilimitado concedido a Derrida,
Lacan ou Foucault. Nossos fundos de admiração intelectual e credulidade
esgotaram-se, e serão necessárias várias décadas para preenchê-los
novamente. No mundo financeiro, tivemos o que ficou conhecido como a
“crise do crédito”; já no mundo da teoria, temos a “crise da credibilidade”.
Para começar a iniciar nossos alunos no mundo da Teoria 2.0, então,
precisamos fazer todas as perguntas básicas de novo. O campo dos estudos
literários deveria reconhecer o papel subalterno e colonizado que aceitou
desempenhar na Teoria 1.0 para, a seguir, recusar-se a tolerar mais vinte
3 – Os fins da teoria

anos de reflexão teórica oriunda do trabalho feito por intelectuais de outras


áreas. A nossa resposta deveria ser algo assim: “bem, muito obrigado pela
oferta (vocês filósofos políticos e psicólogos pós-modernos), mas a partir
de agora nós mesmos faremos o exercício de filosofar”. Da mesma forma, o
texto literário deveria reafirmar sua própria voz e individualidade, acertando
as contas com trinta anos de perseguição por parte da hermenêutica da
suspeita. Nós podemos começar desferindo os velhos slogans contra 65
os seus proponentes: assim, suspeitamos da hermenêutica da suspeita

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 65 21/03/16 14:11


(e é dos teóricos que suspeitamos, não dos escritores); historicizamos o
slogan “historicize sempre” (como é possível historicizar se você sempre
historiciza, independentemente das circunstâncias históricas?); e achamos
a Morte do Teórico tão interessante quanto a Morte do Autor (os teóricos
podem ser imortais – nós nos perguntamos, com incredulidade –, cujos
conhecimentos são eternamente válidos, enquanto os autores estão sujeitos
à tediosa tarefa de morrer?).

11
O Triunfo da Teoria (tal como J. Hillis Miller o chamou) teve
raízes nas décadas de 1960 e 1970, quando os Estados Unidos ofereceram
hospitalidade a ideias vindas sobretudo da França, Alemanha, Itália e
União Soviética. Essas ideias foram “nativizadas” e domesticadas nos
cursos superiores do sistema universitário americano, e então reexportadas
para o mundo inteiro. No entanto, por volta do fim da década de 1990, o
clima nos Estados Unidos mudou: forças poderosas estavam trabalhando
no sentido de americanizar novamente o currículo das ciências humanas.
Uma contrarrevolução geral tomou conta das universidades americanas,
voltando-se contra vários alvos: o politicamente correto, o relativismo,
o pós-modernismo, o multiculturalismo, a teoria literária, entre outros.
Essa tendência para o isolamento cultural e intelectual atingiu em cheio
a teoria literária, acentuando-se com o clima pós-11 de setembro [2001].
Consequentemente, a vida intelectual tornou-se mais insular, com um
aspecto mais nacional que internacional, e a teoria literária não passou
imune a essas tendências. Talvez possamos esperar, nas próximas décadas,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

uma variedade maior no que diz respeito às versões da teoria literária


que prevalecem em diferentes partes do mundo, em vez de um domínio
completo do campo exercido por um pequeno grupo de marcas globais.
Essa é uma tendência que podemos chamar de balcanização da teoria,
embora o termo possa não ser politicamente correto.

12
Um dos sintomas do declínio da teoria tem sido sua tendência a
66 aumentar de volume, bastante evidente no tamanho cada vez maior das

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 66 21/03/16 14:11


antologias, ou guias teóricos, que estruturam grande parte dos programas
de ensino de teoria. A primeira dessas antologias foi Debating Texts, de Rick
Rylance, publicado pela Open University em 1987 e que continha razoáveis
288 páginas. A palavra “debatendo” no título também era razoável, pois
sugeria que nem tudo havia sido estabelecido de antemão pelos figurões
da teoria. O livro Modern Criticism and Theory: A Reader, de David Lodge,
publicado pela Longman em 1988, com 480 páginas, seguia o mesmo modo
humanamente viável – tamanho razoável, boa organização e um material
escolhido por ser acessível. Depois disso, o problema do aumento de
volume pareceu fugir ao controle: a primeira edição de Literary Theory: An
Anthology, de Rivkin e Ryan, em 1997, tinha 1100 páginas, já a segunda, em
2004, passou a ter 1300. Esse número total de páginas, já bastante absurdo,
foi duplicado pela Norton Anthology of Criticism and Theory, de 2001, que
tem cerca de 2700 páginas. Essas tendências elefantinas são sintomáticas
do fato de que o ensino da teoria tem sido frequentemente organizado por
pessoas que não possuem um sentido pedagógico, e a teoria é quem pagou
o preço por isso. Na teoria literária, a regra parece ser a de que o Senhor
dá, mas ele nunca tira, de modo que o número total continua crescendo e
crescendo. Ninguém tentaria ensinar filosofia ou ciência política juntando
em um livro capítulos e artigos de centenas de diferentes pensadores. Trata-
se de uma receita para o pânico e desespero intelectual, e é precisamente
esse o efeito causado sobre os alunos em relação ao ensino de teoria literária.
Os guias do tamanho de tijolos são o mausoléu da teoria, equivalentes ao
porte grandioso da Kodak Tower, construída em 1914 pela Eastman-Kodak
na cidade natal de Rochester, NY. Hoje, a mensagem da torre, tal como
a dos guias triunfantes da teoria, é a mesma que a mensagem do poema
de Shelley, “Ozymandias”, em que poucos traços permanecem da cidade
imperial destinada a durar eternamente. 3 – Os fins da teoria

13
Nas décadas de 1980 e 1990, era quase um lugar-comum a afirmação
de que discordar de teóricos como Derrida e de Man constituía uma “recusa
à leitura” e, portanto, um abandono da tarefa mais básica de um intelectual.
Assim, em seu discurso presidencial, Miller (1987, p. 284) escreve (sobre
a “representação equivocada do que Derrida ou de Man dizem”) que “essa 67

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 67 21/03/16 14:11


recusa cega à leitura desrespeita as obrigações mínimas da nossa profissão”).
Mas as “obrigações da nossa profissão” não podem permanecer todas
de um lado só (do lado dos leitores de teoria literária). Quais são, pois,
as obrigações profissionais dos próprios teóricos? Eis aqui algumas delas:
escrever sempre com precisão, economia, concisão e lucidez, respondendo
aos argumentos contrários com paciência e profundidade. Em muitos casos,
a teoria não cumpriu com essas obrigações. Quando outros expressavam
divergências, a resposta geralmente negava que era aquilo que os teóricos
tinham defendido, ou dito, e afirmava que seus adversários deveriam voltar
aos textos tortuosamente labirínticos dos teóricos e lê-los novamente. Ora,
mas se os textos teóricos são sistematicamente incompreendidos, é razoável
concluir que pelo menos parte da culpa deveria recair sobre os teóricos, e
que as falhas não podem ser sempre dos leitores. Há apenas um resultado
possível quando os proponentes de um movimento intelectual se recusam
a se envolver seriamente com os argumentos contrários aos seus, e esse
resultado é a própria destruição do movimento. Sob esse ponto de vista, a
morte da teoria foi, na verdade, uma forma de suicídio.10

14
O que acontece quando a força incontrolável da teoria literária
encontra o objeto imóvel do texto literário? No passado, o encontro entre
texto e teoria foi como um eclipse – a sombra da teoria recaiu sobre o texto
e ali permaneceu. A teoria assumiu o controle do texto, de modo que o
texto perdeu sua própria voz e começou a falar ventriloquamente com a
voz da teoria. Com efeito, apenas para deixar claro, a teoria literária havia
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

se tornado um modo de recusar a leitura dos textos literários. Dizê-lo


significa apenas responder ao império da teoria utilizando seus próprios
termos. Nos dias da Teoria Triunfante, quando o pobre texto literário
encontrou a faca afiada da teoria,11 ele acabou entregue à lâmina, como um
campo recém-arado. Num famoso poema chamado “To the Man After the

10
A declaração clássica da posição de que a resistência à teoria representa uma “recusa cega à
leitura” pertence a Paul de Man (1986).
11
Em inglês, “the cutting edge of theory”, expressão que pode ser traduzida como “a vanguarda
68 da teoria”. A opção de tradução aqui feita busca preservar a imagem do corte, mantendo o
vínculo entre a expressão e o poema de Patrick Kanavagh citado a seguir. [N.T.]

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 68 21/03/16 14:11


Harrow”, o poeta irlandês Patrick Kavanagh solicita que o lavrador continue
conduzindo sua atividade com indiferença, ignorando os pequenos animais
que podem ser feridos pela lâmina do arado. O poema acaba assim:

Forget the worm’s opinion too


Of hooves and pointed harrow-pins,
For you are driving your horses through
The mist where Genesis begins. (KAVANAGH, 2006, p. 907).12

O que eu enfatizo, quando falo com os meus alunos sobre a teoria,


não é a força máscula da lâmina cortante da teoria, mas algo que parece
ser o seu contrário, a saber, a névoa – o que Kavanagh chama de “névoa
onde o Gênesis se inicia”. O Gênesis, a criatividade ou ideias de qualquer
tipo começam em uma névoa, em um lugar que não nos permite saber ao
certo onde estamos entrando. A névoa é a incerteza necessária, a parcela de
confusão que nos é reservada quando perdemos os marcos (intelectuais) de
costume – o que John Keats notoriamente chamou de “capacidade negativa” –,
o bom e fértil estado de não saber ao certo, que é muito mais produtivo
e benigno do que as convicções e certezas visionárias. A boa névoa é o
começo do começo, o momento, em termos de concepção de uma ideia,
em que não sabemos bem qual será o nosso problema. Na teoria literária, a
névoa é o momento em que você tem uma primeira ideia sobre um texto e
começa a teorizar. Assim, quando a teoria encontra o texto, o que buscamos
não é uma reelaboração convicta do texto a partir da lâmina implacável
da teoria; antes, o que procuramos é uma forma provisória de tatear pela
névoa – o que significa aceitar o quão incerto pode ser o encontro entre
teoria e texto.
Submetido à lâmina cortante da teoria, o texto literário pode apenas
encenar o conflito entre (digamos) a realidade e o “Real” lacaniano (com 3 – Os fins da teoria
“R” maiúsculo), ou incorporar o corpus de arquétipos junguianos, ou
demonstrar os efeitos das estruturas repressivas althusserianas, ou ficar
preso aos impasses aporéticos previstos pela desconstrução. É isso o que
acontece quando a teoria é meramente aplicada aos textos literários. Dessa
forma, não peço que os alunos apliquem a teoria literária aos textos, pois
fazê-lo significaria dizer que a teoria é um objeto pronto e acabado, que
12
“Esqueça também a opinião da minhoca / Sobre cascos e pinos pontiagudos, / Pois você está 69
conduzindo os seus cavalos / Através da névoa onde o Gênesis se inicia.” [N.T.]

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 69 21/03/16 14:11


tem de ser apenas colocado para funcionar no texto. Em vez disso, peço
que os alunos usem a teoria com os textos literários, o que implica uma
justaposição equilibrada, em que a teoria tem as perguntas, mas não as
respostas. Trata-se de unir texto e teoria de forma especulativa, sem saber
ao certo qual será o resultado ou se de fato haverá algum; trata-se de ler com
a teoria, em vez de ler através da teoria, utilizando um tipo de capacidade
negativa de baixa tecnologia, que é o oposto da fantasia da “alta tecnologia”,
do “estado da arte” e da “lâmina afiada” que a teoria nutriu em torno de
si no seu auge. Os usos genuínos da teoria são sempre improvisados e
provisórios. Não há nenhum manual do usuário ou Bíblia. A teoria deveria
ser uma maneira de olhar, não uma maneira de ver. Usar a teoria nas
imediações dos textos literários significa realizar um exercício provisório
de investigação intelectual – significa conduzir nossos cavalos “através da
névoa onde o Gênesis se inicia”.

15
Como a teoria está morta, devemos parar de tentar ensinar teoria.
Há vários anos, iniciei um texto com a seguinte declaração: “há muitas
maneiras de ensinar teoria literária. O problema é que nenhuma delas
funciona” (BARRY, 2003, p. 1). Se você é um daqueles que tentaram ensinar
teoria, você sabe que a declaração é verdadeira. Você fica cansado da teoria,
assim como os seus alunos, mas, à medida que a sua carreira avança, você
se torna cada vez mais preso à perpetuação institucional dela. Eis o que
você deve fazer: seja corajoso o bastante para parar de ensinar teoria, e, no
lugar, comece a ensinar a teorização. Listarei algumas das diferenças.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Em uma leitura pós-estruturalista (ou qualquer outro -ismo) de um


texto qualquer, a teoria ativa é “aplicada” ao texto passivo, e os resultados
são óbvios antes mesmo de você ler mais que o título. Na teorização, pelo
contrário, tomamos uma frase (ou, então, apenas algumas linhas) de um
teórico e a justapomos a uma frase (ou máxima) de um texto literário, e
vemos o que acontece. (Eu ilustro esses pontos na prática nos itens 19 e
20, mais adiante). Com frequência, essas microjustaposições de teoria e
texto são mais interessantes e produtivas do que as macroaplicações de
toda uma teoria a um texto inteiro. Além disso, a teorização opera a partir
70 do princípio de que a teoria não é um fim em si mesma; se colocamos a

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 70 21/03/16 14:11


palavra “literária” depois de “teoria”, isso significa que ela deve nos ajudar
a entender melhor como o texto literário funciona, não os textos literários
em geral, mas um texto em particular, o texto com o qual luto agora para
compreender. Esse princípio também significa que a teoria não pode ser o
único fator determinante para essas questões; em vez disso, ela funciona
em conjunto com uma série de outros modos de investigação (a história
literária, a análise do discurso, os estudos de literatura comparada, o close
reading, e assim por diante), cujas posições e procedimentos a teoria não
tem autoridade para comprometer por meio de argumentos a priori sobre
a sua superioridade intelectual ou filosófica. Por fim, na teorização, lemos a
teoria com o mesmo ceticismo com que encaramos toda a escrita, aceitando
a possibilidade de que a sabedoria dos teóricos seja tão parcial e falível
quanto qualquer outro tipo. Ali onde os teóricos são úteis, tomamos o que
podemos usar; e ali onde as motivações parecem confusas ou suspeitas,
observamos esse fato sem adotar a premissa de que suas posições são
inquestionáveis. Esses são alguns dos objetivos e práticas daqueles de nós
que querem ser teorizadores em vez de teóricos.

16
Uma imagem intitulada em inglês “No Radio”, da artista
contemporânea Barbara Krunger, é utilizada na capa de um desses guias
teóricos amplamente prescritos. A imagem baseia-se em uma gravura
retirada de um manual de medicina do século XIX e mostra uma autópsia
em curso: em primeiro plano, o cadáver quase nu de uma jovem mulher
jaz sobre a mesa de dissecação. Atrás dela há um homem (totalmente
vestido) que observa o que parece ser um coração, que ele segura em sua
mão e supostamente acabou de extrair do cadáver. A imagem talvez queira 3 – Os fins da teoria
representar o olhar patriarcal e sua atitude predatória, pois se trata de um
homem de meia-idade, robusto e de barba grisalha. Mas sempre li essa
imagem, em sua posição familiar na capa da antologia, de modo diferente.
O cadáver na mesa de dissecação é o texto literário, já o hábil cirurgião,
capaz de extrair o seu coração, é o teórico da literatura (alguns dos quais
provavelmente têm barba). Por mais ou menos trinta anos, foi assim
que as coisas funcionaram, pois, nas discussões teóricas, o texto literário
sempre esteve na extremidade passiva da recepção de toda uma série de 71

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 71 21/03/16 14:11


verbos ativos, de modo a ser repetidas vezes “desconstruído”, “examinado”,
“desmascarado”, desvelado”, “lido a contrapelo”, tendo “seus pressupostos
desnudados” sempre que lhe “passam a faca” – essa metáfora cirúrgica
frequentemente utilizada – da teoria literária. Assim, quando texto literário
e teoria literária entram em contato, a teoria comporta-se como um objeto
fálico duro, enquanto o texto atua como o tecido carnoso com o qual ela
colide. Mas o encontro entre teoria e texto geralmente não funciona assim.
Quando a força incontrolável da teoria literária encontra o objeto imóvel do
texto literário, algo (obviamente) tem de acontecer, mas o resultado pode
pender para ambos os lados. Alguns textos são duros como um diamante,
capazes de resistir e neutralizar a conhecida “lâmina cortante” da teoria.
Outros são como carros blindados, de modo que as “balas invisíveis” da
teoria apenas ricocheteiam, e outros ainda desconstroem a teoria com que
entram em contato, expondo suas indelicadezas e imprecisões, por vezes
desmascarando-as, lendo-as a contrapelo e, sim, (ocasionalmente) até
mesmo desnudando-as. Em outras palavras, foi um grande erro, nascido do
excesso de confiança, subestimar a força, a complexidade e a longevidade
do texto literário. Vários textos literários são como as tartarugas gigantes
das Galápagos, que sobreviveram, em sua forma desajeitada, por centenas
de anos. Eles são muito mais impenetráveis aos dardos e insultos da teoria
do que a teoria parece capaz de imaginar. É isso que a “Teoria depois da
Teoria” está tendo de aprender a todo custo.

17
Um dos indícios do fim da teoria foi o modo como a sua conceituação
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

tornou-se intransitiva. Em outras palavras, ela deixou de ser uma teoria de


algo em particular e passou a ser “teoria” apenas, uma entidade que existe
por si e para si mesma. Todos queriam se tornar teóricos, assim como
inúmeras pessoas desejam ser escritoras, mas a escrita é transitiva – você
tem de escrever sobre algo, e, portanto, é necessário ter alguma ideia do que
deseja escrever. No caso da teoria, na medida em que ela de fato aspirava
a ser teoria literária, o foco deveria ter sido a natureza da experiência da
leitura literária, o poder que o texto literário exerce na mente do leitor, a
permanência de um texto ao longo de sucessivas épocas de transformações
72 sociais e históricas, o modo como os eventos textuais se desdobram enquanto

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 72 21/03/16 14:11


lemos, mantendo uma força residual mesmo após a leitura, como um eco
sonoro ou um brilho imagético. Vou me referir a todos esses aspectos da
força e do efeito do texto literário utilizando a expressão geral “presença
textual”. A presença textual é como uma carga eletromagnética que faz com
que o texto se afaste tanto do seu próprio contexto histórico quanto do
nosso, de modo que o nosso mundo perceptual parece transformar-se de
forma reveladora: o efeito é fazer com que submetamos momentaneamente
a nossa identidade àquela do personagem ou narrador do romance – ou
do eu lírico do poema –, de modo que tempo e espaço são suplementados
ou substituídos por uma vivacidade poderosa. Estranhamente, no entanto,
a teoria não reconhece a presença textual em lugar algum. A teoria está
interessada apenas em seu próprio poder, negando sempre a presença
textual. Para o teórico, imaginar os personagens do romance como
pessoas, em vez de cadeias de significantes, é o cúmulo da inocência e da
ingenuidade. Permitir-se imaginar que há uma “voz” no poema, e que as
palavras ali dispostas pressupõem alguém que fala ou pensa, ao invés de
apenas uma teia linguística para além da qual não resta nada, significa
tornar-se vítima de uma trama liberal-humanista burguesa. Os teóricos
da literatura, em meio à fantasia que coletivamente subscrevem, têm de
permanecer fora do texto, imunes ao fascínio que ele exerce e aparando as
próprias unhas (ou, no mínimo, aperfeiçoando os seus aforismos), como
na paródia flaubertiana da postura do artista em A Portrait of the Artist as
a Young Man, de Joyce.

18
Assim, os verdadeiros teóricos da literatura são os próprios escritores.
Eis onde devemos procurar um relato sobre a presença textual. O melhor 3 – Os fins da teoria
relato que conheço, capaz de registrar o efeito da presença textual, é o modo
como Henry James relembra sua primeira leitura do poema “The Church
of Brou”, de Matthew Arnold. O poema imagina as efígies de mármore de
um duque e de uma duquesa sendo despertadas pelo farfalhar das folhas
no telhado metálico da igreja acima e por um feixe de luz da lua que atinge
os seus rostos. Trata-se de um efeito hipnotizante, conquistado através de
uma precisão mimética muito bem disposta e sustentado impecavelmente
ao longo de quarenta e cinco versos. James ficou tão impressionado com a 73

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 73 21/03/16 14:11


leitura do poema que imediatamente passou a nutrir o desejo de um dia
visitar Brou e ver o túmulo com seus próprios olhos. Ele incluiu Brou em
seu itinerário no livro de viagem A Little Tour in France. A visita em si foi
uma decepção – a igreja (que o próprio Arnold nunca conhecera) sequer
ficava nas montanhas –, mas o momento da primeira leitura é descrito com
uma intensidade caracteristicamente jamesiana:

Tudo o que sempre soube da igreja de Brou foi o que pude ler, anos
atrás, no belo poema de Matthew Arnold, que leva o seu nome
[...] e enquanto estive diante do objeto da minha peregrinação [...]
lembrei-me do lugar onde li pela primeira vez [aqueles versos], e
onde os reli tantas e tantas outras vezes, imaginando se algum dia
teria a felicidade de visitar a igreja de Brou. O lugar em questão
era uma poltrona em uma janela com vista para um jardim com
algumas vacas; sempre que eu via as vacas, não sei por que, me
ocorria o pensamento de que eu provavelmente nunca veria a
estrutura erguida pela duquesa Margaret [...] “So sleep, forever
sleep, O princely pair!”.13 Lembrei-me do verso de Matthew Arnold...
Então me ocorreu algo em relação à luz da lua em noites de inverno
através do frio clerestório. (JAMES, 1984, p. 171-172, tradução de
André Cechinel).

O que surpreende é o fato de que, quando James visita o local, ele é


imediatamente transportado de volta para um outro local, que é o lugar onde
ele leu o poema pela primeira vez. Assim, ele revive com uma intensidade
nostálgica o momento do transporte do leitor, quando o véu das palavras
parece dissolver-se para nos oferecer um aparente acesso direto e não
mediado a um evento ou local, de modo que vivemos momentaneamente
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

no teatro da mente. O lugar físico em que de fato estávamos no momento da


leitura torna-se um “lugar apagado”, que parece ser meramente um local de
leitura sem particularidades – “uma poltrona em uma janela com vista para
um jardim com algumas vacas [itálicos meus] –, um lugar destituído de sua
própria singularidade pela força hipnotizante do espaço representado na
leitura. O sucesso de James em recapturar a intensidade do seu primeiro
contato com o poema é (parcialmente) indicado por sua lembrança
ligeiramente equivocada das exatas palavras dos versos em questão, um

74
13
“Então durma, durma eternamente, ó par principesco!”.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 74 21/03/16 14:11


detalhe que é emblemático do modo como o impacto da presença textual
(paradoxalmente) dissolve a nossa consciência das próprias palavras.
O verso do poema tal como James o lembra (sem sentir a necessidade de
verificar se estava correto) é “Então durma, durma eternamente, ó par
principesco!”. James combina a primeira metade de um verso (“Então
durma, durma eternamente, ó par de mármore!”) com a segunda metade
de outro (“Então descanse, descanse eternamente, ó par principesco!”).
Além disso, no poema, a lua “brilha através da janela do clerestório” nas
noite de outono, não de inverno, o que mais uma vez constitui um erro de
citação. Com efeito, os nossos versos favoritos frequentemente são citações
equivocadas, cujos erros assinalam o ato de apropriação por meio do qual
tornarmos o poema, a partir de então, parte de nós mesmos. Os erros
marcam a necessária mudança de gravidade perceptual, que nos distancia
do campo lexical (as palavras em si, que lemos sequencialmente na página)
em direção ao campo semântico (o efeito e significado geral do poema).
Essa mudança está no centro da experiência de leitura em sua forma mais
intensa, momento em que sentimos a força da presença textual.

19
O meu exemplo de teorização justapõe, não uma teoria (pós-
estruturalismo, digamos) e um texto literário (o conto de Henry James,
“The Author of Beltraffio”, digamos), mas uma frase de Derrida e uma
palavra do conto de James. A frase de Derrida está na seção “A farmácia de
Platão”, publicado primeiramente no livro Disseminação, e começa assim:

Um texto só é um texto se ele oculta ao primeiro olhar, ao primeiro


encontro, a lei de sua composição e as regras do seu jogo. (DERRIDA,
2005, p. 7).
3 – Os fins da teoria

A frase apresenta uma ressonância metafórica estranha, por si


só quase jamesiana, e parece erotizar o texto, que (idealmente, Derrida
parece sugerir) deve flertar timidamente com o leitor, sem revelar tudo
no começo e sem se envolver casualmente com um leitor qualquer, mas
aguardando a chegada de alguém especial – o próprio Derrida, nesse caso.
A palavra do texto de Henry James é osseous. No conto, um jovem escritor 75
americano (o narrador) vai para a Inglaterra para conhecer o velho escritor

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 75 21/03/16 14:11


Mark Ambient, cuja obra ele admira imensamente. A Sra. Ambient, no
entanto, tem uma aversão moral aos textos do marido e nunca os leu,
estando determinada a proteger seu filho, Dolcino, da influência deles.
Quando a criança está prestes a dar uma volta com o pai, ela pede que ele
a acompanhe, e “estende suas longas mãos delgadas ligeiramente ossudas
demais [osseous hands]”. A palavra osseous se destaca: ela literalmente
significa boney,14 mas vem do campo discursivo da medicina e parece
objetificar e distanciar a pessoa referida; o efeito é similar ao da palavra
“obeso” – você pode se referir a um amigo como “um pouco gordinho”,
ou algo semelhante, mas “obeso” é uma palavra que parece objetificar a
pessoa com seu ar de precisão clínica e só pode ser utilizada em relação a
estranhos ou a toda uma categoria de pessoas. Além disso, a imagem das
mãos “ligeiramente ossudas” estendidas em direção à criança é bruxesca e
misteriosa em suas implicações, e embora a palavra em si seja visivelmente
adulta, ela acentua a sensação de desconforto sentida pela criança em
relação à mãe. Dessa forma, a palavra representa a Sra. Ambiente, e não seu
marido, como a força maléfica que procura envolver Dolcino. O narrador
a convence a ler Beltraffio, e ela fica tão chocada com o que ali encontra,
que quando Dolcino fica gravemente doente, ela permite que ele morra,
pois assim consegue protegê-lo da influência maligna do pai. O que fica
claramente evidente é que esse é o mesmo enredo de The Turn of the Screw:
a mulher que busca proteger a criança do mal é ela própria a influência
maligna que a ameaça e que eventualmente causa a sua morte. Mas os
elementos-chave do enredo de The Turn of the Screw estão espalhados de
forma diferente nessa história: o narrador não aceita em momento algum
qualquer responsabilidade de sua parte no resultado final, assim como a
governanta não o aceita em The Turn of the Screw. Mas o enredo de “The
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Author of Beltraffio” não é narrado pela Sra. Ambient – nem poderia sê-
lo, da mesma forma como os acontecimentos de The Turn of the Screw
não poderiam ser narrados pela governanta. A ficção imoral do romance
imaginário Beltraffio, que nutre a “arte pela arte”, governa as vidas “reais”
da história que o narrador conta, pois ele frivolamente realiza testes com os
Ambients, só para ver o que acontece. Da mesma forma, a governanta em
14
O autor contrasta duas palavras de significado semelhante, osseous e boney, insistindo, contudo,
no caráter médico/clínico do primeiro termo e no afastamento que o narrador promove em
76 relação ao seu objeto em decorrência dessa escolha lexical. Optamos por preservar os termos
em inglês justamente para manter o contraste. [N.T.].

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 76 21/03/16 14:11


The Turn of the Screw é ela mesma “conduzida pela ficção”, pois a cadeia de
eventos recontados na novela começa com um pensamento seu, ao fazer
pela primeira vez o trajeto de Bly, de que “seria tão encantador quanto
uma história encantadora encontrar alguém de repente”, e nesse momento
tem a primeira visão do sinistro Peter Quinn olhando-a do topo da torre.
Quanto mais esses ecos e complexidades proliferam, mais as palavras de
Derrida ressoam, fazendo crescer o sentimento de que para essa história
– e para as demais histórias jamesianas intimamente relacionadas a ela –,
nas palavras de Derrida (2005, p. 7), “a lei de sua composição e as regras
do seu jogo” sempre serão fugidias. Com efeito, os cadernos de notas de
James caracterizam The Turn of the Screw justamente como um jogo, um
“truque para capturar aqueles que não são facilmente capturados”. Assim,
a teorização que aqui faço apresenta-se em camadas, e as camadas incluem
observações do campo lexical sobre a força de uma única palavra, fazendo
a interface entre um grupo de histórias de James, com assuntos recorrentes
que podem ser estudados de modo estruturalista, e uma noção oriunda da
teoria sobre o elemento “secreto” ou ocluso ou retido como força geradora
do próprio impulso narrativo. Todas as narrativas que funcionam, Derrida
sugere, funcionam não pelo que contam, mas por aquilo que deixam de
contar, ou melhor, por aquilo que não contam ainda, e que, quando contam,
o fazem de modo apenas parcial.

20
Teorizar também significa especular sobre a extensão de um texto. Se a
expressão “as palavras na página” é rotineiramente considerada inadequada,
isso implica que as palavras que estão em algum outro lugar também são
relevantes e compõem o texto que estamos considerando. O necessário (para 3 – Os fins da teoria
utilizar uma frase de Marina Warner) é “cavar na arqueologia da história”.
Essa é a esfera da teoria da intertextualidade, que leva em consideração
os ecos e afinidades entre textos. O termo que utilizo para a subcategoria
da intertextualidade que observa outros textos de um mesmo autor é
cotextualidade. James utilizou a palavra osseous em relação à aparência física
de uma mulher em um outro lugar, a saber, em sua Autobiografia. A palavra
aparece em sua descrição da atriz Rose Chéri, cuja performance ele havia
visto no Théâtre du Gymnase, em Paris, em uma peça chamada A Woman 77

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 77 21/03/16 14:11


Who Hates Her Husband. Nesse caso, a palavra osseous refere-se à pessoa
como um todo, ao physique ingrat [o físico pouco atraente] da atriz, ou
seja, “à sua aparência, à primeira vista, extremamente estranha e claramente
ossuda; uma mulher magra com um testa elevada e saliente” (JAMES, 1983,
p. 202). O evento e sua lembrança têm uma aura tátil de constrangimento
sexual adolescente, e ao recordar o teor intenso e lúgubre do incidente, James
o narra da seguinte maneira: “aperto-me novamente com minha mãe, minha
tia e meu irmão na baignoire [banheira] abafada” (JAMES, 1983, p. 201), uma
palavra que nitidamente evoca a escuridão apertada e encalorada do teatro.
Num mundo em que as atrizes eram vistas como prostitutas em potencial,
Rose Chéri e sua irmã eram famosas por sua virtude inabalável. Quando
o noivado de Rose foi anunciado, seu pai se jogou de uma janela (o que
causou a sua morte). Estranhamente, sua irmã tinha atuado recentemente
em uma peça chamada The Woman Who Threw Herfself Out of a Window.
Essa peça era de autoria do simbolicamente chamado Eugène Scribe, famoso
proponente da “peça bem feita” [pièce bien faite], tipo de teatro em que
Wilde se destacou e que o próprio James, mais tarde em sua vida, provou ser
notoriamente incapaz de escrever. Suas tentativas prolongadas de se tornar
um dramaturgo acabaram em um outro embaraço encalorado, dessa vez
como um homem maduro, na escuridão traiçoeira do teatro. A própria Rose
mais tarde cuidou heroicamente de sua criança adoecida em seu momento
terminal, tornando-se, novamente, uma antecipação curiosa da Sra. Ambient,
cujos severos princípios morais também parecem estar de alguma maneira
relacionados àquele aspecto “ossudo”. Assim, a palavra osseous, brilhando
através de uma escuridão que é tanto real quanto metafórica, parece
conectada a um sentimento hipnotizante de atração-repulsão em relação às
mulheres, sentimento visto repetidas vezes nos narradores homens de James e
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

presumivelmente parte do próprio autor. Todas as mulheres em suas histórias


apresentam uma magreza elegante ou então certa abundância corporal. Em
algum lugar no meio deve ter havido um tipo idealmente agradável, que
poderia eventualmente ter parecido adequado ao gosto narratorial, porém
tal mulher nunca é encontrada no mundo de James. Entender (mais uma
vez em termos derridianos) “a lei de sua composição e as regras do seu
jogo” (DERRIDA, 2005, p. 7), no caso do texto em questão, significaria
explicar esse complexo de ecos, semiecos, estruturas e referências cruzadas.
78 É difícil imaginar uma teoria capaz de igualar a complexidade desse texto

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 78 21/03/16 14:11


literário, com os seus emaranhados textuais, intertextuais e cotextuais,
além da interação inventiva entre história pessoal e social e a personalidade
autoral que se junta a esse quadro. Cavar na arqueologia da história é
explorar essa pletora de presença textual. O que chamo de teorização é uma
forma de exploração aberta, baseada na determinação de seguir justapondo
fragmentos de teorias e fragmentos de textos, sem pressupor que o resultado
é predeterminado. É isso que nos entusiasma no mundo da teorização (que
praticamos – ativamente – por nós mesmos), e não no mundo da teoria (que
outros praticavam – passivamente – para nós). Eis um dos fins da teoria, um
mundo que permanece aberto à nossa exploração após o fim da teoria.

Referências
ATTRIDGE, Derek; ELLIOT, Jane (Ed.). Theory after Theory. London: Routledge,
2011.
BARRY, Peter. Beginning Theory. 3. ed. Manchester: Manchester University Press,
2009.
BARRY, Peter. Literature in Contexts. Manchester: Manchester University Press,
2007.
BARRY, Peter. The “Good Science” Approach to Teaching Literary Theory. English
Association Bulletin, n. 174, autumn/winter 2003. p. 1-3.
DE MAN, Paul. The Resistance to Theory. Minneapolis: University of Minnesota
Press, 1986.
DERRIDA, Jacques. A farmácia de Platão. Trad. Rogério da Costa. São Paulo:
Iluminuras, 2005.
DERRIDA, Jacques. Like the Sound of the Sea Deep within a Shell: Paul de Man’s
War. Critical Inquiry 14, Spring 1988. p. 590-652.
HAMACHER, Werner; HERTZ, Neil; KEENAN, Tom (Ed.). Paul de Man: 3 – Os fins da teoria

Wartime Journalism, 1939-43. Lincoln: University of Nebraska Press, 1988.


JAMES, Henry. A Little Tour in France. New York: Oxford University Press, 1984.
JAMES, Henry. Autobiography. Princeton: Princeton University Press, 1983.
KAVANAGH, Jay. To the Man After the Harrow. In: PARINI, Jay (Ed.).
The Wadsworth Anthology of Poetry. Toronto: Thompson Wadsworth, 2006.
LEITCH, Vincent B. Literary Criticism in the 21st Century: Theory Renaissance.
London: Bloomsbury, 2014. 79

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 79 21/03/16 14:11


MILLER, J. Hillis. Presidential Address 1986: The Triumph of Theory, the
Resistance to Reading, and the Question of the Material Base. PMLA, v. 102, n. 3,
p. 281-291, May 1987.
O’REILLY, T. What is Web 2.0? Design Patterns and Business Models for the Next
Generation of Software. 30 set. 2005. Disponível em: <http://oreilly.com/web2/
archive/what-is-web-20.html>. Acesso em: 28 set. 2014.
ROUDINESCO, Elisabeth. Philosophy in Turbulent Times: Canguilhem, Sartre,
Foucault, Althusser, Deleuze, Derrida. New York: Columbia University Press,
2010.
SCOTT-BAUMANN, Alison. Ricoeur and the Hermeneutics of Suspicion.
London: Continuum Studies in Continental Philosophy, 2011.
SOKAL, Alan; BRICMONT, Jean. Intellectual Impostures: Postmodern
Philosophers’ Abuse of Science. 2. ed. London: Profile Books, 2003.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

80

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 80 21/03/16 14:11


II Estado da teoria

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 81 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 82 21/03/16 14:11
4

Teoria literária hoje 1

Jonathan Culler

Para abordar o tópico “Teoria literária hoje” no Ocidente, é


necessário descrever brevemente o que aconteceu nos estudos literários e
culturais na Europa e nos Estados Unidos nas últimas décadas, embora a
descrição seja sem dúvida bem conhecida de muitos. A partir do final dos
anos 1960, o campo dos estudos literários e culturais nos Estados Unidos e
na Europa ocidental sofreu transformações significativas sob o impacto do
que é geralmente chamado de “teoria” apenas – um uso bastante estranho,
admito. Se você pergunta “teoria do quê?”, a resposta está longe de ser clara.
O que conta como “teoria” raramente é teoria da literatura, no sentido de
uma descrição da natureza singular das obras literárias e dos princípios
metodológicos de investigação como parte de uma disciplina acadêmica.
Várias obras teóricas importantes, escritas por autores como Friedrich
Nietzsche, Sigmund Freud, Ferdinand de Saussure, Claude Lévi-Strauss,
Jacques Derrida, Jacques Lacan, Michel Foucault, Louis Althusser, Judith
Butler e tantos outros, não lidam com a literatura em momento algum, ou
o fazem apenas de modo marginal.
A “teoria” começou, de fato, com o movimento estruturalista, que
abordou a significação em geral e, portanto, foi importante para as pessoas

1
O presente capítulo, traduzido do inglês pelo organizador do volume, é, segundo o autor,
resultado de uma série de palestras proferidas em outubro de 2011 nas seguintes universidades
chinesas: Shanghai Jiao Tong University, Nanjing University, Beijing University e Tsinghua
University. (N. T.)

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 83 21/03/16 14:11


de todas as áreas das ciências humanas e sociais. O que chamamos pelo
apelido de “teoria” constitui uma miscelânea em termos de gênero: estamos
falando de obras que conseguiram desafiar e reorientar o pensamento em
áreas diferentes daquelas a que aparentemente pertencem. Textos que não
são do campo dos estudos literários foram utilizados pelos estudiosos da
literatura porque as análises que fazem da linguagem – ou da mente, ou
da história, ou da cultura – oferecem leituras novas e persuasivas acerca de
questões textuais e culturais.2 Nesse sentido, a teoria não é um conjunto
de métodos para o estudo literário, mas um conjunto ilimitado de escritos
sobre tudo o que existe sob o sol, desde os problemas mais técnicos da
filosofia acadêmica até as diferentes formas como as pessoas falaram e
pensaram sobre o corpo. O gênero da “teoria” inclui obras de antropologia,
estudos de cinema, estudos de gênero, linguística, filosofia, teoria política,
psicanálise e história social e intelectual, que se tornaram “teoria” porque
suas visões ou argumentos provaram ser sugestivos ou produtivos para
pessoas que não estão estudando essas disciplinas. A teoria literária baseia-
se em argumentos de outras áreas do saber de forma especulativa, assim
como o trabalho dos teóricos da literatura, por sua vez, é apropriado por
outros campos – mas essa é uma outra história.
Uma das razões que fizeram com que os críticos literários
recorressem a outras áreas diz respeito ao caráter pouco teórico do que fora
feito previamente nos estudos literários. Grande parte dos estudos literários
não passava, na verdade, de uma versão precária da história: estudo dos
autores em seu contexto histórico e sua contribuição para a história da
literatura, sem qualquer reflexão sobre o modo como a literatura funciona
enquanto prática cultural, sobre o que significaria ter uma história para
a literatura ou sobre como uma abordagem histórico-literária poderia de
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

fato enfrentar o que há de mais interessante e desafiador nas grandes obras


literárias. Paralelamente, o estudo literário baseava-se em uma ideia de close
reading que assumia que o contato direto com a linguagem seria suficiente
– não se pensava na necessidade de um procedimento metodológico. As
investigações de outras áreas ofereceram recursos poderosos para repensar
a literatura e o estudo literário, levantando questões não apenas sobre o
funcionamento da linguagem e da significação em geral, mas também

84 2
Para uma discussão da “teoria”, ver Culler (1997, capítulo 1). Há uma nova edição, publicada em
2011, com uma bibliografia revisada e um novo capítulo final, intitulado “Ética e estética”.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 84 21/03/16 14:11


sobre uma série de outros tópicos. Afinal de contas, a literatura aborda
praticamente todos os temas que existem, então os intelectuais, tão logo
livres de uma história literária que não fazia justiça às obras literárias,
perceberam-se capazes de recorrer às mais empolgantes e interessantes
teorizações dos diferentes tipos de materiais por eles encontrados na
literatura. Eles também encontraram nos gêneros da “teoria” obras que
poderiam ajudá-los a refletir sobre o funcionamento da literatura em si,
em termos históricos, psíquicos, linguísticos, antropológicos e filosóficos.
A teoria possibilitou o enriquecimento geral das ciências humanas e
um pensamento mais correto sobre todos os tipos de assuntos nos textos.
Ela também promoveu uma leitura do texto literário mais atenta aos
pressupostos, opções metodológicas e concepções acerca do funcionamento
da linguagem, e assim por diante.
Tudo isso é bastante conhecido. Os estudos literários no Ocidente
sofreram uma grande transformação a partir do final dos anos 1970 sob a
influência da teoria e de modelos ou práticas teóricas como o marxismo,
a psicanálise, o feminismo, a desconstrução, o novo historicismo e a
teoria queer. A teoria mudou as coisas para sempre. Na virada do século
XXI, a teoria já não era mais uma novidade, e frequentemente ouvimos
reivindicações em torno de sua morte, mas, na verdade, ela tornou-se parte
integrante da paisagem, longe de constituir algo novo ou revolucionário.
Sua presença institucional e disciplinar prova estar bem estabelecida nas
universidades americanas. Ao ter sua presença assegurada, a teoria perde, é
claro, parte do encanto da novidade, embora isso a torne um alvo menor de
ataques. Parece agora amplamente aceito que qualquer projeto intelectual
tem por base algum tipo de teoria, que os alunos de pós-graduação devem
tanto estar cientes dos debates teóricos travados em suas áreas quanto ser
4 – Teoria literária hoje
capazes de se situar, e de situar seus estudos, dentro das diferentes estruturas
intelectuais que compõem o cenário profissional. Para muitos, está claro
que a teoria, longe de ser “muito difícil” para os graduandos, é justamente
o tipo de coisa que eles devem explorar como uma das dimensões mais
interessantes e socialmente pertinentes das ciências humanas. É claro que
ainda há aqueles que duvidam disso, mas a conversa sobre a morte da teoria
é algo tolo e talvez tendencioso.
Como a teoria não é apenas um corpus de obras em evolução, mas
reflexão sobre a própria reflexão, ela nos convida a questionar como uma 85

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 85 21/03/16 14:11


disciplina propõe suas questões, perguntando se não haveria outras formas
melhores de proceder e o que queremos dizer com “melhor”. O que nos
impulsiona em direção à teoria é um desejo de entender o que estamos
fazendo, de questionar nossos compromissos e suas implicações. A teoria é
motivada pelo desejo impossível de nos ausentarmos por um momento de
nosso próprio pensamento, para localizá-lo e compreendê-lo, e também por
outro desejo – um desejo possível – de mudança, tanto nos nossos modos de
pensar, que sempre poderiam ser mais agudos, mais inteligentes e integrais,
mais autorreflexivos, quanto no mundo com o qual o nosso pensamento
se engaja. Dessa forma, sempre haverá novos desenvolvimentos, sempre
haverá mudanças no campo da teoria.
Gostaria neste capítulo de descrever brevemente algumas das
mudanças ou desenvolvimentos recentes no campo da teoria literária.3
Uma vez que, como já expliquei, a teoria literária não é apenas a teoria
da natureza da literatura, mas uma grande massa de textos teóricos sobre
coisas que são importantes para a literatura, o que está acontecendo não é
um tipo de modificação sistemática, mas sim mudanças em áreas específicas
que, por vezes, geram novos campos de reflexão. O que ofereço é, antes, um
conjunto diverso de desenvolvimentos que me parecem significativos.
1. Primeiramente – e não tomo esses desenvolvimentos em qualquer
ordem particular –, a narratologia, o estudo formal da estrutura narrativa
– aspecto central à teoria literária estruturalista e que vinha sendo já há
algum tempo negligenciado, visto como uma empresa pouco dinâmica –,
vem passando recentemente por uma renovação e encenando o seu retorno.
Há dois desenvolvimentos importantes aqui.
Diferentemente da narratologia estruturalista, que havia tomado a
linguística como modelo, tentando produzir algo como uma gramática da
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

narrativa, a narratologia recente tem buscado articular-se com a ciência


cognitiva, com as pesquisas que discutem como o cérebro processa a
informação. Não sabemos ao certo se isso não significará apenas a tradução
dos conceitos narratológicos para um vocabulário diferente, mas a própria
ciência cognitiva parece conferir à narrativa um papel mais importante
em relação aos modos como as pessoas compreendem a experiência, e, de
qualquer forma, trata-se de uma conexão importante a ser explorada.

86 3
Para algumas discussões sobre a situação atual da teoria, ver Attridge; Elliot (2010); Culler
(2010), e também o novo capítulo final de Culler (2011).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 86 21/03/16 14:11


Ademais, em vez de concentrar-se prioritariamente nas narrativas
literárias dos séculos XIX e XX, a narratologia recente, além de reservar um
espaço importante para as histórias que as pessoas contam na vida cotidiana,
tem ampliado o alcance histórico das narrativas. O livro mais importante
nesse contexto, o trabalho inovador de Monika Fludernik (1996), Towards
a “Natural” Narratology, já tem 15 anos, mas somente agora começou a
ser assimilado, pois nos anos 1990, quando a narratologia não era vista
como um campo interessante, a editora produziu uma edição pequena
e bastante cara. O livro constitui a primeira abordagem narratológica a
fazer uma leitura integral da história da narrativa em língua inglesa, da
vida dos santos até a ficção pós-moderna. A autora também rompe com
a narratologia centrada no enredo – para ela, o que define a narrativa é a
experiência. Além disso, ela busca assimilar à narratologia o melhor das
pesquisas cognitivas recentes, sem abandonar as conquistas fundamentais
da tradição narratológica. Fludernik (2009) publicou recentemente um
breve volume intitulado Introduction to Narratology, buscando novamente,
em forma de manual, apresentar a sua abordagem específica. A esse
trabalho acrescentam-se outras duas obras introdutórias, também novas
e excelentes, que sinalizam o renascimento do campo: David Herman
(2002; 2009), que também é autor de Story Logic: Problems and Possibilities
of Narrative, publicou Basic Elements of Narrative, e Rick Altman (2008)
apresentou um excelente livro chamado Theory of Narrative. Altman, um
conhecido teórico do cinema, busca explicitamente construir uma nova
teoria da narrativa baseada não no enredo, muito menos no pressuposto de
que a norma para a narrativa consiste em uma trama ininterrupta, mas sim
naquilo que ele chama de “seguimento” (que apresenta afinidades com o
conceito de “experiência” de Fludernik). A narrativa segue um personagem
4 – Teoria literária hoje
ou grupo, ou alterna entre um e outro. Assim, as narrativas diferenciam-se
segundo as suas formas de seguir (diferentes tipos de modulação de uma
cena ou unidade para outra), o que produz uma tipologia fundamental: há
narrativas de foco único, narrativas de foco duplo e narrativas multifocais.
Ao elaborar uma narratologia que se baseia verdadeiramente na narrativa
em geral, e não apenas na narrativa literária, Altman utiliza diversos
exemplos cinematográficos reveladores. Ele é muito hábil em mostrar
as vantagens do seu esquema terminologicamente simples em relação à
análise narratológica tradicional, e oferece qual deve ser o ponto de partida 87

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 87 21/03/16 14:11


para sofisticações posteriores. Em suma, parece que estamos diante de dias
promissores para a teoria da narrativa.
2. Uma segunda mudança: recentemente, passamos a ouvir falar
menos de Foucault e Lacan e mais de Derrida. Por algum tempo, Freud,
Lacan e a psicanálise eram referências incontornáveis no campo da teoria
literária, mas esse já não é mais o caso nos Estados Unidos (Lacan ainda
é um nome muito forte na França, onde as controvérsias ajudaram a
manter o seu trabalho em vista). Michel Foucault parecia por um tempo a
figura dominante na teoria literária nos Estados Unidos, apesar de não ter
trabalhado com a literatura. Seus estudos sobre a história da sexualidade,
o poder e a disciplina serviram de inspiração para uma série de projetos
historicistas envolvendo a literatura – entre outros, estudos sobre como
as obras literárias contribuem para os discursos acerca de uma variedade
de fenômenos culturais e, portanto, para a construção cultural desses
fenômenos. Isso também parece ter diminuído e temos visto recentemente
o ressurgimento da obra de Derrida, tanto por meio da publicação de
seus próprios seminários, que continuará nos próximos anos, quanto pelo
número de livros novos sobre o filósofo. Mencionarei apenas For Derrida,
de J. Hillis Miller (2009), uma coletânea de ensaios claros e pedagógicos
sobre diversos aspectos da obra de Derrida, escritos em sua maioria após
a morte dele. Esses ensaios evidenciam a vasta gama de assuntos sobre os
quais Derrida tinha algo de importante a dizer, oferecendo-nos relatos
valiosos de tópicos que vão desde a teoria derridiana da performatividade
até seus textos sobre o luto, a decisão e o toque. Mas eu destacaria um livro
notável em particular, Radical Atheism: Derrida and the Time of Life, de
Martin Hagglund (2008). O trabalho redimensiona toda a trajetória de
Derrida, rebatendo os argumentos recentes de que sua obra ficou marcada
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

por uma virada ética ou religiosa e mostrando, em vez disso, que desde o
início a preocupação de Derrida com a temporalidade caminha junto com
uma valorização da sobrevivência, do mortal, do temporal e uma rejeição
do desejo de imortalidade e transcendência que estrutura tantas formas de
pensamento. Investigando a questão da temporalidade e da sobrevivência,
Hagglund analisa a relação de Derrida com o pensamento de Kant, Husserl
e Levinas, bem como com os debates atuais sobre democracia, ética e o
retorno da religião. Esse livro recebeu muita atenção e tem sido objeto
88 de conferências e debates em revistas acadêmicas, um indicativo do

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 88 21/03/16 14:11


envolvimento íntimo e contínuo da teoria com a obra de Jacques Derrida, a
quem retornarei posteriormente.
3. Seguindo adiante, tem-se falado muito já há algum tempo, no
campo da teoria, sobre uma virada ética ou um retorno à ética. Certamente
é verdade que antes tínhamos visto um afastamento de certa forma de ética.
Nos anos 1980 e 1990, a teoria havia vigorosamente desencorajado o foco
na educação literária como forma de agir; desencorajado, por exemplo,
o uso de romances para falar sobre o comportamento dos personagens,
algo que os alunos apreciam mais do que analisar a técnica ficcional.
A teoria literária encorajava mais o foco no funcionamento da linguagem,
na construção de personagens e temas, que no julgamento ético, e isso era
muito salutar, pois colocava em xeque as falas devotas sobre o homem e o
mundo. Mas a literatura sempre esteve ligada a discussões sobre decisões
éticas e como se relacionar com pessoas diferentes de nós.
O que é por vezes chamado de “virada ética” pode ser visto como
uma continuação do movimento geral que caracterizou a teoria desde o
início (particularmente a desconstrução), e que diz respeito à contestação
das oposições hierárquicas que marginalizaram certos grupos para criar
normas: masculino versus feminino, branco versus negro, heterossexual
versus homossexual – o primeiro termo sempre tomado como normativo
e o segundo como inferior. A dissolução das exclusões baseadas em gênero
ou raça conduziu a uma ampliação do cânone literário; o reconhecimento
das exclusões baseadas na orientação sexual levaram aos estudos gays e
lésbicos e à teoria queer. Essa crítica a uma lógica opositiva de exclusão
conduziu a uma expansão do domínio teórico, que passou a centrar-se
naquilo que havia sido rejeitado para que a norma fosse estabelecida; esse
procedimento leva a um questionamento de outras oposições, como a
4 – Teoria literária hoje
distinção entre o humano e o animal.
Aqui temos um desenvolvimento recente interessante no campo da
teoria – o terceiro de minha lista –, e que certamente apresenta uma dimensão
ética importante. A caracterização do animal como “outro” ajudou por muito
tempo a definir o humano. Aristóteles e Descartes utilizaram essa lógica – os
animais não possuem razão, não possuem alma. Mas qual é a natureza e o
impacto da distinção entre o humano e o animal? Como essa distinção é feita,
com que motivos e quais valores? A partir da “questão do animal”, os “estudos
animais” ou “estudos humano-animal”, como são chamados, tornaram-se um 89

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 89 21/03/16 14:11


campo interdisciplinar crescente, constituindo, é claro, mais do que uma área
de estudos: para muitos, trata-se de um movimento político dirigido por
um sentimento de justiça. Após a libertação feminina e a libertação gay, a
libertação animal parece ser uma nova etapa – ou, se não a libertação animal,
o reconhecimento de que o tratamento humano conferido aos animais,
segundo a nossa própria conveniência, é difícil de defender. Algumas críticas
à oposição humano/animal demonstram elementos comuns e continuidades.
O trabalho pioneiro de Vicki Hearne (1986), treinadora de animais e filósofa
– trabalho que passou a figurar recentemente no campo da teoria –, explora a
comunicação entre os seres humanos e os animais; outros teóricos promovem
um “estar com os animais”.4 Por outro lado, uma corrente significativa de
trabalhos teóricos concentra-se nas descontinuidades, na alteridade radical e
na inacessibilidade dos animais, seres que não podemos presumir conhecer
(especialmente quando vamos além dos animais que os ocidentais adoram
crer que conhecem, como cães e cavalos).5 Enfatizando o papel que as
noções de animal desempenharam na definição do humano, essa abordagem
exige respeito à alteridade dos animais e acusa os proponentes da abordagem
anterior de antropomorfismo, ou seja, de tratar os animais segundo modelos
humanos. Há aqui um debate bastante intenso.
Em The Animal That Therefore I Am, Jacques Derrida (2008, p. 18)
articula “o desejo de escapar às alternativas de uma projeção que apropria e
uma interrupção que exclui”. No entanto, ele enfatiza tanto as dificuldades
de compreender o ponto de vista dos animais quanto o que ele chama de
uma violência antropocêntrica, que a tudo agrupa, de formigas a zebras,
como exemplos do “animal”. O que acontece quando deixamos de pensar nos
pequenos e adoráveis mamíferos e passamos a considerar insetos ou pássaros,
por exemplo? Qualquer tentativa de resposta única para a relação conceitual
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

entre o humano e o animal parece grotescamente centrada no ser humano.


O efeito da teoria recente aqui é a sinalização da dificuldade de manter uma
barreira firme entre os seres humanos e as outras espécies. A abordagem não
pode senão conduzir ao reconhecimento de nossas relações irredutivelmente
múltiplas, complexas e reconfiguráveis com os outros animais.
Como no caso da alteridade humana, a literatura pode ser um espaço
privilegiado para a análise da construção do animal e de sua relação com o

90 4
Sobre “estar com os animais,” ver Haraway (2007).
5
Para duas fontes gerais sobre a questão, ver Carlaco (2008) e Wolfe (2003).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 90 21/03/16 14:11


ser humano, bem como para o reconhecimento de valores que podem servir
para tratar os animais de forma diferente. Há representações de animais
na literatura, argumenta Laura Brown em seu novo livro sobre o assunto,
que escapam a alguns dos paradoxos que a teoria tem explorado, pois as
criaturas literárias são, simultaneamente, antropomorfizadas e “estranhas”,
elas “misturam impulsos associados ao humano e impulsos que alienam
do humano, misturam antropomorfismo e alteridade de uma forma
que leva a questão da relação homem-animal para uma outra direção”
(BROWN, 2010, p. 23), distante da dicotomia teórica, uma direção mais
variada e especulativamente fantástica e, portanto, mais capaz de explicar
a verdadeira alteridade. Os animais podem ser utilizados para trazer as
abstrações ao campo da experiência cotidiana, oferecendo perspectivas
incomuns sobre questões de hierarquia, diversidade e diferença. Poemas
que retratam os animais podem ser tentativas extraordinariamente criativas
para pensar com solidariedade a questão da singularidade dos animais,
destacando ao mesmo tempo a impossibilidade de encontrar palavras que
não se apropriem deles para propósitos humanos. Há questões teóricas
interessantes e complexas aqui.
4. Um quarto desenvolvimento recente diz respeito a um movimento
muito amplo e amorfo chamado “ecocrítica”. Referi-me antes ao modo
como a teoria questiona as oposições binárias por meio das quais nos
definimos. Uma das oposições centrais é aquela entre homem e natureza.
Como essa distinção ajudou a construir um humanismo ocidental em que a
natureza ainda hoje é tratada como um objeto a ser explorado? A crítica às
oposições humano/animal e homem/natureza por vezes pertence, explícita
ou implicitamente, a um movimento ecológico mais abrangente que
confronta o antropocentrismo dos seres humanos (fazemos de nós mesmos
4 – Teoria literária hoje
o centro de todas as coisas) e busca promover o respeito pelo meio ambiente
e por todos os outros seres não humanos. Ambas as abordagens teóricas
mais amplas que mencionei em torno da questão animal – a dissolução
da oposição humano/animal para explorar instâncias em que somos
como os outros animais e a ênfase na alteridade dos animais, um fato que
exige respeito – estão em consonância com a “ecocrítica” emergente, uma
abordagem literária centrada na questão da terra que convoca a literatura
e as sensibilidades literárias a pensar sobre o meio ambiente e os impactos
que os seres humanos nele exercem, desafiando-nos a ter isso sempre em 91

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 91 21/03/16 14:11


mente. A ecocrítica não apresenta um método particular de leitura, mas
sim uma questão dominante, uma mudança de escala, um foco sobre as
diversas formas de violência do antropocentrismo humano.6 Ela pode
explorar textos que falam da natureza, de como os diferentes grupos tratam
a natureza de forma distinta, pode enfatizar as celebrações da natureza para
promover a consciência ecológica, ou pode, ainda, abordar de modo mais
direto os usos humanos da natureza. Em um ensaio recente sobre ecocrítica
publicado na PMLA (“Modern Language Association of America”),
intitulado “Sea Trash, Dark Pools, and the Tragedy of the Commons”, a
editora da revista, Patrícia Yeager (2010), persegue a “virada oceânica” nos
estudos literários, cuja premissa é a de que temos sido míopes em relação ao
papel que os oceanos desempenharam na formação das culturas; agora já
não se pode mais conceber os oceanos como fontes ilimitadas ou horizontes
sublimes, pois estes se tornaram, antes, um ambiente partilhado e de fácil
degradação. Yeager lê as representações literárias do mar comparadas às
realidades oceânicas.
Para a ecocrítica, o bem-estar de todas as formas de vida, humanas e
não humanas, e do meio ambiente é a finalidade à qual os demais propósitos
devem responder. A obra Sense of Place, Sense of Planet: The Environmental
Imagination of the Global, de Ursula Heise (2008), é representativa do
trabalho realizado pela ecocrítica. O livro é ambicioso e importante em
sua promoção da imaginação estética do planeta, pois busca explorar
as relações entre ambientalismo, cosmopolitismo, globalização, teoria
do risco e o pensamento da diferença cultural, tudo isso a partir de um
“ecocosmopolitismo” que conta com a contribuição da imaginação literária.
Heise dirige-se a um amplo público comparatista e interdisciplinar, em um
livro que talvez não seja imediatamente reconhecível como teoria literária,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

embora recorra a várias obras de literatura – entre outros, autores como


Don Delillo e Christa Wolf – em sua tentativa de investigar as relações entre
o local e o global.
Mas a celebração da natureza ou do natural não é uma postura com
a qual a teoria, especialmente a teoria pós-estruturalista, pode permanecer
contente. Tal como as oposições entre homem e natureza e entre homem
e animal, a oposição entre homem e máquina desempenhou uma função

92 6
O livro de Buell (2001) constitui um importante exemplo. Já o de Garrard (2004) é uma
introdução breve e acessível.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 92 21/03/16 14:11


cultural e ideológica importante: em cada caso, o segundo termo tem
sido utilizado em oposições para definir o humano, e a mesma lógica que
funciona para desfazer as duas primeiras oposições aplica-se à terceira.
Nós buscamos nos definir como diferentes das máquinas, mas, assim como
somos animais, não seríamos também máquinas? A crítica à oposição
homem e máquina é um desenvolvimento lógico do movimento da teoria
contemporânea, que tem contestado o modelo tradicional de ser humano
como sujeito autônomo, racional, autoconsciente e dotado de livre-arbítrio
(o marxismo e a psicanálise oferecem duas abordagens potentes dos seres
humanos vistos como produtos de uma série de forças, sociais e psíquicas,
que eles não controlam). A atuação consciente, poderíamos dizer, é apenas
uma história que a consciência conta a si mesma para explicar o que de
fato ocorre como resultado da interação de uma série de fatores. A crítica
do ser humano autônomo então conduz, como consequência lógica, não
exatamente a uma “libertação das máquinas”, mas a um questionamento
dessa oposição homem e máquina por meio de investigações daquilo
que alguns teóricos chamaram de “pós-humano”. Esse é o quinto
desenvolvimento que pretendo considerar brevemente.
5. A primeira função da noção de “pós-humano” é marcar uma
passagem para além da concepção tradicional de sujeito humano.
Embora os estudos do pós-humano com frequência recorram à ficção
científica, à cibernética e à teoria de sistemas, o argumento não é o de
que os computadores e outras máquinas mudaram o mundo, criando
uma situação em que somos parte de sistemas complexos ou circuitos
que não controlamos. A afirmação fundamental é a de que sempre fomos
pós-humanos, sempre fomos diferentes daquela imagem do humano
sugerida pelo humanismo. Os computadores e outros equipamentos
apenas tornaram evidente o que sempre foi verdadeiro: a psique, com
suas pulsões, por exemplo, nunca foi um dispositivo por nós controlado, 4 – Teoria literária hoje

e os nossos corpos são mecanismos extremamente complexos que sempre


encontraram diversas formas de escapar ao entendimento da ciência. É
bem verdade que hoje nos vemos cada vez mais controlados por nossas
máquinas, tanto quanto nós as controlamos: enquanto eu escrevia isso, o
meu computador repetidamente me intimava a ler mensagens, em grande
parte anúncios ou propagandas, geradas por outros computadores. De
fato, é a estrutura do controlador e do controlado que a noção de pós-
humano põe em xeque. 93

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 93 21/03/16 14:11


“A Cyborg Manifesto”, de Donna Haraway (1991), publicado
originalmente em 1985, foi o primeiro texto a articular o que seria
posteriormente tomado pela teoria e convertido na noção de pós-humano:
“somos todos quimeras, híbridos – teóricos e fabricados – de máquina
e organismo; em suma, somos ciborgues” (HARAWAY, 1991, p. 150).
O ciborgue, criatura híbrida da ficção científica, parte pessoa e parte robô,
“é uma criatura em um mundo pós-gênero” (trata-se de um manifesto
feminista e socialista), e “pode indicar uma saída do labirinto de dualismos
que utilizamos para explicar nossos corpos e ferramentas a nós mesmos”
(HARAWAY, 1991, p. 181). Uma vez que questionamos a ideia de um “eu”
ou mente que controla seus corpos e ferramentas, e compreendemos que as
habilidades que nos permitem funcionar estão presentes – seja em nossos
próprios corpos, seja nas extensões de nossos corpos no meio – em coisas
que vão desde pequenas ferramentas até os sistemas computacionais mais
complexos, podemos então perceber que, ao viver no mundo, integramo-
nos a sistemas de “cognição distribuída”, parte dela incorporada em nossas
mentes, parte nos ambientes inteligentes que nós e nossas máquinas
criamos. O livro de Katherine Hayles (1999) intitulado How We Became
Posthuman esboça uma mudança de compreensão que a autora também
defende: de sujeitos autônomos a nodos de incorporação em sistemas cada
vez mais complexos de retroalimentação. Os sistemas de que formamos
parte são agora capazes de pilotar aviões, estabelecer os preços das ações,
encontrar informações e de fazer uma série de outras coisas de modo mais
rápido e eficiente do que a mente sozinha jamais pôde. Embora ainda
tenhamos de recorrer às noções tradicionais de indivíduo, livre-arbítrio e
agência para uma série de propósitos, essas noções são vistas como ficções
heurísticas que utilizamos para tentar dar sentido a um mundo cujos
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

padrões são construídos por meio de operações recursivas em um contexto


de aleatoriedades. O que chamamos de humano, por exemplo, seria uma
seleção de características oriundas de sistemas e processos maquínicos.7
A alegação de que somos pós-humanos é, naturalmente, um
movimento teórico agressivo, e é fácil impacientar-se com argumentos de
que somos pós isso ou aquilo: somos pós-modernos, pós-estruturalistas,
pós-raciais e agora pós-humanos. Por que não dizer que as noções
tradicionais de ser humano foram contestadas, de modo que o que temos
94
7
Ver também Wolfe (2010).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 94 21/03/16 14:11


é uma concepção nova e mais precisa do humano, capaz de considerar sua
relação profunda com sistemas cada vez mais complexos?
Há, sem dúvida, dois motivos: em primeiro lugar, a noção de
humano, por mais que seja redefinida, ainda parece implicar uma oposição
entre humanos e animais, por um lado, e humanos e máquinas, por outro.
A alegação explícita do “pós-humano” é a de que essas são simplificações
grosseiras. Em segundo lugar, um novo termo, um neologismo como “pós-
humano”, tem o poder de marcar uma mudança de pensamento que de
outro modo poderia ser facilmente esquecida ou negada. Se a ideia do
pós-humano terá poder de permanência – não é um termo que eu mesmo
defenda –, ou se perderá espaço assim que nos habituarmos às novas
concepções do humano é algo difícil de prever. Sem dúvida, isso dependerá
do que as nossas ferramentas de busca decidirem!
6. Retorno à estética. Mas e quanto à arte e literatura nesse mundo
pós-humano? Curiosamente, o interesse pelo pós-humano parece ter
contribuído para o renascimento da estética, teoria da arte em geral
que havia sido deixada de lado pela teoria literária e cultural do final do
século XX. Os próprios teóricos sempre reivindicaram práticas estéticas
específicas, mas não a própria ideia da estética, e os motivos para o eclipse
do conceito não são difíceis de entender. As noções tradicionais da estética,
tais como gênio artístico, autonomia e universalidade da arte, bem como
seu valor espiritual intrínseco, estavam inextricavelmente ligadas às
concepções de sujeito e de discurso independentemente de forças sociais
que a teoria de diversas escolas buscava combater.8 O triunfo da teoria e a
suposição generalizada de que os conceitos da estética pertenciam a uma
concepção datada, elitista e universalizante de arte deixou um espaço aberto
– uma espécie de vácuo – que permitiu, e até pareceu exigir, um retorno
4 – Teoria literária hoje
às questões estéticas sob um novo formato. O que às vezes é chamado de
“novo formalismo” ou “novo esteticismo” denota uma atenção renovada à
forma literária e artística no contexto dos desenvolvimentos teóricos que
pareciam ter comprometido ou tornado reacionária a estética tradicional
e as abordagens tradicionais da forma literária. Sem estética, argumenta o
teórico francês Jacques Rancière, não há arte: sem valores ou perspectivas
especificamente estéticas, a chamada arte irá misturar-se a todo o resto,
em um mar de objetos de consumo, poderíamos dizer. Um entendimento
95
8
Para uma crítica ideológica da estética, ver Eagleton (1990).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 95 21/03/16 14:11


discreto da arte é necessário para enquadrar as coisas como arte e para
manter o seu caráter distintivo. Da mesma forma, as obras literárias não
são apenas linguagem, mas produtos de práticas especificamente literárias
e sistemas de convenções que precisam ser compreendidos: como funciona
a métrica poética, por exemplo? Embora a literatura seja um produto e
uma prática social, entrelaçada com a ideologia, ela coloca para os críticos
e demais pensadores, em última instância, a questão da especificidade dos
objetos literários: há características distintivas das obras literárias e da
experiência com as obras literárias, ou isso é uma ilusão? Como deveríamos
conceber a invenção literária ou artística? Há um interesse na singularidade
da obra literária como um evento particular, na forma como as obras podem
revelar um mundo. Que tipo de papel a forma literária desempenha nos
efeitos que a literatura alcança? As pessoas falam, portanto, de um “novo
formalismo” ou um “retorno à estética”.9
Jacques Rancière tem sido particularmente importante no sentido
de inverter a crítica de que a estética é elitista. A estética ocidental, o que
Rancière (2009) chama de “regime estético”, substituiu no início do século
XIX o que ele chama de “regime representativo”, herdado de Aristóteles,
um regime baseado nos gêneros literários e artísticos e estruturado sobre
regras relativas aos temas apropriados e inapropriados para a arte e para
determinados meios de representação. No final do século XVIII, na época
da Revolução Francesa, essas regras foram modificadas – a partir de
então, qualquer coisa poderia ser objeto da arte ou da literatura. Victor
Hugo escreveu que ele havia colocado um gorro revolucionário – “un
bonnet rouge” – no velho dicionário: já não havia mais palavras nobres ou
palavras desprezíveis. Conforme Rancière tem insistido em nos lembrar, a
revolução romântica na literatura e na arte foi um projeto democratizante,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

levando à ruptura com os vínculos entre arte e aristocracia, à fundação dos


museus e aos vários projetos de educação estética. O campo da Teoria está
definitivamente vivenciando um retorno à estética.
Hoje, as questões de estética e democratização relacionam-se com o
tema das novas mídias. O mundo das novas mídias digitais, do hipertexto e
dos jogos de computador propõe novas questões estéticas: a passagem de uma
cultura impressa para uma cultura eletrônica terá repercussão no conceito
de literatura e, portanto, na teoria literária? A noção de texto literário como
96
9
Ver Attridge (2004); Levinson, (2007) e Loesberg (2005).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 96 21/03/16 14:11


um artefato verbal completo pode mudar, uma vez que a forma eletrônica
transforma os textos em instâncias potencialmente mutáveis. Katherine
Hayles (2005) observa que, enquanto a literatura sempre funcionou
como uma tecnologia voltada para mudar a cognição do leitor, nos novos
sistemas eletrônicos a retroalimentação permite que diferentes níveis de
interação entre textos e leitores continuamente informem e mutuamente
determinem uns aos outros, modificando os textos à medida que os leitores
realizam sua leitura. Nos textos eletrônicos, as palavras e imagens podem
realmente mudar, por meio de algoritmos ou programas que criam um
número infinito de recombinações possíveis. Estamos acostumados a dizer,
da grande literatura, que o texto sempre nos reserva surpresas, de modo
que os leitores costumam encontrar coisas novas nele. Os textos eletrônicos
podem tornar literal (ou talvez banal) essa condição. De modo ainda mais
significativo, eles podem conduzir a uma nova percepção da obra literária
como um instrumento ou jogo a ser jogado.
Se, como resultado de tais desenvolvimentos, a literatura passar a
ser vista menos como um texto fixo e mais como um evento, uma instância
específica de interação singular com um leitor ou público, isso pode exigir
uma avaliação estética que explore o valor potencial de diversos programas
ou sistemas interativos. Assim, os estudos da performance podem assumir
uma nova centralidade nos estudos literários, ao passar a tratar os textos
não como signos a serem interpretados, mas como performances cujas
condições de possibilidade e de sucesso devem ser elucidadas.10
Mencionei seis desenvolvimentos diversos, sem uma hierarquia
particular ou uma direção geral clara. Eu diria, no entanto, que há uma
percepção crescente no campo da teoria de que estamos num mundo
interdependente e precisamos pensar sobre a relação entre a teoria ocidental
4 – Teoria literária hoje
e as teorias literárias e culturais de outros lugares. A teoria literária é vista
no Ocidente como uma coisa ocidental, embora outras culturas tenham
elaborado abordagens literárias bem desenvolvidas antes que o Ocidente,
e um dos grandes desafios para o futuro é o de trabalhar as relações entre
a teoria ocidental e outras abordagens. Poderíamos imaginar que o tipo
de movimento que constituiu a teoria no Ocidente nas décadas de 1970 e
1980 irá se repetir numa escala global. Alguns discursos de outras partes do
mundo serão considerados esclarecedores, desafiarão o senso comum local,
97
10
Ver Schechner (2006).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 97 21/03/16 14:11


talvez, e serão incorporados e desenvolvidos, enquanto outros, não. Assim
como a teoria no Ocidente aprendeu muito com as outras disciplinas, a
teoria em cada país pode assimilar e desenvolver possibilidades teóricas
de outros lugares. Aconteça o que acontecer, estou convicto de que
continuaremos a ter uma atividade teórica muito ativa e extremamente
envolvente – a atividade da teoria literária.

Referências
ALTMAN, Rick. A Theory of Narrative. New York: Columbia University Press,
2008.
ATTRIDGE, Derek. The Singularity of Literature. New York: Routledge, 2004.
ATTRIDGE, Derek; ELLIOT, Jane (Ed.). Theory after Theory. London: Routledge,
2010.
BROWN, Laura. Homeless Dogs & Melancholy Apes. New York: Cornell
University Press, 2010.
BUELL, Lawrence. Writing for an Endangered World: Literature, Culture, and
Environment in the U.S. and Beyond. Cambridge: Harvard University Press,
2001.
CARLACO, Matthew. Zoographies: The Question of the Animal from Heidegger
to Derrida. New York: Columbia University Press, 2008.
CULLER, Jonathan. Critical Paradigms. PMLA, v. 125, n. 4, Oct. 2010.
CULLER, Jonathan. Literary Theory: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford
University Press, 1997.
CULLER, Jonathan. Literary Theory: A Very Short Introduction. Revised edition.
Oxford: Oxford University Press, 2011.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

DERRIDA, Jacques. The Animal That Therefore I Am. Trad. David Wills. New
York: Fordham University Press, 2008.
EAGLETON, Terry. The Ideology of the Aesthetic. Oxford: Blackwell, 1990.
FLUDERNIK, Monika. An Introduction to Narratology. London: Routledge, 2009.
FLUDERNIK, Monika. Towards a ‘Natural’ Narratology. London: Routledge,
1996.
GARRARD, Greg. Ecocriticism. London: Routledge, 2004.
HAGGLUND, Martin. Radical Atheism: Derrida and the Time of Life. Stanford:
98 Stanford University Press, 2008.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 98 21/03/16 14:11


HARAWAY, Donna. When Species Meet. Minneapolis: University of Minnesota
Press, 2007.
HARAWAY, Donna. A Cyborg Manifesto. In: HARAWAY, Donna. Simians,
Cyborgs and Women. New York: Routledge, 1991.
HAYLES, N. Katherine. How We Became Posthuman. Chicago: University of
Chicago Press, 1999.
HAYLES, N. Katherine. My Mother Was a Computer: Digital Subjects and Literary
Texts. Chicago: University of Chicago Press, 2005.
HEARNE, Vicki. Adam’s Task. New York: Knopf, 1986.
HEISE, Ursula. Sense of Place, Sense of Planet: The Environmental Imagination of
the Global. New York: Oxford University Press, 2008.
HERMAN, David. Basic Elements of Narrative. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009.
HERMAN, David. Story Logic: Problems and Possibilities of Narrative. Lincoln:
University of Nebraska Press, 2002.
LEVINSON, Marjorie. What is new formalism? PMLA 122.2, p. 558-569, March
2007.
LOESBERG, Jonathan. A Return to Aesthetics. Stanford: Stanford University Press,
2005.
MILLER, J. Hillis. For Derrida. New York: Fordham University Press, 2009.
RANCIÈRE, Jacques. Aesthetics and its Discontents. Cambridge: Polity Press,
2009.
SCHECHNER, Richard. (Ed.). Performance Studies: An Introduction. New York:
Routledge, 2006.
WOLFE, Cary. What is Posthumanism? Minneapolis: University of Minnesota
Press, 2010.
WOLFE, Cary. (Ed.). Zoontologies: The Question of the Animal. Minneapolis:
University of Minnesota Press, 2003.
4 – Teoria literária hoje
YEAGER, Patrícia. Sea Trash, Dark Pools, and the Tragedy of the Commons.
PMLA 225, May 2010.

99

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 99 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 100 21/03/16 14:11
5

Teoria e software: reflexões


sobre a divisão de trabalho
nas Letras ontem e hoje

Márcio Seligmann-Silva

Toda teoria é filha de depuração feita a partir de fatos mais ou menos


concretos. É, de certa forma, software derivado do hardware em que se
funde natureza e cultura. A teoria da arte nasce de certas obras, e o leitor
de teoria da literatura pode com certa facilidade identificar a que tradição
determinada teoria diz respeito. Teoria é abstração feita a partir de obras que
de algum modo são exemplares ou canônicas. Na teoria procura-se articular
fenômenos singulares a certas constantes, sejam elas estruturais às obras,
ou a certos contextos. Se retomo isso que parece evidente para qualquer
pensador de humanidades é porque muitas vezes não consideramos que
a mudança de cânone deve, ou deveria, implicar se não em mudanças de
teoria(s), ao menos em sua revisão radical. A teoria estabelece um horizonte
de leitura reproduzindo horizontes passados. Ela como que projeta para
frente estruturas lidas (e projetadas) no passado. Ela tem uma tendência
a repetir o cânone e a fazer com que o reafirmemos. Em resumo: a teoria
tende a ser reprodutora e conservadora. O caso paradigmático da Poética de
Aristóteles não só delimitou um espaço para se pensar a tragédia, a epopeia
e outros gêneros de sua época, como delimitou um conjunto de obras e

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 101 21/03/16 14:11


autores que já eram (e foram reforçados novamente por Aristóteles como
sendo) de certa maneira canônicos, bem como deduziu regras e estabeleceu
critérios e modos de julgamentos das obras. Se até hoje consideramos o
Édipo Rei de Sófocles uma tragédia modelar, isso comprova não só a força
da obra de Sófocles, mas também do trabalho de Aristóteles como grande
pai não só da teoria literária, mas de toda a estética.
Do Renascimento ao Classicismo de um Boileau o modelo aristotélico
imperou. Se no início do século XVIII, em autores como Dubos, surge a
estética do gênio, depois entronizada pelo movimento Sturm und Drang,
com sua valorização da originalidade e da ruptura, esse novo movimento,
que culminou com as poéticas do romantismo, apenas fez com que a teoria
assumisse um novo ritmo, mais acelerado, mas não menos conservador.
A lógica das artes passa a ser uma lógica do choque, da ruptura e da
novidade, que vai ser respondida por teorias que pensam o ser efêmero
das artes (como em Baudelaire e, antes dele, em Friedrich Schlegel). Mas
nem por isso novos cânones deixam de se construir. Sobretudo tendo-se
em vista que as artes, com grande destaque para a literatura, passam a ter
no século XIX um papel fundamental nas guerras nacionalistas, ou seja,
elas passam a ser elementos simbólicos importantes tanto na construção
do indivíduo moderno (burguês, mas não só) como também do discurso
de estabelecimento e de autoafirmação do nacional. É verdade, no entanto,
que ainda para autores-chave na teoria estética, como Baumgarten e Kant,
o modelo ainda era o antigo clássico. Mas, a literatura que em um autor
como Goethe ainda se afirmava de um modo transnacional, passa, com o
romantismo tardio, a ser cada vez mais nacionalista. Herder, um dos grandes
mentores intelectuais de Goethe, oscilou entre um nacionalismo inicial e
um cosmopolitismo no final da vida. De 1766 em diante ele se dedicou a
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

traduzir e compilar obras da tradição europeia, ou seja, já em Herder e,


depois, com mais afinco no primeiro romantismo alemão, a tradução serve
de potente alavanca em direção ao plurilinguismo e ao diálogo entre as
culturas. Tratava-se então de se traduzir não ao “modo francês” (no modelo
das belle infièle), ou seja, eliminando as diferenças e submetendo o outro à
batuta da cultura de chegada. A noção de Weltliteratur de Goethe pode ser
vislumbrada nessa conversa com seu secretário Johann Peter Eckermann:

102 Cada vez mais me convenço [...] de que a poesia é uma propriedade
comum à humanidade, que por toda a parte e em todas as épocas

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 102 21/03/16 14:11


surge em centenas e centenas de criaturas. [...] Apraz-me por isso
observar outras nações e sugiro a cada um que faça o mesmo. A
literatura nacional não significa grande coisa, a época é da literatura
mundial e todos nós devemos contribuir para apressar o surgimento
dessa época. (31 de janeiro de 1827).

Kestler (2010), que cita essa mesma passagem, comenta:

Goethe denomina de Weltliteratur o que atualmente chamamos de


intercâmbio e comunicação intercultural, nos quais se manifestaria
o que há em comum entre as diferentes culturas, sem que se apague
a individualidade que se baseia em diferenças nacionais. No sentido
prático, Weltliteratur se refere à tarefa dos escritores e poetas, que
devem fomentar o intercâmbio intelectual através de traduções,
resenhas, discussões e encontros pessoais.

É interessante que aqui vemos um modelo ainda como que


representacionista, que se baseia em identidades nacionais e na sua
pretensa “representação”, mas que ao mesmo tempo fomenta o diálogo e a
abertura. O autor, por assim dizer, representaria a nação; mas Goethe tem
o mérito de ter afirmado que “A literatura nacional não significa grande
coisa” (KESTLER, 2010): e isso era muita coisa para sua época de despertar
nacionalista.
As teorias da literatura (com raras exceções), para além de serem
eurocêntricas, são também nacionalistas, partem de cânones nacionais.
Esse movimento é tão forte que ainda hoje boa parte do que é feito em
pesquisa nas áreas de Letras de cada país tem a ver com uma espécie de
abordagem “cultual” dos “grandes autores” pátrios. Se na Europa a teoria
da literatura e das artes vivera desde o renascimento uma querelle des
anciens et des modernes, por outro lado, com os conflitos nacionalistas, 5 – Teoria e software

deflagrados sobretudo a partir das guerras napoleônicas, passa-se a viver


uma querela entre as nações. Já se aceitava que os modernos eram capazes
de não só competir com os antigos, mas até de ultrapassá-los. Agora a
querela passara a ser no presente, entre as literaturas/culturas nacionais. Se
Gottsched, no âmbito da cultura alemã, em meados do século XVIII, ainda
seguia um modelo francês, já Klopstock, uma geração depois, buscava
os tons germânicos da literatura. Com o romantismo essa visão agônica-
nacionalista das artes e literatura se aprofundou. A teoria literária passou a 103

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 103 21/03/16 14:11


ser também uma teoria da nação, do próprio, da ontotipologia. Dessa época
do romantismo data também a fundação dos departamentos de filologia
nacionais junto com muitas das universidades europeias. A instituição
universitária, intimamente ligada ao poder político, econômico e cultural,
vai ser uma verdadeira máquina de criação, afirmação e propaganda do
cânone nacional.
Mas antes da imposição desse modelo fechado e autoritário, o
romantismo de Iena apresentou uma concepção de romantização do
mundo que pensava a teoria como uma espécie de medium-de-reflexão,
na expressão consagrada por Walter Benjamin. A intensa produtividade
intelectual realizada pelos românticos alemães em diálogo crítico com os
pensadores do Iluminismo justificou, já em meados da década de 1790
na França, descrições do “célebre Kant” como um “homem que produziu
na Alemanha, nos espíritos, uma revolução semelhante àquela que os
vícios do Antigo Regime fizeram ocorrer [...] na França” (Le Moniteur,
13 Nivôse IV [3/1/1796]; apud M. ZINGANO, 1989, p. 5). De resto, foi
o abalo na tradição que a Revolução provocou que abriu a possibilidade
para a revolução intelectual. A Revolução, além disso, já trazia em si
mesma a figura da inversão da hierarquia entre as ideias e a efetividade,
e esse aspecto foi retratado em seguida por Hegel nas suas famosas
Preleções sobre a Filosofia da História com a seguinte imagem: “Desde que
o sol encontra-se no firmamento e os planetas giram em torno dele, isso
nunca fora visto: que as pessoas se perfilassem sobre a cabeça, ou seja,
sobre as ideias [Gedanken], e construíssem a efetividade segundo elas”
(apud MÄHL, 1985, p. 275). Mas, em termos das concepções teóricas que
aqui interessam, essa revolução era na verdade vista de diferentes modos.
Podemos pensar na “revolução” que reage às mudanças com a afirmação
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

do próprio, típica do romantismo conservador e reacionário, assim como


lembrar o conservadorismo mencionado da academia, mas também
recordar justamente o grupo de Iena com sua teoria aberta da identidade,
que já antecipa muitas intuições do pós-estruturalismo. Podemos ler nos
fragmentos de Schlegel uma verdadeira revolução na teoria da identidade
que foi muito além do elogio conservador da imitação dos Antigos. Essa
teoria da identidade possui uma fantástica atualidade, que não foi de modo
algum ainda recebida com a intensidade que mereceria e também deve
104 servir de antídoto ao romantismo conservador. Essa teoria foi descrita

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 104 21/03/16 14:11


por Walter Benjamin (1993 [1919]) sob o signo da Reflexão, ou seja, da
concepção do “eu” como um jogo de constante autodivisão, diferenciação
e síntese. Essa estrutura reflexiva é típica tanto da concepção de formação
como constante saída de si (ou seja, como tradução de si mesmo), como
também de conceitos como o de ironia, o de romance (enquanto mistura e
forma estruturante de todos os gêneros na modernidade). O que é digno de
nota é que com essa forte teoria autopoietica (autoengendradora) do ser e,
portanto, da literatura e da cultura de um modo geral, o “ser sem caráter”
passou a ser visto como um estado indistinto do “ter caráter”. A ontologia
foi substituída por uma teoria do ser como jogo infinito de construção,
de autodiferenciação de si. Se Herder ainda pôde escrever, lamentando-se,
nas suas Cartas “Nós alemães chegamos tarde demais. O caráter da nossa
poesia é imitação”, para o Schlegel dos anos 1798-1799 este “chegar tarde
demais” seria, na verdade, o estado natural de toda cultura. Toda cultura
e toda identidade individual nasce da imitação. Assumir isto implica se
libertar dos grilhões da ideia de “próprio” e de “autêntico” com relação a
uma cultura. Trata-se aqui de destacar essa mímesis não repressora, que
nem submete o objeto mimetizado, nem reduz o sujeito a resultado de seu
“original”, nem a uma mimese paranoica, derivada de um medo do outro.
Antes, trata-se de uma visada panmimética criativa da cultura, que vê na
mimese um ato também de desvio (re)criador.
As consequências da visão primeiro-romântica do ser como infinita
oscilação entre ser e não ser ou ainda, entre Eu e Não Eu só poderia
culminar em uma concepção da cultura como espaço de circulação e
multifecundação entre as diversas culturas. Assim como para Schlegel não
se pode pensar uma obra independentemente de todas as obras do mesmo
autor e da intertextualidade que lhe é essencial, do mesmo modo, para ele
não se pode pensar uma língua/cultura separadamente da outra. Portanto, 5 – Teoria e software
também para essa teoria primeiro-romântica, hierarquias decantadas há
séculos deveriam ser não só invertidas, como superadas. Uma delas é a
que prioriza o “original” diante da sua “tradução”. “Traduzir”, escreveu
Novalis, numa carta a A. Wilhelm Schlegel de novembro de 1797 sobre a
sua tradução da obra de Shakespeare, “é tanto poetar como produzir obras
próprias – e mais difícil, mais raro. Afinal de contas, toda poesia é tradução”
(NOVALIS, 1978-1987, p. 648). E ele ainda arrematou, retomando o tema
da competição entre as nações: “Eu estou convencido que o Shakespeare 105

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 105 21/03/16 14:11


alemão é presentemente melhor que o inglês” (Novalis, 1978-1987, p. 648).
A paz perpétua, que Novalis (manifestando a faceta conservadora de seu
pensamento) vislumbrara na Europa católica, não valeria mais na relação
agônica entre as línguas. Mas com a diferença fundamental de que esta
“guerra” é produtiva e gera cultura: não é propriamente uma guerra, mas
um carrefour, uma visão lúdica da relação entre as línguas/culturas que as
vê como participantes de um jogo no qual todas ganham em Spielraum,
âmbito de criatividade. A visão romântica da cultura europeia – e também
mundial, se pensarmos nos estudos de Schlegel do sânscrito – mesmo
em meio às guerras e às utopias da Paz Perpétua, reservou um caminho
eficaz para o diálogo transformador entre as culturas no dispositivo
constantemente “insurgente” e “revolucionário” que é a tarefa do tradutor.
Mas essas ideias românticas permaneceram como que recalcadas.
Até Benjamin retomá-las e relê-las nesse diapasão desconstrutor, o que
imperou foi o modelo nacionalista. Só após a Segunda Guerra Mundial que
esse modelo começou a enfrentar críticas de peso sendo que, até então,
esse elemento nacionalista era tido como natural. Se autores como Walter
Benjamin e os formalistas russos destoavam desse tom nacionalista na
primeira metade do século XX, nem por isso eles ampliaram o cânone
abarcado pela crítica e teoria literárias. É verdade que os formalistas
trabalham com obras de diversos idiomas europeus1 e que Benjamin,
a partir de meados dos anos 1920, paulatinamente abandonou seu
germanismo em direção à literatura e cultura francesas. De um modo geral,
eles não conseguiram olhar mais além do horizonte europeu.2 O culto do
“primitivismo”, presente em artistas como Braque, Picasso, Nolde e Gauguin
(primitivismo esse que em si era também exotizante e eurocêntrico, mas
que ao menos serviu para forçar a visão da estética para além da tradição
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

predominante do “belo” do classicismo europeu), praticamente deixou


intocada a teoria literária. O outro também aparece na maioria das vezes na
literatura como o exótico, que serve para afirmar o próprio. Estudos como
1
Mas essa escola, assim como a escola estruturalista, não superou o eurocentrismo, apesar de
não ser nacionalista, e só o Derrida tardio tenta se livrar desse eurocentrismo.
2
Uma exceção na obra de Benjamin foi a bela resenha que ele fez de uma exposição de pinturas
chinesas que ele observou na Bibliothèque Nationale de Paris em 1937. No compte rendu dessa
exposição, ele destacou a concepção eminentemente escritural que o proprietário da coleção,
J.-P. Dubosc, possuía dessa pintura; concepção essa que ele talhara à luz dos escritos de Paul
106 Valéry (BENJAMIN, 1972, v. 4, p. 603). Benjamin desenvolve aí uma interessante teoria da
caligrafia chinesa como fusão de imagem pintada e escrita.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 106 21/03/16 14:11


o de Ernst Fenollosa sobre a escrita chinesa, influenciaram tanto Pound
como Haroldo de Campos e serviram para abrir o cânone e a teoria. Esse é
um exemplo tardio de tendências que quero defender neste trabalho.
Nas últimas décadas os estudos culturais (Raymond Willians,
Stuart Hall etc.) e pós-coloniais (Gayatri Chakravorty Spivak, Homi
Bhabha etc.) fazem parte de um movimento complexo de globalização
onde ocorre tanto uma universalização do modelo europeu vindo do
Iluminismo, numa última investida no sentido de “iluminar” todos os
recantos do planeta com a razão europeia, como também a resistência a
essa homogeneização, que normalmente acaba afirmando o “subalterno”
novamente como uma identidade fechada. As tentativas de democratizar
e de pluralizar a cultura, na maioria das vezes, vêm sob a chancela da
indústria cultural (ou da indústria cultural acadêmica), e se trata mais de
uma estereotipação e fabricação do “outro” em pílulas palatáveis do que
de uma desconstrução verdadeira dos discursos representacionistas e dos
defensores de identidades fechadas. A abertura do cânone até agora, dentro
dos referidos movimentos acadêmicos contemporâneos, tem servido
para mudar o cânone e a teoria, mas essa visão cristalizada da identidade
ainda é a predominante. Da mesma forma, os discursos que tendem a ser
mimetizados e traduzidos ainda são produzidos nas antigas metrópoles
econômicas. Ou seja, a esperada multipolaridade ou, melhor, a explosão
dos discursos em sua articulação político-econômica ainda não aconteceu.
A geografia que divide o mundo entre produtores e receptores de teoria
e os movimentos no sentido norte-sul não foram ainda suficientemente
abalados. Esse é o próximo passo que precisa ser feito.
Precisamos romper a velha divisão de trabalho: fornecedores de
matéria-prima X produtores de teoria e software, que agora reproduz o
mapa da economia mundial. Não se trata apenas de expandir o cânone 5 – Teoria e software
para além do eurocentrismo, mas de criar novas teorias. Elas devem ter
como um de seus desideratos uma crítica radical da razão eurocêntrica/
iluminista, responsável, graças a seu conceito fatal de identidade, por uma
recaída constante no fundamentalismo. A razão iluminista é eminentemente
ontotipológica. Criticá-la, no entanto, não implica substituí-la pelo
irracionalismo ou pela desrazão, mas sim procurar sempre radicalizar o
movimento da crítica. Devemos abrir espaços para a relação dialógica dos
atores culturais e romper a circulação do sempre igual. A permanência 107

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 107 21/03/16 14:11


desse modelo eurocêntrico na teoria (especificamente no campo das
Letras) se deve não apenas por conta de uma tendência histórica à inércia
e ao conservadorismo da teoria, que vimos acima, mas por outros motivos
bem concretos como:
a) Meios de financiamento e de divulgação ainda concentrados nas
antigas regiões metropolitanas;
b) Manutenção dos papeis na divisão de trabalho via:
– Manutenção de um cânone eurocêntrico;
– Autopreconceito das periferias, onde, como agravante,
muitas vezes ainda impera um positivismo que vê a teoria
com desconfiança;
– Competição acirrada nas Universidades “centrais” que
mantêm a luta pelo domínio teórico.
O momento agora é o de batalhar para que tanto o hardware
cultural como seu software sejam pensados de modo multipolar.
O modelo de diálogo cultural como um encontro de agentes culturais no
qual se dá a diferenciação constante de si e do outro deve orientar nossa
visão da dinâmica cultural, e substituir a noção de encontro de Gestalten
(configurações) pré-formadas e fechadas que contribuem cada uma com a
sua pretensa “originalidade”. Essa visão móvel do ser tem que ser afirmada de
modo mais radical tanto nas “metrópoles” como nas “periferias”. Em ambos
os casos ainda predomina uma visão nacionalista e localista que, por via
de regra, está reproduzindo estruturas fascistas de identidade: outrofóbicas
e potencialmente outricidas. Essa visão móvel deve, portanto, ir além dos
muros das universidades e se tornar patrimônio de uma humanidade
pós-nacional. Para isso, hábitos tradicionais da teoria devem também ser
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

abalados e superados, como seu tradicional logocentrismo e grafocentrismo.


A virada icônica permite expandir a visão de literatura e do literário para
além da tradição do livro. Toda uma série de dicotomias tendem a ser
abaladas com esse avanço da visão plástica (móvel) da identidade como
fluxo contínuo, como a dicotomia entre metrópole e periferia, o dentro e o
fora, o belo e o feio, o superficial e o profundo, o nacional e o estrangeiro
etc. Todos que quiserem poderão ser produtores de software, poderão,
para lembrar um termo caro a Vilém Flusser, ser programadores dessa
108 nova sociedade. As diferenças não só persistirão, como se propagarão em
uma escala nunca vista: mas sem que isso resulte em construções de novas

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 108 21/03/16 14:11


fronteiras impenetráveis. Fronteiras, sim, mas móveis, por onde hard- e
softwares possam penetrar e se multiplicar, desconstruindo sempre as novas
ideologias e poderes que reiteradamente – ao que tudo indica – insistimos
teimosamente em reproduzir. A teoria deve ser a “super-visão”, a abertura
de nosso olhar crítico contra essas cristalizações. Caso contrário, estaremos
nos condenando a repetir os terríveis erros da razão iluminista.
Para concluir estas reflexões um tanto nômades sobre a teoria nas
Letras (mas que valem, pars pro toto, para as humanidades no mundo de
hoje), proponho que retomemos o capítulo “Nossa comunicação” do livro
Pós-história, de Vilém Flusser (2011). Flusser desenha nesse livro sua visão
de um mundo que adentra a pós-história e tenta apontar maneiras de evitar
que essa nova situação seja cooptada e orquestrada por pensamentos de
cunho fascista. Como teórico da comunicação que era, nesse capítulo ele
se dedica a descrever essa situação do ponto de vista da comunicação.
Fundamentais no seu raciocínio são os conceitos de diálogo e de discurso
(circulação), que ele diferencia da seguinte maneira:

[...] a comunicação tem dois aspectos diferentes. O aspecto produtivo


de informação, e o aspecto cumulativo. A produção de informações
não é criação “ex nihilo”: informações novas são produzidas
por síntese de informações disponíveis. Tal método sintético é
chamado de “diálogo”. A acumulação de informações se dá graças à
transmissão de informações rumo a memórias (humanas ou outras),
nas quais a informação é depositada. Tal método distributivo é
chamado “discurso”. Todo discurso pressupõe diálogo, porque
pressupõe informação elaborada dialogicamente. Todo diálogo [...]
pressupõe discurso, porque pressupõe recepção de informações a
serem sintetizadas. (FLUSSER, 2011, p. 72-73, grifo do autor).

Assim, toda a cultura seria “tecido comunicativo”, sendo que deve 5 – Teoria e software

existir, segundo Flusser, um equilíbrio entre diálogos e discursos, caso


contrário a sociedade pode estar em perigo. O Ocidente em sua história,
que consiste na criação de estratégias para produzir e acumular novas
informações, teria desenvolvido dois tipos de diálogo: circulares (exemplos:
mesas-redondas, parlamento) e em redes (opinião pública, telefonia); e
quatro tipos de discurso: teatrais (o mais antigo, vem da figura do patriarca
que transmite mitos/narrativas, mas prevê contestação e revolução; 109
exemplos: aulas, concertos); piramidais (surge ligado a sociedades mais

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 109 21/03/16 14:11


complexas; o emissor se torna inacessível ao receptor, bloqueia o diálogo
e funda a tradição; exemplos: empresas, partidos, exércitos, igrejas);
árvores (surgem no Renascimento e tentaram reintroduzir o diálogo, mas
acabam gerando códigos só para especialistas; exemplos: ciência, artes);
anfiteatrais (marcam a atualidade e vão traduzir os códigos para discursos
simples e pobres; exemplos: rádio, imprensa). O autor diagnostica hoje
um predomínio dos discursos sobre os diálogos. Sob um bombardeio de
discursos, afogamos na redundância. Os discursos anfitetrais são baseados
em aparelhos de comunicação de massa. Se o discurso em árvore era linear,
o desses aparelhos é multidimensional, superam a estrutura da história e são
pós-históricos. Eles engolem a história e ejetam pós-história; como caixas-
pretas, traduzem eventos em programas. Os discursos teatrais e piramidais
estão em crise. Benjamin já detectara a crise da narrativa tradicional como
típica da modernidade; Flusser detecta na pós-história a crise de todas
instituições “teatrais” (escolas, faculdades, teatro etc.) e piramidais. Elas se
tornaram incompatíveis com o novo tecido comunicacional. Já os discursos
em árvore se proliferam e procuram se acoplar aos discursos anfiteatrais.
Estes últimos programam agora diálogos em rede, diferentemente dos
discursos em árvore, que tendem ao código que bloqueia o diálogo.
“O anfiteatro exige que a informação irradiada seja transformada
dialogicamente em mingau amorfo, em ‘opinião pública’, a fim de servir
de feedback aos aparelhos emissores. A meta dos diálogos em rede não é a
produção de informação nova, mas o feedback” (FLUSSER, 2011, p. 77-78,
grifo do autor). Hoje a democracia estaria impossibilitada, pois ela depende
de um diálogo produtor de informação, tal como se tem, por exemplo, no
teatro. “A sensação da solidão na massa é consequência disto. A democracia
não está no programa” (FLUSSER, 2011, p. 78).
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Flusser conclui que a ciência deve ser reformada em sentido


dialógico. Para isso, o tecido comunicológico da sociedade precisa ser
alterado radicalmente. Trata-se de uma tarefa antes de tudo política. Os
diálogos circulares precisam ser reinstaurados para podermos falar de uma
verdadeira república. A circulação anfiteatral e o diálogo em rede, para
Flusser, bloqueiam os diálogos circulares.

Para que se faça nova teoria de conhecimento intersubjetivo, é


preciso que se disponha de espaço para a intersubjetividade. A
110
crise atual da ciência deve ser, pois, vista no contexto da situação

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 110 21/03/16 14:11


comunicológica da atualidade. Enquanto não houver espaço para a
política, para diálogos circulares não elitários [sic; elitistas], a crise
da ciência se apresenta insolúvel. (FLUSSER, 2011, p. 79).

De minha parte, acho que hoje, cerca de trinta anos após Flusser
ter escrito essas ideias, (a primeira edição desse livro é de 1983) podemos
pensar em um processo de dialogização republicana que se dará tanto nas
redes como em um processo de “despiramidização” da cultura atual. Essas
pirâmides são calcadas não mais apenas nas instituições detectadas por
Flusser, mas nos Estados ou blocos. Um modo radical de diálogo em rede
(mas que não se reduza ao simples feedback, como diagnosticou Flusser com
razão) e circular, ou seja, não hierarquizado e verdadeiramente integrador
e plural, é um horizonte possível com os meios de que já dispomos. Eles
precisam ser reapropriados e realocados no sentido da democratização e
da res-pública. O estabelecimento de uma verdadeira circulação, tradução
de si e do outro em redes dialógicas, essa é a tarefa que temos diante de
nós. No âmbito teórico, essa revolução implica que os discursos serão
constantemente retroalimentados por diálogos circulares e em rede. Essa
multipartição permitirá também uma politização da teoria, que deverá ser
plasmada a partir das questões prementes em cada local. O diálogo será
alimentado pela diferença (entre locais) e os discursos não mais serão
impostos em via de mão única e desprovidos de relação com as questões
locais. Esse panorama dinâmico do diálogo acadêmico deve prever também
uma maior porosidade com outros discursos. Muitas resistências, derivadas
de hábitos de pensamento, mas sobretudo de aspectos institucionais e
de poderes arraigados, terão que ser vencidas. Mas, de certa forma, a
sobrevivência do pensamento não fascista depende também de encararmos
essa tarefa. Esse novo design e prática do diálogo devem ser urgentemente
implementados. 5 – Teoria e software

Referências
BENJAMIN, Walter. O conceito de crítica de arte no romantismo alemão. Trad.
pref. e notas M. Seligmann-Silva. São Paulo: Iluminuras, EDUSP, 1993.
BENJAMIN, Walter. Gesammelte Schriften. TIEDEMANN, R.;
SCHWEPPENHÄUSER, H. (Ed.). Frankfurt: Suhrkamp, 1972. v. 4. 111

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 111 21/03/16 14:11


FLUSSER, Vilém. Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo:
Annablume, 2011.
KESTLER, Izabela Maria Furtado. O conceito de literatura universal em
Goethe. Cult, edição 130, 2010. Disponível em: <http://revistacult.uol.com.br/
home/2010/03/o-conceito-de-literatura-universal-em-goethe/>. Acesso em: 8 jul.
2012.
MÄHL, Hans-Joachim. Der poetische Staat. In: MÄHL, Hans-Joachim. Utopie-
forschung: Interdisziplinäre Studien zur neuzeitlichen Utopie, ed. Wilhelm
Voßkamp, Frankfurt: Suhrkamp, 1985. v. 3.
NOVALIS, Schriften. Werke, Tagebücher und Briefe Friedrich von Hardenbergs,
Stuttgart: Kohlhammer Verlag, 1978-1987.
SELIGMANN-SILVA, M. Para uma filosofia do exílio: A. Rosenfeld e V. Flusser
sobre as vantagens de não se ter uma pátria. In: JARDELINO, Murilo (Org.).
A festa da língua: Vilem Flusser. São Paulo: Fundação Memorial da América
Latina, 2010. p. 63-84.
ZINGANO, M. Introdução. In: Kant. À paz perpétua. Trad. M. Zingano. Porto
Alegre: L&PM, 1989. p. 5-19.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

112

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 112 21/03/16 14:11


6

Sem a imagem,
a vida seria impossível:
um trajeto sobre a recente
produção de Luiz Costa Lima

Aline Magalhães Pinto

Se na arte
– como tendencialmente
pensa o reflexo (wilderspiegler) realista –,
tudo fosse real,
ela seria realidade e não arte.
E se na arte
– conforme pensa a tendência
do ilusionismo criativista –,
nada fosse realidade, ela não seria nada
e portanto, tampouco, arte.
(Odo Marquard, “O Exílio da serenidade”)
Para Laise Araújo

6.1 Uma nota de advertência


A elaboração teórica do fenômeno literário, do discurso ficcional e da
experiência estética empreendida por Luiz Costa Lima (LCL) esteve sempre

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 113 21/03/16 14:11


atrelada a uma reflexão acerca do ambiente sociocultural e histórico em
que se insere. Em decorrência, o olhar perscrutador configurado por sua
teorização conduz à imagem em que se ressalta, no cenário nacional, uma
fraca disposição teórica que permeia não apenas os estudos literários, mas
antes se estende por todo o campo intelectual que se dedica às humanidades e
às artes. Nesse primeiro sentido, para Costa Lima, – e o recente ensaio “Nosso
país, será isso mesmo?” não deixa dúvidas –, o lugar da teoria dificilmente
obedece às fronteiras disciplinares, e tem como núcleo a pouca relevância
da questão intelectual para a sociedade brasileira (LIMA, 2013, p. 451-488).
A esse primeiro sentido que o lugar ocupado pela teoria atinge
em interlocução com os trabalhos de LCL, soma-se um segundo, que o
amplifica ao remetê-lo a um cenário em que a própria cultura ocidental
claudica. Essa amplificação faz ressoar o pano de fundo que envolve as
questões que se impõem à Teoria Literária e, para tocá-lo, não será ocioso
aludir ao sentido de cultura evocado por Lévinas para pensarmos a cultura
como uma abertura ao humano.
Para Lévinas, não devemos reduzir a cultura à apropriação da natureza
pelo homem (ciência & técnica) ou à manifestação humana no mundo
por meio da poesia e da arte. A cultura não é ultrapasse ou neutralização
da exterioridade senão que uma relação, uma abertura ao que nos é mais
estranho e desconhecido, mas paradoxalmente, mais próximo e “próprio”:
inevitavelmente humano. Precurstar sobre o lugar da teoria, nesse sentido,
será uma vez mais reivindicar essa abertura, na medida em que ela se faz
urgente (LÉVINAS, 1995, p. 206-208).
A obra de Luiz Costa Lima, construída ao redor da questão da
literatura e da teorização da ficcionalidade, pode ser compreendida
vinculada ao impulso de forçar a “abertura” ao inescapavelmente humano
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

e por isso se projeta em direção a uma teoria da cultura. Com efeito, como
aponta Sérgio Alcides, no posfácio à reedição de Mímesis: desafio ao pensa-
mento – livro que serve como inflexão e vetor desse rumo no pensamento
de LCL –, os estudos realizados pelo autor brasileiro durante a década de
1980 (O controle do imaginário: razão e imaginação no Ocidente; Sociedade
e discurso ficcional; O fingidor e o censor, no Ancien Régime, no Iluminismo e
Hoje), reunidos em 2007 na composição Trilogia do controle, mostraram as
maneiras pelas quais “os modos dominantes da razão ao longo dos tempos
114 modernos procuraram levantar barreiras aos potenciais disruptivos da

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 114 21/03/16 14:11


imaginação, uma instância não movida nem pelo entendimento nem pela
percepção sensória” (ALCIDES, 2014, p. 307-311).
Ainda acompanhando o preciso comentário de S. Alcides, percebemos
que, a partir da tematização do controle como algo mais que uma ferramenta
operatória, o pensamento e a reflexão de Costa Lima se alargam, alcançando
o questionamento do princípio de subjetividade moderno; as relações
entre tempo, verdade e história; os impasses postos a problematização da
experiência estética pela “sagração do indivíduo moderno”. Na base do
tratamento dado a todas essas questões, encontra-se a reconsideração do
desprestigiado conceito de mímesis. Por meio de uma reflexão teórica que
negocia com a tradição aristotélica e kantiana, Costa Lima desloca a ideia
clássica de mímesis, como articulação exemplar e a plenitude essencial da
natureza, passando a entendê-la como uma sistematicidade dinâmica que
mantém em tensão os vetores da “semelhança” e da “diferença” e que, na
modernidade, lança o sujeito para fora de si (ALCIDES, 2014, p. 307-311).
Nesse sentido, não menos filosófico do que histórico ou sociológico,
para Costa Lima, o exercício da crítica literária – a que se dedica desde
a década de 1970 – caminha ao lado da teoria e somente juntos se
tornam capazes de alcançar o traço expansivo-reflexivo constitutivo do
fenômeno literário. Para pensar as contribuições de Luiz Costa Lima para
a problematização do lugar da teoria literária, o propósito desse artigo
será – considerando a centralidade, em sua obra, da questão da mímesis –
apresentar, discutir e encadear alguns pontos de sua trajetória recente que

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


contribuem para um melhor entendimento dos processos de configuração
das imagens.1 Nossa hipótese, a que seguimos como a um farol, nos informa
que esses prolongamentos do pensamento de LCL vão em direção ao que
aludimos, com Lévinas, como abertura mediada ao humano, i.e., por meio
da construção ou engendramento de imagens.
1
Seguindo uma definição muito básica, uma imagem é uma “reprodução” mental de uma sensação
produzida a partir de uma percepção física. Evidentemente, o cárater desta “reprodução”
é problemático e problematizável. Seguimos a N. Frye, para quem a enorme variedade de
definições de imagem pode ser agrupada em três grupos: 1. Mental 2. Figuras do discurso 3.
Universo simbólico. Esta tipologia tem valor extremamente pontual, servindo apenas para
introduzir a posição de LCL a partir de um espectro mais amplo. Vale a pena marcar que, para
Frye, nenhuma das categorias propostas pode, de fato, ser tomada em separado das demais.
Acreditamos que as reflexões do autor brasileiro se referem às imagens produzidas na mente
pela linguagem e que provocam experiências e impressões em um “leitor”. Podemos, portanto,
situá-las no terceiro terreno identificado por Frye, isto é, no universo simbólico aberto pelos 115
artefatos verbais (FRYE, 1974, p. 363-366).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 115 21/03/16 14:11


Entendemos que Costa Lima tem conduzido suas reflexões como
expedições exploratórias às experiências e atividades discursivas que
conformam o ambiente cultural ocidental. O desdobramento daquilo
que Benedito Nunes (1999) havia chamado de “crítica da razão estética”,
transformou-se numa investigação sobre os mecanismos através dos quais
a sociedade ocidental se “comunica” e sobre os padrões de reflexividade
pelos quais é intencionada a relação entre o discurso e o que lhe escapa.
A discussão proposta retoma a questão da crise da representação
e a crítica movida ao entendimento da capacidade de representar como
possibilidade de constituir uma imagem mental absolutamente correta
do que se põe diante do sujeito. Contra essa concepção e em desvio à
propagada “morte do sujeito”, Costa Lima apresentara, em Mímesis: desafio
ao pensamento, a formulação da representação-efeito: imagem que não
desliga de si a resposta afetiva do sujeito observador. Com isso, está aberta
a distorções, desfigurações, deformações, diferenças. Não obedecendo
ao clássico confronto entre sujeito-objeto, as imagens produzidas pela
representação-efeito são como mola propulsora das reflexões que conduzem
a pensar a modernidade como um tempo que se abre aos homens de
maneira intransitiva, i.e, que interrompe o trânsito simbólico entre “Deus”,
o mundo e a criatura humana.
A investigação a respeito dessa obstrução dos canais simbólicos
de identificação e sobre a decorrente conformação dos mecanismos de
controle dirigidos sobre as expressões discursivas encaminha o pensamento
de Costa Lima, nos trabalhos publicados a partir do final da primeira
década do séc. XXI, à expansão do campo de incidência da mímesis. Ela
agora aparece, numa interlocução com autores como Herder, A. Gehlen,
H. Blumenberg, não mais endereçada somente à análise dos artefatos
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

verbais senão que como processo poiético que evidencia a plasticidade de


que se vale a espécie humana para compensar sua carência constitutiva
(“Mängelwesen”). Carência que se expressa na falta de um ambiente que
se possa chamar de fato “natural” ao homem, ela também está na base da
discursividade, na medida em que a comunicação é uma das esferas de
compensação dessa carência. Costa Lima tematiza esse traço antropológico
e sua importância para a construção dos sistemas de referências que regulam
as noções de verdade e ficção, enfatizando a presença de mediações em
116 todos os níveis da existência humana. Dando ênfase a essa fase da produção

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 116 21/03/16 14:11


do autor, nos focaremos no conjunto formado por O controle do imaginário
& a afirmação do romance (2009), A ficção e o poema (2012) e Frestas: a
teorização em um país periférico (2013), procurando encadear elementos
que permitam desenhar o contorno desse movimento.
No livro que inicia essa série, O controle do imaginário & a afirmação
do romance, Costa Lima parece disposto a retomar, por meio de análises
cuidadosas, a configuração da paradoxal posição do Ocidente em relação à
ficção, em que se misturam hostilidade e motivação, para daí compreender
a mímesis como o conceito que permite acessar a emulação de diferentes
modos discursivos. Mantendo o interesse em compreender a temporalidade
de um problema teórico, a conjugação entre o estudo da ambiência teórico-
conceitual e a análise crítica de Dom Quixote, As relações Perigosas, Moll
Flandres e Tristam Shandy, permite simultaneamente vislumbrar o que
seria uma teoria geral do controle e cobrir a lacuna – anunciada em Trilogia
do controle – acerca da emergência do romance moderno (LIMA, 2007,
p. 21).
Esse é o cenário em que desponta uma nota ao leitor. Encontrada
no terceiro item da primeira parte do livro – item destinado à conformação
do imaginário –, essa marca ou sinal avisa sobre uma tarefa que não será
cumprida. Em “Apenas uma advertência”, Costa Lima afirma que deveria vir
à fonte do imaginário para em seguida relacioná-la à questão do controle.
Deveria, mas não vai (LIMA, 2009, p. 110).
No lugar do que deveria ser feito, Costa Lima anuncia uma leitura

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


aprofundada do intrigante tratado aristotélico, De anima. A questão, ou
a brecha, que seguiremos, diz menos respeito ao significado desse desvio,
do que sobre o que decorre dessa sinuosidade. Nesse sentido, tentaremos
mapear o território discursivo em que se dá a elaboração de dois conceitos:
mímesis-zero e ficção externa, a partir da argumentação tecida ao redor de
dois topoi: phantasia e anamnese.2 Para tanto, recorre-se ao que se pode
chamar, junto a J-L. Chédin, de chave geral do possível, um “lugar teórico”
em que o pensamento se constrói como um ponto em que é permitido
discutir aquilo que, como algo que existe, está “aqui” realizado e “ali”

2
Parte dos argumentos desenvolvidos no presente artigo são encontrados em “Mímesis,
imaginação e torsão temporal” (PINTO, 2012, p. 45-58). Nós os retomamos aqui para proceder
sobre eles tanto revisão quanto um aprimoramento do que havia sido feito, representando
o trabalho empenhado individual e coletivamente, no âmbito do Grupo de Pesquisa/CNPq 117
“História Transdisciplinar dos Conceitos”.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 117 21/03/16 14:11


apenas potencial (CHÉDIN, 1997, p. 78-80). Esse protocolo permite a
compreensão dos procedimentos intelectuais pelos quais LCL, requisitando
Aristóteles, pode finalmente se distanciar para oferecer uma elaboração a
qual já não se pode mais tributar ao pensamento aristotélico, e tampouco
se deixa prender pelas amarras do cosmos grego.

6.2 Phantasia: desejo e movência


Partiremos, portanto, desse algo que foi feito em lugar de outra via.
Um caminho que nasce daquele que deveria ter sido seguido, mas não
foi. Num primeiro momento, a leitura do De anima se presta a sublinhar
uma vez mais os equívocos e desfigurações empreendidos pela tradição
que insistiu em aproximar mímesis e imitativo, imaginatio e semelhança,
problema já tratado anteriormente por Costa Lima no desenvolvimento do
controle do imaginário (Cf. LIMA, 2007, p. 25-81).
Todavia, argumenta Costa Lima, a leitura não pode se ater a esse
limite, dada a natureza enigmática do texto. De anima tematiza, mesmo
que sustentando certas incoerências, o correspondente ao aparato psíquico
humano por meio de uma abordagem filosófica e física. Ao fazê-lo, trabalha
matéria, forma e determinação, de maneira a negar o corte definitivo entre
corpo e psique consolidado pelo gesto cartesiano nos tempos modernos.
Explorando esse sentido, ante a reflexão aristotélica, o autor brasileiro se
diz “forçado a ousar” (LIMA, 2009, p. 113).
A ousadia vem, contudo, embasada pela exploração do potencial
da discordância entre três consagrados intérpretes da filosofia aristotélica:
Malcom Schofield, Victor Caston e Dorothea Frede. Como não se trata
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

de refazer o cotejo realizado por LCL, nos deteremos na interpretação da


última autora analisada, da qual desponta o movimento analítico e criativo
que queremos acompanhar.
Conforme argumenta Costa Lima, D. Frede, em sua interpretação sobre
o De anima, estabelece um circuito entre pensamento e desejo, defendendo
uma tese que faz incidir sobre a faculdade phantasia, dois elementos
capitais: o impulso desejante e a capacidade de projeção, de movimento.
Para a autora, na epistemologia de Aristóteles, as percepções sensoriais são e
permanecem presas ao momento em que se está. São, portanto, limitadas ao
118 instante presente. O intelecto, por sua vez, por si mesmo é capaz de pensar

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 118 21/03/16 14:11


apenas formas inteligíveis e abstratas. Para as atividades em que o sensível é
requisitado (por exemplo, numa tomada de decisão), o intelecto não pode
contar totalmente nem com as formas abstratas, posto tratar-se de uma
questão “concreta”; nem com as percepções, uma vez que é preciso ir além
do presente (rememorar ou projetar) para pensar. As imagens têm, portanto,
a função de oferecer ao intelecto um objeto de conhecimento para a lacuna
deixada pela percepção dos sentidos. As imagens sensíveis se baseiam e se
comportam como se fossem uma sensação e será em direção a elas que se
dá a movência intelectual. Elas assumem a forma daquilo que faz mover: o
desejável (LIMA, 2009, p. 126-130).
Ressaltando a ambiguidade da interpretação aristotélica, que oscila
entre encarar a phantasia uma condição necessária ao pensamento e a
postura de relegá-la à condição de prolongamento epifenomênico das
sensações, a interpretação de Frede oferece ao pensamento de Costa
Lima a chave que liga phantasia e movimento via “desejo”. Ou seja, entre
potência e ato, a phantasia oscila permitindo ao intelecto não se encerrar
em si mesmo, pois o impulso humano se move em função do desejável
transfigurado em imagem. O papel dinâmico desempenhado pela imagem
é uma resposta do corpo pensante ao desejável, ainda que não provoque
impacto historicamente efetivo sobre a estrutura discursiva que se forma
em torno das reflexões aristotélicas, dado o caráter fechado do cosmos
grego. A phantasia aparece então munida de uma função suplementar,
suprindo, pela a plasticidade da imagem, uma carência da percepção. Costa

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


Lima acentua que

Ela [Dorothea Frede] consegue extrair do labirinto do De anima,


uma função afirmativa da phantasia: sem que seja uma faculdade
própria, ela desempenha o papel suplementar de, plasmando o desejo
em imagem, mover o pensamento, ao mesmo tempo que funciona
como fusão dos elementos da percepção sensível, abrangente do
passado e da expectativa de futuro – enquanto a expectativa supõe a
repetição do que já se deu. (LIMA, 2009, p. 129).

Os estudos de Dorothea Frede fornecem o embasamento para uma


concepção de phantasia que reúne e faz pensar o encadeamento entre
desejo, movência do intelecto e imagem. Isto é, envolve a dimensão em que
o desejo é a mediação que através de imagens estimula o intelecto. Por sua 119

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 119 21/03/16 14:11


vez, a imagem é o meio em que o movimento desejante se realiza: algo que
se vê (uma imagem que aparece, phainetai) e conduz o olhar ao movimento.
A phantasia será menos uma instância de produção do que um plasma,
algo que move, prepara o desejo e que, conduzindo ao movimento, lança
a imagem como um modo de ver, uma “interpretação”, que se situa entre a
reprodução e a criação (LIMA, 2009, p. 128-134).

6.3 Anamnese: imagem e projeção


Dando sequência a sua problematização, Costa Lima se detém sobre
De memoria et reminiscentia, pequeno e importante tratado em que um
argumento anti-platônico é posto em cena de forma a quebrar a passividade
do corpo e a associação – independentemente do corpóreo – entre
memória e alma.3 Apoiado nos comentários de R. Sorabji, LCL interpreta
a argumentação nesse tratado como complementar, num sentido profundo,
3
É importante ter em consideração, como aponta Lang, que “[...] the Platonic language of the
De Memoria et Reminiscentia cannot be ignored. By means of this language, Aristotle invokes
Plato’s causal relation between originals and copies. But Aristotle does so only after he
systematically opposes his own doctrine of memory, sensation, and mental images to that of the
Philebus and quotes Plato’s rejected image of the wax tablet as a model par excellence of mind and
memory. Here, then, is the key to the mysteries of the De Memoria. The importance of Platonic
language in Aristotle need not mean the importance of Plato in Aristotle. Rather, it indicates the
richness of Plato’s metaphysics and language for Aristotle’s own purposes and reinterpretation.
In the De Memoria we possess clear evidence of this reinterpretation of Platonic language.
Aristotle first criticizes Plato and then on the basis of his criticisms asserts the model of memory
which Plato explicitly rejects. Thus, at the conclusion of the argument, when Aristotle relies on
Platonic language and concepts, the content of the argument can be understood only as Aristotle’s
own. The Plato present in the De Memoria is a Plato corrected: Aristotle’s Plato” (LANG, 1980,
p. 393). / [...] a linguagem platônica do De Memoria et Reminiscentia não pode ser ignorada.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Por meio dela, Aristóteles invoca a relação causal platônica entre originais e cópias. Mas
Aristóteles assim só o faz depois de sistematicamente opor sua própria doutrina da memória,
da sensação e das imagens mentais com a do Philebus e cita a imagem rejeitada por Platão da
tabuinha de cera como o modelo por excelência da mente e da memória. Aqui, então, está a
chave para os mistérios de Da Memoria. A importância da linguagem platônica em Aristóteles
não significa a importância de Platão em Aristóteles; antes indica a riqueza da metafísica e
da linguagem de Platão para as finalidades próprias e para a reinterpretação de Aristóteles.
Por De Memoria dispomos de clara evidência desta reinterpretação da linguagem platônica.
Aristóteles primeiramente critica Platão e, a seguir, com base em sua crítica, reivindica o
modelo de memória que Platão explicitamente rejeita. Assim, na conclusão do argumento,
se Aristóteles conta com a linguagem e com conceitos platônicos, o conteúdo do argumento
só pode ser compreendido como do próprio Aristóteles. O Platão que é apresentado em
120 De Memoria é um Platão corrigido: o Platão de Aristóteles (LANG, 1980, p. 393, tradução
minha).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 120 21/03/16 14:11


àquela desenvolvida em De anima. Isto é, os argumentos são apresentados
de forma contínua justamente porque, em ambos, demonstra-se que,
mesmo enquanto abstração, a alma não pode ser emancipada do corpo,
conferindo importância ao movimento corporal, ainda que não rompa
com a subordinação do corpóreo à cognição (nous).
Por opção interpretativa, Costa Lima deixa de lado a tematização
da doutrina dos temperamentos e da qualificação das constituições
fisiológicas, para se focar nos problemas relacionados à temporalidade.
Nesse sentido, ele aponta que, no tratado aristotélico, diferentemente da
percepção sensível, o conjunto formado por mneme e anamnese tem por
objeto aquilo que não se apresenta ao momento presente. Todavia, sendo
distinta da percepção por esse motivo, a memória não deixa de estar a ela
ligada. Ou, pelo menos, um tipo específico de percepção é imprescindível
para ativar a capacidade de se lembrar: a percepção de que o tempo passa.
Isto é, somente são capazes de memória aqueles seres que possuem a
percepção sensível do desenrolar no tempo. Ou ainda, nas palavras de LCL,
“tempo e percepção sensível (aísthesis) são os traços indispensáveis para a
elucidação da lembrança em geral“ (LIMA, 2009, p. 130).
Da primeira qualidade desse conjunto mais geral constituído por
mneme e anamnese, a partir do texto aristotélico, Costa Lima deriva que,
ao contrário da percepção sensível que pode em sua ligação com o mundo
prescindir da mediação das imagens, a memória será necessariamente
imagética. Distinguindo-se da percepção, a memória tampouco se integra

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


à cognição, vinculando-se ao intelecto de maneira apenas acidental. Assim,
conclui LCL (2009, p. 131): “A memória repete a ambígua localização da
phantasia – entre a percepção e a cognição; funciona onde está a phantasia”.
A analogia entre o modo ou maneira de “funcionar” da phantasia e
da memória será explorada pela interpretação de Costa Lima no sentido de
assinalar que ambas, tendo a mesma forma de atividade ou de movimento,
estão igualmente ligadas à configuração de imagens. Na medida em que
acentua o traço em comum entre memória e phantasia, LCL passa então
a demostrar o que as distingue – seguindo o texto de Aristóteles e os
comentários de Sorabji. Com efeito, a imagem dos sentidos que se forma
como prolongamentos da percepção sensível é diferente das imagens da
memória, uma vez que essas configuram o traço fundamental do processo
de impressão causado pelo transcorrer temporal (LIMA, 2009, p. 130-134). 121

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 121 21/03/16 14:11


Nesse ponto, a interpretação proposta por Costa Lima começa a se
desprender da exegese do texto filosófico para se tornar ativa, i.e., proceder
as inflexões que o levaram a elaboração de conceitos específicos para o
tratamento do discurso ficcional. O movimento, que podemos considerar
uma espécie de transgressão controlada, incide sobre a distinção entre
mneme e anamnese (evocação), dentro do âmbito mais amplo que diz
respeito à faculdade suplementar que permite o contato com o passado
(memória). A cena da leitura clássica – aquela em que a mneme se define
por uma relação que se mantém no tempo com a imagem-cópia (eikon),
e em que a anamnese é a recuperação da memória, relação indireta e
secundária, que por envolver uma associação de ideias, aparece como uma
espécie de inferência associada ao passado –, será atravessada pela força
do gesto interpretativo perpetrado por Costa Lima. Esse gesto desvia a
prioridade da relação com o eikon e condiciona mneme e anamnese a uma
operação que lança mão de algo externo (hipomnético) à imagem-cópia. A
externalidade marca aqui, para mneme e anamnese, o esgarçar do limite da
restrição ao passado e mais que isso, este desvio subverte a secundariedade
da anamnese, transformando a memória (mneme) num caso particular de
evocação (anamnese) (LIMA, 2009, p. 135-136).
Ainda que não seja inédito na história recente da filosofia ocidental
(podemos citar de relance os trabalhos de, por exemplo, Lacan e Derrida),
esse gesto cumpre na trajetória do pensamento de Costa Lima a tarefa de
sofisticar a base conceitual em que se entrelaçam, na modernidade, tempo
e mímesis. Ele consolida a anamnese como modo temporal que, abarcando
o território tradicionalmente coberto pela mneme, se refere a uma rede
associativa de inferências que ligam uma série de pontos e lacunas, ou
seja, de forma não dependente da presença de percepção sensível. A
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

conformação das lembranças admite por completo a incerteza sobre o


que foi antes e o que será depois. Devido à posição análoga a phantasia, a
anamnese encontra-se ligada intrinsecamente a um desejo que a move, e
seria incapaz de realizar-se sem imagens.
Por que afirmamos acima que o gesto argumentativo que
acompanhamos tratar-se-ia de uma transgressão controlada? Porque a
relação desenvolvida entre imagem, desejo e movimento se baseia na linha
interpretativa que abrange a pesquisa de Dorotheia Frede, e foi aberta
122 pelo trabalho de M. Nussbaum sobre a filosofia aristotélica. Nussbaum

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 122 21/03/16 14:11


afirma a ligação da phantasia com o desejo considerando o tratado De
Motu animalium, e é essa ligação que Frede e, na sequência, Costa Lima
desenvolvem para seus próprios propósitos. Para Nussbaum (1992),
“a phantasia prepara o desejo que leva à ação”, o que implica em que a
conformação da imagem para o intelecto seja menos uma reprodução
que uma interpretação. Ela se configura como uma maneira de ver que se
faz acompanhar por um movimento em direção ao que se quer. Por isso,
Costa Lima (2009, p. 134) pode afirmar que “A ênfase na phantasia como
o que move o desejo e conduz ao movimento o animal semovente, não
só o homem, impede que se continue a tomar phantasma (o que aparece)
como imagem no sentido de reprodução”. Nem criação, nem reprodução, a
imagem traria consigo, desde sua tematização pelo Estagirita, uma tensão
entre prestar-se ao estabelecimento de uma verdade e cumprir um papel
dinâmico, como ricochete do corpo à demanda do desejo.

6.4 O peso da inflexão moderna: a torsão temporal


As tramas que levam à modernidade, como mostra H. Blumenberg
em “Imitação da natureza: contribuição à pré-história da ideia do homem
criador” – ensaio caro a Luiz Costa Lima, corroem a tradição metafísica
que prima pela identidade entre ser e natureza como forma de constituição
da estrutura cósmica fundamental. Como vemos com Blumenberg, a base
filosófica dessa metafísica é composta fundamentalmente pelas filosofias

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


platônica e aristotélica. Em Platão, a ênfase da construção filosófica
encontra-se no por que, enquanto em Aristóteles ressalta-se como não há
outra possibilidade ontológica senão o real como atualização do possível.
Com efeito, em ambos os pensamentos:

[...] o espírito não pode ser determinado de outro modo senão como
uma capacidade em relação ao todo do já existente. O possível é
sempre e apenas o que, conforme sua morphé, já é real: o cosmo é,
ao mesmo tempo, o todo do real e do possível. [...] O que procria
sempre reproduz sua forma de ser. Em suma: o existente provém
apenas do existente. (BLUMENBERG, 2010, p. 106, grifo do autor).

Neste cenário, em que a natureza está determinada como encarnação


123
do possível, a função lógica e ontológica da mímesis é, por subordinação,

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 123 21/03/16 14:11


religar incessantemente o ato de criação à estrutura cósmica fundamental.
Ao cumprir a tarefa de, ao mesmo tempo, reproduzir a constância eidética
e viabilizar o processo produtivo, a mímesis seria o mecanismo pelo qual a
existência se subordina ao existente. A dinamicidade do conceito de natureza
em Aristóteles, embora complexifique o entendimento da mímesis, na medida
em que incorpora a diferenciação entre natura naturans e natura naturata
para acolher a essência dos processos geradores, não é capaz de representar,
para Blumenberg, um ganho ontológico decisivo com relação a Platão no
que concerne à estabilidade da ligação entre possível, real e existente. Ao
apresentar os processos geradores, condicionantes da existência, regulados
por um estado eidético de permanente constância, Aristóteles estabeleceria
uma natureza que eternamente se repete em sua autoprodução, na qual não
se pode atribuir nenhuma função essencial ao fazer. Ou seja, como mostra
a leitura de Blumenberg (2010, p. 105-114), o dinamismo em Aristóteles se
configura como movimento que atualiza um paradoxo: a mímesis, no contexto
do cosmos fechado, clássico, retrabalha o que esse cosmos já contém.
A operação teórica procedida por Costa Lima, desde Mímesis
e modernidade (1980), trata de enfrentar e desmembrar o paradoxo,
oferecendo aos processos cinéticos e dinâmicos que envolvem a
configuração de imagens uma tematização teórica. Abre-se, a partir de
conceitos aristotélicos, um rosto de futuro. A abertura desse “rosto” fica a
cargo de uma operação de pensamento e dispositivo textual que recebe,
em 2009 – oportunidade em que o autor dedica ao procedimento uma
elaboração discursiva –, o nome de ”torsão temporal”. Todavia, mesmo que
a elaboração teórica da torsão tenha aparecido apenas em 2009, a forma
de leitura e de pensamento que ela engendra está posto em todo o trajeto
de reconsideração da mímesis, como sugere Barbara Cassin (1999) em
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

“Transmissão e ficção”, ensaio incluso em Máscaras da Mímesis:

Ler Luiz Costa Lima fez, entre outras coisas, aumentar meu
interesse por duas vias problemáticas: a reversibilidade entre lógica
sequencial e apropriação e ruptura para constituir a história da
filosofia (em outras palavras, o controle do imaginário como relação
da antiguidade e da modernidade); e o continuum de essência
entre literatura e filosofia de acordo com época, a língua, a cultura,
revezando-se e servindo uma à outra de instrumento interpretativo.
124 (CASSIN, 1999, p. 25).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 124 21/03/16 14:11


Nesse sentido, a tarefa a que se propõe Costa Lima pode ser entendida
como uma tentativa de, explorando essas vias problemáticas, capacitar o
pensamento contemporâneo a “requestionar” – um revisionismo criativo,
na expressão de Luiz Eduardo Soares (1999, p. 271) – o conceito de mímesis
no contexto do mundo moderno, i.e., aquele em que a ordem do tempo
privilegia a seta em direção ao futuro. A partir dos desdobramentos dessa
“revisão criativa” – que levaram LCL a investir sobre formas discursivas
não ficcionais, em que se destaca o discurso historiográfico, mas também
os discursos autorreferênciais e os ensaios –, outros conceitos e noções
foram solicitados para levar adiante a teorização da ficção.
Torsão temporal diz respeito, portanto, a um tratamento oblíquo do
texto visando trabalhar hesitações e paradoxos ontológicos para extrair
deles possibilidades que, em seus contextos de aparição histórica, estavam
obstruídas ou apareciam somente como índices potenciais. Como o autor
afirma:

A reticência aristotélica à ficção decorria da permanência da


indagação dos primeiros princípios [do ser] – ainda que o pensador
compreendesse que sua plena demonstração é impossível, não deixa
por isso de considerá-los indispensáveis para um pensamento que não
se satisfaça com o encaminhamento indutivo. (LIMA, 2013, p. 191).

Pois bem, em O controle do imaginário e a afirmação do romance,


a relação que o par memória-evocação mantém com a phantasía será

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


explorada via o dispositivo torção temporal em função do extrato temporal
futuro, do porvir. Se o traço da escrita costalimeana deixa adivinhar
certo incômodo ao destituir a cena da cosmogonia grega como palco de
entendimento dos conceitos do Estagirita, por outro lado registra também
a razão, de caráter impreterível, dessa postura: “Introduz-se um artifício
de cálculo na construção aristotélica para que se possa pensar com a ajuda
(secundária) da memória, a escrita da história e, a partir da evocação, a
mimésis” (LIMA, 2009, p. 138, grifo nosso).
Definido, portanto, como um artifício de cálculo, a torsão temporal
não engendra historicamente o que faz trabalhar conceitualmente. Não se
deve esperar do produto da torsão uma energia historicamente configurada.
A torsão temporal, como artifício de cálculo que é, nunca aconteceu. Ela não
se inscreve no mundo como um evento, não conjura uma forma histórica 125

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 125 21/03/16 14:11


que dá origem, que gera a imagem e a partir dele o tempo e o mundo.
A torsão é, ao contrário, um dispositivo que permite explorar paradoxos
que marcam de maneira crucial a trajetória de autointerpretação humana,
ou, caso se prefira, a ocupação antropológica do mundo.
O encadeamento proposto pelo gesto interpretativo de LCL, entre
phantasía, anamnese e mímesis, se tece como um circuito elétrico, percorrido
pelo desejo como movimento. Esse “desenho” para a conformação das
imagens apresenta-a como um processo que não reduz sua capacidade à
reconstituição de uma percepção passada. A imagem, mais que retratar ou
reconstituir, traz consigo a possibilidade de um modo de ver interpretativo
que tem expectativa de vir a ser algo. [Editoração: não é citação direta mas,
a pedido do autor, manter o itálico.] Rompendo a necessidade do vínculo
entre experiência sensível e memória, esse movimento dinâmico tem como
uma das faces a evocação, que tematiza imageticamente a si própria; e como
outra, a lembrança, que se liga ao eikon, termo que tem seu significado
preso à ideia de imagem-semelhança (LIMA, 2009, p. 133-139).
O rendimento teórico que se observa ao longo da reflexão de Costa
Lima constitui em simultaneamente extrair o conceito de mímesis dos
limites em que Aristóteles – devido às características da cosmologia grega –,
o deixou e retirar a escrita da história da posição que a Poética lhe confere.
O duplo propósito visará ainda mostrar que, seguindo rotas discrepantes,
a escrita da história e a obra da mímesis têm, não obstante, uma junção
comum. Finalmente, a torsão temporal é um recurso que permite observar
e teorizar um índice histórico que, como possibilidade de configuração,
aciona a base conceitual delimitada a partir da plasticidade do pensamento
aristotélico: deixa ver como se dispara a mímesis (LIMA, 2009, p. 141).
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

6.5 A nebulosa Mímesis-zero


O mergulho que leva Costa Lima ao conceito de mímesis é
impulsionado pela tentativa de compreender as formas pelas quais a escrita
e as formações discursivas configuram o desejo que constitui a relação com
o outro. Desejo não é senão o outro nome da pré-reflexividade demandante
de uma identificação-parâmetro em que se pauta a mímesis. Não é fortuito,
portanto, que os conceitos psicanalíticos de mímesis possuam um papel
126 importante para o trabalho reflexivo de Costa Lima já que, nas teorias

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 126 21/03/16 14:11


psicanalíticas da gênese do sujeito, a função central da mímesis não deriva
da imitatio e, como mediação que é, se desvia sempre da produção de
imagens-cópia (SCHWAB, 1999, p. 119).
A indagação a respeito da mímesis-zero surge nesse cenário, e seu
primeiro momento textual se deixa flagrar de relance, em meio à construção
de dois conceitos fundamentais para a elaboração teórica de LCL:
representação-efeito e sujeito-fraturado. Ela aparece em um texto dedicado
à contribuição de Freud a uma concepção descentrada de subjetividade:

Pelo que até agora escrevemos sobre o fenômeno da mímesis [...] a


mímesis já traz consigo as formas sociais da realidade. Mas que dizer
daquele instante originário em que o mímema apenas parte, sem
estar imantada por um objeto? Chamemos esse estado de mímesis-
zero. (LIMA, 2014, p. 110).

Ao hiato entre essa primeira aparição – lembrando que a primeira


edição de Mímesis: desafio ao pensamento é de 2003 –, e o desenvolvimento
que lhe foi dado em A ficção e o poema (LIMA, 2012), corresponde também
uma interrupção no tratamento teórico. É verdade que a questão que
recebe o nome de mímesis-zero é um estado ou situação que se posiciona
no registro aberto pelo estudo do De anima, i.e., na preocupação em retirar
dali uma concepção dos processos geradores envolvidos nas formações
discursivas, em especial a ficcional, conectada a uma capacidade ou potência
humana que plasma o desejo em imagem. Não obstante, na argumentação

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


desenvolvida em 2012 sob o título de “Preâmbulo”, Costa Lima não extrai
um caminho direto vindo da reflexão aristotélica. Como se, ante um
questionamento de difícil manuseio, o autor tentasse se aproximar por um
lado, avançando até certo ponto, para depois tentar uma abertura por outro
ângulo. Algo como desembaraçar um emaranhado de fios, tarefa para a
qual não é possível se ater a puxar apenas uma ponta.
Portanto, o problema abordado na composição da mímesis-zero ainda
diz respeito ao engendramento das imagens e vai ser investigado por uma
via que propõe uma bricolagem entre a estética transcendental kantiana e a
teoria freudiana das pulsões. Isto é, diferentemente da interpretação sobre
a filosofia aristotélica, o recurso ao dispositivo “torsão temporal” aparece
menos do que a “tentativa de ajuste” entre elementos de cada uma dessas
teorias. Com efeito, afirma LCL: “O papel que me concedo será conformar 127

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 127 21/03/16 14:11


peças conceituais, que, por si mesmas, não se ajustam entre si” (LIMA,
2012, p. 15).
O embate sistemático com a filosofia kantiana – como chama atenção
S. Alcides no posfácio a que já nos referimos –, havia se dado em Limites
da voz (LIMA, 1993, reeditado em 2005). Num capítulo denominado, com
acerto, “O sujeito e a lei: uma descendência kantiana”, Costa Lima examina
cuidadosamente as três críticas, com destaque para a terceira. Nesse “corpo
a corpo”, elabora uma interpretação, em diálogo com O. Chédin, que marca
a ambiguidade entre estetização e criticidade, e oferece, a partir dela, um
esboço como alternativa, valendo-se para tanto do par “sintaxe-semântica”:

Fora da experiência estética, seja na relação pragmática mais banal,


seja na concepção do mais abstrato dos trabalhos, estamos sempre
presos ao império do semântico. Pode-se modelar a sintaxe o quanto
se queira, lançar-se mão de toda a gama de recursos expressivos da
língua, sempre contudo a sintaxe e, com ela, o ritmo concretizado
pela modulação da frase, se manterá a serviço do semântico.
A arte escrita – para efeito de comunicação mais direta contentêmo-
nos em chamá-la de literatura – implica a suspensão provisória do
império do semântico. Assim se dá toda a vez que, diante de uma
formulação ou mesmo de uma única palavra – ou de qualquer
signo, verbal ou não verbal – suspendemos a pergunta sobre seu
significado e admiramos a própria configuração conseguida.
A experiência estética implicaria em tomar-se a sintaxe como espera
e intervalo que antecede a (re)ocupação semântica. [...] No momento
da (re)ocupação semântica, esta mesma ganha com aquela distância;
isso significa dizer que, emocional – não só intelectualmente –, o
receptor ganha espaço para sentir criticamente o que perde no
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

mundo tão só semantizado. Em última análise, esta experiência


constitui menos um objeto de prazer porquanto também envolve o
sublime do que configura um objeto enquanto ficcional. O objeto
se ficcionaliza quando interagimos com ele através deste jogo de
dessemantização e ressemantização. Não que o prazer dele se afaste
senão que não basta para caracterizá-lo. (LIMA, 2005, p. 145-146,
grifo do autor).

Com efeito, a base e o ponto de partida da tematização da mímesis-


zero terá como enfoque uma compreensão não ortodoxa da experiência
128 estética kantiana. Experiência que suspende e afasta, que rompe com a

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 128 21/03/16 14:11


cadeia formada entre intuição, representação e sensação – cadeia essa que
rege as respostas intelectivas do humano ao contato com os fenômenos
e que compõe, portanto, a estética transcendental –, promovendo um
encontro entre forma e sensação que, justamente por ser independente
desse encadeamento, cria condições de visualizá-lo como um aparato
condicionador da capacidade de conhecer do homem. Mas, frisa Costa
Lima: “apenas condicionador e não deflagrador” (LIMA, 2012, p. 18).
Costa Lima retorna, pois, às definições básicas da estética trans-
cendental, orientado por sua interpretação não ortodoxa da experiência
estética, para chamar atenção para dois pontos: 1. A intuição, porque tende
a assumir relações mediadas pelo encadeamento com a representação e
a sensação, tende igualmente a estar presa à ordem semântica, a qual o
objeto estético não se submete totalmente. 2. “A intuição não diz respeito
ao que não é conhecimento” (LIMA, 2012, p. 19). Logo, o aparato que se
conforma tendo por base as formas puras da intuição, espaço e tempo,
fundamentando a possibilidade de conhecimento, não pode se disparar
sozinho porque “o aparato transcendental equivale a uma máquina imóvel,
pronta para se ativar, sem algo que a acione”.
Naquele território aberto pela discussão clássica do De anima, em que
o dualismo entre corpo e alma é rompido pela constatação de um circuito
entre movimento desejante e engendramento de imagens, o diálogo com a
filosofia kantiana lança outra luminosidade à questão que Costa Lima tenta
tocar: a mímesis-zero corresponde a esse estado ou situação pré-semântica

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


de um momento de deflagração, de disparo, do aparato condicionador da
apreensão humana.
A busca por compreender a atuação desse elemento dinâmico leva o
autor, como um bricoleur, à teoria das pulsões freudiana.4 Esse gesto demarca
que, na modernidade, o movimento desejante já indiciado pela “antropologia”
(ênfase para as aspas) de Aristóteles, será uma forma singular de descarga de
energia pulsional. A singularidade do movimento desejante mimético tem

4
Freud, em 1915, no texto “Pulsão e destino das pulsões” (Trieb und Trieb Shiksal) decompõe a
pulsão, como forma originária do querer, em quatro momentos: Drang (impulso), Quelle (fonte),
Objekt (objeto) indeterminado e Ziel (fim). Mais importante do que repassar esquematicamente
a articulação entre esses momentos é enfatizar a relação dinâmica entre eles. E remarcar que
entendemos por pressão ou impulso (Drang) a soma de força ou a medida da exigência do
trabalho que será usado psiquicamente para achar os meios de livrar-se dessa pressão e buscar 129
obter algum alívio (FREUD, 1968).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 129 21/03/16 14:11


como primeira característica o fato de que, ao contrário da libido que tende
a vazar sua energia prestando um serviço ao corpo, esse movimento retém,
prolonga, condensa sua energia no corpo (LIMA, 2012, p. 21).
As demais características, ou melhor, delineações da nebulosa
mímesis-zero vêm das leituras de René Girard e M. Borch-Jacobsen, que
possuem em comum, como base, a teoria freudiana mas que seguem
rumos críticos a ela. Ambas já haviam sido visitadas por Costa Lima em
Mímesis: desafio ao pensamento, quando as críticas que apresentam a Freud
foram incorporadas para a tematização do sujeito fraturado. Sem que seja
necessário refazer a glosa do pensamento de ambos, sintetizamos o que
– de comum, embora os usos correspondam a contextos teóricos distintos –,
será tomado de empréstimo por LCL para o desenho de seu problema, i.e.,
a mímesis-zero.
Tanto em relação à violência intestina às sociedades humanas e à
crise sacrificial (GIRARD, 2004) quanto em relação ao caráter visual da
representação do inconsciente sob a categoria do sujeito e da identidade
(BORCH-JACOBSEN, 1982), o cerne da crítica à Freud elaborada pelos
autores em questão deriva do fato de que o pai da psicanálise pensa o
desejo de antemão relacionado a um objeto. Para Freud, o desejo seria um
movimento que visa à posse ou gozo de algo objectual e interdito, porque
conduzido pelas formas ou primado da realidade. Girard e Borch-Jacobsen
apontam para uma dimensão anterior à conformação do objeto de desejo.
Nessa dimensão, irrefletida, pré-reflexiva, o desejo é um movimento
mimético em que o verbo principal não é ter, mas ser – esse é o segundo
elemento capital para o desenho da mímesis-zero. Essa face do desejo
alimenta a rivalidade primordial, estudada por Girard,5 na medida em que
essa rivalidade não significa apenas competição, mas identificação por
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

antonomásia. Deseja-se a posição do rival, seu modo de ver. Deseja-se ser


como ele, logo, eliminá-lo (LIMA, 2012, p. 21-24).

5
René Girard pratica uma antropologia da violência e das formas religiosas. O desejo mimético
é base pela qual ele explica que a violência é intestina ao humano e extremamente contagiosa.
Sua questão intelectual visa, portanto, encontrar formas de geri-la de modo a não permitir a
destruição do corpo social. Basicamente, Girard nos mostra que a gerência da força violenta
dos homens se faz por meio dos mecanismos que geram “bodes expiatórios” que canalizam
para si essa força, evitando portanto que o conflito humano se generalize. Ao mesmo tempo,
pela força simbólica do “Cristo redentor”, o cristianismo seria a única força capaz de quebrar a
130 maldição do mimético, pois permite-nos compreender a mesma estrutura do mal da violência
e do pecado (cf. GIRARD, 2004).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 130 21/03/16 14:11


Igualmente crítico do direcionamento objetal do desejo em Freud,
Borch-Jacobsen liga o desejo à mímesis, compreendendo-a como um
impulso identificatório não apenas anterior à conformação do objeto
desejado mas também anterior ao sujeito que deseja. Este deslocamento
dá um novo sentido à movimentação imagética pela qual os desejos se
realizam: as figurações, dissimulações, deformações não são aquilo que em
função de um interdito emergem para realizar o desejo. Elas são inscrições
de identificação (mímesis) talhadas de desejo por dentro. É porque tematiza
o inconsciente que Borch-Jacobsen aposta no desvio perturbador que
dribla a necessidade de uma dissimulação de origem, “revelando” que o
desejo não se regula pela obtenção de prazer e gozo, mas por modelos e
esquemas de identificação (BORCH-JACOBSEN, 1982, p. 32-38).
A perturbação que a polêmica pesquisa de Borch-Jacobsen6 representa
é fundamental e constitui a terceira característica da nebulosa questão
da mímesis-zero: não estar em relação à exterioridade (mundo, natureza,
physis). Esse traço se dá em decorrência do segundo, i.e, o entendimento
do desejo mimético como desejo de ser, e deve ser compreendido como
no rastro da abertura ao humano, i.e., um olhar para o “dentro” vazio e
pulsante da criatura humana.
Da fecunda interlocução com a pesquisa de Borch-Jacobsen, Costa
Lima passou a afirmar que

[...] em sua impulsão originária, a mímesis contém uma Enstellung


(deformação ou truncamento) dentro da qual se inclui um sujeito

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


de desejo [...] que não tem nenhuma identidade própria antes da
identificação que o faz vir, cegamente, ao lugar de um outro (que,
portanto, não é um outro) estranhamente originário (que, portanto,
não é uma alienação) e engodo originário (que, portanto, não é um
engano). (LIMA, 2014, p. 109, grifo do autor).

O território coberto pelo conceito de mímesis-zero corresponde,


portanto, àquele delimitado pelas três características que apontamos. Trata-
6
Mikkel Borch-Jacobsen estudou filosofia com J-L. Nancy e P. Lacoue-Labarthe e, trabalhando
nos Estados Unidos como professor de literatura, desenvolve uma das mais polêmicas pesquisas
no campo da história e antropologia da psicanálise, da psiquiatria e das práticas farmacêuticas.
Destaca-se no vasto leque de críticos de Freud, afirmando a não cientificidade da psicanálise,
colocando em cheque seu valor terapêutico. Abre, todavia, a exploração do pensamento
freudiano como uma teoria da cultura e da subjetividade, ao afirmar que a identificação é a 131
forma mais originária de ligação afetiva a um objeto (cf. BORCH-JACOBSEN, 1982; 1991).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 131 21/03/16 14:11


se de um movimento desejante, ou uma pulsão, distinta da libido. Embora
pensada a partir do modelo da teoria das pulsões freudiana, dela se desvia
na medida em que não confirma como destino e orientação do movimento
a conformação objectual. “Energia que vibra” independentemente da
realidade e da própria subjetividade, ela não se constitui como uma
instância de pureza, mas de pura pregnância. A composição da mímesis-
zero é intrínseca à focalização do que nela pulsa, um ver direcionado que
pode ou não se atualizar como realidade.
Como o momento em que, nos “bastidores”, no “camarim”, aguarda-
se entrar em cena, a mímesis-zero, mímesis especificamente phantasmática,
vêm à tona como léxico radicalmente deformador. Como preparo para
entrar em cena, o movimento é errático e sem definições precisas, indicando
apenas que ali há algo que se “mexe”, como antecipação e preparação para
a cena em que o sujeito dramatiza. Isto é, a mímesis-zero não compartilha a
estrutura de uma experiência. Na verdade, o conceito de experiência torna-
se embaraçoso quando se trata de abordar uma região antropológica em
que o sujeito ainda não está constituído. Nesse sentido, ele não é descrito
por Costa Lima senão que mapeado em suas características estruturais.
A ênfase no papel dinâmico na conformação dos processos geradores de
imagens, presente nos estudos sobre os topoi clássicos, anamnese e phantasia,
i.e., o circuito entre pensamento e desejo, é retomada na sistematização
do conceito de mímesis-zero. Esse gesto tem duas consequências teóricas
importantes no sentido de compreender o pano de fundo discursivo no
qual a própria elaboração da teoria de Costa Lima está sendo construída.
A primeira consequência se deixa ver por contraste entre a mímesis-
zero e as demais. As modalidades de mímesis – de produção e representação,
por se apresentarem em “momentos” em que a subjetividade e a objetividade
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

já estão constituídas, são processos em que a representação está sempre


presente. Essas modalidades miméticas são mediações entendidas como
encenação, como dramatizações complexas.
Por sua vez, a mímesis-zero assume toda sua precisão se entendida
como o jogo em que, por potencialmente se transfigurar como “tudo”, não
se apresenta (Darstellung) propriamente em nenhum lugar. Como aparição
espectral, essa nebulosa de imagens não tem, justamente, uma forma. Apenas
se deforma (Enstellung). Nas palavras de Costa Lima: “a nebulosa pode-
132 se converter tanto em nuvem que se condensa quanto se dissolver. Caso

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 132 21/03/16 14:11


prepondere a condensação, comparar-se-á a uma bala ainda não pronta para
o disparo, faca cuja lâmina ainda não se afia” (LIMA, 2012, p. 26).
Nesse ponto, estamos ante a primeira das consequências teóricas da
tematização da mímesis-zero. Será nesse âmbito potencial que se cumpre a
interminabilidade da força plástica humana. No plano das realidades sócio-
históricas, a forma e as imagens estão sempre submetidas às maneiras
mais ou menos sutis de controle. Nesse sentido, a plasticidade humana é
condicionada, limitada. Entretanto, a mímesis-zero, condensando-se ou
dissipando-se, confirma o caráter interminável dessa energia configuradora
e pulsante com a qual a criatura humana engendra imagens.
O que nos leva ao segundo ponto: a pura pregnância desse estado
que o conceito de mímesis-zero permite trabalhar se relaciona às formas
pelas quais uma espécie, para compensar sua carência constitutiva
(Mängelwesen), torna-se humana. Como já nos referimos, essa carência
se expressa na falta de um ambiente que se possa chamar de fato “natural”
ao homem. Ela se estabelece, na atual fase da produção teórica de Costa
Lima, como condição que impulsiona o desenvolvimento dos meios de
movimentação e de comunicação humanos.
Como já nos referimos, essa carência se expressa na falta de um
ambiente que se possa chamar de fato “natural” ao homem. A elaboração
teórica dessa maneira peculiar de compreender o homem como uma
criatura humana que desenvolveu sua plasticidade e capacidade de
aprendizagem ante essa falta ou lacuna, encontra-se nos trabalhos de

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


A. Gehlen (2009). Fugindo do viés metafísico que entende o homem
como a criatura agraciada pela “Razão”, Gehlen associa carência e
compensação para defender que a simples existência do homem depende
de um comportamento que atue transformando e elaborando o mundo.
O mundo humano, como inalcançável ponto de referência da experiência
(Kant), é aberto, desconhecido e instável. O humano teria, portanto, como
especificidade em relação aos demais animais, não exatamente a posse de
faculdades intelectuais. Como animal exposto a uma quantidade infinita de
estados e de situações às quais não está adaptado, o desenvolvimento dessas
faculdades é secundário à sua desgraça e se dá sob a condição de ser um
alívio, um desafogo e não uma dádiva. Para escapar de uma desesperadora
inadaptação, cada movimento possível dessa criatura mobiliza todos os
sentidos e, inevitavelmente, põe à prova tanto os objetos e resistências como 133

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 133 21/03/16 14:11


a si mesmo. Para cada movimento, há um projeto imaginativo que antecipa
e orienta a ação. De tal maneira que cada atitude se constrói como uma
ligação entre fazer algo e se ver fazendo algo, que tem como base modelos
identificatórios e um desejo de existir7 (GEHLEN, 2009, p. 34-35, grifo
nosso).
No registro aberto entre o psíquico e o corpóreo com a investigação
sobre o De anima, a elaboração do conceito de mímesis-zero consolida não
apenas a ampliação do campo de incidência da mímesis em geral como
permite visualizar o produto da mímesis, o ser do mímema, como descarga
de uma excitação (movimento desejante) concernente à criatura humana
(não necessariamente, nem exclusivamente, o indivíduo moderno) que não
se cumpre em separado do engendramento de imagens. Não obstante, o
fato da questão da mímesis não estar restrita à emergência da subjetividade
moderna torna ainda mais fundamental perguntar pelo significado de sua
inflexão.

6.6 O faz de conta de cada dia: ficção externa


“A ficção externa supõe um modo de proceder corporal-verbal que
legitima e justifica uma certa conduta por uma parte de uma sociedade,
sem que sua objetividade seja posta em questão ou seja justificada” (LIMA,
2013, p. 236). A elaboração teórica do modo de proceder específico do
“teatro do mundo” ganha espaço no terceiro capítulo de Frestas (LIMA,
2013), sob o nome de “A problemática da ficção e da ficção externa” e filia-
se, pelo entendimento de que a construção de sentido se faz por meio da
visualização de movimentos corpóreo-verbais, ao tronco do rendimento
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

7
K. Lorenz alerta para o fato de que, no trabalho de Gehlen, o estado de inadaptação humana
não pode ser considerado um conceito biológico porque no sentido da biologia não há seres
não adaptados, ou então se os há, são seres isolados e condenados a desaparecer. Apesar
disso, Lorenz reconhece que a teoria de Gehlen contém qualquer coisa de fundamentalmente
verdadeiro, já que um ser que possuísse uma adaptação morfológica claramente especializada
jamais poderia constituir-se como o homem. Se por um lado é certo que as realizações culturais
não podem ser explicadas através de uma deficiência biológica, por outro é igualmente correto
que um ser especializado não poderia ser uma criatura que deve assumir a tarefa de criar o
seu próprio mundo. O  cérebro humano  prepara-nos biologicamente para levar a cabo essa
tarefa. Todavia a especialização biológica não garante o sucesso da empreitada. Nesse sentido,
o cérebro seria, ele mesmo, um órgão aberto ao mundo, i.e., um órgão em risco permanente de
134 fracassar e de enlouquecer. Por “natureza” o homem é uma criatura em perigo. (cf. LORENZ,
2010).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 134 21/03/16 14:11


teórico aberto pela leitura do De anima empreendida por Costa Lima.
E, portanto, pertence ao encadeamento proposto pelo gesto interpretativo
de LCL, entre phantasía, anamnese e mímesis, como circuito gerador de
imagens. Circuito que, percorrido pelo desejo como movimento, é mantido
pela elaboração concernente à mímesis-zero.
Ou seja, à elaboração da sistematicidade dinâmica e “desejante”
tematizada para a compreensão do engendramento das imagens, Costa
Lima juntará o enfrentamento da questão das relações entre imagem,
realidade e verdade, como mais um fio a ser puxado no sentido de sofisticar
o entendimento do lugar da ficção verbal e de sua teoria.
O desenvolvimento do problema contemplado pela ficção externa
receberá um tratamento que se pode designar como “negativo”, no sentido
de que começa pela abordagem daquilo que não é uma ficção externa. Para
o autor, “Não nos pareceu bom método partir de uma definição de ficção
externa – sob a aparência de facilitar o entendimento, talvez assim apenas o
tornássemos rígido” (LIMA, 2013, p. 231).
O ponto de partida será apresentar a posição da ficção dentro
da tradição substancialista. Por substancialismo, afirma Costa Lima,
devemos entender o eixo de pensamento que conforma a tradição que,
nascida da “vitória” platônica-aristotélica contra os sofistas, transmuta-se
em substancialismo religioso medieval, para perpetuar-se no subsolo da
ciência moderna. Na modernidade, o substancialismo sobrevive não por
que as ciências adotem um ponto de vista essencialista mas, pelo contrário,

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


por não serem capazes de responder cientificamente à necessidade de
fundamento do conhecimento (LIMA, 2013, p. 220).
A concepção de substancialista do real terá no nominalismo de H.
Vaihinger, num pensamento que tende a desafiá-la, a maior expressão
da obstrução ao ficcional que promove. Partindo da concepção de que
a realidade se confunde e se encerra nas sensações – sendo, por isso,
complexa e embaralhada –, Vaihinger, em sua Filosofia do como se ([1911]
2011), pensa a ficção como instrumento vital, um artifício que permite lidar
com a natureza da realidade. Vaihinger percorre um vasto domínio para
examinar como o pensamento e as ciências se valeram dessas ficções utéis,
produzindo nesse itinerário uma interessante reflexão sobre o complexo
composto pela expressão como se. Todavia, em sua aventura, não chega a
tratar da literatura. Ele se concentra nas ficções abstratas, definindo-as da
seguinte maneira: 135

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 135 21/03/16 14:11


Como atividade fictícia no interior do pensamento lógico, há de se
entender a produção e o emprego de métodos lógicos que procuram
alcançar as finalidades do pensamento mediante conceitos
auxiliares; nestes está inscrita, mais ou menos a olhos vistos, a
impossibilidade de terem um objeto concreto que lhes corresponda
de alguma maneira. Em vez de se dar por satisfeita com o material
dado, a função lógica introduz formações híbridas e ambíguas do
pensamento. Com o apoio destas, ela pode cumprir as próprias
metas de maneira indireta quando a aspereza do material hostil não
permite enfrentá-las na via principal. Com prudência instintiva, eu
quase diria “astuta”, a função lógica dribla tais dificuldades com as
suas construções auxiliares. [...] é oportuno ainda observar: com
a sua prudência instintiva e conforme a uma finalidade, a função
lógica é capaz de realizar a atividade fictícia desde os começos mais
inocentes e insignificantes, passando por voltas e mais voltas cada
vez mais finas e inteligentes até chegar aos métodos mais difíceis e
complexos. (VAIHINGER, 2011, p. 123-124).

Para Costa Lima, da construção de Vaihinger resulta que todos os


planos de realidade veem-se convertidos em ficcionais, o que os impedem de
serem contrapostos a quaisquer outros. Na crítica feita a esse nominalismo que
se converte em um positivismo idealista, desenha-se a postura de LCL sobre
as relações entre linguagem e realidade. Baseando-se na semiologia peirciana,
Costa Lima afirma a alteridade como constitutiva do signo, i.e., o signo
produz significação pela diferença, pelo abrigo que é ao outro-que-ele-mesmo.
Estrangeiro hospedado. Logo, os planos da realidade precisam daquilo que se
lhes opõem tanto quanto a ficção, estando o uso do signo a variar de acordo
com a forma discursiva empregada (LIMA, 2013, p. 217-220).
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Face oposta e relacional aos planos da realidade, as ficções se


distinguem, na teoria de Costa Lima, em externas e internas. As ficções
internas (prosa e poesia) são produtos verbais regidos pela partícula do
Como se. Entretanto, ao contrário do que se mostra em Vaihinger, Costa
Lima não concebe o como se atrelado ao estabelecimento de identidades e
equivalências analógicas. Para Vaihinger, como explica J. Kretschmer,

O como se força pela comparação, por analogias representadas,


a identidade de elementos não idênticos; ou seja, uma vez que as
136 ficções são formadas, elas subsistuem um dado real por um irreal,
criando assim a ilusão da compreensão. No como, expressa-se o

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 136 21/03/16 14:11


momento comparativo, e no se, estabelece-se uma pressuposição
impossível. (KRETSCHMER, 2011, p. 45).

Na teorização proposta por Costa Lima para o como se, todo o


contrário se passa. A partícula não estabelece uma equivalência senão que
estipula uma orientação para a criação de um horizonte de diferença.

A ficção interna aproveita a instabilidade sociopolítica e epis-


temológica que cresce especialmente desde o começo da
modernidade e, jogando com a realidade, se apresenta sob a
suposição de que, conquanto não haja sido, provoca a impressão de
haver sido. (LIMA, 2013, p. 248).

Esse horizonte – que não foi, mas poderia ter sido –, cumpre-se de
forma facilitada na prosa devido às propriedades do enredo narrativo. Na
poesia, por sua vez, esse efeito se dificulta porque o horizonte a que ela se
projeta não se restringe à dimensão sintática e semântica: “o mecanismo da
rima aproxima pelo som o que se diferencia pelo sentido” – afirma o autor,
evocando Iuri Lotman e seguindo o que desenvolve em A ficção e o poema
(LIMA, 2013, p. 223-224).
Uma vez definida a posição da ficção e mais especificamente da
ficção interna, Costa Lima, dando continuidade ao trabalho de delimitação
do que não seria uma ficção externa, examina duas formas discursivas que
representam planos pervertidos ou deformados da realidade: o domínio

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


econômico e seu signo maior, a moeda (unidade monetária), e o domínio
das crenças desacreditadas, i.e., formações discursivas que, verdadeiramente
válidas em algum momento, perdem seu valor.
A base da argumentação são as considerações de Simmel em sua
filosofia do dinheiro e mais especificamente o conceito de cultura do
sociólogo alemão. Para Simmel, não são os objetos exteriores que são
cultivados pelo sujeito, mas, ao contrário, o sujeito que é cultivado ao
interagir com a cultura objetiva. Nesse sentido, cultura torna-se uma relação
de mútua determinação entre sujeito e objeto, em que a distinção entre
objetividade e subjetividade é dialética e flutua entre o dualismo de vida
(fluxo contínuo) e forma (sua cristalização), e a superação desse dualismo.
Simmel considera ainda que os objetos sejam espíritos objetivados dos
quais ele procura apreender os significados decorrentes desse processo de
137
objetivação (SIMMEL, 1971, p. 215-235).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 137 21/03/16 14:11


Apoiado nessas reflexões, Costa Lima pode afirmar que o mundo,
nosso mundo, não se confunde com o mundo das coisas ao nosso redor,
assim como nossos valores não se confundem com a subjetividade que os
reconhece. Por isso, o signo econômico, a moeda, não seria uma ficção, mas
parte inescapável da vida social como fundamento de um tipo vital de troca.
Nem mesmo após 1933 – quando cai o padrão-ouro e a moeda perde o lastro,
para Costa Lima –, o signo econômico passa a ser ficcional. Em sua análise,
o elemento de troca se converte numa “ficção pervertida”, entendida como
fetiche (Marx): uma perversão entre real e ficcional. Isso quer dizer que
“se o como se supõe que o ficcional é o circuito por excelência do metafórico,
a moeda, no capitalismo creditício, é da ordem do metonímico (é uma parte
que indica o todo da posse)” (LIMA, 2013, p. 230).
Portanto, seguindo o argumento de Costa Lima, a moeda transforma-
se, na fase econômica atual, num signo cuja função encontra-se pervertida.
Já as crenças desfeitas, por perderem seu poder de explicação e sua validade,
são deslocadas e deformadas, passam a possuir apenas um valor histórico.
O exame desse segundo caso é mais detalhado, e se faz a partir de análise
do texto póstumo de Antônio Vieira (1982), História do Futuro. A obra é
escrita num mergulho em várias crenças, desde a proximidade do fim do
mundo – dado que 1666 era um ano temido por carregar o número da
Besta –, até a certeza de que o império universal seria português. Vieira
entendia que os portugueses ocupavam, nos tempos modernos, o lugar
outrora reservado aos judeus como povo eleito de Deus. Embora a análise
do caráter figural do texto, feita a partir do conceito de figura de Auerbach,
seja bastante interessante, para o propósito de apresentar a delimitação do
conceito de ficção externa basta dizer que, para Costa Lima, uma crença que
perde sua base de sustentação social e sua capacidade de se fazer crível não
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

se torna por isso ficcional. Torna-se uma crença morta, por isso, deformada
pela ação do tempo (LIMA, 2013, p. 231-236).
Ao contrário da moeda (plano pervertido) e da crença descreditada
pelo tempo (plano deformado), para LCL, o modo correto de cumprimento
dos rituais cotidianos são índice de que, na complexa amálgama que
conforma as relações entre linguagem e realidade, há algo que se realiza,
nesse “teatro do mundo”, pondo entre parênteses a pretensão de declarar a
verdade. Devido a esse tipo de realização, a ritualística cotidiana merece ser
138 tratada como ficcional. Desse modo, duas características pautam as ficções

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 138 21/03/16 14:11


externas: a não pretensão de validade ou legitimidade em relação ao critério
de verdade e a necessidade de reconhecimento comunitário. Amarrada a
essas duas características, essa forma de ficção lida com a objetividade de
modo oblíquo, como afirma Costa Lima:

Não estar sujeita ao requisito de verdade não a torna, contudo,


menos dotada de objetividade; de, portanto, fazer parte do aparato
de minha realidade; objetividade que, em si, tem um peso escasso,
mas cuja infração poderá assumir uma gravidade incalculável.
(LIMA, 2013, p. 240).

Dessa definição mais geral, Costa Lima passa a destilar modos


nuançados de procedimento dessa ficcionalidade. A partir de um trabalho
de distinção e caracterização – que mostra potencial para ser mais bem
explorado –, Costa Lima propõe três níveis de ficção externa. Para a
elaboração de cada uma deles, o autor conta com a interlocução privilegiada
de um trabalho ou reflexão solicitado para o diálogo. Assim, para o nível
mais geral de ficção externa, a de tipo cotidiano, o interlocutor é Nobert
Elias (1983) e seu A sociedade da Corte. Os modos de cortesia cotidianos
são banais, mas conformam nossas relações sociais no dia a dia. Essas
ficções, denominadas por LCL como diplomáticas, sendo o como se dessas
ritualidades, são atualizadas constantemente na vida cotidiana.
Um tipo mais aprimorado de ficção externa se configura a partir do
diálogo com J-L. Nancy (1983) e sua reflexão sobre o imperativo categórico

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


kantiano. Conforme o autor extrai do pensador francês, para Costa Lima,
estamos sob o imperativo categórico justamente porque o verdadeiro
imperativo não deve ser sentido como constrangimento. A liberdade, não
conceituável, declara-se em nome do incomensurável e inacessível de uma
obrigação que não pode se apresentar senão sob a forma de seu contrário.
A ficção externa, que se revela no “exercício” do imperativo categórico no
mundo social, refere-se à injunção ficcional presente no éthos imperativo
da obrigação, i.e., aquela lei da lei: “obrigação mais arcaica que a contida
nas normas positivas. Entranhada no imaginário da sociedade, é uma
ficção que se autoignora e, por isso, supomos entendê-la contra a liberdade,
quando é a condição de seu exercício” (LIMA, 2013, p. 244).
O terceiro modo de ficção externa é desenvolvido por Costa Lima
em conversação com a pesquisa de Elena Esposito, que afirma, partindo 139

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 139 21/03/16 14:11


da teoria sociológica desenvolvida por N. Luhmann, a emergência
quase simultânea do romance moderno e o cálculo de probabilidade.
O aparecimento dos cálculos de Fermat e Pascal (por volta de 1665) e de
La Princesse de Clèves, de Madame de La Fayette (1678) apontam para um
fenômeno que a socióloga italiana entende como reduplicação da realidade,
a partir do qual a relação não necessária entre aparência e realidade passa
a ser tematizada por formas em que a contingência e a incerteza parecem
adquirir critérios e regularidades, embora permaneçam fundamentalmente
instáveis. Esse é o ponto de partida para que o autor brasileiro elabore o
modo mais sofisticado de ficção externa: aquele que declara – ao modo de
um cálculo das probabilidades –, o que pode ocorrer, embora não antecipe
o que vai, de fato, acontecer. Nesse sentido, LCL afirma: “Ainda que esse [o
cálculo das probabilidades] falhe, o cálculo não deixa de ser uma hipótese
justa ante facto, pois avança sobre a opacidade do futuro” (LIMA, 2013,
p. 250). Por se configurar como essa modalidade externa, a ficção “funciona”.
Oferece orientações que o estado bruto de coisas não tem condições de
conceder.
A pergunta então seria: qual artefato verbal e qual formação discur-
siva trabalham com esse tipo de ficcionalidade, uma vez que está claro que
o fenômeno literário está inscrito naquilo que foi delimitado como ficção
interna?
A resposta nos permite ver que o desdobramento da teorização da
ficção externa como cálculo de probabilidades é mais uma peça no trajeto
conduzido pela busca de compreensão dos mecanismos de engendramento
das imagens nas diferentes formações discursivas. Trata-se de um arco que
vai se fechando. No primeiro livro da série que analisamos, O controle do
imaginário e a afirmação do romance, Costa Lima afirmava ser o fruto de
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

seu propósito teórico:

[...] retirar a escrita da história da posição insignificante que a Poética


lhe concede e afastar a mímesis dos limites em que Aristóteles ainda
a deixou. O duplo propósito visará ainda a mostrar que, assumindo
caminhos bastante divergentes, a escrita da história e a obra da
mímesis tem um caminho comum. (LIMA, 2009, p. 141).

Esse caminho comum era aquele pelo qual a obra da mímesis se


140 desvencilhava da percepção sensível e de seu prolongamento como cópia

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 140 21/03/16 14:11


pela memória para se mostrar como produto da evocação imaginativa, i.e.,
o caminho pelo qual a imagem abre, incita um movimento de desejo e não o
reitera. Será esse caminho comum que reaparece em Frestas, quando Costa
Lima aponta como traço comum entre ficção interna e externa o fato de que
ambas “tem a propriedade de aclarar uma dimensão temporal que, enquanto
dependente do porvir, permanece encoberta” (LIMA, 2013, p. 249).
E novamente, para efeito de contraste, é a escrita da história e o
trabalho dos historiadores que aparece tematizado para melhor delimitar
a rede discursiva que se forma ao redor do fenômeno literário. A ficção
externa ao modo do cálculo de probabilidades impede que o real seja
entendido como um encadeamento de causas e efeitos, na medida em que
prevê uma planificação que estimula o desvio. O que, segundo propõe
Costa Lima, corresponde, exatamente, ao que a escrita da história faz.
A historiografia, ao executar aquilo que Michel de Certeau denomina
como prática do desvio, trata como “desviantes” as diferenças pertinentes
que emergem em relação aos modelos e séries documentais. A operação
historiográfica pode ser compreendida como essa modalidade ficcional
que atua como um cálculo do provável ou como um processo em que ao
invés “de uma verdade de cunho substancialista, por conseguinte, uma,
temos verdades dependentes do processo que as prepara. Assim como o ver
interpretativo é um ver como, a verdade é resultante de um processo, isto
é, do ver como um sujeito vê um caso e o move em um processo” (LIMA,
2009, p. 140).

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


Todavia, a maneira de compreensão da escrita da história como uma
ficção externa permite a radicalização da “prática do desvio”, tematizada por
Michel de Certeau, no clássico Écriture de l’histoire (1975). Isso porque a
possibilidade de o planejamento ou de o processo provocar desvios passa a
assumir o que Costa Lima chama de efeito boomerang: um movimento que
se volta contra si mesmo para modificar o próprio efeito deflagrador. Isto
é, para LCL, enquanto a ficção interna, aquela concernente aos fenômenos
literários, é capaz de apresentar aspectos da realidade, mas incapaz de
interferir na configuração da realidade; com a ficção externa ao modo
do cálculo de probabilidades e concernente a escrita da história, o efeito
é diferente. Segundo ele, “partindo de uma hipótese ante facto, [a ficção
externa] é capaz de retroceder sobre seu ponto de partida, promovendo a
marcha do imprevisível” (LIMA, 2013, p. 253). 141

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 141 21/03/16 14:11


6.7 Sem uma imagem, a vida humana é impossível
Ao fim do trajeto proposto por esse artigo, percebe-se então que
desdobrando a via aberta pela leitura do De anima, Costa Lima vem
criando uma estrutura conceitual ampla e rizomática que visa cobrir o
complexo universo das relações que se tecem entre linguagem e realidade.
Não obstante, a conjunção dos conceitos de Mímesis-zero e ficção externa
não configuram um sistema. Mas o estudo dos mecanismos comunicativos
e dos padrões de reflexividade da sociedade ocidental, empreendidos por
Luiz Costa Lima, enriquece e sofistica o entendimento das formações
discursivas. A contribuição do autor, ao fim, visa menos dar a última
palavra do que instigar o debate teórico, e é nesse sentido que o lugar da
teoria literária se alarga ao contar com suas reflexões.
Ao projetar a teoria literária num horizonte mais vasto, que
traz para dentro de si o pensamento histórico, sociológico, filosófico e
psicanalítico, Costa Lima acaba por obter menos um resultado que um
projeto: explorar até as últimas consequências a potência da plasticidade da
imagem, compreendendo-a na base daquilo que permite a nós, humanos,
superarmos a nós mesmos.

Referências
ALCIDES, Sérgio. Posfácio: um livro-limite. In: LIMA, Luiz Costa. Mímesis:
desafio ao pensamento. Florianópolis: Editora da UFSC, 2014. p. 307-312.
ARISTÓTELES. De anima. Apresentação, tradução e notas de Maria Cecília
Gomes dos Reis, São Paulo: Ed. 34, 2006.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

BLUMENBERG. Imitação da natureza: contribuição à pré-história da ideia do


homem criador. In: LIMA, Luiz Costa. Mímesis e a reflexão contemporânea. Rio
de Janeiro: Editora da UERJ, 2010. p. 87-136.
BORCH-JACOBSEN, Mikkel. Le lien affectif. Montaigne: Aubier, 1991.
BORCH-JACOBSEN, Mikkel. Le sujet freudien. Paris: Flammarion, 1982
CASSIN, Bárbara. Transmissão e ficcção. In: GUMBRECHT, H; ROCHA, J. C.
(Org.). Máscaras da mímesis: a obra de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Record,
1999. p. 25-43.
CHÉDIN, J. L. La condition subjective Le sujet entre crise et renouveau. Paris:
142 VRIN, 1997.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 142 21/03/16 14:11


DE CERTEAU, M. L’écriture de l’histoire. Paris: Gallimard, [1975] 2002. (Coll.
Folio).
ELIAS, Nobert. The Court Society. Oxford: Blackwell, [1969] 1983.
FREUD, S. [1915]. Pulsion et destin des pulsions, G. W. In: FREUD, S.
Métapsychologie. Paris: Gallimard, 1968. p. 11-44.
FRYE, N. Imagery. In: PREMINDER, A. (Org.). Princeton Encyclopedia Of Poetry
and Poetics. Princenton: Princenton University Press, 1974. p. 363-370.
GEHLEN, A. Essais d’anthropologie philosophique. Paris: Éditions de la Maison
des sciences de l’homme, 2009.
GIRARD, René. (1990). La Violence et le Sacré. Paris: éd. Hachette, 2004. (Coll.
Pluriel).
GIRARD, René. (1961). Mensonge romantique et vérité romanesque. Paris: éd.
Hachette, 2003. (Coll. Pluriel).
KRETSCHMER, J. Apresentação In: VAIHINGER, H. A filosofia do como se:
sistema das ficções teóricas, práticas e religiosas da humanidade, na base de um
positivismo idealista. Chapecó: Argos, 2011. p. 19-66.
LANG, Helen S. On Memory: Aristotle’s corrections of Plato. In: Journal of the
History of Philosophy, v. 18, n. 4, p. 379-393, Oct. 1980.
LEVINAS, E. “Détermination philosophique de l’idée de culture”. In: LEVINAS,
E. Entre nous. Essais sur le penser-à-l’autre. Paris: Grasset, 1995. p. 199-208.
LIMA, Luiz Costa. A ficção e o poema. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
LIMA, Luiz Costa. Frestas: a teorização em um país periférico. Rio de Janeiro:
Contraponto, 2013.

6 – Sem a imagem, a vida seria impossível


LIMA, Luiz Costa. História, ficção, literatura. São Paulo: Companhia das Letras,
2006.
LIMA, Luiz Costa. Limites da voz: Montaigne, Schlegel. Rio de Janeiro:
TOPBOOKS, 2005.
LIMA, Luiz Costa. Mímesis: desafio ao pensamento. Florianópolis: EdUFSC,
2014.
LIMA, Luiz Costa. Mímesis e modernidade. Rio de Janeiro: Graal, 1980.
LIMA, Luiz Costa. O controle do imaginário & a afirmação do romance: Dom
Quixote, As relações perigosas, Moll Flanders, Tristam Shandy, São Paulo:
Companhia das Letras, 2009.
LIMA, Luiz Costa. Trilogia do controle. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Topbooks, 2007.
LORENZ, Konrad. L’envers du miroir: une histoire naturelle de la connaissance.
143
Paris: Flamarion, 2010.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 143 21/03/16 14:11


NANCY, J-L. L’impérative catégorique. Paris: Flammarion, 1983. 
NUNES, Benedito. Prolegômenos a uma crítica da razão estética. In:
GUMBRECHT, H; ROCHA, J. C. (Org.). Máscaras da mímesis: a obra de Luiz
Costa Lima. Rio de Janeiro: Record, 1999.
NUSSBAUM M. C.; RORTY, A. O. (Org.). Essays on Aristoteles’s De anima.
Oxford: Claredon Press, 1992.
PINTO, A. M. Mímesis, imaginação e torsão temporal. Eutomia. Edição 10,
p. 45-58, dez. 2012.
SCHWAB, G. Criando irrealidades: a mímesis como produção da diferença. In:
GUMBRECHT, H; ROCHA, J. C. (Org.). Máscaras da mímesis: a obra de Luiz
Costa Lima. Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 117-137.
SIMMEL, Georg. On individuality and social forms. Chicago: University of
Chicago Press, 1971.
SOARES, Luiz Eduardo. Luiz Costa Lima: a antropofagia e o lugar do sujeito, ou
a janela iluminada e o silêncio da cidade. In: GUMBRECHT, H; ROCHA, J. C.
(Org.). Máscaras da mímesis: a obra de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Record,
1999. p. 265-283.
VAIHINGER, H. A filosofia do como se: sistema das ficções teóricas, práticas e
religiosas da humanidade, na base de um positivismo idealista. Chapecó: Argos,
[1911] 2011.
VIEIRA, Antônio. História do futuro. Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda,
1982.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

144

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 144 21/03/16 14:11


7

Crise ou drástica mudança?


Análise de um caso

Luiz Costa Lima

7.1 Exposição do caso


Na década de 1930, a literatura brasileira conheceu a irrupção do
romance nordestino, por uns interpretado como reação à manifestação do
modernista, para outros a sua concreção. Como o modernismo paulista
oscilava ambiguamente entre o experimentalismo de um Oswald de
Andrade e a busca de raízes da nacionalidade, estimulada por seu prócer
mais influente, Mário de Andrade, o romance nordestino tanto pode ser
dito como reação quanto como efetivação.
Vinculado aos modos perversos da exploração da terra, pela imensa
desigualdade social que o latifúndio, o engenho de açúcar, depois a usina,
implicavam, de cunho decididamente ideológico, passou a ser conhecido,
nas histórias da literatura nacional, como o regionalismo neorrealista.
Dele faziam parte autores que, em alguns casos, permaneceram
conhecidos apenas por suas obras de estreia. É o que sucede com José
Américo de Almeida, com A bagaceira (1928), Rachel de Queiroz, com
O quinze (1930) e Amando Fontes, com Os Corumbas (1933). A estes
se acrescentavam nomes que publicaram por toda a vida – José Lins do
Rego e Jorge Amado, estreantes em 1932, respectivamente com Menino

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 145 21/03/16 14:11


de engenho e País do carnaval. O ciclo era completado por Graciliano
Ramos, de produção numericamente modesta – à sua obra estritamente
novelesca (Caetés, 1933; São Bernardo (1934); Angústia (1935); Vidas secas
(1938); acrescentar-se-iam o livro de contos, Insônia (1947), suas primeiras
memórias, Infância (1945) e as terríveis recordações de sua prisão como
comunista – o que então não era –, durante o Estado novo varguista, nas
Memórias do cárcere (quatro volumes, 1953). Mesmo que se acrescentem
a reunião de crônicas, com destaque para o póstumo Vivente das Alagoas
(1962) e os relatos infantis (Alexandre e outros herois, 1962), a obra de
Graciliano não deixa de se distinguir da produção dos romancistas mais
prolíficos de sua geração, José Lins do Rego e Jorge Amado, seja por não
se diluir progressivamente, seja por não se entregar ao gosto do mercado.
De qualquer modo, tais critérios ainda são demasiado rasteiros para que
assinalem sua singularidade.
Não se trata de negar a vinculação nordestina quer de sua prosa
ficcional, quer de suas primeiras memórias. Sua base nordestina só se
estenderá por outras regiões a partir da macabra experiência no porão do
navio que o transporta, junto com outros presos políticos, para o Rio de
Janeiro, e os anos de cárcere que sofre, sem direito a um processo judicial. O
cárcere na Ilha Grande (RJ) só cessa pela interferência de amigos influentes,
como José Lins do Rego e a ajuda desinteressada de uma figura humana da
grandeza do advogado Sobral Pinto.
Se não se pretende negar o indiscutível, importa pensar se sua obra
concentra-se no raio realista de seus companheiros de região. Para fazê-
lo, convém antes estabelecer o que se entende por raio realista. Vale então
recordar a distinção que Lukács estabelecia, a partir do romance francês
do século XIX e estendia à prosa a ele contemporânea, entre realismo e
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

naturalismo. O realismo correspondia ao romance exemplar, tendo seu


clássico em Balzac, porque apresentaria a estrutura socioeconômica da
conjuntura histórica representada no enredo, ao passo que o naturalismo,
primeiramente tipificado por Zola, contentava-se com seus traços de
superfície. Nos seus próprios termos:

[...] [realismo e naturalismo supõem] a presença ou ausência de uma


hierarquia entre os traços próprios aos personagens representados
e as situações em que se acham postos esses personagens. [...] É
146 secundário que o princípio comum de todo naturalismo, ou seja,

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 146 21/03/16 14:11


a ausência de seleção, a recusa da hierarquização, apresente-se
como submissão ao meio (primeiro naturalismo), como atmosfera
(naturalismo tardio, impressionismo, também o simbolismo),
como montagem de fragmentos da realidade efetiva, em estado
bruto (neorrealismo), como corrente associativa (surrealismo), etc.
(LUKÁCS, 1960 p. 61).

Apesar da enorme extensão temporal dada ao par antagônico,


nenhum dos dois termos cabe univocamente a Graciliano. Qual a razão
de negaça? Não é pela designação de realista que tem sido conhecido entre
seus companheiros de geração? E a denominação “realismo” não é ainda
hoje considerada por muitos críticos como elogiosa?
Em favor da agilidade argumentativa, recorde-se a cena capital de
seu romance de estreia. Como seu título insinua, o protagonista, João
Valério, propõe-se a compor um romance histórico, que teria por base
os índios Caetés, os habitantes originais do atual estado de Alagoas. Mas
a distância entre os modos de vida de um modesto funcionário de uma
cidadezinha interiorana e do que teria sido próprio dos indígenas, já então
dizimados, leva a proposta de romance histórico ao fracasso. Há muitos
anos, eu interpretava o fracasso do personagem como a encenação irônico-
zombeteira por Graciliano do que se fizera, entre nós, com Gonçalves Dias
e José de Alencar: a criação literária de uma fantasia indigenista. Hipótese
bastante diversa só me veio à cabeça ao reler, há poucos anos, o Memórias
do cárcere. Descrevendo as atrocidades que via serem cometidas ou que
lhe contavam, Graciliano observava que, para infelicidade sua, era escritor
em um país em que “essas coisas – as cenas expostas nos romances – eram

7 – Crise ou drástica mudança?


vistas com atenção por uma pequena minoria de sujeitos mais ou menos
instruídos que buscavam nas obras de arte apenas o documento” (RAMOS,
1954, v. 3, p. 132-133, grifo nosso).1
A interpretação que então dera ao Caetés se invertia por completo:
que miséria a deste país em que os poucos mais ou menos instruídos só veem

1
A reflexão das Memórias não deixa de ser problemática. A julgar por ela, a afirmação do melhor
biógrafo de Graciliano seria despropositada: “Graciliano extrai da memória a sua matéria
ficcional, resgatando tanto suas raízes existenciais quanto um conjunto de tradições e heranças
místicas do Nordeste” (MORAES, 2012, p. 214). Mas, ao contrário, ela se ajusta às declarações
mais frequentes do romancista. Embora não possa comprová-lo, creio que a discrepância do
afirmado nas Memórias era consequente às discordâncias que sofria o autor ante as normas 147
rígidas do realismo socialista praticado pelo Partido.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 147 21/03/16 14:11


na obra de arte o documento. E o que teriam sido Os Timbiras, O Guarani
e Iracema senão tentativas de documentar, por certo imaginativamente,
a vida das populações primitivas do país e/ou sua aproximação com o
branco conquistador? Já, portanto, em seu primeiro romance, por certo
ainda distante da qualidade de sua ficção realizada, Graciliano intuía haver
algo errado na apreciação literária vigente em seu país. Mas, contra essa
segunda leitura, não era precisamente o documento que aparecia, para um
crítico contemporâneo afamado como Lukács, como característica da obra
realista? E em que a valorização do documento varia quanto ao critério
mais recente que louva a obra como testemunho de uma desastrosa situação
social?2 Seria irrelevante a diferença que se pretendesse fundada em o
louvor do documento supor o respaldo marxista, o que não mais sucede
no realce do testemunho. Ora, como Graciliano foi reconhecido como
um escritor realista, a correta seria a minha primeira leitura do Caetés.
E era como documento que eu mesmo lia o São Bernardo em meu livro de
estreia, Por que literatura (1966).
Por sorte dos leitores de Graciliano, sua interpretação grosseira foi
ultrapassada pela leitura que Abel Barros Baptista fez de São Bernardo.
De seu estudo exemplar, destaco duas passagens capitais. Na primeira, é
ressaltada a excelência do capítulo 19. Paulo Honório e Madalena haviam
se casado há pouco. Mas, como assinala o crítico português, o pequeno
intervalo entre a cena do casamento e o capítulo destacado, e ser o livro
escrito a posteriori são indicativos de que a felicidade durara bem pouco.
Sentia-se Paulo Honório não só agredido pelas disposições progressistas
tomadas por Madalena, como enciumado de todos. A matéria do capítulo
não faz, contudo, que o romance assuma a forma de recordação, como, de
acordo com os moldes realistas deveria estar. Já a leitura atenta da abertura
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

expõe sua discordância:

Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci


tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou
inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta
vida agreste, que me deu uma alma agreste. – E, falando assim,
compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato

2
Embora a fonte não declare claramente a data da afirmação, a frase de Rachel de Queiroz
148 confirma a sinonímia: “O que fazíamos era romance-documento, romance-testemunho” (apud
MORAES, 2012, p. 75).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 148 21/03/16 14:11


moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada,
mas sou forçado a escrever. (RAMOS, 2012, p. 117).

As brigas contínuas, o suicídio de Madalena, a separação então


dolorosa, tudo isso já se dera. No entanto, o segundo parágrafo aparece com
verbos no presente, a terminarem com a cláusula “sou forçado a escrever”.
“Forçado por quê? Qual a força que o impele ou obriga a escrever? [...]
Forçado a escrever mesmo sabendo de antemão que nunca atingirá o retrato
moral de Madalena, ou forçado a escrever para o procurar, sem critério
viável para aferir o êxito da busca?”, pergunta-se o crítico (BAPTISTA, 2005,
p. 111-112). E o capítulo prossegue com a observação da alternância dos
tempos verbais: “La fora os sapos arengavam, o vento gemia, as árvores do
pomar tornavam-se massas negras. – Casimiro!” (RAMOS, 2012, p. 118).

Com a entrada de Casimiro Lopes, os verbos passam para o presente.


Mas a ação narrada decorre no presente ou no passado?. [...] Tudo
se esclarece, então: os verbos no presente dão conta da presença do
passado no presente. (BAPTISTA, 2005, p. 113).

A frase, simples e incisiva, é suficiente para decretar a insuficiência


do realismo. Que testemunha a substituição do tempo verbal, o presente
ocupando o lugar do passado, senão que a recordação não se confunde com
o tempo da memória, pois o tempo que efetivamente vigora é o tempo da
narrativa?
A segunda passagem que destaco completa o desmonte do realismo.
Até aqui ainda podíamos entender o ciúme como decorrência da diferença

7 – Crise ou drástica mudança?


dos níveis de cultura do casal. Mais precisamente, do “sentimento de
propriedade” do macho sertanejo. Sem que se refira a um momento
específico da relato senão que a seu todo, escreve o crítico:

O ciúme não é variante da desconfiança ou do sentimento de


propriedade imputáveis à profissão, mas uma paixão que não
depende delas, que até as contraria, e que radicalmente se liga
ao sentimento amoroso, que já levara Paulo Honório a fazer algo
diverso do que projetara […] (BAPTISTA, 2005, p. 125).

O que vale dizer, o ciúme não se encaixa em uma cadeia de causas


e efeitos que efetuaria o transporte para o plano da linguagem do que 149

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 149 21/03/16 14:11


já se dera na sociedade, matéria-prima do romance. O ciúme nos lança
noutro plano que não o da mera transmissão da realidade. Por isso o São
Bernardo, como toda ficção de qualidade, não se restringe a ser documento
ou testemunho de algo que já antes dela existia.
Até este momento, demos a entender que o ensaio de Abel Barros
Baptista estabeleceu um dique contra a interpretação habitual de Graciliano
Ramos. Procuro a seguir mostrar que, sendo correta, essa ainda é uma
compreensão parcial. Para mostrá-lo, recorro a umas mínimas passagens
que Antônio Candido dedicou a Vidas secas.
A primeira ressalta a singularidade do escritor alagoano entre seus
companheiros “regionalistas”. Para fazê-lo, recorda a formulação de Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira (apud CANDIDO, 1992, p. 102): “Cada uma
das obras de Graciliano Ramos (é) um tipo diferente de romance”. E daí parte
para refletir sobre Vidas secas. Aproveitando agora uma observação de Lúcia
Miguel Pereira, Candido acentuava “a força de Graciliano ao construir um
discurso poderoso a partir de personagens quase incapazes de falar, dada à
rusticidade extrema, para os quais o narrador elabora uma linguagem virtual
a partir do silêncio” (CANDIDO, 1992, p. 104-105, grifo nosso).
Na verdade, na rusticidade de toda a curtíssima narrativa, a falta de
palavras é quase a regra absoluta. O tratamento da falta, contudo, apresenta
uma diferença básica: se o proprietário da fazenda abandonada, a que
chegam os retirantes, Fabiano, sua família e a cachorrinha Baleia, não tem
do que se queixar, nem por isso deixa de gritar e dar ordens. O que ele tem
a dizer é nada, pois Fabiano é um vaqueiro exemplar. Mas os desaforos
são a linguagem do dono da terra. Do mesmo modo, se o Soldadinho
amarelo e a guarnição a que pertence têm poucas palavras em reação ao
“desacato à autoridade” de que acusam Fabiano, em troca as pancadas com
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

que malham suas costas e a prisão a que o recolhem são a linguagem da


autoridade. Portanto, ainda que sejam escassas suas palavras, o senhor
das terras e as autoridades policiais não precisam de muitas. A semiologia
brutal do mando as substitui. Em troca, que palavras tem Fabiano para
contestar ao pedido de uma cama razoavelmente decente por sinhá Vitória?
Que palavras tem a mulher quanto às perguntas dos dois pequenos filhos?
Como o mais velho podia expressar a admiração pelo pai em sua plena
roupagem de vaqueiro senão tentando cavalgar o bode velho? A família de
Fabiano, em suma, está reduzida a umas mínimas palavras, que não têm o
150 apoio dos sinais de mando.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 150 21/03/16 14:11


O silêncio que habita o humano sem posses prolonga-se até à
cachorrinha Baleia e nela alcança seu auge. A ausência de palavras na
cena de sua morte é um dos maiores capítulos da literatura brasileira.
Por temer que os sinais da doença que nela se manifestavam indicassem
que ela estivesse hidrofóbica, Fabiano, para proteger os filhos de serem
contagiados, persegue-a, para matá-la. Mas o tiro que dispara não é mortal;
entre surpresa e espantada, a cachorrinha se arrasta. O capítulo “Baleia” é
quase tão só formado pela lenta agonia do animal. Baleia procura fugir ou
se esconder ou escapar dos sinais da morte que dela se avizinham.
Podemos mesmo estabelecer, do ponto de vista de disponibilidade
de linguagem, uma hierarquia entre os personagens. Para o fazendeiro e
os policiais, muito poucas palavras são suficientes pois, sob a forma de
gritos e pancadas, os sinais de mando são bastantes. Para Fabiano e sua
família, a espoliação, a falta, a fuga (da seca e, sempre que possível, dos
outros homens) dão lugar ao resmungo aflito ou raivoso, com que falam o
silêncio. Para Baleia, enquanto esteve saudável, o silêncio tem o cheiro dos
preás, que, caçados por ela, diminuía a fome dos retirantes ou se exprime
nas brincadeiras em que se envolve com as crianças. À medida que a morte
dela se aproxima, o silêncio se confunde com o negror que se espalha a seu
redor, com a fantasia que nela cresce, antes que os urubus venham bicar
seus olhos mortos: “Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo
cheio de preás” (RAMOS, 1953, p. 109).
Em suma, se houve um tempo em que a crítica considerava inconteste
a presença do realismo em Graciliano Ramos, a partir da abordagem de
Abel Barros Baptista podemos voltar atrás e verificar que, em vez de um
bloco maciço, a crítica anterior já mostrava vias contrárias ao que a tradição

7 – Crise ou drástica mudança?


postulava. Apenas considerando São Bernardo e Vidas secas, a compreensão
do significado do ciúme de Paulo Honório e o silêncio que acompanha a
vida e a morte de Baleia são os polos dentro dos quais a suposta unicidade
do realismo de Graciliano é carcomida.

7.2 O paradigma em questão


Queiramos ou não, as apreciações mudam e muitas vezes provocam
valorações antagônicas. Diga-o o barroco. Menosprezado por séculos, sua
reapreciação só passou a se dar a partir das primeiras décadas do século 151

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 151 21/03/16 14:11


XX. Não se cogita que algo semelhante esteja acontecendo a Graciliano
Ramos ou a qualquer outro autor brasileiro. Nosso sistema intelectual é
extremamente refratário a quaisquer mudanças, como se elas afetassem a
dignidade de seus representantes. Apesar da alegada resistência, contudo,
como mostra o exame acima empreendido, a obra de Graciliano “corre o
risco” de ser estimada por um modo contrário ao que, fixado ainda durante
sua vida, permanece por certo dominante. Mudança fundada em quê? Na
apreciação do que entende por realismo. Perguntemo-nos pois sobre a
história e os fundamentos do critério. A apreciação será intencionalmente
bastante terra a terra. O primeiro registro nominal do termo é de 1826,
e surge no jornal parisiense Le Mercure français. Para o jornalista que o
emprega, por realismo entende-se uma “doutrina literária que conduziria à
imitação não de obras-primas da arte mas dos originais que a natureza nos
oferece” (apud HEMMINGS; CARSANIGA, 1974, p. 5).
Ressalte-se na definição o termo imitação, que representa a pedra de
toque do conceito. Mas não se pense que o autor tivesse encontrado por si
a chave do tesouro. É verdade que o termo mesmo não é empregado pelo
famoso Dr. Johnson. Se ele, de fato, falta em sua caracterização de 1750,
os ingredientes de sua fórmula já estão bem explícitos: “As obras ficcionais
com as quais a presente geração parece mais particularmente deliciar-se são
aquelas que exibem a vida em seu verdadeiro estado, apenas diversificado
pelos acidentes que diariamente sucedem no mundo e influenciado pelas
paixões e qualidades realmente encontradas no contato com a natureza”
(HEMMINGS; CARSANIGA, 1974, p. 11-12).
Não é necessário algum esforço para compreender-se que ao
coloborador do jornal francês coube o privilégio de encontrar le mot juste
da relação entre o que vida mostra in its true state e o que a obra pictórica
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

ou literária expõe.
Por conseguinte, a fortuna do realismo na arte parte da primeira
metade do século XVIII e viria encontrar sua máxima expressão ao longo
do século XIX. Centrando-se inicialmente na França e na Inglaterra e
concentrada no gênero que, desde então, é o ápice da forma literária, o
romance, o prestígio do realismo é contemporâneo à expansão primeira do
capitalismo industrial e dos meios de comunicação (a estrada de ferro e o
telegrama sem fio). Nenhuma estranheza que tenha se difundido das duas
152 nações europeias então mais desenvolvidas e tampouco que daí seu prestígio

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 152 21/03/16 14:11


tenha se estendido à Rússia, à Alemanha, à Itália, aos países ibéricos e,
a partir destes, às suas ex-colônias sul-americanas. Não será preciso nos
demorarmos na catalogação de nomes e detalhes há muito divulgados em
manuais como o de Hemmings e Carsaniga. Para verificá-lo, será suficiente
a consulta de um sistematizador amante de banalidades como René Wellek.
Ainda em momento de glória, formulava como a meta do romance realista
do Oitocentos “a representação objetiva da realidade contemporânea”
(WELLEK, 1963, p. 240-241). Wellek sente a obrigação de ir além do que
já deveria ter lido em inúmeras ocasiões e acrescentar que a “representação
objetiva da realidade” implicava, por parte do romancista, a rejeição do
“fantástico, do fantasioso, do alegórico, do simbólico, do extremamente
estilizado, do pesamento abstrato e do decorativo” (WELLEK, 1963,
p. 241). Em síntese, todas essas recusas significam “que não queremos mitos,
relatos fantásticos (Märchen), o mundo dos sonhos” (WELLEK, 1963,
p. 241). Noutras palavras, o padrão a ser seguido deveria ser estritamente
a imitação da natureza e da engrenagem da sociedade. Assim, só assim, a
literatura seria um divertimento sério e recomendável.
A descrição do que haveria de se entender por realismo fora
tão unânime que sua caracterização histórica não poderia diferir em
enciclopédias recentes, cujo refinamento se revela ou na observação
de detalhes que passavam não notados ou no destaque de discrepâncias
que temporalmente se manifestaram. Assim, no verbete “realism” da
Princeton encyclopedia of poetry and poetics, lê-se que termo “designa
um mundo artisticamente criado (‘fictício’ ou ‘ficcional’) [...] baseado
na concordância implícita entre leitor e escritor [...] de que a realidade é
constituída pela factualidade objetiva das leis naturais (WINKLER, 2012,

7 – Crise ou drástica mudança?


p. 1148). Acentuando a concordância entre leitores e autores e a afirmação
de que a realidade decorre da factualidade das leis naturais, explicitam-
se as condicionantes do que se entendia como “imitação” e “representação
objetiva” e por que ambas eram tomadas como incontestáveis e naturalmente
dadas.
Editado um pouco antes, o não menos importante Dictionary of
cultural and critical theory tem a vantagem de acrescentar umas pequenas
nuanças. No verbete “classical realism”, observa-se que a designação é usada
sobretudo por críticos marxistas e pós-estruturalistas. As divergências
importam porque têm repercussão contemporânea. Na orientação 153

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 153 21/03/16 14:11


marxista, o autor, Christopher Norris, distingue entre a direção lukacsiana,
para a qual a obra realista é ditada de “um potencial crítico emancipatório”,
que a tornaria politicamente recomendável, ou seja, ideologicamente
manipulável, da vertente temporalmente posterior representada por Pierre
Macherey e Terry Eagleton, que antes acentuam o realismo expor um
modo de consciência falsa, uma atenuação dos conflitos, só passíveis de
serem notados por uma leitura “sintomal”. Já para o pós-estruturalismo de
um Roland Barthes, a designação é “um mero artifício, uma astúcia pela
qual o romance procura esconder ou repudiar os signos de sua produção
cultural e assim mascarar a realidade que expõe” (NORRIS apud PAYNE;
BARBERA, 2010, p. 136).
As diferenças são decisivas para nosso propósito. Em primeiro
lugar, na linha marxista mais recente, é afastada a euforia potencialmente
propagandística da época stalinista e o crítico se desvencilha da
solidariedade, vigente ao longo dos séculos XVIII e XIX com o ideário dos
autores realistas, em favor de uma visão potencialmente crítica, fundada
na afirmação de que a imitação da vida “como ela é” não passa de uma
ingenuidade ou de um engodo, no melhor dos casos, de um autoengodo.
Esta potencialidade crítica se torna ainda mais evidente na linha
barthesiana. Quando, portanto, assinalávamos que a caracterização do
realismo continua genericamente ainda dominante não se declara que seus
adeptos mantenham a crença que a obra literária tivesse como qualidade
básica oferecer um “retrato” da sociedade. Ou seja, o termo “imitação”
deixa de estar entre as ferramentas definitórias do realismo. Mas o fato de
já não se falar em “imitação” não significa que ele deixa de estar presente,
entre os proponentes do realismo, embora de modo velado. E isso mesmo
porque se mantém a suposição de a obra ficcional, conquanto de maneira
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

mais refinada, revelar como é a realidade social. Sucede apenas que tal
pretensão passa a ser vista de modo indireto – “sintomal”, como Norris
usa o termo de Althusser para definir o marxista de autores posteriores à
queda do império soviético. Tal seria a distinção radical com a posição de
Barthes. Se de sua obra não se retira alguma outra propriedade do literário
além da ênfase na construção da própria forma; se, portanto, afasta-se o
literário do padrão realista, sua pertença ao mesmo paradigma resulta de
que à negação do perfil realista – “imitação”, apreensão do que a realidade
154 é – não se segue algo mais propriamente definitivo. (A ênfase na forma

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 154 21/03/16 14:11


se caracteriza negativamente: a forma literária se distingue da formulação
comunicativa, do enunciado científico ou pragmático, e o potencial da
negação se restringe a dizer o que ela não é.)
Embora extremamente sumária, a exposição acima assinala o que
caracterizou o paradigma realista em relação à obra literária e como,
ora de maneira ainda velada, ora de maneira explícita, ele sofre uma
reviravolta, a partir da década de 1960. Tal reviravolta, contudo, não
afeta o enfoque básico a que a obra literária era sujeita. Ou melhor, seja
no sentido tradicional como o termo realismo era empregado, vindo do
Dr. Johnson, passando por Wellek até Lukács e seus seguidores, até seus
veementes negadores, como Roland Barthes, a base da reflexão da literatura
se concentrava em variantes, explícitas ou sofisticadas, da verossimilhança
aristotélica. No sentido tradicional e, talvez o leitor se espante, entre nós,
ainda majoritariamente entre críticos e professores de literatura, a obra
realista é considerada verossímil porque retrata a realidade como ela é,
seja por duplicá-la, seja por lhe dar uma organização que, enquanto tal,
a sociedade mesma não é capaz de revelar. A proposta “sintomal” opta
por uma orientação não explícita, mas se a obra é sintoma de algo é que
este algo está na realidade social. Por isso ela continua verossímil. A linha
barthesiana melhor se definiria como o “le degré zero” do verossímil. Se
dizemos pois que este se mantém é porque o zero não abre senão para ele
mesmo. E à semelhança desta linha definem-se as várias e distintas tentativas
de caracterizar o ficcional literário. Dizendo de maneira extremamente
grosseira, acrescentaria que Barthes é sintomático de um período em que
um paradigma, tendo entrado no ocaso, não encontra algum outro. O que
nos parece que mais se aproxima de uma posição axial é a estética do efeito

7 – Crise ou drástica mudança?


de Wolfgang Iser, com seu princípio de a obra ficcional literária caracterizar-
se por ser uma estrutura com vazios, a serem suplementados pelo leitor.
Sem que possa me estender, diria que, embora esse achado seja relevante,
ele ainda não ultrapassa um certo ponto zero, isto é, ainda não caminha
bastante para constituir um novo paradigma. Poderia então concluir que
temos, por um lado, os retardatários de um paradigma ultrapassado e, por
outro, um enxame de propostas que cobrem pequenos círculos. Mas, em
vez desta solução, acrescento outra.
Havíamos caracterizado o paradigma realista e suas sequelas como
fundadas na verossimilhança. Vale então lembrar a formulação da Poética: 155

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 155 21/03/16 14:11


“Os acontecimentos são possíveis conforme o verossímil ou o necessário”
(Poét., 1451b). Ao domínio de eikos (o verossímil), por que não pensar
seriamente no oposto, Anankè? As razões em contrário foram dadas pelo
primeiro romantismo alemão: verossímil e necessário eram as disposições
pelas quais a mímesis aristotélica se atualizava. Ora, desde que Roma
converteu a Grécia em colônia e absorveu seu legado intelectual, mímesis
foi traduzida por imitatio. E assim se manteve por séculos. Os românticos
então ensinaram aos eruditos europeus que isso era uma blasfêmia para a
expressividade do sujeito. Assim ao sujeito autococentrado correpondeu
o desprezo pelo suposto correspondente da mímesis, a imitatio.
Paradoxalmente, o molde realista reatualizou a imitatio, justificando-a
não enquanto disposição da arte senão como decorrência da afirmação das
leis naturais da realidade. Noutras palavras, a imitation moderna tem por
fonte o domínio do científico e não a dicção, em que se fundava a fonte
grega. Anankè, o necessário continuou interditado, mesmo quando a
suposta inquestionalidade da realidade perdeu seu crédito. Ora, quando
Abel Baptista escreve que, em São Bernardo, a recordação de Madalena
por Paulo Honório se dá com os “verbos no presente (que) dão conta do
passado no presente”, que faz ele senão recorrer ao que se impunha ao
proprietário saudoso e culpado pela morte da companheira? A saudade e a
culpa seriam verossímeis mas o emprego dos verbos no presente para dizer
de uma cena passada são parte de um necessário impossível de ser negado
pelo personagem Paulo Honório. Com isso quero dizer: para irmos além
da estaca zero ou de soluções incompletas impõe-se repensar a categoria
da mímesis. Por certo, não na tentativa de restabelecer o pensamento
aristotélico, quando nada porque a cosmologia grega não poderia ser
refeita em tempo de dimensões tão diferenciadas, senão de desenvolvê-lo
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

em ambiência tão distinta. Anankè então se torna um verdadeiro ponto


de partida para um work in progress. As dificuldades de levá-lo adiante
são evidentes. Desde logo, porque as bases do pensamento ocidental têm-
se desenvolvido na Europa e, ao menos até agora, o scholar europeu não
está convencido que deveria por em discussão o que seu mais brilhante
romantismo havia alijado. Em segundo lugar, porque à nefasta sinonímia
entre mímesis e imitatio se acrescenta a imitation motivada pelo capitalismo
industrial e, pior ainda, sua adoção pelo tristemente lembrado realismo
156 socialista. Em segundo lugar, porque o desenvolvimento que o princípio

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 156 21/03/16 14:11


da mímesis deverá receber depende de uma reflexão que se opere dentro da
linguagem e esta se tornou objeto de uma ciência, a linguística, que, por seu
próprio recorte científico, parece pouco apropriado para uma indagação
que antes exigiria uma formação tanto filosófica como transdisciplinar.
Se estas são as dificuldades que de imediato visalizamos, já tê-
las considerado, levando em conta, em contraste, o que já fizemos neste
sentido poderá talvez indicar um ponto de partida.

Referências
ARISTÓTELES, Poét. Trad. DU-ROC, R.; LALOU, J. Paris: ed. Du Seuil, 1980.
BAPTISTA, A. B. O livro agreste: ensaio de curso de literatura brasileira.
Campinas: Unicamp, 2005.
CANDIDO, A. [1956]. Ficção e confissão: ensaio sobre a obra de Graciliano
Ramos. São Paulo: Editora 34, 1992.
HEMMINGS, F. W. J.; CARSANIGA, G. The Age of realism. New Jersey: The
Harvester Press, 1974.
LIMA, L. C. Por que literatura? Rio de Janeiro: Vozes, 1966.
LUKÁCS, G. [1958]. La Signification présente du réalisme critique. Trad. Maurice
Gandillac. Paris: Gallimard, 1960.
MORAES, D. de. [2012]. O Velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos São
Paulo: Boitempo Editorial, 2013.
PAYNE, M.; BARBERA, J. R. (Ed.). A Dictionary of cultural and critical theory.
New Jersey: Blackwell Publishing, 2010.
RAMOS, G. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora,

7 – Crise ou drástica mudança?


1954. v. 3.
RAMOS, G. [1934]. São Bernardo. 92. ed. Rio de Janeiro: Record, 2012.
RAMOS, G. [1938]. Vidas secas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora,
1953.
WELLEK, R. Concepts of criticism. New Haven: Yale University Press, 1963.
WINKLER, M. Realism. In: GREENE, R. (Org.). The Princeton encyclopedia of
poetry & poetics. 4. ed. Princeton: Princeton University Press, 2012.

157

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 157 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 158 21/03/16 14:11
III Lugares da teoria

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 159 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 160 21/03/16 14:11
8

Lugares da (teoria da)


literatura: desafios 1

Ivete Walty

Várias são as publicações atuais que se propõem refletir sobre os


lugares e o papel da literatura no mundo contemporâneo. Para ficar em
alguns, citem-se Tzvetan Todorov, com A literatura em perigo (2009);
Antoine Compagnon, Literatura para quê? (2009) e Nancy Huston, com
A espécie fabuladora (2010). Para entrar na discussão teórica que
empreendem esses livros e que muito nos interessa, vale ressaltar que o fato
de tal assunto estar em pauta já nasce da percepção de que o cenário da
literatura e da teoria a ela correlata na sociedade atual mudou em relação
aos séculos ou mesmo às décadas anteriores e fomenta a pesquisa sobre as
razões históricas e funcionais de tal fato.
Os três textos citados têm como objetivo comum ressaltar a relação
da literatura com a experiência humana, o estar do homem no mundo, o
que os liga ao antológico texto de Antonio Candido, “O direito à literatura”
(2004). Senão vejamos. Todorov faz ecoar as palavras de Candido, ao
afirmar:

[...] os estudos literários encontrariam o seu lugar no coração das


humanidades, ao lado da história dos eventos e das ideias, todas
1
Este artigo retoma ideias de textos já publicados por mim porque integram uma reflexão que
venho desenvolvendo há algum tempo.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 161 21/03/16 14:11


essas disciplinas fazendo progredir o pensamento e se alimentando
tanto de obras quanto de doutrinas, tanto de ações políticas quanto
de mutações sociais, tanto da vida dos povos quanto da de seus
indivíduos. (TODOROV, 2009, p. 93).

E continua para concluir dogmaticamente:

Se aceitarmos essa finalidade para o ensino literário, o qual não


serviria mais unicamente à reprodução dos professores de Letras,
podemos facilmente chegar a um acordo sobre o espírito que o deve
conduzir: é necessário incluir as obras no grande diálogo entre os
homens, iniciado desde a noite dos tempos e do qual cada um de
nós, por mais íntimo que seja, ainda participa. “É nessa comunicação
inesgotável, vitoriosa do espaço e do tempo, que se afirma o alcance
universal da literatura”, escrevia Paul Bénichou. A nós, adultos, nos
cabe transmitir às novas gerações essa herança frágil, essas palavras
que ajudam a viver melhor. (TODOROV, 2009, p. 94).

Nancy Huston (2010, p. 19), discorrendo sobre o aspecto ficcional da


vida humana, propõe que “a narratividade se desenvolveu em nossa espécie
como uma técnica de sobrevivência” e que “ela está inscrita nas próprias
circunvoluções de nosso cérebro”.2 Discorre, então, sobre o que chama
as boas e más ficções, boas e más histórias que criamos ou criam-se para
cada um de nós. E defende que a literatura, em especial o romance, nos
impede de cair no “Arque-texto, ou seja, na veemência, na violência, na
criminalidade, na opressão do próximo, das mulheres, dos fracos ou até de
um povo inteiro” (HUSTON, 2010, p. 128). Também ela leva a literatura
para a escola e, ressaltando a função ética do romance, preconiza:
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

[...] a escola não deve mais se contentar em inculcar nas crianças


o “cânone” do seu país, enaltecendo a literatura nacional por uma
questão de patriotismo e massacrando-a com análises.
Mais do que isso: ensinar as crianças a simplesmente se apaixonar
pela leitura. Suscitar nelas o desejo – e a capacidade – de devorar
a literatura do mundo inteiro. (HUSTON, 2010, p. 129, grifo da
autora).

162
2
Esse aspecto será retomado mais à frente.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 162 21/03/16 14:11


Compagnon, por sua vez, secunda autores que atribuem à literatura
o papel de pensar diferentemente a vida, introduzindo “em nossas certezas
a dúvida, a ambiguidade e a interrogação” (COMPAGNON, 2009, p. 52).
De forma mais interrogativa, no entanto, alarga tal função para a leitura:

Respondi às perguntas que coloquei há pouco? Literatura para quê?


A literatura é substituível? Ela sofre concorrência em todos os seus
usos e não detém o monopólio sobre nada, mas a humildade lhe
convém e seus poderes continuam imensos: ela pode, portanto,
ser abraçada sem hesitações e seu lugar na Cidade está assegurado.
O exercício jamais fechado da leitura continua o lugar por
excelência do aprendizado de si e do outro, descoberta não de uma
personalidade fixa, mas de uma identidade obstinadamente em
devenir. (COMPAGNON. 2009, p. 56-57).

O que levaria três teóricos3 a apontar um aspecto salvacionista na


literatura, à moda de intelectuais modernos que se atribuem a função de
guias iluminadores da sociedade, vendo na literatura “o sonho acordado
das civilizações” e “fator indispensável de humanização” (CANDIDO,
2004, p. 175)? E mais: por que a proposta de salvar a literatura?
Algumas ideias devem ser aventadas. A primeira delas é a constatação
de que a o lugar da literatura na sociedade mudou. Mudou porque não
se vive mais a mesma configuração do espaço público preconizado por
Habermas (1984) como a esfera dos letrados, na passagem do século XVIII
para o XIX na Alemanha, França e Inglaterra, mesmo porque o próprio

8 – Lugares da (teoria da) literatura


Habermas (1993) já reconhecera a pluralidade dessa esfera de que se alijara
antes os iletrados. Mudou porque a literatura não está mais a serviço da
construção da nação, cuja própria concepção encontra-se em causa. Mudou
porque, com o advento de outras mídias, novas formas de letramento
surgiram movimentando o cenário social. Mudou porque o fortalecimento
da internet cria outros lugares de publicação e de interação como os blogs
e as redes sociais, em que o status de escritor teria perdido sua aura “na
lama”, como no período a que se refere Baudelaire (1988). Mudou porque
se planejam feiras e festas literárias pelo país e pelo mundo afora em que
escritores e editores transitam, dão entrevistas e fazem vender livros, sem
contar a intensidade dos prêmios literários. Mudou ainda porque, em
163
3
Huston é também ficcionista.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 163 21/03/16 14:11


países como o Brasil, a periferia entrou em cena organizando saraus e
semanas literárias noticiadas em jornais, sejam os de grande tiragem, sejam
os alternativos.
Os textos literários e seus correlatos como os da teoria e da crítica em
suplementos literários jornalísticos encolheram cedendo espaço a matérias
sobre grafite e quadrinhos, como antes dialogavam com os de cinema,
pintura e música.
Em seu livro sobre o jornalismo cultural, Marcelo Lima (2013),
traçando a trajetória dos suplementos literários e culturais da Folha de S.
Paulo, delineia as configurações que estes vão assumindo no tratamento dos
discursos teórico-críticos através dos tempos. Qualquer leitor mais antigo
da Folha pôde perceber o que ele aponta sobre a passagem do “Folhetim”,
para o caderno “Mais!” até a atual “Ilustríssima”. Em sua caracterização do
caderno “Mais!”, por exemplo, o autor paranaense mostra que, a despeito
da presença de uma noção mais aberta de cultura, haveria nas três fases do
suplemento uma supremacia dos discursos ligados à literatura, que teriam
como traço mais marcante o privilégio da tradição crítica brasileira, “como
se sua releitura para o público pudesse incentivar e ‘corrigir’ a produção
contemporânea, considerada de pouca importância” (LIMA, 2013, p. 91,
grifo do autor). Tal postura lhe conferiria um viés conservador de defesa
contra os estudos culturais. Diz o autor em sua conclusão:

Como todo empreendimento preservacionista, sua abordagem


fixou-se na notoriedade dos autores que abordou, evitando o risco
de apostar em novos nomes. A pesquisa mostrou, portanto, uma
tendência conservadora da imprensa brasileira nos anos 1990
que, em nome da ampliação do número de leitores, investiu num
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

conjunto estável de valores da literatura. (LIMA, 2013, p. 233).

Mais do que discutir tal tendência, de resto já apontada também no


“Folhetim”, em sua relação com a academia, importa notar a forte presença
do discurso literário e seus correlatos nos suplementos da época, hoje
diminuídos significativamente, pelo menos no que se refere a um tipo de
literatura. A definição do caderno “Ilustríssima”, que substituiu o “Mais!”,
pela própria Folha, deixa claro seu caráter de suplemento cultural:

164 A Ilustríssima é o suplemento aberto à discussão dos grandes temas


da cultura no Brasil e no mundo. O caderno acompanha a produção

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 164 21/03/16 14:11


artística e intelectual em ensaios e reportagens sobre arte, ciência e
humanidades, em linguagem clara e sem jargões. Cada edição traz
trabalhos inéditos de artistas brasileiros e internacionais, além de
cartuns e quadrinhos. (Disponível em: <http://www.publicidade.
folha.com.br/folha/cadernos/ilustrissima>. Acesso em: 13 out. 2014).

Um simples olhar sobre o índice do caderno deixa claros sua


pluralidade de temática e o caráter mais episódico da presença do discurso
literário e seus correlatos. O mesmo ocorre com as revistas semanais em
que a forte recorrência de crônicas e matérias sobre autores e livros, como
ocorria na revista Manchete ou em O Cruzeiro, por exemplo, se escasseia
nas atuais Veja, Istoé ou Época.
A esse respeito, Costa Lima, relacionando mídia e academia,
interroga-se sobre o papel de cada uma dessas instituições e, depois de
ironizar a função educativa da mídia contemporânea em contraposição ao
efeito pedagógico da tragédia grega, afirma: “Cadernos especiais de jornais
não poderiam ser comparados com o que resta dos nossos suplementos de
cultura” (LIMA, 2013, p. 158).
Ao lado disso há que se observar a oscilação das revistas e jornais
especializados em literatura que vêm do Modernismo até hoje, ora com
ressonância nacional, ora regional; ora com apenas três números, ora com
duração de anos. De A revista até o jornal de resenhas Rascunho, caminhos
são rastreados, tendências delineadas. Não é nosso propósito, porém, traçar
tais trajetórias. Antes o que se quer é mostrar que a literatura circula e com
ela seus conceitos e aparatos teóricos.

8 – Lugares da (teoria da) literatura


No fim dos anos 1990, Compagnon (1999) já lamentava, em “O que
restou de nossos amores?”, prefácio da obra O demônio da teoria: literatura
e senso comum, a queda da teoria da literatura na França, observando que,
depois do seu florescimento com Barthes e outros, ela teria voltado a um
estágio anterior de atraso em relação à Inglaterra e à Alemanha, similar ao
percebido por Spitzer:

Em 1960, pouco antes de morrer, Spitzer atribuía esse atraso e


esse isolamento franceses a três fatores: um velho sentimento de
superioridade ligado a uma tradição literária e intelectual contínua
e eminente; o espírito geral dos estudos literários, sempre marcado
pelo positivismo científico do século XIX, à procura das causas; a 165
predominância da prática escolar de explicação de texto, isto é, de uma

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 165 21/03/16 14:11


descrição ancilar das formas literárias impedindo o desenvolvimento
de métodos formais mais sofisticados. (COMPAGNON, 1999, p. 12).

A isso Compagnon acrescenta “a ausência de uma linguística e de


uma filosofia da linguagem comparáveis às que invadiram as universidades
de língua alemã ou inglesa” (COMPAGNON, 1999, p. 12).
Observação semelhante é feita por Luiz Costa Lima que até
recentemente vem apontando o que considera a escassez do pensamento
teórico no Brasil, atribuindo-a ao que chama “miopia do pensamento
reflexivo” (LIMA, 2013, p. 468). Não sem razão costuma incentivar o estudo
da filosofia nos cursos de Letras associando-o à reflexão sobre a atividade
intelectual no país: “tudo nos leva a pensar que é a própria sociedade
brasileira que desqualifica a relevância da questão intelectual” (LIMA, 2013,
p. 475, grifo do autor).
A palavra Frestas, no título do livro em que circulam essas e outras
ideias de Costa Lima (2013), que faz uma revisão crítica de seu próprio
percurso – Frestas: a teorização em um país periférico – sugere o aspecto
de entremeio que marca tal atividade. Esse caminhar pelas margens pode
trazer algum proveito reflexivo, como bem apontara Silviano Santiago
(1978) em vários de seus ensaios marcados pela ideia de entre-lugar e de
suplemento, ou Piglia (1991) e sua noção de mirada estrábica.
Se tomarmos a ideia de mímesis revisitada por Costa Lima
quando associa tal questão àquela de controle do imaginário, podemos
analogicamente construir uma interrogação sobre o lugar da teoria no país.
Apontando a força da mímesis tomada por duplicação imitativa
como marca de uma tendência recorrente da sociedade, o teórico brasileiro
reforça a formulação esquemática de que parte, considerando que é mister
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

saber que “a mímesis opera pela produção de diferença, cumprida a partir


de um horizonte de semelhança” (LIMA, 2013, p. 116, grifos do autor).
Discorrendo sobre “a experiência estética e o embaraço ético”, Costa Lima
propõe que a estrutura tensa e contraditória gerada pelo encontro dos
impulsos abundantes que geram a experiência estética e a norma ética é
“por excelência a estrutura humana” (LIMA, 2013, p. 319). Ao retomar a
ideia de Arnold Gehlen de que o homem é um animal carente, uma criatura
inacabada, Costa Lima (2013, p. 151) nos leva a evocar a concepção da
166 linguagem como um instinto, de Steve Pinker, que, no texto “Um instinto
para adquirir uma arte”, afirma que “a linguagem não é um artefato

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 166 21/03/16 14:11


cultural que aprendemos [...]”, mas “uma peça da constituição biológica
de nosso cérebro” (PINKER, 2004, p. 9). Benveniste, como Pinker, recusa-
se a conceber a linguagem como um mero instrumento de comunicação,
quando afirma: “a linguagem está na natureza do homem, que não a
fabricou” (BENVENISTE, 1989, p. 285) ou “[...] bem antes de servir para
comunicar, a linguagem serve para viver” (BENVENISTE, 1995, p. 222).
Franchi também afirma que:

[...] antes de ser para a comunicação, a linguagem é para a


elaboração; antes de ser mensagem, a linguagem é construção do
pensamento; antes de ser veículo de sentimentos, ideias, emoções,
aspirações, a linguagem é um processo criador em que organizamos
e informamos as nossas experiências. (FRANCHI, 1992, p. 25).

Tais posturas jogam por terra a concepção tão comum de literatura


como isenta do objetivo comunicacional que marcaria as demais formas
de linguagem, já que a definição de linguagem com que se trabalha é a de
uma propriedade (criatividade, capacidade artística) da mente, e não da
manifestação/externalização dessa capacidade na produção de literatura(s)
e outros artefatos artísticos (Cf. TURNER, 2014).
No livro The Literary Mind, Mark Turner (1996), por exemplo,
já no fim dos anos 1990, propõe que a capacidade de contar histórias,
projetando-as no tempo e no espaço, é uma característica não da mente
do escritor, mas de toda e qualquer mente. Usa, então, a figura da parábola
como uma das operações da construção do conhecimento.4 Sem entrar

8 – Lugares da (teoria da) literatura


em detalhes sobre sua teoria, que propõe que as Gramáticas Naturais, as

4
Posteriormente, no quadro da Teoria da integração conceitual (FAUCONNIER; TURNER,
2002), trabalha-se com a noção Blending: “Conceptual integration, also called “blending,” is
a basic mental operation that works on conceptual arrays to produce conceptual integration
networks. Certain conceptual arrays provide inputs to the network. Selective projection
from the input conceptual arrays and from the relations between them carries elements and
relations to a blended conceptual array that often has emergent structure of its own. This
blended conceptual array is often referred to as “the blend” / “Integração conceitual, também
denominada “blending”, é uma operação mental básica que atua sobre matrizes conceituais
para produzir redes de integração conceitual. Algumas matrizes conceituais fornecem material
de entrada para a formação de tais redes. Projeções seletivas a partir de redes conceituais e
a partir de relações estabelecidas entre elas transportam elementos e relações para uma rede
conceitual integrada (blended) que frequentemente possuem estruturas emergentes que lhe são
próprias. Esta estrutura conceitual integrada é frequentemente denominada “integração” (“the 167
blend”). (TURNER, 2008, p. 57, grifo do autor, tradução nossa).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 167 21/03/16 14:11


Línguas Internas desenvolvidas a partir da capacidade da Linguagem,
advêm da capacidade literária da mente, vale ressaltar o aspecto relacional
que a sustenta e se manifesta nas construções literárias: diferentes histórias
básicas são organizadas em uma rede, partilhando uma estrutura.
Em literatura, parábola pode significar uma narrativa alegórica que
transmite uma mensagem, indireta, por meio de comparação ou analogia.
A ideia é, pois, de relação entre duas histórias que se projetam de forma
interseccional.
Walter Benjamin, em seus estudos sobre alegoria, ressalta o aspecto
etimológico do termo – dizer o outro – e, distinguindo-a do símbolo, mostra
como no ato de contar uma história na outra, instaura-se a dualidade no seio
da ideia de verdade. Diz Benjamin (1984, p. 198): “Na esfera da intenção
alegórica, a imagem é fragmento, ruína. [...]. O falso brilho da totalidade se
extingue”. E ressalta: “a ambiguidade, a multiplicidade de sentidos é o traço
fundamental da alegoria”.
A proposta, de Benjamin, de história constelar, como uma rede
de fragmentos em que o sentido se constrói por meio do curto-circuito,
reitera a ideia de movimento e de fulguração. Como salienta Olgária Matos
(apud CHAUÍ, 1993), ao contrário de Descartes, Benjamin ocupa-se com a
pluralidade de entradas do labirinto e não com o fio de Teseu ou de Ariadne.
Não é sem razão que, ao discorrer sobre o que chama o salto dialético,
Benjamin utiliza a imagem do salto do tigre como metáfora da construção
do conhecimento por meio da experiência. Não o lugar de onde sai ou
chega o animal, mas o arco de sua movimentação, ou seja, uma parábola,
agora no sentido matemático. Vale então trazer à cena esse outro conceito
de parábola: o lugar geométrico dos pontos equidistantes a uma reta e um
ponto fixo.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

É interessante observar que, quando a parábola é rotacionada em


torno do eixo de simetria, forma um sólido chamado paraboloide, que nos
fornece várias figuras planas dependendo do ângulo de observação. Trata-
se, pois, de movimento recursivo, visto como aquele “cujos estados ou
efeitos finais produzem os estados iniciais ou as causas iniciais” (MORIN,
2003, p. 227). O circuito decorrente de tais movimentos na produção do

Tais estudos são ainda um desafio para mim, a ser vencido sempre em diálogo com o colega
168 linguista Milton do Nascimento, a quem agradeço a grande contribuição. Agradeço ainda a
Graça Paulino a interlocução crítica de hoje e de ontem.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 168 21/03/16 14:11


conhecimento é sempre marcado pela subjetividade de alguém que “fala”
e alguém que “ouve” de algum lugar, em direções plurais. Reconhecendo
que a subjetividade integra a construção do conhecimento mesmo no
domínio das chamadas ciências duras, Edgar Morin (1996) valoriza na
literatura justamente sua capacidade de reconhecer o papel do indivíduo na
construção do texto, lidando com a natureza multidimensional do homem.
Por isso mesmo, em livro mais recente, Morin (2013), discutindo
as várias crises por que passa o mundo – do desenvolvimento, da
ocidentalização, da mundialização – assinala que tal multicrise seria
também cognitiva. Postula, então, que, na busca de uma nova via nessa
sociedade-mundo, a ideia de metamorfose pode substituir a de evolução.
Aí se instala o jogo identidade/alteridade e a capacidade criadora do ser
humano.
Ao lado disso, ao discutir o papel da internet no mundo
contemporâneo, Morin compara o sistema planetário em que a internet
se transformou a “um gigantesco sistema neurocerebral semiartificial que
combina máquinas e seres humanos” (MORIN, 2013, p. 208), e afirma:

O todo constitui uma rede em permanente expansão que cada


elemento transforma e enriquece; constituído de inumeráveis
circuitos recursivos, ao se enriquecer e se transformar, esse sistema
se autorreproduz. (MORIN, 2013, p. 208).

Na introdução ao livro Novos paradigmas, cultura e subjetividade,


organizado por ela, Dora Fried Schnitman (1996, p. 11, grifo nosso)

8 – Lugares da (teoria da) literatura


destaca que, enquanto sistema aberto, “a ciência, os processos culturais e
a subjetividade humana estão socialmente construídos, recursivamente
interconectados”. Mostrando então como as práticas discursivas e os
processos comunicacionais são fatores constituintes das indagações
científicas, afirma:

Durante muito tempo, o discurso científico adotou como seu ideal


a aparente univocidade: uma palavra, um significado. Próxima a
este objetivo está a crença de que a linguagem existe ou pode ser
considerada como puramente instrumental, clara e não ambígua;
que pode comunicar ao mundo o que quem fala ou escreve tenta
dizer. [...]
169

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 169 21/03/16 14:11


Essa crença foi questionada. Existe hoje um corpo de trabalhos que
exploram como a comunicação, as metáforas, os padrões narrativos,
as estruturas retóricas, a sintaxe, os campos semânticos afetam o
discurso científico e o pensamento. (SCHNITMAN, 1995, p. 11-12).

Na verdade, a linguagem nunca foi puramente instrumental porque


ela, conforme já se afirmou, “está na natureza do homem, que não a fabricou”
(BENVENISTE, 1995, p. 285). É a linguagem que “ensina a definição do
homem”. Por isso mesmo, “é na linguagem e pela linguagem que o homem
se constitui como sujeito” (BENVENISTE, 1995, p. 286).
A realidade “não é natural, nem autoevidente, mas construída”, logo
“pode ser desconstruída, interrogada, questionada”, como quer Schnitman
(1995, p. 14). Por isso, hoje, a ciência interroga-se a si mesma, como
o próprio homem se interroga sobre sua constituição como sujeito de
linguagem. Depois de se conscientizar desse processo, não se pode mais
pensar o conhecimento da mesma forma.
Por isso mesmo Morin aponta para a importância da desordem, do
caos, na construção do conhecimento e afirma:

Nosso universo é, pois, o fruto do que chamarei uma dialógica de


ordem e desordem. Dialógica no sentido de que se tratam de duas
noções totalmente heterogêneas – que se rechaçam mutuamente –
e que dá um lugar irredutível ao que parecia obscuro para os
deterministas: “Como desordem? A desordem não existe, é
uma ilusão!” Pois bem, a desordem não só existe como de fato
desempenha um papel produtor no universo. E esse é o fenômeno
mais surpreendente. É essa dialógica de ordem e desordem que
produz todas as organizações existentes no Universo. (MORIN,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

1996, p. 277, grifo do autor).

Reconhecemos, pois, com Dora Schnitman (1996, p. 16), que,


na trama plural e descontínua da cultura contemporânea, em que “se
sobrepõem linguagens, tempos e projetos”, aviva-se “a necessidade de
diálogo” como uma das “dimensões operativas da construção das realidades
em que vivemos”. A autora propõe uma redefinição de arte e do papel do
artista na sociedade que se daria no que ela chama de “metadesenho de
contextos que integra ciência e arte, por meio de redes interdisciplinares,
170 o uso de tecnologias de simulação (vídeo, computação), e a conversação

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 170 21/03/16 14:11


(redes de telecomunicações), incorporando assim a estética à participação
social” (SCHNITMAN, 1996, p. 15).
Não é sem razão que os processos pelos quais a mente constrói
metáforas em seu movimento parabólico podem ser vistos como um
denominador comum, não só da leitura como do próprio processo cultural
e, mais ainda, do processo de construção de conhecimento.
A partir de tal concepção, a linguagem figurada é uma capacidade da
mente humana e não como propõe Charles Bally (1951) uma manifestação
advinda de “uma enfermidade do espírito humano”, um fruto de sua
limitação, o que se pode ver é justamente o contrário; a metaforização
é a base da mente humana e, por isso, por meio dela, vence-se mais que
a carência básica que constituiria o homem, seu excentramento, sua
infinitude, como quer Iser (1996).
Nos elementos apontados até aqui, articulam-se os termos
subjetividade, processo recursivo e metamorfose, acrescentados do
conceito de metáfora, quando, em seu movimento recursivo, aproxima
elementos distantes. Tudo isso marca a ideia de rede que supera aquela da
força da internet, na medida em que se vê a rede como fruto da capacidade
do cérebro humano, da linguagem.
Rancière (1995) afirma que o espaço político se arma pela capacidade
metaforizante da memória, “o litígio das imagens e das palavras”. Tal litígio
possibilitaria a burla do controle que esses circuitos sofrem com a intenção
de submetê-los à racionalidade, burlando aquilo que Costa Lima chama o
controle do imaginário.

8 – Lugares da (teoria da) literatura


No movimento de apropriação da palavra instala-se a questão do
outro. Nesse sentido, vale lembrar com Bakhtin que “A palavra autônoma,
responsável e eficaz é um índice essencial do homem ético, jurídico e
político” (BAKHTIN, 1993, p. 149), daí a ideia de responsividade inerente
ao dialogismo que marca a linguagem.
Em função disso, poderíamos estender, ousadamente, a concepção
de estilística do romance de Bakhtin para uma concepção de estética, pois
o autor considera que

Para o gênero romanesco, não é a imagem do homem em si que


é característica, mas justamente a imagem de sua linguagem. Mas
para que esta linguagem se torne precisamente uma imagem de 171

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 171 21/03/16 14:11


arte literária, deve se tornar discurso das bocas que falam, unir-se à
imagem do sujeito que fala. (BAKHTIN,1993, p. 137).

Ora, se a polifonia do romance resulta da capacidade humana pela


qual o falante encena-se no exercício da linguagem, ele encenaria sempre o
lugar da alteridade no jogo social. Nesse sentido, o conceito de arte romanesca
do autor russo aproximar-se-ia daquele postulado por Rancière sobre o que
chama a partilha do sensível, já que o homem seria “um animal político
porque é um animal literário, que se deixa desviar de sua destinação ‘natural’
pelo poder das palavras” (RANCIÈRE, 2009a, p. 59-60, grifo do autor).
Se Costa Lima (2013, p. 399) postula que “o que exige ser pensado
nunca se libera da subjetividade humana”, que o narrar é uma forma de
existir e resistir,5 e, com Iser (2002) sustenta que o “como se” da literatura
alarga o campo do cognoscível, ele reconheceria que a mente humana é
formuladora do como se, base de construção de todo conhecimento e
da própria mente (Cf. TURNER, 2014).6 Isso não significaria o risco do
panficcionalismo, mas o reconhecimento do papel da aventura ficcional e,
consequentemente, da teoria que lhe diz respeito, no compartilhamento de
reflexões com outros campos de conhecimento. Ou mais do que isso, pois
na lógica da teoria da complexidade, e da mente humana concebida como
um “órgão”, que engloba o “órgão da linguagem”, faz parte da dinâmica
da auto-organização da atividade humana construir padrões de ordens a
partir da desordem, do caos, da entropia, do igual; da dinâmica entre forças
centrípetas e forças centrífugas (Cf. NASCIMENTO, 2011).
À luz de tais concepções podemos repensar o lugar da teoria em nosso
país, já que o movimento de sua construção não seria só centrípeto a marcar
centros e hierarquias, mas centrífugo em sua dispersão contaminadora.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Assim, se alteraria também o lugar do intelectual periférico,7 aliás não

5
Ver epígrafe de Guimarães Rosa: “Narrar é resistir” (apud LIMA, 2013, p. 5).
6
“The claim of this book is that the human spark comes from our advanced ability to blend
ideas to make new ideas. Blending is the origin of ideas. [...] Blending, I claim, is the big lever
of the cognitively modern human mind” / “A ideia defendida nesse livro é que a centelha
humana advém da nossa capacidade avançada de integrar ideias para produzir novas ideias.
A integração conceitual (blending) está na origem das ideias. […] Defendemos que a Integração
Conceitual é a grande alavanca da mente humana cognitivamente moderna”. (TURNER, 2014,
p. 2, tradução nossa).
172 7
Modifica-se também o lugar ocupado pelos estudiosos das ciências humanas em sua relação
com as chamadas ciências duras, tomadas, muitas vezes, como hierarquicamente superiores.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 172 21/03/16 14:11


só dele, mas de seus congêneres dados como detentores da produção do
conhecimento. Basta ver como teóricos franceses, tais quais os brasileiros,
estão preocupados em educar para a teoria ou para a fruição do texto.
A teoria vem sempre associada à escola, aos métodos de leitura, à educação
para a capacidade reflexiva. Não haveria também nessa atitude a ideia de
missão e com ela a ideia do controle do imaginário?
Daí, talvez, outros autores, na busca dessas respostas, se interrogarem
sobre a arte e a estética como Spivak (2012) e Didi-Hubermann (2011).
A primeira, autora de Pode o subalterno falar (2010), retomando a ideia de
educação estética do homem preconizada por Schiller, no livro An Aesthetic
Education in the Era of Globalization (SPIVAK, 2012), busca afastar-se, de
certa forma, do postulado de que a estética, como conjunção do impulso
sensível, do impulso formal e do impulso lúdico, estaria a serviço da ética,
por meio da educação. Antes de passar a palavra a Spivak, vale lembrar que,
para Schiller, “não existe maneira de fazer racional o homem sensível sem
torná-lo antes estético” (SCHILLER, 2002, p. 113).
Spivak toma então o conceito de estética como uma herança do
iluminismo europeu (enlightenment), cuidando de afastá-lo da política e
da ética, marcadas pelas generalizações redutoras, que levariam ao hábito.
É então que cria o termo ab-uso com a finalidade de explorar o conceito
de iluminismo de baixo para cima, transformando-o em um termo de
duplo escopo. O termo ab-uso, grafado com um hífen, traz o movimento
da ruptura, não com a ideia de negação ou de oposição, mas daquilo que,
considerando o ponto de origem, o desloca e o impulsiona para frente, para

8 – Lugares da (teoria da) literatura


fora. Postula, pois, que a estética, em um movimento de curtos-circuitos,
seja o espaço do rompimento do uso automatizado, do hábito criado pela
educação em seu sentido tradicional. Propõe então uma política do erro
em lugar da economia do acerto que rege a escrita europeia ocidental.
Nesse sentido, a leitura se faria espaço de “mis-take”, uma “destomada”, um
deslocamento. Ora, nesse contexto, volta a questão do outro, em especial
daquele excluído da ordem político-social estabelecida, por meio da
consideração da cooperação “dos subalternos do mundo, nos lugares de
onde eles falam sem serem ouvidos” (SPIVAK, 2012, p. 27).
É dessa ideia de curtos-circuitos, já criada por Benjamin, que fala
Didi-Huberman (2011, p. 150), com sua metáfora dos vaga-lumes, relativa
à “sobrevivência dos signos ou das imagens, quando a sobrevivência dos
próprios protagonistas se encontra comprometida”. 173

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 173 21/03/16 14:11


É então que ele se interroga, não apenas sobre a construção do
conhecimento em suas relações com os movimentos de poder, mas
principalmente sobre o nosso lugar nessa rede:

Devemos, portanto – em recuo do reino e da glória, na brecha aberta


entre o passado e o futuro –, nos tornar vaga-lumes e, dessa forma,
formar novamente uma comunidade do desejo, uma comunidade
de lampejos emitidos, de danças, apesar de tudo, de pensamentos
a transmitir. Dizer sim na noite atravessada de lampejos e não
se contentar em descrever o não da luz que nos ofusca. (DIDI-
HUBERMAN, 2011, p. 154-155, grifo do autor).

Nesses movimentos reflexivos, busca-se justamente a tensão entre a


semelhança e a diferença, mas o que se observa é a dificuldade de se lidar
com tal tensão. Continua a preconização, a ideia de transmissão, e, de certa
forma, de hierarquização. A rima em -ão, tão típica da língua portuguesa,
significará aqui justamente o sentido de eco, de repetição do som a ecoar
no vento. Pode-se pensar na repetição infinita de modelos ou na dispersão
que os desloca, o que de resto implica uma escolha política. A teoria não se
desvincula da experiência, nem daquela da produção e recepção do texto
dado como literário, nem daquela que nos afeta no dia a dia na relação com
o outro. Por isso mesmo é preciso pensar, na trilha do que propõe Eagleton
(2003) em sua análise de teoria cultural e seu objetivo político e ético, no
lugar do outro, do excluído, do periférico. E é nesse lugar que se instala o
próprio pensador latino-americano e brasileiro, que é, ao mesmo tempo, o
eu que fala e o outro de quem se fala. Sujeito e objeto da teoria experienciada,
partilhada, não apenas com os escritores e críticos consagrados, mas com
todos os que tomam a palavra em um exercício criativo e/ou crítico.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Pensemos, então, na teoria não de forma evolutiva e linear, mas como


linha quebrada, cujos fragmentos provocam curtos-circuitos de sentidos
(cf. BENJAMIN, 1987, p. 230), que desalojem verdades e histórias.

Referências
BALLY, Charles. Traité de stylistique française. Geneve: Librairie Georg et Cie
Geneve, 1951.
174 BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Maria Ermantina G. Pereira.
São Paulo: Martins Fontes, 1997.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 174 21/03/16 14:11


BAKHTIN, Mikhail. O discurso no romance. In: BAKHTIN, M. Questões de
literatura e de estética: a teoria do romance. Trad. Aurora Bernadini et al. São
Paulo: Hucitec, 1993, p.71-163.
BAUDELAIRE, Charles. Perda de auréola. In: BAUDELAIRE, C. Pequenos
poemas em prosa. Trad. Dorothée de Bruchard. Florianópolis: Editora da UFSC,
1988.
BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história
da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987.
BENJAMIN, W. Origem do drama barroco alemão. Trad. Sérgio Paulo Rouanet.
São Paulo: Brasiliense, 1984.
BENVENISTE, Émile. A forma e o sentido na linguagem. In: BENVENISTE,
É. Problemas de Linguística Geral II. Trad. Eduardo Guimarães et al. Campinas:
Pontes, 1989, p. 220-242.
BENVENISTE, Émile. Da subjetividade na linguagem. Problemas de linguística
geral I. Trad. Maria da Glória Novak e Maria Luiza Neri. Campinas: Pontes, 1995,
p. 284-293.
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO, A. Vários escritos. São
Paulo: Ouro sobre azul, 2004.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Trad. Ephraim
Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1999.
CHAUÍ, M. H. Alegoria no reino da mercadoria. Folha de S. Paulo, 5 set. 1993,
Caderno Mais!, p. 5-6.
COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê? Trad. Laura Taddei Brandini. Belo
Horizonte: Editora da UFMG, 2009.

8 – Lugares da (teoria da) literatura


COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Trad.
Cleonice Paes Barreto Mourão. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Trad. Vera Casa-
Nova; Márcia Arbex. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2011.
EAGLETON, Terry. After Theory. London: Basic Books, 2003.
FRANCHI, Carlos. Linguagem atividade constitutiva. Cadernos de Estudos
Linguísticos, Campinas, n. 22, p. 9-39, jan./jun. 1992.
FAUCONNIER, Gilles; TURNER, Mark. The way we think: conceptual blending
and the mind´s hidden complexities. NewYork: Basic Books, 2002.
HABERMAS, Jürgen. L’espace public. Trad. Marc R. de Launay. Paris: Payot, 1993.
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Trad. Flávio Kothe.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. 175

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 175 21/03/16 14:11


HUSTON, Nancy. A espécie fabuladora. Trad. Ilana Heinberg. Porto Alegre:
L&PM, 2010.
ISER, W. O fictício e o imaginário: perspectiva de uma antropologia literária. Trad.
Johannes Kretschner. Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 1996.
ISER, W. Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional. In: COSTA LIMA,
L. (Org.). Teoria da literatura em suas fontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2002. v. 2, p. 955-987.
LIMA, Luiz Costa. Frestas: a teorização em um país periférico. Rio de Janeiro:
Contraponto, 2013.
LIMA, Marcelo. Jornalismo cultural e crítica: a literatura brasileira no suplemento
Mais!. Curitiba: Editora da UFPR, 2013.
MIOTELLO, Valdemir. Discurso da ética, ética do discurso. São Carlos: Pedro &
João editores, 2011.
MORIN, E. A via para o futuro da humanidade. Trad. Edgard de Assis Carvalho;
Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.
MORIN, E. Epistemologia da complexidade. In: SCHNITMAN, D. F. (Org.).
Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Trad. Jussara Haubert Rodrigues. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1996.
MORIN, E. O método 1: a natureza da natureza. Trad. Marina Lobo. Porto Alegre:
Sulina, 2003.
MORIN, E. O método 2: a vida da vida. Trad. Marina Lobo. Porto Alegre: Sulina,
2001.
NASCIMENTO, Milton do. Linguagem como um sistema complexo: interfases
e interfaces. In: PAIVA, Vera Menezes de; NASCIMENTO, Milton do (Org.).
Sistemas adaptativos complexos. Campinas: Pontes, 2011, p. 61-72.
PIGLIA, Ricardo. Memoria y tradición. In: CONGRESSO INTERNACIONAL
DA ABRALIC, 2. Anais... Belo Horizonte, 1991. v. 1, p. 60-66.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

PINKER, Steven. Um instinto para adquirir uma arte. In: PINKER, S. O instinto
da linguagem: como a mente cria a linguagem. Trad. Claudia Berliner. São Paulo:
Martins Fontes, 2004.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica
Costa Netto. São Paulo: Editora 34, 2009a.
RANCIÈRE, Jacques. O efeito da realidade e a política da ficção. Trad. Carolina
Santos. Novos Estudos, São Paulo, p. 75-90, mar. 2010.
RANCIÈRE, Jacques. O inconsciente estético. Trad. Mônica Costa Netto. Rio de
176 Janeiro: Editora 34, 2009b.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 176 21/03/16 14:11


RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Trad. Raquel Ramalhete. Rio de Janeiro:
Editora 34, 1995.
SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos, ensaios sobre dependência
cultural. São Paulo: Perspectiva, 1978.
SCHNITMAN, D. F. (Org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Trad.
Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem. Trad. Roberto Schwarz;
Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 2002.
SPIVAK, Gayatri. An Aesthetic Education in The Era Of Globalization. London:
Havard University Press, 2012.
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Trad. Carlos Meira. Rio de Janeiro:
Difel, 2009.
TURNER, M. The Artful Mind: Cognitive science and the Riddle of Human
Creativity. New York: Oxford University Press, 2006.
TURNER, M. The Literary Mind: The Origins of Thought and Language. New
York: Oxford University Press, 1996.
TURNER, M. The mind is an autocatalytic vortex. In: SCHLAEGER, J. (Ed.).
The literary mind, v. 24, of REAL: Yearbook of research in english and american
literature (p. 13-43). Tübingen: Gunter Narr Verlag, 2008.
TURNER, M. The origin of ideas: Blending, Creativity, and the Human Spark.
New York: Oxford University Press, 2014.

8 – Lugares da (teoria da) literatura

177

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 177 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 178 21/03/16 14:11
9

Da teoria como resposta:


a modernidade crítica e o
(ter) lugar da teoria literária

Nabil Araújo

9.1 O ter lugar da teoria literária (como resposta)


Perguntar-se pelo lugar ocupado pela teoria literária implica, é certo,
concebê-la como algo que tem um lugar, mesmo (ou sobretudo) quando é
justamente essa posse que parece ameaçada, fazendo-se necessário, então,
(re)definir, (re)afirmar o referido lugar, no sentido de defendê-lo. Antes,
contudo, de ter um lugar a ser definido/defendido, a teoria literária é aquilo
que tem lugar, de modo que qualquer pretensa defesa do “lugar da teoria
literária” deveria se ater, prioritariamente, ao ter lugar da teoria literária.
Essas considerações me ocorrem com vistas à mais célebre definição
já feita da teoria literária e de seu lugar, ao destino dessa definição na
instauração da disciplina entre nós, em nossos cursos de Letras. Eis como
os autores da paradigmática Theory of literature (1949) definem a disciplina
que buscavam, então, sistematizar:

A crítica literária e a história literária tentam, ambas, caracterizar


a individualidade de uma obra, de um autor, de um período ou de
uma literatura nacional. Mas essa caracterização pode ser realizada

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 179 21/03/16 14:11


somente em termos universais, com base numa teoria literária. A
teoria literária, um órganon de métodos, é a grande necessidade do
estudo literário hoje. (WELLEK; WARREN, 1984, p. 19).1

Dir-se-ia que essa necessidade a que se referem Wellek e Warren


(e que eles presumiam suprir com seu manual) era de fato sentida como
tal por uma parcela significativa da comunidade acadêmica ao redor do
globo, dados a difusão e o prestígio ímpares alcançados no campo literário
internacional pela Theory – que, em fins dos anos 1960, já contava com
edições em espanhol, japonês, italiano, alemão, coreano, português
europeu, dinamarquês, servo-croata, grego, sueco, hebreu, romeno,
finlandês e gujaráti, às quais se acrescentariam, na década seguinte, edições
em francês, norueguês, polonês, húngaro, holandês, árabe, hindi, russo e
chinês. No Brasil, onde o livro só ganhará uma edição própria em 2003, sua
difusão, ainda nos anos 1950, se daria por obra de um ex-aluno de Wellek,
Afrânio Coutinho, a quem coube, nas palavras de Rocha (2011, p. 207),
“a renovação do conceito de teoria da literatura, com base na sistematização
pioneira, no nível internacional, propiciada pelo manual de René Wellek e
Austin Warren, Theory of literature, publicado em 1949”.
Coutinho, que se referia à obra de Wellek e Warren como “a bíblia ou
o Novum Organum da nova crítica” (COUTINHO, 1957, p. 95), “destinada
a produzir verdadeira revolução nos estudos crítico-literários entre nós”
(COUTINHO, 1957, p. 19), relata ter elaborado, nos anos 1950, o projeto
de criação da disciplina Teoria da Literatura que foi “imediatamente posto
em execução, com a disciplina incluída em todos os cursos de Letras”
(COUTINHO, 1976, p. 1); não estranha que a concepção metodológica
de teoria literária vigente no referido projeto – “metodologia da pesquisa
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

literária”, “métodos da crítica e da história literária”, “metodologia do


trabalho intelectual aplicado aos estudos literários” (COUTINHO, 1976,
p. 2-3) – pareça diretamente decalcada da Theory de Wellek e Warren. Não
estranha, igualmente, que Luiz Costa Lima, insurgindo-se, nos anos 1970,
contra essa mesma concepção de teoria literária, viesse a atacar justamente
o manual de Wellek e Warren. “Tal como os autores a concebem, a teoria da
literatura tem o caráter de suma dos estudos literários. Qual a especificidade,

180 1
Esta e as demais traduções de trechos em língua estrangeira citados neste texto são de minha
autoria.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 180 21/03/16 14:11


pois, da teoria? É a sistematizadora dos métodos, o ‘órganon dos métodos’,
como os próprios autores escrevem”, observa, com efeito, Costa Lima (1975,
p. 22), no prefácio à primeira edição de Teoria da literatura em suas fontes,
e retruca:

A teoria não se pode confundir com a metodologia porque aquela


não pode ser o instrumento aparentemente neutro, apenas descritivo,
oriundo da exclusão das prenoções que atrapalhariam a apreensão
do objeto, como uma metodologia, em seu estado puro, pretende
ser. (LIMA, 1975).

Ao que tudo indica, entretanto, o inquestionável êxito editorial


e acadêmico da Theory se deveu ao fato de ela ter conseguido se impor
como uma resposta satisfatória a determinada demanda ou questão no
coração dos estudos literários. O ter lugar da teoria literária como resposta
– algo simplesmente ignorado pelo mero endosso (Coutinho) ou pela
mera refutação (Costa Lima) da definição de teoria literária veiculada pela
Theory –, eis o que se poderia traduzir aqui nos termos da célebre lógica
gadameriana da pergunta e da resposta.

***
“Die Logik von Frage und Antwort” [A lógica da pergunta e da
resposta] é o nome da última seção da segunda parte de Wahrheit und
Methode [Verdade e método] (1960), na qual Hans-Georg Gadamer,
comentando criticamente e extrapolando a ideia de uma “logic of question
and answer” desenvolvida por R. G. Collingwood, procura mostrar, em

9 – Da teoria como resposta


suma, que “a lógica das ciências do espírito [Geisteswissenschaften] é uma
lógica da pergunta [eine Logik der Frage]” (GADAMER, 1999, p. 375).
Gadamer observa que um procedimento habitual no sistema
universitário inglês da época de Collingwood, a discussão de “statements”,
isto é, de declarações descontextualizadas tomadas em seu conteúdo
lógico intrínseco, “obviamente ignora a historicidade contida em toda
compreensão” (GADAMER, 1999, p. 376), e lembra a argumentação de
Collingwood nesse sentido: “na verdade, só se pode compreender um
texto quando se compreendeu a pergunta para a qual ele é a resposta”
181
(COLLINGWOOD apud GADAMER, 1999, p. 376). Mas a desejada

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 181 21/03/16 14:11


“reconstrução da pergunta para a qual um determinado texto é uma
resposta”, alerta Gadamer, não pode ser tomada “como mera realização
da metodologia histórica” (GADAMER, 1999, p. 379). A pergunta “só
pode ser obtida a partir do texto” (GADAMER, 1999, p. 376), o que
implica um trabalho de interpretação ativa por parte do leitor, que
não poderia, nunca, limitar-se a simples reconstituidor de perguntas:
ultrapassar a “mera reconstrução” [die bloße Rekonstruktion] impõe-
se, dessa forma, como uma “necessidade hermenêutica” (GADAMER,
1999, p. 380).
Os conceitos de um passado histórico assim resgatados conteriam,
na verdade, nossa própria compreensão dos mesmos (GADAMER,
1999, p. 380), o compreendido e o compreender permanecendo, dessa
forma, indissociáveis. Assim, se se pode dizer, com Collingwood, que só
compreendemos quando compreendemos a pergunta para a qual algo é
resposta, faz-se preciso acrescentar que “a reconstrução da pergunta para
a qual o sentido de um texto é compreendido como uma resposta passa
para [geht über] o nosso próprio perguntar”, e isso porque “o texto deve
ser compreendido como resposta para uma pergunta real [ein wirkliches
Fragen]” (GADAMER, 1999, p. 380). Em suma, não basta o leitor querer
reconstituir objetivamente a pergunta para a qual o texto de que se ocupa é
resposta, mas ele deve fazer dela sua própria pergunta: “Compreender uma
pergunta significa perguntá-la” (GADAMER, 1999, p. 381).
Mas esse perguntar, é preciso admitir, não se dá naturalmente,
sobretudo no caso de um livro como Theory, há tempos convertido em
“obra clássica” dos estudos literários – “a classic of criticism”, lê-se, com
efeito, na quarta capa da última edição americana, “um estudo clássico”, lê-
se na orelha da edição brasileira de 2003 –, tendo sua imagem cristalizada
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

pela memória acadêmica em torno de uma problemática crítica para cuja


fixação definitiva teria concorrido: nas palavras de Culler (1988, p. 12, grifo
do autor), Theory

[...] lançou mão de amplo conhecimento da história da crítica e


de obras estrangeiras sobre teoria literária na construção de uma
distinção central entre ‘a abordagem extrínseca do estudo da
literatura’ (biográfica, histórica, sociológica, psicológica) e o ‘estudo
intrínseco da literatura’, interessado pela estrutura do artefato verbal.
182

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 182 21/03/16 14:11


A classicidade, por assim dizer, da Theory, estaria associada, pois,
em síntese, à fixação do problema epistemológico em torno da oposição
“intrínseco vs. extrínseco” em crítica literária.
“O conceito de problema evidentemente formula uma abstração”,
alerta, a propósito, Gadamer (1999, p. 381-382), “a saber, a separação
[Ablösung] entre o conteúdo da pergunta e a pergunta que em primeiro
lugar o manifesta [der ihn allererst aufschließenden Frage]”; e ainda:
“Um tal ‘problema’ caiu para fora [ist herausgefallen] do contexto
motivado da pergunta, do qual ele recebe a clareza [Eindeutigkeit] de seu
sentido” (GADAMER, 1999, p. 382, grifo do autor). Seria preciso, pois,
recontextualizar o problema associado à imagem corrente da Theory,
reinserindo-lhe, por meio, dir-se-ia, de uma contraleitura, no horizonte-de-
pergunta no qual ele se instaura como verdadeira questão. Para falar, ainda,
com Gadamer: “A reflexão sobre a experiência hermenêutica reconverte
[verwandelt zurück] os problemas em perguntas que se erigem e obtêm seu
sentido de sua motivação” (GADAMER, 1999, p. 382-383).

9.2 Teorizando com “argumentos kantianos”...


Eis o grande problema a ser solucionado pela Theory tal como
formulado logo no início do livro por Wellek e Warren (1984, p. 16):
“O problema é o de como, intelectualmente, lidar com a arte, e com a arte
literária especificamente. Isso pode ser feito? E como isso pode ser feito”? Ele
avulta, bem entendido, em vista de certo imperativo enunciado de antemão
pelos autores: o da cientificidade ou racionalidade do estudo da literatura.
Sim, pois se atividade literária em si mesma “é criadora, uma arte”, ponderam

9 – Da teoria como resposta


os autores, o estudo literário, por sua vez, “se não precisamente uma ciência,
é uma espécie de conhecimento ou de saber” (WELLEK; WARREN, 1984,
p. 15); o estudante “deve traduzir sua experiência de literatura em termos
intelectuais, assimilá-la a um esquema coerente que deve ser racional para
ser conhecimento” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 15).
Parece certo que esse imperativo de racionalidade e o problema de
como, afinal, satisfazê-lo eram mesmo sentidos como tais, mais ou menos
por toda parte, à época do surgimento da Theory, impondo-se, na verdade,
ainda hoje, ao discurso sobre a literatura, cuja legitimação acadêmica e
social depende de sua capacidade de efetivamente apresentar-se, segundo 183

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 183 21/03/16 14:11


os padrões vigentes, como um discurso de conhecimento. Mas desde
quando e por que, afinal, a demanda por racionalidade no estudo literário
impõe-se como um imperativo, acarretando o problema de “como lidar
intelectualmente com a arte literária”? A julgar pelo modo como Wellek e
Warren enunciam as coisas no nível propedêutico da Theory, responder-se-
ia que isso se dá desde sempre e naturalmente. É, antes, no nível da própria
resposta que buscam oferecer ao “problema” formulado de início que se
deixa entrever o contexto motivado à luz do qual o mesmo reconverte-se
em pergunta viva, restituída de sua historicidade.
A esse respeito, as coisas avançam, na Theory, no seguinte sentido:
a) “Como contemplamos uma base racional para o estudo da
literatura, devemos concluir a possibilidade de um estudo
sistemático e integrado da literatura” (WELLEK; WARREN,
1984, p. 38);
b) “O ponto de partida natural e sensato para o trabalho em
investigação literária [literary scholarship] é a interpretação e a
análise das obras de literatura elas mesmas [the works of literature
themselves]” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 139).
Mas o que é, afinal, uma obra de literatura “ela mesma”? O décimo
segundo capítulo da Theory, intitulado “The mode of existence of a literary
work of art” [O modo de existência de uma obra de arte literária], dedica-se,
justamente, a responder esta “extremamente difícil questão epistemológica”:
a “do ‘modo de existência’ ou ‘situação ontológica’ de uma obra de arte
literária”, sendo que uma resposta correta nesse sentido, ponderam os
autores, “deve solucionar muitos problemas críticos e abrir um caminho
para a análise apropriada de uma obra de literatura” (WELLEK; WARREN,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

1984, p. 142).
Passando em revista certas “respostas tradicionais” à “pergunta do
que é e onde está o poema, ou, antes, a obra de arte literária em geral”
(WELLEK; WARREN, 1984, p. 142), os autores concluem não ser possível
encontrar uma resposta satisfatória à questão em termos de psicologia
individual e coletiva, sentenciando não ser o “poema”, isto é, a obra de
arte literária, “uma experiência individual ou uma soma de experiências,
mas apenas uma causa potencial de experiências” (WELLEK; WARREN,
184 1984, p. 150); e ainda: “o verdadeiro poema deve ser concebido como uma
estrutura de normas [a structure of norms], realizada apenas parcialmente

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 184 21/03/16 14:11


na experiência efetiva de seus muitos leitores” (WELLEK; WARREN, 1984,
p. 150,). Por “normas” não se deve, entender, aí, alertam os autores,
“[normas] clássicas ou românticas, éticas ou políticas”, e sim “normas
implícitas que têm que ser extraídas de cada experiência individual de uma
obra de arte e que, juntas, constituem a obra de arte genuína como um
todo” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 150-151).
Afirmar que as normas em questão têm que ser extraídas [extracted]
de uma experiência individual não implicaria, bem entendido, tomá-las
como um produto dessa experiência individual. Os autores admitem ser
impossível conhecermos um objeto em todas as suas qualidades, o que não
nos permitiria, contudo, simplesmente negar a identidade dos objetos; pelo
contrário, dizem, “sempre apreendemos alguma ‘estrutura de determinação’
no objeto que faz do ato de cognição não um ato de invenção arbitrária ou
distinção subjetiva, mas o reconhecimento de algumas normas impostas
a nós pela realidade” – e também “a estrutura de uma obra de arte tem o
caráter de um ‘dever que tenho que realizar’” (WELLEK; WARREN, 1984,
p. 152, grifo do autor). Mais à frente:

Reconhecemos uma estrutura de normas dentro da realidade e não


simplesmente inventamos constructos verbais. A objeção de que
temos acesso a essas normas apenas através de atos individuais de
cognição, e de que não podemos ir para fora ou além desses atos,
é apenas aparentemente impressionante. Essa é a objeção que foi
feita à crítica de Kant à nossa cognição, e pode ser refutada com os
argumentos kantianos. (WELLEK; WARREN, 1984, p. 154).

Com base nesses “argumentos kantianos” [Kantian arguments],

9 – Da teoria como resposta


os autores concluirão que a obra de arte “é acessível apenas através da
experiência individual, mas não é idêntica a nenhuma experiência”
(WELLEK; WARREN, 1984, p. 154), surgindo, assim, “como um objeto
de conhecimento sui generis, que tem um status ontológico especial”
(WELLEK; WARREN, 1984, p. 156). Mas o ato cognitivo pelo qual esse
objeto sui generis torna-se conhecido – isto é, na perspectiva aí professada,
pelo qual a estrutura de normas implícitas que constituem a obra de
arte literária como um todo é acessada no âmbito de uma experiência
estética individual –, também ele é especial, posto que caracterizado por
uma necessária e incontornável dimensão axiológica ou valorativa, o 185

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 185 21/03/16 14:11


que traz à tona a questão dos valores artísticos: “não há estrutura fora de
normas e valores”, explicam, com efeito, Wellek e Warren (1984, p. 156), e
sentenciam: “Não podemos compreender e analisar nenhuma obra de arte
sem referência a valores. O próprio fato de que reconheço certa estrutura
como ‘obra de arte’ implica um juízo de valor” (WELLEK; WARREN, 1984,
p. 156, grifo dos autores).
Isso nos remete diretamente ao penúltimo capítulo da Theory,
“Evaluation” [Avaliação], focado no “ato de julgamento” [the act of
judgement]: “Por referência a uma norma, pela aplicação de critérios, pela
comparação dele com outros objetos e interesses, estimamos a categoria
[the rank] de um objeto ou interesse” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 238).
A grande pergunta a ser aí respondida é a de “como devem os homens
valorizar e avaliar a literatura?” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 238).
Tudo dependeria do posicionamento adotado diante da dicotomia
entre as seguintes visões em estética: (a) aquela “que afirma a existência
de uma ‘experiência estética’ separada, irredutível (um domínio autônomo
da arte)” e (b) “aquela que faz das artes instrumental para a ciência e a
sociedade, que nega um tertium quid como o ‘valor estético’, intermediário
entre ‘conhecimento’ e ‘ação’, entre ciência e filosofia de um lado e ética e
política do outro” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 239, grifo dos autores).
Wellek e Warren não têm dúvida acerca de qual visão endossar, e a grande
referência, aí, uma vez mais, é Kant, então tomado como verdadeiro marco
histórico para certo estado de coisas vigente em estética:

A maioria dos filósofos desde Kant e a maioria dos homens


seriamente interessados pelas artes concordam que as belas-artes,
incluindo a literatura, têm um caráter e um valor únicos. [...] Sobre
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

o caráter da experiência estética única, há grande concordância


entre filósofos. Em sua Crítica do juízo [Critique of Judgement], Kant
enfatiza a “finalidade sem fim” [purposiveness without purpose] (o
fim não direcionado para a ação) da arte, a superioridade estética da
beleza “pura” sobre a beleza “aderente” ou aplicada, o desinteresse
do experienciador [the desinterestedness of the experiencer] (que não
deve querer possuir, consumir, ou, de outra forma, transformar em
sensação ou conação o que é destinado à percepção). [...] O objeto
estético é aquele que me interessa por suas próprias qualidades,
que eu não tento reformar ou transformar numa parte de mim
186
mesmo, apropriar-me dele ou consumi-lo. A experiência estética

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 186 21/03/16 14:11


é uma forma de contemplação, uma atenção amorosa a qualidades
e estruturas qualitativas. (WELLEK; WARREN, 1984, p. 240-241,
grifo dos autores).

Em plena consonância com esse ideário estético está a resposta dada


pelos autores à pergunta por eles lançada logo no início do capítulo: “Os
homens devem valorizar a literatura por ser o que é; devem avaliá-la nos
termos e nos graus de seu valor literário. A natureza, a função e a avaliação
da literatura devem necessariamente existir em íntima correlação”
(WELLEK; WARREN, 1984, p. 238, grifo dos autores). Tomando por
“forma” [form] a “estrutura estética de uma obra literária – aquilo que faz
dela literatura” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 241), Wellek e Warren (1984,
p. 242) se indagam se é possível avaliar adequadamente a literatura através
de “critérios puramente formalistas” [purely formalistic criteria]. Em vista
da confirmação que vêm, então, a oferecer ao longo do capítulo, impõe-se,
em síntese, o seguinte esclarecimento:

O que o formalista quer sustentar é que o poema é não apenas uma


causa, ou uma causa potencial, da “experiência poética” do leitor,
mas um controle específico, altamente organizado da experiência do
leitor, de modo que a experiência é mais apropriadamente descrita
como uma experiência do poema. A valorização do poema é a
experimentação, a percepção de qualidades e relações esteticamente
valiosas estruturalmente presentes no poema para qualquer leitor
competente. (WELLEK; WARREN, 1984, p. 249, grifo dos autores).

Tudo se passa, para todos os efeitos, como se os autores se limitassem


a parafrasear e a sintetizar, à sua maneira, endossando-os, os “argumentos

9 – Da teoria como resposta


kantianos” referentes à autonomia do domínio estético, à especificidade
do objeto e da experiência estéticos. A Theory se revelaria, então, nesse
caso, uma bem-sucedida vulgarização tardia de princípios básicos da
Kritik der Urteilskraft [Crítica da faculdade do juízo] (1790) com fins de
constituição de uma teoria da literatura como aparato metacrítico. Mas
o leitor minimamente familiarizado com a delimitação do juízo estético
levada a cabo por Kant na terceira Crítica logo afasta a hipótese de um
epigonismo kantiano puro e simples em Wellek e Warren: se a resposta
por eles elaborada à questão da fundamentação da crítica literária se
187
apresenta, de fato, e deliberadamente, como uma resposta kantiana, ela

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 187 21/03/16 14:11


visivelmente entra em tensão com as considerações do próprio Kant acerca
da impossibilidade de fundamentação objetiva da crítica estética.
Dir-se-ia, assim, em suma, que a resposta kantiana de Wellek e
Warren constitui-se, e antes de tudo, como uma resposta ao próprio Kant,
implicando, ao que tudo indica, um jogar Kant contra Kant produtivamente.
Se isso permanece em larga medida implícito em Theory, como se ela se
limitasse a sistematizar o resultado de um raciocínio cujo andamento
desobriga-se de explicitar para o leitor – algo de praxe, aliás, no gênero
handbook –, seria preciso buscar, então, junto a outro texto, a explicitação
do gesto fundacional aí em jogo.

9.3 Com Kant, contra Kant


Numa conferência proferida na Yale University por ocasião dos 150
anos da morte de Kant (1804-1954), e mais tarde, com o título de “Immanuel
Kant’s Aesthetics and Criticism” [A estética e a crítica de Immanuel Kant],
coligida em livro, Wellek expõe e comenta os “argumentos kantianos” em
estética e teoria da crítica cuja onipresença se faz sentir na tessitura da
Theory. “Sobre esses dois problemas, estética e teoria da crítica, Kant teve
coisas a dizer que parecem relevantes e substancialmente verdadeiras até
hoje”, sentencia, com efeito, Wellek (1970, p. 124), logo de partida.
A primeira e mais importante delas, posto que se institui, na verdade,
como condição de possibilidade para todo o resto, para a própria teoria
da literatura nos termos concebidos por Wellek e Warren, diz respeito à
independência, ao direito próprio do estético diante das outras esferas
às quais ele com frequência é subordinado – e quanto a isso, Wellek não
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

hesita, Kant figura como o marco histórico fundamental: “Kant deve ser
considerado o primeiro filósofo que clara e definitivamente estabeleceu a
peculiaridade e a autonomia do domínio estético” (WELLEK, 1970, p. 124).
Contra os que querem atribuir essa primazia a outros nomes (p. ex. ao de
Vico ou ao de Baumgarten), Wellek retruca que:

Apenas em Kant encontramos um argumento elaborado de que o


domínio estético difere do domínio da moralidade, da utilidade e da
ciência porque o estado de espírito estético difere profundamente de
188 nossa percepção do prazeroso, do comovente, do útil, do verdadeiro,
do bom. (WELLEK, 1970, p. 124-125).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 188 21/03/16 14:11


E por mais que a ideia da autonomia da arte já tivesse sido de alguma
forma preparada por autores como Hutcheson ou Mendelssohn, pondera
Wellek (1970, p. 125), “em Kant o argumento foi estabelecido pela primeira
vez sistematicamente numa defesa do domínio estético contra todos os
lados [sensualismo, emocionalismo, intelectualismo]”.
Note-se que o próprio Kant, no prólogo à Kritik der Urteilskraft,
procurou contextualizar o empreendimento então levado a cabo em sua
terceira Crítica em relação àquilo que fora empreendido nas outras duas
– a Kritik der reinen Vernunft [Crítica da razão pura] (1781) e a Kritik der
praktischen Vernunft [Crítica da razão prática] (1788) –, oferecendo, com
isso, o desenho geral do edifício da filosofia crítica em seus três pilares
fundamentais: tendo se ocupado, na primeira Crítica, da “faculdade de
conhecimento” [Erkenntnisvermögen], cujos princípios são fornecidos
pelo “entendimento” [Verstand] e, na segunda Crítica, da “faculdade de
apetição” [Begehrungsvermögen], cujos princípios são fornecidos pela
“razão” [Vernunft], ele se volta, na terceira Crítica, ao “sentimento de
prazer e desprazer” [Gefühl der Lust und Unlust] ligado à “faculdade do
juízo” [Urteilskraft] (KANT, 1974b, p. 73-77). Para Kant, em suma, “todas
as faculdades da alma ou capacidades podem ser remetidas a estas três, as
quais não se deixam, para além disso, deduzir de um princípio comum: a
faculdade de conhecimento, o sentimento de prazer e desprazer e a faculdade
de apetição” (KANT, 1974b, p. 85). Que a faculdade do juízo, como o
entendimento e a razão, também implica algum tipo de princípio a priori, e
que ela fornece, assim, a priori, a regra ao sentimento de prazer e desprazer
– como o entendimento e a razão o fazem em relação a, respectivamente,
a faculdade de conhecimento e a faculdade de apetição –, é o que Kant

9 – Da teoria como resposta


procura determinar na Kritik der Urteilskraft, sendo a primeira parte da
obra dedicada justamente à “faculdade de juízo estética” [ästhetischen
Urteilskraft], na qual se concentra o grosso dos argumentos de que se
ocupa Wellek em seu artigo dedicado a Kant. O significado, a amplitude
e as consequências do que foi colocado em jogo por Kant com o último
volume de sua trilogia filosófica permanecem mal aquilatados, contudo, se
nos restringimos, quanto a isso, ao artigo de Wellek.
Em vista da tripartição cognitiva que se desenha com o surgimento
da terceira Crítica, Jürgen Habermas observa que Kant “substitui o
conceito substancial de razão da tradição metafísica pelo conceito de 189

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 189 21/03/16 14:11


uma razão cindida em seus momentos, cuja unidade tem apenas caráter
formal”: ele separa, em suma, do (a) “conhecimento teórico” [theoretischer
Erkenntnis] a (b) “faculdade da razão prática” [Vermögen der praktischen
Vernunft] e a (c) faculdade do juízo [Urteilskraft], assentando-as sobre
seus próprios fundamentos (HABERMAS, 1985, p. 29). Vê-se fundada,
com isso, respectivamente, a possibilidade (a) do conhecimento objetivo,
(b) do discernimento moral e (c) da avaliação estética, delimitando-se,
filosoficamente, dessa forma, as esferas culturais de valor [kulturellen
Wertsphären] como (a) ciência e técnica, (b) direito e moral, (c) arte e
crítica de arte – legitimadas, cada uma das esferas, no interior desses limites
(HABERMAS, 1985, p. 30).
Lembrando que Hegel vê na filosofia kantiana “a essência do mundo
moderno concentrada como num foco [das Wesen der modernen Welt wie
in einem Brennpunkt versammelt]”, Habermas afirma que “Kant exprime
o mundo moderno num edifício de pensamentos [Gedankengebäude]”
(HABERMAS, 1985, p. 30). Habermas já havia se expressado mais objetiva
e detalhadamente a esse respeito quando, noutro contexto, observou:

No conceito kantiano de uma razão formal e diferenciada em si


mesma está implicada [ist angelegt] uma teoria da modernidade.
Esta é caracterizada, por um lado, pela renúncia à racionalidade
substancial das tradicionais interpretações de mundo religiosas e
metafísicas e, por outro lado, pela confiança numa racionalidade
procedural, à qual nossas concepções justificadas [gerechtfertigten
Auffassungen], quer no domínio do conhecimento objetivador
[objektivierenden Erkenntinis], do discernimento moral-prático
[moralisch-praktischen Einsicht], ou do juízo estético [ästhetischen
Beurteilung], requisitam seu direito à validade [ihren Anspruch auf
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Gültigkeit]. (HABERMAS, 1983, p. 11-12).

Poder-se-ia encarar como consequência dessa modernização


cultural/epistemológica epitomada na tripartição das chamadas “esferas
de valor” a crescente compartimentalização e especialização dos saberes
e procedimentos que Max Weber associará ao “racionalismo ocidental”;
como observa Habermas:

Max Weber viu o racionalismo ocidental caracterizado, entre outras


190 coisas, pelo fato de formarem-se na Europa culturas de especialistas

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 190 21/03/16 14:11


[Expertenkulturen] que lidam com a tradição cultural numa atitude
reflexiva e, nisso, isolam uns dos outros os elementos rigorosamente
cognitivos, os estético-expressivos e os moral-práticos. Especializam-
se, respectivamente, em questões de verdade [Wahrheitsfragen],
questões de gosto [Geschmacksfragen] e questões de justiça [Fragen
der Gerechtigkeit]. (HABERMAS, 1983, p. 117).

Ora, não é outro senão esse horizonte da modernidade tripartida


kantiana, no qual se delimita um domínio especificamente estético,
especializado em questões de gosto, aquele no qual tem lugar uma obra
como Theory, em seu esforço declarado de instituir os parâmetros para “um
estudo que poderia ser chamado centralmente literário ou ‘ergocêntrico’”
(WELLEK; WARREN, 1984, p. 74, grifo dos autores). “Quaisquer que
sejam as dificuldades da solução de Kant, ele pôs o dedo na questão
central da estética”, sentencia, com efeito, Wellek, na conferência de Yale,
prosseguindo:

Nenhuma ciência é possível que não tenha seu objeto distinto.


Se a arte é simplesmente prazer, ou comunicação de emoção ou
experiência, ou ensinamento moral, ou raciocínio inferior, ela cessa
de ser arte e torna-se um substituto para outra coisa. (WELLEK,
1970, p. 125).

Mas o que dizer, afinal, dos princípios, das diretrizes, dos


procedimentos ou métodos específicos dessa pretensa “ciência” estético-
literária com que sonha Wellek a partir de Kant, daquilo, em suma, que
conferiria a ela uma legalidade própria como forma de conhecimento
racional entre outras? Quanto a isso as coisas parecem se complicar

9 – Da teoria como resposta


consideravelmente, tudo se passando como se Kant se comprazesse em tirar
com uma mão o que oferecera com a outra, algo que se deixa apreender
claramente no modo como Gadamer reporta, por sua vez, a disruptura
kantiana e a reconfiguração (modernização) cognitiva por ela implicada:

Se nos voltamos, agora, para o papel que a Kritik der Urteilskraft


de Kant desempenha no âmbito da história das ciências do espírito,
teremos de dizer que sua fundação transcendental-filosófica
[transzendental-philosophische Grundlegung] da estética foi plena
de consequências para ambos os lados e instituiu um ponto de 191

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 191 21/03/16 14:11


mutação [Einschnitt]. Ela representa a derrocada [Abbruch] de
uma tradição, mas também a inauguração [Einleitung] de um novo
desenvolvimento. Ela restringiu [hat eingeschränkt] o conceito de
gosto ao campo no qual ele, como um princípio próprio da faculdade
do juízo, poderia reivindicar validade autônoma e independente
– e restringiu [einengte], por outro lado, com isso, o conceito de
conhecimento ao uso teórico e prático da razão. (GADAMER, 1999,
p. 46).

Confirma-se, pois, em Gadamer, a visão, também professada por


Wellek, da terceira Crítica como verdadeiro divisor de águas epocal,
mas sem a aparentemente incondicional empolgação wellekiana com
as implicações daí advindas – o que parece justificar-se pelo fato de,
como enfatiza Gadamer, a disruptura kantiana implicar em si uma dupla
restrição [Eingeschränktheit, Einengung]: (a) restrição do conceito de gosto
[Geschmack] ao domínio da faculdade do juízo [Urteilskraft], a fim de
conferir-lhe independência e autonomia; e, a um só tempo, (b) restrição
do conceito de conhecimento [Erkenntnis] ao domínio da razão teórica e
da razão prática, isto é, aos domínios contemplados, respectivamente,
pela primeira e pela segunda Críticas (depreendendo-se daí a exclusão
da possibilidade de conhecimento no domínio contemplado pela terceira
Crítica).
Na introdução à Kritik der Urteilskraft, Kant (1974b, p. 78) explica
haver somente duas espécies de conceitos que permitem “princípios da
possibilidade de seus objetos” [Prinzipien der Möglichkeit ihrer Gegenstände],
a saber: os conceitos de natureza [die Naturbegriffe] e o de liberdade [der
Freiheitsbegriff]. Os primeiros, que contêm a priori “o fundamento para
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

todo conhecimento teórico” [den Grund zu allen theoretischen Erkenntnis],


assentam-se na “legislação do entendimento” [der Gesetzgebung des
Verstandes]; o segundo, que contém a priori “o fundamento para todas as
prescrições práticas sensorialmente incondicionadas” [den Grund zu allen
sinnlich-unbedingten praktischen Vorschriften], assenta-se na “legislação
da razão” [der Gesetzgebung der Vernunft] (KANT, 1974b, p. 85). Assim,
poder-se-ia dizer que tanto o entendimento (e, por extensão, a faculdade
de conhecimento por ele regulada a priori) quanto a razão (e, por extensão,
a faculdade de apetição por ela regulada a priori) possuem, cada uma, “sua
192 própria legislação segundo o conteúdo [seine eigene Gesetzgebung dem

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 192 21/03/16 14:11


Inhalte nach], sobre a qual nenhuma outra (a priori) existe” – justificando-
se, assim, a divisão da filosofia em “teórica” (escopo da primeira Crítica) e
em “prática” (escopo da segunda Crítica). Mas e a faculdade do juízo, de
que trata a terceira Crítica?
Ela é tomada por Kant (1974b, p. 85) como um “termo médio”
[Mittelglied] entre o entendimento e a razão: “entre a faculdade de
conhecimento e a de apetição está o sentimento de prazer, assim como
entre o entendimento e a razão está contida a faculdade do juízo”, afirma,
com efeito, Kant, sendo de se supor, com isso, que a faculdade do juízo
contenha, também ela, por si mesma, algum princípio a priori (KANT,
1974b, p. 86-87) – e especifica: “ainda que não uma legislação própria, no
entanto um princípio próprio para procurar leis” (KANT, 1974b, p. 85).
“A faculdade do juízo em geral [Urteilskraft überhaupt] é a faculdade
de pensar o particular como contido no universal [das Besondere als enthalten
unter dem Allgemeinen]”, explica Kant (1974b, p. 87), estabelecendo, quanto
a isso, uma distinção de suma importância para a problemática da crítica
estética: se o universal em questão (a regra, o princípio, a lei) for dado,
então a faculdade do juízo que subsume nele o particular é determinante
[bestimmend]; mas se, ao contrário, só o particular for dado, devendo o
universal, nesse caso, ser encontrado, então a faculdade do juízo é reflexiva
[reflektierend] (KANT, 1974b, p. 87). A faculdade de juízo determinante
opera “sob leis transcendentais universais que o entendimento dá”, o que
faz dela uma faculdade estritamente “subsuntiva” [subsumierend]: “a lei lhe
é estabelecida [vorgezeichnet] a priori, e, por isso, não tem necessidade de
pensar uma lei para si mesma de modo a poder subsumir [unterordnen]
o particular na natureza ao universal” (KANT, 1974b, p. 88). A faculdade

9 – Da teoria como resposta


de juízo reflexiva, em compensação, “tem a obrigação de elevar-se
[aufzusteigen] do particular na natureza ao universal”, necessitando, assim,
de um princípio que, não podendo tomar da experiência, cabe tão somente
a ela própria fornecê-lo a si mesma como lei, e não buscá-lo em outro lugar,
“caso contrário, seria ela faculdade de juízo determinante”, observa Kant
(KANT, 1974b, p. 88). Em resumo:

[...] a faculdade de juízo reflexiva deve subsumir sob uma lei que
ainda não está dada e, por isso, é, de fato, apenas um princípio de
reflexão sobre objetos, para os quais objetivamente nos falta por
completo uma lei ou um conceito de objeto que fosse suficiente
193

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 193 21/03/16 14:11


como princípio para casos que ocorrem. Como, pois, não pode
ser permitido nenhum uso das faculdades de conhecimento sem
princípios, então a faculdade de juízo reflexiva deverá, em tais
casos, servir de princípio a si mesma: princípio o qual, já que não
é objetivo e não pode guarnecer [unterlegen] a intenção [Absicht]
de nenhum fundamento de conhecimento suficiente do objeto
[hinreichenden Erkenntnisgrund des Objekts], deve servir como mero
princípio subjetivo [bloß subjektives Prinzip] para o uso apropriado
[zweckmäßigen Gebrauche] das faculdades de conhecimento,
nomeadamente para refletir sobre uma espécie de objetos. (KANT,
1974b, p. 334-335).

Esse caráter não objetivo, “meramente subjetivo”, da faculdade de


juízo reflexiva é enfatizado por Kant justamente quando ele trata do “juízo
de gosto” [Geschmacksurteil], entendendo-se por “gosto” [Geschmack]
a “faculdade de julgamento do belo” [das Vermögen der Beurteilung des
Schönen] (KANT, 1974b, p. 115). “Para distinguir se algo é ou não belo,
referimos a representação [Vorstellung] não, pelo entendimento, ao
objeto com fins de conhecimento, mas, pela faculdade de imaginação
[Einbildungskraft] [...], ao sujeito e ao sentimento de prazer ou desprazer
do mesmo”, explica, com efeito, Kant (1974b, p. 115), concluindo: “O juízo
de gosto não é, pois, nenhum juízo de conhecimento [Erkenntnisurteil],
não sendo lógico portanto, mas estético, pelo que se entende aquilo cujo
fundamento de determinação [Bestimmungsgrund] não pode ser nada
senão subjetivo [nicht anders als subjketiv]” (KANT, 1974b, p. 115). E ainda:

Aqui a representação é referida totalmente ao sujeito e, na verdade,


ao sentimento de vida [Lebensgefühl] do mesmo, sob o nome de
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

sentimento de prazer ou desprazer, o qual funda uma inteiramente


peculiar faculdade de diferenciação e julgamento [ein ganz
besonderes Unterscheindungs- und Beurteilungsvermögen], que em
nada contribui para o conhecimento [...] (KANT, 1974b, p. 115-116).

Isso não quer dizer que o juízo de gosto não aspire à universalidade;
ao contrário, todo juízo de gosto implica uma “reivindicação de validade
universal [Anspruch auf Allgemeingültigkeit]”, a qual pertence, na verdade
“tão essencialmente a um juízo pelo qual declaramos algo belo”, explica
194 Kant,

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 194 21/03/16 14:11


[...] que sem pensá-la ninguém teria a ideia de usar essa expressão
[‘belo’], mas tudo que apraz sem conceito seria contado como
agradável [Angenehmen], em relação ao qual deixa-se cada um seguir
sua própria cabeça [seinem Kopf für sich haben] e ninguém espera do
outro concordância [Einstimmung] com seu juízo de gosto, o que, no
entanto, acontece toda vez no juízo de gosto sobre a beleza. (KANT,
1974b, p. 127, grifo do autor).

A universalidade aí em questão, “que não se baseia em conceitos de


objetos”, Kant (1974b, p. 128) enfatiza, “não é, de modo nenhum, lógica,
mas estética, isto é, não contém nenhuma quantidade objetiva do juízo
[objektive Quantität des Urteils], mas somente uma subjetiva”. E ainda:
“de uma validade universal subjetiva [subjektiven Allgemeingültigkeit], isto
é, estética, que não se baseia em nenhum conceito, não se pode deduzir
a [validade universal] lógica, porque aquela espécie de juízo não remete
absolutamente ao objeto” (KANT, 1974b, p. 129).
Ressalte-se que a subjetividade da universalidade reivindicada pelo
juízo de gosto afigura-se não como um estado a ser superado, mas como
um traço, mais do que inerente, necessário: “Quando se julgam objetos
simplesmente segundo conceitos, então toda representação da beleza é
perdida” – explica, com efeito, Kant –, não podendo haver, pois, “nenhuma
regra segundo a qual alguém devesse ser obrigado a reconhecer algo como
belo” (KANT, 1974b, p. 130). Trata-se de ver, em suma,

[...] que no juízo de gosto nada é postulado exceto tal voz universal
[allgemeine Stimme] com vistas ao prazer [Wohlgefallen] sem
mediação dos conceitos; logo, a possibilidade de um juízo estético
que, ao mesmo tempo, possa ser considerado válido para todos.

9 – Da teoria como resposta


O juízo de gosto ele próprio não postula o acordo de todos (pois
isso só o pode um juízo lógico universal, porque pode apresentar
razões); ele apenas imputa a todos esse acordo como um caso da
regra, em relação ao qual espera a confirmação não de conceitos,
mas da adesão de outros. A voz universal é, pois, apenas uma ideia.
(KANT, 1974b, p. 130, grifo do autor).

Gadamer reconhece que a fundamentação, por Kant, da estética


no juízo de gosto faz justiça a ambos os aspectos do fenômeno: (a) “sua
não universalidade empírica” e (b) “sua reivindicação apriorística de 195

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 195 21/03/16 14:11


universalidade”, e retruca: “Mas o preço que ele paga por essa justificação da
crítica no campo do gosto consiste em que nega ao gosto qualquer significado
cognitivo [Erkenntnisbedeutung]” (GADAMER, 1999, p. 48-49, grifo do
autor). O gosto, nessa perspectiva, não passa de um “princípio subjetivo”,
lamenta Gadamer, no qual não se reconhece “nada dos objetos que são
julgados como belos”, sustentando-se, apenas, que “a eles corresponde a
priori um sentimento de prazer no sujeito” (GADAMER, 1999, p. 49).
Depreende-se daí nada menos do que a inviabilização de uma
filosofia/teoria da arte a partir da Kritik der Urteilskraft. O “modo de
existência” [Daseinsart] do objeto apreciado não importa para a essência
do julgamento estético, observa, com efeito, Gadamer (1999, p. 50).
O que Kant chama “heautonomia” [Heautonomie] do juízo estético, isto
é, sua capacidade de legislar para si próprio, “não funda, absolutamente”,
prossegue Gadamer (1999, p. 61), “nenhum campo de validade autônoma
[autonomen Geltungsbereich] para os belos objetos”. Em suma: “A reflexão
transcendental kantiana sobre um a priori da faculdade de juízo justifica
a pretensão do julgamento estético, mas, fundamentalmente [im Grunde],
não admite uma estética filosófica no sentido de uma filosofia da arte”
(GADAMER, 1999, p. 61). O que não dizer, então, de uma “ciência” estético-
literária, como a almejada por Wellek e Warren?
Quando, a propósito da apreensão da obra de arte literária, os autores
nos falam, em Theory, de “normas implícitas que têm que ser extraídas de
cada experiência individual de uma obra de arte” (WELLEK; WARREN,
1984, p. 150-151), isso soa, a princípio, como uma concessão à postulação
kantiana de uma incontornável subjetividade no coração da experiência
estética. Mas apenas a princípio, pois Wellek e Warren enfatizarão o caráter
não arbitrário e não subjetivo desse ato de apreensão estética, ao qual não
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

hesitam em chamar, aliás, na contramão de Kant, de “ato de cognição”


[act of cognition] (é de conhecimento, portanto, que aí se trata), o qual, por
incompleto ou imperfeito que seja, deixaria sempre entrever certa “estrutura
de determinação” do objeto estético – “exatamente como em qualquer outro
objeto de conhecimento”, acrescentam, a propósito, os autores (WELLEK;
WARREN, 1984, p. 152). O curioso é que esse posicionamento se quer
amparado pela própria filosofia kantiana: “A objeção de que temos acesso a
essas normas apenas através de atos individuais de cognição, e de que não
podemos ir para fora ou além desses atos, [...] pode ser refutada com os
196 argumentos kantianos” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 154).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 196 21/03/16 14:11


Ora, se nos atemos à caracterização kantiana do juízo de gosto como
um juízo necessariamente reflexivo, nunca determinante, então não há nada
a ser refutado quanto ao caráter irremediavelmente subjetivo da apreensão
estética. Identificar, pois, em termos estritamente kantianos, como “juízo
reflexivo de gosto” o ato de apreensão estética de que nos fala Theory
– no qual estariam em jogo certas “normas implícitas” [implicit norms],
as quais, não sendo dadas a priori, devem ser “extraídas” [extracted] “de
cada experiência individual [from every individual experience] de uma obra
de arte” – equivale a despojá-lo, de antemão, de qualquer significado ou
valor propriamente cognitivo que ele pudesse vir a ter, inviabilizando, com
isso, e definitivamente, a possibilidade mesma de uma teoria da literatura
nos termos concebidos por Wellek e Warren, isto é, como fundamento
epistemológico/metodológico para a crítica literária.
Vale lembrar, quanto a isso, que com o último volume de sua
trilogia filosófica Kant deu por terminada sua “inteira tarefa crítica”
[mein ganzes kritisches Geschäft], estando apto a passar, então, à sua tarefa
propriamente “doutrinal” [doktrinalen], o que seria válido, contudo, apenas
para os domínios tratados nas duas primeiras Críticas: entendimento/
conhecimento, razão/apetição, e não para o domínio tratado na terceira
Crítica, refratário a qualquer tipo de sistematização doutrinária: “É
evidente que não há aí nenhuma parte especial [kein besonderer Teil] para
a faculdade do juízo, pois com respeito à mesma a crítica funciona no lugar
da teoria [die Kritik statt der Theorie dient]” (KANT, 1974b, p. 77); e ainda:
“a faculdade de juízo estética em nada contribui para o conhecimento
de seus objetos e, assim, tem que ser considerada apenas pela crítica do
sujeito julgador [urteilenden Subjekts] e das faculdades de conhecimento

9 – Da teoria como resposta


do mesmo [...], crítica a qual é a propedêutica de toda filosofia” (KANT,
1974b, p. 106, grifo do autor). Em outras palavras, o tratamento do juízo
estético nunca ultrapassaria o nível meramente crítico-propedêutico de
reflexão em direção ao estágio dito “doutrinário”, excluindo-se, com isso, a
possibilidade de uma teoria ou filosofia estética propriamente dita.
Na conferência de Yale, Wellek retoma explicitamente, e o expõe, à
sua maneira, esse posicionamento de Kant, bem como, demarcando sua
própria posição em relação ao mesmo, o faz de modo tanto a afastar a
hipótese de um epigonismo kantiano puro e simples quanto a atestar e a
reafirmar o deliberado kantismo na base da Theory. 197

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 197 21/03/16 14:11


Para além da delimitação que empreendeu do domínio estético
– que “se provou o motivo principal da estética moderna, a questão
central que, muitas e muitas vezes, dividirá e unirá mentes dos mais
diversos gostos e convicções” (WELLEK, 1970, p. 136) –, Kant, observa
entusiasticamente Wellek, “declarou com igual clareza e respondeu a
questão central concernente a uma teoria da crítica” (WELLEK, 1970,
p. 126). Reconhecendo que “julgamentos de gosto, nosso prazer ou tédio,
não podem ser nem refutados nem forçados”, rejeitando “qualquer ideia
de crítica por princípios a priori”, Kant, explica Wellek, “argumenta
elaboradamente ser totalmente verdadeiro que o gosto é subjetivo”
(WELLEK, 1970, p. 127). O juízo de gosto kantiano é, pois, subjetivo, “mas
há uma objetividade no subjetivo”, acrescenta Wellek:

[...] apelamos para um juízo geral, para um senso comum de


humanidade, mas isso é alcançado pela experiência interior, não pela
aceitação da opinião de outros, ou consultando-os, ou considerando
suas opiniões. Não é um apelo aos homens, mas à humanidade, a
uma totalidade ideal de juízes. Não posso saber se verdadeiramente
atingi, em meu juízo, o sentimento dessa totalidade ideal oculta,
mas meu juízo estético é algo que aponta para [is a pointing to] essa
unidade mais alta, um chamado a mim mesmo e aos outros para
descobri-la. Ele é, assim, hipotético, problemático. (WELLEK, 1970,
p. 127).

A “voz universal” postulada pelo juízo estético não passa de uma


“ideia” – dissera, com efeito, Kant. “Mas como, precisamente, pode a crítica
proceder?”, indaga-se, então, Wellek, respondendo:
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Para Kant não pode haver nada como uma doutrina ou princípios
que possam ser ensinados. A crítica é sempre julgar por exemplos,
a partir do concreto. A crítica é, assim, histórica, no sentido de
ser individual, enquanto a ciência (e Kant pensa na física) é geral,
abstrata, visando a uma doutrina sistemática. O método da crítica
é, assim, o método comparativo. A capacidade de escolher com
validade universal, outra definição do gosto, não é senão a capacidade
de comparar-se com outros; e esse processo é, claro, não apenas uma
justaposição com outros, mas uma autocrítica, uma introspecção,
198 um exame dos próprios sentimentos. (WELLEK, 1970, p. 129).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 198 21/03/16 14:11


Eis aí inequivocamente expressa, pois, a consciência wellekiana da
incontornável não objetividade/não cientificidade da crítica segundo Kant.
E justamente nesse ponto, como era de se esperar, explicita-se a reserva de
Wellek em relação ao mestre: “Pessoalmente penso que Kant nos leva longe
demais no reino do subjetivo: reconheço, é claro, que isso está de acordo
com sua posição geral em teoria do conhecimento” (WELLEK, 1970,
p. 129); mais à frente:

Não estou tão certo de que a solução de Kant ao problema da crítica


não padeça de sua ênfase geral no subjetivo e no fenomenológico.
Pessoalmente, eu me lançaria mais corajosamente [more boldly]
num domínio de estruturas objetivas, no mundo dos objetos de arte
existentes. Kant permanece cautelosamente com o fato indubitável
do juízo subjetivo e apenas hesitante e provisoriamente apela para
algum senso comum final do homem. (WELLEK, 1970, p. 141).

Se tanto em Gadamer quanto em Wellek verifica-se, pois, seja


uma crítica incisiva ao que em Wahrheit und Methode é chamado de
“subjetivação da estética pela crítica kantiana” [Subjektivierung der Ästhetik
durch die Kantische Kritik], seja um ímpeto de superação dessa subjetivação,
enquanto em Gadamer esse movimento se instaura, contra Kant e seu
legado em estética, em nome de uma “recuperação da questão da verdade
da arte” [Wiedergewinnung der Frage nach der Wahrheit der Kunst], em
Wellek ele revela, antes, um esforço de fundamentação epistemológica/
metodológica da crítica literária com base em certa “sugestão” kantiana que
teria permanecido inexplorada na Kritik der Urteilskraft.
Se na terceira Crítica, Kant, por um lado, “raramente trata de enfrentar

9 – Da teoria como resposta


[comes to grips with] o domínio concreto da arte”, observa Wellek (1970,
p. 129), por outro lado ele “sugeriu ou antes reavivou um critério muito
importante para o julgamento da arte: a analogia do organismo” (WELLEK,
1970, p. 130). A similaridade de uma obra de arte com um organismo
foi primeiramente sugerida numa passagem da Poética aristotélica,
explica Wellek, mas simplesmente como “um princípio de inteireza, o
reconhecimento da implicação das partes no todo, uma totalidade ou
unidade”, a analogia figurando aí como “uma variedade do velho insight
de que uma obra de arte é uma unidade na diversidade” (WELLEK, 1970,
p. 130); já com Kant, confrontamos-nos com uma ideia diferente, a analogia 199

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 199 21/03/16 14:11


entre arte e natureza sendo muito mais estreita: “A obra de arte é paralela a
um organismo vivo porque a arte e a natureza orgânica devem ambas ser
concebidas sob o título do que Kant chama paradoxalmente de ‘finalidade
sem fim’ [purposeless purposiveness]” (WELLEK, 1970, p. 130, grifo do
autor).
Wellek detém-se, aí, no fato de a Kritik der Urteilskraft ser composta
de duas partes: à “Crítica da faculdade de juízo estética” [Kritik der
ästhetischen Urteilskraft] sucede-se uma “Crítica da faculdade de juízo
teleológica” [Kritik der teleologischen Urteilskraft]; a primeira concernente
“ao que chamamos estética e arte”, a segunda, “ao que chamamos biologia,
ou antes teoria da biologia”, explica Wellek (1970, p. 130), e acrescenta:

Isso não é, como algumas pessoas pensaram, um estranho esquema


escolástico que traz elementos incompatíveis sob um título artificial:
é um insight crucial da filosofia de Kant. Arte e natureza orgânica
apontam para uma superação final do profundo dualismo que é
básico ao sistema de pensamento kantiano. O mundo, de acordo
com Kant, é dividido em dois domínios: o da aparência (daí o da
necessidade, da causalidade física), acessível aos nossos sentidos e às
categorias de nosso entendimento, e o da liberdade moral, acessível
apenas em ação. Kant vislumbra na arte uma possibilidade de
estabelecer uma ponte [a possibility of bridging] sobre o abismo entre
necessidade e liberdade, entre o mundo da natureza determinística
e o mundo da ação moral. A arte realiza uma união do geral e do
particular, de intuição e pensamento, de imaginação e razão. A
natureza orgânica, a vida, faz exatamente o mesmo. Elas, juntas,
garantem a existência do que Kant chama o “suprassensível”, pois
apenas na arte e na vida, através da “intuição intelectual”, nós temos
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

acesso ao que Kant chama de “arquétipo intelectual”. Para colocar


isso em termos mais modernos: arte e vida apontam para algum
domínio de valores, ou fins, ou propósitos, discernível na atividade
do gênio, em nossa reação à beleza e nas estruturas motivadas
[purposeful structures] dos seres vivos. (WELLEK, 1970, p. 130-131,
grifo do autor).

Ora, o que aí se enuncia, à primeira vista, como mera paráfrase da


suposta tese central da terceira Crítica logo se revela, na verdade, qualquer
200 coisa como a exposição à revelia de algo que Kant teria sugerido sem o dizer
explicitamente, precisando, assim, ser derivado, não sem certa violência,

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 200 21/03/16 14:11


dos argumentos kantianos. Isso porque, admite Wellek, o próprio Kant
“hesita em chegar a essa conclusão: o ‘substrato suprassensível da natureza’,
a união do domínio da necessidade e o da liberdade, escapa, insistiria ele,
a qualquer conhecimento teórico” (WELLEK, 1970, p. 131, grifo do autor).
Nesse ponto Wellek ampara-se na afirmação de Hegel de que seria
mesmo característico da filosofia kantiana “ter a consciência da ideia mais
alta, mas sempre para erradicá-la novamente” (WELLEK, 1970, p. 131).
Wellek já havia insinuado algo como uma hesitação excessiva ou, mesmo,
uma covardia da filosofia kantiana em relação ao que ela reserva ao juízo
estético; seria preciso, assim, com base no próprio Kant, proceder mais
corajosa ou audaciosamente (“more boldly”) do que ele fora capaz. É o que,
para todos os efeitos, faz Wellek quando se permite afirmar, em resumo,
que Kant “descobre e corretamente enfatiza um critério mais importante de
juízo estético: a analogia entre arte e organismo” (WELLEK, 1970, p. 131).
A aplicação do termo “finalidade sem fim” [purposeless purposiveness,
segundo Wellek, Zweckmäßigkeit ohne Zweck, no original alemão] ao
organismo torna-se clara, explica Wellek, se se entende que Kant tem
aí em mente não “intenção consciente e meta [aim], mas harmonia das
partes, unidade, totalidade, com cada membro tendo sua própria função no
sistema”, sendo que: “Essa finalidade [purposiveness, Zweckmäßigkeit], essa
unidade, é ao mesmo tempo sem fim [purposeless, ohne Zweck] na percepção
de Kant, à medida que é desinteressada, não dirigida a qualquer objetivo
[aim] imediato externo” (WELLEK, 1970, p. 131). Wellek faz derivar daí
uma consequência teórico-metodológica para a crítica estética que não
encontraria respaldo direto no que explicitamente se postula na Kritik
der Urteilskraft: “Tal coerência em si mesma, tal bela unidade [beautiful

9 – Da teoria como resposta


unity], é também um padrão [standard] para o juízo estético: quanto mais
complexa a obra de arte, quanto mais [bem] composta, maior a totalidade,
maior a beleza” (WELLEK, 1970, p. 131).
O importante capítulo da Theory dedicado à questão da “avaliação”
[evaluation] consiste justamente na exposição e na fixação desse suposto
“padrão” judicativo ao modo de um princípio a priori para a valorização
[valuing] entendida como “a percepção de qualidades e relações
esteticamente valiosas estruturalmente presentes no poema para qualquer
leitor competente” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 249). Mas em que termos
compreender, enfim, essa presença “estrutural” de qualidades e relações 201

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 201 21/03/16 14:11


de que aí se fala? “A ‘estrutura’ é um conceito que inclui tanto o conteúdo
quanto a forma à medida que organizados com fins estéticos. A obra de
arte é, então, considerada como todo um sistema de signos, ou estrutura
de signos, servindo a um fim estético específico”, explicam, a propósito,
Wellek e Warren (1984, p. 141, grifo dos autores). Esse modo de existência
“estrutural” da obra de arte literária é apresentado e detalhado de modo
sistemático nos capítulos da Theory dedicados a, na definição dos próprios
autores, “examinar os métodos usados na descrição e análise dos vários
estratos da obra de arte”:

(1) o estrato sonoro, eufonia, ritmo e metro; (2) as unidades de


sentido que determinam a estrutura linguística formal de uma obra
de literatura, seu estilo e a disciplina da estilística que o investiga
sistematicamente; (3) imagem e metáfora, os mais centralmente
poéticos de todos os dispositivos estilísticos, que precisam de
discussão especial também porque quase imperceptivelmente
confundem-se com (4) o “mundo” específico da poesia no símbolo
e sistemas de símbolo que chamamos “mito” poético. O mundo
projetado pela ficção narrativa apresenta (5) problemas especiais de
modos e técnicas aos quais devotaremos outro capítulo. (WELLEK;
WARREN, 1984, p. 156-157, grifo dos autores).

Dir-se-ia abstraída e exposta, nesses capítulos, em seu caráter


supostamente o mais geral e universalmente válido, aquela “estrutura de
determinação” [structure of determination] inerente ao objeto literário de
que nos falam Wellek e Warren; já que a mesma funcionaria, a rigor, como
“um controle específico, altamente organizado da experiência do leitor,
de modo que a experiência é mais apropriadamente descrita como uma
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

experiência do poema” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 249), ver-se-ia aí


pretensamente desvelada, na verdade, a estrutura da própria experiência
literária, em geral, e da apreensão crítica das obras literárias, em particular.
“A crítica é pessoal, mas visa descobrir uma estrutura de
determinação no objeto ele mesmo”, sintetiza, com efeito, Wellek (1970,
p. 128) na conferência de Yale; e prossegue: “ela presume algum padrão de
correção [standard of correctness] no julgamento, embora não possamos
ser capazes de desenhar a linha exata entre o subjetivo e o objetivo em cada
202 caso”. A despeito dessa ressalva final, é justamente um padrão objetivo de
correção no julgamento o que postulam os autores da Theory, a ponto de

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 202 21/03/16 14:11


vislumbrarem uma hierarquia nesse sentido: “Todos os diferentes pontos
de vista não são, de forma alguma, igualmente verdadeiros”, sentenciam, e
prosseguem: “Será sempre possível determinar que ponto de vista apreende
mais meticulosa e profundamente a matéria [subject]. Uma hierarquia de
pontos de vista, uma crítica da apreensão de normas está implícita no
conceito de adequação de interpretação” (WELLEK; WARREN, 1984,
p. 156).
Ora, essa hierarquia e essa crítica os autores as materializam na
própria divisão central da Theory em duas grandes partes contrapostas,
dedicadas, a primeira delas, à “abordagem extrínseca” [extrinsic approach]
ao estudo da literatura, e a segunda, ao “estudo intrínseco” [intrinsic study]
da literatura, sendo que ao fim da introdução à primeira parte descobre-se
que o que então se segue é não uma apresentação mais ou menos sistemática
dos métodos críticos ditos extrínsecos, mas um esforço deliberado de
“criticar a coleção de métodos do ponto de vista de sua relevância para um
estudo que poderia ser chamado centralmente literário ou ‘ergocêntrico’”
(WELLEK; WARREN, 1984, p. 74, grifo dos autores). É, portanto, a partir
da primazia desse ponto de vista “centralmente literário” ou “ergocêntrico”
que se estabelece uma “hierarquia de pontos de vista” na qual não apenas
a abordagem intrínseca sistematizada na segunda parte do livro sobrepõe-
se às abordagens extrínsecas exploradas na primeira parte (biográficas
[cap. 7], psicológicas [cap. 8], sociológicas [cap. 9], filosófico-ideológicas
[cap. 10], interartísticas [cap. 11]), mas também estas últimas devem ser
avaliadas e devidamente hierarquizadas entre si em função de sua maior ou
menor possibilidade de conformação ao ideário organicista-formalista dos
autores da Theory.

9 – Da teoria como resposta


Isso posto, é preciso admitir que se limitar a constatar, com Culler
(1988, p. 12), que Theory empreendeu a “construção de uma distinção central”
entre a abordagem extrínseca e o estudo intrínseco da literatura equivale a
solapar a historicidade fundamental dessa “distinção” (e da hierarquia nela
embutida). Não se trata, em suma, de algo simplesmente “construído” por
Wellek e Warren com base em seu “amplo conhecimento da história da
crítica e de obras estrangeiras sobre teoria literária”, e que pudesse, então,
a partir daí, ser tomado, atemporalmente, como uma “distinção central”
[a central distinction] em crítica literária, como sugere Culler, e sim de algo
que emerge como uma resposta dos autores da Theory ao “problema” com 203

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 203 21/03/16 14:11


que então se defrontavam: o de “como lidar intelectualmente com a arte
literária”, ora devidamente reinserido no contexto motivado da pergunta que
lhe confere clareza e sentido e (re)converte-lhe em verdadeira questão, isto
é, aquele da subjetivação radical da estética no âmbito da modernidade
tripartida kantiana. Uma resposta a Kant, pois, mas que encontra, não
obstante, no próprio Kant, na própria terceira Crítica, ou em certa leitura
dela, suas condições de possibilidade como resposta: a analogia entre arte e
organismo.
Se o agrupamento feito por Kant de biologia e arte sob o mesmo
rótulo tendeu a ser tomado como uma exigência artificial de seu pensamento
sistemático, observa Wellek na conferência de Yale, a ideia “mais especial”
da arte como organismo, por outro lado, “tem tido um grande sucesso no
mundo moderno”:

Os românticos alemães estão plenos dela. August Wilhelm Schlegel


formulou a diferença entre o orgânico e o mecânico com especial
habilidade, e suas fórmulas foram assumidas por Coleridge. Hoje,
no mundo de fala inglesa, o termo “organism” aplicado à arte é
associado a Coleridge e tem sido amplamente revivido nas décadas
recentes. Não apenas os “New Critics” americanos mas também
Croce e muitos alemães podem ser descritos como propositores
desse paralelismo [...]. (WELLEK, 1970, p. 138-139, grifo do autor).

Situando-se, bem entendido, no ponto de chegada dessa corrente


espiritual do organicismo estético no “mundo moderno” – não sem se
prevenir em relação àquilo que, no paralelismo entre arte e organismo,
“certamente leva apenas a analogias enganosas se tomado muito
literalmente” (WELLEK, 1970, p. 139) –, a Theory se ofereceria, pois,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

não como mera vulgarização tardia de princípios básicos da Kritik der


Urteilskraft, mas como uma sistemática resposta organicista – kantiana,
pois, num sentido importante – à problemática kantiana da impossibilidade
de fundamentação objetiva da crítica estética.
Jogando Kant contra Kant produtivamente, Wellek e Warren teriam
logrado suprir, com sua Theory, “a grande necessidade do estudo literário
hoje” (e não seria essa, afinal, a razão de seu incomparável sucesso editorial
e acadêmico?), isto é, a de uma teoria da literatura como fundamento
204 epistemológico/metodológico para a crítica literária, ou, na expressão dos
autores, como um “órganon de métodos”. A analogia aí sugerida da Theory

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 204 21/03/16 14:11


com o Órganon aristotélico – o conjunto das obras lógicas de Aristóteles
convertido no grande “instrumental” científico da Antiguidade [όργανον
(órganon): “órgão, instrumento, ferramenta”], ao qual se contrapôs, nos
tempos modernos, o Novum Organum (1620) de Francis Bacon (autor
a quem Kant dedica sua Kritik der reinen Vernunft) – não soa exagerada
quando se pensa que, ao fornecer algo capaz de funcionar, de fato, como
um princípio a priori para o juízo estético literário (capaz de convertê-lo,
portanto, de juízo reflexivo em juízo determinante), o alegado órganon de
Wellek e Warren teria finalmente imbuído a crítica literária de sua almejada
cientificidade, outrora inviabilizada por Kant.
Conclusão demasiadamente apressada, contudo, por não levar em
conta um dado decisivo: se Theory logrou oferecer, com efeito, uma bem-
sucedida resposta à questão de fundo kantiano com a qual se defronta,
seus autores não deixaram de reconhecer, em suas páginas, já haver, àquela
altura, ao menos duas outras respostas distintas a essa mesma questão, “duas
soluções extremas para o nosso problema” (WELLEK; WARREN, 1984,
p. 18) – algo que, é claro, complica definitivamente as coisas.

9.4 A teoria literária como contrarresposta


Eis, segundo Wellek e Warren, a primeira das duas respostas já
existentes a “como lidar intelectualmente com a arte literária”: a de que
“isso pode ser feito com os métodos desenvolvidos pelas ciências naturais,
que só precisam ser transferidos para o estudo da literatura” (WELLEK;
WARREN, 1984, p. 16); eles distinguem quatro modos possíveis dessa
transferência:

9 – Da teoria como resposta


1) “a tentativa de emular os ideais científicos gerais de objetividade,
impessoalidade e certeza, uma tentativa que, no todo, sustenta a
coleta de fatos neutros”;
2) “o esforço para imitar os métodos da ciência natural através
do estudo de antecedentes causais e origens; na prática, esse
‘método genético’ justifica o rastreamento de qualquer tipo de
relação, contanto que possível sobre fundamentos cronológicos”;
3) “mais rigidamente, a causalidade científica é usada para explicar
fenômenos literários pela atribuição de causas determinantes a 205
condições econômicas, sociais e políticas”;

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 205 21/03/16 14:11


4) “a tentativa de usar conceitos biológicos no rastreamento da
evolução da literatura”. (WELLEK; WARREN, 1984, p. 16, grifo
dos autores).
A segunda resposta recomenda, ao invés, que “o estudo literário tem
seus próprios métodos válidos, que não são sempre os das ciências naturais,
não obstante são métodos intelectuais” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 17);
ela “afirma o caráter pessoal da ‘compreensão’ literária e a ‘individualidade’,
mesmo a ‘singularidade’ [uniqueness] de toda obra de literatura” (WELLEK;
WARREN, 1984, p. 18, grifo dos autores).
Wellek e Warren não se indagam seriamente pela historicidade dessas
respostas, isto é, por aquilo que as institui, afinal, como respostas. Quanto
à primeira, limitam-se a observar que, “tornada moda pelo prestígio das
ciências naturais” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 18), a transferência de
métodos por ela intentada “não cumpriu as expectativas com as quais foi
feita originalmente” (WELLEK; WARREN, 1984, p. 16). Quanto à segunda,
que a tentativa de estabelecer a diferença entre os métodos e objetivos
das ciências naturais e das humanidades remonta, em última instância, à
distinção feita em 1883 por Wilhelm Dilthey entre explicação e compreensão
– que nisso foi seguido, na Alemanha, por um Windelband e um Rickert,
na França, por um Xenopol, na Itália, por um Croce (WELLEK; WARREN,
1984, p. 17). Para além dessas parcas indicações, contudo, Wellek e Warren
lidam com ambos os posicionamentos não como verdadeiras respostas, e
sim, a exemplo dos acadêmicos ingleses criticados por Collingwood (citado
por Gadamer), como “statements” a serem considerados, estritamente, em
seu conteúdo proposicional.
Isolando o que haveria de lógica e/ou empiricamente aceitável em
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

cada uma das formulações em questão, para todos os efeitos os autores


limitam-se a condenar o excesso, o extremismo que as converte, enfim,
em “soluções extremas” [extreme solutions], inaceitáveis como tais. Se, de
fato, concedem Wellek e Warren (1984, p. 19), a crítica literária orienta-
se para a individualidade de uma obra, de um autor, de um período ou de
uma literatura nacional, como quer a segunda formulação, por outro lado,
ponderam, essa caracterização da individualidade aí intentada pode ser
realizada somente em termos universais, como quer a primeira formulação.
Tudo se passaria, pois, nessa cena de abertura da Theory, como se a teoria-
206 da-literatura-como-órganon-de-métodos a ser exposta na sequência

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 206 21/03/16 14:11


devesse, então, ser tomada como trilhando um razoável caminho do meio
entre as duas formulações – o que, ainda que alegadamente conservando
aspectos isolados de cada uma delas, equivaleria, no fim das contas, à
definitiva superação das mesmas como respostas a certa questão: aquela
mesma em vista da qual também a Theory emerge como resposta.
Um recuo de câmera reenquadra, contudo, essa cena, desvelando na
mesma um jogo de forças consideravelmente mais complexo: sob o ângulo
das reflexões gadamerianas em Wahrheit und Methode, as formulações em
questão pareceriam se impor não apenas como distintas e discrepantes
respostas possíveis à subjetivação da estética por Kant – respostas situadas,
como tais, no mesmo contexto da modernidade tripartida kantiana no qual
se situa a Theory –, e sim, mais especificamente, como respostas em larga
medida kantianas a essa problemática kantiana, isto é, a exemplo da própria
Theory, como desenvolvimentos de “sugestões” delineadas mais ou menos
explicitamente na Kritik der Urteilskraft.
Gadamer inicia sua opus magnum justamente observando que
a “autorreflexão lógica” [die logische Selbstbesinnung] das ciências do
espírito no século XIX “está totalmente dominada [beherrscht] pelo
modelo das ciências da natureza”; as ciências do espírito compreendendo,
então, a si mesmas “tão visivelmente por analogia com as ciências da
natureza, que, com isso, o eco idealístico situado no conceito de espírito
[Geist] e de ciência do espírito [Wissenschaft des Geistes] fica em segundo
plano [zurücktritt]” (GADAMER, 1999, p. 9). Gadamer explica que a
expressão Geisteswissenschaften [ciências do espírito] deve muito de sua
popularização ao tradutor alemão do System of Logic [Sistema de lógica]
(1843) de John Stuart Mill, obra em cujo capítulo final o filósofo inglês

9 – Da teoria como resposta


esboça as possibilidades de aplicação da lógica indutiva às chamadas “moral
sciences” [ciências morais], termo para o qual se propõe, então, em alemão,
Geisteswissenschaften. Já no contexto da Lógica de Mill, portanto, observa
Gadamer (1999, p. 9), “não se trata de reconhecer uma lógica própria das
ciências do espírito, mas, pelo contrário, de demonstrar que o método
indutivo na base de toda ciência experimental também nesse domínio é
exclusivamente válido [allein gelte]”. Gadamer observa, ainda, que um
autor como Dilthey – que “mantém firme [hält fest] a herança romântico-
idealista no conceito de espírito” e cujo árduo trabalho de décadas dedicado
à fundamentação das ciências do espírito é “um confronto permanente 207

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 207 21/03/16 14:11


com a exigência lógica que o célebre capítulo final de Mill estabeleceu
para as ciências do espírito” –, também ele “deixou-se influenciar
profundamente pelo modelo das ciências da natureza, ainda que quisesse
justificar justamente a autonomia metodológica das ciências do espírito”
(GADAMER, 1999, p. 12). A responsabilidade por esse estado de coisas,
Gadamer a faz remontar, em última instância, a ninguém menos do que
Kant, à “subjetivação radical” [radikale Subjektivierung] implicada na “nova
fundação da estética por Kant [die Kants Neubegründung der Ästhetik]”,
que, “ao desacreditar qualquer outro conhecimento teórico que não o da
ciência da natureza, forçou [hat gedrängt] a autorreflexão das ciências do
espírito a se apoiar na metodologia das ciências da natureza” (GADAMER,
1999, p. 47). Mais do que isso, a filosofia kantiana teria mesmo facilitado
esse apoio “ao proporcionar, ao modo de um serviço subsidiário [als
subsidiäre Leistung], o ‘momento artístico’ [das ‘künstlerische Moment’],
o ‘sentimento’ [das ‘Gefühl’] e a ‘empatia’ [die ‘Einfühlung’]” (GADAMER,
1999, p. 47, grifo do autor).
Por tudo o que Gadamer expõe na sequência, isso teria se dado,
basicamente, em dois sentidos diferentes, implicando dois percursos
distintos, mas com pontos de partida igualmente kantianos, isto é,
igualmente derivados de certas “sugestões” kantianas na terceira Crítica,
e cujos respectivos pontos de chegada poderiam ser identificados, na
verdade, nas duas respostas à problemática da fundamentação da crítica
literária (e das humanidades em geral) consideradas por Wellek e Warren
na Theory. O primeiro sentido ou percurso seria aquele que, partindo de
certo deslocamento de ênfase do “gosto” [Geschmack] para o “gênio” [Genie]
sugerido na Kritik der Urteilskraft, desembocará na “estética do gênio”,
a qual dominará todo o século XIX sob a égide da ideologia romântica,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

tornando-se “científica” sob a égide da ideologia positivista; o segundo


seria aquele que, partindo do desenvolvimento, promovido pela Kritik der
Urteilskraft, do conceito de “gênio” em direção a um abrangente conceito
de “vida”, desembocará na formulação do conceito de “vivência” [Erlebnis]
por Dilthey, e, a partir daí, na fixação de uma visada hermenêutica nas
humanidades.
Se se reconhece, pois, como aqui se faz, a Theory de Wellek e Warren
como resposta kantiana ao próprio Kant, o problema que logo, então,
208 avulta é o de essa resposta não poder ser tomada, simplesmente, como “a”

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 208 21/03/16 14:11


resposta a Kant, isto é, à questão da fundamentação da crítica estético-
literária implicada por aquela “subjetivação radical”, segundo Gadamer, do
juízo estético operada na terceira Crítica, já que ela emerge, na verdade,
diante de duas outras respostas já existentes, aventadas na própria Theory –
e que, para piorar, também se instituem como respostas kantianas a Kant,
isto é, a exemplo da própria Theory, como desenvolvimentos de diferentes
“sugestões” na Kritik der Urteilskraft.
Poder-se-ia alegar, retornando a Wahrheit und Methode, que o
delineamento desse estado de coisas em nada contradiz a “lógica da
pergunta e da resposta”, e, mesmo, que ele ilustra a contento o postulado
gadameriano de que: “Só se compreende o texto em seu sentido alcançando-
se o horizonte da pergunta, que, como tal, necessariamente abarca também
outras respostas possíveis” (GADAMER, 1999, p. 375, grifo nosso). As três
respostas aqui em questão deixam-se apreender, de fato, como três respostas
possíveis ao mesmo “horizonte da pergunta”, tendo mesmo, na verdade,
cada uma delas e todas as três, sua possibilidade condicionada pelo advento
do que se poderia chamar, no âmbito geral da modernidade tripartida
kantiana, de modernidade crítica: aquela conjuntura na qual o crítico
estético-literário tem reservados a si, e como nunca antes, um domínio e
uma jurisdição que lhe seriam próprios e exclusivos, ao mesmo tempo que
se vê privado do fundamento necessário à tomada de posse do referido
domínio e ao exercício legítimo da referida jurisdição – fundamento esse
que, portanto, deve ser doravante buscado, conquistado pelo crítico, e por
ele estabelecido, finalmente, de maneira consensual.
Ora, o grande problema reside justamente aí, pois as respostas
ora em questão revelam-se, de fato, três respostas possíveis mas não

9 – Da teoria como resposta


compossíveis a essa busca caracteristicamente moderna pelo fundamento
crítico, isto é, elas não são, como respostas, concomitantemente possíveis,
mas mutuamente excludentes, e isso em sua origem mesma: a própria
emergência de uma delas como resposta implica justamente a negação das
demais como respostas. Qualquer uma delas, pois, que emerja dessa disputa
como “a” resposta há de permanecer assombrada por aquela incompossível
possibilidade outra que tivera de negar e recalcar para se instituir e se
legitimar como resposta.
Não estranha, assim, que ela, a resposta vitoriosa, acabe sendo
deposta dessa sua posição por um gesto idêntico àquele pelo qual ascendera 209

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 209 21/03/16 14:11


à mesma: negação do outro e afirmação de si revelam-se as contrafaces
necessárias e indissociáveis de um único e mesmo gesto autoinstituidor
e autolegitimador no âmbito do que se poderia chamar a querela do
fundamento crítico.

9.5 Pós-modernidade crítica? (Historiografia da


crítica e o não lugar da teoria literária)
O referido gesto autoinstituidor e autolegitimador costuma ser
imediatamente identificado, na verdade, com o próprio advento da
modernidade, sobretudo desde a célebre desqualificação, por Hans
Blumenberg, no hoje clássico Die Legitimität der Neuzeit [A legitimidade
da Idade Moderna] (1966), da então influente tese da Idade Moderna como
fruto de uma “secularização” dos ideais religiosos judaico-cristãos – do
que dá testemunho, por exemplo, Habermas (1985, p. 16), ao observar que
Blumenberg “viu-se impelido”, à época, “a defender, com grande ostentação
historiográfica, a legitimidade ou o direito próprio da Idade Moderna contra
construções que alegam uma dívida cultural para com os testantes [den
Erblassern] do cristianismo e da Antiguidade”.
Um pouco antes Habermas observa, nesse mesmo sentido, que “a
modernidade já não pode e não quer tomar emprestados seus critérios
orientadores dos modelos de uma outra época, ela tem de extrair
sua normatividade de si mesma. [...] vê-se referida a si mesma, sem a
possibilidade de subterfúgio” (HABERMAS, 1985, p. 16), sugerindo, além
do mais, que: “Isso explica a suscetibilidade de sua autocompreensão,
a dinâmica das tentativas de ‘determinar’ a si mesma incessantemente
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

continuadas até os nossos dias” (HABERMAS, 1985, p. 16, grifo do autor).


E ainda: “O problema de uma fundamentação da modernidade a partir
de si mesma vem à consciência primeiramente no domínio da crítica
estética” (HABERMAS, 1985, p. 16). E também nesse domínio, poder-se-
ia acrescentar, mais do que em qualquer outro, que a referida ocorrência
continuada de tentativas diversas de afirmação/determinação de si a partir
da negação do outro torna-se especialmente evidente.
Dir-se-ia que a caracterização estendida da “modernidade
crítica” como época na qual a busca pelo fundamento autoinstituidor e
210
autolegitimador da crítica de arte e de literatura traduz-se numa progressiva

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 210 21/03/16 14:11


emergência de contrarrespostas à subjetivação radical da estética no âmbito
da modernidade tripartida kantiana pressupõe uma exterioridade, ou
melhor, já que se trata de tempo, uma posterioridade em relação ao estado
de coisas aí caracterizado: daí a pergunta pelo que caracterizaria, afinal,
essa posterioridade diante da problemática da fundamentação da crítica
estético-literária. Estaríamos, por acaso, nesse sentido, imersos em algo
como uma pós-modernidade crítica, e o que distinguiria, afinal, essa nova
conjuntura da anterior?
Há três décadas Gianni Vattimo anunciava o “fim da modernidade”
como época “dominada pela ideia da história do pensamento como
progressiva ‘iluminação’, que se desenvolve na base de uma sempre mais
plena apropriação e reapropriação dos ‘fundamentos’” (VATTIMO, 1985,
p. 10, grifo do autor), ao mesmo tempo que destacava a contradição inerente
a “todo discurso sobre a pós-modernidade”, na medida em que:

Dizer, com efeito, que estamos num momento posterior em relação


à modernidade e conferir a esse fato um significado de algum modo
decisivo pressupõe a aceitação daquilo que mais especificamente
caracteriza o ponto de vista da modernidade, a ideia de história, com
seus corolários, a ideia de progresso e a de superação. (VATTIMO,
1985, p. 10).

Assim: “A pura e simples consciência – ou pretensão – de representar


uma novidade na história [...] colocaria de fato o pós-moderno na linha
da modernidade, na qual domina a categoria de novidade e de superação”
(VATTIMO, 1985, p. 12). Isso mudaria, contudo, segundo o autor, se se
reconhecesse, como ele próprio sugere, o pós-moderno

9 – Da teoria como resposta


[...] não apenas como novidade em relação ao moderno, mas
também como dissolução da categoria do novo, como experiência
de ‘fim da história’, mais do que como o apresentar-se de um estágio
diverso, mais avançado ou mais retrógrado, não importa, da própria
história. (VATTIMO, 1985, p. 11, grifo do autor).

Ao evocar e esboçar, ele próprio, “uma imagem da existência


nessas novas condições de não historicidade, ou, melhor ainda, de pós-
historicidade” (VATTIMO, 1985, p. 14), Vattimo chamava a atenção para
“uma verdadeira dissolução da história na prática atual, e na consciência 211

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 211 21/03/16 14:11


metodológica, da historiografia” (VATTIMO, 1985, p. 16), tomando-a, a
tal “dissolução da história”, como “a característica que mais claramente
distingue a história contemporânea da história ‘moderna’” (VATTIMO,
1985, p. 17, grifo do autor), a contemporaneidade fixando-se, então,
como a “época na qual, enquanto o aperfeiçoamento dos instrumentos
de reunião e transmissão da informação tornaram possível realizar uma
‘história universal’, precisamente esta tornou-se impossível” (VATTIMO,
1985, p. 17-18, grifo do autor). Um olhar atento, contudo, para o domínio
historiográfico que aqui nos interessa de perto, o da historiografia da
crítica, desautorizaria de imediato essa polarização simplista entre uma
historiografia “moderna”, de cunho propriamente “histórico”, e uma
historiografia “contemporânea”, de cunho “não histórico”/“pós-histórico”.
Pensemos, quanto a isso, na compreensão da “modernidade crítica”
a que aqui se chegou, a saber, de acordo com o acima delineado, como
época na qual a busca pelo fundamento autoinstituidor e autolegitimador
da crítica de arte e de literatura traduz-se numa progressiva emergência de
contrarrespostas à subjetivação radical da estética no âmbito da modernidade
tripartida kantiana; pensemos, então, no quanto essa compreensão se
aproxima da caracterização que Vattimo faz da modernidade como época
que, assombrada pela questão do fundamento, “se desenvolve na base de
uma sempre mais plena apropriação e reapropriação dos ‘fundamentos’”,
para, então, constatarmos: essa compreensão, reveladora da historicidade
constitutiva da moderna teoria (da crítica) literária, não é possibilitada –
mas antes recalcada – pela moderna historiografia da crítica. E o exemplo
privilegiado quanto a isso – dir-se-ia: o paradigma – é, uma vez mais, a obra
de René Wellek, mais especificamente sua monumental obra historiográfica:
A History of Modern Criticism, em oito volumes (1955-1992).
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Na History wellekiana, a chamada “crítica moderna” desenrola-se


cronologicamente ao longo dos cinco grandes períodos divisados pelo
autor – (1) “O fim do século XVIII”, (2) “A era romântica”, (3) “A era da
transição”, (4) “O fim do século XIX”, (5) “O século XX” –, sob a forma
de biografias intelectuais de seus principais protagonistas – de Voltaire
aos grandes críticos europeus e americanos do século XX –, ao modo de
um vasto painel ou galeria. A História da Crítica assim concebida só se
tornará compreensível, explica-nos Wellek, à luz da “moderna teoria da
212 literatura”, na verdade, à luz da própria teoria wellekiana da literatura, já que

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 212 21/03/16 14:11


não é outro livro senão sua célebre Theory of Literature que se encontra na
base da composição da History. No prefácio, de 1962, à terceira edição de
Theory, Wellek admite, com efeito, que “minha History of Modern Criticism
esforça-se por dar suporte à posição teórica aqui delineada, assim como,
por sua vez, ela recebe [draws] critérios e valores da Theory of Literature”
(WELLEK; WARREN, 1984, p. 11). Bem entendido, se Wellek faz derivar
de sua Theory os “critérios e valores” que presidem sua History, ele converte
arbitrariamente sua própria doutrina crítica em baliza meta-histórica a
partir da qual se julgar as demais doutrinas que compõem a história da
crítica, bem como em telos do próprio percurso então narrado. Isso equivale
a subsumir a história na teoria, reduzindo a History a mero desdobramento
da Theory.
Uma tal prática historiográfica “moderna”, no mesmo gesto, pois,
em que elabora um “grande relato”, tipicamente “moderno”, da “História da
Crítica Moderna”, recalca, ao invés de revelar, a historicidade constitutiva da
teoria (da crítica) literária no âmbito da modernidade tripartida kantiana
– historicidade essa que só se vê revelada, em contrapartida, por força
de um gesto historiográfico absolutamente contemporâneo como aquele
acima performado a partir da pergunta pelo ter lugar da teoria literária.
Digo absolutamente contemporâneo porque tal gesto não saberia nunca,
não poderia nunca se converter no tipo de “História Pós-Moderna” (“Não
Histórica”, “Pós-Histórica”) hipostasiado por Vattimo, à guisa de uma nova
modalidade historiográfica, apontando, antes, para uma historio-grafia
jamais concluída, sempre por vir, em função de uma vigília permanente em
relação ao constante movimento de institucionalização e naturalização dos
procedimentos de leitura crítica sob a forma de uma determinada teoria

9 – Da teoria como resposta


literária; em função, pois, de um interminável perguntar pelo ter lugar da
teoria literária.
Ora, não se deixaria captar aí, justamente aí, nesse “interminável
perguntar pelo ter lugar da teoria literária”, o verdadeiro lugar da teoria
literária na contemporaneidade? Lugar este apenas concebível, é certo, por
tudo o que foi dito, nos termos de um não lugar?
Poder-se-ia conceber, a partir disso, desafio maior e mais urgente do
que o de saber conciliar esse não lugar contemporâneo da teoria literária
com o tradicional lugar institucional da teoria literária em nossos cursos
de Letras? 213

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 213 21/03/16 14:11


Referências
COUTINHO, Afrânio. Da crítica e da nova crítica. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1957.
COUTINHO, Afrânio. Notas de teoria literária. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1976.
CULLER, Jonathan. Literary criticism and the American University. In: CULLER,
Jonathan. Framing the sign: criticism and its institutions. London: University of
Oklahoma Press, 1988. p. 3-40.
GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode: Grundzüge einer
philosophischen Hermeneutik. (Gesammelte Werke. Band 1.) Tübingen: Mohr
Siebeck, 1999 [1960]. [Ed. bras.: GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método:
traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. 10. ed. Trad. Flávio Paulo
Meurer. Petrópolis: Vozes, 2008.]
HABERMAS, Jürgen. Der philosophische Diskurs der Moderne: zwölf Vorlesungen.
Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1985. [Ed. bras.: HABERMAS, Jürgen. O discurso
filosófico da modernidade: doze lições. Trad. de Luiz Sérgio Repa. São Paulo:
Martins Fontes, 2000.]
HABERMAS, Jürgen. Moralbewußtsein und kommunikatives Handeln. Frankfurt:
Suhrkamp, 1983. [Ed. bras.: HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir
comunicativo. Trad. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,
1989.]
KANT, Immanuel. Kritik der reinen Vernunft. Frankfurt: Suhrkamp, 1974a [1781].
[Ed. bras.: KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Trad. de Valério Rohden e
Udo B. Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 1999.]
KANT, Immanuel. Kritik der Urteilskraft. Frankfurt: Suhrkamp, 1974b [1790].
[Ed. bras.: KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Trad. de Valério
Rohden. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.]
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

LIMA, Luiz Costa. O labirinto e a esfinge. In: COSTA LIMA, Luiz. (Org.). Teoria
da literatura em suas fontes. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975. p. 11-41.
ROCHA, João Cezar de Castro. Crítica literária: em busca do tempo perdido?
Chapecó: Argos, 2011.
VATTIMO, Gianni. La fine della modernità: nichilismo ed ermeneutica nella
cultura post-moderna. Milano: Garzanti, 1985. [Ed. bras.: VATTIMO, Gianni.
O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. Trad.
Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1996.]
WELLEK, René. A History of Modern Criticism: 1750-1950. London: Yale
214
University Press, 1955-1992. 8 v.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 214 21/03/16 14:11


WELLEK, René. Immanuel Kant’s Aesthetics and Criticism. In: WELLEK, René.
Discriminations: further concepts of criticism. London: Yale University Press,
1970. p. 122-142.
WELLEK, René; WARREN, Austin. Theory of literature. 3. ed. rev. New York:
Harvest/HBJ, 1984 [1949]. [Ed. bras.: WELLEK, René; WARREN, Austin. Teoria
da literatura e metodologia dos estudos literários. Trad. Luis Carlos Borges. São
Paulo: Martins Fontes, 2003.]

9 – Da teoria como resposta

215

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 215 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 216 21/03/16 14:11
10

Teorizar é metaforizar

Eneida Maria de Souza

Como professora de Teoria da Literatura há muitos anos, devo


começar este ensaio afirmando que o lugar (não lugar) da disciplina no meio
acadêmico continua como sempre esteve: paradoxal, combativo, ousado,
vanguardista e aberto às transformações e mudanças históricas. Defendi
sempre essa opinião quando o tema da discussão versava sobre os perigos de
estarem as disciplinas perdendo sua identidade, da urgência em se valorizar
o objeto literatura perante os desvios disciplinares, uma vez que o conceito
de autonomia estava sendo negligenciado pelos demais. Como se percebe,
o que entraria como componente paradoxal seria o instável lugar atribuído
à literatura e ao valor mutante de seus princípios. O discurso teórico, diante
da diluição de fronteiras disciplinares e da consideração da literatura como
este estranho objeto, deveria optar pela flexibilidade e o deslocamento
interpretativos. Perde-se tanto o lugar, antes conferido à literatura, quanto
a teoria, por ambas não ocuparem mais o espaço hegemônico dos saberes.
Mas restam, como produto das transformações sofridas, a ousadia e o
combate ao pensamento conservador e à prisão a determinados princípios
de crítica literária centrados na pureza e autonomia dos objetos de análise.
O estatuto paradoxal da teoria – e da literatura – investe-se contra o
raciocínio binário e exclusivo das definições, dilui a separação entre polos
considerados distintos, como ficção e teoria, arte e ciência, obra e vida, com
vistas a redimensioná-los e repensá-los. A proposta teórica defendida por
grande parte de estudiosos não se restringe a escolher um objeto único,

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 217 21/03/16 14:11


mas se dispersa em outros de igual importância para o estabelecimento de
redes comparativas e interdisciplinares. Na seleção de práticas discursivas,
vale o entrecruzamento de textos que acrescentam a compreensão mútua,
seja pela diversidade, seja pela semelhança. O gesto de teorizar alimenta-se
de outros, como o de ficcionalizar, vivenciar e metaforizar. Nessa operação
intervalar, respeita-se a distinção entre os discursos, sem separá-los ou
confundi-los completamente. Como então admitir que o pensamento
teórico componha, com os demais, um amálgama compósito e libertador?
Como desvencilhar a literatura – ou outra disciplina – da teoria, se ambas
se completam por meio do diálogo ancestral com o ato de pensar? Se
pensar, como queria Deleuze, é dobrar, é experimentar, é problematizar,
instalamos-nos nesse barco à deriva, à procura de saídas e de possíveis
respostas para indagações que dificilmente serão satisfatórias.
A Teoria da Literatura sempre se vestiu com as roupas da
vanguarda, principalmente em alguns departamentos de Letras no Brasil
pertencentes a instituições avançadas em termos de abertura interpretativa.
O pensamento de vanguarda se iniciou com a retomada do discurso filosófico
francês no final da década de 1960, o que lhe conferiu o convívio da crítica
literária com reflexões que ampliaram o campo restrito dos procedimentos
enunciativos. Na proliferação de cursos de pós-graduação no país, a teoria
recebeu dimensão plural, transformando-se em múltiplas teorias, graças ao
intercâmbio com a filosofia, a antropologia, a psicanálise, a semiologia e a
sociologia. A abertura interdisciplinar culmina com a teoria comparatista
e a crítica cultural, implementadas no decorrer dos anos 1970. Diante da
complexa relação entre teorias e os distintos discursos, sejam eles literários
ou artísticos, três perguntas poderão ser feitas, com o objetivo de esclarecer
o casamento ou o divórcio praticado entre eles. a) Valorizar as teorias,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

no sentido de acreditar no seu aspecto performático e inclusivo com os


discursos a serem analisados? b) Combatê-las, utilizando-se a premissa mil
vezes repetida, de que a teoria mata a literatura? c) Desmerecer as teorias,
ao se afirmar que é a literatura quem as concebe no seu interior?
a) Na encruzilhada dessas questões, é preciso abrir o debate em torno
da prática teórica de vários grupos de acadêmicos – pertencentes ou não a
gerações diferentes – os quais se empenham em levar adiante a experiência
pós-estruturalista e não se deixam seduzir pelo mito criado em torno da
218 crise das teorias. Se esses grupos se colocam como divulgadores de um

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 218 21/03/16 14:11


pensamento filosófico/antropológico europeu ainda em plena atualização –
como Giorgio Agamben, Georges Didi-Huberman, Roberto Esposito, Jean-
Luc Nancy, Jacques Rancière, Bruno Latour, Lacoue-Labarthe, Antonio
Negri e Michael Hardt – seguidores de Walter Benjamin –, Gilles Deleuze
e Félix Guattari, Jacques Derrida e Michel Foucault, conclui-se ter a Teoria
da Literatura se enriquecido com o diálogo entre outros discursos. Além
de continuar revigorada e atuante. A figura icônica de Roland Barthes
encontra-se também disseminada nas teorias literárias recentes sobre
análise textual, centralizadas nos procedimentos de escrita autoficcional,
autobiográfica e biográfica, o que confirma a revisão de abordagens sobre
o assunto, expandindo-se para outras áreas das humanidades. Na esteira
das teorias feministas e pós-colonialistas, o mundo acadêmico brasileiro se
apropriou e ainda se apropria da reflexão de pensadores que rompem com a
hegemonia teórica europeia, por se inserirem numa proposta política mais
agressiva e desconstrutora. Homi Bhabha, Stuart Hall, Walter Mignolo,
Gayatri Spivak, entre outros, integram as estantes da crítica dos últimos
trinta anos, razão pela qual os rumos da teoria se transformaram e tendem
a embaralhar cada vez mais a suposta pureza de um pensamento único.
Guardadas as devidas ressalvas, não resta dúvida que a crítica comparada
e a cultural resultam da ampliação e abertura dos estudos de Teoria da
Literatura, considerando ter sido ela que rompeu, na prática, os limites
territoriais das disciplinas e contribuiu para o questionamento das regras
impostas pelos distintos espaços do saber.
A proliferação de tendências, de correntes críticas e de posições
teóricas diversificadas tem sido combatida com argumentos sobre o fim
ou a crise das teorias, acusadas pela sua indefinição e precariedade. Seria
ingênuo apregoar, nos dias atuais, a diversidade teórica como fator negativo

10 – Teorizar é metaforizar
de sua prática, pois é graças a essa heterogeneidade de ideias e pontos de vista
que os diferentes perfis acadêmicos são capazes de dialogar em regime de
igualdade com seus pares. A abordagem da literatura tem se apoderado da
variedade de enfoques e metodologias com vistas à abertura interpretativa
e à impossibilidade de defesa desta ou daquela linha de pensamento. Esta
posição se afasta de preconceitos relativos à falta de controle do exercício
das críticas comparada e cultural, denunciadas pela confusão e o vale-tudo
analítico. Não se postula o retorno de métodos e preceitos judicativos nesta
avaliação, mas se entende que o rigor e a seriedade das distintas propostas
deverão ser reconhecidos pela comunidade acadêmica. 219

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 219 21/03/16 14:11


b) A teoria estaria matando a literatura? Seria este momento
caracterizado pela babel de teorias, pela superposição do aparato
interpretativo diante do texto propriamente dito? A suposta morte da
literatura seria causada pelo excesso de exposição argumentativa e pela
predominância da sistematização dos dados em detrimento da paráfrase
e da resenha textuais? Não se mata a literatura com a espada das inserções
reflexivas, salvo se a profusão de citações e de referências encubra a
interpretação e se revele inócua pelo uso de falsa erudição. Com base nessas
premissas, seria recomendável evitar a exploração apenas ilustrativa dos
conceitos, sem a devida justificativa de seu emprego, uma vez desprovido
de contextualização. A utilização aleatória dos conceitos e o desrespeito
quanto às razões históricas de sua produção atuam como forte motivo
para o ataque à crítica e à descrença no trabalho exercido pelo pensamento
teórico. Como antídoto a essa situação, o excesso de citações deveria ser
retirado, operando-se com cautela o registro teórico, de modo a filtrá-lo e
submetê-lo à interpretação mais singularizada. A revitalização da literatura
seria, nesses termos, provocada pela justa apropriação do exercício teórico,
no qual a prática da noção de sobrevivência incentiva o diálogo entre
ficção e teoria, desde que a superposição de ambas as categorias resulte
na revitalização de uma por meio de outra. O sopro teórico irrompe no
discurso literário e vice-versa, concedendo-lhes inteiro vigor, por meio da
operação intertextual, em que se subverte a primazia de um registro em
relação a outro.
c) Não se trata exatamente de desmerecer o lugar da teoria, quando
se postula que o discurso literário teria a função de igualmente ser produtor
de sua intencionalidade teórica. A incidência na literatura contemporânea
de escritores-críticos e o consequente estatuto híbrido de sua narrativa –
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

entre ficção e ensaio – tornam evidente o cruzamento dessas instâncias de


saber, como desmitifica a separação preconizada pelo senso comum entre
pensamento e estética, reflexão e prazer. Embora a proposta literária do
escritor-crítico tenha se voltado para a indagação sobre o ato de escrever e
dos encontros ficcionais entre escritores – e por este motivo seja criticado
pelos adeptos da literatura como fruição –, é ainda por esta via que grande
parte dos argumentos teóricos contemporâneos encontre aí rentável fonte
conceitual. Discutir, por exemplo, no espaço da crítica acadêmica, gêneros
220 narrativos tão explorados pela literatura atual, tais como os de biografia,

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 220 21/03/16 14:11


autobiografia, autoficção ou memória, torna-se mais producente recorrer a
obras em que são embaralhados e questionados tais procedimentos.
A leitura de obras literárias recentes como as de Silviano Santiago
(Mil rosas roubadas, 2014), J. M. Coetzee (Verão, 2009), Vila-Matas
(Doutor Pasavento, 2002) entre outras narrativas, permite a revisão de
categorias próprias a esses gêneros, por se insurgirem, ironicamente,
contra o esquematismo e as classificações praticadas pela crítica. Resulta
daí a necessidade de flexibilização dos conceitos, em virtude de seu estatuto
precário e das transformações sofridas ao longo do tempo. Desconstruir os
lugares-comuns da crítica não significa negá-los, mas apontar os riscos de
exaustão interpretativa e da sujeição a regras e métodos. O teor irônico da
obra metacrítica e metapoética incita o leitor a desconfiar da palavra erigida
como verdade biográfica ou autobiográfica, considerando a opacidade e
complexidade do pacto ficcional. A prática literária desempenha o papel de
experimentação e performance do aparato teórico, por realizar, pelo jogo
textual e narrativo, a mise-en-scène das categorias e a dramatização do gesto
criativo. O deslocamento mútuo dos lugares enunciativos coloca a literatura
como parceira da reflexão teórica, não havendo razão em considerar os
discursos com base no raciocínio opositivo, mas em estabelecer pontes e
semelhanças entre eles, embora sejam constituídos de forma distinta.
Por outro lado, não é de estranhar que o descrédito quanto à teori-
zação – sem que se perceba que teorizar é uma forma de conhecer, de
revitalizar o saber – ignora ser o exercício interpretativo independente
da natureza de cada obra. Qualquer gesto de leitura indicia o grau de
percepção e prazer de quem o exerce, aliado à racionalidade e à satisfação
teórica nascidas desta operação. Nesses termos, a distinção entre emoção
e razão, prazer estético e prazer racional merece ser reformulada, com o
10 – Teorizar é metaforizar
intuito de prosseguir no debate sobre os instigantes e deslocados lugares e
não lugares ocupados pela teoria na sua relação com a literatura e outras
artes. Jean-François Lyotard e Lévi-Strauss, em épocas e campos distintos,
teorizaram (e praticaram) a arte de adquirir novos conjuntos a partir do
arranjo de materiais preexistentes, resultando na conceituação dos saberes
contemporâneo como bricolagem. A união do experimental, do empírico e
do artístico, utilizando-se da técnica moderna da colagem, da justaposição
e da descontinuidade narrativa foi um dos traços tanto da construção
de saberes na perspectiva filosófica de Lyotard quanto na metodologia 221

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 221 21/03/16 14:11


estruturalista lévi-straussiana. O biógrafo inglês de Lévi-Strauss, Patrick
Wilcken, concedeu-lhe o título de antropólogo-artista, por ter-se
enriquecido de experiências estéticas, como o surrealismo e a música, e por
ter mantido o diálogo sempre desejado entre arte e ciência. No seu entender,
a importância de Lévi-Strauss para o avanço das ciências humanas no
século XX deveu-se ao exercício de uma prática moderna de bricolagem,
capaz de desconstruir territórios fechados da ciência e de reforçar, no lugar
de enfraquecer, o papel reservado ao cultivo da sensibilidade.

O artista em seu íntimo encontraria expressão não só na forma


de escrever, mas nas ideias, na maneira de montar, como uma
colagem, a profusão de materiais etnográficos que tinha acumulado.
Sendo Lévi-Strauss um analista da forma, sua obra era um hino
às proporções; se fosse um quadro, seria uma das telas de Poussin
que tanto amava, uma composição de equilíbrio clássico sem
revelar tensão ou esforço. A obra que deixava era uma espécie de
pensée sauvage da academia; percorrendo as bibliotecas, ele colhia
e misturava elementos que então processava, resultando em ideias
admiráveis, embora especulativas: sociedades quentes e frias,
bricolage, a ciência do concreto, além das belas e estranhas imagens
nas oposições criadas na tetralogia Mitológicas. (WILCKEN, 2011,
p. 329, grifo do autor).

10.1 A sobrevivência das teorias


Se o raciocínio desenvolvido até o momento se pautou pela revisão dos
não lugares teóricos e da interligação entre teoria e ficção, arte e vida, seria
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

pertinente questionar o conceito de sobrevida como estratégia conceitual


para a compreensão dos deslocamentos sofridos pelas teorias. Em texto
anterior (SOUZA, 2014), ressalto a leitura que Georges Didi-Huberman
realiza a partir da noção de Nachleben, inaugurada por Warburg, quando
admite estar o passado constantemente emergindo no presente, por não ser
mais entendido como letra morta.1 Com base nesse princípio, a revisão dos
1
“Rompida a cadeia linear na recepção desses conceitos, elimina-se a certeza de o que vem
depois seria influenciado pelo que veio antes, ou que o progresso cultural dependeria de novas
222 descobertas do presente. A crítica literária há muito tem se desvencilhado dos preconceitos de
ordem evolutiva, por não considerar a morte das teorias e seu desaparecimento como condição

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 222 21/03/16 14:11


lugares teóricos deveria obedecer aos critérios de simultaneidade temporal,
sem levar em conta o início e o fim dos acontecimentos, embaralhando e
anacronizando passado e futuro. Caem por terra reflexões atribuídas ao
discurso do senso comum da crítica, tais como “a crise das teorias”, “o futuro
das teorias”, “o fim das teorias”, “depois das teorias”, uma vez que os saberes
se desvinculam das ideias de início e de fim, pela convivência constante com
o sentido de intervalo e de entre-lugar. A leitura proposta impede deduções
apressadas sobre a substituição desta ou daquela corrente analítica por
outra supostamente mais eficaz e avançada, ou pelo preconceito perante a
acusação de inoperância das demais posições. O conceito de sobrevida atua
como saída espectral para toda a ideologia criada em torno dos fins dos
discursos, da lógica causalista dos acontecimentos e da morte das ideias.
A prisão à historiografia e ao cânone teórico impede o reconhecimento de
valores considerados marginais e inoperantes da crítica.
A crítica biográfica praticada por mim durante os últimos anos
possibilitou a revisão das associações entre arte/vida, teoria/ficção e
teoria/vida. A congruência/separação entre os dois polos se explica pelo
gesto de estar a relação comandada pelo sentimento ético promovido pela
experiência vivenciada tanto na prática teórica quanto vital. Sem desvincular
razão e emoção, o que se propõe é a defesa de uma coerência – mesmo
que sujeita a erros e deslizes – entre o engajamento à causa teórica e seu
reflexo nas atitudes e comportamentos. Os exageros cometidos pelas ações
do politicamente correto aplicadas às teorias ou à literatura são tributários
da exigência de lugares enunciativos fixos e de posições naturalizadas
quanto à semelhança entre discurso e ação. Não se trata de conceber este
engajamento como sinônimo de transparência comportamental, mas de
acreditar nas adesões teóricas como escolha dos sujeitos e, por este motivo,
10 – Teorizar é metaforizar
vinculadas a condutas éticas e morais.
Nesta breve incursão sobre os lugares/não lugares da Teoria
da Literatura, gostaria de concluir reafirmando a necessidade de ser
incentivado o desejo de criar quando se trata do gesto crítico, aceitando
os desafios impostos pela atualização e experimentação de determinados
caminhos teóricos. As surpresas, os erros e os inesperados empecilhos

de seu abandono, desuso ou finitude. Essa posição investe na releitura do presente como meio de
apontar o que ainda merece ser reintroduzido como reflexão na contemporaneidade” (SOUZA, 223
2014, p. 114-115).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 223 21/03/16 14:11


entram como componente ativo da prática analítica e do exercício vigoroso
do pensamento. Nômade e irrequieto, esse devir teórico abre mão do
espírito niilista e apocalíptico do fim e da crise das teorias, ao se entregar de
forma amadurecida ao debate de ideias, comportamento bastante raro no
meio acadêmico. Que sejam cada vez mais frequente a troca e as discussões
de ordem literária e cultural entre os novos e antigos pesquisadores da
disciplina, cujos lugares enunciativos e de legitimação continuam a se
impor de modo paradoxal, combativo e segundo propostas vanguardistas.
A sobrevivência das formas artísticas e das construções teóricas justifica-se
pela convivência entre experiências nas quais se ignoram o culto de valores
ultrapassados e o desprezo pelo passado como indigno de ser evocado. Na
vanguarda das mudanças realizadas neste intervalo, a vivência do devir/
presente permite a revisita aos conceitos, às vezes abandonados pela fúria
teórica da novidade e do apressado esquecimento dos resquícios e traços
de cultura.

Referências
COETZEE, J. M. Verão. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
SANTIAGO, Silviano. Mil rosas roubadas. São Paulo: Companhia das Letras,
2014.
SOUZA, Eneida Maria de. Ficções impuras. In: SOUZA, E. M.; LYSARDO-DIAS,
D.; BRAGANÇA, G. M. (Org.). Sobrevivência e devir da leitura. Belo Horizonte:
Autêntica, 2014. p. 111-118.
VILA-MATAS, Enrique. Doutor Pasavento. São Paulo: Cosac Naify, 2002.
WILCKEN, Patrick. Claude Lévi-Strauss: o poeta no laboratório. Trad. Denise
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

Botmann. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

224

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 224 21/03/16 14:11


IV Literatura
pós-Teoria

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 225 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 226 21/03/16 14:11
11

Rastros Autorais da Teoria:


o caso Bartleby

André Cechinel

Como um exemplo dos sucessivos ataques à passagem da teoria ou


da crítica literária para aquilo que se convencionou chamar simplesmente
de Teoria, com T maiúsculo, o livro Theory’s empire: an anthology of dissent,
organizado por Daphne Patai e Will H. Corral (2005), inclui, em meio
aos seus 47 capítulos, o texto de Clara Claiborne Park intitulado “Author!
Author! Reconstructing Roland Barthes”, publicado pela primeira vez em
1990. Em linhas gerais, a autora sustenta a curiosa tese de que, para ser
capaz de associar a figura do autor àquela de um Deus que controla os
sentidos do texto, tal como Barthes o faz, você precisa ser francês. Segundo
ela, no contexto do uso da língua inglesa, nenhuma criança é ensinada
a pensar no Autor como Deus, ou mesmo como uma Autoridade: “para
nós, como para Shakespeare, a linguagem tem sido um produto não de
Autores, mas de pessoas que a utilizam” (PARK, 2005, p. 321). Na França,
por outro lado, o laço entre Autores e Autoridade, entre linguagem e poder,
ela nos informa, já estava posto bem antes das formulações teóricas de
Barthes, Derrida, Foucault e seus pares; esse seria, portanto, um problema
específico da formação intelectual francesa, longe de apresentar qualquer
correspondente imediato em um outro contexto. Resulta desse cenário o
assombro principal da autora:

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 227 21/03/16 14:11


Por isso, é curioso observar que não foi na França que a obra
de Barthes adquiriu o seu maior poder. Lá, libertar o texto das
estruturas do decoro, da consistência e da lógica poderia ser visto
como um dever estimulante. [...] O que precisa ser investigado é
por que essas preocupações linguísticas essencialmente francesas
encontraram uma acolhida tão calorosa em uma cultura educacional
tão diferente, ou mesmo antitética, se comparada àquela da França.
(PARK, 2005, p. 324).

A resposta para a questão lançada por Park envolveria, entre outras


coisas, o conhecido argumento segundo o qual, exatamente naquele espaço
aberto devido à suposta morte ou dissolução da função autoral, oculta-se
agora a figura da Teoria, exercendo um controle textual semelhante àquele
criticado por Barthes em seus ensaios. A rigor, o próprio Barthes (1977;
1987; 2003) não deixaria de se colocar como um Autor, um “eu” totalizante,
em livros posteriores como O prazer do texto, Roland Barthes por Roland
Barthes e Fragmentos de um discurso amoroso: “nada de impessoal nesses
últimos livros, exceto o uso da terceira pessoa; eles estão repletos das
sensibilidades altamente individuais do autor, seus gostos e desgostos”
(PARK, 2005, p. 328). E assim, como quem resolve o impasse, a autora
anuncia: “ele desejava o autor. E nós também” (PARK, 2005, p. 328). De
resto, embora o problema do Autor seja, de saída, especificamente francês,
mesmo um crítico como Barthes por fim cede aos encantos do lugar autoral.
Por que haveríamos nós, então, de lhe oferecer resistência?
O texto “Author! Author! Reconstructing Roland Barthes” constitui,
em muitas de suas hipóteses e conclusões, um bom ponto de partida para
compreendermos não só o tom de incredulidade que rege o livro Theory’s
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

empire, mas também aquilo que por vezes ocorre em críticas que se
voltam para a chamada Teoria: ao responsabilizar alguns poucos nomes
pelo aparente fracasso do novo “império teórico” – os culpados são, via
de regra, Barthes, Foucault, Derrida, Paul de Man e J. Hillis Miller –, as
análises acabam por projetar leituras reducionistas dos fenômenos que
buscam apreender. Conforme Fabio Akcelrud Durão demonstra no texto
“Giros em falso no debate da Teoria”, algumas das críticas expostas no
livro de Patai e Corral são difíceis de refutar; “por outro lado, várias outras
projetam uma imagem estereotipada e errônea da Teoria, avessa àquilo que
228 ela possui de melhor” (DURÃO, 2008, p. 65). No que tange ao texto de

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 228 21/03/16 14:11


Clara Claiborne Park, em particular, as posições de Barthes são reduzidas a
uma gramática mínima para acomodar a conclusão de que o Autor precisa
ser reconstruído, sinalizando, pois, o retorno a um passado idílico em que
teoria e crítica ainda eram potentes.
Entre os elementos dessa gramática imprecisa que o texto em pauta
formula, cabe destacar tanto a leitura insuficiente do significado da função
autoral em Barthes quanto a sugestão apressada de que a discussão em torno
do controle interpretativo exercido pelo Autor nunca foi uma preocupação
maior entre os críticos de língua inglesa. Sobre o primeiro ponto, se Park
estabelece uma equivalência absoluta entre Autor e indivíduo biográfico,
Barthes, por sua vez, esclarece que dar ao texto um Autor, para além de
qualquer leitura meramente biográfica, é lhe impor “um travão, é provê-lo
de um significado último, é fechar a escritura” (BARTHES, 2004, p. 63).
Dessa forma, o papel de Autor como ponto de convergência interpretativo
pode ser desempenhado não só pela imposição de sentidos advindos da
“pessoa” autoral, mas também daquilo que o ensaísta francês classifica
como suas hipóstases, sua “substância”: “a sociedade, a história, a psiquê, a
liberdade” (BARTHES, 2004, p. 63). Com efeito, a própria crítica literária
pode ocupar uma posição Autoral, segundo esse cálculo. Embora pareça
evidente, cabe repeti-lo: para Barthes, destronar o Autor não significa deixar
de lado apenas a interpretação de ordem biográfica, mas sim restituir o
texto a uma linguagem verdadeiramente sua, livre de estruturas de controle
preconcebidas – “indivíduo autor”, “gêneros literários”, “escolas literárias”
etc. – que detêm o seu movimento constitutivo.
Quanto ao comentário de que o Autor nunca se pôs como obstáculo

11 – Rastros Autorais da Teoria


interpretativo para os críticos de língua inglesa, bastaria citar passagens de
ensaios célebres sobre o tema para indicar sua vagueza: “a crítica honesta
e a avaliação sensível dirigem-se, não ao poeta, mas à poesia” (ELIOT,
1989, p. 42); ou então, “não é em suas emoções pessoais, as emoções
induzidas por episódios particulares de sua vida, que o poeta se torna, de
algum modo, notável ou interessante” (ELIOT, 1989, p. 46) – “Tradição e
talento individual” (1919); “argumentamos que o desígnio ou a intenção
do autor não é nem acessível nem desejável como padrão para julgar-se
o êxito de uma obra de arte literária” (WIMSATT; BEARDSLEY, 2002,
p. 641); ou ainda, “há [...] o risco de se confundirem os estudos biográficos
e os poéticos, havendo o perigo de tomar-se o biográfico pelo poético” 229

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 229 21/03/16 14:11


(WIMSATT; BEARDSLEY, 2002, p. 647) – “A falácia intencional” (1946).
O interessante é que o capítulo de Park de fato alude aos ensaios de Eliot
e de Wimsatt e Beardsley, porém, ao fazê-lo, abandona o seu ponto de
partida para lançar uma disputa em termos de precedência temporal, ou
melhor, de “origem”: “Barthes questiona a intencionalidade do Autor;
‘a falácia intencional’ atingiu a crítica americana em 1946. Os new critics
nos afastaram do poeta em direção ao Poema Em Si? Em 1963, Barthes
também o fez” (PARK, 2005, p. 325). Se antes o Autor não estava presente
na pauta de preocupações dos críticos de língua inglesa, agora não só parece
estar como parece ter estado já há muito tempo, sem que Barthes os tenha
reconhecido como seus verdadeiros antecessores.
Ora, tudo isso significa, então, que o texto de Clara Claiborne Park em
nada acrescenta à questão proposta por Theory’s empire acerca das supostas
contradições da Teoria? Muito embora a autora repetidas vezes erre o alvo
em suas críticas, há algo no texto “Author! Author! Reconstructing Roland
Barthes” que, mais uma vez, pode ser visto como sintoma das demais leituras
presentes no livro de Patai e Corral, a saber, a sensação de que, nas operações
da Teoria, não raro vemos circular um conteúdo que se apresenta, por assim
dizer, “fora de lugar”. Logicamente, não se trata aqui de um “fora de lugar”
capaz de atuar no campo das diferenças, tal como deseja a Teoria, mas sim um
desvio contextual que, reencenado como tal, engendra um novo formalismo,
ou melhor, uma gramática teórica mais perniciosa que as anteriores, pois
oculta por detrás de si uma faceta pretensamente política. Partindo dessa
intuição primeira, que resulta da leitura do texto de Park e ronda os demais
ensaios de Theory’s empire, o presente capítulo propõe-se a explorar um caso
particular em que as contribuições da Teoria mostram-se a serviço de um
emprego crítico gramaticalizante e avesso às próprias construções que a
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

princípio lhe servem de base. Chamemos o exemplo de “caso Bartleby”, e


seus efeitos de “rastros Autorais da Teoria”, indícios tanto da atualidade do
problema formulado por Barthes quanto da permanente reconfiguração ou
“reconstrução” dos esquemas Autorais de controle do texto.

11.1 A fórmula como potência


Se quando de sua publicação, “Bartleby, o escrivão” (1853), de
230 Herman Melville, não chamou a atenção da crítica, é bem verdade que, nas

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 230 21/03/16 14:11


últimas décadas, as marcas do conto passaram a se confundir com aquelas
da sua recepção por parte de muitos dos epígonos da Teoria. O enredo,
portanto, já não nos é estranho; pelo contrário, o desafio consiste em
reportar-se a ele sem correr o risco de tomar como seu o campo conceitual
a partir do qual tem sido tratado. Em poucas palavras, a história de Melville
concentra-se nos acontecimentos decorrentes da chegada de Bartleby ao
escritório de um advogado de Wall Street – narrador do conto cujo nome
não nos é revelado – que decide contratá-lo para desempenhar, entre outros
pequenos ofícios, a atividade de copista. De um empregado exemplar,
Bartleby passa gradativamente a “achar melhor não” mais realizar as suas
tarefas, resguardado justamente pelo efeito desregulador de sua frase
[“I would prefer not to”].1 A posição do copista desestabiliza as regras do
escritório, e o poder de contágio de suas palavras é observado inclusive
pelo advogado: “Não sei por que, eu também tinha adquirido o hábito de
usar a expressão ‘acho melhor’, mesmo nas ocasiões menos adequadas”
(MELVILLE, 2005, p. 20). Enfim, a eficácia do “preferir não”, ou “achar
melhor não”, estaria na capacidade (linguística) de deslocar os papéis que
cabem a cada um na relação patrão-empregado, ou ainda, de provocar uma
reapropriação desconfortável da própria expressão, um uso fora de lugar.
E não se pode negar: apesar de sua recepção inicial, o conto é de fato
impregnante. Para além das paredes que organizam a divisão do trabalho
no escritório do advogado, a frase de Bartleby parece ter contaminado
também a atividade intelectual de autores como Maurice Blanchot, Jacques
Derrida, Gilles Deleuze, Jacques Rancière e Giorgio Agamben, apenas para
citar os nomes mais célebres. Dessa forma, como prova posterior do caráter

11 – Rastros Autorais da Teoria


penetrante das palavras do copista, e como uma sorte de reescrita não
literária daquilo que se passa no conto, ao abordar os episódios recontados
pelo advogado, a Teoria reencena paralelamente o dilema de encontrar-se
sob um efeito como que hipnótico do “achar melhor não”, deslocando para
si a constatação consternada do narrador: “Então você também adotou
a expressão”. Mas por onde caminham as análises desses autores? Afora
seu evidente poder de contágio, o que há em Bartleby, o escrivão, afinal

1
Esse efeito desconcertante apresenta-se inclusive como um problema de tradução. A frase-
fórmula “I would prefer not to”, quando traduzida para o português como “acho melhor
não” ou “preferiria não”, perde parte da gramaticalidade excessiva que traz inscrita em si,
pois a ocorrência mais usual e provável da formulação seria, em inglês, “I had rather not” (cf. 231
DELEUZE, 1997, p. 80).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 231 21/03/16 14:11


de contas, que faz do conto um objeto como que incontornável para as
manobras da Teoria?
No texto “Bartleby, ou a fórmula”, que integra o livro Crítica e clínica,
Deleuze sugere que, embora seja gramaticalmente correta, há na frase de
Bartleby uma extravagância e um término abrupto (not to) que, aliados à
sua constante “reiteração e insistência”, conferem a ela “a mesma força, o
mesmo papel que uma fórmula agramatical” (DELEUZE, 1997, p. 80). Essa
“agramaticalidade”, produzida em excesso pela própria literatura – o autor
cita, entre outros, Cummings, Carroll e Kafka –, “é arrasadora, devastadora,
e nada deixa subsistir atrás de si” (DELEUZE, 1997, p. 82). Na verdade, o que
a fórmula arrasa são as convenções da linguagem, a lógica de pressupostos e
referências que a estrutura: “a fórmula ‘desconecta’ as palavras e as coisas, as
palavras e as ações, mas também os atos e as palavras: ela corta a linguagem
de qualquer referência, em conformidade com a vocação absoluta de
Bartleby, ser um homem sem referências” (DELEUZE, 1997, p. 86, grifo do
autor). Liberta de seu procedimento referencial, a linguagem já não mais
captura seus objetos; opera, antes, no sentido de produzir singularidades,
dessemelhanças e desidentificações. A fórmula de Bartleby, ao fazer
desmoronar diante de si o funcionamento lógico da linguagem, institui um
jogo que não pode ser absorvido por regras estáveis, que não se manifesta,
em última instância, como experiência apreensível ou replicável. Talvez
seja por isso que Deleuze inicia seu texto observando que “Bartleby não é
uma metáfora do escritor, nem símbolo de coisa alguma” (DELEUZE, 1997,
p. 80). Para funcionar, a fórmula precisa retirar-se do campo dos símbolos,
metáforas ou referências, entregando-se, quando encerrada sua atividade
corruptora, ao próprio silêncio, ao desaparecimento, seu destino inevitável:
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

O efeito é o mesmo: cavar na língua uma espécie de língua


estrangeira e confrontar toda a linguagem com o silêncio, fazê-la
cair no silêncio. [...] O próprio Bartleby só tinha como saída calar-
se e retirar-se para trás de seu biombo cada vez que pronunciava a
fórmula, até seu silêncio final na prisão. Depois da fórmula não há
mais nada a dizer: ela equivale a um procedimento, supera a sua
aparência de particularidade. (DELEUZE, 1997, p. 85).

Agamben, por sua vez, lê Bartleby como alguém que cessa de


232 desempenhar sua atividade para se colocar como “uma figura extrema do nada

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 232 21/03/16 14:11


de onde procede toda a criação”, alguém que reivindica o “nada como pura,
absoluta potência” (AGAMBEN, 2008, p. 25). No texto intitulado “Bartleby,
ou da contingência” (2008), o filósofo italiano comenta que a fórmula de
Bartleby, para ser potência enquanto tal, deve revelar-se também como uma
potência de não pensar ou fazer algo. Em outras palavras, a reivindicação
da potência tem de significar, ao mesmo tempo, a possibilidade de fazer e
não fazer algo, de pensar e não pensar alguma coisa, ou seja, não é como
força ativa que a potência absoluta se apresenta, mas sim como “aquilo que se
mostra no limiar entre ser e não ser, entre sensível e inteligível, entre palavra
e coisa, não é o abismo incolor do nada, mas o raio luminoso do possível”
(AGAMBEN, 2008, p. 30). A frase de Bartleby não se deixa apreender pelas
operações da ciência ou da razão por atuar em uma zona limítrofe, por não
ser nem uma coisa nem outra, mas a potência de concretização ou não de
ambas; desse modo, o valor de verdade da fórmula não pode ser verificado,
pois é justamente o regime de verdade que é por ela posto em questão. Tal
como no texto de Deleuze, Bartleby aparece, para Agamben, como uma
espécie de homem sem referências, situado no campo das potencialidades:

À experiência de uma tautologia, isto é, de uma proposição que é


impenetrável às condições de verdade, porque é sempre verdadeira
(“o céu é azul ou não azul”), corresponde, em Bartleby, a experiência
do poder ser verdade e, ao mesmo tempo, não verdade de alguma
coisa. Se ninguém sequer se sonha a verificar a fórmula do escrivão,
é porque o experimento sem verdade não diz respeito ao ser em acto
o que quer que seja, mas exclusivamente ao seu ser em potência. E a
potência, enquanto pode ser ou não ser, é por definição subtraída às

11 – Rastros Autorais da Teoria


condições de verdade. (AGAMBEN, 2008, p. 34-35, grifo do autor).

É também como uma “fórmula que se opõe à história, à intriga


aristotélica, [...] ao símbolo e à ideia de um sentido oculto por detrás do
texto” (RANCIÈRE, 1998, p. 179) que Rancière entende o conto de Melville.
No texto “Deleuze, Bartleby et la formule littéraire” [“Deleuze, Bartleby e
a fórmula literária”], presente em La chair des mots: politiques de l’éscriture
[A carne das palavras: políticas da escrita] (1998), o autor se vale da leitura
deleuziana de “Bartleby”2 para afirmar a sua conhecida tese sobre a relação

2
Com efeito, a leitura de Rancière busca tensionar o texto de Deleuze principalmente no sentido 233
de alertar que “não se passa da encantação multitudinária do ser em direção a uma justiça

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 233 21/03/16 14:11


entre literatura e representação: “a fórmula conduz à catástrofe a ordem
causal do mundo que chamaremos de ‘mundo da representação’. A fórmula
de Bartleby realiza, assim, em cinco palavras, um programa que poderia
resumir a própria novidade da literatura” (RANCIÈRE, 1998, p. 180). Ao
contrário da arquitetura classificatória do modelo aristotélico, a literatura
– e, do mesmo modo, a fórmula de Bartleby – desestrutura a distribuição
estável dos papéis que caberiam a cada personagem no chamado “mundo
da representação”. Segundo Rancière, com o surgimento da literatura, o
célebre princípio de Flaubert por fim se efetiva: já “não há temas bons nem
temas ruins”, pois a escrita literária opõe às leis da mimesis personagens sem
traços individualizantes. Segue disso a necessidade que Rancière demonstra
de reafirmar que Bartleby não é símbolo da condição humana ou de coisa
alguma; se entendido como tal, a potência de sua fórmula se desfaz para
inaugurar novas regras literárias, um novo “mundo da representação”,
digamos. Em suma, Bartleby é apenas “uma fórmula, uma performance”
(RANCIÈRE, 1998, p. 179), e, nesse sentido, a potência de suas palavras
depende diretamente de seu apagamento posterior.
Ora, não é essa mesma indeterminação que compromete a arquitetura
classificatória dos gêneros literários, a ideia de um homem sem referências
que rejeita o estatuto de símbolo e se posiciona como potência também de
não, o aspecto que Derrida e Blanchot ressaltam no conto de Melville? Ou,
pelo menos, algo semelhante a isso? O “acho melhor não” de Bartleby

[...] evoca o futuro sem prometer algo ou predizê-lo; não profere


nada fixo, determinável, positivo ou negativo. [...] Mas ao não dizer
nada geral ou determinável, Bartleby não está simplesmente dizendo
nada. [...] Sua indeterminação cria uma tensão, abre-se para uma
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

espécie de reserva de incompletude. (DERRIDA, 1995, p. 75).

Para Derrida, portanto, Bartleby constitui uma visão do futuro cuja


natureza específica não pode ser determinada, devendo-se a essa incompletude
fundamental – eis o seu paradoxo constitutivo – a potência de sua linguagem.
Para Blanchot, por sua vez, a frase de Bartleby é eficaz por conta de um
conteúdo que não pode ser medido e de um movimento de recusa que não é
simplesmente deliberado: “a recusa, digamos, é o primeiro grau da passividade;

234 política. A literatura não abre passagem alguma em direção a uma política dionisíaca ou
deleuziana” (RANCIÈRE, 1998, p. 202).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 234 21/03/16 14:11


mas se ela é deliberada ou voluntária, se ela exprime uma decisão, mesmo que
seja negativa, ainda não permite cortar o poder da consciência, restando no
máximo um eu que recusa” (BLANCHOT, 1980, p. 33). Em outras palavras,
a fórmula de Bartleby perde de imediato sua capacidade de resistência se o
personagem for convertido em um sujeito que age de modo deliberado, ou
melhor, se suas ações forem tomadas como parte de um programa coerente
proposto por um “eu” sensível. Cabe ressaltar aqui, novamente, que é com o
abandono de traços individuais que a fórmula de Bartleby assume seu caráter
singular; o escrivão situa-se para além de qualquer possibilidade de tornar-se
símbolo ou referência para um projeto político autoconsciente.
Embora a partir de um gesto a princípio paradoxal, pois a constante
reapropriação do conto de Melville realizada pela Teoria não deixa de
convertê-lo em uma espécie de pressuposto partilhado ou, no mínimo,
em um tipo de obsessão referencial a que ela se volta, os ensaios citados
provam estar de acordo em um ponto fundamental: a potência da fórmula
– sua capacidade de apagar referências, de estabelecer deslocamentos, de
desierarquizar, de redistribuir papéis, enfim, de resistir – depende de um
abandono posterior. Como performance, Bartleby não se torna jamais
um exemplo possível; pelo contrário, revertido em exemplo, sua fórmula
perde a potência para a seguir se reapresentar apenas como um projeto
formulaico. Se há uma “lição” em “Bartleby, o escrivão”, essa é uma lição às
avessas: só é possível realizar uma experiência “bartlebiana” traindo a sua
terminologia inicial.

11.2 A fórmula como fórmula

11 – Rastros Autorais da Teoria


Ora, se já é um desafio acreditar que as leituras de “Bartleby” por
parte da Teoria habitam exclusivamente o campo das singularidades, dada
a sua obsessão também referencial – “Bartleby”, de novo –, o sonho de
compor uma comunidade literária de Bartlebies, uma galeria de copistas
que corrompem as normas por meio de fórmulas linguísticas agramaticais,
nada mais é que uma contradição conceitual pouco produtiva. Longe de
operar a partir do singular, produz-se apenas uma fórmula normativa, um
outro formalismo em que o “qualquer” é de pronto apropriado por um
olhar habituado àquilo que procura. O texto de Agamben que integra o
livro A comunidade que vem (2013) é claro nesse aspecto: 235

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 235 21/03/16 14:11


[...] o ser que vem é o ser qualquer”, ou seja, o ser tomado em sua
singularidade enquanto tal, “pois o amor não se dirige jamais a esta
ou aquela propriedade do amado, mas tampouco prescinde dela em
nome da insípida generalidade [...]: ele quer a coisa com todos os seus
predicados, o seu ser tal qual é. (AGAMBEN, 2013, p. 11).

O que vincula o ser a uma comunidade qualquer, o que o une ao


universal, digamos, não é uma “fórmula” partilhada ou um traço seu
pertencente também a outros, mas sim o seu ser tal qual que, assim tomado,
não se desliga nem do particular nem do geral. Compor uma comunidade
de “Bartlebies” significaria, em última instância, particularizar os traços
identitários do personagem que fariam dele um ser para a comunidade,
ou melhor, dirigir-se justamente para esta ou aquela propriedade sua. Uma
verdadeira comunidade “bartlebiana”, por outro lado, só seria possível se
preservada a potência de não do personagem, a potência de não ser aquele
por quem a Teoria agora o toma.
Sob o ponto de vista da literatura, adentrar o texto com pressupostos
claros, sejam estes os de localizar homens sem pressupostos ou não, significa
necessariamente subtrair o literário da esfera de suas singularidades, isto
é, da constituição específica que resulta de todos os seus predicados, e não
apenas daqueles que o aproximariam de uma experiência de leitura anterior.
As marcas de um tal procedimento são visíveis: em nome de deslocamentos,
hecceidades, diferenças, singularidades, linhas de fuga, agramaticalidades,
enfim, de uma “comunidade por vir” composta de “Bartlebies” ou do
“qualquer”, as análises do literário giram em torno de pressupostos
anteriores à vivência do texto, partindo de conceitos que, intocados por seu
objeto, constituem também seu próprio ponto de chegada. Ao contrário
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

de Bartleby, cuja resistência atinge o ápice no momento em que o silêncio


final, a sua morte, inaugura o desejo narrativo do advogado do conto, a
crítica encontra-se protegida pela gramaticalização de seus conceitos, pela
empresa supostamente política que o diálogo com determinados termos
parece sempre assegurar. Não há como se perder no meio do caminho.
Aliás, já estamos aqui longe dos riscos que cercam a atividade, entre outros,
dos poetas, a quem Bartleby certamente se associa:

Na floresta encantada da Linguagem, os poetas entram expressamente


236 para se perder, se embriagar de extravio, buscando as encruzilhadas

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 236 21/03/16 14:11


de significação, os ecos imprevistos, os encontros estranhos; não
temem os desvios, nem as surpresas, nem as trevas – mas o visitante
que se afana em perseguir a “verdade”, em seguir uma via única e
contínua, onde cada elemento é o único que deve tomar para não
perder a pista nem anular a distância percorrida, está exposto a não
capturar, afinal, senão sua própria sombra. Gigantesca, às vezes; mas
sempre sombra. (VALÉRY, 2002, p. 22).

A comunidade de Bartlebies vislumbrada em ensaios, artigos, livros,


dissertações e teses – e também em romances – não passa, em suma, de um
encontro seguro e constante promovido com as sombras da Teoria. Esse
encontro pode até alimentar o produtivismo acadêmico – “eis aqui mais
um Bartleby para a nossa galeria” –, mas situa-se muito longe do campo de
singularidades que Agamben, Deleuze e seus pares descortinaram no conto
de Melville e na fórmula do escrivão. Curiosamente, a saída desse impasse é
sinalizada a todo o momento pelos próprios textos antes citados: a verdadeira
potência da Teoria – a “lição” que ela não deixa de repetir – está no fato
de que só é possível atuar sob seus auspícios de maneira singular traindo
parcialmente seus próprios conceitos. O que a Teoria nos ensina, em última
instância, é que suas próprias operações “profanatórias” precisam de uma
“profanação” posterior que impeça uma rápida reabsorção sua por parte
dos dispositivos sacralizadores. Profanar, dessacralizar a Teoria: talvez essa
seja uma resposta viável para alguns dos dilemas expostos no livro Theory’s
empire. Isso não representaria um simples retorno ao texto literário em si
ou uma posição avessa às contribuições da Teoria, tampouco uma condição
pré-Teórica; significaria, antes, um contato aberto e novo com a literatura,

11 – Rastros Autorais da Teoria


capaz de liberar “fórmulas” ou sentidos imprevistos até então.
Logicamente, o “caso Bartleby” constitui apenas uma amostra da
eficiência com que os esquemas de controle Autorais do texto se atualizam.
De modo paradoxal, uma vez convertida a Teoria em um modus operandi – ou
seja, convertida naquilo que ela a todo o instante confronta –, o texto literário,
por exemplo, passa a ser lido a partir de uma perspectiva homogeneizante,
ainda que sob o emblema das singularidades e da diferença. Nesse caso,
para atingir o “qualquer” vislumbrado pela Teoria, seria necessário trair seus
procedimentos, propor um campo conceitual advindo também dos objetos
investigados e que não estabeleça com clareza e de antemão os limites da
atividade crítica. Como se sabe, a chamada crise da Teoria decorre do lugar 237

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 237 21/03/16 14:11


consensual que ela agora ocupa; conferir nova mobilidade à Teoria significa,
nesse momento, valer-se dela mais uma vez para profanar seus termos.3

Referências
AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Trad. Cláudio Oliveira. Belo
Horizonte: Autêntica, 2013.
AGAMBEN, Giorgio. “Bartleby, ou da contingência”, seguido de “Bartleby, o
escrivão”, de Herman Melville. In: AGAMBEN, G.; PAIXÃO, P. A. H. (Ed.).
Bartleby, escrita da potência. Lisboa: Assírio & Alvim, 2008.
BARTHES, Roland. Da obra ao texto. In: O rumor da língua. Trad. Mário
Laranjeira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Trad. Márcia Valéria
Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Editora
Perspectiva, 1987.
BARTHES, Roland. Roland Barthes por Roland Barthes. Trad. Leyla Perrone-
Moisés. São Paulo: Cultrix, 1977.
BLANCHOT, Maurice. L’écriture du desastre. Paris: Éditions Gallimard, 1980.
CACHOPO, João Pedro. Exasperar Bartleby: fórmula – alegoria – reticência.
Aletria, v. 24, n. 3, p. 11-23, 2014.
DELEUZE, Gilles. Bartleby ou a fórmula. In: DELEUZE, G. Crítica e clínica. Trad.
Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.
DERRIDA, Jacques. The gift of death. Trad. David Wills. Chicago: University of
Chicago Press, 1995.
DURÃO, Fabio Akcelrud. Giros em falso no debate da teoria. Alea, v. 10, n. 1,
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

p. 54-69, 2008.

3
No momento em que o presente livro encaminhava-se para a gráfica, deparei-me com o artigo
de João Pedro Cachopo, da Universidade de Lisboa, intitulado “Exasperar Bartleby: fórmula
– alegoria – reticência”. O texto serve como complemento e contraponto para alguns dos
elementos apresentados ao longo deste capítulo; sua conclusão, contudo, não deixa de remeter
ao argumento central aqui defendido: “A literatura tem uma política que lhe é própria. E, nesse
sentido, se Bartleby se parece com a literatura, ou vice-versa, é num esquivar-se à interpretação
que fragmenta, multiplica, dispersa leituras possíveis mais do que as rechaça em bloco como
impossíveis. Mas reconhecer a especificidade da ‘política da literatura’ não implica apenas
preferir não tomar a personagem por emblema de uma eventual comunidade ou humanidade
238 vindoura; implica também preferir não tomar o procedimento como bitola de uma qualquer
política por vir [...]”. (CACHOPO, 2014, p. 21-22, grifo do autor).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 238 21/03/16 14:11


ELIOT, Thomas Stearns. Ensaios. Trad. Ivan Junqueira. São Paulo: Art, 1989.
MELVILLE, Herman. Bartleby, o escrivão. Trad. Irene Hirsch. São Paulo: Cosac
Naify, 2005.
PARK, Clara Claiborne Park. Author! Author! Reconstructing Roland Barthes.
In: PATAI, Daphne; CORRAL, Will H. (Ed.). Theory’s empire: an anthology of
dissent. New York: Columbia University Press, 2005.
RANCIÈRE, Jacques. Deleuze, Bartleby et la formule littéraire. In: La chair des
mots: politiques de l’écriture. Paris: Éditions Galilée, 1998.
VALÉRY, Paul. Discurso sobre a estética. In: LIMA, Luiz Costa (Org.). Teoria da
literatura em suas fontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. v. 1.
WIMSATT, W. K.; BEARDSLEY, M. C. A falácia intencional. In: LIMA, Luiz
Costa (Org.). Teoria da literatura em suas fontes. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2002. v. 2.

11 – Rastros Autorais da Teoria

239

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 239 21/03/16 14:11


o-lugar-da-teoria-literaria.indd 240 21/03/16 14:11
12

Kakfa, Rulfo, Beckett:


retorno ao mito 1

Eduardo Subirats

12.1 A teologia da morte da arte


Uma anedota talvez possa ser mais esclarecedora do vazio intelectual
que hoje envolve a máquina acadêmica do que mil argumentos intrincados.
Contaram-me que, em certa ocasião, um comitê de professores de um
departamento de literatura havia se reunido para avaliar uma proposta de
tese de doutorado, procedimento absolutamente rotineiro em forma e fundo.
No entanto, a pesquisa submetida ao escrutínio do comitê pretendia analisar
a presença da Magna Mater sob as figuras de Pachamama, Ci e Coatlicue em
uma série de obras literárias e artísticas latino-americanas do século XX, e
esse não era um ato precisamente rotineiro para o departamento em questão.
A candidata ao grau de doutor parecia fascinada por esses mitos das
Deusas-Mãe ou, mais especificamente, por seu misterioso poder sedutor
e fecundo. Seria possível dizer que, por meio dessas visões literárias
modernas do mito milenar da Grande Deusa, Mahadeva, Ci ou Ge, a partir
dos romances de Arguedas, Rulfo ou Mário de Andrade, bem como da
pintura de Tarsila do Amaral, ela havia descoberto uma luz que iluminava
toda a sua existência.

1
Traduzido do espanhol pelo organizador do volume.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 241 21/03/16 14:11


Mas a diretora do comitê se interpôs em seu caminho com um
julgamento sumário: “você não pode desenvolver essa tese. Você insiste no
mito. Literatura não é mito, é texto”.
Em seguida, acrescentou com um gesto de dissimulada convicção
corporativa: “Tudo é texto!”
A esse veredito somaram-se outros por parte dos demais membros
do júri. O objetivo não era senão o de impedir qualquer discussão possível
sobre o vínculo substancial entre a narrativa literária e artística e os destinos
humanos cristalizados nos mitos que atravessam a história da Weltliteratur,
de Gilgamesh a Macunaíma.
Essa história é incrível. De imediato, a pompa e a arrogância de
seu juízo final deixaram-me sem alento. Não que a trivialização literária
e teórica que acompanha as rotinas acadêmicas de nossas melhores
universidades nos dias de hoje tenha me surpreendido. Tampouco
poderia me surpreender o fato de que a compreensão hermenêutica e a
reflexão estética e filosófica sobre a criação artística e literária estivessem
juridicamente subordinadas ao poder de decisão de um novo exército de
especialistas medíocres. Tudo isso eu já sabia por experiência própria em
sucessivas universidades e nações.2 Também estava muito consciente de
que as memórias mitológicas e as experiências humanas ligadas a elas,
sem falar nos vínculos entre mito e desenvolvimento da psique humana,
ou entre mito e esclarecimento, eram questões proibidas pela escolástica
estruturalista e pós-estruturalista que rege rigorosamente as salas de aula
norte-americanas.
Tudo isso eu já sabia. Mas nunca antes havia me chocado com uma
proibição tão violenta e brutal, nem havia tido até então que me confrontar
com a redução da literatura a uma textualidade plana e a uma retórica
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

formalista até o limite de seu completo esvaziamento. Nunca antes havia


presenciado uma condenação mais ignorante de toda experiência estética
capaz de combinar a psicologia e a mitologia ao longo da história cultural
dos povos. Nunca antes havia me confrontado com a proibição disciplinar
de toda experiência estética que compreenda as memórias mitológicas
dos povos, sua visão do passado e do futuro e o diálogo exemplar dessas
memórias populares com a literatura clássica da modernidade latino-
americana.
242
2
Ver Subirats (2009, p. 13 e ss).

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 242 21/03/16 14:11


Os teólogos da Inquisição já haviam definido os mitos como as vozes
e os ícones do demônio, mas isso significava reconhecer a experiência
mitológica como uma mediação entre o espírito e a carne, entre a existência
humana e o universo, por mais condenatório que esse reconhecimento
tenha sido. Aparentemente, o gramatólogo pós-moderno dá um passo além,
declarando pura e simplesmente a inexistência da memória mitológica
e proibindo toda experiência estética e ritual que envolva os deuses das
mitologias antigas e modernas, seus vínculos ontológicos com a natureza e
a consciência humana.
Essa foi a palavra de ordem. A arte é texto e nada mais que texto.
A experiência estética tinha de esvaziar-se de seus momentos rituais e
catárticos e, ao mesmo tempo, evaporar o significado cognitivo vinculado
a seus componentes miméticos e expressivos. A interpretação se reduz
a sua decodificação a partir de determinados formatos gramaticais e
retóricos preestabelecidos. Seu penúltimo postulado positivista: um grau
zero da escritura, ponto de partida da redução da experiência literária e
artística a um dualismo básico do prazer ou desprazer do texto, além das
correspondentes ladainhas antiestéticas.
Esse grau zero da literatura coincide com a anulação dos vínculos
mitológicos da memória humana com o cosmos e a natureza e com
sua própria evolução histórica e pessoal. Coincide com a exclusão dos
momentos profundos da experiência individual e com a volatilização de
seus sentimentos e emoções. Coincide, ainda, com um humano abstrato,
uma experiência abstrata do real, uma sociedade abstrata e formas de
vida inteiramente abstratas e racionalizadas. Suas últimas consequências:
a neutralização da experiência estética, a transubstanciação da arte em
fetiche e a redução da literatura à ficção.
12 – Kakfa, Rulfo, Beckett
Reivindicar uma experiência literária como reflexão sobre os
princípios primeiros em que se assenta nossa concepção de vida e morte,
de paz ou guerra e de harmonia ou desarmonia do humano no cosmos,
no sentido com que nos brindam romances modernos como Grande
sertão: veredas ou Doktor Faustus, é algo completamente fora de lugar na
máquina acadêmica. A descoberta da raiz última da experiência estética na
fundamentação mítica e metafísica da mímesis, que tanto a pintura de Klee
quanto a poética de Arguedas representam, é rotulada como um completo
desatino. A conclusão desse processo negativo que atravessa a produção 243

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 243 21/03/16 14:11


industrial da literatura como ficção e entretenimento é a morte da arte. Seu
produto final: uma ficção subordinada às gramáticas da academia e às leis
do mercado.3
A insistência no caráter linguístico da obra literária, a subsequente
clausura dos vínculos existenciais e sociais das expressões artísticas, bem
como a subordinação final da experiência estética aos códigos morais e
políticos institucionalmente sancionados como retóricas politicamente
corretas, conduziram a criação, a experiência e a teoria literária a um
deserto e páramo previsíveis. Romances de butique, jornalismo literário
e uma antiestética sem conceito próprio, acompanhados da redução da
crítica literária à repetição indefinida de um estruturalismo degradado
e escolástico, são os sintomas visíveis de uma cultura corporativamente
administrada. Em nosso panorama histórico mundial, de uma crise
humanitária, ecológica e militar muito mais dramática, as bandeiras do fim
da arte e a irrelevância de uma literatura reduzida à ficção e entretenimento
aparecem como troféus vitoriosos em meio a prêmios e festivais e à
disseminação global de best-sellers.
Não, não era possível defender a tese de doutorado sobre a memória
mitológica na literatura latino-americana moderna, muito menos tratando-
se de Coatlicue, Ci ou a Pachamama, The Goddesses of America.
Neste capítulo eu insisto justamente em uma direção contrária:
recuperar as dimensões semânticas, simbólicas e mitológicas dos signos,
transformar a decodificação rotineira da literatura em um meio de abertura
da nossa consciência à percepção mágica das coisas, ao esclarecimento de
nossa existência e ao prazer do jogo e do riso.
O LUGAR DA TEORIA LITERÁRIA

12.2 A orfandade do sujeito moderno


Kafka, Rulfo e Beckett: suas obras podem ser consideradas exemplares
porque esclarecem experiências profundamente traumáticas propagadas
pelas sucessivas crises, guerras e genocídios do nosso tempo histórico. São
3
Em minha interpretação de cinco romances clássicos da literatura latino-americana do
século XX, (SUBIRATS, 2014), contemplo esse processo de degradação industrial da cultura
comercialmente etiquetada como pós-moderna a partir de seu lado afirmativo: restaurando
os caminhos mitológicos, psicológicos e metafísicos que atravessam as obras de Mário de
244 Andrade, Juan Rulfo, Guimarães Rosa, José María Arguedas e Roa Bastos como transcendência
espiritual de uma era conturbada.

o-lugar-da-teoria-literaria.indd 244