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ALBA VALDEZ: O DISCURSO DE EMANCIPAÇÃO FEMININA NO ESPAÇO

INTELECTUAL CEARENSE
Avanuzia Ferreira Matias 1
INTRODUÇÃO
Neste ensaio evidenciamos a importância que Alba Valdez teve para a luta das
mulheres pela igualdade de direitos intelectuais, não apenas para produzir textos
literários, mas também para fazer parte de agremiações e movimentos literárias que
promoviam discussões importantes sobre o homem e sua organização da sociedade.
Nesse contexto de luta pela igualdade de direitos, inicia-se o movimento pela
emancipação feminina, para que esta tivesse direito ao voto, à educação, ao divórcio e a
uma profissão no espaço público.
A autora contribuiu com vários escritos, publicados em revistas e jornais. Estes,
além de informar, possuíam uma excentricidade literária bem peculiar. Alba Valdez, fez
parte do cenário de artistas que ajudavam a planificar a arte literária no Ceará no final do
século XIX e nas primeiras décadas do século XX
Causava muita estranheza à escritora o fato de as mulheres serem impedidas de
aprender a ler e escrever, principalmente porque se estruturava uma sociedade pautada na
evolução, portanto nada justificava essa restrição imposta às mulheres que, no máximo,
podiam tornar-se professoras.
Alba Valdez causou impacto fora do Brasil, quando virou pauta para a imprensa
internacional, que noticiou o aparecimento de uma mulher no jornalismo cearense. Seus
textos, a maioria publicado nos periódicos de Fortaleza, chamavam a atenção de pessoas
em diferentes países pela forma como a autora abordava os acontecimentos. Veja a seguir
a trajetória de Alba Valdez.

Pequena Biografia

De acordo com o Diccionário Bio-bibliográphico Cearense – Barão de Studart,


Alba Valdez, cujo nome de batismo é Maria Rodrigues Peixe, nasceu em uma localidade
chamada São Francisco da Uruburetama, atual cidade de Itapagé, no dia 12 de dezembro
de 1874. Saindo de lá em 1877, veio para Fortaleza em companhia dos pais para escapar
do sofrimento motivado por uma seca que castigava a região no referido ano.

1
Graduada em Letras, mestre em Linguística e doutora em Educação Brasileira – UFC.
Sua história e paixão pelo ensino e pela literatura começou em março de 1886,
quando matriculou-se na Escola Normal do Ceará, instituição onde diplomou-se no final
de 1889 para exercer as atividades do magistério.
Sabendo que os seus pais desaprovariam sua atividade como escritora, Maria
Rodrigues criou o pseudônimo de Alba Valdez para esconder dos genitores algo que fazia
com maestria, uma vez que seu pai julgava que essa não era uma profissão para mulher.
Contradizendo o patriarca, Alba Valdez tornou-se uma importante jornalista, cronista,
crítica literária e romancista do estado do Ceará, e, concomitante à sua atividade docente,
contribuía com diversas revistas e jornais, para os quais compunha contos e crônicas com
refinada propriedade.
Sobre a origem do pseudônimo, apropriou-se do nome Alba tomado de
empréstimo de uma grande amiga, Alba Pompeu, filha de Tomás Pompeu; e Valdez,
retirado de um velho dicionário de língua portuguesa.
Em dezembro de 1901, a autora publica um livro de contos intitulado Em sonho e,
em março de 1907, lança seu segundo livro, Dias de luz - Recordações da adolescência,
um romance memorialista com lembranças da infância e da adolescência.

Trajetória literária

Alba Valdez teve uma participação ativa em movimentos literários de sua época.
A autora pertenceu à Academia Feminina de Letras, onde teve como Patrona sua ex-
professora da Escola Normal, Francisca Clotilde.
Percebendo a necessidade de apoiar mulheres escritoras a investir no seu
desenvolvimento cultural, fundou a Liga Feminista Cearense, em 1904, primeira
agremiação literária formada por mulheres escritoras do estado. Também foi integrante
atuante da histórica agremiação literária Padaria Espiritual, e, ainda, dos grupos Centro
Literário, Boemia Literária e Iracema Literária. Alba Valdez foi também colaboradora de
vários almanaques; contudo, o reconhecimento internacional só veio quando alguns de
seus contos do livro Em Sonho foram traduzidos para o sueco pelo tradutor e lusófilo
Goran Bjorkman. Também ganhou uma versão francesa do seu conto Carta, publicado
no jornal Le Matin, de Paris.
Foi colaboradora dos jornais O Unitário, Diário do Ceará, Jornal do Comércio,
O Povo, além da Revista do Instituto do Ceará e da Revista da Academia Cearense de
Letras.
Acumulando títulos como desbravadora, em 1922 foi a primeira mulher a
ingressar na Academia Cearense de Letras, onde ocupou a cadeira n° 2, patronímica de
Álvaro Martins.
Em 1936, vinculou-se como sócia efetiva do Instituto do Ceará, órgão fundado em
4 de março de 1887, reconhecido como a mais antiga instituição cultural do estado do
Ceará e uma das mais antigas do Brasil. Sua criação foi motivada pela necessidade de
estudar e de propagar informações históricas, geográficas, antropológicas, literárias e de
ciências afins, no que se refere, principalmente, ao Ceará.
Pela sua inquietude diante da forma como a mulher era tratada e lutando para ter
os mesmos direitos dos homens, Alba Valdez foi a primeira mulher a conseguir ingressar
na Academia Cearense de Letras no ano de 1922, mas foi excluída em 1930, ocasião em
que houve uma reorganização e nova nomeação das pessoas que passariam a compor a
vacâncias de 20 membros que não se faziam presentes por dois motivos: falecimento ou
ausência.
Sem desistir de pertencer à Academia Cearense de Letras, em 1937 Alba Valdez
novamente se candidata a uma vaga e consegue ser eleita para ocupar a vaga deixada por
Leiria de Andrade, porém só toma posse em 1953. Ainda assim, foi uma vitória para a
escritora, pois conseguiu, por duas vezes, ocupar uma cadeira em uma entidade literária
que teve apenas onze acadêmicas em 120 anos de existência (1894 a 2014). No período
da fundação, nenhuma escritora foi convidada para participar da nova sociedade
intelectual, mas, atualmente, seu quadro de acadêmicos conta com sete mulheres.
É possível perceber, a partir dessa dificuldade feminina de pertencer ao mundo
intelectual, que a misoginia social vivida pelas mulheres, principalmente no contexto
literário e jornalístico, demandou muitas lutas feministas de mulheres como Valdez.
Alba Valdez faleceu no dia 5 de fevereiro de 1962 - com 87 anos de idade,
marcados pela luta para a garantia do direito feminino de atuar intelectualmente e assumir
funções designadas apenas aos homens.

Momento histórico

Durante muitos séculos a mulher foi contida socialmente, e sempre foi dada a ela
a função de exercer papeis subordinados à soberania masculina. Observando a história de
formação e evolução social humana, muitas vezes nos deparamos com episódios de
horrores, nos quais as mulheres eram punidas ou aprisionadas por razões adversas.
Numa cultura orientada pelos preceitos cristãos, a mulher era traduzida, com todas
as suas particularidades, como a responsável pela reprodução humana, pelo zelo do lar e
pela responsabilidade na criação dos filhos. Era contra isso que Alba Valdez fugia, ela
tentava, assim como outras feministas de sua época, tais como Francisca Clotilde, Ana
Facó, Henriqueta Galeno, Serafina Pontes, criar nova mentalidade em contraste à
existente, tentava encorajar as mulheres a não se render aos padrões socioculturais
impostos.
Segundo Almeida (2008), naquela época a educação feminina era planejada para
que a mulher garantisse o bem estar da família no âmbito doméstico, os estudos dos filhos
ou entreter o marido. Neste contexto moralista, a mulher constrói lentamente, um caminho
visionário, pelo qual almeja alcançar o espaço que lhe é de direito.
De acordo com Almeida (2008),

A escritora Alba Valdez acreditava que não se podia prescindir do meio


biológico nas manifestações do espírito. Não bastaria a “aproximação mental
e moral entre o homem e a mulher” para desenvolvê-la, como disse Abel
Garcia. Para Valdez, a inteligência necessitava de um “clima propicio, de uma
agradável tranquilidade, de uma liberdade criadora, para se entregar com
eficiência às suas tendências literárias e artísticas” Prova disso, para ela, está
no fato de que “a maioria dos nossos grandes homens se fez longe da terra
natal”. A grande dificuldade, portanto, para elas se aperfeiçoarem
intelectualmente estaria na falta desta liberdade criadora, na ausência de
contato direto com a civilização, bem como a “rigorosa educação familiar e os
conceitos desairosos, que sobre o cérebro feminino ativaram certos filósofos”.
Ideias positivistas e religiosas, para Abel Garcia, vinham redimindo a mulher,
no sentido de rever seu papel na sociedade, de “mero ornato”. Esta tendência
exaltava a superioridade da mulher, proveniente de sua suposta capacidade de
subordinação e obediência. Ela sairia de seu “cativeiro” e, quiçá, poderia
ocupar outros espaços públicos (ALMEIDA, 2008, p. 54).

No final do século XIX e início do século XX, em Fortaleza, assim como no resto
do país, não havia muitas opções e oportunidades para aa mulheres. As que queriam
investir nos estudos tinham a opção de estudar na Escola Normal, frequentada por 518
alunas em 1901. Saindo da escola, estas mulheres poderiam exercer a profissão de
professora do curso primário. Contrariamente, aos homens era dada a oportunidade de
sair em busca de empregos com maiores remunerações.
Mesmo já tendo adquirido o direito de frequentar a escola, a educação oferecida
ao sexo feminino objetivava, primeiramente, orientar a mulher para que esta exercesse
seu papel de dona de casa, esposa, companheira, educadora dos filhos. E as carreiras que
seguiam eram apenas as que a sociedade julgava condizentes com o universo feminino,
tais como professora, enfermeira ou costureira.
A mulher já podia trabalhar fora, mas, mesmo assim, sua responsabilidade maior
ainda deveria ser com a família, devendo garantir dedicação diária à casa, ao marido e
aos filhos. Ao lutar por participação social, a mulher deveria acumular funções, ou seja,
poderia trabalhar fora de casa, mas deveria manter-se firme nas obrigações de esposa, na
educação dos filhos e nas responsabilidades do lar.
No Ceará, algumas mulheres mostravam-se encorajadas a envolver-se atividades
intelectuais, tais como jornalismo e literatura, e conquistaram espaço em uma seara
sempre dominada por homens, engajaram-se em grupos intelectuais e começaram a
conquistar, embora a passos muito lentos, o espaço ao qual tinham direito.
O inconformismo feminino, não somente no Ceará, mas em todo o mundo,
influenciou a organização de movimentos femininos em prol de uma educação comum a
todos (homens e mulheres), com direito de frequentar o ensino superior, pela defesa da
igualdade social, inclusive o direito, enquanto cidadã, de votar e de ser votada. Lutava-se
pela participação feminina igualitária no espaço público.
Para fortalecer sua luta, as mulheres contaram com um forte aliado, que surgiu no
país e no Ceará na primeira metade do século XIX: a imprensa. Esse era um meio de
comunicação muito valioso para expressar opiniões e alertar as mulheres mais submissas
que o sexo feminino não era inferior ao masculino e, por essa razão, todas as mulheres
mereciam ter igualdade de direitos e participação nas decisões políticas do país.
A partir de então, no Ceará, as mulheres se apoiaram na Literatura e na imprensa
para escrever e publicar suas ideias, assim como tiveram representação em todos os
movimentos e associações literárias da época.
Pela produção jornalístico-literária de Alba Valdez o público feminino foi
direcionado para uma reflexão sobre o papel da mulher em meios, antes, exclusivamente
frequentados e dominados por homens. A escritora soube transitar pelo jornalismo e pela
literatura de forma espontânea e natural, e usou seus contos e crônicas, assim como sua
poesia para apresentar seu discurso como cidadã a serviço da igualdade de expressão.

Algumas críticas de jornais cearenses a postura feminina

Se a imprensa foi uma grande aliada em defesa à causa feminista, também foi
utilizada por alguns para criticar a postura da mulher que reivindicava por seus direitos.
Para exemplificar, podemos o jornal O Nordeste, cuja direção estava a cargo da Diocese
de Fortaleza, o que talvez justifique a existência de uma sessão denominada Página
Feminina, na qual se escrevia orientações cristãs para as leitoras.
Na edição do dia 09 de março de 1927, na Página Feminina do jornal foram
publicados dois textos: A utilidade da mulher, com duras críticas ao comportamento das
mulheres feministas, e O código da mulher, com conselhos para se manter firme ao
comportamento esperado para uma mulher, de acordo com o contexto daquele momento.
Ao ler O código da mulher, podem-se destacar os seguintes conselhos,
representantes do pensamento conservador da época: “O pudor vale mais que o corpo.
Conserva o teu pudor” e “Não tenhas muitas amigas, As mulheres são egoístas”. No
mesmo periódico, no dia 23 de março de 1927, a Página Feminina abordou, dessa vez, o
tema do feminismo. O artigo levou o nome do tema e foi assinado por Mattos Além. O
autor se propôs a explicar o que seria, na verdade, o movimento que estaria sendo
distorcido pelas mulheres:

O maior encanto da mulher reside na sua fragilidade. É esse o seu poder mais
irresistível. No dia em que ela em tudo se assemelhar aos homens, é porque
sentiu a certeza que poderá prescindir da sua proteção. E neste caso a sua graça
dissipar-se-á como o fumo..../ Entre uma mulher literata, feminista, que fume
e faça versos e outra que apenas conheça os arranjos de uma boa dona de casa
– opto pela última. Assim, tem-se sempre a certeza da hora do jantar!/ Há três
missões divinas da mulher na terra: ser filha obediente, ser esposa carinhosa e
fiel e mãe amável e educadora. Desde que não seja integralmente uma destas
três coisas, a mulher deixa de representar um papel social para ser um elemento
inútil. A graça e a formosura não bastam para justificar os males que advêm da
falta de cumprimento daquela (apud MAIA, 2007, p. 67).
No trecho acima é possível perceber que a igreja estava incomodada com a
proposta de liberdade e igualdade feminina. E foi mais longe ao afirmar que a mulher
deveria ser uma filha obediente, uma esposa carinhosa e fiel e uma mãe amável e
educadora. Tentando condená-la, caso se rebelasse contra os padrões da época, o texto
afirma que, sem essas características, a mulher seria inútil. Está claro que o jornal induzia
a mulher a continuar tendo uma postura submissa diante da família e assumindo toda a
responsabilidade educacional dos filhos.

A obra de Alba Valdez

Alba Valdez destacou-se mais pelos trabalhos que escreveu para periódicos;
constata-se isso observando-se que a maior parte de sua obra é de e textos que se
configuram como crônicas, contos e poesias .
Sobre o livro de contos Em Sonho, pode-se afirmar que foi uma obra bem aceita
pelo público, uma vez que apresentava características de uma escrita feminina, com
elementos textuais que simbolizavam a delicadeza, que era o “modelo de comportamento
que se considerava ideal à mulher” (COELHO, 1993, p. 14). Logo, a expectativa que se tinha
em relação a textos escritos por mulheres é que apresentassem uma atmosfera repleta de
sutilezas, sensibilidade, afetividade, fragilidade e até uma certa ingenuidade, pois era assim
que a sociedade descrevia e esperava que fosse a mulher.
Para o escritor cearense Antônio Sales, apud Barreira (1951), Alba Valdez era “a
pena mais aprimorada que tem produzido a mentalidade feminina entre nós, fragmentos
de imaginação, enfeixados em um livro com o título Em Sonho (p.57). Nesta mesma
obra, também é possível ler a opinião do escritor Rodrigues de Carvalho sobre a escrita
da autora. Para ele, são “fantasias e endeixas de uma alma artìsticamente sonhadora.
Estilo fluente, fácil e delicado, concepção de um subjetivismo cerúleo, próprio da mulher
sonhadora” (p.57).
Guiomar Torresão apud Barreira (1951), também deixou suas impressões sobre a
autora e sua obra

[...] Um livro de mulher desperta sempre ainda a nossa curiosidade! –


lida a primeira página, a leitura seguiu ininterrupta até o fim! O
contrário era impossível! Um encanto tudo aquilo! Um ramilhete de
flores das mais suaves cores, do mais delicado aroma! Meditações de
uma doce e poética melancolia! Narrativas singelas, despretenciosas,
descrições primorosamente feitas, e em tudo isto disputando primasias
a elevação do pensamento com a correção da frase. (TORRESÃO apud
BARREIRA, 1951, p. 58).
Em relação ao seu segundo livro, Dias de luz - Recordações da adolescência, cuja
intenção é registrar memórias da infância e da adolescência, o jornal A República escreveu
uma nota opinando sobre o que pensava a respeito da obra e do estilo da escritora: apud
Duarte (2004), de oito de março de 1907, veja a seguir:

Dias de Luz é um volumezinho de 120 páginas – à moderna, portanto.


Estão abolidos os livros maçudos em que, quase sempre, a carência de
idéias contrastava com o profuso exterior. Alba Valdez veio firmar com
a sua novela os créditos de estilista primorosa há muito tempo
proclamada pela crítica. [...] Mas não se pense que só por amor de estilo
escreveu ela o seu livro, Dias de Luz seja um obra de entretenimento,
literatura para preguiceiras. A autora, pela boca de suas personagens,
enuncia as idéias sobre instrução pública, incita o povo ao amor à pátria
e torna-se eloqüente quando pinta quadros domésticos. [...] Os tipos do
livro de Alba Valdez são bem estruturados, a ponto do leitor se
familiarizar com eles, idealizar-lhes as feições, como se na realidade os
conhecesse. A escritora observa os menores caprichos da mente dos
seus heróis, e nem esquece aquela singularidade de Inês (uma
personagem) gravando na memória o número 27, da idade de certa
condessa dos contos de Catulle. Vinte e sete anos! E isto lhe ficou
parecendo uma idade galante que a moçoila, zombando muitas vezes
por ter apenas dezesseis, almejava como a coisa mais feliz deste mundo
[sic] - Jornal A República, Fortaleza, 8 de março de 1907, apud Duarte,
(2004, p.627).
Nesta crítica sobre o romance de Alba Valdez, uma das observações feitas foi o
fato de ser formado por 120 páginas. Por essa razão foi considerado moderno em relação
aos extensos volumes que se escrevia na época. Mas não foi apenas isso; a obra apresenta
uma realidade ao leitor, mas faz essa abordagem em forma de ficção. Alba Valdez, sem
dúvida, foi desbravadora de uma escrita que fortalecia o movimento modernista do início
do século XX.
A produção que Alba Valdez fez para a imprensa foi pouco estudada pelos críticos
literários, por isso acredita-se que ainda existam textos inéditos da autora.
Dentre os muitos textos escritos por Alba para a imprensa de Fortaleza,
apresentamos a seguir a crônica Horrível Morbus, publicada em 1927 no Jornal O
Nordeste, pelo qual a autora aborda o problema da proliferação da lepra em Fortaleza,
doença que ganhou destaque na década de 1920 no Brasil e na capital cearense.

Muitos transeuntes iam e vinham, cruzando-se, tomando direcções


differentes. Ninguém se detinha. Todos pareciam ensimesmados nos
seus projectos, nos seus negócios, na sua vida. Pus-me a andar sob o
lastro da imaginação que perdera o freio. Recordava-me de que há
poucos annos relativamente os casos de mosphéa no Ceará se contavam
por unidades simples. Presentemente, o resultado numérico se eleva às
centenas aos milhares, já pelo contagio, já pela entrada franca de
doentes vindos de outras partes. [...] E amanhã? Pensei na moeda do
cavalheiro fazendo continuo: das mãozinhas cheias de pús, ella iria para
outras mãos que a conduziriam até a gaveta do marceeiro, do padeiro,
do magarefe, contaminando tudo. Das gavetas commerciaes passaria
para a bolsa do empregado de bondes, que daria em trôco ao grosso
publico; entraria na minha casa, em todas as casas, em innumeras
algibeiras, e voltaria, quem sabe? Às palminhas donde tinha saído para
reencetar outro cyclo maléfico. Pensei ainda na embalagem de papel
vazia, rastejando alhures, lobrigada por mulher do povo, que a
aproveitara para empacotar a compra [sic] (VALDEZ, 1927, p. 4).
O excerto configura-se também como registro histórico, uma vez que evidencia
um acontecimento que atinge a saúde pública do estado. Pelas características, esta é uma
crônica, pois configura-se como uma narrativa curta, criada essencialmente para ser
veiculada na imprensa, com o intuito de destacar um fato ou um problema circunstancial
naquele momento.
Alba Valdez soube apresentar a calamidade com maestria, utilizando-se de
recursos linguísticos para transmitir ao seu leitor sensações, pensamentos e reflexões.
Dessa forma conseguiu demonstrar a essência emocional do texto, posto que não se
restringiu apenas a dar uma notícia, não se deteve à motivação exclusivamente
jornalística. A escritora envolveu-se no contexto de sofrimento de uns e de contaminação
potencial de outros. Nesta conjuntura, acabou usando recursos do texto que se somam aos
recursos literários para informar e alertar a sociedade sobre a fragilidade do ser diante de
certas situações.
Em certa medida, a escrita de Alba Valdez se constrói ora pelo discurso de
escritora, ora pelo discurso de jornalista. Dessa forma ela proporciona às pessoas a
possibilidade de refletir sobre seus valores, sobre suas ideais, sobre sua história, sobre seu
tempo e sobre sua forma de enxergar o outro.
Como os fatos do cotidiano são fundamentais para a composição de uma crônica,
Alba Valdez estava sempre se apropriando de elementos reais para transcrevê-los em
forma de ficção. Assim a autora conseguia reinventar os fatos e transformar o cotidiano
em uma composição a serviço da arte, das transformações e do discurso de resistência.
Em 1930, Alba Valdez escreve um texto intitulado De Pé, pelo qual fala sobre sua
indignação pela exclusão do elemento feminino na Academia Cearense de Letras, da qual
havia participado em 1922 e fora excluída em 1930, quando se iniciava uma nova fase.
Alba escreveu boa parte de seu trabalho abordando a condição feminina a partir de
crônicas, contos e criticando as pessoas cuja visão em relação ao outro é minimalista.
Pela comemoração do cinquentenário do Instituto do Ceará em 1937, Alba Valdez
aproveitou a oportunidade para falar dos obstáculos que as mulheres precisavam
enfrentar, se quisessem conquistar a sua emancipação intelectual:
Aprendia sobre o Brasil a superioridade que gozam sobre os outros
países do mundo, riqueza na fauna, flora e minérios, extensão magnífica
de terra e mais significante a das praias. Habituava-se a amar o Brasil
pelo que ouvia e não pelo que sentia. Foi nesse ambiente, quando a
mulher era mais mimada do que realista, quando pouco se comentava a
bravura de Bárbara de Alencar nos idos de 1817, proclamando a
República no Crato, aderindo ao movimento de Pernambuco, que
fracassou. A bravura de Jovita Alves Feitosa, notabilizando-se na
guerra contra os paraguaios. A bravura de Maria Tomásia Filgueiras
Lima, heroicamente batalhando pelo movimento abolicionista. A
mulher cearense do fim do século dezenove vivia naquele círculo
fechado e compressor da família. Numa sociedade receosa de escândalo
diante de tantos preconceitos, tendo ainda o pai da família, na figura
patriarcal e temida. O chefe que fechava o seu clã dentro dos limites de
uma conveniência exagerada e artificial, tendo, como principal efeito
desse rigor, o irrealismo da formação de suas filhas. A leitura da jovem
era vigiada com severidade, assim sendo perdia ela grande parte do
interesse por um prolongamento. As prendas domésticas sabiam-se
quase todas. Tocava piano, cantava e enfeitava-se. As moças liam
Olavo Bilac, Escrich, George Ohnet e as poesias de Cassemiro de Abreu
e Castro Alves (VALDEZ, 1937, apud SILVA, 2011).

Alba Valdez denuncia a condição de inferioridade à qual a mulher era submetida


ao longo da vida, principalmente as que decidiam lutar para conseguir completar os
estudos e esclarecer-se a respeito do estilo de vida que eram obrigadas a ter por estarem
inseridas em uma sociedade culturalmente machista e dominadora.
Mesmo quando as mulheres tinham acesso à educação e podiam ampliar seus
estudos, eram orientadas e convencidas a se tornarem boas esposas, mães dedicadas,
excelentes donas de casa. Por esse motivo lhes eram oferecidos muitos textos românticos,
para fazê-las sonhar com um ideal de vida cuja base seria a família.

Considerações Finais

Alba Valdez, uma das mais talentosas escritoras do século XIX, destacou-se mais
pela produção publicada em periódicos do que por obras literárias. Escreveu inúmeros
textos para jornais e revistas, dentre os quais, crônicas, contos e poesias. Pelo seu trabalho
como escritora, lutou pelo direito das mulheres de pertencerem ao mundo intelectual dos
escritores, de fazerem parte das agremiações literárias e também para que tivessem os
mesmos direitos de assumir cargos direcionados exclusivamente aos homens.
Referências
ALMEIDA, Luciana Andrade de. Francisca Clotilde e a palavra em ação (1884-1921).
Dissertação de Mestrado em História Social da Universidade Federal do Ceará, 2008,
261f.
AZEVEDO, Sanzio de. O Centro Literário (1894-1904). Fortaleza: Imprensa
Universitária da UFC, 1972.
_______. Literatura Cearense. Fortaleza: Academia Cearense de Letras, 1976.
BARREIRA, Dolor. História da literatura cearense. 1º tomo. Fortaleza: Instituto do
Ceará, 1948.
_________. História da literatura cearense. 2º tomo. Fortaleza: Instituto do Ceará,
1951.
_________. História da literatura cearense. 4º tomo. Fortaleza: Instituto do Ceará,
1962.
DUARTE, Constância Lima. Alba Valdez. In: MUZART, Zahidé Lupinacci (org).
Escritoras Brasileiras do século XIX. Volume II. Florianópolis: Editora Mulheres;
Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2004.
MAIA, Janine Caracas de Souza. O discurso de Alba Valdez na imprensa cearense dos
séculos XIX e XX. Curso de Comunicação Social – Jornalismo. Universidade de
Fortaleza. Fortaleza, 2007.
O NORDESTE. Fortaleza, 12 de abril de 1927.
SILVA, Régia Agostinho da. Entre mulheres, história e literatura: a escrita feita por
mulheres em Fortaleza no século XIX. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História
– ANPUH, São Paulo, julho 2011. Disponível em
http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300906599_ARQUIVO_ENTREM
ULHERES31. Acesso em 17/04/2016.
STUDART, Guilherme. Diccionário Bio-Bibliographico Cearense. v.2. Fortaleza:
Typo-lithographia A Vapor, 1910.

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