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TESTE DE AVALIAÇÃO Nº 1 – 11º ANO

ESCOLA______________________________________________________ DATA ___/ ___/ 20__

NOME_______________________________________________________ N.O____ TURMA_____

GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

PARTE A

No tempo de Noé sucedeu o Dilúvio, que cobriu, e alagou o mundo; e de todos os animais,
quais livraram melhor? Dos leões escaparam dois, leão e leoa, e assim dos outros animais da
terra; das águias escaparam duas, fêmea e macho, e assim das outras aves. E dos peixes?
Todos escaparam; antes não só escaparam todos, mas ficaram muito mais largos que dantes,
5 porque a terra, e o mar, tudo era mar. Pois se morreram naquele universal castigo todos os
animais da terra, e todas as aves, porque não morreram também os peixes? Sabeis porquê?
Diz Santo Ambrósio: porque os outros animais como mais domésticos, ou mais vizinhos,
tinham mais comunicação com os homens; os peixes viviam longe, e retirados deles.
Facilmente pudera Deus fazer que as águas fossem venenosas, e matassem todos os peixes,
10 assim como afogaram todos os outros animais. Bem o experimentais na força daquelas ervas,
com que infecionados os poços, e lagos, a mesma água vos mata; mas como o Dilúvio era um
castigo universal, que Deus dava aos homens por seus pecados, e ao mundo pelos pecados
dos homens, foi altíssima providência da divina Justiça que nele houvesse esta diversidade,
ou distinção; para que o mesmo mundo visse que da companhia dos homens lhe viera todo o
15 mal: e que por isso os animais, que viviam mais perto deles, foram também castigados, e os
que andavam longe ficaram livres. Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens.
Perguntado um grande Filósofo qual era a melhor terra do mundo, respondeu que a mais
deserta, porque tinha os homens mais longe. Se isto vos pregou também Santo António, e foi
este um dos benefícios, de que vos exortou a dar graças ao Criador, bem vos pudera alegar
20 consigo que quanto mais buscava a Deus, tanto mais fugia dos homens. Para fugir dos homens
deixou a casa de seus Pais, e se recolheu, ou acolheu a uma Religião, onde professasse
perpétua clausura. E porque nem aqui o deixavam os que ele tinha deixado, primeiro deixou
Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal. Para fugir, e se esconder dos homens, mudou
o Hábito, mudou o nome, e até a si mesmo se mudou, ocultando sua grande sabedoria
25 debaixo da opinião de idiota, com que não fosse conhecido, nem buscado, antes deixado de
todos, como lhe sucedeu com seus próprios irmãos no Capítulo Geral de Assis. De ali se retirou
a fazer vida solitária em um ermo, do qual nunca saíra, se Deus como por força o não
manifestara, e por fim acabou a vida em outro deserto tanto mais unido com Deus, quanto
mais apartado dos homens.
Padre António Vieira, Obra completa (dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate), tomo II, vol. X,
Lisboa, Círculo de Leitores, 2014, pp. 142-143.

1. Justifique a referência ao Dilúvio no tempo de Noé neste passo do sermão.


2. Identifique a tese que o orador Vieira defende nesta passagem textual.
3. Indique os argumentos de autoridade e de cariz religioso de que se serve Padre António
Vieira para comprovar a tese.

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TESTE DE AVALIAÇÃO Nº 1 – 11º ANO

PARTE B

Leia o texto seguinte, constituído pelas estâncias 96 a 98 do canto VIII de Os Lusíadas, bem como
a contextualização apresentada. Se necessário, consulte as notas.

Contextualização: Esta reflexão do poeta surge após a detenção de Vasco da Gama em Calecute, quando
o capitão português regressava às naus.

96 98
Nas naus estar se deixa1, vagaroso, Este rende munidas fortalezas;
Até ver o que o tempo lhe descobre; Faz trédoros7 e falsos os amigos;
Que não se fia já do cobiçoso Este a mais nobres faz fazer vilezas,
Regedor, corrompido e pouco nobre. E entrega Capitães aos inimigos;
Veja agora o juízo curioso Este corrompe virginais purezas,
Quanto no rico, assi como no pobre, Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Pode o vil interesse e sede imiga Este deprava às vezes as ciências,
Do dinheiro, que a tudo nos obriga. Os juízos cegando e as consciências.

97
A Polidoro2 mata o Rei Treício,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortíssimo edifício,
Com a filha3 de Acriso4 a chuva d' ouro;
Pode tanto em Tarpeia5 avaro vício
Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas
Que, a troco do metal luzente e louro,
(prefácio de Álvaro Júlio da Costa Pimpão),
Entrega aos inimigos a alta torre, Lisboa, Ministério dos Negócios Estrangeiros –
Do qual quási6 afogada em pago morre. Instituto Camões, 2000, canto VIII.

Notas:
1 Referência a Vasco da Gama │ 2 Filho de Príamo, rei de Troia. Quando esta cidade estava prestes a cair em poder

grego, Polidoro é enviado, com ouro, ao Rei de Trácia. Este apodera-se do metal e mata Polidoro. │ 3 Dánae. │
4Soberano de Argos (Grécia) que tenta anular uma profecia (que um neto o mataria), prendendo a filha numa torre;

todavia, Júpiter introduz-se na torre (sob a forma de chuva de ouro) e toma Dánae, mãe de Perseu, que veio a
assassinar Acrísio. │ 5 Rapariga romana que, na esperança de obter anéis de ouro dos Sabinos (que sitiaram Roma),
lhes abre as portas da cidade; contudo, os inimigos não a poupam, esmagando-a sob as joias e os escudos. │ 6 Como
que │ 7 Traidores.

4. Descreva as atitudes reveladoras da prudência de Vasco da Gama, justificando-as.


5. Demonstre que a ânsia pelo dinheiro leva à traição, exemplificando com duas situações da
mitologia clássica.
6. Complete as afirmações abaixo apresentadas, selecionando na tabela a opção adequada a
cada espaço. Registe apenas a letra e o número que correspondem à opção selecionada.

Nestas estâncias são utilizados alguns recursos expressivos frequentes em Os Lusíadas: na


estância 98, contudo, predomina a a) _________ e o paralelismo em b)_______.
a) b)
1. anástrofe 1. “Faz traidores e falsos os amigos”
2. comparação 2. “Este rende…”, “Este corrompe…”, “Este deprava…”
3. enumeração 3. “Sem temer de honra ou fama…”
4. metáfora 4. “E entrega Capitães aos inimigos”

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PARTE C

7. A figura do herói está presente em várias obras, ainda que a sua construção se diferencie.

Escreva uma breve exposição na qual se refira ao(s) herói(s) em Os Lusíadas, de Luís Vaz de
Camões, e ao(s) herói(s) na Crónica de D. João I, de Fernão Lopes.

A sua exposição deve incluir:


 uma introdução ao tema;
 um desenvolvimento no qual explique uma característica do(s) herói(s) em cada
uma das obras, fundamentando com um exemplo significativo de cada uma delas;
 uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

GRUPO II

O texto que abaixo se transcreve é um excerto de uma carta dirigida por Séneca a um amigo que
acabara de fazer uma longa viagem.

Admiras-te, como se fosse um caso raro, de após uma tão grande viagem e uma tão
grande variedade de locais visitados, não teres conseguido dissipar essa tristeza que te pesa
na alma!? Deves é mudar de alma, não de clima. De facto, em que pode ajudar a mudança de
local, ou o conhecimento de novas paisagens e cidades? Toda essa agitação carece de sentido.
5 Andares de um lado para o outro não te ajuda em nada, porque andas sempre na tua própria
companhia. Tens de alijar o peso que tens na alma; antes disso não há terra alguma que te
possa dar prazer! Andas daqui para ali tentando expulsar essa angústia interior, que o teu
incessante deambular apenas consegue agravar. É como num navio: se a carga está imóvel
pouco se faz sentir, mas se anda a rebolar de um lado para o outro ao acaso faz tombar o
10 barco para o lado onde exerce mais pressão. O que quer que faças redunda em teu prejuízo,
esse teu contínuo movimento só te faz mal; é como fazeres andar um doente às voltas! Agora
quando te tiveres libertado da angústia, nessa altura qualquer mudança de local te será
agradável: podes ir parar aos confins da terra, podes ir dar a um canto perdido na barbárie,
que essa terra, seja qual for, se te mostrará hospitaleira! Interessa é a disposição de espírito
15 com que partes, e não o local a que chegas. Por isso mesmo não devemos afeiçoar-nos
demasiado a nenhuma terra em especial. Temos de viver com esta convicção: não nascemos
destinados a nenhum lugar particular, a nossa pátria é o mundo inteiro! Quando te tiveres
convencido desta verdade, deixará de espantar-te a inutilidade de andares de terra em terra,
levando para cada uma o tédio que tinhas à partida. Se te persuadires de que toda a terra te
20 pertence, o primeiro ponto em que parares agradar-te-á de imediato. O que tu fazes agora
não é viajar, mas sim andar à deriva, a saltar de um lado para o outro, quando na realidade o
que tu pretendes – viver segundo a virtude – podes consegui-lo em qualquer sítio.

Séneca, Cartas a Lucílio, III, 28 (Tradução de J. A. Segurado e Campos, Lisboa), Lisboa, Fundação
Calouste Gulbenkian, 1991, pp. 104-105 (texto com supressões).

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TESTE DE AVALIAÇÃO Nº 1 – 11º ANO

1. As perguntas retóricas colocadas no início da carta têm por objetivo


(A) destacar as dúvidas do autor da carta.
(B) ironizar com o desconhecimento do destinatário.
(C) justificar a inutilidade das viagens.
(D) provocar o destinatário da carta.

2. Nesta carta, Séneca destaca


(A) o conhecimento que advém do contacto com novas paisagens e novas cidades.
(B) a relação entre o estado de espírito e a importância atribuída às viagens.
(C) a situação angustiante que decorre da deambulação por locais inóspitos.
(D) a angústia que qualquer longo percurso provoca em qualquer entediado.

3. A afirmação “um canto perdido na barbárie” (l. 13) refere-se a


(A) um local remoto, longe da cultura e da civilização.
(B) um poema épico ignorado ou desvalorizado.
(C) uma terra isolada, onde só vive gente cruel, que repudia visitas.
(D) um cântico de povos indígenas preservado ao longo dos tempos.

4. A afirmação “Temos de viver com esta convicção” (l. 16) exemplifica a modalidade
(A) epistémica de certeza.
(B) deôntica de permissão.
(C) apreciativa.
(D) deôntica de obrigação.

5. A forma verbal “parares” (l. 20) encontra-se no


(A) presente do indicativo.
(B) futuro do indicativo.
(C) futuro do conjuntivo.
(D) infinitivo pessoal.

6. Indique as funções sintáticas desempenhadas pelo pronome relativo “que” em


a) “que te pesa”(l. 2);
b) “que tens na alma” (l. 6).

7. Classifique a oração sublinhada em “levando para cada uma o tédio que tinhas à partida” (l. 19).

COTAÇÕES

Item
Grupo
Cotação (em pontos)
1. 2. 3.
I–A 45
15 15 15
4. 5. 6.
I–B 45
15 15 15
I–C Item único (24 + 16) 40
1. 2. 3. 4. 5. 6. 7.
II 70
10 10 10 10 10 10 10
TOTAL 200

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PROPOSTA DE CORREÇÃO

GRUPO I

Parte A

1. Quando o orador Vieira evoca o Dilúvio e a Arca de Noé, tem como principal objetivo destacar a
superioridade dos peixes relativamente aos restantes animais da Terra, afirmando que, se dos animais
terrestres apenas um macho e uma fêmea foram salvos, entrando na arca, todos os peixes foram
poupados da morte e isto por terem sempre vivido afastados dos homens, permitindo-lhes beneficiar
da proteção divina e, assim, escapar com vida dos efeitos do Dilúvio.

2. A tese que Padre António Vieira defende é a de que é vantajoso viver-se afastados dos homens. Por
isso é que os peixes, por viverem noutro elemento (a água), não mantêm contacto com eles e, assim,
são superiores. O Dilúvio era “o castigo que Deus dava aos homens por seus pecados” e,
consequentemente, acabou por tirar a vida também a todos aqueles que mais próximo dos homens
viviam e com eles podiam aprender os mesmos vícios ou defeitos.

3. Padre António Vieira serve-se de dois argumentos de autoridade, de cariz religioso, ao invocar Santo
Ambrósio e Santo António e respetivas doutrinas.
Santo Ambrósio lembra a distância que os peixes mantinham dos homens e que contrastava com a
proximidade dos outros animais terrestres; Santo António defende como necessária a distância que
se devia manter dos homens, tomando ele a iniciativa de se afastar deles para poder encontrar Deus,
o que o levou a mudar de lugar, de hábito e de nome. No fundo, ambos confirmam a importância de
evitar o contacto com os homens para se alcançar a salvação.

PARTE B

4. Face à cilada de que foi vítima, Vasco da Gama decide permanecer na nau, ficar atento às verdadeiras
intenções do Catual, mostrando-se prudente e consciente da necessidade de entender o verdadeiro
objetivo daquele corregedor.

5. São duas as situações da mitologia clássica que comprovam que a ânsia do dinheiro pode levar à
traição. Camões refere, por exemplo, que o rei Treício assassinou Polidoro, rei de Troia, para lhe roubar
o ouro que transportava (“A Polidoro mata o Rei Treício, / Só por ficar senhor do grão tesouro” – est.
96, vv. 1-2); também Tarpeia abriu as portas da cidade aos Sabinos, inimigos de Roma, porque
esperava ser recompensada com joias de ouro (“Pode tanto em Tarpeia avaro vício,/ Que, a troco do
metal luzente e louro, / Entrega aos inimigos a alta torre” – est. 98, vv. 5-7).

6. a) 3
b) 2

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TESTE DE AVALIAÇÃO Nº 1 – 11º ANO

PARTE C

7. Embora com dois séculos a separar as duas obras em análise, tanto a crónica de Fernão Lopes como a
epopeia camoniana apresentam em comum um tom épico e o mesmo tipo de heróis.
Efetivamente, Fernão Lopes, autor do século XIV, considerado o primeiro historiador português, exalta
na Crónica de D. João I um herói coletivo – o povo português, na luta pela independência nacional.
Contudo, e à semelhança de Camões, não deixa de evidenciar alguns heróis individuais, como é o caso
do mestre de Avis ao assumir a liderança dos lusitanos na luta contra os castelhanos. Também Camões
destaca Vasco da Gama como herói individual, ao comando dos navegadores portugueses, ainda que
representando todo um povo cuja determinação e heroísmo foram essenciais no desvendar dos mares
e em particular na descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Assim, pode dizer-se que os dois autores, nas obras referidas, elegem o povo português como herói
coletivo, se bem que também destaquem aqueles que lideraram as ações narradas.
(165 palavras)

GRUPO II

1. D
2. B
3. A
4. D
5. C
6. a) sujeito; b) complemento direto;
7. Subordinada adjetiva relativa restritiva.

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