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12 de Outubro de 2019

Estado, governo e sociedade: para uma Teoria Geral da Política

1. Introdução

O trabalho desenvolvido nas próximas páginas visa tratar


resumidamente do livro “Estado, governo e sociedade – para uma
teoria geral da política”, escrito pelo grande professor Norberto
Bobbio.

O livro é de fundamental importância para acadêmicos de direito


pois nos explica as origens do direito público e do direito privado,
uma grande discussão nesta área. Mostra-nos as origens e as diversas
concepções sobre “Sociedade Civil”, sua importância, e sua distinção,
porém interdependência, para com o Estado. Na obra também
podemos apreciar e melhor compreender acepções sobre o Estado e a
Sociedade, a importância do Estado ser o detentor do poder, e sobre o
fim do Estado, que não está próximo de acontecer, pois para haver
uma sociedade sem Estado, é necessária uma sociedade sem a
necessidade de um aparato coercitivo, ou seja, de uma força em
potencial, então esta sociedade deveria ser totalmente moralizada e
com muito bom senso para saber delimitar a liberdade individual
com a coletividade. Um dos aspectos fundamentais do livro é o
capítulo sobre Democracia e Ditadura, onde é falado sobre os
diversos modos que a Democracia pode ser exercida, seus usos e suas
formas, e os diferentes tipos de Ditaduras que foram instaurados pelo
mundo.

2. A grande dicotomia público/privado


Uma dupla dicotômica

A dupla de termos público/privado fez seu ingresso na história do


pensamento político e social do Ocidente através de duas comentadas
passagens do Corpus Iuris. Com seu uso constante, essas duas
palavras começaram a delimitar, representar, um próprio campo de
investigação, como, por exemplo, as palavras paz/guerra;
democracia/autocracia.

Uma dicotomia ocorre quando podemos dividir dois aspectos, de


modo que, se encaixem em conjuntos opostos e quando todos os itens
aos quais a disciplina se refere devem nela ter lugar e quando
tendem a convergir em sua direção outras dicotomias que se tornem,
em relação a ela, secundárias.

Na linguagem jurídica, a importância que a distinção entre direito


público e direito privado obteve sobre todas as outras distinções fez
com que ela se encaixasse na categoria de priori do pensamento
jurídico, por um filósofo do direito de orientação neo-kantiana.

As dicotomias correspondentes

A dicotomia direito público/privado pode ser definida uma


independente da outra, porém, em uma segunda definição, direito
privado ganha uma definição negativa como “não - público” assim,
direito público torna-se o termo forte da dicotomia. Essa dicotomia
reflete a divisão entre aquilo que pertence aos membros singulares e
à coletividade.

A relevância desta dicotomia revela-se no fato de que nela


compreendem, ou convergem outras dicotomias tradicionais, que
podem até substituí-la. Outros aspectos de uma sociedade se revelam
através dela, como as relações de subordinação, uma vez que, a
sociedade natural e a sociedade de mercado são elevadas a um
modelo de espera privada contraposta à esfera pública.
Outra importante distinção ocorre em relação as fontes. No direito
público a lei é uma norma que é posta pelo detentor do supremo
poder e é reforçada através da coação, já o contrato usado no direito
privado regula acordos bilaterais que ocorrem fora da esfera pública.
No direito natural, o contrato é visto como uma regulação das ações
no estado de natureza, ou seja, quando ainda não há um poder
público. A lei é usada para regular as relações entre o Estado e os
indivíduos singulares que são unidos através dele. Kant acredita que
o direito privado é o direito do estado de natureza em que a
propriedade e o contrato são as principais características, já o direito
público é a abolição do estado de natureza em que em sua defesa é
usado o poder coativo em posse do soberano.

Escritores pós-naturalistas como Hegel criticam o contratualismo dos


jusnaturalistas, ou seja, a doutrina que funda o Estado sobre o
contrato social, uma vez que a vinculação do Estado com os cidadãos
não é passível de revogação e a vida não é um bem contratualmente
indisponível.

Existem duas formas clássicas de justiça, a distributiva, em que a


justiça se dá quando duas coisas que se trocam sejam, para que sua
troca seja considerada justa, de igual valor e a comutativa, que ocorre
em função de critérios que podem mudar segundo a situação.

O uso axiológico da grande dicotomia

A dicotomia público/privado apresenta um significado valorativo, em


que, um tende a ser oposto ao outro, uma vez que, quando um obtém
um significado valorativo, o outro apresenta um negativo. Então
surgem duas concepções, a da predominância do direito privado
sobre o público e a da predominância do direito público sobre o
privado. A primeira se confirma através da difusão do direito romano
no Ocidente, cujas principais formações estão na família, na
propriedade, no contrato e nos testamentos. O direito romano
adquire um caráter racional em que os institutos que ele estabelece
são vistos como naturais. Na sua origem, o direito privado romano foi
um direito positivo e histórico, porém foi se tornando um direito
natural através de juristas, até transformar-se, novamente, em um
direito positivo no século XIX. Ele é defendido como o direito da
razão.

O direito público como um conjunto de normas é visto tardiamente


em relação ao direito privado, ocorrendo apenas na época de
formação do Estado moderno. Outra evidência do direito privado em
relação ao público se diz quanto ao direito de propriedade, que não
permite ao soberano expropriar.

A supremacia do público sobre o privado parte do princípio de que o


todo vem antes das partes, que o individuo deve renunciar a sua
autonomia em prol da nação e que cada um age para um bem comum
segundo as regras de um grupo dirigente que a representa, seja
autocrático ou democrático. O primado do público estimula a
intervenção estatal no comportamento dos indivíduos e nos grupos
infra-estatais, tomando ações coativas. O que a diferencia da
emancipação da sociedade civil em relação ao Estado, esta que
ocorreu com o nascimento da burguesia.

O segundo significado da dicotomia

A dicotomia público/privado pode ser confundida com aquilo que é


aberto ao público e aquilo que é restrito, porém, no universo em que
se insere a grande dicotomia isto se torna um erro. Um exemplo disso
é o fato do poder político ser público mesmo quando o poder político
não se dá por parte do público. Isto evidencia duas formas de
governo: a república, cujo poder encontra-se nas mãos do público, e o
principado que se vale do segredo de Estado.

A publicidade de quem detém o poder, ou seja, se suas decisões são


abertas ao público, contradiz com a teoria dos arcana imperi que
ocorrera em governos absolutos. Nessa teoria, o poder do príncipe é
tão mais eficaz quanto mais oculto está, sendo justificada por se
tornarem decisões mais rápidas e por serem objeto de domesticação
do público que não tem discernimento para tomar decisões. Todos
esses fatores eram assegurados, uma vez que, as decisões eram
tomadas longe do público e não havia publicidade das mesmas. O
príncipe ainda era assegurado por poder simular e dissimular.
Devido a esses fatores uma contra-reação não existe, tendo o poder
legitimação.

Do lado oposto a essas formas de poder, está a república, que exige a


visibilidade do poder, sendo o poder exercido na assembléia dos
cidadãos. Não é possível uma democracia sem publicidade, uma vez
que, é essencial a esta a formação da opinião pública para assegurar
que as decisões não se tornem objeto de um singular.

O processo de visibilidade do poder invisível jamais se completa, já


que este cria novos métodos para se esconder, seja com a justificação
de poder atribuído por Deus, seja com a influência do poder público
sobre a imprensa através do monopólio dos meios de comunicação
sob fortes ideologias.

3. A sociedade civil

As várias acepções

A sociedade civil, na linguagem política de hoje, faz parte da


dicotomia sociedade civil/Estado. Para se delimitar o significado de
sociedade civil, deve-se fazer o mesmo em relação ao Estado.

Negativamente, por sociedade civil entende-se a esfera das relações


sociais não reguladas pelo Estado. Buscamos em August Ludwig Von
Scholozer (1794) a distinção entre sociedade civil sem império e
sociedade civil com império, na qual esta segunda expressão indica o
Estado. Nessa época ainda não havia a contraposição entre sociedade
e Estado.

Com a noção restritiva do Estado como órgão de poder coativo


concorrem as idéias que deram origem ao mundo burguês: a
afirmação de que os direitos individuais são independentes do
Estado. O homem é naturalmente bom e não precisa do poder coativo
do Estado para ver as coisas prosperarem.

Devemos aos escritores alemães (especialmente a Hegel e Marx) o uso


de “sociedade civil” no significado de esfera das relações sociais
distinta das relações políticas. Deve-se afirmar também que o direito
civil, distinto do direito penal, compreende as matérias pertencentes
ao direito privado.

Como a sociedade civil nasceu da contraposição entre uma esfera


política e uma esfera não política, é mais fácil dela encontrar uma
definição negativa do que uma positiva, porque nos tratados de
direito público sempre está presente uma definição positiva do
Estado: sociedade civil é o conjunto de relações não reguladas pelo
Estado. Mesmo numa noção tão vaga, podem-se distinguir diversas
acepções conforme prevaleça a identificação do não-estatal com o
pré-estatal, com o anti-estatal ou com o pós-estatal. Na primeira
dessas acepções admite-se que antes do Estado existem várias formas
de associação que os indivíduos formam entre si para satisfação dos
seus interesses, associações as quais o Estado se superpõe para
regulá-las, mas sem vetar o seu desenvolvimento.

Na segunda acepção surgem os grupos que lutam pela emancipação


dos poderes políticos, os chamados contra-poderes. Já na terceira
acepção, a sociedade civil representa o ideal de uma sociedade sem
Estado.

· Primeira acepção: figura da pré-condição do Estado

· Segunda acepção: antítese do Estado, ou seja, daquilo que se põe


como alternativa do Estado.

· Terceira acepção: dissolução e fim do Estado.


Na definição positiva de sociedade civil, faz-se um repertório de tudo
aquilo que foi desordenadamente empregado pela exigência de
circunscrever o âmbito do Estado. Pode-se dizer que sociedade civil é
o lugar onde se desenvolvem os conflitos econômicos, sociais,
ideológicos, religiosos que as instituições estatais têm o dever de
resolver pela mediação ou repressão. Sujeitos desses conflitos são as
classes sociais ou os grupos que representam. Esses grupos são os
partidos políticos, que têm um pé na sociedade e o outro nas
instituições governamentais. Os partidos políticos têm a função de
selecionar e transmitir as demandas da sociedade civil objeto de
divisão política.

Nas teorias sistêmicas da sociedade global, a sociedade civil ocupa o


espaço reservado as demandas que se dirigem ao sistema político e as
quais o sistema político tem o dever de responder. Uma sociedade
torna-se tanto mais ingovernável quanto mais aumentam as
demandas e não aumenta a capacidade das instituições de não as
responder. Ligado ao tema da ingovernabilidade está o da
legitimação. As instituições representam o poder legitimo, isto é, o
poder cujas decisões são aceitas e cumpridas. Quando há uma crise
governamental a sobrevivência do sistema político deve ser buscada
na sociedade civil, na qual podem ser encontradas novas fontes de
legitimação. Na sociedade civil inclui-se também o fenômeno da
opinião pública entendida como a pública expressão de consenso e
dissenso com respeito às instituições sem opinião pública, a
sociedade civil está destinada a desaparecer. Isto pode ser notado
num Estado totalitário, onde não há opinião pública, somente a
opinião do Estado.

A interpretação marxiana

O uso atual da expressão sociedade civil, como tempo ligado ao


Estado, ou sociedade política, é de derivação marxiana, e através
deste, hegeliana. O uso marxiano é redutivo ao hegeliano. A
passagem canônica para o surgimento do termo sociedade civil nas
visões de Hegel e estudada por Marx, concluiu que as instituições
jurídicas e políticas tinham suas raízes nas relações materiais de
existência, onde o conjunto disso incorpora o termo ‘’sociedade civil’.
Para Marx a sociedade civil é o lugar das relações econômicas, ou
seja, sociedade civil passa a significar o conjunto das relações
interindividuais de que estão fora, ou antes, do Estado. A substituição
da expressão ‘’sociedade natural’’ por ‘’sociedade civil’’ é comprovada
pela obra A sagrada família (de Marx e Engels) onde se lê que “O
estado moderno tem com base natural a sociedade civil, o homem da
sociedade civil, isto é, o homem independente, unido ao outro
homem apenas pelo vínculo do interesse privado e da necessidade
natural inconsciente”.

Na tradição jusnaturalista o que chamamos de Estado, era chamado


de sociedade civil. Para Marx a sociedade burguesa tem como uma
classe que completou a emancipação política libertando-se dos
vínculos do Estado absoluto e contrapondo ao Estado tradicional os
direitos do homem e do cidadão que são, na realidade, os direitos que
de agora em diante deverão proteger os próprios interesses de classe.
Para Gramsci que considera as ideologias como parte da
superestrutura e a sociedade civil como a esfera na qual agem
aparatos ideológicos que buscam exercer a hegemonia, e através
desta, obter o consenso. Para Marx a sociedade civil é o conjunto das
relações econômicas constitutivas da base material.

Para representar a contraposição sociedade civil/Estado, há outras


dicotomias, como consenso/força, persuasão/coerção, moral/política,
direção/domínio. A sociedade civil representa o momento da
eticidade, onde uma classe dominante obtém o consenso, adquirindo
legitimidade, o Estado representa o momento político estritamente
entendido, através do qual é exercida a força, não menos necessária
do que o consenso para conservar o poder. Assim, Gramsci recupera
o significado jusnaturalista de sociedade civil como sociedade
fundada sobre o consenso, com uma diferença, onde no pensamento
jusnaturalista, a legitimidade do poder político depende de estar ele
fundado sobre o contrato social, a sociedade do consenso por
excelência é o Estado, enquanto para Gramsci, a sociedade do
consenso é apenas aquela destinada a surgir da extinção do Estado.
O sistema hegeliano

Marx descobre a sociedade civil subjacente as instituições políticas


estudando Hegel, e identifica essa sociedade com a esfera das
relações econômicas. A categoria hegeliana da sociedade civil é mais
complexa. Cada momento intermediário da eticidade entre família e
Estado permite a construção de um esquema triádicos (conjunto de
três pessoas ou coisas) que se contrapõe aos dois modelos diáticos:
Aristotélico que é baseado na família/Estado. Jusnaturalista que é
baseado na dicotomia estado de natureza/estado civil.

Nas lições berlinenses, a seção dedicada à sociedade civil está


dividida em: Sistema das necessidades, administração da justiça e
política. Alguns estudiosos chegaram a considerar a sociedade
hegeliana como uma espécie de categoria residual, na qual Hegel,
após tentar durante vinte anos sistematizar a matéria, terminou por
recolher tudo o que não podia ser incluído na família e no Estado. A
divisão hegeliana pode ser compreendida se atentar para o fato de
que a sociedade civil havia significado durando séculos o Estado na
dupla contraposição: família, na tradição aristotélica, e estado de
natureza, na tradição jusnaturalista.

O que diferencia a sociedade civil de Hegel da de seus predecessores


é que ela representa o primeiro momento de formação do Estado, que
é o Estado jurídico-administrativo, cuja tarefa é regular relações
externas, enquanto o Estado propriamente dito tem por tarefa
realizar a adesão íntima do cidadão à totalidade de que faz parte
(também chamado de Estado interior). A distinção hegeliana entre
Estado e sociedade civil é a distinção entre Estado inferior e Estado
superior, onde este último é caracterizado pela constituição e pelos
poderes constitucionais (poder monárquico, poder legislativo e poder
governativo) e o inferior é caracterizado pelos poderes jurídicos
subordinados (poder judiciário e poder administrativo). O poder
judiciário tem a função de dirimir conflitos e o administrativo tem a
função de prover a utilidade comum.
O próprio Hegel reconhece que nos Estados antigos não existia a
sociedade civil, e o erro dos descobridores desta é terem acreditado
que nela poderiam exaurir a essência do Estado. A razão pela qual
Hegel colocou o Estado acima do conceito de seus antecessores está
no fato de se reconhecer ao Estado o direito de solicitar dos cidadãos
o sacrifício de seus bens (através dos impostos) e da própria vida
(quando se declara a guerra)

O que caracteriza um Estado são as relações que ele mantém com


outro Estado. O Estado é sempre personagem da história e não a
sociedade civil.

A tradição jusnaturalista

O filósofo Aristóteles cita que a pólis ou cidade, que tem o caráter de


comunidade independente e auto-suficiente, ordenada à base de uma
constituição, fez com que fosse considerada ao longo dos tempos
como a origem histórica do Estado. Onde o Estado é o prosseguimento
natural da sociedade familiar, de sociedade doméstica ou família, já
para o modelo hobbesiano (jusnaturalista), onde o Estado é o oposto
do estado natureza, na qual este último é constituído por indivíduos
livres e iguais. A diferença é que enquanto a societas civilis do
modelo aristotélico é sempre uma sociedade natural, no sentido de
que corresponde perfeitamente à natureza social do homem, esta
mesma societas civilis no modelo hobbesiano é uma sociedade
instituída ou artificial.

Um exemplo do modelo jusnaturalista, citado por Kant é onde “o


homem deve sair do estado de natureza, no qual cada um segue os
caprichos da própria fantasia, e unir-se com todos os demais [...]
submetendo-se a uma constrição externa publicamente legal [...] vale
dizer que cada um deve, antes de qualquer outra coisa, ingressar
num estado civil”. Tal persistência no modelo jusnaturalista passou a
prevalecer com Hobbes, no uso da expressão “sociedade civil”, o
significado de “sociedade artificial”.
Haller, um autor tradicionalista, considera o Estado segundo o
modelo de Aristóteles como uma sociedade natural semelhante à
família. O jusnaturalismo não baniu a palavra ‘’sociedade civil’’,
apenas modificou o significado. Esta expressão “sociedade civil” foi
empregada também para distinguir o âmbito de competência do
Estado ou do poder civil, do âmbito de competência da Igreja, ou do
poder religioso, ou seja, na contraposição sociedade civil/sociedade
religiosa, se agregando à tradicional sociedade civil/sociedade
doméstica.

A dicotomia família/Estado, que é o ponto de partida do modelo


Aristotélico, com a dicotomia Igreja/Estado, fundamental na tradição
do pensamento cristão.

Sociedade civil como sociedade civilizada

Sociedade civil significa sociedade civilizada. O progresso da


sociedade onde a humanidade passou e continua a passar do estado
selvagem dos povos caçadores sem propriedade e sem Estado ao
estado bárbaro dos povos que iniciavam na agricultura e
introduziram os primeiros germes de propriedade, ao estado civil
caracterizado pela instituição da propriedade, do comércio e do
Estado. Para Ferguson o estado de natureza aparece os barbáries e o
estado civil aparece a elegantia, que para ele dizia ser cível não
porque se diferencia da sociedade doméstica ou da sociedade natural,
mas porque se contrapõe as sociedades primitivas. Para Hegel, os
Estados antigos, tanto os despóticos quanto as repúblicas gregas, não
possuíam uma sociedade civil.

Rousseau no Discurso sobre a origem e os fundamentos da


desigualdade entre os homens, descreve o estado de natureza, no
qual a condição do homem natural não necessita da vida em
sociedade, onde a natureza o serve apenas para necessidades
essenciais, sendo feliz com o seu estado. Logo descreve o estado de
corrupção em que o homem cai após a instituição da propriedade
privada, que estimula os instintos egoístas, e após a invenção da
agricultura e da metalurgia que faz com que tenha uma dominação
entre o homem mais forte e o mais fraco.

Para muitos escritores, sociedade civil tem o significado de sociedade


política, para Rousseau, sociedade civil significa sociedade civilizada,
porém não tirando a hipótese de ser sociedade política, onde esta
última o homem deve sair para instituir república fundada sobre o
contrato social.

O debate Atual

O significado predominante foi o de sociedade política ou Estado,


diferenciada da sociedade doméstica, da sociedade natural, e da
sociedade religiosa. Segundo Hegel, para qual pela primeira vez a
sociedade civil não compreende mais ao Estado na sua globalidade,
mas representa apenas um momento no processo de formação do
Estado. Prosseguindo com Marx, que concentrando a atenção sobre o
sistema das necessidades que constitui apenas o primeiro momento
da sociedade civil hegliana, compreende na sociedade civil
exclusivamente as relações materiais ou econômicas e, com uma
inversão já completa do significado tradicional, não apenas separa a
sociedade civil do Estado como dela faz o momento ao mesmo tempo
fundante antitético.

No debate atual a contraposição permaneceu, onde a sociedade civil é


anteado do Estado entrou de tal maneira na prática cotidiana, que
necessita de um esforço para se convencer que, durante séculos, a
mesma expressão foi usada para designar aquele conjunto de
instituições e de normas que hoje constituem exatamente o que se
chama de Estado, onde ninguém poderia mais chamar de sociedade
civil.

Com a doutrina do direito natural e com o contratualismo, o Estado


passou a ser visto, sobretudo em seu aspecto de associação voluntária
para a defesa da vida, da propriedade, da liberdade.
Para Maquiavel, o Estado não pode mais ser assemelhado como uma
forma de sociedade, quando ele diz sobre Estado, pretende citar do
máximo poder que se exerce sobre os habitantes de um território, e
do aparato de que alguns homens se servem para adquiri-lo e
conservá-lo. Entretanto o Estado-sociedade passa a ser o Estado-
máquina.

A contraposição entre a sociedade e o Estado com o nascimento da


sociedade burguesa é a conseqüência natural de uma diferenciação
que ocorre nas coisas e uma divisão de tarefas, cada vez mais
necessária, entre os que se ocupam de “riqueza de nações” e os que se
ocupam das instituições políticas. A socialização do Estado através do
desenvolvimento das várias formas de participação nas opções
políticas, do crescimento das organizações de massa que exercem
direta ou indiretamente algum poder político, na qual a expressão
“estado social” poder ser entendida não somente no Estado que
permeou a sociedade, mas também no sentido do Estado permeado
pela sociedade.

Dois processos que representam duas figuras, como cidadão


participante e cidadão protegido é que o Estado que faz a sociedade
(conduziria o Estado sem sociedade, ao Estado totalitário) e da
sociedade que se faz o Estado (sociedade sem Estado, ou seja,
extinção do Estado).

Sociedade e Estado agem como dois momentos necessários, distintos,


porém interdependentes, do sistema social em sua complexidade e
sua articulação interna.

4. Estado, poder e governo

Para o estudo do Estado:

As duas principais fontes para o estudo do Estado são a história das


instituições políticas e a história das doutrinas políticas. Diante disso,
os ordenamentos de um determinado sistema político tornaram-se
conhecidos através da reconstrução, às vezes da deformação ou da
idealização, que deles fizeram os escritores. Por exemplo, Hobbes foi
identificado com o Estado absoluto limitado, Rousseau com a
democracia e Hegel com a monarquia constitucional.

O início desse contexto pode ser fornecido por Maquiavel que


reconstrói a história e o ordenamento das instituições da republica
romana. Nesse passo, ressalta-se ainda o estudo das leis que regula as
relações entre governantes e governados. Atualmente, a história das
instituições não só se emancipou como já citado, mas também
ampliou seu objeto de estudos para além da análise dos
ordenamentos civis.

Assim, o que se tem, hoje, é um aprofundamento crítico do estudo


concreto do funcionamento da máquina estatal, num determinado
período histórico, de um específico instituto, através dos documentos
escritos, dos testemunhos de atores, das avaliações dos
contemporâneos, progredindo do estudo de um instituto fundamental
como, por exemplo, o parlamento e as suas particularidades nos
diversos países ao estudo de institutos particulares como o Secretário
de Estado, o Superintendente e etc.

Por isso, torna-se viável a descrição da passagem do Estado feudal à


monarquia absolutista, ou a gradual formação do aparato
administrativo, através da qual se pode reconstruir o processo de
formação do Estado moderno e contemporâneo.

Filosofia e ciência política:

Mais do que em seu desenvolvimento histórico, aqui, o Estado é


estudado em si mesmo, em suas estruturas, funções, elementos
constitutivos, mecanismos e órgãos, ou seja, como um sistema
complexo de relações com outros contíguos. Na atualidade, dadas as
circunstâncias, o campo de investigação está dividido em duas
disciplinas distintas: a filosofia política e a ciência política.
Na filosofia política são compreendidos três tipos de investigação: a)
melhor forma de governo ou da ótima república; b) fundamento do
estado, ou do poder político, com a conseqüente justificação da
obrigação política; c) da essência da categoria do político ou da
politicidade, com a prevalência da disputa sobre a distinção entre
ética e política.

Como ciência política entende-se hoje ser uma investigação no campo


da vida política capaz de satisfazer a essas três condições: a) principio
da verificação ou de falsificação como critério da aceitabilidade dos
seus resultados; b) o uso de técnicas da razão que permitam dar uma
explicação causal em sentido forte ou mesmo em sentido fraco do
fenômeno investigado; c) a abstenção dos juízos de valor

Ponto de vista sociológico e jurídico:

Essa distinção torna-se necessária em seguida a tecnicização do


direito público e à consideração do Estado como pessoa jurídica, que
dela derivou. Por sua vez, a tecnicização do direito público é a
conseqüência da concepção do Estado como Estado de direito, como
Estado concebido principalmente como órgão de produção jurídica, e
mais, como ordenamento jurídico também.

Por outro lado, tal reconstrução do Estado como ordenamento não


tinha feito com que se esquecesse que ele é também uma forma de
organização social, e que, como tal, não poderia ser dissociado da
sociedade e das relações sociais subjacentes. Daí a necessidade de
uma distinção entre o ponto de vista jurídico, a ser deixado aos
juristas, e o sociológico, que deveria valer-se das contribuições dos
estudiosos das várias organizações sociais.

Estado e sociedade:

A família foi considerada por Aristóteles como primeira forma


embrionária e imperfeita da pólis (cidade-estado grega). A relação
entre sociedade política e as sociedades particulares é uma relação
entre o todo e as partes, na qual o todo, o ente englobador, é a pólis, e
as partes englobadas são a família e as associações.

Assim, pouco a pouco a sociedade nas suas várias articulações torna-


se o todo, do qual o Estado, considerado restritivamente como o
aparato coativo com o qual um setor da sociedade exerce o poder
sobre o outro. E se o curso da humanidade se desenrolou das
sociedades menores (como a família) ao Estado da atualidade, a
tendência inverte-se para o processo inverso que vai do Estado
opressivo à sociedade libertada.

Prova disso, é o nascimento de uma das idéias predominantes do


século XIX, comum tanto ao socialismo utópico quanto ao científico e
nas mais variadas formas de pensamento libertário, a idéia da
inevitável extinção do Estado ou a sua redução aos mínimos termos.

O Estado e o poder:

Na filosofia política a questão do poder foi apresentada sob três


aspectos, à base dos quais podem-se distinguir as teorias
fundamentais do poder: a substancialista, a subjetivista e a
relacional.

Assim, o poder de acordo com Hobbes consiste nos meios de que o


homem, presentemente, dispõe para obter qualquer visível bem
futuro. Em concordância com ele, Bertrand Russel, acredita que o
poder caracteriza-se pela produção dos efeitos desejados e pode
assumir enquanto tal três formas: poder físico e constritivo é o
militar em si; o psicológico, por meio do medo da repressão; e o
mental, que se exerce por meio da persuasão.

As formas do poder e o poder político:

As formas de poder são a econômica, ideológica e a política. A do


poder político é aquela que se vale da posse de determinados bens,
numa situação de escassez, para induzir os que não os possuem a
adotar certa conduta consistente, principalmente na execução de um
trabalho útil, assim o detentor dos bens consegue determinar um
comportamento alheio.

O poder ideológico é aquele que se vale da posse de determinadas


formas de saber, doutrinas, ou conhecimentos específicos para
exercer uma influência sobre o comportamento alheio. O político
caracteriza-se pela utilização da força para proteger-se dos ataques
externos ou para impedir a própria desagregação interna.

Além disso, de acordo com Aristóteles, por meio da idéia do interesse


e da tipologia clássica, os tipos de poder são baseados de acordo com
o critério da esfera em que ele é exercido: o poder dos pais sobre os
filhos (patriarcal); do senhor sobre os escravos (despótico); e do
governante sobre os governados (civil).

Locke da mesma forma caracteriza as forma de poder, entretanto os


justifica, de forma diversa, a sua legitimidade, pois o poder do pai é
um poder cujo fundamento é natural na medida em que nasce da
própria geração; o senhorial é o efeito do direito de punir quem se
tornou culpado de um grave delito e é, portanto, passível de uma
pena igualmente grave; e o poder civil está fundado sobre o consenso
expresso ou tácito daqueles aos quais é destinado.

O uso da força física é a condição necessária e essencial para a


definição do poder político, e se o uso da força é a condição
elementar, apenas a utilização exclusiva dela, torna-se condição
suficiente para a conceituação do que é o poder político. Além disso, a
exclusividade do direito se utilizar a força sobre determinado
território faz parte dos elementos constitutivos do poder político.

O fundamento do poder:

A recorrente consideração segundo a qual o supremo poder que é o


poder político, deva também ter uma justificação, deu lugar a várias
formulações de princípios de legitimidade, isto é, dos vários modos
com os quais se procurou dar, a quem detém o poder, uma razão de
comandar, e a quem suporta o poder, uma razão de obedecer.

Remeter-se à natureza para fundar o poder significa dizer que o


direito de comandar de uns e o dever de obedecer dos outros
derivam do fato inelutável de que estes exsitam naturalmente, e,
portanto independentemente da vontade humana, existem pessoas
fortes e fracas, sábias e ignorantes, ou seja, indivíduos e mesmo
povos inteiros aptos a comandar e outros capazes apenas de obedecer

De acordo com Kelsen, uma autoridade de fato constituída é o


governo legítimo, o ordenamento coercitivo imposto por esse
governo é um ordenamento jurídico, e a comunidade constituída por
tal ordenamento é um no sentido do direito internacional, na medida
em que este ordenamento é em seu conjunto eficaz.

Ainda em acordo com o tema, pode-se dizer então que o poder


legitimo como poder que se consegue condicionar o comportamento
dos membros de um grupo social emitindo comandos que são
habitualmente obedecidos na medida em que o seu conteúdo é
assumido como máxima para o agir.

Estado e direito:

“O Estado é um ordenamento jurídico destinado a exercer o poder


soberano sobre um dado território, ao qual estão necessariamente
subordinados os sujeitos a ele pertencentes. E é constituído de três
elementos: o povo, território e a soberania” (Mortati 1969, pág. 23).

Na rigorosa redução que Kelsen faz do Estado a ordenamento


jurídico, o poder soberano torna-se o poder de criar e aplicar o
direito num território e para um povo. O território torna-se o limite
da validade espacial do direito do Estado, no sentindo de que as
normas jurídicas emanadas do poder soberano valem apenas dentro
de determinadas fronteiras.
O povo torna-se o limite da validade pessoal do direito do Estado no
sentido de que as próprias normas jurídicas valem apenas para
determinados sujeitos que, deste modo, passam a constituir os
cidadãos do Estado.

Os limites internos e externos:

Uma ulterior fase do processo de limitação jurídica do poder político


é a que se afirma na teoria e na prática da separação dos poderes.
Enquanto a disputa entre Estamentos e Príncipe diz respeito ao
processo de centralização do poder do qual nasceram os grandes
Estados modernos, a disputa sobre a divisibilidade ou indivisibilidade
do poder diz respeito ao processo paralelo de concentração das
típicas funções que são de competência de quem detém o supremo
poder num determinado território, o poder de fazer as leis, e obrigar
as pessoas que as cumpram.

Embora os dois processos corram paralelamente, são mantidos bem


diferenciados, pois o primeiro tem a sua plena realização na divisão
do poder legislativo entre rei e parlamento, como ocorre antes de
todos os demais na história constitucional inglesa, e o segundo
desemboca na separação e na recíproca independência dos três
poderes (legislativo, judiciário e executivo).

A soberania tem duas faces, uma voltada para o interior, outra para o
exterior. Correspondentemente, vai ao encontro de dois tipos de
limites: os que derivam das relações entre governantes e governados,
os limites internos, e os que derivam das relações com outros Estados,
os limites externos. Assim, na medida em que o poder se torna
sempre mais ilimitado na direção do interior, o que quer dizer
unificador torna-se também mais ilimitado na direção do exterior, o
quer dizer independente.

Monarquia e República:
A monarquia representa a forma de governo dos modernos, a
república a dos antigos, ou, na idade moderna, a forma de governo
adequada apenas aos pequenos estados. Originariamente, monarquia
é o governo de um só, e republica no sentido maquiaveliano da
palavra, é o governo de muitos, e mais precisamente de uma
assembléia.

Para Kant forma republicana é aquela em que vigora o princípio da


separação dos poderes, mesmo se o titular dos poderes é um
monarca. De tal modo que república adquire um novo significado,
que não é mais o de um Estado em geral, e nem mesmo é mais o de
governo de assembléia contraposto ao governo de um só, mas é o de
uma forma de governo que tem certa estrutura interna, compatível
inclusive com a existência de um rei.

Estado representativo:

Com o advento do Estado representativo - sob a forma de monarquia


primeiro constitucional e depois parlamentar, e no resto da Europa
após a revolução francesa, e como república na América - tem início
uma quarta da transformação do Estado que dura até hoje.

Tal como o Estado de estamentos, também o estado representativo se


afirma, ao menos num primeiro tempo como resultado de um
compromisso entre o poder do príncipe e o poder dos representantes
do povo, cujo principio de legitimidade é o consenso.

Nesse mesmo contexto há o reconhecimento dos direitos do homem e


do cidadão, primeiro apenas doutrinário através dos jusnaturalistas,
depois também prático e político através das primeiras declarações
de direitos, representando isso a verdadeira revolução copernicana
na história da evolução

Das relações entre governantes e governados.

Os Estados socialistas:
Não existe uma definição aceita em comum por juristas a respeito da
forma de Estado da União Soviética após a superação da ditadura do
proletariado, que seja como for era uma fórmula ao menos histórica
e doutrinariamente relevante.

Na falta de uma definição oficial, as caracterizações correntes são, na


melhor das hipóteses, interpretações parciais e polêmicas, tentativas
de individualizar os elementos predominantes. Delas podem ser
indicadas algumas: a presença de um Estado reforçado pelo aparato
burocrático despersonalizante, num universo completamente
coletivizado.

Uma das interpretações mais comuns do Estado soviético é a que o


considera um Estado dominado por uma oligarquia que se renova
por cooptação. O domínio de um partido único reintroduz no sistema
político o princípio monocrático dos governos monárquicos do
passado e talvez constitua o verdadeiro elemento característico dos
Estados socialistas de inspiração leninista direta ou indireta, em
confronto com os sistemas poliárquicos das democracias ocidentais.

Estado e não-Estado:

O não-Estado, sob a forma, por exemplo, da república universal dos


estóicos, é um ideal de vida, não uma instituição, com a difusão do
cristianismo o não-Estado torna-se uma instituição com a qual o
Estado deve continuamente ajustar as contas para com os cidadãos.

Já no Estado totalitário toda a sociedade está resolvida no Estado, na


organização do poder político que reuni em si o poder ideológico e o
poder econômico. Não há espaço para o não-Estado. O Estado
totalitário representa um caso limite.

O Estado máximo e o Estado mínimo:


Estado cristão e Estado burguês são dois casos limite. Também sob
este aspecto podem ser distinguidos dois tipo ideais: o Estado que
assume tarefas que o não-Estado na sua pretensão de superioridade
reivindica para si, e o Estado indiferente ou neutro.

Na esfera religiosa temos a contraposição do Estado confessional e do


Estado laico; diante da esfera econômica a figura do Estado
intervencionista e do Estado abstencionista.

O fim do Estado:

O tema do fim do Estado está estreitamente ligado ao juízo de valor


positivo ou negativo que foi dado e continua a ser respeitado desta
máxima concentração de poder possuidora de direito de vida e de
morte sobre os indivíduos que nele confiam ou que a ele se
submetem passivamente. Toda história do pensamento político está
atravessada pela contraposição entre concepção positiva e concepção
negativa do Estado. A concepção negativa é um pressuposto
necessário, mas não suficiente do ideal do fim de Estado.

Existem duas concepções negativas do Estado: o Estado como mal


necessário e o Estado como mal não necessário. Apenas a segunda
conduz à idéia do fim do Estado. Na primeira forma o Estado é
necessário pois a massa é perversa e deve ser contida por meio do
medo, característica do primitivo pensamento cristão.

A segunda concepção que propõe o fim do Estado quer propor, na


verdade, o nascimento de uma sociedade que pode sobreviver e
prosperar sem a necessidade de um aparato de coerção. Vale dizer,
que além do Estado mínimo que se libertou primeiro do monopólio
ideológico, permitindo a expressão das mais diversas crenças
religiosas e opiniões políticas, depois do monopólio do poder
econômico, permitindo a livre posse e a livre transmissão dos bens,
existe como termo final da emancipação do não-Estado em relação ao
Estado a sociedade sem Estado que se libertou inclusive da
necessidade do poder coativo.
5. Democracia e ditadura

A democracia na teoria das formas de governo

Em toda a história o termo democracia foi utilizado para denominar


uma das formas de governo ou um dos diversos modos com que pode
ser exercido o poder político, especificamente designa a forma de
governo na qual o poder político é exercido pelo povo.

Na história do pensamento político, qualquer aspecto que cerca a


democracia esta na teoria e tipologia das formas de governo, portanto
para discutirmos democracia temos que comparar ela com as outras
formas de governo, pois só assim podemos individualizar seu caráter
específico em relação às outras formas.

Ou seja, desde que a democracia esta envolvida em um conceito de


formas de governo, ele não pode ser compreendido quando
comparado as outras formas.

Considerar democracia como parte de um sistema de conceitos


amplo, permitem dividir o tratamento que a teoria das formas de
governo foi destinada, estes usos são os seguintes: descritivo
(sistemático) a teoria resolve-se na classificação e, portanto na
tipologia das formas de governo que existiram na história, construída
à base da determinação daquilo que as une e daquilo que as
diferencia, prescritivo (axiológico) comporta uma série de juízos de
valor à base dos quais as várias constituições são não apenas
alinhadas uma ao lado da outra, mas dispostas conforme uma ordem
de preferência, segundo a qual uma é julgada boa e a outra má, uma
ótima e a outra péssima, uma melhor ou menos má do que a outra e
assim por diante e histórico quando dela nos servimos não só para
classificar as várias constituições, não só para recomendar um mais
do que a outra, mas também para descrever os vários momentos
sucessivos do desenvolvimento histórico considerado como uma
passagem obrigatória de uma forma a outra.
Quando ligamos o uso prescritivo com o histórico, a descrição das
fases históricas resolve-se numa teoria do progresso ou do regresso,
conforme esteja a forma melhor no final ou princípio do ciclo.

O uso descritivo

A democracia é uma das três possíveis formas de governo na


tipologia em que várias formas de governo são classificadas com base
no diverso número dos governantes. É a forma de governo que o
poder é exercido por todo o povo ou pela maioria que é o que o
distingue da monarquia e aristocracia onde o poder é de um ou de
poucos respectivamente.

Fica estabelecido que numa tipologia clássica a democracia se


caracteriza, frente às demais, por ser o governo dos muitos com
respeito aos poucos, ou dos mais com respeitos aos menos, portanto
tradicionalmente o conceito de democracia é que chega
ininterruptamente até nós, extremamente simples e constante.

Se compararmos só pelo critério número, democracia e aristocracia


podem ser consideradas como uma única espécie sob o nome de
república, ai teríamos uma bipartição (república e monarquia) de
poder não uma tripartição (democracia, monarquia e aristocracia), a
distinção entre democracia e aristocracia esta fundada em um
critério diverso do número, elas diferem nas formas de lei, as leis
democráticas são feitas por aqueles aos quais elas se aplicam, na
aristocracia os que fazem as leis são diferentes daqueles para quem
elas são destinadas.

O uso prescritivo

Através do uso prescritivo a democracia pode ser considerada como


uma forma boa louvada e recomendada ou uma forma má reprovada
e desaconselhada.
Ao longo da história temos em várias obras e passagens pessoas
defendendo e/ou criticando a democracia.

A tipologia de formas do governo em seu uso prescritivo comporta


não apenas um juízo absoluto sobre bondade ou não desta ou
daquela forma, mas também a maior ou menor bondade dessa ou
daquela forma. Nesta perspectiva, o problema não é só saber se a
democracia é boa ou má, mas também em saber se ela é melhor ou
pior que as outras, ou seja, qual sua colocação segundo o valor das
constituições.

Numa tipologia que não distingue as formas puras das corruptas, as


teses possíveis são três: a democracia é a melhor, pior ou está entre
as duas. As duas primeiras denominações são as mais freqüentes, já
que o confronto ocorre normalmente entre os dois extremos. Numa
tipologia que distingue as formas puras das corruptas, o confronto
torna-se complexo: a democracia pode ser a pior, ou melhor, das
formas boas, quanto à melhor ou pior dar formas más, ou seja, pode
ser ao mesmo tempo a melhor da má ou a pior da boa.

Na disputa em torno da melhor forma de governo, os clássicos do


pensamento político moderno, que acompanham com suas reflexões
o surgimento e a consolidação dos grandes Estados territoriais
predominantemente monárquicos, são favoráveis à monarquia e
contrários à democracia.

O uso histórico

Durante séculos os maiores escritores políticos serviram-se da


tipologia das formas de governo para traçar as linhas de
desenvolvimento do curso histórico da humanidade entendido como
um suceder-se de uma determinada constituição a outro segundo
certo ritmo. Trata-se de ver que posto a democracia ocupou em
alguns dos grandes sistemas.
As filosofias da história são separadas em etapas. Sucessiva é uma
degeneração da precedente, progressivas, segundo as quais a etapa
sucessiva é um aperfeiçoamento da precedente, e cíclicas, segundo as
quais o curso histórico, após ter percorrido em sentido regressivo ou
progressivo todas as etapas, retorna ao princípio. Nas histórias
regressivas, a democracia geralmente ocupa o último posto numa
sucessão que prevê a monarquia como primeira forma, a aristocracia
como segunda e a democracia como terceira, já na concepção
progressiva a monarquia não está no início do ciclo e sim no final.

A democracia dos modernos

Na idade em que se foram formando os grandes Estados territoriais,


através da ação centralizadora e unificadora do príncipe, o
argumento então tornado clássico contra a democracia consistia em
afirmar que o governo democrático apenas era possível nos pequenos
Estados. Mas após a revolução francesa, havia nascido um governo
republicano num grande espaço: os Estados Unidos da América.

Alguns dos pais fundadores do novo Estado não quiseram que se


confundisse a república por eles iniciada com a democracia dos
antigos. Existe um nexo entre Estado representativo (ou república) e
dimensão do território, e que a única forma não autocrática de
governo possível num grande Estado é por representação, que é uma
forma de democracia corrigida, temperado ou limitado, e enquanto
tal tornado compatível com um território vasto e com população
numerosa. A passagem da democracia direta à indireta é
determinada pelas condições do ambiente, que faz com que a
república não seja uma forma de oposição a democracia, mas sim a
única forma possível em determinadas condições de ambiente.

Democracia representativa e democracia direta

O estado representativo conhece um processo de democratização ao


longo de duas linhas: o alargamento do direito de voto até o sufrágio
universal masculino e feminino, e o desenvolvimento do
associacionismo político até a formação dos partidos de massa e o
reconhecimento de sua função pública.

A consolidação da democracia representativa não impediu que a


direta retorna-se sob formas secundárias. Ao contrário, o ideal de que
a democracia direta era a única verdadeira nunca desapareceu,
sendo mantida viva por alguns grupos políticos radicais, que não
consideram a democracia representativa uma inevitável adaptação,
mas sim um desvio da idéia original do povo, pelo povo e através do
povo.

Sob o nome genérico de democracia direta entendem-se todas as


formas de participação no poder, que não se resolvam numa ou
noutra forma de representação: a) o governo do povo através de
delegados investidos de mandato imperativo e, portanto revogável; b)
o governo de assembléia, isto é, o governo não só sem representantes
irrevogáveis ou fiduciários, mas também sem delegados; c) o
referendum. A primeira foi acolhida pela constituição soviética da
época, a segunda pertence à fase emergente dos movimentos
coletivos, a terceira foi inserida por algumas constituições pós-
bélicas. Destas três formas de democracia direta, a segunda e a
terceira não podem substituir as várias formas de democracia
representativa.

Nenhuma das três pode por si só constituir uma verdadeira


alternativa para o Estado representativo, a primeira porque com a
formação dos grandes partidos organizados que impõem uma
disciplina de voto, às vezes férrea, aos representantes eleitos em suas
listas, a diferença entre representação com mandato e representação
sem mandato torna-se cada vez mais evanescente, a segunda porque
é aplicável somente em pequenas comunidades, a terceira porque é
aplicável em circunstâncias excepcionais e de particular relevo.

Democracia política e democracia social


O processo de alargamento da democracia na sociedade não ocorre
apenas através da integração da democracia representativa com a
democracia direta, mas também através da extensão da democracia a
corpos não necessariamente políticos.

Na passagem da democracia na esfera política para a esfera social,


onde o indivíduo é considerado, pai e filho, cônjuge, empresário,
trabalhador, em outras palavras na extensão das formas de poder
ascendente, que até então havia ocupado quase exclusivamente o
campo da sociedade política, ao campo da sociedade civil em várias
articulações, da escola à fábrica.

Uma vez conquistado o direito à participação política, o cidadão das


democracias mais avançadas percebeu que a esfera política está por
sua vez incluída numa esfera muito mais ampla, a esfera da
sociedade, e que não existe decisão política que não é condicionada
ou determinada pelo que acontece na sociedade.

Democracia formal e democracia substancial

O discurso sobre democracia não pode ser considerado encerrado


sem falar que além da democracia como forma de governo quer
dizer, democracia como conjunto de instituições. A linguagem
política moderna conhece também o significado de democracia como
regime caracterizado pelos fins ou valores em direção aos quais um
determinado grupo político tende e opera. O princípio destes fins ou
valores, adotado para distinguir não mais apenas formalmente, mas
também conteudisticamente um regime democrático e um não
democrático é a igualdade, não a igualdade jurídica, mas a social e
econômica.

Assim foi introduzida a diferenciação entre democracia formal, que


diz respeito precisamente à forma de governo, e democracia
substancial, que diz respeito ao conteúdo dessa forma.

A ditadura dos antigos


Na medida em que a democracia foi considerada como a melhor
forma de governo, a menos má, mais adaptada as sociedade
economicamente, civilmente e politicamente mais evoluídas, a teoria
das formas de governo em uso prescritivo simplificou a tipologia
tradicional polarizou-se em torno da dicotomia democracia-
aristocracia. Porém no uso corrente o termo que veio prevalecendo
foi ditadura no lugar da autocracia.

O termo ditadura vem da antiguidade clássica, em Roma ditador era


um Magistrado extraordinário, ele era nomeado apenas para a
duração do dever extraordinário que lhe fora confiado, por uma
período Máximo de 6 meses e não maior que a permanência em
cargo do cônsul que o havia nomeado. As características da ditadura
romana eram: a) estado de necessidade com respeito à legitimação; b)
plenos poderes com respeito a extensão do comando; c) unicidade do
sujeito investido do comando; d) temporaneidade do cargo.

A característica à base da qual a ditadura se diferencia tanto da


tirania quanto do despotismo é a temporaneidade.

Precisamente essa característica da temporaneidade fez com que os


grandes escritores políticos tenham dado juízo positivo à ditadura.

A ditadura moderna

Como surge claramente da história desta magistratura e das clássicas


interpretações que dela foram dadas, o ditador exerce poderes
extraordinários mas apenas no âmbito da função executiva. Só na
idade moderna, o conceito de ditadura foi estendido ao poder
instaurador da nova ordem, isto é ao poder revolucionário que desfaz
as velhas ordens para fazer novas.

A ditadura revolucionária nasce num estado de necessidade e exerce


poderes excepcionais e por sua natureza temporâneos; por estas
razões a ela se da o nome de ditadura, mas a tarefa que lhe é
atribuída ou que ela se atribui é muito mais vasta: não mais a de
remediar uma crise parcial do Estado. Enquanto o ditador comissário
é investido do próprio poder pela constituição o ditador soberano
recebe o pode através de uma auto-investidura ou uma investidura
simbolicamente popular.

Esta dissociação entre o conceito de ditadura e o de poder


monocrático deve ser destacada, pois assinala a passagem do uso
clássico do termo ao uso moderno. A característica distintiva entre
ditadura clássica e moderna está na extensão do poder, que não está
mais apenas circunscrito à função executiva, mas se estende à função
legislativa e inclusive à constituinte.

A ditadura revolucionária

Um passo posterior na história da fortuna do conceito de ditadura foi


o que a fizeram dar os desafortunados precursores de uma revolução
(que de fato não aconteceu) igualitária.

A idéia era que a revolução deveria ser realizada por um punhado de


homens, simultaneamente audazes e iluminados, e de que à explosão
revolucionária deveria seguir o estado transitório marcado pelo
exercício de poderes excepcionais concentrados nas mãos de alguns,
a nova sociedade dos iguais só deveria ser instaurada depois que a
ditadura revolucionária conseguisse eliminar todos os vestígios do
passado, recorrendo se necessário da violência não apenas contra os
opositores, mas também contra o povo considerado como incapaz de
se regenerar por si mesmo.

A idéia da ditadura revolucionária como governo provisório e


temporâneo imposto por circunstâncias excepcionais, passou na
teoria de Blanqui, mas não na de Marx, que falou de ditadura do
proletariado no sentido de domínio de classe e não de um comitê e
muito menos de um partido, e, portanto não no sentido tradicional de
forma típica de exercício do poder, não naquele sentido que o termo
tinha substancialmente conservado na passagem da ditadura clássica
à moderna.
por exemplo, a democracia moderna, com o poder exercido pelo
príncipe; a democracia representativa, que é a que temos hoje, com o
sufrágio (voto) universal, masculino e feminino.

Este livro é de grande importância para um futuro jurista, pois


mostra diversos quadros importantes à matéria do Direito e nos faz
compreender melhor a função do Estado coativo.

Bibliografia:

BOBBIO, Norberto. Estado, Governo, Sociedade - Para uma Teoria


Geral da Política. 13. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

Disponível em: https://mateuscbacchini.jusbrasil.com.br/artigos/150410590/estado-governo-e-


sociedade-para-uma-teoria-geral-da-politica