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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL

FACULDADE DE DIREITO DE ALAGOAS – FDA


TEORIA GERAL DO DIREITO PENAL II
Prof. Alberto Jorge

SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA (SURSIS)

1. Origens.

Não obstante institutos semelhantes no Direito Romano (severa


interlocutio) e as práticas eclesiásticas de substituição da
condenação1 no período medieval, a Suspensão Condicional da Pena
deita raízes em Massachusetts, no EUA, em 1846, onde os jovens
delinqüentes primários poderiam ser recolhidos não a prisão, mas a
Escola Industrial de Reformas. Nos Estados Unidos o sistema foi
ampliado para os adultos, sofreu fortes modificações nos seus
contornos e hoje conta com ampla aplicação, conhecido como
probation system.

Para a maioria dos autores, no entanto, a origem do SURSIS data de


1884 quando o parlamento francês recebeu um projeto apresentado
por René Bérenger (advogado e magistrado francês), o qual, sem
êxito, tentou introduzir na França o sursis à l'execution de la peine. A
Bélgica, reconhecendo a excelência do trabalho de Bérenger,
antecipou-se à França e, em 31 de março de 1888, adotou a medida,
por isso o sistema ficou conhecido como sistema belga-francês.

É conveniente apontar que o sursis (sistema belga-francês)


apresenta claras diferenças em relação ao probation (sistema anglo-
saxão). Neste último, o juiz suspende a condenação, declarando a
culpabilidade do acusado e submetendo-o a um período de prova. Já
no sursis há condenação, suspendendo-se a execução da pena.

No entendimento de Basileu Garcia2, o sistema belga-francês é mais


vantajoso porque nele não se suspende o processo, mas sim a
execução da pena, havendo, portanto, sentença condenatória.
Lembra o autor que pode acontecer de, durante o processo,
constatar-se a inocência do imputado e, não sendo ele culpado,
qualquer restrição à sua liberdade seria injusta. No entanto, o
pragmatismo americano resolve mais de 80% dos conflitos criminais
valendo-se do probation.

1
V.g. monitio canonica, através da qual os juízes eclesiásticos podiam determinar a
suspensão de todas as penas temporais e espirituais dos condenados que
comparecem à sua presença implorando perdão, sob a condição de que não
praticassem novamente os mesmos atos, caso em que as penas suspensas seriam
executadas. (BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal, 1. São
Paulo: Saraiva, 2009).
2
Instituições de Direito Penal, vol. 1, t. 2. São Paulo : Max Limonad, 1956. p.
533.
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No Brasil, apesar das tentativas de produção de lei tendente a
admitir o sistema belga-francês desde 1906, somente em 1924 é que
o SURSIS, por aqui, foi regulamentado (Decreto nº. 16.588,
sancionado em 6 de setembro de 1924).

À época, o sursis tinha o nome "condenação condicional". Não


seguiu, rigorosamente, nenhum dos dois sistemas existentes. Nele, o
juiz suspendia a condenação e impunha certas condições.

2. Conceito e natureza jurídica.

Segundo Aníbal Bruno a suspensão condicional da pena “é o ato do


juiz que, condenando o delinqüente primário e não perigoso à pena
detentiva de curta duração, suspende a execução da mesma, ficando
o sentenciado em liberdade sob determinadas condições”.

Tido como direito subjetivo do réu pela maioria da doutrina, não


obstante os desacordos doutrinários sobre sua Natureza Jurídica, o
SURSIS apresenta caráter nitidamente condenatório. O STF entende
o SURSIS como uma modalidade de cumprimento (execução
mitigada) da pena privativa de liberdade.

3. Requisitos

São de duas ordens: 1º) objetivos – a) inaplicabilidade das penas


restritivas de direito (só é cabível se não for cabível a substituição da
prisão por penas restritivas de direito) (v. g. art. 129, § 1º como
hipótese); b) natureza da pena (só a pena privativa de liberdade é
que admite o sursis); c) quantidade da pena (somente a pena não
superior a dois anos é que comporta o sursis comum e especial, e
somente a pena não superior a quatro anos é que admite o sursis
etário e humanitário); 2º) subjetivos – d) não-reincidência em crime
doloso; e) prognose de o condenado não voltar a delinqüir (feita a
partir da análise das circunstâncias judiciais do artigo 59 do CP).

4. Espécies

a) Simples ou comum (CP, art. 78, §1º) – mais rigoroso. No primeiro


ano do PERÍODO DE PROVA: prestação de serviços a comunidade
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ou limitação de final de semana + condições judiciais (impostas
pelo Juiz da condenação).

b) Especial (CP, art. 78, § 2º) – (reparação dos danos (se possível)
com todas as circunstâncias do art. 59 favoráveis). Impõe-se:
proibição de freqüentar determinados lugares, não ausentar-se da
comarca, comparecer perante o juiz

c) Etário – (CP, art. 77, § 2º) – + 70 anos (quatro anos de condenação


concreta).

d) Humanitário (CP, art. 77, § 2º) – moléstia ou patologia (quatro


anos de condenação concreta). Flexibilização e compatibilização
das condições no Período de Prova.

5. Período de Provas de prorrogação: período de prova é o tempo


em que o condenado cumpre as condições determinadas na sentença
(de 01 a 02 anos no sursis comum e especial, e de 04 a 06 anos no
sursis etário e humanitário). Além das condições legais é possível ao
juiz fixar outras, as condições judiciais. As condições podem ser
modificadas na fase de execução.

6. Extinção da punibilidade: cumprido, devidamente, o período de


provas.

7. Ver diferenças entre o sursis e Suspensão Condicional do


Processo (Lei 9.099/95, art. 89).

8. ATENÇÃO: O advento da Lei 9.714/98, que ampliou o espaço de


incidência das penas restritivas de direito, fez o SURSIS perder
importância no sistema de justiça criminal, onde, dificilmente ele é,
hoje em dia, aplicado. Como o SURSIS é instituto menos benéfico do
que a substituição da privação da liberdade por penas restritivas de
direito, deve ser preterido em favor destas sempre que possível. Ao
que indica a prática forense atual, o SURSIS só tem aplicação para os
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crimes cometidos com violência ou grave ameaça a pessoa, quando
não cabe a substituição antes mencionada.

No Congresso Nacional acha-se tramitando o PL nº 3.473/2000 que


alterando o artigo 44, I, do Código Penal, retira a expressão “e o
crime não for cometido com violência ou grave ameaça à pessoa”,
extinguindo, portanto, este requisito para a substituição. Se aprovado
o campo de incidência das penas restritivas de direito envolverá
completamente as possibilidades do SURSIS, marcando, na prática, o
seu fim.