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Consentimento Informado

1.1 Consentimento Informado nos doentes adultos incapazes e nas doenças mentais

De acordo com o normativo jurídico, qualquer pessoa a partir dos 14 anos é


considerado competente para decidir. Porém, do ponto de vista ético, o indivíduo deverá
estar consciente, mentalmente competente e não ser sujeito a qualquer tipo de coerção
que influencie a sua decisão. Segundo Antunes (1998): “... podemos afirmar que, no
exercício clínico, esta necessidade de determinação do nível de competência é
fundamental, acima de tudo para proteger os pacientes contra decisões que possam tomar
e que não sejam no seu melhor interesse”. Nos cuidados de saúde, o julgamento sobre a
competência de uma pessoa distingue as pessoas cujas decisões deverão ser respeitadas,
daqueles que necessitam de um representante que substitua a sua vontade (legítimo
representante). A competência envolve diversos graus, sendo fundamental determinar a
capacidade no plano cognitivo para tomar uma decisão.
Na Convenção sobre os Direitos do Homem e a Biomedicina (CDHBio), Artigo 6.º
sobre Proteção das pessoas que careçam de capacidade para prestar o seu consentimento
declara que:
- Sempre que, nos termos da lei, um maior careça, em virtude de deficiência mental, de
doença ou por motivo similar, de capacidade para consentir numa intervenção, esta não
poderá ser efetuada sem a autorização do seu representante, de uma autoridade ou de uma
pessoa ou instância designada pela lei. A pessoa em causa deve, na medida do possível,
participar no processo de autorização.
Guilherme de Oliveira (2006) defende que: “(…) Quando se está perante um
paciente incapaz para consentir e a intervenção não é urgente, o Ministério Público, que
é o representante geral dos incapazes, deve dar início a um processo de tutela e à
nomeação de um curador provisório. O tutor provisório dará o consentimento informado
em vez do incapaz”... Guilherme de Oliveira e Julien Meyer et al (2006) defendem que
quando não se pode aguardar para promover a tutela, mesmo provisória, o médico deve
tentar conhecer a vontade presumida do paciente, com base nas informações disponíveis,
incluindo os dados que a família fornecer, e agir de acordo com ela. A pessoa incapaz
para consentir deve, na medida do possível, participar no processo de autorização
e devem ser tidos em consideração os testamentos de paciente e a nomeação dos
procuradores de cuidados de saúde.
Pessoas com anomalia psíquica não podem dar o seu consentimento válido: nesta
situação e na ausência de representantes legais, segundo Antunes (1998) “... o profissional
de saúde deverá agir de acordo com o melhor interesse do paciente. Sempre que possível,
as decisões deverão ser tomadas atendendo às preferências do paciente. Caso não exista
este conhecimento, então a decisão deverá ser sempre em favor da preservação da vida
melhor.”
Retirado de:
https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/20117/1/DOUT%20pa_FINAL.pdf?fbclid
=IwAR16CdNHfjE4EsfHaL6jTQ6GjpreMmt6khX1l7wvLkNKe82gIxCrX_3k5SM

1.2 Consentimento informado para intervenções de Enfermagem


Considera-se consentimento informado a autorização que a pessoa dá para que lhe
sejam prestados os cuidados propostos, após lhe ter sido explicado e a pessoa ter
compreendido o que se pretende fazer, como, porquê e qual o resultado esperado da
intervenção de enfermagem.

1.2.1. Consentimento informado e a dignidade humana


O consentimento informado decorre do respeito, promoção e proteção da autonomia
da pessoa – está, assim, ligado à autodeterminação, à liberdade individual, à formação de
uma vontade esclarecida e à escolha pessoal. Entende-se por autonomia a capacidade de
auto reger-se, no princípio da liberdade, isto é, no sentido kantiano da capacidade de
determinar por si mesmo a lei à qual se submete. O facto da Pessoa ter dignidade própria
é uma convicção relativamente recente, no percurso histórico filosófico da humanidade -
quando Kant escreveu que as pessoas têm valor absoluto, e devem ser consideradas
"sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio" , estava a definir
o que faz com que o ser humano seja dotado de dignidade especial, pois que acima de
qualquer preço e, portanto, sem existir equivalente. E a dignidade da pessoa humana é o
núcleo essencial dos direitos humanos fundamentais.
A dignidade da pessoa humana constitui um princípio estruturante da nossa ordem
jurídica, servindo, neste aspeto, como fundamentação ética – é como que o retrato do que
a nação procura efetivar, quais os seus ideais mais profundos. Portugal declara ser a
dignidade da pessoa humana um princípio que fundamenta os direitos pessoais, um
núcleo inviolável, inerente à personalidade. Assim, o princípio é que a dignidade é um
atributo essencial, independentemente das qualificações específicas de género, de raça,
de religião, de nacionalidade, de posição social, ou de qualquer outra.
Da dignidade humana deriva a inviolabilidade de cada pessoa, o reconhecimento da
autonomia de cada um para traçar os seus próprios planos de vida e as suas próprias
normas de excelência, sem outros limites a não ser o direito semelhante dos outros à
mesma autonomia. Deste modo, um dos direitos decorrentes da dignidade do ser humano,
é o da autodeterminação, na operacionalização da sua autonomia, isto é, a aptidão para
formular as próprias regras de vida. Proteger a autonomia é defender os direitos – da
pessoa e do cidadão – que não se extinguem por alterações na situação de saúde. O
respeito pela dignidade da pessoa humana significa, na realidade, a promoção da sua
capacidade para pensar, decidir e agir.
A proteção da pessoa é fundamentadora do compromisso assumido pelos
profissionais de saúde, no geral, e dos Enfermeiros em particular - assim se entende o
princípio enunciado no Código Deontológico do Enfermeiro de que “as intervenções de
enfermagem são realizadas com a preocupação da defesa da liberdade e da dignidade da
pessoa humana e do enfermeiro”. Afirma-se, igualmente, que um dos princípios
orientadores da prática profissional: é “o respeito pelos direitos humanos, na relação com
os clientes”.

1.2.2. Consentimento informado e o Dever de Informar


A Convenção dos Direitos do Homem e da Biomedicina enuncia como uma regra
geral que “qualquer intervenção no domínio da saúde só pode ser efetuada após ter sido
prestado pela pessoa em causa o seu consentimento livre e esclarecido. Esta pessoa deve
receber previamente a informação adequada quanto ao objetivo e à natureza da
intervenção, bem como às suas consequências e riscos
No Estatuto da Ordem dos Enfermeiros, prescreve-se que, “no respeito pelo direito a
autodeterminação, o enfermeiro assume o dever de:
a) Informar o indivíduo e a família, no que respeita aos cuidados de enfermagem;
b) Respeitar, defender e promover o direito da pessoa ao consentimento informado;
c) Atender com responsabilidade e cuidado todo o pedido de informação ou
explicação feita pelo indivíduo, em matéria de cuidados de enfermagem;
d) Informar sobre os recursos a que a pessoa pode ter acesso, bem como sobre a
maneira de os obter”.
1.2.3. Consentimento informado e suas especificidades
Para que o consentimento informado possa ser construído, é necessário que se tenha
em conta os pressupostos que envolvem considerações respeitantes aos quatro princípios
da Ética Principalista: autonomia, não maleficência, beneficência e justiça.
Relativamente ao respeito pela autonomia, é necessário implicar o médico na decisão
livre do doente. Este apenas poderá ser livre na decisão se acompanhado (apoiado) nesse
processo e quando munida de informação adequada. A importância dada à autonomia tem
vindo a aumentar, considerando-se cada vez mais um “bem” primordial do doente. Assim,
o objetivo do consentimento informado enquanto corolário do princípio da autonomia, é
aumentar a autonomia pessoal nas decisões que afetam o bem-estar físico e mental do
doente.
No que diz respeito à beneficência, este princípio refere-se à obrigação ética de
maximizar benefícios e minimizar danos ou prejuízos. A beneficência exige a defesa dos
direitos dos doentes vulneráveis; podemos afirmar que, quando estamos fracos ou
vulneráveis, é imprescindível que alguém preserve o nosso bem, nomeadamente, nos
substitua na resolução de aspetos para os quais nos encontramos impossibilitados. Se
conhecimento é poder, o verdadeiro cuidador deve direcionar o seu poder para a partilha
de conhecimento e capacidades com os indivíduos vulneráveis de modo a permitir a sua
capacitação para retomarem o controlo da sua vida, se tal for possível.
O princípio da não maleficência consiste em não fazer mal ou não causar dano a
outrem, o que no contexto de cuidados de saúde se reporta, não só a danos corporais
decorrentes da própria prática de cuidados, como a danos psicológicos, devido a uma
maior vulnerabilidade do indivíduo quando em situação de doença.
No contexto dos cuidados de saúde, o princípio da justiça refere-se sobretudo à
justa distribuição de recursos; e à igual oportunidade para aceder e beneficiar de
determinado recurso. Neste princípio, há que ter em conta que nem todos os doentes são
iguais e que, consequentemente, as suas necessidades de cuidados divergem. Neste
sentido, este princípio não implica cuidar todos da mesma maneira, implica sim,
responder de forma satisfatória às diferentes necessidades de todos os doentes.
Para cumprir o princípio de justiça e para que os doentes sejam iguais em oportunidades
e benefícios, temos de considerar as diferentes condições de vulnerabilidade e as
diferentes necessidades individuais e coletivas. Equidade e justiça na distribuição dos
recursos não significam, necessariamente, que seja atribuído a todos o mesmo.
No documento das Diretrizes éticas para a investigação em Enfermagem (2003)
consideram-se como princípios a ter em conta a beneficência, a avaliação da maleficência,
a fidelidade, a justiça, a veracidade e a confidencialidade; e definem-se o não receber
dano, o conhecimento pleno, a autodeterminação, direito à intimidade, ao anonimato e à
confidencialidade como direitos dos participantes.

1.2.4. Consentimento informado nos cenários do exercício de Enfermagem


Considerando o Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros, os cuidados
de enfermagem são as intervenções autónomas ou interdependentes a realizar pelo
enfermeiro no âmbito das suas qualificações profissionais. No exercício das suas funções,
os enfermeiros deverão adotar uma conduta responsável e ética e atuar no respeito pelos
direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos.
No enquadramento das Competências do Enfermeiro de cuidados gerais, realçam-se
as competências relativas ao subdomínio da comunicação e relação interpessoal, e destas,
as que afirma caber ao enfermeiro comunicar com consistência a informação relevante,
correta e compreensível sobre o estado de saúde do cliente, de forma oral, escrita e
eletrónica, no respeito pela sua área de competência; assegurar-se que a informação dada
ao cliente e/ ou aos cuidadoras é apresentada de forma apropriada e clara; responder
apropriadamente às questões, solicitações e problemas dos clientes e/ou dos cuidadores,
no respeito pela sua área de competência.
Os enfermeiros têm o dever de informar e de obter consentimento para a realização
de intervenções de enfermagem, sendo que as pessoas têm direito a aceder à
informação, num formato apropriado e ao nível da sua própria escolha, que lhes permite
participar ativamente de modo informado, em decisões sobre a sua saúde. A informação
deve ser adequada às suas necessidades e circunstâncias, inclusive as suas necessidades
religiosas, étnicas e culturais bem como as suas habilidades de língua e níveis de
alfabetização de saúde. Os riscos e os benefícios de intervenções de serviço de saúde e
opções devem ser explicados aos clientes e, onde e quando apropriado, às suas famílias.
Agir contra a vontade expressa de um cliente é violador das legis artis e das regras da
deontologia profissional.
https://www.ordemenfermeiros.pt/arquivo/tomadasposicao/Documents/EnunciadoP
osicao15Mar2007.pdf?fbclid=IwAR0VouT2IXYSO1dYn_32eJ0wFTwKVuY_IrZmobc
SszXKfHy4_vYWdW2rDPQ
O enfermeiro deve contar com o consentimento informado nos cuidados que realiza.
Como muitos dos cuidados de enfermagem se repetem diariamente ao mesmo doente,
como é o caso dos cuidados de higiene e conforto, estas ações não necessitam de um
consentimento formal diário, sendo legítimo o enfermeiro presumir o consentimento. No
entanto, deve ser ressalvado ainda que o consentimento, quando preliminarmente
recolhido para uma dada ação, o foi dentro de determinada situação.
Os enfermeiros, no contacto com o doente, devem estar atentos aos seus pedidos,
considerando-o como um ser único, respeitando a sua individualidade.
https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/20117/1/DOUT%20pa_FINAL.pdf?fbclid
=IwAR16CdNHfjE4EsfHaL6jTQ6GjpreMmt6khX1l7wvLkNKe82gIxCrX_3k5SM