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UNOPAR

QUÍMICA
AMBIENTAL

QUÍMICA AMBIENTAL

ISBN 978-85-68075-44-9

9 788568 075449
Química
ambiental
Química
ambiental

Kenia Zanetti Molinari


Cristina Célia Krawulski
Edson Torres
© 2014 by Editora e Distribuidora Educacional S.A.

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ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico,
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Diagramação: Casa de Ideias

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Molinari, Kenia Zanetti


M722q Química ambiental / Kenia Zanetti Molinari, Cristina
Célia Krawulski, Edson Torres. – Londrina: Editora e
Distribuidora Educacional S.A., 2014.
192 p.

ISBN 978-85-68075-44-9

1. Conceitos. 2. Biogeoquímica. 3. Química do solo. I.


Krawulski, Cristina Célia. II. Torres, Edson. III. Título.

CDD 550
Sumário

Unidade 1 — Introdução e conceitos básicos ................1


Seção 1 Química: conceitos e aplicações ..........................................2
1.1 Elementos químicos .............................................................................3
1.2 Substâncias químicas ...........................................................................5
1.3 Estrutura atômica .................................................................................6
1.4 Classificação periódica ......................................................................12
1.5 Ligações químicas..............................................................................17
1.6 Funções químicas ..............................................................................20
1.7 Reações químicas ..............................................................................28
Seção 2 Estudo da química e da química ambiental .........................39
2.1 Estudo da química .............................................................................39
2.2 Estudo da Química ambiental ............................................................41

Unidade 2 — Química da atmosfera ............................47


Seção 1 Sistema atmosférico: composição e estrutura .....................49
1.1 Composição da atmosfera ..................................................................50
Seção 2 A camada de ozônio ...........................................................56
2.1 Formação do ozônio ..........................................................................56
2.2 Camada de Ozônio............................................................................60
Seção 3 Poluentes atmosféricos e ciclos biogeoquímicos .................63
3.1 Poluentes atmosféricos .......................................................................63
3.2 Principais poluentes atmosféricos ......................................................65
3.3 Ciclos biogeoquímicos.......................................................................70
vi Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Seção 4 Problemas decorrentes dos poluentes atmosféricos ............78


4.1 Chuva ácida .......................................................................................78
4.2 Efeito estufa .......................................................................................81
4.3 Destruição da Camada de Ozônio .....................................................83
4.4 Smog fotoquímico..............................................................................84

Unidade 3 — A química da água .................................93


Seção 1 Importância e propriedades das águas e
ciclo hidrológico ................................................................95
1.1 Importância da água ..........................................................................95
1.2 A origem da água ..............................................................................97
1.3 Características e propriedade das águas .............................................98
1.4 Ciclo hidrológico .............................................................................102
Seção 2 A química da água ............................................................106
2.1 Introdução à química da água..........................................................106
2.2 O oxigênio na água .........................................................................107
2.3 Decomposição de matéria orgânica em água...................................109
2.4 A acidez e o dióxido de carbono na água ........................................110
2.5 A alcalinidade da água ....................................................................113
2.6 Complexação e quelação.................................................................113
2.7 Interações químicas envolvendo sólidos, gases e água .....................114
2.8 Coloides na água .............................................................................114
Seção 3 Poluição e tratamento das águas .......................................116
3.1 Natureza e tipos de poluentes da água.............................................116
3.2 Indicadores de poluição da água .....................................................118
3.3 Os metais.........................................................................................122
3.4 Poluentes orgânicos .........................................................................125
3.5 Processo de tratamento das águas ...................................................127

Unidade 4 — Os ciclos biogeoquímicos e a química


do solo .................................................137
Seção 1 Os ciclos biogeoquímicos .................................................139
1.1 Ciclos biogeoquímicos.....................................................................139
Seção 2 A química do solo .............................................................155
2.1 Origem e formação da litosfera ........................................................155
Sumário vii

2.2 Formação do solo ............................................................................155


2.3 Intemperismo ...................................................................................156
2.4 Composição do solo ........................................................................160
Seção 3 Propriedades físicas, contaminação e remediação
do solo..............................................................................165
3.1 Propriedades físico-químicas do solo ...............................................165
3.2 Fontes de contaminação dos solos ...................................................167
3.3 Remediação do solo contaminado ...................................................170
Apresentação

Este livro foi construído de forma que você consiga compreender alguns
aspectos químicos relacionados com o meio ambiente e também entender
como esta disciplina se relaciona com as demais.
Na primeira unidade deste livro — Introdução e conceitos básicos —
apresentamos o estudo da química ambiental e como esta disciplina está
relacionada com os diversos aspectos do nosso meio ambiente. Nesta unidade
também apresentamos conceitos básicos da química como ciência que fará
você relembrar conceitos básicos que servirão de entendimento para as de-
mais unidades deste livro. Apresentamos também a importância da ciência
da química, uma vez que sem ela não existiriam as diversas tecnologias,
assim como o desenvolvimento da sociedade e como se iniciou o estudo
da química ambiental, que, baseado no mau uso da disciplina, esta área da
ciência surgiu para auxiliar no controle e minimização de poluentes tóxicos.
Na segunda unidade — Química da atmosfera — inicia-se nosso estudo
da química ambiental, no qual é apresentada a formação da atmosfera,
constituintes químicos, como estes estão presentes na atmosfera e qual a
importância deles nesse sistema. Apresentamos também como ocorre a
formação do ozônio e qual a importância deste elemento para todos nós,
assim como os principais poluentes atmosféricos e como são enviados para
atmosfera de forma antrópica. E por último, compreenderemos os problemas
ambientais gerados a partir dos poluentes atmosféricos, o que são, como se
formam, quais elementos químicos são responsáveis; e as reações envolvidas
na formação da chuva ácida, efeito estufa, aquecimento global, depleção da
camada de ozônio e smog fotoquímico.
Unidade 1
Introdução e
conceitos básicos
Kenia Zanetti Molinari

Objetivos de aprendizagem: O estudo desta unidade tem como


objetivo apresentar a você os fundamentos e princípios da ciência
da Química, desta forma, você conseguirá compreender os demais
conteúdos que compõe esta disciplina e que serão apresentados
nas unidades posteriores. Boa leitura!

Seção 1: Química: conceitos e aplicações


Esta seção está destinada à recordação de conceitos
básicos, apresenta um resumo do estudo da química,
considerando conceitos teóricos que ajudarão você a
entender as interações com os elementos químicos
presentes no meio ambiente.

Seção 2: Estudo da química e da química ambiental


Nesta seção serão apresentados os objetivos dos es-
tudos tanto da ciência da química quanto da química
ambiental, considerando a importância entre essas
duas ciências, como estão relacionadas e como fazem
parte e se interagem com o meio ambiente.
2 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Introdução ao estudo
Atualmente, no Brasil e no mundo, tem sido crescente a preocupação com
os problemas provocados pelas atividades humanas sobre o ambiente, tanto por
parte dos cidadãos quanto pelas empresas e, em especial, pelos profissionais
da química.
Desta forma, o estudo da Química pode ser muito importante para a formação
do profissional da área de gestão ambiental, no sentido de torná-lo mais consciente
acerca dos valores relacionados à integração entre o ser humano e ambiente.
Antes de iniciarmos a discussão sobre a química ambiental iremos discor-
rer sobre a Química como ciência. Desta forma, esta unidade compõe-se de
uma parte introdutória destinada à recordação de conceitos básicos, seguida
de duas seções.
Uma apresentará alguns conceitos básicos da química, mostrando algumas
aplicações que servirão de base para o entendimento desta disciplina e a outra
seção discutirá sobre o estudo da química como ciência e da química ambien-
tal destacando a importância desta disciplina para o curso de Tecnologia em
Gestão Ambiental.
Antes de iniciarmos nossas discussões sobre o estudo da química ambiental
faremos uma breve retrospectiva de conceitos básicos da química.

Seção 1 Química: conceitos e aplicações


Nesta seção recordaremos conceitos básicos do estudo da química, con-
siderando também alguns conceitos teóricos que ajudarão você a entender as
interações que podem ocorrer com os elementos químicos presentes no meio
ambiente.
Caro aluno, nesta seção você verificará alguns materiais que presentes em
seu cotidiano. Você verá como o mundo é rico em materiais como água, ma-
deira, metais etc. Verá como a natureza conseguiu formar as diversas coisas que
conhecemos. Você aprenderá também que os materiais estão constantemente se
transformando, surgindo então novos materiais, com liberação de luz, energia
e calor. Então vamos lá!
A química é uma ciência que estuda a natureza da matéria, suas proprie-
dades, suas transformações e a energia envolvida nesses processos, além de
Introdução e conceitos básicos 3

estudar as mudanças que ocorrem na matéria, ou seja, tudo que possui massa
e ocupa lugar no espaço (SARDELLA, 1999). Desta forma, podemos entender
que seria o estudo das mudanças ou transformações que ocorrem nos alimentos,
na água, nos solos, no ar, inclusive em materiais vegetais e minerais, seja ele
vivo ou morto. Sendo assim, podemos afirmar que a química é a ciência que
estuda três níveis: o nível macroscópico, microscópico e o simbólico. O nível
macroscópico são as transformações que são vistas, ou seja, que enxergamos
como o amadurecimento de uma fruta, a queima de um combustível e assim
por diante. O nível microscópico são as mudanças acontecem mas não somos
capazes de enxergar, pois ocorrem em um submundo em que átomos são
unidos e separados para formar as diversas substâncias. Um exemplo do nível
microscópico são as reações que ocorrem no nosso organismo para geração
de energia e calor. O nível simbólico é a utilização de símbolos e equações
matemáticas para descrever os fenômenos químicos (FELTRE, 1996).

1.1 Elementos químicos


Na Grécia antiga, os filósofos já se perguntavam como tudo era formado
ou feito. Sempre houve uma busca para saber do que eram compostos a água,
o ar, as árvores, as montanhas, ou seja, tudo o que nos cerca. Eles tinham a
ideia de que tudo era formado por terra, água, ar e fogo e que, quando combi-
nados em proporções corretas, podiam produzir as outras substâncias. Outro
questionamento dos gregos era o que aconteceria se eles dividissem a matéria
em pedaços cada vez menores? “Haveria um ponto no qual teriam que parar,
porque os pedaços não teriam mais as mesmas propriedades do conjunto, ou
eles poderiam continuar indefinidamente?” (ATKINS; JONES, 2012).
Os cientistas chegaram à conclusão no início do século XIX, de que todo
e qualquer tipo de matéria é formado por partículas extremamente pequenas
denominadas, átomos.
O primeiro cientista que apresentou um argumento convincente sobre os
átomos foi John Dalton, em 1807. “Ele mediu muitas vezes a razão entre as
massas dos elementos que se combinavam para formar as substâncias que cha-
mamos de compostos e verificou as razões entre massas mostravam tendências”
(ATKINS; JONES, 2012).
A hipótese atômica de Dalton mostrou por exemplo, em amostras de água
que a relação seria 8 g de oxigênio para cada 1 g de hidrogênio; para o pe-
róxido de hidrogênio, compostos com dois elementos havia 16 g de oxigênio
4 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

para cada 1 g de hidrogênio. Assim Dalton desenvolveu sua teoria sobre os


átomos que na seguinte hipótese, de acordo com Atkins e Jones (2012), p. 14:
Todos os átomos de um dado elemento são idênticos;
Os átomos de elementos diferentes tem massas diferentes;
Um composto utiliza uma combinação específica de átomos de mais de
um elemento;
Em uma reação química, os átomos não são criados nem destruídos,
porém trocam de parceiros para produzir novas substâncias.
Essa hipótese atômica de Dalton foi modificada, pois de acordo com os es-
tudos atuais, sabemos que os átomos de um elemento não são idênticos porque
suas massas são diferentes. Outros cientistas também estudaram a teoria atômica
e o que hoje os químicos usam é a existência do átomo para explicar o que é o
elemento. Atkins e Jones (2012) p. 14 explicam que “toda matéria é feita de várias
combinações de formas simples da matéria, chamadas de elementos químicos.
Um elemento é uma substância formada por um único tipo de átomo”.
Até hoje, os cientistas descobriram somente pouco mais de uma centena
de átomos quimicamente diferentes, apesar de conhecermos diversos tipos
de matéria. Cada átomo possui um nome e um símbolo, ou uma abreviação,
sendo que este símbolo é utilizado internacionalmente.
Exemplos:
Hidrogênio — H
Carbono — C
Cálcio — Ca
Cádmio — Cd
Esses nomes são derivados do latim e como o português é uma língua que
também é derivada do latim, a maioria dos símbolos coincide com a inicial do
nome (SARDELLA, 1999). Vejamos alguns exemplos no Quadro 1.1:
Quadro 1.1 Nome, símbolo e origem das denominações dos elementos químicos.

Nome em Português Nome oficial Símbolo


Chumbo Plumbum Pb
Cobre Cuprum Cu
Enxofre Sulfur S
Estrôncio Strontium Sr
Potássio Kalium K

Fonte: Adaptado de Sardella (1999).


Introdução e conceitos básicos 5

1.2 Substâncias químicas


Diferentes tipos de átomos podem se unir
das mais variadas maneiras para formar uma
Para saber mais
infinidade de agrupamentos diferentes, ou
seja, diversos tipos de substâncias que encon- A palavra átomo deriva do grego
átomos que significa “indivisível”.
tramos na natureza. Estes agrupamentos são
chamados de MOLÉCULAS (FELTRE, 1996).
Assim, a molécula é a associação de átomos de um mesmo elemento quí-
mico ou de elementos diferentes, caracterizando uma substância. Esta pode
ser representada por uma fórmula, veja o exemplo:

Substância: Água Substância: Hidrogênio Substância: Gás carbônico


Fórmula: H2O Fórmula: H2 Fórmula: CO2
Molécula: Molécula: Molécula:

Contudo, as substâncias químicas podem ser divididas em simples ou com-


postas. Quando a substância é composta de somente um elemento químico,
dizemos que ela é uma substância simples. Entretanto, se outros elementos
químicos estiverem presentes na substância, dizemos que ela é uma substância
composta (FELTRE, 1996).
Portanto, vamos definir substância simples e composta:

1.2.1 Substância simples


São substâncias formadas por átomos de um único elemento químico.
Exemplos: Hidrogênio (H2), Oxigênio (O2), Ozônio (O3), Hélio (He).

1.2.2 Substância composta


A substância composta é formada por elementos químicos diferentes.
Exemplos: Água (H2O), Gás carbônico (CO2).
As substâncias simples e compostas podem ser puras ou não. Observe os
exemplos a seguir. A água composta somente de H2O, com nada dissolvido é
uma substância pura. O gás hélio (H2) também é uma substância pura. A com-
posição de uma substância pura é definida e constante e suas propriedades são
sempre as mesmas. Portanto, a água pura a –1°C é sempre um sólido (gelo),
enquanto água e sal não é mais substância pura e sim uma mistura que pode
6 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

ser um líquido ou um sólido, dependendo da quantidade de sal dissolvido na


água. Ar também é uma mistura de gases e compostos, predominantemente
nitrogênio, oxigênio, argônio, dióxido de carbono e água vapor. A água potá-
vel é uma mistura de íons de cálcio contendo (Ca2+), de íons de hidrogênio,
carbonato, bicarbonato (HCO3–), e outras substâncias dissolvidas na água
(SARDELLA, 1999).
Para Sardella (1999), as misturas podem ser separadas por processos físicos.
Ar liquefeito é destilado para isolar oxigênio puro (usado em soldagem, proces-
sos industriais, para alguns efluentes especializados em processos de tratamento
e para a respiração por pessoas com enfisema), o nitrogênio líquido (usado para
ultracongelação de alimentos) e o argônio (usado em tipos especializados de
solda devido à sua natureza não reativa quimicamente).

1.3 Estrutura atômica


Como dito anteriormente, toda matéria é formada por partículas extrema-
mente pequenas que são denominadas e átomos. A primeira ideia da estrutura
da matéria surgiu com os filósofos gregos Demócrito e Leucipo, aproximada-
mente no ano 450 a.C. Essa teoria atômica foi estudada pelo cientista inglês
John Dalton quase 2000 anos depois, ou seja, em 1803, quando este cientista
buscou justificar os resultados obtidos pelo cientista francês Antoine Laurent
de Lavoisier e Proust, dando origem a sua teoria sobre a estrutura da matéria,
conhecida como teoria atômica de Dalton.
De acordo com Kotz e Treichel (2010, p. 51):
Por volta de 1900, na Inglaterra, uma série de experimen-
tos feitos por cientistas, como Sir Joseph John Thomson
(1856-1940) e Ernest Rutherford (1871-1937), estabele-
ceu um modelo do átomo que ainda é baseado na teoria
atômica moderna. Três partículas subatômicas são os
constituintes de todos os átomos: prótons eletricamente
positivos, nêutrons eletricamente neutros e elétrons ele-
tricamente negativos. O modelo coloca os prótons e os
nêutrons mais massivos em um núcleo muito pequeno,
o que significa que o núcleo contém toda carga positiva
e quase toda massa de um átomo. Os elétrons, com
massa muito menor do que prótons e nêutrons cercam o
núcleo e ocupam a maior parte em volume. O número
de elétrons fora do núcleo é igual ao número de prótons
dentro do núcleo.
Introdução e conceitos básicos 7

Portanto, podemos entender que o átomo é formado por três partículas, ou


seja, prótons, nêutrons e elétrons. Estas partículas estão dispostas de tal forma
que o átomo pode ser dividido em núcleo e eletrosfera (Figura 1.1).

Figura 1.1 Figura representativa de um


átomo de carbono

Fonte: Do autor (2014).

1.3.1 Núcleo e eletrosfera


Dentro do átomo existe uma parte central, esta representa o núcleo atô-
mico. Este é formado por dois tipos diferentes de partícula: os prótons (p) e os
nêurons (n). Os prótons representam as cargas positivas de dentro do núcleo e
os nêutrons as cargas neutras.
A eletrosfera, também conhecida por coroa, é constituída pelas partículas
que circundam o núcleo. Essas partículas recebem o nome de elétrons (e) e
são menores que os prótons e os nêutrons. Os elétrons representam as cargas
negativas do átomo. Desta forma, um átomo apresenta a mesma quantidade ou
número de prótons e de elétrons, sendo considerado assim como átomo neutro.
Desse modo, temos:


prótons


núcleo
nêutrons
Átomo

eletrosfera  elétrons

Prótons: São partículas que apresentam massa e são dotadas de carga


elétrica positiva;
8 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Nêutrons: são partículas que apresentam massa e igual a dos prótons e


não possuem carga elétrica;
Elétrons: são partículas que apresentam massa extremamente reduzida,
dotada de carga elétrica negativa e de valor igual ao do próton.
Como você pode perceber, o átomo é muito parecido com o Sistema Solar.
No Sistema Solar, o sol fica no centro e ao redor dele giram os planetas. No
átomo, de um modo semelhante, os elétrons giram em torno do núcleo, em
órbitas dispostas em planos diferentes (FELTRE, 1996).

Para saber mais


Se as cargas do mesmo sinal se repelem, como se explica que os prótons se mantenham unidos
no núcleo de um átomo? Isso é possível porque além de prótons, o núcleo contém nêutrons
que são partículas sem carga elétrica. Assim os nêutrons são as partículas responsáveis pela
estabilidade do núcleo do átomo, neutralizando a repulsão que há entre os prótons.

1.3.2 Número atômico e número de massa


O número atômico de um átomo é o número correspondente a carga nu-
clear, ou seja, é o número de prótons existentes no núcleo (representamos o
número atômico pela letra Z). Átomos de um mesmo elemento químico têm
o mesmo número de prótons dentro do núcleo, sendo que para cada átomo
diferente, o número de prótons também difere. Por exemplo: o hidrogênio tem
número de prótons 1, o hélio, 2, o lítio, 3, o berílio, 4, assim por diante.
O número de massa do átomo é o número correspondente à soma das quan-
tidades de prótons e nêutrons existentes no núcleo (representamos o número
de massa com a letra A).
Assim, podemos representar o átomo da seguinte forma:
A
EZ
Para calcularmos o número de prótons, nêutrons e de massa, utilizamos a
seguinte fórmula: m = p+n

1.3.3 Isótopos, isóbaros e isótonos


Todos os átomos são iguais? O que difere um átomo do outro?
Os átomos são todos diferentes. Cada um possui uma quantidade de prótons,
nêutrons e elétrons. Sabemos que em qualquer átomo a quantidade de prótons (+)
Introdução e conceitos básicos 9

é igual à quantidade de elétrons (–), o que o torna neutro. Assim, podemos


dizer que a identificação do átomo se dá pelo número de prótons e nêutrons
existentes em seu núcleo.
Observe alguns exemplos:
Hidrogênio: Z = 1, A = 1, n = 0
Hélio: Z = 2, A = 4, n = 2
Urânio: Z = 92, A = 238, n = 146
Quando ocorre uma reação química, ou seja, transformação de substâncias,
somente a eletrosfera do átomo é alterada, o núcleo não. Desta forma, o que
caracteriza o átomo e determina suas propriedades químicas é seu número de
prótons. Por exemplo: Todos os átomos que possuem 6 prótons no núcleo, tem
Z = 6 e pertencem, portanto, ao elemento químico carbono (C).
Atualmente, são conhecidos mais de cem elementos químicos diferentes.
Os átomos que possuem determinadas características semelhantes são de-
nominados isótopos, isóbaros e isótonos.

1.3.3.1 Isótopos
Átomos podem possuir o mesmo número atômico e massa diferente.
Quando isso ocorre, são chamados de isótopos. Assim podemos dizer que os
isótopos são átomos de mesmo número atômico (mesmo número de prótons)
e número de massa diferente. Por exemplo, o átomo de hidrogênio:
1
1 H = hidrogênio leve ou prótio
2
1 H = hidrogênio pesado ou deutério
3
1 H = hidrogênio mais pesado ou tritério
De acordo com Kotz e Treichel (2010, p. 58):
Uma amostra de um lago ou riacho consistirá quase que
inteiramente de H 2O, no qual os átomos de hidrogênio
consistem no isótopo H1. Algumas moléculas, entretanto,
terão deutério H2 substituindo o H1. Podemos prever o
resultado, pois sabemos que os átomos de H 1 corres-
pondem a 99,895% dos átomos de hidrogênio na Terra.
Isto é, a abundância percentual do átomo de H 1, que é a
porcentagem dos átomos daquele tipo em uma amostra,
é 99,895%. O restante do hidrogênio natural é o deutério
(H 2), cuja abundância é somente 0,015% dos átomos de
hidrogênio. O trítio (H 3), isótopo radioativo, não ocorre
naturalmente.
10 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Sendo assim, podemos considerar que átomos que possuem o mesmo nú-
mero são considerados como isótopos, porém estes podem ser naturais ou não.
Dos isótopos naturais temos também como exemplos: o átomo de carbono,
boro, neônio, magnésio e urânio.
Assim, deve-se ter em mente que:
O mesmo número atômico caracteriza o elemento;
O número atômico e o número de massa caracterizam o átomo.

1.3.3.2 Isóbaros
Átomos que apresentam o mesmo número de massa.
40
19 K = 19 prótons, 19 elétrons, 21 nêutron
40
20 Ca = 20 prótons, 20 elétrons, 20 nêutrons

1.3.3.3 Isótonos
Átomos de elementos diferentes que apresentam o mesmo número de
nêutrons.
19
9 F = 9 prótons, 9 elétrons e 10 nêutrons
20
10 Ne = 10 prótons, 10 elétrons e 10 nêutrons

1.3.3.4 Isótopos radioativos


Na natureza, existem cerca de 92 elementos com quantidades diferentes
de nêutrons. Os núcleos com mesmo número de prótons, mas que diferem no
número de nêutrons são denominados isótopos de um mesmo elemento. Para
determinadas combinações de nêutrons e prótons, o núcleo é estável — nesse
caso, são denominados isótopos estáveis. Para outras combinações, o núcleo
é instável (isótopos radioativos ou radioisótopos) e emitirá energia na forma de
ondas eletromagnéticas ou de partículas, até atingir a estabilidade (GONÇAL-
VES; ALMEIDA, 2005).
O núcleo de alguns átomos torna-se instável e libera energia na forma de
radiações. Essas radiações são a energia emitida pelo núcleo do átomo, de-
nominada energia nuclear. Existem três formas de emissão dessa energia: as
radiações alfa, beta e gama. A radiação alfa e beta são corpusculares, ou seja,
são partículas. A alfa emite partículas que possuem dois prótons e dois nêutrons,
representada pelo símbolo 42 (mesma massa que o núcleo do Hélio, 4He2), a
partícula beta emite elétrons ou suas antipartículas, os pósitrons, cuja carga
Introdução e conceitos básicos 11

elétrica é positiva, representada pelo símbolo 0b–1, enquanto a radiação gama é


de natureza eletromagnética, ou seja, da mesma natureza que a luz visível, as
microondas, porém mais energética, sendo representada por 00 (CARDOSO,
2012).
Desta forma, alguns elementos mais pesados, com maior número de pró-
tons e nêutrons, são naturalmente radiativos. Isto ocorre porque seu núcleo é
instável e tende a se decompor num ritmo conhecido para formar elementos
mais leves, conforme mostra a Figura 1.2.

Figura 1.2 Exemplo de decomposição de um núcleo atômico formando núcleos


menores (isótopos radioativos) e emitindo radiação

Fonte: Adaptada de Cardoso (2012).

1.3.4 Arranjo dos átomos na eletrosfera


A eletrosfera é constituída por partículas chamadas elétrons que giram ao
redor do núcleo. Essas partículas não se encontram na eletrosfera de maneira
desorganizada, elas distribuem-se em camadas, cada uma delas com um nú-
mero determinado de elétrons, denominadas Camadas Eletrônicas. Um átomo
pode ter no máximo sete camadas, que são representadas pelas letras K, L, M,
N, O, P e Q correspondem os níveis de energia 1, 2, 3, 4, 5, 6, e 7. Quanto
maior o número, maior a energia do elétron e maior o afastamento do núcleo.
Observe a Figura 1.3.
12 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Figura 1.3 Camadas de energia


do átomo de sódio

Fonte: Do autor (2014).

Para saber mais


Um átomo pode perder ou ganhar elétrons da elestrosfera sem sofrer alteração no seu núcleo,
resultando em partículas denominadas íons. Quando um átomo ganha ou recebe elétrons, este
se torna em íon negativo e é denominado de ânion. Este átomo que ganhou elétrons recebe
carga negativa, indicando que o mesmo está com excesso e precisa devolver os elétrons que
ele recebeu. Exemplo: Cl, SO3–2.
Contudo, o átomo também pode doar elétrons, este é denominado de cátion. Este átomo
recebe carga positiva indicando que está com deficiência de elétrons. Exemplos: Na+, K+, Ca+2,
Al+3.

1.4 Classificação periódica


Com os trabalhos desenvolvidos com os diversos tipos de elementos químicos
existentes no planeta, os cientistas verificaram que, embora diferentes, eles
possuem propriedades químicas semelhantes. Desta forma, surgiu a necessidade
de separá-los em grupos de acordo com suas propriedades.
Hoje em dia é muito comum fazermos agrupamentos sempre que reunimos
certo número de coisas. Por exemplo, nas livrarias os livros são separados por
gênero — psicologia, administração, filosofia, química, física, geografia etc.
Outro exemplo são as grandes lojas ou magazines que também são separadas
por setores — eletrodomésticos, roupas, eletrônicos etc. Até mesmo as pessoas
são separadas em grupos, como nas escolas em que os alunos são separados
em turmas de acordo com sua idade (FELTRE, 1996).
Introdução e conceitos básicos 13

Um dos tipos mais importantes de classificação é aquele que agrupa os


elementos de tal forma que possamos identificar diversas de suas propriedades.
Foi aí que surgiu a tabela periódica dos elementos (FELTRE, 1996).
A classificação periódica utilizada hoje em dia apresenta os elementos quí-
micos disposto em ordem crescente de número de prótons. Veja a Figura 1.4.
Amplie seus conhecimentos com diversos conteúdos envolvendo as pro-
priedades da Tabela e seus elementos, assim como os quesitos usados para o
arranjo das famílias (períodos), que permitem não apenas verificar as carac-
terísticas comuns de seus membros, mas também fazer previsões do que se
tratam tais elementos.
Na tabela periódica é possível identificar algumas informações sobre os
átomos como, por exemplo, a massa atômica, o número de prótons, ponto
de ebulição, ponto de fusão, densidade, eletronegatividade e configuração
eletrônica (GODOI; OLIVEIRA; CODOGNOTO, 2010).
Algumas características da tabela periódica foram mencionadas por Kotz e
Treichel (2010, p. 66):
Os elementos são arranjados de modo que aqueles com
propriedades químicas semelhantes encontram-se nas co-
lunas verticais chamadas de grupos ou famílias. A tabela
periódica geralmente usada nos Estados Unidos tem os
grupos numerados de 1 a 8, com cada número seguido
por uma letra: A ou B. Os do grupos A são frequentemente
designados de elementos do grupo principal ou elemen-
tos representativos, e os do grupo B são os elementos de
transição. As fileiras horizontais da tabela são chamadas
de períodos e são numeradas começando com 1 para o
período que contém somente H e He. Por exemplo, o
sódio, Na, está no grupo 1 e é o primeiro elemento no
terceiro período. O mercúrio, Hg, está no grupo 2 e no
sexto período.

No próximo subitem entenderemos melhor sobre os grupos e períodos.


Entenda e estude a tabela periódica, só assim você conseguirá aprender tudo
sobre todos os elementos químicos existentes!

1.4.1 A tabela periódica é dividida em Períodos e famílias


Os períodos são as linhas horizontais da tabela. O número do período cor-
responde ao número de camadas ocupadas pelos elétrons. No total são 7 perío-
dos. Exemplo: Li, Be, B, C, N, O, F, Ne, eles estão na camada L (ou no nível 2),
14 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

isso indica que todos esses elementos possuem duas camadas eletrônicas, os
elementos que estão na linha três possuem três camadas eletrônicas e assim por
diante. Nos períodos o número atômico do elemento aumenta ao passarmos de
um quadro para o seguinte, o que significa que a eletrosfera recebe um novo
elétron, chamado de elétron de diferenciação. Observe as Figuras 1.4 e 1.5.

Figura 1.4 Tabela periódica

Fonte: Adaptada de Feltre (1996) e Sardella (1999).

As famílias são as colunas verticais da tabela. No total são 18 colunas


denominadas colunas, grupos ou famílias dos elementos. Em cada família, os
elementos apresentam a mesma configuração na última camada e proprieda-
des químicas semelhantes. Para os Elementos Representativos, o n. do Grupo
representa o n. de elétrons da última camada (camada de valência). Exemplo:
Na coluna 1, todos os elementos que estão nesta coluna possuem em sua úl-
tima camada 1 elétron, os que estão na coluna 2, possuem 2 elétrons na última
camada e assim por diante, lembrando que esta regra vale somente para os ele-
mentos representativos (colunas 1, 2, 13, 14, 15, 16, 17). Observe a Figura 1.5.
Os elementos representativos são todos os elementos que ocupam as colunas
1, 2, 13, 14, 15, 16 e 17, apresentam o último nível incompleto e o número
da coluna corresponde ao número do último nível (as colunas 13, 14, 15,16 e
17 apresentam 3, 4, 5, 6, e 7 elétrons na última camada).
Introdução e conceitos básicos 15

Os elementos de transição são os elementos que ocupam as colunas 3, 4,


5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12.

Figura 1.5 Estrutura da tabela periódica

Fonte: Do autor (2014).

De acordo com Sardella (1999), os gases nobres receberam esta denomina-


ção porque são gases que inicialmente não sofrem reações químicas, ou seja,
são gases inertes. Já os metais são chamados dessa forma por causa das suas
características físicas, e os semimetais foram descobertos a partir dos gases
inertes (gases nobres). Desta forma, dizemos que:

a) Metais: constituem 74% dos elementos, são bons condutores de calor e


eletricidade e sólidos em condições ambientes com exceção do mercú-
rio que é líquido. São maleáveis, facilmente transformados em lâminas,
os sólidos perdem facilmente elétrons dando origem a íons positivos
(cátions), têm a propriedade de refletir luz, manifestando brilho carac-
terístico, ou seja, metálico.
Para Kotz e Treichel (2010, p. 66):
O ferro (Fe) e o alumínio (Al) são usados nas peças de au-
tomóveis em função de sua ductibilidade, maleabilidade
e baixo custo em relação a outros metais. O cobre (Cu)
16 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

é usado na fiação elétrica porque conduz eletricidade


melhor do que a maioria dos metais. O cromo (Cr) é
depositado nas placas de automóveis porque seu brilho
metálico faz com que as peças pareçam mais bonitas, mas
também porque a cromagem protege o metal da reação
com oxigênio do ar.

b) Não metais: constituem cerca de 20% dos elementos, são os mais abun-
dantes na natureza e, ao contrário dos metais, são maus condutores de
calor e eletricidade, não são flexíveis e não têm brilho. Sólidos: B, C,
Si, P, As, Se, Te, I, Ar. Líquido: Br. Gasoso: N, O, F, Cl.
Ainda para Kotz e Treichel (2010, p. 66):
Alguns dos elementos adjacentes à linha diagonal do
boro (B) ao telúrio (Te) apresentam as propriedades que
os tornam difíceis de classificar como um metal ou não
metal. Os químicos os chamam de metaloides, ou, às
vezes, de semimetais. Definiremos o metaloide como um
elemento que tenha algumas características físicas de um
metal, mas também algumas características químicas de
um não metal, e nós incluiremos somente B, Si, Ge, As,
Sb e Te nessa categoria. A antimônio (Sb), por exemplo,
conduz eletricidade tão bem quanto muitos elementos
que são metais verdadeiros. Sua química, entretanto,
assemelha-se àquela do não metal, como o fósforo.

c) Gases nobres: constituem cerca de 6% dos elementos, são quimicamente


inertes sendo encontrados na natureza na forma de substâncias simples.
Todos são gases nas condições ambientes.
d) Hidrogênio: tem características distintas de todos os demais elementos
e, em alguns sistemas periódicos é representado à parte, ou representado
duplamente sobre a família dos alcalinos e sobre a dos halogênios, pois
manifesta características dessas duas famílias (SARDELLA, 1999).

Questões para reflexão


Como visto nesta discussão, existem atualmente cerca de 92 elementos
químicos em todo o globo terrestre. Contudo, observamos milhares de
substâncias diferentes ao nosso redor. Como é possível existirem tantas
substâncias se existem tão poucos elementos?
Introdução e conceitos básicos 17

1.5 Ligações químicas


Tudo o que existe na natureza, água, rochas, seres vivos (animais, vegetais)
dentre outros, é produzido a partir de 92 elementos químicos diferentes. A
seguir explicaremos como os átomos se unem para formar os diferentes tipos
de substâncias químicas.
Os gases nobres são átomos isolados um dos outros, pois são muito estáveis
e pouco reativos. Com os outros átomos é diferente, em sua maioria não são
encontrados isolados, mas associados a outros. Esses átomos se atraem assim
como atraem outros átomos formando agregados estáveis unidos por uma força
de natureza elétrica para formarem as substâncias compostas. Essa força são as
ligações químicas. Os tipos de ligações químicas que ocorrem são as ligações
iônica e covalente.
Os cientistas perceberam que os gases nobres têm pouca tendência de se
unir entre si ou com outros. Entretanto, eles possuem em sua última camada 8
elétrons (com exceção do Hélio, que possui 2). Foi nessa linha de raciocínio
que o cientista alemão Walter Kossel e o americano Gilbert N. Lewis lançaram
a hipótese que os demais átomos, ao se unirem, procuram perder ou ganhar
elétrons na última camada até atingirem a configuração eletrônica de um gás
nobre, ou seja, 8 elétrons na última camada, atingindo assim a estabilidade.
O hidrogênio também é uma exceção a esta regra, como possui somente 1
elétron ele necessita de mais 1 elétron para ficar estável.

1.5.1 Ligação iônica ou eletrovalente


Podemos definir esse tipo de ligação como elétrons que são transferidos de
um átomo para outro dando origem a íons de cargas contrárias que se atraem.
Exemplo: formação do cloreto de sódio — NaCl (Figura 1.6).
Na letra (a) observamos que o átomo de sódio possui 1 elétron na sua última
camada e o átomo de cloro 7 elétrons. Para atingirem a estabilidade, ambos
terão que ficar com 8 elétrons em sua última camada. Desta forma, o átomo de
Na doa um elétron para o átomo de cloro (b) fornando-se assim íons: o sódio
íon cátion (+) e o cloro íon ânion (–). Como o cátion e o ânion têm cargas de
sinais opostos, eles se associaram por atração eletrostática (c). Dizemos que
esse tipo de ligação é iônica (ligação formada por íons).
O tipo de força que une os cátions e ânions é de natureza elétrica, tendo
grande intensidade. Sendo assim, todos os compostos iônicos são sólidos com
alto ponto de fusão em temperatura ambiente e pressão normal.
18 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

A estrutura desses sólidos é uma repetição entre vários cátions e ânions,


formando um retículo cristalino. Observe esse fato na Figura 1.7.

Figura 1.6 Ligação iônica entre os átomos de sódio e cloro

Átomo de sódio transfere


seu elétron mais externo
para o átomo de cloro.

Essa transferência resulta


na formação de íons

Fonte: Do autor (2014).

Figura 1.7 Cristal de forma cúbica

Os íons possuem
configurações eletrô-
nicas mais estáveis,
como a configuração
dos gases nobres e se
unem pela força de
atração decorrente de
cargas contrárias.

Fonte: Do autor (2014).


Introdução e conceitos básicos 19

1.5.2 Ligação covalente ou molecular


Alguns átomos não são capazes de doar e receber elétrons. Contudo, estes
se unem para formar as moléculas. Essa união ocorre pelo compartilhamento
de elétrons. Veja o exemplo na Figura 1.8. Dois átomos de cloro que possuem
7 elétrons em sua última camada compartilham um elétron cada, ficando am-
bas com 8 elétrons e tornando-se assim estáveis. Outros exemplos de ligação
covalente são demonstrados na Figura 1.9.

Figura 1.8 Formação da molécula de Cl2

Fonte: Do autor.

Figura 1.9 Ligação covalente entre as moléculas de O2, N2, H2O e HCl

Fonte: Do autor (2014).


20 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

1.5.3 Ligação metálica


No item 1.4 aprendemos sobre a classificação periódica dos elementos.
Percebemos que a maioria dos elementos é considerada como metais, sendo
que esta classe apresenta características semelhantes como boa condutivi-
dade elétrica e térmica, brilho, capacidade de sofrer deformações, ou seja,
são maleáveis, facilmente transformados em lâminas. Isso ocorre pelo fato de
os átomos dos metais terem a capacidade de compartilhar elétrons com os
átomos vizinhos, formando ligações químicas através da estrutura dos sólidos
metálicos. Esse tipo de ligação formada deixa livre os elétrons de valência, pois
estes não são atraídos pelo núcleo. Em consequência, tais elétrons se deslocam
para a rede cristalina, onde ficarão livres. O movimento desses elétrons livres
é responsável por uma importante função dos metais, que é a capacidade de
condutividade elétrica. Conduto, sabemos que há metais que possuem baixa
ou nenhuma condutividade. Neste caso, os elétrons não estão livres na rede
cristalina e sim presos em suas camadas de valência.

1.6 Funções químicas


Assim como houve a necessidade de agrupar e organizar os elementos em
uma tabela para estudá-los melhor, também surgiu a necessidade de agrupar
as substâncias em função de suas propriedades químicas. Estas foram divididas
em substâncias orgânicas e inorgânicas.
A substância orgânica é aquela que possui em sua estrutura átomos de
carbono. Ela está presente em tudo que possui vida. A substância inorgânica é
aquela formada por outros elementos e que se origina dos minerais.
Das substâncias inorgânicas estudaremos as seguintes funções:
Ácidos;
Bases;
Sais;
Óxidos.

1.6.1 Ácidos
A acidez é uma característica das substâncias. O químico sueco Svante
August Arrhenius, em 1877, estava estudando a condutibilidade elétrica das
substâncias na presença de água e apresentou um conceito sobre acidez.
Introdução e conceitos básicos 21

Segundo Arrhenius, ácido é toda substância que em água produz íons H+,
ou seja, cátions dos íons hidrogênio (SARDELLA, 1999).
Exemplos:

água
HCl H+ + Cl–

água
HNO3 H+ + NO3–

água
H2SO4 H+ + SO4–

As equações acima mostram somente a quebra da molécula. Contudo, os


íons H+ se unem às moléculas de água formando íon hidrônio (H3O+) conforme
representado pela equação:
HCl  H3O+(aq) + Cl–(aq)
Sendo assim, dizemos que os ácidos são substâncias moleculares, em geral
solúveis em água e que apresentam sabor azedo.
Para Feltre (1996), os ácidos possuem diversas características, dentre elas
destacamos a volatilidade, sendo que esta relaciona-se ao ponto de ebulição
deles. Os ácidos são classificados em:
Fixos: ácidos que apresentam elevado ponto de ebulição. Exemplos:
H2SO4, H3PO3, H3 PO4.
Voláteis: ácidos que apresentam baixo ponto de ebulição. Exemplos:
HCl, HCN, HBr, HNO3, HI, H2S.
Outra característica dos ácidos está relacionada com sua força. Quando
dissolvemos um ácido em água verificamos que as moléculas sofrem ionização.
Contudo, se analisarmos a solução, constatamos que nem todas moléculas
foram ionizadas. Se relacionarmos o número de moléculas ionizadas com o
número de moléculas adicionadas, teremos a seguinte fórmula:

= número de moléculas ionizadas x 100


número de moléculas adicionadas

Esta relação recebe o nome de grau de ionização () e está relacionada com
a força do ácido. Quanto maior o valor de , mais forte é o ácido (SARDELLA,
1999).
22 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Desta forma, ainda classificamos os ácidos em:


a) Fortes: são aqueles que apresentam  superior a 50%;
b) Moderados: são aqueles ácidos que apresentam  entre 5 a 50%
c) Fracos: são ácidos que apresentam  inferior a 5%.

Observem o exemplo a seguir:


Ácido Grau de ionização () Classificação
HI 95%
HBr 93,5%
HCl 92,5% Fortes
HNO3 92%
H2SO4 61%
H2C2O4 50%
H2SO3 30% Moderados
H3PO4 27%
H2S 0,08%
H3BO3 0,07% Fracos
HCN 0,008%

1.6.2 Bases
Arrhenius também estudou o comportamento das bases, mostrando que base
é qualquer composto que em meio aquoso se dissocia ionicamente liberando
íons OH– (ânion hidróxido ou hidroxila).
Desta forma, o íon OH– será o radical funcional das bases (SARDELLA,
1999). Veja os exemplos:
NaOH  Na+ + OH–
Ca(OH)2  Ca+2 + 2 OH–
Al(OH)3  Al+3 + 3 OH–
As bases são formadas por um metal que constitui o radical positivo, ligado
à hidroxila OH–. O hidróxido de amônio (NH4OH) é a única base em que a
hidroxila está ligada a um não metal.
Em geral, as bases possuem um sabor adstringente, caústico e têm a função
principal de neutralização de ácidos.
Introdução e conceitos básicos 23

Assim como os ácidos, as bases possuem diversas características dentre elas


destacaremos: volatilidade, solubilidade e força.
Volatilidade: esta classificação está relacionada ao ponto de ebulição das
bases. Desta forma, as bases fixas apresentam elevado ponto de ebulição e as
voláteis apresentam baixo ponto de ebulição. Exemplos de bases fixas: KOH,
NAOH, Ca(OH)2. Como base volátil temos o NH4OH como exemplo (SAR-
DELLA, 1999).
Solubilidade: as bases podem ser solúveis e insolúveis.
Bases solúveis são aquelas que se dissolvem na água. Exemplos: bases de
metais alcalinos, de amônio, KOH, LiOH, NH4OH, NaOH, RbOH e CsOH.
Bases insolúveis são aquelas que não se dissolvem na água. Exemplos: as
demais bases; Fe(OH)3, Ni(OH)3 e Bi (OH)3.
Força: assim como nos ácidos, a força da base está relacionada com o grau
de dissociação iônica ().
Bases fortes apresentam  elevado e próximo de 100%, enquanto as bases
fracas apresentam  baixo e próximo de 0%. Exemplos de bases fortes: bases
de metais alcalinos e metais alcalinos terrosos e KOH, LiOH, Sr(OH)2, NaOH,
Ca(OH)2, Ba(OH)2. Exemplos de bases fracas: as demais bases; NH4OH, Fe
(OH)3, Ni(OH)3.

Para saber mais


Todas as bases são compostos iônicos sólidos com exceção da amônia (NH3), que é um composto
gasoso molecular.

1.6.3 Escala de pH
Para sabermos se o meio é ácido ou básico, utilizamos uma escala numérica,
chamada de escala de pH. Esta escala leva em consideração a quantidade de
íons H+ presentes em solução. Desta forma, se a solução possui muitos íons
H+, menor é seu pH e mais ácido é o meio. Quanto menor a quantidade de
H+, maior o pH e maior o caráter básico do meio.
Essa escala vai de 0 a 14, sendo que:
0-6 = meio ácido
7 = meio neutro
8-14= meio básico ou alcalino
24 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Na Figura 1.10 observamos exemplos de substâncias ácidas, alcalinas e


neutras que são comuns a nós hoje em dia.

Figura 1.10 Exemplos de substâncias ácidas, básicas e neutras

Fonte: Do autor.

1.6.4 Reação de neutralização


Conforme vimos, ácidos e bases, quando presentes em solução, liberam íons
H e OH–. Se misturarmos as soluções contendo ácido e base o que ocorrerá é
+

o seguinte: se houver maior concentração de íons H+ e menor concentração de


íons OH–, a solução apresentará caráter ácido; se o contrário ocorrer, ou seja,
maior concentração de íons OH– e menor de H+, a solução apresentará caráter
básico ou alcalino. Contudo, se houver a mesma concentração de ambos os
íons H+ e OH– a solução será neutra, pois ocorre o seguinte:
H+ + OH–  H2O
Assim, dizemos que o ácido neutraliza a base e a base neutraliza o ácido.
Desta forma, se misturamos um composto ácido com um composto básico
haverá a formação de sal e água. Observe o próximo exemplo:
HCl(aq) + NaOH(aq)  NaCl(aq) + H2O (aq)
HNO3(aq) + KOH(aq)  KNO3(aq) + H2O (aq)

1.6.5 Sais
Muitos sais fazem parte do nosso dia a dia. Podemos considerar como
exemplos o cloreto de sódio (NAOH – sal de cozinha), o bicarbonato de sódio
Introdução e conceitos básicos 25

(NaHCO3, usado como anti-ácido e também na cozinha no preparo de bolos e


bolachas), o sulfato de magnésio (MgSO4, usado como purgante), o sulfato de
cálcio hidratado (CaSO4.H2O — o gesso usado em construções), dentre outros
sais (SARDELLA, 1999).
Feltre (1996), define como sal os compostos iônicos que, em meio aquoso,
possuem pelo menos um cátion diferente de H+ e um ânion diferente de OH-.
Observe os exemplos a seguir:
água
NaCl Na+ + Cl–
água
KNO3 K+ + NO3–
Os sais podem ser formados a partir de reações entre um ácido e uma base,
esta por sua vez, é chamada de neutralização, pois forma sal e água. Contudo,
sua característica irá depender da quantidade de íons H+ e OH– ionizáveis.
Vejamos alguns exemplos.

1.6.5.1 Sal normal


Não apresenta íons H+ e OH– ionizáveis. É obtido somente por reação de
neutralização total, em que a quantidade de íons H+ do ácido é igual à quan-
tidade de íons OH– da base.
Exemplos:
HCl + NaOH  NaCl + H2O
H2SO4 + Ca(OH)2  CaSO4 + 2H2O
Outros exemplos: KNO3, CaCO3, K2SO4.

1.6.5.2 Hidrogenossal
Este tipo de sal forma-se quando só alguns dos hidrogênios ionizáveis são
neutralizados pela base, ocorrendo uma reação de neutralização parcial do ácido.
Exemplo:
H2SO4 + NaOH  NaHSO4 + H2O
Outros exemplos: NaHCo3, NaHPO4, KHSO4, NaHS.

1.6.5.3 Hidroxissal
Este tipo de sal forma-se pela reação de neutralização parcial da base, em
que nem todos os íons OH– são neutralizados pelo ácido.
Exemplo:
HCl + Ca(OH)2  Ca(OH)Cl + H2O
26 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Outros exemplos: Ca(OH)Br, Bi(OH)2Cl, Al(OH)2NO3.

1.6.5.4 Sal duplo


Este sal é formado pela neutralização total entre um ácido e duas bases ou
uma base e dois ácidos.
Exemplos:
a) Cátions:
H2SO4 + NaOH + KOH  NaKSO4 + 2H2O
b) Ânions:
HNO3 + HCl + Mg(OH)2  MgNO3Cl + 2H2O

1.6.6 Óxidos
Os óxidos são compostos formados por dois elementos diferentes, sendo
que um deles é o oxigênio e este deve ser o elemento mais eletronegativo.
Exemplos: CO2, Na2O, H2O, SO3.
Os óxidos podem estar ligados a elementos metálicos ou não. Quando o
oxigênio está ligado a um metal, chamamos este de óxido iônico, quando ele
está ligado a um não metal, temos um óxido molecular.
Os óxidos são classificados de acordo com algumas características que
veremos a seguir:

1.6.6.1 Óxidos básicos


Óxidos com forte caráter iônico (metais alcalinos e alcalinos terrosos, ele-
mentos com NOX baixo).
Exemplo:
Na2O FeO2 Cu2O CaO (cal)
Quando esses óxidos reagem com água, formam bases e com ácidos for-
mam sais e água.
Óxido Básico + Água = Base
Na2O + H2O  2NaOH
K2O + H2O  2KOH
Óxido Básico + Ácido = Sal + Água
CaO + H2SO4  CaSO4 + H2O
Na2O + 2HNO3  2NaNO3 + H2O
Introdução e conceitos básicos 27

1.6.6.2 Óxidos ácidos


Óxidos com caráter covalente e todos moleculares (não metais, metais com
nox alto).
Exemplos:
CO2 SO3
Quando esses óxidos reagem com água, formam ácidos e com bases for-
mam sais e água.

Óxido Ácido + Água = Ácido


SO3 + H2O  H2SO4
Óxido Ácido + Base = Sal + Água
SO3 + NaOH  Na2SO3 + H2O
Os óxidos neutros ou indiferentes são óxidos moleculares que não reagem
com água, nem com ácido e base. Os mais importantes são: CO, NO e N2O.
Entretanto, óxidos anfóteros comportam-se tanto como ácido como base. Os
mais importantes são: Al2O3 e ZnO (SARDELLA, 1999).

1.6.6.3 Óxido anfótero


São ácidos que podem se comportar como ácidos ou como bases. Eles irão
reagir com uma substância ácida ou básica forte. Observe o exemplo a seguir:
ZnO + 2HCl  ZnCl2 + H2O
óxido ácido
básico forte

ZnO + 2NaOH  Na2ZnO2 + H2O


óxido base
ácido forte

1.6.6.4 Peróxidos
São compostos que apresentam grupo O-O. Se o peróxido estiver ligado ao
H teremos um peróxido molecular. Exemplo H2O2.
Se estiver ligado a um metal alcalino-terroso, teremos um peróxido iônico.
Exemplo Na2O2 e BaO2.
Peróxido + Água = Base + Peróxido de Hidrogênio
K2O2 + H2O  2KOH + H2O2
Peróxido + Ácido = Sal + Peróxido de Hidrogênio
K2O2 + HCl  2KCl + H2O2
28 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

1.6.6.5 Superóxidos
São associações de uma molécula de O2 (oxigênio atômico) com uma de
–2
O2 (peróxido). Assim, o oxigênio tem NOX igual a –1/2.

1.7 Reações químicas


Hoje em dia é muito fácil e comum acendermos o fogo com fósforos, is-
queiros e acendedores. Mas você já parou para pensar que o homem precisou
de muito tempo para conseguir inventar formas de produzir o fogo? O homem
só conseguiu criar o fogo a partir do momento em que ele passou a dominá-lo
e a controlar sua intensidade. Esse domínio representou um grande avanço,
pois a tecnologia do fogo permitiu o aparecimento da cerâmica (cumbucas,
moringas, vasos, instrumentos de sopro, colares etc.), cozinhar a comida, obter
metais, moldar metais etc. Contudo, esse domínio não se deu da noite para
o dia. Foram necessários certamente milhares de anos para que isso aconte-
cesse e diferentes povos primitivos da terra estudaram distintas maneiras para
se chegar ao que conhecemos hoje. Certamente os antigos percebiam que as
transformações causadas pelo fogo eram de natureza profunda, mudando as
propriedades dos diferentes tipos de matéria com que entrava em contato,
dando os primeiros indícios da natureza radical do que hoje sabemos ser uma
transformação química. Certos materiais mudam suas propriedades quando
aquecidos e, assim, o homem começou a se dar conta de que esses materiais
podiam se modificar. Com o tempo, o homem percebeu que o fogo poderia
transformar diversos materiais. Essas transformações promovidas pelo fogo/calor
permitiram que os alimentos adquirissem gosto e consistência mais agradáveis,
e também possibilitaram a obtenção de metais — como o cobre (e mais tarde
o ferro) — a partir de minerais naturais, tijolos de cerâmica, vidro etc.
Quando um material queima (como a madeira), parece que o mesmo se
evaporar em fumaça e fogo até que a maior parte da matéria desapareça, dei-
xando um resíduo mínimo de cinzas. Aqui, a palavra-chave é transformação.
Conforme vimos no início desta seção, matéria é tudo que contém massa e
ocupa lugar no espaço. Desta forma, madeira e cinzas são matérias diferentes,
sendo que uma se transformou na outra.
Hoje, conseguimos explicar esse fenômeno através da química, ou seja,
ele é compreendido pelo conceito de reação química. Sendo assim, podemos
definir reação química da seguinte maneira:
Introdução e conceitos básicos 29

Para saber mais


Reação química é uma transformação da matéria onde ocorre a formação de novas substâncias
que não estavam presentes no sistema anteriormente.

Veremos a seguir como se forma a molécula de água (Figura 1.11):

Figura 1.11 Formação da molécula de água

Duas moléculas de Uma molécula Duas moléculas de água


hidrogênio H 2 de oxigênio (H 2O)

São os reagentes, ou seja, substâncias que São os produtos obtidos ou


entram na reação formados depois da reação

Fonte: Do autor (2014).

Para representarmos esta reação em equação, escrevemos:

  2H2(g) + O2(g)  2H2O (l)

Chamamos esta representação de equação química.

Desta forma, equação química é a representação gráfica ou abreviada de


uma reação química.
Os números que aparecem na frente das moléculas são chamados de coefi-
cientes. Estes indicam a proporção em que cada substância participa na reação.
Quando não aparece nenhum número, entende-se que ele é representado por
1. Assim, para cada duas moléculas de água formada, reagiram 1 molécula de
oxigênio e 2 de hidrogênio.

Equações iônicas
No exemplo anterior (2H2 (g) + O2 (g)  2H2O (l)), observamos uma reação
que ocorreu com moléculas, ou seja, átomos ligados por ligação covalente.
Agora veremos um exemplo de equação iônica em que as substâncias envol-
vidas na equação são compostos iônicos:
30 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Zn + CuSO4  ZnSO4 + Cu (1)


metal sal iônico sal iônico metal

Esta equação pode ser escrita também da seguinte forma:


Zn + Cu+2 + SO4–2  Zn+2 + SO4–2 + Cu (2)
Em solução, o sal está na forma iônica. Assim, (equação 2), desta forma
dizemos que o íon sulfato não reagiu, sendo que não sofreu alteração de rea-
gente para produto. Sendo assim, representamos a equação iônica:
Zn + Cu+2  Zn+2 + Cu

1.7.1 Tipos de reações


Veremos a seguir quais critérios são utilizados para classificar as reações
químicas.
1. Envolvimento de calor: as reações são classificadas em endotérmica e
exotérmica.
a) Endotérmica: reação que ocorre com absorção de calor.
+ calor
CaCO3 CaO + CO2 (esta seta para cima significa estado gasoso)

b) Exotérmica: reação que ocorre com liberação de calor


2H2 (g) + O2 (g)  2H2O (l) + calor

2. Velocidade: as reações são classificadas em rápidas ou lentas.

a) Rápidas: são reações que ocorrem de maneira muito rápida, por


exemplo, a combustão do álcool:
C2H6O + 3O2  2CO2 + 3H2O
b) Lentas: são reações que ocorrem de forma lenta, por exemplo, a
formação da ferrugem:
4Fe + O2  2Fe2O3
3. Reversibilidade: as reações são classificadas em reversíveis ou
irreversíveis.

a) Reversíveis: são reações que ocorrem simultaneamente nos dois


sentidos e são representadas por seta dupla:
CaO + CO2  CaCO3
b) Irreversíveis: são reações que ocorrem em sentido único
NaCl + AgNO3  AgCl + NaNO3
Introdução e conceitos básicos 31

4. Substâncias participantes

a) Síntese ou adição: este tipo de reação ocorre quando duas ou mais


substâncias reagem, produzindo uma única substância. Veja o
exemplo:
aquecimento (Δ)
2CO + O2 CO2
composta simples composta
aquecimento (Δ)
S + O2 SO2
simples simples composta

b) Análise ou decomposição: este tipo de reação ocorre quando uma


substância se divide em duas ou mais substâncias simples ou com-
posta. Vejamos o exemplo a seguir:
aquecimento (Δ)
2HCl H2 + Cl2
composta simples simples

luz (γ)
2H2O2 2H2O + O2
composta composta simples

Algumas reações de decomposição devido à ação de alguns agentes físicos


são denominadas em:
Pirólise = reação de decomposição pela ação do calor
Fotólise = reação de decomposição pela ação da luz
Eletrólise = reação de decomposição pela ação da eletricidade

Para saber mais


O fermento químico é um composto de bicarbonato de amônio ou carbonato ácido de amônio
utilizado em alimentos para fins de confeitaria como bolos, biscoitos, pães etc. com o objetivo
de expandir a massa. Quando aquecido, libera desprendimento gasoso capaz de expandir as
massas aumentando seu volume e porosidade. Ocorre uma reação de decomposição com o
bicarbonato liberando gás carbônico, água e amônia.
NH4HCO3  NH3(g) + H2O (g) + CO2(g)

c) Dupla troca: este tipo de reação ocorre quando duas substâncias com-
postas produzem duas outras substâncias compostas. Vejamos o exemplo
a seguir:

 
HCl + NaOH  NaCl + H2O reação de salificação (ácido + base)
 
32 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

 
NaCl + AgNO3  AgCl + NaNO3
 

Para saber mais


A acidez estomacal é provocada pelo excesso de suco gástrico no estômago. Um dos consti-
tuintes do suco gástrico é o ácido clorídrico. Este em excesso pode refluir subindo ao esôfago
e causando azia. Para reverter esse efeito utilizam-se medicamentos como hidróxido de alumínio
ou magnésio para aliviar a azia. Esses medicamentos utilizados são substâncias básicas que
neutralizam o excesso de ácido.

São exemplos de reações de dupla troca e de neutralização:

Mg(OH)2 + 2HCl  MgCl2 + 2H2O


Al(OH)3 + 3HCl  AlCl3 + 3H2O
NAHCO3 + HCl  NaCl + H2O + CO2

d) Deslocamento: este tipo de reação ocorre quando uma substância sim-


ples reage com uma composta, sendo que a substância simples “desloca”
para a substância composta produzindo uma substância composta e
outra simples.
Exemplo:
 
Fe + CuSO4  FeSO4 + Cu
simples composta composta simples

 
Fe + 2HCl  FeCl2 + H2
simples composta composta simples

1.7.2 Outros tipos de reações

1.7.2.1 Reações com o oxigênio (combustão)


O oxigênio é um elemento (um não metal), bem reativo que consegue reagir
com quase todos os elementos formando óxidos de vários tipos. Este tipo de
reação é denominado como combustão ou queima (SARDELLA, 1999).
Introdução e conceitos básicos 33

Na reação com metais, produz em geral, óxidos básicos, contudo pode


produzir peróxidos ou óxidos anfóteros (SARDELLA, 1999).
2Cu + O2  2CuO (óxido básico)
4Al + 3 O2  2 Al2O3 (óxido anfótero)
2Na + O2  Na2SO4 (peróxido)
Na reação com não metais produz óxidos ácidos ou neutros.
S + O2  SO2  (óxido ácido)
4P + 5 O2  2P2O5  (óxido ácido)
2C + O2  2CO  (óxido neutro)
O oxigênio reage com sulfetos metálicos em altas temperaturas produzindo
o óxido do metal, conforme o exemplo a seguir:
2ZnS + 3O2  2ZnO + 2SO2
Blenda

4FeS2 + 11O2  2Fe2O3 + 8SO2


Pirita

Essas reações têm grande importância na indústria metalúrgica e são cha-


madas de reações de ustulação de sulfetos. Pode-se observar que há produção
de SO2 (dióxido de enxofre). Este é um elemento que vai para atmosfera e é
responsável por alguns problemas ambientais, que veremos nos capítulos pos-
teriores (SARDELLA, 1999).

1.7.2.2 Reações com a água


A água em temperatura ambiente reage com metais alcalinos e alcalinos
terrosos formando hidróxidos correspondentes, conforme demonstrados nos
exemplos a seguir:

2Na + 2H2O  2NaOH + H2


Ca + 2H2O  Ca(OH)2 + H2

Os outros tipos de metais, ou seja, os comuns reagem com a água somente


por aquecimento formando óxidos correspondentes, sendo que os metais no-
bres não reagem com a água. O exemplo a seguir é a reação da água com um
metal comum:
aquecimento (Δ)
Zn + H2O ZnO + H2
34 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

1.7.2.3 Reação de precipitação


A precipitação é a formação de um sólido durante a reação química. Esse
sólido formado indica que a substância é insolúvel ou foi supersaturada por
um composto. A formação do precipitado indica que houve uma mudança
química. Dependendo da densidade do sólido, este poderá cair se for mais
denso (precipitar), flutuar se for menos denso ou formar uma suspensão.
Exemplos:

AgNO3 (aq) + NaCl(aq)  NaNO3 (aq) + AgCl(s)


sal incolor sal incolor sal incolor sal precipitado branco

Para saber mais


O símbolo significa que a substância é um sólido insolúvel, desta forma precipita.

Observe a Quadro 1.1:


Quadro 1.1 Solubilidade dos principais sais

Compostos Solúveis Exceções

NH4+, Li+, Na+, K+, Rb+, Cs+, nitratos


K+ClO4-
(NO3–) e percloratos (ClO–4), acetatos
Ag+(H3C-CO2)–
(H3C-COO–) e nitritos (NO2–),
Ag+, Hg+, Pb+2
acetatos (H3C-COO–) e nitritos
Ba+2, Sr+2, Ca+2, Ra+2, Pb+2
(NO2–), Haletos, Sulfatos

Compostos Insolúveis

Sulfetos, hidróxidos, óxidos,


Li+, Na+, K+, Rb+, Cs+,
oxalatos (C2O4-), carbonatos (CO32) e
NH4+, Ca+2, Sr+2, Mg+2, Ba+2
fosfatos (PO43)

Fonte: Adaptado de Feltre (1996).

1.7.2.4 Reação de oxirredução


Este tipo de reação ocorre com a transferência de elétrons de um átomo
para outro, desta forma um átomo cede elétrons e o outro recebe elétrons.
Vejamos alguns exemplos.
Quando um metal sofre corrosão, ele perde elétrons e forma cátions:

Ca(s) +2H+(aq)  Ca2+(aq) + H2(g)


Introdução e conceitos básicos 35

Nesta equação observamos que o átomo de cálcio (Ca) perdeu 2 elétrons,


transformando-se, em um íon cálcio (Ca2+). Este átomo, por ceder elétrons
sofreu um processo denominado de oxidação. Sendo assim, podemos dizer
que a oxidação é a perda de elétrons. Por outro lado, o hidrogênio estava de-
ficiente em um elétron (H+) e após a reação ele recebeu um elétron do átomo
de cálcio, transformando-se assim em uma molécula de hidrogênio (H2). Este
átomo, por receber elétrons sofreu um processo denominado redução. Sendo
assim, dizemos que a redução é o ganho de elétrons (SARDELLA, 1999).
Denomina-se número de oxidação (nox) para uma determinada substância,
a carga iônica que essa substância receberá após o recebimento ou a doação
de elétrons, ou seja, é o número de elétrons que o átomo perdeu ou ganhou
(carga elétrica do íon).
Os números de oxidação são determinados por uma série de regras, segundo
Feltre (1996):
Se o átomo estiver em sua forma elementar, o número de oxidação é zero.
Cl2, H2, P4.
O número de oxidação do oxigênio é sempre –2, exceto para os peróxi-
dos, que é –1.
O número de oxidação do hidrogênio é +1 quando ligado a não metais
e –1 quando ligado a metais.
O número de oxidação do flúor é –1.
Os metais da família A da tabela periódica, quando perde elétrons, tem
o nox de acordo com o número da coluna, por exemplo:
1A = +1 2A = +2 3A = +3 4A = +4 5A = +5 6A = +6 7A = +7
Quando o átomo ganha elétrons, o número do nox é o seguinte:
4A= –4 5A= -3 6A= –2 7A= –1
Assim temos:
Doador: perda de elétrons (nox aumenta).
Receptor: recebimento (ganho) de elétrons (nox diminui).
As reações de oxirredução são fenômenos paralelos, ou seja, não pode
ocorrer uma oxidação sem que ocorra uma redução.

1.7.2.5 Série de atividade


Alguns metais são facilmente oxidados, outros, não. Desta forma, a série
de atividade é uma lista de metais organizados em ordem decrescente pela
36 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

facilidade de oxidação. Quanto mais no topo da tabela estiver o metal, mais


ativo ele é. Os metais sempre têm a tendência de ceder elétrons, desta forma
eles se oxidam e agem como redutores (SARDELLA, 1999).
K Ba Ca Na Mg Al Zn Fe H Cu Hg Ag Au
Metais alcalinos e alcalinos Metais comuns Metais nobres
terrosos

Reatividade crescente

Os não metais sempre tem a tendência de receber elétrons, desta forma se


reduzem e agem como oxidantes.

F O Cl Br I S

Reatividade crescente

A espécie doadora sofre oxidação e provoca a redução da outra espécie,


por isso é chamada de agente redutor.
A espécie receptora de elétrons, que se reduz, provoca a oxidação da outra
espécie, por isso é chamada de agente oxidante.
Observe o Quadro 1.2:

Quadro 1.2 Diferença entre agente oxidante e agente redutor

O que ele provoca O que ele sofre Variação do NOX


Oxidação de outra
Agente oxidante Redução (ganho de e–) Diminui
espécie química
Redução de outra
Agente redutor Oxidação (perda de e–) Aumenta
espécie química
Fonte: Adaptado de Feltre (1996).

1.7.2.6 Cálculo do Número de Oxidação


Para calcularmos o Número de Oxidação de uma substância, temos que
somar os números de oxidação de todos os átomos em uma molécula, e esta
Introdução e conceitos básicos 37

soma deverá sempre ser igual a zero. Vejamos alguns exemplos segundo Sar-
della (1999):
Vamos calcular o número de oxidação do enxofre, presente no ácido sul-
fúrico, H2SO4.
NOX H= +1
NOX S = ?
NOX O = –2
H2 S O4

(+1) x 2 + ? + (–2) x 4 = 0
+2 + ? –8 = 0
+2 +6 –8 = 0
NOX = +6

Calcularemos agora o Número de Oxidação do K2Cr2O7.


K2 Cr2 O7
(+1) x 2 + 2x? + (–2) x 7 = 0
+2 + 2x? –14 = 0
+2 + 2x (+6) –14 = 0
Nox = +6

Agora veremos um exemplo de reação de oxirredução:


P + HNO3 + H 2O  H3PO4 + NO
       
0 + 1+5–6=0 + (+2)–2=0  +3+5–8=0 +2–2=0

De acordo com o número de oxidação dos átomos iremos verificar qual


átomo cedeu elétrons e qual átomo recebeu elétrons. O fósforo (P) no início da
reação tinha NOX = zero e após a reação seu NOX = +5. O nitrogênio (N) no
início da reação tinha NOX = +5 e no final da reação NOX = +2. Observamos
que no caso do fósforo o nox aumentou, desta forma este átomo cedeu elé-
trons, assim dizemos que este átomo sofreu oxidação. Por outro lado, o NOX
do nitrogênio diminuiu, desta forma, ele recebeu elétrons, assim dizemos que
este átomo sofreu redução (observe o Quadro 1.2).
38 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Atividades de aprendizagem
1. Determine o número de prótons, elétrons e nêutrons dos seguintes
átomos:
56 31
a) Fe 26 b) P 15 (–3) c) 56
Fe 26 (+2)
2. Ao colocarmos um pedaço de magnésio em uma solução com ácido
clorídrico, verifica-se o aumento da temperatura com desprendimento
de gás. Este gás que se desprende consiste em:
a) hidrogênio.
b) vapor d’água.
c) vapor de magnésio.
d) mistura de vapores de água e magnésio.
e) vapores de cloro.
Introdução e conceitos básicos 39

Seção 2 Estudo da química e da química


ambiental
Nesta seção iremos conhecer um pouco sobre o estudo da química como
ciência e da química ambiental, qual a importância dessas áreas da ciência para
o nosso dia a dia, como estão relacionadas e como fazem parte e se interagem
com o meio ambiente. Vamos iniciar a discussão?

2.1 Estudo da química


O estudo da química pode ser definido como o ramo da ciência dedicado
à observação, transformação e construção, pois o trabalho do químico geral-
mente inclui a observação e/ou determinação da estrutura ou composição de
espécies químicas presentes nos seres vivos, no ambiente e nos materiais, bem
como a transformação e construção de novas moléculas.
A ciência da química surgiu através de observações feitas no cotidiano. Um
exemplo são os diferentes elementos que observamos como as pedras sólidas
e duras, a água líquida e incolor, o ar que nos rodeia que é gasoso, a luz de
uma vela acesa, dentre outras coisas. Em geral, cada fato observado depende
de uma série de fatores. Dizemos também que cada efeito que observamos é
provocado por uma ou mais causas. Quando o homem entende quando e por
que uma determinada causa provoca um dado efeito, isto é positivo, pois ele
procura usar tal fenômeno em seu benefício.

Questões para reflexão


A química está presente em nossa vida? De qual forma?
É possível viver sem a química?

2.1.1 Importância da química


Todos os materiais que utilizamos hoje em dia passam ou passaram por
algum tipo de transformação, sendo assim, podemos dizer que esses materiais
foram gerados a partir de processos químicos. Vejamos alguns exemplos.
No processo de limpeza tanto da nossa casa como pessoal, utilizamos
variados produtos que passaram por diversos tratamentos químicos antes de
40 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

chegar a nossa casa como os detergentes, alvejantes, desinfetantes, sabonete,


xampu, creme dental, dentre outros (FELTRE, 1996).
A maioria dos fios que compõe a nossa roupa apresenta fios artificiais
(náilon, modal, viscose) que consistem na transformação química de matérias-
-primas naturais, e os fios ou fibras sintéticas (poliamida, elastano, poliéster) que
foram obtidos a partir da transformação da nafta petroquímica, um derivado de
petróleo, em benzeno, eteno, p-xileno e propeno, produtos intermediários da
chamada 1ª geração petroquímica e insumos básicos para a produção dessas
fibras. Em diversas regiões, os alimentos que consumimos (frutas, verduras,
grãos) são produzidos com fertilizantes e pesticidas que são produtos fabricados
a partir de transformações químicas. A maioria dos meios de transporte utiliza
como combustível derivados do petróleo (gasolina, óleo diesel, querosene etc.),
assim como muitos outros produtos utilizados químicos. O petróleo é resultado
de transformação natural que levou milhões de anos para se formar a partir da
decomposição de restos de animais, plantas e microrganismos (FELTRE, 1996).
A química faz parte do desenvolvimento da sociedade, pois esta ciência
surgiu com “séculos de exploração e descoberta” (ATKINS; JONES, 2012). O
desenvolvimento da civilização ocorreu com a capacidade de transformar os
materiais em utensílios que serviriam para seu auxílio, como as ferramentas,
vidro, joias, cerâmicas, armas etc. A química também contribuiu para o desen-
volvimento da arte, da agricultura e das guerras. Esse desenvolvimento se tornou
ainda mais rápido com a utilização de minerais como ferro para a produção
de aço, que levaram à Revolução Industrial, em que a força a vapor substituiu
a força muscular e, consequentemente, ocorreram mudanças no transporte,
as fábricas aumentaram sua produção, o comércio cresceu e grandes empre-
endimentos apareceram. A partir do século XXI a química contribuiu para o
desenvolvimento da agricultura, pois gerou meios de alimentar a crescente
população e este se deu com a produção de fertilizantes artificiais. A química
também contribuiu para a comunicação, transportes, medicina e produção de
materiais avançados (ATKINS; JONES, 2012).
Contudo todo esse crescimento e desenvolvimento da sociedade ocorreram
sem se pensar nos danos que o planeta poderia sofrer. Os recursos naturais foram
utilizados de forma depredatória, fabricavam-se e utilizavam-se agrotóxicos e
fertilizantes artificiais sem saber o dano que poderiam causar nas outras formas
de vida e diversos tipos de produtos foram fabricados sem se pensar no seu
destino final. Todo esse processo fez que com ocorressem mudanças causadoras
Introdução e conceitos básicos 41

de desequilíbrio no meio ambiente e consequentemente, o ser humano também


foi afetado. Desta forma, existe hoje uma crescente preocupação na preservação
do meio ambiente e esta preocupação foi uns dos fatores que contribuiu para
o estudo da Química ambiental.

2.2 Estudo da Química ambiental


A Química ambiental é uma divisão interdisciplinar, bastante abrangente
que engloba os diversos campos de estudo e os desafios contemporâneos da
química. Sendo assim, podemos definir Química ambiental como o estudo das
origens, dos transportes, dos efeitos e dos processos das substâncias químicas
presentes na água, nos solos e ar e de que forma as atividades humanas têm
influência sobre esses processos e quais as consequências (MANAHAN, 2001).
A Divisão de Química ambiental da Sociedade Brasileira de Química define
Química ambiental como o estudo dos processos químicos que ocorrem na
natureza, sejam eles naturais ou ainda causados pelo homem, e que compro-
metem a saúde humana e a do planeta. Esse ramo da ciência procura entender
a composição e o comportamento do solo, da água e do ar, quais as interações
complexas entre esses sistemas, como eles são influenciados pelas atividades
humanas e quais são as suas consequências, contribuindo de forma significativa
na prevenção e correção de problemas ambientais (SILVA; ANDRADE, 2003).
Sendo assim, embora não exista uma definição única para Química ambiental,
podemos afirmar que ela atualmente busca a melhor forma de prevenção e
correção dos problemas ambientais causados no passado.
A química ambiental é um ramo da ciência que tem crescido muito nos
últimos anos. Talvez, pensamos que esse ramo da ciência é novo, porém ana-
lisando documentos do século XVII, em regiões próximas ao Reino Unido,
observa-se que havia uma preocupação com a devastação do meio ambiente
onde se fazia a extração do carvão. De acordo com Jardim (2001), em 1872 foi
publicado um periódico em inglês denominado Nature, pelo químico inglês
Jocelyn Field Thorpe, no qual apresenta uma minuciosa análise da qualidade
do ar em regiões urbanas, indicando os perigos de altas concentrações de SO2
nas cidades de Londres e Manchester. Desta forma, observamos que estas preo-
cupações ambientais não é algo novo. No Brasil, até o início dos anos 1980, a
pesquisa em Química ambiental dedicava-se ao estudo da poluição ambiental
e ao monitoramento de espécies químicas consideradas poluentes na atmos-
fera, ou na litosfera ou hidrosfera (JARDIM, 2001). Atualmente as pesquisas na
42 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

área da química buscam explicar os processos químicos no meio ambiente


assim como o estudo dos processos químicos que controlam os mecanismos
de transporte e a reatividade de substâncias nos compartimentos do planeta.
Contudo, os problemas ambientais ainda possuem falta de informações, o que
dificulta muitas vezes a escolha de uma opção preventiva para o problema.
Isso ocorreu devido à fabricação de alguns produtos químicos como o DDT,
CFC, metais pesados, dentre outros, sem se importar com os riscos inerentes
que podiam causar para o meio ambiente, assim como para o ser humano.
Apesar dos avanços da química na área de saneamento ambiental e pro-
cessos de desinfecção de água, do aumento e diversificação da produtividade
agrícola à custa de insumos químicos, dos avanços na área da bioquímica,
que serve como base da medicina preventiva, desenvolvendo vacinas e novas
drogas que aumentam a nossa longevidade, ainda há muitos questionamentos
que estão sem respostas. Por exemplo, ainda não conhecemos com exatidão
a magnitude do efeito estufa e todas as suas consequências, assim como não
é possível prever em detalhes a toxicidade ou o poder mutagênico de todas as
novas moléculas que são produzidas. Sendo assim, qualquer que seja a situação,
devemos sempre agir baseados em fatos e evidências científicas (JARDIM, 2001).

Para saber mais


A química verde tem como foco desenvolver produtos e processos que reduzam ou eliminem
o uso e a produção de substâncias danosas ou perigosas à saúde humana e ao ambiente. Pode
servir também como guia para mudanças no comportamento humano, esclarecendo a sociedade
sobre os riscos ambientais que certos produtos e atitudes oferecem e a possibilidade de substituí-
-los por outros menos nocivos.

Atividades de aprendizagem
1. A partir do termo “Química ambiental”, cite cinco palavras que você
relaciona ao tema.
2. Descreva qual foi a contribuição da química para o desenvolvimento
da sociedade.
Introdução e conceitos básicos 43

Fique ligado!
Nesta unidade você aprendeu:
Todas as coisas são formadas por partículas extremamente pequenas
denominada átomos;
As propriedades importantes dos átomos como a origem do nome
de alguns deles, que eles possuem um núcleo com cargas positivas e
neutras denominadas prótons e nêutrons, sendo que ao redor desse
núcleo há partículas com cargas negativas denominadas elétrons.
Os átomos que possuem propriedades químicas semelhantes, foram
agrupados em uma tabela para seu melhor estudo;
Através das ligações químicas os elementos se unem para formar
milhares de substâncias que conhecemos hoje em dia;
As principais funções dos elementos são: ácido, base, sais e óxidos,
e as transformações químicas que ocorrem através dos diversos tipos
de ligações químicas;
A importância para o estudo da ciência da química e sua contribui-
ção para o desenvolvimento humano;
A origem e importância do estudo da Química ambiental para a
formação do profissional em Tecnologia em Gestão Ambiental.

Para concluir o estudo da unidade


Conforme você pode perceber no estudo desta unidade, desde a An-
tiguidade o homem observa a natureza e tenta entendê-la através dos
fenômenos do cotidiano.
Através do estudo da química, o homem conseguiu entender as proprie-
dades dos elementos necessárias para o desenvolvimento de tecnologias
importantes na área de informática, medicina, indústria etc. A química
voltada para as questões ambientais é o objetivo dessa disciplina. Desta
forma, entender a teoria da química ajudará você a compreender os di-
versos tipos de reações e transformações que ocorrem de forma natural e
antrópica no planeta Terra.
44 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Atividades de aprendizagem da unidade


1. Após a incineração do lixo, faz-se a determinação de carbono não
queimado e matéria fermentável por um método que se fundamenta
na seguinte reação:
Na2C2O4 + KMnO4 + H2SO4  K2SO4 + Na2SO4 + MnSO4 + CO2 + H2O
A respeito da reação acima, indique qual é o agente oxidante e qual
é o agente redutor.
2. Nos garimpos, utiliza-se mercúrio para separar o ouro de outras im-
purezas. Quando o mercúrio entra em contato com a água dos rios,
causa uma série de contaminação: é absorvido por microrganismos
que são ingeridos pelos peixes pequenos, que são devorados pelos
peixes grandes, que são consumidos por nós humanos. Com o auxílio
de uma tabela, indique qual dos elementos a seguir possui proprie-
dades semelhantes a do mercúrio:
a) Na. c) Ca. e) Cd.
b) C. d) Fe.

3. Indique a diferença entre os três tipos de ligações: iônica, covalente


e metálica.
4. Descreva qual a importância da química para sociedade.
5. Relate como surgiu a Química ambiental e qual foi sua contribuição
para a sociedade.
Introdução e conceitos básicos 45

Referências
ATKINS, Peter W; JONES, Loretta. Princípios de Química: questionando a vida e o meio
ambiente. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2012.
CARDOSO, Eliezer M. Energia nuclear. Apostila educativa do CNEN. Rio de Janeiro.
Disponível em: <http://www.cnen.gov.br/ensino/apostilas/energia.pdf>. Acesso em: 8 mar.
2012.
FELTRE, Ricardo. Fundamentos da Química. Volume único. São Paulo: Moderna, 1996.
GODOI, Thiago A. F; OLIVEIRA, Moises; CODOGNOTO, Lúcia. Tabela periódica –– um
super trunfo para alunos do ensino fundamental e médio. Química Nova na Escola, v. 32,
n.1, fev. 2010. Disponível em:
<http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc32_1/05-EA-0509.pdf>.
Acesso em: 25 out. 2011.
GONÇALVES, Odair D.; ALMEIDA, Ivan P. S. A energia nuclear: comissão nacional de
energia nuclear. Ciência Hoje, v. 37, n. 220, out. 2005.
JARDIM, Wilson F. Introdução à Química Ambiental. Cadernos Temáticos de Química Nova
na Escola. Edição especial. maio, 2001.
KOTZ, John; TREICHEL, Paul. Química e reações químicas. v.1. Rio de Janeiro: Thomson
Pioneira, 2010.
MANAHAN, Stanley E. Fundamentals of Environmental Chemistry. Boca Raton: CRC Press
LCC, 2001.
SARDELLA, Antonio. Curso Completo de Química. Volume único. São Paulo: Ática, 1999.
SILVA, Luciana A.; ANDRADE, Jailson B. Química a serviço da Humanidade. Cadernos
Temáticos de Química Nova na Escola, n. 5. nov. 2003.
Unidade 2
Química da
atmosfera
Cristina Célia Krawulski
Kenia Zanetti Molinari

Objetivos de aprendizagem: Nesta unidade você vai conhecer a


composição e a estrutura do sistema atmosférico, a origem dos ele-
mentos químicos presentes na atmosfera, destacando-se a formação
da camada de ozônio, a origem e as consequências dos poluentes
atmosféricos, bem como os ciclos biogeoquímicos do carbono, do
nitrogênio e do enxofre.

Seção 1: Sistema atmosférico: composição e


estrutura
Nesta seção você vai estudar a composição da atmos-
fera e a origem dos elementos químicos presentes
na atmosfera.

Seção 2: Formação do ozônio


Nesta seção você vai estudar a formação do ozônio
na alta atmosfera (estratrosfera), como se forma a
camada de ozônio e a sua importância para a vida
na Terra, destacando-se os diversos tipos e diferenças
da radiação solar.
Seção 3: Poluentes atmosféricos e ciclos
biogeoquímicos
Nesta seção você vai conhecer os principais poluentes
atmosféricos e sua origem, natural ou antrópica, e
entender os efeitos desses poluentes sobre os seres
vivos. Você vai relembrar, também, os ciclos biogeo-
químicos gasosos (carbono, nitrogênio e enxofre), e
aprender como alterações nesses ciclos, provocadas
por poluentes atmosféricos, estão interferindo no
equilíbrio da Terra.

Seção 4: Problemas decorrentes dos poluentes


atmosféricos
Nesta seção serão apresentados os problemas rela-
cionados com os poluentes atmosféricos, como a
destruição da camada de ozônio, o agravamento do
efeito estufa, a ocorrência de chuva ácida e o smog
fotoquímico.
Química da atmosfera 49

Introdução ao estudo
O crescimento econômico mundial depende, historicamente, de processos
químicos, que além dos benefícios podem provocar, também, danos ao am-
biente e poluição.
O crescimento da população mundial; a intensificação de práticas de plan-
tio, com grande consumo de fertilizantes; o processo de queima de combustí-
veis fósseis com a consequente liberação de gases como dióxido de carbono,
óxidos de nitrogênio e dióxido de enxofre, trouxe como resultado desequilíbrio
no balanço entre os processos físicos, químicos e biológicos do planeta Terra.
Nesta unidade você vai estudar a composição da atmosfera, sua estrutrua
em camadas e a importância destas mesmas para o equilíbrio ambiental, e
como as atividades antrópicas podem alterar os componentes atmosféricos.
Serão abordadas, também, as fontes de emissão dos principais elementos quí-
micos presentes na atmosfera, naturais e antrópicas. E você vai conhecer alguns
problemas ambientais decorrentes das ações humanas, que podem provocar
desequilíbrio e comprometer a qualidade do ar que respiramos todos os dias
— eu, você, sua família.

Seção 1 Sistema atmosférico: composição e


estrutura
Alguma vez você já pensou como seria a Terra se não existisse a atmosfera?
Afirma a ciência que sem ela a Terra seria um lugar hostil, muito gelado ou
muito quente, exposto à radiação direta do sol, com excesso de radiação ul-
travioleta, como acontece em Marte ou na Lua onde, até prova em contrário,
ainda não foi encontrada nenhuma forma de vida.
A atmosfera é uma camada gasosa de
espessura muito pequena se comparada ao
tamanho da Terra: mais de 99% da massa Para saber mais
atmosférica está concentrada em apenas Atmos = vapor (em grego).
30 km de espessura, enquanto a Terra tem
6.370 km de raio. É essa fina camada que envolve a Terra como se fosse um
envelope de ar, essencial à vida e ao funcionamento ordenado dos processos
físicos e biológicos que nela ocorrem. O Sol, principal fonte de energia da Terra,
é o responsável pelos processos físicos e químicos da atmosfera.
50 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

1.1 Composição da atmosfera


A atmosfera é composta por gases (necessários para os processos vitais de
respiração celular e fotossíntese) e material particulado (aerossóis), e fornece
a água necessária à vida. Portanto, exerce a função fundamental de proteger
a Terra e suas formas de vida contra a exposição prejudicial à radiação ultra-
violeta e, assim, proporcionando e mantendo condições ideais para a criação
e manutenção da vida terrestre. A importância da atmosfera é destacada por
Berberan e Santos (2008, p. 2).
A nossa atmosfera tem um papel chave nas condições de
existência dos seres vivos: participa no mecanismo da
respiração e no processo inverso (fotossíntese), intervém
no ciclo da água e nos ciclos de vários elementos quími-
cos, filtra grande parte da radiação ultravioleta nociva
proveniente do Sol, suaviza e regulariza a temperatura,
transmite os sons, e produz condições de luminosidade
especiais. Um autor chegou mesmo a compará-la a um
líquido amniótico que nos resguarda do gélido e inóspito
espaço exterior.

Você já sabe que o ar é um elemento


Para saber mais essencial para o homem e demais seres ae-
róbios terrestres, não sabe? Pelo mecanismo
Aerossol: coloide formado por um
sólido ou líquido disperso em um gás.
da respiração, os seres aeróbios inspiram o
oxigênio, que é o responsável pela oxidação
da matéria orgânica, e essa oxidação gera a
energia necessária para que os seres vivos disponham de energia para suas ati-
vidades. Apesar da sua importância para os seres vivos, o oxigênio representa
pouco mais de 20% do volume da atmosfera e não é o único gás nela presente.
Na composição da atmosfera terrestre existem os componentes majoritários e
os minoritários. Nitrogênio, oxigênio e argônio são os componentes majoritá-
rios, sendo o nitrogênio o mais abundante, com cerca de 78% do volume da
atmosfera. Gás carbônico, metano e ozônio são exemplos de componentes
minoritários.
Veja como é a composição da atmosfera: ao nível do mar, é constituída por
ar seco (com 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e 1% de outras substâncias)
e por água em quantidade variável (inferior a 4%) (Tabela 2.1). Até os 100 km
de altitude, a composição é constante nos constituintes maioritários, e acima
disso a atmosfera se torna rarefeita (BERBERAN; SANTOS, 2008, p. 4).
Química da atmosfera 51

Tabela 2.1 Composição da atmosfera

Elemento
Volume (%) Distribuição Vertical Observação
Nome Símbolo
Nitrogênio N2 78,08* homogênea
Oxigênio O2 20,95* homogênea respiração
diminui com a altitude efeito estufa;
na troposfera; muito também presente
Água H2O 0,4**
pouco abundante na nos estados líquido
estratosfera e sólido (nuvens)
Argônio Ar 0,93* homogênea
Dióxido de 0,0365
CO2 homogênea efeito estufa
carbono (365 ppm)***
0,0018
Neônio Ne homogênea
(18 ppm)
0,0005
Hélio He homogênea
(5 ppm)
0,00016 na
Metano CH4 efeito estufa
(1,6 ppm)**** troposfera

máximo na estratos-
0,000001 a
fera (10 ppm a 30 km); efeito estufa,
Ozônio O3 0,001
também presente na filtro UV, oxidante
(0,01-10 ppm)
troposfera

Fonte: Adaptado de Berberan e Santos (2008, p. 4).


*para o ar seco; **na troposfera ≤ 4; ***aumenta 0,5% (1,5 ppm) ao ano; ****aumenta 0,9% ao ano.

Além dos elementos que constam na Tabela 2.1 outros gases compõem a
atmosfera em concentrações muito baixas, como criptônio (0,00011%), hidro-
gênio (0,00005%) e óxido nitroso (0,00003%). Podem ocorrer, também, em de-
terminados locais, constituintes adicionais devido às atividade antrópicas (como
indústrias poluentes) e processos naturais (atividade vulcânica, por exemplo).

Para saber mais


Sobre a alteração da composição da atmosfera provocada por atividades humanas, leia o texto
“QUE TEMPO DOIDO”, em <http://portalmultirio.rio.rj.gov.br/portal/_download/09.%20
detetives_tempo.doido_sala.de.aula.pdf>. Acesso em: 28 mai. 2014.

A composição atual da atmosfera é resultado de processos físicos e quími-


cos que ocorreram há muitos anos e ainda continuam ocorrendo, pelo fato de
que a Terra está constantemente sendo bombardeada por partículas energéticas
52 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

emitidas pelo Sol. Essa barreira de energia tem efeitos químicos profundos,
especialmente nos limites mais externos da atmosfera. Devido ao campo gravi-
tacional da Terra, os átomos e moléculas mais leves tendem a subir para o topo,
o que faz com que a composição da atmosfera não seja constante no tempo
nem no espaço. Porém, se fossem removidas as partículas suspensas, o vapor
d’água e certos gases presentes em pequenas quantidades, o resultado seria uma
composição estável da atmosfera, até os 80 km de altitude, aproximadamente.

Figura 2.1 Camadas da atmosfera terrestre

Fonte: Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (1998).


Química da atmosfera 53

1.1.1 Estrutura da atmosfera


Quando você ouvir falar em estrutura da atmosfera, pense em camadas,
aquelas que você pode observar na Figura 2.1. Essa estrutura também é definida
como um perfil vertical de temperatura, que varia com a latitude e época do
ano (BERBERAN; SANTOS, 2008, p. 8). Ou seja, a espessura de cada camada
foi definida em função da alteração da temperatura versus altitude.
A primeira camada atmosférica, a mais próxima da superfície terrestre, é
chamada de troposfera (camada agitada). Começa na superfície da Terra e
segue até os 11 km de altitude, aproximadamente, sendo menos espessa nos
polos (8 km) e mais espessa no Equador (16 km). Nessa camada, a temperatura
diminui com a altitude, e nela se concentra 99% da água (BERBERA; SANTOS,
2008, p. 8).
A troposfera tem uma grande importância climática, pois é nela que ocorrem
as chuvas, as nuvens, as brisas, o céu azul, enfim, tudo que está relacionado
com o clima. Além disso, tem grande importância ambiental, pois é nela que
ocorrem os fenômenos relacionados à poluição (MARTINS et al., 2003).
Imediatamente acima da troposfera fica a
estratosfera, dos 11 até os 50 km de altitude,
aproximadamente. Como o nome indica, é Para saber mais
uma camada estratificada, com mistura ver- A 11 km de altitude, a tempe-
tical lenta, onde as nuvens são muito raras. ratura na troposfera chega aos
Nessa camada ocorre aumento da tempera- –55 ºC, indicada nos aviões
tura com a altitude, devido à absorção de ra- comerciais, na altitude de cru-
zeiro.
diação ultravioleta. Vale destacar que, juntas,
troposfera e estratosfera representam quase a
massa total da atmosfera (99,8%) (BERBERAN; SANTOS, 2008, p. 9), sendo
que 99% dessa massa estão dentro da altitude de 33 km, mas 75% encontra-se
na troposfera e o restante na estratosfera.

Questões para reflexão


Você sabe por que a estratosfera é importante do ponto de vista ambien-
tal? Esta camada concentra cerca de 90% do ozônio da atmosfera. E a
função básica do ozônio é proteger a Terra das radiações ultravioletas
emitidas pelo Sol.
54 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Para saber mais


Acima de cada camada da atmosfera ocorrem os extremos de temperatura, cujo nome recebe
o sufixo pausa. Assim, acima da troposfera encontra-se a tropopausa, acima da estratosfera, a
estratopausa e assim por diante. Os limites de temperatura são importantes, pois neles os gases
se misturam às outras camadas de forma muito lenta, e dessa forma não provocam alterações
bruscas de composição.

Acima da estratosfera encontra-se a mesosfera (esfera média), entre os 50 e


86 km de altitude. É uma camada muito fria, sendo que na mesopausa ocorrem
as temperaturas mais baixas da atmosfera (–100 ºC). Dos 86 km aos 400 km,
a temperatura aumenta bastante com a altitude, na camada denominada ter-
mosfera ou ionosfera, variando de 1.000 K, quando o Sol está calmo, a 2.000 K
com o Sol ativo (BERBERAN; SANTOS, 2008, p. 10). Convertendo graus Kevin
para graus Celsius, essas temperaturas variam de 268 a 536 ºC. Na termosfera
ocorre a absorção de radiação ultravioleta de elevada energia, o que provoca
a dissociação do oxigênio molecular e a formação de íons. E a interação do
vento solar com a termosfera produz as auroras.
Acima da termopausa fica a exosfera, camada que antecede o espaço
sideral, onde a temperatura varia pouco e pode atingir 1.000°C, e se estende
até 800 km do solo. A exosfera é formada basicamente por hélio e hidrogênio,
e nela as partículas se desprendem da gravidade da Terra. É importante para
as telecomunicações, pois nela ficam situados os satélites de transmissão de
informações e os telescópios espaciais.

Para saber mais


Existe outra divisão da atmosfera em apenas duas camadas — homosfera e heterosfera. A
homosfera seria a camada até 100 km de altitude, que apresenta uma composição homogênea.
A heterosfera seria a região entre 10 e 10.000 km de altitude, estratificada, formando diversas
camadas com composições diferentes, onde os elementos estão distribuídos conforme seu peso
atômico: os mais pesados em baixo (nitrogênio e oxigênio) e os mais leves em cima (hélio e
hidrogênio).
Química da atmosfera 55

Atividades de aprendizagem
1. Leia as afirmações a seguir e avalie-as em verdadeiras (V) ou falsa (F):
( ) A atmosfera terrestre representa o ar que os seres vivos respiram,
e é composta exclusivamente por oxigênio (O2).
( ) A composição da atmosfera varia rapidamente, podendo ter
abundância de oxigênio nas primeiras horas da manhã e escassez
no final da tarde, o que ocasiona dificuldades respiratórias na
maioria das pessoas, durante a noite.
( ) O nitrogênio (N2) representa o maior volume da atmosfera.
( ) A atmosfera é composta por gases, material particulado e vapor
d’água.
2. Qual é a camada da atmosfera mais importante do ponto de vista
climático? Explique sua resposta.
56 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Seção 2 A camada de ozônio


Agora que você já conhece a composição e a estrutura da atmosfera, você
vai entender, nesta seção, como o gás ozônio (O3) é formado na estratosfera e
como se forma a frágil camada de ozônio, que protege animais, plantas e seres
humanos dos raios ultravioleta emitidos pelo Sol, funcionando como um filtro
a favor da vida. Sem o ozônio, os raios ultravioleta poderiam aniquilar todas
as formas de vida no planeta.
É importante você não esquecer que o ozônio é formado a partir das moléculas
de oxigênio, e é na estratosfera que existe maior concentração dessa molécula,
pois nela o ar é mais denso. A presença da radiação ultravioleta desencadeia
um processo natural que leva à contínua formação e fragmentação do ozônio.

2.1 Formação do ozônio


Vamos começar lembrando que na Seção 1 você aprendeu que é na troposfera
que ocorre a maior parte das reações químicas, e que a estratosfera defende a Terra
das partículas de alta energia emitidas pelo Sol?
De uma forma muito simplificada, veja como o ozônio é formado na atmos-
fera: emitidos pelo Sol, os raios ultravioletas C (UV-C) atingem uma molécula
de oxigênio (O2) e a dividem em dois átomos de oxigênio (O). Separados, estes
átomos se unem a outras moléculas de O2, formando o ozônio (O3). Depois
de formado, o ozônio absorve luz ultravioleta, principalmente os raios UV-B.
Com essa absorção, o ozônio se quebra e volta a ter uma molécula de O2 e
um átomo de oxigênio (O). Quando uma molécula de ozônio encontra um
átomo de oxigênio (O) formam-se duas moléculas estáveis de oxigênio. Esses
dois processos são constantes e ininterruptos, e juntos garantem a vida na Terra
ao filtrar totalmente os raios UV-C e parcialmente os UV-B.
Agora, veja a formação do ozônio de outra forma, apresentada por Mozeto
(2001): os fótons da luz visível ou ultraviolenta (UV) têm energia que desenca-
deia muitas reações químicas, o que facilita o rompimento ou dissociação de
moléculas. As moléculas de oxigênio (O2), ao absorverem fótons de energia com
comprimento de onda (λ) ≤ 241 nm (nanômetros) serão dissociadas em dois
átomos de oxigênio (Equação 1). Neste caso, tem-se uma reação fotoquímica,
pois é iniciada pela ação de fótons. Trata-se de uma reação de fotólise ou de
fotodissociação ou, ainda, de decomposição fotoquímica.
Equação 1: O2 + UV (λ ≤ 241 nm)  2O
Química da atmosfera 57

Para saber mais


nm = nanômetro, é uma unidade de comprimento do Sistema Internacional de Unidades,
sendo que 1 nm = 10–9 m.
Um nanômetro equivale à bilionésima parte de um metro, a um milionésimo de milímetro
ou ainda a um milésimo de mícron.

No entanto, as moléculas de O2 não se dissociarão se a quantidade de ener-


gia do fóton for insuficiente. Neste caso, elas acumularão essa energia por um
tempo muito curto e logo em seguida a converterão em um fóton, que poderá
ser novamente emitido ao meio ou convertido em calor, sendo transmitido a
espécies vizinhas através das colisões. Contudo, para que uma quantidade de
fótons promova uma reação, a energia deles precisa ser absorvida pelas molé-
culas. Moléculas de O3 são formadas e destruídas em reações não catalíticas
na estratosfera. Essas moléculas, em colisão com átomos de oxigênio forma-
dos conforme Equação 1, resultam na produção de ozônio (O3) (Equação 2).
Essa reação é a principal fonte de geração do O3 na estratosfera. Contudo, uma
terceira molécula é necessária para absorver o excesso de energia liberada na
reação (Equação 3 e Figura 2.2).
Equação 2: O + O2  O3 + calor
Equação 3: O + O2 + M  O3 + M+ calor

Figura 2.2 Formação do ozônio na estratosfera

Fonte: Do autor (2014).


58 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Naturalmente, as moléculas de O3 podem ser destruídas na estratosfera


como resultado da absorção de fótons UV com comprimento de onda <320
nm, produzindo átomos de oxigênio com excesso de energia (equação 4):
Equação 4: O3 + UV (λ < 320 nm)  O2* + O*
Os átomos formados através da equação 3 reagem novamente com molécu-
las de O2 (pois possuem energia), formando O3, ou reagem com o O3 formando
duas moléculas de O2, conforme as equações 5 e 6 (MOZETO, 2001).
Equação 5: O* + O2  O3
Equação 6: O2* + O3  2O2
Muitas moléculas absorvem energia na região do visível, ou seja, de 400
a 750 nm, enquanto outras, como o oxigênio, absorvem a radiação UV (50 a
400 nm). Acima da e na estratosfera, moléculas de O2 e N2 filtram a radiação
solar com comprimento de onda menor que 220 nm, enquanto a radiação entre
220 a 320 nm é filtrada pelas moléculas de ozônio presentes na estratosfera.
Mas você sabe o que é radiação solar? De uma forma bem simples, a ra-
diação solar é a energia luminosa ou radiante emitida pelo Sol na forma de
ondas eletromagnéticas, em uma longa faixa de comprimentos de onda. Cerca
de metade dessa energia é emitida como luz visível, e a outra metade na faixa
invisível do espectro solar, seja na banda do infravermelho (à direita das radia-
ções visíveis), seja na banda ultravioleta (à esquerda). A radiação ultravioleta
compreende os comprimentos de onda entre 100 e 400 nm do espectro ele-
tromagnético (MOZETO, 2001).

Para saber mais


Quer conhecer melhor o espectro eletromagnético? Acesse o link <http://videoseducacionais.cptec.
inpe.br/swf/natureza_radiacao/1_2/> e assista a um vídeo interessante sobre esse assunto.

Apenas 25% das radiações penetram diretamente na superfície da Terra sem


nenhuma interferência da atmosfera, e constituem a insolação direta (COSTA;
SILVA, 1995). Os restantes 75% são absorvidos por diferentes moléculas, em
diferentes comprimentos de onda, tanto na região do visível quanto a radia-
ção UV, dependendo de qual camada atmosférica as moléculas se encontram
(MOZETO, 2001).
Química da atmosfera 59

Conforme a intensidade de absorção da radiação UV pelo oxigênio e pelo


ozônio, e também pelos seus efeitos fotobiológicos, ela é dividida em três inter-
valos — UVA, UVB e UVC — cujas diferenças serão apresentadas na sequência.
A radiação UVC apresenta intervalo espectral de 100 a 280 nm, é altamente
penetrante e danosa à saúde, e os seres humanos teriam sérios problemas se
ela atingisse a superfície terrestre. No entanto, ela é totalmente absorvida pelo
oxigênio e ozônio da atmosfera, o que a torna praticamente inofensiva.
A radiação UVB ocorre no intervalo espectral de 280 a 320 nm, é parcial-
mente absorvida pelo ozônio estratosférico e a parte que chega à Terra provoca
danos na pele. Essa radiação ocorre mais durante o verão e é a responsável
pelas queimaduras da pele provocadas pela exposição solar sem proteção.
A mais perigosa é a radiação UVA, por ser pouco absorvida pelo ozônio e,
portanto, chega totalmente até a superfície terrestre. Situa-se na faixa de 320 a
400 nm, está presente durante todo o ano e é capaz de atingir a pele tanto no ve-
rão quanto no inverno. Os raios UVA penetram profundamente na pele, quando
da exposição por períodos prolongados, e são os principais responsáveis pela
alteração das fibras de colágeno e elastina, provocando o fotoenvelhecimento.
Essa radiação também tem uma participação em alergias, e predispõe a pele
ao surgimento do câncer. Entretanto, a exposição à radiação UVA também é
importante para a saúde, pois ela é responsável pela fixação da vitamina D pelo
organismo, indispensável para a saúde dos ossos e dos dentes. Essa exposição,
no entanto, deve ser cautelosa, nos horários de menor intensidade, aqueles que
você certamente já ouvir falar — até as 10 e após as 16 horas.

Questões para reflexão


Você sabia que os raios UVA estão presentes nas câmaras de bron-
zeamento artificial, inclusive em concentração mais alta do que na
exposição solar?

Para saber mais


Que tal conhecer um pouco mais sobre os efeitos da radiação UV para a saúde? Então leia o
texto disponível no site <http://www.cetesb.sp.gov.br/userfiles/file/laboratorios/fiea/radiacao_
uv_portugues.pdf>. Acesso em: 28 abr. 2014.
60 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

2.2 Camada de ozônio


Você já aprendeu que a maior parte do ozônio da atmosfera (cerca de
90%) está na estratosfera, onde é formado. Portanto, a estratosfera é uma ca-
mada com muitas moléculas de O3, que atua como um filtro da radiação UV,
antes que ela chegue à superfície terrestre. A maior concentração de ozônio
ocorre a cerca de 25 km de altitude, constituindo aquela que é denominada
camada de ozônio (Figura 2.1), localizada na faixa de 20 a 34 km de altitude
no Equador e 14 a 30 km de altitude sobre os polos. É nesta faixa que ocorrem
as condições adequadas para a formação do ozônio. E quais condições são
essas? Basicamente, a grande incidência de raios ultravioletas e a presença de
moléculas de oxigênio. Acima dessa faixa ainda existe forte incidência de ra-
diação ultravioleta, mas pouco oxigênio, e abaixo dessa faixa ocorre justamente
o contrário — bastante oxigênio mas fraca incidência de radiação ultravioleta.
Mas o ozônio também pode ser formado nas outras camadas da atmosfera,
embora em menor parte. Quando é formado na estratosfera, diz-se que é um
bom ozônio ou ozônio estratosférico, por ser formado naturalmente e agir
como filtro da radiação ultravioleta. Entretanto, quando se forma na atmosfera
mais baixa (troposfera), é denominado mau ozônio ou ozônio troposférico,
formado próximo à superfície terrestre, como uma consequência da poluição.
Esse ozônio age como poluente e não como protetor, sendo resultado não da
absorção da radiação UV, mas sim de uma reação química (Equação 7).
Equação 7: NO2 + O2  O3 + NO
Na Equação 7, você percebeu que o oxigênio presente no ar se liga ao dió-
xido de nitrogênio (NO2) gerado como poluente, formando ozônio (O3) mais
óxido nítrico (NO)? Esse ozônio é um gás muito volátil, com odor peculiar e
irritante, pouco solúvel em água e pouco estável.

Para saber mais


A destruição do O3 pelas atividades humanas ocorre pela emissão de gases contendo cloro (Cl)
e bromo (Br), que se acumulam na baixa atmosfera. Quando sobem para a estratosfera, sob
ação da radiação UV, liberam radicais livres que reagem com as moléculas de O3, formando
uma molécula de oxigênio e uma de óxido de cloro, destruindo o O3. O óxido de cloro reage
rapidamente com um átomo de O2 livre e libera um radical livre, que destrói outra molécula de
O3 e assim sucessivamente. Um radical livre de Cl é capaz de destruir 100 mil moléculas de O3.
Química da atmosfera 61

E quais são os impactos ambientais causados pela destruição da camada de


ozônio? Comprovações científicas apontam que a maior incidência de radiação
UVB na Antártida pode lesar o DNA e o sistema fotossintético dos vegetais. O
fitoplâncton, base da cadeia alimentar, é muito sensível à radiação UV, assim
como as bactérias marinhas, fonte de alimentação do zooplâncton; afetados
negativamente pela radiação UV, haveria o comprometimento de todo o equi-
líbrio do ecossistema da região. Aqui no Brasil, além de danificar fitoplâncton e
zooplâncton, também afetaria os sistemas aquáticos, como os recifes de corais
e peixes jovens, prejudicando as atividades pesqueiras. E também provocaria
efeitos negativos na produção agrícola, com imenso prejuízo financeiro para
a economia brasileira.
E a saúde das pessoas? Poderia ser afetada de diversas formas, destacando-
-se maior ocorrência de câncer de pele, catarata e distúrbios imunológicos.
Mas o que fazer para conter os danos à camada de ozônio e impedir os
efeitos negativos de sua destruição? A partir da década de 60, quando começa-
ram as denúncias de que o modelo de desenvolvimento em curso se mostrava
predatório ao ambiente, alguns eventos mundiais foram realizados, promovidos
pela Organização das Nações Unidas (ONU), dos quais já resultaram algumas
providências. Uma delas é o Protocolo de Montreal, acordo internacional
assinado por 46 países, inclusive o Brasil, que se comprometeram a diminuir
a produção de CFC, um dos principais contribuintes para a deterioração da
camada de ozônio, utilizados em aerossóis e eletrodomésticos.

Para saber mais


No dia 16 de setembro é comemorado o Dia Internacional para a Preservação da Camada de
Ozônio, instituído pela ONU em 1994. Esse dia marca a assinatura do Protocolo de Montreal,
em 1987.

Atividades de aprendizagem
1. Assinale a alternativa correta:
a) A maior parte do ozônio é formada, em uma das camadas da
atmosfera, a partir de átomos de oxigênio, em uma reação foto-
química desencadeada por radiação UV.
62 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

b) O nitrogênio é o elemento químico precursor do ozônio.


c) O ozônio é responsável pela ativação da radiação UV, de onde
vem sua importância em termos ambientais, pois quanto mais
ozônio na atmosfera mais radiação solar chegará à superfície
terrestre, eliminando os invernos do planeta.
d) Todas as camadas da atmosfera têm a mesma composição química
e o mesmo perfil de temperatura.
2. Explique, de forma resumida, o processo de formação do ozônio,
citando a camada atmosférica onde ele ocorre e qual a importância
do ozônio para a Terra, em termos ambientais.
Química da atmosfera 63

Seção 3 Poluentes atmosféricos e ciclos


biogeoquímicos
Nesta seção você vai estudar os principais componentes da poluição atmos-
férica, denominados poluentes atmosféricos, que podem ser gerados de forma
natural e/ou pelas atividades antrópicas, e as consequências desses poluentes
para a vida na Terra. Da mesma forma, como os poluentes atmosféricos podem
alterar o fluxo dos ciclos biogeoquímicos gasosos (do carbono, do nitrogênio
e do enxofre), interferindo no equilíbrio da Terra.
Como pode ser definida a poluição atmosférica? Qualquer contaminação
do ar por produtos gasosos, líquidos ou sólidos que podem ameaçar, direta ou
indiretamente, a saúde humana, dos animais e dos vegetais. Ou ainda uma
contaminação que possa atacar materiais, reduzir a visibilidade ou produzir
odores indesejáveis pode ser considerada poluição atmosférica.

3.1 Poluentes atmosféricos


Um poluente pode ser definido como qualquer agente que polui, que altera
as condições de um ecossistema. Quando os poluentes são emitidos para a
atmosfera, recebem o nome de poluentes atmosféricos.
[...] poluente atmosférico é toda e qualquer forma de
matéria sólida, líquida e gasosa que, presente na atmos-
fera, pode torná-la poluída (ASSUNÇÃO, 2004, p. 109).

Considerando a definição de Assunção (2004), existem poluentes na forma


de energia (ondas sonoras e eletromagnéticas, por exemplo) e poluentes na
forma de matéria, classificados de acordo com seu estado físico, em material
particulado, gases e vapores.
Material particulado são partículas sólidas ou líquidas
emitidas por fontes de poluição do ar, ou mesmo aquelas
formadas na atmosfera, como os sulfatos; contudo, se elas
estiverem suspensas no ar são denominadas aerossóis.
(ASSUNÇÃO, 2004, p. 109 — 10).

O material particulado engloba partículas de diversos tamanhos. Em termos


de saúde pública, as partículas de maior interesse são denominadas de partí-
culas inaláveis. Para ser considerada como uma partícula inalável, seu poder
de penetração deve ser maior que 50% do trato respiratório médio e inferior.
Desta forma, dependendo do processo de formação, o material particulado é
64 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

classificado em poeiras, fumos, fumaças e névoas (ASSUNÇÃO, 2004). Veja,


a seguir, alguns exemplos:
Poeiras: da rua, de cimento, de algodão.
Fumos: provenientes de metais pesados (zinco, chumbo, alumínio).
Fumaça: gerada pelo processo de combustão dos combustíveis fósseis,
pela queima de biomassa e de outros materiais combustíveis.
Névoas: são as partículas líquidas.
Gases e vapores: poluentes na forma molecular como o SO2, CO2, CO,
O3 ou óxidos nitrosos, tanto na forma gasosa como na forma de vapores
orgânicos (vapores da gasolina, de solventes etc).
De acordo com sua origem, os gases e vapores são classificados em primá-
rios e secundários. Os primários já são emitidos na forma de poluente (CO2,
SO2, CO etc). Os secundários são formados na atmosfera por reações químicas
ou fotoquímicas (ASSUNÇÃO, 2004). Um bom exemplo é o ozônio formado
a partir da poluição, conforme discutido na Seção 2, lembra? Outro exemplo
é o do smog fotoquímico, sobre o qual vamos falar na Seção 4 desta unidade.
Os poluentes também podem ser classificados em orgânicos e inorgânicos,
de acordo com sua classe química. Existem poluentes que, independentemente
de seu estado físico, são causadores de odores, portanto geram odores que
incomodam (gás sulfídrico e solventes orgânicos, por exemplo). E poluentes
altamente tóxicos, como os metais pesados (chumbo, mercúrio, cádmio, ní-
quel, que podem causar doenças cancerígenas ou mutagenicidade) e alguns
compostos orgânicos aromáticos (benzeno; hidrocarbonetos policíclicos aro-
máticos; dioxinas e furanos) (ASSUNÇÃO, 2004). As dioxinas e os furanos são
duas classes de compostos organoclorados ou aromáticos tricíclicos de função
éter, com átomos de cloro ligado ao anel benzênico (Figura 2.3).

Figura 2.3 Estrutura molecular do tetraclorodibenzo-dioxina (a) e do tetraclorodibenzo-furano (b)

H H H H
Cl O Cl Cl Cl

Cl O Cl O Cl

H H Cl H H

a) 2, 3, 7,8 — TCDD b) 2, 3, 7, 8 — TCDF


Fonte: Do autor (2014).
Química da atmosfera 65

Para saber mais


Dioxina — estudo de caso
<http://www.nossofuturoroubado.com.br/old/dioxinacaso.htm>. Acesso em: 12 abr. 2014.
Dioxinas e furanos
<http://www.cetesb.sp.gov.br/userfiles/file/laboratorios/fit/Dioxinas-e-furanos.pdf>. Acesso em:
12 abr. 2014.

3.2 Principais poluentes atmosféricos


Quando ocorre a poluição do ar? Ela ocorre quando existem substâncias
químicas em concentrações suficientes para causar danos em seres humanos,
vegetais, animais ou materiais. Vamos conversar, na sequência, sobre os prin-
cipais poluentes atmosféricos e suas fontes de poluição.

3.2.1 Material particulado


O material particulado representa as partículas sólidas ou líquidas que ficam
suspensas no ar, emitidas na forma de poeira, fumaça, névoa ou fumo. É carac-
terizado pelo diâmetro da partícula. As partículas menores são mais prejudiciais
à saúde, pois quanto menor mais ela se deposita no aparelho respiratório.
O material particulado pode ser enviado para a atmosfera tanto de forma na-
tural como de forma artificial, a partir de uma ação antrópica. De origem natural,
as erupções vulcânicas são as principais emissoras. Como outras fontes naturais
destacam-se o pólen, o aerossol marinho e a poeira suspensa. Das atividades
antrópicas, as fontes de material particulado são os processos industriais, a
poeira de rua e a queima de combustíveis fósseis e da biomassa.

3.2.2 Dióxido de carbono (CO2)


O CO2 é um gás que naturalmente faz parte da composição da atmosfera.
Porém, nas últimas décadas, a concentração do CO2 atmosférico aumentou
significativamente, como consequência de vários processos, tanto naturais
como antrópicos, que estão produzindo e enviando esse gás para a atmosfera.
O processo de queima do carbono passou a devolver o CO2 para a atmos-
fera em uma quantidade superior à capacidade de assimilação das plantas,
66 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

provocando um desequilíbrio. O processo de queima é o principal responsável,


sendo que o mesmo é um composto resultante da combustão completa de
combustíveis fósseis e de outros materiais combustíveis que contenha carbono
(MARTINS et al., 2003). O excesso de CO2 na atmosfera gera um grave problema
ambiental, o agravamento do efeito estufa.

Para saber mais


Gás carbônico na atmosfera atinge nível recorde e passa marco simbólico, disponível em:
<http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2013/05/10/gas-carbonico-
na-atmosfera-atinge-nivel-recorde-e-passa-marco-simbolico.htm>. Acesso em: 12 abr. 2014.

3.2.3 Monóxido de carbono


O monóxido de carbono (CO) é um gás inodoro, incolor e inflamável,
presente na atmosfera em condições naturais em baixa concentração. Porém,
diferentes atividades humanas contribuem para aumentar sua concentração, por
ser produzido pela queima incompleta de combustíveis fósseis, como carvão
mineral, gasolina, querosene, óleo diesel e gás de cozinha (butano), fazendo
da cozinha um local de constante produção de CO.
Para o meio ambiente, esse gás em excesso também é responsável pelo
efeito estufa, contudo seus efeitos são menos severos que os do CO2 (MARTINS
et al., 2003). Para a saúde das pessoas, esse gás é preocupante, pois reduz a
habilidade do sistema circulatório transportar oxigênio, devido à sua afinidade
com a hemoglobina (proteína existente no sangue). Quando o CO se liga à
hemoglobina, forma-se carboxihemoglobina (COHb) em vez de oxihemoglo-
bina, que leva o oxigênio para os tecidos. Se altos níveis de CO forem inalados,
podem levar à morte por asfixia (ASSUNÇÃO, 2004).

3.2.4 Metano
O gás metano (CH4) também é um dos constituintes naturais da atmosfera. O
que o difere de outros gases que contém carbono é que possui em sua estrutura
apenas carbono e hidrogênio. O metano também é considerado um gás cau-
sador do efeito estufa. Portanto, altas concentrações na atmosfera contribuem
para intensificar esse problema (MARTINS et al., 2003).
Química da atmosfera 67

Diversas atividades antrópicas enviam gás metano para a atmosfera, fazendo


aumentar sua concentração, destacando-se a decomposição de lixo em aterros
sanitários, a queima de biomassa, a mineração de carvão, o processamento de
petróleo e a extração de gás natural.

Questões para reflexão


Como o fisiologia dos bovinos contribue; para agravar o efeito estufa?

3.2.5 Óxidos de nitrogênio (NOx)


Diversos gases que contêm oxigênio e nitrogênio estão presentes na atmosfera,
como o NO, NO2 e N2O. Que tipo de efeito eles causam?
O NO2 é gerado por atividades antrópicas. A maior contribuição está rela-
cionada ao processo de queima, quando ocorre a combustão com o oxigênio.
Na maior parte, as emissões são em NO que se transformam em NO2. Processos
industriais, usinas térmicas que utilizam carvão, óleo, gás, biomassa e incine-
ração de resíduos também são fontes de geração desse gás para a atmosfera.
Essas atividades podem levar à formação de ácido nítrico (HNO3) e nitratos
(NO3), que contribuem para aumentar a concentração de partículas inaláveis
e compostos orgânicos tóxicos na atmosfera (MARTINS et al., 2003). Podem,
assim, prejudicar a saúde humana, pois aumentam a sensibilidade dos indiví-
duos portadores de asma ou bronquite e provocam a diminuição da resistência
às infecções respiratórias (ASSUNÇÃO, 2004).
Com relação aos problemas ambientais gerados pelos óxidos de nitrogênio,
podem ser citados os efeitos relacionados à poluição fotoquímica, ou seja, a
formação do ozônio troposférico. E também são responsáveis pela formação
da chuva ácida. As emissões relativas ao uso de fertilizantes na agricultura
representam a maior contribuição antrópica global de óxido nitroso.

3.2.6 Amônia (NH3)


A amônia é o terceiro composto mais abundante da atmosfera, ficando atrás
somente do N2 e do N2O.
Nitrogênio e fósforo são nutrientes limitantes ao crescimento dos vegetais,
razão pela qual são fabricados e comercializados muitos fertilizantes que con-
68 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

têm esses elementos. Essa produção de fertilizantes químicos, principalmente


aqueles à base de nitrogênio, o funcionamento de indústrias químicas e per-
das durante a aplicação de fertilizantes são as principais fontes antrópicas de
nitrogênio para o meio ambiente.
Os excrementos animais, principalmente em áreas de confinamento, emitem
amônia para o solo, em particular os íons NH3 e NH4+ (MARTINS et al., 2003).
No entanto, esse gás é naturalmente alcalino, sendo de grande importância na
neutralização da chuva ácida na atmosfera (Equação 8).
Equação 8: 2NH3 + H2SO4  (NH)2SO4
A amônia presente na atmosfera se liga ao ácido sulfúrico formado (H2SO4)
e o neutraliza em sulfato de amônio. Além dos sulfatos, também podem ser
formados nitratos na forma de partículas, que são removidas do ar atmosférico
pelo processo de deposição úmida.
O gás amônia, porém, também é indutor do efeito estufa, sendo que altas con-
centrações dele na atmosfera contribuem para intensificar este problema ambiental.

3.2.7 Dióxido de enxofre (SO2)


O SO2 também é um gás naturalmente presente na atmosfera. Mas, da mesma
forma que outros gases, atividades antrópicas enviam grandes quantidades de
enxofre e seus compostos para a atmosfera, aumentando a concentração. Quais
atividades são essas? Algumas são as mesmas já citadas para outros poluentes:
queima de combustíveis fósseis que contenham enxofre em sua composição
(carvão mineral, gasolina e óleo combustível) e da biomassa; refinarias de pe-
tróleo; metalurgia; indústrias de cimento e de produção de celulose.
Nas refinarias de petróleo, indústrias química e de papel e celulose ocorre,
também, a formação de gás sulfídrico, incolor e de odor penetrante. Na atmos-
fera, o SO2 pode ser oxidado a SO3 e, na presença de vapor d’água, rapidamente
forma o ácido sulfúrico (H2SO4), indutor da chuva ácida. O dióxido de enxofre
pode, também, ser transformado em sulfatos, um dos principais componentes
das partículas inaláveis, que causam desconforto na respiração e doenças res-
piratórias (ASSUNÇÃO, 2004).

3.2.8 Ozônio (O3)


O ozônio troposférico é um gás formado na atmosfera a partir de reações
fotoquímicas, que você estudou na Seção 2, lembra? Ele se forma quando óxi-
dos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis absorvem a radiação solar.
Química da atmosfera 69

As pessoas expostas a altas concentrações de ozônio sofrem com irritação


nos olhos e nas vias respiratórias, além de ter a capacidade pulmonar diminuída.
Além dos prejuízos à saúde, o ozônio causa danos à vegetação.
O ozônio é o principal componente da névoa fotoquímica ou smog foto-
químico (ASSUNÇÃO, 2004).

3.2.9 Hidrocarbonetos e outros compostos orgânicos


Os hidrocarbonetos são compostos químicos constituídos apenas por áto-
mos de carbono e hidrogênio. Você sabe o que difere um elemento de outro?
A quantidade de carbonos na cadeia. Veja alguns exemplos:
Gasolina = C6H14C10H22 (o tamanho da cadeia pode variar entre diferentes
refinarias).
Querosene = C10H22C15H32 (o tamanho da cadeia pode variar entre dife-
rentes refinarias).
Óleos diesel, combustível e lubrificante, parafina, asfalto = C15H32 (a
cadeia vai aumentando de tamanho e crescendo a massa molecular,
passando da fase gasosa para sólida).
Alguns hidrocarbonetos podem ser alifáticos (átomos de carbono em cadeia
aberta ou fechada não aromática) e aromáticos (compostos ligados covalente-
mente, onde se alternam uma ligação dupla e uma simples). Essa característica
interfere em sua reatividade, sendo que alguns hidrocarbonetos alifáticos são
inertes, como o metano, e alguns altamente reativos. Veja o exemplo:
Etileno + NO2  PAN (Nitrito de Peroxiacetilo), O3
Alguns hidrocarbonetos aromáticos não são muito reativos, como os hi-
drocarbonetos aromáticos policíclicos — benzopireno, benzoacefenantrileno,
benzofluoranteno, — todos cancerígenos. Diferentes elementos químicos po-
dem se juntar aos hidrocarbonetos, formando diferentes compostos químicos
com diferentes grupos funcionais. Eles podem, também, se oxidar facilmente,
liberando calor.
As fontes de emissão de hidrocarbonetos para a atmosfera são a queima in-
completa e a evaporação de combustíveis e outros produtos orgânicos voláteis.
Hidrocarbonetos como o benzeno são cancerígenos e mutagênicos, e participam
ativamente das reações de formação da névoa fotoquímica (MANAHAN, 2001).
Os compostos orgânicos contêm em sua estrutura o carbono e o hidrogênio,
contudo, eles estão ligados a outros elementos como eles oxigênio, nitrogênio,
enxofre, fósforo, halogênio e outros (MANAHAN, 2001).
70 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Para saber mais


Quer aprender um pouco mais sobre os efeitos dos poluentes atmosféricos e o famoso
efeito estufa? Acesse o link <http://ambientes.ambientebrasil.com.br/mudancas_climaticas/
artigos/efeito_estufa.html>. Acesso em: 11 abr. 2014.

3.3 Ciclos biogeoquímicos


Você já deve ter estudado, em outras oportunidades, que existem elementos
químicos que são essenciais à vida, e são denominados micronutrientes e ma-
cronutrientes. Esses elementos fazem parte de ciclos, que recebem o nome de
ciclos biogeoquímicos, nos quais bio indica que organismos vivos fazem parte
da síntese orgânica e da decomposição de elementos; geo, indica que a fonte
dos elementos é o geosfera (o meio terrestre) e químicos são as substâncias e
elementos químicos que participam desse ciclo.
Existem três diferentes tipos de ciclos naturais — ciclo hidrológico, ciclo
sedimentar e ciclo gasoso. Como esta unidade está abordando a química da
atmosfera, vamos discutir, a seguir, os ciclos gasosos, pelo simples fato de que
o reservatório deles é a atmosfera.
Antes de começarmos a discutir os ciclos biogeoquímicos gasosos, é interessante
você saber que o estudo químico da atmosfera visa compreender sua relação com os
outros compartimentos da Terra — hidrosfera, litosfera e biosfera, em seus diversos
ciclos. Interações biológicas e geológicas que ocorreram tanto nos solos como na
água, durante um longo período de tempo, resultou na alteração da composição
química da atmosfera. Por exemplo, a presença de altas concentrações de oxigênio
(O2) e nitrogênio (N2) na atmosfera é consequência da regeneração contínua desses
elementos por microrganismos. Se os organismos vivos não existissem (flora, fauna,
microorganismos), a atmosfera do planeta teria concentrações muito pequenas de
oxigênio e altas concentrações de gás carbônico (CO2).
Outros exemplos são os compostos orgânicos voláteis e gases que são en-
viados para a atmosfera através de reações biogênicas que ocorrem nos solos
e oceanos; compostos de enxofre na forma reduzida são produzidos nos ocea-
nos, por plantas e microorganismos; o dióxido de enxofre (SO2) é enviado para
a atmosfera em grandes quantidades durante as erupções vulcânicas e o gás
metano é produzido pela vegetação de áreas alagadas e pelos depósitos de gás
natural, quando há vazamentos. Na atmosfera, essas substâncias são convertidas
em novos compostos (por transformações físicas e químicas), e retornam para
os solos e corpos de água por processos de transporte e deposição. Ou seja,
Química da atmosfera 71

os ciclos globais são responsáveis por muitos elementos químicos presentes na


atmosfera (MARTINS et al., 2003).
Você já sabe, mas é interessante repetir: a energia desse sistema é oriunda do
Sol, e as interações entre os sistemas físicos e biológicos, em ciclos contínuos,
mantêm o planeta Terra em equilíbrio. Dita e gravada essa informação, vamos
analisar os ciclos do carbono, do nitrogênio e do enxofre.

3.3.1 Ciclo do carbono


O carbono (C) é o constituinte essencial de toda matéria viva, fazendo parte
de aproximadamente 49% do peso orgânico seco. É fundamental na respira-
ção de todo ser vivo, na fotossíntese e na regulação do clima. O ciclo do C é
considerado um ciclo perfeito, pois o C é devolvido ao meio na mesma taxa
em que é sintetizado pelos produtores.
O C pode ser enviado à atmosfera de forma natural e antrópica (figura 2.1),
principalmente na forma de CO2. Naturalmente, o CO2 é gerado através das
erupções vulcânicas, fotossíntese e respiração. Tanto no processo de fotossín-
tese como na respiração, o C passa da fase inorgânica para a orgânica e volta
novamente para a fase inorgânica. Ou seja: através desses dois processos, o
C está constantemente presente em diversas formas químicas e em todos os
ecossistemas.

Figura 2.4 Ciclo do Carbono

Fonte: Adaptada de Martins et al. (2003).


72 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Na fotossíntese, as plantas utilizam os vapores de água e o CO2 atmosférico


para, na presença da energia luminosa emitida pelo Sol, sintetizar compostos
orgânicos como os açúcares (C6H12O6), transformados em biomassa e oxigênio
(O2) (MARTINS et al., 2003).
No processo de respiração ocorre o inverso da fotossíntese — a quebra das
moléculas com liberação da energia nelas armazenada. E por que isso ocorre?
Para que os organismos vivos possam realizar suas atividades vitais, que re-
querem energia. Observe as equações a seguir, que ilustram as reações que
ocorrem nos processos de fotossíntese (Equação 9) e respiração (equação 10):
Equação 9:
 
Fotossíntese: 6H2O +6CO2 + energia solar (hv)  C6H12O6 + 6O2

Equação 10:
  Respiração: C6H12O6+ 6O2  6CO2 + 6H2O + Energia

No processo de fotossíntese (Equação 9), o CO2 atmosférico é fixado pelas


plantas para a produção de biomassa (massa contida nas folhas, raízes, caule
etc). Na Equação 10 (respiração), o CO2 é devolvido para a atmosfera pelas
plantas, através da respiração. Na verdade, esse processo não ocorre somente
com plantas, mas com todos os seres vivos, que utilizam o oxigênio para poder
liberar a energia presente nos alimentos ingeridos.
A fixação do C na forma de CO2 também ocorre nos oceanos, através da
dissolução desse gás na água e da fotossíntese realizada pelas algas e pelos
fitoplânctons. O pH da água indica a forma em que esse C está disponível.
Por exemplo, o C fixado em CO2 está presente em pH abaixo de 5,0 (ácido).
Carbono fixado na forma de carbonato (CO32) ocorre em pH acima de 10,5
(alcalino), embora ambas as formas na fase aquosa. Em pH neutro (próximo
de 8) praticamente só existe o íon bicarbonato (HCO3–) na forma solúvel. O
C fixado na biomassa das algas, ao ser consumido pelos peixes, moluscos e
conchas, entre outros, ficará presente nos organismos desses animais na forma
de carbonato de cálcio (CaCO3). Esses organismos, após se decompor, for-
marão o material orgânico e serão incorporados por processos geológicos na
crosta terrestre, e por um longo período de tempo, variação de temperatura e
pressão, se formarão os combustíveis fósseis, como o carvão, petróleo e o gás
natural. Assim, pode-se dizer que os combustíveis fósseis são a energia solar
armazenada no interior da Terra na forma de moléculas orgânicas (MARTINS
et al., 2003).
Química da atmosfera 73

Mas já discutimos, anteriormente, que algumas atividades humanas enviam


grande quantidade de dióxido de carbono para a atmosfera, principalmente
através da queima de combustíveis fósseis. Outros elementos também contêm
C, estão presentes na atmosfera e fazem parte deste ciclo — monóxido de car-
bono, metano e hidrocarbonetos não metânicos, estudados na subseção 3.2.

Questões para reflexão


Como algumas práticas agrícolas e pecuárias podem interferir no ciclo
do carbono?

O monóxido de carbono (CO) tem papel importante na química da troposfera.


Naturalmente é produzido na oxidação atmosférica do gás metano, assim como
pelas plantas, microorganismos e pela matéria orgânica dissolvida nos oceanos.
Entretanto, as emissões naturais do metano (CH4) ocorrem através de vários
processos, sendo resultado final da decomposição de matéria orgânica via
mecanismos redutores, como a que ocorre no organismo dos ruminantes - os
gases formados dentro desses animais pela decomposição do alimento ingerido.
Naturalmente, porém, ocorre um processo de remoção do metano da atmosfera,
por isso ele não está presente em altas concentrações (Equação 11):
Equação 11: CH4 + OH•  CH3• + H2O
O gás CH4 se liga a um radical hidroxila (OH•) presente na atmosfera,
gerando um radical metil (CH3•); este radical pode ser oxidado (se ligar ao
oxigênio), formando formaldeído (HCHO), CO e CO2. Esse é um processo
natural que faz com que o metano não se acumule na atmosfera.
Os hidrocarbonetos não metânicos (HCNM) recebem essa classificação para
diferenciá-los do metano. São formados através de processos naturais, como
as emissões por plantas, oceanos e atividade microbiana. Os HCNM são bem
reativos na atmosfera e suas reações desempenham um papel importante nela,
dando origem aos aldeídos, ácidos carboxílicos e ao ozônio, considerados
oxidantes fotoquímicos (MARTINS et al., 2003).

3.3.2 Ciclo do nitrogênio


O nitrogênio (N) é o principal constituinte do ar atmosférico – 78% de sua
composição. Por ser uma molécula estável, não desempenha papel químico
74 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

importante. Mas o ciclo do nitrogênio (Figura 2.5) desempenha um processo


dinâmico de troca desse elemento entre a atmosfera, a matéria orgânica e os
compostos inorgânicos.

Figura 2.5 Ciclo do nitrogênio

Fonte: Adaptado de Martins et al. (2003).

Grande parte do N presente nos organismos vivos é obtido não diretamente


da atmosfera, mas através dos nitratos (NO3–), molécula originada pela ação das
bactérias fixadoras de N e das descargas elétricas que ocorrem na atmosfera. Os
nitratos também podem ser originados pela decomposição de material orgânico,
no qual bactérias transformam o nitrato em uma série de compostos orgânicos
e inorgânicos. O ciclo do N possui mecanismos importantes de fixação desse
elemento químico. Um deles é a fixação do N na formas nitratos; outros pro-
cessos são denominados de amonificação, nitrificação e desnitrificação.
A fixação do N atmosférico é realizada por um grupo de bactérias que conver-
tem o N2 gasoso em compostos de N. O Nitrogênio também pode ser oxidado a
nitrito (NO2) ou nitrato (NO3–) no processo de nitrificação, realizado por bactérias.
Química da atmosfera 75

No entanto, plantas e algas podem converter os compostos inorgânicos de N


(nitritos, nitratos) em compostos orgânicos, que serão disponibilizados na cadeia
alimentar, através da amonificação. Os compostos contendo N orgânico retornam
ao solo na forma de excrementos. Através da desnitrificação, o N é enviado no-
vamente para a atmosfera na forma gasosa, pois algumas bactérias convertem o
N orgânico em compostos inorgânicos (nitratos), através de uma série de reações
químicas (MARTINS et al., 2003).
O N é um elemento com grande capacidade de fazer ligações químicas,
sendo assim, diversos compostos contendo N estão presentes no ambiente e
participam do seu ciclo. Os principais compostos nitrogenados são os óxidos
nitroso (N2O), nítrico (NO), dióxido de nitrogênio (NO2) e amônia (NH3).
O óxido nítrico (NO) é gerado na presença de descargas elétricas na at-
mosfera — nas tempestades, quando ocorrem relâmpagos e raios, as descargas
elétricas rompem a ligação do N e do oxigênio presentes na atmosfera. Como
esses dois átomos possuem energia, eles se ligam, formando o NO. Tanto o
óxido nítrico quanto o dióxido de nitrogênio presentes na atmosfera resultam de
emissões enviadas pelos solos por processos biológicos. Oxidação da amônia
e emissão oceânica também são fontes naturais do envio de N para atmosfera.
O óxido nitroso (N2O) é liberado para a atmosfera predominantemente do
solo e da água, sendo os solos tropicais as mais importantes fontes naturais
desse gás (MARTINS et al., 2003). A amônia é, fundamentalmente, produto
da atividade biológica, e um subproduto da agricultura e dos excrementos
humanos e animais.

Para saber mais


O N é um elemento essencial à vida, sendo o principal constituinte das proteínas e do DNA. Os
animais necessitam do N incorporados aos aminoácidos e nas proteínas, enquanto plantas e
algas necessitam na forma de íons — nitratos (NH3–) ou amônio (NH4+).

Algumas plantas não leguminosas tem a capacidade de fixar óxidos de N


atmosférico para utilizá-lo como nutriente. Desta forma, esse gás pode ser remo-
vido da atmosfera diminuindo a possibilidade de formação da chuva ácida. Na
fase aquosa da atmosfera (nuvens, neblina) esses óxidos podem ser solubilizados
e removidos através do processo de deposição úmida (MARTINS et al., 2003).
76 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

3.3.3 Ciclo do enxofre


O enxofre (S) é um elemento essencial à vida, e alguns de seus compostos
são de grande importância biológica. Sua emissão se dá por vários meios, pois
muitos compostos contendo S são encontrados na natureza devido sua grande
capacidade de fazer ligações químicas.
Naturalmente, os compostos reduzidos de S são enviados para a atmosfera,
como o H2S (gás sulfídrico), um produto de atividade bacteriana, o (CS2), um gás
volátil produzido pelo ataque de hidroxilas (OH) e o sulfeto de carbonila (CS2),
também um gás volátil, produzido pelas árvores e outras espécies vegetais. Por
serem compostos voláteis, rapidamente escapam para a atmosfera.
O ciclo do S (Figura 2.6) compreende um conjunto de transformações entre
as espécies de S presentes na litosfera, hidrosfera e biosfera. O dióxido de S é o
composto mais comum enviado para a atmosfera, através da atividade vulcânica
(as principais fontes naturais) e da queima da biomassa em regiões tropicais.
Algas marinhas emitem compostos biogênicos de S, como o dimetilsulfeto
(CH3SCH3). Este elemento se decompõe e forma o ácido dimetilssulfopropiô-
nico (DMS). Assim, grande parte do enxofre presente nos oceanos está sob a
forma de DMS. Emissões terrestres ocorrem através dos solos e da vegetação
(MARTINS et al., 2003).

Figura 2.6 Ciclo do enxofre

Fonte: Adaptada de Martins et al. (2003).


Química da atmosfera 77

Atividades de aprendizagem
1. Assinale a alternativa correta:
a) Existe apenas um ciclo biogeoquímico, que é o ciclo da energia.
b) Todos os ciclos naturais são gasosos.
c) O ciclo do carbono é considerado um ciclo perfeito, pois o car-
bono é devolvido ao meio na mesma taxa em que é sintetizado
pelos produtores.
d) Os ciclos do carbono, nitrogênio e enxofre ocorrem apenas no
solo.
e) O ciclo do nitrogênio é responsável pela formação dos combus-
tíveis fósseis.
2. Nesta seção você conheceu os principais poluentes atmosféricos.
Explique como os gases monóxido e dióxido de carbono (CO e CO2,
respectivamente), que fazem parte da composição natural da atmos-
fera, estão se tornando poluentes do ar.
78 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Seção 4 Problemas decorrentes dos


poluentes atmosféricos
Nesta seção vamos conversar sobre alguns problemas relacionados aos
poluentes atmosféricos, principalmente a formação de chuva ácida, o efeito
estufa, a destruição da camada de ozônio e o smog fotoquímico.

4.1 Chuva ácida


A chuva ácida é um fenômeno responsável pela diminuição do pH da
água da chuva. Naturalmente, a água da chuva tem pH levemente ácido, em
torno de 5,7. O responsável por isso é o ácido carbônico (H2CO3) formado na
atmosfera (Equação 12).
Equação 12: CO2 + H2O  H2CO3 ou CO2 + H2O  H+ + HCO3-
Mas, então, como ocorre a chuva ácida?
Atividades antrópicas lançam no ar gases como o dióxido de enxofre e
nitrogênio, que entram na atmosfera, reagem com a umidade e formam áci-
dos (sulfúrico e nítrico). Estes gases também podem se combinar com ácido
clorídrico decorrente das emissões de cloreto de hidrogênio causando, assim,
precipitação ácida. Os ácidos formados, dependendo do nível de umidade
contido no ar e nas nuvens, são responsáveis pela diminuição do pH e, quando
chove, a água cai com pH abaixo de 5,7.
O termo chuva ácida não é usado somente para água, mas também para
neblina, orvalho, neve e granizo. De forma geral, deposição ácida refere-se à
deposição na superfície da Terra de ácidos aquosos, gases ácidos (como SO2, e
sais de ácidos (como NH4HSO4). De acordo com essa definição de deposição,
em forma de solução é chuva ácida, e deposição de gases secos e compostos
é chamada de deposição seca. Embora o dióxido de carbono esteja presente
em níveis mais elevados na atmosfera, o dióxido de enxofre (SO2) é o maior
contribuinte para a acidez da chuva, por ser significativamente mais solúvel
em água do que o dióxido de carbono (MANAHAN, 2001).
A chuva ácida pode se originar a partir da emissão direta de ácidos fortes, tais
como o gás HCl ou névoa de ácido sulfúrico, mas seu principal constituinte é um po-
luente secundário do ar, produzido pela oxidação atmosférica de gases acidificantes:
SO2 + 1/2O2 + H2O  2H+ + SO4 2–(aq)
2NO2 + 1/2O2 + H2O  2H+ + 2NO3–(aq)
Química da atmosfera 79

E também pode ocorrer o seguinte:


2SO2 + O2  2SO3
SO3 + H2O  H2SO4
Reações semelhantes ocorrem também com os óxidos de nitrogênio:
2NO + O2  2NO2
2NO2 + H2O  HNO2 + HNO3
2HNO2 + O2  2 HNO3
Reações químicas como as apresentadas acima desempenham um papel
dominante na determinação da natureza, transporte e destino da chuva ácida.
Como resultado de tais reações, as propriedades químicas (acidez e capacidade
de reagir com outras substâncias) e as propriedades físicas (volatilidade, solu-
bilidade) dos ácidos poluentes atmosféricos são alteradas drasticamente. Por
exemplo, até mesmo uma pequena fração de NO que se dissolve em água
não reage de forma significativa. No entanto, seu produto de oxidação final, o
HNO3, embora volátil, é altamente solúvel em água, fortemente ácido e muito
reativo com outros materiais. Por isso, ele tende a ser removido facilmente da
atmosfera, prejudicando as plantas, materiais inalterável e outras coisas (MA-
NAHAN, 2001). O ácido sulfúrico é o principal componente de precipitação
ácida, seguido pelo ácido nítrico e pelo ácido clorídrico em terceira posição.
Embora as emissões industriais e a queima de combustíveis fósseis sejam as
principais fontes de gases formadores de ácidos, a chuva ácida também pode
ocorrer em áreas distantes de tais fontes. Isto ocorre, em parte, pelo fato de que
os gases presentes no ar às vezes demoram alguns dias para sofrer oxidação e
gerar os constituintes ácidos. Nesse tempo, a massa de ar que contém os ga-
ses, dependendo da força e direção dos ventos, pode ser deslocada por vários
quilômetros de distância da fonte geradora dos poluentes.
A chuva ácida se espalha sobre áreas de centenas a milhares de quilôme-
tros. Ela pode ser classificada como um problema regional da poluição do
ar, não um problema local ou global. Para comparar: pode ser considerado
um problema local a poluição atmosférica por fumaça, e problemas globais
a destruição da camada de ozônio e o aquecimento global. Outros exemplos
de problemas regionais são aqueles causados por fuligem, fumaça e cinzas a
partir de fontes de combustão e incêndios florestais (MANAHAN, 2001). Aci-
dentes nucleares a partir de testes com armas, ou incêndios em reatores (como
na Usina de Fukushima, no Japão, em 2011) também podem ser considerados
80 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

como problemas regionais, embora seus efeitos possam até ser percebidos bem
longe do local de ocorrência.
Obviamente, a chuva ácida não é o principal problema ambiental do
mundo, mas ela ocorre em regiões onde há muita poluição atmosférica. Há
relatos de ocorrência de chuva ácida no norte dos Estados Unidos e sudeste
do Canadá, com pH de 5,3 a 4,2. O sul da Escandinávia também foi atingido
por chuva ácida, pois recebe um pesado fardo da poluição atmosférica pro-
veniente de áreas fortemente industrializadas na Europa. Na Grã-Bretanha, as
primeiras manifestações desse fenômeno continham níveis elevados de SO42–
(MANAHAN, 2001). No Brasil, a Mata Atlântica foi afetada por chuva ácida,
devida à poluição de centros urbanos e industriais localizados próximos ao
litoral. Em 1977, a rede hidrográfica da cidade de Imbituba, em Santa Cata-
rina, foi afetada pela poluição, com a água dos rios com pH entre 2 e 3. Em
1982, a região sul de Santa Catarina também sofreu fortes efeitos decorrentes
da poluição, sendo declarada como área crítica. As atividades responsáveis
por essa poluição foram a usina termoelétrica Jorge Lacerda, uma fábrica de
ácido sulfúrico e indústrias que produzem coque, depósitos de pirita e os pré-
-lavadores que eliminam a pirita na saída da mina (BRENA, 2009).
Em dezembro de 1982, a cidade de Los Angeles sofreu dois dias de neblina
ácida, que consistiu em concentração de partículas de névoa ácida ao nível
do solo, que reduziu a visibilidade e provocou irritações respiratórias. O pH
medido na água das partículas foi de 1,7, muito mais baixo do que os valores
registrados até então em precipitações ácidas (MANAHAN, 2001).
Os principais danos provocados pela chuva ácida são:
Efeitos tóxicos nas plantas: as folhas ficam mais sensíveis ao ataque de
fungos e bactérias. As plantas expostas a níveis elevados de dióxido de
enxofre sofrem necrose das folhas. As bordas das folhas e as áreas entre
as nervuras são particularmente danificadas, além de provocar a clorose
(branqueamento ou amarelecimento das folhas verdes). Dióxido de en-
xofre na atmosfera é convertido em ácido sulfúrico, de modo que em
áreas com altos níveis do poluente dióxido de enxofre as plantas podem
ser danificadas por aerossóis de ácido sulfúrico, na forma de pequenas
manchas nas folhas, no local onde as gotículas de ácido incidiram;
Efeito tóxico no solo, afetando suas propriedade físico-químicas e dimi-
nuindo o pH, o que, consequentemente, prejudica as plantas;
Destruição das florestas sensíveis;
Química da atmosfera 81

Efeitos respiratórios em seres humanos e outros animais.


Acidificação da água de rios e lagos, com efeitos tóxicos para a flora e
fauna.
Corrosão de estruturas expostas, redes elétricas, equipamentos e materiais
ornamentais. Estruturas de mármores são danificadas pelo efeito do íon
hidrogênio sobre o calcário: 2H+ + CaCO3 (s)  Ca2+ + CO2 (g) + H2O.
Efeitos associados, como a redução de visibilidade por aerossóis de sul-
fato e a influência dos aerossois de sulfato sobre as propriedades físicas e
ópticas das nuvens (aumentam a reflectância de luz resultante do sulfato
ácido na atmosfera, podendo causar efeito na mitigação do efeito estufa
da atmosfera).
Formação de neblina ácida, que pode ser mais prejudicial do que a chuva
ácida, pois é muito penetrante.
A chuva ácida ocorre, sim. Mas reações naturais também ocorrem na at-
mosfera, visando diluir os ácidos formados ou neutralizá-los. Por exemplo, a
amônia presente na atmosfera neutraliza os ácidos nela presentes (Equação 13):
Equação 13: 2NH3 + H2SO4  (NH)2SO4
Existem, ainda, outros fatores que contribuem para minimizar os efeitos da
chuva ácida. Algumas plantas têm a capacidade de fixar óxidos de nitrogênio
atmosférico, diminuindo a quantidade desse gás na atmosfera. As nuvens e
neblinas podem se solubilizar e remover os ácidos presentes na atmosfera.

4.2 Efeito estufa


O efeito estufa é um fenômeno natural, responsável por manter a tempera-
tura média do planeta. Se ele não existisse, a temperatura da Terra seria 33 graus
mais baixa, o que provavelmente inviabilizaria e existência de vida, pelo menos
formas de vida da maneira que conhecemos hoje. E como ocorre esse fenômeno?
A Terra absorve a energia infravermelha do Sol. Essa energia é absorvida e
refletida novamente para o espaço. Na atmosfera existem diversos gases que
também absorvem essa energia, mas nitrogênio e oxigênio (gases presentes
em maiores quantidades) não absorvem a radiação infravermelha. A absorção
da radiação infravermelha por alguns gases implica movimentos vibracionais
e rotacionais das moléculas que também passam a irradiar, se espalhando em
diversos sentidos, assim como retornam para superfície, que se mantém mais
aquecida do que seria na ausência da atmosfera, sendo que essa retenção de
82 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

energia pelos gases é decorrente de mecanismo físico-químico (TOLENTINO;


ROCHA-FILHO, 1998). Esses gases são considerados gases estufa, por exemplo
vapor e partículas de água; dióxido de carbono (CO2); monóxido de carbono
(CO); metano (CH4); óxido nitroso (N2O); ozônio.
Todos esses gases estão presentes na atmosfera de forma natural, e são res-
ponsáveis pelo efeito estufa natural. O problema começou com o excesso de
poluentes gerados pelas atividades antrópicas. Grandes concentrações de gases
na atmosfera causam desequilíbrio e também a intensificação do efeito estufa,
provocando o aquecimento global, que consiste no aumento da temperatura
média do ar e dos oceanos, perto da superfície terrestre. Além dos gases cita-
dos, as atividades humanas também lançam os clorofluorcarbonetos (CFCs) e
os hidroclorofluorcarbonetos (HCFCs).
O principal gás indutor do efeito estufa é o CO2. O processo de queima de
combustíveis fósseis envia uma grande quantidade de CO2 para a atmosfera.
E quais as consequências do agravamento do efeito estufa podem ser citadas?
Temperaturas de verão alteradas. Elevação do nível dos mares, de 20 a 165 cm,
gerando sérios problemas de erosão, inundações, enchentes e intrusão de
água salina em aquíferos de abastecimentos. E alteração do regime de chuvas
e secas, podendo influenciar processos biológicos, aumento de tempestades,
ondas de calor, entre outros.

Questões para reflexão


O etanol brasileiro pode contribuir para reduzir ou aumentar o efeito
estufa?

Sendo assim, é de extrema importância a redução de gases poluentes para a


atmosfera, principalmente a utilização de técnicas e processos que substituam
os combustíveis fósseis nos sistemas de produção. Em decorrência da discussão
e preocupação crescentes sobre os problemas ambientais provocados pelas
atividades humanas, representantes de vários países do mundo têm buscado
soluções. Entre elas, está o Protocolo de Kyoto, acordo internacional que tem
como objetivo reduzir a emissão de gases que contribuem para aumentar o
efeito estufa. É um assunto polêmico, sem dúvida.
Química da atmosfera 83

Para saber mais


Conferência do clima da ONU prorroga Protocolo de Kyoto até 2020, disponível em:
<http://g1.globo.com/natureza/noticia/2012/12/conferencia-do-clima-da-onu-prorroga-proto-
colo-de-kyoto-ate-2020.html>. Acesso em: 7 abr. 2014.
Resumo sobre o Protocolo de Kyoto, disponível em: (<http://www.greenpeace.org.br/clima/pdf/
protocolo_kyoto.pdf>. Acesso em: 7 abr. 2014.

4.3 Destruição da camada de ozônio


Você já aprendeu, na Seção 2, como ocorre o processo de formação do
ozônio e de sua camada. Um processo natural, onde moléculas de oxigênio
(O2) presentes na estratosfera absorvem a radiação ultravioleta do Sol, liberando
dois átomos de oxigênio que se ligam a uma molécula de oxigênio, formado
o ozônio. Você já sabe, também, que essa camada é muito importante, pela
proteção que confere à superfície da Terra contra os fortes raios ultravioletas.
A poluição gerada pelas atividades antrópicas também está alterando a ca-
mada de ozônio. O principal gás que destrói essa camada é o CFC, composto
formado por carbono, flúor e cloro. Também é conhecido como gás freon,
sendo os mais comuns o CCl3F, CClF2CClF2, CCl2F2CF3 e CCl2F2. Durante muito
tempo, esses gases foram utilizados em diversas atividades industriais como
expansores na fabricação de espumas e isopor, e também em aparelhos de
refrigeração, ar-condicionado e aerossóis.
Como o CFC destrói a camada de ozônio? Por ser um composto muito
estável na atmosfera, ou seja, não reagir com nenhum outro gás nela presente,
chega às camadas superiores como a estratosfera, onde o cloro presente na
molécula de CFC reage com o ozônio, destruindo-o, conforme você aprendeu
na Seção 2. Por ser estável, pode permanecer por centenas de anos na atmos-
fera, destruindo milhares de moléculas de ozônio (Figura 2.7).
Nesse ciclo de destruição, tudo começa com a quebra do CFC pela radiação
solar, liberando um radical cloro para a atmosfera (CF2Cl2 + raios ultravioleta   
CF2Cl + Cl). Esse radical cloro rompe a molécula de ozônio (Cl + O3    ClO + O2)
e se liga a um oxigênio, formando monóxido de cloro (ClO) e oxigênio mole-
cular (O2) (ClO + O3    Cl + 2O2). Átomos de oxigênio presentes na atmosfera
rompem a ligação do monóxido de cloro, formando O2 e liberando o radical
84 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

cloro novamente para atmosfera, que rompe outra molécula de ozônio e assim
por diante, formando um ciclo.

Figura 2.7 Destruição do ozônio na estratosfera pelo CFC

Fonte: Do autor (2014).

4.4 Smog fotoquímico


O smog fotoquímico é o resultado da formação de poluentes secundários
a partir de poluentes orgânicos e oxidantes na atmosfera.
A formação de oxidantes no ar, particularmente de ozônio, é um indicativo
de formação de smog. Quando o nível de nevoeiro fotoquímico ultrapassa
0,15 ppm em um período de uma hora, já é considerado como nível grave. Os
três ingredientes necessários para gerar smog fotoquímico são luz ultravioleta,
hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio.
O smog fotoquímico é algo recente? Segundo Manahan (2001), em 1542
o sul da Califórnia já apresentava uma neblina pesada que cobria a área. Em
1868, em Los Angeles, já haviam queixas de irritação nos olhos da população
decorrente do ar poluído, sendo que em 1940 o smog se tornou um incômodo
devido à redução da visibilidade, irritação nos olhos, rachaduras de borracha
e deterioração de materiais. Nos dias atuais, o smog é reconhecido como um
grande problema de poluição do ar em muitas áreas do mundo.
Química da atmosfera 85

Os automóveis e caminhões produzem hidrocarbonetos reativos e óxidos


de nitrogênio, dois dos três principais ingredientes necessários para formar o
smog. Nas condições de alta pressão de combustão em um motor de automó-
vel, nitrogênio e oxigênio elementar reagem para produzir óxido nítrico (NO):
N2 + O2  2NO.
O NO produzido é convertido para NO2, que é um ingrediente chave na
formação do smog fotoquímico. Na combustão interna do motor, em condições
de altas temperatura e pressão, os produtos da gasolina parcialmente queimados
sofrem reações químicas que produzirão centenas de hidrocarbonetos diferen-
tes. Muitos destes são altamente reativos na formação de smog fotoquímico.
O automóvel tem várias fontes potenciais de emissão de hidrocarbonetos, como
a névoa da lubrificação do petróleo, o sistema de combustível, em que hidro-
carbonetos podem ser emitidos através do tanque de combustível e aberturas no
carburador, sendo que quando o motor é desligado e o calor do motor aquece
o sistema de combustível, a gasolina pode ser evaporada e emitida para a at-
mosfera. Além disso, o aquecimento durante o dia e o resfriamento durante a
noite faz com que o tanque de combustível também emita vapores de gasolina.
Muitos produtos químicos também enviam hidrocarbonetos para a atmosfera
através de reações que são responsáveis pela formação de poluentes secundários
e precursores intermediários que compõem o smog fotoquímico. Compostos
orgânicos e outros hidrocarbonetos são instáveis frente à oxidação e tendem
a ser oxidados em uma série de etapas. O processo termina com formação de
CO2 sólido, partículas orgânicas que se instalam na atmosfera, ou solúveis em
água e ácidos, aldeídos que são removidos pela chuva. Espécies inorgânicas,
tais como ozônio ou ácido nítrico, são subprodutos dessas reações.
A atmosfera que recebe hidrocarbonetos e NO, na presença de intensa luz
solar, é um ambiente propício para a formação de oxidantes.
O radical (OH•), muito reativo, é a chave de espécies reativas de interme-
diários na formação de smog. Durante o processo de formação do smog, o
radical hidroxila é facilmente produzido pela reação de um átomo de oxigênio
com um hidrocarboneto: O + CH4  H3C• + HO•.
O radical hidroxila pode também ser formado pela reação com vários
elementos como o oxigênio atômico (“energizado”) com água, pela fotodis-
sociação do peróxido de hidrogênio, pela fotólise do ácido nitroso. Entre as
espécies inorgânicas com que o radical reage, estão os óxidos de nitrogênio e
monóxido de carbono.
86 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Os efeitos nocivos da poluição atmosférica se verificam principalmente na


saúde humana, em danos aos materiais, efeitos sobre a atmosfera, e toxicidade
para plantas. O efeito nocivo do smog em plantas é de preocupação particular.
Estes efeitos são devidos, em grande parte, aos oxidantes presentes na atmos-
fera enfumaçada. Os três principais envolvidos são o ozônio, o PAN (nitrato de
peroxiacetil) e óxidos de nitrogênio. Destes, o PAN tem a maior toxicidade às
plantas, atacando mais as folhas jovens e causando “bronzeamento” e “vidros”
em suas superfícies. Exposição por várias horas a uma atmosfera contendo um
nível de PAN de apenas 0,02-0,05 ppm danifica a vegetação. Felizmente, PAN
geralmente está presente em níveis muito baixos. Algumas espécies de plantas
são suscetíveis aos efeitos do ozônio e outros oxidantes fotoquímicos, e são
usadas como bioindicadores da presença de smog.

Para saber mais


Leia o artigo Avaliação das respostas de bioindicadores vegetais a diferentes condições
da química atmosférica envolvidas no smog fotoquímico: um estudo em câmara
controlada simulando a poluição urbana, disponível no link <http://www.bv.fapesp.br/pt/
auxilios/3579/avaliacao-das-respostas-de-bioindicadores-vegetais-a-diferentes-condicoes-da-
quimica-atmosferica-env/>. Acesso em: 10 abr. 2014.

O grau exato em que a exposição à fumaça afeta a saúde humana não é


conhecido, apesar de importantes efeitos adversos serem suspeitos. O ozônio
possui um cheiro pungente e a poluição provocada por ele é tóxica, provoca
tosse, constrição dos brônquios e irritação nas mucosas do sistema respiratório.
Além de ozônio, oxidante nitrato de peroxiacil, aldeídos encontrados em smog
são irritantes para os olhos.
Os materiais também são prejudicados por alguns componentes do smog.
Por exemplo, a borracha fica rachada e envelhecida, pois tem alta afinidade
pelo ozônio. O ozônio não ataca somente a borracha natural, mas também
materiais similares por oxidação e quebra de ligações duplas no polímero,
resultando na deterioração de produtos à base de borracha.
Partículas de aerossóis, que reduzem a visibilidade, são formadas pela
polimerização de moléculas menores. Uma vez que essas reações envolvem
a oxidação de hidrocarbonetos, não é de estranhar que o oxigênio contendo
componentes orgânicos compõe a maior parte do material particulado produ-
zido a partir de smog.
Química da atmosfera 87

Atividades de aprendizagem
1. Você estudou, nesta seção, que a destruição da camada de ozônio é
um dos problemas provocados pela poluição atmosférica. Explique,
então, o que está provocando essa destruição, como ela ocorre e
possíveis ações para contê-la e estabilizar a concentração de ozônio.
2. Leia as alternativas a seguir e assinale as corretas:
a) No fenômeno conhecido como chuva ácida, há aumento do pH
da água da chuva.
b) O efeito estufa é um fenômeno natural, responsável por manter
a temperatura da Terra em uma faixa propícia à vida, e tem sido
gerado há bilhões de anos, a partir da presença de vapor d’água
e gases na atmosfera.
c) O smog fotoquímico é formado quando ocorrem na atmosfera
três ingredientes básicos — água, luz e calor.
d) O efeito estufa é um fenômeno totalmente artificial, provocado
pelas ações antrópicas, e está se agravando à medida que as tem-
peraturas da Terra estão ficando mais baixas.
e) Nos últimos anos, o efeito estufa está se intensificando, devido
ao excesso de poluentes gerados pelas atividades antrópicas,
principalmente os clorofluorcarbonetos (CFCs) e os hidrocloro-
fluorcarbonetos (HCFCs): com maior concentração de gases na
atmosfera, mais calor passou a ficar retido, provocando aquilo
que está sendo chamado de aquecimento global.

Fique ligado!
Nesta unidade você aprendeu:
A composição e estrutura da atmosfera;
Que na atmosfera existem, naturalmente, vários componentes
químicos;
88 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Que o nitrogênio é o componente presente em maior volume na


atmosfera (78%);
Sobre a formação do ozônio e da camada de ozônio;
Que as atividades antrópicas estão contribuindo para alterar a com-
posição da atmosfera;
Que os ciclos biogeoquímicos são responsáveis por manter o equi-
líbrio na Terra, mas atividades humanas estão interferindo em sua
dinâmica;
Que existem poluentes atmosféricos que provocam danos à saúde
humana, às plantas e aos materiais;
Que chuva ácida, smog fotoquímico, efeito estufa e destruição da
camada de ozônio são problemas ambientais provocados pela ação
do homem, e medidas de gestão precisam ser adotadas para reverter
os efeitos maléficos desses problemas ambientais.

Para concluir o estudo da unidade


As informações que foram organizadas e apresentadas a você nesta uni-
dade são uma pequena amostra do conteúdo técnico-científico disponível
sobre a química da atmosfera. Acredito, contudo, que elas permitiram a
você conhecer e compreender a composição e a estrutura da atmosfera; o
processo de formação da camada de ozônio e como as atividades humanas
estão contribuindo para destruir essa camada, tão importante para a vida
na Terra. E conheceu, ainda, os ciclos biogeoquímicos gasosos, que estão,
também, sendo influenciados pelos poluentes gerados nos ecossistemas
antrópicos, causando diversos problemas ambientais, entre eles a chuva
ácida, a formação de smog fotoquímico, o agravamento do efeito estufa
e a já citada destruição da camada de ozônio.
Pode-se concluir que o mesmo homem que tem se mostrado capaz
de provocar a sua própria extinção também está buscando alternativas
para reverter os problemas que ele criou, embora essa tarefa não esteja
se mostrando fácil. Mas debates, eventos e acordos internacionais, como
Química da atmosfera 89

os Protocolos de Montreal e de Kyoto, indicam que existe esperança, e


se a inteligência humana e os recursos tecnológicos e financeiros forem
alocados como prioridade para reverter e mitigar os danos atuais, a Terra
ainda será um lugar sagrado para que as futuras gerações vivam aqui –— os
meus e seus filhos e tantas gerações quantas vierem depois de nós.
Para aprofundar o estudo sobre a química da atmosfera, você pode ler
na íntegra as referências desta unidade, e utilizar as ferramentas de busca
da internet, onde estão disponíveis bons sites e muitos artigos sobre a
destruição da camada de ozônio, por exemplo, assunto de extrema rele-
vância que merece ser estudado mais profundamente. Até porque existem
controvérsias e polêmicas. Alguns cientistas afirmam que a destruição
da camada de ozônio é a causa do aquecimento global, por provocar o
agravamento do efeito estufa. Mas outro grupo de cientistas afirma que
a tese do aquecimento global é uma falácia, pois ciclos de calor e frio
são normais na história geológica do planeta e a Terra, na verdade, está
passando por um período de resfriamento. Essa teoria, inclusive, é defen-
dida por cientistas brasileiros, entre eles os professores Ricardo Augusto
Felício, da Universidade de São Paulo, e Luiz Carlos Baldicero Molion, da
Universidade Federal de Alagoas, conhecido como um cientista que não
se curva aos ambientalistas radicais. Que tal você começar descobrindo
o que eles falam sobre o aquecimento global, para subsidiar a formação
da sua opinião sobre este tema?

Atividades de aprendizagem da unidade


1. Sobre a poluição atmosférica, avalie as afirmações a seguir em ver-
dadeiro (V) ou falso (F) e depois escolha a alternativa CORRETA:
( ) Consiste na contaminação da atmosfera por resíduos ou produtos
secundários gasosos, sólidos ou líquidos, que podem ser nocivos
à saúde dos seres humanos, causar danos em plantas, atacar
diferentes materiais, reduzir a visibilidade e produzir odores
desagradáveis.
( ) Pode afetar os ciclos biogeoquímicos, principalmente os ciclos
gasosos.
90 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

( ) Seu nível é avaliado pela quantidade de substâncias poluentes


presentes no ar.
( ) Os metais pesados são poluentes altamente tóxicos.
( ) Não existe nenhum tipo de poluição na atmosfera terrestre.
a) V — V — V — V — F d) F — F — F — F — V
b) F — F — F — F — F e) V — F — V — F — F
c) V — V — V — V — V
2. A atmosfera apresenta composição e estrutura que estão sendo forma-
das há bilhões de anos. Porém, nos últimos 150 anos, as atividades
antrópicas têm provocado alterações significativas na composição
atmosférica. Explique, de forma resumida, as principais alterações da
atmosfera discutidas nesta Unidade de estudo.
3. Assinale a alternativa verdadeira em relação aos problemas ambientais
provocados por poluentes atmosféricos:
a) Metano, monóxido de carbono, ozônio, hidrocarbonetos e dióxido
de carbono são compostos químicos inertes, e como tal incapazes
de provocar poluição do ar.
b) Chuvas ácidas ocorrem diariamente nas áreas rurais da Amazônia
brasileira.
c) Todos os dias, os países industrializados geram milhões de tone-
ladas de contaminantes, sendo os mais comuns e amplamente
dispersos monóxido e dióxido de carbono, dióxido de enxofre,
óxidos de nitrogênio, ozônio e partículas em suspensão.
d) Não existe emissão natural de poluentes atmosféricos, apenas
artificiais.
e) O smog fotoquímico foi identificado pela primeira vez no inverno
de 2013, após as geadas de forte intensidade e nevascas que atin-
giram o sul do Brasil, como resultado do aquecimento global.
4. O ozônio (O3) é, ao mesmo tempo, um elemento químico benéfico e
poluente presente na atmosfera, dependendo da camada onde é for-
mado e do tipo de reação química envolvida. Explique as diferenças
entre esses dois tipos de ozônio, os tipos de reações químicas que os
formam e em qual camada da atmosfera elas ocorrem.
Química da atmosfera 91

5. A camada de ozônio é uma área da estratosfera com elevada concen-


tração de ozônio, e funciona como uma espécie de escudo protetor da
Terra, pois absorve a maior parte da radiação ultravioleta emitida pelo
Sol. Sem esta camada a vida humana seria praticamente impossível.
Porém, esta camada protetora está sofrendo agressões provocadas
pelas ações do homem, provocando danos a ela. Sobre essa possível
destruição, avalie as afirmações a seguir em verdadeira (V) ou falsa
(F) e depois assinale a alternativa correta:
( ) A destruição do ozônio estratosférico pelas atividades humanas
ocorre pela emissão de gases que contém cloro (Cl) e bromo (Br).
( ) O Protocolo de Montreal sobre substâncias que destroem a ca-
mada de ozônio foi assinado em 1987 por 46 países, inclusive
pelo Brasil.
( ) A região mais afetada é a Antártida, onde estima-se que existem
31 milhões de quilômetros quadrados desprotegidos dos raios
UV (15% da superfície do planeta).
( ) O Protocolo de Kyoto é um acordo internacional cujo objetivo
é promover a redução das emissões de poluentes atmosféricos
e, assim, conter o processo de destruição da camada de ozônio.
( ) Um dos principais problemas dela resultante é o aumento do
número de casos de câncer de pele, provocados pela maior
exposição à radiação UV.
a) F — F — F — F — F
b) F — V — F — V — F
c) F — F — F — V — V
d) V — V — V — F — F
e) V — V — V — V — V
92 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Referências
ASSUNÇÃO, João V. Controle ambiental do ar. In: PHILIPPI JR., A; ROMÉRO, Marcelo A;
BRUNA, Gilda C. Curso de gestão ambiental. Barueri-SP: Manole, 2004.
BERBERAN e SANTOS, Mário Nuno de Matos Sequeira. Composição química e estrutura da
atmosfera terrestre. Disponível em: http://web.ist.utl.pt/berberan/PF/folhas%20trabalhos%20
e%20exercicios/Estrutura%20e%20composicao%20da%20atmosfera.pdf. Acesso em: 28
mar. 2014.
BRENA, Nilson Antonio. A chuva ácida e os seus efeitos sobre as florestas. 2.ed. São Paulo:
Ed. do autor, 2009. Disponível em: <http://www.nilsonantoniobrena.xpg.com.br/a_chuva_
acida.pdf>. Acesso em: 08 de mar. 2012.
CARVALHO, C.M.L.; CAMPOS, E.S.T.; MARTINS, D.S; RAPOSO, A.M.F; VIVEIROS, A.P.R.;
BATOREU, M.C.C. Dioxinas: origens e efeitos na população humana. Biologias, 3 de março,
2001. Disponível em: <http://ordembiologos.pt/Publicacoes/Biologias/Dioxinas%20--%20
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COSTA, Michelle L, SILVA, Roberto R. Ataque a pele. Química nova na escola. n.1,
maio/1995. Disponível em: http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc01/quimsoc.pdf. Acesso em:
29 out. 2011.
INSTITUTO de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas. Universidade de São Paulo.
Estrutura da atmosfera. Disponível em: <http://www.iag.usp.br/siae98/atmosfera/estrutura.
htm>. Acesso em: 30 mar. 2014.
MANAHAN, Stanley E. Fundamentals of environmental chemistry. Boca Raton: CRC Press
LCC, 2001.
MARTINS, Cláudia Rocha; PEREIRA, Pedro Afonso de Paula; LOPES, Wilson Araujo;
ANDRADE, Jailson Bittencourt de. Ciclos globais de carbono, nitrogênio e enxofre: a
importância na química da atmosfera. Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola, n. 5,
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pdf>. Acesso em: 24 abr. 2014.
MOZETO, Antonio A. Química atmosférica: a química sobre nossas cabeças. Cadernos
Temáticos de Química Nova na Escola, ed. esp., maio 2001, p. 41-49. Disponível em:
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TOLENTINO, Mario; ROCHA-FILHO, Romeu C. A química no efeito estufa. Química Nova
na Escola, n.8, 1998. Disponível em: <http://www.qnesc.sbq.org.br/online/qnesc08/quimsoc.
pdf>. Acesso em: 30 out. 2011.
Unidade 3
A química da água
Edson Torres

Objetivos de aprendizagem:
Apresentar a importância e as propriedades da água;
Entender a dinâmica e as interações do ciclo hidrológico;
Conhecer e compreender as principais características químicas
da água;
Apresentar os principais poluentes da água e suas fontes;
Conhecer as principais características e a dinâmica dos poluentes
hídricos;
Identificar os processos básicos de tratamento da água e esgoto.

Seção 1: Importância e propriedades das águas e


ciclo hidrológico
Nesta seção vamos estudar a importância da água,
sua origem, características e propriedades. Estuda-
remos ainda a importância e os aspectos químicos e
físicos que estão relacionados ciclo hidrológico.

Seção 2: A química da água


Nesta seção vamos estudar o oxigênio na água, a
decomposição de matéria orgânica, a acidez e o
dióxido de carbono, a alcalinidade, complexação e
quelação, as interações químicas envolvendo sólidos,
gases e água, assim como os coloides na água. Essas
são as principais interações químicas da água e de
fundamental importância para a compreensão das
relações entre água e meio ambiente.
Seção 3: Poluição e tratamento das águas
Nesta seção vamos estudar sobre a natureza e os
tipos de poluentes da água e os indicadores físicos,
químicos e biológicos da poluição da água. Também
estudaremos os metais pesados, como por exemplo
o cádmio, chumbo e o mercúrio, assim como os po-
luentes orgânicos e os processos de bioacumulação
e biomagnificação. Para finalizar os estudos faremos
uma abordagem sobre o processo de tratamento
das águas.
A química da água 95

Introdução ao estudo
Para que possamos compreender de forma sistêmica os aspectos que envolvem
a Química ambiental, se faz necessário compreendermos a importância da água,
suas características e propriedades, e entender o processo do ciclo hidrológico.
Também é preciso conhecer a química da água, suas interações envolvendo
sólidos, gases e água, assim como a poluição e o tratamento das águas.
Nesta unidade, veremos mais detalhadamente os processos natural e an-
trópico relacionados à química ambiental da água, com a preocupação para
que vocês tenham um preparo suficiente e que possam utilizá-los com os seus
alunos na atuação profissional.
Para enriquecer o seu conhecimento apresentaremos algumas bibliografias
que atuarão como auxílio e atualização dos conhecimentos; bem como ativida-
des de estudo que contribuirão na fixação e aplicação dos conteúdos abordados.
Desejamos a você um ótimo aprendizado, e que ao final consiga aplicar
os conceitos no meio profissional o qual a cada dia se torna mais competitivo
e necessário a busca do conhecimento.
Bons estudos!

Seção 1 Importância e propriedades das


águas e ciclo hidrológico
Prezado(a) acadêmico(a)! Nesta seção vamos estudar sobre a importância
da água, sua origem, características e propriedades. Estudaremos ainda a im-
portância e os aspectos químicos e físicos que estão relacionados com ciclo
hidrológico. Então vamos lá!

1.1 Importância da água


Todas as formas de vida na Terra dependem da água, sendo que o ser hu-
mano precisa consumir vários litros de água diariamente para sobreviver. Porém,
muito mais água é usada para outras atividades domésticas como chuveiro, vaso
sanitário, lavar louças, cozinhar, irrigação de jardins, entre outras. Quantidades
enormes per capita são usadas por indústrias e especialmente para a irrigação
na agricultura (BAIRD; CANN, 2011).
96 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Para saber mais


No chuveiro e vaso sanitário são gastos diariamente cerca de 50 L de água, para lavar louças
cerca de 20 L, para cozinhar 10 L, e na indústria, podemos citar o consumo de milhares de litros
para produzir um quilograma de carne, algodão e/ou arroz (BAIRD; CANN, 2011).

Do total de água no planeta, 97% é representada pelos oceanos e mares,


sendo inviável para consumo e/ou utilizada na agricultura. Três quartos da
água doce estão presos nas geleiras e calotas polares, portanto, os lagos e rios
constituem uma das principais fontes de água potável, mesmo constituindo
apenas 0,1% do total de suprimento de água doce. Cerca de metade da água
potável é obtida das águas subterrâneas (BAIRD; CANN, 2011).
O planeta Terra é uma esfera com 2/3 de sua superfície coberta de água,
flutuando como uma grande bola azul no espaço. A hidrosfera, ou seja o
reservatório que agrega todos os tipos de água existentes no planeta, contém
aproximadamente 1,4 x 109 km³ de água, sendo que os oceanos são os mais
velho (3,8 bilhões de anos de existência) e o maior dos reservatórios (CAMPOS;
JARDIM, 2003).
Na superfície da Terra a importância da água é atestada quando se comparam
as áreas cobertas por água e gelo com aquelas de terra firme, sendo que do total
de 510 x 106 km² da superfície da Terra, 310 x 106 km² estão cobertos pelos
oceanos, e 184,94 x 106 km² é área continental, resultando numa proporção
entre superfície marítima e terra firme de 2,42:1. Considerando-se que cerca de
2,5 x 106 km² dos continentes correspondem aos rios e lagos e até 15 x 106 km²
são cobertos por geleiras, essa relação fica ainda mais desfavorável para as ter-
ras emersas. E é por esse fato que a Terra é conhecida como planeta azul, que
quando vista do espaço tem predomínio da cor azul devido à grande quantidade
em área da água. Contudo, as águas subterrâneas também são importantes, pois
alimentam poços que são responsáveis por boa parte do abastecimento de água
em grandes centros urbanos e nas áreas secas (KARMANN, 2009).
Assim, a ciclagem da água entre os reservatórios é um processo muito
dinâmico, movido basicamente pela energia solar, e que movimenta cerca de
1 km³ de água por ano apenas entre a hidrosfera e a atmosfera, fazendo com
que o tempo de residência da água na atmosfera seja pequeno, tipicamente de
10 dias (CAMPOS; JARDIM, 2003).
A química da água 97

A substância mais abundante na superfície do planeta é a água, participando


dos processos modeladores por meio da dissolução de materiais terrestres e
do transporte de partículas. É o solvente mais comum disponível na natureza,
conhecido como solvente universal, e seu papel no intemperismo químico
é evidenciado pela hidrólise (PHILIPPI JR. 2005). A água é responsável pelo
transporte de partículas por meio dos rios, desde a forma iônica (em solução)
até o cascalho e blocos rochosos, sendo o meio mais eficiente de erosão da
superfície terrestre. Acumula-se em grandes volumes sob a forma de gelo,
formando as geleiras, escarificando o terreno, arrastando blocos rochosos e
esculpindo a paisagem (KARMANN, 2009). Portanto, a água e a hidrosfera são
fundamentais para os processos envolvidos no destino e transporte químicos
no ambiente. Esses incluem os processos físicos de volatilização, dissolução,
precipitação, absorção e liberação ocorridos em sedimentos. Os processos
químicos envolvidos no destino e transporte químicos na água são reações
químicas que resultam em dissolução, precipitação, hidrólise, complexação,
oxidação-redução e reações fotoquímicas. São processos que sofrem influência
direta dos fenômenos bioquímicos, como a bioacumulação e a biomagnifica-
ção em cadeias alimentares, além da biodegradação. Nesse sentido, o destino
e o transporte de poluentes na hidrosfera são aspectos muito importantes
(MANAHAN, 2013).

1.2 A origem da água


A origem da primeira gota de água está relacionada aos processos iniciais
da diferenciação do planeta. A origem da primeira água na história da Terra
está relacionada com a formação da atmosfera, ou seja, a degaseificação do
planeta. Este por sua vez é o fenômeno de liberação de gases por um sólido
ou líquido quando aquecido ou resfriado. Esse processo é atuante ainda hoje,
porém, teve início na fase de resfriamento geral da Terra, após a fase inicial de
fusão parcial. Nesse gradativo resfriamento e formação de rochas ígneas, foram
liberados gases, principalmente vapor de água (H2O) e dióxido de carbono
(CO2). Outros gases também foram produzidos como subprodutos voláteis da
cristalização do magma (KARMANN, 2009).
Atualmente ainda observa-se a geração de água na forma de vapor por
meio das erupções vulcânicas, sendo chamada de água juvenil. Os geólogos
acreditam que o volume de água que atualmente compõe a hidrosfera surgiu
repentinamente num certo momento. Existem evidências geoquímicas que
98 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

suportam a formação de quase toda a atmosfera e a água hoje disponível nessa


primeira fase de resfriamento da Terra. Desde então, esse volume teria sofrido
pequenas variações, apenas por reciclagem por meio do ciclo das rochas
(KARMANN, 2009).

1.3 Características e propriedade das águas


A água possui diversas propriedades exclusivas como o caráter polar, a
tendência de formar pontes de hidrogênio e a capacidade de hidratar íons
metálicos (MANAHAN, 2013).
Para se compreender as propriedades da água devem ser estudadas a estru-
tura e as ligações químicas de sua molécula. A molécula da água é composta
por dois átomos de hidrogênio ligados a um átomo de oxigênio, formando
um ângulo de 105°. Devido à estrutura não linear da molécula e ao fato de o
átomo de oxigênio atrair elétrons com mais intensidade do que os átomos de
hidrogênio, a molécula da água se comporta como um dipolo, com duas cargas
elétricas opostas em cada extremidade. O dipolo da água é atraído por íons
com carga positiva ou negativa. Como exemplo podemos citar o caso do NaCl
que quando se dissolve em água como íons (Na+) positivos e (Cl–) negativos, o
íon sódio positivo é cercado por moléculas de água com seus polos negativos
apontando para ele, enquanto o íon cloro é envolto por moléculas de água
com seus polos positivos apontando para seu centro. É esse tipo de atração por
íons que caracteriza a propriedade de dissolver os compostos iônicos e sair
insolúvel em outros líquidos (MANAHAN, 2013).
Alguns desses íons, como o cloreto (abundante em águas de alta sali-
nidade), são chamados de conservativos porque são pouco reativos, e suas
concentrações dependem apenas dos processos de mistura. Outros, como o
íon bicarbonato e o íon hidrogênio são considerados não conservativos, pois
podem ser consumidos ou gerados no corpo aquático, e suas concentrações
variam independentemente dos processos de mistura. Fundamentalmente, as
águas salgadas têm altas concentrações de íons quando comparadas àquelas
encontradas tipicamente em águas doces e uma composição química mais
homogênea em todo o planeta do que as águas subterrâneas, de rios e lagos
(CAMPOS; JARDIM, 2003).
Uma segunda característica importante da molécula da água é a sua capa-
cidade de formar pontes de hidrogênio, ou seja, a ligação entre o hidrogênio
de uma molécula de água e o oxigênio de outra molécula de água, conforme
A química da água 99

verificado na Figura 3.1. As pontes de hidrogênio ocorrem porque o oxigênio


tem uma carga parcial negativa e o hidrogênio tem uma carga parcial positiva.
As pontes de hidrogênio, mantêm as moléculas juntas formando grupos volu-
mosos (MANAHAN, 2013).

Figura 3.1 Pontes de hidrogênio entre moléculas


de água e entre moléculas de água e soluto

Fonte: Adaptado de Manahan (2013, p. 61).

As pontes de hidrogênio ajudam a manter em solução algumas molécu-


las ou íons de solutos, pois as pontes de hidrogênio se formam entre as moléculas
de água e os átomos de hidrogênio, nitrogênio ou oxigênio na molécula do
soluto conforme a Figura 3.1. As pontes de hidrogênio também ajudam a manter
em suspensão na água partículas pequenas, chamadas de partículas coloidais
(MANAHAN, 2013).
Essas ligações de hidrogênio também proporcionam à água líquida o elevado
calor específico (ou capacidade calorífica específica) de 1,0 cal g-1 °C-1. Para
entender melhor, é necessário fornecer uma grande quantidade de energia na
forma de calor (1 cal) para poder elevar a temperatura de 1 g de água líquida
em 1 °C. A energia que seria consumida para aumentar a movimentação das
moléculas é inicialmente absorvida para quebrar as ligações de hidrogênio e,
portanto, a água absorve energia sem aumentar sua temperatura drasticamente
(CAMPOS; JARDIM, 2003).
100 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

O alto calor específico da água tem implicações diretas no clima e na vida


do planeta, prevenindo variações rápidas de temperatura da água, observadas
quando vamos à praia. Muitas vezes, no meio do dia, sentimos a areia quei-
mando nossos pés, enquanto que a água do mar permanece fria. Isso acontece
porque a areia tem um calor específico muito mais baixo que o da água, ou
seja, o calor que a areia absorve eleva eficientemente sua temperatura, gerando
gradientes de temperatura na areia ao longo de um dia. Portanto, o oceano retém
cerca de 1100 vezes mais calor que a atmosfera. O elevado calor específico da
água faz com que apenas 2,5 m de coluna d’água do oceano seja equivalente
à toda capacidade calorífica da atmosfera que está sobre o oceano (CAMPOS;
JARDIM, 2003).
Outras propriedades físicas importantes da água, para compreendermos
a importância do oceano no clima global são o calor latente de fusão e va-
porização. O calor latente de fusão é a quantidade de calor necessária para
transformar 1 g de uma substância do estado sólido para o estado líquido ou
vice-versa. Já o calor latente de vaporização refere-se à transição entre o estado
líquido e gasoso. O elevado calor latente de fusão da água (80 cal), provoca
um efeito termostático no ponto de congelamento, pois uma grande quantidade
de energia precisa ser emitida ou absorvida para que haja mudança de estado,
evitando a rápida formação de gelo na coluna d’água. A presença de sais na
água do mar (cerca de 35 g kg-1) diminui seu ponto de congelamento para –1,9
°C e, por isto, a água do mar nunca atinge temperaturas inferiores a este valor
(CAMPOS; JARDIM, 2003).
As moléculas carregam grandes quantidades de energia quando a água
passa do estado líquido para o gasoso, devido ao elevado calor latente de va-
porização (540 cal g-1). Portanto, quando há transferência de água do oceano
para a atmosfera existe, também, a transferência de calor. O vapor d’água na
atmosfera é transportado para outras regiões do planeta e, quando condensa
na forma de chuva, ocorre a liberação do calor latente. A mesma quantidade
de energia absorvida no processo de vaporização é liberada para a atmosfera.
Isto significa que o calor é transportado de uma região do planeta para outra
na forma de calor latente de vaporização, o que é muito importante para a
distribuição de calor e estabilização do sistema climático global (CAMPOS;
JARDIM, 2003).
No verão, o calor é armazenado nos oceanos e, durante o inverno, parte
desse calor é transferido de volta para a atmosfera, amenizando a temperatura
A química da água 101

do ar. Apenas compreendendo o significado do elevado calor específico da


água, somado ao seu grande volume, já podemos perceber porque o oceano
age como moderador climático, diminuindo a amplitude das variações de
temperatura entre as estações do ano, e transferindo calor das regiões tropicais
para as subtropicais e polares por meio das correntes maritmas. Se não fossem
os oceanos, nosso planeta teria dias muito quentes e noites muito frias (CAM-
POS; JARDIM, 2003).
A água é um ótimo solvente para diversos materiais, sendo o meio de trans-
porte básico de nutrientes e resíduos gerados pelos processos biológicos. Sua
constante dielétrica extremamente alta, comparada à de outros líquidos, exerce
efeito profundo nas propriedades solventes da água, permitindo que a maioria
dos materiais iônicos se dissocie nela (MANAHAN, 2013).

Atividades de aprendizagem
A água é responsável pela vida na Terra, por meio da fotossíntese, que pro-
duz biomassa pela reação entre CO2 e H2O. Também é importante lembrar
que praticamente 80% do corpo humano é composto por água. Porém, é
um bem que está sendo ameaçado por um possível aquecimento global,
que poderia influenciar a circulação oceânica e, consequentemente, o
fluxo de energia (na forma de calor) na Terra. Com base nesse texto, quais
seriam os processos de destino e transporte químico influenciados no ciclo
hidrológico se por ventura o aquecimento global se confirmar? Assinale
a alternativa correta.
a) Volatilização, dissolução, precipitação, absorção e liberação ocorridas
em sedimentos.
b) Lixiviação, precipitação, sedimentação, adsorção e bioacumulação.
c) Dissolução, absorção, adsorção, lixiviação e dissolução.
d) Volatilização, bioacumulação, hidratação e dissolução.
e) Hidratação, precipitação, sedimentação, absorção e liberação ocorri-
das em sedimentos.
102 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

1.4 Ciclo hidrológico


O ciclo da água, ou também ciclo hidrológico, está relacionado ao movi-
mento da água do seu maior reservatório, os oceanos, por evaporação para a
atmosfera (menor reservatório) e, posteriormente, pela precipitação (chuva) de
volta para a superfície da Terra. Após isso há a infiltração e o escoamento nos
continentes e eventual retorno aos oceanos. Parte da chuva volta para o ar por
evaporação e transpiração da vegetação (PRESS et al., 2006; ODUM; BARRETT,
2011). Porém, o ciclo hidrológico pode ser considerado um ciclo de renovação
natural da qualidade da água (MILLER JR., 2012).
A partir do volume total de água que é relativamente constante no sistema,
podemos acompanhar o ciclo hidrológico conforme apresentado na Figura 3.2.

Figura 3.2 Ciclo hidrológico

Fonte: Adaptado de Karmann, (2000, p. 115).

No início do ciclo hidrológico ocorre o fenômeno da precipitação meteórica


que representa a condensação de gotículas a partir do vapor de água presente
na atmosfera, originando a chuva. Quando o vapor de água transforma-se dire-
tamente em cristais de gelo e estes, por aglutinação, atingem tamanho e peso
suficientes, a precipitação ocorre na forma de neve ou granizo, responsável pela
geração e manutenção de importante reservatório representado pelas geleiras
nas calotas polares e nos cumes de montanhas (KARMANN, 2009).
Parte da precipitação retorna para a atmosfera por evaporação direta durante
seu percurso em direção à superfície terrestre, somando-se ao vapor de água
formado sobre o solo e aquele liberado pelas atividades biológica de organis-
mos, principalmente pelas plantas, por meio da respiração. Esse conjunto de
A química da água 103

processos é denominado de evapotranspiração, na qual a evaporação direta


é causada pela radiação solar e vento, enquanto a transpiração depende da
vegetação (KARMANN, 2009).
A evapotranspiração em áreas florestadas de clima quente e úmido é res-
ponsável em devolver à atmosfera até 70% da precipitação. Já em ambientes
glaciais o retorno da água para a atmosfera ocorre pela sublimação do gelo,
passando diretamente do estado sólido para o gasoso, por meio da ação do
vento. Nas regiões com florestas uma fração da precipitação pode ser retida
sobre folhas e caules, sofrendo evaporação posteriormente, processo ao qual
atribui-se o nome de interceptação. Com a movimentação das folhas pelo
vento, uma parte da água retida continua seu trajeto para o solo. Portanto, a
interceptação diminui o impacto das gotas de chuva sobre o solo, reduzindo
as chances de provocar erosão (KARMANN, 2009).
A gotícula de água no solo pode seguir por dois caminhos, sendo que o
primeiro é a infiltração, dependente das características do material de cobertura
da superfície. Conduzida pela força gravitacional, a água de infiltração tende
a preencher os vazios no subsolo, seguindo em profundidade, onde abastece
o corpo de água subterrânea. A segunda possibilidade ocorre quando a capa-
cidade de absorção de água pela superfície é superada e o excesso de água
inicia o escoamento superficial, impulsionado pela gravidade para zonas mais
baixas (KARMANN, 2009).
Por sua vez, esse escoamento tem início por meio de pequenos filetes de
água, efêmeros e disseminados pela superfície do solo, que convergem para os
córregos e rios, constituindo a rede de drenagem. O escoamento superficial,
geralmente, tem como destino final os oceanos. Também é bom salientar que
parte da água de infiltração retorna à superfície pelas nascentes, alimentando
o escoamento superficial ou, por rotas de fluxo mais profundas e lentas, rea-
parecendo diretamente nos oceanos (KARMANN, 2009).
Durante o trajeto geral do escoamento superficial nas áreas emersas e, prin-
cipalmente na superfície dos oceanos, ocorre a evaporação, realimentando o
vapor de água atmosférico e completando o ciclo hidrológico. Estima-se que
os oceanos contribuam com 85% do total anual evaporado e os continentes
com 15% por evapotranspiração (KARMANN, 2009).
A maior parte da água da atmosfera tem origem no próprio ciclo hidrológico,
ou seja, é a energia solar que evapora a água da superfície dos corpos d’água ou
da biota mediante a evapotranspiração, e libera o vapor de água para a atmosfera.
104 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Na atmosfera, pelas correntes de ar e ventos, difunde-se pela troposfera. Esta


água da troposfera pode sofrer além das transformações físicas, que conduzem
às demais etapas do ciclo hidrológico, transformações fotoquímicas e químicas
(LENZI; FAVERO, 2011).
Dois aspectos do ciclo hidrológico devem ser enfatizados:
Evapora mais água do oceano do que retorna a ele por meio da chuva no
continente e vice-versa. Uma parte considerável das chuvas que sustentam
os ecossistemas terrestres, incluindo a maioria da produção de alimentos,
vem da água evaporada do mar;
As atividades humanas tendem a aumentar o índice pluviométrico por
meio da pavimentação da terra, abrindo e represando rios, compactação
dos solos agrícolas e pelo desmatamento, reduzindo a recarga do com-
partimento da água subterrânea (ODUM; BARRETT, 2011).

Questões para reflexão


Você sabe explicar se o ciclo hidrológico é influenciado pelo aque-
cimento global?

Atividades de aprendizagem
O ciclo hidrológico é o movimento da água presente nos oceanos, na
superfície do solo e na atmosfera. Esse movimento é favorecido pela força
da gravidade e pela energia solar. Com base no texto analise as assertivas
abaixo:
I. A gotícula de água no solo pode seguir por dois caminhos, sendo
que o primeiro é a infiltração e o segundo é a percolação.
II. Quando o vapor de água transforma-se diretamente em cristais de
gelo e estes, por aglutinação, atingem tamanho e peso suficientes a
precipitação ocorre na forma de neve ou granizo.
III. O ciclo da água, ou também ciclo hidrológico, está relacionado
ao movimento da água do seu maior reservatório, os oceanos, por
evaporação para a atmosfera e, posteriormente, pela precipitação de
volta para a superfície da Terra.
A química da água 105

IV. A evapotranspiração em áreas florestadas de clima quente e úmido


é responsável por devolver à atmosfera até 1% da precipitação.
É correto o que apenas se afirma em:
a) I e III apenas;
b) I, III e IV;
c) I, II e III apenas;
d) II e III;
e) I apenas.
106 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Seção 2 A química da água


Prezado(a) acadêmico(a), nesta seção vamos estudar sobre o oxigênio na
água, a decomposição de matéria orgânica, a acidez e o dióxido de carbono,
a alcalinidade, complexação e quelação, as interações químicas envolvendo
sólidos, gases e água, assim como os coloides na água. Essas são as principais
interações químicas da água e de fundamental importância para a compreensão
das relações entre água e o meio ambiente. Então vamos lá!

2.1 Introdução à química da água


A química da água estuda a água de rios, lagos, estuários, oceanos, além
das águas subterrâneas e dos fenômenos que determinam a distribuição e a
circulação de espécies químicas em águas naturais, e pressupõe algum enten-
dimento das fontes, do transporte, das características e da composição da água.
As reações químicas que ocorrem na água e as espécies químicas encontra-
das nela estão sob forte influência do ambiente em que a água é encontrada.
A química da água exposta à atmosfera é muito diferente da química da água
no fundo de um lago. Os microrganismos desempenham um papel essencial
na determinação da composição química da água. Portanto, ao discutir a quí-
mica aquática é necessário levar em consideração muitos fatores gerais que a
influenciam (MANAHAN, 2013).
Comparando as condições controladas de um laboratório com a descrição
dos fenômenos químicos nos sistemas de águas naturais, esta última é muito
mais complexa. Eles são muito complexos, e uma descrição de sua química
precisa levar em conta inúmeras variáveis. Eles contêm água, fases minerais,
gasosas e organismos. Na qualidade de sistemas abertos e dinâmicos, as entra-
das e saídas de energia e de massa são variáveis. Portanto, é difícil encontrar
um cenário de equilíbrio verdadeiro, embora um sistema aquático em estado
quase estacionário exista com frequência. Em sua maioria, os metais encontra-
dos em águas naturais não existem como cátions simples hidratados na água, e
os oxiânions são muitas vezes encontrados na forma de espécies polinucleares
(MANAHAN, 2013).
A natureza das espécies químicas na água são fortemente influenciadas
pela ação de organismos como as bactérias ou as algas. Logo, uma descrição
precisa de um sistema de águas naturais com base nas constantes ácido-base,
de solubilidade e de equilíbrio de complexação, no potencial redox, no pH
A química da água 107

e em outros parâmetros químicos é impossível. Portanto, esses sistemas são


descritos de acordo com modelos simplificados, muitas vezes fundamentados
em conceitos de equilíbrio químico. Ainda que não sejam exatos, nem reflitam
a realidade por completo, esses modelos permitem fazer generalizações úteis
e desenvolver noções acerca da natureza dos processos químicos aquáticos,
fornecendo diretrizes para a descrição e mensuração de sistemas de águas na-
turais. Embora simplificados, esses modelos são valiosos na visualização das
condições que determinam espécies químicas e suas reações em águas naturais
e residuárias (MANAHAN, 2013).

2.2 O oxigênio na água


O oxigênio dissolvido (OD) é um fator indispensável para a sobrevivência
de muitos tipos de organismos aquáticos. O oxigênio dissolvido é consumido
pela degradação da matéria orgânica na água e muitas ocorrências de mor-
tandade de peixes se devem não à toxicidade direta dos poluentes, mas à
falta de oxigênio devido ao seu consumo na biodegradação desses poluentes
(MANAHAN, 2013).
A maior parte do oxigênio dissolvido é proveniente da atmosfera, que con-
tém 20,95% do elemento em sua composição por volume de ar seco. Logo, a
capacidade de um corpo hídrico de se reoxigenar ao contato com a atmosfera
é um atributo importante. Sabe-se que o oxigênio é produzido por meio dos
processos fotossintéticos das algas, porém esse processo não é eficiente como
meio de oxigenar a água. Essa ineficiência é explicada pelo fato de o oxigênio
formado pela fotossíntese durante o dia ser perdido à noite, quando as algas
passam a consumi-lo como parte de seu processo metabólico. Quando morrem,
a degradação de sua biomassa também consome oxigênio (MANAHAN, 2013).
A solubilidade do oxigênio na água depende da temperatura da água, da
pressão parcial do oxigênio na atmosfera e da quantidade de sal na água.
É importante fazer uma distinção entre a solubilidade do oxigênio, a concen-
tração máxima de oxigênio, em uma situação de equilíbrio, e a concentração
de OD, que em geral não é a concentração de equilíbrio e é limitada pela taxa
em que o oxigênio se dissolve. A concentração de oxigênio na água a 25 °C
em equilíbrio com o ar na pressão atmosférica é de apenas 8,32 mg L–1. A con-
centração de oxigênio dissolvido em água é pequena e, portanto, deficiente
do ponto de vista ecológico (BAIRD; CANN, 2011). Com isso, a água em
equilíbrio com o ar não tem condições de apresentar um nível alto de oxigênio
108 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

dissolvido. Se processos consumidores de oxigênio estão ocorrendo na água,


o nível de OD pode se aproximar de zero com rapidez, a menos que algum
mecanismo eficiente de aeração esteja em operação, como o fluxo turbulento
em uma corrente de pouca profundidade ou o bombeamento de ar no tanque
de aeração de uma estação de tratamento secundário de esgoto com lodo ati-
vado (MANAHAN, 2013).
A água que é aerada por meio dos cursos de água e rios é constantemente
reabastecida de oxigênio. Contudo, a água parada ou que está próxima do fundo
do lago é quase que completamente deficiente de oxigênio, devido a sua reação
com a matéria orgânica e à falta de qualquer mecanismo que possibilite uma
reposição com rapidez, já que a difusão é um processo lento. A capacidade
da matéria orgânica e biológica em uma amostra de água natural de consumir
oxigênio, processo esse que é catalisado pelas bactérias presentes, é chamado
de demanda bioquímica de oxigênio (DBO) (BAIRD; CANN, 2011).

Para saber mais


Não podemos esquecer de que a DBO é igual à quantidade de oxigênio consumido resul-
tante da oxidação da matéria orgânica consumida por uma amostra de água. Estas reações
de oxidação são catalisadas pela ação de microrganismos presentes na água natural (BAIRD;
CANN, 2011).

A redução dos níveis de oxigênio dissolvido abaixo daqueles que garantem


a vida dos organismos aeróbios requer a degradação de uma quantidade ainda
menor de matéria orgânica em temperaturas mais altas (em que a solubilidade
do oxigênio é menor) ou em água não totalmente saturada com o oxigênio
atmosférico. Outro fator importante é que não existem reações químicas de
reabastecimento do OD ocorrendo corriqueiramente no ambiente aquático, e
com a exceção do oxigênio disponibilizado por meio da fotossíntese, o restante
do gás tem que vir da atmosfera (MANAHAN, 2013).
Outro efeito importante é a influência da temperatura na solubilidade dos
gases na água, principalmente no caso do oxigênio. A solubilidade do oxigênio
na água em equilíbrio com o ar atmosférico diminui de 14,74 mg L–1 a 0°C para
7,03 mg L–1 a 35°C. Em temperaturas mais altas, a solubilidade reduzida do
oxigênio, juntamente com a maior taxa respiratória dos organismos aquáticos,
pode levar a uma condição em que uma demanda maior por oxigênio, acom-
A química da água 109

panhada de menores níveis de solubilidade do gás na água, acarreta uma grave


diminuição nos níveis do gás, podendo comprometer a vida naquele sistema
aquático (MANAHAN, 2013).

2.3 Decomposição de matéria orgânica em água


Estando presentes as bactérias certas, a matéria orgânica dissolvida será
descomposta em água sob condições anaeróbias, ou seja sem a presença do
oxigênio. As condições anaeróbias vão ocorrer naturalmente nas águas paradas
encontradas em pântanos e no fundo dos lagos. A bactéria age sobre o carbono
gerando um processo de perda de proporções, ou seja, parte do carbono é oxi-
dado na forma de dióxido de carbono (CO2) e o restante é reduzido a metano
(CH4) (BAIRD; CANN, 2011).
Essa reação representa um processo muito conhecido, a fermentação, que
é definida como aquela em que ambos os agentes oxidantes e redutores são
materiais orgânicos. O produto dessa reação, o metano, é quase insolúvel em
água, com isso, forma bolhas que podem ser vistas sendo exaladas na superfície
de pântanos e algumas se incendeiam. Na verdade, o metano foi inicialmente
chamado de gás do pântano. A mesma reação química ocorre em biodigestores
usados principalmente por populações rurais para converter resíduos orgânicos
produzidos por animais em gás metano, que pode ser usado como um com-
bustível (BAIRD; CANN, 2011).

Para saber mais


Caro(a) acadêmico(a), é importante salientar que atualmente devido às ações de mitigação dos
gases de efeito estufa, existem muitos projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo que
atuam na eliminação do gás metano (potente gás estufa), utilizando modernos e eficientes
biodigestores.

Uma vez que as condições anaeróbias são quimicamente redutoras, com-


postos insolúveis de Fe3+ (ferro III) que estão presentes em sedimentos no fundo
de lagos são convertidos pela redução em compostos solúveis de Fe2+ (ferro II)
por meio dos elétrons disponíveis.
É muito comum encontrar condições aeróbias e anaeróbias ao mesmo
tempo em diferentes partes de um mesmo lago, principalmente no verão,
quando uma estratificação estável de distintas camadas normalmente ocorre.
110 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

A água na superfície do lago é aquecida pela absorção da luz solar, enquanto


que abaixo do nível de incidência da luz solar permanece fria. Uma vez que a
água aquecida é menos densa que a fria, esta flutua sobre a camada mais fria
que fica abaixo, e pouca transferência térmica ocorre. A superfície da camada,
chamada de epilíminio, normalmente possui um nível de saturação de oxigênio
dissolvido, em virtude do contato com o ar e do oxigênio produzido durante
a fotossíntese das algas (BAIRD; CANN, 2011).

2.4 A acidez e o dióxido de carbono na água


Os fenômenos ácido-base na água envolvem a doação e a recepção do
íon H+. As espécies químicas que atuam como ácidos na água doam o íon H+,
enquanto que as que atuam como bases recebem o H+. A água desempenha
as duas funções. Uma espécie importante na química ácido-base da água é o
íon bicarbonato (HCO3–), que também pode atuar como ácido ou base (MA-
NAHAN, 2013).
Em relação às águas naturais ou residuárias, a acidez é a capacidade de
neutralizar o íon OH–, e a alcalinidade é a capacidade de neutralizar o íon H+.
Praticamente toda fonte de água tem um determinado grau de alcalinidade,
porém, as águas ácidas não são comuns, exceto nos casos de poluição grave.
De modo geral, a acidez é resultado da presença de ácidos fracos, sobretudo
o CO2 mas às vezes é causada por outras substâncias, como H2PO4–, H2S, pro-
teínas e ácidos graxos. Os íons metálicos ácidos como o Fe3+, também podem
contribuir para a acidez da água (MANAHAN, 2013).
São os ácidos fortes os maiores contribuintes da acidez como forma de
poluição da água, aplicando-se o termo ácido mineral livre para ácidos fortes
como o ácido sulfúrico (H2SO4) e o ácido clorídrico (HCI) na água. A drena-
gem ácida de minas é um poluente da água bastante comum e contém uma
concentração apreciável de ácido mineral livre (MANAHAN, 2013).
O caráter ácido de alguns íons metálicos hidratados pode contribuir para
a acidez, que representa a hidrólise do Al3+ hidratado. Alguns resíduos indus-
triais, como o líquido de decapagem de aços utilizados, contêm íons metálicos
ácidos e com frequência um excesso de ácidos fortes. A acidez desses resíduos
precisa ser mensurada no cálculo da quantidade de cal ou de outros produtos
químicos necessários para a sua neutralização (MANAHAN, 2013).
A química da água 111

2.4.1 O dióxido de carbono na água


O dióxido de carbono é o ácido fraco mais importante presente na água, e
pela sua produção a partir da decomposição microbiana da matéria orgânica,
o dióxido de carbono dissolvido está presente em quase todas as águas naturais
e residuárias. A chuva que cai de uma atmosfera totalmente livre de poluentes
tem um ligeiro caráter ácido devido à presença de CO2 dissolvido. A dissolu-
ção do CO2 em água do mar é um mecanismo importante para a redução do
dióxido de carbono da atmosfera, que é o gás estufa que mais contribui para
o aquecimento global (MANAHAN, 2013).

Para saber mais


Algumas propostas foram apresentadas descrevendo o bombeamento do CO2 gerado por
combustão em pontos dos oceanos, para que as águas o removessem da atmosfera há milhares
de anos.

Os produtos da ionização do dióxido de carbono, o íon bicarbonato (HCO3–)


e o íon carbonato (CO32–), possuem grande influência na química aquática.
Muitos minerais se depositam como sais do íon carbonato. As algas utilizam
o CO2 dissolvido para sintetizar o seu alimento, ou seja a biomassa (carboi-
drato). O equilíbrio entre o CO2 dissolvido e o dióxido de carbono gasoso na
atmosfera, e o equilíbrio do íon carbonato (CO32–) entre a solução aquática e
os minerais contendo carbonatos sólidos, exercem forte efeito tampão no pH
da água (MANAHAN, 2013).
Na atmosfera o CO2 compõe apenas 0,039% em volume de ar seco, e de-
vido a esta baixa concentração, a água sem qualquer alcalinidade em equilíbrio
com a atmosfera contém um nível muito baixo de dióxido de carbono. Contudo,
a formação do íon bicarbonato (HCO3–) e do íon carbonato (CO32–) aumenta
muito a solubilidade do dióxido de carbono. As altas concentrações de dióxido
de carbono livre na água comprometem a respiração e a troca de gases dos
animais aquáticos, podendo ocasionar a morte. Assim, a concentração limite
é de 25 mg L–1 em água (MANAHAN, 2013).
Grande parcela do dióxido de carbono encontrado na água é produto da
degradação da matéria orgânica por bactérias. As algas, que utilizam CO2 na
fotossíntese, produzem o dióxido de carbono em seus processos metabólicos
na ausência de luz. Assim, conforme a água vai se infiltrando entre as camadas
112 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

de matéria orgânica em decomposição no solo, ela dissolve uma grande


quantidade de CO2 produzido pela respiração dos organismos nesse meio.
Posteriormente, enquanto atravessa as formações calcárias, a água dissolve o
carbonato de cálcio devido à presença ácida do CO2 dissolvido (KARMANN,
2009; MANAHAN, 2013).

Atividades de aprendizagem
O oxigênio dissolvido é um fator indispensável para a sobrevivência de
muitos tipos de organismos aquáticos. Ele é consumido pela degradação
da matéria orgânica na água e muitas ocorrências de mortandade de peixes
se devem não à toxicidade direta dos poluentes, mas à falta de oxigênio
devido ao seu consumo na biodegradação desses poluentes. Diante do
exposto e considerando os principais tipos de reações químicas:
I. A solubilidade do oxigênio na água depende da temperatura, da
pressão parcial do oxigênio na atmosfera e da quantidade de sal na
água.
II. As condições anaeróbias vão ocorrer naturalmente nas águas paradas
encontradas em pântanos e no fundo dos lagos, onde acontece a
respiração gerando metano.
III. É muito comum encontrar condições aeróbias e anaeróbias ao mesmo
tempo em diferentes partes do mesmo lago, principalmente no verão.
IV. As espécies químicas que atuam como ácidos na água doam o íon
OH–, enquanto que as que atuam como bases recebem o OH–.

Com relação ao exposto, é correto o que afirmam:


a) As assertivas I, II e III apenas;
b) As assertivas I, II, e IV apenas;
c) As assertivas I e II apenas;
d) As assertivas I e IV apenas;
e) As assertivas I e III apenas.
A química da água 113

2.5 A alcalinidade da água


A alcalinidade é definida como sendo a capacidade da água de receber íons
+
H (prótons), tornando-se fundamental no tratamento da água e na química e
biologia de águas naturais. Com frequência, a alcalinidade da água precisa ser
analisada no cálculo das quantidades de produtos químicos adicionados no
tratamento. A alta alcalinidade da água proporciona um pH elevado (acima de
7) e apresenta altos níveis de sólidos dissolvidos. Essas características podem ser
prejudiciais na água usada em aquecedores, no processamento de alimentos e
em sistemas de águas municipais. A alcalinidade atua como tampão de pH e
fonte de carbono inorgânico, o que ajuda a determinar a capacidade da água
de suportar a proliferação de algas e outras formas de vida aquática. Por isso
a alcalinidade é utilizada como indicador de fertilidade da água. As espécies
básicas responsáveis pela alcalinidade da água são os íons bicarbonato, car-
bonato e hidróxido, conforme podemos observar nas reações (R-1), (R-12) e
(R-13) (MANAHAN, 2013).

HCO3– + H+ CO2 +H2O R-1

CO32– + H+ HCO3– R-2

OH– + H+ H2O R-3

Há também outras substâncias que contribuem para a alcalinidade, po-


rém em menor quantidade, como a amônia e as bases conjugadas dos ácidos
fosfórico, silícico, bórico e também ácidos orgânicos (BAIRD; CANN, 2011).

2.6 Complexação e quelação


As propriedades dos metais dissolvidos em água dependem da natureza
das espécies desses metais. Portanto, a especiação de metais desempenha um
papel importante na química ambiental das águas naturais e residuárias. Além
dos íons metálicos hidratados, como o Fe(H2O)63+ e as espécies hidroxo como
FeOH(H2O)52+, os metais podem ocorrer na água ligados aos ânions inorgâ-
nicos e compostos orgânicos em reações reversíveis, na forma de complexos
metálicos. Podemos citar como exemplo o íon cianeto, que pode fazer liga-
ção com o ferro (lI) dissolvido, conforme podemos observar na reação (R-4)
(MANAHAN, 2013).
114 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Fe(H 2O)62+ + CN- FeCN(H 2O)5+ + H2O R-4

Os íons cianeto adicionais irão se ligar como o ferro para formar Fe(CN)2,
Fe(CN)3–, Fe(CN)42–, Fe(CN)53– e Fe(CN)64–. As moléculas de água ainda ligadas
ao ferro (lI) foram omitidas para simplificar o entendimento. Portanto, a com-
plexação é definida pelos processos demonstrados. A espécie que se liga ao
íon metálico, CN-, no exemplo dado, é chamada de ligante, e o produto de
sua ligação ao íon metálico é um complexo, íon complexo, ou composto de
coordenação (MANAHAN, 2013).
Já os casos especiais de complexação em que um ligante se liga a um íon
metálico em dois ou mais sítios damos o nome de quelação. Além de estarem
presentes como complexos metálicos, os metais podem ocorrer na água na
forma de compostos organometálicos contendo ligações entre o carbono e o
metal, como no caso do metilmercúrio (BAIRD; CANN, 2011). As solubilidades,
as propriedades de transporte e os efeitos biológicos dessas espécies são muitas
vezes diferentes daqueles dos íons metálicos (MANAHAN, 2013).

2.7 Interações químicas envolvendo sólidos, gases e


água
São raras as reações químicas homogêneas que ocorrem integralmente em
solução aquosa em águas naturais e residuárias. A maior parte dos fenômenos
químicos e bioquímicos significativos no ambiente aquático envolve as inte-
rações entre espécies presentes na água com aquelas presentes em outra fase,
como a atmosfera e a litosfera (MANAHAN, 2013).
Ao lado do ferro, muitos elementos-traço importante são transportados em
sistemas aquáticos na forma de compostos químicos coloidais ou são sorvidos
por partículas sólidas. Hidrocarbonetos poluentes e alguns pesticidas podem
estar presentes na superfície da água como uma película líquida imiscível, e se-
dimentos podem ser fisicamente lixiviados para o interior de um corpo hídrico.
Além da água propriamente dita, as outras fases são divididas em sedimentos
(sólidos grosseiros) e material coloidal suspenso (MANAHAN, 2013).

2.8 Coloides na água


Alguns minerais, determinados poluentes aquáticos, materiais proteináceos,
algumas algas e bactérias estão em suspensão na água como partículas muito
A química da água 115

pequenas, e estas são classificadas como partículas coloidais. Elas apresentam as


características de bactérias e algas quando em solução, e comportam-se como
partículas grandes em suspensão. Têm diâmetro entre cerca de 0,001 (µm) e
perto de 1 µm, e espalham luz branca na forma de luz azul, como observado
em ângulos retos à incidência da luz (MANAHAN, 2013).
O espalhamento da luz, propriedade esta, relativa ao fenômeno apresentado
pelos coloides por terem a mesma magnitude de tamanho que o comprimento
de onda da luz, no que é chamado efeito Tyndall. As propriedades únicas dos
coloides e o comportamento de suas partículas sofrem forte influência de suas
características físico-químicas, como a área específica, a alta energia de inter-
face e a grande razão superfície-densidade de carga. Os coloides desempenham
um papel muito importante na determinação dos parâmetros e do comporta-
mento de águas naturais e residuárias (MANAHAN, 2013).

Atividades de aprendizagem
A água pode apresentar misturas em que as partículas dispersas têm um
diâmetro compreendido entre 1 nanômetro e 1 micrômetro, onde essas
partículas podem ser átomos, íons ou moléculas. Geralmente podem ser
considerados poluentes dos corpos aquáticos. Com base no texto, como são
classificados esses tipos de substâncias? Assinale a alternativa CORRETA.
a) Complexos.
b) Coloides.
c) Quelatos.
d) Compostos alcalinos.
e) Quirais.

Questões para reflexão


Você sabe o que acontece com um lago se este tiver os índices de
oxigênio dissolvido reduzidos devido à ação antrópica?
116 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Seção 3 Poluição e tratamento das águas


Prezado(a) acadêmico(a), nesta seção vamos estudar sobre a natureza e os
tipos de poluentes da água e os indicadores físicos, químicos e biológicos da
poluição da água. Também estudaremos os metais pesados, como por exem-
plo o cádmio, o chumbo e o mercúrio, assim como os poluentes orgânicos e
os processos de bioacumulação e biomagnificação. Para finalizar os estudos
faremos uma abordagem sobre o processo de tratamento das águas.

3.1 Natureza e tipos de poluentes da água


A poluição da água é a alteração de suas características por quaisquer ações
ou interferências, tanto de origem natural ou antropogênica. Essas alterações
podem produzir impactos estéticos, fisiológicos ou ecológicos. Ao longo do
tempo, o conceito de poluição da água tem-se tornado cada vez mais amplo
em função de maiores exigências com relação à conservação e ao uso racional
dos recursos hídricos (BRAGA et al., 2005).
As emissões de poluentes para a atmosfera, a litosfera e a hidrosfera estão
sempre aumentando devido aos processos naturais e principalmente pelas
atividades humanas, em particular das indústrias que sempre impactam o
meio ambiente. Mesmo que sejam feitos esforços para reduzir o impacto ao
ambiente decorrentes das atividades humanas, é praticamente impossível evitar
contaminações ambientais (MACÊDO, 2002; THOMAS; CALLAN, 2010). Essa
contaminação irá ocorrer quando alguma substância estranha ao meio está
presente. Portanto, a poluição é a alteração de alguma qualidade ambiental a
qual a comunidade exposta é incapaz de neutralizar os efeitos negativos, tendo
algum tipo de risco identificado (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
Mesmo assim, nem todos os problemas relacionados com a qualidade da
água estão relacionados aos impactos causados pela atividade humana. Como
exemplo podemos citar os metais presentes na litosfera que podem ciclar no
ambiente tanto como resultado de atividade geológica quanto da atividade
humana. Determinados processos geológicos, como a ação vulcânica, as ati-
vidades hidrotermais e longos períodos chuvosos, também são responsáveis
por contaminação local (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
As matérias-primas utilizadas nas atividades humanas, tanto no uso domés-
tico diário, como nos processos industriais geram resíduos. Geralmente esses
resíduos têm três diferentes destinos:
A química da água 117

Lançamento na atmosfera, quando é possível;


Lançamento nos corpos hídricos mais próximos, por ser mais cômodo e
mais barato e, na maioria das vezes é um recurso hídrico utilizado como
fonte de água para abastecimento público;
Depositados em determinada área, previamente escolhida, um aterro
sanitário ou industrial (MACÊDO, 2002).
Podemos classificar as fontes de poluição hídricas em:
Fontes pontuais: redes de efluentes domésticos e industriais, derrama-
mentos acidentais, atividades de mineração, entre outros;
Fontes não pontuais: práticas agrícolas, deposições atmosféricas, trabalhos
de construção, enxurradas em solos, entre outros;
Fontes lineares: enxurradas em autoestradas (ROCHA; ROSA; CARDOSO,
2009).
As características das fontes de poluentes podem variar desde pontos bem
definidos que podem ser simples ou múltiplos ou emissões difusas originadas
de pequenos pontos múltiplos, como exaustores de gases (indústrias, residên-
cias) ou escoamento de rodovias. Já as fontes pontuais e não pontuais também
diferem nas rotas pelas quais os poluentes emitidos aportam nos mananciais. As
fontes pontuais geralmente resultam em descargas diretas para os corpos d’água,
enquanto as fontes não pontuais podem ter rotas resultando em deposições
parciais dos poluentes antes de atingirem os mananciais. Assim, a concentra-
ção de contaminantes originários de fontes não pontuais pode variar de forma
significativa, espacial e temporalmente (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
As emissões contínuas de poluentes são caracterizadas por serem pratica-
mente constantes por um longo período, como no caso dos efluentes de estações
de tratamento e descargas de processos de produção continuados. As emissões
descontínuas caracterizam-se por variações no volume e na concentração e
podem ser de picos ou de blocos. As emissões de picos são caracterizadas
por grandes descargas em pouco tempo, e a altura do pico (concentração das
espécies) pode variar muito. Já as emissões de bloco são caracterizadas por
fluxo relativamente constante por determinados períodos, mas com intervalos
regulares de emissões praticamente zero. A quantidade exata das diferentes
fontes por meio das quais os poluentes podem atingir os sistemas aquáticos é
muito grande, mas, por simplicidade e conveniência, elas podem ser separadas
em duas categorias, ou seja, urbanização/industrialização e agricultura/florestas
(ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
118 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Alguns autores como Derisio (2012), classificam a poluição das águas por
quatro tipos de fontes:
Poluição natural: poluição não associada à atividade humana, ou seja,
causada por chuvas e escoamento superficial, salinização, decomposição
de vegetais e animais mortos;
Poluição industrial: constitui-se de resíduos gerados nos processos indus-
triais. Quase sempre é o fator mais significativo em termos de poluição
tendo como principais indústrias poluidoras a de papel e celulose, refi-
narias de petróleo, usinas de açúcar e etanol; siderúrgicas e metalúrgicas,
químicas e farmacêuticas, abatedouros e frigoríficos, têxteis e curtumes;
Poluição urbana: proveniente dos habitantes de uma cidade, que geram
esgotos domésticos lançados direta ou indiretamente nos corpos d’água;
Poluição agropastoril: poluição decorrente de atividades ligadas à agri-
cultura e à pecuária por meio de defensivos agrícolas, fertilizantes, ex-
crementos de animais e erosão.
Além desses quatro tipos de fontes de poluição, ainda existe a poluição
acidental, decorrente de derramamentos de materiais prejudiciais à qualidade
das águas. A poluição, em caso de acidentes, pode ocorrer tanto na fase de
produção como nas operações de transportes. Neste caso, as ações de con-
trole são de emergência, mas é imprescindível uma preparação baseada na
experiência existente, aliada a medidas de caráter preventivo (DERISIO, 2012).

3.2 Indicadores de poluição da água


A água pura na natureza não é existente, a não ser as moléculas de água
presentes na atmosfera na forma de vapor. Assim que ocorre a condensação,
começam a ser dissolvidas na água várias substâncias que estão no mesmo
espaço, como por exemplo os gases atmosféricos. Portanto, são necessários
indicadores físicos, químicos e biológicos para caracterizar a qualidade da
água. Dependendo das substâncias presentes na atmosfera, do tipo do ter-
reno, da vegetação e de outros fatores intervenientes, as principais variáveis
que caracterizam a qualidade da água apresentarão valores diferentes. Assim,
espera-se que a água da chuva em locais próximos ao oceano apresente maior
concentração de cloreto de sódio. Rios que atravessam regiões de floresta densa
devem apresentar coloração mais escura do que rios que atravessam regiões
desérticas, em razão do teor de matéria orgânica na água (BRAGA et al., 2005).
A química da água 119

As variáveis físicas são medidas em escalas próprias, as variáveis químicas


são usualmente dadas em concentração (mg/L ou ppm) e as variáveis bioló-
gicas, pela indicação da densidade populacional do organismo de interesse
(BRAGA et al., 2005).

3.2.1 Indicadores físicos


Segundo Braga et al. (2005) e Macêdo (2002) nas características físicas são
determinadas a cor, a turbidez, o sabor e o odor, conforme segue:
Cor: é uma característica derivada da existência de substâncias em solu-
ção, sendo essas, na grande maioria dos casos, de natureza orgânica;
Turbidez: é a propriedade de desviar raios luminosos, e assim, é decorrente
da presença de materiais em suspensão na água, finamente divididos ou
em estado coloidal, e de organismos microscópicos;
Sabor e odor: são associados à presença de poluentes industriais ou
outras substâncias indesejáveis, como matéria orgânica em decomposi-
ção, algas, entre outras.
Certas características físicas podem prejudicar alguns usos da água, como
por exemplo, a cor e a turbidez elevadas podem tornar a água imprópria ao
consumo humano pelo aspecto estético ou por manchar roupas e aparelhos sa-
nitários. A cor também pode tornar o líquido inadequado para uso em indústrias
de produção de bebidas e de outros alimentos. A turbidez acentuada em águas
naturais impede a penetração dos raios solares, prejudicando a fotossíntese,
causando problemas ecológicos para o meio aquático (BRAGA et al., 2005).

3.2.2 Indicadores químicos


As características químicas da água ocorrem devido à presença de subs-
tâncias dissolvidas e geralmente mensuráveis apenas por meio de análises
químicas. Segundo Braga et al. (2005) dentre as características químicas da
água, destacam-se:
Salinidade: conjunto de sais normalmente dissolvidos na água, formado
pelos bicarbonatos, cloretos, sulfatos e outros sais. O teor de cloreto pode
indicar poluição por esgotos domésticos;
Dureza: caracteriza a presença de sais de metais alcalino-terrosos (cálcio,
magnésio, entre outros) e alguns metais em menor intensidade. A dureza é
caracterizada pela extinção da espuma formada pelo sabão, dificultando
120 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

o banho e a lavagem de utensílios domésticos e roupas. As águas duras,


podem incrustar as tubulações de água quente, radiadores de automóveis,
hidrômetros, caldeiras, entre outros;
Alcalinidade: ocorre em razão da presença de bicarbonatos, carbonatos
e hidróxidos, quase sempre de metais alcalinos ou alcalino-terrosos. A
alcalinidade influencia o tratamento da água para consumo doméstico;
Corrosividade: a tendência da água de corroer os metais pode ser devida
à presença de ácidos minerais ou pela existência em solução de oxigê-
nio, gás carbônico e gás sulfídrico. O oxigênio é fator de corrosão dos
produtos ferrosos, o gás sulfídrico, dos não ferrosos e o gás carbônico,
dos materiais à base de cimento;
Ferro e manganês: o ferro, com certa frequência associado ao manganês,
confere à água sabor, ou melhor, sensação de adstringência e coloração
avermelhada, decorrente de sua precipitação. As águas ferruginosas
mancham as roupas durante a lavagem, os aparelhos sanitários e podem
ficar depositadas nas tubulações;
Compostos tóxicos: alguns elementos ou compostos químicos, quando
presentes na água, fazem com que ela fique tóxica, como o cobre, o
zinco, o chumbo, os cianetos, o cromo hexavalente, o cádmio, o arsênio,
o selênio, a prata, o mercúrio, o bário. Essas impurezas podem alcançar
a água a partir de efluentes industriais, drenagem de áreas agrícolas ou
atividades de mineração;
Fenóis: são tóxicos e seus compostos existentes em resíduos industriais
causam problemas em sistemas de tratamento da água, pois combinam-se
com o cloro para produzir odor e sabor desagradáveis;
Detergentes: principalmente os que não são biodegradáveis, causam
sabor desagradável, formação de espuma em águas agitadas, problemas
em estações de tratamento de água e esgoto em virtude da espuma e da
toxicidade, quando em teores mais elevados;
Agrotóxicos: são substâncias químicas usadas no combate às pragas, tais
como inseticidas, raticidas, herbicidas, fungicidas e formicidas. Esses
produtos são tóxicos ao homem, aos peixes e a outros animais quando
em concentrações mais elevadas do que aquelas consideradas críticas.
A química da água 121

3.2.3 Indicadores biológicos


Ao realizar suas atividades biológicas de nutrição, respiração e excreção na
água, os microrganismos aquáticos provocam modificações de caráter químico
e ecológico no próprio ambiente aquático. Já os microrganismos patogênicos
que são introduzidos na água junto com matéria fecal, normalmente não se
alimentam nem se reproduzem no meio aquático, tendo caráter transitório
nesse ambiente. Entre os organismos que podem ser encontrados na água,
destacam-se:
Algas: podem acarretar problemas relacionados à formação de grande
volume de massa orgânica, levando à produção de quantidade excessiva
de lodo e à liberação de vários compostos orgânicos, que podem ser
tóxicos ou produzir sabor e odor desagradáveis. O desenvolvimento de
camadas de algas nas superfícies de reservatórios podem causar turbidez,
dificultando a penetração da luz solar, com a consequente redução do
oxigênio do meio, o entupimento de filtros de areia em estações de trata-
mento da água, o ataque às paredes de reservatórios de águas e piscinas
e a corrosão de estruturas de ferro e de concreto.
Microrganismos patogênicos: são introduzidos na água junto com matéria
fecal de esgotos sanitários. Podem ser de vários tipos, como as bactérias,
vírus e protozoários. Eles não são residentes naturais do meio aquático,
tendo origem, principalmente, nos dejetos de pessoas doentes. Assim,
eles têm sobrevivência limitada na água, podendo, no entanto, alcançar
o ser humano por meio da ingestão ou contato com a água, causando-lhe
doenças (BRAGA et al., 2005).

Atividades de aprendizagem
O Índice de Qualidade das Águas (IQA) foi desenvolvido na década de 70
pela National Sanitation Foundation (Estados Unidos). Foi a partir de 1975
que a CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) começou
a utilizar o mesmo índice com o objetivo de avaliar a qualidade da água
bruta visando seu uso para o abastecimento público, após o tratamento.
Portanto, quais são os principais indicadores físicos da qualidade da água?
Assinale a alternativa CORRETA.
122 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

a) Cor, odor, alcalinidade e acidez.


b) Salinidade, dureza e odor.
c) Sabor, odor, cor e turbidez.
d) Alcalinidade, sabor e odor.
e) Temperatura, sabor, cor e turbidez.

3.3 Os metais
Os metais pesados são elementos químicos que na maioria dos casos são
extremamente tóxicos para os seres humanos. Eles estão situados na Tabela
Periódica, perto da parte inferior, logo, apresentam densidades altas em com-
paração com outros elementos (BAIRD; CANN, 2011).
Embora o vapor de mercúrio seja muito tóxico, os metais pesados, mercúrio
(Hg), chumbo (Pb) e cádmio (Cd), nas suas formas de elementos livres con-
densados, não são tóxicos. Porém, quando estão na forma catiônica e também
quando ligados à cadeias curtas de átomos de carbono são muito perigosos. Do
ponto de vista bioquímico, o mecanismo de sua ação tóxica deriva da forte afi-
nidade dos cátions pelo enxofre. Assim, os grupos sulfidrila, (-SH), que ocorrem
comumente nas enzimas que controlam a velocidade de reações metabólicas
de importância crítica no corpo humano, ligam-se rapidamente aos cátions de
metais pesados ingeridos ou a moléculas contendo tais metais. Pelo fato de a
ligação resultante metal-enxofre afetar a enzima como um todo, ela não pode
atuar com normalidade, e, em consequência, gera problemas de saúde que
muitas vezes se tornam fatais (BAIRD; CANN, 2011).

3.3.1 Cádmio
O cádmio é um elemento químico poluente da água, que tem origem
nos resíduos de mineração e despejos industriais, sobretudo do processo de
metalização. Quimicamente, o cádmio é muito semelhante ao zinco, e esses
dois metais muitas vezes passam pelos mesmos processos juntos. Ambos são
encontrados na água no estado de oxidação (2+) (MANAHAN, 2013).
Nos seres humanos, os efeitos do envenenamento agudo por cádmio causa
hipertensão arterial, dano renal, dano ao tecido testicular e destruição dos
glóbulos vermelhos. A ação fisiológica do cádmio se deve principalmente
A química da água 123

à semelhança química que tem com o zinco, onde o substitui em algumas


enzimas, alterando a sua estereoestrutura e consequentemente reduzindo sua
atividade, causando doenças (MANAHAN, 2013).
O cádmio e o zinco são poluentes comuns na água e nos sedimentos em
portos de áreas industriais. As concentrações acima de 100 ppm em peso
seco de sedimento foram encontradas em sedimentos coletados nessas áreas
(MANAHAN, 2013).

3.3.2 Chumbo
O chumbo inorgânico é proveniente de diversas fontes industriais e de mi-
neração, da gasolina, e ocorre na água com estado de oxidação (2+). Além das
fontes poluidoras, o calcário contendo chumbo e a galena (PbS) contribuem
para os teores de chumbo em águas naturais, em alguns locais. Amostras de
cabelo humano e outras fontes indicam que a presença desse metal tóxico no
corpo humano caiu nas últimas décadas, sobretudo como resultado da dimi-
nuição no uso de chumbo em tubulações e outros produtos em contato com
alimentos e bebidas (MANAHAN, 2013).
Nos humanos o envenenamento agudo por chumbo causa nefropatias
graves, afetando também o fígado, o sistema reprodutor, o cérebro e o sistema
nervoso central, resultando em doenças e morte. Sabe-se que o envenenamento
por chumbo pela exposição ambiental foi o agente de retardo mental em muitas
crianças. O envenenamento moderado por chumbo também causa anemia. A
vítima pode ter dores de cabeça e musculares, além de sentir cansaço e irri-
tabilidade. Exceto em casos isolados, o chumbo não causa problemas graves
quando presente na água para consumo humano, embora essa probabilidade
seja real onde tubulações de chumbo continuem em uso (MANAHAN, 2013).

3.3.3 Mercúrio
Devido a sua toxicidade, a mobilização de formas metiladas por bactérias
anaeróbias e outros fatores relativos à poluição, o potencial poluente do mer-
cúrio gera muitas preocupações. É um metal encontrado como componente-
-traço de diversos minerais, e seu teor em rochas continentais está, em média,
perto de 80 partes por bilhão ou um pouco menos. Combustíveis fósseis, como
carvão e lignita, contêm mercúrio, muitas vezes em níveis perto de 100 partes
por bilhão ou até mais, e sua combustão representa uma das maiores fontes
do elemento no ambiente (MANAHAN, 2013).
124 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Foi utilizado frequentemente o mercúrio metálico como eletrodo na geração


eletrolítica do gás cloro, em aparelhos de vácuo empregados em laboratório
e outras aplicações. Quantidades expressivas de compostos de mercúrio inor-
gânico eram consumidas a cada ano. Os compostos orgânicos do elemento
eram muito utilizados como pesticidas, sobretudo fungicidas. Esses compostos
de mercúrio incluíam arilas mercúricas, como o dimetilditiocarbamato, fenil
mercúrico, e compostos alquil-mercúricos, como o cloreto de etilmercúrico,
utilizado como fungicida de sementes (MANAHAN, 2013).
Entre os efeitos toxicológicos do mercúrio estão os danos cerebrais, que
incluem irritabilidade, paralisia, cegueira ou insanidade, além de quebra cro-
mossômica e defeitos de nascença. Os sintomas mais moderados da intoxicação
por mercúrio, como depressão e irritabilidade, são de natureza psicopatológica.
Devido à semelhança desses sintomas com problemas comportamentais co-
muns, esse nível de intoxicação nem sempre é detectado. Algumas formas de
mercúrio são relativamente atóxicas e no passado eram utilizadas como medi-
camento no tratamento da sífilis, por exemplo. Outros compostos de mercúrio,
sobretudo os orgânicos, são muito tóxicos (MANAHAN, 2013).

Para saber mais


Além dos metais pesados apresentados acima, existem outros importantes como o cromo (Cr),
arsênio (As), cobalto (Co), cobre (Cu), manganês (Mn), molibdênio (Mo), vanádio (V), estrôncio
(Sr) e zinco (Zn).

Atividades de aprendizagem
Existem diversas pesquisas realizadas na Amazônia abordando a contami-
nação da população ribeirinha por mercúrio, e os resultados quase sempre
estão acima do teor considerado normal. Com base na poluição das águas
por metais pesados, quais dos elementos químicos abaixo são considerados
metais pesados? Assinale a alternativa CORRETA.
a) Bromo, chumbo e ferro. d) Zinco, chumbo e cádmio.
b) Cádmio, flúor e magnésio. e) Cloreto, sódio e potássio.
c) Mercúrio, chumbo e
nitrogênio.
A química da água 125

3.4 Poluentes orgânicos

3.4.1 Bioacumulação
Muitos compostos organoclorados encontram-se nos tecidos de peixes em
concentrações que são de ordens de grandeza maiores que as encontradas nas
águas em que vivem. As substâncias hidrofóbicas, como o DDT, são particular-
mente propensas em exibir esse fenômeno (BAIRD; CANN, 2011).
Muitos organoclorados são mais solúveis em meios similares a hidrocarbo-
netos, como o tecido gorduroso de peixes, do que em água. Assim, quando a
água passa por meio das brânquias do peixe, os compostos difundem de forma
seletiva desde a água até a carne gordurosa, tornando-se aí mais concentrados.
Esse processo é chamado de bioacumulação (BAIRD; CANN, 2011).

3.4.2 Biomagnificação
Os peixes também acumulam produtos químicos orgânicos procedentes
de sua alimentação e da ingestão de material particulado da água e de sedi-
mentos sobre os quais os produtos químicos encontram-se adsorvidos (BAIRD;
CANN, 2011).
Em muitos desses casos, tais produtos não são metabolizados pelo peixe,
porém, as substâncias simplesmente acumulam-se nos tecidos adiposos, nos
quais sua concentração aumenta com o tempo. Por exemplo, a concentração
de DDT nas trutas do Lago Ontário aumenta quase linearmente com a idade
do peixe, conforme verificado na figura 3.3 (BAIRD; CANN, 2011).

Figura 3.3 Variação da concentração de ddt


com a idade de trutas do lago ontário

Fonte: Adaptada de Baird e Cann (2011, p. 449).


126 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

A concentração média de muitos produtos químicos aumenta também de


forma significativa à medida que se avança na cadeia alimentar, a qual consiste
em uma sequência de espécies nas quais cada uma alimenta-se de uma espécie
precedente na cadeia. A teia alimentar inclui cadeias alimentares interligadas,
conforme verificado na Figura 3.4 (BAIRD; CANN, 2011).

Figura 3.4 Esquema básico do processo de biomagnificação

Águia-calva

Humanos

6 μg/g

Cormorões Gaivota
Salmão/Truta de lagos
1 μg/g
Peixe para alimentação
Peixe- Peixe
escorpião Carpa esperlano
Arenque Tartaruga
0,4 μg/g mordedora

0,01
μg/g

Invertebrados Plâncton
Ave aquática

Nutrientes
minerais
Animais
e plantas Vegetação
Bactérias e fungos mortos

Fonte: Adaptada de Baird e Cann (2011, p. 450).

Durante sua vida, um peixe come muitas vezes seu peso em comida dos ní-
veis inferiores da cadeia alimentar, mas retém em vez de eliminar a maioria dos
produtos organoclorados procedentes desses alimentos. Um produto químico
cuja concentração aumenta ao longo de uma cadeia alimentar chama-se de
biomagnificado. Essencialmente, a biomagnificação resulta de uma sequência
de etapas de bioacumulação que ocorrem ao longo da cadeia (BAIRD; CANN,
2011).
A química da água 127

3.5 Processo de tratamento das águas


As mais importantes fontes de matéria orgânica para águas de superfície são
os efluentes domésticos e industriais. Vários são os processos disponíveis para
tratamento de efluentes, dependendo da natureza e da característica do efluente
final. Em uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE), as principais etapas
são a floculação, sedimentação e tratamento biológico (Figura 3.5). As ETE’s
possuem níveis de tratamentos primários, secundários e terciários, e o número
de estágios depende do custo financeiro, do tipo de efluente de entrada e da
qualidade desejada para o efluente final (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).

Figura 3.5 Esquema de uma estação de tratamento de efluentes

Fonte: Adaptada de Rocha, Rosa e Cardoso (2009, p. 57).

O tratamento primário remove sólidos sedimentáveis em suspensão, óleos,


graxas e parte da matéria orgânica em suspensão. Nessa etapa, aproximadamente
128 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

30% da DBO da água é removida. No tratamento secundário, ocorre a remoção


da matéria orgânica dissolvida e em suspensão (não removida no tratamento
primário). Esse tratamento é caracterizado pela oxidação da matéria orgânica
por microrganismos, reduzindo a DBO a aproximadamente 10% da concentra-
ção do efluente não tratado. O precipitado gerado nas etapas dos tratamentos
primário e secundário é denominado lodo e seu destino final pode ser a inci-
neração, aterro sanitário, ou simplesmente a liberação em corpos d’água. O
tratamento terciário tem por objetivo a remoção de poluentes específicos e/ou
remoção complementar daqueles não suficientemente removidos no tratamento
secundário como, por exemplo, compostos orgânicos dissolvidos, fosfatos,
metais potencialmente tóxicos, dentre outros. A remoção de compostos orgâ-
nicos dissolvidos pode ser feita com o uso de carvão ativado. Compostos orgâni-
cos dissolvidos, como tri-halometanos (por exemplo, clorofórmio), dicloroeteno
e pesticidas (por exemplo, dieldrin, heptaclor), são adsorvidos na superfície do
carvão vegetal. As espécies metálicas potencialmente tóxicas podem ser removi-
das por técnicas, como, por exemplo, a osmose reversa. Além da osmose reversa,
outra alternativa é a adição de íons, hidróxido ou sulfeto, para formar hidróxidos
ou sulfetos metálicos pouco solúveis (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).

Questões para reflexão


Prezado(a) acadêmico(a), baseado em seus conhecimentos adquiridos
por meio do estudo realizado, você sabe qual, dentre os processos de
bioacumulação e biomagnificação, é mais prejudicial para os seres vivos?

Fique ligado!
Nesta unidade você aprendeu que:
Do total de água no planeta, 97% é representada pelos oceanos e
mares, sendo inviável para consumo e/ou para utilizar na agricultura.
Para os seres humanos a água doce tem importância vital na ma-
nutenção da vida, e as águas dos oceanos têm um papel vital na
manutenção da vida no planeta Terra como um todo.
A química da água 129

A origem da primeira água na história da Terra está relacionada com


a formação da atmosfera, ou seja, a degaseificação do planeta.
A água possui diversas propriedades exclusivas como o caráter po-
lar, a tendência de formar pontes de hidrogênio e a capacidade de
hidratar íons metálicos.
A água tem a capacidade de formar pontes de hidrogênio, ou seja, a
ligação entre o hidrogênio de uma molécula de água com o oxigênio
de outra molécula de água.
Estas ligações de hidrogênio também proporcionam à água líquida
o elevado calor específico (ou capacidade calorífica específica).
No verão, o calor é armazenado nos oceanos e, durante o inverno,
parte desse calor é transferido de volta para a atmosfera, amenizando
a temperatura do ar.
O ciclo da água, ou também ciclo hidrológico, está relacionado
ao movimento da água do seu maior reservatório, os oceanos, por
evaporação para a atmosfera (menor reservatório) e, posteriormente,
pela precipitação (chuva) de volta para a superfície da Terra.
A evapotranspiração em áreas florestadas de clima quente e úmido
é responsável por devolver à atmosfera até 70% da precipitação.
A maior parte da água da atmosfera tem origem no próprio ciclo
hidrológico, ou seja, é a energia solar que evapora a água da super-
fície dos corpos d’água ou da biota mediante a evapotranspiração,
e libera o vapor de água para a atmosfera.
A química da água estuda a água de rios, lagos, estuários, oceanos,
além das águas subterrâneas e dos fenômenos que determinam a
distribuição e a circulação de espécies químicas em águas naturais,
e pressupõe algum entendimento das fontes, do transporte, das ca-
racterísticas e da composição da água.
A natureza das espécies químicas na água são fortemente influen-
ciadas pela ação de organismos como as bactérias ou as algas.
O oxigênio dissolvido é um fator indispensável para a sobrevivência
de muitos tipos de organismos aquáticos.
A solubilidade do oxigênio na água depende da temperatura dela, da
pressão parcial do oxigênio na atmosfera e do conteúdo de sal na água.
130 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

A matéria orgânica dissolvida pode ser decomposta em água sob


condições anaeróbias, ou seja sem a presença do oxigênio e na
presença de bactérias específicas.
Os fenômenos ácido-base na água envolvem a doação e a recepção
do íon H+.
O dióxido de carbono é o ácido fraco mais importante presente na
água, e pela sua produção a partir da decomposição microbiana da
matéria orgânica, o dióxido de carbono dissolvido está presente em
quase todas as águas naturais e residuárias.
Grande parcela do dióxido de carbono encontrado na água é produto
da degradação da matéria orgânica por bactérias.
A alcalinidade é definida como sendo a capacidade da água de
receber íons H+ (prótons), tornando-se fundamental no tratamento
da água e na química e biologia de águas naturais.
A maior parte dos fenômenos químicos e bioquímicos significativos
no ambiente aquático envolve as interações entre espécies presentes
na água com aquelas presentes em outra fase, como a atmosfera e
a litosfera.
A poluição da água é a alteração de suas características por quaisquer
ações ou interferências, tanto de origem natural ou antropogênica.
As emissões de poluentes para a atmosfera, a litosfera e a hidrosfera
estão sempre aumentando devido aos processos naturais e princi-
palmente pelas atividades humanas, em particular das indústrias que
sempre impactam o meio ambiente.
As emissões contínuas de poluentes são caracterizadas por serem
praticamente constantes por um longo período, como no caso dos
efluentes de estações de tratamento e descargas de processos de
produção continuados.
São necessários indicadores físicos, químicos e biológicos para ca-
racterizar a qualidade da água.
Ao realizar suas atividades biológicas de nutrição, respiração e excre-
ção na água, os microrganismos aquáticos provocam modificações
de caráter químico e ecológico no próprio ambiente aquático.
Os metais pesados são elementos químicos que na maioria dos casos
são extremamente tóxicos para os seres humanos.
A química da água 131

E na grande maioria dos casos, os metais pesados são transportados


de um lugar para outro por via aérea, seja como gases ou como es-
pécies adsorvidas sobre ou absorvidas em material particulado em
suspensão.
A bioacumulação é o acúmulo de substâncias orgânicas no organismo.
Vários são os processos disponíveis para tratamento de efluentes,
dependendo da natureza e da característica do efluente final, sendo
que as principais etapas são a floculação, sedimentação e tratamento
biológico.

Para concluir o estudo da unidade


Caros (as) acadêmicos (as), ao concluir os estudos apresentados, poderá
surgir interesse em aprofundar os temas. Assim, seguem alguns livros para
aprofundamento nos assuntos estudados:
ROCHA, J. C.; ROSA, A. H.; CARDOSO, A. A. Introdução à Química
Ambiental. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2009.
PHILIPPI JR., A. (Ed.) Saneamento, saúde e ambiente: fundamentos
para um mundo sustentável. Barueri: Manole, 2005.

Atividades de aprendizagem da unidade


Para fixar melhor o conteúdo estudado, vamos exercitar um pouco.
Leia as questões a seguir e responda-as em seu Caderno de Estudos.
Bom trabalho!
1. Nas áreas habitadas e exploradas pelo ser humano a qualidade da
água está sujeita ao uso e ocupação do solo. A presença do homem
gera despejos domésticos e de processos produtivos. Mesmo que a
ocupação seja em áreas rurais, essas impurezas estarão presentes. Nas
áreas agrícolas a qualidade natural da água pode ser perigosamente
alterada pela incorporação de pesticidas que atingem o solo e são
transportados pelo escoamento superficial. Diante do expostos analise
as assertivas abaixo:
132 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

I. O tratamento primário da água remove sólidos sedimentáveis em


suspensão, óleos, graxas e parte da matéria orgânica em suspensão.
II. O tratamento secundário remove os pesticidas, resíduos de metais
pesados e de remédios.
III. A remoção dos compostos orgânicos dissolvidos pode ser feita
com o uso de carvão ativado.
IV. As espécies metálicas potencialmente tóxicas são removidas por
meio da osmose reversa.
Estão corretas:
a) As assertivas I, III e IV apenas;
b) As assertivas III e IV apenas;
c) As assertivas I e II apenas;
d) As assertivas II e IV apenas;
e) A assertiva II apenas.
2. No ciclo hidrológico parte da precipitação retorna para a atmosfera
por meio da evaporação direta durante seu percurso em direção à
superfície terrestre. Este volume evaporado soma-se ao vapor de água
formado sobre o solo e ao vapor de água liberado pelas atividade
biológica dos organismos, principalmente pelas plantas, no processo
da respiração. Qual é o nome dado a este processo presente no ciclo
hidrológico? Assinale a alternativa CORRETA.
a) Albedo.
b) Evapotranspiração.
c) Ciclização.
d) Condensação.
e) Evaporação.
3. Um dos problemas crescentes deste século é a contaminação da água.
Este recurso essencial à vida vem sendo poluído de tal maneira que
já não se pode consumi-lo em seu estado natural. O que acontece é
que as pessoas utilizam a água não apenas para beber, mas também
para se desfazer de todo tipo de material e sujeira. Com base nos
indicadores químicos da água avalie:
A química da água 133

I. A dureza caracteriza a presença de metais pesados e alguns metais


em menor quantidade.
II. A alcalinidade ocorre em razão da presença de bicarbonatos,
carbonatos e hidróxidos.
III. A corrosividade é a tendência da água em corroer os metais
pela existência em solução de oxigênio, gás carbônico e gás
sulfídrico.
IV. Os agrotóxicos são substâncias químicas usadas no combate às
pragas, tais como inseticidas, raticidas, herbicidas, fungicidas e
formicidas.
Estão corretas:
a) As assertivas I, II e IV apenas.
b) As assertivas I, II e III apenas.
c) As assertivas II, III e IV apenas.
d) As assertivas II e III apenas.
e) A assertiva II apenas.
4. A água não é pura na natureza devido a seu alto poder de dissolução
de gases, coloides, sais, entre outros. Essa característica química faz
com que a água seja considerada solvente universal. Tal propriedade
de solvência possui alto poder de transportar partículas em seu meio,
podendo ser encontradas diversas impurezas que normalmente defi-
nem sua qualidade. Com base nessa característica, qual é a molécula
dissolvida na água que é indispensável para a sobrevivência de muitos
organismos aquáticos? Assinale a alternativa CORRETA.
a) Dióxido de carbono.
b) Sais minerais.
c) Fosfato.
d) Oxigênio dissolvido.
e) Nitrogênio.
5. Quando falamos em poluição da água, podemos citar o esgoto domés-
tico e o efluente que é resultado da atividade industrial. Os efluentes
industriais variam de acordo com a característica das empresas e po-
134 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

dem conter óleos diversos, metais pesados, entre outros. Já o esgoto


doméstico possui alta carga orgânica. Com base no texto, quais são
as principais etapas do tratamento dos efluentes? Assinale a alternativa
CORRETA.
a) Filtração, coagulação e aeração.
b) Precipitação, acidificação e floculação.
c) Equalização, agitação e filtragem.
d) Sedimentação, agitação e aeração.
e) Floculação, sedimentação e tratamento biológico.
A química da água 135

Referências
BAIRD, C.; CANN, M. Química Ambiental. 4.ed. Porto Alegre: Bookman, 2011.
BRAGA, B. et al. Introdução à Engenharia Ambiental. 2.ed. São Paulo: Pearson Prentice hall,
2005.
CAMPOS, M. L. A. M.; JARDIM, W. F. Aspectos relevantes da biogeoquímica da hidrosfera.
Caderno Temático de Química na Escola. n.5, p. 18-27, 2003.
DERISIO, J. C. Introdução ao Controle de Poluição Ambiental. 4.ed. São Paulo: Oficina de
Textos, 2012.
KARMANN, I. Ciclo da água, água subterrânea e sua ação geológica. In: TEIXEIRA, W.;
TOLEDO, M. C. M. de; FAIRCHILD, T. R.; TAIOLI, F. (Orgs.). Decifrando a Terra. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 2000. 568p.
KARMANN, I. Água: ciclo e ação geológica. In: TEIXEIRA, W.; FAIRCHILD, T. R.; TOLEDO,
M. C. M. de; TAIOLI, F. (Orgs.). Decifrando a Terra. 2.ed. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 2009. 623p.
LENZI, E.; FAVERO, O. B. Introdução à Química da Atmosfera: Ciência, Vida e
Sobrevivência. Rio de Janeiro: LTC, 2011.
MACÊDO, J. A. B. de. Introdução à Química Ambiental: Química e Meio Ambiente e
Sociedade. 1.ed. Juiz de Fora: Jorge Macedo, 2002.
MANAHAN, S. E. Química Ambiental. 9.ed. Porto Alegre: Bookman, 2013.
MILLER JR., G. Tyler. Ciência Ambiental. Tradução da 11.ed. norte americana. São Paulo:
Cengage Learning, 2012.
ODUM, E. P.; BARRETT, G. W. Fundamentos de Ecologia. São Paulo: Cengage Learning,
2011.
PHILIPPI JR, A. Ed. Saneamento, Saúde e Ambiente: Fundamentos para um Mundo
Sustentável. Barueri: Manole, 2005.
PRESS, F. et al. Para Entender a Terra. 4.ed. Porto Alegre: Bookman, 2006, 656p.
ROCHA, J. C.; ROSA, A. H.; CARDOSO, A. A. Introdução à Química Ambiental. 2.ed. Porto
Alegre: Bookman, 2009.
THOMAS, J. M.; CALLAN, S. J. Economia Ambiental: Fundamentos, Políticas e Práticas. São
Paulo: Cengage Learning, 2010.
Unidade 4
Os ciclos
biogeoquímicos e a
química do solo
Edson Torres

Objetivos de aprendizagem:
Entender a dinâmica dos ciclos biogeoquímicos e a importância
do equilíbrio entre o meio ambiente e as atividades antrópicas;
Compreender as principais características e interações com o
meio ambiente com a química do solo;
Identificar os principais contaminantes do solo e suas fontes;
Verificar os processos de remediação do solo.

Seção 1: Os ciclos biogeoquímicos


Nesta seção vamos estudar os ciclos biogeoquímicos
do nitrogênio, fósforo, enxofre e do carbono. Estu-
daremos os aspectos químicos e físicos que estão
relacionados com a ciclagem das espécies químicas
na natureza.

Seção 2: A química do solo


Nesta seção vamos estudar a formação do solo, o
intemperismo químico e físico, e a composição do
solo. Também vamos estudar a fase sólida, líquida e
gasosa dos solos e suas interações.
Seção 3: Propriedades físicas, contaminação e
remediação do solo
Nesta seção vamos estudar as propriedades físico-
-químicas do solo, as principais fontes de contami-
nação dos solos, como os pesticidas, metais pesados
e o lixo urbano, assim como também estudaremos
alguns processos de remediação do solo. Vamos
conhecer como é o processo de biorremediação e
fitorremediação.
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 139

Introdução ao estudo
Para que possamos compreender de forma sistêmica os aspectos que envol-
vem a Química ambiental, se faz necessário estudarmos os conceitos básicos da
química do solo e os ciclos biogeoquímicos, assim como os fenômenos físico-
-químicos relacionados e interligados a estes processos naturais e antrópicos.
Nesta unidade, veremos mais detalhadamente os processos natural e antró-
pico relacionados a Química ambiental dos solos, com a preocupação para que
vocês tenham preparo suficiente e que possam utilizá-lo com os seus alunos
na atuação profissional.
Para enriquecer o seu conhecimento apresentaremos algumas bibliografias
que atuarão como auxílio e atualização dos conhecimentos, bem como atividades
de estudo que contribuirão na fixação e aplicação dos conteúdos abordados.
Desejamos a você um ótimo aprendizado, e que ao final consiga aplicar
os conceitos no meio profissional onde a cada dia se torna mais necessária a
busca do conhecimento.
Bons estudos!

Seção 1 Os ciclos biogeoquímicos


Nesta seção vamos estudar sobre os ciclos biogeoquímicos do nitrogênio,
fósforo, enxofre e carbono. Estudaremos os aspectos químicos e físicos que
estão relacionados com a ciclagem das espécies químicas na natureza. Então
vamos lá!

1.1 Ciclos biogeoquímicos

1.1.1 O que são os ciclos biogeoquímicos?


A natureza apresenta-se de forma dinâmica e nos seus mais variados aspec-
tos encontra-se em permanentes transformações. Os promotores dessas trans-
formações são diversos, onde alguns dependem de fatores internos (estrutura
própria), dentre eles: desequilíbrios físicos, químicos e biológicos, que tendem
sempre a um estado de equilíbrio. Outros, são de ordem externa, como a radia-
ção solar, interações gravitacionais, entre outros. E o terceiro fator a promover
tais transformações é a atividade antrópica (LENZI; FAVERO, 2011).
140 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Para saber mais


Devemos nos lembrar que Lavoisier, que foi considerado o pai da química moderna, concluiu
por meio de seus experimentos e observações que: “Na natureza nada se cria, nada se perde,
tudo se transforma” (LENZI; FAVERO, 2011, p. 79).

Todos os elementos químicos, inclusive aqueles elementos essenciais para


a vida, tendem a circular na biosfera em caminhos característicos, que vão
do ambiente para o organismo e de volta para o ambiente. Assim, podemos
considerar a atmosfera, hidrosfera, litosfera e biosfera como componentes do
sistema Terra, tendo a função de reservatórios biogeoquímicos que armazenam
elementos químicos terrestres, associados a processos que os transportam de
um componente a outro. Portanto, os ciclos biogeoquímicos promovem o
fluxo dos elementos químicos de um reservatório a outro (PRESS et al., 2006).
Esses caminhos ou movimentos mais ou menos cíclicos são conhecidos como
ciclos biogeoquímicos (ODUM; BARRETT, 2011; BRAGA et al., 2005; DERISIO,
2012). Bio, porque está relacionado com os organismos vivos que interagem no
processo de síntese orgânica e decomposição dos elementos. Geo, porque está
relacionado com o meio terrestre, que é a fonte dos elementos. E químicos por-
que faz relação com os ciclos de elementos químicos. Assim, a biogeoquímica
é a ciência que estuda a troca ou o fluxo de matéria entre os componentes vivos
e físico-químicos da biosfera (BRAGA et al., 2005; ODUM; BARRETT, 2011).
Portanto, agora iremos estudar mais profundamente os ciclos biogeoquímicos
de alguns elementos químicos, como o nitrogênio, fósforo, enxofre e o carbono.

1.1.2 Ciclo biogeoquímico do nitrogênio


O ciclo biogeoquímico do nitrogênio é uma dos ciclos biogeoquímicos mais
importantes, por isso será estudado com mais aprofundamento.
O nitrogênio (N2) é o gás mais abundante na atmosfera, contribuindo com
aproximadamente 78% de sua composição, porém, ele não é reativo, com isso,
não pode ser usado diretamente por muitos organismos. A atmosfera é o princi-
pal reservatório de nitrogênio, sob forma de N2 (MANAHAN, 2013). A molécula
de N2 é extremamente estável, reagindo quimicamente com mais intensidade
na termosfera (altitude maior que 90 km), onde pode ser fotolizada ou ionizada
(DERISIO, 2012; MARTINS et al., 2003; ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 141

Muitos compostos encontrados na natureza são constituídos por nitrogê-


nio, pois este elemento químico possui grande capacidade de fazer ligações
químicas, com números de oxidação variando de (–3) a (+5). Os constituintes
minoritários, como o óxido nitroso (N2O), óxido nítrico (NO), dióxido de nitro-
gênio (NO2), ácido nítrico (HNO3) e amônia (NH3) são quimicamente reativos
tendo importância significativa nos impactos ambientais da atualidade, como
a chuva ácida, poluição atmosférica, aerossóis atmosféricos e a depleção da
camada de ozônio. O óxido nítrico e o dióxido de nitrogênio, são rapidamente
interconversíveis, coexistindo em equilíbrio dinâmico. Assim, a soma das duas
espécies químicas geralmente é referida como óxidos de nitrogênio (NOx), onde
NOx= NO + NO2 (MARTINS et al., 2003).
O nitrogênio é um elemento químico essencial à vida, sendo constituinte
dos aminoácidos, que formarão as proteínas e portanto, fazendo parte do DNA.
Os animais utilizam-se do nitrogênio incorporado em compostos orgânicos
(aminoácidos e proteínas), enquanto que plantas e algas utilizam-se do nitro-
gênio sob a forma de íons nitrato (NO3–) ou íons amônio (NH4+) (MARTINS et
al., 2003; ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
O ciclo biogeoquímico do nitrogênio apresentado na Figura 4.1, é um dos
mais importantes e complexos ciclos globais. Este ciclo descreve um processo
dinâmico de intercâmbio de nitrogênio entre a atmosfera, a matéria orgânica
e compostos inorgânicos.

Figura 4.1 Ciclo biogeoquímico do nitrogênio

Fonte: Adaptada de Martins et al.(2003, p. 34).


142 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Ao analisarmos a Figura 4.1, podemos verificar que no ciclo do nitrogênio


existem quatro mecanismos reacionais básicos: fixação do nitrogênio atmos-
férico em nitratos, amonificação, nitrificação e desnitrificação (BRAGA et al.,
2005).
A fixação do nitrogênio atmosférico é o processo pelo qual o N2 (gasoso ou
simplesmente “g”) atmosférico reage para formar outro composto nitrogenado.
Assim, o nitrogênio transforma-se em uma outra forma de composto que contém
o nitrogênio da atmosfera. Esse processo acontece de formas variadas, entre
elas nas descargas elétricas, combustão, indústria e por fixação simbiótica e
assimbiótica (LENZI; FAVERO, 2011).
A transformação do nitrogênio orgânico (N-orgânico) na forma mineral de
amônio (NH4+), é denominada amonificação e a transformação do amônio em
nitrito (NO2–) e nitrato (NO3–), é chamada de nitrificação. Essas reações são
promovidas pela ação de microrganismos, como o Rhizobium leguminosarum
(LENZI; FAVERO, 2011).
A desnitrificação é realizada por muitos microrganismos, entre eles os de natu-
reza heterotrófica (Pseudomonas sp; Xanthomonas sp, Bacillus sp, entre outros) e
os de natureza autotrófica (Micrococcus denitrificans e Thiobacillus denitrificans).
A grande maioria é de natureza anaeróbica (LENZI; FAVERO, 2011).

Para saber mais


Caro(a) acadêmico(a), você sabia que o excesso de nitrato na água de abastecimento também
pode ser causado por leguminosas exóticas? A introdução da leguminosa acácia-negra (Leucaena
leucocephala), proveniente das Filipinas, após a Segunda Guerra Mundial, envenenou as águas
subterrâneas de boa parte da ilha de Guam (Estados Unidos) (ODUM e BARRETT, 2011).

Atividades de aprendizagem
Algumas espécies de bactérias fixadoras de nitrogênio gasoso vivem no
interior de nódulos formados nas raízes das plantas leguminosas (soja e
feijão), formando uma interação de mútuo benefício, chamada simbiose.
Ao fixarem o nitrogênio do ar, essas bactérias fornecem parte dele às plan-
tas. Com base no texto, qual alternativa contém os quatro mecanismos
reacionais básicos do ciclo do nitrogênio?
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 143

a) A fixação do nitrogênio atmosférico em nitratos, amonificação, nitri-


ficação e desnitrificação.
b) A fixação do nitrogênio atmosférico em nitritos, precipitação e
desnitrificação.
c) A amonificação, nitrificação, acidificação e desnitrificação.
d) Acidificação, precipitação, desnaturação e desnitrificação.
e) A fixação do nitrogênio atmosférico em nitratos, oxirredução, conden-
sação e lixiviação.

1.1.3 Ciclo biogeoquímico do fósforo


O fósforo é um elemento químico que constitui as moléculas dos ácidos
ribonucleico (RNA) e desoxirribonucleico (DNA) e componente dos ossos e
dentes. O fósforo aparece nos organismos em proporção muito maior aos ou-
tros elementos químicos quando comparado com sua participação nas fontes
primárias. Por isso o fósforo tem grande importância ecológica e provavelmente
é o fator mais limitante à produtividade primária (BRAGA et al., 2005).
Conforme exemplificado na Figura 4.2, o fósforo, tende a circular com
componentes orgânicos na forma de fosfato (PO4), elemento que é novamente
disponibilizado para as plantas. Porém, o maior depósito do elemento fósforo
não é a atmosfera, mas os depósitos minerais de apatita (sal de fósforo) forma-
dos em épocas geológicas passadas, constituindo assim o maior reservatório
de fosfato ambiental (ODUM; BARRETT, 2011; MANAHAN, 2013). Assim por
meio dos processos erosivos, ocorre a liberação do elemento fósforo na forma
de fosfatos, que serão utilizados pelos produtores. Porém, parte desses fosfatos
é carregada para os oceanos, onde se perde em depósitos a grandes profundi-
dades, ou é consumida pelo fitoplâncton (BRAGA et al., 2005).
144 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Figura 4.2 Ciclo biogeoquímico do fósforo

Fonte: Adaptada de Braga et al. (2005, p. 32).

Cerca de 5 x 1012 g de fósforo são devolvidas anualmente pela poeira at-


mosférica e aerossóis ao ambiente terrestre, mas o fosfato volta sempre para o
mar, onde parte dele é depositado nos sedimentos rasos e parte se perde nos
sedimentos profundos (ODUM; BARRETT, 2011). Porém, os meios de retorno
do fósforo para os ecossistemas a partir dos oceanos são insuficientes para
compensar a parcela que se perde, tendo como principais agentes de retorno
os peixes e as aves marinhas. Um exemplo desse processo pode ser observado
nos depósitos de guano (fosfato de cálcio originário dos excrementos das aves
marinhas) existentes nas costas do Peru e do Chile. Porém, a ação predatória
dos seres humanos sobre esses pássaros faz com que a taxa de retorno reduza-se
ainda mais. Ao mesmo tempo que reduzem a taxa de retorno, a ação antrópica
avança na exploração da mineração, na ocupação desordenada do solo, no
desmatamento e na agricultura, acelerando o processo de perda de fósforo do
ciclo. Estima-se que, atualmente, de um a dois milhões de toneladas de fosfato
são produzidas a partir da mineração, só que apenas 60 mil toneladas retornam
ao ecossistema (BRAGA et al., 2005). O que se observa é que as atividades
humanas parecem acelerar a taxa de perda de fósforo, diminuindo esse ciclo.
Porém, segundo Odum e Barrett (2011), não existe razão para preocupação
imediata com o suprimento para uso do homem, pois as reservas de fosfato
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 145

são abundantes. No entanto, a mineração e o processamento do fosfato para


fertilizantes geram graves problemas de poluição local.
Como já estudamos, uma parte significativa do fósforo se perde nos depósitos
de sedimentos profundos no oceano. Porém, devido aos movimentos tectôni-
cos, existe a possibilidade de levantamentos geológicos que tragam novamente
o fósforo perdido. Também, por meio da reciclagem, o fósforo presente nos
compostos orgânicos é metabolizado pelos decompositores e transformado em
fosfatos, sendo novamente utilizado pelos produtores. Contudo este processo
apresenta perdas, uma vez que os ossos (ricos em fósforo), oferecem resistência
aos decompositores e à erosão (BRAGA et al., 2005).
O fósforo terá um papel importante no futuro, pois, de todos os macronu-
trientes, ele é o mais escasso em termos de abundância relativa nos depósitos
disponíveis na superfície da Terra (ODUM e BARRETT, 2011).

1.1.4 Ciclo biogeoquímico do enxofre


Na natureza existem muitos compostos contendo enxofre, pois este ele-
mento possui grande capacidade de fazer ligações químicas, apresentando
números de oxidação variando de (–2) a (+6) (ROCHA; ROSA; CARDOSO,
2009). O enxofre é um elemento químico essencial à vida na Terra, onde orga-
nismos vivos, incluindo plantas, assimilam espécies de enxofre, enquanto que
várias formas de enxofre são emitidas como produto final de seus metabolismos
(MARTINS et al., 2003).
O ciclo biogeoquímico do enxofre possui um conjunto de transformações
entre as espécies de enxofre presentes na litosfera, hidrosfera, atmosfera, bios-
fera e antroposfera, conforme apresentado na Figura 4.3. O elemento enxofre
possui um ciclo basicamente sedimentar, embora possuindo uma fase gasosa
de pouca importância. A principal forma de assimilação do enxofre pelos se-
res produtores é como sulfato inorgânico, sendo produzido por uma série de
microrganismos com funções específicas de redução e oxidação. A maioria
do enxofre que é assimilado é mineralizado em processo de decomposição
(BRAGA et al., 2005).
146 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Figura 4.3 Ciclo biogeoquímico do enxofre

Fonte: Martins et al., 2003, p. 37.

Os compostos reduzidos de enxofre, como o H2S, são formados por atividade


bacteriana anaeróbica no processo de oxidação de carbono orgânico à dióxido
de carbono e na redução do sulfato (SO42-) à sulfeto (S2-). Uma parte destes
compostos reagem com íons metálicos e são fixados na litosfera, como rochas
e sedimentos (MARTINS et al., 2003). Ainda sob condições anaeróbias e na
presença de ferro, o enxofre é precipitado, formando sulfetos férricos e ferrosos.
Com isso, a produção destes compostos, permite que o fósforo converta-se de
insolúvel a solúvel, tornando-se utilizável. Esse é um exemplo da inter-relação
entre diferentes ciclos de minerais ocorrendo em um ecossistema (BRAGA et
al., 2005). A relação do fósforo com o ciclo do enxofre é mais evidenciada nos
sedimentos anaeróbicos das zonas alagadas, sendo locais importantes para a
reciclagem do nitrogênio e carbono também (ODUM e BARRETT, 2011).
Os processos realizados por microrganismos nas zonas anaeróbicas pro-
fundas de solos e sedimentos resultam dos movimentos ascendentes de gases
de H2S em ecossistemas terrestres e pantanosos. A decomposição das proteí-
nas também leva à produção de sulfeto de hidrogênio. Quando o H2S chega
à atmosfera, é convertido em dióxido de enxofre (SO2), sulfato (SO4), dióxido
de carbono (CO2) e em minúsculas partículas flutuantes de SO4 (aerossóis de
enxofre) (ODUM e BARRETT, 2011).
Já em ambientes com oxigênio, bactérias aeróbicas também produzem sul-
feto, pela decomposição de matéria orgânica contendo enxofre. Os compostos
reduzidos de enxofre como o sulfeto de hidrogênio (H2S), o dimetilssulfeto
(CH3SCH3 ou DMS), o sulfeto de carbonila (COS) e o dissulfeto de carbono
(CS2) são voláteis e rapidamente escapam para a atmosfera. O principal
composto biogênico do enxofre é o dimetilsulfeto (CH3SCH3), sendo emitido
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 147

predominantemente por determinadas algas marinhas, como a alga vermelha


Polysiphonia fastigiata. Uma parte do enxofre deste organismo está na forma de
ácido dimetilssulfopropiônico, sofrendo decomposição para produzir o dimetils-
sulfeto, formando um grande reservatório nos oceanos (MARTINS et al., 2003).
O DMS presente no oceano é transferido para a atmosfera na ordem de 3%
a 10%, porém os oceanos são responsáveis por 99% do fluxo global de DMS.
A outra parte está relacionada com emissões terrestres a partir da vegetação e
solos. Na atmosfera, o DMS reage com o radical hidroxila OH*, que é o prin-
cipal responsável pela sua remoção.
O sulfeto de carbonila (COS) é fornecido ao ecossistema principalmente
pelas árvores e outras espécies de plantas, onde a queima da biomassa cons-
titui a maior fonte direta antrópica do COS. Por apresentar baixa reatividade
química, o COS é o gás que contém enxofre, mais abundante na atmosfera,
possuindo um tempo de vida médio de 1,5 ano, permitindo que atinja a alta
atmosfera, sendo uma importante fonte de SO2 e de sulfato particulado para a
estratosfera (MARTINS et al., 2003).
Já o sulfeto de hidrogênio (H2S) é um gás de mal cheiroso, sendo produzido
por bactérias específicas. As principais fontes de H2S para a atmosfera são as
atividades vulcânicas, oceânicas, a partir de solos e vegetação, a queima da
biomassa e as emissões industriais. Uma vez presente na atmosfera, o H2S é
rapidamente oxidado pelo radical OH* (MARTINS et al., 2003).
O dissulfeto de carbono (CS2) é um gás que contém enxofre produzido na
atmosfera pelo ataque de radicais OH* ao sulfeto de carbonila (COS), podendo
ser encontrado em fontes como as atividades industriais, principalmente na
indústria de celulose.
O dióxido de enxofre (SO2) é um dos principais poluentes atmosféricos,
sendo emitido pela queima dos combustíveis fósseis e pelas atividades in-
dustriais como o refino de petróleo, a metalurgia e o cimento, enquanto que
a atividade vulcânica é a sua principal fonte natural (MARTINS et al., 2003).
A atmosfera atua como um meio oxidante, fazendo com que os compostos
reduzidos de enxofre reajam principalmente com radicais OH* e NO3*, sendo
oxidados principalmente a SO2. Uma vez na atmosfera, o SO2 é oxidado, tanto
na fase gasosa, quanto na fase aquosa (chuva, neblina, nevoeiro), produzindo
o ácido sulfúrico (H2SO4) ou partículas neutralizadas sob forma de sulfato. A
sequência das reações R-1 até R-5 representa o processo de conversão do H2S
a SO2 (MARTINS et al., 2003).
148 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

OH* + H2S H2O + HS* R-1


HS* + O3 HSO* + O2 R-2

HS* + NO2 HSO* + NO R-3

HSO* + NO3 HSO 2* + O2 R-4


HSO 2* + O2 HO2* + SO 2 R-5

Os outros compostos reduzidos de enxofre, também sofrem reação com o


radical OH* apresentando-se como o principal processo de oxidação na fase
gasosa da atmosfera. Já o DMS, reage com radical NO3*, onde esse processo
torna-se importante na remoção desse gás, em atmosferas poluídas por óxidos
de nitrogênio (NOx) (MARTINS et al., 2003).
A oxidação por radical OH* também é responsável pela conversão do SO2
na fase gasosa da atmosfera, conforme apresentado nas reações R-6 e R-7.
OH* + SO2 + M HOSO 2* + M R-6
HOSO 2* + O2 HO2* + SO3 R-7

Já o trióxido de enxofre (SO3) formado reage rapidamente com a água,


produzindo o ácido sulfúrico (H2SO4), conforme apresentado na reação R-8.
SO 3 + H2O H2SO4 R-8

O dióxido de enxofre, possui boa solubilidade em água, logo, a fase aquosa


da atmosfera contém SO2 dissolvido, ou ainda moléculas de enxofre no estado
de oxidação +4, sulfito (SO32–) e bissulfito (HSO3–), conforme apresentado nas
reações R-9 à R-11 (MARTINS et al., 2003).
SO 2(g) + H2O(líq) SO 2.H2O(aq) R-9
SO 2.H2O(aq) + H2O HSO 3–(aq) + H3O+ R-10
HSO 3–(aq) + H2O SO 32–(aq) + H3O+ R-11

A ação antrópica vem contribuindo na interferência do ciclo biogeoquímico


do enxofre por meio de grandes quantidades de dióxido de enxofre liberadas
nos processos de queima de carvão e óleo combustível em indústrias e usinas
termoelétricas, dentre outros. O dióxido de enxofre provoca efeitos danosos
ao organismo e também nos ecossistemas por meio da chuva ácida e do smog
fotoquímico (BRAGA et al., 2005).
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 149

1.1.5 Ciclo biogeoquímico do carbono


É indiscutível a importância do carbono e de seus compostos, fazendo parte
de toda a matéria orgânica e de tudo o que tem vida, fundamentais na respi-
ração, fotossíntese e regulação do clima (MARTINS et al., 2003). Existe uma
grande variedade de compostos de carbono envolvidos no seu ciclo global, dos
quais podem ser sólidos, líquidos e gasosos, onde muitos deles são produzidos
por organismos vivos (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
Podemos observar no ciclo biogeoquímico do carbono (Figura 4.4) que o
depósito atmosférico de carbono é pequeno se comparado com a quantidade
de carbono presente no oceano, em combustíveis fósseis e outros depósitos na
litosfera. A queima de combustíveis fósseis, juntamente com a agricultura e o
desmatamento, estão contribuindo para o aumento contínuo de CO2 na atmos-
fera, sendo que em 1850 a concentração era de 270 ppm (partes por milhão),
passando para uma concentração de 395 ppm em 2013. A perda líquida de
CO2 na agricultura é muito grande, ocorrendo porque o CO2 fixado por culti-
vos não compensa o CO2 liberado do solo, especialmente em consequência
das frequentes aragens. O desmatamento pode liberar o carbono armazenado
nas matas por meio das queimadas, seguindo com liberação de carbono por
meio da oxidação de húmus. Já as florestas jovens de crescimento rápido são
sumidouros de carbono, portanto, o reflorestamento em larga escala tende a
reduzir os efeitos do aquecimento global, este intimamente ligado ao aumento
da concentração de CO2 na atmosfera (ODUM; BARRETT, 2011).

Figura 4.4 Ciclo biogeoquímico do carbono

Fonte: Adaptada de Martins et al. (2003, p. 31).


150 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

No ciclo biogeoquímico do carbono estão envolvidos quatro reservatórios


principais, sendo eles: a atmosfera, o oceano (incluindo organismos marinhos),
a superfície continental (incluindo plantas terrestres e solos) e a litosfera (LENZI;
FAVERO, 2011).

1.1.5.1 Origem do gás carbônico na atmosfera


O gás carbônico da atmosfera teve origem em dois momentos distintos
identificados ao longo da existência da Terra. O primeiro momento foi antes
do aparecimento da vida e o segundo após o aparecimento da vida sobre o
planeta Terra (LENZI; FAVERO, 2011).

1.1.5.1.1 Primeiro momento


Antes do surgimento da vida na Terra, o CO2 atmosférico se originou da
litosfera, assim como das reações plutônicas. Assim, o carbono atmosférico
restringia-se apenas ao ciclo geoquímico do carbono, até que as condições
ambientes fossem favoráveis para a vida no planeta. Com um pH muito ácido
proveniente dos ambientes aquáticos iniciais da Terra, não havia formação
das rochas calcárias, assim, o gás carbônico era liberado diretamente para a
atmosfera, conforme a reação R-38 (LENZI; FAVERO, 2011).

CO32–(aq) + 2H+(aq) H2O(líq) + CO2(g) R - 12

1.1.5.1.2 Segundo momento


Conforme as condições foram permitindo o surgimento da vida (inicialmente
na água), surgiram os organismos autotróficos e heterotróficos, apresentando
as características aeróbias e anaeróbias, iniciando então o segundo momento
com o ciclo do carbono na atmosfera. Com isso, os organismos autotróficos,
retiram o gás carbônico da atmosfera e auxiliados pela radiação solar, nutrientes
e pela clorofila, sintetizam a biomassa, fixando o CO2 da atmosfera. Este pro-
cesso é chamado de fotossíntese. O carbono de estado de oxidação 4+, passa
para carbono no estado de oxidação zero, sofrendo assim, uma redução e o
oxigênio sofre oxidação, liberando o gás O2 (ver R-13) (LENZI; FAVERO, 2011).
Elé trons recebidos

4+ 1+ 2- 1+ 2-

CO
2- 2(g)
+ H2O(líq) Energia solar + nutrientes
CH2O(s) + O2(g) R-13
biomassa 0

Elé trons doados


Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 151

O carbono que foi fixado na biomassa poderá ser novamente liberado para
a atmosfera na forma de CO2, ou sendo fixado na forma de matéria orgânica do
solo, ou ainda como material mineral da crosta terrestre. Todos esses processos
podem ser de origem biogênica, não biogênica ou antrópica. O ciclo do carbono
é um ciclo perfeito, pois o carbono é devolvido ao meio na mesma taxa em que
é sintetizado pelos produtores (BRAGA et al., 2005; LENZI; FAVERO, 2011).

1.1.5.2 Processos biogênicos de liberação do carbono para a


atmosfera
Os seres vivos para sobreviver buscam a energia degradando a matéria
orgânica resultante da biomassa mediante o que se chama respiração para os
aeróbicos e fermentação para os anaeróbicos.
a) Respiração: os organismos aeróbicos processam bioquimicamente o
oxigênio do ar nas células, oxidando a matéria orgânica. É uma reação
de combustão controlada a nível celular ou ainda uma reação em sentido
contrário da fotossíntese, liberando a energia solar que foi armazenada e
os componentes iniciais H2O e CO2 (ver R-14) (LENZI; FAVERO, 2011).
Elé trons doados

1+ 2- 4+ 1+ 2-
Organismo
CH2O(s) + O2(g) aeróbico
CO
2- 2(g)
+ H2O(líq) + Energia R-14
biomassa 0

Elé trons recebidos

Fermentação: ocorre nos ambientes isentos ou quase isentos de oxigênio


como por exemplo um lamaçal ou o interior do intestino de um animal. Nesse
ambiente encontram-se as espécies químicas em suas formas reduzidas, sig-
nificando um ambiente com disponibilidade de elétrons (ambiente redutor).
A biota que habita nesse ambiente realiza a fermentação da matéria orgânica
para produzir energia. Essa reação é denominada de reação redutora, conforme
apresentado na reação R-15. Nesta reação o CH4 e o CO2 são devolvidos para
a atmosfera, fazendo retornar o carbono retirado por meio da fotossíntese
(LENZI; FAVERO, 2011).
Oxidaç ão do carbono

1+ 2- 4+
Organismo
2CH2O(s) anaeróbico
CO2(g) + CH4(g) + Energia R-15
0 4-

Reduç ã o do carbono
152 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

1.1.5.3 Processos antropogênicos de liberação de carbono para a


atmosfera
O ser humano não somente adquire a energia básica para a sobrevivência
(respiração), mas precisa suprir as necessidades de alimentos, moradia, conforto,
entre outros. Portanto, precisa de mais energia, que na maior parte das vezes
busca na forma de energia calorífica mediante a combustão de material fóssil
ou de material. Porém, esses processos de combustão transformam o carbono
em CO2 e na ausência de oxigênio produz o CO, conforme apresentado nas
reações R-16 e R-17. Só na combustão de materiais fósseis, como a queimada
das florestas e modificações do uso da terra são lançados na atmosfera anual-
mente 7,1 Gt de carbono na forma de CO2 (LENZI; FAVERO, 2011).
Oxidaç ã o do carbono

2,5- 1+ 4+

C 4H10 + 9O2(g) 4CO


2- 2(g)
+ 5H2O
2-
(vapor) + Energia
R-16
Butano 0

Reduç ã o do oxigênio

Oxidaç ã o do carbono

2,5- 1+ 2+

2C 4H10 + 9O2(g) 8CO


2- 2(g)
+ 10H2O(vapor) + Energia
2-
R-17
Butano 0

Reduç ã o do oxigênio

1.1.5.4 Fixação do CO2


A fotossíntese é um dos mais importantes processos de fixação do carbono
da atmosfera, conforme abordado no item anterior, porém temos ainda outro
processo chamado de dissolução na água líquida.
O CO2 é um importante ácido fraco das águas naturais, não importando sua
origem, onde formará com a água um sistema de duas fases, pois o CO2 é gás
e a água é líquido. Assim sendo, o CO2, na fase líquida é distribuído conforme
apresentado na sequência:
a) Uma fração do CO2 apresenta-se na forma molecular, regida pela lei
de Henry que é igual à soma dos dois componentes:
[CO2(aq)]+[H2CO3 ]=[H2CO3* ]
b) Uma fração do CO2 dissolvido encontra-se na forma ionizada de bicar-
bonato (HCO3–(aq)) e carbonato (CO32–(aq)).
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 153

c) Uma terceira fração encontra-se associada à reação de decomposição


de rochas conforme as reações R-18 e R-19.
CaCO 3(s) + CO2(aq) + H2O(líq) Ca 2+(aq) + 2HCO3–(aq) R-18
2NaAlSi 3O8(s) + 2CO2(aq) + 11H2O(líq) 2Na+ + 2HCO3–(aq) + 4H4SiO 4 + Al2Si 2O5(HO)4(s)
R-19

d) E a quarta fração, na forma de CO32–(aq) encontra-se em equilíbrio com


os próprios carbonatos que se dissolveram no corpo de água dando
o efeito do íon comum, conforme a reação R-20. O My+ é um cátion
metálico proveniente da dissolução de minerais por onde a água passa
(LENZI; FAVERO, 2011).
M2(CO 3) y(mineral) + H2O 2My+(aq) + yCO32–( aq ) R-20

Atividades de aprendizagem
A compreensão dos ciclos biogeoquímicos e sua aplicação estão baseadas
em uma visão sistêmica, a fim de contribuir para a busca da sustentabilidade.
Neste contexto, associe a primeira coluna com a segunda.
(A) Ciclo do nitrogênio ( ) Muito encontrado em depósitos de
guano
( ) Importante na respiração, fotossíntese e
(B) Ciclo do enxofre
regulação do clima
(C) Ciclo do fósforo ( ) Transformação do nitrogênio orgânico
em amônio
(D) Ciclo do carbono ( ) Possui um ciclo basicamente sedimentar
(E) Amonificação ( ) Fixação do carbono
Assinale a alternativa que representa a sequência correta da segunda
coluna.
a) A, C, D, E, B.
b) A, D, B, E, C.
c) C, D, E, B, A.
d) C, D, E, A, B.
e) D, C, E, B, A.
154 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Questões para reflexão


Prezado(a) acadêmico(a), com seus conhecimentos adquiridos você
acha que o CO2 é o grande vilão causador do aquecimento global e
das consequentes mudanças climáticas?
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 155

Seção 2 A química do solo


Nesta seção vamos estudar sobre a formação do solo, o intemperismo quí-
mico e físico, e a composição do solo. Também vamos estudar a fase sólida,
líquida e gasosa dos solos. Então vamos lá!

2.1 Origem e formação da litosfera


Caros(as) acadêmicos(as), para que possamos compreender adequadamente
os fenômenos ambientais é preciso pensar sempre com base nos ciclos biogeo-
químicos, considerando os importantes fluxos de matéria e energia, os quais
ocorrem dinamicamente entre seus compartimentos reguladores, que como já
estudamos, são a litosfera, hidrosfera, atmosfera, biosfera e antroposfera.
Portanto, as hipóteses sobre a formação do planeta Terra também baseiam-se
em fluxos dinâmicos. No início, há cerca de 5 bilhões de anos, o planeta Terra
era apenas uma bola de minerais fundidos e incandescentes. Na sequência
inicia-se um processo de resfriamento da massa incandescente, as rochas e
atmosfera (gases ao redor do planeta). Após esse processo, e por ocorrência de
altas pressões a água passa para o estado líquido e inicia o processo cíclico de
precipitação, evaporação, formação de nuvens e novas precipitações, ou seja
inicia o ciclo hidrológico (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2004).
Com o auxílio do calor e frio, as rochas foram se despedaçando em granu-
lometrias, tais como pedras, cascalho, areia e argila. Nesse mesmo processo, as
rochas sedimentares formadas no fundo dos oceanos vieram à superfície, e da
superfície para o fundo por movimentos tectônicos originando grandes depósitos
de plantas e microrganismos fossilizados (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2004).
Assim, a maior parte da crosta terrestre sólida é formada por rochas, onde
estas são compostas por sólidos inorgânicos de ocorrência natural e com uma
estrutura cristalina interna e composição química características (chamados
minerais). Já a rocha é uma massa sólida e coesa de mineral puro ou um agre-
gado de dois ou mais minerais (MANAHAN, 2013).

2.2 Formação do solo


O solo pode ser representado como um ciclo natural em que participam
fragmentos de rochas, minerais, água, ar, seres vivos e seus detritos em decom-
posição, resultantes de fatores climáticos e da atividade combinada de micror-
156 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

ganismos decompondo restos de animais e vegetação (fatores químicos, físico


e biológicos ou intemperismo). Mantendo o raciocínio, o solo é o resultado
das interações entre a litosfera, hidrosfera, atmosfera, biosfera e antroposfera
(DERISIO, 2012; ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2004).
Assim, as modificações sofridas pela alterita (rocha modificada pelo in-
temperismo que depois transforma-se em solo) devido à ação dos fatores que
controlam a alteração intempérica são caracterizadas por: perda de matéria
tanto física (remoção de partículas) como química (remoção em solução ou
lixiviação); adição de matéria, proveniente de fontes externas, como a matéria
orgânica de origem animal ou vegetal, poeiras minerais vindas da atmosfera,
e sais minerais trazidos por fluxo ascendente de soluções; remobilização pelos
fluxos de soluções no interior do perfil (movimentos verticais e laterais) ou pela
ação da fauna (translocação de matéria); transformação de matéria, em con-
tato com produtos da decomposição postmortem da matéria vegetal e animal
(TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).
Esses mecanismos são controlados pelas soluções que percolam o perfil
vertical e lateralmente, e pelos organismos vivos. Adições, perdas, translocações
e transformações de matéria produzem uma reorganização estrutural da alterita
em diferentes camadas ou horizontes, que serão tanto mais diferenciados da
rocha mãe quanto mais afastados dela se encontrarem.
Assim, o perfil de um solo, é a sucessão vertical desses horizontes possuindo
quatro horizontes principais formados pela ação da pedogênese (processo de
formação do solo) (horizontes O, A e B) e um horizonte que compreende a
alterita (horizontes C). Os horizontes mais superficiais do perfil, por conterem
quantidades maiores de matéria orgânica, apresentam uma tonalidade mais
escura (TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).

2.3 Intemperismo
O intemperismo é o conjunto de modificações de ordem física e química que
as rochas sofrem ao surgir na superfície da Terra. Os produtos do intemperismo,
rocha alterada e solo, estão sujeitos a outros processos, como erosão, transporte
e sedimentação, os quais acabam levando à denudação continental, com o
consequente aplainamento do relevo (TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).
A pedogênese (formação do solo) ocorre quando as modificações causadas
nas rochas pelo intemperismo tornam-se, sobretudo, estruturais, com importante
reorganização e transferência dos minerais formadores do solo entre os níveis
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 157

superiores do manto de alteração. Posteriormente entram em ação a fauna e a


flora do solo que, ao realizarem suas funções vitais, modificam e movimentam
grandes volumes de material, mantendo o solo aerado e renovado em sua parte
exposta (TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).

2.3.1 Intemperismo físico


O intemperismo físico é todo o processo que provocam a desagregação e
a fragmentação das rochas, com separação dos grãos minerais, antes coesos,
transformando a rocha inalterada em material descontínuo e friável (TOLEDO;
OLIVEIRA; MELFI, 2009).
As rochas têm sua origem em condições extremas de temperatura e pressão,
em sua maioria e quando expostas à atmosfera, ficam sujeitas às condições de
umidade, de temperatura, precipitação e pressão diferentes daquelas de origem
(LEPSCH, 2002).
As variações de temperatura causam a expansão e contração térmica nos
materiais rochosos, levando à fragmentação dos grãos minerais. Já os minerais
com diferentes coeficientes de dilatação térmica, comportam-se de forma di-
ferenciada às variações de temperatura, provocando o deslocamento relativo
entre os cristais, rompendo a coesão inicial entre os grãos. Também a mudança
periódica de umidade pode causar expansão e contração provocando o en-
fraquecimento e fragmentação das rochas. Com isso, as rochas que possuem
fissuras, quando preenchidas com água e posteriormente congeladas, sofrem
um aumento de volume de cerca de 9% exercendo pressão nas paredes, cau-
sando esforços que terminam por aumentar a rede de fraturas e fragmentação
da rocha (TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).
Já a cristalização dos sais dissolvidos nas águas de infiltração tem efeito
parecido com o congelamento, pois o crescimento desses minerais também
favorece a expansão das fissuras e a fragmentação das rochas, podendo exer-
cer pressões enormes sobre as paredes das rochas, devido à expansão térmica
(TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).
Quando as partes mais profundas dos corpos rochosos ascendem a níveis
mais superficiais, acontece o alívio da pressão, e os corpos rochosos expandem,
causando a abertura de fraturas (juntas de alívio) grosseiramente paralelas à
superfície ao longo da qual a pressão foi aliviada (TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI,
2009).
158 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Para saber mais


Você sabia que as raízes das plantas também são responsáveis pelo intemperismo físico, que-
brando as rochas pela pressão causada devido ao seu desenvolvimento (TOLEDO; OLIVEIRA;
MELFI, 2009)?

2.3.2 Intemperismo químico


Quando as rochas afloram à superfície da Terra, seus minerais entram em
desequilíbrio e, através de uma série de reações químicas, transformam-se em
outros minerais, que por sua vez são mais estáveis nesse novo ambiente (com
pressões e temperaturas baixas e grande concentração de água e oxigênio). O
principal agente do intemperismo químico é a água da chuva, que infiltra e
percola as rochas (TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).
Essa água possui grande concentração de oxigênio (O2), que reage com o
dióxido de carbono (CO2) atmosférico adquirindo caráter ácido, tornando-se
cada vez mais ácido quando entra em contato com o solo, pois a respiração das
plantas pelas raízes e a oxidação da matéria orgânica enriquecem o ambiente
com CO2. Quando a degradação da matéria orgânica não é completa, vários
ácidos orgânicos são formados reagindo com as águas percolantes, tornando-as
muito ácidas e aumentando seu poder de oxidação dos minerais (TOLEDO;
OLIVEIRA; MELFI, 2009). Na maioria dos ambientes da superfície terrestre, as
águas percolantes têm pH entre 5 e 9, tendo como as principais reações do
intemperismo químico a hidrólise, acidólise, hidratação, dissolução e oxidação.
A hidrólise é a reação de sais de ácido fraco (H4SiO4) e bases fortes (NaOH,
KOH, Ca(OH)2, Mg(OH)2) com água, resultando em uma solução alcalina
(acontece sempre em pH 5 e 9 e principalmente com silicatos). Quando a
água é ionizada, libera o H+, e este por sua vez penetra nas estruturas minerais,
deslocando principalmente os cátions alcalinos (K+ e Na+) e alcalinos-terrosos
que são liberados para a solução. A estrutura do mineral na interface sólido/
solução de alteração acaba sendo rompida, liberando Si e Al na forma de íons
isolados ou polimerizados para a fase líquida. Com isso, esses elementos podem
recombinar-se, resultando em uma nova formação de minerais secundários
(TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 159

A acidólise é o processo intempérico pelo qual há a formação de complexos


de ferro e alumínio em ambientes com o pH baixo (pH < 5), devido à presença
de ácidos orgânicos formados pela decomposição parcial da matéria orgânica
em ambientes predominantemente frios. Ocorre acidólise do feldspato de potás-
sio em soluções de pH menor do que 3, fazendo com que todos os elementos
entrem em solução (TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).
A hidratação dos minerais ocorre pela atração entre os dipolos das moléculas
de água e as cargas elétricas não neutralizadas das superfícies dos grãos, onde
as moléculas de água entram na estrutura mineral, formando um novo mineral
(TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).
A dissolução é a solubilização completa de alguns minerais (calcita e ha-
lita), ocorrendo com frequência em terrenos calcários, levando à formação de
relevos cársticos, caracterizados por cavernas e dolinas (TOLEDO; OLIVEIRA;
MELFI, 2009).
A oxidação é a reação que acontece com transferência de elétrons, modifi-
cando o número de elétrons dos minerais envolvidos, logo, adquirindo outras
propriedades (TOLEDO; OLIVEIRA; MELFI, 2009).

Atividades de aprendizagem
O material de origem é o material intemperizado, de natureza mineral que
deu origem aos solos por processos intempérico, podendo já ter sofrido
transporte e deposição, o que é muito comum nas condições de clima tro-
pical. Com base nos mecanismos de formação do solo avalie as assertivas:
I. O intemperismo é o conjunto de modificações de ordem física e
química que as rochas sofrem ao surgir na superfície da Terra.
II. Somente a pedogênese proporciona a formação de um perfil de solo.
III. O intemperismo físico é todo o processo de fragmentação das rochas,
transformando a rocha inalterada em material descontínuo e friável.
IV. O intemperismo químico acontece quando as rochas afloram à su-
perfície da Terra e, por meio de reações químicas, transformam-se
em outros minerais.
V. A oxidação é a reação que acontece com transferência de elétrons,
modificando o número de elétrons dos minerais envolvidos.
160 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Estão corretas:
a) As assertivas II e III apenas;
b) As assertivas I, III, IV e V apenas;
c) As assertivas I, II e III apenas;
d) As assertivas I e V apenas;
e) A assertiva I apenas.

2.4 Composição do solo


O solo é formado por constituintes nos três estados físicos da matéria:
sólido, líquido e gasoso, cujas proporções relativas variam de solo para solo,
em um mesmo solo, com as condições climáticas, na presença de plantas e
no manejo. Em geral, a composição volumétrica porcentual de um solo que
apresenta ótimas condições para o crescimento de plantas apresenta 50% de
fase sólida (45% de origem mineral e 5% de orgânica), 25% de fase líquida
e 25% de fase gasosa (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009). A porção sólida é
forma por matéria inorgânica (minerais resultantes da decomposição de rochas)
e matéria orgânica (resíduos de plantas e animais em diferentes estágios de
decomposição, e organismos vivos e em atividade). A fase líquida é constituída
pela água no solo, sais em dissolução e matéria coloidal em suspensão. Já a
porção gasosa é o ar, apresentando diferença na proporção percentual de seus
constituintes em relação ao ar atmosférico (LEPSCH, 2002).

2.4.1 Fase sólida


As partículas que constituem os componentes minerais do solo têm sua ori-
gem na intemperização das rochas. São compostas de fragmentos de rochas, de
minerais primários (geralmente de tamanhos maiores), e de minerais secundários
(de tamanhos menores). Os fragmentos de rocha são remanescentes de rochas
maciças que se formam por intemperismo (BRADY; WEILL, 2013).
Os minerais apresentam duas características específicas, como a composição
química definida (expressa pela fórmula química do mineral) e uma estrutura
cristalina. A estrutura cristalina está relacionada ao modo com que os átomos
estão dispostos uns em relação aos outros, assim diferentes minerais podem ter
a mesma composição química ou a mesma estrutura cristalina, sendo minerais
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 161

diferentes. A aparência externa característica de um mineral cristalino puro é


sua forma cristalina (MANAHAN, 2013).
Existem mais de 2 mil minerais conhecidos, porém, somente cerca de
25 minerais constituintes das rochas compõem a maior parte da crosta terres-
tre. A maior parte dos minerais encontrados na crosta terrestre são os silicatos,
como o quartzo (SiO2) ou o ortoclásio, KAlSi3O8, isso porque o oxigênio e o
silício representam 49,5 e 25,7% respectivamente em massa da crosta terrestre.
Os outros elementos que compõem a crosta terrestre, em ordem decrescente
de abundância, são o alumínio (7,4%), o ferro (4,7%), o cálcio (3,6%), o sódio
(2,8%), o potássio (2,6%), o magnésio (2,1%) e outros (1,6%) (MANAHAN,
2013).
Os minerais primários existem na maioria dos solos, e são os componentes
das rochas mais resistentes ao intemperismo químico, permanecendo mais
tempo no solo e mantendo sua composição original, mas podendo fragmentar-
-se pela ação do intemperismo físico (KIEHL, 1979).
Já os minerais secundários são formados pela alteração da matéria precur-
sora mineral, assim, podemos citar como exemplo as argilas, que são minerais
silicatos, normalmente contendo alumínio, fazendo parte de uma das classes
mais importantes de minerais secundários. A olivina, a augita, a hornblenda e
os feldspatos são minerais que formam a argila (MANAHAN, 2013).
A matéria orgânica é um conjunto de resíduos de animais e plantas parcial-
mente decompostos e sintetizados e/ou que está em contínua decomposição
resultante dos microrganismos no solo (BRADY; WEILL, 2013). Tem sua origem
no solo, a partir da contínua decomposição de restos de animais, de micror-
ganismos e parte de plantas (folhas, raízes, caules, frutos, flores), bem como
de excreções animais e da meso e macrofauna (ROCHA; ROSA; CARDOSO,
2009; LEPSCH 2002). A matéria orgânica representa menos de 5% do solo
produtivo, porém é fator preponderante para a produtividade do solo. Ela é
fonte de nutrientes para os microrganismos, sofre reações químicas, como a
troca iônica, e influencia as propriedades físicas do solo (MANAHAN, 2013).
Na fração orgânica temos os polissacarídeos, os aminoaçúcares, os nucleotí-
deos e o enxofre orgânico, além de compostos fosforados que possuem atividade
biológica no solo. O principal componente da matéria orgânica é o húmus, um
material solúvel em água e de biodegradação muito lenta (MANAHAN, 2013).
Os compostos orgânicos transformam-se em húmus, na presença de oxigênio
(meio aeróbio) que é a mineralização de matéria orgânica, ficando, assim, dis-
162 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

ponível no solo. A composição do húmus é consequência do clima da região,


das características do solo, da vegetação e das atividades dos microrganismos.
Já em meio anaeróbio (sem oxigênio), geralmente quando a decomposição
acontece em solos encharcados, a natureza da matéria orgânica possui aspectos
diferenciados, resultando na denominada turfa (BRADY; WEILL, 2013).
Os processos envolvidos na formação dessas matérias orgânicas se dão
através do ciclo de carbono ou ciclo da vida. As plantas assimilam o dióxido
de carbônico (CO2), transformando-o, com o auxílio da água e de nutrientes
que extraem do solo, em compostos de carbono (fotossíntese) (LEPSCH, 2002).
Outra função importante diz respeito aos microrganismos do solo, para os
quais os materiais orgânicos servem de fonte de alimento. Muitos desses mi-
crorganismos desempenham papel importante referente à nutrição das plantas
(LEPSCH, 2002).

Atividades de aprendizagem
Um dos componentes mais importantes para o desenvolvimento da agri-
cultura, relacionado ao aumento da produtividade agrícola, sem esquecer
os outros fatores, foi a pesquisa em fertilidade do solo e as inovações
científicas e tecnológicas que permitiram o uso eficiente de corretivos
e de fertilizantes na agricultura brasileira. Um constituinte do solo em
especial é responsável pela sua fertilidade, e está presente na matéria
orgânica. Qual é esse constituinte e como pode ser definido? Assinale a
alternativa CORRETA.
a) Húmus.
b) Fósforo.
c) Adubo sintético.
d) Nitrogênio.
e) Potássio.
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 163

2.4.2 Fase líquida


A fase líquida nada mais é do que a solução do solo. A solução do solo é uma
solução de eletrólitos quase em equilíbrio, que ocorre no solo em condições
de não saturação de umidade (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009). Conforme
Manahan (2013) também podemos conceituar como a porção aquosa do solo
onde está contida a matéria dissolvida gerada nos processos químicos e físicos
que ocorrem nele e nas trocas com a hidrosfera e a biosfera.
Os solutos no solo estão presentes no solo em maioria das vezes na forma
de sais dos cátions H+, Ca2+, Mg2+, K+ e Na+, em níveis menores de Fe2+, Mn2+ e
Al+ e dos ânions HCO3-, CO32-, HSO4-, SO42-, Cl- e F-. Os cátions Fe2+, Mn2+
e Al3+ de modo geral estão presentes como formas hidrolisadas ou ligados a
substâncias húmicas (MANAHAN, 2013).
As principais características do conceito de solução do solo são: constitui
uma parte maior do fator de intensidade no fornecimento de nutrientes para
as plantas; é o meio para a maioria dos processos químicos e biológicos que
ocorrem no solo; é o principal meio para o transporte de materiais no solo
(ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
De acordo com o conteúdo e da natureza da retenção de água, o solo pode
se encontrar em três estados de umidade: muito mal drenado (encharcado),
mal drenado (úmido) e bem drenado (seco) (LEPSCH, 2002).
Os solos muito mal drenados ou encharcados possuem todos os poros
preenchidos com água, sendo que a parte gasosa (ar) é praticamente ausente.
Com o encharcamento total do solo, a água drena para as camadas ou horizon-
tes mais baixos, juntando-se ao aquífero freático, dando origem às nascentes
(LEPSCH, 2002).
Os solos mal drenados ou úmidos são caracterizados pela água infiltrada
nos microporos, sendo que o ar encontra-se também presente nos chamados
acroporos. Os poros menores funcionam como finos tubos chamados capilares.
O líquido contido nesses é chamado água capilar, ficando retido no solo com
tal força, que fica mantido por mais tempo nos poros. Contudo, as plantas
ainda conseguem extrair parte dessa água, e em função disso, a água extraída
é denominada água disponível (LEPSCH, 2002).
O solo bem drenado ou seco é caracterizado por conter água, mas em forma
de películas externas finas, localizadas ao redor das partículas de solo. Geral-
mente, essa água é retida com tal força que as raízes não conseguem extraí-la
164 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

para o uso das plantas, sendo considerado então, um solo seco. A água contida
no solo bem drenado ou seco é denominada higroscópica (LEPSCH, 2002).

2.4.3 Fase gasosa


Os solos são formados por uma parte gasosa representada por 25%. Esse
ar está situado nos poros, encontrando-se livre ou em pequenas bolhas dissol-
vidas na água. De tal forma, podemos dizer que existe uma relação dinâmica
entre as fases líquidas e gasosas do solo (LEPSCH, 2002). A fase gasosa do solo
apresenta, qualitativamente, os mesmos principais componentes presentes no ar
atmosférico. Porém, quantitativamente, pode haver grandes diferenças, devido
à respiração das raízes e dos microrganismos, à decomposição da matéria orgâ-
nica e às reações ocorridas no solo, onde há o consumo de O2 e liberação de
CO2, com constantes alterações nos fluxos entre os compartimentos (ROCHA;
ROSA; CARDOSO, 2009).

Questões para reflexão


Prezado(a) acadêmico(a), com seus conhecimentos adquiridos o que
você considera mais importante para o crescimento das plantas: o solo,
a água ou a interação dos dois?
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 165

Seção 3 Propriedades físicas, contaminação


e remediação do solo
Nesta seção vamos estudar sobre a propriedades físico-químicas do solo,
as principais fontes de contaminação dos solos, como os pesticidas, metais
pesados e o lixo urbano, assim como também estudaremos alguns processos
de remediação do solo. Vamos conhecer como é o processo de biorremediação
e fitorremediação.

3.1 Propriedades físico-químicas do solo


A argila, que é uma das constituintes do solo, é formada por minerais
secundários, óxidos de ferro e de alumínio cristalinos ou amorfos e matéria
orgânica, e é a principal responsável pelas propriedades físico-químicas dos
solos, pelo fato de apresentar elevada superfície específica e alta reatividade
dos seus componentes (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).

3.1.1 Capacidade de troca catiônica do solo


A capacidade de troca catiônica ou CTC do solo é definida como a quantidade
de cátions adsorvidos reversivelmente por unidade de massa de material
seco, e expressa a capacidade do solo de trocar cátions (MANAHAN, 2013).
A quantidade de cátions é fornecida pelo número de cargas positivas (centimol
ou milimol) em uma massa de solo seca, geralmente 100 g ou 1 kg. Os valores
de CTC encontrados para minerais argilosos variam de 1 a 150 centimol kg–1.
Já o CTC para a matéria orgânica pode atingir até 400 centimol kg-1 (BAIRD;
CANN, 2011; ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009). A troca de cátions no solo
nada mais é do que o mecanismo em que o potássio, o cálcio, o magnésio
e metais essenciais em nível traço são disponibilizados para as plantas
(MANAHAN, 2013).

3.1.2 Acidez do solo


Bronsted e Lowry definem que ácida é uma substância que tende a ceder
prótons (íons hidrogênios) a uma outra, e uma base é qualquer substância que
tende a receber os prótons. O ácido, em solução aquosa, se dissocia ou se
ioniza gerando H+ e o ânion correspondente.
166 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Os H+ dissociados correspondem à acidez ativa e o HA, indica a acidez


potencial, portanto, quanto mais o equilíbrio da reação for deslocado para a
direita, maior será a atividade do H+ e mais forte será o ácido. Assim, em meio
aquoso, o H+ está sempre hidratado sendo predominante na forma de hidrônio,
H3O+ (H2O + H+  H3O+) (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
Nos ácidos fortes, a acidez ativa se aproxima da potencial, porém, nos ácidos
fracos, a acidez ativa é menor do que a potencial. Por isso que a medição da
acidez total em ácidos fracos não oferece indicação da acidez ativa (ROCHA;
ROSA; CARDOSO, 2009).

3.1.3 Processos de oxidação e redução do solo


Os solos podem sofrer reações químicas que proporcionam variações
em seus estados de oxidação-redução (redox), alterando as características de
elementos como C, N, O, S, Fe, Mn, Ag, As, Cr, Cu, Hg e Pb. Os equilíbrios
de oxiredução são controlados pela atividade de elétron livre, podendo ser
expressos pelos valores de pE (o logaritmo negativo da atividade do elétron) ou
Eh (diferença, em milivolt do potencial entre o eletrodo de platina e o eletrodo-
-padrão de hidrogênio). Baixos valores de pE estão associados à presença de
espécies reduzidas, já altos valores de pE favorecem a existência de espécies
oxidadas (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).

3.1.4 Adsorção de metais no solo


O comportamento e a biodisponibilidade dos metais em solos está asso-
ciado à adsorção de metais da fase líquida para a fase sólida. Esses processos
controlam a concentração de íons metálicos e seus complexos na solução do
solo e exercem grande influência no seu acúmulo em plantas. Assim, temos
que os principais constituintes do solo relacionados a reações de adsorção são
os óxidos de Al, Fe e Mn (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).

Atividades de aprendizagem
A argila origina-se da desagregação de rochas feldspáticas, por intempe-
rismo químico ou físico, que produz a fragmentação em partículas muito
pequenas. Ela pode ser encontrada próxima de rios, muitas vezes for-
mando os barrancos nas margens. A argila é a principal responsável pelas
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 167

propriedades físico-químicas dos solos, porque apresenta elevada superfí-


cie específica e alta reatividade dos seus componentes. Com base no texto,
quais são as principais propriedades físico-químicas dos solos? Assinale
a alternativa CORRETA.
a) Hidrólise, pH, acidez e absorção.
b) Reações com metais, pH, acidez e oxidação.
c) Lixiviação, hidrólise, oxidação e redução.
d) Troca aniônica, adsorção de metais e pH.
e) Troca catiônica, acidez, oxidação, redução e adsorção de metais.

3.2 Fontes de contaminação dos solos


Caro(a) acadêmico(a), vamos estudar nesta seção de forma bem rápida
alguns contaminantes específicos do solo.
De acordo com Derisio (2012), entre as fontes de poluição do solo, des-
tacam-se aquelas de origem natural, associadas a catástrofes, tais como ter-
remotos, vendavais, inundações e atividade vulcânica, e aquelas derivadas
da atividade humana. As fontes derivadas da atividade humana podem ser
relacionadas como: poluição decorrente da disposição de resíduos sólidos
domésticos, hospitalares e industriais; poluição decorrente de resíduos líqui-
dos sanitários e industriais; poluição decorrente da urbanização e ocupação
do solo; poluição decorrente de atividades agropastoris; poluição decorrente
de atividades extrativistas; poluição decorrente de acidentes no transporte de
cargas (DERISIO, 2012).
Os resíduos sólidos gerados pela atividade humana são, geralmente, dispos-
tos diretamente sobre o solo, na forma de aterros, por infiltração ou pela acu-
mulação sobre o solo. Nessa lógica os resíduos sólidos podem ser agrupados de
acordo com a sua origem, como: resíduos sólidos domésticos; resíduos sólidos
de serviços de saúde; resíduos sólidos industriais (DERISIO, 2012). Dentre estes
contaminantes do solo provenientes dos resíduos sólidos, vamos estudar ainda
algumas espécies químicas potentes como os pesticidas e os metais pesados.

3.2.1 Pesticidas
Para atender à demanda alimentícia há muito tempo tem sido necessária a
utilização de pesticidas/herbicidas na agricultura. Os pesticidas são responsáveis
168 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

pela maior parte da alta produtividade agrícola, sendo os principais responsá-


veis pelos problemas de poluição associados à agricultura (MANAHAN, 2013).
Os pesticidas são substâncias de origem natural ou sintética utilizadas no
controle e/ou na eliminação/diminuição de pragas como insetos e ervas dani-
nhas. Já herbicidas são substâncias químicas que controlam ou matam plantas
daninhas (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
Após a aplicação dos pesticidas, estes podem permanecer no solo por
muito tempo, mantendo ou não seu efeito biológico, assim sendo, é importante
conhecer seu comportamento no solo, prevendo possíveis danos à litosfera,
hidrosfera e atmosfera (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
Os pesticidas são compostos químicos que têm grande influência no solo
e nos organismos nos quais ele atua, pois precisam entrar em contato direto e
persistirem tempo suficiente para serem eficazes. Quando os pesticidas perma-
necem no solo por períodos longos de tempo, percebe-se que: tornam-se mais
resistentes aos processos de extração e dessorção; ficam menos biodisponíveis
aos organismos; diminui sua toxidade total (MANAHAN, 2013).
O comportamento dos herbicidas é dependente das propriedades físico-
-químicas e biológicas do solo, e de fatores climáticos. Os três processos bá-
sicos que ocorrem com os pesticidas no solo são a retenção, transformação e
transporte. O processo de transporte realizado pelo movimento das moléculas
do herbicida no solo é influenciado por fatores como umidade, temperatura,
densidade, características físico-químicas do solo e do pesticida. Grande parte é
transportada por ventos, chuvas, depositando-se em outros reservatórios, como
atmosfera e hidrosfera (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).

Para saber mais


Caro(a) acadêmico(a), é importante saber que os principais herbicidas utilizados na agricultura
atualmente são o glifosato, atrazina e o paraquat.

3.2.2 Metais pesados


Os metais pesados são elementos que possuem o peso específico maior do
que 5 g/cm³ ou que possuem o número atômico maior do que 20, englobando
metais, semimetais e não metais como é o caso do selênio. Os principais são:
Cu, Fe, Mn, Mo, Zn, Co, Ni, V, Al, Ag, Cd, Cr, Hg, e Pb (MACÊDO, 2002).
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 169

O destino final dos metais pesados e também de muitos compostos orgâni-


cos tóxicos é a deposição e o soterramento em solos e sedimentos. Os metais
pesados acumulam-se na camada superior do solo, sendo então acessíveis para
as raízes das plantas cultivadas em plantações (BAIRD; CANN, 2011).
Os cátions de metais pesados possuem afinidade com os materiais húmi-
cos sendo extraídos da água que passa através deles por meio de processos de
troca iônica. Essa fixação de cátions metálicos ocorre por meio da formação
de complexos com os íons metálicos através dos grupos (-COOH) dos ácidos
húmicos e fúlvicos.
Segundo Baird e Cann (2011) os metais pesados são retidos no solo por três
vias, conforme: por adsorção sobre as superfícies das partículas minerais; por
complexação pelas substâncias húmicas das partículas orgânicas; por reações
de precipitação.
A precipitação dos íons mercúrio e cádmio acontece por meio da formação
dos sulfetos insolúveis HgS e CdS quando o íon livre em solução encontra-se
com um íon sulfeto. Em solos ácidos, a concentração de Cd2+ pode ser au-
mentada, já que esse íon possui adsorção fraca sobre argilas e outros materiais
particulados. Acima de pH 7, o cádmio precipita como sulfeto, carbonato ou
fosfato. O tratamento do solo com cal a fim de aumentar seu pH é um método
efetivo para fixar o íon cádmio, impedindo assim sua absorção pelas plantas
(BAIRD; CANN, 2011).

3.2.3 O lixo urbano


Atualmente a principal forma de descartar os resíduos urbanos sólidos se
dá pelo uso dos aterros sanitários. Estes por sua vez são formados por pilhas de
rejeitos erguidas no solo ou em uma depressão geológica, e são compactadas
e cobertas por solo a intervalos regulares. Esse método permite a cobertura fre-
quente das pilhas de resíduos a fim de minimizar o arraste do lixo pelo vento,
a contaminação da água e outros efeitos indesejados.
Os aterros sanitários produzem emissões gasosas e aquosas onde a biomassa
é degradada, consumindo rapidamente todo o oxigênio por meio da biodegra-
dação aeróbia dos microrganismos presentes, emitindo dióxido de carbono e
gerando metano por degradação anaeróbia.
O metano é um gás de efeito estufa e representa um risco alto de explosão
para as estruturas erguidas sobre os aterros. O sulfeto de hidrogênio (H2S) é um
gás tóxico e com odor desagradável, gerado pela biodegradação anaeróbia. Em
170 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

um aterro sanitário adequado, os volumes de sulfeto de hidrogênio liberados são


pequenos e o gás tende a oxidar antes de atingir a atmosfera (MANAHAN, 2013).
A água infiltrada nos aterros sanitários dissolve a matéria no lixo escorrendo
na forma de chorume, que pode infiltrar em águas subterrâneas, potencializando
a contaminação.

3.3 Remediação do solo contaminado


As tecnologias de remediação de solos contaminados são baseadas nas
propriedades químicas de substâncias ou processos físicos que serão utilizados
para retenção, mobilização ou destruição de um determinado contaminante
presente no solo. Essas técnicas podem ser aplicadas in situ, isto é, no lugar
da contaminação, ou ex situ, processo característico pela remoção do material
contaminado para outro local, onde depois é realizado o tratamento (BAIRD;
CANN, 2011; ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
As tecnologias disponíveis para a remediação de locais contaminados são
classificados em três categorias: retenção ou imobilização; mobilização; des-
truição. As técnicas de retenção in situ, são as que empregam o isolamento
dos resíduos do ambiente circundante, cobrindo o local contaminado com
argila ou o uso de muro de retenção de baixa permeabilidade que impeçam
o espalhamento lateral dos contaminantes. Já retenção ex situ corresponde à
colocação do solo contaminado em um aterro especial. As técnicas de imo-
bilização incluem a solidificação e estabilização do material contaminado,
sendo especialmente úteis para resíduos inorgânicos, que são difíceis de tratar
por outros métodos. Já as técnicas de mobilização são geralmente aplicadas
in situ e incluem a lavagem do solo e a extração dos vapores contaminantes
(BAIRD; CANN, 2011).

3.3.1 Biorremediação
A biorremediação é a utilização de organismos vivos, especialmente micror-
ganismos, para degradar ou transformar poluentes ambientais em substâncias
com toxicidade reduzida. Essa técnica é empregada para substâncias orgânicas,
como combustíveis e solventes orgânicos e para a remediação de depósitos
de lixo e solos contaminados com compostos orgânicos semivoláteis, como os
HPAs (hidrocarbonetos policíclicos aromáticos), podendo também ser aplicada
em substâncias inorgânicas. A biorremediação explora a capacidade dos mi-
crorganismos (bactérias e fungos) na degradação de muitos tipos de resíduos,
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 171

para substâncias mais simples e menos tóxicas. (BAIRD; CANN, 2011; ROCHA;
ROSA; CARDOSO, 2009).
Segundo Baird e Cann (2011), para que uma técnica de biorremediação
funcione, esta deverá atender a algumas condições: os resíduos devem ser
susceptíveis à degradação biológica e estar presentes sob uma forma física
acessível para os microrganismos; os microrganismos apropriados devem
estar disponíveis; as condições ambientais como pH, temperatura e nível de
oxigênio devem ser adequadas. Para a biorremediação de substâncias orgâni-
cas, geralmente os poluentes são degradados a CO2 ou CH4 e H2O, ocorrendo
sob condições aeróbicas e anaeróbicas dependendo das condições do meio
(BAIRD; CANN, 2011).
Os principais fatores que influenciam na biorremediação, são as condições
ambientais, como o tipo de solo, a profundidade do nível da água, a concentra-
ção de nutrientes, o potencial redox, o pH e a temperatura. Antes de iniciar um
projeto de biorremediação, a natureza e a extensão das substâncias químicas
no solo devem ser avaliadas (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).

3.3.2 Fitorremediação
A fitorremediação é o uso de vegetação para a descontaminação in situ
de solos e sedimentos, eliminando metais pesados e poluentes orgânicos. As
plantas podem remediar poluentes por meio de três mecanismos: ingestão direta
dos contaminantes e acumulação no tecido da planta (fitoextração); liberação
no solo de oxigênio e substâncias bioquímicas, como enzimas que estimulam
a biodegradação dos poluentes; intensificação da degradação por fungos e
micróbios localizados na interface raiz-solo (BAIRD; CANN, 2011).
Uma das grandes vantagens da fitorremediação é que determinadas plantas
são hiperacumuladoras de metais, ou seja, têm altos índices de contaminan-
tes por absorver e concentrar metais por meio de suas raízes. Essas plantas
desenvolvem-se nos locais contaminados sendo posteriormente cortadas e in-
cineradas (BAIRD; CANN, 2011). As espécies químicas que mais são absorvidas
na fitorremediação são os metais (Pb, Ni, Hg, Zn, Cu, Se, U, Cs), compostos
inorgânicos (NO3–, NH4+, PO43–), hidrocarbonetos derivados de petróleo (BTXs),
pesticidas derivados dos organoclorados e dos nitroaromáticos, explosivos (TNT,
DNT), solventes clorados (TCE) e resíduos orgânicos industriais (PCPs e HPAs),
entre outras (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
172 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Para a implantação de remediação do solo por meio de fitorremediação


devem ser consideradas algumas características como as propriedades físico-
-químicas do solo, do contaminante e sua distribuição na área, pois qualquer
fator que interfira negativamente no desempenho das plantas deve ser contro-
lado. Para que as plantas tenham potencial para serem utilizadas na fitorreme-
diação, elas devem possuir algumas características básicas como: alta taxa de
crescimento e produção de biomassa; capacidade de absorção, concentração
ou metabolização e tolerância ao contaminante; sistema radicular profundo
e denso; elevada taxa de transpiração radicular, especialmente em árvores e
plantas perenes; fácil colheita, quando necessário remover a planta da área;
ocorrência natural em áreas poluídas; resistência a pragas e doenças; capa-
cidade transpiratória elevada; capacidade de se desenvolver em ambientes
diversos (ROCHA; ROSA; CARDOSO, 2009).
A fitorremediação possui vantagens, como baixo custo, benefícios estéticos,
natureza não invasiva e extração de metais facilitada, sendo que com outras
técnicas geralmente é difícil extrair metais e poluentes devido a suas baixas
concentrações (BAIRD; CANN, 2011).

Atividades de aprendizagem
As atividades das indústrias florestais da Nova Zelândia causaram a conta-
minação de centenas de locais em que a madeira serrada é tratada com o
pentaclorofenol (PCP) como agente defensivo. Os contaminantes do PCP,
como os furanos e as dioxinas, são encontrados nos solos e lixiviados,
assim introduzidos nas águas subterrâneas de algumas dessas regiões,
começando a bioacumular-se na cadeia alimentar. Diante do exposto,
analise as assertivas abaixo relacionadas à remediação do solo:
I. A remediação de solos contaminados baseia-se nas propriedades
químicas e físicas dos contaminantes, promovendo a retenção, mo-
bilização e destruição.
II. As técnicas de remediação podem ser aplicadas in situ, (no lugar da
contaminação), ou ex situ (remoção para tratamento posterior).
III. A biorremediação é a utilização de organismos vivos, para degradar
ou transformar poluentes ambientais em substâncias com menor
toxicidade.
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 173

IV. A fitoestabilização é o processo que causa a proliferação de micror-


ganismos degradativos na rizosfera.
Estão corretas:
a) As assertivas I, II e III apenas;
b) As assertivas I, III e IV apenas;
c) As assertivas I, II e IV apenas;
d) As assertivas III e IV apenas;
e) A assertiva I apenas.

Questões para reflexão


Prezado(a) acadêmico(a), com seus conhecimentos adquiridos você
acredita que os pesticidas ajudam mais os seres humanos do que pre-
judicam o meio ambiente?

Fique ligado!
Nesta unidade você aprendeu que:
Todos os elementos químicos, inclusive aqueles elementos essenciais
para a vida, tendem a circular na biosfera em caminhos caracte-
rísticos, que vão do ambiente para o organismo e de volta para o
ambiente.
Os ciclos biogeoquímicos promovem o fluxo dos elementos quí-
micos de um reservatório a outro, onde a atmosfera, hidrosfera,
litosfera e biosfera têm a função de reservatórios biogeoquímicos
para armazenamento dos elementos químicos
Com a existência dos ciclos biogeoquímicos é atribuído à biosfera
um poder importante de autorregulação, assegurando a sustentabi-
lidade dos ecossistemas.
174 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

O nitrogênio é o gás mais abundante na atmosfera, contribuindo com


aproximadamente 78% de sua composição, porém, ele não é reativo,
com isso, não pode ser usado diretamente por muitos organismos.
O ciclo biogeoquímico do nitrogênio é um dos mais importantes e
complexos ciclos globais, apresentando um processo dinâmico de
intercâmbio de nitrogênio entre a atmosfera, a matéria orgânica e
compostos inorgânicos.
O fósforo tende a circular com componentes orgânicos na forma de
fosfato (PO4), elemento que é novamente disponibilizado para as plantas.
O enxofre é um elemento químico essencial à vida na Terra, onde
organismos vivos, incluindo plantas, assimilam espécies de enxofre,
enquanto que várias formas de enxofre são emitidas como produto
final de seus metabolismos.
O elemento enxofre possui um ciclo basicamente sedimentar, embora
possuindo uma fase gasosa de pouca importância.
O carbono é um elemento químico de grande importância para o
ecossistema, fazendo parte de toda a matéria orgânica e de tudo o
que tem vida, sendo fundamental na respiração, fotossíntese e regu-
lação do clima.
No ciclo biogeoquímico do carbono estão envolvidos quatro re-
servatórios principais, sendo eles: a atmosfera, o oceano (incluindo
organismos marinhos), a superfície continental (incluindo plantas
terrestres e solos) e a litosfera.
A maior parte da crosta terrestre sólida é formada por rochas, onde
estas são compostas por sólidos inorgânicos de ocorrência natu-
ral e com uma estrutura cristalina interna e composição química
características.
O solo pode ser representado como um ciclo natural em que parti-
cipam fragmentos de rochas, minerais, água, ar, seres vivos e seus
detritos em decomposição, resultantes de fatores climáticos e da
atividade combinada de microrganismos decompondo restos de
animais e vegetação.
O perfil de um solo é a sucessão vertical dos horizontes, possuindo
quatro horizontes principais formados pela ação da pedogênese.
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 175

O intemperismo é o conjunto de modificações de ordem física e


química que as rochas sofrem ao surgir na superfície da Terra.
O intemperismo físico são todos os processos que provocam a de-
sagregação e a fragmentação das rochas, com separação dos grãos
minerais, transformando a rocha inalterada em material descontínuo
e friável.
O principal agente do intemperismo químico é a água da chuva,
que infiltra e percola as rochas, favorecendo as reações químicas de
hidrólise, acidólise, hidratação, dissolução e oxidação.
A hidrólise é a reação de sais de ácido fraco e bases fortes com água,
resultando em uma solução alcalina.
A oxidação é a reação que acontece com transferência de elétrons,
modificando o número de elétrons dos minerais envolvidos, adqui-
rindo outras propriedades.
O solo é formado por constituintes nos três estados físicos da matéria:
sólido, líquido e gasoso, cujas proporções relativas variam de solo
para solo.
A solução do solo é uma solução de eletrólitos quase em equilíbrio,
que ocorre no solo em condições de não saturação de umidade.
As principais propriedades físico-químicas do solo são a capacidade
de troca catiônica, acidez, processos de oxidação e redução e a
adsorção de metais.
A capacidade de troca catiônica ou CTC do solo é definida como a
quantidade de cátions adsorvidos reversivelmente por unidade de
massa de material seco, e expressa a capacidade do solo de trocar
cátions.
Uma substância é ácida quando tende a ceder prótons (íons hidro-
gênios) a uma outra, e uma base, é qualquer substância que tende
a receber os prótons.
Os solos podem sofrer reações químicas que proporcionam variações
em seus estados de oxidação-redução (redox), alterando as caracte-
rísticas de espécies químicas.
O comportamento e a biodisponibilidade dos metais em solos está
associado à adsorção de metais da fase líquida para a fase sólida,
176 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

controlando a concentração de íons metálicos e seus complexos na


solução do solo e influenciando seu acúmulo nas plantas.
Alguns dos contaminantes do solo podem ser os resíduos sólidos,
pesticidas e os metais pesados.
Os pesticidas são substâncias de origem natural ou sintética utiliza-
das no controle de pragas (insetos, ervas daninhas, entre outras), as
quais acarretam prejuízos na produção de alimentos, ou transferem
enfermidades aos seres humanos e a outros organismos.
Os metais pesados são elementos que possuem o peso específico
maior do que 5 g/cm³ ou que possuem o número atômico maior do
que 20.
O lixo urbano é potencialmente tão perigoso quanto os resíduos
químicos, pois o descarte inadequado de agentes de limpeza, sol-
ventes, baterias de chumbo e outros, representa grande risco de
contaminação ambiental.

Para concluir o estudo da unidade


Caros(as) acadêmicos(as), ao concluir os estudos apresentados, poderá
surgir interesse em aprofundar os temas. Assim, seguem alguns livros para
aprofundamento nos assuntos estudados:
BAIRD, C.; CANN, M. Química Ambiental. 4. ed. Porto Alegre: Book-
man, 2011.
MANAHAN, S. E. Química Ambiental. 9. ed. Porto Alegre: Bookman,
2013.
ODUM, E. P.; BARRETT, G. W. Fundamentos de Ecologia. São Paulo:
Cengage Learning, 2011.
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 177

Atividades de aprendizagem da unidade


Para fixar melhor o conteúdo estudado, vamos exercitar um pouco.
Leia as questões a seguir e responda-as em seu Caderno de Estudos.
Bom trabalho!
1. A maior parte dos seres vivos não consegue utilizar o nitrogênio atmosfé-
rico para sintetizar proteínas e outras substâncias orgânicas. O nitrogênio
é pouco reativo do ponto de vista químico, e apenas certas bactérias e
algas azuis possuem a capacidade altamente especializada de assimilar
o nitrogênio da atmosfera e convertê-lo numa forma que pode ser usada
pelas células. Diante do expostos analise as assertivas abaixo:
I. A fixação do nitrogênio atmosférico é o processo pelo qual o N2
atmosférico reage para formar outro composto nitrogenado.
II. A amonificação é a transformação do nitrogênio orgânico na forma
mineral de amônio (NH4+).
III. A desnitrificação é a transformação de nitratos e nitritos em ami-
noácidos úteis aos seres vivos.
IV. A nitrificação é a transformação do amônio em nitrito (NO2-) e
nitrato (NO3–).
Estão corretas:
a) As assertivas I, II e IV apenas; d) As assertivas II e IV apenas;
b) As assertivas III e IV apenas; e) A assertiva III apenas.
c) As assertivas I e II apenas;
2. As plantas realizam fotossíntese retirando o carbono do ambiente com o
objetivo de produzir matéria orgânica (glicose). A glicose é oxidada pelo
processo de respiração celular aeróbia, liberando o CO2 para o ambiente.
A decomposição e a queima de combustíveis fósseis também liberam o
CO2 para o ambiente. O aumento da concentração de CO2 atmosférico
causa o efeito estufa intensificado, desencadeando mudanças climáticas.
Referente ao ciclo do carbono, analise as assertivas abaixo:
I. O depósito atmosférico de carbono é pequeno se comparado
com a quantidade de carbono no oceano, combustíveis fósseis e
outros depósitos na litosfera.
178 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

II. A queima de combustíveis fósseis está contribuindo para o au-


mento de CO2 na atmosfera, sendo que em 2013 a concentração
era de 395 ppm.
III. No ciclo do carbono, os reservatórios são a atmosfera, o oceano,
a superfície continental e a litosfera.
IV. Na atmosfera, o carbono só pode ser encontrado na forma de
dióxido de carbono (CO2).
Estão corretas:
a) As assertivas I, II e IV apenas; d) As assertivas II e IV apenas;
b) As assertivas I, II e III apenas; e) A assertiva II apenas.
c) As assertivas I e II apenas;
3. O solo é a camada mais superficial da crosta terrestre, onde as plantas
se desenvolvem e os animais vivem. A camada de solo não é muito
profunda, tendo em média, 30 cm de espessura. Esta camada vem
sendo formada há milhões de anos, com o acúmulo de pequenas
partículas, formadas pelo desgaste de rochas, restos de animais e
plantas. Assim, as modificações sofridas pela rocha modificada pelo
intemperismo são caracterizadas por:
I. Precipitação de matéria, em contato com a água da chuva acidificada.
II. Perda de matéria tanto física (remoção de partículas) como química
(lixiviação).
III. Adição de matéria, como a matéria orgânica de origem animal ou
vegetal, poeiras minerais vindas da atmosfera e sais minerais.
IV. Remobilização pelos fluxos de soluções no interior do perfil ou
pela ação da fauna.
Estão corretas:
a) As assertivas I, II e IV apenas; d) As assertivas II e III apenas;
b) As assertivas I, II e III apenas; e) A assertiva II apenas.
c) As assertivas II, III e IV apenas;
4. Para o desenvolvimento do solo é necessário principalmente que as
rochas sejam modificadas pelo processo do intemperismo físico e
químico. Essas modificações estruturais passam por uma reorganiza-
ção e transferência dos minerais formadores do solo entre os níveis
Os ciclos biogeoquímicos e a química do solo 179

superiores do manto de alteração. Depois entram em ação a fauna


e a flora do solo que, ao realizarem suas funções vitais, modificam
e movimentam grandes volumes de material, mantendo o solo aerado
e renovado em sua parte exposta. Com base no texto, como é chamado
o processo de formação do solo?
a) Diagênese; d) Pedogênese;
b) Lixiviação; e) Litificação.
c) Intemperismo;
5. Em fevereiro de 2001, a Shell admitiu sua responsabilidade pela con-
taminação das chácaras próximas à área onde funcionou sua fábrica
de agrotóxicos em Paulínia. Os agrotóxicos organoclorados Endrin,
Dieldrin e Aldrin foram encontrados no lençol freático sob as chácaras
localizadas entre a fábrica e o Rio Atibaia, que abastece de água as
cidades de Americana e Sumaré. A contaminação causada pela Shell
em Paulínia é tóxica, persistente e bioacumulativa, podendo causar
sérios danos ao meio ambiente e à saúde humana.
Fonte: SUASSUNA, K. Contaminação em Paulínia por Aldrin, Dieldrin, Endrin e outros com-
postos tóxicos produzidos e descartados pela Shell do Brasil S.A. Campanha de Substâncias e
Tecnologias Tóxicas. São Paulo: Greenpeace Brasil, 2001.

Assim verificamos que as principais fontes de contaminação antrópica


do solo são:
I. Disposição de resíduos sólidos domésticos, hospitalares e industriais;.
II. Resíduos líquidos sanitários e industriais.
III. Urbanização e ocupação do solo.
IV. Tratamento de água.
V. Poluição decorrente de acidentes no transporte de cargas.
Estão corretas:
a) As assertivas I, II e V apenas;
b) As assertivas I, II e III apenas;
c) As assertivas II, III e IV apenas;
d) As assertivas II, III e V apenas;
e) As assertivas I, II, III e V apenas.
180 Q U Í M I C A A M B I E N TA L

Referências
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LENZI, E.; FAVERO, O. B. Introdução à Química da Atmosfera: Ciência, Vida e
Sobrevivência. Rio de Janeiro: LTC, 2011.
LEPCH, O. F. Formação e conservação dos solos. São Paulo: Oficina de Textos, 2002.
MACÊDO, J. A. B. de. Introdução à Química Ambiental: Química e Meio Ambiente e
Sociedade. 1.ed. Juiz de Fora: Jorge Macedo, 2002.
MANAHAN, S. E. Química Ambiental. 9.ed. Porto Alegre: Bookman, 2013.
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Química da Atmosfera. Química Nova na Escola, Caderno Temático de Química, Vida e
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MOZETO, A. A.; JARDIM, W. de F. A Química Ambiental no Brasil. Química Nova. Vol. 25,
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ROCHA, J. C.; ROSA, A. H.; CARDOSO, A. A. Introdução à Química Ambiental. 2.ed. Porto
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TOLEDO, M. C. M. de; OLIVEIRA, S. M. B. de; MELFI, A. J. Da rocha ao solo: intemperismo
e pedogênese. In: TEIXEIRA, W.; FAIRCHILD, T. R.; TOLEDO, M. C. M. de; TAIOLI, F. (Orgs.).
Decifrando a Terra. 2.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009.
UNOPAR
QUÍMICA
AMBIENTAL

QUÍMICA AMBIENTAL

ISBN 978-85-68075-44-9

9 788568 075449