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Arqueologia Preventiva no Patrimônio Arqueológico Brasileiro

Rossano Lopes Bastos 1 & Marise Campos de Souza 2

O presente trabalho prende-se aos esforços de identificar os problemas mais comuns

que ocorrem em projetos de avaliação de impacto sobre o Patrimônio Arqueológico no Sul e Sudeste do Brasil.

A avaliação de impactos ambientais no Brasil é recente enquanto obrigação legal, e

remonta ao ano de 1986, o que contribui para que haja ainda alguma resiliência por parte das empresas de consultoria ambiental de se colocar em conformidade com as necessidades de avaliação do Patrimônio Arqueológico na matriz de dados a ser avaliada nos estudos de impacto ambiental. Por outro lado à falta de legislação que regulamente a profissão do arqueólogo e a inexistência de um órgão representativo do mesmo, considerando que no Brasil para se profissionalizar nesta área é necessário obter no mínimo um curso de pós- graduação em arqueologia tem possibilitado que profissionais de outras áreas ambientais afins se julguem no direito de opinar nas questões arqueológicas de forma irresponsável trazendo prejuízos ao Patrimônio. Nossa proposta aqui é apontar estas anomalias e introduzir propostas e um dos modelos de avaliação cumulativa que levem em conta as questões arqueológicas. As questões que fazem parte deste estudo estão associadas a nossa atividade de agente público, responsável pela avaliação, fiscalização e monitoramento dos mais diversos projetos de Arqueologia no Sul e sudeste do Brasil, especialmente nos Estado de Santa Catarina e São Paulo. Nossa atividade é desenvolvida no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico e Nacional, autarquia federal que cuida do Patrimônio Cultural Brasileiro desde 1937, quando foi criado. A experiência estará embasada nas especificidades dos Estados do Sul e sudeste do Brasil, não contemplando estudos ou exemplos do Norte do País, incluindo a Amazônia. Fica cada vez mais evidente que as demandas do conhecimento ambiental e

arqueológico, apontam principalmente para respostas transdisciplinares. Quando optamos por este viés, estamos conscientes das limitações de ordem teórica-prática que enfrentaríamos, por se tratar de assunto embora não muito recente, mas de certa forma emergente no Brasil e nos Estados do Sul e Sudeste do Brasil.

A implantação de teIミologia dita さliマpaざ eマ eマpヴeeミdiマeミtos de gヴaミde envergadura, nem sempre obedecem a padrões de intervenção compatíveis com a magnitude dos impactos sobre o Patrimônio Arqueológico. Desta Forma, torna-se necessário à elaboração e execução de projetos de levantamento e salvamento arqueológico que contemplem de forma satisfatória a salvaguarda dos bens arqueológicos. As ações de fiscalização e vistorias de empreendimentos por parte do IPHAN identificaram particularmente, problemas que ocasionaram a destruição, mutilação e perdas de informação da memória nacional.

1 Arqueólogo do IPHAN/SP, Livre docente em Arqueologia Brasileira pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Professor colaborador do MAE/USP. rossanolopes@gmail.com

2 Arqueóloga do IPHAN/SP Doutora em Arqueologia pela Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal

Em alguns países, a política ambiental exige avaliações das propostas de empreendimentos, obras e serviços, que apreciem seus efeitos cumulativos potenciais.

No Brasil estas práticas relativas ao Patrimônio Arqueológico ainda são principiantes, pois falta aos empreendedores e as agências ambientais governamentais de absorverem a nova mentalidade de se prever e diagnosticar os impactos mais comuns sobre o Patrimônio Arqueológico, e os impactos cumulativos e indiretos. Diante disso, é que apresentamos algumas propostas baseadas na norma legal, procurando oferecer subsídios à comunidade de profissionais, consultores e pesquisadores no trato de questão relativa ao Patrimônio Arqueológico.

O Patrimônio Arqueológico possui uma base de dados finita e diferentemente de

outros sistemas não comporta restauração. Sua capacidade de suporte de alterações é

muito limitada, por isso reflexões que apontam para a identificação e minimização dos impactos cumulativos constituem nossa preocupação. Em muitos países, a política ambiental exige avaliações prévias das propostas para obras e serviços em empreendimentos que possam causar impactos sobre o ambiente.

A tarefa de avaliar tais ações contempla entre outras exigências, a de levar em

consideração os efeitos cumulativos potenciais. Impactos Cumulativos Bastos (2001) coloca que devemos observar por meio das análises e avaliações dos programas de mitigação, compensação e salvamentos arqueológicos a necessidade de desenvolvimento de abordagens que visem equacionar os problemas dos impactos cumulativos. Normalmente, os referidos programas apresentam grandes dificuldades em sua implantação, que podem ser ocasionados, sobretudo pela falta de continuidade dos trabalhos, pela resistência dos empreendedores aos custos dos projetos, pelas mudanças administrativas e alterações da razão social das empresas contratantes. Outros fatores também se somam a estes, como a privatização de algumas empresas públicas envolvidas na execução dos empreendimentos, ou a dificuldade dos s empreendedores e agências ambientais governamentais que tratam do licenciamento de observar a necessidade de se diagnosticar e prever com metodologias apropriadas os impactos mais comuns sobre o patrimônio arqueológico com a devida antecedência.

A dificuldade se torna ainda maior quando se trata de fazer compreender a

necessidade de se diagnosticar e prognosticar os impactos e efeitos cumulativos sobre

os

bens arqueológicos.

As

avaliações dos efeitos e impactos cumulativos devem ser incorporadas e difundidas

junto aos arqueólogos que trabalham com a arqueologia preventiva. Os elementos para diagnosticar e avaliar os impactos cumulativos implica numa proposição interdisciplinar e mais abrangente das alterações que sofrem os sistemas arqueológicos. Em geral esta perspectiva deve considerar:

O maior número de variáveis de perturbação do sitio ou unidade arqueológica;

Causas inter e intra-sítios e em complexos arqueológicos

Avaliação

integrada

da

área

de

captação

de

recursos

das

populações

pretéritas;

Processo de interação

Escala temporal e seus intervalos

Previsão de impactos e efeitos futuros

É importante o entendimento de que são os impactos cumulativos. Bastos (2001)

refere-se à acumulação de alterações nos sistemas arqueológicos ao longo do tempo e no espaço de forma aditiva ou interativa. Estes também podem ser divididos como estruturais ou funcionais São estruturais os impactos que se referem basicamente as questões espaciais, como a fragmentação. A fragmentação espacial pode ser exemplificada pela alteração do tamanho, da forma e da integridade dos sítios

arqueológicos. Estes são impactos que podem envolver ações naturais e antrópicas, entre elas a pesquisa arqueológica interventiva. Caracterizam-se por impactos funcionais aqueles que se referem basicamente às alterações acumuladas em função

do

tempo. Podem ser concentrados no tempo ou em intervalos regulares ou não.

As

alterações nos sistemas arqueológicos podem ser divididas em:

Acumulação de alterações nos sistemas arqueológicos que interagem ao longo do tempo e no espaço.

Acumulação de alterações que se adicionam nos sistemas arqueológicos ao longo do tempo e do espaço

As ações de alterações podem ser simples ou complexas, multifatoriais, do mesmo tipo ou de tipos diferentes. Alguns tipos de atributos utilizados comumente nas avaliações ambientais podem em certos casos modelar avaliações nos sítios ou sistemas arqueológicos.

Compreendem-se por atributos: tempo, espaço, alteração em escalas, freqüências, densidades, configurações de tipos variados.

A alteração dos sistemas arqueológicos sempre terá uma significância, seja maior ou

menor, diferentemente da unidade de alteração ambiental. Porém, alterações nos sistemas arqueológicos originados por pequenas ações podem se acumular no tempo

e no espaço, resultando em efeitos cumulativos considerados significativos que podem interferir decisivamente na análise e interpretação do registro arqueológico.

A avaliação dos efeitos cumulativos (AEC) sobre os sistemas arqueológicos é o

processo de análise e avaliação das alterações arqueológicas cumulativas. Assim depreende-se o quanto a prática da avaliação dos efeitos cumulativos sobre os sistemas arqueológicos é complexa. Exige paciência, acúmulo e espera características nem sempre palatáveis quando estamos tratando de projetos interventivos que pressupõem um trabalho de resgate. Entretanto, se buscamos uma teoria arqueológica cientifica consistente, torna-se necessário avaliar os efeitos e as alterações cumulativas a que estão sujeitos os registros arqueológicos. As balizas conceituais para as alterações ambientais cumulativas têm origem na geografia de sistemas com Bennett e Chorley (1978); Hugget (1980). Outras IoミtヴiHuiçロes se apヴeseミtaマ atヴavYs dos IoミIeitos de さestヴesseざ da eIologia Baヴett et al. (1976); Rapport et al. (1985) Em geral os sistemas são mensurados pela persistência das relações internas. Segundo Holliミg ふヱΓΒヶぶ, o IoミIeito de ヴesiliZミIia: さY defiミido Ioマo a IapaIidade de uマ sisteマa

de manter a sua estrutura e seu padrão de comportamento diante de uma peヴtuヴHação.ざ.

Os modelos de análise desenvolvidos para avaliação de impactos cumulativos têm os princípios e conceitos derivados da teoria das alterações ambientais, que julgamos ser

o

ponto de partida para a nossa reflexão. Destacamos como principais:

·

Modelos de causalidade de Spalling (1996)

A

teoria da alteração ambiental considera a relação causa e efeito entre a perturbação

e

a reação do sistema. Este modelo causal é fundamental para a compreensão da

estrutura da alteração ambiental cumulativa.

A natureza das relações causa e efeito é complexa tendo em vista a multiplicidade das

causas, dos mecanismos de retroalimentação e das reações variadas do sistema.

· Modelo Insumo processo produto de Spalling (1996)

Este modelo demonstra a estrutura dos elementos de uma alteração ambiental cumulativa, onde insumo é o agente causal da alteração, processo refere-se ao fluxo ou mecanismo pelo qual o agente causal se transforma em uma unidade de alteração

e produto ou reação representa o resultado de uma alteração na estrutura ou função

do sistema. Então, considerando que em geral, as avaliações de impactos cumulativos sobre o patrimônio arqueológico devem se caracterizar por limites temporais e espaciais abrangentes, de modo a incorporar a acumulação das alterações ambientais ao longo do tempo em escala espacial, tem como desafio a elaboração de metodologias de avaliação de impactos cumulativos que contemplem uma definição de uma base de caracterização das fontes de alteração cumulativa dos sistemas arqueológicos e a identificação dos diferentes fluxos, processo e suas variações. Os efeitos cumulativos sobre o patrimônio arqueológico só poderão ser realmente avaliados usando as fontes de informações disponíveis, as provas empíricas ainda escassas e as análises quantitativas e qualitativas que esbarram na falta de dados. Grande parte dos estudos arqueológicos contemplados nos estudos e relatórios de impacto ambiental (EIA, RIMA) apresenta-se incipientes, insatisfatórios ou inadequados. A avaliação dos impactos cumulativos sobre o patrimônio arqueológico exige acompanhamento, monitoramento, cuidado de longo termo e representação arqueológica espacial em diversas escalas.

A falta de conhecimento do próprio universo arqueológico em si dificulta a análise em

escalas temporais e espaciais mais amplas, assim uma análise rigorosa dos impactos cumulativos exige que se criem bases empíricas. Outro grande desafio será a condução de uma avaliação dos impactos cumulativos sobre o patrimônio arqueológico que busque instrumentos técnicos, metodológicos que equacionem de forma a controlar o máximo de alterações cumulativas sobre a base de dados do registro arqueológico. Quais os problemas mais comuns que ocorrem em projetos de avaliação de impacto sobre o Patrimônio Arqueológico?

Nossa intenção ao apontar estas anomalias é a de conduzir a elaboração de propostas

e modelos de avaliação que levem em consideração as questões arqueológicas.

A edição da portaria IPHAN 230/02 de 17 de dezembro de 2002, explicita de forma

didática aquilo que está em norma geral para a execução dos programas preventivos de arqueologia. Ela identificou e demarcou o tempo dos estudos arqueológicos para a

obtenção de licenças ambientais em urgência ou não, e para a implantação de empreendimentos potencialmente causadores de danos a base finita do patrimônio cultural arqueológico. Ao definir os parâmetros para o licenciamento, garantiu a inserção da classe arqueológica no mercado de trabalho junto às empresas de consultoria e assessoria ambientais. Tal medida vem com certo atraso, em 2002, mas com igual importância, pois os argumentos de falta de balizamento para a realização dos referidos estudos arqueológicos não encontram mais resposta em embates de qualquer natureza. Seria bom lembrar que as pesquisas arqueológicas desenvolvidas hoje no Brasil, em sua maioria são de cunho eminentemente preventivo, ou seja, uma arqueologia voltada para a interface ambiental visando licenciar ou não empreendimentos de potencial impacto sobre o ambiente, ai incluso no meio sócio-econômico, o ambiente cultural arqueológico. Hoje o processo de salvamento arqueológico compreende um gama de atividades e operações que no passado na maioria das vezes apresentava sérias dificuldades de finalização e com uma extroversão pública inteiramente comprometida. Se ainda hoje temos uma grande dificuldade de publicização de dados arqueológicos por parte de pesquisadores no Brasil, imaginemos esta situação sem o devido balizamento. No Brasil os arqueólogos recentemente incorporaram outra matriz do pensamento arqueológico há muito já desenvolvida em outros países. Só para citar algumas recentes abordagens, elencamos os estudos arqueológicos preocupados com bens culturais históricos edificados ou não, caminhos, estruturas viárias, quilombos e mais recentemente bens arqueológicos submersos e embarcações soçobradas. Na questão arqueológica submersa encontramos dificuldades legais ainda não ultrapassadas que merecerão oportunamente melhor dedicação, e serão objetos de melhor reflexão, uma vez que este não é o espaço privilegiado para discutir tal assunto. É importante observar que para realizar uma política de preservação Arqueológica é imprescindível ética profissional, uma boa legislação de proteção ao patrimônio arqueológico, inclusiva e cientificamente aceitável. Sobretudo é necessária uma boa articulação política com os entes federativos em todas as suas instâncias e uma participação ativa da comunidade em geral. É conveniente lembrar que as políticas culturais sofrem pressões dos interesses coorporativos, das políticas internas e externas, o que debilita a ação pública na área cultural, no entanto o Estado não pode declinar de sua responsabilidade. Mesmo compreendendo que o fato da responsabilidade da cultura recair sobre o Estado deixa fragilizada à medida que fica exposta à ruptura de continuidade por parte do governo com o desmantelamento de instituições. A cultura fica dependendo da estabilidade institucional do Ministério da Cultura para a continuidade de suas políticas. A cultura como uma herança coletiva de ser democratizada e estar acessível a comunidade. O patrimônio cultural deve ser valorizado, por meio de critérios bem estabelecidos onde esteja contemplada a diversidade e o pluralismo. Política esta, simultaneamente preventiva e pró-ativa. (Campos de Souza 2006: 154). Arqueologia preventiva e suas interfaces sociais: resolução e mediação de conflitos. Memória é a capacidade que temos de armazenar as informações, consolidando-as internamente em diferentes instâncias. Esses fragmentos de elementos é que irão compor a base de nosso conhecimento em função da maneira de como decodificamos cada um deles e de como damos significado as nossas experiências cotidianas. Cada

gesto humano é provavelmente destinado a se tornar patrimônio, não necessariamente de todos, mas certamente será o suficiente para se tornar à memória de uマa pessoa, de uマ gヴupo ou de uマ lugaヴ. さCada peça dos マルveis heヴdados, ou mesmo uma mancha na parede, conta uマa histルヴiaざ ふTuaミ ヱΓΒヰぶ. Segundo Max Weber todos nós precisamos nos sentir como pertencentes a um lugar e ao mesmo tempo perceber que esse lugar nos pertence, isso deve ser tão forte a ponto de nos acreditarmos no direito de interagir com esse lugar. A partir desse pertencimento é que desenvolvemos a nossa compreensão de cultura. Este é um processo dinâmico e em continua construção.

É também esse sentimento que possibilita o agrupamento de pessoas heterogêneas,

existentes numa comunidade, fazendo-os partilhar de um mesmo objetivo cultural, ou seja, preservar a sua herança. A noção de pertencimento aparece também nas discussões sobre a relação entre ética e sustentabilidade, referindo-se a uma possibilidade de transformação de comportamentos, atitudes e valores para formação de pessoas e relações capazes de protagonizar um novo paradigma (Jará 2001). O conceito de Patrimônio Cultural é, assim, uma construção cultural que resolve as

contradições integrando-as, e definindo desta forma um quadro global coerente (supera as contradições), flexível (permite num mesmo momento que segmentos diversos da sociedade privilegiem elementos diversos de um mesmo corpus patrimonial) e dinâmico (vai-se modificando por adição e subtração de elementos, mas, sobretudo por alteração de significados) (Oosterbeek 2000)

A gestão se dá quando nos organizamos para planejar, coordenar, controlar e formular

ações em prol de um determinado objeto. Conhecer o passado é reconhecer que o

patrimônio e a memória são as duas faces da mesma moeda. A essência do homem, ou seja, o agir humano é pensar (Descartes 1641). Então, fundamental para o conhecimento é o pensamento. Esse exercício cuidadoso de pensar é que nos permite projetar nossas ações para o futuro que possibilitarão minimizar os impactos negativos sobre o meio ambiente e o patrimônio arqueológico.

É disto que trata a arqueologia preventiva.

A gestão dos riscos cuida de procurar prever da melhor maneira possível à cadeia de

eventos que poderão se suceder, buscando um equilíbrio aceitável entre a segurança do ambiente e o necessário desenvolvimento para o crescimento sustentável e eco- compatível. A proveniência da incerteza nas gestões de riscos depende das interações entre o patrimônio, meio ambiente, e agentes sociais. São muitos os fatores de riscos:

individuais (ex: escolha errada da modalidade de preservação); ambientais (ex: crises climáticas, fenômenos da natureza imprevisíveis); estruturais (ex: problemas de preservação física do bem); organizacionais (ex: conflitos e disputas entre entes instituições); tecnológicos (ex: tipologia dos instrumentos para monitoramento do patrimônio, tipologias de restauro inadequadas). Assim a gestão depende da capacidade de se compatibilizar as competências de cada um às diversas situações que se apresentam, empregando os instrumentos disponíveis tais como normas legais, convenções do patrimônio, conhecimentos interdisciplinares, etc. Outro fator que se deve observar são as experiências práticas que aparentemente em conflito com as tecnologias modernas podem conter conhecimento do patrimônio imaterial, como as tradições populares fortalecidas pelo uso e transmitidas de pai para filho no tempo.

A gestão do Patrimônio Cultural é a forma integrada como ele poderá permanecer

relevante para o futuro da nossa sociedade. A gestão integrada é um programa transdisciplinar, que implica a identificação, o inventário, o estudo, a conservação e a valorização dos testemunhos materiais e imateriais, superando a sua dicotomia. Gerir o Patヴiマレミio Y さミegoIiaヴざ a ヴelação entre propriedade (conjuntural) e memória (essencial), tendo o duplo objetivo de assegurar a conservação (para as gerações futuras) e a fruição (pelas gerações atuais), assim assegurando a relação com as gerações passadas (Oosterbeek 2004).

Impactos possíveis Numa tentativa de classificar os possíveis impactos do patrimônio, em particular o arqueológico os dividimos em categorias como abaixo descrito:

Impacto psicológico

Definimos como impacto psicológico àquele que ocorre quando nosso patrimônio é deixado abandonado no tempo, esquecido ele vai perdendo a sua identidade no lugar (topofilia). Quando por algum motivo quer de cunho político, econômico ou mesmo social a atenção se conduz verso a ele administrando-lhe um trabalho de revitalização. Então o cidadão que ainda possui laços de pertencimento com esse local reaviva a memória oral e recupera topologicamente a sua dimensão humana (cfr. Musil 1930-

42)

Assim, a topofilia seria o sentimento intenso de pertença e/ou freqüentação amorosa

a um espaço, região, território que está na base do respeito ao equilíbrio de suas

forças naturais, ao qual o ser humano, se integraria numa concepção mais harmônica (o que não quer dizer que seja isenta de conflitos). Esta filia se expande da convivência das pessoas, objeto, lugares para a casa e seu entorno. O sentimento de pertença faz com que deixe de ser apenas um さocupadorざ do espaço-tempo para ser, a própria pessoa, parte da natureza ambiente em sua fusão cognitiva e simbólica (cfr. Bachelard 1961; Ferreira Santos 2006; 2006a).

Impacto simbólico

O impacto simbólico pode ser explicado como aquele em que o patrimônio possui uma

significação para uma comunidade em um determinado tempo, que pode ser de caráter étnico, religioso, político, etc. Esse significado se modifica, no decorrer dos

eventos históricos e a sua percepção enquanto bem identitário agora alterada, interfere na sua conservação e preservação o sentimento antes positivo de um bem pode passar a negativo, e vice-versa. Esse caso se verifica especialmente em locais onde há intolerância ou onde o tecido social foi subjugado por determinadas forças históricas. (destruição dos baixos relevos de Buda no Afeganistão em 2001)

Impactos estéticos

Impactos estéticos são aqueles ocasionados por intervenções contemporâneas sobre o patrimônio, de qualquer natureza. Não se questiona que um monumento sofra alterações com o tempo para se ajustar ao uso ao qual estão servindo em um determinado momento, entretanto a falta de critério ou a necessidade de atendimento a obrigações normativas podem suprimir ou alterar o seu valor estético.

Impactos sócio-econômicos

Podemos explicar como impactos econômicos àqueles em que o valor econômico do monumento supera o valor que a comunidade está disposta a aceitar para mantê-lo.

Por exemplo, quando o interesse da comunidade se divide entre definir se vale mais um espaço de memória ou um espaço livre para lazer. Todos os impactos ocorridos sobre o patrimônio cultural criam situações de risco e de tensão. Nosso objetivo é encontrar formas de mediar os impactos cumulativos possíveis. Mediar é um processo no qual se procura resolver as situações de conflito na busca de uma solução em que as decisões devem ser negociadas entre as partes. O problema deve ser discutido através de uma nova abordagem em que é fundamental a habilidade para planejar estratégias, equilibrar o poder e compreender as etapas do processo, com vistas à solução do problema. Deve-se enfatizar a responsabilidade das partes, possibilitando acordos mais duradouros, que evitem a manutenção do conflito

e que sejam exercidos de maneira consensual, de forma a gerar alternativas criativas e econômicas. Um exemplo explicativo e eloqüente tem início com o descumprimento da legislação, por parte de uma empresa ligada ao governo, de economia mista. As tratativas entre os diversos agentes públicos num primeiro momento permitiram o ajuste e possibilitaram que o empreendimento em sua segunda fase fosse desenvolvido seguindo os procedimentos normativos previstos. A empresa com a observância as normas e com o conhecimento adquirido no trecho anterior pode neste segundo momento diminuir seus custos operativos e reduzir o tempo de execução da obra.

A seguir apresentamos esse caso emblemático:

O Caso: Trecho Oeste

O governo do Estado de São Paulo idealizou o projeto do Rodoanel para circundar toda

a Grande São Paulo, interligando as rodovias que chegam à capital: Bandeirantes,

Anhanguera, Castello Branco, Raposo Tavares, Régis Bittencourt, Anchieta, Imigrantes,

Ayrton Senna, Fernão Dias e Dutra, com o objetivo de evitar o trânsito de passagem de veículos de carga, diminuindo assim os congestionamentos da cidade. O empreendimento foi dividido em quatro trechos (Norte, Sul, Leste e Oeste). Optou-

se por iniciar a construção do trecho Oeste após a comprovação da prioridade e

importância do trecho Oeste, sobretudo por sua característica de possibilitar e promover a interligação viária com o maior número de grandes rodovias.

O licenciamento ambiental do Trecho Oeste do Rodoanel foi individualizado após

aprovação de um RAP Relatório Ambiental Preliminar desenvolvido para todo o empreendimento. Problema O IPHAN tomou conhecimento por meio da mídia da implantação do Rodoanel Mário Covas, quando este já estava em obras. Verificando não possuir nenhuma documentação em seus arquivos sobre esse licenciamento sob o âmbito arqueológico a Instituição solicitou a empresa responsável pelo empreendimento providências no sentido de regularizar a questão. Indicações e Providências

Assim determinou que se procedessem aos estudos arqueológicos necessários para dimensionar e reconhecer o impacto ambiental causado ao patrimônio arqueológico em decorrência da implantação do empreendimento.

O estudo realizado denominou-se さPヴogヴaマa de Diマeミsioミaマeミto e Valoヴação

Científica do Patrimônio Arqueológico do Rodoanel Metropolitano Trecho Oeste,

Estado de “ão Pauloざ, paヴa o ケual foi iミstauヴado o pヴoIesso adマiミistヴativo IPHAN ミ.º 01506000184/01-79, em julho de 2001. Apesar do patrimônio arqueológico já haver sofrido impactos negativos devido às obras de engenharia para implantação do Rodoanel, no trecho oeste, foi solicitado pelo IPHAN à Dersa Desenvolvimento Rodoviário S.A.- DERSA, empresa responsável pela execução do empreendimento, que contratasse uma empresa de arqueologia para realizar um estudo com o objetivo de estabelecer por meio de parâmetros e métodos científicos das disciplinas da Arqueologia e da História, a análise desse patrimônio. Ao projeto deu-se o nome de Dimensionamento e Valoração Cientifica do Patrimônio Arqueológico e Histórico do Rodoanel, e a justificativa para a análise fundamentou-se ミo IoミIeito HásiIo de ケue さo Ioマpoヴtaマeミto huマaミo oIoヴヴe ミa forma de padrões e seqüências, definidos segundo as características históricas e sociais dos grupos tratados. Assim a Arqueologia (tanto pré-colonial quanto àquela realizada em assentamentos historicamente conhecidos) é capaz de recuperar contextos extintos de ocupação humana, através da identificação e caracterização de seus padヴロes Iultuヴaisざ ふGoミzalez, )aミettiミi ヲヰヰヲぶ.

Para o desenvolvimento do trabalho de pesquisa, utilizaram como ferramentas de estudo, conceituação e procedimentos científicos internacionais, critérios IPHAN de mensuração (Ficha CNSA/IPHAN), critérios de trilha de consultoria, através de controle homens/hora, registro de atividades, fichas de cadastro, banco de imagens, vistorias e aferições de cada etapa do Projeto. Dando prosseguimento, foi desenvolvida a contextualização regional do patrimônio arqueológico histórico com o objetivo identificar, avaliar e propor alternativas de tratamento ao Patrimônio Arqueológico e Histórico presente em uma área específica:

o Trecho Oeste do Rodoanel.

A validade científica da análise teve como parâmetro o contexto mais amplo de ocupações humanas em que a área se insere (contexto local e regional), fundamentando a busca do vestígio arqueológico no seu conteúdo sociológico. Assim sendo, ao atribuir ao vestígio arqueológico um significado histórico-social, poder-se-ia defiミiヴ a oIoヴヴZミIia ケue se deミoマiミa de さpatヴiマレミio Iultuヴalざ. Foi realizada a

identificação e classificação dos vestígios existentes, remanescentes da cultura

material local, que segundo a pesquisa, apreciou:

- o fator de exclusividade/recorrência que os vestígios existentes no trecho oeste do Rodoanel apresentam em relação ao patrimônio dos municípios envolvidos;

- o nível de pesquisa e de conhecimento já produzido sobre estes vestígios (ou

vestígios similares) em nível regional. Com base nestes conceitos, a opção metodológica adotada foi a de elaborar um さQuadヴo Regioミal de OIupaçãoざ, ケue defiミiu Ieミáヴios aマplos de oIoヴヴZミIia ocupação humana ao longo do tempo, para os municípios de São Paulo, Osasco, Carapicuíba, Cotia, Embu, Santana do Parnaíba, Barueri e Taboão da Serra, municípios abarcados pelo projeto do Rodoanel em execução. A análise resultou na identificação e cadastramento de 41 bens culturais localizados

no trecho correspondente ao traçado do trecho em estudo. O trabalho de pesquisa realizado comprovou a existência de patrimônio arqueológico no local do empreendimento, comprovando o dano ambiental ocorrido em função da falta de estudos arqueológicos prévios para sua implantação.

Assim, comprovado o dano ao patrimônio arqueológico, bem difuso e patrimônio da coletividade é que se impôs a necessidade de ressarcimento. O deste tempo

observado entre a execução das obras e o estudo, foi extremamente prejudicial, visto que se houvesse a observância da legislação seria possível evitar essa perda. Desta feita, tendo em vista o impacto constatado ao patrimônio arqueológico, existiu, portanto, uma relação de causa e efeito entre a conduta do agente e o dano causado. Dessa forma, coube a Dersa responder pelo prejuízo causado ao patrimônio arqueológico a todos os que tiveram seus direitos lesados, buscando-se dessa forma, o ressarcimento do patrimônio coletivo. Foi firmado em fevereiro de 2002 um Termo de Ajustamento de Conduta - TAC, entre

a Dersa e o IPHAN, com o acompanhamento do Ministério Público Federal, que

contemplou a realização de Medidas Mitigadoras e Compensatórias. Como Medidas Mitigadoras estabeleceu-se a realização de Programas de pesquisa/resgate para identificação de vestígios arqueológicos e históricos, na área do Trecho Oeste do Rodoanel, considerando: o valor científico dos bens culturais identificados e o potencial científico oferecido pela área; bem como o

desenvolvimento de ações educativas e de conhecimento, visando externar o conhecimento obtido através das pesquisas e o Resgate dos vestígios existentes. Como Medidas Compensatórias se determinaram a realização de Programa de Educação Patrimonial (exposições itinerantes nas escolas e centros comunitários da região), a realização de uma publicação e a Instalação do Museu de Arqueologia Regional em Carapicuíba (área do antigo Sanatório da Aldeia de Carapicuíba) e o restauro dos Bens Tombados: Sitio Mandú e Sitio do Padre Inácio. Durante o tempo em que o Trecho Oeste esteve em obras a Dersa esteve também atendendo as cláusulas do Termo de Ajuste de Conduta firmado. Esse relacionamento mais próximo entre a empresa e o órgão licenciador permitiu a melhor compreensão dos trâmites arqueológicos. A DERSA mostrou-se parceira da Instituição e realizou todos os estudos necessários para preservação do patrimônio arqueológico necessário à implantação do empreendimento. O trecho oeste do Rodoanel foi inaugurado em 2002. A empresa para implantação do trecho subseqüente, o trecho sul, inaugurado em março de 2010, cumpriu com todas as exigências necessárias para a preservação e salvaguarda do patrimônio arqueológico.

O que se deve deixar registrado aqui, é que as empresas de uma maneira geral, após

terem passado por esse processo de ajustamento de conduta, passam a atender a legislação atinente ao caso e a licenciar o empreendimento com mais cuidados. Entretanto o mais importante é encontrar soluções preventivas, como por exemplo, maior divulgação dos procedimentos necessários ao licenciamento, por meio de informativos, cartilhas, meio eletrônico ou publicações elaboradas pelos órgãos públicos a serem distribuídos aos empreendedores ou interessados na questão. Outro importante fator a ser observado é a necessidade de se estabelecer políticas públicas para preservação, proteção, fiscalização e suporte ao patrimônio cultural.

Uma empresa de economia mista gasta também o dinheiro do mesmo contribuinte que foi lesado pela perda do patrimônio impactado para mitigar e compensar o dano a esse patrimônio, o que se configura um desperdício de dinheiro público.

O que se questiona, é a própria impotência da Dersa como participante desse processo

de modificador da ambiência urbana, de não ter um processo de planejamento

metropolitano continuado, mas estanque, sujeito às mudanças governamentais, em que se perde o controle da expansão da mancha urbana, e o tempo correto de

implantação de um serviço importante para a coletividade, que não acarrete em muita mudança na feição da cidade, e, por conseguinte no seu patrimônio cultural. Ao contrário o esperado é que este venha a se apresentar como fator catalisador de políticas ambientais. Ressalva-se, que quando uma empresa realiza uma atividade de risco ambiental ela está sujeita a causar danos, não importando o fato de estar ou não atuando dentro dos padrões exigidos pela legislação. Entretanto, um dos instrumentos que podem ajudar a promover um desenvolvimento sustentável é a responsabilidade social desta empresa. A política organizacional da Dersa demonstra, hoje em dia, um compromisso com o desenvolvimento sustentável, através da responsabilidade social. A responsabilidade de uma arqueologia preventiva socialmente includente.

A arqueologia até bem pouco tempo atrás era uma matéria desconhecida pela

população brasileira. Entretanto, hoje vem desempenhando um papel de inclusão

social e desenvolvimento da nação, embora seja ainda pouco reconhecido pelas

lideranças políticas, empresariais e formadoras de opinião. Em parte, as causas que levam a esse desconhecimento estão vinculadas ao próprio passado do fazer arqueológico, que só recentemente tem assumido um papel de inserção na sociedade brasileira. Diante dos novos fazeres, o IPHAN vem atuando de forma educativa na proteção, preservação e socialização do patrimônio arqueológico nacional. Do ponto de vista legal, existem algumas leis e normas que garantem a população o seu acesso aos bens arqueológicos. Por exemplo, na Constituição Federal, em seus artigos 215, 216 os bens arqueológicos são considerados bens da união federal, ou seja, bens de uso público e de alcance social. O IPHAN, por sua vez editou algumas portarias, entre elas, a portaria IPHAN n. 230/02, que garante nos projetos arqueológicos desenvolvidos um programa de educação patrimonial, que atenda os vários segmentos envolvidos com o patrimônio arqueológico. Hoje, no Brasil, para a realização de projetos de implantação de empreendimentos visando construções de estradas, ferrovias, metrôs, hidrovias, aeroportos, portos, hidroelétricas, linhas de transmissão de energia elétrica, gasodutos, oleodutos, polidutos, minerodutos, minerações de diversas substâncias minerais, usinas de beneficiamento de açúcar e álcool, plantações e lavouras mecanizadas, empreendimentos imobiliários, instalação de indústrias, transposição de rios e para quaisquer atividades que causam remoção de terra, são necessárias a execução de estudos ambientais e estudos sobre a possibilidade de afetação dos sítios arqueológicos. Assim, todos esses empreendimentos que mobilizam uma série de profissionais de todas as áreas que operam na preparação, na implantação e na operação dos empreendimentos, devem obrigatoriamente desenvolver mecanismos educativos que expliquem aos trabalhadores, o que se constitui um sítio arqueológico, como pode ser encontrado, e como proceder no caso de qualquer descoberta fortuita. Segundo BRUHNS (2004), a Educação Patrimonial é etapa importantíssima no processo

de salvamento arqueológico, devendo acompanhar os trabalhos de campo objetivando

perceber a melhor forma de levar o conhecimento adquirido às comunidades afetadas

pelas pesquisas. A integração comunidade conhecimento gerado pela pesquisa muitas vezes só acontece a partir da intervenção da educação no processo.

さAo tヴaHalhaヴマos o aIeヴvo aヴケueolルgiIo atヴavYs da EduIação Patヴiマoミial estaヴeマos interagindo com a memória local, e talvez, interferindo em lugares de memória referências espaciais de memórias coletivas, espaços de valorização histórica comum, oミde a Ioマuミidade se ヴeIoミheIe, マeマoヴiza, iマageミs IoミIヴetas, apヴeeミsロes visuaisざ.

A Educação Patrimonial pautada nesta responsabilidade deve ser um instrumento de

educação no processo do ensino formal e não formal, bem como um instrumento de さalfaHetização Iultuヴalざ, aケui eミteミdida Ioマo uマa さpedagogia ケue pヴopロe a descolonização da memória e do imaginário do ser humano através de diálogo cultural com outros, por meio de processos de sensibilização, autoleitura, autoconscientização

e transformação

corporal para intervir na reprodução do passado; uma pedagogia que cultiva a sensibilidade intercultural e a consciência performativa necessárias à formação de novas comunidades solidárias e cooperativas, e novas políticas democráticas de liHeヴtação.ざ

sua

É por

descoloniza a inconsciência política e a memória

coletiva.

(

)

meio

da

Educação

Patrimonial

o

cidadão

pode

vir

a

compreender

importância no processo sócio-cultural no qual está inserido, almejando uma transformação positiva no seu relacionamento com o patrimônio cultural.

Ao interagir com o ensino formal (escolas, que atualmente depende enormemente da disponibilidade dos diretores das escolas e de seu cronograma anual), quanto com o

não formal (comunidades do entorno da área da pesquisa, associações de bairro, etc.), devendo sempre direcionar os trabalhos às necessidades das mesmas, relacionando-as

ao

conhecimento gerado da pesquisa e da informação escrita.

O

conceito de extroversão arqueológica tem sido buscado com o objetivo de dar

acesso a todos àqueles que quiserem se apropriar do conhecimento adquirido pelos arqueólogos e demais especialistas envolvidos com a arqueologia. Para isso é necessário não só criar uma linguagem acessível à imensa maioria da população, mas igualmente criar mecanismos de publicização que atinjam as camadas

com menos acesso a essas informações. Uma das formas de atuar na mitigação dos impactos cumulativos e outros de qualquer natureza, sem dúvida passa pela educação e seus desdobramentos. Conclusão

A gestão do patrimônio arqueológico brasileiro tem se defrontado com diversos

passivos que necessitam de uma maior atenção por parte de seus atores para a definição de novos parâmetros:

A questão dos acervos gerados pelas pesquisas em número crescente, em função da nova modalidade de arqueologia de contrato.

A quem cabe à obrigação de manutenção desses acervos? O que deve ser guardado? Onde e como deve ser mantido, visto os museus não terem mais espaço físico para a guarda? Como expor um bem que não tem qualidade expositiva (de maneira geral as pessoas têm uma concepção de belo, e não querem ver fragmentos de peças, querem visualizar elementos compreensíveis ao seu entendimento). Pode ser feito o descarte? Em que momento deve ser realizado o

descarte? E como se daria este descarte, que tipo de elementos de um sítio arqueológico se pode afirmar que não tem valor?

Os sítios arqueológicos brasileiros devem ser mantidos, protegidos e salvaguardados.

A quem cabe o ônus da proteção de um sitio arqueológico que se encontra em uma propriedade privada? Como garantir o acesso a visitação desse sítio arqueológico? Como criar o sentimento de pertencimento da população que habita no entorne desse bem?

Arqueologia e seus segmentos

No Brasil, a nossa legislação é bastante competente no tocante a sitios pré- historicos, porém como encaminhar a questão referente aos povos indigenas que tem seus utensílios que usam no dia a dia e que pertenciam a seus antepassados arrolados como acervo arqueológico.(a ética em arqueologia preventiva, ver artigo Trifonov neste livro). Já a arqueologia histórica se defronta com percalços no tocante ao seu enquadramento legal. A normatização do patrimônio arqueológico se fundamentou no código de mineração brasileira, assim temos uma atenção fortemente voltada para o subsolo que atende adequadamente aos bens anteriores ao período cabralino. Os bens que se encontram em superficie e são de periodos mais recentes, posteriores a 1500 apresentam questões ainda a serem resolvidas no que se refere à propriedade, atribuição de valor e definição para se tornar um patrimônio arqueologico histórico. Para o segmento da arqueologia subauqatica, todos os materiais arqueologicos que se encontram depositado nos fundões marinhos e fluviais estão sob pressão devido a disputa entre os entes governamentais responsaveis pela sua salvaguarda (ver artigo Dimitriadis, neste livro).

Arqueologia e Turismo

Tecer reflexões sobre a importância dos recursos econômicos e sociais derivados de um turismo ecosustentavel e ecocompatível, suas implicações sobre sua conservação e preservação. (ver Introdução neste livro).

Intercâmbio do patrimônio arqueológico e do controle, repressão e repatriamento dos objetos arqueológicos oriundos de pesquisas clandestinas ou outras operações consideradas ilícitas. Como realizar a extroversão do patrimônio arqueológico a fim de possibilitar o intercâmbio de acervo para divulgação, pesquisa e estudo? Como estimular a sociedade interessada neste assunto a cooperar e contribuir para reunir o acervo que se encontra disperso todos esses anos nas mãos de particulares que por desconhecimento ou por herança estão com a posse desses bens? Como repatriar objetos arqueológicos quando ainda não possuímos um cadastro nacional desses bens (CNSA) completamente funcional e atualizado por meio das modernas tecnologias que permitam que as informações estejam acessíveis aos órgãos responsáveis pela sua tutela? (Campos de Souza 2006:146)

Arqueologia

acadêmica

e

contratual

e

o

Papel

dos

não

profissionais

e

profissionais

O ritmo acelerado da economia e a prioridade de modernização e crescimento das infraestruturas do país têm levado cada vez mais ao aparecimento de empresas que realizam arqueologia por contrato para atender as necessidades da realização de projetos de avaliação de impactos sobre o patrimônio arqueológico. As pesquisas devem ser realizadas de forma ágil, porém correta, fazendo uso das metodologias preconizadas. A nova modalidade entra em choque com as pesquisas acadêmicas? Existe como compatibilizá-las? As Instituições de ensino podem realizar arqueologia de contrato e competir com essas empresas? Qual o papel do profissional de arqueologia, na falta de uma ordem dos arqueólogos? Como aproximar os amadores e amantes da arqueologia transformando-os emm guardioes desse patrimônio?

Estes são alguns dos desafios que se apresentam à Gestão e Mediação do Patrimônio Cultural Arqueológico no cenário brasileiro.

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