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Mestrado Acadêmico em Ciência, Tecnologia e Educação

Trabalho realizado para a disciplina Evolução do Pensamento Científico 1

Professora Dr. Andrea Guerra

Alunos:

Carla Gonçalves Felizardo Torres

Marcelo Gonzaga Rodrigues

André Lucas Freitas dos Santos

André Luís Matos dos Santos

Rio de Janeiro, 22 Agosto


A Revolução Científica – Juan Pimentel

Ao estudar a primeira parte desta obra (pág. 163 a 195), entendeu-se que o
autor por acreditar que ciência é cultura, e essa perspectiva é de muita importância
para a história cultural da ciência, explorou o tema de modo a apresentar a maneira
que este assunto foi introduzido até os dias atuais. O autor descreve como esta
imagem foi composta, o que resta dela hoje, sobre os modos de ver contar por
historiadores e cientistas. Afirma que mais que uma brusca ruptura explicada por
episódios pontuais centrados em heróis, a revolução científica se dá gradualmente no
campo das práticas, embora seja relevante a contribuição individual.
Com a abordagem cultural da ciência, Pimentel analisa o processo de
estabelecimento da ciência moderna a partir dos símbolos e das práticas científicas
estabelecidas na dita “Revolução Científica”. Com essa concepção, Desta forma,
dando um olhar mais específico com ênfase nos instrumentos como microscópio e a
luneta e nas práticas, como a da dissecção e observação do céu. Nesse olhar
historiográfico, não ficam evidentes somente os personagens centrais da história, mas
sim toda a maneira de se produzir conhecimento.
O autor aponta como pontos fundamentais para o alargamento dos horizontes
do conhecimento humano para o que hoje conhecemos como Revolução Científica em
três caminhos. No que se referem ao corpo humano, os microscópios e a práticas de
dissecção de corpos, que acabam com a forma de fazer medicina e do estudo do
corpo. A utilização da luneta marca a astronomia no conhecimento do céu e do
sistema planetário. E as grandes navegações trazendo inovação de instrumentos e o
contato com novas culturas e espécies de plantas e animais.
No ano que começou a II Guerra mundial começa a se falar na Revolução
Científica pela primeira vez. Para os historiadores que cunharam o nome, o conceito,
seria a maior transformação desde o cristianismo ou desde a antiga Grécia. Reduziam
outros acontecimentos abaixo da revolução científica: o renascimento, a reforma
protestante, dentre outros.
Fica muito bem formalizado, esse conceito de revolução, nas décadas de 50 e
60 quando a Europa começa seus ensaios na geopolítica mundial, claro que isso
atraía a atenção para uma Europa que em tese seria o centro do início de toda a
ciência. A Europa que despontava entre 1550 e 1700 pelas grandes navegações era
vista como o centro também da racionalidade, da civilização moderna, da liberdade
desgarrada da religião pelos conhecimentos científicos.
As primeiras histórias que se tem registradas das disciplinas científicas é do
século XVIII pelas próprias pessoas que a construíam o conhecimento científico, algo
parecido com os cientistas hoje em dia. A Biologia, por exemplo, possuía o nome de
História Natural e muito antes eram um conjunto de ciências como: zoologia, botânica,
microbiologia, ecologia, fisiologia... que vieram a fazer parte das Ciências Biológicas
com a Evolução. Logo, as ideias seriam mais valorizadas que os fatos em si. Desta
forma quem contava as histórias e as registravam teriam interesses nas suas próprias
ideias e dos grupos aos quais pertencia. Desta forma havendo lacunas nas histórias.
Mesmo hoje em dia não cientistas construindo a História da Ciência (histórias,
ciências), ficam os espaços para investigações mais profundas, espaço estes que não
interessam as ideias, mas os fatos reais e feitos por não cientistas também.
A nível conceitual a revolução científica situa-se entre 1543 e 1632:
conhecimentos sobre o cosmos e sobre o “microcosmos’’ (na Terra, o corpo
humano…). Como foi dito antes, era o triunfo do Ocidente (Europa) sobre o Oriente
como civilização de “liberdade” e racionalidade. A polarização mundial da época fazia
influencia para tal afirmação.
No século XVIII as primeiras histórias das disciplinas científicas começam a ser
contadas com os “heróis cientistas” (homens brancos e da oligarquia que se
destacavam na busca pelo conhecimento). Início da revolução científica é inaugurado
especificamente com duas grandes obras em 1543: De Revolutionibus Orbium
Celestium (Sobre as revoluções dos corpos celestes) de Nicolás Copérnico e De
Humanis Corpori Fabrica (Sobre a estrutura do corpo humano) de Andrea Vesalio.
Essas duas pessoas, personagens históricas atuantes, receberam influência do
humanismo - mais empiristas e menos espirituais, um humanismo mais renascentista,
transição do feudalismo para o capitalismo, modernidade, fim das monarquias. Esse
movimento, do humanismo, abriu portas para o conhecimento mais elaborado.
Estudaram em universidades italianas. Estudaram também na Universidade de Pádua,
cujo lema é “Universa Universis Patavina Libertas” – “Liberdade para o ‘universo’ de
Pádua”, seria a grosso modo: “na Universidade de Pádua há liberdade para se chegar
ao conhecimento”. O conhecimento religioso é posto de lado, tem influência mas ele
“deixa” a ciência avançar, mas vigia de perto seus passos.
Continuando essa perspectiva, Pimentel retoma sua ideia de que a revolução
científica não foi um estanque na história da humanidade e sim concepções
construídas com o decorrer do tempo. Logo, o texto começa a tratar sobre metáforas
da ciência, focando principalmente em quatro, consideradas mais importantes ou
“grande metáforas” como o próprio autor chama, que ajudam a entender melhor o
funcionamento da natureza e as práticas que à cercam.
Entretanto, é preciso primeiro entender o que seriam essas tais metáforas da
natureza que o autor pretende trabalhar. Dessa maneira, o mesmo cita que essas
metáforas não são apenas recursos poéticos, mas sim, atribuir um fato completamente
diferente a outro que seja científico para dar significado a ele. Buscando assim,
descrever este fato sobre uma nova perspectiva com a intenção de compreendê-lo
melhor. Um exemplo utilizado para satisfazer essa ideia, se mostra no caso do estudo
da luz onde podemos analisá-la como onda-partícula, ou seja, através de duas
metáforas diferentes.
Quando analisamos historicamente o uso da linguagem figurativa pela ciência
foi duramente criticada por pesquisadores e cientistas que faziam parte de um
pensamento voltado para “ciência moderna”. Esses pesquisadores cogitavam que o
uso destas metáforas poderia causar uma confusão naquele que buscava o
conhecimento, já que eram inconsistências da língua e figuras enganosas. Dois
exemplos desses críticos a metáfora na ciência são Thomas Sprat e John Locke,
grandes nomes da história humana e cientifica.
Após fazer uma breve introdução sobre o que são as metáforas da natureza,
Pimentel traz em seu texto sua primeira metáfora, descrita como “natureza como um
organismo”. Esta metáfora consistia em entender a natureza como um ser vivo ou
simplesmente como um conjunto de seres vivos formando assim um organismo único.
Esta filosofia estava ligada muito mais aos pensamentos aristotélicos e dominou
principalmente disciplinas que aproximavam-se as ciências da vida, como botânica,
medicina e biologia. Todavia esta concepção permeava diversos outros ramos como a
geografia e a astronomia.
A visão organicista tinha como base principalmente em perguntas que
buscavam o porquê das coisas, ou simplesmente para que serviam no mundo.
Quando buscamos alguns desses exemplos do entendimento da natureza como um
ser vivo para explicar como era visto, está na relação e aproximação entre o micro e o
macro do cosmos em si, no qual pode-se imaginar por exemplo o sol como o coração
do universo ou o sistema circular dos seres humanos funcionar como o movimento dos
corpos celestes, dando início aos pensamentos de William Harvey.
A segunda metáfora usada pelo autor é o mundo como um grande mistério,
que consistia em analisar a natureza como uma obra de arte de difícil compreensão,
ou seja, algo como um hieróglifo sublime e nem sempre decifrável. Suas raízes
estavam constituídas com base na filosofia de Platão e principalmente nas ideias
neoplatonistas, tendo relação direta com aquilo que era descrito como o “mito da
caverna”, onde o que enxergamos aqui nada mais é do que um reflexo de um mundo
perfeito e imutável.
Tal metáfora teve grande apoio nos textos e ideias herméticas, que consistiam
em textos de difíceis compreensão como por exemplo o livro “inferno de Dante”. Seu
nome veio da junção de três deuses que se misturaram com o decorrer da história
sendo eles o próprio Hermes, Thot dos egípcios e Moisés dos hebraicos formando
assim o deus Hermes Trimegisto.
Em um primeiro momento pode parecer estranho misturar está metáfora que
possui um aspecto mágico e até mesmo religioso a ciência. Porém, grandes nomes
usufruíram dessa filosofia para entender os fenômenos da natureza Copérnico e Tycho
Brahe, sendo o primeiro descrevendo inclusive o sol no sistema solar como o próprio
deus Hermes Trimegisto sentado em seu trono observando o movimento dos planetas
ao seu redor. Outra coisa importante a se citar, que essa filosofia trouxe a tona
categorizar que a matemática seria a alma da natureza, tornando assim a matemática
muito mais próxima dos fenômenos da natureza permitindo uma nova linguagem para
entendê-la.
Na seção el mecanicismo o autor apresenta a ideia da natureza como um
mecanismo, exemplifica com um relógio, com intuito de abordar essa concepção de
natureza que rompeu com a ideia orgânica da natureza. Com base no texto e nas
discussões em sala, esse novo conceito que ganhou espaço no século XVI e XVII
promoveu mudanças no campo científico, já que a natureza estava sendo tratada
como um mecanismo, abriu as portas para investigar seus fenômenos. A
espiritualização da natureza era uma barreira para a investigação científica, em vista
que nela é manifestada o espírito divino e determinada pela vontade de Deus. A
investigação científica da natureza orgânica representava uma arrogância do homem
em transformar a manifestação de Deus em objeto de estudo. A comunidade de
intelectuais antes do século XVI constrangia as pesquisas relacionadas a natureza.
Alguns cientistas apontados na seção defenderam que os fenômenos naturais
operavam de modo mecânico. Assim como um relógio tem seu modo de operar
controlado e previsível, a natureza também poderia ser prevista e controlada. Isso
acarretava tirar a natureza de uma posição divinizada para uma posição mais próxima
do ser humano, e assim ela podia ser estudada sem barreiras. Para muitos religiosos,
isso soava absurdo… contudo para outros estudar os fenômenos naturais e as leis
intrínsecas a ela não era uma arrogância humana. Afinal estava estudando o
comportamento das leis naturais. Boyle que é citado no texto fez um trabalho científico
muito importante para relacionar a pressão com o volume. O estudo dessas leis não
excluía a criação divina na sua essência natural.
Na última seção da parte I, o autor traz a analogia do livro da natureza que
consistia no entendimento que todo conhecimento sobre a natureza e seus fenômenos
poderia ser sistematizado em um livro. O livro não precisa necessariamente existir
fisicamente, mas o modo de organizar o conhecimento e descrever deve assimilar a
um livro. Com a imprensa e a ampliação da produção e reprodução de livros,
construiu-se um senso que a cultura, no caso a que o autor apresenta na seção é
relacionada a cultura acadêmico-científica, podia ser desscrita em um livro para que as
pessoas pudessem ler e a partir da leitura construir um conhecimento sobre a
natureza. Tal analogia mudou, também, a linguagem científica e o objetivo do cientista.
Até a Idade Média foi marcada pela linguagem poética e subjetiva nos textos que
divulgavam conhecimento. Partindo do pressuposto que a cultura científica continha o
conhecimento sobre os fenômenos naturais, havia necessidade de descrever esse
mecanismo de modo fiel e objetivo para que as pessoas pudessem compreender. A
linguagem subjetiva era considerada um problema para a divulgação do
conhecimento, recomenda-se ler os trabalhos dos alquimistas para compreender o
que Juan Pimentel tenta abordar na seção. O cientista é incubido com a missão de
mergulhar na cultura científica e produzir conhecimento e traduzir a linguagem da
natureza para que outros possam compreender. A linguagem perde seu senso de
afetar uma comunidade específica de pessoas e passa para afetar de modo universal.