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Os Conselhos de Políticas Públicas à luz da

Constituição Federal de 1988


Alexis Madrigal

A Constituição Federal de 1988, também conhecida como Constituição


Cidadã, veio a consolidar direitos e a prever, em diversos dispositivos, a
participação do cidadão na formulação, implementação e controle social das
políticas públicas. Em especial os artigos 198, 204 e 206 da Constituição
deram origem a criação de conselhos de políticas públicas no âmbito da saúde,
assistência social e educação nos três níveis de governo. Tais experiências
provocaram a multiplicação de conselhos em outras áreas temáticas e níveis
de governo.

Os conselhos de são mecanismos legais e institucionais de controle


social da política no Brasil, que têm a sua organização e funcionamento
iniciado com o processo Constituinte de 1988 e posteriormente com rigorosas
leis. São espaços democráticos de decisão e participação social na construção
da políticas públicas, de forma deliberativa.

Os Conselhos de Políticas Públicas são definidos por Siraque como:


“instrumentos concretos de partilha de poder entre os governantes e a
sociedade para a democratização da elaboração e gestão das políticas
públicas, servindo de mecanismos de controle social das atividades estatais”.
Moroni, por sua vez, entende o conselho de políticas públicas “como espaço
fundamentalmente político, institucionalizado, funcionando de forma colegiada,
autônomo, integrante do poder público, de caráter deliberativo, composto por
membros do governo e da sociedade civil, com as finalidades de elaboração,
deliberação e controle da execução das políticas públicas”.

No Brasil, a expressão controle social tem sido utilizada como sinônimo


de controle da sociedade civil sobre as ações do Estado, especificamente no
campo das políticas sociais. O direito à participação popular na formulação das
políticas públicas e no controle das ações do Estado está garantido na
Constituição de 1988 e regulamentado em leis específicas, como a Lei
Orgânica da Saúde (LOS), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a
Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) e o Estatuto das Cidades.

O § 2° do art. 74 da Constituição garante o direito a qualquer cidadão,


partido político, associação ou sindicato de apresentar denúncias de eventuais
irregularidades ou ilegalidades relativas às contas da União ao Tribunal de
Contas, direito este que, por analogia, é concedido também com relação às
contas dos Municípios e dos Estados.
Os meios de controle social têm como pilar a fiscalização das ações
públicas, mas o seu papel é muito mais amplo. Visam, sobretudo, a indicar
caminhos, propor idéias e promover a participação efetiva da comunidade nas
decisões de cunho público. Os instrumentos têm legalmente a função de
controlar as funções públicas, seja recorrendo a outros órgãos competentes,
seja movendo ações para a averiguação da situação pública em determinado
setor.

O direito ao exercício de poder por parte dos cidadãos, assegurado


pela Constituição Federal de 1988 (Art. 1º, § 1º), permite ao cidadão junto aos
Órgãos Públicos: peticionar junto aos Poderes Públicos para a defesa de seus
direitos (Art. 5º - XXXIV), obter certidões em repartições públicas (Art. 5º -
XXXV), fiscalizar as contas municipais (Art. 31º, § 3º), denunciar irregularidades
ou ilegalidades (Art. 74º, § 2º), participar dos conselhos de gestão de saúde
(Art. 198º - III), assistência social (Art. 204º - II), e educação (Art. 206º - VI),
cooperar por meio de associações no planejamento municipal (Art. 29º - XII),
receber informações das autoridades (Art. 5º - XXXIII), promover ações
judiciais e representações (Art. 5º - LXXIII). Da mesma forma o Decreto-lei n.º
201/67 autoriza o cidadão à denúncia do prefeito e a Lei de Responsabilidade
Fiscal nº 101 de 2000 (Art. 48º e Art. 49º) assegura à população o acesso à
prestação de contas, aos planos e diretrizes orçamentárias e demais
instrumentos de transparência vinculados à gestão fiscal.

“A sociedade tem o direito de pedir conta a todo agente público por sua
administração” (Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789).

Os Conselhos têm origem em experiências de caráter informal


sustentadas por movimentos sociais, como “conselho popular” ou como
estratégias de luta operária na fábrica, as “comissões de fábrica”. Essas
questões foram absorvidas pelo debate da Constituinte e levaram à
incorporação do princípio da participação comunitária pela Constituição,
gerando posteriormente várias leis que instituciønalizam os Conselhos de
Políticas Públicas.

Os conselhos podem desempenhar conforme o caso, funções de


fiscalização, de mobilização, de deliberação ou de consultoria. Conforme define
a Controladoria-Geral da União:

A função fiscalizadora dos conselhos pressupõe o acompanhamento


e o controle dos atos praticados pelos governantes.

A função mobilizadora refere-se ao estímulo à participação popular na


gestão pública e às contribuições para a formulação e disseminação de
estratégias de informação para a sociedade sobre as políticas públicas.

A função deliberativa, por sua vez, refere-se à prerrogativa dos


conselhos de decidir sobre as estratégias utilizadas nas políticas públicas de
sua competência.

A função consultiva relaciona-se à emissão de opiniões e sugestões


sobre assuntos que lhe são correlatos.

Por essa razão os espaços de controle social existentes devem ser


fortalecidos e aprimorados em um esforço conjunto entre governo e sociedade.
É necessário também fortalecer a transparência e a disponibilização de
informações e indicadores sobre políticas públicas, para subsidiar a
participação da sociedade. Sendo importante ressaltar que os conselhos
devem ser informados pelo Gestor Municipal sobre tudo o que está sendo feito
e o que pode ser feita no setor, assim como esclarecer à população, receber as
queixas e reclamações, negociar com os outros Conselhos e Secretarias ações
que melhorem a qualidade de vida do cidadão, examinar e investigar fatos
denunciados no Plenário, relacionados às ações e serviços concernentes a sua
atuação. As reuniões dos conselhos municipais devem ser abertas a qualquer
cidadão.

Conclusão:

O cidadão, com o passar do tempo, se conscientiza do seu papel de


influir nas políticas públicas e da necessidade de verificar se os impostos que
colocou nas mãos do Estado proporcionaram benefícios à coletividade. Para
tornar possível o controle social, é necessário que os representantes da
sociedade tenham uma opinião bastante clara sobre a política pública a ser
discutida, quais devem ser as suas prioridades, o que ela precisa ter ou fazer
para garantir os direitos da comunidade e suprir suas demandas. Para isso, é
importante que os movimentos, associações, fóruns e outras entidades da
sociedade civil sempre busquem informações e discutam as políticas públicas,
programas, ações e o orçamento de um determinado setor para depois dialogar
com o Estado. Assim, ao chegar nos espaços de participação, defendem
melhor uma posição discutida previamente. Cabe repensar a necessidade de
melhor estruturação dos conselhos municipais para que possam atuar em
parceria com os cidadãos, reforçando o grupo dos interessados na correta
aplicação dos recursos públicos. Dessa maneira a Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988 contém os fundamentos jurídicos essenciais
colocados à disposição da cidadania para controlar a função administrativa do
Estado, mas além das limitações constitucionais à fiscalização, torna-se
necessário a mudança de cultura e de mentalidade dos magistrados, dos
parlamentares, dos agentes da Administração Pública e do nosso povo com a
finalidade destas normas constitucionais se efetivarem, pois não basta a
eficácia jurídica, é preciso dar a elas, a eficácia social . Para isso, o Brasil tem
a necessidade de investimentos em educação e, primordialmente, em
educação política, em formação e em informação para que possamos ter uma
opinião pública consciente de seus deveres e de seus direitos de cidadania,
disponíveis no conteúdo dos princípios e regras da Constituição de 1988 e,
assim, vivenciar estes direitos e garantias na plenitude.

Fonte: https://jus.com.br/artigos/40415/os-conselhos-de-politicas-publicas-a-luz-da-
constituicao-federal-de-1988. Publicado em 06/2015. Visitado em 16.08.2019.