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Ficha Catalográfica elaborada pela EADCON.

Bibliotecária – Cleide Cavalcanti Albuquerque CRB9/1424

Fundação Universidade do Tocantins (UNITINS)


F981l Letras / Fundação Universidade do Tocantins; EADCON. –
Curitiba: EADCON, 2010
480 p.: il.

Nota: Caderno de Conteúdos do 6º período do curso de Letras


(apostila).

1. Professores – Formação. 2. Letras – Educação e Ensino. I.


EADCON. II. Título.

CDD 378
Direitos desta edição reservados à UNITINS.
É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da UNITINS.

FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DO TOCANTINS


Reitor André Luiz de Matos Gonçalves
Vice-Reitora Maria Lourdes Fernandez Gonzalez Aires
Pró-Reitor de Graduação Geraldo da Silva Gomes
Diretoria de EaD e Novas Tecnologias Denise Sodré Dorjó
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Coordenadora do Curso Cristiane Tavares Jordão de Vasconcelos

SOCIEDADE DE EDUCAÇÃO CONTINUADA – EADCON


Diretor Executivo Julián Rizo
Diretores Administrativo-Financeiros Armando Sakata
Júlio César Algeri
Diretora de Operações Cristiane Andrea Strenske
Diretor de TI Juarez Poletto
Coordenação Geral Dinamara Pereira Machado
Sumário

Língua Portuguesa VI: Discurso e Ensino 5


1 Introdução à análise do discurso. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
2 Bakhtin: teorias do discurso, dialogismo e polifonia . . . . . . . . 23
3 Linguística da enunciação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
4 Teorias dos atos de fala, teoria
da atividade verbal e postulados conversacionais de Grice . . . . 47
5 Discurso e argumentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
6 Análise da conversação: um percurso de trocas e negociações. . . 71
7 Ensino-aprendizagem: análises de produções discursivas . . . . . 83

Língua Espanhola VI 93
1 La intencionalidad textual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
2 Las oraciones. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
3 Las oraciones subordinadas sustantivas . . . . . . . . . . . . . . . . 119
4 Las oraciones subordinadas adjetivas y adverbiales. . . . . . . . . 133
5 Cambios de valores verbales . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
6 Estrategias de lectura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157
7 Usos de la lengua . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 167

Literatura Brasileira: do Período Colonial ao Romantismo 177


1 Literatura de Informação, Literatura Jesuítica e Barroco . . . . . 181
2 Arcadismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201
3 Romantismo: aspectos histórico-literários
e características fundamentais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217
4 Primeiro momento do Romantismo no Brasil (1836-1840). . . . . 229
5 Segundo momento do Romantismo no Brasil . . . . . . . . . . . . . 241
6 Terceiro momento do Romantismo no Brasil . . . . . . . . . . . . . 249
7 A prosa de ficção no Romantismo brasileiro. . . . . . . . . . . . . . 259
Abordagens Metodológicas do Ensino-Aprendizagem
da Língua Espanhola e Respectivas Literaturas 265
1 Enfoques y métodos en la enseñanza de lenguas . . . . . . . . . . 269
2 Estrategias de aprendizaje . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 285
3 Las destrezas lingüísticas y la competencia comunicativa. . . . . 291
4 La interculturalidad y la reflexión crítica . . . . . . . . . . . . . . . 297
5 Lo lúdico en la enseñanza de lenguas . . . . . . . . . . . . . . . . . 307
6 Documentos que basan la enseñanza de E/LE. . . . . . . . . . . . . 315
7 Orientaciones curriculares para
la enseñanza de español y sus literaturas . . . . . . . . . . . . . . . 321

Avaliação do Ensino-Aprendizagem 329


1 Concepções de avaliação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 333
2 Um olhar histórico sobre a avaliação
e as exigências na LDB n. 9.394/96. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 343
3 A avaliação nos diferentes níveis
de ensino e o poder docente. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 355
4 Planejamento e avaliação na escola:
articulação fundamental. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 369
5 Avaliação escolar: procedimentos
e instrumentos usados na escola. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 379
6 Avaliação: erros e acertos
em questão para repensar o processo . . . . . . . . . . . . . . . . . 389
7 Sistema Nacional de Avaliação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 397

Estágio Supervisionado II 411


1 Relação teoria e prática e aprendizagem
signif icativa da Língua Espanhola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 415
2 A prática docente do professor de língua estrangeira. . . . . . . . 425
3 Planejamento e metodologias de aulas de Língua Espanhola . . . 433
4 Aulas de língua espanhola e compreensão auditiva e leitora . . . 443
5 O ensino de expressão oral e escrita em Língua espanhola . . . . 451
6 Reflexões linguísticas e o ensino das regras gramaticais. . . . . . 463
7 Avaliação e replanejamento da prática . . . . . . . . . . . . . . . . 471
Créditos

EQUIPE UNITINS
Organização de Conteúdos Acadêmicos Sibéria Sales Queiroz de Lima
Silvéria Aparecida Basniak Schier
Revisão Linguístico-Textual Silvéria Aparecida Basniak Schier
Gerente de Divisão de Material Impresso Katia Gomes da Silva
Katia Gomes da Silva
Projeto Gráfico
Rogério Adriano Ferreira da Silva
Capas Rogério Adriano Ferreira da Silva

produção editora EADCON


Prezado acadêmico,
Até aqui, você estudou os aspectos fonológicos, morfológicos, sintáticos,
semânticos e pragmáticos da língua. Chegou a oportunidade de estudar as
teorias que buscaram explicar as relações existentes entre os enunciados e
seus produtores, as concepções teóricas de Mikhail Bakhtin, os pressupostos
teóricos de Grice e os desdobramentos das teorias da análise do discurso.

Apresentação
Todas essas teorias darão suporte para a sua atuação profissional e
estarão materializadas, por exemplo, no livro didático que você adotará, nas
atividades elaboradas por você e na forma de avaliação de seus alunos.
É na perspectiva de apresentar essas teorias e contextualizá-las no
âmbito do ensino da língua portuguesa que este caderno foi elaborado
para você. No primeiro capítulo, faremos uma introdução à análise do
discurso, apresentaremos os principais teóricos e alguns conceitos básicos
dessa área. No segundo, falaremos sobre as contribuições de Bakhtin às
teorias do discurso, dialogismo e polifonia. No terceiro, discutiremos sobre
a linguística da enunciação e as contribuições de Benveniste para o desen-
volvimento dos estudos linguísticos.
No quarto capítulo, examinaremos as teorias dos atos de fala, a teoria
da atividade verbal e os postulados conversacionais de Grice. No quinto,
estudaremos os mecanismos de argumentatividade: operadores argumenta-
tivos, marcadores de pressuposição, índices de modalidade, índices atidu-
dinais, tempos verbais e índices de polifonia. No sexto capítulo, trataremos
da análise da conversação e das tomadas de turno. No sétimo, veremos
a aplicação da teoria estudada em algumas propostas de atividades que
podem ser desenvolvidas na sala de aula para a promoção do ensino e da
aprendizagem.
Esperamos que você aproveite o máximo da disciplina. Bons estudos!
Prof.ª Sibéria Sales Q. de Lima
Prof.ª Silvéria Aparecida Basniak Schier
1
CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Introdução à análise
do discurso

Introdução
Há diversas maneiras de estudar a linguagem: podemos concentrar a análise
na língua enquanto sistema de signos, ou sistema de regras formais, ou normas de
bem dizer, por exemplo. “A maneira de se estudar a língua é diferente em diferentes
épocas, em distintas tendências e em autores diversos” (ORLANDI, 2003, p. 15).
No século XIX, os estudos centralizaram na comparação entre as línguas com
o objetivo de deduzir princípios gerais da evolução histórica e da regularidade
das diferenças entre línguas. Nessa época, descobriu-se o parentesco entre o
latim, o grego, as línguas germânicas, as eslavas e as célticas e as faladas na
antiga Índia.
No século XX, os estudos sobre a língua evoluíram. O grande responsável foi
o linguista suíço Ferdinand Saussure, que realizou importantes pesquisas com a
língua indoeuropeia, considerada na época língua-mãe. Mas o destaque foram
suas aulas de Linguística Geral dadas em Genebra, que o tornaram uma das
figuras mais importantes do início da Linguística como ciência, considerado o
fundador da Linguística científica.
Saussure apresentou conceitos que mudaram completamente o modo de
encarar a Linguística. A partir de aulas e de alguns escritos do próprio linguista,
seus discípulos publicaram a obra Curso de Linguística Geral, que serviu de base
para o desenvolvimento do estruturalismo e muitos questionamentos da Linguística
no século XX (ROBINS, 1983).
Ele definiu a língua como o objeto da Linguística. Embora ele a tenha definido
como um fato social, uma vez que os indivíduos a adquirem no convívio social,
privilegiou seu caráter formal e estrutural. A verdadeira intenção do linguista
suíço era isolar o estudo da língua de tudo que é exterior a ela. Saussure estabe-
leceu a distinção entre uma linguística interna (linguístico) oposta a uma linguís-
tica externa (social).
Os estudos linguísticos evoluíram. Os pesquisadores reconheceram que
a análise não poderia permanecer apenas na língua, havia necessidade de
examinar também os fatores externos a ela. Em relação a essa evolução nos
estudos linguísticos, Brandão (2004, p. 10) destaca que
O reconhecimento da dualidade constitutiva da linguagem, isto é,
do seu caráter ao mesmo tempo formal e atravessado por entradas

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CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

subjetivas e sociais, provoca um deslocamento nos estudos linguís-


ticos até então balizados pela problemática colocada pela oposição
língua/fala que impôs uma linguística da língua. Estudiosos passam
a buscar uma compreensão do fenômeno da linguagem não mais
centrado apenas na língua, sistema ideologicamente neutro, mas
num nível situado fora desse polo da dicotomia saussuriana.

A partir dessas mudanças, na década de 1960 e 1970, surgiram grandes


campos de investigação (pragmática, psicolinguística, análise do discurso, linguís-
tica histórica, análise de conversação, neurolinguística, linguística do texto, sociolin-
guística). Esses grandes campos de investigação avançaram em direção à interdis-
ciplinaridade crescente e à intersecção com a filosofia e outras ciências humanas,
como a sociologia, a antropologia, a psicologia, a neurociência, a semiologia etc.,
o que resultou em grandes contribuições para o desenvolvimento da sociedade.
Neste capítulo, apresentaremos o início dos estudos na área da análise do
discurso, os principais teóricos e alguns conceitos básicos dessa área tão impor-
tante da Linguística.

1.1 Linguagem: língua/discurso


O surgimento da análise do discurso se deu com a superação da análise
do texto, que buscava uma lógica dos encadeamentos “transfrásticos” do texto.
A análise do texto propunha como “objetivo estudar a estrutura do texto ‘nele
mesmo e por ele mesmo’ e restring[ia]-se a uma abordagem imanente do texto,
excluindo qualquer reflexão sobre sua exterioridade” (BRANDÃO, 2004, p. 13).
Portanto o estudo do texto ficava restrito à sua estrutura interna, não se buscava
o seu sentido ou qualquer reflexão sobre a significação e as considerações
sócio-históricas de produção.
Somente na década de 1950, as pesquisas mostraram a possibilidade de
ultrapassar os estudos que se limitavam a analisar apenas a estrutura interna da
língua e do texto e passaram a buscar uma compreensão dos fenômenos extra-
linguísticos que poderiam influenciar na produção da linguagem.
A instância da linguagem que passou a ser o foco dos estudos era a do
discurso, que possibilitou a ligação entre o nível propriamente linguístico e o
extralinguístico. Os pesquisadores perceberam que “o liame que liga as ‘signi-
ficações’ de um texto às condições sócio-históricas deste texto não é de forma
alguma secundária, mas constitutivo das próprias significações” (HAROCHE
e outros citados por BRANDÃO, 2004, p. 11). Segundo Bakhtin (1998), o
discurso é o ponto de articulação entre os fenômenos linguísticos e os sócio-
históricos. Cardoso (1999) acrescenta que discurso é um lugar de investimentos
sociais, históricos, ideológicos, psíquicos, por meio de sujeitos interagindo em
situações concretas.

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CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Portanto, para estudar a linguagem enquanto discurso, devem-se consi-


derar as condições histórico-sociais de produção. É sobre isso que discutiremos
na sequência.

Reflita

Qual é a diferença entre língua, fala e discurso?

1.2 Análise de discurso


A análise de discurso (AD) não trata da língua nem da gramática, apesar
de ambas serem consideradas, ela trata do discurso. Segundo Orlandi (2003),
etimologicamente, discurso dá a ideia de curso, de percurso, de correr por, de
movimento. Portanto discurso é palavra em movimento, é prática da linguagem.
Para analisar o discurso, é necessário observar o homem falando com o objetivo
de compreender a língua fazendo sentido enquanto parte constitutiva do homem
e de sua história.
Orlandi (2003, p. 15-16) expõe que a análise do discurso concebe
[...] a linguagem como mediação necessária entre o homem e a
realidade natural e social [...] é o discurso [que] torna possível
tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento
e a transformação do homem e da realidade em que ele vive.
O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da
existência humana. [...] a Análise de Discurso não trabalha com
a língua enquanto um sistema abstrato, mas com a língua no
mundo, com maneiras de significar, com homens falando, consi-
derando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas,
seja enquanto sujeitos, seja enquanto membros de uma determi-
nada forma de sociedade.

Conforme as exposições da autora, a AD considera os sujeitos, suas inscri-


ções na história e as condições de produção da linguagem. Assim o analista
do discurso estuda as relações estabelecidas entre a língua e os sujeitos que a
empregam e as situações em que se desenvolve o discurso. Portanto busca certas
regularidades no uso da língua em sua relação com a exterioridade.
O estudo discursivo considera
[...] não apenas o que é dito em dado momento, mas as relações
que esse dito estabelece com o que já foi dito antes e, até mesmo,
com o não-dito, atentando, também, para a posição social e histó-
rica dos sujeitos e para as formações discursivas às quais se filiam
os discursos (FRASSON, s/d, p. 2).

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CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Em consequência do estudo que analisa a ligação do que é dito com o que


já foi dito ou com o não dito e com as influências sócio-históricas do sujeito, a
análise do discurso não trabalha com a língua fechada nela mesma e nem com
a história e a sociedade como se elas fossem independentes do fato de que elas
significam (ORLANDI, 2003). Ou seja, a AD estuda a relação que há entre a
língua, o discurso, o sujeito e sua realidade sócio-histórica.
A partir dessas colocações, percebemos que a linguagem enquanto discurso
não é uma reunião de signos que serve apenas para comunicar ou manifestar
o pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação entre sujeitos; “ela
não é neutra, inocente e nem natural, por isso [é] o lugar privilegiado de mani-
festação de ideologia” (BRANDÃO, 2004, p. 11). Ou seja, quando nos mani-
festamos, a linguagem que usamos não é neutra, ela manifesta a ideologia da
sociedade na qual estamos inseridos.
Partindo da ideia de que a ideologia se materializa por meio do discurso e o
discurso se materializa por meio da língua, a análise do discurso estuda a relação
língua-discurso-ideologia. Orlandi (2003, p. 17) destaca que essa relação se
complementa com o fato de que “não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem
ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a
língua faz sentido”. A partir dessa constatação, podemos concluir que o discurso
é o lugar em que podemos observar a relação entre língua e ideologia.
Como o discurso é uma materialização da ideologia, Mussalim (2006, p.
110) argumenta que
[...] o sujeito do discurso não pode ser considerado como aquele
que decide sobre os sentidos e as possibilidades enunciativas do
próprio discurso, mas como aquele que ocupa lugar social e a
partir dele enuncia, sempre inserido no processo histórico que lhe
permite determinadas inserções e não outras. Em outras palavras,
o sujeito não é livre para dizer o que quer, mas é levado, sem que
tenha consciência disso [...], a ocupar seu lugar em determinada
formação social e enunciar o que lhe é possível a partir do lugar
que ocupa.

A produção do discurso é resultado de conjuntos discursivos que foram inte-


riorizados pelo sujeito em função da exposição sócio-histórica a que está subme-
tido, a partir da qual são constituídas suas representações discursivas sobre
o mundo. Portanto o homem não é o senhor de seus discursos, é a ideologia
que predetermina o que ele pode ou não dizer em determinadas conjunturas
histórico-sociais (BRANDÃO, 2004; MUSSALIM, 2006).
Para explicar melhor essa falta de liberdade do sujeito, Mussalim (2006, p.
110) cita uma passagem de Altusser:
A ideologia é bem um sistema de representações, mas estas
representações não têm, na maior parte do tempo, nada a ver
com a “consciência”: elas são da maior parte das vezes imagens,

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CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

às vezes conceitos, mas antes de tudo estruturas que se impõem à


maioria dos homens, sem passar por suas consciências.

O teórico defende que a ideologia são representações impostas ao homem


sem ele ter consciência delas. A linguagem é uma via por meio da qual se pode
depreender o funcionamento da ideologia.

Saiba mais

Para você ampliar o conceito de ideologia, leia o capítulo 1 do livro Intro-


dução à análise do discurso, de Helena Nagamine Brandão, publicado
pela editora UNICAMP. Nesse capítulo, a autora apresenta a visão de
Marx, Althusser e Ricouer sobre a ideologia.

Pêcheux, um dos precursores dos estudos discursivos na França, defende a


teoria de que não há um sujeito individual no discurso, mas há um ajustamento
dele à ideologia. A partir dos apontamentos de Pêcheux, Gregolin (2003, p. 27)
assevera que “o sujeito não é considerado como um ser individual, que produz
discursos com liberdade: ele tem a ilusão de ser o dono de seu discurso, mas é
apenas um efeito do ajustamento ideológico”.
Maingueneau citado por Brandão (2004, p. 17) aponta que, para o estudo
da linguagem segundo a AD, é necessário considerar as seguintes dimensões:
• o quadro das instituições em que o discurso é produzido, as
quais delimitam fortemente a enunciação;
• os embates históricos, sociais etc. que se cristalizam no discurso;
• o espaço próprio que cada discurso configura para si mesmo
no interior de um interdiscurso.

Dessa forma, não se deve estudar a linguagem apenas em relação ao


seu sistema interno, enquanto uma competência linguística específica, que
permite o sujeito compreender e produzir o discurso, mas também enquanto
formação ideológica, que se manifesta por meio da competência socioideoló-
gica (BRANDÃO, 2004).
Na sequência, veremos as principais linhas de estudo, teóricos e suas contri-
buições para a análise do discurso.

1.3 Análise do discurso: linhas e teóricos


Mussalim (2006) esclarece que não há apenas uma AD. A autora destaca
as linhas francesa e americana. Vejamos, no quadro a seguir, em que essas duas
linhas se diferenciam.

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CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Quadro – Diferenças entre duas linhas de estudo da AD.

Linha francesa Linha americana


Privilegia o contato com a História. Privilegia o contato com a Sociologia.
Interessa-se por enunciados com estruturas
Interessa-se por textos de arquivo, que
mais flexíveis, como, por exemplo, uma
emanam de instâncias institucionais.
conversa informal.
Um dos seus pilares é que os sujeitos são Um dos seus pilares é a análise da intenção
condicionados pela ideologia. dos sujeitos numa interação verbal.

Optamos por analisar a linha francesa. Para essa linha, os dois conceitos
básicos são ideologia e discurso. As vertentes que influenciaram a corrente fran-
cesa são, do lado da ideologia, os conceitos de Althusser e, do lado do discurso,
as ideias de Foucault. A partir dos trabalhos desses dois teóricos, Pêcheux se
tornou um dos principais estudiosos da AD (BRANDÃO, 2004).
Vejamos, nas próximas seções, as principais contribuições dos teóricos para
o desenvolvimento da AD.

1.3.1 O conceito de discurso em Foucault


As ideias de Foucault são fecundas visto que dão diretrizes para uma análise
do discurso. Brandão (2004, p. 37) destaca as seguintes contribuições do estu-
dioso para o estudo da linguagem:
• a concepção do discurso considerado como prática que
provém da formação dos saberes e a necessidade, sobre a
qual insiste obsessivamente, de sua articulação com outras
práticas não discursivas;
• o conceito de “formação discursiva”, cujos elementos constitu-
tivos são regidos por determinadas “regras de formação”;
• entre esses elementos constitutivos de uma formação discur-
siva, ressalta-se a distinção entre enunciação (que tem dife-
rentes formas de jogos enunciativos singulariza o discurso)
e o enunciado (que passa a funcionar como unidade linguís-
tica, abandonando-se, dessa forma, a noção de sentença ou
frase gramatical com essa função);
• a concepção de discurso como jogo estratégico e polêmico:
o discurso não pode mais ser analisado simplesmente sob
seu aspecto linguístico, mas como jogo estratégico de ação
e de reação, de pergunta e resposta, de dominação e de
esquiva e também de luta;
• o discurso é o espaço em que saber e poder se articulam,
pois quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito
reconhecido institucionalmente. Esse discurso, que passa
por verdadeiro, que veicula saber (o saber institucional), é o
gerador de poder;

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CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

• a produção desse discurso gerador de poder é controlada,


selecionada, organizada e redistribuída por certos procedi-
mentos que têm por função eliminar toda e qualquer ameaça
à permanência desse poder.

Foram muitas as contribuições deixadas por Foucault à AD, como o conceito


de formação discursiva (apresentada no item 1.4.1), a distinção entre enun-
ciado e enunciação, a concepção de discurso como jogo estratégico, a visão de
discurso como articulação de saber e poder (“quem fala, fala de algum lugar,
a partir de um direito reconhecido institucionalmente” (FOUCAULT citado por
CARDOSO, 1999, p. 22)).
Para Foucault, enunciado é a unidade elementar do discurso. Ele tem uma
existência material, está aberto à repetição, à transformação e à reativação e
pertence a uma formação discursiva. O sujeito de um enunciado é um lugar deter-
minado e vazio que pode ser ocupado por indivíduos diferentes. Por exemplo,
“a mulher é um ser inferior” pertence à formação discursiva machista, pode ser
repetido por diferentes indivíduos, de diferentes regiões e classes sociais e de
diferentes formas, como “lugar de mulher é na cozinha” (CARDOSO, 1999).
Já a enunciação é singular e irrepetível (tem data e lugar determinado).
Portanto cada vez que o enunciado “a mulher é um ser inferior” é repetido pelo
mesmo sujeito ou por outros, trata-se de uma nova enunciação, ou seja, jamais
se repete, visto que cada espaço/situação tem uma função enunciativa dife-
rente. No entanto não podemos considerar a enunciação como ato individual,
pois, segundo Bakthin (1998), ela é “eminentemente social”. “Enuncia-se sempre
para alguém de um determinado lugar ou de uma determinada posição sócio-
histórica” (CARDOSO, 1999, p. 38).

Saiba mais

Sugerimos a leitura de O conceito de discurso em Foucault, exposto no


primeiro capítulo do livro Introdução à análise do discurso, de Helena Na-
gamine Brandão. Nesse subtítulo, você terá mais detalhes sobre as contri-
buições de Foucault para o desenvolvimento da AD.

1.3.2 Pêcheux: língua, discurso e ideologia


Pêcheux se apoiou criticamente em Saussure para construir a noção de
discurso. Constatou que a língua pensada como sistema deixou de ser enten-
dida como tendo a função de exprimir sentido; ela tornou-se um objeto do qual
uma ciência pôde descrever o funcionamento de algo. Também verificou que

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CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

a oposição língua/fala não poderia se ocupar da problemática do discurso e


passou a refletir sobre a fala, polo da oposição menos estudado por Saussure
(CARDOSO, 1999).
Pêcheux concebem o discurso como uma instância inteiramente histórica
e social e demonstram que “a linguagem, enquanto discurso, não pode ser
compreendida como uma unidade significativa, mas como um efeito de sentido
entre os sujeitos que a utilizam” (MARTINS, 2004, s/p).
Segundo Brandão (2004, p. 38), Pêcheux desenvolveu um quadro epistemo-
lógico para a AD que abrange três áreas do conhecimento científico:
• o materialismo histórico como teoria das formações sociais e
suas transformações, aí compreendida a teoria das ideologias;
• a linguística, como teoria dos mecanismos sintáticos e dos
processos de enunciação,
• e a teoria do discurso, como teoria da determinação histórica
dos processos semânticos.

Essas três áreas englobam conceitos básicos de formação social, língua


e discurso. Baseando-se na teoria de Althusser sobre ideologia, Pêcheux deu
uma grande contribuição aos estudos linguísticos ao defender a ideia de que
a ideologia se materializa e atua nos sujeitos sociais, “fixando-os em posi-
ções-sujeito e dando-lhes, ao mesmo tempo, a ilusão de serem agentes livres.
Esses processos ocorrem em várias instituições como a família, a lei, a escola”
(MARTINS, 2004, s/p).
Para Pêcheux, o sujeito tem a ilusão de que é o criador absoluto do seu
discurso, a origem do sentido, de que o que ele diz tem apenas um significado
que será captado pelo seu interlocutor e de que sabe e controla tudo o que diz
(MARTINS, 2004).

Saiba mais

Sugerimos a leitura do artigo Linguagem, subjetividade e história: a contri-


buição de Michel Pêcheux para a constituição da análise do discurso, de
Antônio Carlos Soares Martins. Esse artigo está disponível no sítio <http://
www.unimontes.br/unimontescientifica/revistas/Anexos/artigos/revista_
v6_n1/15_artigos_linguagem.htm>. Nele, você lerá quais foram as contri-
buições de Pêcheux para a constituição da AD enquanto disciplina.

Depois de conhecermos as contribuições dos principais teóricos para a AD,


analisaremos alguns conceitos básicos para a compreensão da área da análise
do discurso.

16  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

1.4 Noções de AD: conceitos básicos


Neste tópico, analisaremos alguns conceitos que são importantes para a
compreensão da análise do discurso.

1.4.1 Formação discursiva


Foucault define o discurso como “um conjunto de enunciados que derivam de
uma mesma formação discursiva” (CARDOSO, 1999, p. 35). Os discursos são
concebidos pelo autor como “uma dispersão, isto é, como sendo formados por
elementos que não são ligados por nenhum princípio de unidade” (BRANDÃO,
2004, p. 32). Portanto o discurso pode ser entendido como uma família de enun-
ciados pertencentes a uma mesma formação discursiva (FD).
Cardoso (1999, p. 35) nos ensina que
Formações discursivas são as grandes unidades históricas que os
enunciados constituem. Ex.: a medicina, a gramática, a economia,
a política etc. São sistemas de dispersão de difícil demarcação.
Não são blocos fechados, estabilizados. As formações discur-
sivas são constituídas de práticas discursivas, que determinam os
objetos, as modalidades de enunciação dos sujeitos, os conceitos,
as teorias, as escolhas temáticas. A formação discursiva não é
a “essência” do discurso, não é a “estrutura profunda” ou seu
“sentido profundo”, mas é, ao mesmo tempo, um operador de
coesão semântica do discurso e um sistema comum de restrições
que pode investir-se nos universos textuais.

Chamamos a atenção para dois pontos destacados pela autora. Um deles é


que as FDs são unidades históricas de difícil demarcação, pois não são unidades
compactas e fechadas, por isso não podemos considerar as formações discur-
sivas como blocos homogêneos que funcionam automaticamente. Essa consta-
tação é bem explicada por Brandão (2004, p. 49):
[...] uma FD não é “uma única linguagem para todos” ou “para
cada um sua linguagem”, mas numa FD o que se tem é “várias
linguagens em uma única”. [...] Uma FD é, portanto, hetero-
gênea a ela própria: o fechamento de uma FD é fundamental-
mente instável, ela não consiste em um limite traçado de forma
definitiva, separando um exterior e um interior, mas se inscreve
entre diversas FDs como uma fronteira que se desloca em função
da luta ideológica.

Outro ponto destacado por Cardoso é que as FDs são constituídas a partir
das práticas discursivas, que são “um conjunto de regras anônimas, históricas,
sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada
época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguís-
tica, as condições do exercício da função enunciativa” (FOUCAULT citado por
CARDOSO, 1999, p. 23). Assim as formações discursivas determinam o que
pode e deve ser dito a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada

unitins • letras • 6º PERÍODO  17


CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

(BRANDÃO, 2004; MUSSALIM, 2006). Por exemplo, “eu vos declaro casados”,
para ter validade, em nossa sociedade, não pode ser dito por qualquer sujeito.
Brandão (2004, p. 51) acrescenta que
Analisar o discurso é descrever os “sistemas de dispersão” dos
enunciados que o compõem através das “regras de formação”.
Se eles apresentam um sistema de dispersão semelhante, podendo
definir uma regularidade nas suas “formas de repartição”, pode-se
dizer que eles pertencem a uma mesma FD.

Para realizarmos análise do discurso, também precisamos considerar que o


sentido não está nas palavras, mas é determinado pelo contexto sócio-histórico
em que elas são produzidas. As palavras mudam de sentido segundo as posições
daqueles que as empregam. Por exemplo, a palavra terra não tem o mesmo signi-
ficado para um índio, para um agricultor sem terra e para um grande fazendeiro.
Os sentidos sempre são determinados ideologicamente. Tudo que dizemos tem
um traço ideológico em relação a outros traços ideológicos. “Portanto os sentidos
não estão predeterminados por propriedades da língua. Dependem de relações
constituídas nas/pelas formações discursivas” (ORLANDI, 2003, p. 44).

Reflita

“Dia ensolarado“ tem o mesmo sentido para um paulista e um nordestino?

1.4.2 Formação ideológica


Para a AD, o sentido é constituído a partir do contexto histórico-social, por
isso, ao realizarmos a análise de um texto, precisamos considerar as condições
em que ele foi produzido. Dessa forma, o contexto de enunciação “constitui
parte do sentido do discurso e não apenas um apêndice que pode ou não ser
considerado. Em outras palavras, pode-se dizer que, para a AD, os sentidos são
historicamente construídos” (MUSSALIM, 2006, p. 123).
Althusser citado por Mussalim (2006, p. 123) defende a teoria de que
[...] a classe dominante, para manter sua dominação, gera
mecanismos que perpetuam e reproduzem as condições mate-
riais, ideológicas e políticas de exploração, entre esses meca-
nismos, os aparelhos ideológicos do Estado. O discurso [...] é um
aparelho ideológico por meio do qual se dão os embates entre
posições diferenciadas.

A ideologia dominante é propagada por meio dos aparelhos ideoló-


gicos do Estado, por exemplo, discursos das igrejas e das escolas, com a

18  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

intenção de “mascarar” a realidade e dar continuidade à reprodução das


condições de dominação que sustenta a posição da classe dominante no
sistema capitalista.
A AD chama “os embates entre posições diferenciadas” de formação ideo-
lógica (FI). Haroche, Henry e Pêcheux citados por Mussalim (2006, p. 124)
expõem que
Falar-se-á em formação ideológica para caracterizar um elemento
(determinado aspecto da luta nos aparelhos) susceptível de intervir
como uma força confrontada com outras na conjuntura ideológica
característica de uma formação social em um momento dado;
cada formação ideológica constitui assim um conjunto complexo
de atitudes e de representações que não são nem “individuais”,
nem “universais” mas se relacionam mais ou menos diretamente
a posições de classe em conflito uma com as outras.

Assim uma FD comporta mais de uma posição capaz de se confrontar uma


com a outra. “Na verdade, numa formação ideológica, as forças não precisam
estar necessariamente em confronto; elas podem entreter entre si relações de
aliança ou também de dominação” (MUSSALIM, 2006, p. 125). Portanto a
formação discursiva é o lugar em que se articulam discurso e ideologia. Nesse
sentido, podemos afirmar que a FD é governada pela FI.

1.4.3 Heterogeneidade
Segundo Brandão (2003), para Authier-Revuz, a natureza da linguagem é
ser heterogênea. Em qualquer formação discursiva, há sempre a presença do
Outro, e é essa presença que confere ao discurso o caráter heterogêneo.
Mussalim (2006, p. 128) expõe três tipos de heterogeneidade mostrada,
ou seja, formas que acusam a presença do Outro no discurso propostos por
Authier-Revuz:
a) Aquela em que o locutor ou usa de suas próprias palavras
para traduzir o discurso de um Outro (discurso relatado) ou
então recorta as palavras do Outro e as cita (discurso direto);
b) Aquela em que o locutor assinala as palavras do Outro em
seu discurso, por meio, por exemplo, de aspas, de itálico,
de uma remissão a outro discurso, sem que o fio discursivo
seja interrompido;
c) Aquela em que a presença do Outro não é explicitamente
mostrada na frase, mas é mostrada no espaço do implícito,
do sugerido, como nos casos do discurso indireto livre, da
antífrase, da ironia, da imitação, da alusão.

Nas formas (a, b), a presença do Outro no discurso é mais evidente, por isso
Authier-Revuz as classifica como heterogeneidade mostrada marcada. Nesse tipo
de heterogeneidade, o locutor utiliza formas que marcam a presença do Outro,
como o discurso direto e/ou indireto, ou que incluem as palavras do Outro no

unitins • letras • 6º PERÍODO  19


CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

seu discurso, sem que haja interrupção do fio discursivo, indicando-as por meio
do uso das aspas, do itálico, de uma entonação específica, de um comentário
ou de uma remissão a outro discurso (BRANDÃO, 2003).
Na forma (c), a presença do Outro no discurso é menos evidente e a iden-
tificação é mais complexa devido à sua voz se misturar com a voz do locutor e
não ser é explicitada por marcas no discurso. A esse tipo de heterogeneidade
Authier-Revuz classifica como heterogeneidade mostrada não-marcada. É o caso
do discurso indireto livre, da ironia, da alusão, da pressuposição, da imitação,
da reminiscência, “em que se joga com o outro discurso não mais no nível da
transparência, do explicitamente mostrado ou dito, mas no espaço do implícito,
do semidesvelado, do sugerido” (BRANDÃO, 2003, p. 9).

Saiba mais

O livro Discurso e ensino, de Silvia Helena Cardoso, apresenta análise de


vários exemplos de heterogeneidade mostrada. Leia-o para ampliar seu
conhecimento a respeito de heterogeneidade.

Reflita

A partir da leitura da obra indicada, analise de que forma a heteroge-


neidade mostrada se apresenta no seguinte trecho de Vidas secas, de
Graciliano Ramos.
“Estirou as pernas, encostou as carnes doídas ao muro. Se lhe tivessem
dado tempo, ele teria explicado tudo direito. Mas pegado de surpresa,
embatucara. Quem não ficaria azuretado com semelhante despropósito?”

1.4.4 Interdiscurso
Courtine e Marandim citados por Brandão (2004, p. 91) afirmam que
O interdiscurso consiste em um processo de reconfiguração
incessante no qual uma formação discursiva é conduzida [...]
a incorporar elementos preconstruídos produzidos no exterior
dela própria; a produzir sua redefinição e seu retorno, a suscitar
igualmente a lembrança de seus próprios elementos, a organizar
a sua repetição, mas também a provocar eventualmente seu
apagamento, o esquecimento ou mesmo a degeneração.

20  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Como em qualquer formação discursiva, há sempre a presença do Outro,


que confere ao discurso o caráter heterogêneo, segundo Maingueneau citado
por Cardoso (1999), há o primado do interdiscurso sobre o discurso.
Nesse sentido, um discurso jamais “seria autônomo: como ele remete sempre
a outros discursos, suas condições de possibilidades semânticas se concretizariam
num espaço de trocas, mas jamais enquanto identidade fechada” (BRANDÃO,
2004, p. 91).
Os diversos discursos que encontram em uma FD não se constituem indepen-
dentemente uns dos outros para serem, em seguida, postos em relação, mas se
formam de maneira regulada no interior de um interdiscurso (MUSSALIM, 2006).

Saiba mais

Para ampliar os conceitos básicos da AD expostos aqui, leia o artigo Aná-


lise do discurso: um itinerário histórico, de Helena Nagamine Brandão,
pesquisadora da USP. A autora reconstrói a tendência de estudos da análi-
se do discurso de linha francesa. O artigo está disponível no sítio <http://
www.fflch.usp.br/dlcv/lport/pdf/brand005.pdf>.
Outra dica para aprofundar os conceitos básicos da AD, é a análise da
crônica Um só seu filho, apresentada por Fernanda Mussalim, no capítulo
4 (item 3) do livro Introdução à linguística.

Abordamos, neste capítulo, o que julgamos ser fundamental para o primeiro


contato com a análise do discurso. Você aprendeu que a AD nasceu da necessidade
de superar a teoria de uma linguística frasal, que não dava conta do texto em sua
complexidade. A análise do discurso voltou-se para o “exterior” linguístico para apre-
ender como, no discurso, se inscrevem as condições sócio-históricas de produção.
No próximo capítulo, estudaremos sobre Bakhtin. Esse teórico russo é muito
importante para a compreensão dos estudos linguísticos atuais. A partir dele a
comunicação foi entendida não como uma construção individual, mas situada
em um contexto sociocultural. A pedra angular de sua teoria é o dialogismo.

Referências
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 9. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 1998.
BRANDÃO, H. H. N. Análise do discurso: um itinerário histórico. In: PEREIRA,
H. B. C.; ATIK, M. Luiza G. (Org.). Língua, literatura e cultura em diálogo. São

unitins • letras • 6º PERÍODO  21


CAPÍTULO 1 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Paulo: Mackenzie, 2003. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/dlcv/lport/


pdf/brand005.pdf>. Acesso em: 4 abr. 2010.
______. Introdução à análise do discurso. 2. ed. Campinas: UNICAMP, 2004.
CARDOSO, S. H. B. Discurso e ensino. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
FRASSON, C. B. Análise do discurso: considerações básicas. [s/d]. Disponível
em: <http://www.fucamp.com.br/nova/revista/revista0612.pdf>. Acesso em:
4 abr. 2010.
GREGOLIN, M. Análise do discurso: lugar de enfrentamentos teóricos. In:
FERNANDES, C. A.; SANTOS, J. B. C. dos (Org.). Teorias linguísticas: proble-
máticas contemporâneas. Uberlândia: EDUFU, 2003.
MARTINS, A. C. S. Linguagem, subjetividade e história: a contribuição de Michel
Pêcheux para a constituição da análise do discurso. Unimontes Científica, v. 6,
n. 1, jan./jun., 2004. Disponível em: <http://www.unimontes.br/unimontes-
cientifica/revistas/Anexos/artigos/revista_v6_n1/15_artigos_linguagem.htm>.
Acesso em: 4 abr. 2010.
MUSSALIM, F. Análise do discurso. In: ______; BENTES, A. C. (Org.) Introdução
à linguística: domínios e fronteiras. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2006. v. 2.
ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 5. ed. Campinas:
Pontes, 2003.
ROBINS, R. H. Pequena história da Linguística. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico,
1983.

Anotações

22  6º PERÍODO • letras • unitins


2
CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Bakhtin: teorias do discurso,


dialogismo e polifonia

Introdução
Neste capítulo, estudaremos algumas das teorias defendidas por Mikhail
Bakhtin, que foi um dos mais importantes teóricos do século passado. Estudou,
pesquisou e escreveu sobre literatura, linguagem etc. Em toda a sua produção,
percebemos o espírito de um homem inquieto diante da complexidade da
comunicação humana.
Conhecido como o teórico do diálogo, viveu em uma época conturbada.
Publicou Freudismo (1927), O método formal nos estudos literários (1928)
e Marxismo e filosofia da linguagem (1929), considerada como sua obra
mais relevante.
Seu reconhecimento veio mais tarde, na década de 1970. Em 1929, foi
condenado ao exílio interno no Cazaquistão acusado de envolvimento em
atividades ilegais ligadas à Igreja Ortodoxa, o que nunca foi confirmado.
Enfrentou doenças que comprometeram a sua qualidade de vida. Seu espírito
inquieto produziu teorias que até hoje são estudas, desvendadas, discutidas e
atualizadas servindo a cada vez mais campos de estudos.
Neste capítulo, estudaremos um pouco sobre esse teórico e algumas de
suas teorias.
Esperamos que ao final deste capítulo, você compreenda as principais
teorias de Bakhtin, os aspectos de sua vida, o dialogismo, a polifonia e a
intertextualidade.

2.1 Mikhail Bakhtin: vida e obra


Mikhail Bakhtin, filósofo russo, nascido em Oriol, ao sul de Moscou, escreveu
sobre teoria literária, crítica literária, semiótica, análise do discurso. Suas obras
datam de meados dos anos 1920, porém sua notoriedade científica foi reconhe-
cida por volta das décadas de 1970 e 1980. Hoje, é uma referência importante
nos estudos do campo da linguagem.
Seu entendimento de “língua” ultrapassa a visão de língua enquanto sistema,
interpretação sustentada pela tradição da linguística estruturalista, especialmente
ancorada nas teses defendidas por Ferdinand de Saussure.

unitins • letras • 6º PERÍODO  23


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Saiba mais

Um texto para iniciar seus estudos sobre as teorias bakhtinianas é o livro


organizado pelos professores Diana Luz Pessoa de Barros e José Luiz Fiorin,
Dialogismo, polifonia e intertextualidade: em torno de Bakhtin.
Essa obra trata de temas relevantes da teoria de Bakhtin contextualizan-
do-os em textos e situações concretas.

Segundo Brait (1997, p. 155), Bakhtin “tem em mira uma terceira via de
enfrentamento das questões de linguagem, que não se restringiria à formação
abstrata e nem às especificidades dos talentos individuais”. A compreensão
ampla da natureza da linguagem está entre essas duas orientações, ou melhor,
ela está para além delas.
Bakhtin se interessa pelo real e concreto ocorrente na contradição de classes.
Vê o homem como um ser histórico, cultural e que a sua produção social resulta
necessariamente em cultura.
Bakhtin considera que a língua não pode e não deve ser compreendida
isoladamente, mas permeada por suas relações com a sociedade, ou seja, pelos
fatores “extralinguísticos”. Bakhtin (1999) supera as visões dicotômicas dos
teóricos e propõe a interação verbal como base de sua teoria.
Para o teórico russo, a língua deveria ser estudada a partir das suas rela-
ções com os momentos de produção, com os interlocutores, os contextos que
envolvem a fala, o momento histórico-social. Entendia que o homem é um ser
histórico e produtor de um conjunto de relações sociais. Bakhtin (2006, p. 248),
afirma que
Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que
sejam, estão relacionadas com a utilização da língua. Não é de
surpreender que o caráter e os modos dessa utilização sejam tão
variados como as próprias esferas da atividade humana [...] O
enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de
cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo temático e
por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos
da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais – mas
também, e, sobretudo, por sua construção composicional.

A forma linguística, para Bakhtin (1999, p. 95), se apresenta por meio das
“enunciações precisas, o que implica sempre um contexto ideológico preciso
[...]. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideo-
lógico ou vivencial”. A substância da língua se mostra como sendo o fenômeno
da interação verbal realizada por meio dos enunciados ou das enunciações
(BAKHTIN, 2002).

24  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Revelando sua preferência pelas relações de diferença e alteridade, Bakhtin


entende a linguagem como uma imagem criada pelo ponto de vista de outra
linguagem, pelo outro. Esse alheio ao que é seu passa a ser significativo e essen-
cial para a produção do discurso.
Apresenta conceitos como heteroglossia e dialogismo. Postula que todo
gênero discursivo é dialógico.
Entende que ele se estabelece mesmo entre produções monológicas, ou
seja, há uma relação dialógica mesmo nos casos em que as vozes não se
deixam transparecer.
Segundo Stam (2000, p. 12), Bakhtin enfatizou a heterogeneidade da
parole, pois ele “vê a linguagem não só como um sistema abstrato, mas também
como uma criação, parte de um diálogo cumulativo entre o ‘eu’ e o outro, entre
muitos ‘eus’ e muitos ‘outros’”.
Outra questão à qual Bakhtin se dedicou foi a questão dos gêneros discur-
sivos. Em Estética da criação verbal, Bakhtin (2006) reservou um capítulo inteiro
para apresentar suas concepções sobre eles.

Saiba mais

Uma sugestão de leitura para aprofundamento de seus estudos sobre gêne-


ros discursivos é o texto Gêneros discursivos e o ensino de linguagem, de
Neilton Farias Lins. O texto está disponível no sítio <http://www.diaadia-
educacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/conteudo/artigos_te-
ses/LinguaEspanhola/artigos/art_neilton.pdf>. Com base na análise da
conversação, esse artigo tem como objetivo propor uma reflexão sobre a
contribuição dos gêneros discursivos no ensino de língua materna.

Os gêneros discursivos, numa perspectiva bakhtiniana, podem ser compre-


endidos como construtos sociais, pelos quais organizamos nossas ideias, nossas
falas cotidianas, nosso modo de pensar, o modo como nos posicionamos diante
das atividades e das funções sociais que exercemos. Os gêneros discursivos
caracterizam-se, portanto, por meio de suas funções comunicativas. Bakhtin
(2006, p. 262) expõe que
A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infi-
nitas por que são inesgotáveis as possibilidades da multiforme
atividade humana e porque em cada campo dessa atividade
é integral o repertório de gênero do discurso, que cresce e
diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um
determinado campo.

unitins • letras • 6º PERÍODO  25


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Os gêneros discursivos, para Bakhtin, são as formas pelas quais represen-


tamos o nosso ser/estar no mundo cotidiano. Por serem diversas as atividades
sociais que nos cercam e que exigem de nós uma forma de representação comu-
nicativa, os gêneros discursivos são variados. Apresentam-se tão diversificados
quanto são diversificadas as nossas funções sociais e comunicativas.
Todas as nossas produções orais ou escritas se baseiam em formas padrões
relativamente estáveis de estruturação. Longe de serem naturais ou resultado
da ação de um indivíduo, essas práticas comunicativas são modeladas/remo-
deladas em processos interacionais dos quais participam os sujeitos de uma
determinada cultura.
Ao aprofundar seus estudos sobre gênero, Bakhtin explicou que, pela grande
gama de funções comunicativas que nos cercam e, consequentemente, pela
grande variedade de gêneros que existem, uma forma de organizar o entendi-
mento sobre os gêneros seria observar seus aspectos composicionais. O que nos
revelaria a existência de dois grandes grupos de gêneros discursivos: os gêneros
primários e os secundários.
Os primários são marcados pelas experiências cotidianas de comunicação
imediata, como o diálogo, os relatos. Já os gêneros discursivos complexos,
secundários incorporam em sua constituição os gêneros discursivos primários,
tidos como simples, como o romance, o teatro.
Ao se configurarem como gêneros secundários (complexos), absorvem e
modificam os gêneros primários, fazendo-os perder “o vínculo imediato com a
realidade concreta e os enunciados reais alheios” (Bakhtin, 2006, p. 263).
“Na perspectiva bakhtiniana o que justifica o rótulo primário ou secundário não
é a modalidade da língua usada, mas a esfera a que se vincula o gênero”
(MARCUSCHI; XAVIER, 2005, p. 93).
Marcuschi e Xavier (2005, p. 93) relacionam a expressão “domínio discur-
sivo” às noções de “esfera” e de “atividade humana”. Para esses teóricos,
Isso significa que os discursos, que surgem de uma esfera,
trazem, inevitavelmente, as marcas e as finalidades do domínio
do qual procedeu. Esta reflexão remonta a Bakhtin que afirma
que cada esfera elabora seus tipos relativamente estáveis de
enunciados, sendo isso o que [o autor denomina de] gêneros
do discurso.

Desse modo, segundo Brait (1997, p.154), “nossa fala é modulada pelos
gêneros discursivos, pois todas as enunciações de nosso discurso-fala reve-lam
escolhas particulares de formas construídas dentro de um todo, que são
as enunciações”.
Os gêneros discursivos têm a capacidade de acionar as diversas esferas
de enunciação, são, portanto, depositários de uma dada cultura. Podem ser
entendidos como formas de representação do mundo, ou de diversos entendi-

26  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

mentos e visões de mundo de épocas históricas. Colaborando com essa visão,


a ideia de gênero é apresentada por Brait (1997, p. 156) como “rede discur-
siva em expansão”.
Em termos bakhtinianos, um gênero é caracterizado da seguinte forma:
• são tipos relativamente estáveis de enunciados presentes em cada
esfera de troca: os gêneros têm uma forma de composição, um plano
composicional;
• além do plano composicional, os gêneros distinguem-se pelo conteúdo
temático e pelo estilo:
[...] está indissociavelmente vinculado a determinadas unidades
temáticas e, o que é mais importante, a determinadas unidades
composicionais: tipos de estruturação e conclusão de um todo,
tipo de relação entre locutor e outros parceiros da comunicação
verbal (relação com o ouvinte, ou com o leitor, com o interlocutor,
com o discurso do outro, etc.) (BAKHTIN, 2006, p. 284);

• são entidades escolhidas de acordo com as diversas práticas sociais,


tendo em vista as esferas de necessidade temática, o conjunto de parti-
cipantes e a vontade enunciativa ou intenção do locutor.
Segundo Koch e Elias (2009, p. 61), “a escolha do gênero se dá sempre em
função dos parâmetros da situação que guiam a ação e estabelecem a relação
meio-fim, que é a estrutura básica de toda atividade mediada”.
No próximo tópico, falaremos sobre a polifonia.

2.2 Polifonia
O dialogismo manifesta-se a partir da polifonia e da heterogeneidade,
presentes nos diversos gêneros discursivos e na intertextualidade, que é,
segundo Barros e Fiorin (2003, p. 4), “antes de tudo, intertextualidade ‘interno’
das vozes que falam e polemizam no texto, nele produzindo o diálogo com
outros textos”.
A polifonia também é um dos conceitos apresentados na teoria bakhtiniana
e emerge do conceito de dialogismo. É o entrecruzamento de diversas vozes
que se instauram no enunciado. Barros e Fiorin (2003, p. 6) mencionam que
Os textos são dialógicos porque resultam do embate de muitas
vozes sociais; podem, no entanto, produzir efeitos de polifonia,
quando essas vozes ou algumas delas deixam-se escutar, ou de
monofonia, quando o diálogo é mascarado, e apenas uma voz
faz-se ouvir.

O dialogismo é concebido como espaço interacional entre o “eu” e o “tu”


entre o eu e o outro, no texto. Desse modo, a existência do outro é essencial para
a construção do sentido. Não há nenhuma palavra originalmente nossa, pois
sempre traz em si a perspectiva de outra voz.

unitins • letras • 6º PERÍODO  27


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

A polifonia é compreendida como a presença de vários sujeitos que se


apresentam ideologicamente no discurso. O discurso nunca é autônomo, ele é a
construção de várias vozes que se entrecruzam no tempo e no espaço.
Segundo Todorov citado por Barros e Fiorin (2003, p. 41), foi o encontro
com a obra de Dostoievski que permitiu a Bakhtin elaborar a noção de polifonia.
Bakhtin (1981, p. 2) explica que,
Dentro do pleno artístico de Dostoievski, suas personagens princi-
pais são, em realidade, não apenas objetos do discurso do autor,
mas os próprios sujeitos desse discurso diretamente significante.
[...] A consciência do herói é dada como a outra, a consciência
do outro, mas ao mesmo tempo não se objetifica, não se fecha,
não se torna mero objeto da consciência do autor.

Não é possível pensarmos que um texto nasce do nada, ou seja, ele não
tem no emissor o seu único e absoluto início. Assim, se todo texto é um intertexto,
todo intertexto, também, pode ser considerado como um texto. Essa reunião de
textos que se entrecruzam pode revelar a existência de múltiplas vozes, propor-
cionando que a polifonia do texto se manifeste.
A polifonia é a resultante da ideia de que
Tudo que é dito, tudo que é expresso por um falante, por um enun-
ciador, não pertence só a ele. Em todo discurso são percebidas
vozes, às vezes infinitamente distantes, anônimas, quase impes-
soais, quase imperceptíveis assim como as vozes próximas que
ecoam simultaneamente no momento da fala (BARROS; FIORIN,
2003, p. 14).

Assim o meu discurso é não meu, mas é do outro que anteriormente usou
a palavra. Em certo sentido, o ato comunicativo é como um rio que dialoga
com outros rios anteriores e posteriores a ele. As vozes ecoam infinitamente nos
discursos. Mas como se dá esse diálogo? Esse é o assunto do próximo tópico.

2.3 Dialogismo
Bakhtin defende o dialogismo como sendo o princípio constitutivo da
linguagem. A partir desse princípio as trajetórias dos discursos são traçadas em
busca de sentido. Bakhtin (2006, p. 404) assevera que
O texto só vive em contato com outro texto (contexto). Somente
em um ponto de contato é que surge a luz que aclara para
trás e para frente, fazendo com que o texto participe de um
diálogo. [...] Por trás desse contato, há o contato de pessoas e
não de coisas.

A relação estabelecida entre os sujeitos, em um processo de interatividade,


é que revela a dialogicidade da linguagem. A teoria da informação, emba-
sada nos postulados da matemática e da estatística e sustentada por teórico
como Roman Jakobson, entendia a comunicação com base em um sistema que

28  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

envolvia emissor (eu), o receptor (tu) e a mensagem. Contrárias a essa epistemo-


logia, as teorias bakhtinianas entendem o dialogismo como entrelaçamento de
sujeitos sociais, históricos e culturais.
Fiorin (2008, p. 17) expõe que
Há três eixos básicos do pensamento bakhtiniano: unicidade do
ser e do evento; relação eu/outro; dimensão axiológica. São
essas coordenadas que estarão na base da concepção dialógica
da linguagem.

Essa unicidade do evento defendido por Bakhtin está relacionada com o fato
de que não são as unidades da língua que são dialógicas, mas os enunciados.
As enunciações são irrepetíveis e, sendo únicas, apresentam acento, entonação
e apreciação única. Diferentemente das unidades da língua, que são neutras, as
enunciações carregam emoções, juízos de valores e têm uma autoria e, por isso,
revelam a posição de seu enunciador.
O enunciado é, portanto, dialógico e se constitui a partir de outro enun-
ciado. Há nele ao menos duas vozes: a sua própria e aquela em oposição “a
qual se constrói. Para Fiorin (2008, p. 21), “o enunciado é a réplica de um
diálogo, pois cada vez que se produz um enunciado o que se está fazendo é
participar de um diálogo com outros discursos”.
As relações dialógicas, manifestadas nos enunciados, podem ser contratuais
ou polêmicas, de convergência ou divergência. A relação contratual com outro
enunciado e a adesão ou não a ele evidenciam que o enunciado é sempre o
espaço para as contradições, para a luta entre vozes sociais.
Segundo Barros e Fiorin (2003, p. 2), Bakhtin defende que
Só se pode entender o dialogismo interacional pelo deslocamento
do conceito de sujeito. O sujeito perde o papel de centro, é subs-
tituído por diferentes (ainda que duas) vozes sociais que fazem
dele um sujeito histórico e ideológico.

Nessa nova forma de ver a comunicação, Bakhtin postula que ela trans-
cende a esfera do linguístico e se carrega de caráter histórico e cultural. Em sua
teoria, o sujeito é concreto e participa ativamente da produção social da vida e
como tal da cultura.
Como teórico de orientação claramente comprometida com os postulados
marxistas, Bakhtin vê a palavra como signo ideológico, como produção que
“reflete e refrata” uma arena de lutas. Os interesses e os confrontos percebidos
no conjunto da sociedade de classes também emergem na linguagem. Tais
concepções teóricas reafirmam e evidenciam o caráter crítico de Bakhtin.
Bakhtin vivenciou um contexto social e histórico bastante rico, fez parte de
uma época de efervescência tanto no campo das teorias, como na política inter-
nacional e na economia mundial. Viveu no momento histórico em que se firmava

unitins • letras • 6º PERÍODO  29


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

o pensamento pós-estruturalista e que eram estabelecidas as bases da teoria


crítica, que apresentava pressupostos marxistas para formular explicações para
o funcionamento da sociedade e da formação de classes.
Como Bakthin se encarregou de afirmar os domínios da ciência que ainda
estavam centrados nas bases da ciência clássica, mecanicista, para ele, o posi-
tivismo empirista não reconhecia as relações dialéticas que interferiam e modifi-
cavam a linguagem. Bakhtin (1986, p. 25) evidencia que
Todos os domínios da ciência das ideologias acham-se, atual-
mente, ainda dominados pela categoria da causalidade mecani-
cista. Além disso, persiste ainda a concepção positivista do empi-
rismo, que se inclina diante do “fato” [linguagem] entendido não
dialeticamente, mas algo intangível e imutável.

A teoria bakhtiniana, em consonância com sua época, revela afinidade com


duas teorias que mudaram o curso da ciência no mundo: a teoria de Heisenberg
e a teoria de Einstein. A primeira, conhecida como o princípio da incerteza,
defendida por Heisenberg a partir da mecânica quântica, restringiu a precisão
das observações realizadas pela ciência. A segunda teoria, conhecida como a
teoria da relatividade, sustenta a tese de que, a partir de dois referenciais de
observação distintos, o mesmo objeto pode ser observado de diferentes formas
levando a resultados distintos e plausíveis.
Bakhtin buscou alcançar um espaço de discussão que oferecia alternativa
que era contrária ao autoritarismo e à dominação da ciência. Suas convicções
se apresentam, ainda hoje, como atuais, em especial no que se refere à perspec-
tiva da comunicação midiatizada.
Bakhtin (1986, p. 123) diz que
A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema
abstrato de formas linguísticas, nem pela enunciação monológica
isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo
fenômeno social da interação verbal.

Sabemos que o relevante é a natureza viva e concreta da comunicação,


portanto não é o sistema linguístico, mas a enunciação, acontecimento único
constituída pelo dialogismo. O enunciador é considerado como um respondente,
interpelado a dar respostas, pois ele não é o primeiro a usar a palavra, ele
dialoga com o mundo anterior a ele, não é o que rompe pela primeira vez o
silêncio do mundo, sua fala pressupõe o sistema da língua e outros enunciados
produzidos por ele mesmo e por outros.
O sujeito deixa de ser o centro da interlocução e passa a estar não mais no
eu nem no tu, mas no espaço criado entre ambos. O sujeito social multiplica-se
no outro em suas inter-relações, ele se divide e passa a “ser no outro”.
É no encontro com o diferente que o eu se constitui como sujeito. Desse
modo, Paulo Freire “dialoga” com Bakhtin, pois defende que o diálogo é uma

30  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

exigência para a existência do homem. Tal pensamento norteou suas teorias


sobre a educação e sobre o modo como os homens aprendem. Para Freire (1987,
p. 79), “ninguém educa a ninguém, ninguém tampouco se educa sozinho, os
homens e as mulheres se educam entre si, midiatizados pelo mundo”.
Tal como a polifonia, a intertextualidade é um dos fenômenos de linguagem
estudado por Bakhtin. É sobre as relações intertextuais que conversaremos no
próximo item.

2.4 Intertextualidade
A intertextualidade é o diálogo estabelecido entre os muitos textos da cultura.
Para Bakhtin, a primeira condição da intertextualidade é que as obras se deem
por inacabadas, isto é, permitam e peçam para ser prosseguidas e admitam o
diálogo com outros textos. A intertextualidade estende o dialogismo às várias
expressões artísticas e, evidentemente, à literatura.
As relações intertextuais são realizadas por meio “do processo de incorpo-
ração de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja
para transformá-lo. Há de haver três processos de intertextualidade: a citação, a
alusão e a estilização” (BARROS; FIORIN, 2003, p. 30).
A citação consiste em mencionar, direta ou indiretamente, parte de outro
texto, que poderá confirmar o sentido proposto ou polemizar-se com ele. A
alusão é a reprodução das construções sintáticas de um texto. Nesse processo,
certas figuras são substituídas por outras e todas mantêm relações de sinonímia
entre si e com o tema. A estilização é a reprodução do conjunto dos procedi-
mentos de estilística utilizados por outro autor. Conforme Denis Bertrand citado
por Barros e Fiorin (2003, p. 31), estilo é “o conjunto das recorrências formais,
tanto no plano da expressão quanto no plano do conteúdo (manifestado, é claro)
que produz um efeito de sentido de individualização”.
A partir dos processos de citação, como alusão e estilização, criamos uma
rede de muitos diálogos que se cruzam em um dado espaço e colaboramos para
a constituição de um mosaico composto por múltiplos discursos que são absor-
vidos e transformam-se em outras produções.
A intertextualidade “é o diálogo entre os muitos textos da cultura, que se instala
no interior de cada texto e o define” (BARROS; FIORIN, 2003, p. 4). É possível de
ocorrer tanto na superfície do texto, quanto na profundidade das relações implícitas
do texto com seu universo cultural e, consequentemente, com outras obras.
A intertextualidade não é uma dimensão secundária, como afirma Barros e
Fiorin (2003, p. 4), é “dimensão derivada” ela é a dimensão primeira da qual
o texto deriva.
A intertextualidade na obra de Bakhtin é, antes de tudo, a inter-
textualidade “interna” das vozes que falam e polemizam no texto,

unitins • letras • 6º PERÍODO  31


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

nele produzindo diálogo com outros textos. [...] A intertextuali-


dade é o processo de incorporação de um texto em outro texto,
seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-
lo (BARROS; FIORIN, 2003, p. 430).

Um texto, por mais original que possa parecer, traz, em sua essência, diversos
outros textos. O diálogo constante entre os diversos textos permite que eles se
tornem cada vez mais complexos e mais heterogêneos e que se verifiquem, nas
produções culturais, vários conflitos entre os discursos apresentados.
Por fim, Julia Kristeva (1968, p.45) define intertextualidade como
[...] uma interação textual que se produz no interior de um só
texto e que permite entender as diferentes sequências ou códigos
de uma estrutura textual precisa, como também de transformações
de sequências ou de códigos tomados de outros textos. Para o
leitor, que é sujeito cognoscente, a intertextualidade é uma noção
que se tornará índice da maneira de como um texto lê a história
e se insere nela.

O intertexto é, portanto, a percepção, por parte do leitor, das relações entre


uma obra e todas as outras obras que a precederam ou que se seguirão e que
com ela dialogam direta ou indiretamente.
Podemos afirmar, por fim, que a teoria da enunciação, formulada por
Bakhtin, explica os significados dos enunciados produzidos pelas falas dos indi-
víduos de uma determinada língua, levando em consideração não só o sentido
desses enunciados como também suas condições de produção.
No próximo capítulo, discutiremos sobre a linguística da enunciação e as
contribuições de Benveniste para o desenvolvimento dos estudos linguísticos.

Reflita

Você estudou algumas teorias defendidas por Bakhtin, porém não houve um
momento em que pudesse verificar sua aplicação prática. Agora veremos
como essas concepções podem contribuir para o desenvolvimento de suas
atividades. Imaginemos que estamos em uma aula de Literatura para o en-
sino médio e precisamos apresentar aos nossos alunos textos que dialogam
entre si. Uma possibilidade seria trabalhar o texto de Adélia Prado, Com
licença poética, 1976, em contraposição com o texto de Carlos Drummond
de Andrade, Poema de Sete Faces, de 1930. Vejamos os dois poemas.
Poema de sete faces (Carlos Drummond Andrade)
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.

32  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

A tarde talvez fosse azul,


não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
[...]

Com licença poética (Adélia Prado)


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
[...]
De que forma você poderia contribuir para que seus alunos percebessem
o diálogo entre os dois textos, a condição existencial apresentada neles
e a identificação de cada um deles diante de seu contexto sociocultural?
Como a proximidade entre os versos, por meio do paralelismo, reforça
esse diálogo?

Referências
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
______. Marxismo e filosofia da linguagem. 9. ed. São Paulo: Martins Fontes,
1999.
______. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
1981.
______. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. São Paulo: Hucitec
Annablume, 2002.
BARROS, D. L. P. de; FIORIN, J. L. (Org.). Dialogismo, polifonia, intertextuali-
dade: em torno de Bakhtin. São Paulo: Edusp, 2003.
BRAIT, B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas:
UNICAMP, 1997.
FIORIN, J. L. Introdução ao pensamento de Baktin. São Paulo: Ática, 2008.

unitins • letras • 6º PERÍODO  33


CAPÍTULO 2 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 46. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1968.
KOCH, I. V.; ELIAS, V. M. Ler e escrever: estratégias de produção textual. São
Paulo: Contexto, 2009.
MARCUSCHI, L. A.; XAVIER, A. C. Hipertexto e gêneros digitais. 2. ed. Rio de
Janeiro: Lucerna, 2005.
STAM, R. Bakhtin: da teoria literária à cultura de massa. São Paulo: 2000.

Anotações





34  6º PERÍODO • letras • unitins


3
CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Linguística da enunciação

Introdução
Estudamos no capítulo 1, que na década de 1950, houve uma tentativa
para superar a linguística da língua. A noção de enunciação foi a principal
tentativa para ultrapassar os limites dessa linguística.
A concepção de língua como sistema ou estrutura impedia todo o processo
de significação e de mudança linguística. Faltava à linguística um dispositivo que
colocasse a língua em processo. A enunciação respondeu à busca de promover
a abertura e a mobilidade do sistema linguístico.
Na linguística da enunciação, a linguagem deixa de ser considerada apenas
como instrumento externo de comunicação e transmissão de informação para ser
vista como uma atividade entre os protagonistas do discurso. Teve o grande
mérito de tirar a linguagem da clausura do sistema. A enunciação fica, porém,
na perspectiva de Benveniste, circunscrita ao espaço do subjetivo e do individual
de colocar a língua em funcionamento, ou de transformá-la em discurso, que,
nesse sentido, acaba sendo concebido como um “produto subjetivo e indivi-
dual”, ficando muito próximo do conceito de Saussure. Essa dimensão individual
e subjetiva atribuída ao discurso foi contestada pela análise do discurso, pois,
na AD, o discurso é concebido como sócio-histórico.
Neste capítulo, você estudará sobre as principais contribuições de Benveniste
para a linguística da enunciação: natureza dos pronomes, concepção de subjeti-
vidade e noção de dêixis.
Para que você não tenha dificuldade para compreender esse conteúdo,
é interessante que retome o capítulo 1. Nele você estudou as concepções da
análise do discurso que são importantes para contrastar com os pontos de vista
da linguística da enunciação.

3.1 Linguística da enunciação: noções gerais


A linguística da enunciação teve como precursores no Ocidente Jakobson
e Benveniste. Incluiu no objeto da linguística questões como subjetividade, refe-
rência, dêixis, contexto, modalização. Estuda as marcas do sujeito no enunciado
e não o próprio sujeito, ou seja, supõe um sujeito, mas não faz teoria sobre ele,
pois seu interesse é propriamente o sentido (FLORES; TEIXEIRA, 2005).

unitins • letras • 6º PERÍODO  35


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Saiba mais

Para você conhecer um pouco da teoria de Jakobson, sugerimos a leitura


do artigo Roman Jakobson e o discurso da revista Veja em xeque, dis-
ponível no sítio <http://www.jorwiki.usp.br/gdnot07/index.php/Roman_
Jakobson_e_o_discurso_da_Revista_Veja_em_xeque>. Nesse artigo, você
verá uma análise do discurso da revista Veja a partir da teoria linguística
de Roman Jakobson.

Benveniste talvez tenha sido o primeiro linguista, a partir de Saussure, a


desenvolver um modelo de análise da língua especificamente voltado à enun-
ciação. Ele é considerado um dos maiores linguistas dessa área.
Flores e Teixeira (2005, p. 30) informam que
[...] de um lado Benveniste mantém-se fiel ao pensamento de
Saussure – na justa medida em que conserva concepções caras
ao saussurianismo, tais como estrutura, relação, signo –, por outro
apresenta meios de tratar da enunciação ou, como ele mesmo
diria, do homem na língua. Esta é a inovação de seu pensamento:
supor sujeito e estrutura articulados.

Benveniste é um estruturalista porque sua semântica é pautada nos princí-


pios estruturais, mas não quer dizer que ele seja um continuador stricto sensu de
Saussure. Ao contrário, a teoria da enunciação é responsável por instaurar um
pensamento diferenciado sobre a linguagem (FLORES; TEIXEIRA, 2005).

Benveniste era extremamente culto, foi aluno do maior discípulo de Saussure,


Antoine Meillet.

Benveniste, diferentemente de Saussure, vê a língua como essencialmente


social, concebida no consenso coletivo. Para o Benveniste (1995, p. 63),
“somente a língua torna possível a sociedade. A língua constitui o que mantém
juntos os homens, o fundamento de todas as relações que por seu turno funda-
mentam a sociedade”. Saussure concebia a língua como
[...] um código fechado em si mesmo, estruturado por signos. A
forma como Benveniste pensa a língua advém do seu entendi-
mento de signo. Considerando sua forma de significação, propõe
dois planos de sentido: o semiótico e o semântico. No primeiro,

36  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

que confere com o pensamento de Saussure, está o signo signi-


ficando no sistema e, no segundo, há a expressão do sentido
resultante da relação do signo com o contexto, ou seja, o modo
de significar do enunciado (discurso). Para o autor, essa forma
de significar é a língua como trabalho social. Assim, Benveniste
vê a língua no seio da sociedade e da cultura porque, para ele,
o social é da natureza do homem e da [natureza] da língua
(WERNER, s/d, s/p).

A partir dessa compreensão sobre língua, Benveniste critica a teoria que


considera a linguagem como de instrumento de comunicação do homem: “falar
de instrumento, é pôr em oposição o homem e a natureza”. Para ele, não se
pode considerar a linguagem e o indivíduo dessa forma porque “não atingimos
nunca o homem separado da linguagem e não o vemos nunca a inventando”. A
linguagem dá ao indivíduo o status de sujeito, pois “é um homem falando que
encontramos no mundo, um homem falando com outro homem, e a linguagem
ensina a própria definição do homem” (BENVENISTE, 1995, p. 85). Portanto é
na linguagem que o indivíduo se constitui como falante e como sujeito.
Categoria de pessoa, conceitos de intersubjetividade e enunciação são a
base da teoria de Benveniste. No próximo tópico, conversaremos sobre a cate-
goria de pessoa.

3.2 A natureza dos pronomes


No texto A natureza dos pronomes, Benveniste separa os signos perten-
centes à sintaxe da língua daqueles que são relativos às instâncias do discurso
(FLORES; TEIXEIRA, 2005).
Geralmente consideramos as formas linguísticas dos pronomes como sendo
de uma mesma classe (pronomes pessoais, demonstrativos, possessivos etc.).
Benveniste (1995, p. 277) argumenta que
[...] os pronomes não constituem uma classe unitária, mas espé-
cies diferentes segundo o modo de linguagem do qual são os
signos. Uns pertencem à sintaxe da língua, outros são caracterís-
ticos daquilo que chamaremos as “instâncias do discurso”, isto é,
os atos discretos e cada vez únicos pelos quais a língua é atuali-
zada em palavra por um locutor.

O autor mostra que os pronomes não formam uma única classe, visto que
uns pertencem ao nível sintático e outros ao nível do discurso. Nos estudos clás-
sicos, os pronomes apresentam três pessoas: a pessoa que fala (eu, nós), com
quem se fala (tu, vós) e de quem fala (ele, eles). Essa noção é criticada por
Benveniste (1995, p. 248):
[...] o caráter sumário e não-linguístico de uma categoria assim
proposta deve ser denunciado. Ao alinharmos numa ordem
constante e num plano uniforme “pessoas” definidas pela sua
sucessão e relacionadas com esses seres que são “eu”, “tu” e

unitins • letras • 6º PERÍODO  37


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

“ele”, não fazemos senão transpor para uma teoria pseudolin-


guística diferenças de natureza lexical. Essas denominações não
nos informam nem sobre a necessidade da categoria, nem sobre
o conteúdo que ela implica, nem sobre as relações que reúnem
as diferentes pessoas. É preciso, portanto, procurar saber como
cada pessoa se opõe ao conjunto das outras e sobre que princí-
pios se funda a sua oposição, uma vez que não podemos atingi-
las a não ser pelo que as diferencia.

Benveniste (1995) distingue eu e tu de ele a partir de duas oposições:


• eu e tu constituem a noção de pessoa, e ele é a não-pessoa;
• eu é pessoa subjetiva, e tu pessoa não-subjetiva.
Em relação à primeira oposição, o linguista explica que a noção de pessoa
é própria somente a eu e tu e falta em ele, pois tanto eu e tu estão implicados no
discurso, e ele não participa do discurso. Ele é diferente de eu e tu pela sua natu-
reza e função, visto que só serve como substituto abreviativo (FLORES e outros,
2008), como podemos observar no exemplo (1).
(1) José está feliz, ele foi promovido.
O pronome ele substitui José, portanto pertence à sintaxe da língua e, por
isso, é considerado não-pessoa. Essa função e natureza do pronome ele é dife-
rente dos indicadores de pessoa eu e tu. Benveniste (1995, p. 278) destaca que
a propriedade fundamental de eu e tu na organização referencial dos signos
linguísticos é que
Cada instância de emprego de um nome refere-se a uma noção
constante e “objetiva”, apta a permanecer virtual ou a atualizar-se
num objeto singular, e que permanece sempre idêntica na repre-
sentação que desperta. No entanto, as instâncias de emprego de
eu não constituem uma classe de referência, uma vez que não
há “objeto” definível como eu ao qual se possam remeter identi-
camente essas instâncias. Cada eu tem sua referência própria e
corresponde cada vez a um ser único, proposto para tal.

Eu não é uma classe de referência porque se refere unicamente à


[...] “realidade de discurso”, que é coisa muito singular. Eu só
pode definir-se em termos de “locução”, não em termos de objetos,
como um signo nominal. Eu significa “a pessoa que enuncia a
presente instância de discurso que contém eu”. Instância única
por definição, e válida somente na sua unicidade (BENVENISTE,
1995, p. 278).

Eu só pode definir-se em termos de “locução”, não em termos de objetos,


como um signo nominal, ou seja, eu só tem referência na situação enunciativa.
Atribuir referência a eu é atribuir referência a tu, pois são complementares.

38  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

A enunciação é colocação da língua em funcionamento por um ato indivi-


dual de utilização (BENVENISTE, 1995).

Para Benveniste (1995, p. 279), “a forma eu só tem existência linguística no


ato de palavras que profere” e tu é o “indivíduo alocutado na presente instância
de discurso contendo a instância linguística tu”.
O linguista atribui as seguintes características à categoria pessoa:
• unicidade: eu e tu sempre são únicos e se renovam a cada situa-
ção enunciativa;
• reversibilidade: se tu toma a palavra, já não é mais tu, é eu, e o que era
eu passa a ser tu.
Além dos pronomes pessoais, há outras classes de pronomes que têm como
referência a situação de discurso. Essas classes têm o mesmo status dos pronomes
eu e tu, como pode ser observado no quadro 1.

Quadro 1 Correlação entre eu e tu com outros pronomes.

Eu Tu
Este Esse
Meu Teu

Observe o exemplo (2).


(2) Este livro é meu; esse livro é teu.
Além da classe dos pronomes, os advérbios aqui e agora também têm refe-
rência no discurso – instância espacial e temporal contemporânea à instância de
discurso que contém eu. “[...] essas formas ‘pronominais’ não remetem à ‘reali-
dade’ nem a posições ‘objetivas’ no espaço ou no tempo, mas à enunciação,
cada vez única, que contém, e reflitam assim o seu emprego” (BENVENISTE,
1995, p. 280). O linguista acrescenta à série aqui e agora outros advérbios ou
locuções adverbiais, como ontem, hoje, amanhã, em três dias.
Como já vimos, os pronomes de “terceira pessoa” são diferentes de eu e tu.
Ele, o, isso etc. só servem na qualidade de substitutos abreviativos. Em relação a
não-pessoa, Benveniste (1995, p. 283) destaca as seguintes propriedades:
[...] 1º de se combinar como qualquer referência de objeto; 2º de
não ser jamais reflexiva da instância de discurso; 3º de comportar
um número às vezes bastante grande de variantes pronominais ou

unitins • letras • 6º PERÍODO  39


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

demonstrativas; 4º de não ser compatível com o paradigma dos


termos referenciais como aqui, agora etc.

Analisemos, no quadro 2, a correlação entre a pessoa subjetiva e a não-


pessoa feita por Benveniste.

Quadro 2 Correlação eu – ele.

EU ELE
Aqui Lá
Agora Então
Hoje No mesmo dia
Ontem Na véspera
Amanhã No dia seguinte
Na próxima semana Na semana seguinte
Há três dias Três dias antes

A série de termos da primeira coluna refere-se à instância do discurso,


enquanto a da segunda refere-se a tempos e lugares históricos. A própria língua
revela a diferença profunda entre esses dois planos (BENVENISTE, 1995).
Estudamos que eu é pessoa subjetiva, e tu pessoa não-subjetiva. Na sequên-
cia, entenderemos o porquê dessa oposição. Além disso, veremos qual é a noção
de subjetividade para Benveniste.

3.3 A noção de subjetividade


No texto Da subjetividade na linguagem, Benveniste faz a distinção entre
as categorias da língua e as categorias do discurso. De um lado, temos a esfera
subjetiva e a categoria de pessoa e, do outro, a esfera objetiva e a categoria
não-pessoa (FLORES; TEIXEIRA, 2005).
O linguista não pretendia fazer uma teoria do sujeito, sua preocupação era
com a significação. “É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui
como sujeito. [...] A subjetividade de que tratamos aqui é a capacidade de o
locutor se propor como sujeito” (BENVENISTE, 1995, p. 286). Portanto subjeti-
vidade é a capacidade de o locutor se propor como sujeito do seu discurso, e
essa capacidade se funda no exercício da língua (BRANDÃO, 2004). Aí está
a diferença entre eu e tu, uma vez que eu é uma pessoa subjetiva e tu pessoa
não-subjetiva, já que o tu não tem a capacidade de se propor como sujeito.
Benveniste (1995, p. 286) reconhece a transcendência do primeiro sobre o
segundo ao afirmar que “ego tem sempre uma posição de transcendência em
relação ao tu, apesar disso nenhum dos dois termos se concebe sem o outro; são
complementares e ao mesmo tempo reversíveis”.

40  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Benveniste (1995, p. 286) afirma que


A consciência de si mesmo só é possível se experimentada por
contraste. Eu não emprego eu a não ser dirigindo-me a alguém,
que será a minha alocução em tu. Essa condição do diálogo é
que é constitutiva da pessoa, pois implica reciprocidade – que eu
me torne tu na alocução daquele que por sua vez se designa eu.
[...] eu propõe outra pessoa, aquela que, sendo embora exterior
a “mim”, torna-se o meu eco no qual digo tu. A polaridade das
pessoas é na linguagem a condição fundamental, cujo processo
de comunicação, de que partimos, é apenas uma consequência
totalmente pragmática. [...] nenhum dos dois termos se concebe
sem o outro; são complementares.

Eu e tu alternam as funções, por isso caracterizam-se como parceiros e prota-


gonistas na situação de enunciação. Benveniste (1995, p. 288) acrescenta que
Não há conceito “eu” englobando todos os eus que se enun-
ciam a todo o instante na boca de todos os locutores, no mesmo
instante em que há um conceito “árvore” ao qual se reduzem
todos os empregos individuais de árvore [...] Estamos na
presença de uma classe de palavras, os “pronomes pessoais”,
que escapam ao status de todos os outros signos da linguagem.
A que se refere o eu? A algo de muito singular, que é exclusiva-
mente linguístico: eu se refere ao ato de discurso individual no
qual é pronunciado, e lhe designa o locutor. É um termo que não
pode ser identificado a não ser dentro do que [...] chamamos de
instância do discurso, e que só tem referência atual. A realidade
à qual ele remete é a realidade do discurso. [...] o fundamento
da subjetividade está na língua.

Os pronomes eu e tu não remetem nem a um conceito nem a um indivíduo.


O eu refere-se a algo muito singular que é exclusivamente linguístico, ao ato de
discurso individual no qual é pronunciado e lhe designa o locutor.
Segundo o linguista, os pronomes pessoais são o primeiro ponto de apoio
para a revelação da subjetividade. Outras classes gramaticais dependem desses
pronomes. São os indicadores da dêixis, como demonstrativos, advérbios,
adjetivos. Essas classes, como já vimos, “organizam as relações espaciais e
temporais em torno do ‘sujeito’ tomado como ponto de referência: ‘isto, aqui,
agora’ e as suas numerosas correlações ‘isso, ontem, no ano passado, amanhã’”
(BENVENISTE, 1995, p. 288).
Para o linguista, a subjetividade é característica de toda linguagem e sua cons-
tituição se dá mesmo quando não se enuncia o eu. Os discursos que utilizam
[...] formas indeterminadas, impessoais, como o discurso cientí-
fico, por exemplo, ou o discurso esquizofrênico em que o locutor
utiliza ele para se referir a si mesmo, mostram uma enunciação
que mascara sempre um sujeito [...] seja em busca de objetivação
dos fatos ou de apagamento da responsabilidade pela enun-
ciação, seja a da incapacidade patológica de assunção do eu.

unitins • letras • 6º PERÍODO  41


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Essa estratégia de mascaramento é também uma outra forma de


constituição da subjetividade (BRANDÃO, 2004, p. 57-58).

Portanto a subjetividade está presente também nos discursos em que o eu


não se enuncia, como nos discursos científicos e esquizofrênicos. Nesses casos,
o eu é mascarado por alguma razão.
Conforme Benveniste, nós não é plural de eu e nem vós de tu. Não são
plurais uma vez que não demonstram a repetição da mesma pessoa. No caso do
nós, não há soma de diferentes pessoas e não há repetição de eu (BRANDÃO,
2003). Há um nós em um eu que predomina, porque só alcançamos nós a partir
de eu: “nós não é um eu multiplicado, e um eu dilatado além de pessoa estrita, ao
mesmo tempo acrescido de contornos vagos” (BENVENISTE, 1995, p. 258).
Flores e outros (2008, p. 78) destacam que
Tanto o nós se amplifica em uma pessoa mais solene, com maior
autoridade no nós majestático, quanto se amplifica em uma
pessoa difusa, com contornos no nós de orador ou de autor. A
mesma análise é feita para vós, tanto no uso coletivo quanto no
uso da polidez a passagem do tu ao vós exprime pessoa gene-
ralizada. Em outras palavras, a pessoa alocutada é tomada com
distanciamento e/ou imprecisão.

O uso de nós evita que se crie uma esfera de reciprocidade e, dessa forma,
que se tome autoridade. O nós majestático aparece em discursos de altas auto-
ridades civis ou eclesiásticas, como em “Nós, em nosso pontificado...”. O nós
de autor é usado em obras científicas, em que o locutor procura diluir seu nome
em meio à comunidade científica da qual emana o saber, a Ciência (FLORES e
outros, 2008).
Por fim, Benveniste (1995, p. 289) destaca que
A linguagem é, pois, a possibilidade da subjetividade, pelo
fato de conter sempre as formas linguísticas apropriadas à sua
expressão; e o discurso provoca emergência da subjetividade,
pelo fato de consistir de instâncias discretas. A linguagem de
algum modo propõe formas “vazias” das quais cada locutor
em exercício de discurso se apropria e as quais refere à sua
“pessoa”, definindo-se ao mesmo tempo a si mesmo como eu e a
um parceiro como tu.

Estudamos que a linguística da enunciação inclui no objeto da linguística


questões como subjetividade, referência, dêixis, contexto, modalização. Na
próxima seção, analisaremos a dêixis.

3.4 Dêixis na visão de Benveniste


Dêixis, na perspectiva enunciativa, são os signos que fazem remissão à
instância de discurso e só nela podem ser devidamente apreendidos. Nesse
caso, “a dêixis se liga à categoria de pessoa, ou seja, ao paradigma do eu e
do tu, enquanto os elementos não-dêiticos se ligam a não-pessoa, ou seja, ao

42  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

paradigma do ele” (FLORES; TEIXEIRA, 2005, p. 39). Essa distinção pode ser
esquematizada da seguinte forma:
• eu e tu – categoria de pessoa – referência dêitica
• ele – categoria não-pessoa – referência não-dêitica
Para o linguista, o mecanismo da dêixis está marcado na língua e é colo-
cado em funcionamento cada vez que um eu enuncia. Portanto “os dêiticos,
embora possuam um lugar na língua, são categorias vazias e subjetivas porque,
sendo signos concretos, somente adquirem estatuto pleno na e pela enunciação
do eu” (FLORES; TEIXEIRA, 2005, p. 40).
Para Benveniste (1995), eu e tu têm referência na enunciação e são dêiticos.
Já ele pertence ao sistema sintático da língua e, por isso, é anafórico, que é o
termo que remete a um antecedente e estabelece uma relação de substituição ou
representação. Nessa concepção, a anáfora tem caráter semântico, pois evita a
repetição ou promove a economia (FLORES e outros, 2008). Ele, portanto, não faz
parte do domínio subjetivo, ele pertence ao objetivo da linguagem, pois, estando
excluído da dêixis, faz parte do sistema anafórico da língua.
Crystal (2000, p. 74) expõe que
Dêixis (dêitico) é termo usado na teoria LINGUÍSTICA englo-
bando as características de pessoa, tempo e lugar de uma
LÍNGUA. Estas características são vistas dentro de uma
SITUAÇÃO espaço-temporal de um ENUNCIADO, estando a
SIGNIFICAÇÃO do enunciado direcionado a ela. São exemplos
de palavras dêiticas (ou EXOFÓRICAS): agora/depois, aqui/
ali/aí, eu/tu/ele. (grifo do autor).

Na visão do linguista, é impossível de se conceber a natureza semântica de


eu e tu fora de uma remissão à enunciação. Essa impossibilidade os torna não-
referenciais em relação à realidade.
Em Benveniste (1995, p. 119), os anafóricos diferenciam-se dos dêiticos
quanto à natureza e quanto à função, pois são “as unidades cuja função é rela-
cionar dois termos do enunciado” e “pertencem a uma ‘espécie semiológica’ de
natureza totalmente diversa daquela cujo caráter próprio consiste em relacionar
o enunciado à enunciação”.
Portanto há uma diferença entre a definição exposta por Crystal e a noção
de Benveniste em relação à dêixis, visto que Crystal inclui o ele entre os elementos
dêiticos. Se ele depender da situação espaço-temporal é dêixis, se referir a um
termo já exposto é anáfora.

Reflita

O trecho exposto a seguir foi retirado do poema Ausência, de Vinícius de


Morais. Leia-o com atenção.

unitins • letras • 6º PERÍODO  43


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

“Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são
doces...
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto...
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto...
E em minha voz, a tua voz...”
Quais são os pronomes que fazem parte da categoria de pessoa com refe-
rência dêitica?

A partir das análises feitas neste capítulo, podemos concluir que as tenta-
tivas de superação de uma linguística restrita à língua não atingiram seu obje-
tivo, porque continuaram ainda presas à dicotomia saussuriana. Como vimos, a
linguística da enunciação assimila a questão do discursivo à fala, com exclusão
da história, e concebe o sujeito de forma idealizada, na sua unicidade e homo-
geneidade, como fonte criadora e origem do sentido.

Saiba mais

Sugerimos a leitura do artigo Os estudos da enunciação e a formação do


professor de línguas, de Kelly C. Granzotto Werner, que está disponível
no sítio <http://www.ufsm.br/lec/02_04/Kelly.htm>. Nesse artigo, você
encontrará algumas reflexões a respeito de como os estudos da enuncia-
ção, principalmente da teoria da subjetividade de Émile Benveniste, podem
contribuir para a formação de professores de línguas estrangeiras. A autora
acredita que noções de língua/linguagem, subjetividade e sentido podem
ajudar a esses profissionais na sua prática pedagógica.
Sugerimos também a leitura do artigo A enunciação e as fronteiras guar-
dadas por Bakhtin, Benveniste, Possenti e Guimarães, disponível no sítio
<http://www.unioeste.br/cursos/cascavel/letras/revista/edicao_atual/
LinguasLetras_ini_7_n13_08_EnunciacaoFronteiras.pdf>. Esse artigo esta-
belece alguns parâmetros de análise entre quatro diferentes perspectivas
desenvolvidas por Benveniste (1989), Bakhtin (1992), Possenti (1993) e
Guimarães (2002). Além disso, faz uma análise crítica das fronteiras do
enunciado e procura estabelecer os pontos de contato e as distinções que
tais concepções assumiram no processo de conceituaro enunciado.

Neste capítulo você teve a oportunidade de estudar sobre a linguística da


enunciação. No próximo capítulo, analisaremos as teorias referentes aos atos de
fala, da atividade verbal e sobre os postulados conversacionais de Grice.

44  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Referências
BENVENISTE, É. Problemas de linguística I. São Paulo: Pontes, 1995.
BRANDÃO, H. H. N. Análise do discurso: um itinerário histórico. In: PEREIRA,
H. B. C.; ATIK, M. Luiza G. (Org.). Língua, literatura e cultura em diálogo. São
Paulo: Mackenzie, 2003. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/dlcv/lport/
pdf/brand005.pdf>. Acesso em: 4 abr. 2010.
______. Introdução à análise do discurso. 2. ed. Campinas: UNICAMP, 2004.
CRYSTAL, D. Dicionário de linguística e fonética. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2000.
FLORES, V. do N. et al. Enunciação e gramática. São Paulo: Contexto, 2008.
______; TEIXEIRA, M. Introdução à linguística da enunciação. São Paulo: Contexto,
2005.
WERNER, K. C. G. Os estudos da enunciação e a formação do professor de
línguas. [s/d]. Disponível em: <http://www.ufsm.br/lec/02_04/Kelly.htm>.
Acesso em: 4 abr. 2010.

Anotações

unitins • letras • 6º PERÍODO  45


CAPÍTULO 3 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

46  6º PERÍODO • letras • unitins


4
Teorias dos atos de fala, teoria CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

da atividade verbal e postulados


conversacionais de Grice

Introdução
Neste capítulo, abordaremos uma área de estudo diferente daquelas que você
conheceu ao longo de seus estudos sobre linguagem. Você deve se lembrar do
estudo sintático realizado na disciplina Língua Portuguesa III: Estudos Sintáticos.
A sintaxe examina as relações entre os signos, relaciona os signos entre si como
unidades básicas no processo de formação de estruturas complexas, como é o
caso dos períodos compostos. Nesses estudos, você verificava a relação entre
estruturas como essa:
“O menino acordou cedo e abriu a janela de seu quarto.”
Na sintaxe, é possível verificar que há duas orações com sentido indepen-
dente e que se somam por meio de uma conjunção aditiva etc. Mas não se
faz qualquer menção à situação em que esse enunciado é produzido, em que
circunstância, por quem e por qual motivo. A sintaxe é, portanto, um estudo
formal que trata, apenas, das possibilidades de combinação entre os signos.
No entanto há necessidade de se estender o universo da produção do enun-
ciado, ou seja, o contexto da produção e de seus produtores. Surge, então, a
pragmática, que busca compreender a linguagem em uso, em meio aos dife-
rentes contextos.
A pragmática, inicialmente, foi vista como uma perspectiva de análise muito
audaciosa devido ao fato de considerar, em seu arcabouço teórico e metodoló-
gico, aspectos relacionados à variação e à heterogeneidade, devido à diversi-
dade do uso e à multiplicidade de contextos.
A pragmática é, em certo sentido, a tentativa de os estudos da linguagem se
voltarem para a experiência concreta da linguagem com toda a multiplicidade
que ela apresenta. A teoria dos atos de fala surgiu no interior da filosofia da
linguagem, no início dos anos 1970, posteriormente, passou a ser parte dos
estudos realizados pela pragmática.
Neste capítulo, além da teoria dos atos de fala, trataremos da teoria da ativi-
dade verbal e dos postulados conversacionais de Grice. Essas teorias enfocam a
presença do interlocutor como colaborador para que o ato comunicativo tenha
sucesso. Esperamos, que ao final do estudo, você seja capaz de compreender
a teoria dos atos de fala, a da teoria da atividade verbal e dos postulados

unitins • letras • 6º PERÍODO  47


CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

conversacionais de Grice e, sobretudo, capaz de aplicá-las em futuras ativi-


dades práticas.
Como esses assuntos são relativamente novos para você, é importante que
você leia artigos sobre essas teorias, em especial, os artigos disponíveis no sítio
<http://www.ufpel.edu.br/cic/2009/cd/pdf/LA/LA_02000.pdf>.

4.1 Teoria dos atos de fala


A teoria dos atos de fala surgiu a partir dos estudos realizados por John
Langshaw Austin (1911-1960). Ele refletia sobre os diversos tipos ações humanas
que se realizam por meio do uso da linguagem, é o que ele chamou de “atos de
fala”, ou em inglês speech acts, e defendia que todo “dizer” é uma ação.
Nessa perspectiva teórica, dizer é, evidentemente, transmitir informações,
mas não é somente isso, é também uma forma de agir sobre o seu interlocutor,
sobre o contexto de enunciação, ou seja, sobre o mundo circundante. Essa
teoria considera as frases da língua como ações sobre o real. Quando falamos,
não fazemos apenas declarações, mas ordenamos, perguntamos, reclamamos,
pedimos, desculpamo-nos, julgamos etc.
Austin mostra que certas afirmações não servem para descrever nada, mas
para realizar ações. Um dos conceitos defendidos por esse teórico foi o conceito
de “performativo”:
Performativo é todo enunciado que realiza o ato que está sendo
enunciado. Assim, se em “eu ajoelho para rezar” temos um enun-
ciado que pode ser verdadeiro ou falso, em “ajoelhou tem que
rezar” está explícita a ideia de comprometimento do locutor com
a ação, ou melhor, com as possíveis consequências do ato por
ele realizado e não com a verdade ou falsidade do enunciado
(WILSON, 2009, p. 92).

Inicialmente, esse teórico distinguiu dois tipos de enunciados: os constativos


e os performativos.
Os enunciados constativos são aqueles que descrevem ou relatam um estado
de coisas. Esses enunciados podem ser submetidos a uma verificação de verdade
ou falsidade, isto é, podem ser rotulados de verdadeiros ou falsos. Na prática,
são os enunciados denominados de afirmações, descrições ou relatos, como “eu
como chocolate”; “o sol é o centro da via láctea”.
Os enunciados performativos são aqueles que não relatam nenhuma ação,
não descrevem nada e tampouco constatam alguma coisa. Desse modo, eles
não podem ser submetidos a nenhum critério de verificabilidade e não podem
ser julgados como falsos ou verdadeiros.
Os enunciados performativos são proferidos na primeira pessoa do singular
(eu) do presente do indicativo (ação tida como certa e que ocorre no momento
da enunciação), na forma afirmativa e na voz ativa, como em “eu te batizo”; “eu
aceito o seu convite para a festa”; “eu prometo que irei”.

48  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Esses enunciados realizam a ação denotada pelo verbo e não descrevem


nada, servem apenas para executar atos, ou seja, o ato de batizar, de aceitar,
de prometer etc. Nesse sentido, dizer algo é fazer algo.
É necessário observar que o fato de proferir um enunciado performativo não
garante a sua realização. Para que seja bem sucedido e que a ação por ele
designada seja realizada, é preciso que as circunstâncias sejam adequadas.
Koch (1997, p. 21) assevera que
A força ilocucionária nem sempre pode ser determinada pelo
percurso a um performativo:
• primeiro, porque muitas vezes a força ilocunionária é
ambígua: quando digo saia, pode tratar-se de uma ordem, de
um pedido, de um conselho, ou até de uma súplica. Somente
a entonação, os gestos, as expressões fisionômicas e as
condições gerais em que o enunciado é produzido permitirão
detectar a verdadeira força do ato produzido.
• segundo, porque nem sempre existe na língua um performa-
tivo adequado à explicitação da força ilocucionária, isto é,
há tipos de atos para os quais não existe um performativo
correspondente ou, mesmo existindo, seu emprego é pouco
habitual. Dificilmente se introduziria um ato de censura decla-
rando: eu te censuro [...].

Um enunciado performativo pronunciado em circunstâncias consideradas


como inadequadas não é falso, mas nulo, sem efeito.
Por exemplo, se uma bibliotecária (e não professora) diz “eu ensino a matéria
para a prova nesta aula”, o enunciado performativo não se realiza, porque a
bibliotecária não tem poder ou autoridade para ensinar aos alunos a matéria da
prova. O enunciado é considerado como nulo, sem efeito, ou, de acordo com
Austin, “infeliz”.
São critérios para que um enunciado performativo seja bem sucedido:
• o falante deve ter autoridade para executar o ato, tal como no exem-
plo anterior;
• as circunstâncias nas quais as palavras são proferidas devem ser apro-
priadas (se o professor, sozinho, em sua casa, declara que a prova será
aplicada, o performativo não se realiza, porque as circunstâncias não
são apropriadas).
São três as causas de “infelicidade” dos enunciados performativos:
• nulidade
• abuso
• quebra de compromisso
A nulidade se dá quando aquele que enuncia não apresenta legitimidade
social para tal, ou quando o objeto para o qual se pretende realizar o ato não

unitins • letras • 6º PERÍODO  49


CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

pode sustentá-lo. Um exemplo bastante comum é o ato do batismo, eu, que sou
professora, não posso por meio de um enunciado batizar uma criança. Essa
função social pertence a um padre ou a um pastor e não a uma professora. O
enunciado performativo, nesse caso, é considerado nulo.
O abuso ocorre quando há falta de sinceridade. Quando há uma promessa
sem a intenção de cumpri-la, por exemplo, podemos afirmar que ocorreu um
caso de abuso.
A quebra de compromisso diz respeito ao efeito do enunciado. Se, por
exemplo, prometemos algo, com a intenção de cumprir a promessa, mas não a
cumprimos, então violamos a regra estabelecida.
Para Austin, segundo Wilson (2009, p. 93) dizer algo equivale a executar
três atos simultâneos:
• O ato locutório, centrado no nível fonético, sintático e de
referência e corresponde ao conteúdo linguístico usado para
dizer algo;
• O ato ilocutório, ato central para Austin, uma vez que tem
a chamada força performativa, está associado ao modo de
dizer algo e ao modo como esse dizer é recebido em função
da força do que é proferido. Corresponde ao ato efetuado ao
se dizer algo;
• O ato perlocutório corresponde à indicação dos efeitos
causados sobre o outro, servindo a outros fins, como influen-
ciar o outro, persuadi-lo a fazer algo, causar embaraço ou
constrangimento etc. (WILSON, 2009, p. 93)

Pinto (2006, p. 58) esclarece que


Os atos locucionários são aqueles que dizem alguma coisa; atos
ilocucionários, aqueles que refletem a posição do/a locutor/a
em relação ao que ele/ela diz; e atos perlocutórios aqueles que
produzem certos efeitos e consequências sobre os/as locutários/
as, sobre o/a próprio/a locutor/a ou sobre outras pessoas. Esses
três níveis atuam simultaneamente no enunciado.

A teoria dos atos de fala abriu caminhos para a reflexão do papel das conven-
ções e das práticas sociais na constituição dos atos ilocucionários e, consequen-
temente, para a questão que envolve a ação e o sujeito que a enuncia/pratica.
Novos estudos foram realizados e ampliaram e reformularam a teoria de Austin.
É nessa perspectiva que se insere a classificação dos atos de fala em categorias
elaboradas por John Searle.
Segundo Wilson (2009, p. 92), “Searle, em seu livro Speech acts, retoma
questões importantes concernentes às tendências contemporâneas da filosofia
da linguagem, visando à construção de um ponto de vista linguístico para a
teoria dos atos de fala”.

50  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Searle adota o conceito de “finalidade ilocutória” para classificar os usos


linguísticos. Salienta que há um número limitado de coisas que fazemos com a
linguagem e que podem ser simultâneas. Para Searle citado por Wilson (2009,
p. 94), “falar uma língua é adaptar uma forma de comportamento regido por
regras”. Searle distingue cinco grandes categorias de atos de linguagem, que
expomos a seguir.
• Os representativos mostram a crença do locutor quanto à verdade de
uma proposição. Também conhecidos como assertivos consistem no fato
de dizermos às pessoas como as coisas são. Esse ato envolve o compro-
metimento do falante com a verdade da proposição, por exemplo: “e
mais divertido ir e voltar” e “o boomerangue é o ícone do consumo
responsável” (WILSON, 2009, p. 94). São exemplos, ainda, os atos de
afirmar, asseverar e dizer.
• Os diretivos “consistem nas tentativas de levarmos as pessoas a fazer
coisas” (WILSON, 2009, p. 94). Os atos diretivos podem variar de
acordo com o grau de intensidade, por exemplo: convidar, sugerir,
aconselhar, ordenar, exigir etc.
• Os comissivos consistem nos atos cujo efeito é produzir uma mudança
por meio do que dizemos: é o caso do convite e da promessa. Eles
comprometem o locutor com uma ação futura: prometer, garantir.
• Os expressivos consistem na expressão de sentimentos e atitudes.
Exemplo: desculpar, agradecer, dar boas vindas etc.
• Os declarativos requerem situações extralinguísticas baseadas em institui-
ções ocupadas por falantes e ouvintes para a sua atualização. São atos
que podem promover uma mudança na realidade, o que as distingue
das demais categorias. Incluem-se entre os atos declaratórios: o ato
de batizar, o de fazer uma sentença judicial, por exemplo. Produzem,
portanto, uma situação externa nova: batizar, demitir, condenar.
Outra distinção no interior da teoria dos atos de fala é entre atos de fala
diretos e atos de fala indiretos.
• Um ato de fala é direto quando é realizado por meio de formas linguís-
ticas especializadas, isto é, típicas daquele tipo de ato. Há, por exemplo,
uma entonação típica para perguntas; as formas imperativas são tipica-
mente usadas para dar ordens ou fazer pedidos; expressões como por
favor, por gentileza etc. são tipicamente usadas para fazer pedidos ou
solicitações etc.
• Um ato de fala é indireto (ou derivado) quando é realizado indireta-
mente. Nesse caso, é realizado por meio de formas linguísticas típicas
de outro tipo de ato. Nesse sentido, “dizer é fazer uma coisa sob a
aparência de outra”. Veja alguns exemplos.

unitins • letras • 6º PERÍODO  51


CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

a) Você tem relógio? (pedido com aparência de pergunta) Quem


enuncia essa frase não está perguntando se o alocutário tem
ou não um relógio, mas sim pedindo lhe informe as horas.
b) Como está abafada esta sala! (pedido com aparência de
constatação) Normalmente, quem enuncia essa frase não está
simplesmente fazendo uma constatação sobre a temperatura
no interior do recinto, mas sim pedindo que o alocutário faça
algo para amenizar o calor, como abrir as janelas, ligar o
ventilador, o ar-condicionado, etc.
c) Você pode fechar a porta? (pedido com aparência de pergunta)
Quem enuncia essa frase não está perguntando sobre a (in)
capacidade física do alocutário de fechar a porta, mas sim
pedindo-lhe que feche a porta. Seria estranho se o alocutário
pensasse que a pergunta é mera curiosidade e respondesse
simplesmente sim ou não. (SILVA, s/d, s/p)

É necessário salientar, por fim, que este capítulo não esgota essa teoria.
É importante que você aprofunde pesquisando mais sobre o assunto e, sobre-
tudo, lendo artigos publicados em revistas especializadas e que apresentem essa
teoria em aplicações práticas.
A teoria dos atos de fala colocou os elementos do contexto, quem fala, com
quem se fala, para que se fala, onde se fala, o que se fala etc., para foco das
atenções dos estudiosos da linguagem.
As propostas teóricas apresentadas por Austin e seus seguidores têm influen-
ciado e inspirado estudos posteriores que estão destinados a pesquisar as ques-
tões que envolvem a análise do discurso. A teoria dos atos de fala rompe, em
nosso ponto de vista, com uma tradição de estudos linguísticos caracterizada por
uma concepção, apenas, descritiva da linguagem.

Saiba mais

A leitura de alguns autores da sua área é imprescindível para o seu suces-


so. Autores como Ingedore Koch, Diana Barros, José Fiorin, Rodolfo Ilari e
Beth Braith podem contribuir para a sua formação, pois eles estudam as
principais teorias da linguística aplicando-as em situações reais. Dois exem-
plos são as seguintes obras:
• A inter-ação pela linguagem, de Ingedore Villaça Koch, publicada pela
editora Contexto. Nesse livro, Koch reflete sobre as diferentes concep-
ções de linguagem, a linguística ligada à ideia de sistema e a linguística
ligada ao discurso. Para isso, a autora revisa as principais teorias sobre
linguagem. É um livro excelente para quem está iniciando os estudos
na área, pois usa linguagem clara, concisa e apresenta exemplos que
deixam a teoria bem mais acessível;
• Introdução à linguística: domínios e fronteiras organizado pelas autoras
Fernanda Mussalim e Anna Christina Bentes. Nesse caso, a obra é divi-

52  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

dida em três volumes. A linguagem exige um pouco mais de você, mas


o conteúdo esclarece alguns pontos importantes sobre a linguística. Para
os assuntos deste capítulo, o volume mais indicado é 2.

Como você viu, a teoria dos atos de fala altera a concepção dos estudos de
linguagem, porém ela não consegue explicar a atividade verbal, que é o assunto
do próximo tópico.

4.2 A teoria da atividade verbal


A teoria da atividade verbal explica a linguagem como uma atividade de
caráter filosófico, articulada com uma teoria da atividade social humana, que se
especifica em uma teoria da atividade comunicativa verbal.
O objetivo dessa teoria é verificar como conseguimos realizar determinadas
ações ou interagirmos socialmente por meio da linguagem.
Koch (1997, p. 13) afirma que
A realização linguística da atividade verbal depende das condi-
ções sociais e psicológicas, além de vir determinada pelo motivo
básico da atividade, e utiliza diversos meios como: a) seleção de
palavras; b) passagem do programa à sua realização; c) projeto
gramatical; d) tradução e comparação de variantes sintáticas;
e) fixação e reprodução dos compromissos gramaticais, unidos
programação motora (fisiológica).

Koch (1997, p. 23) defende que “toda atividade linguística é composta por:
um enunciado, produzido com dada intenção, sob certas condições necessárias
para o atingimento do objetivo visado e as consequências decorrentes da reali-
zação do objetivo”.
O locutor seria o responsável por levar ao interlocutor a compreensão do
objetivo ou da informação. Koch (1997, p. 24) expõe que
O locutor deve realizar atividades linguístico-cognitivas tanto
para garantir a compreensão (tais como repetir, parafrasear,
completar, corrigir, resumir, exemplificar, enfatizar etc.), como
para estimular facilitar ou causar a aceitação (fundamentar, justi-
ficar, “preparar o terreno” etc.).

A partir da realização dessas atividades, o locutor será capaz de garantir


que a informação seja compreendida pelo leitor. Assim o receptor não é
entendido como passivo, pois cabe a ele atuar sobre o material linguístico
de que dispõe para construir sentido, criar uma leitura possível. O sentido é
construído na interlocução, no interior do qual os interlocutores se constituem
e são constituídos.

unitins • letras • 6º PERÍODO  53


CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Para a teoria da atividade verbal, a decodificação dos sinais emitidos pelo


locutor não é de modo algum suficiente, pois “cabe ao ouvinte/leitor estabe-
lecer, entre os elementos do texto e todo o contexto, relações dos mais diversos
tipos para ser capaz de compreendê-los em seu conjunto e interpretá-los de
forma adequada à situação” (KOCH, 1997, p. 25).
A produção de inferências são as principais atividades a serem realizadas
pelos ouvintes/leitores, pois o texto não apresenta explicitamente todas as infor-
mações necessárias à sua compreensão. O leitor/ouvinte deverá ser capaz
de recuperar por meio das inferências as informações que contribuirão para o
entendimento do texto.
As inferências ocorrem a partir das lacunas verificadas no interior do texto,
ou seja, a partir dos elementos que o texto contém, podemos estabelecer rela-
ções com aquilo que o texto implicita. O leitor poderá recorrer ao seu conheci-
mento de mundo ou aos conhecimentos comuns a ele e a seu interlocutor.
Assim podemos afirmar que as inferências constituem estratégias cogni-
tivas importantes, pois possibilitam o estabelecimento de relações entre o
material linguístico concreto, efetivo, presente na superfície textual e os conhe-
cimentos prévios partilhados pelos interlocutores. Elas são, em grande parte,
a responsável pela reconstrução dos sentidos que o texto explicita. Observe
o seguinte enunciado.
“Joana foi ao salão de beleza, fez uma escova nos cabelos e voltou para
casa.”
Não é necessário dizer que, ao chegar ao salão, Joana encontrou mesas,
lavatórios, profissionais habilitados para os cuidados de seus cabelos, que ela se
sentou, lavou os cabelos, secou-os e pagou pelo serviço prestado. Tudo isso está
implícito e é possível ser recuperado por meio das inferências. São consideradas
como informações normais e, por isso, não necessitam ser explicitadas.
No entanto, se Joana tivesse esquecido a carteira em casa e não conse-
guisse pagar pelo serviço, essa informação que fugiu ao esperado, imprevista,
deverá ser explicitada, pois não há como ser inferida pelo interlocutor do texto.
As inferências são importantíssimas, imagine como seriam cansativos e
extensos os nossos textos sem elas. Imagine se todas as informações, desde as
mais simples até as mais complexas, tivessem de necessariamente constar no
texto. Seriam textos imensos!

Saiba mais

Um trabalho de pesquisa interessante e que está disponível para a sua con-


sulta na internet é a dissertação Marcas enunciativo-discursivas nas histó-

54  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

rias em quadrinhos (Hqs): uma proposta de análise de texto como discurso,


de Alessandro da Silva Messias, disponível no sítio <http://www.letras.ufrj.
br/posverna/mestrado/MessiasAS.pdf>. É interessante que você consulte
esse material e veja a contextualização da teoria.

Neste capítulo, falamos sobre a teoria dos atos de fala e a teoria da atividade
verbal. Para finalizar, apresentaremos os postulados conversacionais de Grice.

4.3 Postulados conversacionais de Grice


Segundo Koch (1997, p. 27-28), para Grice, filósofo americano, o princípio
básico que rege a comunicação humana é o princípio da cooperação:
Quando duas ou mais pessoas se propõem a interagir verbal-
mente, elas normalmente irão cooperar para que a interlocução
transcorra de maneira adequada. Usando uma metáfora: quem
se propõe a jogar um jogo, aceita jogar de acordo com suas
regras e fazer o possível para que ele chegue a bom termo.

Esse princípio se baseia em quatro máximas, ou em quatro regras prioritárias:


• máxima da quantidade: não diga nem mais nem menos que o necessário;
• máxima da qualidade: só diga coisas para as quais tem evidência
adequada; não diga o que sabe não ser verdadeiro;
• máxima da relação (relevância): diga somente o que é relevante;
• máxima do modo: seja claro e conciso, evite a obscuridade, a prolixi-
dade etc.
O princípio cooperativo proposto por Grice inicialmente considerou apenas
o uso da linguagem oral, mas ele pode ser estendido e aplicado ao texto escrito,
pois, da mesma forma que o falado, o escrito faz parte de uma atividade intera-
cional entre os usuários da língua.
O texto é um lugar no qual o escritor e o leitor se encontram e propõem um
diálogo, e os elementos da textualidade apresentados nos textos falados e escritos
estão intimamente ligados aos postulados conversacionais descritos por Grice.

Reflita

Por que rimos ao ouvirmos uma piada? Por que uma pessoa acha graça e
outra não? Por que algumas pessoas interpretam de modo diferente o con-
teúdo de uma piada e demoram em compreender o que foi contado?
“Vamos refletir sobre a piada exposta na sequência e sobre as máximas
conversacionais postuladas por Grice.

unitins • letras • 6º PERÍODO  55


CAPÍTULO 4 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

O paciente acorda após a cirurgia e se depara com um homem em pé ao


lado da cama.
– E então, doutor, na cirurgia correu tudo bem?
– Eu não sou o doutor, sou São Pedro.”
Houve alguma violação das máximas conversacionais para que o texto
ficasse engraçado?
Você deve ter notado que o locutor perguntou uma coisa e obteve outra
como resposta. A máxima da relevância foi violada, pois a resposta apre-
sentada não é relevante à pergunta do locutor. O lógico seria que a respos-
ta fosse algo do tipo “Não se preocupe, correu tudo bem, sim!”, ou “Você
sentiu-se mal, mas agora está tudo bem!”.
É essa violação de uma das máximas conversacionais propostas por Grice
que gera o humor, ou seja, gera o riso.
Vale lembrar que rir ou não de uma piada tem tudo a ver com a cultura dos
interlocutores. No caso apresentado, é importante verificar que há a crença
de vida após a morte e que São Pedro habitaria o céu, logo o paciente es-
taria, na verdade, dialogando com um ser que não estaria em um hospital,
mas em outro mundo.

No quinto capítulo, estudaremos os mecanismos de argumentatividade:


operadores argumentativos, marcadores de pressuposição, índices de modali-
dade, índices atidudinais, tempos verbais e índices de polifonia.

Referências
KOCH, I. V. A inter-ação pela linguagem. 3. ed. São Paulo: Contexto, 1997.
PINTO, J. P. Pragmática. In: MUSSALIM, F.; BENTES, A. C. (Org.). Introdução à
linguística: domínios e fronteiras. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2006. v. 2.
SILVA, G. A. Teoria dos atos de fala. [s/d]. Disponível em: <http://www.filo-
logia.org.br/viiifelin/41.htm>. Acesso em: 1 maio 2010.
WILSON, V. Motivações pragmáticas. In: MARTELOTTA, M. E. (Org.). Manual
de linguística. São Paulo: Contexto, 2009.

Anotações

56  6º PERÍODO • letras • unitins


5
CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Discurso e argumentação

Introdução
Quando interagimos, temos sempre objetivos a serem atingidos: estabe-
lecer relações, causar efeitos, desencadear comportamentos, obter determinada
reação, ou seja, atuar sobre os outros. Portanto o uso da linguagem é essencial-
mente argumentativo.
A língua tem mecanismos que indicam a argumentatividade, que segundo
Ducrot, está inscrita na própria língua. Esses mecanismos são as marcas linguís-
ticas ou modalizadores. Neste capítulo, estudaremos alguns desses mecanismos:
operadores argumentativos, marcadores de pressuposição, índices de moda-
lidade, índices atidudinais, tempos verbais e índices de polifonia. Faremos a
abordagem desse assunto a partir de Koch (1997, 2002).
É interessante que você revise, na disciplina de Língua Portuguesa III: Estudos
Sintáticos, as conjunções coordenadas e subordinadas adverbiais, para compre-
ender o emprego dos operadores argumentativos; na disciplina de Língua
Portuguesa IV: Semântica e Pragmática, a pressuposição e os subentendidos,
para entender os marcadores de pressuposição. Em uma gramática normativa,
faça uma revisão dos verbos, para entender os tempos verbais.

5.1 Operadores argumentativos


Os operadores argumentativos têm a função de indicar a força argumenta-
tiva dos enunciados. Para explicar seu funcionamento, Ducrot utiliza duas noções
básicas, expostas a seguir.
• Classe argumentativa: é um conjunto de enunciados que servem de argu-
mento para uma mesma conclusão (a que, por convenção, se denomina
R). Analisemos o exemplo (1).
(1) João é o melhor candidato (conclusão R).
arg. 1 – tem uma boa formação em Economia.
arg. 2 – tem experiência no cargo.
arg. 3 – não se envolve em negócios.
Os argumentos 1, 2 e 3 são as classes argumentativas.

unitins • letras • 6º PERÍODO  57


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

• Escala argumentativa: ocorre quando dois ou mais enunciados de uma


classe se apresentam em gradação de força crescente. Examinemos o
exemplo (2).
(2) A apresentação foi coroada de sucesso (conclusão R).
arg. 1 – estiverem presentes personalidades do mundo artístico.
arg. 2 – estiveram presentes pessoas influentes nos meios políticos.
arg. 3 – esteve presente o Presidente da República (argumento mais
forte).
Analisemos os principais tipos de operadores argumentativos.
a) Operadores que assinalam o argumento mais forte de uma escala
orientada no sentido de determinada conclusão: até, mesmo, até
mesmo, inclusive.
No exemplo (2), normalmente diríamos: “A apresentação foi coroada
de sucesso: estiveram presentes personalidades do mundo artístico,
pessoas influentes nos meios políticos e até (mesmo, até mesmo, inclu-
sive) o Presidente da República.
b) Operadores que somam argumentos a favor de uma mesma conclusão
(relação de adição): e, também, ainda, nem, não só... mas também,
tanto... como, além de..., além disso..., a par de..., aliás etc.
No exemplo (1), teríamos várias opções de construção:
• João é o melhor candidato: tem uma boa formação em economia,
tem experiência no cargo e não se envolve em negócios;
• João é o melhor candidato: não só tem uma boa formação em
economia, mas também tem experiência no cargo e não se envolve
em negócios;
• João é o melhor candidato: além de ter uma boa formação em
economia, tem experiência no cargo e também (ainda) não se
envolve em negócios;
• João é o melhor candidato. Além de ter uma boa formação em
economia, tem experiência no cargo e não se envolve em negócios.
Aliás, é o único candidato que tem bons antecedentes.
c) Operadores que introduzem uma conclusão relativamente a argumentos
apresentados em enunciados anteriores (relação de conclusão): portanto,
logo, por conseguinte, pois, em decorrência, consequentemente etc.
Vejamos o exemplo (3).
(3) O custo de vida continua subindo vertiginosamente; as condições de
saúde do povo brasileiro são péssimas e a educação vai de mal a pior.

58  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Portanto (logo, por conseguinte...) não se pode dizer que o Brasil esteja
prestes a se integrar ao primeiro mundo.
d) Operadores que introduzem argumentos alternativos que levam a conclu-
sões opostas (relação de disjunção): ou, ou então, quer... quer, seja...
seja etc.
(4) Vai participar da passeata, ou prefere ficar em casa?
e) Operadores que estabelecem relações de comparação entre elementos
com vistas a uma dada conclusão: mais que, menos que, tão... como etc.
(5) A: Peça à Rosa para fazer o contrato.
B: Maria é tão competente quanto Rosa.
Embora trate de um comparativo de igualdade, argumentativamente o
enunciado é favorável à Maria.
f) Operadores que introduzem uma justificativa ou explicação ao enun-
ciado anterior (relação de causalidade): porque, que, já que, pois etc.
(6) José não atingiu a média, pois não levou a sério seus professores.
g) Operadores que contrapõem argumentos orientados para conclusões
contrárias (relação de oposição): mas (porém, contudo, todavia, no
entanto, entretanto etc.), embora (ainda que, posto que, apesar de
que etc.
Ao usar o mas e seus similares, o locutor introduz em seu discurso um
argumento possível para uma conclusão R, na sequência, opõe-lhe um
argumento decisivo para uma conclusão contrária não-R.
A diferença entre o mas e o embora diz respeito à estratégia argumen-
tativa utilizada pelo locutor. No caso do mas, ele emprega a “estratégia
do suspense”; e no do embora, a estratégia de antecipação.
(7) Embora fosse claramente culpado, o réu não foi condenado.
No exemplo (7), o uso do embora antecipa a ideia de que haverá uma
relação de contradição.
(8) O réu era claramente culpado, mas não foi condenado.
Já no exemplo (8), a primeira informação cria no leitor a expectativa da
condenação e a presença do mas contraria essa expectativa.
h) Operadores que têm por função introduzir no enunciado conteúdos pres-
supostos: já, ainda, agora etc.
(9) Luís ainda fuma.
O conteúdo pressuposto é que Luís já fumava antes.

unitins • letras • 6º PERÍODO  59


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Há outros tipos de operadores argumentativos. Koch (1997) nos chama


atenção para o fato de que os livros didáticos e as aulas de língua portuguesa
têm dado pouca atenção a esse assunto, uma vez que essas palavras não fazem
parte das dez classes gramaticais, elas são classificadas à parte como palavras
denotativas. No entanto elas são as responsáveis pela força argumentativa, em
grande parte, de nossos textos. Por isso é necessário que o professor trabalhe
esse assunto com os seus alunos.
Na sequência, conversaremos sobre outra marca linguística da argumen-
tação, os marcadores de pressuposição.

5.2 Marcadores de pressuposição


Pressupostos são ideias não expressas de maneira explícita, que decorrem
logicamente do sentido de certas palavras ou expressões contidas no enunciado.
A essas expressões chamamos de marcadores de pressuposição. Observe o
exemplo (10).
(10) O estudo de sociolinguística tornou-se muito importante para o ensino
de língua portuguesa.
A informação implícita que o verbo “tornar-se” introduz é a de que antes o
estudo de sociolinguística não era considerado muito importante para o ensino
de língua portuguesa.
Vejamos quais são os termos que, em geral, servem de marcadores de
pressuposição.
a) Verbos que indicam mudança ou permanência de estado, como perma-
necer, continuar, tornar-se, vir a ser, ficar, passar (a), deixar (de),
começar (a), principiar (a), converter-se, transformar-se, ganhar, perder.
Analisemos o exemplo (11).
(11) A leitura de obras literárias continua sendo essencial para bons
profissionais.
O verbo continuar indica que a leitura de obras literárias já era essen-
cial para bons profissionais.
b) Verbos que indicam um ponto de vista sobre o fato expresso pelo seu
complemento (por exemplo, pretender, supor, alegar, presumir, imaginar).
Examine o exemplo (12).
(12) Os alunos pretendem ler a obra literária indicada.
O verbo pretender pressupõe que seu objeto direto (ler a obra literária
indicada) é verdadeiro para o sujeito (no caso, os alunos) e aparente-
mente falso para o produtor do texto.
c) Adjetivos (ou palavras similares)
(13) Letras foi meu primeiro curso superior.

60  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Primeiro pressupõe:
• que fiz outros cursos superiores;
• que os outros foram feitos depois do curso de Letras.
d) Certos advérbios
(14) As decisões do professor são totalmente imparciais.
O advérbio totalmente pressupõe que não há nenhuma interferência de
interesses do professor, em nenhum caso.
e) Orações adjetivas
• Orações adjetivas explicativas: referem-se a todos os elementos ante-
riores, explicando-os. Pelo fato de ser uma relação de explicação,
sua supressão não interfere no sentido do texto.
(15) Os brasileiros, que querem punição para os corruptos, esperam
que a lei seja cumprida.
• Todos os brasileiros esperam que a lei seja cumprida.
• Todos os brasileiros querem punição para os corruptos.
O pressuposto é de que todos os brasileiros, sem exceção, esperam
que os corruptos sejam punidos. Essa interpretação é autorizada
porque a oração que querem punição para os corruptos está entre
vírgulas, ou seja, é uma oração adjetiva explicativa, que diz respeito
a todos os sujeitos citados anteriormente.
• Orações adjetivas restritivas: referem-se somente a parte do grupo
dos elementos anteriores, restringindo-os. Nesse caso, a supressão
da oração adjetiva compromete o sentido da frase.
(16) Os brasileiros que querem punição para os corruptos esperam
que a lei seja cumprida.
• Alguns brasileiros querem punição para os corruptos.
• Somente alguns brasileiros esperam que a lei seja cumprida.
Essa mesma oração, inserida no texto sem vírgulas, torna-se uma
oração adjetiva restritiva, ou seja, diz respeito somente aos brasi-
leiros que querem punição para os corruptos, e não a todos os
brasileiros, como na anterior.
f) Certas conjunções
(17) Estudei bastante durante o fim de semana, mas não me senti
cansado.
O pressuposto introduzido pela conjunção mas é o de que estudar é
cansativo.

unitins • letras • 6º PERÍODO  61


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

g) Verbos denominados “factivos” que são complementados pela enun-


ciação de um fato (pressuposto). De modo geral, são verbos de estado
psicológico, como lamentar, lastimar, sentir, saber etc.
(18) Lamento que Maria tenha sido demitida.
O fato de Maria ser demitida é o pressuposto.
Koch (1997) expõe que há a retórica da pressuposição, um recurso
argumentativo bastante utilizado no dia a dia, que consiste em apre-
sentar como se fosse pressuposto justamente aquilo que está querendo
veicular como informação nova. Trata-se de uma “manobra” argumenta-
tiva, como, por exemplo:
(19) Lamentamos não aceitar cheques.
O pressuposto é não aceitamos cheques. É uma forma cortês de veicular
informações que não atendem aos interesses do interlocutor.
h) Certos conectores circunstanciais, especialmente quando a oração por
eles introduzidas vem anteposta: desde que, antes que, depois que, visto
que etc.
(20) Desde que Ana começou o curso de Letras, não cumprimenta mais
seus vizinhos.
Desde que pressupõe que antes Ana conversava com seus vizinhos.
Nem sempre as informações implícitas são marcadas linguisticamente.
Quando isso ocorre, temos os subentendidos, que são insinuações contidas
no enunciado.
Eles servem, muitas vezes, para o falante proteger-se. Com ele, transmite
a informação que deseja dar a conhecer sem se comprometer. Lembre-se
das indiretas que, às vezes, você usa em seu dia a dia. Elas são exemplos
de subentendido!
Depois de analisarmos os operadores argumentativos e marcadores de pres-
suposição, veremos os índices de modalidade.

5.3 Índices de modalidade


Também conhecidos como modalizadores, os índices de modalidade sinalizam
o modo como aquilo que se diz é dito. Os principais tipos de modalidade são:
• necessário/possível
• certo/incerto/duvidoso
• obrigatório/facultativo
(21) É necessário que os alunos leiam mais.

62  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

É possível que os alunos leiam mais.


É certo que os alunos leiam mais.
É provável que os alunos leiam mais.
Nos enunciados do exemplo (21), as modalidades estão lexicalizadas na forma
de “é + adjetivo”. Todavia há outras formas de expressão da modalidade:
• advérbios ou locuções adverbiais: talvez, certamente, com certeza etc.;
• verbos auxiliares modais: poder, dever etc.;
• construções de auxiliar + infinitivo: ter de + infinitivo, precisar (neces-
sitar) + infinitivo etc.;
• orações modalizadoras: tenho a certeza de que..., não há dúvidas de
que..., há possibilidade de..., todos sabem que...
Analisemos alguns exemplos.
(22) Certamente os alunos lerão mais.
Com certeza os alunos lerão mais.
(23) Estou certa de que os alunos lerão mais.
Tenho a certeza de que os alunos lerão mais.
(24) Os alunos deverão ler mais.
Os alunos precisam ler mais.
(25) Os alunos terão de ler mais.
Em todos os exemplos, verificamos que, ao conteúdo proposicional, foi acres-
centada a indicação de modalidade a partir da qual ele deve ser interpretado.
Percebemos também que uma mesma modalidade pode ser expressa por meio
de recursos linguísticos diferentes.
Um mesmo indicador modal pode exprimir modalidades diferentes, como
podemos observar no exemplo (26).
(26) Todos os convidados devem usar traje social. (é obrigatório)
O tempo deve melhorar no próximo mês. (é possível)
A aula já deve ter terminado. (é provável)
Além dos índices de modalidade, existem os índices de atitude. É sobre estes
índices que conversaremos a seguir.

5.4 Índices atidudinais


São os indicadores de atitude ou estado psicológico com que o locutor se
apresenta diante dos enunciados que produz. Vejamos alguns exemplos.

unitins • letras • 6º PERÍODO  63


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

(27) Infelizmente, não consegui ler toda a obra.


(28) Felizmente, conclui a leitura da obra.
(29) É com prazer que convido vocês para minha festa.
(30) Francamente, não gostei de sua atitude.
A atitude subjetiva do locutor pode traduzir-se numa avaliação ou valoração
a fatos, estados ou qualidades atribuídas a um referente por meio de um adjetivo
ou formas intensificadoras, como podemos notar nos exemplos (31) e (32).
(31) A professora deu uma excelente aula.
(32) A professora foi extremamente feliz em sua resposta.
Há, também, operadores que delimitam o domínio dentro do qual o enun-
ciado deve ser entendido (exemplo 33) ou o modo como ele é formulado pelo
locutor (exemplo 34).
(33) Geograficamente, o Brasil é um dos maiores países do mundo.
(34) Abordarei resumidamente esse assunto.
A seguir, examinaremos de que forma os tempos verbais caracterizam
os textos.

5.5 Tempos verbais no discurso


Weinrich citado por Koch (2002), ao estudar os tempos verbais do francês,
constatou três dimensões do sistema verbal ligadas à situação comunicativa:
atitude comunicativa, perspectiva comunicativa e relevo.
Em relação à atitude comunicativa, identificou dois grupos com emprego
distinto e que normalmente não se combinam em um mesmo período:
• mundo comentado: presente (estudo), pretérito perfeito composto (tenho
estudado), futuro de presente (estudarei), futuro do presente composto
(terei estudado), além das locuções verbais formadas por esses tempos
(estou estudando, vou estudar etc.);
• mundo narrado: pretérito perfeito simples (estudei), pretérito imperfeito
(estudava), pretérito mais-que-perfeito (estudara), futuro do pretérito
(estudaria) e locuções verbais formadas com tais tempos (estava estu-
dando, ia estudar etc.).
Ao mundo comentado, pertencem a lírica, o drama, o ensaio, o diálogo, o
comentário; ao mundo narrado, pertencem os tipos de relato, literários ou não.
Segundo Koch (2002), ao resumir uma história narrada no imperfeito ou perfeito
simples, usa-se o presente acompanhado ou não de outros verbos do primeiro
grupo. Esse uso se dá porque, em um resumo de novela, filme ou conto, serve
de base para se fazer a crítica, comentar a obra ou facilitar a outros essa tarefa.

64  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

É por essa razão que também as manchetes de jornais apresentam verbos no


presente (ou elidido): é a partir delas que se fará o comentário. É por essas
razões também que, em descrições em relatos, tem-se o verbo no imperfeito e,
em dentro do comentário, o verbo se apresenta no presente.
Quanto à perspectiva comunicativa, temos:
a) tempo zero: é tempo base, sem perspectiva.
• Mundo comentado: presente
• Mundo narrado: pretérito perfeito e pretérito imperfeito
b) tempo com perspectiva: são os demais tempos, que indicam a pros-
pecção ou retrospecção em relação ao tempo zero.
• Mundo comentado: prospecção – futuro do presente; retrospecção
– pretérito perfeito composto
• Mundo narrado: prospecção – futuro do pretérito; retrospecção –
pretérito mais-que-perfeito
Quando se usa um ou mais verbos do mundo narrado no mundo comentado,
ou vice-versa, temos a metáfora temporal. O uso de verbos do mundo narrado
no mundo comentado
[...] exprime um matiz de validez limitada, trazendo ao contexto
comentador o que é peculiar ao mundo narrado, como rela-
xamento, falta de compromisso. Limita-se, assim, a validez
do discurso, pela introdução de matizes que podem exprimir
cortesia, timidez, hipótese, incerteza, irrealidade etc. Já os
tempos do mundo comentado levam consigo algo de tensão,
compromisso e seriedade, dilatando a validez do relato ou
insistindo sobre ela. É o que acontece quando, numa narrativa,
se usa o presente histórico, por exemplo. Isto é, comenta-se
como se se narrasse ou narra-se como se se comentasse (KOCH,
2002, p. 39).

A autora nos mostra que o uso dos tempos verbais do mundo comentado
no interior do mundo narrado significa maior engajamento, atenção, rele-
vância. Já o uso de tempos verbais do mundo narrado em um texto do mundo
comentado significa menor comprometimento, distância, irrealidade, cortesia
etc. Para compreender melhor a metáfora temporal, analisemos os exemplos
(35) e (36).
(35) O MST estaria disposto a negociar com o Presidente.
No exemplo (35), o uso do futuro do pretérito não confirma a notícia (=
parece que). O locutor não se responsabiliza pela exatidão da notícia.
(36) A caravana caminhava lentamente pelo areal deserto. De repente, ouve-se
um forte ruído e, diante dos beduínos assustados, surge um disco voador.

unitins • letras • 6º PERÍODO  65


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

No exemplo (36), o uso do presente marca o momento culminante, mais


relevante da narrativa.
Segundo Koch (1997), a indicação de relevo ocorre somente no mundo
narrado. O pretérito perfeito indica o primeiro plano (ação propriamente dita) e
o pretérito imperfeito, o segundo plano (pano de fundo).
A classificação dos tempos verbais de Weinrich apresenta problemas no
português. O mais sério é a presença extremamente frequente do pretérito perfeito
simples tanto nos textos do mundo comentado quando do mundo narrado. Por
isso, conforme Koch (1997, p. 53), é necessário admitir “sua presença nos dois
‘mundos’, embora com valores diferentes: no mundo narrado ele é o tempo-zero
[...]; no mundo comentado, o tempo-zero é o presente, e o pretérito perfeito tem
valor retrospectivo com relação ao tempo-zero”.
Para finalizar o capítulo, veremos os índices de polifonia.

5.6 Índices de polifonia


São as várias vozes, num mesmo texto, que falam de perspectivas diferentes
com as quais o locutor se identifica ou não. Vejamos quais são as formas linguís-
ticas que funcionam como índices de polifonia.
a) Determinados operadores argumentativos
• Ao contrário, pelo contrário
(37) Maria não é feia. Pelo contrário, é uma mulher bastante atraente.
Os dois períodos não se opõem um ao outro, mas estão orientados
para a mesma direção. Na verdade, há outra voz que afirma que
Maria é feia, com a qual o locutor não concorda.
• Operadores conclusivos particularmente em casos em que não se
enuncia um dos argumentos (a premissa maior) para a conclusão
a que se deseja levar o interlocutor, por se tratar de uma máxima,
um provérbio, uma “verdade” aceita na cultura em que se vive (essa
voz “ressoa” no discurso).
(38) João é um dorminhoco. Não pode, portanto, vencer na vida.
Nesse exemplo, o locutor concorda com a premissa polifonicamente
introduzida (“quem cedo madruga, Deus ajuda”), argumentando no
mesmo sentido.
b) Marcadores de pressuposição
O conteúdo pressuposto por esses marcadores não é de responsabilidade
exclusiva do locutor, mas é algo partilhado por ele e seu interlocutor.
(39) José continua charmoso.
O pressuposto de que José já era charmoso é partilhado com mais alguém.

66  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

c) Uso do futuro do pretérito como metáfora temporal


(40) O governador estaria disposto a não renunciar ao mandato.
Devido ao uso do futuro do pretérito, o locutor não se responsabi-
liza pelo que é dito, atribuindo-o a outrem (não sou eu que o digo,
alguém falou).

d) Uso de aspas
O uso das aspas é, frequentemente, um modo de manter distância do
que se diz, colocando-o “na boca” de outros.
(41) As “carroças” brasileiras estão cada vez mais sofisticadas.
Além dessas formas linguísticas, expostas por Koch (1997), há outras
formas em que a polifonia se apresenta. Apontaremos alguns casos de
polifonia propostos por Ducrot, mencionados em Cardoso (1999).

a) Discurso citado
• No discurso direto, temos um único enunciado, um sujeito
falante, com dois locutores (L1 e L2) e duas enunciações.
(42) A professora disse: ler é indispensável.
O L1 é responsável pelo enunciado todo: “A professora disse:
ler é indispensável” (é uma das enunciações). O L2 é respon-
sável por “ler é indispensável” (é a outra enunciação).
• No discurso indireto, a polifonia ocorre numa fronteira menos
delimitada, pois o locutor incorpora linguisticamente na sua fala
a fala de L2, o que equivale a dizer que há uma única enun-
ciação e um único locutor.
• No discurso indireto livre, o locutor fala de perspectivas dife-
rentes, porém sem demarcá-las linguisticamente. Misturam as
vozes de dois enunciadores (E1 e E2), sem que se possa distin-
guir com clareza qual é o ponto de vista do narrador e qual é
o do personagem.

Reflita

Leia o trecho retirado do capítulo I de Vidas secas, de Graciliano Ramos.


Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-
se ao rio seco, achou no bebedouro dos animais um
pouco de lama.
Cavou a areia com as unhas, esperou que a água mare-
jasse e, debruçando-se no chão, bebeu muito. Saciado,

unitins • letras • 6º PERÍODO  67


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

caiu de papo para cima, olhando as estrelas, que vi-


nham nascendo. Uma, duas, três, quatro, havia muitas
estrelas, havia mais de cinco estrelas no céu. O poente
cobria-se de cirros - e uma alegria doida enchia o cora-
ção de Fabiano.
Pensou na família, sentiu fome. Caminhando, movia-se
como uma coisa, para bem dizer não se diferenciava
muito da bolandeira de seu Tomás. Agora, deitado,
apertava a barriga e batia os dentes. Que fim teria le-
vado a bolandeira de seu Tomás?
Nesse trecho, há exemplos de discurso indireto livre. De que forma a
polifonia se apresenta por meio desse discurso? Há outro(s) caso(s) de
polifonia?

b) Ironia
O locutor coloca em cena um enunciador e o faz dizer coisas
absurdas e assumir uma posição cuja responsabilidade o locutor
não quer admitir.
(43) Vocês veem, o meu marido esqueceu a data do casamento.
De fato, o marido não esqueceu a data do casamento, mas alguém
sustentava a ideia de que ele esqueceria.
c) Negação
Ducrot diferencia dois tipos de negação: a polêmica e a metalin-
guística. A negação polêmica introduz um ato de refutação.
(44) Maria não é feia.
O locutor põe em cena dois enunciadores: E1 que expõe que Maria
é feia, e E2 recusa o que é exposto por E1.
A negação metalinguística visa a atingir o próprio locutor do enun-
ciado oposto, do qual se contradizem os pressupostos.
(45) Maria não é feia, ela é linda!

Reflita

Por que o enunciado “O Brasil não é um dos piores contribuidores do


efeito estufa” é polifônico?

68  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

d) Mas
O mas constitui um operador argumentativo por excelência, pois
permite contrapor a perspectiva do locutor à de um enunciador.
(46) Ela não é bonita, mas é simpática.
Pelas reflexões feitas neste capítulo, ficou evidente que a argumentatividade
está presente em todo uso da linguagem humana, em qualquer tipo de texto e
não apenas naqueles tradicionalmente classificados como argumentativos. Não
há texto totalmente neutro, objetivo, imparcial. A suposta neutralidade de alguns
discursos, como o científico e o didático, é apenas uma máscara, uma forma de
representação: o locutor representa no teatro “como se” fosse neutro, “como se”
estivesse engajado, comprometido, “como se” não estivesse tentando orientar
o outro para determinadas conclusões, no sentido de obter dele determinados
comportamentos e reações (KOCH, 1997).

Saiba mais

Sugerimos a leitura da obra Ironia em perspectiva polifônica, de Beth Brait.

Referências
CARDOSO, S. H. B. Discurso e ensino. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
KOCH, I. G. V. A inter-ação pela linguagem. 3. ed. São Paulo: Contexto,
1997.
______. Argumentação e linguagem. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2002.

Anotações

unitins • letras • 6º PERÍODO  69


CAPÍTULO 5 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

70  6º PERÍODO • letras • unitins


6
Análise da conversação: CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

um percurso de trocas
e negociações

Introdução
Você, em algum momento, já parou para analisar como as pessoas falam,
como elas estabelecem certa ordem no diálogo e como isso é natural? Ninguém
grita no meio de um diálogo, assim do nada: “você falou, ele falou, agora é a
minha vez de falar, e, em seguida, será ele”. Essa “ordem” e essa certa “coope-
ração” ocorrem nas estratégias estabelecidas pelos sujeitos falantes no momento
da enunciação.
A análise do desempenho linguístico na fala não se serve apenas da gramá-
tica, do estudo sintático, morfológico, das estruturas verbais e não verbais e de
suas relações. É preciso mais que isso, é necessário algo novo que você estudará
neste capítulo: a análise da conversação (AC).
Temos certeza de que esse conteúdo despertará em você grande interesse,
afinal, quem não gostaria de perceber criticamente os recursos de polidez de
seu interlocutor, como ele utiliza as palavras em seu favor, de observar quais as
pausas adotadas por ele e como essas pausas o auxiliam na produção de um
efeito de verdade.
A análise da conversação surgiu, em meados da década de 1960, em
um contexto muito específico ligado à antropologia e à sociologia. Inicialmente
buscou apenas descrever as estruturas da conversação e seus mecanismos orga-
nizáveis. Atualmente, esses estudos buscam analisar conhecimentos linguísticos,
paralinguísticos e socioculturais que, necessariamente, precisam ser partilhados
para que a interação ocorra com certo sucesso.
Os processos cooperativos, presentes na atividade conversacional, são
outros elementos que devem ser considerados. Assim aspectos sociais, culturais,
conhecimentos linguísticos passaram a ser observados e analisados.
Neste capítulo, veremos os princípios que sustentam a análise da conver-
sação e quais as metodologias utilizadas. Adotaremos inicialmente a perspectiva
histórica para mostrar o surgimento das pesquisas em análise da conversação.
Ao final deste capítulo, você deverá ter compreendido o que é a análise da
conversação, como ela surgiu e como ela poderá contribuir para o ensino e o
aprendizado da linguagem.

unitins • letras • 6º PERÍODO  71


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Saiba mais

Ler artigos científicos embasados na teoria, na metodologia e nos prin-


cípios da análise da conversação também poderá contribuir. Sugerimos
que você leia a obra do professor Luiz Antônio Marcuschi, Análise da
conversação. Essa obra apresenta a evolução dos estudos nessa área,
além de apresentar de forma didática os princípios teórico-metodológicos
da análise da conversação.

6.1 Análise da conversação: surgimento


A semente da AC surgiu, na década de 1960, na linha da Etnometodologia
e na Antropologia Cognitiva. Segundo Marcuschi (2003, p. 6), essa área preo-
cupou-se, até a década de1970,
[...] sobretudo, com a descrição das estruturas da conversação
e seus mecanismos organizadores. Norteou-a o princípio básico
de que todos os aspectos da ação e interação social poderiam
ser examinados e descritos em termos de organização estrutural
convencionada ou institucionalizada. Isso explica a predominância
dos estudos eminentemente organizacionais da conversação.

Essa perspectiva de observação é herança da Etnometodologia, que se apre-


senta como uma abordagem interpretativa da sociologia. Essa área focaliza o
cotidiano de modo a considerá-lo relacionado às habilidades e aos métodos que
as pessoas usam para produzir suas ações.
Em certo sentido, o interesse desses estudiosos no campo da conversação
estava ligado à compreensão dos métodos que os praticantes, interlocutores,
utilizavam para produzi-la e interpretá-la.
A Etnometodologia está ligada à Sociologia da Comunicação e à
Antropologia Cognitiva. Sua perspectiva de pesquisa investiga a forma como as
pessoas se apropriam do conhecimento social. Nesse sentido, a relevância dos
processos de interação é evidente, ou seja, os processos pragmáticos e situacio-
nais revelam como se dá a atividade linguística cotidiana. A interação é o tema
do próximo tópico.

6.2 Interação
Para que a interação ocorra, é preciso bem mais que um emissor e um
receptor, há a necessidade indiscutível da colaboração entre eles, do engaja-
mento entre ambos para que a comunicação ocorra. É preciso que o emissor
considere o receptor, quem ele é, quais são conhecimentos prévios que o seu

72  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

interlocutor deverá obter para compreender a sua fala, o meio, a situação de


comunicação etc.
Para que a troca comunicativa, ou seja, para que o diálogo, meio mais
natural e legítimo de linguagem, ocorra, não basta que dois falantes usem a
fala alternadamente. É necessário que eles “se” falem e que apresentem “sinais
de colaboração e engajamento recíproco” recorrendo aos procedimentos que
favorecerão a interlocução efetiva.
Alguns exemplos desses sinais são as formas de cumprimento, de polidez,
ou as estratégias utilizadas para “confirmar” a fala do interlocutor, ou ainda,
“incentivar” a continuidade de sua fala.
O emissor, falante, indicará com quem está falando, inicialmente, por sua
colocação, ou postura corporal, ou seja, o olhar direcionado para a pessoa com
quem ele fala e o corpo direcionado para essa pessoa etc.
Em seguida, a produção de formas de tratamentos, a produção de recursos
que captam o interesse do interlocutor e recursos que asseguram que ele está, de
fato, atento ao que é falado, como as expressões “sabe”, “você entende”, “né”
etc. serão adotados.
A interação é uma “inter-ação”, como já diz a palavra. A “inter-ação” se dá
entre o eu que falo e o outro que me escuta. O outro, receptor, deverá produzir
alguns sinais que confirmem ao emissor que ele está atento ao ato comunica-
tivo. Esses sinais de escuta têm realizações verbais (“estou te acompanhando”,
“sim, “certo”) e não verbais (a afirmação com a cabeça, sorriso, franzimento
da testa etc.), que são indispensáveis para o bom funcionamento da troca. A
ausência deles poderá comprometer a comunicação e trazer perturbações ao
ato comunicativo.
Essas realizações, esses sinais, devem mostrar certa “sincronia interacional”,
tal como uma dança na qual o parceiro não poderá atrasar-se na realização de um
passo com risco de comprometer a dança. Aqui, também, ocorre o descompasso
entre os sinais, que poderá comprometer o jogo interacional da comunicação.
Como a interação pode ser analisada? Qual a metodologia que sustenta a
análise de um diálogo oral, por exemplo? É sobre esses assuntos que conversa-
remos a seguir.

6.3 Metodologia da AC
Segundo Marcuschi (2003, p. 7), “quanto à característica metodológica
básica, a AC procede pela indução: inexistem modelos a priori. Ela parte de
dados empíricos em situações reais”. A relevância e a superioridade do empí-
rico contribuem para que a AC seja realizada com poucas análises quantitativas.
Assim, na AC, prevalecem as descrições e as interpretações qualitativas.

unitins • letras • 6º PERÍODO  73


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Apesar de buscar, no universo real e singular, os elementos para a sua


análise, a AC objetiva, como qualquer ramo da ciência da linguagem, a elabo-
ração de pressupostos universais em uma dada língua, ou seja, analisa os casos
concretos, descreve, compara e verifica as regras utilizadas em situações reais
que, quando contrapostas a outros casos geram similitudes, nos permitem chegar
a conclusões universais.
Os estudiosos da AC procuraram investigar os aspectos essenciais para a
organização do texto conversacional no:
• macronível: estuda as fases conversacionais, que são aber-
tura, fechamento e parte central e o tema central e subtemas
da conversação;
• nível médio: investiga o turno conversacional, a tomada
de turnos, a sequência conversacional, os atos de fala e os
marcadores conversacionais;
• micronível: analisa os elementos internos do ato de fala,
que constituem a sua estrutura sintática, lexical, fonológica e
prosódia (DIONÍSIO, 2006, p. 70-71).

A AC se justifica por ser necessário estudarmos a conversação, o fato de


ela ser uma prática social comum ao ser humano que desempenha um papel
privilegiado na construção de identidades sociais e relações interpessoais e por
permitir a abordagem de aspectos que envolvem a sistematicidade da língua em
situação real de uso.

Saiba mais

Uma dica de leitura é a obra Análise da conversação, de Catherine Kerbrat-


Orecchioni, que propõe o estudo das relações que se constroem pelo viés
da troca verbal. O objetivo da análise conversacional é explicar as regras
que sustentam o funcionamento das trocas comunicativas de todos os gêne-
ros e decifrar o comportamento daqueles que se encontram engajados na
atividade comunicativa polifônica, complexa e dialógica.

A seguir, veremos como se dá a transcrição das conversações.

6.3.1 A transcrição das conversações


Como o corpus da AC é constituído por conversações produzidas em situa-
ções reais, é indispensável que elas sejam registradas, gravadas ou filmadas,
para que o analista, após a sua transcrição e observação, possa, de fato,
comprovar as suas observações e análises.

74  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

A transcrição deverá ser o mais fiel possível, pois a análise deverá concen-
trar-se na produção dos interlocutores e jamais nas interpretações e ou nas adap-
tações realizadas pelo pesquisador.
Não existe, segundo Marcuschi (2003), uma transcrição melhor que a outra.
O pesquisador deverá realizar a transcrição de acordo com os objetivos da
pesquisa e assinalar o que se mostra como fundamental para a sua pesquisa.
A transcrição deverá, portanto, ser legível e sem sobrecarga de símbolos que
possam comprometer o entendimento dos elementos da conversação.
Um legado importante do Projeto NURC, Projeto de Estudo Coordenado
da Norma Urbana Linguística Culta, sob orientação do professor Dino Pretti,
são as orientações para as normas de transcrição. Veja, no quadro a seguir,
algumas orientações que têm sido admitidas como referência para a transcrição
dos textos orais.

Quadro Normas para transcrição – Projeto NURC.

Ocorrências Sinais Exemplificação


H28
Os falantes devem ser
indicados em linha, com M33
1. Indicação dos falantes
letras ou alguma sigla Doc.
convencional
Inf.
2. Pausas ... não... isso é besteira...
3. Ênfase MAIÚSCULA Ela comprou um OSSO
: (pequeno)
Eu não tô querendo é dizer
4. Alongamento de uma
:: (médio) que... é: o eu fico até:: o:
vogal
tempo todo
::: (grande)
5. Silabização - do-minadora
ela é contra a mulher
6. Interrogação ?
machista... sabia?

7. Segmentos incompre- () borá gente... tenho aula...


ensíveis ou ininteligíveis (ininteligível) ( ) daqui

8. Truncamento de pala- eu... pre/ pretendo


/
vras ou desvio sintático comprar
9. Comentário do
(( )) M. H. é ((rindo))
transcritor
“mai Jandira eu vô dizê
a Anja agora que ela vai
10. Citações ““
apanhá a profissão de
madrinha agora mermo”

unitins • letras • 6º PERÍODO  75


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Ocorrências Sinais Exemplificação


H28. é... existe... [você ( )
11. Superposições de do homem...
[
vozes M33. [pera aí... você
acha... pera aí... pera aí
M33. [[mas eu garanto que
12. Simultaneidade de juita coisa
[[
vozes H. 28 [[eu acho eu acho é
a autoridade
13. Ortografia To, ta, vô, ahã, mhm
Fonte: Dionísio (2006, p. 76).

A AC analisa, segundo Dionísio (2006, p. 75), “materiais empíricos,


orais, contextuais, considerando também as realizações entonacionais e o
uso de gestos ocorridos durante o processamento da conversação”. As nossas
conversas, não resta dúvida, estão recheadas da mistura do verbal e do não
verbal. Steinberg citado por Dionísio (2006, p. 75-77) sistematizou os recursos
não verbais:
a) paralinguagem: sons emitidos pelo aparelho fonador, mas
que não fazem parte do sistema sonoro da língua usada;

b) cinésica: movimentos do corpo como gestos, postura,


expressão facial, olhar e riso;

c) proxêmica: a distância mantida entre os interlocutores;

d) tacêsica: o uso de toques durante a interação;

e) silêncio: a ausência de construções linguísticas e de recursos


de paralinguagem.

Para a AC, falamos com o corpo, com a voz e, por isso, o sistema de
transcrição deverá considerar todos esses recursos e contemplar informações
que assegurem o registro desses elementos para que, em uma análise, eles
produzam sentido e proporcionem maior fidelidade aos dados observados. Veja
um exemplo de transcrição:
L1 a minha carreira aqui na universidade é:: relativamente curta...
pelo seguinte... eh... eu já havia

trabalhado na Usp antes em mil novecentos e sessenta e seis eu


fui professor na Usp da Maria Antonia na

cadeira de língua inglesa... depois eu saí... não briguei com a


universidade eu tinha uma coisa interessante...

eu preferi... aceitar um emprego numa universidade boa dos


Estados Unidos

76  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

]
L2 que legal
[
L1 e... depois quando eu vim pra cá... uhn se for contar pela data
oficial de contrato assinado foi
em noventa e dois... né / então eu já vim pra cá aposentado por
outra universidade
]
L2 ah:: tá
(SILVA; PORTES; CONCEIÇÃO, s/d, p. 1)

Podemos afirmar que a conversação tem como uma de suas características


a alternância de turno. Turnos e organização conversacional são o tema da
próxima seção.

6.4 Turnos e sequências conversacionais


Podemos dizer que há dois tipos de conversação: a conversação simétrica
e a assimétrica.
Chamamos simétrica a conversação na qual o falante e o ouvinte ocupam a
cena, ambos os interlocutores contribuem efetivamente para o desenvolvimento
do tópico conversacional. No caso da conversação assimétrica, um dos parti-
cipantes só contribui com intervenções episódicas, secundárias em relação ao
tópico conversacional (Marcuschi, 2003).
Para entendermos a simetria e a assimetria, precisamos compreender que,
para a AC, a conversa é organizada a partir de turnos. Turno é o período,
o momento em que o falante faz ou diz enquanto tem a palavra, é o seu
uso da linguagem. Deve ser considerada também a produção não verbal,
como os gestos e o silêncio. Marcuschi (2003) defende que a produção do
falante enquanto ele está com a palavra, incluindo a possibilidade de silêncio,
é um turno.
Os turnos são caracterizados como turnos nucleares e turnos inseridos.
Os turnos que apresentam informações e que dão continuidade ao tópico em
andamento são considerados como turnos nucleares. Já os turnos inseridos não
apresentam conteúdos informativos e sim a indicação de que o interlocutor está
atento ao falante.
As estratégias de organização e manutenção dos turnos são variadas.
Vejamos um exemplo de entrevista analisada.
L1 não eu não gostei da ideia sinceramente gostei num sentido...
eu não tenho mais pilhas

unitins • letras • 6º PERÍODO  77


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

duzentas provas pra corrigir ((risos)) né... mas eu sempre gostei


de dar aula... né então... no começo / co
acostumar um pouquinho que não tinha que dar aula né ((riso))...
ma::is... o que que eu vou te dizer? você
quer sa / vocês querem saber só do meu tempo aqui da Usp?
Nessa passagem, de fato percebemos que L1 utiliza o elemento
“né” para “puxar” a atenção dos interlocutores. Contudo, após
usar o elemento “né”, lança mão dos elementos “mas” e” então”,
os quais são elementos utilizados por L1 para manter o turno e
não passá-lo às suas interlocutoras. Ao longo da conversação, L1
utiliza o elemento “ma::is” também para manter o seu turno.

L1 “no começo/ ço acostumar um pouquinho que não tinha que


dar aula né ((risos))... ma::is... o que que eu vou te dizer? você
quer sa / vocês querem saber só do meu tempo aqui da Usp?”

Nesse exemplo, verificamos que o elemento “ma::is” é usado


para manter seu turno enquanto formula um outro tópico, o
que ainda será “encaixado” no mesmo turno, sem passá-lo à
outra interlocutora.
O elemento em questão é utilizado diversas vezes ao longo das
falas de L1, geralmente com o mesmo objetivo, isto é, manter
seu turno e reformular a informação que virá a seguir.
(SILVA; PORTES; CONCEIÇÃO, s/d, p. 5)

A tomada de turno não ocorre de modo aleatório, como se houvesse um


campo de lutas absolutamente desordenado e no qual quem fosse mais forte
tomaria a palavra para si. A tomada de turno obedece a certas regras que
criamos e utilizamos com certa técnica.
O mecanismo, segundo Marcuschi (2003), que governa a tomada de turno
é um sistema espontâneo centrado em aspectos contextuais. As técnicas para
esse autor se resumem em:
Técnica I: O falante corrente escolhe o próximo falante, e este
toma a palavra iniciando o próximo turno;
Técnica II: o falante corrente para e o próximo falante obtém o
turno pela autoescolha (MARCUSCHI, 2003, p. 20).

Essas técnicas obedecem a algumas regras que, ao que tudo indica, estão
diretamente relacionadas aos aspectos culturais e sociais dos falantes. Apesar
das regras e das técnicas, percebemos que há falas simultâneas e sobreposi-
ções de vozes que podem comprometer a comunicação.

6.5 Marcadores conversacionais, importante, não é?


O texto oral é planejado e verbalizado ao mesmo tempo, há, portanto,
a necessidade de um raciocínio rápido para a estruturação das sequên-

78  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

cias. Em todos os momentos, os interlocutores podem empregar os opera-


dores conversacionais. Os marcadores podem desempenhar várias funções,
podem ser articuladores e estruturadores e podem contribuir para o monito-
ramento do ouvinte.
Eles podem ser marcas de aprovação, sinalizadores de hesitação, de
atenuação ou de reformulação, além da intenção e da interação do falante.
Em geral, os marcadores podem ser divididos em:
• marcadores de hesitação: ah, eh, ahn, pausas e alongamentos;
• marcadores de teste de participação ou busca do apoio: sabe?, né?,
certo?;
• marcadores de atenuação da atitude do falante: eu acho que;
• marcadores de apoio/monitoramento do ouvinte: ahn, ahn, uhn, sei.
Os marcadores podem ser utilizados em qualquer instante e por qual-
quer um dos falantes que participam da interação verbal.
Segundo Dionísio (2006), os marcadores conversacionais não contribuem
propriamente com informações novas para o desenvolvimento do tópico, mas
situam-no no contexto geral, particular ou pessoal da conversação.

Saiba mais

Leia mais sobre os marcadores conversacionais. Busque artigos que


apresentam a teoria e a análise de textos com os marcadores conver-
sacionais. Uma sugestão para leitura é o artigo Marcadores conver-
sacionais na linguagem jornalística, de Paulo de Tarso Galembeck
(UNESP/UEL) e Luciane Rampazo Blanco (UNESP). O artigo apre-
senta a importância de uma discussão sobre o papel exercido pelos
marcadores conversacionais na estruturação do discurso falado culto
(linguagem jornalística falada). Para tanto, os autores verificaram a
presença desses elementos nas três posições do turno conversacional
(inicial, medial, final) e a função por eles exercida em cada uma des-
sas posições.
O artigo está disponível no sítio <http://www.filologia.org.br/revis-
ta/artigo/7(20)05.htm>.

Veja, na figura a seguir, alguns dos principais marcadores conversacionais


que utilizamos.

unitins • letras • 6º PERÍODO  79


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Figura Quadro proposto por Mascuschi para os sinais conversacionais verbais


utilizados pelos falantes: emissor e receptor.

Quadro dos sinais


conversacionais verbais

Sinais do falante Sinais do ouvinte


(orientam o ouvinte) (orientam o falante)

preposicionados posposicionados convergentes indagativos divergentes


ex. ex. ex.
no início de no início de no final de no final de “sim” “será?” “não”
turno unidade turno unidade “ahã” “não “duvido”
ex. comunicativa ex. comunicativa “mhm” diga” “discordo”
“olha” ex. “né” ex. “claro” “mesmo?” “essa não”
“veja” “então” “certo?” “né?” “pois não” “é?” “nada
“mas eu” “aí” “viu?” “não sabe?” “de fato” “ué” disso”
“eu acho” “daí” “entendeu?” “certo?” “claro, claro” “como?” “nunca”
“não, não” “portanto” “sacô?” “entende?” “isso” “como “peraí”
“epa” “agora veja” “é isso aí” “de acordo?” “ah sim” assim?” “calma”
“peraí” “porque” “que acha?” “tá?” “ótimo” “o quê?” etc.
“certo, mas” “e” “e então?” “não é?” “taí” etc.
“sim, sei, “mas” “diga lá” etc. etc.
mas” “assim” “é ou não
“quanto a “por é?”
isso” exemplo” etc.
“nada “digamos
disso” assim”
“você “quer dizer”
esquece” “eu acho”
“como “como você”
assim?” etc.
etc.

Fonte: Marcuschi (2003, p. 68).

A AC é centrada nos fenômenos de linguagem oral. Há um forte entendimento


de que a AC permite, por exemplo, analisar entrevistas, filmagens, gravações que
formam o corpus de pesquisa de múltiplas áreas da ciência.

A pesquisa de caráter qualitativo tem se mostrado cada vez mais importante no


estudo dos fenômenos que envolvem o homem. A AC permite que aspectos ligados à
subjetividade do sujeito sejam considerados no âmbito da ciência.

80  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Você, como futuro professor, precisa estar atento às manifestações orais de seus
alunos. É necessário trabalhar a oralidade de modo crítico para que o aluno observe
suas produções orais, reflita sobre elas e ultrapasse o ensino de línguas centrado na
gramática.

Reflita

Uma atividade interessante de aplicação da AC em contexto educacional é a


simulação de análises dos textos orais produzidos, por exemplo, pelos funcioná-
rios da escola. Em uma atividade como essa, você poderá provocar uma reflexão
sobre os aspectos conversacionais utilizados por todos nós o tempo todo.
Arrisque uma análise, veja a entrevista que está disponível no sítio <http://www.
youtube.com/watch?v=FHg_X6zqfxo>. É interessante que você perceba a cons-
trução das falas. Ao realizar a transcrição, você verá que Jô Soares e Marília
Gabriela utilizam a fala com recursos de pausa, silêncio, gestos, muitas entona-
ções diferentes, sorrisos.

No próximo capítulo, apresentaremos algumas possibilidades de aplicação das


teorias estudadas neste caderno. Lembre-se de consultar os PCN que apresentam as
orientações para o ensino da língua materna.

Referências
DIONÍSIO, Â. P. Análise da conversação. In: MUSSALIM, F.; BENTES, A. C. (Org.).
Introdução à linguística: domínios e fronteiras. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2006. v. 2.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Análise da conversação. 5. ed. São Paulo: 2003.
SILVA, G. V. da; PORTES, G. A. A.; CONCEIÇÃO, L. D. da. Estratégias de manu-
tenção de turno. [s/d]. Disponível em: <http://www.usp.br/anagrama/Silva_Turno.
pdf>. Acesso em: 2 maio 2010.

Anotações

unitins • letras • 6º PERÍODO  81


CAPÍTULO 6 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

82  6º PERÍODO • letras • unitins


7
Ensino-aprendizagem: CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

análises de produções
discursivas

Introdução
O grande desafio que você encontrará a partir de agora não é compreender
a teoria. É evidente que você deverá se dedicar a esse propósito, estudando,
lendo artigos da área e a bibliografia básica sugerida, porém o desafio maior é
outro: compreender como essas teorias se ligam ao contexto educacional.
Este capítulo apresentará algumas situações de aplicação dessas teorias
no contexto educacional. Por isso é importante que você reveja o conteúdo
dos capítulos deste caderno quando surgirem dúvidas sobre as teorias
aqui apresentadas.
Esperamos que, ao final deste capítulo, você seja capaz de compreender as
ligações existentes entre a teoria e a sala de aula.

7.1 Discurso: ensino e aprendizagem


A missão da escola é levar o aluno a dominar diferentes universos semân-
ticos que são importantes para uma dada sociedade ou cultura. À escola fica
o desafio de oferecer condições para que os alunos se tornem realmente quali-
ficados para o exercício de diferentes tipos de discurso.
Por isso, em vez de técnicas de redação, exercícios estruturais, treina-
mento de habilidades de leitura e identificação de elementos formais que
constituem o texto, o professor deve privilegiar práticas escolares que levem à
formação de alunos leitores e produtores de textos, à construção de sentidos
que se renovam por meio da interação com o outro. Para tanto, é necessário
que o aluno, desde o início da escolaridade, seja exposto a uma grande
variedade de textos e discursos e levado a produzir sentidos a partir dos
textos que lê.
Há uma variedade de discursos que circulam socialmente. Cada um cons-
titui um espaço de regularidades associadas a certas condições de produção:
o discurso científico, o discurso literário, o discurso jornalístico, o discurso da
propaganda, o discurso religioso, para não citarmos outros. É de fundamental
importância o aluno leitor dominar algumas das regras que determinam o exer-
cício de sua função enunciativa.

unitins • letras • 6º PERÍODO  83


CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Segundo Cardoso (1999), as práticas discursivas em sala de aula devem


estar voltadas para a característica mais fundamental de todo discurso: a hete-
rogeneidade. Esse elemento constitui uma condição de leitura dialógica, voltada
para mais de uma “voz” do discurso. É necessário que se enfatize que o dialo-
gismo é um elemento constitutivo da própria linguagem, dado que toda prática
de linguagem tem como referência o outro, um interlocutor.
Uma das sugestões de Cardoso (1999) é realizar um trabalho com o
discurso da propaganda e marketing, pois constitui material privilegiado para
a prática escolar de ensino e aprendizagem de língua materna. A reflexão
sobre a linguagem na sala de aula de aula por meio do funcionamento desse
tipo de discurso produzido em nossa sociedade, ao qual estamos expostos no
nosso dia a dia, sobretudo, pela mídia, pode ser um elemento poderoso para
ajudar a fazer da escola um espaço mais transformador do que reprodutor, a
formar alunos leitores e produtores de textos conscientes do lugar que ocupam
na sociedade e capazes de reagir criticamente àquilo que se institui.
Cardoso (1999, p. 95-96) enfatiza que o discurso da propaganda e marke-
ting oferece a oportunidade de se trabalhar com alunos:
1. aspectos pragmáticos: a relação entre eu (locutor) e tu
(alocutário), a representação do locutor e a do alocutário
e a forma de se influenciar alguém pelo discurso (no caso,
levar o alocutário a adquirir o produto); 2. aspectos discur-
sivos: discutir o papel da propaganda na nossa sociedade,
discutir a função da propaganda na mídia como um dos mais
importantes “aparelhos ideológicos” atualidade (se não o
mais importante), discutir o lugar social do alocutário (leitor
dos textos de propaganda como consumidor de produtos etc.
3. aspectos gramaticais: o léxico empregado (o vocabulário
de determinado campo semântico – futebol – utilizado num
outro campo semântico – tecnologia), a morfologia (a forma do
imperativo dos pronomes), a sintaxe (emprego do imperativo
e dos pronomes, sua função); 4. aspectos intersemióticos: a
diferença entre signos verbais (a palavra ou o sino linguístico,
constituído de um significante e um significado, enfatizando-se
que esse significado é constituído no interior das formações
discursivas) e signos não-verbais (a cor, a fotografia); 5. cons-
trução de novos textos, em que o aluno se coloca como locutor
e oferece seu produto (grifo nosso).

Portanto, quando nos comprometemos com um processo educativo interes-


sado em tornar o aluno cada vez mais capaz de interpretar textos que circulam
socialmente, não podemos privilegiar práticas em sala de aula que visem apenas
a elementos formais que constituem o texto. O que deve ser privilegiado são os
processos de constituição de seu sentido (CARDOSO, 1999).
Nas próximas seções, analisaremos algumas atividades práticas que aplicam
a teoria estudada.

84  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Reflita

Qual é a importância do conceito de discurso, como um conjunto de enun-


ciados que remetem a uma formação discursiva, para o ensino e a apren-
dizagem de língua materna?

7.2 A paródia como recurso para apresentar o dialogismo


bakhtiniano, a intertextualidade e a polifonia
A paródia é um dos recursos de criação que evidenciam a presença da
intertextualidade e, consequentemente, do dialogismo e da polifonia.
Uma opção interessante de ser trabalhada com os alunos é a apresentação
de textos que levem sua turma a discutir as diversas características do texto
original que permanecem na paródia.
Exemplificaremos com a canção Noite feliz e uma paródia feita a partir
dela. Essa canção pertence ao imaginário popular e à tradição cultural ligada
ao Natal. Você deve se lembrar da letra, acompanhe.

Noite feliz

Noite feliz! Noite feliz! Noite de paz! Noite de amor!


Ó Senhor, Deus de amor, Nas campinas ao pastor,
pobrezinho nasceu em Belém. Lindos anjos mandados por Deus,
Eis na lapa Jesus, nosso bem. Anunciam a nova dos céus;
Dorme em paz, ó Jesus. Nasce o bom Salvador!
Dorme em paz, ó Jesus. Noite de paz! Noite de amor!
Noite de paz! Noite de amor! Oh, que belo resplendor
Tudo dorme em redor, Ilumina a o Menino Jesus!
entre os astros que espargem a luz, No presépio, do mundo eis a luz,
indicando o Menino Jesus. Sol de eterno fulgor!
Brilha a estrela da paz.

Agora, veja a paródia realizada por Luciana R. Mallon.

Noite infeliz Passei muito mal!

Noite Infeliz... Oh! tinha que ser no Natal...


Quebrei o nariz... Com todo mundo na fila do
Pronto Socorro...
Fui para o hospital...

unitins • letras • 6º PERÍODO  85


CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Estou passando mal... Então é Natal, fiz uma enorme


Quase morro, ô, ô, ô! lista de presentes...
Só o meu bolso e minha carteira que
Quero só paz, meu Jesus!
não saíram contentes.
Botei Meu Tênis Velho Na Janela
A Rena do Nariz Vermelho
do Quintal
Botei meu tênis rasgado... Fiz compras de Natal num dia
Na janela do quintal... quente...
Botei este tênis furado... Mas, esqueci de colocar protetor
Lá na noite de Natal! solar...
A minha pele ficou vermelha e
Mas depois de um tiroteio cruel... ardente...
Do outro lado da favela rival!
E o meu nariz não pára de coçar!
Apareceu um Papai – Noel...
E levou meu tênis, que mal! Eu sou a rena do nariz vermelho, que
não pára de sangrar...
Então, É Natal
Então é Natal, que tempo Eu sou a rena do nariz vermelho, o
traiçoeiro... trenó não irei puxar.
Eu já gastei todo meu décimo
terceiro!

Fonte: Disponível em: <http://www.textolivre.com.br/par %C3%B3dias/12475-


parodias-das-musicas-de-natal->. Acesso em: 1 maio 2010.

Percebemos, claramente, o diálogo entre a estrutura da música e da paródia.


Bakhtin (2006, p. 392) afirma que
Não existe nem a primeira nem a última palavra, e não existem
fronteiras para um contexto dialógico (ascende a um passado
infinito e tende para um futuro igualmente infinito). Inclusive os
sentidos passados, ou seja, gerados nos diálogos dos séculos
anteriores, nunca podem ser estáveis (concluídos de uma vez
para sempre, terminados); sempre vão mudar renovando-se no
processo posterior do diálogo.

A desconstrução e a reconstrução dos textos por meio da intertextualidade


são exemplos de materialização do dialogismo bakhtiniano. Conforme defende
esse teórico, produzimos textos que dialogam com um contexto histórico, social e
cultural. O texto é resultado, que é parte de um processo que considera palavras
anteriores e um percurso a ser seguido, ainda, para frente em um por vir infinito
de possibilidades, de vozes, por fim, palavras e textos.
Ao analisar os dois textos, reconhecemos a aproximação a partir de uma
temática: o natal. Há uma desconstrução de noite feliz/noite infeliz que sinaliza
mudança de significados. A palavra natal nos remete à noite de festa, alegria,

86  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

comemoração. Ao ler os dois textos, você percebeu que a alegria presente no


texto original dá lugar, na paródia, a uma sucessão de situações que contra-
riam a ideia inicial, há a presença de hospital, dor, fatalidade, caos, nada é
tranquilo, há, portanto, uma relação de desconstrução da atmosfera presente no
texto original.
A paródia tem a função de fazer rir, debochar ou ironizar o assunto tratado
no texto original. O tom humorístico pode ser analisado a partir da situação
exposta no texto. A palavra “feliz” com seu antônimo “infeliz”, a citação de
Jesus e o tema natalino colaboram para o diálogo entre os dois textos.
A paródia pode nos fazer refletir, pensar, ver as situações sobre outro prisma
de observação. Nesse sentido é um diálogo que favorece a nossa criticidade. É
o caso dos textos a seguir.

Atirei o pau no gato Não atirei o pau no gato


Atirei o pau no gato tô tô Não atire o pau no gato-tô
Mas o gato tô tô Por que isso-sô
Não morreu reu reu Não se fa-a-az
Dona Chica cá O gatinho-nhô
Admirou-se se É nosso amigo-gô
Do berro, do berro que Não devemos maltratar os
o gato deu: animais.
Miau! Miau!

Veja que, nessa situação, há um diálogo entre dois pontos de vista. Podemos
notar, no primeiro texto, uma voz que é negligente à dor do gatinho e acha
“normal” atirar a pedra no bichano, e outra voz que é contra a violência e
defende com carinho o bichano.
No segundo texto, percebemos que a voz que fala, ou seja, que dialoga
com a voz presente no texto original apresenta um novo olhar, um novo ponto
de vista. Nesse caso, há respeito aos animais e aos valores éticos e defesa da
não violência.

Saiba mais

Leia sobre os contos politicamente corretos. Veja como as estruturas da


narrativa foram mantidas, muitas vezes há a conservação dos mesmos per-
sonagens, do mesmo cenário, mesma situação problema ou conflito.
Em outros momentos há um ou mais personagens que entram para mudar a
narrativa. Na maioria deles, há uma nova forma de ser a situação original.
Há uma ideologia a ser defendida como no conto da gata borralheira.
Essa nova versão defende, agora, um posicionamento menos passivo da

unitins • letras • 6º PERÍODO  87


CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

personagem, no qual o casamento não é a única alternativa para a felici-


dade. Nessa nova abordagem, a protagonista é “dona” de se destino. É
uma atualização para um texto clássico numa perspectiva mais feminista e
mais atual.
Leia mais sobre esses textos no livro Contos de fada politicamente corretos,
do autor James Finn Garner, publicado pela Ediouro.

O dialogo, a intertextualidade e a polifonia ocorrem em outras formas de


representação do pensamento humano, com base em outras linguagens, como a
música, os gestos ou a pintura, que é o caso do exemplo que segue.

Figura 1 Reprodução do quadro Figura 2 E releitura do quadro


Monalisa de Leonardo da Monalisa de Leonardo da
Vinci. Vinci. Gravura de Maurício
de Souza.

Fonte: Disponível em: <http://api.ning.


com/files/ijUpatUTWDTV*Nl0cA Fonte: Disponível em: <http://fotos.
gzTujXFKrxBnCY JvKOkvuHJew_/ imagensporfavor.com/img/pics/
monalisa.jpg>. Acesso em: 1 maio glitters/m/m%F4nica_-3474.jpg>.
2010. Acesso em: 1 maio 2010.

Perceba o diálogo entre as duas obras. A criação de Maurício de Souza


tem como fonte de inspiração a tela de Leonardo da Vinci. Observe a posição
das personagens, o cenário de fundo, a direção do olhar das duas, o sorriso
enigmático. Porém percebemos a tonalidade das cores muito mais vivas na tela
de Maurício de Sousa, a conservação do traço característico de Maurício, bem
como a permanência dos dentões da Mônica.

88  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

A nova criação apresenta um tom bem humorado, mais leve, menos tenso
e poderá ser utilizada em sala de aula, inclusive estimulando a criação dos
alunos que poderão apresentar desenhos, poemas e textos críticos a partir das
duas obras.
Com base nessas observações, você poderá trabalhar em sala de aula vários
tipos de texto buscando enfatizar o diálogo entre eles, além da polifonia e da
intertextualidade existente.
Os PCN (1998, p. 83) selecionam como atividades que precisam ser reali-
zadas no ensino médio:
1. elaboração de textos procurando incorporar na redação
traços da linguagem de grupos específicos;
2. estudo de textos em função da área de conhecimento, identifi-
cando jargões próprios da atividade em análise;
3. comparação de textos sobre o mesmo tema veiculados em
diferentes publicações (por exemplo, uma matéria sobre meio
ambiente para uma revista de divulgação científica e outra
para o suplemento infantil);
4. comparação entre textos sobre o mesmo tema, produzidos em
épocas diferentes;
5. comparação de duas traduções de um mesmo texto original,
analisando as escolhas estilísticas feitas pelos tradutores;
6. comparação entre um texto original e uma versão adap-
tada do mesmo texto, analisando as mudanças produzidas;
7. comparação de textos de um mesmo autor, produzido em
condições diferentes (um artigo para uma revista acadêmica e
outro para uma revista de vulgarização científica);
8. análise de fatos de variação presentes nos textos dos alunos;
9. análise e discussão de textos de publicidade ou de imprensa
que veiculem qualquer tipo de preconceito linguístico;
10. análise comparativa entre registro da fala ou de escrita e
os preceitos normativos estabelecidos pela gramática tradi-
cional. (PCN, 1998, p. 83)

Com base nesses dois exemplos de abordagens que trouxemos, você poderá
verificar que várias atividades previstas nos PCN podem e devem ser realizadas,
entre elas os itens 4 e 6.
Em sua prática, lembre, sempre, que a teoria nasce da prática. Foi obser-
vando os fenômenos de linguagem e da comunicação que as teorias de dialo-
gismo, polifonia e intertextualidade surgiram. É na prática comunicativa de seus
alunos que você terá subsídios para a aplicação dessas teorias de modo a atender
ao que é previsto para cada série do ensino fundamental e ensino médio.
Na próxima seção, veremos como podemos trabalhar a oralidade.

unitins • letras • 6º PERÍODO  89


CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

7.3 Análise da conversação


A análise da conversação é um campo novo de estudo e pesquisa. As
técnicas de análise da conversação têm sido tomadas como base para atender
às mais diferentes finalidades, como entrevistas orais, registros orais formais e
informais etc.
Os PCN (1998, p. 25) defendem que é papel do professor favorecer
Uma rica interação dialogal na sala de aula, dos alunos
entre si e entre o professor e os alunos, é uma excelente estra-
tégia de construção do conhecimento, pois permite a troca
de informações, o confronto de opiniões, a negociação dos
sentidos, a avaliação dos processos pedagógicos em que
estão envolvidos.

Você poderá realizar gravação, transcrição e análise em sala de aula,


por exemplo, de discursos de políticos. Uma entrevista concedida a um jornal
poderá fornecer muito material para análise. Você pode dividir a sala para
que alguns façam a transcrição e apresentem ao grupo e um grupo menor
proponha uma análise crítica da fala dos candidatos. Os alunos poderiam,
assim, compreender os recursos de pausa, silêncio, ironia, entonação em situa-
ção real.
Os PCN (1998, p. 86) determinam que é importante que o aluno
• amplie, progressivamente, o conjunto de conhecimentos discur-
sivos, semânticos e gramaticais envolvidos na construção dos
sentidos do texto;
• reconheça a contribuição complementar dos elementos não-
verbais (gestos, expressões faciais, postura corporal);
• utilize a linguagem escrita, quando for necessário, como
apoio para registro, documentação e análise;
• amplie a capacidade de reconhecer as intenções do enun-
ciador, sendo capaz de aderir a ou recusar as posições ideo-
lógicas sustentadas em seu discurso.

Agindo assim, há fortes possibilidades de você ultrapassar o ensino conteu-


dista da língua portuguesa, ou seja, um ensino afastado da vida cotidiana. Você
poderá passar a ser um professor que capacitará seus alunos no uso eficiente da
língua em todas as suas possibilidades, formando o aluno para a cidadania.
A partir das análises aqui apresentadas, você compreendeu que a linguagem,
como discurso, materializa o contato entre o linguístico (a língua como sistema
de regras e categorias) e o não linguístico (um lugar de investimentos sociais,
históricos, ideológicos) por meio de sujeitos interagindo em situações concretas.
Percebeu que o sentido do texto não se dá apenas pelos elementos linguís-
ticos, mas também pela interação entre os interlocutores e pela relação do texto
com outros textos.

90  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

Referências
CARDOSO, S. H. B. Discurso e ensino. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2006.
BRASIL. Secretaria de Educação Básica. Parâmetros Curriculares Nacionais:
Ensino Médio. Disponível em: <http://www.cienciamao.if.usp.br/dados/pcn/_
linguaportuguesaparametroscurricularesnacionais-ensinofundamental.arquivo.
pdf>. Acesso em: 3 maio 2010.

Anotações

unitins • letras • 6º PERÍODO  91


CAPÍTULO 7 • língua portuguesa vi: discurso e ensino

92  6º PERÍODO • letras • unitins


Créditos

EQUIPE UNITINS
Organização de Conteúdos Acadêmicos Carlos Henrique Lopes de Almeida
Revisão Linguístico-Textual Neusa Teresinha Bohnen
Revisão Didático-Editorial Neusa Teresinha Bohnen
Gerente de Divisão de Material Impresso Katia Gomes da Silva
Revisão Digital Rogério Adriano Ferreira da Silva
Katia Gomes da Silva
Projeto Gráfico
Rogério Adriano Ferreira da Silva
Capas Rogério Adriano Ferreira da Silva

produção editora EADCON


Caro alumno,
Tenemos el placer de presentarte el cuaderno de estudios de la asignatura
Lengua Española VI. De forma general entablaremos discusiones con el
objetivo de profundizar aspectos semánticos, pragmáticos y lingüísticos. Para
poder alcanzar estas metas todo el contenido programático fue dividido en
siete capítulos.

Presentación
En el primer capítulo presentaremos algunos de los usos verbales,
dando énfasis al desempeñado en las oraciones y la construcción de sus
significados, a la vez comentaremos las estructuras de las oraciones, ya en el
segundo capítulo abordaremos las diversas clasificaciones de las oraciones
coordinadas y yuxtapuestas. En el tercer capítulo veremos las conjunciones
subordinadas y las oraciones subordinadas sustantivas y sus categorías. Luego
en el cuarto capítulo abordaremos las oraciones adjetivas y adverbiales. Ya
en el quinto capítulo aprenderemos sobre el uso y los valores del verbo
quedar (se). Posteriormente, en el sexto capítulo, trabajaremos sentido de
involuntariedad de se. Y en el capítulo séptimo retomaremos temas discutidos
en los capítulos anteriores.
De esta forma pretendemos que este Cuaderno de Estudios sea un lugar de
explicaciones que complementen las teleclases y las respectivas investigaciones
bibliográficas necesarias en la dialéctica del proceso de enseñanza y
aprendizaje. No te olvides que la búsqueda incesante del conocimiento debe
formar parte de tu realidad.
¡Buenos estudios!
Prof. Carlos Henrique Lopes de Almeida
1
CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

La intencionalidad textual

Uno no es lo que es por lo que escribe, sino por lo que


ha leído.
Jorge Luis Borges

Introducción
Para iniciar esta nueva etapa de nuestros estudios, te invito a que reflexiones
sobre las diversas posibilidades de comunicación que el lenguaje propicia en
nuestro cotidiano. Para tanto, debes tener en cuenta que todo discurso está
cargado con una idea que puede aparecer de forma más evidente o menos
explícita, sin embargo siempre estará presente en todo acto de comunicación,
sea escrito o hablado. Más adelante comprenderás las razones que nos motivan
a empezar este capítulo entablando este argumento.
Para comprender mejor y colaborar con la comprensión de los temas que
pretendemos poner en marcha, no debes olvidarte que el origen de nuestra
lengua portuguesa es el mismo de la lengua española, consecuentemente varios
conceptos son muy parecidos, o incluso iguales. Además que, en este momento
del curso, ya tienes conocimientos adquiridos en los semestres anteriores, lo que
facilitará tu empresa investigativa. Para auxiliar tu aprendizaje es importante que
investigues y accedas a sitios electrónicos que puedan auxiliarte, allí encontrarás
ejemplos y conceptos teóricos que podrán ayudarte. Al terminar esta clase
esperamos que seas capaz de conocer algunos aspectos importantes sobre el
contexto histórico de América y reconocer el sentido de los verbos de actitud, así
como los componentes de las oraciones y algunas de sus clasificaciones según
su organización.
Empezaremos nuestro estudio con la lectura de un fragmento de una de las
cartas de Cristóbal Colón en la que el navegador presenta algunas impresiones
y describe las particularidades de la tierra a la cual ha llegado. Desde una
perspectiva más amplia debemos observar el texto como una suma de aspectos
subjetivos que reflejan por medio de la suma de los recursos lingüísticos respon-
sables por la organización del fragmento de la carta de Colón.
El primer aspecto que debemos tener en cuenta cuando leemos un texto es
que el lenguaje es el medio utilizado para comunicarse entre las personas. No
obstante, conocer el vocabulario y la gramática que componen una lengua no

unitins • letras • 6º PERÍODO  97


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

garantiza el éxito en la comunicación, es decir, múltiples factores influyen en la


organización del discurso, entre los cuales podemos mencionar la sintonía con el
contexto, aspectos culturales y entonación. Comprender un enunciado requiere
analizar las estructuras sintácticas, teniendo en cuenta la modalidad empleada
y la forma como lo ha presentado. Pensando en un texto escrito, esas huellas
están presentes en los signos utilizados para reflejar una pausa, la intensidad
de una pronunciación, entre otros. A la vez observar los signos morfemáticos
empleados: morfemas verbales y nominales, además de otras unidades que
integran la tesitura textual como adjetivos, preposiciones, adverbios (CEPEDA,
2002, p. 7-8).
Este acercamiento al texto nos revela la postura del emisor del discurso y,
consecuentemente, una comprensión más amplia de los propósitos presentes en
un discurso escrito u oral, sin embargo en esta circunstancia nos detendremos
en el escrito.

Para saber más

Accede al sitio electrónico para comprender mejor los conceptos sobre


pragmática, es una buena oportunidad para observar las diversas
posibilidades que pueden orientar la interpretación y la comprensión de
un texto. El texto presenta entrevistas con 12 jóvenes chilenos de diversos
grupos socioeconómicos y de diferentes edades, obteniendo entre sus
resultados la frecuencia de algunos recursos lingüísticos como, géneros
discursivos, modalidades declarativas, modos verbales, los intensificadores,
un estudio en el cual se constató las combinaciones surgidas a partir de
la interacción conversacional y las estructuras morfosintácticas empleadas
en su acto comunicativo: <http://www.scielo.cl/scielo.php?pid=S0071-
17132002003700001&script=sci_arttext>.

El texto que escogimos ha sido una carta producida en el tiempo de las


navegaciones, entre las razones que justifican esta escoja, podemos señalar las
características textuales favorables ante nuestra exposición teórica. Este género
textual es una muestra en la cual podemos encontrar marcas lingüísticas que
reflejan sus intenciones.
Vamos a contextualizar este género textual para que podamos comprender
mejor el uso. Según Pizzaro (1993), la reflexión sobre los discursos producidos
en la situación histórica colonial debe considerar un espacio con problemas
específicos, que poseen ritmo y tiempos propios, exigiendo del lector un
tratamiento adecuado. Por ello me parece que debes investigar que representaron
las crónicas, cartas y diarios de navegación.

98  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

Para saber más

Vamos a detenernos un rato en esta dirección <http://letras-uruguay.


espaciolatino.com/aaa/sarco/cronistas_indianos.htm> , cuyo autor presenta
informaciones que pueden colaborar para desvelar la participación de esta
clase de literatura en nuestra formación, rápida explicación sobre el tema,
además de características que estuvieron muy presentes en la gran mayoría de
los textos que pertenecen a esta modalidad. Les aseguro que elucidará nuestro
paseo y a la vez saltaran algunas claves que nos ayudaran en este viaje.

Carta de Colón a los reyes católicos – “La tierra de Gracia”


Partí en nombre de la Santísima Trinidad el miércoles 30 de mayo de
1498 de Sanlúcar de Barrameda y navegué a las Islas Madera por camino
no acostumbrado, por evitar los perjuicios que me hubiera causado una
armada francesa que me aguardaba cerca del cabo de San Vicente, y de
allí a las Islas Canarias. De aquí partí con una nave y dos carabelas; envié
los otros navíos directamente a la Isla Española, y yo navegué rumbo al Sur
con propósito de llegar a la línea equinoccial, y de allí seguir al Poniente
hasta que la Española quedase al Norte. Llegando a las islas de Cabo Verde
(falso nombre, porque son tan secas que no vi en ellas cosa verde alguna)
con toda la gente enferma, no osé detenerme en ellas y navegué al Sudoeste
480 millas, donde anocheciendo tenía la Estrella Polar en cinco grados. Allí
me desamparó el viento y entré en una zona de calor y tan grande, que
creí que se me quemarían los navíos y la gente. El desorden fue tal que no
había persona que osase descender bajo cubierta a reparar las vasijas y
víveres. Duró este calor ocho días, el primero de los cuales fue soleado y los
siete siguientes de lluvia y nublados, que si hubiesen sido soleados como el
primero creo que no hubiéramos podido escapar de manera alguna.
Plugo a Nuestra Señora, al cabo de esos ocho días, darme buen viento
de Levante y yo seguí al Poniente, mas no osé declinar hacia el Sur porque
hallé grandísimo cambio en el cielo y las estrellas. Decidí, pues, mantener
rumbo Oeste y navegar a la altura de Sierra Leona hasta donde había
pensado encontrar tierra para reparar los navíos, remediar la escasez de
víveres y tomar agua, que ya no tenía. Al cabo de diecisiete días en que
Nuestro Señor me dio viento favorable, el martes 31 de julio, al mediodía,
avistamos tierra. Yo la esperaba desde el lunes anterior y había mantenido
el rumbo invariable hasta entonces, mas el martes, al salir el sol, careciendo
ya de agua, decidí dirigirme a las islas de los caribes y tomé esa dirección.
Como su Alta Majestad siempre ha usado de misericordia conmigo, por
suerte subió un marinero a la gavia y vio al Poniente tres montañas juntas.
Dijimos la Salve Regina y otras oraciones, y dimos todos muchas gracias a
Nuestro Señor; después dejé el camino al Norte y me dirigí a tierra;

unitins • letras • 6º PERÍODO  99


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

llegué con el crepúsculo al cabo que llamé de la Galea [hoy cabo Galeote]
después de haber bautizado a la isla con el nombre de Trinidad. Allí
hubiera encontrado puerto de haber sido más hondo; había casas, gente
y muy lindas tierras, tan hermosas y verdes como las huertas de Valencia
en marzo. Pesóme cuando no pude entrar a puerto, y recorrí la costa hasta
el extremo Oeste; navegadas cinco leguas hallé fondo y anclé las naves.
Al día siguiente me di a la vela buscando puerto para reparar los navíos
y tomar agua y víveres. Tomé una pipa de agua y con ella anduve hasta
llegar al cabo; allí hallé abrigo del viento de Levante y buen fondo, donde
mandé a echar el ancla, reparar los toneles y tomar agua y leña, y envié
gente a tierra a descansar de tanto tiempo que andaban penando.
A esta punta la llamé del Arenal [hoy punta de Icacos] y allí se halló la
tierra hollada de unos animales que tenían las patas como de cabra que,
según parece, había en abundancia, aunque no se vio sino uno muerto.
Al día siguiente vino del Oriente una gran canoa con 24 hombres, todos
mancebos, muy ataviados y armados de arcos, flechas y escudos, de buena
figura y no negros, sino más blancos que los otros que he visto en las Indias,
de lindos gestos y hermosos cuerpos, con los cabellos cortados al uso de
Castilla. Traían la cabeza atada con un pañuelo de algodón tejido a labores
y colores tan finos, que yo creí eran de gasa. Traían otro de estos pañuelos
ceñido a la cintura y se cubrían con él en lugar de taparrabo. Cuando llegó
la canoa sus ocupantes hablaron de lejos, y ni yo ni otro alguno les enten-
dimos, mas yo les mandaba a hacer señas de acercarse. En esto se pasaron
más de dos horas; si se aproximaban un poco, luego se alejaban.

Tras la lectura del fragmento de la carta, retomamos algunas de las


orientaciones teóricas que presentamos en el inicio del capítulo y podemos
reflexionar sobre algunas características lingüísticas presentes en el texto que
revelan rasgos e intenciones del emisor. La primera que podemos mencionar es
la formalidad, a todo momento encontramos adjetivos que destacan el respeto
y la relación de autoridad que se estable entre el emisor y el receptor. Como
ejemplo podemos aludir a Alta Majestad. Otro aspecto que podemos mencionar
es la relación respetosa con la religiosidad, a atribuir a la Santísima Trinidad un
papel fundamental para la realización de su empresa y en algunos momentos
justificar determinados hechos a las cuestiones divinas. De hecho, con pistas
como esas podemos interpretar algunos de los mensajes a partir de la suma de
todos los elementos particulares que participan de ese contexto.

Reflexiona

La atribución de las actitudes de creencia, ignorancia, conocimientos,


expectativas, preferencias, pedidos, proposiciones, expresiones de

100  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

gusto y disgusto etc, son iniciativas que generalmente asumimos ante


las proposiciones, es decir, encontramos derivaciones semánticas en el
interior de los textos, a ejemplo de los comentarios que hicimos con el
uso de algunas unidades como adjetivos y pronombres.
Como ejercicio, señala otras marcas textuales en la carta de Colón que
puedan generar esas derivaciones semánticas y busca ejemplos de nuestro
cotidiano que puedan ser comparados a los ejemplos que has retirado de
la carta.
Seguramente habrás encontrado diversos ejemplos en el texto, imagino
que entre las respuestas puedas haber destacado: “había casas, gente y
muy lindas tierras, tan hermosas y verdes como las huertas de Valencia en
marzo”. Para el autor, Colón, el referencial adecuado es Valencia, a que
compara el paisaje descripto.
Entre los ejemplos presentes en la actualidad que más se acercan a nuestra
idea están las publicidades, pues el lenguaje empleado genera una gran
cantidad de derivaciones semánticas. Los signos lingüísticos generan
mensajes que para completarse necesitan sintonía con los receptores y
pueden ser interpretadas por medio de diversas formas.

1.1 Verbos de actitud


Al tratar de delimitar el contenido gramatical que proponemos en este
capítulo, creímos que lo más coherente sería iniciar nuestra exposición con
la discusión de las construcciones en el plano lingüístico y los productos en el
plano semántico, es decir, mediante algunas estructuras como verbos, dentro
de tiempos y modos que generan una carga semántica. La clasificación de los
verbos de actitud puede variar según el teórico que oriente los estudios, otros
nombres que podemos señalar son: verbos de actitud, ítems lexicales modales,
modales epistémicos explícitos etc.
Dentro de una concepción sistémico-funcional Halliday los define como
metáfora interpersonal, pues en la modalidad explícita el hablante emite su
opinión codificada por medio del verbo, como podemos observar en el ejemplo
a seguir.
Creo que esta sopa no se cocinará nunca.

Verbo Cláusula subordinada

La proposición del verbo creer, en verdad no es creo, con la idea de


incertidumbre, sino la de así es, seguro de su opinión.
A seguir, te presentamos algunas combinaciones de verbos de actitud, cuyas
oraciones tienen el mismo sujeto en los dos verbos:

unitins • letras • 6º PERÍODO  101


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

Verbo en presente o pretérito + infinitivo.


Mira algunos ejemplos.
Espero llegar a tiempo a la fiesta.

(yo espero) (yo llego)

No quisiste saber mi opinión sobre la situación.

(tú no quisiste) (tú no supiste)

Verbo en presente o pretérito + infinitivo perfecto (hecho que se presenta


como terminado en algún momento de referencia).
No esperaba haber reunido tantos donativos a fin de mes.

(yo no esperaba) (yo reuní)

Queremos haber dejado mañana este país.

(nosotros queremos) (nosotros dejamos)

A seguir, te presentamos algunas combinaciones de verbos de actitud, cuyas


oraciones tienen sujetos diferentes en los dos verbos:
Ejemplos
Verbo en presente + que + presente de subjuntivo.
Mira algunos ejemplos:
Espero que llegues a tiempo a la fiesta.

(yo espero) (tú llegas)

Prefieren que esperes en el garaje.

(ellos prefieren) (tú esperas)

Verbo en presente + que + pretérito perfecto de subjuntivo (acontecimiento


que se presenta como concluido en algún momento futuro de referencia).
Esperan que la semana que viene hayas cumplido con tu propuesta.

(ellos esperan) (tú cumplirás)

102  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

No quiero que ese día ya hayan usado todo la tinta.

(yo no quiero) (ustedes usarán)

Verbo en pretérito + que + pretérito imperfecto de subjuntivo.


No esperaba que me trajeses/trajeras chocolates.

(yo no esperaba) (tú trajiste)


Quisieron que firmásemos/firmáramos el documento sin leerlo.

(ellos quisieron) (nosotros firmamos)

Reflexiona

Considerando las estructuras anteriormente presentadas, transforma las


frases cambiando el sujeto de cada verbo señalado por los que están entre
paréntesis.
Ejemplo: No creo que llegues a tiempo. (él – ellos)
No cree que lleguen a tiempo.
a) Espero poder participar de todos los partidos de la copa. (él – nosotros)
______________________________________________________________
b) Prefiero vivir en la capital porque hay más oportunidades. (ellos – tú)
______________________________________________________________
c) ¿Por qué preferiste quedarte en la playa durante el verano? (usted – tú)
______________________________________________________________
d) ¡Quería ir a fiestas todas las noches! (tú – yo)
______________________________________________________________
e) Prefería comprar carros nacionales para pagar menos. ( él – nosotros)
______________________________________________________________
Tras comparar y analizar el uso de las estructuras verbales presentes en la
unidad, seguramente habrás llegado a las siguientes respuestas:
a) Espera que podamos participar de todos los partidos de la copa.
b) Prefieren que vivas en la capital porque hay más oportunidades.
c) ¿Por qué prefiere que te quedes en la playa durante el verano?
d) Querías que fuera a fiestas todas las noches.
e) Prefiere que compremos carros nacionales para pagar menos.

Tras los ejercicios continuamos con más estructuras de verbos de actitud,


ahora con estructuras de oración principal y oración subordinada. Entre las

unitins • letras • 6º PERÍODO  103


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

particularidades que podemos señalar están el uso de “que” en algunas


oraciones y su ausencia en otras, como observamos en los ejemplos:
a) Les gusta que los llamen antes del desayuno.
b) Le importa que lo tuteen.
c) Les molesta que los traten mal.

a) A mí no me gusta hablar de cosas tristes.


b) A nosotros no nos importa cantar música repetida por otros.
c) A ustedes no les molesta bailar en el salón.
Otras características que podemos enfatizar en las estructuras son:
el sujeto de la oración principal y de la subordinada coincide, la persona del
objeto indirecto (OI) se expresa sobre su propia acción.
Presente condicional o pretérito + infinitivo.
Mira algunos ejemplos.
No me gusta llegar tarde a las fiestas.

(a mí) (yo llegar)


No les importaría trabajar por las mañanas.

(a ellos) (ellos trabajarían)


Me molestaba ser el único del equipo.

(a mí) (yo era el único)

El sujeto de la oración principal no coincide con el de la subordinada, la


persona del OI se expresa sobre la acción de otra persona.
Presente + que + presente de subjuntivo
Mira algunos ejemplos.
No me gusta que hables en inglés.

(a mí) (tú hablas)


No nos importa que salgan más temprano.

(a nosotros) (ellos salen)

104  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

Pretérito o condicional + que + imperfecto de subjuntivo.


Me molestó que me dijera toda la verdad así.

(a mí) (él me dijo)


Os gustaría que yo fuese vuestro vecino.

(a vosotros) (yo sería)


No le importaba que lo invitasen.

(a él) (ellos lo invitasen)

Atención al uso de los verbos importar y molestar, también son empleados con
la misma persona en las dos oraciones, para pedir un favor o solicitar una acción.
Ejemplos
¿Te importa abrir el auto?
¿Le molesta quedarse allí?

A la vez pueden ser utilizados con personas diferentes en las dos oraciones,
para solicitar acuerdo o pedir permiso.
Ejemplos
¿Le importa que prenda la luz?
¿Te molesta que hablemos en la pieza?

Reflexiona

Considerando el uso de los verbos importar y molestar analiza las frases a


seguir y escribe si corresponde a un favor o se pide permiso.
a) ¿Te importa que deje el auto aquí? Está tarde.
_____________________________ _______________________________
b) ¿Le importa esperar en el comedor? Pedro ya viene.
______________________________ ______________________________
c) ¿Le molestaría acercarse un poco a la cama?
______________________________ ______________________________
d) ¿Te importaría ir a la casa de Pablo?
______________________________ ______________________________
e) ¿Te molesta que mi amiga se quede a dormir, papá?
______________________________ ______________________________
Seguramente tras analizar las frases habrás llegado a las respuestas:

unitins • letras • 6º PERÍODO  105


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

a) pedir permiso;
b) favor;
c) favor;
d) favor;
e) pedir permiso.

Rincón Cultural
El Papiamento es derivado del español y del portugués, este dialecto es
hablado también en Aruba y Bonaire. Pero el idioma holandés es la lengua
oficial en Islas ABC, que junto con las islas Saba, San Eustaquio y San Martín
integran las Antillas Neerlandesas (antes Indias Occidentales Holandesas).
Su origen, posiblemente, ocurrió en la segunda mitad del siglo XVII, en
Curazao, de donde fue llevado a Bonaire, alrededor de 1700, y a Aruba,
hacia finales del siglo XVIII. Los sacerdotes católicos de Curazao lo utili-
zaban desde hacía muchos anos en el contexto religioso y con la población
negra.
Disponible en: <http://www.csub.edu/~tfernandez_ulloa/HLE/papiamento.
doc>.

Tuvimos la oportunidad de reflexionar sobre la intencionalidad presente


en el texto, es decir, no podemos desconsiderar en ninguna circunstancia, la
modalidad implícita y la modalidad explicita, lo que posibilita las derivaciones
semánticas y un amplio campo para reflexiones.
Primeramente, leímos el fragmento de una de las cartas de navegación de
Cristóbal Colón, utilizamos el plano lingüístico para entablar una exposición
sobre el plano semántico y sus derivaciones, a la vez mencionamos la importancia
de una sintonía entre el emisor y el receptor, y la importancia de tener en cuenta
diversas particularidades del texto a la hora de interpretarlo.
Sobre el contenido gramatical, estudiamos los verbos de actitud,
relacionándolos a las estructuras de algunas oraciones, aspectos pragmáticos por
medio de estructuras que expresan el pedido de favor y pedido de permiso.
Vamos a continuar con los estudios de las estructuras lingüísticas, nos
detendremos con las relaciones entre oraciones, será un buen momento para
repasar el uso de las conjunciones, además de revisar otras unidades del
plano lingüístico.

106  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

¿Cómo se pronuncia?
Los fonemas consonánticos de Venezuela son 17, 06 oclusivos /p b/,
/t d/, /k g/, cuatro fricativos /s, f, ︣j, h/, uno africado / c/, tres nasales
/m, n , Ɲ/ una lateral /ʎ/ y dos vibrantes /r, r︣/. Se trata de un dialecto
caracterizado por el seseo (ausencia de /ɵ/ y por el yeísmo (ausencia de
/ʎ/). El fonema fricativo glotal sordo /h/ sustituye al fonema velar /x/,
igualmente fricativo y sordo (SEDANO; BENTIVOGLIO, 1996, p. 120).

Referencias
Alvar, M. Manual de dialectología: el español de América. Barcelona: Editorial
Ariel, 1996.
CEPEDA, G. Entonación, actitud modal y modalidad. Estud. filol., Valdivia, n. 37,
2002 . Disponible en: <http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=
S0071-17132002003700001&lng=es&nrm=iso>. accedido en 18 enero
2010. doi: 10.4067/S0071-17132002003700001.
COLÓN, C. Carta de Colón a los reyes católicos “La tierra de Gracia”. Disponible
en: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bk000388.pdf>.
Accedido el 19 ene. 2010.
El papiamento. Disponible en: <http://www.csub.edu/~tfernandez_ulloa/HLE/
papiamento.doc>. Accedido el 19 ene. 2010.
FANJUL, A. Gramática de español: paso a paso. São Paulo, 2005.
HALLIDAY, M. A. K. An introduction to functional grammar. London: Arnold,
1990.
PIZARRO, A. M. América Latina: palavra, literatura e cultura. São Paulo:
Memorial; Campinas: UNICAMP, 1993.

Anotaciones

unitins • letras • 6º PERÍODO  107


CAPÍTULO 1 • Língua espanhola vi

108  6º PERÍODO • letras • unitins


2
CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

Las oraciones

Las cosas son percibidas, los conceptos son pensados,


los valores son sentidos.
Max Scheler

Introducción
En el capítulo anterior presentamos el uso de algunas estructuras verbales
y comentamos algunos aspectos que pueden influir y generar las derivaciones
semánticas, a la vez asociamos y señalamos la importancia de la pragmática.
Continuamos nuestra interacción en el segundo capítulo enfocando el uso de
algunas expresiones de creencia y duda, posteriormente seguiremos la exposición
de las oraciones compuestas, deteniéndonos en sus clasificaciones y usos.
Conviene que busques en los cuadernos de contenidos anteriores
informaciones sobre el uso de las conjunciones, pues se trata de un aspecto
clave para la comprensión de las oraciones compuestas. Estudia, también,
el capítulo 1del cuaderno de contenidos de lengua española V, en el cual
aparecen algunos conceptos sobre la formación de oraciones que serán
importantes para la comprensión del tema que desdoblaremos.
Al concluir esta clase, esperamos que seas capaz de reflexionar sobre el uso
de las expresiones de creencia y duda, la formación de las oraciones compuestas,
además de algunas de sus clasificaciones.

Aniuta
Por la peor habitación del detestable Hotel Lisboa paseábase infatigablemente
el estudiante de tercer año de Medicina Stepan Klochkov. Al par que
paseaba, estudiaba en voz alta. Como llevaba largas horas entregado al
doble ejercicio, tenía la garganta seca y la frente cubierta de sudor.
Junto a la ventana, cuyos cristales empañaba la nieve congelada, estaba
sentada en una silla, cosiendo una camisa de hombre, Aniuta, morenilla de
unos veinticinco años, muy delgada, muy pálida, de dulces ojos grises.
En el reloj del corredor sonaron, catarrosas, las dos de la tarde; pero la
habitación no estaba aún arreglada. La cama hallábase deshecha, y se
veían, esparcidos por el aposento, libros y ropas. En un rincón había un
lavabo nada limpio, lleno de agua enjabonada.

unitins • letras • 6º PERÍODO  109


CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

– El pulmón se divide en tres partes -recitaba Klochkov-. La parte superior


llega hasta cuarta o quinta costilla...
Para formarse idea de lo que acababa de decir, se palpó el pecho.
– Las costillas están dispuestas paralelamente unas a otras, como las teclas
de un piano – continuó – Para no errar en los cálculos, conviene orientarse
sobre un esqueleto o sobre un ser humano vivo... Ven, Aniuta, voy a
orientarme un poco...
Aniuta interrumpió la costura, se quitó el corpiño y se acercó. Klochkov
se sentó ante ella, frunció las cejas y empezó a palpar las costillas de la
muchacha.
– La primera costilla – observó – es difícil de tocar. Está detrás de la clavícula...
Esta es la segunda, esta es la tercera, esta es la cuarta... Es raro; estás delgada,
y, sin embargo, no es fácil orientarse sobre tu tórax... ¿Qué te pasa?
– ¡Tiene usted los dedos tan fríos!...
– ¡Bah! No te morirás... Bueno; esta es la tercera, esta es la cuarta... No,
así las confundiré... Voy a dibujarlas...
Cogió un pedazo de carboncillo y trazó en el pecho de Aniuta unas cuantas
líneas paralelas, correspondientes cada una a una costilla.
– ¡Muy bien! Ahora veo claro. Voy a auscultarte un poco. Levántate.
La muchacha se levantó y Klochkov empezó a golpearle con el dedo en
las costillas. Estaba tan absorto en la operación, que no advertía que los
labios, la nariz y las manos de Aniuta se habían puesto azules de frío. Ella,
sin embargo, no se movía, temiendo entorpecer el trabajo del estudiante.
“Si no me estoy quieta – pensaba – no saldrá bien de los exámenes.”
– ¡Si, ahora todo está claro! – dijo por fin él, cesando de golpear –. Siéntate
y no borres los dibujos hasta que yo acabe de aprenderme este maldito
capítulo del pulmón. Y comenzó de nuevo a pasearse, estudiando en voz
alta. Aniuta, con las rayas negras en el tórax, parecía tatuada. La pobre
temblaba de frío y pensaba. Solía hablar muy poco, casi siempre estaba
silenciosa, y pensaba, pensaba sin cesar.
Klochkov era el sexto de los jóvenes con quienes había vivido en los últimos
seis o siete años. Todos sus amigos anteriores habían ya acabado sus
estudios universitarios, habían ya concluido su carrera, y, naturalmente, la
habían olvidado hacía tiempo. Uno de ellos vivía en París, otros dos eran
médicos, el cuarto era pintor de fama, el quinto había llegado a catedrático.
Klochkov no tardaría en terminar también sus estudios. Le esperaba, sin
duda, un bonito porvenir, acaso la celebridad; pero a la sazón se hallaba
en la miseria. No tenían ni azúcar, ni té, ni tabaco. Aniuta apresuraba
cuanto podía su labor para llevarla al almacén, cobrar los veinticinco
copecs y comprar tabaco, té y azúcar.
– ¿Se puede? – preguntaron detrás de la puerta.
Aniuta se echó a toda prisa un chal sobre los hombros.
Entró el pintor Fetisov.
– Vengo a pedirle a usted un favor – le dijo a Klochkov –. ¿Tendría usted la
bondad de prestarme, por un par de horas, a su gentil amiga? Estoy pintan-
do un cuadro y necesito una modelo.
– ¡Con mucho gusto! – contestó Klochkov –. ¡Anda, Aniuta!
– ¿Cree usted que es un placer para mí? – murmuró ella.

110  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

– ¡Pero mujer! – exclamó Klochkov –. Es por el arte... Bien puedes hacer ese
pequeño sacrificio.
Aniuta comenzó a vestirse.
– ¿Qué cuadro es ése? – preguntó el estudiante.
– Psiquis. Un hermoso asunto; pero tropiezo con dificultades. Tengo que cambiar
todos los días de modelo. Ayer se me presentó una con las piernas azules.
“¿Por qué tiene usted las piernas azules?”, le pregunté. Y me contestó:
“Llevo unas medias que se destiñen...”
Usted siempre a vueltas con la Medicina, ¿eh? ¡Qué paciencia! Yo no
podría...
– La Medicina exige un trabajo serio.
– Es verdad... Perdóneme, Klochkov; pero vive usted... como un cerdo.
¡Que sucio está esto!
– ¿Qué quiere usted que yo le haga? No puedo remediarlo. Mi padre no
me manda más que doce rublos al mes, y con ese dinero no se puede vivir
muy decorosamente.
– Tiene usted razón; pero... podría usted vivir con un poco de limpieza. Un
hombre de cierta cultura no debe descuidar la estética, y usted... La cama
deshecha, los platos sucios...
– ¡Es verdad! – balbuceó confuso Klochkov –. Aniuta está hoy tan ocupada
que no ha tenido tiempo de arreglar la habitación.
Cuando el pintor y Aniuta se fueron, Klochkov se tendió en el sofá y siguió
estudiando; mas no tardó en quedarse dormido y no se despertó hasta una
hora después. La siesta le había puesto de mal humor. Recordó las palabras
de Fetisov, y, al fijarse en la pobreza y la suciedad del aposento, sintió una
especie de repulsión. En un porvenir próximo recibiría a los enfermos en
su lujoso gabinete, comería y tomaría el té en un comedor amplio y bien
amueblado, en compañía de su mujer, a quien respetaría todo el mundo...;
pero, a la sazón..., aquel cuarto sucio, aquellos platos, aquellas colillas
esparcidas por el suelo...
¡Qué asco! Aniuta, por su parte, no embellecía mucho el cuadro: iba mal
vestida, despeinada...
Y Klochkov decidió separarse de ella en seguida, a todo trance. ¡Estaba ya
hasta la coronilla!
Cuando la muchacha, de vuelta, estaba quitándose el abrigo, se levantó y
le dijo con acento solemne:
– Escucha, querida... Siéntate y atiende. Tenemos que separarnos. Yo no
puedo ni quiero ya vivir contigo.
Aniuta venía del estudio de Fetisov fatigada, nerviosa. El estar de pie tanto
tiempo había acentuado la demacración de su rostro. Miró a Klochkov sin
decir nada, temblándole los labios.
– Debes comprender que, tarde o temprano, hemos de separarnos. Es
fatal. Tú, que eres una buena muchacha y no tienes pelo de tonta, te harás
cargo.
Aniuta se puso de nuevo el abrigo en silencio, envolvió su labor en un
periódico, cogió las agujas, el hilo...
-Esto es de usted – dijo, apartando unos cuantos terrones de azúcar.
Y se volvió de espaldas para que Klochkov no la viese llorar.
– Pero ¿por qué lloras? – preguntó el estudiante.

unitins • letras • 6º PERÍODO  111


CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

Tras de ir y venir, silencioso, durante un minuto a través de la habitación,


añadió con cierto embarazo:
– ¡Tiene gracia!... Demasiado sabes que, tarde o temprano, nuestra
separación es inevitable. No podemos vivir juntos toda la vida.
Ella estaba ya a punto, y se volvió hacia él, con el envoltorio bajo el brazo,
dispuesta a despedirse. A Klochkov le dio lástima...”Podría tenerla – pensó –
una semana más conmigo. ¡Sí, que se quede! Dentro de una semana le diré
que se vaya.”
Y, enfadado consigo mismo por su debilidad, le gritó con tono severo:
– Bueno; ¿qué haces ahí como un pasmarote? Una de dos: o te vas, o si no
quieres irte te quitas el abrigo y te quedas. ¡Quédate si quieres!
Aniuta se quitó el abrigo sin decir palabra, se sonó, suspiró, y con tácitos
pasos se dirigió a su silla de junto a la ventana. Klochkov cogió su libro
de medicina y empezó de nuevo a estudiar en voz alta, paseándose por el
aposento. “El pulmón se divide en tres partes. La parte superior...”
En el corredor alguien gritaba a voz en cuello:
– ¡Grigory, tráeme el samovar!
Anton Chejov
(Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bk00
0163.pdf>)

Tras la lectura del cuento del escritor ruso, te invitamos a reflexionar sobre
la tesitura textual, es decir, sobre el entramado de estructuras responsables por
las direcciones que se establecen en el texto, las relaciones entre las unidades y
las proposiciones serán una constante en este capítulo como mencionamos en la
introducción. Sin embargo, antes de empezar nuestra exposición de los contenidos
gramaticales, nos proponemos algunas observaciones sobre el texto.
¿Te gustó el texto? Es parte de la obra de un autor ruso, poco conocido en
nuestra cultura, sin embargo, de un talento artístico indiscutible, responsable por
obras que reflejan el contexto ruso a partir de una óptica extremamente cruda, a
la vez inquietudes humanas, considerado uno de los grandes representantes del
realismo ruso en fines del siglo XIX e inicio del XX.
Espero que hayas leído con atención el texto, observado la organización
de las ideas, buscado en el diccionario las palabras desconocidas, pues
nuestra actividad requiere del lector este acercamiento al texto. Si no lo has
hecho, ¡es el momento! Después del reconocimiento, podemos aplicar un mirar
direccionado al plano lingüístico, particularmente a la forma como se articulan
las oraciones. Puede parecerte un poco diferente en el inicio, pero debemos
considerar que todos los textos tienen periodos que se asocian a otros para la
producción de la tesitura textual y justamente nos toca en este capítulo analizar
algunas de esas relaciones.

112  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

Reflexiona

En el texto “Aniuta”, hay diferentes oraciones que, dado a su relación,


reciben una clasificación específica ¿qué te parece intentar un ejemplo?
Entre las posibilidades, seguramente habrás encontrado:
“Le esperaba, sin duda, un bonito porvenir, acaso la celebridad; pero a la
sazón se hallaba en la miseria”.
La oración subrayada tiene el sentido adversativo, a razón del sentido
restrictivo que desencadena la conjunción “pero”. Es decir, en la primera
oración, Aniuta pensaba que el futuro de Klochkov sería lleno de
realizaciones; la segunda oración aparece como oposición o restricción a
lo que fue dicho en la primera. El futuro de Klochkov puede ser promisor,
pero el momento que vive es de miseria.

2.1 Las oraciones


Algunos aspectos caracterizan la oración como un enunciado que se limita
entre dos pausas, acompañado de un contorno melódico, a veces interrumpida
por pausas intermedias de menor duración.
En cada situación de interacción y de habla concreta, el sentido de la oración
es cabal. Asimismo, según Llorach (1994, p. 333) las oraciones contienen
necesariamente por lo menos un verbo, que se vuelve responsable por la relación
predicativa. Debido a esa circunstancia, una oración puede ser constituida por
un solo verbo.
¿Te acuerdas de las orientaciones iniciales sobre el repaso de algunas
unidades del cuaderno de contenidos de los semestres pasados? pues ahí podrás
encontrar algunas informaciones que podrán ayudarte a mejor comprender
esas explicaciones.
Dando secuencia a nuestra explicación, ¡no debes olvidarte de la oraciones
compuestas!, pues la asociación entre las oraciones articuladas por el transpositor,
que generalmente es una conjunción, se establece cuando hay más de un
sintagma verbal. Generalmente son clasificadas como:
• coordinadas – son caracterizadas por la independencia de sus oraciones,
es decir, tienen la misma categoría sintáctica, unidas por nexos.
Ejemplo
Mis hermanos duermen/ y / mi madre trabaja.

(oración 1) conjunción (oración 2)

unitins • letras • 6º PERÍODO  113


CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

Observemos que las dos oraciones anteriores tienen la misma categoría


sintáctica y no existe una dependencia entre ellas, a punto de comprometer
su significado.
• yuxtapuestas – esta situación es parecida con la coordinación, pues las
dos oraciones tienen la misma categoría sintáctica, sin embargo lo que
puede definir su relación es la ausencia de nexos explícitos entre ellas.
Ejemplo
Los alumnos estudian; sus profesores observan.

(oración 1) (oración 2)

Las dos oraciones que aparecen en el ejemplo se relacionan, sin embargo


mantienen su independencia y no hay nexo explícito entre las dos.
• subordinación – La relación entre las dos oraciones se desdobla mediante
la dependencia de una de las oraciones, la subordinada de la principal.
Ejemplo
No voy a la empresa hoy porque tengo otras actividades.

(oración 1) conjunción (oración 2)

Reflexiona

¿Qué te parece intentar reconocer las oraciones y sus respectivas


clasificaciones?
a) La ciencia apasiona a algunos ciudadanos; deja indiferentes a la mayoría.
______________________________________________________________
b) Continuaré estudiando aunque me cueste mucho.
______________________________________________________________
c) Los habitantes de esta ciudad estudian o se dedican a otras cosas.
______________________________________________________________
Seguramente habrás encontrado las siguientes respuestas, para la letra (a)
oraciones yuxtapuestas, pues las dos oraciones tienen la misma categoría
sintáctica y no tienen nexo explicito. La letra (b) presenta una oración principal
“continuaré estudiando” y la conjunción “aunque” con la función concesiva,
sirviendo como nexo para la oración subordinada. Y en la letra (c) aparecen
oraciones coordinadas, pues comparten la misma categoría sintáctica y son
unidas por el transpositor “o” con el sentido disyuntivo.

114  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

Para poder ilustrar las clasificaciones y a la vez presentar sus categorías,


retomaremos cada una de las definiciones anteriores y expondremos sus
estructuras. ¿Qué tal empezar nuestro recorrido por la coordinación?

CONJUNCIONES COORDINADAS
Función Conjunción
Copulativa Ni, y(e)
Disyuntiva O bien, o (u)
Antes bien, aunque, en cambio, más
Adversativa bien, no obstante, pero, por lo demás, sin
embargo, sino que

Para saber más

Para saber más


El estudio de las oraciones compuestas siempre ha sido temido por los
alumnos y encarado como algo difícil de presentarlo en clase. A seguir
te presentamos una dirección con algunas explicaciones que pueden
auxiliarte a la hora de estudiar o impartir tus clases sobre el tema. En el sitio:
<http://faroescolegio.iespana.es/temas/orac_compuesta.htm> encontrarás
explicaciones sobre el concepto de oración, estructura y explicaciones sobre
las oraciones yuxtapuestas y las coordinadas.

Abordaremos en nuestra exposición algunas de las categorías de las


oraciones coordinadas.
• Las copulativas: según Llorach (1994), son las que cumplen el papel
de unificar oraciones y elementos análogos de una misma oración.
Generalmente no hay obligatoriedad en la secuencia de las oraciones,
pues en la mayoría de las construcciones debe ser considerado el orden
real de los hechos.
Vamos a algunos ejemplos:
a) Pasan los días y la desesperación me pica los ojos.

(oración 1) conjunción (oración 2)

b) Ni pienses en conseguirlo tan fácilmente ni creas que es imposible.

conjunción (oración 1) conjunción (oración 2)

unitins • letras • 6º PERÍODO  115


CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

c) La actriz representó “Bodas de sangre” y fue amiga personal del


autor de la obra.
(oración 1) conjunción (oración 2)

• Las disyuntivas: el grupo oracional disyuntivo puede estar formado por


más de dos oraciones, en la mayoría de los ejemplos son contenidos que
se excluyen simultáneamente.

a) Hable detenidamente sobre sus invenciones o manténgase callado.

(oración 1) conjunción (oración 2)

b) Invítala a una fiesta o salgan a cenar.

(oración 1) conjunción (oración 2)

c) Cuéntale todo lo que has visto o cállalo para siempre.

(oración 1) conjunción (oración 2)

• Las adversativas: este grupo oracional se unifica por medio de un


transpositor adversativo, contraponiendo las oraciones explícitamente
y en algunas circunstancias ocurriendo una restricción de la segunda
proposición en referencia a la primera.
a) No es que no tenga razón, sino que parece ser especial.

(oración 1) conjunción (oración 2)

b) Ese día era Martes, aunque no te lo puedo asegurar.

(oración 1) conjunción (oración 2)

c) Parece que llovió esta tarde, sin embargo no llovió.

(oración 1) conjunción (oración 2)

La diferencia sintáctica entre las oraciones yuxtapuestas y las coordinadas


es la presencia o ausencia de enlaces. Entre las yuxtapuestas hay pausas,
en el habla, y signos de puntuación, en la escrita. Aunque no presenten los
enlaces, se conectan por el significado, presentando diferentes relaciones
entre sí.

116  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

a) ¡Cálmate, raciocina, actúa! (adición, suma)


b) Los ricos tienen sus derechos respetados, los pobres no. (oposición)
A modo de concluir, la tesitura textual es un conjunto de relaciones entre las
oraciones que mediante su asociación se construyen direcciones que definirán el
sentido y el alcance del texto.

Rincón cultural
“¿Le gustaría un plátano a usted?” le pregunté a Yielena.
“Sí”, ella sonrió, pero no hizo ningún esfuerzo por tomar cualquiera de
los tres plátanos en la cesta de fruta. “¿Qué hago ahora?” pensé.
“¿Cuál le gustaría?” le pregunté torpemente.
“Ese”, me dijo, al apuntar a uno de los plátanos. Así es que, pensando
en la cortesía rusa, tomé el plátano que Yielena había escogido, lo pelé
a medias y se lo pasé. Las sonrisas en los rostros de Yielena y de Dmitri
me hicieron sentir que había obrado correctamente. Después de esta
experiencia yo pasé mucho tiempo contándole a todo mundo que la acción
caballeresca era pelarle los plátanos a las damas rusas. Un día, durante mi
tercer viaje, fui cortésmente desengañado sobre tal noción.
“¡Oh no!, Grigorii Davidovich”, un ruso me corrigió amablemente. “En
Rusia, cuando un hombre le pela un plátano a una dama esto significa que
él tiene un interés romántico por ella”. Cómo me sentí avergonzado. Y yo
le había estado orgullosamente contando a medio mundo sobre esta perla
de comprensión cultural.
Ciertas lecciones tienen que ser aprendidas en forma difícil. Algunos
bien intencionados artículos en la prensa popular y presentaciones sobre
diferencias culturales tienen el potencial para hacer más daño que bien
y tal vez no sean tan divertidos. Tal como mis plátanos, estos presentan
demasiadas generalizaciones o distorsiones.

Texto de Gregorio Billikopf Encina, Universidad de California. Disponible en:


<http://nature.berkeley.edu/ucce50/agro-laboral/7libro/7ala01.htm>.

En este capítulo leímos un texto de autor realista ruso de fines del siglo XIX
para el XX, oportunidad para conocer algo más de la literatura rusa. Además,
estudiamos algunos conceptos sobre las relaciones que se establecen entre
los grupos oracionales, deteniéndonos en la subordinación, coordinación y
yuxtaposición, en la última parte del capítulo presentamos algunas categorías de
las oraciones coordinadas y en la última parte la yuxtaposición. En la próxima
clase continuaremos nuestro estudio sobre estructuras oracionales subordinadas

unitins • letras • 6º PERÍODO  117


CAPÍTULO 2 • Língua espanhola vi

y sus categorías, además de presentar usos de expresiones de constatación y


algunos verbos de percepción.

¿Cómo se dice?
En el caudal de voces de origen hispano se emplean en la generalidad
del territorio argentino vocablos hoy en desuso en el español peninsular,
aunque muchos de ellos aparecen en otras zonas americanas. Entre ellos
deben mencionarse, por ejemplo, barranca (corte vertical y profundo
en el terreno, barrial (lugar cubierto de barro), lindo, pararse, pollera,
vidriera. Muchos de esos términos tienen origen marinero, habiendo sido
incorporados en los largos viajes hasta América. Todavía podríamos citar
otras influencias andaluces, leonesismos, galleguismos, portuguesismos,
muchas voces en una sola.
(MIRANDE, 1996, p. 217-128).

Referencias
CHEJOV, A. Aniuta. Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.br/down-
load/texto/bk000163.pdf>. Accedido el: 18 ene. 2010.
ENCINA, G. B. Diferencias culturales. Disponible en: <http://nature.berkeley.edu/
ucce50/agro-laboral/7libro/7ala01.htm> accedido el: 18 enero de 2010.
LLORACH, E. A. Gramática de la lengua española. Madrid: Espasa Calpe,
1994.
MASIP, V. Fonología y ortografía españolas: curso integrado para brasileños.
Recife: Edições Bagaço, 2004.
MIRANDE, N. D. Argentina-Uruguay. In: Manual de dialectología hispánica: el
español de América. Barcelona: Ed. Ariel, 1996.

Anotaciones

118  6º PERÍODO • letras • unitins


3
CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

Las oraciones subordinadas


sustantivas

La libertad no es fruto que crezca en todos los climas, y


por ello no está al alcance de todos los pueblos.
Jean Jacques Rousseau

Introducción
En el capítulo anterior presentamos las conjunciones coordinadas, a la vez el
papel que desempeñan en las oraciones coordinadas, además de ejemplos que
corroboraron con breves explicaciones sobre las clasificaciones correspondientes.
En este capítulo analizaremos las estructuras de oraciones compuestas
subordinadas sustantivas, explicando y ejemplificando sus clasificaciones.
Una vez presentado el curso que seguiremos, conviene que busques en tu
cuaderno de contenidos del segundo semestre informaciones sobre el uso de las
conjunciones, pues será un aspecto clave para el análisis y comprensión de las
estructuras subordinantes, otra forma de estudiar los temas que discutiremos es
buscar sitios en internet y gramáticas que puedan auxiliarte ante este reto.

Para saber más

El reconocimiento y la descripción de estructuras de una lengua merecen


nuestra atención en el proceso de su aprendizaje como lengua extranjera, pues
comprender el funcionamiento de estos componentes será clarificador a la hora
de escoger los recursos lingüísticos más a coherencia en la enunciación. En
el sitio: <http://www.librosvivos.net/smtc/homeTC.asp?TemaClave=1091>
encontrarás explicaciones precisas que podrán colaborar en el análisis
de grupos oracionales, mediante la diferenciación de oraciones simples,
complejas, asimismo varios ejemplos sobre las diferentes clasificaciones.

Al concluir esta clase, esperamos que seas capaz de reflexionar e identificar


el uso adecuado de oraciones y sus relaciones subordinantes.
¿Qué tal leer un texto? Escogimos un cuento del autor uruguayo Horacio
Quiroga. Observa la lengua, las descripciones de los personajes, la relación entre

unitins • letras • 6º PERÍODO  119


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

los dos. Además debes tener en cuenta la tesitura textual, pues señalaremos tras
su lectura algunas oraciones y sus clasificaciones.

El solitario
Kassim era un hombre enfermizo, joyero de profesión, bien que no tuviera
tienda establecida. Trabajaba para las grandes casas, siendo su especialidad
el montaje de las piedras preciosas. Pocas manos como las suyas para los
engarces delicados. Con más arranque y habilidad comercial, hubiera sido
rico. Pero a los treinta y cinco años proseguía en su pieza, aderezada en
taller bajo la ventana.
Kassim, de cuerpo mezquino, rostro exangüe sombreado por rala barba
negra, tenía una mujer hermosa y fuertemente apasionada. La joven, de
origen callejero, había aspirado con su hermosura a un más alto enlace.
Esperó hasta los veinte años, provocando a los hombres y a sus vecinas
con su cuerpo. Temerosa al fin, aceptó nerviosamente a Kassim. No más
sueños de lujo, sin embargo. Su marido, hábil – artista aún, – carecía
completamente de carácter para hacer una fortuna. Por lo cual, mientras el
joyero trabajaba doblado sobre sus pinzas, ella, de codos, sostenía sobre
su marido una lenta y pesada mirada, para arrancarse luego bruscamente
y seguir con la vista tras los vidrios al transeúnte de posición que podía
haber sido su marido.
Cuanto ganaba Kassim, no obstante, era para ella. Los domingos trabajaba
también a fin de poderle ofrecer un suplemento. Cuando María deseaba una
joya – ¡y con cuánta pasión deseaba ella! – trabajaba de noche. Después
había tos y puntadas al costado; pero María tenía sus chispas de brillante.
Poco a poco el trato diario con las gemas llegó a hacerle amar las tareas del
artífice, y seguía con ardor las íntimas delicadezas del engarce. Pero cuando la
joya estaba concluida – debía partir, no era para ella,– caía más hondamente
en la decepción de su matrimonio. Se probaba la alhaja, deteniéndose ante
el espejo. Al fin la dejaba por ahí, y se iba a su cuarto. Kassim se levantaba
al oír sus sollozos, y la hallaba en la cama, sin querer escucharlo.
– Hago, sin embargo, cuanto puedo por ti,– decía él al fin, tristemente.
Los sollozos subían con esto, y el joyero se reinstalaba lentamente en
su banco.
Estas cosas se repitieron, tanto que Kassim no se levantaba ya a consolarla.
¡Consolarla! ¿De qué? Lo cual no obstaba para que Kassim prolongara más
sus veladas a fin de un mayor suplemento.
Era un hombre indeciso, irresoluto y callado. Las miradas de su mujer se
detenían ahora con más pesada fijeza sobre aquella muda tranquilidad.
– ¡Y eres un hombre, tú! – murmuraba.
Kassim, sobre sus engarces, no cesaba de mover los dedos.
– No eres feliz conmigo, María – expresaba al rato.
– ¡Feliz! ¡Y tienes el valor de decirlo! ¿Quién puede ser feliz contigo? ¡Ni la
última de las mujeres!... ¡Pobre diablo! – concluía con risa nerviosa, yéndose.
Kassim trabajaba esa noche hasta las tres de la mañana, y su mujer tenía luego
nuevas chispas que ella consideraba un instante con los labios apretados.

120  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

– Sí... ¡no es una diadema sorprendente!... ¿cuándo la hiciste?


– Desde el martes – mirábala él con descolorida ternura – dormías de noche...
– ¡Oh, podías haberte acostado!... ¡Inmensos, los brillantes!
Porque su pasión eran las voluminosas piedras que Kassim montaba. Seguía el
trabajo con loca hambre de que concluyera de una vez, y apenas aderezada
la alhaja, corría con ella al espejo. Luego, un ataque de sollozos.
– ¡Todos, cualquier marido, el último, haría un sacrificio para halagar a su
mujer! Y tú... y tú... ni un miserable vestido que ponerme, tengo!
Cuando se franquea cierto límite de respeto al varón, la mujer puede llegar
a decir a su marido cosas increíbles. La mujer de Kassim franqueó ese límite
con una pasión igual por lo menos a la que sentía por los brillantes. Una
tarde, al guardar sus joyas, Kassim notó la falta de un prendedor – cinco
mil pesos en dos solitarios. – Buscó en sus cajones de nuevo.
–¿No has visto el prendedor, María? Lo dejé aquí.
– Sí, lo he visto.
– ¿Dónde está? – se volvió extrañado.
– ¡Aquí!
Su mujer, los ojos encendidos y la boca burlona, se erguía con el prendedor
puesto.
– Te queda muy bien – dijo Kassim al rato. – Guardémoslo.
María se rió.
– Oh, ¡no! es mío.
– ¿Broma?...
– Sí, es broma! ¡es broma, sí! ¡Cómo te duele pensar que podría ser mío...
Mañana te lo doy. Hoy voy al teatro con él. Kassim se demudó.
– Haces mal... podrían verte. Perderían toda confianza en mí.
– ¡Oh! – cerró ella con rabioso fastidio, golpeando violentamente la
puerta.
Vuelta del teatro, colocó la joya sobre el velador. Kassim se levantó y la guardó
en su taller bajo llave. Al volver, su mujer estaba sentada en la cama.
– ¡Es decir, que temes que te la robe! ¡Qué soy una ladrona!
– No mires así... Has sido imprudente, nada más.
– ¡Ah! ¡Y a ti te lo confían! ¡A ti, a ti! ¡Y cuando tu mujer te pide un poco de
halago, y quiere... me llamas ladrona a mí! ¡Infame!
Se durmió al fin. Pero Kassim no durmió. Entregaron luego a Kassim para
montar un solitario, el brillante más admirable que hubiera pasado por
sus manos.
– Mira, María, qué piedra. No he visto otra igual.
Su mujer no dijo nada; pero Kassim la sintió respirar hondamente sobre
el solitario.
– Una agua admirable... – prosiguió él – costará nueve o diez mil pesos.
– Un anillo! – murmuró María al fin.
– No, es de hombre... Un alfiler.
A compás del montaje del solitario, Kassim recibió sobre su espalda
trabajadora cuanto ardía de rencor y cocotaje frustrado en su mujer. Diez
veces por día interrumpía a su marido para ir con el brillante ante el espejo.
Después se lo probaba con diferentes vestidos.
– Si quieres hacerlo después... – se atrevió Kassim. – Es un trabajo urgente.
Esperó respuesta en vano; su mujer abría el balcón.

unitins • letras • 6º PERÍODO  121


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

– María, ¡te pueden ver!


– ¡Toma! ¡ahí está tu piedra!
El solitario, violentamente arrancado, rodó por el piso. Kassim, lívido, lo
recogió examinándolo, y alzó luego desde el suelo la mirada a su mujer.
– Y bueno, ¿por qué me miras así? ¿Se hizo algo tu piedra?
– No – repuso Kassim. Y reanudó en seguida su tarea, aunque las manos le
temblaban hasta dar lástima.
Pero tuvo que levantarse al fin a ver a su mujer en el dormitorio, en plena crisis
de nervios. El pelo se había soltado y los ojos le salían de las órbitas.
– ¡Dame el brillante! – clamó. – ¡Dámelo! ¡Nos escaparemos! ¡Para mí!
¡Dámelo!
– María...– tartamudeó Kassim, tratando de desasirse.
– ¡Ah! – rugió su mujer enloquecida. – ¡Tú eres el ladrón, miserable!
¡Me has robado mi vida, ladrón, ladrón! Y creías que no me iba a desquitar...
cornudo! ¡Ajá! Mírame... no se te había ocurrido nunca, ¿eh? ¡Ah! – y se
llevó las dos manos a la garganta ahogada. Pero cuando Kassim se iba,
saltó de la cama y cayó, alcanzando a cogerlo de un botín.
– ¡No importa! ¡El brillante, dámelo! ¡No quiero más que eso! ¡Es mío,
Kassim miserable!
Kassim la ayudó a levantarse, lívido.
– Estás enferma, María. Después hablaremos... acuéstate.
– ¡Mi brillante!
– Bueno, veremos si es posible... acuéstate.
– Dámelo!
La bola montó de nuevo a la garganta. Kassim volvió a trabajar en su
solitario. Como sus manos tenían una seguridad matemática, faltaban
pocas horas ya. María se levantó para comer, y Kassim tuvo la solicitud de
siempre con ella. Al final de la cena su mujer lo miró de frente.
– Es mentira, Kassim – le dijo.
– ¡Oh! – repuso Kassim sonriendo – no es nada.
– ¡Te juro que es mentira! – insistió ella.
Kassim sonrió de nuevo, tocándole con torpe cariño la mano.
– ¡Loca! Te digo que no me acuerdo de nada.
Y se levantó a proseguir su tarea. Su mujer, con la cara entre las manos, lo
siguió con la vista.
– Y no me dice más que eso... – murmuró. Y con una honda náusea por
aquello pegajoso, fofo e inerte que era su marido, se fue a su cuarto. No
durmió bien. Despertó, tarde ya, y vió luz en el taller; su marido continuaba
trabajando. Una hora después, éste oyó un alarido.
– ¡Dámelo!
– Sí, es para ti; falta poco, María – repuso presuroso, levantándose. Pero su
mujer, tras ese grito de pesadilla, dormía de nuevo. A las dos de la mañana
Kassim pudo dar por terminada su tarea; el brillante resplandecía, firme y
varonil en su engarce. Con paso silencioso fue al dormitorio y encendió la
veladora. María dormía de espaldas, en la blancura helada de su camisón
y de la sábana. Fue al taller y volvió de nuevo. Contempló un rato el seno
casi descubierto, y con una descolorida sonrisa apartó un poco más el
camisón desprendido. Su mujer no lo sintió. No había mucha luz. El rostro
de Kassim adquirió de pronto una dura inmovilidad, y suspendiendo un

122  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

instante la joya a flor del seno desnudo, hundió, firme y perpendicular como
un clavo, el alfiler entero en el corazón de su mujer.
Hubo una brusca apertura de ojos, seguida de una lenta caída de párpados.
Los dedos se arquearon, y nada más. La joya, sacudida por la convulsión
del ganglio herido, tembló un instante desequilibrada. Kassim esperó un
momento; y cuando el solitario quedó por fin perfectamente inmóvil, pudo
entonces retirarse, cerrando tras de sí la puerta sin hacer ruido.
Horacio Quiroga
(Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/gu0
00048.pdf>).

Reflexiona

Espero que te haya gustado el texto, la lectura es un proceso complejo que


requiere a menudo un intenso ejercicio de relacionar, contraponer y asociar
informaciones, asimismo interaccionar con el enunciado produciendo
diversos caminos en la construcción de su significado y de las relaciones
estructurales presentes en el corpus textual. ¿Qué tal experimentar e
identificar algunas oraciones subordinadas sustantivas en el cuento leído?
Entre las posibilidades, seguramente habrás encontrado:
“la mujer puede llegar a decir a su marido cosas increíbles”
La mujer puede llagar a eso.
“Seguía el trabajo con loca hambre de que concluyera de una vez”
Seguía el trabajo con loca hambre de aquello.
“– ¡Te juro que es mentira!”
_ ¡ te juro eso!
“creías que no me iba a desquitar”
Creías eso.
Una de las formas de reconocer una oración subordinada sustantiva es
sustituirla por un sustantivo que exprese la misma idea o por un pronombre.
Los más adecuados son esto, eso, aquello o éste, ésta, ellos, éstas. Caso el
nexo sea un pronombre relativo, quien, el que, entre otros.

Vamos ahora a conocer un poco más sobre las oraciones subordinadas


sustantivas, conocidas también como completivas. Según Llorach (1994, p. 325-
328), su característica principal es comportase como sintagma nominal respecto
a la oración principal, entre las funciones que desempeñan están: complemento
del nombre, sujeto, atributo, complemento directo. De forma general pueden
tener un verbo en una forma finita o infinitiva, la primera es introducida por

unitins • letras • 6º PERÍODO  123


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

las conjunciones que y si, por un pronombre o un adverbio interrogativo. En


cambio, cuando el verbo está en infinitivo, en algunos casos será desnecesario
el uso de nexo, en otros utilizaremos la conjunción si o un pronombre o adverbio
interrogativo. A seguir las clasificaciones.
• Oración subordinada sustantiva de sujeto: ocurre cuando la oración
subordinada sustantiva desempeña la función de sujeto oracional, es
decir, el punto de referencia verbal o de tópico sobre el cual el verbo
desarrolla todas sus informaciones.
Ejemplo
Es triste que pienses eso.

Oración (O)

Sintagma verbal (SV) Sintagma nominal (SN) sujeto

Verbo (V) Sintagma Adjetivo Nexo (conjunción) O


(SAdj)
SN
SV

V
adjetivo SN (Complemento
directo)

Pronombre

Es triste que (tú) pienses eso.

Otros ejemplos de oraciones subordinadas sustantivas de sujeto:


a) Me gusta que me lleven en serio.
d) Comer demasiado azúcar es perjudicial.
e) Es impensable que la situación sea esa.

Reflexiona

Has observado la organización y las relaciones entre los componentes de la


oración, te invito a intentar hacer lo mismo con la oración a seguir:

124  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

a) Creías que me iba.


Seguramente habrás conseguido este modelo.

Oración (O)

SN (SV)

V SN

Nexo O

SN SV

pron V

(Tú) creías que me iba.

• Oración subordinada sustantiva de complemento directo: ocurre cuando


la oración subordinada sustantiva desempeña la función de complemento
directo, es decir, el punto de llegada de la acción verbal, completando
el sentido de los verbos transitivos.
Ejemplo
Marco desconocía qué haría.

Oración (O)

(SV)
SN

SN
V

Nexo O

SN SV

N
V SN

Marcos desconocía qué (él) haría (qué).

unitins • letras • 6º PERÍODO  125


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

Otros ejemplos de oraciones subordinadas de complemento directo:

a) Intentamos hacer el trabajo solos.

b) Espero que conozcan el camino.

c) Le preguntaron si todavía estaba casado.

Reflexiona

Has observado la organización y las relaciones entre los componentes de la


oración, te invito a intentar hacer lo mismo con la oración a seguir:
a) Prefiero que vayas a Paris.

Seguramente habrás conseguido este modelo.

Oración (O)

(SV)
SN

SN
V

Nexo O

SN SV

N V Sintagma prep.

prep SN

(yo) prefiero que (te) vayas a Paris.

• Oración subordinada sustantiva de atributo: ocurre cuando la oración


subordinada sustantiva es atributo de un verbo copulativo.

126  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

Ejemplo
Estáis que parecéis animales.

Oración (O)

(SV)
SN

SN
V

Nexo O

SN SV

V SN

(vosotros) estáis que (vosotros) parecéis animales.

Otros ejemplos
Pedro está que se sale.
La razón de mi tristeza es que he perdido trabajo.
Estudiar es esforzarse al máximo.
Asimismo, otra información importante para el reconocimiento de esta
clase de oración, según Masip (1999, p. 179), es que el atributo es un
sintagma nominal relacionado con el sujeto por medio de un verbo de
estado, copulativo o semicopulativo, semánticamente vacío, que sirve
como nexo entre el sujeto y el complemento.

Reflexiona

Has observado la organización y las relaciones entre los componentes de la


oración, te invito a intentar hacer lo mismo con la oración a seguir:
a) José está que muerde.
Seguramente habrás conseguido este modelo.

unitins • letras • 6º PERÍODO  127


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

Oración (O)

SN (SV)

V SN

Nexo O

SN SV

N V

José está que (ella) muerde.

• Oración subordinada sustantiva de complemento regido: es término que


introduce un complemento regido, es decir, una clase de suplemento que
funciona como complemento preposicional vinculado a un verbo por
fuerza de regencia, además el vínculo con entre el verbo y la preposición
es fijo, pues la preposición no puede ser cambiada, porque interferiría
en el significado de la oración.
Ejemplo
Insistían en que era inadecuado.

Oración (O)
SN (SV)

Sintagma prep.
V

Prep SN

O
Nexo

SN SV

V SAdj

(ellos) insistían en que (eso) era inadecuado.

128  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

• Oración subordinada de complemento circunstancial: es término que


introduce un complemento circunstancial, es decir, el sintagma nominal
indica el contexto en que ocurre la acción, se diferencia del tipo adverbial
pues tiene una locución con núcleo nominal.
Ejemplo
Los chicos lo hicieron sin que lo vieran.

Oración (O)

SN (SV)

SN V Sprep
SN

Sv
D N Pron P Nexo
SN

SN v

prono

Los chicos lo hicieron sin que (ellos) lo vieran.

Otros ejemplos:
Lo dijimos sin conocerlo de veras.
Había quedado con quien era su verdadero amigo.
Las mujeres lo gastaron sin que lo tuvieran.
• Oraciones sustantivas de complemento de nombre: es término de una
proposición que introduce un sintagma preposicional que asume la
función de complemento de nombre.
Ejemplos
Tiene la imaginación de quien ha leído mucho.
Tenía la seguridad de que viajara bien.
Da la impresión de que no quiere ser visto.

unitins • letras • 6º PERÍODO  129


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

Oración (O)

SN (SV)

SN
SPrep
SN
V
O
N N P Nexo
SN SV
S adj
N adj

(yo) tenía duda de que (eso) fuera correcto.

Oración (O)

SN (SV)

SN V Sprep
SN

O
D N Pron P Nexo
SN SV

SN v

prono

Los chicos lo hicieron sin que (ellos) lo vieran.

A modo de concluir, hemos observado como encontramos una estructura


compleja en las oraciones. Comprender su funcionamiento colabora y facilita la
producción textual.

En este capítulo leímos un texto de autor uruguayo de fines del siglo XIX
para el XX, oportunidad para conocer algo de la literatura uruguaya. Además,
estudiamos algunos conceptos sobre las relaciones que se establecen entre los
grupos oracionales, deteniéndonos en las oraciones subordinadas sustantivas.

130  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

En la próxima clase continuaremos nuestro estudio sobre estructuras oracionales


subordinadas y sus categorías.

Referencias
LLORACH, E. A. Gramática de la lengua española. Madrid: Espasa Calpe,
1994.
MASIP, V. Fonología y ortografía españolas: curso integrado para brasileños.
Recife: Edições Bagaço, 2004.
QUIROGA, H. El solitario. Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.br/
download/texto/gu000048.pdf >. Accedido el: 18 ene. 2010.

Anotaciones

unitins • letras • 6º PERÍODO  131


CAPÍTULO 3 • Língua espanhola vi

132  6º PERÍODO • letras • unitins


4
CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

Las oraciones subordinadas


adjetivas y adverbiales

El hombre de talento es naturalmente inclinado a la


crítica, porque ve más cosas que los otros hombres y
las ve mejor.
Montesquieu

Introducción
En el capítulo anterior presentamos las oraciones subordinadas sustantivas, ya
en este capítulo, estudiaremos las oraciones subordinadas adjetivas y posteriormente
las subordinadas adverbiales, explicando y ejemplificando sus clasificaciones.
Una vez presentado el curso que seguiremos, te recomendamos de nuevo
que vuelvas al cuaderno de contenidos del segundo semestre para revisar las
conjunciones, así como buscar sitios en internet y gramáticas que puedan auxiliarte
ante este reto.

Para saber más

El estudio y reconocimiento de estructuras lingüísticas es fundamental para


todos los que se proponen producir un texto, pues las relaciones que se
establecen entre esas oraciones colaboran con los aspectos semánticos. En
el sitio: <http://www.ieslaaldea.com/documentos/doculengua/oraciones
circuns.pdf> encontrarás explicaciones precisas que podrán colaborar
en el análisis de grupos oracionales subordinados adverbiales, mediante
la diferenciación de oraciones y las explicaciones de cada una de sus
clasificaciones, también encontrarás informaciones que pueden auxiliarte a
la hora de reconocerlas.

Al concluir esta clase, esperamos que seas capaz de reflexionar e identi-


ficar el uso adecuado de oraciones y sus relaciones subordinantes adverbiales
y adjetivas.
¿Qué tal leer un texto? Escogimos otro cuento del autor uruguayo Horacio
Quiroga. Además del contenido, observa los aspectos sintácticos, sobre todo el
contenido gramatical que nos proponemos a estudiar en este capítulo.

unitins • letras • 6º PERÍODO  133


CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

El almohadón de plumas
Su luna de miel fue un largo escalofrío. Rubia, angelical y tímida, el carácter
duro de su marido heló sus soñadas niñerías de novia. Lo quería mucho, sin
embargo, a veces con un ligero estremecimiento cuando volviendo de noche
juntos por la calle, echaba una furtiva mirada a la alta estatura de Jordán,
mudo desde hacía una hora. El, por su parte, la amaba profundamente, sin
darlo a conocer. Durante tres meses – se habían casado en abril – vivieron
una dicha especial. Sin duda hubiera ella deseado menos severidad en ese
rígido cielo de amor, más expansiva e incauta ternura; pero el impasible
semblante de su marido la contenía en seguida. La casa en que vivían
influía no poco en sus estremecimientos. La blancura del patio silencioso
– frisos, columnas y estatuas de mármol – producía una otoñal impresión
de palacio encantado. Dentro, el brillo glacial del estuco, sin el más leve
rasguño en las altas paredes, afirmaba aquella sensación de desapacible
frío. Al cruzar de una pieza a otra, los pasos hallaban eco en toda la casa,
como si un largo abandono hubiera sensibilizado su resonancia.
En ese extraño nido de amor, Alicia pasó todo el otoño. No obstante, había
concluido por echar un velo sobre sus antiguos sueños, y aún vivía dormida
en la casa hostil, sin querer pensar en nada hasta que llegaba su marido.
No es raro que adelgazara. Tuvo un ligero ataque de influenza que
se arrastró insidiosamente días y días; Alicia no se reponía nunca. Al
fin, una tarde pudo salir al jardín apoyada en el brazo de él. Miraba
indiferente a uno y otro lado. De pronto Jordán, con honda ternura, le
pasó la mano por la cabeza, y Alicia rompió en seguida en sollozos,
echándole los brazos al cuello. Lloró largamente todo su espanto callado,
redoblando el llanto a la menor tentativa de caricia. Luego los sollozos
fueron retardándose, y aún quedó largo rato escondida en su cuello, sin
moverse ni decir una palabra.
Fue ese el último día que Alicia estuvo levantada. Al día siguiente amaneció
desvanecida. El médico de Jordán la examinó con suma detención,
ordenándole calma y descanso absolutos.
– No sé – le dijo a Jordán en la puerta de calle, con la voz todavía baja.
– Tiene una gran debilidad que no me explico, y sin vómitos, nada... Si
mañana se despierta como hoy, llámeme en seguida.
Al otro día Alicia seguía peor. Hubo consulta. Se constató una anemia
de marcha agudísima, completamente inexplicable. Alicia no tuvo más
desmayos, pero se iba visiblemente a la muerte. Todo el día el dormitorio
estaba con las luces prendidas y en pleno silencio.
Se pasaban horas sin oír el menor ruido. Alicia dormitaba. Jordán vivía
casi en la sala, también con toda la luz encendida. Paseaba sin cesar de un
extremo a otro, con incansable obstinación. La alfombra ahogaba sus pasos.
A ratos entraba en el dormitorio y proseguía su mudo vaivén a lo largo de la
cama, mirando a su mujer cada vez que caminaba en su dirección.
Pronto Alicia comenzó a tener alucinaciones, confusas y flotantes al
principio, y que descendieron luego a ras del suelo. La joven, con los ojos
desmesuradamente abiertos, no hacía sino mirar la alfombra a uno y otro

134  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

lado del respaldo de la cama. Una noche se quedó de repente mirando


fijamente. Al rato abrió la boca para gritar, y sus narices y labios se perlaron
de sudor.
– ¡Jordán! ¡Jordán! – clamó, rígida de espanto, sin dejar de mirar la alfombra.
Jordán corrió al dormitorio, y al verlo aparecer Alicia dio un alarido de horror.
– ¡Soy yo, Alicia, soy yo!
Alicia lo miró con extravío, miró la alfombra, volvió a mirarlo, y después de
largo rato de estupefacta confrontación, se serenó. Sonrió y tomó entre las
suyas la mano de su marido, acariciándola temblando.
Entre sus alucinaciones más porfiadas, hubo un antropoide, apoyado en la
alfombra sobre los dedos, que tenía fijos en ella los ojos.
Los médicos volvieron inútilmente. Había allí delante de ellos una vida que se
acababa, desangrándose día a día, hora a hora, sin saber absolutamente
cómo. En la última consulta Alicia yacía en estupor mientras ellos la
pulsaban, pasándose de uno a otro la muñeca inerte.
La observaron largo rato en silencio y pasaron al comedor.
– Pst... – se encogió de hombros desalentado su médico. – Es un caso se-
rio... poco hay que hacer...
– ¡Sólo eso me faltaba! – resopló Jordán. Y tamborileó bruscamente sobre
la mesa.
Alicia fue extinguiéndose en subdelirio de anemia, agravado de tarde, pero
que remitía siempre en las primeras horas. Durante el día no avanzaba su
enfermedad, pero cada mañana amanecía lívida, en síncope casi. Parecía
que únicamente de noche se le fuera la vida en nuevas olas de sangre.
Tenía siempre al despertar la sensación de estar desplomada en la cama
con un millón de kilos encima. Desde el tercer día este hundimiento no la
abandonó más. Apenas podía mover la cabeza.
No quiso que le tocaran la cama, ni aún que le arreglaran el almohadón. Sus
terrores crepusculares avanzaron en forma de monstruos que se arrastraban
hasta la cama y trepaban dificultosamente por la colcha.
Perdió, luego, el conocimiento. Los dos días finales deliró sin cesar a media
voz. Las luces continuaban fúnebremente encendidas en el dormitorio y la
sala. En el silencio agónico de la casa, no se oía más que el delirio monótono
que salía de la cama, y el rumor ahogado de los eternos pasos de Jordán.
Murió, por fin. La sirvienta, que entró después a deshacer la cama, sola ya,
miró un rato extrañada el almohadón.
– Señor – llamó a Jordán en voz baja. – En el almohadón hay manchas que
parecen de sangre.
Jordán se acercó rápidamente y se dobló a su vez. Efectivamente, sobre la
funda, a ambos lados del hueco que había dejado la cabeza de Alicia, se
veían manchas de sangre.
– Parecen picaduras – murmuró la sirvienta después de un rato de inmóvil
observación.
– Levántelo a la luz – e dijo Jordán.
La sirvienta lo levantó, pero en seguida lo dejó caer, y se quedó mirando a
aquél, lívida y temblando. Sin saber por qué, Jordán sintió que los cabellos
se le erizaban.
– ¿Qué hay? – murmuró con la voz ronca.
– Pesa mucho – articuló la sirvienta, sin dejar de temblar.

unitins • letras • 6º PERÍODO  135


CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

Jordán lo levantó; pesaba extraordinariamente. Salieron con él, y sobre la


mesa del comedor Jordán cortó funda y envoltura de un tajo.
Las plumas superiores volaron, y la sirvienta dio un grito de horror con toda
la boca abierta, llevándose las manos crispadas a los bandós: – sobre el
fondo, entre las plumas, moviendo lentamente las patas velludas, había un
animal monstruoso, una bola viviente y viscosa. Estaba tan hinchado que
apenas se le pronunciaba la boca.
Noche a noche, desde que Alicia había caído en cama, había aplicado
sigilosamente su boca – su trompa, mejor dicho – a las sienes de aquella,
chupándole la sangre. La picadura era casi imperceptible. La remoción dia-
ria del almohadón había impedido sin duda su desarrollo, pero desde que la
joven no pudo moverse, la succión fue vertiginosa.
En cinco días, en cinco noches, había vaciado a Alicia. Estos parásitos de las
aves, diminutos en el medio habitual, llegan a adquirir en ciertas condiciones
proporciones enormes. La sangre humana parece serles particularmente
favorable, y no es raro hallarlos en los almohadones de pluma.
Horacio Quiroga
(Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/gu000
048.pdf>).

Reflexiona

Tras la lectura del texto, te invito a que retires algunos ejemplos de expresiones
que puedan servir como marcas o referencias de tiempo, modo o lugar.
Entre las posibilidades, seguramente habrás encontrado: “cuando volviendo de
noche juntos por la calle”, “Si mañana se despierta como hoy”, entre otras.
Esas estructuras retiradas del texto orientan al lector y lo ubican considerando
el papel que cada uno asume en la cadena discursiva.

Vamos ahora a conocer un poco más sobre las oraciones subordinadas


adverbiales, que asumen la función de adverbio teniendo como referencia la
oración principal, informando circunstancias de modo, tiempo, lugar, etc. A
seguir, las clasificaciones.
• Oración subordinada adverbial de tiempo: desempeña la función de
complemento circunstancial de tiempo, entre los nexos más frecuentes
que suelen introducirla está cuando.
Ejemplo
Los chicos nos invitaron cuando lo vieron.

136  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

Oración (O)

SN (SV)

SN V SAdverbial
O

D N Pron Nexo
SN Sv

SN v
S adv.
prono

Los chicos nos invitaron cuando (ellos) lo vieron (cuando).

Otros ejemplos:
La secretaria nos llamó cuando lo supo.
Así que llegamos, Luis se fue.
Mientras cenábamos, los niños jugaban.

Reflexiona

Has observado la organización y las relaciones entre los componentes de la


oración, te invito a intentar hacer lo mismo con la oración a seguir:
a) La secretaria nos llamó cuando lo supo.
Seguramente habrás conseguido este modelo.

Oración (O)

SN (SV)

SN V SAdv.
O

N Pron Nexo
Sn Sv

Sn v
S adv.
prono

María nos llamó cuando (ella) lo supo (cuando).

unitins • letras • 6º PERÍODO  137


CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

• Oración subordinada Adverbial de lugar: ocurre cuando la oración


subordinada adverbial de lugar desempeña la función de complemento
circunstancial de lugar, generalmente introducida por donde y adonde.
Asimismo puede desempeñar la función de complemento regido de un
verbo indicando atributo o dirección del verbo estar.

Ejemplos
Lo vimos donde tú lo habías visto.
Siempre compra donde puede.
Estaba donde lo dejaste.
Iremos adonde usted quiera.

Oración (O)

SN (SV)

V SAdverbial

SAdv
O

N Adv Nexo SV
SN

Verbo
S adv.

(él) siempre come donde (él) puede (donde)

Reflexiona

Has observado la organización y las relaciones entre los componentes de la


oración, te invito a intentar hacer lo mismo con la oración a seguir:
a) Lo vimos donde tú lo habías visto.
Seguramente habrás conseguido este modelo.

138  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

Oración (O)

SN (SV)

SN V SAadverbial

N Pron Nexo
SN SV

SN v

prono

(nosotros) Lo vimos donde tú lo habías visto.

• Oración subordinada adverbial de modo: desempeña la función de


complemento circunstancial de modo, es generalmente introducida por
“como”.
Ejemplos
Lo hizo como se lo dijiste.
Se disfrazó como habías dicho.
Organiza el trabajo como quieras.

Oración (O)

SN (SV)

SN V SAadverbial

N Pron Nexo SV
SN

SN v
SN

prono

(él) Lo hizo como (tú) se lo dijiste.

unitins • letras • 6º PERÍODO  139


CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

• Oración subordinada adverbial causal: es la que expresa la causa que ha


dado lugar a la acción expresada por el verbo de la oración principal.
Responde a la pregunta ¿Por qué?
Ejemplo
La fiesta fue buena, ya que muchas personas interesantes fueron
invitadas.
Hay que comprar comida, que la nevera está desierta.
• Oración subordinada adverbial consecutiva: indica la consecuencia
producto de la acción de la oración principal, la oración subordinada
consecutiva expresa el efecto, diferente de la causal en la que la
subordinada expresa la causa.
Ejemplo
El profesor de literatura explica muy bien, así que el contenido resulta
muy sencillo.
Le golpearon con tanta fuerza que se quedó desmayado.
• Oración subordinada adverbial concesiva: expresa un obstáculo que
hace difícil la acción expresada por la oración principal, sin embargo
sin impedirla. Otra característica es que niega lo que parece lógico en
un primer momento.
La selección brasileña ganó el partido aunque no jugó bien.
Por más que me esfuerce, no consigo entender este contenido.
• Oración subordinada adverbial condicional: refleja una condición necesaria
para que se realice la acción del verbo de la oración principal.
Ejemplos
Estudiando todos los días, se puede aprobar el curso.
Si lo haces bien hecho, serás recompensado.
• Oración subordinada adverbial final: expresa la intención, objetivo o
finalidad de la acción de la oración principal, generalmente los nexos
empleados son: para que, a fin de que, con el objeto de que, con vistas
a que, entre otros.
Ejemplo
Se avisará oportunamente a los alumnos a fin de que nadie sea excluido.
Cierra la puerta para que no nos escuchen.
• Oración subordinada adverbial comparativa: desempeña el papel de
segundo término de una comparación establecida con un elemento

140  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

de la oración principal. Entre los modelos de oraciones comparativas


podemos encontrar: comparativas de igualdad, de superioridad y
de inferioridad.

Ejemplos
La fe es tan importante como el conocimiento. (igualdad)
Henrique trabaja más de lo que parece. (superioridad)
Este auto cuesta menos que aquél. (inferioridad)

Reflexiona

Has observado las clasificaciones de las oraciones subordinadas


adverbiales. Es el momento de practicar. Observa las oraciones y clasifícalas
correctamente.
a) Me llevó la revista para leerla en vacaciones.
b) Como había llegado temprano, fui a estudiar.
c) El dinero es tan importante como el amor.
d) Nuestro problema aumentó de modo que no encontramos solución.
Seguramente habrás conseguido este modelo
a) Final b) Causal c) Comparativa d) Consecutiva

Ahora vamos a estudiar las oraciones subordinadas adjetivas, las que


complementan a un sustantivo, desempeñando, así, la función de adjetivo. Esas
oraciones se clasifican en especificativas y explicativas.
• Oración subordinada adjetiva especificativa
Ejemplos
Van a arreglar los autos que están descompuestos.
Los soldados que llegaron son chinos.
Observa que los términos subrayados restringen o especifican el
significado del antecedente.
• Oración subordinada adjetiva explicativa
Ejemplos
Van a arreglar los autos, que están descompuestos.
Los soldados, que llegaron, son chinos.

unitins • letras • 6º PERÍODO  141


CAPÍTULO 4 • Língua espanhola vi

Los términos en destaque informan características del antecedente, pero


no lo restringen.
El criterio ortográfico usado para distinguir las especificativas de las
explicativas es el uso de comas.

Oración (O)

SN SV
S adjetivo

O
V SAdj.
Nexo
SN SV adj
D N O

adv V S Adv.

El pueblo donde (yo) nací (donde) es hermoso.

A modo de concluir, hemos observado el funcionamiento de estructuras


subordinantes que asumen significados según la circunstancia en el caso de las
adverbiales y de restricción y explicación en el caso de las adjetivas.
En este capítulo leímos otro texto del autor uruguayo Horacio Quiroga
y estudiamos algunos conceptos sobre las relaciones que se establecen
entre los grupos oracionales, deteniéndonos en las oraciones subordinadas
adverbiales y las adjetivas. En la próxima clase trataremos de cambios de los
valores verbales.

Referencias
LLORACH, E. A. Gramática de la lengua española. Madrid: Espasa Calpe,
1994.
MASIP, V. Fonología y ortografía españolas: curso integrado para brasileños.
Recife: Edições Bagaço, 2004.
QUIROGA, H. El solitario. Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.br/
download/texto/gu000048.pdf>. Accedido el: 18 ene. 2010.

142  6º PERÍODO • letras • unitins


5
CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

Cambios de valores verbales

No se es escritor por haber elegido decir ciertas cosas,


sino por la forma en que se digan.
Jean Paul Sartre

Introducción
En el capítulo anterior presentamos estructuras de oraciones compuestas,
las subordinadas adverbiales y las adjetivas, enfatizando como se construyen
las relaciones presentes en los periodos, asimismo, comentamos las funciones y
explicamos cómo reconocerlas.
A continuación, el tema que desarrollaremos enfocará el uso de algunas
estructuras con el verbo quedar (se) y sus significados, observando las diferentes
acepciones que pueden asumir a lo largo de diferentes contextos.
Una vez presentada nuestra propuesta, conviene que busques informaciones
sobre el uso del verbo quedar (se), una de las posibilidades es buscar en Internet
sitios que puedan auxiliarte, o en gramáticas que desarrollen apartados sobre
las funciones semánticas que asumen en las oraciones.

Para saber más

Son diversas las combinaciones entre elementos que componen la oración,


reforzando la funcionalidad del lenguaje, cuando pensamos que el cambio
u organización de los componentes de un periodo pueden establecer
nuevos rumbos significativos. A seguir te presentamos una dirección que
puede auxiliarte en la comprensión del tema de este capítulo. En ese
apartado encontrarás explicaciones sobre situaciones, combinaciones e
interpretaciones del uso del verbo quedar (se) en determinados contextos.
Accédelo y analiza los ejemplos presentados.
<http://culturitalia.uibk.ac.at/hispanoteca/Foro-preguntas/ARCHIVO-
Foro/Quedar-quedarse.htm>.

Al concluir esta clase, esperamos que seas capaz de reflexionar sobre el uso
del verbo quedar (se) en sus diversas utilizaciones y también conocer algunos
usos de los pronombres reflexivos.

unitins • letras • 6º PERÍODO  143


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

Ahora ¿Vamos a leer un cuento? Es del escritor español Vicente Blasco Ibáñez.
Vas a conocer el personaje don Nicomedes, un funcionario de la justicia
española. Pero no se trata de un funcionario muy convencional. ¿Quieres conocer
su oficio? ¡Lee el cuento! seguro que te va a gustar.

Un funcionario
Tendido de espaldas en el camastro, y siguiendo con vaga mirada las grietas
del techo, el periodista Juan Yáñez, único huésped de la sala de políticos,
pensaba que había entrado aquella noche en el tercer mes de su encierro.
Las nueve... La corneta había lanzado en el patio las prolongadas notas
del toque de silencio; en los corredores sonaban con monótona igualdad
los pasos de los vigilantes, y de las cenadas cuadras, repletas de carne
humana, salía un rumor acompasado; semejante al fuelle de una fragua
lejana o a la respiración de un gigante dormido; parecía imposible que en
aquel viejo convento, tan silencioso, cuya mina resultaba más visible a la
cruda luz del gas, durmiesen mil hombres.
El pobre Yáñez, obligado a acostarse a las nueve, con una perpetua luz
ante los ojos, y sumido en un silencio aplastante, que hacía creer en la
posibilidad del mundo muerto, pensaba en lo duramente que iba saldando
su cuenta con las instituciones.
¡Maldito artículo! Cada línea iba a costarle una semana de encierro; cada
palabra, un día. Y Yáñez, recordando que aquella noche comenzaba la
temporada de ópera con Lohengrin, su ópera predilecta, veía los palcos
cargados de hombres desnudos y nucas adorables, entre destellos de
pedrería, reflejos de seda y airoso ondear de rizadas plumas.
“Las nueve... Ahora habrá salido el cisne, y el hijo de Parsifal lanzará sus
primeras notas entre los siseos de expectación del público... ¡Y yo aquí!
¡Cristo! No tengo mala ópera.”
Si; no era mala. Del calabozo de abajo, como si provinieran de un subterráneo,
llegaban los nidos con que delataba su existencia un bruto de la montaña, a
quien iban a ejecutar de un momento a otro, por un sinnúmero de asesinatos.
Era un chocar de cadenas que parecía el ruido de un montón de clavos y
llaves viejas, y de cuando en cuando, una voz débil repitiendo: “Pa...dre
nuestro, que es...tás en los cielos... San...ta María”, con la expresión tímida
y suplicante del niño que se duerme en brazos de su madre.
¡Siempre repitiendo la monótona cantilena, sin que pudieran hacerle callar!
Según opinión de los más, quería con esto fingirse loco para salvar el cuello;
tal vez catorce meses de aislamiento en un calabozo, esperando a todas
horas la muerte, habían acabado con su escaso seso de fiera instintiva.
Estaba Yáñez maldiciendo la injusticia de los hombres que, por unas
cuantas cuartillas, emborronadas en un momento de mal humor, le obligaba
a dormirse todas las noches arrullado por el delirio de un condenado a
muerte, cuando oyó fuertes voces y pasos apresurados en el mismo piso
donde estaba su departamento. – No: no dormiré ahí – gritaba una voz
trémula y atiplada – ¿Soy acaso algún criminal? Soy un funcionario de

144  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

Gracia y Justicia lo mismo que ustedes... y con treinta años de servicios.


Que pregunten por Nicomedes; todo el mundo me conoce; hasta los
periódicos han hablado de mi. Y después de alojarme en la cárcel, ¿aún
quieren hacerme dormir en un desván que ni para los presos sirve? Muchas
gracias. ¿Para esto me ordenan venir?... Estoy enfermo y no duermo ahí.
Que me traigan un médico; necesito un médico.
Y el periodista, a pesar de su situación, se reía regocijado por la entonación
afeminada y ridícula con que el de los treinta años de servicios pedía el
médico. Se repitió el murmullo de voces; discutían como si formasen consejo;
se oyeron pasos, cada vez más cercanos, y se abrió la puerta de la sala de
políticos, asomando por ella una gorra con galón de oro.
– Don Juan – dijo el empleado con cierta cortedad – , esta noche tendrá
usted compañía... Dispense usted, no es mía la culpa; la necesidad... En fin:
mañana ya dispondrá el jefe otra cosa. Pase usted... señor.
Y el señor (así, con entonación irónica) pasó la puerta, seguido de dos
presos: uno, con una maleta con mantas y bastones; otro, con un saco, cuya
lona marcaba las aristas de una caja ancha y de poca altura.
– Buenas noches, caballero.
Saludaba con humildad, con aquella voz trémula que hizo reír a Yáñez,
y al quitarse el sombrero descubrió una cabeza pequeña, cana y
cuidadosamente rapada. Era un cincuentón obeso, coloradote; la capa
parecía caerse de sus hombros, y un mazo de dijes, colgando de una gruesa
cadena de oro, repiqueteaba sobre su vientre al menor movimiento.
Sus ojos, pequeños, tenían los reflejos azulados del acero y la boca
parecía oprimida por unos bigotillos curvos y caídos como dos signos
de interrogación.
– Usted dispense – dijo, sentándose-, voy a molestarle mucho; pero no es
por culpa mía: he llegado en el tren de esta noche, y me encuentro con que
me dan para dormitorio un desván lleno de ratas. ¡Vaya un viaje!
– ¿Es usted preso?
– En este momento, sí – dijo sonriendo –; pero no le molestaré mucho con
mi presencia.
Y el panzudo burgués se mostraba obsequioso, humilde, como si pidiera
perdón por haber usurpado su puesto en la cárcel.
Yáñez le miraba fijamente; tanta timidez le asombraba. ¿Quién sería aquel
sujeto? Y por su imaginación danzaban ideas sueltas, apenas esbozadas,
que parecían buscarse y perseguirse para completar un pensamiento.
De pronto, al sonar a lo lejos otra vez el quejumbroso “Padre nuestro...”
de la fiera encerrada, el periodista se incorporó nerviosamente, como si
acabase de atrapar la idea fugitiva, fijando su vista en aquel saco que
estaba a los pies del recién llegado.
– ¿Qué lleva usted ahí?... ¿Es la caja de las herramientas? El hombre pareció
dudar, pero, al fin, se le impuso la enérgica expresión interrogativa e inclinó
la cabeza afirmativamente. Después el silencio se hizo largo y penoso.
Unos presos colocaban la cama de aquel hombre en un rincón de la
sala. Yáñez contemplaba fijamente a su compañero de hospedaje, que
permanecía con la cabeza baja.
Como rehuyendo sus miradas. Cuando la cama quedó hecha y los presos se
retiraron, cerrando el empleado la puerta con el cerrojo exterior, continuó el
penoso silencio. Por fin, aquel sujeto hizo un esfuerzo, y habló:

unitins • letras • 6º PERÍODO  145


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

– Voy a dar a usted una mala noche; pero no es mía la culpa; ellos me han
traído aquí. Yo me resistía, sabiendo que es usted una persona decente, que
sentirá mi presencia como lo peor que haya podido ocurrirle en esta casa.
El joven se sintió desarmado por tanta humildad.
– No, señor; yo estoy acostumbrado a todo – dijo con ironía. ¡Se hacen en
esta casa tan buenas amistades, que una más nada importa! Además, usted
no parece mala persona.
Y el periodista, que aún no se había limpiado de sus primeras lecturas
románticas, encontraba muy original aquella entrevista, y hasta sentía
cierta satisfacción.
– Yo vivo en Barcelona – continuó el viejo – ; pero mi compañero de este
distrito murió hace poco de la última borrachera, y ayer, al presentarme en
la Audiencia, me dijo un alguacil: “Nicomedes...” Porque yo soy Nicomedes
Terruño, ¿no ha oído usted hablar de mí?... Es extraño; la Prensa ha publicado
muchas veces mi nombre. “Nicomedes, de orden del señor presidente, que
tomes el tren de esta noche.” Vengo con el propósito de meterme en una fonda
hasta el día del trabajo, y desde la estación me traen aquí, por no sé qué
miedos y precauciones; y para mayor escarnio me quieren alojar con las ratas.
¿Ha visto usted? ¿Es esto manera de tratar a los funcionarios de Justicia?
– ¿Y lleva usted muchos años desempeñando el cargo?
– Treinta años, caballero; comencé en tiempos de Isabel Segunda. Soy el
decano de la clase, y cuento en mi lista hasta condenados políticos. Tengo
el orgullo de haber cumplido siempre mi deber. El de ahora será el ciento
dos: son muchos, ¿verdad? Pues con todos me he portado lo mejor que he
podido. Ninguno se habrá quejado de mí. Hasta los ha habido veteranos
del presidio, que al verme en el último momento, se tranquilizaban decían:
“Nicomedes, me satisface que seas tú.”
El funcionario iba animándose en vista de la atención benévola y curiosa
que le prestaba Yáñez. Iba tomando tierra: cada vez hablaba con más
desembarazo.
– Tengo también mi poquito de inventor – continuó – . Los aparatos lo fabrico yo
mismo, y en cuanto a limpieza, no hay más que pedir... ¿Quiere usted verlos?
El periodista saltó de la cama, como dispuesto a huir.
– No; muchas gracias; no se moleste. Le creo. Y miraba con repugnancia
aquellas manos, cuyas palmas eran rojizas y grasientas. Restos, tal vez, de
la limpieza reciente de que hablaba; pero a Yáñez le parecían impregnadas
de grasa humana, del zumo de aquel centenar que formaba su lista.
– ¿Y está usted satisfecho de la profesión? – preguntó para hacerle olvidar
el deseo de lucir sus invenciones.
– ¡Qué remedio!... Hay que conformarse. Mi único consuelo es que cada vez
se trabaja menos. Pero ¡cuán duro es este plan!... ¡Si yo lo hubiera sabido...!
Y quedó silencioso, mirando al suelo. – Todos contra mí – continuó. Yo he
visto muchas comedias. ¿Sabe usted? He visto que ciertos reyes antiguos
iban a todas partes llevando detrás al ejecutor de su justicia, vestido de
rojo, con el hacha al cuello, y hacían de él su amigo y consejero. ¡Aquello
era lógico! El encargado de cumplir la justicia me parece que es alguien, y
alguna consideración merece. Pero en estos tiempos todo son hipocresías.
Grita el fiscal pidiendo una cabeza en nombre de no sé cuántas cosas
respetables, y a todos les parece bien; llego yo después, cumpliendo sus

146  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

órdenes, y me escupen y me insultan. Diga, señor: ¿es esto justo?... Si entro


en una fonda, me ponen en la puerta apenas me conocen; en la calle todos
rehúyen mi contacto, y hasta en la Audiencia me tiran el sueldo a los pies,
como si yo no fuese un funcionario lo mismo que ellos, como si mi dinero no
figurase en el presupuesto... ¡Todos contra mí! Y después – añadió con voz
apenas perceptible – los otros enemigos... ¡Los otros! ¿Sabe usted? Los que
se fueron para no volver, y, sin embargo, vuelven; ese centenar de infelices
a los que traté con mimos de padre, haciéndoles el menor daño posible, y
que..., ¡ingratos!, vienen a mi apenas me ven solo.
– ¡Qué!... ¿Vuelven?
– Todas las noches. Los hay que me molestan poco; los últimos, apenas; me
parecen amigos de los que me despedí ayer; pero los antiguos, los de mi
primera época, cuando aún me emocionaba y me sentía torpe, ésos son
verdaderos demonios que apenas me ven solo en la oscuridad, desfilan sobre
mi pecho en interminable procesión, me oprimen, me asfixian, rozándome
los ojos con el borde de sus ropas. Me siguen a todas partes, y así como me
hago viejo, son más asiduos. Cuando me metieron en el desván, comencé
a verlos asomar por los rincones más oscuros. Por eso pedía un médico:
estaba enfermo; tenía miedo a la noche; quería luz, compañía.
– ¿Y siempre está usted solo?
– No: tengo familia allá en mi casita de las afueras de Barcelona; una familia
que no da disgustos; un perro, tres gatos y ocho gallinas. No entienden
a las personas, y por eso me respetan, me quieren como si yo fuera un
hombre igual a los demás. Envejecen tranquilamente a mi lado. Nunca se
me ha ocurrido matar una gallina; me desmayo viendo correr la sangre.
Y decía esto con la misma voz quejumbrosa de antes, débil, anonadado,
como si sintiera el lento desplome de su interior.
– ¿Y nunca tuvo usted familia?
– ¿Yo?... ¡Como todo el mundo! A usted se lo cuento, caballero. ¡Hace
tanto tiempo que no hablo! ... Mi mujer murió hace seis años. No crea
usted que era una de esas mujerzuelas borrachas y embrutecidas, que es
el papel que en las novelas se reserva siempre a la hembra del verdugo.
Era una moza de mi pueblo, con la que casé al volver del servicio. Tuvimos
un hijo y una hija; pan, poco; miseria, mucha, y, ¿qué quiere usted?, la
juventud y cierta brutalidad de carácter me lleva ron al oficio. No crea
que conseguí fácilmente el puesto: hasta necesité influencias. Al principio
me hacía gracia el odio de la gente: me sentía orgulloso por inspirar terror
y repugnancia. Presté mis servicios en muchas Audiencias, rodamos por
media España, y los chicos, cada vez más hermosos, hasta que, por fin,
caímos en Barcelona. ¡Qué gran época! La mejor de mi vida: en cinco o
seis años no hubo trabajo. Mis ahorros se convirtieron en una casita en las
afueras, y los vecinos apreciaban a don Nicomedes, un señor simpático,
empleado en la Audiencia. El chico, un ángel de Dios, trabajador, modosito
y callado, estaba en una casa de comercio; la niña, ¡cuánto siento no tener
aquí su retrato!, la niña, que era un serafín, con unos ojazos azules y una
trenza rubia, gruesa como mi brazo y que cuando correteaba por nuestro
huertecillo parecía una de esas señoritas que salen en las óperas, no iba
a Barcelona con su madre sin que algún joven viniera tras sus pasos. Tuvo
un novio formal; un buen muchacho, que pronto iba a ser médico. Cosas

unitins • letras • 6º PERÍODO  147


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

de ella y de su madre; yo fingía no ver nada, con esa bondadosa ceguera


de los padres que se reservan para el último momento. Pero, Señor, ¡cuán
felices éramos!
La voz de Nicomedes era cada vez más temblorosa: sus ojillos azules estaban
empañados. No lloraba; pero su grotesca obesidad se agitaba con los
estremecimientos del niño que hace esfuerzos para tragarse las lágrimas.
– Pero se le ocurrió a un desalmado de larga historia dejarse coger; le
sentenciaron a muerte, y hube de entrar en funciones cuando ya casi había
olvidado cuál era mi oficio. ¡Qué día aquel! Media ciudad me conoció
viéndome sobre el tablado, y hasta hubo periodistas que, como son peor
que una epidemia (usted dispense), averiguaron mi vida, presentándonos
en letras de molde a mí y a mi familia, como si fuéramos bichos raros, y
afirmando con admiración que teníamos facha de personas decentes. Nos
pusieron en moda. Pero ¡qué moda! Los vecinos cerraban puertas y ventanas
al verme, y aunque la ciudad es grande, siempre me conocían en las calles y
me insultaban. Un día, al entrar en casa, me recibió mi mujer como una loca.
¡La niña! ¡La niña!... La vi en la cama, con el rostro desencajado, verdoso,
¡ella, tan bonita!, y la lengua manchada de blanco. Estaba envenenada,
envenenada con fósforos, y había sufrido atroces dolores durante horas
enteras; callando para que el remedio llegase tarde... ¡y llegó! Al día
siguiente ya no vivía... La pobrecita tuvo valor. Amaba con toda su alma al
mediquen, y yo mismo leí la carta en la que el muchacho se despedía para
siempre por saber de quién era hija. No la lloré. ¿Tenía acaso tiempo? El
mundo se nos venía encima; la desgracia soplaba por todos lados; aquel
hogar tranquilo que nos habíamos fabricado, se desplomaba por sus cuatro
ángulos. Mi hijo..., también a mi hijo le arrojaron de la casa de comercio,
y fue inútil buscar nueva colocación ni apoyo en sus amigos. ¿Quién cruza
la palabra con el hijo del verdugo? ¡Pobrecito! ¡Como si a él le hubieran
dado a escoger el padre antes de venir al mundo! ¿Qué culpa tenía, él,
tan bueno, de que yo le hubiese engendrado? Pasaba todo el día en casa,
huyendo de la gente, en un rincón del huertecillo, triste y descuidado desde
la muerte de la niña. ¿”En qué piensas”, Antonio?, le preguntaba. “Papá,
pienso en Anita.” El pobre me engañaba. Pensaba en él, en lo cruelmente
que nos habíamos equivocado, creyéndonos por una temporada iguales
a los demás, y cometiendo la insolencia de querer ser felices. El batacazo
sufrido fue terrible; imposible levantarse. Antonio desapareció.
– ¿Y nada ha sabido usted de su hijo? – dijo Yáñez, interesado por la
lúgubre historia.
– Si, a los cuatro días. Le pescaron frente a Barcelona; salió envuelto en redes,
hinchado y descompuesto... Usted ya adivinará lo demás. La pobre vieja se
fue poco a poco, como si los chicos tirasen de ella desde arriba; y yo, el malo,
el empedernido, me he quedado aquí, solo, completamente solo, sin el recurso
siquiera de beber, porque si me emborracho vienen ellos, ¿sabe usted?, ellos,
mis perseguidores, a enloquecerme con el aleteo de sus ropas negras, como
si fuesen enormes cuervos, y me pongo a morir... Y, sin embargo, no los odio.
¡Infelices! Casi lloro cuando los veo en el banquillo. Otros son los que me
han hecho mal. Si el mundo se convirtiera en una sola persona; si todos los
desconocidos que me robaron a los míos con su desprecio y su odio tuvieran
un solo cuello y me lo entregaran, ¡ay, cómo apretaría! ..., ¡con qué gusto!...

148  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

Y hablando a gritos se había puesto en pie, agitando con fuerza sus


puños, como si retorciese una palanca imaginaria. Ya no era el mismo ser
tímido, panzudo y quejumbroso. En sus ojos brillaban pintas rojas como
salpicaduras de sangre; el bigote se erizaba, y su estatura parecía mayor,
como si la bestia feroz que dormía dentro de él, al despertar, hubiese dado
un formidable estirón a la envoltura.
En el silencio de la cárcel resonaba cada vez más claro el doloroso
canturreo que venía del calabozo: “Pa. ..dre... nues.. .tro, que estás... en
los cielos...” Don Nicomedes no lo odia. Paseaba furioso por la habitación,
conmoviendo con sus pasos el piso que servía de techo a su víctima. Por fin,
se fijó en el monótono quejido.
– ¡Cómo canta ese infeliz! – murmuró – . ¡Cuán lejos estará de saber que
estoy yo aquí, sobre su cabeza!
Se sentó desalentado y permaneció silencioso mucho tiempo, hasta que sus
pensamientos, su afán de protesta, le obligaron a hablar.
– Mire usted, señor: conozco que soy un hombre malo y que la gente debe
despreciarme. Pero lo que me irrita es la falta de lógica. Si lo que yo hago
es un crimen, que supriman la pena de muerte y reventará de hambre en
un rincón como un perro. Pero si es necesario matar para tranquilidad de
los buenos, entonces, ¿por qué se me odia? El fiscal que pide la cabeza del
malo nada sería sin mí, que obedezco; todos somos ruedas de la misma
máquina, y ¡vive Dios! Que merecemos igual respeto, porque yo soy un
funcionario, con treinta años de servicios.
Vicente Blasco Ibáñez
(Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bk0
00047.pdf>).

¿Qué te pareció el texto? Es parte de la obra de un autor español, atento a


los detalles y argumentos fuertes para entablar una discusión sobre determinadas
posturas y relaciones en la sociedad.
Es un cuento que invita al lector a detenerse en la riqueza de las descripciones
y provoca naturalmente un ambiente de reflexión sobre los ideales que construimos,
asimismo, la forma como nos vemos y la forma como somos vistos. Te invito a
que realices un ejercicio de producción textual.

Reflexiona

Habrás observado la forma como se relacionan el periodista y el señor


Nicomedes, tu actividad será proponer nuevas direcciones para esa
narrativa, cuidado con los componentes textuales.
Entre los posibles caminos a seguir, podrías atribuir al destino el acercamiento
de los dos, por un lado el periodista es arrestado a razón de la carta enviada

unitins • letras • 6º PERÍODO  149


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

inconsecuentemente, generando cambios en la vida de las personas, entre


las cuales encontramos al señor Nicomedes, por razones políticas sufre
persecuciones después de la llegada de una carta a las televisiones locales.
Esta sería una de las formas para conducir tu narrativa breve, claro que
para ello utilizarás diálogos y descripciones más detalladas.

No podemos olvidar los aspectos gramaticales expuestos en el inicio de


este apartado, es un buen momento para constatar el significado de algunos
términos, así podremos identificar, según Masip (2004, p.147), los cambios
semánticos como una consecuencia de las relaciones que se establecen entre los
componentes de las oraciones señaladas:
Cuando la cama quedó hecha y los presos se retiraron […]

permanecer
En el ejemplo anterior, el verbo quedar aparece como sinónimo de permanecer
y es empleado para los tipos de sujeto que ser refieran a cosas u objetos.

Reflexiona

¿Qué tal buscar otro ejemplo de uso del verbo quedar en el texto? Acuér-
date que debes explicarlo.
[…] y yo, el malo, el empedernido, me he quedado aquí, solo, completa-
mente solo […]

Permanecer
En el empleo destacado el verbo quedar (se) se refiere a permanecer y tiene
como sujeto al señor Nicomedes.

El uso del verbo quedar (se) puede asumir diferentes sentidos, a seguir te
presentaremos algunos ejemplos.
Los autos quedarán en este garaje.

Permanecer
La forma verbal subrayada tiene el valor de permanecer y es empleada
generalmente con esa estructura cuando el sujeto es una cosa u objeto.

150  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

Mañana me quedaré a dormir en la casa de María.

Permanecer
La estructura verbal subrayada tiene el valor de permanecer y es empleada
con esa estructura cuando el sujeto es una persona.
Trae más panes. Sólo quedan dos.

Restar
El verbo señalado tiene el sentido de restar y el sujeto son los panes.
Hoy no queda nadie en casa.

Restar
El sentido del verbo subrayado es de restar y tiene como sujeto nadie.
La calle quedó destruida tras la lluvia.

resultar
El significado del verbo señalado corresponde a resultar y tiene un objeto o
cosa como sujeto.
Marta se quedó impresionada al verla.

resultar

La estructura destacada tiene el sentido de resultar y el sujeto es Marta.


El edificio queda cerca de aquí.

localización

El valor del verbo destacado corresponde a la localización del edificio, es


decir, tiene como sujeto un lugar.
Esa remera le queda muy bien con ese pantalón.

lucir
Esos anteojos te quedan muy grandes.

lucir

unitins • letras • 6º PERÍODO  151


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

El sentido del verbo quedar (se) en los dos casos corresponde a adecuarse
un adorno, ropa, color de cabello, a alguien. La estructura generalmente
es de pronombre OI + quedar y puede ser empleada con cosa o persona
como sujeto.
Quedé con José en ir a tomar un té.

concertar preposición
Julia y Mariana quedaron en venir a casa.

concertar preposición
Correcto, quedamos en la entrada del cine.

cita preposición
¿Quedamos a las 9h o a las 9h 30?

cita preposición
El grupo irá al cine. Quedamos el martes.

encuentro

En los ejemplos anteriores hemos observado el uso del verbo quedar (se) con
el sentido de concertar una cita, un compromiso o un encuentro. Otro aspecto
que merece atención en su estructura verbal es la presencia de la preposición y
algunas circunstancializaciones, refiriéndose a lugar, hora, determinada fecha
entre otros referenciales.

Reflexiona

Considerando los modelos y valores presentados anteriormente indica el


sentido adecuado de los verbos destacados en las frases a seguir:
1. No necesitamos tomar un taxi; el centro comercial queda muy cerca de aquí.
______________________________________________________________
2. Perdón, ¿dónde queda el cine oro?
______________________________________________________________
3. Es mejor que vayas a hablar con Carlos, pues se quedó muy enojado contigo.
______________________________________________________________
4. En el encuentro de la semana pasada no resolvimos todo; aún quedan
algunos problemas.
______________________________________________________________

152  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

Respuestas
1. Localización, pues se refiere a la ubicación en relación a su orientación.
2. Localización, pues está relacionado a la localización del cine.
3. Resultado, producto de una acción.
4. Restar, parte de las actividades propuestas no se han realizado.

5.1 Algunos usos de los pronombres reflexivos


Cuando su referencial es el sujeto, empleamos se en función de complemento
indirecto o directo. El sujeto realiza y recibe la acción. En la circunstancia en
que no sea el referente, aparecen complementos directos: la, las, lo y los.
Complementos indirectos: le y les. Esta diferencia es fundamentalmente semántica
y no sintáctica. En la ausencia de un sintagma nominal que cumpla la función de
complemente directo el se asume ese papel, y cuando lo hay, asume la función
de indirecto.
El chico se ducha.

quien ejecuta y recibe la acción

Reflexivo, complemento directo, pues la acción es ejecutada y recae sobre


el mismo individuo.
Al hermano lo arregla su madre.

recae la acción quien ejecuta


No reflexivo, complemento directo, pues la ejecutora de la acción es su
madre, y recae sobre otro individuo que es el hermano.
La chica se lava la cara.

quien ejecuta recae la acción

Reflexivo, complemento indirecto, la existencia del sintagma nominal determina


el complemento indirecto.
A la chica le lava la cabeza su madre.

recae la acción quien ejecuta

No reflexivo, complemento indirecto, pues la madre hace la acción que


recae sobre la chica.

unitins • letras • 6º PERÍODO  153


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

En algunas situaciones tiene el valor de factitivo, pues no se refiere al ejecutor


de la acción, sino quien indirectamente participa, mediante las órdenes para la
realización de la acción.
Nos hicimos una casa en la ciudad.
No significa que haya participado de la construcción de la casa, sino que
haya contratado a los albañiles e ingenieros.
La semana pasada me corté el cabello.
No significa que haya participado directamente de la acción de cortar el
cabello, sino que el peluquero lo haya hecho mediante sus órdenes.
Vimos como el verbo quedar (se) puede asumir diferentes valores a partir del
contexto en el cual esté implicado, también observamos el uso de los reflexivos
como una forma de reconocerlos y comprender su sentido en la organización de
las oraciones.

Rincón cultural
El español centroamericano presenta algunas particularidades con el
uso de los pronombres de tratamiento, por un lado encontraremos el uso
de usted como marcador de distanciamiento, respeto o cortesía, lo que no
se aleja radicalmente de la otra parte del mundo de hispanohablantes. Las
particularidades saltan a nuestros ojos cuando que expresar solidaridad,
familiaridad o afecto, pues existen tres modos de manifestarlo, utilizando las
estructuras vos, usted y tú, conocidos también como voseo, tuteo o ustedeo.
En países como El Salvador y Guatemala, además de la función
pronominal, en determinadas circunstancias tiene valor expresivo en el final
de la frase, en esas realidades el pronombre tú es más empleado como
marcador de solidaridad.
El uso de Usted en determinados contextos como marcador de familiaridad,
ocurre en Parte de América Central, y generalmente entre jóvenes y personas
mayores, sin embargo vamos a observar que ocurre un intercambio entre los
tres pronombres en esa realidad de centroamericana.
(PACHECO, 1996, p. 107).

En este capítulo leímos un texto de autor español Vicente Blasco Ibáñez de


fines del siglo XIX, propusimos una reflexión sobre algunas de las escenas que
son descriptas en la narrativa. En el apartado gramatical estudiamos algunos
usos y los diferentes valores del verbo quedar (se), enfocando estructuras y
sentidos, en la última parte nos detuvimos en los reflexivos. En la próxima clase
continuaremos nuestro estudio sobre estructuras verbales y también estudiaremos

154  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

marcadores discursivos que indican pertenencia sin uso de posesivos y uso de se


para expresar involuntariedad.

¿Cómo se dice?
En algunas zonas rurales de El Salvador y Guatemala, encontramos
variaciones de timbres de las vocales átonas: dispertar, sepoltura, escribir,
dicir, escuro, menistro, fechuría.
Situación contraria ocurre en algunas zonas territoriales de Costa Rica
y El Salvador, el ensordecimiento de las vocales finales: noch…, puent…,
La lengua se presente con sus diversas variantes.
(PACHECO, 1996, p. 102).

Referencias
IBAÑEZ, V. B. El funcionario. Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.
br/download/texto/bk000047.pdf>. Accedido el: 18 ene. 2010.
MASIP, V. Fonología y ortografía españolas: curso integrado para brasileños.
Recife: Edições Bagaço, 2004.
PACHECO, M. A. Q. El español de América Central. In: Manual de dialectología
hispánica: el español de América. Barcelona: Ed. Ariel, 1996.

Anotaciones

unitins • letras • 6º PERÍODO  155


CAPÍTULO 5 • Língua espanhola vi

156  6º PERÍODO • letras • unitins


6
CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

Estrategias de lectura

Al escribir proyectas un mundo a tu medida.


Jesús Fernández Santos

Introducción
En el capítulo anterior presentamos el uso de algunas estructuras verbales
con el verbo quedar (se), a la vez presentamos algunos usos de los reflexivos y
como lectura tuvimos un cuento del escritor español Vicente Blasco Ibáñez.
Tras la exposición sobre los temas desarrollados en el capítulo anterior,
iniciaremos el sexto capítulo reflexionando sobre algunas acepciones de lectura,
el lector y algunas estrategias para interactuar con el texto, a la vez presentaremos
estructuras de involuntariedad con el uso de se, asimismo, analizaremos estructuras
de pertenencia sin el posesivo.
Una vez presentado el curso que seguiremos, conviene que busques en
<http://intercentres.cult.gva.es/ieselclot/HTML/departaments/angles/lectura.
htm>, algunas informaciones sobre estrategias de lectura. En esa página
encontrarás orientaciones que pueden sumarse a la exposición que haremos en
este capítulo, además de auxiliarte en tus lecturas.
Al concluir esta clase, esperamos que seas capaz de reflexionar sobre
algunas estrategias de lectura y la importancia del lector en la construcción
significativa, uso de se con el valor de involuntariedad y recursos estructurales
que signifiquen pertenencia sin el uso de posesivos.
Ahora les invito a leer otro cuento de Horacio Quiroga. ¿Sabes lo que es una
mordedura de culebra? ¿Ya la sufriste o conoces a alguien que la haya sufrido?
En el cuento un hombre la ha sufrido. Léelo para saber que ha pasado con él
después de una mordedura de yararacusú.

A la deriva
El hombre pisó algo blanduzco, y en seguida sintió la mordedura en el pie.
Saltó adelante, y al volverse con un juramento, vio una yararacusú que
arrollada sobre sí misma esperaba otro ataque.

unitins • letras • 6º PERÍODO  157


CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

El hombre echó una veloz ojeada a su pie, donde dos gotitas de sangre
engrosaban dificultosamente, y sacó el machete de la cintura. La víbora vio
la amenaza y hundió más la cabeza en el centro mismo de su espiral; pero
el machete cayó de plano, dislocándole las vértebras.
El hombre se bajó hasta la mordedura, quitó las gotitas de sangre, y durante
un instante contempló. Un dolor agudo nacía de los dos puntitos violeta y
comenzaba a invadir todo el pie. Apresuradamente se ligó el tobillo con su
pañuelo y siguió por la picada hacia su rancho.
El dolor en el pie aumentaba, con sensación de tirante abultamiento, y de
pronto el hombre sintió dos o tres fulgurantes puntadas que como relámpagos
habían irradiado desde la herida hasta la mitad de la pantorrilla. Movía la
pierna con dificultad; una metálica sequedad de garganta seguida de sed
quemante le arrancó un nuevo juramento.
Llegó por fin al rancho, y se echó de brazos sobre la rueda de un trapiche.
Los dos puntitos violeta desaparecían ahora en la monstruosa hinchazón del
pie entero. La piel parecía adelgazada y a punto de ceder de tensa. Quiso
llamar a su mujer y la voz se quebró en un ronco arrastre de garganta
reseca. La sed lo devoraba.
– ¡Dorotea! – alcanzó a lanzar en un estertor. – ¡Dame caña!
Su mujer corrió con un vaso lleno, que el hombre sorbió en tres tragos. Pero
no había sentido gusto alguno.
– ¡Te pedí caña, no agua! – rugió de nuevo. – ¡Dame caña!
– ¡Pero es caña, Paulino! – protestó la mujer espantada.
– ¡No, me diste agua! ¡Quiero caña, te digo!
La mujer corrió otra vez, volviendo con la damajuana. El hombre tragó uno
tras otro dos vasos, pero no sintió nada en la garganta.
– Bueno; esto se pone feo – murmuró entonces, mirando su pie lívido y
ya con lustre gangrenoso. Sobre la honda ligadura del pañuelo, la carne
desbordaba como una monstruosa morcilla.
Los dolores fulgurantes se sucedían en continuos relampagueos y llegaban
ahora a la ingle. La atroz sequedad de garganta que el aliento parecía
caldear más, aumentaba a la par. Cuando pretendió incorporarse, un
fulminante vómito lo mantuvo medio minuto con la frente apoyada en la
rueda de palo.
Pero el hombre no quería morir, y descendiendo hasta la costa subió a su
canoa. Se sentó en la popa y comenzó a palear hasta el centro del Paraná.
Allí la corriente del río, que en las inmediaciones del Iguazú corre seis
millas, lo llevaría antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.
El hombre, con sombría energía, pudo efectivamente llegar hasta el medio
del río; pero allí sus manos dormidas dejaron caer la pala en la canoa, y
tras un nuevo vómito – de sangre esta vez – dirigió una mirada al sol que
ya trasponía el monte.
La pierna entera, hasta medio muslo, era ya un bloque deforme y durísimo
que reventaba la ropa. El hombre cortó la ligadura y abrió el pantalón
con su cuchillo: el bajo vientre desbordó hinchado, con grandes manchas
lívidas y terriblemente dolorido.
El hombre pensó que no podría jamás llegar él solo a Tacurú-Pucú, y se
decidió a pedir ayuda a su compadre Alves, aunque hacía mucho tiempo
que estaban disgustados.

158  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

La corriente del río se precipitaba ahora hacia la costa brasileña, y el


hombre pudo fácilmente atracar. Se arrastró por la picada en cuesta arriba,
pero a los veinte metros, exhausto, quedó tendido de pecho.
– ¡Alves! – gritó con cuanta fuerza pudo; y prestó oído en vano.
– ¡Compadre Alves! ¡No me niegue este favor! – clamó de nuevo, alzando
la cabeza del suelo. – En el silencio de la selva no se oyó un solo rumor. El
hombre tuvo aún valor para llegar hasta su canoa, y la corriente, cogiéndola
de nuevo, la llevó velozmente a la deriva.
El Paraná corre allí en el fondo de una inmensa hoya, cuyas paredes, altas
de cien metros, encajonan fúnebremente el río. Desde las orillas bordeadas
de negros bloques de basalto, asciende el bosque, negro también. Adelante,
a los costados, detrás, la eterna muralla lúgubre, en cuyo fondo el río
arremolinado se precipita en incesantes borbollones de agua fangosa. El
paisaje es agresivo, y reina en él un silencio de muerte. Al atardecer, sin
embargo, su belleza sombría y calma cobra una majestad única.
El sol había caído ya cuando el hombre, semi-tendido en el fondo de la
canoa, tuvo un violento escalofrío. Y de pronto, con asombro, enderezó
pesadamente la cabeza: se sentía mejor. La pierna le dolía apenas, la sed
disminuía, y su pecho, libre ya, se abría en lenta inspiración.
El veneno comenzaba a irse, no había duda. Se hallaba casi bien, y aunque
no tenía fuerzas para mover la mano, contaba con la caída del rocío para
reponerse del todo. Calculó que antes de tres horas estaría en Tacurú-Pucú.
El bienestar avanzaba, y con él una somnolencia llena de recuerdos. No
sentía ya nada ni en la pierna ni en el vientre. ¿Viviría aún su compadre
Gaona en Tacurú-Pucú? Acaso viera también a su ex-patrón míster Dougald,
y al recibidor del obraje. ¿Llegaría pronto? El cielo, al poniente, se abría
ahora en pantalla de oro, y el río se había coloreado también. Desde la
costa paraguaya, ya entenebrecida, el monte dejaba caer sobre el río su
frescura crepuscular, en penetrantes efluvios de azahar y miel silvestre. Una
pareja de guacamayos cruzó muy alto y en silencio hacia el Paraguay.
Allá abajo, sobre el río de oro, la canoa derivaba velozmente, girando a
ratos sobre sí misma ante el borbollón de un remolino. El hombre que iba
en ella se sentía cada vez mejor, y pensaba entretanto en el tiempo justo
que había pasado sin ver a su ex-patrón Dougald. ¿Tres años? Tal vez no,
no tanto. ¿Dos años y nueve meses? Acaso. ¿Ocho meses y medio? Eso sí,
seguramente.
De pronto sintió que estaba helado hasta el pecho. ¿Qué sería? Y la
respiración también...
Al recibidor de maderas de míster Dougald, Lorenzo Cubilla, lo había
conocido en Puerto Deseado, un viernes santo... ¿Viernes? Sí, o jueves...
El hombre estiró lentamente los dedos de la mano.
– Un jueves...
Y cesó de respirar.
Horacio Quiroga
(Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bk0
00163.pdf>).

unitins • letras • 6º PERÍODO  159


CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

Diferentemente do los capítulos anteriores, no les voy a dejar conducir


el barco de la decodificación e interpretación solos, les presentaré algunos
conceptos sobre lectura, a la vez algunas estrategias que puedan auxiliarlos en
su labor docente.

6.1 Lectura y estrategias


Solemos escuchar de todos los involucrados en nuestra formación frases
como ¡leer es muy importante!, ¡debes leer!, ¡para mejorar tu producción textual
tienes que leer! Ninguna está mal, sin embargo leer es algo que requiere algunos
pasos, poco conocidos o tal vez no considerados por diversas razones.
Iniciemos nuestro camino con preguntas como ¿qué significa leer? ¿para qué
leer? y principalmente, ¿cómo leer? Las respuestas para esas preguntas deben
considerar como punto inicial algunos de los elementos que están involucrados en
el proceso de lectura. Empecemos por el autor, una figura que por medio de sus
idiosincrasias con implicaciones contextuales y sistémicas de la lengua, construye
por medio del discurso su representación mental. Algunas son extremamente
complejas, otras no requieren del lector un conocimiento previo tan profundizado,
sin embargo su protagonismo como decodificador y edificador de sentido en la
lectura es fundamental.
Presentada una idea inicial, podemos proponer algunas respuestas a las
preguntas anteriores, entre las cuales iniciamos con una acepción para leer,
actividad que requiere del lector una sintonía con el tema, el sistema lingüístico
empleado por el autor, en algunas circunstancias reconocer y contextualizar
el autor, asimismo reconocer, reproducir y significar lo que está dicho y lo no
dicho, es decir la lectura es una constante resignificación protagonizada por
el lector.
El sentido de lectura ha sido objeto de muchas investigaciones en diversas
instituciones de enseñanza, nuestro propósito no es agotar el tema, incluso
porque no vamos a conseguirlo, pero proponer algunas orientaciones que
puedan facilitar la lectura y las actividades que, como profesor o futuro profesor,
propones en el aula.
Esperamos que todo lector analice, critique, resinifique las informaciones al
contextualizarlas, manifieste su placer mediante un texto o lo rechace a razón
de su ideología, pero la interacción motivará una reacción. Podemos trabajar
con anticipaciones e hipótesis a lo largo de nuestra lectura, es una forma de
dialogar con el texto, pues ponemos como referenciales de contrapunto nuestras
experiencias, creencias y conceptos que nos definen como sujeto.
El título, el autor, el soporte o medio de vehiculación, el género textual, la
tipología textual, la forma como está dispuesto el texto y la organización de
las informaciones.

160  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

¿Qué les parece empezar con el título? Generalmente es algo que el autor
utiliza para provocar y estimular nuestra curiosidad, asimismo es un adelantamiento
de lo que posiblemente veremos, caso continuemos la lectura, es decir, es abrir la
puerta ofreciendo pocas informaciones sobre lo que encontraremos.

Reflexiona

A mí me encanta la práctica, imagino que quieran empezar a ejercitar ese


diálogo con el texto, es un momento para considerar las orientaciones,
entablar un diálogo con el autor. No se vayan a olvidar de la importancia
que ustedes tienen a la hora de construir el significado del texto, por ello
mucha atención y disciplina.

6.2 Involuntariedad con el uso de se


En la mayoría de las veces empleamos frases que expresan nuestra
involuntariedad en algunas situaciones, es decir, algo ocurre y estamos implicados,
sin embargo no tuvimos la intención. Además de esas estructuras, encontramos el
se, una partícula que expresa la involuntariedad del sujeto sobre el acontecimiento.
Ejemplo

Estaba comiendo un perro caliente y se me cayó de las manos.

singular singular
involuntariedad

El verbo caer está en singular pues concuerda con el perro caliente que en
esa circunstancia es la cosa afectada.
A seguir te presentaremos algunas estructuras para que comprendas el uso
de se como involuntariedad.

A José se le descompuso el auto.

Persona afectada pronombre de OI Verbo en 3ª persona singular

Involuntariedad singular
Acontecimiento involuntario

unitins • letras • 6º PERÍODO  161


CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

A los brasileños se les nota el acento al hablar.

Personas afectadas pronombre de OI Verbo en 3ª persona singular

Involuntariedad singular

Acontecimiento involuntario

A vosotros se os han perdido los recibos.

Personas afectadas pronombre de OI Verbo en 3ª persona plural

Involuntariedad plural

Acontecimiento involuntario

A los chicos se les rompieron los vasos.

Personas afectadas pronombre de OI Verbo en 3ª persona plural

Personas afectadas plural

Involuntariedad Acontecimiento involuntario

Otras estructuras que indican involuntariedad. Ejemplos:

El tiempo se nos acaba, debemos apurarnos.

involuntariedad acontecimiento involuntario

No dejes que los animales se te escapen al campo.

involuntariedad acontecimiento

Se te estropeará la falda si la lavas con jabón azul.

162  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

¿No se les ha ocurrido un plan mejor?


Se me olvidó cerrar el candado.
Nuestras llaves se nos han perdido en la multitud.
Esa mugre se le ha pegado a Jorge.
Por el gusto de la comida, se me ha quemado un poco.
Con la falda transparente se te ve la ropa interior.

Reflexiona

Considerando las explicaciones anteriores, te presentamos algunas frases


para que puedas practicar.
Transforma las oraciones voluntarias en involuntarias. Observa el ejemplo.
Han apagado el incendio. Se les ha apagado el incendio
Paré el motor del avión. ___________________________________________
Ha estropeado el equipo de sonido._________________________________
Quemaste el estofado. ____________________________________________
Partieron los cristales al medio. _____________________________________
Han pinchado la pelota. ___________________________________________
Posibles respuestas
Se me paró el motor del avión.
Se le ha estropeado el equipo de sonido.
Se te ha quemado el estofado.
Se les partieron los cristales al medio.

6.3 Posesivo dativo


Nuestra primera actitud para comprender este contenido es definir el posesivo
dativo. Sobre ese tema Dimitrescu (1990, p. 404) afirma que es la construcción
gramatical en la que un clítico pronominal en dativo actúa como correferencial con
un Sintagma Nominal, el cual entra en una relación semántica de posesión con otro
SN de la misma oración. Un ejemplo:

Juan le cortó el pelo a María.

Clítico pronominal Sintagma nominal


en dativo

unitins • letras • 6º PERÍODO  163


CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

Observemos que entre “el pelo” y “a María” existe una relación semántica
de posesión, es decir, el pelo es el objeto poseído por María, que a la vez es
diferente del sujeto Juan.

Vamos a otros ejemplos:

Me arregala los cabellos el miesmo peluquero de siempre.

Clítico pronominal Sintagma nominal


en dativo

Relación semántica de posesión entre los cabellos


y El pronombre que se refiere a mis cabellos.

Os han llenado la casa de animales.

Clítico pronominal Sintagma nominal


en dativo

Relación semántica de posesión entre la casa y el


pronombre que se refiere a vuestra casa.

Más ejemplos:
Le sellaron los papeles.

La relación semántica de posesión ocurre entre el/ella/usted y los papeles


(sus papeles).

6.3.1 Forma reflexivas


En este contexto el poseedor es el sujeto, ejemplo:
Te operaste la boca.

Jorge se tiñó el cabello.

Esa estructura es la más empleada para referirse a las partes del cuerpo,
acciones y pertenecías personales.

164  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

Reflexiona

Teniendo en cuenta los conceptos y explicaciones sobre el posesivo dativo,


relaciona las frases de la primera columna con las de la segunda columna
y añade los pronombres correspondientes.
a) Hoy se dedicó a preparar su equipaje. (  ) ___ ensuciaron varias fotos.
b) Deberías escribir el texto para la noche. (  ) no ____ ha pagado el
cheque.
c) Tuve un sorpresa desagradable en el banco: (  ) ____doblé varias
remeras.
d) _____ lastimé el ojo. (  ) ¿Ya ______ arreglaron el ordenador?
e) Mis amigos se pusieron a jugar con mi balón (  ) Preferí no pintar ____
los ojos.
Las posibles respuestas son
La secuencia de las letras es: e, c,a,b, d. La secuencia de los pronombres es
Me ensuciaron varias fotos.
No me ha pagado el cheque.
Se dobló varias remeras.
Me lastimé el ojo.
Me arreglaron el ordenador.

A modo de concluir, la importancia de la lectura en nuestra formación es


algo indiscutible, repensarla y comprender ese proceso es fundamental para
aprovecharlo mejor, así podremos interpretar y comprender estructuras como el
posesivo dativo y la involuntariedad de se.

Rincón cultural
El castellano boliviano está condicionado por la geografía boliviana
como variante dialectal de español, presenta tres regiones en las cuales
encontramos varios tipos dialectales determinados, en gran medida, por la
influencia del sustrato, por el bilingüismo y por las consecuencias emergentes
de las lenguas en contacto en las tres zonas. En la 1ª zona que abarca la
región andina centro y sudoccidental comprendiendo los departamentos de La
Paz, Oruro, Cochabamba, Potosí y Chuquisaca encontraremos un castellano
que se mezcla con el aimara, en algunas regiones el castellano que se mezcla
con el quechua. En la segunda zona, región de los departamentos Pando,
Bení y Santa Cruz, entre las lenguas que influencian el castellano están: el
tupi-guaraní, chimán, ignaciano, trinitario, quechua, movima y yuracaré. En
la tercera zona, que comprende el departamento de Tarija con influjos de las
lenguas quechua, mataco y guaraní (ALVAR, 1996, p.173).

unitins • letras • 6º PERÍODO  165


CAPÍTULO 6 • Língua espanhola vi

En este capítulo leímos un texto de Horacio Quiroga, utilizándolo para una


reflexión sobre los conceptos de lectura, lector y autor, comentando la importancia
de la sintonía y el papel de resinificación a partir de las comparaciones entre
los referenciales del autor del texto y su lector. Además, estudiamos estructuras
y conceptos que explican las relaciones de involuntariedad construidas con la
partícula se, en la última parte del aparto nos detuvimos en las expresiones y
su formación con el dativo posesivo. En la próxima clase continuaremos nuestro
estudio retomando y profundizando nuestros estudios sobre el plano lingüístico,
dando énfasis a algunos aspectos gramaticales estudiados anteriormente, de
paso, lectura e interpretación de textos que servirán como trasfondo para
nuestras reflexiones.

¿Cómo se dice?
El superdialecto central andino
En la zona central andina, suele conservar la s implosiva, pero
también la aspiración de la s, tanto intervocálica como posvocálica. Por
otro lado, frecuentemente se llega a elidir la s intervolcálica, ejemplo
nehesita, nohotros, noótros. Otro rasgo interesantes es la preservación de
la identidad fonológica de r y l, conservando la r final y solo en zonas
próximas al surperdialecto costeño se da la n velar.
(MONTES, 1996, p. 138).

Referencias
DIMITRESCO, D. El dativo posesivo en español y en rumano. Disponible en:
<http://www.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/2358062 0981225
075343679/p0000001.htm#I_0_> accedido el: 18 enero de 2010>.
MONTES, J. J. Argentina-Uruguay. In: Manual de dialectología hispánica: el
español de América. Barcelona: Ed. Ariel, 1996.
QUIROGA. H. A la deriva. Disponible en: <http://www.dominiopublico.gov.br/
download/texto/bk000163.pdf>. Accedido el: 18 ene. 2010.

Anotaciones

166  6º PERÍODO • letras • unitins


7
CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

Usos de la lengua

No se es escritor por haber elegido decir ciertas cosas,


sino por la forma en que se digan.
Jean Paul Sartre

Introducción
En el capítulo anterior presentamos estructuras implicadas en la elaboración
de de la relación semántica de dativo posesivo, otro tema desarrollado ha sido
el se de involuntariedad, en la introducción del capítulo tuvimos un texto de
Horacio Quiroga y a la vez, entablamos una exposición sobre el concepto de
lectura y los implicados en la construcción del significado del texto.
En este último capítulo retomaremos algunos temas mediante actividades
y textos, una buena oportunidad para retomar discusiones y profundizar aún
tus estudios sobre la lengua española. Te invitamos a que revisites los capítulos
anteriores y utilices una gramática para auxiliarte.

Para saber más

Son diversas las combinaciones entre elementos que componen la oración,


reforzando la funcionalidad del lenguaje, cuando pensamos que el cambio
u organización de los componentes de un periodo pueden establecer nue-
vos rumbos significativos. A seguir te presentamos una dirección que puede
auxiliarte en la comprensión del tema en este capítulo. En ese apartado
encontrarás explicaciones sobre situaciones, combinaciones e interpreta-
ciones del uso del verbo quedarse en determinados contextos. Accédelo y
analiza los ejemplos presentados: <http://culturitalia.uibk.ac.at/hispanote-
ca/Foro-preguntas/ARCHIVO-Foro/Quedar-quedarse.htm>.

Al concluir esta clase, esperamos que seas capaz de emplear los temas
gramaticales estudiados a lo largo de este cuaderno de contenidos.
En este capítulo te presentamos un texto del gran escritor estadounidense
Edgar Allan Poe. Se trata de una descripción de los más variados tipos humanos
que nos lleva a reflexionar sobre la vida, la propia condición humana.

unitins • letras • 6º PERÍODO  167


CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

El hombre de la multitud
Con razón se ha dicho de cierto libro alemán que es “lässt sich nicht lesen”
(que no se deja leer). De igual modo existen algunos secretos que no se
dejan descubrir. Hay hombres que mueren por la noche en sus camas,
estrechando las manos de sus espectrales confesores y mirándoles con ojos
lastimeros. Que mueren con la desesperación en el alma y opresiones en la
garganta que no permiten ser descritas. De vez en cuando, la conciencia
humana soporta cargas de un horror tan pesado que sólo pueden arrojarse
en la misma tumba. De este modo, la mayoría de las veces queda sin
descubrir el fondo de los crímenes.
No hace mucho tiempo, al declinar el día de una tarde otoñal, me encontraba
yo sentado junto a la gran cristalera en rotonda del café D..., en Londres.
Había pasado varios meses enfermo, pero ahora me hallaba convaleciente
y al recuperar las fuerzas me sentía en uno de esos felices estados de ánimo
que constituyen precisamente, el reverso del tedio; estados de ánimo de
una gran agudeza, cuando la película de la visión mental desaparece y el
intelecto electrificado sobrepasa con mucho su condición normal, del mismo
modo que la razón viva y la voz pura de Leibniz supera la retórica débil y
confusa de las Geórgicas. Simplemente respirar era una delicia y obtenía
un placer positivo incluso de las fuentes que originariamente lo son de dolor.
Me sentía tranquilo y con un profundo interés por todo. Con un cigarro en
la boca y un periódico sobre mis rodillas, había estado distrayéndome
gran parte de la tarde, ora recorriendo los anuncios, ora observando la
mezclada concurrencia del establecimiento, sin dejar, de vez en cuando,
de atisbar la calle a través de los ventanales empuñados por el humo. Esta
última era una de las vías principales de la ciudad y durante todo el día
rebosaba de animación.
Conforme iba haciéndose de noche, el gentío aumentaba. Cuando se
encendieron las luces, dos densas y continuas corrientes de transeúntes
comenzaron a entrar y salir del establecimiento. Nunca me había encontrado
en una situación como aquélla y, por tanto, aquel mar tumultuoso de cabezas
humanas me llenaba de una emoción deliciosamente nueva. Dejé de prestar
atención a lo que sucedía en el interior del hotel para absorberme de lleno
en la contemplación del exterior. Al principio mis observaciones adoptaron
un cariz abstracto y general. Miraba a los transeúntes en masa y pensaba
en ellos como formando una unidad amalgamada por sus características
comunes. Pronto, sin embargo, descendí a los detalles y observé con
minucioso interés las innumerables variedades de tipos, vestidos, aires,
portes, aspectos y fisonomías.
La gran mayoría de los que pasaban tenían el aire satisfecho de gente
ocupada y su única preocupación parecía ser la de abrirse paso entre la
muchedumbre. Llevaban las cejas fruncidas y volvían sus ojos rápidamente
en todas direcciones. Cuando eran empujados por otros transeúntes no
daban el menor signo de impaciencia, sino que se componían un poco
la ropa y continuaban su camino. Otros, todavía una gran mayoría,
se movían intranquilos, mostraban el rostro enrojecido y hablaban

168  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

gesticulando consigo mismo, como si precisamente se encontraran


aislados por la misma densidad de la concurrencia que les rodeaba.
Cuando se veían obstaculizados en su avance, esta gente dejaba pronto
de murmurar para sí, pero doblaban sus gestos y esperaban con una
sonrisa ausente e inexpresiva en los labios el paso de las personas que
impedían el suyo. Si les empujaban, se disculpaban con una inclinación
ante los mismos que les habían empujado y parecían abrumados por
la confusión. En estos dos grupos que he señalado no había nada
especialmente característico.
Sus prendas de vestir pertenecían a esa clase que se ha dado en
llamar, decente. Sin lugar a dudas, se trataba de familias distinguidas:
comerciantes, abogados, hombres de negocios, rentistas, los eupátridas
y la clase media de la población, gente empleada y gente ocupada en
sus mismos negocios. Todos ellos no llamaban demasiado la atención.
La tribu de los empleados era inconfundible, y yo en este punto distinguía
dos grupos muy marcados. Por un lado, los jóvenes empleados de casas
florecientes, jóvenes de chaquetas ajustadas, botines brillantes, cabello
engomado y labios desdeñosos. Dejando aparte un cierto empaque que
yo me atrevía a llamar de mesa de despacho, a falta de otra palabra, las
maneras de esta clase de personas me parecían un exacto facsímil de las
que se habían considerado como la perfección del buen tono cerca de doce
o dieciocho meses antes. Usaban la gracia de desecho de la aristocracia,
y ésta, pienso, puede ser la mejor definición de los mismos.
Los altos empleados de firmas sólidas resultaban inconfundibles. Se les
conocía por sus chaquetas y pantalones blancos o marrones, diseñados
para sentarse cómodamente, con corbatas negras y chalecos del mismo
color, zapatos anchos y de sólida apariencia. Todos eran algo calvos y
sus erguidas orejas, a causa de sostener los palilleros, habían adquirido el
hábito de separarse en sus extremidades superiores. Me di cuenta de que
al quitarse o ponerse el sombrero, siempre utilizaban las dos manos y que
usaban relojes de cortas cadenas de oro de un modelo sólido y anticuado.
Tenían la afectación de la respetabilidad, si es que realmente puede existir
una afectación tan honorable.
Había muchos individuos de aspecto osado a quienes pronto reconocí
como pertenecientes a la raza de los rateros elegantes que infestan todas
las grandes ciudades. Vigilé con atención a esta calaña y me resultó difícil
imaginar cómo podrían ser confundidos por caballeros por los mismos
caballeros. Los puños de sus camisas, demasiado salientes, y sus aires de
excesiva franqueza, habrían bastado para delatarlos.
Los tahúres, de los que identifiqué no pocos, eran todavía más fáciles de
reconocer. Usaban gran variedad de trajes, desde el tramposo camorrista
con chaleco de terciopelo, corbata de fantasía, cadena dorada y botones
de filigrana, hasta el clérigo expulsado, tan parcamente vestido que
nadie podía estar más alejado de sospechar de él. Todos, no obstante, se
distinguían por cierto color moreno de su curtido cutis, por un apagamiento
de los ojos y por la palidez de sus labios apretados. Además, había también
otros dos rasgos, por los cuales yo siempre los distinguía: una tonalidad
baja y cautelosa en la conversación y un pulgar excesivamente estirado,
hasta formar ángulo recto con los demás dedos.

unitins • letras • 6º PERÍODO  169


CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

Muy a menudo, en compañía de aquellos pícaros, he observado otra clase


de hombres algo diferentes en sus costumbres, pero, en definitiva, pájaros del
mismo plumaje. Se les podría definir como caballeros que viven del cuerno.
Parecen dividirse en dos batallones para devorar al público: el de los dandys
y el de los falsos militares. En el primer grupo los rasgos característicos son:
cabellos largos y sonrisas; en el segundo, levitas y ceños fruncidos.
Descendiendo en la escala de lo que se llama nobleza, encontré temas
de meditación más oscuros y profundos. Vi traficantes judíos con ojos de
halcón que brillaban en unas caras cuya única expresión era de abyecta
humildad. Porfiados mendigos profesionales que apartaban a los pobres
de mejor aspecto y a quienes sólo la desesperación les había lanzado en
medio de la noche a implorar caridad. Inválidos débiles y depauperados
a quienes la muerte había señalado con su mano y que se retorcían y se
tambaleaban entre la muchedumbre, mirando suplicantes a todas partes
como en busca de alguna posibilidad de consuelo, de alguna esperanza
perdida. Modestas jóvenes que volvían de una larga y prolongada
labor hacia un hogar sin alegría y que retrocedían, más temerosas que
indignadas, ante las miradas de los rufianes, cuyo contacto directo no
podían evitar a pesar suyo. Prostitutas de todo género y edad: inequívocas
bellezas en toda la flor de su feminidad que hacían recordar la estatua
de Luciano, estatuas cuya superficie era como el mármol de Paros y cuyo
interior estaba lleno de inmundicias; la repulsiva, completamente hundida
en el fango; la arrugada y pintarrajeada bruja que intenta una última
apariencia de juventud; la que es todavía una niña de formas sin modelar,
pero que ya está entregada a las terribles coqueterías de su tráfico y
ardiendo con feroz ambición por verse colocada al nivel de las mayores
en el vicio... Borrachos innumerables e indescriptibles, unos harapientos y
llenos de remiendos, haciendo eses, desarticulados, con caras tumefactas
y ojos empañados; vestidos otros con trajes, aunque ya ajados y sucios,
de aire fanfarrón y caras rubicundas, llevando los que en su día debieron
ser buenos y que entonces estaban escrupulosamente bien cepillados;
hombres que caminan con paso que resulta de una firmeza y elasticidad
fuera de lo común, pero cuyos rostros están espantosamente pálidos y
cuyos ojos brillan feroces y enrojecidos mientras procuran asirse con
manos temblorosas a cualquier objeto que …
(­Fragmento retirado en: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/
DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=6791>).

Tras la lectura del cuento de Edgar Allan Poe, te invitamos a reflexionar sobre
algunos de los aspectos textuales para una mejor comprensión de la lectura. En
el capítulo anterior presentamos un guión con orientaciones, ¿qué tal empezar
a utilizarlas?
Como primer ejercicio, puedes presentar tus impresiones sobre ese fragmento,
después realiza una investigación sobre el autor, es una manera de acercarte

170  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

y ampliar las posibilidades que puedan sumarse para entenderlo. Para ello
te recomendamos que visites el sitio: <http://www.biografiasyvidas.com/
biografia/p/poe.htm>. Es un buen inicio. En ese apartado encontrarás algunas
informaciones sobre su vida personal, sus actividades laborales, algunas de las
obras públicas. Asimismo, es interesante conocer otros textos del autor, como el
famoso “Filosofía de la composición”. En esta página <http://www.pinturayartistas.
com/filosofia-de-la-composicion-de-edgar-allan-poe>, encontrarás informaciones
sobre la obra y algunos rasgos definidores de un buen texto literario. Y para
encerrar, puedes hacer una reseña comercial. Vamos a explicártelo ahora. Las
primeras condiciones que debes tener en cuenta son el estímulo y la provocación
del lector, pues debes convencerlo a leer ese libro, a la vez resumir la historia del
cuento, dejando al lector curioso y con ganas de explotar los labirintos de esa
narrativa, no debes ser muy extenso, no ultrapasar una página, ahora que ya lo
sabes, vamos a poner en marcha nuestra actividad.
Vamos a iniciar la reseña y deberás continuarla.
Concebido por Edgar Allan Poe, el cuento El Hombre de la multitud, presenta
la realidad de un observador atento a las masas que circulan por las calles. En
determinados momentos de la narrativa podemos reflexionar sobre descripciones
que nos conducen a la elaboración de conceptos entre la colectividad anónima y
la individualidad enigmática, fruto de los avances y las transformaciones sociales,
una lectura como esta es obligatoria para …
Bien, tienes el inicio de la reseña, continúala.
Como el objeto de este capítulo es reflexionar sobre los contenidos estudiados
a lo largo del curso, más específicamente los desarrollados este semestre, conviene
llevar a cabo nuestro reto. En el primer capítulo explicamos el uso de algunos
verbos de actitud, ¿te acuerdas? Muy bien, las estructuras tienen implícitas las
cargas semánticas, es decir, estructuras a las que echamos un vistazo y requieren
un análisis más detenido, pues tienen una significación más compleja. El texto
inicial es un terreno muy adecuado para ejercitarlas. Voy a presentar un modelo
y ustedes deben buscar otros ejemplos, además de contestar a los ejercicios que
proponemos a seguir.

Actividad 1

1. No esperaban que fueran inconfundibles.


(no esperaban, eran inconfundibles)

2. Parecen dividirse en dos batallones para devorar al público: el de los dandys


y el de los falsos militares.
Esperan dividirse en dos batallones para devorar al público: el de los dandys
y el de los falsos militares.

unitins • letras • 6º PERÍODO  171


CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

(ellos esperan, ellos se dividen)


Ahora te toca a ti buscar en el texto oraciones y adaptarlas.

Actividad 2

Pon el verbo en la forma correspondiente y explica la actitud.

a) Espero que la calidad y no la cantidad ___________ (ser) la prioridad de


todos en la empresa.

b) No quiero que _______________ (volver) a atender los llamados diciendo


¡sí!, ¡tienen que decir el nombre de nuestra empresa!

c) Prefiero que ____________ (terminar) sus actividades extras hoy.

Posible respuesta
• Sea, el sujeto quiere que la calidad sea el principal objetivo y no la
cantidad.
• Vuelvan, el sujeto quiere que digan el nombre de la empresa siempre
que atiendan los llamados.
• Terminen, el sujeto efectivamente quiere que terminen las actividades
extras hoy.
El próximo tema son las oraciones coordinadas y las subordinadas, para
retomar este contenido retiraremos ejemplos del texto o haremos adaptaciones,
después los explicaremos.

Cuando se encendieron las luces, dos densas y continuas corrientes de

oración subordinada oración principal

transeúntes comenzaron a entrar y salir del establecimiento.

La oración subordinada está circunstancializando y depende de la primera


para preservar su sentido, mientras que la segunda se caracteriza como
principal pues es independiente en su sentido, es decir, estando sola no
comprometerá su sentido.
Oración coordinada Conjunción coordinada de adición

Vigilé con atención a esta calaña y me resultó difícil imaginar cómo podrían
ser confundidos por caballeros por los mismos caballeros

Oración coordinada

172  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

Las dos oraciones son independientes y tienen una relación de coordinación


pues tienen la misma categoría sintáctica y son unidas por una conjunción. A
seguir analizaremos una oración y posteriormente te presentamos ejercicios.

O
O

SN (SV)
O

SN SV
V SN
Nombre
Nexo V SN
D N

Juan leía la revista y Jorge escuchaba música.

Mariana vino pero llegó tarde.


Posibles respuestas:

O
O

SN (SV)
O

SN SV
V
Nombre Sadv
Nexo V

Adv

Mariana vino pero (ella) llegó tarde.

El próximo tema es el uso del verbo quedar (se) y sus diferentes sentidos,
pues como estudiamos en el capítulo 5, generalmente ese verbo asume el valor
de permanecer, restar, resultar, locarlizarse, adecuarse a algo o a alguien,
concertar un compromiso, encuentro o cita. Hemos retirado un ejemplo del
texto, obsérvalo:

unitins • letras • 6º PERÍODO  173


CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

De este modo, la mayoría de las veces queda sin descubrir el fondo de los
crímenes.
Permanecer

El sentido del verbo quedarse en el periodo retirado del cuento de Poe, es


de permanecer, es decir, la mayoría de los crímenes permanece sin descubrir
el fondo. Busca en el texto estructuras en que puedas realizar las debidas
adaptaciones para ejemplificar el uso de quedar (se).
Posibles respuestas.
“De igual modo existen algunos secretos que no se dejan descubrir. Hay
hombres que mueren por la noche en sus camas, estrechando las manos de sus
espectrales confesores y mirándoles con ojos lastimeros.”
De igual modo quedan algunos secretos a descubrirse. Hay hombres que
mueren por la noche en sus camas, estrechando las manos de sus espectrales
confesores y mirándolos con ojos lastimeros.
En la adaptación cambiamos el verbo existir, que tiene el valor de confirmación
de algo, y colocamos el verbo quedar con el sentido de restar.
Actividad
Completa las oraciones a seguir y explica el valor que asume el quedar
(se).
a) Según las previsiones, en Haití miles de personas todavía __________
bajo los destrozos.
______________________________________________________________
b) Tras las acusaciones, el presidente de la república ha __________ sin
argumentos coherentes.
______________________________________________________________
c) El
­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ uniforme que nos dieron es diminuto y _______________ muy corto, es
decir, inadecuado.
______________________________________________________________
d) ¿A qué hora ____________________? Pues vamos, tienes que apurarte,
necesitamos llamar un taxi.
__________________________________________________________________
Posibles respuestas:
a) Quedan, en el sentido de restar, todavía restan personas.
b) Quedado, ha quedado sin algo, no tiene argumentos.
c) Nos queda, se refiere a la ropa adecuarse.

174  6º PERÍODO • letras • unitins


CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

d) Quedamos, se refiere a concertar un compromiso.


Por lo tanto, hemos observado la importancia de algunos temas y elaborado
algunas actividades que han servido para revisarlos y a la vez profundizarlos.

Rincón cultural
Si en Buenos Aires una mujer quiere comprarse un vestido y pregunta
dónde hay un comercio de modas, recibirá la siguiente respuesta:
Siga esta vereda (acera), y a las cinco cuadras (manzanas) ha de ver
un negocio que tiene polleras (faldas) y sacos (chaquetas) en la vidriera
(escaparate).
Un español va a México y para el desayuno le ofrecen bolillos, humildes
panecillos que no hay que confundir con las teleras, en Guadalajara
llamadas virotes y en Veracruz cojinillos. Al salir del bar puede decidirse a
tomar un camión (ómnibus, que en Puerto Rico o Cuba llaman la guagua)
o si llama al ruletero (taxista que da más vueltas por la ciudad que una
ruleta). A no ser que alguien le ofrezca amistosamente un aventoncito (un
empujoncito), que es una manera muy cordial de acercarle al punto de
destino. En Venezuela a esta clase de empujoncito se le llama colita, y en
Puerto Rico, un pon.
Si quiere limpiarse los zapatos en la calle en México, tiene que recurrir
a un bolero que se los bolea en un santiamén (Cantinflas ha hecho una
película famosa con el título de El bolero de Raquel).
Si llama por teléfono en México, apenar descolgar el auricular oye
¡bueno!, lo que le parece una aprobación un poco precipitada. Pasea por
la ciudad y le llaman la atención los letreros se renta por todas partes (se
venden coches, pisos, casas, etc.). Otros anuncios: ventas al mayoreo y al
menudeo; ricas botanas todos los días (lo que español se llaman tapas; en
Argentina, ingredientes; en Venezuela, pasapalos).
En México se ven establecimientos llamados tlapalerías (venta de toda
clase de pinturas, en alemán se diría ‘Farbenhandlund’; incluye también
ferretería), misceláneas (tiendas de quincalla), rosticerías.
Si te ha gusta, accede al texto completo en: <http://culturitalia.uibk.
ac.at/hispanoteca/kulturkunde-la/el%20espa%C3%B1ol%20americano.
htm>; encontrarás más informaciones sobre ese tema.

En este capítulo leímos un texto del autor estadounidense Edgar Allan Poe,
a la vez, desdoblamos actividades relacionadas a la interpretación textual, así
como la práctica de la expresión escrita. En el apartado gramatical estudiamos
algunos usos de los verbos de actitud, de paso los diferentes valores del
verbo quedar (se), enfocando estructuras y sentidos, también las relaciones de
coordinación y subordinación mediante actividades de análisis estructural. No

unitins • letras • 6º PERÍODO  175


CAPÍTULO 7 • Língua espanhola vi

podemos olvidar la producción de la reseña enfocando el cuento de Poe y las


estrategias para componerla. En la parte final del capítulo nos detuvimos en las
características consonantales en Antillas, asimismo, en un conjunto de palabras,
traduciendo la idea de las variantes y sus aportes lingüísticos, un continente lleno
de diferencias.

¿Cómo se dice?
Entre algunas de las características del consonantismo en Antillas están
la realización labiodental fricativa sorda [f], en convivencia con la variante
bilabial [ ], favorecida por el diptongo /ué/, como en [ wéra] fuera, [
wé] fue, [ wégo] fuego, [ wérsa] fuerza.
La antigua aspiración de la f- latina ha quedado en palabra propias
del español de Puerto Rico como las formadas sobre humo o huir, del
tipo [ah már].
(PACHECO, 1996, p. 102).

Referencias
LÓPEZ, J. F. El español de América. Disponible en: http://culturitalia.uibk.ac.at/
hispanoteca/kulturkunde-la/el%20espa%C3%B1ol%20americano.htm. Accedio
en: 28 ene. 2010.
PACHECO, M. A. Q. El español de América Central. In: Manual de dialectología
hispánica: el español de América. Barcelona: Ed. Ariel, 1996.
POE, E. A. El Hombre de la multitud. Disponible en: <http://www.dominiopu-
blico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=6791>.
Accedido el: 18 ene. 2010.

Anotaciones

176  6º PERÍODO • letras • unitins


Créditos

EQUIPE UNITINS
Organização de Conteúdos Acadêmicos Kyldes Batista Vicente
Revisão Linguístico-Textual Silvéria Aparecida Basniak Schier
Gerente de Divisão de Material Impresso Katia Gomes da Silva
Revisão Digital Leyciane Lima Oliveira
Rogério Adriano Ferreira da Silva
Projeto Gráfico Katia Gomes da Silva
Rogério Adriano Ferreira da Silva
Capas Rogério Adriano Ferreira da Silva

PRODUÇÃO EDITORA EADCON


Tradicionalmente, a História da Literatura Brasileira divide-se em duas
grandes eras, por sua vez estruturadas por meio de diferentes épocas. A Era
Colonial, compreendida entre os anos de 1500 e 1808/1836, trata das
manifestações literárias do Período Colonial, subdividindo-se nas seguintes
épocas: Literatura de Informação e Literatura Jesuítica (1500-1601), Barroco
(1601-1768) e Arcadismo (1768-1836). A Era Nacional, compreendida

Apresentação
entre os anos de 1836 aos nossos dias, estuda as manifestações literárias
do Brasil a partir da proclamação de sua independência cultural, subdividin-
do-se, por sua vez, nas seguintes épocas: Romantismo (1836- 1881), Realismo
(1881-1902), Simbolismo (1893-1922), Pré-Modernismo (1902-1922) e
Modernismo (1922 à atualidade, inclusas as tendências contemporâneas).
Neste caderno, estudaremos as manifestações literárias da Era Colonial,
mais o Romantismo brasileiro, manifestação da Era Nacional. O Padre
José de Anchieta será o foco da primeira época; Gregório de Matos (Boca
do Inferno) e Padre Antônio Vieira serão estudados no Barroco; Cláudio
Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga serão objeto do Arcadismo;
Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves (no gênero lírico) e José
de Alencar e Manuel Antônio de Almeida (na prosa de ficção) serão temas
do Romantismo.
Não pretendemos esgotar aqui nenhuma discussão sobre temas e aspectos
característicos da Literatura brasileira. Objetivamos, no entanto, despertar seu
interesse para essa área do conhecimento que, além de assegurar a expansão
de sua cultura, gratifica-o com um prazer inefável: o prazer estético.
Desejo a você bons estudos e bom proveito ao longo dos sete capítulos.
Prof.ª Kyldes Batista Vicente
1
CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Literatura de Informação,
Literatura Jesuítica e Barroco

Introdução
O sentimento nativista é uma das constantes fundamentais da evolução da
Literatura brasileira, é, portanto, uma de suas principais características. Esse
traço cultural é que fundamenta o paralelo que podemos fazer entre as manifes-
tações literárias do Brasil Colônia e as de Portugal colonizador, para chegarmos
ao verdadeiro autor ou escritor brasileiro.
Neste capítulo, deteremos nosso olhar nos aspectos que fundamentam esse
sentimento, consideraremos que a Literatura brasileira da Era Colonial não é um
simples prolongamento da Literatura portuguesa, mas uma produção artística
que lança suas raízes e constrói seu caminho rumo à emancipação que se dará
com o advento do Romantismo.
Para que você possa compreender os aspectos histórico-estéticos dos primór-
dios da Literatura brasileira e do Barroco e discutir traços característicos da
obra de Padre José de Anchieta, Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos,
faz-se necessário que disponha de informações básicas da história do Brasil dos
séculos XVI e XVII.

1.1 Literatura de Informação e Literatura Jesuítica: aspectos


históricos
A descoberta do Brasil foi consequência do expansionismo mercantilista
europeu: atendeu aos interesses econômicos da monarquia absolutista portu-
guesa. Pero Vaz de Caminha, na carta que escreveu a D. Manuel, em 1500,
sobre essa descoberta, manifestava preocupações com as possibilidades econô-
micas desse evento. Outros cronistas, cujos escritos chegaram até nós, também
registraram essa mesma preocupação. Isso significa dizer que Portugal olhava a
terra descoberta pelo viés econômico, na medida em que, desde o princípio, se
preocupava com o que ela poderia oferecer à metrópole.
Foi em função dessa perspectiva que se deu a exploração econômica do
país, feita, inicialmente, pela extração do pau-brasil e pelo uso da mão de obra
indígena. O domínio português não foi isento de sobressaltos: corsários franceses
ameaçaram tomar posse da terra. Após diversas incursões, fixaram-se na Baía de
Guanabara e fundaram a França Antártica, entre 1555 e 1567. Entre os coloni-
zadores franceses, estava o humanista Jean de Léry, que, em 1578, escreveu em

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  181


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

francês uma obra intitulada Viagem à terra do Brasil, uma das primeiras obras que
se preocupou com a descrição do povo, sua raça e língua e sua cultura material.
As invasões francesas fizeram com que o sistema de feitorias evoluísse para
as capitanias hereditárias, que desenvolveram para um governo centralizado,
por meio da nomeação de um governador-geral, que dispunha de força militar.
A exploração da cana-de-açúcar também potencializou essas mudanças políti-
co-administrativas. Os missionários da Companhia de Jesus, ordem da Igreja
Católica, tiveram grande importância nesse período: a atividade intelectual da
Colônia foi exclusividade dos jesuítas, que doutrinaram índios e colonizadores.
Essas circunstâncias marcaram a literatura produzida no século XVI no Brasil:
as qualidades estéticas de uma obra literária puderam levá-la a se perpetuar no
tempo. Apesar disso, a literatura foi uma prática social vinculada ao contexto
socioeconômico e cultural em que foi produzida. Por essa razão, não se pode
estudar a arte literária ou qualquer outra modalidade de arte sem localizá-la no
eixo temporal.
Literatura e História seguem, portanto, caminhos paralelos e dialeticamente
interinfluentes: a História influencia a Literatura e esta, por sua vez, deixa marcas
na História. É tendo em vista essa relação de complementaridade, que, neste
capítulo, estudaremos as manifestações literárias do século XVI, vendo-a pela
ótica dos interesses econômicos do mercantilismo europeu.

1.2 Literatura de Informação e Literatura Jesuítica:


características gerais
Os primeiros textos da Literatura Brasileira tinham objetivos práticos: informar
sobre a terra, para facilitar a exploração colonialista, e catequizar índios e
colonos, também por razões políticas. A ambiguidade do Renascimento portu-
guês estava refletida nessas produções, uma vez que, de um lado, eram extre-
mamente práticas e, do outro, presas à religiosidade.
Os temas dessas primeiras obras – informações geográficas e etnográficas
sobre a terra – eram brasileiros, mas o tratamento dado a eles e a visão que os
informava – a visão medieval edênica que persistia no Renascimento Ibérico –
eram do português colonialista. Por isso a natureza era vista como um paraíso
terrestre, e o índio, como uma inocência primitiva. Na carta de Caminha, por
exemplo, há um fragmento emblemático sobre essa questão: “suas vergonhas
tão nuas e com tanta inocência descobertas que não havia, nisso, nenhuma
vergonha” (CAMINHA, 1985, p. 9).
Observe que há nesse fragmento um trocadilho com a palavra “vergonha”.
Esse recurso é um indício de arte literária e do pensamento humanista do
Renascimento europeu, que aparece mais vincado em Jean de Léry, reformista

182  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

francês que viu criticamente a antropofagia dos índios, afastando-se da visão


preconceituosa manifestada por muitos colonialistas:
Não abominemos [...] demasiado a crueldade dos selvagens
antropófagos. Existem entre nós criaturas tão abomináveis, se não
mais, e mais detestáveis do que aquelas que só investem contra
nações inimigas de que têm vingança a tomar. Não é preciso ir
à América, nem mesmo sair de nosso país, para ver coisas tão
monstruosas (LÉRY, 1980, p. 19).

Ao longo do século XVI, os colonialistas substituíram as fantasias de um mundo


paradisíaco por uma visão utilitarista. Em função das necessidades práticas de
ordem econômica, deliberou-se escravizar os índios; eles deveriam ser vistos nos
aspectos que revelassem sua condição de animais primitivos e bárbaros. Até os
jesuítas, mesmo os tendo defendido da escravidão, consideravam seus costumes
perniciosos. Esse preconceito foi claramente manifestado pelo Padre José da
Nóbrega, em seu livro Diálogo sobre a conversão do gentio.
Alfredo Bosi (2001, p. 15) expõe que
Os primeiros escritos da nossa vida documentam precisamente a
instauração do processo [colonial]: são informações que viajantes
e missionários europeus colheram sobre a natureza e o homem
brasileiro. Enquanto informação, não pertence à categoria do lite-
rário, mas à pura crônica histórica [...]. No entanto, a pré-história
de nossas letras interessa como reflexo da visão do mundo e da
linguagem que nos legaram os primeiros observadores do país.
É graças a essas tomadas diretas da paisagem, do índio e dos
grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas
de uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno
da palavra arte.

Em face disso, perguntamos: esses documentos valem apenas como testemu-


nhos do tempo? Claro que não. A inteligência brasileira, em vários momentos,
reagindo contra processos de europeização, buscou nas raízes da terra e do
nativo imagens para se firmar. Os cronistas, então, voltaram a ser lidos. José
de Alencar, Mário de Andrade e Oswald de Andrade revisitaram-nos. Veja-se,
nesse fato, “[...] o interesse obliquamente estético da ‘literatura’ de informação”
(BOSI, 2001, p. 16).
Entre os primeiros escritos de nossa vida, destacam-se os seguintes textos:
• a Carta, de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, que deu conta do
descobrimento da nova terra e revelou as primeiras impressões que teve
da natureza e dos indígenas;
• o Diário de navegação, de Pero Lopes de Sousa, escrivão do grupo de
Martim Afonso de Sousa (1530);
• o Tratado da terra do Brasil e a História da província de Santa Cruz a que
vulgarmente chamamos Brasil, de Pero Magalhães Gândavo (1576);

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  183


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

• a Narrativa epistolar e os tratados da terra e da gente do Brasil, de


Fernão Cardim (1583);
• o Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa (1587);
• os Diálogos da grandeza do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão
(1618);
• as Cartas dos missionários jesuítas, escritas nos primeiros séculos da
catequese;
• o Diálogo sobre a conversão dos gentios, do Padre Manuel da Nóbrega;
• a História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador (1627).
Os objetivos e as dimensões deste caderno não permitem que se trate de
todos os documentos apresentados anteriormente. Por isso elegemos a Carta
de Caminha a D. Manuel, por ser uma autêntica certidão de nosso nascimento,
e alguns fragmentos de textos de Padre José de Anchieta. Em ambos os casos,
encontramos o debruçar-se sobre a terra e o nativo, com um espírito ingênuo e ao
mesmo tempo prático.

1.2.1 A Carta de Pero Vaz de Caminha e poemas do Padre José de


Anchieta: fragmentos e análise crítica
A Carta de Caminha tem conotações jornalísticas de um texto histórico. João
Alves das Neves, na Introdução da edição publicada pelo Elos Clube de São
Paulo (1985), confirma essa informação:
Umas vezes, limita-se a narrar, na primeira pessoa. Em outras, escla-
rece. Nalgumas passagens, interpreta. E, não raro, opina. Um texto,
por consequência, onde se acham reunidos os primeiros elementos
do jornalismo atual, partindo da informação, continuando pela
interpretação e chegando à opinião (CAMINHA, 1985, p. 14).

Sobre o achamento da terra, Caminha (1985, p. 13) diz:


Senhor, posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os
outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento
desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou,
não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza,
assim como eu melhor puder, ainda que – para o bem contar e
falar – o saiba pior que todos fazer!

Em relação ao contato com os índios, afirma:


E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito,
segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.
Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os
capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E
o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele
rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia
homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel
chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

184  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.
Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em
direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem
os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala
nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa.
Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de
linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles
lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com
uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papa-
gaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas,
miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que
o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus
por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do
mar (Caminha, 1985, p. 15).

O relato é perfeito. O repórter maneja o idioma com facilidade, o que pressupõe


sólidas bases culturais e uma invulgar experiência de redação. O escrivão especial
que foi Pero Vaz de Caminha, dia a dia e hora a hora, tudo anotou e explicou,
ligando os fatos e apresentando-os cronologicamente encadeados. Ainda sobre os
índios, a descrição é precisa e correta, serena e objetiva:
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons
rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura
alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir
suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de
grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido
nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa,
e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um
furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que
lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de
xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa,
nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia
alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia
por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa,
de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de
penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto,
mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E
andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição
branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e
mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a
levantar (CAMINHA, 1985, p. 17-18).

Ao finalizar a Carta, Caminha apresenta sua opinião sobre a terra e sugere


o que de melhor se pode fazer nela:
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o
sul, vimos até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós
deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem
vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar
em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  185


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes


arvoredos. De ponta a ponta é toda praia [...] muito chã e muito
formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande;
porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvo-
redos – terra que nos parecia muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou
outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra
em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de
Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim os
achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal
maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela
tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que
será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que
Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do
que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de
Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e
fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento
da nossa fé! (CAMINHA, 1985, p. 23).

Pelos estratos apresentados anteriormente, o texto de Pero Vaz de Caminha,


se considerado pelo plano meramente informativo ou sob os aspectos interpreta-
tivo e opinativo, não deixa dúvidas sobre sua importância jornalística.
Paralelamente à crônica leiga, representada por escritores como Pero Vaz
de Caminha, Pero Lopes de Sousa, Pero de Magalhães Gândavo etc., aparece
a crônica dos jesuítas, com suas intenções pedagógicas e morais. Manuel da
Nóbrega e Fernão Cardim são nomes significativos do século XVI, mas, pela
relevância literária, o Padre José de Anchieta merece um lugar de destaque.
Os missionários da Companhia de Jesus, trazidos para o Brasil assim que
foi fundada a ordem, uniram à sua fé ibérica e medieval uma preocupação
constante com a conversão do gentio, o que se pode constatar por meio de seus
escritos catequéticos. Enquanto Padre Manuel da Nóbrega nos deixou textos que
revelam seu caráter prático de administrador, e Fernão Cardim, informes sobre
as capitanias que percorreu, as obras de José de Anchieta são exemplos do veio
místico que toda obra religiosa pressupõe.
Imersa na devoção católica, a poesia de José de Anchieta “[...] corre o risco
de ser lida como um todo homogêneo” (BOSI, 1994, p. 64). Um exame mais
detido, no entanto, revela suas diferenças internas de forma e sentido.
Quando escrevia para os nativos e colonos que já entendiam a língua
geral da costa, Anchieta adotava, quase sempre, o idioma tupi. No interior
dos códigos tupi, procurava moldar uma forma poética que se aproximasse das
medidas trovadorescas, mas mais próximas das variantes populares ibéricas.
Nesse rol, entram o verso redondilho e as quintilhas:

186  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Jandé, rubeté, Iesu


Jandé rokobé meengára,
Oimomboreausukatú
Jandé amotareymbára
Jesus, nosso verdadeiro Pai,
Senhor da nossa existência, aniquilou
Nosso inimigo.

(ANCHIETA citado por BOSI, 1994, p. 64)

A transposição da mensagem católica para a fala do índio exigia um esforço


particular: penetrar no imaginário do outro. Foi esse o grande empenho de nosso
primeiro apóstolo. Não foi uma tarefa fácil:
Na passagem de uma esfera simbólica para a outra, Anchieta
encontrou óbices por vezes incontornáveis [...] A nova represen-
tação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia
cristã nem a crença tupi, mas uma terceira esfera simbólica, uma
espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara
possível (BOSI, 1994, p. 65).

O Anchieta, poeta e dramaturgo, é o escritor que interessa a quem se dedica


a estudar nossa Literatura colonial. Seus autos são definitivamente pastorais, no
sentido clerical da palavra. Destinam-se, portanto, à edificação do índio e do
colono branco nas cerimônias litúrgicas. Na Festa de São Lourenço, Na Vila
da Vitória e Na Visitação de Santa Isabel são autos que se enquadram nessa
perspectiva. Ao contrário dos autos, destinados à conversão de índios e colonos,
seus poemas já podem ser considerados literatura, no sentido artístico do termo,
uma vez que suas estruturas lhes garantem literariedade, o que se pode verificar
na leitura de um trecho do poema Do Santíssimo Sacramento.

Ó que pão, ó que comida,


ó que divino manjar
se nos dá no santo altar
cada dia!

Filho da Virgem Maria,


que Deus-Padre cá mandou
e por nós na cruz passou
crua morte,

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  187


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

e para que nos conforte


se deixou no sacramento
para dar-nos, com aumento,
sua graça,

esta divina fogaça


é manjar de lutadores,
galardão de vencedores
esforçados,

deleite de namorados,
que, co gosto deste pão,
deixam a deleitação
transitória [...]

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

Saiba mais

Para ler todo o poema Do Santíssimo Sacramento, visite o sítio Jornal de


Poesia: <http://www.jornaldepoesia.jor.br/janc01.html>.

A vocação poética de Anchieta pode ser verificada também nos trechos


de A Santa Inês, poema composto quando da chegada ao Brasil da imagem
daquela santa:

Cordeirinha linda,
Como folga o povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo.

Cordeirinha santa,
De Jesus querida,
Vossa santa vinda

188  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

O Diabo espanta.
Por isso vos canta
Com prazer o povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo.

Nossa culpa escura


Fugirá depressa,
Pois vossa cabeça
Vem com luz tão pura.
Vossa fermosura
Honra é do povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo [...]

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

Saiba mais

Para ler o poema A Santa Inês integralmente, visite o sítio Jornal de Poesia:
<http://www.jornaldepoesia.jor.br/janc02.html>.

Os fragmentos dos poemas apresentados anteriormente não deixam dúvida:


trata-se de poesia religiosa à disposição das intenções catequéticas e pedagó-
gicas de Anchieta. Nota-se, além disso,
[...] uma emoção profunda cruzar as estrofes, oriunda do autên-
tico sentimento de fé experimentado pelo poeta. E tal congra-
çamento entre a funcionalidade ensinante das composições e a
veracidade do conteúdo constitui evidente marca dessa poesia e
atestado de sua qualidade estética (MOISÉS, 1984, p. 26).

Do ponto de vista da essência doutrinária, os poemas, cujos trechos foram


transcritos anteriormente, revelam um homem primitivo, ainda vinculado à
Idade Média, uma vez que respiram uma fé inabalável ainda não contami-
nada pelos ventos críticos da Renascença. Mesmo assim, parecem prenunciar
o Barroco.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  189


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Saiba mais

Veja filmes ambientados no período colonial e que mostram os primeiros


contatos entre índios e europeus:
• Como era gostoso o meu francês, do diretor Nélson Pereira do Santos,
que utiliza os relatos do alemão Hans Staden e crônicas de Jean de
Léry para mostrar como a antropofagia de determinada tribo indígena
brasileira é vista como forma de adquirir o conhecimento do inimigo (no
caso o francês);
• 1492: a conquista do paraíso, de Ridley Scott, que mostra a viagem de
Cristóvão Colombo e ilustra o cotidiano das grandes navegações. O
filme é baseado em pergaminhos da época descobertos pela roteirista;
• Desmundo, de Alain Fresnot, que é adaptado do livro de Ana Miranda.
É ambientado no Brasil colonial e conta a história de jovens órfãs que
eram enviadas pela rainha de Portugal para se casarem com os primei-
ros colonizadores.

1.3 Literatura barroca: aspectos históricos e traços estéticos


Uma compreensão adequada do Barroco exige que se faça um retrocesso
na história e se chegue à Idade Média. No período medieval, a figura de Deus
domina toda a cultura. Esse fato gera uma visão de mundo conhecida por
Teocentrismo: Deus é o centro do Universo.
Em face disso, a vida terrena, material, passageira é um estágio em que o
homem prepara sua alma para a salvação ou para a condenação eterna. O
espírito é considerado como o bem supremo; a matéria, como algo pecaminoso.
A vida carnal, portanto, é uma espécie de ilusão, uma imperfeição, o que leva o
homem a procurar uma vida suprema no plano divino. Em linhas gerais, foi essa
a visão de mundo que dominou na Idade Média.
Os séculos XVI e XVII vivenciaram grandes mudanças políticas, econômicas e
filosóficas. Nesse contexto, surge uma tendência oposta à anterior conhecida como
Renascimento, que era outra maneira de enxergar o mundo: o Antropocentrismo,
o homem como o centro do Universo.
Na concepção antropocêntrica, o homem não é apenas uma imagem de
Deus, mas um ser humano com natureza física. Diante disso, o espiritualismo e
a religiosidade medievais são deslocados e cedem espaço à valorização dos
aspectos materiais da existência. Trata-se do declínio do Teocentrismo e da perda
de liderança por parte da Igreja.

190  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

A religiosidade medieval, no entanto, não desaparece, apenas perde sua


hegemonia; continua existindo de forma latente e volta a evidenciar-se na época
barroca. O gráfico a seguir é um esquema dessa situação.

Idade Média Renascimento Barroco

Teocentrismo Antropocentrismo Teocentrismo x Antropocentrismo

Os avanços das concepções antropocêntricas do mundo são reforçados


pela Reforma Protestante. A Igreja reage. Surge o movimento denominado
Contra-Reforma, basicamente uma tentativa de harmonização das novidades
postas pelo Renascimento com a tradição religiosa medieval, para trazer nova-
mente à tona a tradição cristã, relegada ao segundo plano pelo Renascimento
e pela Reforma Protestante.
A Contra-Reforma não é a causa que determinou o Barroco, mas está intima-
mente relacionada a essa estética.
Nas obras barrocas, encontram-se duas formas de realização textual: o
cultismo e o conceptismo. A vertente cultista preocupa-se com o preciosismo
linguístico: o rebuscamento é uma de suas marcas. Já a vertente conceptista
volta-se mais para discussão das ideias e dos conceitos. Por isso, pretende ser
mais racional e clara. Não existe um texto que seja exclusivamente cultista ou
conceptista. Ambas as formas de realização textual convivem numa mesma
obra, havendo predomínio de uma sobre a outra, o que define se um texto se
enquadra na primeira ou na segunda vertente.
O Barroco chegou ao Brasil pelas mãos dos portugueses, no momento em
que ainda não se pode falar em oposição entre Teocentrismo e Antropocentrismo,
uma vez que, na época, nosso país era recém-descoberto – a vida cultural prati-
camente inexistia; Bahia e Pernambuco eram as únicas províncias onde havia
atividade cultural, potencializada pela economia açucareira. Além disso, não
existia um sistema no qual a literatura estivesse inserida – não dispúnhamos
sequer de tipografia, fato que impedia a publicação de livros e jornais. É por
isso que, na literatura barroca brasileira, apareceram apenas autores isolados,
que refletiam, em suas obras, o Barroco português. Entre esses autores, desta-
camos Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos.

1.3.1 Padre Antônio Vieira: aspectos da vida e da obra


Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa, em 1608, e faleceu na Bahia,
em 1697. Aos seis anos de idade, chegou ao Brasil e, poucos anos depois,
ingressou no Colégio dos Jesuítas do qual não se afastou mais. Em 1633, iniciou
sua carreira de pregador. Em 1641, quando foi para Portugal, já havia pronun-
ciado alguns sermões hoje famosos, como: Sermão de Santo Antônio, Sermão
da Visitação de Nossa Senhora à Santa Isabel e Sermão pelo Bom Sucesso das
Armas de Portugal contra as de Espanha.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  191


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Em Portugal, participou, de forma efetiva, da vida política da época,


chegando a fazer a defesa dos judeus proscritos. Anos depois, regressou ao
Brasil e foi para o Maranhão, onde defendeu os índios, entrou em conflitos com
colonos e foi expulso. De volta a Portugal, foi perseguido e processado pela
Santa Inquisição. Absolvido mais tarde, viajou para a Itália, retornou a Portugal
e regressou definitivamente para a Bahia. Suas obras são compostas por sermões
(quinze volumes) e cartas (três volumes).
Entre cultismo e conceptismo, Padre Antônio Vieira inclinou-se mais para
o primeiro, chegando, inclusive, a fazer um sermão intitulado Sermão da
Sexagésima, no qual criticou o cultismo e orientou a construção do sermão para
que a palavra de Deus pudesse ser compreendida e vivenciada. Isso significa
dizer que a lógica e a clareza das ideias são os fundamentos dos sermões desse
orador, o que contraria a disposição preciosista dos escritores cultistas.
Castello (1972, p. 90) assim se refere ao Padre Antônio Vieira:
Tendo repartido a sua vida e a sua obra entre Brasil e Portugal é,
ao mesmo tempo, pelo interesse vivo e contínuo que representa
para nós, um escritor que se situa nas duas literaturas, não só
no tempo restrito de sua atuação, quanto posteriormente através
da evolução e progressiva caracterização da literatura brasileira.
[...] E, o que é mais importante, soube impor-se como escritor
imperecível permanentemente vivo e atuante. Portador de talento,
imaginação e fantasia, utilizou a língua com pleno domínio, de tal
forma que soube amoldá-la às sutilezas do raciocínio conceptista
nos seus inumeráveis desdobramentos silogísticos e na frequência
saturante das correspondências alegóricas.

Castello (1972, p. 91) assegura que


O homem de ação política, o sacerdote, o missionário, está
sempre passo a passo com o orador e com o não menos admi-
rável prosador de numerosa correspondência. Conciliou, iden-
tificou mesmo a sua formação jesuítica com o estilo da época,
no que foi favorecido pelo extraordinário domínio da língua,
[...] pela sensibilidade, convicções, humanidade e patriotismo.
É o homem barroco refletido pelo escritor barroco ou o escritor
barroco identificado no homem barroco [...].

Os temas dos sermões do Padre Antônio Vieira são religiosos, políticos ou


sociais e estão sempre relacionados com o presente. A exposição do tema é
feita com rigor e energia: ele interroga, responde, interpela e suplica, censura
e propõe num processo que culmina na discussão da proposta do sermão. Um
exemplo desse procedimento pode ser identificado no Sermão da Sexagésima,
peça na qual o pregador intenta revelar as razões da ineficácia da palavra de
numerosos pregadores daquele momento histórico:
Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo pode proceder de um
de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte,

192  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um


sermão, há de haver três concursos: a de concorrer o pregador com
a doutrina, persuadindo; a de concorrer o ouvinte com o entendi-
mento, percebendo; a de concorrer Deus com a graça, alumiando
[...] (VIEIRA citado por CASTELLO, 1972, p. 94).

A obra de Padre Antônio Vieira, historicamente considerada, é depoimento,


advertência e crítica. Considerando-a do ponto de vista literário, é uma inesti-
mável conquista da língua e uma sedução que prende e fascina. Vieira foi, sem
dúvida, o mais autêntico e fecundo escritor barroco em língua portuguesa.

Saiba mais

Para que você possa ler o texto completo do Sermão da Sexagésima, do


Sermão de Santo Antônio, do Sermão da Visitação de Nossa Senhora à
Santa Isabel e do Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra
as de Espanha, acesse o sítio <www.dominiopublico.gov.br>.

1.3.2 Gregório de Matos: aspectos da vida e da obra


Gregório de Matos Guerra nasceu na Bahia, em 1636. Filho de pessoas
abastadas, chegou a estudar na Universidade de Coimbra. Quando voltou ao
Brasil, ocupou postos importantes da vida burocrática. Sua veia satírica e sua
vida desregrada levaram-no à demissão e ao desterro para Angola. Ao retornar
do exílio, não pode fixar-se na Bahia. Por essa razão, mudou-se para o Recife,
onde morreu em 1696.
Conforme já discutimos anteriormente, a alma barroca oscila entre o mundo
terreno e a perspectiva da salvação eterna. Essa oscilação apresenta-se aguçada
em Gregório de Matos. A forte presença, em sua obra, dos elementos contradi-
tórios de sua época (corpo, alma, matéria, espírito) deve-se a, pelo menos, dois
fatos: à educação contra-reformista dos jesuítas que controlavam todo o sistema
de ensino (espírito); à origem abastada, que facilitava o estupro e o aproveita-
mento das cativas.
A obra poética de Gregório de Matos é vasta, desigual e, às vezes, de
autoria duvidosa, mas pode ser dividida em duas matrizes básicas: lírica e satí-
rica. A lírica, por sua vez, divide-se em religiosa e amorosa.
O Gregório de Matos lírico-amoroso se define pelo erotismo, por meio do
qual revela uma sensualidade ora grosseira, ora de fineza rara. O fundamento
de sua visão do amor é a religiosidade contra-reformista: ele tem consciência
de que o tempo elimina as alegrias corpóreas, que a vida e a beleza são

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  193


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

passageiras e que é necessário aproveitá-las. Trata-se de uma referência direta


à transitoriedade das coisas, exemplificada no soneto dedicado a Maria dos
Povos e inspirado pelo poema espanhol de Gôngora. Analisemos essas carac-
terísticas no poema exposto a seguir.

A Maria dos Povos, sua futura Esposa

Discreta e formosíssima Maria,


Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosa Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto, com gentil descortesia,


O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Da madeixa que mais primas te envia:

Goza, goza da flor da mocidade,


Que o tempo troca, a toda a ligeireza,
E imprime a cada flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade


Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p).

A consciência da transitoriedade da vida e das coisas terrenas encontra-se,


também, no soneto À instabilidade das cousas do Mundo, exposto a seguir.

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,


Depois da luz, se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?


Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

194  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Mas no Sol, e na luz, falta a firmeza;


Na formosura, não se dê constância:
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,


Pois tem qualquer dos bens por natureza,
A firmeza somente na inconstância.

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p).

Como lírico religioso, o poeta se ajoelha diante de Deus, confessa arrepen-


der-se de ter pecado e promete redimir-se. Essa imagem do homem ajoelhado é
constante no soneto A Jesus Cristo Nosso Senhor:

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,


Da vossa alta clemência me despido:
Porque, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,


A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada


Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;


Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p).

Ao contrário do poeta arrependido e humilhado (o eu-poético lírico-religioso),


o eu-poético do Gregório de Matos satírico cultiva uma poesia de inegável
mordacidade, satirizando uma sociedade em plena decadência econômica (o

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  195


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

açúcar do Brasil começava a enfrentar a concorrência do açúcar antilhano)


e oprimida pelos grilhões do sistema colonial. Ninguém escapou à ironia do
poeta. Os figurões portugueses, os padres, os colonos, os degredados lusos que
vinham para o Brasil e aqui enriqueciam, os nativos e os negros são seus alvos
prediletos e sistematicamente ridicularizados. Vejamos essas características no
poema exposto a seguir.

Que falta nesta cidade? — Verdade.


Que mais por sua desonra? — Honra.
Falta mais que se lhe ponha? — Vergonha.

O demo a viver se exponha,


Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? — Negócio.


Quem causa tal perdição? — Ambição.
E o maior desta loucura? — Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos? — Pretos.


Tem outros bens mais maciços? — Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos? — Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,


Dou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos? — Meirinhos.


Quem faz as farinhas tardas? — Guardas.
Quem as tem nos aposentos? — Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,


E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

196  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

E que justiça a resguarda? — Bastarda.


É grátis distribuída? — Vendida.
Que tem, que a todos assusta? — Injusta.
[...]
Valha-nos Deus, o que custa
que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

A Câmara não acode? — Não pode.


Pois não tem todo o poder? — Não quer.
que o governo a convence? — Não vence.

Quem haverá que tal pense,


Que uma Câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p).

Saiba mais

Esse poema completo e outros de Gregório de Matos podem ser lidos no


sítio Jornal de Poesia <http://www.jornaldepoesia.jor.br/grego.html> ou
no sítio Domínio Público <www.dominiopublico.gov.br>.

Toda a fama de Gregório de Matos deve-se à sua poesia satírica, associada


ao poeta boêmio, desregrado e frustrado, cheio de revoltas, que foi o vate
baiano. Os contrastes entre a obra lírica e a satírica revigoram o Barroco em
Gregório de Matos. Entretanto é na poesia lírica (religiosa e amorosa) que ele
se revela mais autenticamente poeta barroco. As razões desse fato são o senti-
mento que manifesta e os processos técnicos e expressivos de que se utiliza para
expressar esses sentimentos.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  197


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Saiba mais

No filme Palavra e utopia, de Manuel de Oliveira, a vida do Padre Antônio


Vieira é contada em três fases: juventude, adulta e velhice.
Ambientado em 1572, o filme A Rainha Margot, de Patrice Chéreau, mos-
tra conflitos entre católicos e protestantes na França: o episódio de São
Bartolomeu (massacre de protestantes promovido pela família Médici nas
ruas de Paris) é o clímax do enredo. E mais: a música, o cenário, o ves-
tuário e as cerimônias religiosas oferecem excelente ilustração para os
estudos do pensamento barroco.
O Judeu retrata a vida do dramaturgo brasileiro Antônio José da Silva, per-
seguido pela Santa Inquisição e morto na fogueira em 1739.

Para sua melhor compreensão e memorização do conteúdo deste capítulo,


apresentamos, a seguir, num esquema didático, seu resumo.

Quadro Literatura no Brasil (séculos XVI e XVII).

Literatura Literatura
Barroco
Informativa Jesuítica
• Sobre o Brasil, para • Informativa em geral. • Arte da Contra-Reforma.
europeus (cartas, rela-
• Teatro de Padre José • Conflito entre corpo e alma.
tórios, documentos).
de Anchieta.
• Forma conturbada.
• A Carta de Pero Vaz
de Caminha. • Tema: o fluir do tempo.
• Padre Antônio Vieira
(Sermões).
• Gregório de Matos (poesia
lírica religiosa, poesia lírica
e poesia satírica).

Portanto, neste capítulo, estudamos a Literatura de Informação e a Literatura


Jesuítica, destacamos a Carta de Pero Vaz de Caminha e a poesia do Padre
José de Anchieta. Vimos, ainda, aspectos da vida e da obra de dois escritores
barrocos: Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos Guerra. E por fim, anali-
samos os aspectos líricos (amoroso e religioso) e satíricos da obra de Gregório
de Matos.

No próximo capítulo, falaremos sobre o Arcadismo, suas características e a


poesia de Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga.

198  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Referências
BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
______. História concisa da Literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2001.
CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El-Rey D. Manoel I de Portugal sobre o achamento
do Brasil. Introdução de João Alves das Neves. São Paulo: Elos Clube, 1985.
CASTELLO, José Aderaldo. A literatura brasileira: manifestações literárias da Era
Colonial. São Paulo: Cultrix, 1972.
LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/
Edusp, 1980.
JORNAL DE POESIA. Gregório de Matos. Disponível em: <http://www.jornal de
poesia.jor.br/grego.html>. Acesso em: 4 dez. 2009.
______. José de Anchieta. Disponível em: <http://www.jornal de poesia.jor.br/
janc.html>. Acesso em: 4 dez. 2009.
MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo:
Cultrix, 1984.

Anotações

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  199


CAPÍTULO 1 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

200  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


2
CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Arcadismo

Introdução
O progresso científico dos séculos XVII e XVIII, com a formulação da lei da
gravidade por Newton e a classificação dos seres vivos pela biologia, implicou
uma visão racionalista e científica do mundo. A burguesia, em ascensão,
confiava plenamente na razão, tida como universal e imutável no espaço e no
tempo. A razão, portanto, era sinônimo de bom senso e impedia o ser humano
entregar-se aos caprichos da imaginação e da fantasia. Em face desse quadro,
o estilo Barroco, exagerado, extremamente emocional e desequilibrado, não
podia mais predominar.
Neste capítulo, estudaremos os aspectos históricos, os traços estéticos e os
dois principais representantes do Arcadismo. Para que você possa identificar as
principais características do Arcadismo e verificar as marcas do Arcadismo na
poesia de Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, é necessário
que tenha consciência de que o Arcadismo está vinculado ao Iluminismo, que
é o conjunto de tendências que marcaram o fim do século XVII e o século XVIII.
Precisa também ter em mente que as palavras-chave da filosofia iluminista são:
razão e ciência, consideradas, na época, base para a análise e explicação do
mundo. Some-se a isso compreender que o Arcadismo ou Neoclassicismo surgiu
como uma reação contra o Barroco.

2.1 Arcadismo: aspectos históricos


Durante o período Barroco (século XVII) foram construídos palácios e igrejas,
cujas solenidades causaram respeito e admiração pelo que significavam: o
Poder de Deus e o Poder do Estado. No século XVIII, foram construídas casas
graciosas e belos jardins, anúncio de um novo sentido de vida. As pedras mais
simples substituíram o mármore, o bronze e o ouro; e as cores sérias das igrejas
e dos castelos foram substituídas pelo pastel, pelo verde e pelo rosa: o íntimo e
o frívolo foram preferíveis ao pomposo.
O Arcadismo ou Neoclassicismo, manifestações artísticas do século XVIII,
refletiam a ideologia da classe aristocrática em decadência e da alta burguesia,
ambas insatisfeitas com o absolutismo real, com a solenidade do Barroco e com
as formas sociais de convivência rígidas, artificiais e complicadas.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  201


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

A filosofia do Iluminismo conciliou, em seu primeiro momento, os interesses


da burguesia com certas parcelas da nobreza. O mecanismo utilizado para
efetivar essa conciliação era o despotismo esclarecido. Além disso, a filosofia
iluminista afirmava que todas as coisas podiam ser compreendidas, resolvidas e
decididas pelo poder da razão, o que significava um golpe definitivo na visão
barroca de mundo, cuja base era mais o sensitivo do que o racional. O século
XVIII procurou simplificar a arte, em suas várias manifestações (pintura, música,
literatura e arquitetura), por meio da imitação dos clássicos e pela aproximação
com a natureza.

O despotismo esclarecido foi uma forma reformista de governar caracte-


rística da Europa, era apoiada por princípios iluministas. Desenvolveu-se
no Leste europeu onde a economia ainda era atrasada e a burguesia era
muito fraca ou inexistente. O despotismo esclarecido visava a acelerar o
processo de modernização de alguns países e assim aumentar seu poder e
prestígio a fim de enfraquecer a oposição ao seu governo. Argumentavam
que governavam em nome da felicidade dos povos.

No Brasil, o Arcadismo ou Neoclassicismo coincidiu com a crise da lavoura


açucareira e a descoberta das primeiras minas de ouro e pedras preciosas. Essa
nova realidade deslocou o eixo econômico do país da região Nordeste para a
região de Minas Gerais, onde acontecia a extração dos minérios, e para o Rio
de Janeiro, onde se localizava o porto de escoamento desses minérios.
A riqueza acumulada por essa nova situação econômica estruturou uma
organização social, na qual começava a despontar o gosto pela cultura. É então
que surgiu o primeiro grupo de escritores com alguma integração entre si: o
grupo mineiro. As ideias iluministas no Brasil fomentavam os ideais de libertação
do país. A Inconfidência Mineira de 1789 foi um exemplo dessa influência.
Muitos escritores árcades participaram desse “momento revolucionário”.
Antes do Arcadismo, a literatura brasileira não passava de manifestações
isoladas. A partir dele, começou a se integrar num sistema estruturado, englo-
bando autor, obra e público, ainda que de maneira incipiente.
O Arcadismo no Brasil teve início em 1768 com Obras, de Cláudio Manuel
da Costa, e se desenvolveu até 1836, quando Gonçalves de Magalhães publicou
Suspiros Poéticos e Saudades e deu início à revolução romântica. O Arcadismo
foi um movimento eminentemente poético e de repúdio aos exageros praticados
pelo Barroco. Arregimentou, pela primeira vez em nossa história literária, um

202  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

grupo de escritores mais ou menos coesos em seus objetivos: Tomás Antônio


Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto,
Basílio da Gama, Frei José de Santa Rita Durão.

2.2 Arcadismo: traços estéticos


Antes de discriminarmos as marcas estéticas do Arcadismo ou Neoclassicismo,
é necessário que compreendamos o que designam os vocábulos Arcadismo,
Neoclassicismo e Classicismo.
Arcadismo deriva de Arcádia, região da Grécia que identificava a vida
ideal. Nessa região, os pastores dedicavam-se à arte e viviam de maneira
equilibrada e harmoniosa. O Neoclassicismo (neo: novo) decorre do fato de
os autores do período proporem a imitação dos escritores clássicos, voltando
à Antiguidade Greco-Romana ou imitando os escritores do Renascimento.
Imitação, aqui, não significa cópia de tudo o que foi feito pelos clássicos:
o objetivo dos escritores árcades era adotar as convenções artísticas que os
clássicos haviam estabelecido.
Em literatura, Classicismo é o nome que se dá ao estilo em moda no
Renascimento. A concepção de mundo renascentista era antropocêntrica.
Os artistas, por sua vez, utilizavam um estilo que imitava o dos escritores da
Antiguidade Greco-Romana, também chamados de clássicos. Os renascentistas
consideravam que os clássicos da Antiguidade haviam atingido a perfeição
artística. Por essa razão, deviam ser tomados como modelos.
A visão de mundo desse período é racional e cientificista, implantada a
partir do Iluminismo. Essa visão repudiava o estilo barroco, porque o conside-
rava de mau gosto. Em seu lugar, buscava reinstalar os padrões clássicos de
arte, cujas convenções podem ser assim resumidas:
• a compreensão do universo por meio da razão e do raciocínio deixaria
em segundo plano a imaginação e a fantasia;
• a valorização do homem não contemplaria exclusivamente seu lado
espiritual, mas o consideraria como ser terreno e físico;
• a arte deveria ser universal – preocupar-se com os problemas, verdades
e situações eternas do homem, não se limitando a sentimentos de ordem
individual ou a vicissitudes puramente pessoais;
• a arte deveria imitar a natureza. Natureza aqui não se referia apenas à
paisagem, mas também à natureza humana: o sentimento e a alma do
ser humano;
• a obra deveria apresentar verossimilhança – eliminava-se qualquer fato
ou ideia incomum, produto da simples fantasia.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  203


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

O Classicismo já existira na arte e combinava com as ideias do século XVIII.


O que se verificava, portanto, era a aceitação e a retomada dos princípios artís-
ticos clássicos num estilo considerado novo: Arcadismo ou Neoclassicismo.
As convenções apresentadas anteriormente norteavam as características da
estética do arcadismo apresentadas a seguir.
• Bucolismo – o árcade, partindo de uma concepção da vida como algo
simples, despojada de ambições, glória ou fortuna, elegeu a vida
pastoril como modelo de excelência: os pastores viviam em contato com
a natureza. Por essa razão, os escritores árcades recorriam a pseu-
dônimos, como Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga) e Glauceste Satúrnio
(Cláudio Manuel da Costa). Tratava-se de um fingimento poético que
ajudava a dar maior verossimilhança a situações bucólicas, frequentes
nos poemas árcades. Veja o exemplo dessa característica no fragmento
de um poema de Cláudio Manuel da Costa a seguir:

Sou pastor, não te nego; os meus montados


São esses, que aí vês; vivo contente
Ao trazer entre a selva florescente
A doce companhia dos meus gados [...]

(COSTA, 1966, p. 25).

• Exaltação da natureza – opondo-se ao dinamismo da natureza focali-


zada pelos poetas barrocos, nos textos árcades, a natureza era retra-
tada de forma simples e tranquila. O exemplo a seguir é de Frei de
Santa Rita Durão:

Ouvem-se as avezinhas junto à fonte


Saudando a manhã com voz sonora.

(CASA DA TORRE, s/d, s/p).

• Tranquilidade no relacionamento amoroso – nos textos árcades, o rela-


cionamento amoroso aparecia envolvido numa atmosfera de tranquili-
dade. Não havia paixões exacerbadas. Um exemplo dessa caracterís-
tica é o poema Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, do qual
apresentaremos a Lira XIX:

204  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Enquanto pasta alegre o manso gado,


Minha bela Marília, nos sentemos
À sombra deste cedro levantado.
Um pouco meditemos
Na regular beleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
A sábia natureza.

Atende, como aquela vaca preta


O novilhinho seu dos mais separa,
E o lambe, enquanto chupa a lisa teta.
Atende mais, ó cara,
Como a ruiva cadela
Suporta que lhe morda o filho o corpo,
E salte em cima dela.

Repara, como cheia de ternura


Entre as asas ao filho essa ave aquenta,
Como aquela esgravata a terra dura,
E os seus assim sustenta;
Como se encoleriza,
E salta sem receio a todo o vulto,
Que junto deles pisa.

Que gosto não terá a esposa amante,


Quando der ao filhinho o peito brando,
E refletir então no seu semblante!
Quando, Marília, quando
Disser consigo: “É esta
“De teu querido pai a mesma barba,
“A mesma boca, e testa.”

Que gosto não terá a mãe, que toca,


Quando o tem nos seus braços, c’o dedinho
Nas faces graciosas, e na boca
Do inocente filhinho!
Quando, Marília bela,
O tenro infante já com risos mudos
Começa a conhecê-la!

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  205


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Que prazer não terão os pais ao verem


Com as mães um dos filhos abraçados;
Jogar outros luta, outros correrem
Nos cordeiros montados!
Que estado de ventura!
Que até naquilo, que de peso serve,
Inspira Amor, doçura.

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p).

• Universalidade – os temas explorados pelo poeta árcade exemplificam


situações que ilustram ocorrências comuns à maioria dos homens: o
poeta árcade não se prende a dramas individuais. O trecho a seguir, da
Lira I, de Marília de Dirceu, revela essa característica:

Os teus olhos espalham luz divina,


A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p).

• Equilíbrio entre a razão e a fantasia – o Arcadismo, estética orientada


pelo racionalismo, não permite a explosão da subjetividade, como no
Romantismo, nem da sensibilidade, como no Barroco. Ao contrário de
um e do outro, esse movimento estético prima pela busca do equilíbrio
entre subjetividade e racionalidade. Por essa razão, o poeta, para asse-
gurar o decoro e a dignidade, expressa sentimentos comuns, genéricos
e medianos, na medida em que reduz suas criações a fórmulas conven-
cionais. O amor, por exemplo, perde o conteúdo passional e a impulsi-
vidade. Torna-se um jogo de galanteios, marcado pela elegância e pela

206  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

discrição: as regras desse jogo impõem o comedimento; o amor pode


ser apenas o fingimento do amor. Releia o trecho do poema Marília de
Dirceu (Lira XIX), citado anteriormente.
• Presença de entidades mitológicas – o poeta árcade reaproveita os
seres da mitologia greco-romana, deuses e entidades pagãs, fazendo-os
conviver com outros seres do universo cristão. O exemplo a seguir é de
Silva Alvarenga:

Dum lado o Sol Nascido no Ocidente,


E a Mística Cidade, doutro lado
Cedem ao pó e à roedora traça.
Por cima o Lavatório da Consciência,
Peregrino da América, os Segredos
Da Natureza, a Fênix Renascida,
Lenitivos da Dor e os Olhos de Água.
Por baixo está de Sam Patrício a Cova:
A miséria escreveu do Limoeiro
Para entreter os cegos e os rapazes.

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p).

• O predomínio da lógica, a utilização de períodos curtos e de versos


brancos – o escritor árcade se recusava a usar o jogo de palavras e as
complicadas construções da linguagem barroca. Em vez disso, preferia
a clareza e a ordem lógica na escrita, expedientes assegurados pela
utilização de períodos curtos.
O projeto literário do Arcadismo era divulgar os ideais de uma sociedade mais
igualitária e justa. Para atingir esse objetivo, os autores recorreram à repetição
insistente de um cenário acolhedor e natural. A proposta de uma vida que valo-
rizasse menos a pompa e a sofisticação das cortes europeias concretizava-se na
simplicidade dos pastores preocupados apenas com seu rebanho e o desfrute dos
prazeres da natureza. Por isso cada poema árcade é uma espécie de propaganda
que pretendia modificar a mentalidade das elites daquele período. O combate à
futilidade, portanto, era um dos principais objetivos dos autores da época.
A retomada de temas que expressavam algumas filosofias de vida do mundo
antigo estava na origem da imitação dos clássicos gregos e latinos feita pelos
árcades. Esses temas eram apresentados por expressões latinas. Delas, as mais
conhecidas, segundo Bosi (2001), são:

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  207


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

• fugere urbem – fuga da cidade, da urbanização, afirmação das quali-


dades da vida campesina;
• aurea mediocritas – significava, literalmente, mediocridade áurea,
dourada. Simbolizava a valorização das coisas cotidianas e simples,
identificadas pela razão e pelo bom senso;
• locus amoenus – lugar ameno, tranquilo, agradável, onde os amantes se
encontravam para desfrutar os prazeres da natureza;
• inutilia truncat: cortar o inútil – princípio muito valorizado pelos árcades:
eliminação dos excessos, evitando o uso mais elaborado da linguagem.
Subjacente a esse princípio, estava o desejo de separar o bom do defei-
tuoso, para garantir aos textos literários aproximar-se da perfeição da
natureza que buscavam imitar.

2.3 A poesia lírica

2.3.1 Cláudio Manuel da Costa (1729-1789): aspectos da vida e da obra


Cláudio Manuel da Costa nasceu em 5 de junho de 1729, em Mariana,
Estado de Minas Gerais. Frequentou o Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro e,
em 1749, foi para a Universidade de Coimbra estudar Direito. Sua produção
dessa época teve caráter barroco. Quando regressou ao Brasil, radicou-se em
Vila Rica e dedicou-se à prática da advocacia. Exerceu, entre 1762 e 1765, as
funções de secretário do governo da Capitania. O ponto alto de sua carreira
poética aconteceu em 1768, quando publica, em Coimbra, suas Obras. É dele
a ideia da fundação de uma Academia em Vila Rica, a exemplo da Arcádia
Romana: Colônia Ultramarina. Envolveu-se na Inconfidência Mineira, foi preso e,
imerso em profunda depressão, suicidou-se em 4 de julho de 1789. Entre suas
obras estão o poemeto épico Vila Rica (1839), o drama musicado O Parnaso
Obsequioso (1931) e poemas esparsos. Seu espólio literário foi reunido, em
1903, sob o título de Obras Poéticas.
A obra de Cláudio Manuel da Costa é o exemplo de uma das feições assu-
midas pela poesia arcádica brasileira: a neoclássica, uma vez que revela um
poeta integralmente voltado para o mundo e o estilo de cultura dos greco-latinos
e dos clássicos portugueses. Aproxima-se dos greco-latinos pelo culto da simpli-
cidade, da solidão e da paisagem bucólica. Aparenta-se com os quinhentistas
portugueses, particularmente com Camões, pelos demais componentes de sua
mundividência, ao que se soma a circunstância de ter escolhido o soneto como
forma predileta. Por coincidência ou não, um fato é inegável: “[...] sua poesia
prolonga uma atmosfera lírica e moral que descortinamos na poesia camoniana,
evidente no emprego constante da antítese, do paradoxo e do racionalismo [...]”
(MOISÉS, 1984, p. 83).

208  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

O tema do amor convive com o da autorreflexão (o confronto do ser e do


não ser, do estar e do não estar, e da consciência magoada do bem perdido).
O soneto a seguir apresenta o amor como tema, emoldurado por um contexto
bucólico, no qual a natureza se confunde com o estado d’alma do eu-lírico. Os
dois quartetos (versos de 1 a 8) revelam bem esse fato, na medida em que rela-
cionam a natureza com a alegria e a tristeza do eu-poético, ideia que pode ser
constatada pela descrição da natureza e sua relação com cena alegre e urna é
já funesta: a mesma natureza reflete, em momentos sucessivos, a alegria e a dor
amorosa do eu-poético:

VIII

Este é o rio, a montanha é esta,


Estes os troncos, estes os rochedos;
São estes inda os mesmos arvoredos;
Esta é a mesma rústica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta,


Rio, montanha, troncos, e penedos;
Que de amor nos suavíssimos enredos
Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh quão lembrado estou de haver subido


Aquele monte, e às vezes, que baixando
Deixei do pranto o vale umedecido!

Tudo me está a memória retratando;


Que da mesma saudade o infame ruído
Vem as mortas espécies despertando.

(COSTA, 1966, p. 26).

A temática do amor é desenvolvida também no soneto a seguir. Agora,


no entanto, esse sentimento é abordado de uma forma universal: apresentado
como um sentimento a que todos os homens estão vulneráveis, por isso grafado
com letra maiúscula. Uma leitura horizontal deste poema revela que o Amor é um
mal necessário e esperado pela esperança errante, mas esse sentimento, fugaz e
enganador, se revela e se esconde, num jogo perverso no qual nem permanece
o dano certo, nem a glória tampouco está segura: o Amor não é apenas dano,
nem simplesmente glória. Como disse Camões é dor que desatina sem doer.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  209


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

XLV

A cada instante, Amor, a cada instante


No duvidoso mar de meu cuidado
Sinto de novo um mal, e desmaiado
Entrego aos ventos a esperança errante.

Por entre a sombra fúnebre, e distante


Rompe o vulto do alívio mal formado;
Ora mais claramente debuxado,
Ora mais frágil, ora mais constante.

Corre o desejo ao vê-lo descoberto;


Logo aos olhos mais longe se afigura,
O que se imaginava muito perto.

Faz-se parcial da dita a desventura;


Porque nem permanece o dano certo,
Nem a glória tão pouco está segura.

(COSTA, 1966, p. 26).

Literariamente, Cláudio Manuel da Costa é um curioso caso de poeta de


transição: em se tratando de escolha, filia-se a princípios estéticos do Arcadismo;
em termos instintivos, não supera as influências barrocas e camonianas, marcas
de sua juventude intelectual. Em face disso, pode-se dizer dele que foi racional-
mente um árcade e emotivamente um barroco.

Saiba mais

Leia outros poemas de Cláudio Manuel da Costa na Biblioteca Virtual do


Estudante de Língua Portuguesa <http://www.bibvirt.futuro.usp.br> ou Jor-
nal de Poesia <www.jornaldepoesia.jor.br>.

210  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

2.3.2 Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810): aspectos da vida e da obra


Filho de um magistrado brasileiro, nasceu em Portugal, passou a infância
na Bahia e formou-se na Universidade de Coimbra. Chegou a Vila Rica na
última década do século XVIII para exercer a função de procurador. Participou
da Conjuração Mineira, foi julgado e degredado para a África (Moçambique),
onde morreu mais tarde. Marília de Dirceu (1792) e Cartas Chilenas (1845) são
as duas obras deixadas por esse poeta.

Conjuração Mineira, também conhecida por Inconfidência Mineira, foi uma


tentativa de revolta abortada pelo governo em 1789, na então capitania
de Minas Gerais, no Brasil, principalmente contra a execução da derrama
e o domínio português.

Marília de Dirceu é a única obra lírica de Tomás Antônio Gonzaga. Nela,


o poeta mostra-se árcade por excelência: os elementos estruturadores de seu
poema são o pastoralismo, a galanteira, a clareza, o controle da subjetividade
e o racionalismo neoclássico. Essa obra é considerada autobiográfica, mas nos
limites que os princípios árcades impunham à confissão passional.
Nos poemas dessa obra, um pastor celebra a pastora Marília, num tom
aparentemente apaixonado. No extrato apresentado a seguir, encontramos as
seguintes características: o enquadramento dos impulsos afetivos nos limites do
amor galante, o controle da expressão sentimental, transformada num conjunto
de frases feitas sobre os encantos da amada, as qualidades de Dirceu e o futuro
relacionamento de ambos:

Tu, Marília, agora vendo


De Amor o lindo retrato,
Contigo estarás dizendo,
Que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
Que Cupido é Deus suposto:
Se há Cupido, é só teu rosto,
Que ele foi quem me venceu.

(GONZAGA, 1986, p. 13).

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  211


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

O eu-poético, o pastor Dirceu, um pacato funcionário público, sonha com


a tranquilidade do casamento, alheio a qualquer sobressalto. Ao imaginar seu
convívio com ela, Marília, Dirceu se esquece da condição pastoril, afirmando
sua verdadeira profissão. Ao mesmo tempo, garante à futura esposa não viver a
realidade cotidiana do Brasil do século XVIII:

Tu não verás, Marília, cem cativos


Tirarem o cascalho, e a rica, terra,
Ou dos cercos dos rios caudalosos,
Ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro


Do pesado esmeril a grossa areia,
E já brilharem os granetes de ouro
No fundo da bateia.

Não verás derrubar os virgens matos;


Queimar as capoeiras ainda novas;
Servir de adubo à terra a fértil cinza;
Lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes


Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
Da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa


Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-ás folhear os grandes livros,
E decidir os pleitos

(GONZAGA, 1986, p. 17).

A situação econômica estável é outro aspecto do poema, encontrável no


momento em que Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga) revela a Marília suas ideias
matrimoniais:

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,


Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’expressões grosseiro,

212  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Dos frios gelos, e dos sóis queimado.


Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

(GONZAGA, 1986, p. 18).

Ligado às concepções rígidas do Arcadismo, o comedimento amoroso e a


discreta paixão são traços de Tomás Antônio Gonzaga em Marília de Dirceu.
Neste poema, contudo, pode-se constatar certa malícia e erotismo dissimulados,
configurando um dos poucos momentos de emoção genuína. O poeta não se
esquece de que o tempo passa e que essa passagem torna os corpos entorpe-
cidos (carpe diem):

Ornemos nossas testas com as flores.


E façamos de feno um brando leito,
Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos Amores.
Sobre as nossas cabeças,
Sem que o possam deter, o tempo corre;
E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.

Com os anos, Marília, o gosto falta,


E se entorpece o corpo já cansado;
triste o velho cordeiro está deitado,
e o leve filho sempre alegre salta.
A mesma formosura
É dote, que só goza a mocidade:
Rugam-se as faces, o cabelo alveja,
Mal chega a longa idade.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  213


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Que havemos de esperar, Marília bela?


Que vão passando os florescentes dias?
As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;
E pode enfim mudar-se a nossa estrela.
Ah! Não, minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
O estrago de roubar ao corpo as forças
E ao semblante a graça

(GONZAGA, 1986, p. 23).

Gonzaga se expressa de maneira graciosa e singela. Sua forma é simples,


direta e envolvente. Usando o pseudônimo de Critilo, ironizou os abusos admi-
nistrativos do governador de Minas Gerais nas Cartas Chilenas, pretensamente
nativistas.

2.4 A poesia épica: Basílio da Gama e Frei de Santa Rita Durão


Basílio da Gama (1741-1795) e Santa Rita Durão (1722-1784), ao contrário
dos líricos Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, tentaram
realizar uma epopeia. O primeiro, a exemplo de Homero e Camões, explorou o
tema da tomada das missões pela expedição de Gomes Freire de Andrade, no
poema narrativo O Uraguai, composto por cinco cantos em versos brancos. O
segundo estruturou a epopeia Caramuru, publicada doze anos após O Uraguai.
Não existe continuidade entre essas obras: Basílio da Gama era admirador do
Marquês de Pombal; Santa Rita Durão, padre. Seu poema narrativo tem inspi-
ração religiosa.

Saiba mais

No primeiro canto de O Uraguai, Gomes Freire de Andrade revela os


motivos da expedição. No segundo, ocorre a batalha entre conquistadores
e índios. Estes, apesar da valentia de Cacambo e Sepé, seus principais
chefes, são derrotados. No terceiro canto, Cacambo é preso e envenenado
pelo jesuíta Balda (os motivos não são esclarecidos nesse conto). No quarto
canto, tudo se revela: Balda queria casar o índio Baldeta, provavelmente
seu filho, com Lindoia, esposa de Cacambo. Mas ela prefere se deixar
picar por uma serpente e morre. No último canto, dá-se a vitória final da
expedição luso-espanhola e a descrição do templo central das missões. Leia
o texto completo em: <www.dominiopublico.gov.br>

214  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

O Caramuru é a apologia do trabalho de colonização e catequese do


europeu. Diogo Álvares, mesmo não sendo padre, interessa-se por con-
duzir o índio ao caminho do cristianismo. O poema narra a lenda desse
aventureiro, náufrago na costa da Bahia, recolhido por índios que depois
tenta catequizar e colonizar. Noiva-se com Paraguaçu e embarca com ela
para a Europa para pedir a bênção da realeza da França. As cortes ficam
deslumbradas com o exotismo da dupla dos trópicos. Na partida do lito-
ral brasileiro, jovens donzelas indígenas nadam, desesperadas, atrás do
navio, em busca de um gesto do “Filho do Trovão” (Caramuru). A índia
Moema morre tragada pelas ondas nesta cena. Leia o texto completo em:
<www.dominiopublico.gov.br>

Para sua melhor compreensão e memorização do conteúdo deste capítulo,


apresentamos, a seguir, num esquema didático, seu resumo.

Quadro Arcadismo (século XVIII).

Características Autores e obras


• Racionalismo. Líricos:
• Busca da simplicidade. • Cláudio Manuel da Costa
(Obras poéticas e Vila Rica).
• Imitação dos clássicos.
• Tomás Antônio Gonzaga
• Retorno à natureza.
(Marília de Dirceu e Cartas Chilenas).
• Pastoralismo.
Épicos:
• Bucolismo.
• Basílio da Gama (O Uraguai).
• Amor galante.
• Santa Rita Durão (Caramuru).
• Ressurgimento das academias.
• Decorrência da atividade mineradora.
• Relação com a Inconfidência Mineira.

Portanto, neste capítulo, estudamos o Arcadismo e suas relações com o


contexto sócio-histórico, as características do Arcadismo e seus principais repre-
sentantes: Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga (poesia lírica),
Basílio da Gama e Santa Rita Durão (poesia épica).
No próximo capítulo, estudaremos os aspectos históricos e as características
fundamentais do Romantismo.

Referências
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2001.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  215


CAPÍTULO 2 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

CANDIDO, Antônio; CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura brasi-


leira: história e antologia. São Paulo: Difel, 1985.
CASA DA TORRE. Caramuru, de Frei de Santa Rita Durão. Disponível em: <http://
www.casadatorre.org.br/caramuru2.html>. Acesso em: 12 mar. 2010.
COSTA, Cláudio Manoel da. Poemas. São Paulo: Cultrix, 1966.
GONZAGA, Tomaz Antonio. Marília de Dirceu. São Paulo: Ediouro, 1986.
JORNAL DE POESIA. Silva Alvarenga. Disponível em: <http://www.revista.agulha.
nom.br/sav.html>. Acesso em: 12 mar. 2010.
______. Tomás Antônio Gonzaga. Disponível em: <http://www.revista.agulha.
nom.br/tomaz1.html#lira15>. Acesso em: 12 mar. 2010.
MOISÉS, Massaud. A Literatura brasileira através dos textos. São Paulo:
Cultrix, 1984.

Anotações

216  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


3
Romantismo: aspectos CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

histórico-literários e
características fundamentais

Introdução
Mais do que um programa de ação de um grupo de poetas, romancistas,
filósofos ou músicos, o Romantismo foi um vasto movimento que abrigou, ao
mesmo tempo, conservadorismo e desejo libertário, inovação formal e repetição
de fórmulas consagradas, namoro com o poder e revolta radical. Foi, portanto,
um conjunto heterogêneo de tendências, cuja riqueza e diversidade não podem
ser expressas por generalizações apressadas.

Didaticamente, talvez seja possível pensar que o Romantismo foi marcado por
algumas preocupações recorrentes: anticlassicismo, visão individualista, desejo
de romper a normatividade e deslocar os excessos do racionalismo. Liberdade,
paixão e emoção: formam o tripé no qual se assenta boa parte do Romantismo.

O Romantismo pode ser circunscrito a um período que foi do final do


século XVIII a meados do século XIX, aproximadamente. Com mais de meio
século de duração, esse movimento apresentou variáveis quase antitéticas
e nuances tão diferenciadas, fato que não permitiu pensar a existência de
um único Romantismo, mas de Romantismos. A doutrina filosófica em que se
apoiam os princípios burgueses aos quais o Romantismo esteve vinculado é
o Liberalismo. Essa doutrina valorizou a iniciativa individual e a capacidade
criadora de cada um.

Para você compreender os aspectos histórico-literários do Romantismo e


discutir as características que fundamentam o Romantismo, é importante que
tenha em mente a relação entre literatura romântica e burguesia: o primeiro
efeito positivo da vitória da burguesia para a literatura foi o surgimento de um
novo público leitor. Mais diversificado e numeroso, esse público já não tinha
nenhuma identificação com a arte neoclássica da aristocracia. Era um público
que consumia livros. Os escritores não eram mais dependentes do mecenatismo:
descobriram que podiam sobreviver com a venda de suas obras, agora merca-
doria de larga aceitação. É importante, também, que você não se esqueça de
que Romantismo e democratização da arte são coincidentes. Para Vitor Hugo,
por exemplo, o Romantismo era o liberalismo em literatura. Filho da burguesia, o
Romantismo mostrou-se ambíguo diante dela, exaltando-a ou protestando contra
seus mecanismos.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  217


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

3.1 Aspectos históricos e literários do Romantismo


O Romantismo é um estilo de época associado à Revolução Francesa, à
ascensão da burguesia e ao Liberalismo. Após a Revolução Francesa, ocorreu
um acentuado progresso político, social e econômico da burguesia, transfor-
mação que, aos poucos, levou os burgueses à direção da nova ordem social,
antes de responsabilidade da aristocracia de sangue.

Saiba mais

O filme Danton, o processo da revolução, dirigido por Andrzej Wajda, foca-


liza Danton e Robespierre, líderes da Revolução Francesa. O filme é aponta-
do como a produção mais didática sobre os primeiros anos da Revolução.

A ascensão da burguesia ao poder político implicou a busca de uma arte


na qual pudesse reconhecer-se. O movimento romântico surgiu para responder
a esse anseio: até o século XVIII, a arte esteve voltada para os nobres e seus
valores. Assim que a burguesia conquistou o poder político, decorrência natural
de seu prestígio econômico, sentiu a necessidade de construir suas referências
artísticas e definir padrões estéticos nos quais pudesse se reconhecer, diferen-
ciando-a da nobreza deposta. Surgiu, então, o movimento romântico, verda-
deira revolução na produção artística.
Anunciado pelas obras de Jean-Jacques Rousseau, ideólogo da burguesia,
pelo romance inglês do século XVIII e pelo movimento Sturn und Drang, na
Alemanha (movimento que valorizava o folclore, o nacional e o popular em
oposição ao universalismo clássico), o Romantismo consolidou-se, junto ao
público europeu, no final do século XVIII, com a publicação do romance Werther,
de Goethe, síntese do espírito coletivo daquela época.
Esse romance trata da luta íntima do jovem Werther, que se debate entre a
noção de honra e o sentimento amoroso e da subsequente vitória da paixão,
consolidada pela declaração amorosa a Charlotte, esposa de seu melhor amigo.
Em face da negativa da mulher, o jovem suicida-se. Esse desfecho comoveu a
classe média europeia. Dali em diante, suicídios por amor se multiplicaram,
levando à proibição do romance.
A Alemanha, a Inglaterra e a França foram o berço das três tendências mais
importantes da estética romântica: o nacionalismo, o gosto pelo pitoresco e pelo
grotesco e a temática social. O nacionalismo romântico alemão esteve vinculado
ao conceito de alma do povo: cada povo era único e criativo; expressava seu
gênio na linguagem, na literatura, nos monumentos e nas tradições populares.
Essa noção levou muitos escritores românticos a cantar, ora em verso, ora em
prosa, as grandes qualidades de sua terra natal. O romance histórico nasce
dessa preocupação com a nacionalidade.

218  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Saiba mais

O homem da máscara de ferro e Os três mosqueteiros, ambos de Alexandre


Dumas (mestre do romance francês), podem ser conferidos também nas adap-
tações para o cinema.

A onda de nostalgia provocada pelos romances históricos levou ao resgate


do gótico medieval. Associado à melancolia romântica, esse resgate fortaleceu a
expressão de sentimentos e emoções. A morte, os cemitérios e as ruínas desper-
taram o interesse de uma série de escritores que exploraram temas sobrenaturais.
As mais célebres histórias de terror originaram-se nessa tendência romântica.
Na França, berço da revolução burguesa, o Romantismo assume uma feição
mais voltada para as questões sociais: a Revolução Francesa teve como lema os
ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade entre os homens. Vitor Hugo, com
o romance Os miseráveis, é um marco da literatura social romântica na França.
Nesse romance, o autor assume a função política da literatura por considerá-la
tão importante quanto à literária. Sua postura influenciou poetas e romancistas
que fizeram do tema da liberdade sua fonte de inspiração.
A valorização da liberdade individual e da livre expressão da sensibilidade,
reflexos da filosofia liberal, fundamentam a arte romântica, que revela um mundo
burguês e se torna meio de combate à mentalidade aristocrática do período
anterior. Por isso, ao se pensar em Romantismo, contempla-se, necessariamente,
as ideias de liberalismo, individualismo, emotividade e mudança.
Veja, a seguir, um quadro sucinto do Romantismo.

Quadro 1 Arte da burguesia em ascensão.


Implantação definitiva do
Ascensão da burguesia Revolução Francesa
capitalismo

• liberalismo (jurídico,
• livre concorrência
filosófico e social)
• vitória do capital
• democratização da
industrial
vida política
• criação de escolas
• alfabetização geral
• desenvolvimento da imprensa

Novo público leitor

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  219


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

3.2 Características fundamentais do Romantismo


As transformações da mentalidade ocidental no século XVIII levaram à revo-
lução romântica. Se fôssemos reunir numa única qualidade o espírito dessa esté-
tica, essa qualidade seria
[...] a crença na imaginação comunicava aos poetas uma extraor-
dinária capacidade de criar mundos imaginários, acreditando por
outro lado na realidade deles. O exercício dessa qualidade era
que os fazia poetas. Por outro lado, a ênfase na imaginação tinha
significação religiosa e metafísica. Graças à imaginação criadora,
o poeta era dotado de uma capacidade peculiar de penetrar num
mundo invisível situado além do visível, a qual o tornava um visio-
nário, aspirando saudoso por um mundo diferente, no passado ou
no futuro, outro mundo mais satisfatório do que o familiar. Essa
visão de outro mundo ilumina e dá significação eterna às coisas
sensíveis, cuja percepção se torna vívida por essa interpretação
do familiar e do transcendente (COUTINHO, 1969, p. 4).

O movimento romântico não pode ser confundido com o estado de alma


romântico. O primeiro é um movimento ou escola de âmbito universal, circuns-
crito entre os meados do século XVIII e do século XIX. O estado de alma ou
temperamento romântico é uma constante universal oposta à atitude clássica:
o temperamento clássico se caracteriza pelo primado da razão, do decoro,
da contensão; o romântico é exaltado, entusiasta, colorido, emocional e apai-
xonado. O clássico é absolutista. O romântico é relativista e busca satisfação
na natureza, no regional, no pitoresco, no selvagem. Pela imaginação, intenta
escapar do mundo real para um passado remoto ou para lugares fantasiosos.
O impulso básico do romântico é a fé. Sua norma, a liberdade. Suas fontes
de inspiração, a alma, o inconsciente, a emoção e a paixão. O romântico,
temperamental, exaltado e melancólico procura idealizar a realidade e não
pretende reproduzi-la.
Essas são as qualidades básicas do temperamento romântico. Podem ser
encontradas em artistas de diversos tempos e nações. O instante supremo de
sua realização foi o século XVIII, quando compôs um movimento universal e
unificado: o Romantismo.
Didaticamente falando, as principais características do Romantismo são
descritas a seguir.
• Individualismo e subjetivismo: a atitude romântica é pessoal e íntima.
O mundo é visto por meio da personalidade do artista. O que importa
é a atitude pessoal, o mundo interior, o estado de alma decorrente da
realidade exterior. “Romantismo é subjetivismo, é a libertação do mundo
interior, do inconsciente; é o primado exuberante da emoção, imagi-
nação, paixão, intuição, liberdade pessoal e interior” (COUTINHO,
1969, p. 6). Romantismo é o exercício da liberdade pelo indivíduo.

220  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

O fragmento a seguir, de Rousseau, sobre o reinado do indivíduo,


apresenta, de forma sucinta, a questão do individualismo e subjeti-
vismo no Romantismo:
Tomo uma resolução de que jamais houve exemplo e que não terá
imitador. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda
a verdade de sua natureza, e esse homem serei eu. Somente eu.
Conheço meu coração e conheço os homens. Não sou da mesma
massa daqueles com quem lidei; ouso crer que não sou feito como
os outros. Mesmo que não tenha maior mérito, pelo menos sou
diferente (ROUSSEAU citado por PERRY, 1985, p. 468).

• Ilogismo: consiste em não haver lógica na atitude romântica. A regra é


a oscilação entre pólos opostos. Portanto, ora temos alegria, ora melan-
colia, ora entusiasmo, ora tristeza.
• Senso de mistério: consiste na atração do espírito romântico pelo
mistério da existência. Para o romântico, a existência aparece envolta
de sobrenatural e terror. Como individualista, o romântico enfrenta o
mundo com espanto permanente: a beleza, a melancolia, a própria
vida lhe parecem sempre novos, o que lhe desperta reações originais e
independentes de convenções e tradições.
• Escapismo: consiste no desejo romântico de fugir da realidade. Nesse
intento, busca um mundo idealizado, criado, pela imaginação, à imagem
de suas emoções e desejos. O escapismo romântico constrói um mundo
novo por meio do sonho.
• Reformismo: consiste na busca de um novo, o que revela o sentimento
revolucionário do romântico, vinculado aos movimentos democráticos e
libertários da época.
• Sonho: consiste, também, no desejo de um mundo novo, pelo aspecto
sonhador do temperamento romântico. O romântico substitui o conhe-
cido pelo desconhecido do sonho, representado, muitas vezes, por
símbolos e mitos.
• Fé: consiste no fato de, em vez da razão, ser a fé que comanda o espí-
rito romântico. Somente o pão não o satisfaz: idealista, desejando um
mundo novo, acredita no espírito e em sua capacidade de reformar o
mundo. Valoriza, ainda, a faculdade mística e a intuição.
• Culto da natureza: consiste na supervalorização da natureza pelo
Romantismo: lugar de refúgio, puro, não contaminado pela sociedade;
por isso espaço de cura física e espiritual. Além disso, a natureza é fonte
de inspiração, guia e proteção amiga. A ideia de “bom selvagem”,
de homem simples e bom em estado de natureza, vinda de Rousseau,
fundamenta esse culto. Ao culto da natureza está vinculado o exotismo:
gosto pelas paisagens exóticas e incomuns.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  221


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

• Retorno ao passado: consiste numa outra forma de escapismo que se


traduz na fuga para a natureza e na volta para o passado, na busca de
uma civilização melhor do que a contemporânea ao homem romântico.
Épocas antigas, Idade Média e passado nacional provêm a literatura
romântica de ambiente, tipos e argumentos na perspectiva dessa revalo-
rização do passado. Por isso a história é valorizada e estudada.
• Pitoresco: consiste no fato de que, além de no tempo, a remotidão ser
valorizada no espaço. Isso atrai muito o romântico. Resultado: gosto
das florestas, das longes terras (selvagens, orientais, ricas de pitoresco)
ou simplesmente de diferentes fisionomias e costumes. Vem daí a melan-
colia comunicada pelos lugares estranhos e que gera saudade e dor de
ausência, próprias do Romantismo. “O pitoresco e a cor local tornam-se
um meio de expressão lírica e sentimental, e, por fim, de excitação de
sensações” (COUTINHO, 1969, p. 7).
• Exagero: consiste no fato de o romântico, na busca da perfeição, fugir
para um mundo em que coloca tudo o que imagina de bom, bravo,
amoroso, puro. Esse mundo pode estar situado no passado, no futuro ou
em lugar distante. É um mundo de perfeição e sonho.

Saiba mais

O filme O morro dos ventos uivantes, adaptação do romance homônimo de


Emile Brontë (um dos mais conhecidos romances românticos ingleses), é a
típica história de amor infeliz: jovens apaixonados (Catherine e Heathcliff)
são separados por questões sociais e econômicas.

O Romantismo distingue-se, ainda, por traços formais e estruturais expostos


a seguir.
• Ausência de regras e de formas prescritas: decorrência da liberdade,
espontaneidade e individualismo. A regra suprema é a inspiração indi-
vidual; é ela que dita a maneira própria de elocução. Por isso há, no
Romantismo, o predomínio do conteúdo sobre a forma. Enquanto o
clássico se prende às regras e os realistas, aos fatos, o romântico é
movido por sua vontade, emoções e reflexões, o que resulta num estilo
moldado pela própria individualidade.
• Construção de tipos multifacetados: o clássico procura simplificar as
personagens, mas os românticos encaram a natureza humana em sua
complexidade. Daí, a construção de tipos multifacetados, mais próxima
do natural e do humano.

222  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

• Marcas estilísticas: o Romantismo faz a revisão do conceito de gênero


da poética neoclássica – as orientações de Boileau, Aristóteles e
Horácio perdem a importância que tinham até então. Por isso à noção
de gênero como algo fixo, imóvel, puro e isolado, correspondendo à
hierarquização social do século XVIII, o Romantismo opõe as ideias de
possibilidade, mistura, evolução, transformação e desaparecimento dos
gêneros, dando lugar ao surgimento de outros. Trata-se, portanto, da
supressão do espírito sistemático e absolutista que antes predominava
na compreensão do problema. Em resumo, a fixação de regras é substi-
tuída pelo caráter descritivo e analítico na construção das obras.
• Mistura de gêneros: para o Romantismo, a distinção dos gêneros era
arbitrária. Por essa razão, reivindica sua mistura, como reflexo da
subversão social decorrente da Revolução Francesa que rompe com a
antiga hierarquização social. Enfim, seduzido pela complexidade da
vida e obediente a essa complexidade, o romântico opta pela mistura
dos gêneros. Na obra romântica, portanto, aparecem, lado a lado, a
poesia e a prosa, o sublime e o grotesco, o sério e o cômico, a vida e a
morte, o divino e o terrestre.
• Preferência pelo lirismo: para o romântico, a poesia se origina no coração,
fonte suprema das emoções. À arte cabe apenas a operação de fazer
versos, porque a forma é natural e primitiva, decorrente da sensibilidade
e da imaginação individuais, bem como da paixão e do amor – poesia,
neste caso, é sinônimo de autoexpressão. Disso resulta a substituição
das antigas denominações específicas de ode, elegia, canção, pelas
denominações genéricas de poesia, poesia lírica, lirismo e poema. A
poesia romântica foi pessoal, intimista e amorosa, mas explorou, ainda,
a temática filosófica e religiosa. A esses aspectos, somam-se, também, o
aspecto social e reformista, além do narrativo épico.
• Revolução no gênero teatral: o Romantismo destrói a tragédia como
gênero fixo, consagrado por leis imutáveis, substituindo-a pelo drama,
cuja estrutura e forma são livres e diversas, mais bem apropriadas às
tendências do espírito do século XIX. Assim as regras referentes às
unidades de tempo e lugar, próprias da poética neoclássica, não são
respeitadas pelo autor romântico. Mas a unidade de ação, criada pela
personagem, permanece. Coutinho (1969, p. 9) expõe que,
Renunciando a essas unidades, o drama romântico virou-se para
o passado nacional e, para a história moderna, em lugar da anti-
guidade greco-latina, em busca da forma nova, a “cor local”, os
costumes, base da realidade e característica essencial da socie-
dade. Mas o drama romântico distinguiu-se ainda pela união do
nobre e do grotesco, do grave e do burlesco, do belo e do feio,
no pressuposto de que o contraste é que chama a atenção, além
de assim mostrar-se mais fiel à realidade. Por último, o drama
romântico misturou o verso e a prosa.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  223


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

• A importância do romance: no Romantismo, o romance tem a mesma


importância da poesia lírica. Esse gênero oferece ao espírito român-
tico melhores oportunidades de realização dos ideais de liberdade e
realismo. Além disso, proporciona melhor atmosfera para o sentimen-
talismo, o idealismo, o senso do pitoresco e do histórico e para preo-
cupação social. O Romantismo cultiva, principalmente, a poesia lírica,
o drama e o romance. Este explora a temática social e de costume,
psicológica e sentimental, gótica e de aventuras, histórica e medieval
ou nacional. Para contemplar esse espectro temático, o romance sofre
inovações em sua estrutura, inspiração, temática, além de reformas na
língua e no estilo, para atender à tendência para a liberdade. Coutinho
(1969, p. 10) acrescenta que,
Sem renunciar à sintaxe e à disciplina poética, o romântico reagiu,
em geral, contra a tirania da gramática e combateu o estilo nobre
e pomposo que considerava incompatível com o natural e com
o real e defendeu o uso de uma língua libertada, simples, sem
ênfase, coloquial, mais rica.

No quadro 2, apresentamos um esquema das características temáticas e


estéticas do Romantismo.

Quadro 2 Características do Romantismo.


Características
Individualismo e subjetivismo
Sentimentalismo (paixão, tristeza, angústia)
Culto à natureza
Histórico: medievalismo
Valorização do passado
Individual: infância
Sonho, fantasia, imaginação, idealização
Escapismo
Desobediência às regras
Mistura de gêneros
Liberdade artística
Surgimento do drama
Afirmação do romance

Saiba mais

Assista ao filme Minha amada imortal, de Bernard Rose. O filme narra a


vida e a obra de Beethoven, um dos maiores gênios da música clássica. E
ainda: ouça a Quinta sinfonia, Ludwig van Beethoven, em que o compositor

224  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

transmite toda a fúria das paixões e das arrebatadoras transformações


revolucionárias.

3.3 O Romantismo brasileiro (1836-1881)


O Romantismo brasileiro é decorrência da independência política e de
suas consequências socioculturais: novo público leitor, instituições universitárias,
jornais e, particularmente, o nacionalismo ufanista, que invadiu o país após
1822, tem os escritores como seus principais intérpretes.

Nacionalismo ufanista: defesa exaltada dos valores nacionais, com vistas à


definição da identidade local.

O objetivo ideológico do Romantismo brasileiro, principalmente da primeira


geração, era contribuir para a grandeza da nação, por meio de uma literatura
espelho do novo mundo e de sua paisagem física e humana. Nesse objetivo,
há um sentimento de missão: revelar o Brasil por intermédio de uma literatura
autônoma que nos expressasse.
Para atingir esse objetivo particularista, os valores do Romantismo europeu
foram adaptados pelos escritores brasileiros. Opondo-se ao Classicismo – o que
no caso brasileiro significa dominação portuguesa – o Romantismo voltava-se
para a natureza, particularmente para sua realidade exótica. Essas preocupa-
ções contribuíram para o desenvolvimento de uma literatura ufanista, conforme
referimos anteriormente. A representação do nacionalismo romântico brasileiro
se deu por meio do indianismo, do regionalismo, da natureza e da procura da
língua brasileira.
• O indianismo – partindo do modelo do bom selvagem rousseauniano, o
Romantismo brasileiro construiu um modelo de herói representativo do
passado e da tradição do país, naquele momento jovem e sem passado
ou tradição. Contraditoriamente, a construção desse herói ignorou a
cultura indígena e contemplou a imagem do cavaleiro medieval. No
entanto, o índio (primitivo habitante da terra) representava o próprio
instinto da nacionalidade: a imagem positiva do indígena oferecia às
elites nacionais o orgulho de uma ascendência nobre. Isso ajudava a
legitimar seu poder no Brasil pós-independência.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  225


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

• O regionalismo – o regionalismo romântico, derivado da consciência


eufórica de um país novo, procurou afirmar as particularidades e a iden-
tidade de cada região nacional, para torná-las literárias e, em consequ-
ência, tornar literário o Brasil. Esse regionalismo, no entanto, não passou
de simples moldura, uma vez que a intriga romanesca era urbana e gravi-
tava em torno de esquemas românticos próprios do folhetim. A linguagem
citadina ocupava o lugar da fala regional das regiões retratadas.
• A natureza – a terra era identificada com a pátria. Por isso, os fenô-
menos naturais tornaram-se representativos da grandeza do país: juven-
tude, vitalidade, exuberância, tornaram-se compensação da pobreza
social e, ao mesmo tempo, simbolizavam as potencialidades do país.
• Procura da língua brasileira – escritores românticos como José de Alencar
reivindicaram para a literatura brasileira uma língua própria, por isso,
pode-se constatar nas obras dos autores românticos, certa sujeição da
técnica expressiva à sensibilidade local. O uso de vocabulário original
e a colocação pronominal são exemplos disso.
Com essas marcas, o movimento romântico no Brasil foi deflagrado com a
publicação da Revista Niterói, em Paris, em 1836. Trazendo uma epígrafe que
defendia a ideia “Tudo pelo Brasil e para o Brasil”, essa revista, elaborada por
intelectuais que estudavam na Europa, propunha investigar as Letras, as Artes
e as Ciências no Brasil. Gonçalves de Magalhães destacou-se no grupo. Ainda
em 1836, ele publicou um livro de poemas: Suspiros poéticos e saudades, obra
que introduziu o espírito romântico no Brasil. Leia, a seguir, algumas estrofes
dessa obra, nas quais estão presentes características da literatura romântica
brasileira, referentes ao papel e ao caráter do poeta e à natureza como mani-
festação do eu-lírico:

O VATE

Por que cantas, oh Vate? por que cantas?


Qual é tua missão? O que és tu mesmo?
Para ti nada é morto, nada é mudo;
Co’o sol, e o céu, e a terra, e a noite falas.
Tudo te escuta; e para responder-te,
Missão e natureza do poeta.
Do passado o cadáver se remove,
E do túmulo seu a fronte eleva;
O presente te atende; e no futuro
Eternos vão soar os teus acentos!

226  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Quando o vento em furor açouta as comas


Dos brasílicos bosques, voz tremenda
Igual a do trovão ao longe atroa,
E uma nuvem de flores se levanta,
Que o ar com seus eflúvios embalsama; A natureza como expressão
Assim, quando te agita o entusiasmo, do sentimento do eu-lírico.
Dos lábios teus emana alma torrente
Troante e recendente de perfumes.
[...]

Umas vezes soberbo, impetuoso,


Qual águia que sublime o céu devassa,
E do céu sobre a terra os olhos desce,
Poeta como gênio inspirado.
Teu ígneo, alado gênio, no ar suspenso:
Não, oh mortais, não vos pertenço, (exclama)
Eu sou órgão de um Deus; um Deus me inspira;
Seu intérprete sou; oh terra! ouvi-me.

Outras vezes, nas selvas meditando,


Sobre um tronco sentado, junto a um rio,
Que embalança da lua a argêntea cópia;
Como entre as folhas sussurrante vento
Valorização da natureza e
Gemer parece, e de algum mal carpir-se,
relação do mundo exterior e
Tu gemes, e co’o verme te comparas, estado da alma.
Que arrasta pelo chão a inútil vida;
E vês nas águas, que a teus pés deslizam,
A imagem de teus dias fugitivos.
[...]

(MAGALHÃES, s/d, p. 29)

O Romantismo no Brasil evoluiu por meio de três gerações, cada uma delas
assumindo uma perspectiva própria, mas sem comprometer a transferência das
características de uma a outra, numa interpenetração muito acentuada.

Portanto, neste capítulo, estudamos os aspectos histórico-literários do


Romantismo e discutimos as características fundamentais do Romantismo.

No próximo capítulo, apresentaremos os aspectos do primeiro momento do


Romantismo no Brasil e a poesia de Gonçalves Dias.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  227


CAPÍTULO 3 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Referências
CANDIDO, Antônio; CASTELLO, Aderaldo. Presença da Literatura brasileira:
história e antologia. São Paulo: Difel, 1985.
COUTINHO, Afrânio (Dir.). A Literatura no Brasil: Romantismo. 2. ed. Rio de
Janeiro: Sul Americana S.A., 1969.
MAGALHÃES, Domingos Gonçalves de. Suspiros poéticos e saudades. Trechos
escolhidos por José Aderaldo Castello. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro.
Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>. Acesso em: 10 nov. 2008.
PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins
Fontes, 1985.

Anotações

228  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


4
Primeiro momento do CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Romantismo no Brasil
(1836-1840)

Introdução
A Gonçalves de Magalhães, por meio de Suspiros poéticos e saudades, cabe
a precedência cronológica dos versos românticos na literatura brasileira. Nessa
obra, o poeta realiza a transformação lírica de algumas de suas ideias sobre
o Romantismo, considerado como oportunidade de afirmação de uma literatura
nacional: destruía os artifícios e os esquemas neoclássicos, na medida em que
propunha a valorização da natureza, do índio e de uma religiosidade panteísta.
Faltava, no entanto, a Gonçalves de Magalhães, uma autêntica emoção
poética. Por isso os sentimentos que ele explora em seus poemas apresentam-se
de maneira retórica, enfática e, frequentemente, despoetizados. Mesmo assim,
o autor de Suspiros poéticos e saudades foi considerado o maior poeta pátrio,
símbolo da literatura brasileira. Essa posição foi deslocada pela publicação de
A Confederação dos Tamoios, tentativa de realização de um indianismo épico,
dando origem a críticas como as de José de Alencar sobre o artificialismo de
sua composição. Restou a Gonçalves de Magalhães, portanto, a incontestável
importância histórica: o Romantismo no Brasil fora por ele introduzido.
No contexto do primeiro momento do Romantismo no Brasil, o destaque
cabe a Gonçalves Dias. Esse poeta conseguiu equilibrar os temas sentimentais e
exóticos com uma linguagem simples, na medida em que fugiu da ênfase decla-
matória e da vulgaridade.
A obra de Gonçalves Dias articula-se em torno de quatro temas principais:
o índio, a natureza, a saudade da pátria e o amor. Os três primeiros estão
diretamente relacionados ao ideal de construção da nacionalidade, proposta
do primeiro momento do Romantismo. Por essa razão, esse poeta indianista foi
escolhido como destaque neste capítulo.
Para você compreender a relação entre Romantismo e nacionalismo e identi-
ficar as principais características do primeiro momento do Romantismo brasileiro
em Gonçalves Dias, é necessário que tenha compreendido as relações entre
Romantismo, burguesia e revolução social, discutidas no capítulo anterior.

4.1 Primeiro momento do Romantismo brasileiro: aspectos


histórico-culturais
A eclosão do Romantismo brasileiro foi um fenômeno do processo de afir-
mação da consciência da Nação, rumo à sua autonomia. Coutinho (1969, p. 14)
expõe que

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  229


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

O progresso geral do país durante a fase da permanência da


corte portuguesa (1808-1821), imediatamente seguida pela
Independência (1822), teve indisputável expressão cultural e lite-
rária. O Rio de Janeiro tornou-se, além de sede do governo, a
capital literária, e, com a liberdade de prelos, desencadeou-se
intenso movimento de imprensa por todo o país, em que se
misturavam a literatura e a política numa feição bem típica da
época. À agitação intelectual que caracteriza a fase posterior à
Independência, há que aliar uma grande curiosidade acerca do
país – sua história, sua vida social, econômica e comercial, sua
raça, flora e fauna [...].

A fusão de política e literatura, trabalhando pela autonomia cultural e polí-


tica do país, a atitude intencionalmente revolucionária de renovação da literatura
brasileira, a intenção antilusa, indicando a transferência do eixo de inspiração
da literatura para a França e a preferência dada ao tema do indianismo revelam
a necessidade de adaptação dos moldes estrangeiros às circunstâncias nacio-
nais, na esteira dos acontecimentos sociais e políticos, também inegavelmente
revolucionários, que acompanharam o processo de Independência em 1822 e
a ascensão da burguesia.
O Romantismo, no Brasil, configura-se, pois, entre 1808 e 1836, para
o Pré-Romantismo; de 1836 a 1860, para o Romantismo propriamente dito,
assim dividido:
• 1836 -1840: primeiro momento
• 1840 -1850: segundo momento
• 1850 -1860: terceiro momento
O primeiro momento do Romantismo inicia-se pelo grupo fluminense por
meio do manifesto romântico de 1836, intitulado Niterói, Revista Brasiliense.
Nesse manifesto, convivem tendências contraditórias, envolvendo conservado-
rismo e resíduos classicistas com a marcha deliberada rumo à nova estética. Por
isso esse momento não pertence mais à fase pré-romântica, mas desempenha o
papel de iniciação e introdução do Romantismo, na medida em que cultiva a
poesia religiosa e mística, nacionalismo e lusofobia, com influências inglesa e
francesa, particularmente a primeira.
No que se refere ao nacionalismo e à lusofobia, “o objetivo era a criação
do caráter nacional da literatura, em oposição à marca portuguesa, conside-
rada de importação e de opressão nesse momento de luta pela autonomia”
(COUTINHO, 1969, p. 17).
Nessa perspectiva, o indianismo foi o tema mais representativo do nacio-
nalismo literário: o índio passou a figurar como o legítimo representante de
nossa raça. Se, durante o processo de colonização, ele foi relegado ao segundo
plano, ficando restrito a regiões aonde não chegavam fazendas e engenhos,

230  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

nos textos românticos é representado de forma idealizada: sempre bom, nobre,


bonito e cavaleiro generoso.
A essa primeira geração, pertencem Gonçalves de Magalhães (1811-1877),
com Suspiros poéticos e saudades (1836) e Confederação dos Tamoios (1857),
e Gonçalves Dias (1823-1864), com Primeiros cantos (1846), Segundos cantos
(1848), Sextilhas de Frei Antão (1848) e Últimos cantos (1851).
Conforme indicado no título deste capítulo, nosso foco é Gonçalves Dias,
assunto do próximo item.

4.2 Gonçalves Dias: aspectos da vida e da obra


Antônio Gonçalves Dias nasceu na cidade de Caxias, Maranhão, e morreu
num naufrágio, na costa do mesmo Estado, numa viagem de retorno da Europa,
em 1864. Filho de um comerciante português e de uma mestiça, estudou leis em
Coimbra, onde conheceu, por volta de 1840, a poesia romântico-nacionalista de
Almeida Garrett e Alexandre Herculano, poetas portugueses que influenciariam
para sempre a sua linguagem poética. Retornou ao Brasil em 1845 e se apro-
ximou do grupo de Gonçalves de Magalhães, no Rio de Janeiro. Foi professor
de latim e História do Brasil do Colégio Pedro II na mesma cidade.
A publicação dos Primeiros cantos, em 1846, fixou seu nome como grande
poeta, ratificado, em seguida, pelos Segundos cantos e Sextilhas de Frei Antão
e pelos Últimos cantos. Nessas obras, explorou os grandes temas românticos
– natureza, pátria e religião – e o do amor impossível de raiz autobiográfica.
Deixou um poema épico inacabado: Os Timbiras.
Gonçalves Dias foi o primeiro autêntico poeta do nosso Romantismo: “[...] sua
personalidade de artista soube transformar os temas comuns em obras poéticas
duradouras que o situam muito acima dos predecessores” (BOSI, 2001, p. 114). O
poeta maranhense, ao contrário de seus contemporâneos, influenciados pela litera-
tura francesa, tem muito de português no trato da língua e na cadência do lirismo.
O núcleo americano, vinculado ao nome do poeta pela riqueza expressiva, na
verdade, é exíguo no conjunto de sua obra, marcada por grandes temas român-
ticos do amor, da natureza e de Deus. Entretanto é na força do Gonçalves Dias
indianista que reside a verdade artística do mito do bom selvagem, constante na
literatura brasileira desde os árcades. O que foi moda mais tarde, em Gonçalves
Dias é matéria de poesia. Noutras palavras, o indianismo no autor de Primeiros
cantos distingue-se pela qualidade e não pela quantidade de temas explorados.
Nele, o índio vincula-se à glória do colono que se tornara brasileiro.
Os versos de Gonçalves Dias eram compostos em ritmos ágeis e numa linguagem
precisa: versos breves e fortemente cadenciados, sabiamente construídos alternando
sons duros e vibrantes, o que se pode verificar no poema a seguir.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  231


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

O Canto do Guerreiro

I
Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estimem a vida
Sem guerra e lidar.
– Ouvi-me, Guerreiros.
– Ouvi meu cantar.

II
Valente na guerra
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
– Guerreiros, ouvi-me;
– Quem há, como eu sou?

III
Quem guia nos ares
A frecha imprumada,
Ferindo uma presa,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
– Guerreiros, ouvi-me,
– Ouvi meu cantar.

IV
Quem tantos imigos
Em guerras preou?
Quem canta seus feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
– Guerreiros, ouvi-me:
– Quem há, como eu sou?

232  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

V
Na caça ou na lide,
Quem há que me afronte?!
A onça raivosa
Meus passos conhece,
O inimigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céu.
– Quem há mais valente,
– Mais destro do que eu?

VI
Se as matas estrujo
Co os sons do Boré,
Mil arcos se encurvam,
Mil setas lá voam,
Mil gritos reboam,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
– Quem é mais valente,
– Mais forte quem é?

VII
Lá vão pelas matas;
Não fazem ruído:
O vento gemendo
E as malas tremendo
E o triste carpido
Duma ave a cantar,
São eles – guerreiros,
Que faço avançar.
[...]

(DIAS, s/d, s/p)

Saiba mais

O Canto do Piaga é outro poema de Gonçalves Dias que exemplifica essa


questão dos versos breves e cadenciados. Leia-o completo no sítio <www.
dominiopublico.gov.br>.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  233


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

I-Juca Pirama (o que deve ser morto) é outro poema emblemático da poesia
indianista de Gonçalves Dias. Dividido em dez cantos, narra o drama de I-Juca
Pirama, último descendente dos tupis, feito prisioneiro dos timbiras. Condenado
à morte, I-Juca Pirama pede clemência, uma vez que é arrimo de seu pai. O
canto VIII narra o reencontro entre o jovem tupi e seu pai, que o amaldiçoa e o
renega devido à covardia do filho.

Tu choraste em presença da morte?


Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.

Possas tu, isolado na terra,


Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!

Não encontres doçura no dia,


Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.

Que a teus passos a relva se torre;


Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde fujas com asco e terror!

234  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Sempre o céu, como um teto incendido,


Creste e punja teus membros malditos
E oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.

Um amigo não tenhas piedoso


Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és.

(DIAS, s/d, s/p)

Em Gonçalves Dias, a valorização do índio é mais do que uma convenção


poética: é a reafirmação dos propósitos nacionalistas, consequência do nati-
vismo decorrente da Independência. Essa literatura, em geral, é mesclada por
elementos pitorescos (habitantes da terra) com elementos europeus (mito do
bom selvagem) e com elementos idealistas: os índios são falsos e inverossímeis.
Alguns elementos etnográficos, como roupagens, armas, costumes etc., dão um
tom verdadeiro às obras. O maior conhecimento de Gonçalves Dias sobre a vida
aborígene e o uso poético de um índio ainda não envolvido pela ação coloniza-
dora do homem branco garantem a superioridade do poeta maranhense sobre
outros criadores indianistas.
Como poeta da natureza, Gonçalves Dias canta o mar, as florestas e a
luminosidade do sol brasileiro. Os poemas que tratam dessa temática foram
por ele mesmo denominados de poesias americanas. Os espetáculos da natu-
reza conduzem os pensamentos do eu-lírico a Deus. Disso resulta uma cele-
bração panteística.
Poesia da natureza entrelaça-se com a poesia saudosista. Nostálgico, o
poeta maranhense lembra a infância, os amores idos e vividos e, sobretudo,
um homem que se sente exilado na Europa e que é arrastado pela lembrança
(saudade) de sua terra natal, como exemplifica o poema Canção do exílio, um
clássico de nossa literatura.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  235


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Minha terra tem palmeiras,


Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,


Nossas várzeas têm mais flores,
Nosso bosque tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,


Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,


Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,


Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

(DIAS, s/d, s/p)

Outro aspecto constante na obra de Gonçalves Dias é o amoroso, desen-


volvido sob o prisma do sofrimento. Nesse poeta, o amor jamais se concretiza
no contexto real; quase sempre é ilusão perdida e impossibilidade vital de
relacionamento. A esperança e a vivência, a intenção e o gesto limitam os
abismos da experiência concreta, que não passa de fracasso. Apaixonar-se
é predispor-se à angústia e à solidão. Mesmo assim, o eu-poético confessa
sua afetividade e suplica a paixão da mulher. Não encontrando resposta,
desespera-se.

236  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Saiba mais

Se eu morresse de amor é um dos poemas de amor de Gonçalves Dias.


Nele, o eu-poético dá dignidade ao sofrimento. Leia-o no sítio <www.domi-
niopublico.gov.br>.

Ainda uma vez Adeus! é seu poema de amor mais conhecido. Leia um frag-
mento dele a seguir.

Enfim te vejo! – enfim posso,


Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti! [...]

Mas que tens? Não me conheces?


De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!

VI

Nenhuma voz me diriges!...


Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias – bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  237


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

VII
Oh! se lutei!... mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?

VIII

Devera, sim; mas pensava,


Que de mim t’esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T’esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!

IX

Que me enganei, ora o vejo;


Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar! [...]

XIII

Louco, julguei adornar-me


Com palmas d’alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
C’o que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.

238  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

XIV
Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!

XV
És doutro agora, e pr’a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

XVI
Dói-te de mim, que t’imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

XVII
Adeus qu’eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  239


CAPÍTULO 4 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

XVIII
Lerás porém algum dia
Meus versos d’alma arrancados,
D’amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; – e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, – de compaixão.

(DIAS, s/d, s/p)

Saiba mais

Esse poema também está no sítio <www.dominiopublico.gov.br>. Confira!

A poesia de Gonçalves Dias integra os gêneros lírico, épico e dramático:


canto, ação e narrativa. Sob as três faces, esse poeta foi diferente de si mesmo
tantas vezes quantas quis.
Portanto, neste capítulo, estudamos os aspectos literários e históricos do
primeiro momento do Romantismo no Brasil e discutimos as características da
poesia de Gonçalves Dias.
A década de 1940 presenciou o amadurecimento da tradição literária
nacionalista. Os anos seguintes viram surgir a poesia marcada pelo extremo
subjetivismo, à moda de Byron e Musset. É quando surge a temática emotiva do
amor e da morte, da dúvida e da ironia, do entusiasmo e do tédio. Álvares de
Azevedo e Casimiro de Abreu, que serão estudados no próximo capítulo, são
representantes desse momento.

Referências
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2001.
COUTINHO, Afrânio (Dir.). A Literatura no Brasil: Romantismo. 2. ed. Rio de
Janeiro: Sul Americana S.A., 1969.
DIAS, Gonçalves. Primeiros cantos. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro.
Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>. Acesso em: 10 nov. 2008.

240  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


5
CAPÍTULO 5 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Segundo momento do
Romantismo no Brasil

Introdução
Destaca-se, no Romantismo, um grupo de poetas de características bem
definidas, objetivadas e refletidas no individualismo, estilo de vida, melancolia,
desespero, mal do século, delírio doloroso e desesperante e no exagero do senti-
mento e da paixão. Esses poetas, amadurecidos precocemente, mortos em sua
maioria prematuramente, tiveram desse fato certa intuição: viveram uma vida
desenfreada e de orgia, incompreendidos em sua morbidez e originalidade.
Byron e Musset foram os modelos literários por eles adotados. Alguns poetas
desse grupo tiveram grande popularidade. Álvares de Azevedo e Casimiro de
Abreu, objetos de estudo deste capítulo, são poetas de grande ressonância
popular. Além deles, figuraram no grupo Fagundes Varela e Junqueira Freire.
Para você compreender as principais características do segundo momento
do Romantismo brasileiro e identificar as características da obra de Álvares de
Azevedo e de Casimiro de Abreu e suas relações com o segundo momento do
Romantismo, é necessário que não se esqueça da relação existente entre libera-
lismo, individualismo e subjetivismo, reflexos das transformações que implicaram a
substituição da aristocracia pela burguesia, no comando da sociedade ocidental.

5.1 Álvares de Azevedo: aspectos da vida e da obra


Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, em 1831, e
morreu no Rio de Janeiro, em 1852. Cursou Humanidades no Colégio Pedro
II e Direito em São Paulo, sua terra natal. Envolveu-se com o byronismo e o
satanismo dos grupos boêmios de seu tempo, tomando parte nos desmandos
da Sociedade Epicureia. Mesmo assim, revelou talento precoce e grande capa-
cidade de estudo. Álvares de Azevedo morreu tuberculoso aos vinte anos de
idade. Não viu sua obra reunida em livro: Lira dos vinte anos (poemas, 1853),
Noite na taverna (contos, 1855), O Conde Lopo (poema, 1886) e Macário
(drama, 1855).

5.1.1 A poesia
A poesia de Álvares de Azevedo oferece farta documentação para a psica-
nálise. Nessa perspectiva, tem sido lida por alguns críticos modernos. De acordo
com Bosi (2001, p. 120-121), “todo um complexo psicológico se articulou em
uma linguagem e em um estilo novo, que se manteve por quase trinta anos na
esfera da história literária e sobreviveu [...] até hoje [...]”.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  241


CAPÍTULO 5 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

A produção de Azevedo, ao recusar o indianismo e o nacionalismo e


preferir a confissão íntima e o extravasamento subjetivo, representa, tipicamente,
a segunda geração romântica. Trata-se da primeira afirmação relevante do indi-
vidualismo romântico no Brasil: “[...] o individualismo estava nele representado
por uma liberdade de espírito que os seus predecessores não conheceram ou
não ousaram ter” (COUTINHO, 1969, p. 132).
O rompimento da poesia brasileira da tradição clássica surgiu francamente
em seus versos, que desvelaram os horizontes de nossas letras, abrindo-lhes novas
e ilimitadas perspectivas. O grito de sua poesia foi outro grito de independência
do Brasil, agora no campo artístico. Coutinho (1969, p. 132) afirma que
Sua poesia não revela nenhuma impregnação afetiva e enfática
da realidade nacional ou do momento histórico em que viveu.
Esporádias ou meramente circunstanciais as manifestações do
instituto da nacionalidade que o arrebataram momentanea-
mente do subjetivismo lírico em que se encontrava o clima ideal.
Naturalmente, pulsava nele uma consciência social e crítica, [...]
mas, distraído pelo cosmopolitismo intelectual, [...] não sentiu
estranhadamente a nossa natureza, e, longe de exaltar-lhe os
encantos ou a selvagem majestade, parece ter vivido de algum
modo esmagado ou constrangido pelo ambiente físico brasileiro.

A atitude retraída de Álvares de Azevedo perante a natureza, na qual não


encontrava respostas às excentricidades de seu espírito, o transformou num poeta
ímpar entre os românticos. Melancólico e rebelde, trazia em si o desencanto da
paisagem local, mas a ela recorreu, incidentalmente, às vezes, para dar corpo e
consistência às suas criações abstratas, marcadas, quase sempre, pelo exótico,
o lúgubre e o macabro: projeção de uma alma ferida pelo mal do século. Os
temas preferidos por Álvares de Azevedo são o amor, a morte e o tédio.
• O amor – o eu-poético revela um medo implícito das relações amorosas.
A mulher, para ele, é símbolo de erotismo (prostituta) ou de pureza
virginal (virgem). Ora desprezível, ora inatingível, nunca está a seu
alcance. O amor, representado numa série de poemas, é um amor frus-
trado: neles, a preparação erótica e o desejo do sexo são destruídos ao
encontrar a amada adormecida e preferir não profaná-la.

Não acordes tão cedo! Enquanto dormes


Eu posso dar-te beijos em segredo
Medo das relações
Mas, quando nos teus olhos raia a vida, amorosas.
Não ouso te fitar... Eu tenho medo!

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

242  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 5 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Ó minha amante, minha doce virgem, Amor frustrado pela


Eu não te profanei, e dormes pura destruição das preli-
No sono do mistério, qual na vida, minares eróticas e da
Podes sonhar apenas na ventura. vontade do sexo.

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

O amor é o tema mais importante da poética de Álvares de Azevedo e


reflete o rigorismo da organização e das convenções sociais da socie-
dade de seu tempo: as mulheres deviam ficar longe dos homens até o
casamento idealizado pelo grupo. Como consequência, elas formavam
dois grandes grupos, que instigavam a imaginação carnal dos jovens: de
um lado, a moça de boa família, casta, indiferente ao desejo, reservada
e distante; do outro, a mulher degradada pela pobreza e pela condição
social desvalida, por isso disponível às necessidades do sexo.
Essa realidade social conferia às naturais aventuras dos jovens, um
aspecto romanesco e impressionante, quando transposta para a litera-
tura, gerava uma idealização do amor e uma visão impura da carne.
Por isso a imaginação dos neófitos oscilava entre a donzela inacessível e
a prostituta sensual; uma oscilação entre a pureza e a impureza, reflexo
dos costumes da sociedade de então, contamina grande parte da obra
de Álvares de Azevedo.
• A morte – é o aspecto mais famoso da obra de Álvares de Azevedo. É nos
poemas sobre a morte que identificamos, com maior clareza, as qualidades
expressivas desse poeta. Como uma sombra fantástica que o rondava
sempre, versou frequentemente sobre ela e chegou a antevê-la e profetizá-la
para si. Numa palavra: nunca a esqueceu. Mesmo tendo feito opção pela
morte (morreu aos vinte anos de idade), não se livra do desespero e da
angústia provocados pela aproximação da “leviana prostituta” (a morte).
É pela morte que o poeta pretende solucionar suas crises e suprimir suas
dores. Mas, ao encará-la, não pode se esquecer dos afetos e do futuro que
vai comprometer e lamenta a perda desses bens. Leia, a seguir, o poema Se
eu morresse amanhã e confira a beleza amargurada que ele transmite:

Se eu morresse amanhã, viria ao menos


Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  243


CAPÍTULO 5 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Quanta glória pressinto em meu futuro!


Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva


Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora


A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

• O tédio (mal do século) – quando Álvares de Azevedo abandona suas


fantasias eróticas, seus sonhos de amor e sua obsessão pela morte,
surgem os melhores momentos de sua poesia: aqueles marcados por
uma espécie de cansaço existencial – o tédio. A visão das coisas que o
cercam, despojada da exacerbação afetiva dos românticos, faz com que
ele descubra o cotidiano e o mundo prosaico, retirando-o do universo
do sublime. O senso de humor, em sua obra, resulta, muitas vezes,
dessa descoberta do cotidiano.
O tédio, além de conduzi-lo às coisas concretas, leva-o à prática do
autoinventário: o poeta, sem o véu da fantasia, contempla-se a si mesmo
e registra sua dúvida em relação ao sentido da vida, à sua solidão e à sua
impotência. É o tédio que o arrasta para o real e lhe dá a consciência da
necessidade de um ideal para viver. Esse conflito entre o real e o ideal
aniquila o poeta. Ideias íntimas exemplifica bem esse embate:

Em frente do meu leito, em negro quadro


A minha amante dorme. É uma estampa
De bela adormecida. A rósea face
Parece em visos de um amor lascivo
De fogos vagabundos acender? se...
E com a nívea mão recata o seio...

244  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 5 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Oh! quantas vezes, ideal mimoso,


Não encheste minh’alma de ventura,
Quando louco, sedento e arquejante,
Meus tristes lábios imprimi ardentes
No poento vidro que te guarda o sono!

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

Apresentamos, esquematicamente, no quadro a seguir, a temática da poesia


de Álvares de Azevedo.

Quadro Temática da poesia de Álvares de Azevedo.

• orgia
Amor
• medo
Morte
• cotidiano
Tédio
• autoanálise (dúvida)

5.1.2 A prosa
Noite na Taverna, livro de contos, é a obra em prosa de Álvares de Azevedo.
Compõe-se de contos satânicos, devassos, melodramáticos, cheios de crimes,
amoralismos, incestos e violações: sete jovens bebem na taverna. Quando a
fumaça dos cigarros se mistura com os eflúvios das bebidas alcoólicas, cada um
deles conta uma história criminosa que teria vivido, envolvendo o desejo carnal,
aspecto destrutivo do sentimento amoroso: para o romântico, o verdadeiro amor
só é possível depois da morte.

Saiba mais

Confira, no sítio <http://www.dominiopublico.gov.br>, a grandeza dessa


narrativa de nosso mais destacado poeta ultrarromântico, Álvares de Azevedo,
vate que sempre explorou o tema dos desesperos passionais, tratados de forma
séria ou irônica, e expressando, sempre, uma visão idealizada do amor.

Poeta único entre os ultrarromânticos apresenta um modo contrastante de


abordar os temas da época, traço que o faz romper o tom monocórdico da lite-
ratura até então, na medida em que desafia a concepção homogênea e estática
de literatura.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  245


CAPÍTULO 5 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Saiba mais

A adaptação de Frankenstein, de Mary Shelley, para o cinema é uma dica


para você conhecer um pouco mais sobre o romance inglês. Outra dica é
o filme Drácula, adaptado do romance de Bram Stoker. O texto e o filme
narram a história de como um guerreiro se transformou no morto-vivo mais
famoso de todos os tempos. Confira, sempre, o texto literário e o texto
adaptado. Vale a pena!

5.2 Casimiro de Abreu: aspectos da vida e da obra


Casimiro José Marques de Abreu nasceu no Rio de Janeiro, em 1839, e
morreu em 1860, no mesmo Estado. Em Nova Friburgo (Rio de Janeiro), fez parte
do curso de Humanidades. Sem completar os estudos básicos, foi enviado, em
1852, ao pai, um comerciante português de espírito prático, para ser iniciado
na prática comercial. Um ano mais tarde, vai para Lisboa, a fim de comple-
mentar essa prática.
Em Portugal, a literatura foi dominando seus interesses intelectuais e seu talento.
Por isso, após dois anos, iniciou sua carreira de escritor, ao publicar poemas e
ensaios de ficção em periódicos como O panorama, Ilustração luso-brasileira e
O progresso. Ainda nessa época, fez representar a peça Camões e o Jaú, cena
dramática em um ato. Os anos de Casimiro em Lisboa não foram apenas de início
promissor de vida literária. Foram, sobretudo, de elaboração de um conjunto de
poemas intitulado Canções do exílio, o melhor de sua obra poética.
Regressou ao Brasil em 1857 e começou a trabalhar num escritório no Rio
de Janeiro. O ano de 1858 presenciou o agravamento de seu natural estado de
desalento e de contrariedade com a vida que lhe fora imposta pelo pai (traba-
lhar num escritório), mas foi também um dos anos mais fecundos de sua ativi-
dade poética: no ano seguinte, com auxílio de seu pai, publicou seu primeiro
livro de poemas: Primaveras.
A poesia de Casimiro de Abreu foi eleita pela preferência popular. Esse fato,
segundo alguns críticos, deve-se à confluência entre a obra de arte e o homem
comum, assegurada pela simplicidade de sua linguagem, pelo tom coloquial,
pela juventude e ingenuidade de sua expressão, pelo exagero a sensibilidade
de seu verso e pela correlação entre essas virtudes e da sensibilidade popular,
características fundamentais de sua obra.
Os vocábulos “primavera”, “esperança”, “amor” e “saudade” denunciam
os aspectos psicológicos que dominam seus versos: “Tanto essas palavras, pela

246  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 5 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

carga de significações vulgares, quanto às situações focalizadas pelo poeta,


constituem manifestações simples de sentimento do comum dos homens, mormente
dos adolescentes” (COUTINHO, 1969, p. 153).
Na poesia de Casimiro de Abreu, prevalece a temática da saudade. Saudade
da pátria. Saudade da família. Saudade do lar. Saudade da infância. Essa insis-
tência num sentimento genuinamente brasileiro revela a tendência à evasão no
tempo e no espaço. O amor e a mulher são temas que também aparecem em
suas obras, mas quase sempre idealizados. O poema Meus oito anos é exemplo
emblemático dessa tendência à evasão que caracteriza o eu-lírico:

Oh! que saudades que tenho


Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias


Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d’amor!

Que aurora, que sol, que vida,


Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar! [...]

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  247


CAPÍTULO 5 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Saiba mais

O poema completo pode ser lido em <http://www.dominiopublico.gov.br>.


Confira!

Leveza e suavidade são marcas da poesia desse poeta, resultantes de seu


olhar ingênuo para as questões do amor. Além disso, seus poemas falam de
aspectos comuns da vida. Essa evocação sentimental de pequenos objetos e cenas
culminam na valorização dos elementos prosaicos e no uso da linguagem colo-
quial, que só reaparecerá nos versos modernistas de Manuel Bandeira. Ritmo fácil,
singeleza de pensamento, ausência de abstrações, caráter recitativo e tratamento
sentimental: essas características garantiram o sucesso dos poemas de Casimiro
de Abreu, notadamente de Meus oito anos, apresentado anteriormente.
Portanto, neste capítulo, estudamos as principais características do segundo
momento do Romantismo brasileiro e as características das obras de Álvares de
Azevedo e de Casimiro de Abreu.
A crise do Brasil puramente rural, o lento e firme crescimento da cultura
urbana e dos ideais democráticos e o despontar de uma espécie de repulsa
pelos princípios da sociedade escravista, que manchavam o Segundo Império,
impõem novos modelos poéticos, fundamentados, agora, em Vitor Hugo. Castro
Alves, tema do próximo capítulo, é o maior representante do terceiro momento
do Romantismo no Brasil. Daremos ênfase ao Poeta dos Escravos.

Referências
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2001.
COUTINHO, Afrânio (Dir.). A Literatura no Brasil: Romantismo. 2. ed. Rio de
Janeiro: Sul Americana S.A., 1969.
JORNAL DE POESIA. Álvares de Azevedo. Disponível em: <http://www.revista.
agulha.nom.br/avz7.html#seeumorresse>. Acesso em: 12 mar. 2010.
______. Casimiro de Abreu. Disponível em: <http://www.revista.agulha.nom.
br/casi.html#meus>. Acesso em: 12 mar. 2010.

Anotações

248  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


6
CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Terceiro momento do
Romantismo no Brasil

Introdução
A partir da década de 1860, os senhores rurais e parcelas da burguesia,
então classe dominante brasileira, começam a sofrer uma divisão: a ideologia
das elites, até então confundida com os verdadeiros interesses do Brasil, passa
a revelar os interesses antagônicos das classes que disputam a hegemonia na
direção da sociedade.
Intelectuais da classe média urbana, escritores, jornalistas e militares
começam a perceber a distância que se coloca entre os interesses dos proprie-
tários rurais e os do resto da população. Por isso, nesse momento, a literatura
passa a desempenhar um papel crítico, superando o egocentrismo dos escritores
do segundo momento do Romantismo.
Tem-se, agora, a literatura de cunho social, comprometida com questões
como o abolicionismo, na medida em que critica a inércia do Segundo Reinado
(1840-1889). Castro Alves é a grande expressão desse momento.
Para você compreender as características do terceiro momento do Romantismo
no Brasil e identificar as marcas da poesia social de Castro Alves, é impor-
tante que tenha consciência da crise que atingiu a classe dominante brasileira
(senhores rurais e parcelas da burguesia), a partir da década de 1860.

6.1 Castro Alves: aspectos da vida e da obra


Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em Curralinho (hoje Castro Alves),
Bahia, em 1847, e morreu em Salvador, em 1871. Filho de médico, fez estudos
secundários no Ginásio Baiano e o Curso de Direito em Recife, no momento
em que já se iniciava a campanha liberal abolicionista, da qual seria um dos
líderes, junto com Tobias Barreto.
A atriz Eugênia Câmara foi a grande paixão de sua vida. Para ela, escreveu
o drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, encenada em Salvador quando o
poeta encaminhava-se para São Paulo, para continuar seus estudos. Rui Barbosa,
Joaquim Nabuco e Salvador de Mendonça foram seus colegas. Ficou pouco
tempo em São Paulo. Acidentado numa caça, quando lhe foi ferido o pé, voltou
para a Bahia, para se operar. Seu organismo, debilitado pela tuberculose, não
resistiu, e o poeta morreu aos 24 anos de idade.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  249


CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Espumas flutuantes foram publicadas em Salvador, em 1871. Postumamente,


vieram à luz A Cachoeira de Paulo Afonso (1876), Os escravos (1883) e Hinos
do Equador (1921).
Castro Alves foi novo não apenas pela tendência libertária, mas também
pelos versos de substância amorosa, marcados pela franqueza na expressão de
seus desejos e dos encantos da mulher amada. Com ele, surgiu uma renovada
lírica erótica, mais forte e mais limpa, liberta de culpas sem perdão. Castro Alves
foi o poeta de palavra aberta, a revelar a realidade de uma nação que sobre-
vivia do suor e do sangue escravizado.
Personalidade poética inquieta e aventureira, confunde-se com os profetas
que ditam salmos bíblicos do alto da montanha. No trecho a seguir, do poema
Poeta, por exemplo, há um vaticínio sobre o poeta e a natureza, num tom que
remete a um salmo religioso:

Todo o universo é um templo – o céu a cúpula imensa,


Os astros – lâmpadas de ouro no espaço a cintilar,
A ventania – é o órgão que enche a nave extensa,
Tu és o sacerdote da terra – imenso altar.

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

Castro Alves deu ao Romantismo um sentido social e revolucionário.


Para atingir esse intento, superou o individualismo extremado dos poetas
da segunda geração do Romantismo no Brasil. Aproximou-se, portanto, do
Realismo. Seu padrão poético refletiu o poeta francês Vitor Hugo, burguês
progressista e cantor da liberdade e do futuro. Sua obra, refletindo a influência
de seu mestre, tomou duas direções: poesia social, na qual discutiu questões
liberais, humanitárias e igualitárias, e poesia lírica, voltada para o amor
sensual e a natureza.

Saiba mais

Procure conhecer o romance Os miseráveis, de Vitor Hugo, e também a


sua adaptação para o cinema, dirigida pelo americano Billie August ou a
dirigida pelo francês Josée Dayan.

250  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

6.1.1 A poesia social


Caso típico do intelectual convertido em homem de ação, Castro Alves, por
ser consciente do papel do letrado na sociedade, não realizou apenas uma
poesia humanitária; participou, ativamente, de toda a propaganda abolicio-
nista e republicana, militância que prejudicou muitas vezes sua obra literária.
Sua poesia foi arma de combate a serviço da justiça e da igualdade, uma vez
que cantou todas as causas libertárias. Porém o que ficou gravado na memória
popular foram seus poemas de temática abolicionista.
Os poemas abolicionistas de Castro Alves refletem um contexto sociopolítico
de uma sociedade agrária, na qual o móvel econômico era o escravo. Nesse
contexto, as pressões internacionais, as críticas das classes urbanas nacionais e
a habilidade de certos proprietários possibilitaram o surgimento de uma litera-
tura compromissada com a denúncia, na qual ele se enquadra.
Conhecidos como condoreiros, os poemas liberais desse poeta baiano são
indignados, ferozes, grandiloquentes e bombásticos. Em alguns desses poemas,
o autor não se contenta em dizer o essencial: cai na retórica provocada por
imagens pedantes, antíteses exóticas e repetições desnecessárias. O tom oratório
dessas composições se explica pelo fato de serem feitas para declamação em
público. O público, por sua vez, esperava uma poesia discursiva.
Há em sua obra, no entanto, vários poemas condoreiros nos quais alcança
uma eloquência não retórica, vibrátil, visualmente sugestiva e auditivamente
impressionante. Um exemplo disso é o poema O navio negreiro.

‘Stamos em pleno mar... Doudo no espaço


Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar... Do firmamento


Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

‘Stamos em pleno mar... Dois infinitos


Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  251


CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

‘Stamos em pleno mar... . Abrindo as velas


Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes


Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço. [...]

Senhor Deus dos desgraçados!


Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados


Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,


Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão...

252  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

São mulheres desgraçadas,


Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,


Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
...Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...


Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,


A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  253


CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Ontem plena liberdade,


A vontade por poder...
Hoje... cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer...
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!


Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

Saiba mais

Vale a pena conferir os poemas de Castro Alves integralmente no sítio do


domínio público <http://www.dominiopublico.gov.br>.

Outro poema emblemático da obra de Castro Alves é Vozes d’África, no


qual o poeta representa a dor de civilizações subjugadas:

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?


Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

254  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Qual Prometeu tu me amarraste um dia


Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente, 
E a terra de Suez — foi a corrente 
Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno 


Sob a vergasta tomba ressupino 
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja, 
Quando o chicote do simoun dardeja 
O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas... 


Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas 
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes 
Embala-se coberta de brilhantes 
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia... 


Ganges amoroso beija a praia 
Coberta de corais...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...


A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara; 
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...


Ora uma c’roa, ora o barrete frígio 
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela — doudo amante 
Segue cativo o passo delirante 
Da grande meretriz.

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  255


CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

[...]
Basta, Senhor!  De teu potente braço 
Role através dos astros e do espaço 
Perdão p’ra os crimes meus! 
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus!  Senhor, meu Deus!...

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p).

Além disso, compreendeu o significado da educação para um país de analfa-


betos. Por isso, num poema intitulado O livro e a América, celebra a instrução:

Oh! Bendito o que semeia


Livros, livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!

O livro caindo n’alma


É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p).

6.1.2 A poesia lírica


Castro Alves tem, a respeito do amor, uma visão típica do romântico, mas
seu lirismo difere das concepções predominantes na poesia romântica brasileira:
não considera o amor impossível de ser realizado, como Gonçalves Dias, não
se esquiva, como Álvares de Azevedo, tampouco negaceia, como Casimiro de
Abreu. Ao contrário de todos eles, apresenta as relações amorosas com virili-
dade, sensualidade e objetividade, revelando um homem e um poeta sexual-
mente realizados, acontecimento ímpar em nossa poesia romântica: explora a
volúpia carnal sem subterfúgios e dissimulações.
Castro Alves sabe cantar as doçuras da união dos corpos. Sabe, também,
falar de fêmeas e machos reais. Nessa tarefa, substitui a retórica da poesia
social por uma linguagem simples, envolvente e coloquial. Sobretudo, poetizou
as mulheres em versos ardentes, nos quais as descreve, confessa a elas suas
paixões e as possui num clima de delírio.

256  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Falta alguma coisa aos poemas amorosos desse poeta? Talvez um pouco de
preocupação com a afetividade que transcende o contato sexual puro e simples.
Seria ele superficial? Talvez: seus versos, mesmo sendo belos, carecem de
verdades envolvendo a comunicação amorosa, apenas relatada. Identifica-se,
nessa postura, o “Don Juan”, para quem as mulheres não passam de simples
objeto de satisfação dos desejos eróticos. O poema Adormecida é um exemplo
da sensualidade do poeta baiano, embora vigiada pelos padrões de comporta-
mento em moda no Romantismo. Mas enaltece o amor masculino, donjuanesco
e que pressupõe a realização dos apelos sexuais:

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia


Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste


Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,


Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago


Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante


Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...


Mas quando a via despeitada a meio,
Pra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia


Naquela noite lânguida e sentida:
“Ó flor! – tu és a virgem das campinas!
“Virgem! – tu és a flor de minha vida!...”

(JORNAL DE POESIA, s/d, s/p)

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  257


CAPÍTULO 6 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Apesar da poesia lírica que praticou, Castro Alves celebrizou-se em nossa


literatura pelos poemas antiescravistas que escreveu, em obras como A cachoeira
de Paulo Afonso, Os escravos e Espumas flutuantes, seguindo um preceito
humanista de adesão ao combate ao tráfico negreiro. Voltado para a ideia
do progresso e do futuro, ao contrário dos românticos da segunda geração,
presos ao imobilismo e ao saudosismo, o poeta de Curralinhos compreendia
que, na concepção de progresso social por ele adotada, não cabiam a figura
do escravo e do imperador, partes de um sistema injusto que atravancavam o
progresso e mereciam ser prontamente removidos. O escravo por uma questão
de dignidade do ser humano. O imperador para permitir à sociedade desen-
volver todas as suas potencialidades.
A afirmação da nacionalidade, que, na primeira geração romântica, passava
pela valorização do índio, em Castro Alves consistia em acertar o passo com o
progresso. Para isso, era necessário suprimir a escravidão: “Do índio ao negro
estávamos diante de instâncias de uma batalha poético-ideológica, cujo fim último
seria [...] ajudar a colocar o Brasil nos trilhos da História” (CITELLI, 1993, p. 65)
Castro Alves é o traço de união entre o Romantismo agonizante e o
Parnasianismo emergente. Sua poesia, última floração do lirismo sentimental,
prenuncia a dissolução das estruturas estéticas do Romantismo.
Portanto, neste capítulo, estudamos o terceiro momento do Romantismo no
Brasil, dando destaque a Castro Alves.
No próximo capítulo, estudaremos a prosa de ficção no Romantismo Brasileiro,
especialmente José de Alencar e Manuel Antônio de Almeida.

Referências
CITELLI, Adilson. Romantismo. São Paulo: Ática, 1993.
JORNAL DE POESIA. Castro Alves. Disponível em: <http://www.revista.agulha.
nom.br/calves1ind.html>. Acesso em: 12 mar. 2010.
PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins
Fontes, 1985.

Anotações

258  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


7
CAPÍTULO 7 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

A prosa de ficção no
Romantismo brasileiro

Introdução
Victor Hugo, Alexandre Dumas, Eugène Seu e Walter Scott são romancistas
europeus, cujas obras tornaram-se populares no Brasil. Essa popularidade deveu-se
a publicações dessas obras em jornais, depois de 1830, fato que contribui para
a formação de um público leitor para o romance, gênero narrativo ainda desco-
nhecido pelos brasileiros.
Essas narrativas, seja na Europa, seja nas traduções brasileiras, eram
editadas em capítulos, o que promovia o aumento da tiragem dos periódicos.
Acontecimentos bombásticos, emoções desenfreadas, linguagem acessível,
ausência de abstração, tudo isso entusiasmava os leitores pelo desenvolvimento
das histórias narradas. Ansiosos, eles esperavam o último capítulo, no qual tudo
era ajustado e explicado. Era o folhetim. Para escrevê-lo, o artista submetia-se às
exigências do público leitor, formado por burgueses, e dos diretores de jornais.
Houve casos em que o autor foi obrigado a ressuscitar uma personagem porque
os leitores, inconformados com a morte dela, ameaçam o sucesso de venda do
periódico que publica a história.
Os folhetins não podiam criticar os valores da época, nem reivindicar o verda-
deiro humanismo. Tinham de se sujeitar, obrigatoriamente, aos valores ideológicos
do público leitor. Por essa razão, não passavam de arte de evasão e alienação da
realidade. Os românticos, na maioria das vezes, assumem a estrutura do folhetim.

Quadro 1 Estrutura do folhetim.


Harmonia Desarmonia Harmonia final
Felicidade. Conflito. Estabelecimento da felici-
dade, ordenação definitiva
Ordem social burguesa. Crise da sociedade
da sociedade burguesa,
burguesa.
com o triunfo de seus
valores.

O sucesso dos folhetins europeus nos jornais brasileiros favoreceu o apare-


cimento de adaptações, feitas por escritores menores, até que, em 1844, vem a
público A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, não mais uma simples cópia
das narrativas europeias. Surgia o romance brasileiro. Juntaram-se a esse autor, na
construção desse romance, nomes como José de Alencar, Bernardo Guimarães,
Franklin Távora, Visconde de Taunay e Manuel Antônio de Almeida (BOSI, 2001).

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  259


CAPÍTULO 7 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

Neste capítulo, focalizaremos a vida e a obra de José de Alencar e de Manuel


Antônio de Almeida: Alencar por causa de sua importância na linha nacionalista
do Romantismo, opção que o levou a construir uma obra romanesca abrangendo
todo o Brasil, particularmente em sua totalidade física; Almeida por ser um roman-
cista em trânsito para o Realismo.

Para você identificar as características da prosa romântica no Brasil e perceber


as relações entre a prosa romântica e a construção da identidade nacional, não
pode se esquecer de que o Romantismo no Brasil coincide com o processo de
construção da identidade nacional e define os limites entre cultura portuguesa e
cultura brasileira.

7.1 José de Alencar: aspectos da vida e da obra


José Martiniano de Alencar nasceu em 1829, em Mecejana, Ceará, e morreu
em 1877, no Rio de Janeiro. Filho do senador José Martiniano de Alencar, um
dos animadores do Clube da Maioridade, que levou D. Pedro II ao trono em
1840, ainda menino, Alencar mudou-se para o Rio de Janeiro, onde recebeu
educação primária e secundária.

Entre 1845 e 1850, cursou Direito em São Paulo e Olinda. Nesse período,
compôs Os contrabandistas, novela histórica. Formado, começou a advogar
no Rio de Janeiro. A literatura, no entanto, o absorveu. Primeiro como cronista
do Correio Mercantil. Depois como redator do Diário do Rio de Janeiro. Neste
jornal, aparecem, em folhetim, seus primeiros romances de ambientação carioca:
Cinco minutos (1856), A viuvinha (1857) e O guarani (1857), romance que o
tornaria célebre.

De 1857 a 1860, Alencar dedicou-se ao teatro. Após a morte de seu pai


(1860), entrou para a política, elegendo-se sucessivas vezes deputado provin-
cial pelo Ceará. Entre 1868 e 1870, ocupou a pasta da Justiça do Ministério
Conservador de D. Pedro II. Ao contrário de seu pai, sempre a favor das teses
liberais, esse romancista assumiu, na vida pública, posições conservadoras.
Foi, antes de tudo, um individualista mais que um homem voltado para a
causa pública.

Na década de 1860, escreveu As minas de prata, Lucíola, Diva, Iracema.


Na década seguinte, A pata da gazela, Sonhos d’Ouro, Til, Alfarrábios, A
Guerra dos Mascates, Ubirajara, Senhora, O sertanejo, além de um drama:
O jesuíta. Em 1877, Alencar foi à Europa para tratar-se da tuberculose que já
o acometera na juventude. Não obtendo sucesso no tratamento, retornou, no
mesmo ano, ao Rio de Janeiro, onde faleceu. Postumamente, foram publicados o
romance Encarnação e a autobiografia Como e por que sou romancista, obras
de grande importância literária.

260  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 7 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

A produção romanesca de José de Alencar pode ser dividida em três


vertentes: romances urbanos, romances regionalistas e romances históricos e
indianistas. O quadro a seguir apresenta uma distribuição de suas principais
obras nas diversas vertentes.

Quadro 2 Principais obras da prosa romântica de José de Alencar.

Romances Romances históricos e


Romances urbanos
regionalistas indianistas
Cinco minutos – 1856 O gaúcho – 1870 O guarani – 1857
A viuvinha – 1857 O tronco do ipê – 1871 As minas de prata – 1862
Lucíola – 1862 Til – 1872 Iracema – 1865
Diva – 1864 O sertanejo – 1875 Alfarrábios – 1873
A pata da gazela – 1870 A Guerra dos Mascates – 1873
Sonhos d’Ouro – 1872 Ubirajara – 1874
Senhora – 1875
Encarnação – 1877

Essa divisão da obra alencariana revela a amplitude geográfica, histórica


e social do projeto literário do escritor: inserido na perspectiva nacionalista do
Romantismo, intentou realizar uma obra romanesca abrangendo todo o Brasil,
particularmente em sua totalidade física, mas sem ignorar as coordenadas histó-
ricas do país. Nesse aspecto, construiu relatos históricos e indianistas, situados
no período colonial. Alencar não se esqueceu, também, da vida cotidiana do
Rio de Janeiro, aspecto explorado em seus romances urbanos. Em resumo, seu
propósito era construir um grande painel envolvendo os diversos aspectos da
realidade nacional.

A obra de Alencar converge elementos da estrutura do folhetim, o naciona-


lismo ufanista e a visão ideal da existência. Por ter consolidado o romance brasi-
leiro, esse autor cearense continua desfrutando de grande prestígio histórico.
Esse prestígio fundamenta-se, também:

• no questionamento dos problemas relativos à autonomia de nossa lite-


ratura, na medida em que busca separá-la, definitivamente, das influên-
cias portuguesas;

• na problematização da questão da língua brasileira;

• na busca da essência da nacionalidade.

O que caracteriza os diferentes tipos de romance construídos por José


de Alencar?

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  261


CAPÍTULO 7 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

• Romances urbanos: exploram a tensão entre o espírito nacional e a


invasão estrangeira, numa corte na qual a imitação dos costumes euro-
peus misturavam-se com a mediocridade local.

Saiba mais

Senhora é o romance clássico da vertente urbanista. Leia-o no sítio <http://


www.dominiopublico.gov.br>.

• Romances regionalistas: foram construídos a partir do nacionalismo que


constituiu uma das principais ideias do autor. Seu objetivo era integrar
as regiões ao corpo da nação centralizada, uma vez que é o porta-voz
artístico da unificação nacional. O resultado disso pe uma literatura
mítica, que celebra os encantos regionais, mas ineficiente na descrição
das peculiaridades e no atraso das províncias periféricas do Brasil.

Saiba mais

O Sertanejo representa bem essa vertente. Você poderá encontrá-lo no sítio


<http://www.dominiopublico.gov.br>.

• Romances históricos e indianistas: localizados no passado histórico,


deveriam representar, no plano literário, nossas origens e nossa
formação como povo, desejando construir a representação de um
Brasil glorioso, positivo e com problemas restritos à dimensão pessoal
das personagens.

Saiba mais

O Guarani exemplifica essa vertente, além de ser um dos clássicos da litera-


tura brasileira. Busque-o no sítio <http://www.dominiopublico.gov.br>.

262  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


CAPÍTULO 7 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

José de Alencar é o mais importante escritor do Romantismo brasileiro.


Conforme exposto anteriormente, sua obra contempla o indianismo, a história, o
regionalismo e as questões urbanas, grandes temas da literatura de sua época.
Com sua obra, ele possibilitou o surgimento dos chamados escritores serta-
nistas, preocupados em revelar o Brasil rural, não litorâneo, nem europeu, como
Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Visconde de Taunay (CANDIDO, 2002).

7.2 Manuel Antônio de Almeida: aspectos da vida e da obra


Manuel Antônio de Almeida nasceu no Rio de Janeiro, em 1830. De família
pobre, frequentou o curso de Medicina, que não concluiu por causa da dedi-
cação exaustiva ao jornalismo: foi redator e revisor do Correio Mercantil. Nesse
periódico, publicou, em fascículos, seu único romance: Memórias de um Sargento
de Milícias (1853), escrito aos 23 anos de idade.
Foi diretor da Tipografia Nacional. Nessa função, tornou-se amigo e protetor
de Machado de Assis. Almeida pretendia ingressar na carreira política, com esse
intento, dirige-se, de vapor, à cidade de Campos (RJ). A embarcação naufragou
e ele morreu. Era o ano de 1861.
Memórias de um Sargento de Milícias, apesar de apresentar inegáveis quali-
dades, não despertou o entusiasmo do público leitor romântico. É uma narrativa
de costumes, que representa o Brasil da época de D. João VI. Procissões, vida
religiosa, festas, danças, músicas e organização policial e administrativa são
apresentados minuciosamente, conferindo ao relato um caráter realista.
Além dos costumes sociais, essa narrativa faz uma análise crítica e irônica
dos costumes morais, confrontando ordem x desordem nas representações de
Leonardo (agente principal da desordem) e do Major Vidigal (agente principal
da ordem). O antagonismo entre essas duas personagens evolui até as últimas
páginas do romance, revelando que não há diferença entre ordem/desordem,
moralidade/amoralidade, uma vez que a passagem de uma à outra não encontra
obstáculos. Memórias de um Sargento de Milícias é, enfim, um desmascaramento
da sociedade brasileira de então.

Saiba mais

Você poderá ler o romance acessando <http://www.dominiopublico.gov.br>.

A segunda metade do século XIX assiste à decadência da concepção espi-


ritualista que caracteriza o Romantismo e ao surgimento de uma concepção

UNITINS • LETRAS • 6º PERÍODO  263


CAPÍTULO 7 • LITERATURA BRASILEIRA I: DO PERÍODO COLONIAL AO ROMANTISMO

científica e materialista, decorrente da grande importância atribuída à ciência,


considerada, na época, como único instrumento capaz de explicar a realidade
e gerar riqueza. O espírito científico, portanto, era considerado critério supremo
de compreensão e análise da realidade. Com base em seus pressupostos, surge
o Realismo-Naturalismo, que sucede o movimento romântico.
Portanto, estudamos, neste capítulo, a prosa de ficção romântica, com foco
em José de Alencar e Manuel Antônio de Almeida.

Referências
ALENCAR, José de. Senhora. São Paulo: Ática, 1992.
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2001.
CANDIDO, Antônio. O Romantismo no Brasil. São Paulo: Humanitas FFLCH/
USP, 2002.

Anotações

264  6º PERÍODO • LETRAS • UNITINS


Créditos

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Revisão Linguístico-Textual Domenico Sturiale
Gerente de Divisão de Material Impresso Katia Gomes da Silva
Revisão Digital Leyciane Lima Oliveira
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Projeto Gráfico Katia Gomes da Silva
Rogério Adriano Ferreira da Silva
Capas Rogério Adriano Ferreira da Silva

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Estimado Alumno,
Estamos muy felices por presentarte el cuaderno