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DESCUBRA OS SEGREDOS DOS

CÓDIGOS E SÍMBOLOS DE
TODOS OS TEMPOS.

JÁ NAS BANCAS!

São mais de 1.000 signos e símbolos.


Cada um com seu ideograma, explicações e aplicações.

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/editoraescalaoficial
editorial
Gláucia Viola, editora

Sermãe é vivenciar
contrações e contradições
A
maternidade é, sem dúvida, a construção de um novo papel na vida da mulher. Acredito que
mesmo já tendo passado por esse momento mais de uma vez, cada gravidez tem a sua particu-
laridade de sentimentos e emoções.
O fato é que a idealização da maternidade faz parte da nossa cultura. Ela já começa antes da
gestação, com um movimento punitivo e de muito julgamento às mulheres que defendem o seu direito de
NÎOQUERERSERMÎE¡DIFÓCILASOCIEDADEENTENDERODESEJODENÎOTERlLHOS/CONCEITODESERCOMPLETOPOR
meio da maternidade manifesta-se ainda durante a infância através das brincadeiras de boneca.
/MITODEQUEESSEÏOPERÓODOMAISLINDODAVIDADEUMAMULHERPERMANECE PELOMENOSATÏOlNALDA
INFÊNCIAEAENTRADADAADOLESCÐNCIADOlLHO.OSPRIMEIROSANOS TUDOÏUMANOVADESCOBERTAOANDAR 
OFALAR OCOME¥ODAESCRITA ENTREOUTROSENCANTAMENTOS/FOCOÏSEMPREACRIAN¥A-ASONDElCAAMÎE
nesse processo? Seus medos, suas inseguranças, suas dúvidas? Permanece tudo pra-
ticamente invisível, diluído em meio aos cuidados do bebê e na luta emocional de
conciliar maternidade, carreira, vida afetiva e individualidade. Sim, porque a perda da
identidade da mulher diante da vivência materna é um fenômeno aceito socialmente.
Frente a esse cenário, esta edição da Psique Ciência & Vida, convidou a psicóloga
perinatal Raquel Jandozza para debater esse paradoxo que envolve intensa felicidade
EMSERMÎEEOSCONmITOSGERADOSPELAhINVISIBILIDADEvDAPRØPRIAIDENTIDADEAPARTIRDAÓ
h!O ENGRAVIDAR  A MULHER SE VÐ DIANTE DE MUDAN¥AS FÓSICAS E BIOLØGICAS COMUNS 
contudo, ao mesmo tempo, passa a ocupar um papel social investido de uma série de
VALORESECONCEP¥ÜESQUEAENGESSAMEMUMhMODELOvNOQUALSØLHERESTASEADE-
QUARv EXPLICA2AQUELNOARTIGODAPÉGINA
Essa adequação, porém, é custosa em muitos sentidos e possui questões muito sub-
jetivas da mulher. É por essa razão que a maternidade passou a ser estudada e com-
PREENDIDAPORDIFERENTESCAMPOSDOSABER INCLUSIVEPELA0SICOLOGIA.ESSESENTIDO O
123RF

texto apresenta também a discussão sobre o modelo obstétrico tradicional e a imple-


mentação de alternativas como o Parto Humanizado. Para a psicóloga, esse procedi-
mento oferece à mulher a possibilidade de retomar seu lugar de protagonista ativa tanto na sua gravidez, no
parto diferenciado e, consequentemente, no exercício materno.
Que esse artigo contribua para que as contrações e as contradições da maternidade sejam vividas em
equilíbrio aos outros aspectos também importantes da vida.

Boa leitura!

Gláucia Viola
WWWFACEBOOKCOM0ORTAL%SPACODO3ABER 3ERMÎENÎOÏUMAPROlSSÎO
NÎOÏNEMMESMOUMDEVERÏAPENASUM
DIREITOENTRETANTOSOUTROS
Oriana Fallaci
sumário

CAPA
Combate à invisibilidade
/MERGULHONOUNIVERSO
56
MATERNODAGRAVIDEZ
e na criação de um
lLHOFAZCOMQUEA
: SHUT TERSTOCK

mãe vivencie a perda


da identidade de mulher
IMAGEM DA CAPA

13:17:59
07/03/2017

MATÉRIAS
08
Afetividade rompida
!DIFÓCILACEITA¥ÎODOlMDARELA¥ÎO 24
ESBARRAEMCONmITOSPSICOLØGICOS
COMOOAMORPRØPRIOEORESGATE
de quem somos como indivíduos

ENTREVISTA
Dislexia em pauta
Para Cristiana Facchinetti, 70 Não se trata de um problema
a Psicanálise precisa descobrir
comportamental ou educacional,
novos caminhos para enfrentar
AINDAQUEESSESPOSSAMDIlCULTARA
alterações profundas nas
IDENTIlCA¥ÎOEMELHORA
subjetividades humanas

SEÇÕES
Diagnósticos incerto
06 EM CAMPO
16 IN FOCO Equívocos sobre a Dislexia ainda 74
18 PSICOPOSITIVA a relacionam às questões de
20 PSICOPEDAGOGIA hereditariedade e à possível maior
22 UTILIDADE PÚBLICA incidência em meninos
30 PERFIL
32 COACHING

35
Educação e Psic

34 LIVROS doss

48 NEUROCIÊNCIA O universo da Dossiê: NOVOS


COGNIÇÃO MECANISMOS DE
ologia

50 RECURSOS HUMANOS e o ato de


52 CIBERPSICOLOGIA aprender APRENDIZAGEM
54 SEXUALIDADE Habilidades socioemocionais
64 DIVÃ LITERÁRIO SÎOFERRAMENTASDEAPRENDIZADO
EDEVEMSERALVOESTRATÏGICODA
Pesquisadores

66 CINEMA como Jean Piaget


dedicaram sua obr
r
a
para compreende

atenção de educadores e familiares


e explicar o mun do
80 EM CONTATO da criança e o seu
desenvolvimento
emocional, além
82 PSIQUIATRIA FORENSE do tanto que ess
es
SHUTTERSTOCK

fatores influenciam
no processo de
aprendizado psique ciência&
vida 35

iaevida.com.br 23/02/2017 12:50:32


www.portalcienc
giro escala

CONSCIÊNCIA FEMININA
REV ISTA FILOSOFIA – EDIÇÃO 124
TON MARAR RENATO JANINE RIBEIRO
A sinergia entre as várias disciplinas do A dura realidade da supressão
saber para a exposição da matemática do ensino das matérias humanas

Em artigo da edição 124 da atividade bastante conhecida na ANO X No 124 – www.portalespacodosaber.com.br

revista Filosofia Ciência&Vida, %UROPA E NO MUNDO  NA QUAL O l-


Isaque Trevisam Braga, mestre em lósofo, com seu olhar através da
Filosof ia pela Pontifícia Universi- &ILOSOlA  PROPORCIONA A ASCENSÎO
dade Católica de São Paulo e espe- às dimensões de mundo e do eu, BELEZA PURA?

cialista em Filosof ia Clínica pelo introduzindo a procura por um dis- Em meio aos padrões,
como pensar
sobre questões de
Instituto Interseção de São Paulo, cernimento daquilo que se subtrai, autenticidade

destaca como a Filosof ia tem o ob- daquilo que não é, mas poderia ser,
EQUILÍBRIO ÓDIO A
jetivo de liberar o homem daquilo lembrando seu papel fundamental
CONSTANTE
PRIMEIRA VISTA
A correspondência

que é denominado imprevisível, de orientar o outro com a investi- A filosofia prática como um importante
entre afeto e razão
na construção da
exercício terapêutico na contemporaneidade tolerância
além de indicar os limites de qual- GA¥ÎO DO lLOSOFAR COMO UMA CHA-
quer classif icação, acabando por ma que acende improvisadamen-
oferecer ao homem a liberdade te na alma. Não perca esse ótimo (',d­235(d25

que, em uma situação de ordena- conteúdo presente na edição 124


REFLEXÃO E PRÁTICA: Ética e julgamento sobre o prisma da escolha
mento total, coincide com a indi- da revista &ILOSOlA, além de arti-
cação do espaço do possível. gos sobre política, ética, socieda-
Para ele, em consonância com de, comportamento e economia,
ESSE PAPEL ATRIBUÓDO Ì &ILOSOlA  A todos elaborados por especialistas
&ILOSOlA 0RÉTICA COMO ACONSELHA- e desenvolvidos com base em uma
MENTO lLOSØlCO SURGE COMO UMA AMPLAVISÎOlLOSØlCAEACADÐMICA

O LEGADO DE BAUMAN
Em Sala de Aula: Discuta o trabalhismo e seus desdobramentos atuais

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REVISTA SOCIOLOGIA – EDIÇÃO 68

O VERDADEIRO No início do mês de janeiro, o analisando os impactos nas rela-


mundo perdeu um de seus prin- ções entre as pessoas como con-
DESENVOLVIMENTO
Os aspectos que o influenciam e como o Estado cipais intelectuais do século XX sequências dos ordenamentos
pode promovê-lo, na teoria e na prática
Mundo
na era Trump
e XXI. Aos 91 anos, o sociólogo sociais contemporâneos. O pro-
Ações do
novo presidente
dos EUA podem
polonês Zygmunt Bauman mor- fessor acompanhou toda a trajetó-
TFDPOmHVSBS
enormes reu em Leeds, na Inglaterra, cida- RIA LITERÉRIA DO SOCIØLOGO POLONÐS
paradoxos,
BTVSQSFFOEFS
os reacionários de onde vivia desde a década de e tem ideias consolidadas a res-
FBFTRVFSEB

Quem é 1970. Bauman deixou uma exten- peito do legado deixado por ele.
o novo
intelectual?
Pensadores sa e relevante obra, sendo mun- Destaca que a teoria crítica e o
precisam rever
TFVQBQFM
frente aos
dialmente reconhecido pelo con- marxismo apresentam referências
novos cenários
sociopolíticos ceito de modernidade líquida. A importantes para se compreender
Política na
modernidade
3FHSBT 
importância e a peculiaridade de O MUNDO ATUAL  AO CONTRÉRIO DE
JOTUJUVJªFTF
atores políticos seus pensamentos despertaram, muitos que acham que essas teo-
DPOTBHSBEPT
não mais
respondem no início dos anos 2000, o inte- rias morreram. Em entrevista ao
isoladamente
às demandas na
BUVBMJEBEF O LEGADO NADA LÍQUIDO DE BAUMAN, POR DENNIS DE OLIVEIRA , DA ECA resse de Dennis de Oliveira, pro- número 68 da revista Sociologia,
fessor associado da Universidade /LIVEIRA ABORDA VÉRIAS QUESTÜES
de São Paulo, jornalista e doutor que diziam respeito ao universo
em Ciências da Comunicação. e às ideias de Zygmunt Bauman
Para Dennis de Oliveira, Bau- e fala sobre o legado deixado por
man discutia estruturas sociais, sua extensa e rica obra.

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em campo por Jussara Goyano

EDUCAÇÃO EMOCIONAL
Competências socioemocionais são a
aposta de iniciativa mundial na educação
com vistas a uma formação diferencial
no novo milênio. A Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) encabeça a
construção de instrumentos que meçam
tais competências no ensino público,
e quem auxilia nesse trabalho é uma
entidade brasileira, o Instituto Ayrton
Senna. Resiliência, autocontrole,
perseverança, protagonismo, entre outras
características já são conteúdo ensinado
na escola estadual Chico Anysio, no Rio
de Janeiro, referência em competências
emocionais. A instituição continua, pelo
terceiro ano executivo, sendo indicada
como colégio de excelência na rede
pública nacional, apresentando excelentes
resultados acadêmicos e na gestão de
vida de seus alunos.

FORMA X CONTEÚDO EMPRESAS POSITIVAS


ANATOMIA DO CÉREBRO ESTÁ ASSOCIADA Pelo menos três grande empresas
brasileiras perceberam que bem-estar
A PERSONALIDADE E DOENÇAS PSIQUIÁTRICAS,
e produtividade caminham juntas e
DIZ ESTUDO aplicaram conhecimentos da Psicologia
#ADAVEZMAISACHADOSDEMONSTRAMCOMOAANATOMIAEAlSIOLOGIADOCÏREBRO Positiva em seus treinamentos e gestão.
determinam nossos comportamentos. Altos níveis de neuroticismo, que predispõem Natura, Elektro e 3M já colhem excelentes
as pessoas a distúrbios neuro-psiquiátricos, por exemplo, foram associados com o resultados, que extrapolam as suas
aumento da espessura e à área reduzida em algumas regiões do córtex, como pré- instalações e contribuem na gestão pessoal
-frontal e temporal. Por outro lado, uma personalidade mais aberta, ligada à curiosi- de vida de seus funcionários. A taxa de
dade, à criatividade e ao gosto por novidade, foi associada com o padrão oposto: re- retorno do investimento nesse tipo de
duzida espessura e um aumento na área do córtex pré-frontal. Um estudo a respeito, iniciativa é sempre positiva, segundo
CONDUZIDOPELA5NIVERSIDADEDO%STADODA&LØRIDA FOIPUBLICADONAREVISTACIENTÓlCA estudos do especialista norte-americano
Social Cognitive and Affective Neuroscience. em Psicologia Positiva Shawn Archor. No
A pesquisa baseou-se em neuroimagens de mais de 500 indivíduos, disponíveis Brasil não tem sido diferente e a aplicação
através do Human Connectome Project, uma iniciativa dos Institutos Nacionais de Saú- da abordagem nas companhias tende a
de dos EUA para mapear vias neurais de funcionamento do cérebro humano. ser um novo paradigma na condução dos
O arquivo do projeto contém imagens de indivíduos saudáveis entre 22 e 36 anos
de idade, sem histórico de graves problemas médicos neuro-psiquiátricos ou outros.
Os pesquisadores explicam que a relação entre a estrutura do cérebro e traços de
personalidade em pessoas jovens e saudáveis pode mudar à medida que as pessoas
envelhecem, como indicado em estudos anteriores conduzidos pela mesma equipe,
incluindo a colaboração de especialistas da Universidade de Cambridge.

PARA SABER MAIS:


Roberta Riccelli, Nicola Toschi, Salvatore Nigro, Antonio Terracciano, Luca Passa-
monti. 3URFACE BASEDMORPHOMETRYREVEALSTHENEUROANATOMICALBASISOFTHElVE-
-factor model of personality. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 2017; nsw175
DOI: 10.1093/scan/nsw175

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COGNIÇÃO
NA DEPRESSÃO
ESTUDO IDENTIFICA PROTEÍNAS
POSSIVELMENTE RELACIONADAS
AOS PROBLEMAS DE MEMÓRIA
E CONCENTRAÇÃO EM QUADROS
DA DOENÇA
Quase 7% da população mundial (apro-
ximadamente 400 milhões de pessoas)
é afetada pela depressão, considerada
pela Organização Mundial de Saúde

EXERCÍCIO a doença mais incapacitante da


atualidade. Tristeza, fadiga e

E VISÃO pensamentos obsessivamen-


te negativos fazem parte
do quadro, que também
ATIVIDADE FÍSICA
engloba disfunções cogni-
PODE INTERFERIR NO TIVAS$IlCULDADEDECONCEN-
PROCESSAMENTO VISUAL tração, de memória e tomada de
Bom para a depressão e o coração, determi- decisões são sintomas que tendem a se
nante da longevidade, excelente para a memória: o arrastar até mesmo quando os outros sintomas desaparecem, o
exercício físico é remédio e terapia para uma série que carateriza o potencial incapacitante da doença. O pesqui-
de distúrbios e parece interferir, também, em nossa sador Marco A. Riva e seus colegas determinaram, por meio de
visão, embora ainda não seja possível determinar, pesquisa em animais, como a depressão cerebral pode afetar a
com precisão, em que nível ele é capaz de aumentar COGNI¥ÎOEMUMNÓVELMOLECULAR IDENTIlCANDOSUBSTÊNCIASQUE
nossa acuidade visual. sinalizam as mudanças ocasionadas pelo distúrbio.
Estudos anteriores já haviam determinado re- Certas proteínas foram encontradas em maior quantidade
lação entre a ativação dos mecanismos de proces- no grupo de ratos de controle em resposta a um teste cognitivo
samento visual de ratos e a atividade f ísica, em normal, de reconhecimento de objetos, e em menor frequência
nível cerebral e, agora, pesquisadores da Univer- no grupo de ratos com sintomas característicos de depressão
sidade de Santa Barbara trataram de verif icar se humana. Outros estudos recentes sugeriram que essas proteí-
o mesmo acontece no cérebro humano, quando nas (oligophrenin-1 e Bmal1) desempenham funções nos pro-
praticamos esporte. cessos cognitivos. A descoberta servirá de base para futuras
Um experimento baseado em neuroimagem e pesquisas sobre tratamentos para depressão maior e transtor-
testes comportamentais, envolvendo também ati- nos relacionados ao estresse, que também ocasiona as mesmas
vidade física, resultou na descoberta de que exer- disfunções cognitivas.
cícios de baixa intensidade impulsionam a ativação
do córtex visual e podem mudar a forma como a PARA SABER MAIS:
informação visual é processada. O estudo foi publi- Francesca Calabrese, Paola Brivio, Piotr Gruca, Magdalena
cado no Journal of Cognitive Neuroscience. Lason-Tyburkiewicz, Mariusz Papp, Marco A. Riva. Chronic
Mild Stress-Induced Alterations of Local Protein Synthesis:
PARA SABER MAIS: A Role for Cognitive Impairment. ACS Chemical Neuroscience,
Tom Bullock, James C. Elliott, John T. Serences, 2017; DOI: 10.1021/acschemneuro.6b00392
Barry Giesbrecht. Acute Exercise Modulates
Feature-selective Responses in Human Cortex. Jussara Goyano é jornalista e coach certificada
ARQUIVO PESSOAL

Journal of Cognitive Neuroscience, 2016; 1 DOI: 10.1162/ pelo Instituto de Psicologia Positiva (IPPC).
IMAGENS: 123RF

Atua com foco em performance e bem-estar. Estudou


jocn_a_01082
Medicina Comportamental na UNIFESP.

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CRISTIANA FACCHINETTI

Cristiana acredita que os


conceitos permanecem, mas
ela não concorda com a ideia
de comparar as diversas linhas
existentes da Psicanálise

CRÉDITO DA FOTO: DIVULGAÇÃO

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E N T R E V I S T A

ESTAMOS VIVENDO
UM MOMENTO DE
MUDANÇAS NAS
SUBJETIVIDADES
Na opinião de Cristiana Facchinetti, por isso mesmo
a Psicanálise deve se repensar para lidar com esse novo cenário
contemporâneo, com as subjetividades adquirindo formas
muito distintas daquelas produzidas desde o século XVII
Por Lucas Vasques

O
documentário Hestórias da Psicanáli- Teoria Psicanalítica, todos pela Universidade Fe-
se – Leitores de Freud discorre sobre deral do Rio de Janeiro (UFRJ). Tem um estágio
a apropriação brasileira da obra de de pós-doutoramento em História das Ciências e
Sigmund Freud e da Psicanálise e da Saúde (2006) pela Fiocruz. Atualmente é pes-
foi elaborado a partir de entrevistas com leito- quisadora do Departamento de Pesquisa e pro-
res de Freud espalhados por cidades brasileiras e fessora do Programa de Pós-Graduação em His-
europeias. O f ilme toca em temas como história, tória das Ciências e da Saúde, ambos da Casa de
tradução, cultura, linguagem e, principalmen- Oswaldo Cruz (Fiocruz), além de professora do
te, Freud. A partir da obra do diretor e também Programa de Mestrado Prof issional em Atenção
psicanalista Francisco Capoulade, a psicóloga e Psicossocial do IPUB (UFRJ) e coordenadora da
psicanalista Cristiana Facchinetti, uma das con- Rede Iberoamericana de Investigadores em His-
vidadas a participar do documentário, fala sobre tória da Psicologia. É especializada nas áreas de
esses e outros temas. Psicanálise e de História, atuando como orienta-
Cristiana possui graduação em Psicologia dora principalmente nos seguintes temas: Brasil,
(1993) e mestrado (1996) e doutorado (2001) em Psicanálise, Psiquiatria e Psicologia.

Lucas Vasques é jornalista e escreve nesta publicação.

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BASICAMENTE, SOBRE O QUE FOI SEU DE - mento é construído com os instrumen- dade era considerada patologia (inver-
POIMENTO NO DOCUMENTÁRIO HESTÓRIAS tos dados pela língua, pela cultura e pela são sexual) pela Medicina mental. Hoje
DA PSICANÁLISE? história social e familiar que antecedem não mais, graças ao movimento social
CRISTIANA: Tratamos de diversos as- o sujeito, de onde ele surge, como efei- e político que lutou pela capitulação da
suntos. A minha entrevista foi feita em to dos discursos que o atravessam. Se os Medicina nesse caso. Desde o século
diálogo com Sérgio Paulo Rouanet. sujeitos não têm imanência e não ante- XIX, muitos indivíduos, especialmente
Então, falamos bastante de literatura, cedem os discursos, mas são produzidos mulheres com crises histéricas graves,
romantismo, iluminismo e Psicanálise. por eles, o que dizer dos objetos? Pode- adentravam os asilos e os consultórios
Mas eu diria que o que mais apareceu mos dizer que há um referente externo? médicos. Além disso, mulheres que não
DAMINHAFALANOlLMEFOIADIMENSÎODA Não é o que parece. Eles são tão variáveis QUERIAM CASAR  QUE NÎO QUERIAM lLHOS 
Hestória da Psicanálise, tanto no sentido quanto é variável a compreensão sobre que estudavam muito etc. foram toma-
das apropriações singulares – a história eles. Por isso, usos e leituras dos objetos é das como alienadas. Mas essas moças,
pessoal de encontro com esse Estranho que determinam seu sentido. E tal leitu- frequentemente diagnosticadas como
mundo do Inconsciente e as apropria- ra, que é psíquica, é também limitada por histéricas, desapareceram dos prontuá-
ções sociais – quanto no sentido das uma determinada Weltanschauung. rios ainda na primeira metade do século
condições locais de apropriação. Quem XX, dando lugar no asilo para a psicose
SABE NA CONTINUA¥ÎO DO lLME A DIMEN- Ainda que se pense maníaco-depressiva e para a degenera-
são estética e cultural por nós dois assi- ção. Mudou a cultura, mudou o tempo.
nalada seja mais sublinhada. que os conceitos são Com a entrada da Psicanálise no discur-
so da Psiquiatria dinâmica, em meados
A PSICANÁLISE ESTÁ SEMPRE EM EVOLU- universais e atemporais, DOSÏCULO88 MUDOUOPERlLDOSSUJEI-
ÇÃO. MESMO ASSIM, VOCÊ CONSIDERA QUE
AS IDEIAS DE F REUD AINDA SÃO ATUAIS?
como alguns o propõem, tos internados, mapeados nos prontuá-
rios como neuróticos ou psicóticos. Essa
COMO ADAPTAR OS PRINCIPAIS CONCEITOS a Psicanálise também FORMADEIDENTIlCAROSOFRIMENTOPSÓQUI-
FREUDIANOS PARA OS DIAS DE HOJE? co ganhou a opinião pública, as artes, os
CRISTIANA: Vamos começar pela ideia de se faz marcar pelo jornais, gerando em muitos lugares aqui-
evolução, que eu considero equivocada, lo que se concebeu como cultura psica-
porque remete a progresso, melhoria. Eu contingente e pela nalítica. A partir do DSM-III (Diagnostic
não acho que a Psicanálise esteja sempre
em evolução. Eu acho que ela é sempre
historicidade. Só é and Statistical Manual of Mental Disorders)
e com o crescimento da Psiquiatria dita
apropriada de acordo com os contextos possível compreender biológica, certamente diminuiu o núme-
– temporais, sociais, culturais – e que ro de mulheres que chegam ao consul-
o referente “Psicanálise”, isto é, aquilo aquilo que passa pelo tório do analista se intitulando como
que Freud realmente pensou ao escre- histérica. Por outro lado, o DSM ganhou
ver seu trabalho, seu sentido último, está aparelho psíquico circulação social: os pacientes que nos
para sempre perdido; a escritura é sem- chegam ao consultório hoje já nos che-
pre apropriada e reapropriada de modo ATUALMENTE , COM TANTAS COMPLEXI- gam frequentemente anunciando serem
particular, incessantemente. No capítulo DADES QUE NORTEIAM O COMPORTAMEN - portadores de síndromes e transtornos,
sete da Interpretação dos Sonhos (1900), TO HUMANO, O MÉTODO DE F REUD AIN - lidos nas revistas femininas ou obtidos
&REUD AlRMA QUE AS MARCAS MNÐMICAS DA É INDICADO PARA OS MESMOS CASOS através de questionários para medica-
sempre tendem a seguir as mesmas Bah- DE SUA ÉPOCA? EM CASO POSITIVO, POR mentos, ou mesmo dados pelo ginecolo-
nungen, facilitadas que são, mas que, ao QUAIS RAZÕES? gista, ou clínico geral... às vezes até pelo
mesmo tempo, sempre se produz um CRISTIANA: Mais uma pergunta difícil. psiquiatra (rs.). Os diagnósticos, por sua
diferencial, mesmo quando se trata de As complexidades do comportamento vez, criam – eles próprios – uma identi-
IMAGENS: DANIEL ISAIA/AGÊNCIA BRASIL E 123RF

repetir o idêntico. Assim, ainda que se humano sempre existiram; sempre exis- dade de doente para o paciente. Então,
pense que os conceitos são universais e tirão. A questão é que o que é patológico sem dúvida, a Psicanálise precisa hoje
atemporais, como alguns o propõem, a ou anormal em um período pode deixar lidar com os novos sujeitos advindos das
Psicanálise também se faz marcar pelo de ser em outro. Mais do que biológica, condições da cultura do nosso tempo; e
contingente e pela historicidade. Só é então, a questão do comportamento é também com a nova/velha maneira de
possível compreender aquilo que passa uma questão cultural. Por exemplo, até perceber o sujeito e seu sofrimento psí-
pelo aparelho psíquico. Esse entendi- algumas décadas atrás a homossexuali- quico como resultado de uma disfunção

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neuronal, hormonal etc. Mas enquanto Se os sujeitos não te, não se trata de necessidade de atuali-
houver esse sujeito moderno – dividi- zações, mas da existência de circulação e
DO  EM CONmITO  MARCADO PELO RECALQUE têm imanência e não apropriações diferenciadas.
e pelo inconsciente, mas também pela
liberdade –, a Psicanálise também conti- antecedem os discursos, EXISTEM NOVAS PESQUISAS SENDO DESEN-
nuará a existir.
mas são produzidos VOLVIDAS HOJE EM DIA A RESPEITO DA EFI-
CÁCIA DO MÉTODO FREUDIANO, E SE EXIS -
COMO PESQUISADORA DA HISTÓRIA DA por eles, o que dizer dos TEM, COM QUAIS OBJETIVOS?
PSICANÁLISE , VOCÊ ACREDITA QUE É POS - CRISTIANA: A pesquisa em Psicanálise
SÍVEL COMPARAR AS DIVERSAS LINHAS DE objetos? Podemos dizer que se realiza atualmente traz a marca de
F REUD, LACAN, WINICOTT, M ADALAINE sua historicidade. De fato, desde Freud
ETC., EM TERMOS DE CONCEITOS E PRÁTI-
que há um referente se questiona sobre o estatuto da Psica-
CAS CLÍNICAS?
CRISTIANA: Alguns conceitos permane-
externo? Não é o que nálise. Sua Interpretação dos Sonhos (1900)
foi muitas vezes considerada como ad-
cem, mas não compreendo a ideia de parece. Eles são tão VINDA DO CAMPO DA lC¥ÎO  ASSIM COMO
comparação; são apropriações diversas, sua Metapsicologia (Strachey, 1975;
que valorizam determinadas partes da variáveis quanto é Ellenberger, 1976). Já Legrand (1973) a
teoria freudiana sob a luz de interesses e contrapôs à ciência empírica, propondo
entendimentos locais e particulares.
variável a compreensão a Psicanálise como uma terceira via de

LACAN, APESAR DE ADEPTO DE F REUD,


sobre eles conhecimento. Tais debates sobre o esta-
tuto da Psicanálise ganharam particular
DESENVOLVEU ALGUMAS RELEITURAS E priação e faz dela sua própria escritura. interesse primeiro na França e depois no
REFORMULOU TEORIAS QUE SÃO MUITO E é justamente o reconhecimento dessa Brasil, especialmente a partir da década
CONCEITUADAS HOJE . ISSO NÃO SIGNIFICA apropriação personalíssima – marca da de 1990, quando passaram a ser sistema-
QUE AS IDEIAS DE F REUD PRECISAM SER circulação da Psicanálise na França de tizados nas universidades – em particu-
ATUALIZADAS? seu tempo e de seus círculos intelectuais lar nas pós-graduações. De lá para cá,
CRISTIANA: Considero que Lacan, ao se – que faz a obra dele ganhar a originali- um número muito grande de pesquisas
dizer freudiano, ao propor um retorno dade e a dimensão que possui. E por ou- vem sendo desenvolvido no campo. Nes-
a Freud, o faz dando plena legitimidade tro lado, é por isso também que ele pode sa tradição, fazer pesquisa em Psicaná-
PARA AQUILO QUE OUTROS lZERAM  TALVEZ AlRMARSUALEITURACOMOFREUDIANA SEM LISEÏRECONHECERSUASESPECIlCIDADESO
sem perceber: ele reconhece essa apro- hesitar. Assim, como disse anteriormen- legado da clínica e a centralidade do su-
jeito do Inconsciente, para começar; sua
metodologia; e o retorno aos textos que
Cristiana cita que, até
formulam suas teorias para a construção
algumas décadas atrás,
a homossexualidade era de novas perguntas, a partir de interes-
considerada patologia. ses particulares de pesquisas e dos novos
Hoje não mais, graças, contextos históricos e culturais. Já com
principalmente, ao RELA¥ÎOÌElCÉCIA ALGUNSOUTROSESTUDOS
movimento social e político
– em sua maioria advindos de uma tra-
dição anglo saxã – buscam estabelecer e
comprovar os resultados positivos da te-
rapia psicanalítica, como indica Wallers-
tein (2001). Entretanto, é bom chamar
atenção que tais investigações parecem
estar mais preocupadas com dados para
a assistência e para os planos de saúde,
assim como com bons argumentos para
os consumidores, do que propriamente
com a singularidade do sujeito do In-
consciente, pesquisa essa que não pode
SERQUANTIlCADA#OMOJÉAPONTOU,ACAN

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As complexidades do comportamento humano prios e preferências, dependendo de con-
textos culturais e estilos pessoais, como
sempre existiram; sempre existirão. A questão é disse anteriormente. No caso da segunda
hipótese, a Psicanálise é hoje muito cen-
que o que é patológico em um período pode deixar tralizada nos países latinos: França, Ar-
de ser em outro. Mais do que biológica, então, a gentina, Brasil são centrais não apenas
no uso do método, mas na circulação de
questão do comportamento é uma questão cultural uma cultura psicanalítica, difundida por
grande parte da sociedade letrada. Por
(1998), tal preocupação com o sucesso OUTROLADO DIlCILMENTEPODERÓAMOSFALAR
pode levar à tentativa de vender a Psica- do método de Freud hoje sem estar atra-
nálise dentro de um regime de exigência vessado pelos discursos pós-freudianos,
de felicidade, o que seria mesmo uma to- como o de Lacan, por exemplo.
tal renegação da Psicanálise.
QUAIS SÃO AS PERSPECTIVAS FUTURAS DAS
QUAIS OS IMPACTOS DO LEGADO DE F REUD TÉCNICAS DA METODOLOGIA FREUDIANA?
PARA OS PROFISSIONAIS DA PSICANÁLISE E CRISTIANA: Creio que estamos vivendo
POR QUE HÁ TANTOS ESPECIALISTAS QUE um momento de muitas mudanças nas
DIVERGEM DE SUAS IDEIAS? subjetividades. Alguns apostam que,
CRISTIANA: Freud reabriu a ferida narcí- nessa modernidade tardia, os sujeitos
Na visão de Cristiana, Lacan, ao propor um
sica que a Medicina positiva e tecnológi- G!
9  G‚G9 vêm exacerbando determinadas carac-
ca, apoiada na promessa de cura, sempre GII hGGG GhÔ terísticas modernas, e que se desdobram
insistiu em fechar. O legado de Freud é e faça dela sua escritura no aumento do individualismo, numa
justamente essa insistência de se apontar cultura da imagem, no abuso de substân-
para o mal-estar estrutural do sujeito na cias psicoativas. Nesse sentido, a Psica-
cultura. É esse chamado mal-estar, que nálise deve se repensar para lidar com as
não é sempre o mesmo, ainda que pos- subjetividades contemporâneas. Outros,
tulemos e saibamos de sua insistência ENTRETANTO APOSTAMNOlMDAMODERNI-
permanente, assim como esse método dade. No cenário da pós-modernidade,
OBSCURO QUEESCAPAMÌQUANTIlCA¥ÎOE as subjetividades podem adquirir formas
à objetivação e que atraem as críticas. Os muito distintas daquelas produzidas des-
especialistas desejam um modelo experi- de o século XVII. Para estes, o processo
mental de observação e teste, para ade- de interiorização que caracterizou o su-
quar o saber psicanalítico à ciência po- jeito moderno pode estar acabando, com
sitiva. Como se o humano coubesse em Segundo a psicanalista, Freud reabriu a ferida narcísica a construção desses sujeitos em rede, na
que a Medicina positiva e tecnológica, apoiada na
uma expressão matemática. Ou numa SUPERFÓCIE SEMTANTADElNI¥ÎOENTREOIN-
promessa de cura, sempre insistiu em fechar
estatística. Não cabe. E isso incomoda. terior e o exterior, assim como uma apos-
Como Freud mesmo observou, isso fez TANOlMDASEPARA¥ÎOENTREOPÞBLICOE
– e faz – com que a Psicanálise perca “a o privado, como já discutiu Joel Birman
simpatia de todos os amigos do pensa- (2000) ao tratar do lugar da Psicanálise
MENTO CIENTÓlCOv &REUD    P   nesse imbróglio. Nesse caso, as marcas
Além disso, suas teorias sobre a sexua- na pele pelas tatuagens viriam substituir
lidade ganham até hoje certa resistência. as marcas simbólicas. As redes sociais
SUBSTITUIRIAMAREmEXÎOSISTEMÉTICAEN-
HÁ UMA PSICANÁLISE BRASILEIRA? E HÁ lM ESSASETANTASOUTRASMUDAN¥ASVÐM
UMA PREVALÊNCIA DA PSICANÁLISE NO colocando em questão a manutenção
BRASIL FRENTE A OUTROS PAÍSES? do sujeito como o conhecemos.... nesse
CRISTIANA: No caso da primeira resposta, futuro, a Psicanálise poderia funcionar
Joel Birman, ao tratar do lugar da Psicanálise,
PODEMOSAlRMARQUEOSCONCEITOSDECIR- discutiu a separação entre público e privado,
como resistência... e insistência, me pa-
culação e apropriação implicam sempre ou seja, as marcas na pele pelas tatuagens rece. Ou, como querem alguns, poderia
em considerar a existência de estilos pró- substituem as marcas simbólicas desaparecer. Espero que não. Falar do

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lM DO SUJEITO MODERNO PODE SIGNIlCAR A Psicanálise precisa partir de seus referenciais, problemas de
OlMDOSUJEITOLIVRE DETERMINADOPELO pesquisa e interesses.
cérebro e pela hereditariedade. hoje lidar com os novos
COMO PSICANÁLISE PENETRA HOJE NA
QUAL A SUA AVALIAÇÃO SOBRE A RELAÇÃO
sujeitos advindos das A
SOCIEDADE , SENDO APROPRIADA POR COLU-
ENTRE PSICANÁLISE E CULTURA? É POSSÍ-
VEL TRAÇAR UM PARALELO ENTRE TEORIA
condições da cultura do NAS SENTIMENTAIS, NOVELAS, PROPAGAN-
DAS ETC.?
E VERDADE A PARTIR DESSE TEMA? nosso tempo; e também CRISTIANA: É possível notar que além de
CRISTIANA: Lacan dizia que “o incons- um modelo de escuta, leitura do mundo
ciente é o social”. Por quê? Desde a desco- com a nova/velha e tratamento, a Psicanálise se articulou
berta do inconsciente, suas implicações
para a reformulação social e seu impacto
maneira de perceber o a um processo de “psicologização” da
sociedade. Esse conceito foi utilizado
na constituição das subjetividades têm
convocado a Psicanálise a pensar seu
sujeito e seu sofrimento por um grupo de antropólogos do Mu-
seu Nacional (UFRJ), quando buscaram
lugar na cultura. Com a circunscrição psíquico como resultado analisar cidades urbanas brasileiras. O
do conceito de recalque como parte dos grupo, iniciado por Gilberto Velho, pro-
traços de moralidade existentes em uma de uma disfunção duziu diversas análises, nas décadas de
dada cultura, não é possível pensar no
sujeito do inconsciente sem pensar na-
neuronal, hormonal etc. 1970 e 1980, que investigaram a amplia-
ção dos discursos psi por toda a socie-
quilo que o circunda e que, nessa fricção, dade. Nessa linha de análise, Jane Russo
produz e é produzido. Assim, o analista, CRISTIANA: A Psicanálise – tal como pen- (2002), por exemplo, utiliza o conceito
ao ocupar-se de questões clínicas e dos sada hoje – se difere da Sociologia ou quando trata do boom psicanalítico entre
regimes de verdade que se estabelecem Antropologia. Não está voltada para dis- as classes médias urbanas da década de
de maneira singular nesse processo, não cutir valores sociais comuns ou buscar 1970. Embora a sociedade brasileira te-
precisa produzir qualquer ruptura fren- uma marca identitária única nem forjar nha sofrido essa expansão vertiginosa
te a um pensamento mais amplo e que uma entidade psíquica permanente que da Psicanálise na década de 1970, a cir-
abarca o campo sociocultural ou abrir nos reúna como povo. Ao contrário, a culação social da Psicanálise começou a
MÎODASFERRAMENTASDA&ILOSOlA 0SICANÉLISECHAMAATEN¥ÎODAlC¥ÎOQUE ocorrer a partir dos anos 30, em revistas
constitui a identidade. Trata-se muito femininas e manuais de educação, alcan-
A RELAÇÃO ENTRE PSICANÁLISE E CUL - MAISDEDESCONSTRUIRAlC¥ÎO PERMITIN- çando certo espaço simbólico no sistema
TURA PODE SER UMA TRADUÇÃO DA DU - do novos arranjos do sujeito em análise. de valores, noções e práticas sociais das
ALIDADE RECEPÇÃO X APROPRIAÇÃO E , cidades urbanas.
TAMBÉM , SOBRE A CIRCULAÇÃO TRANSNA- PODE EXPLICAR, EM LINHAS GERAIS, A
CIONAL DOS SABERES? AFIRMAÇÃO DE QUE A PSICANÁLISE ESTÁ EM SUA AVALIAÇÃO, MANIFESTAÇÕES COMO
CRISTIANA: A relação da Psicanálise com SEMPRE IMERSA NA CULTURA NA QUAL SE O CINEMA PODEM SER CONSIDERADAS ARTE
a cultura é completamente íntima, já que INSERE E QUE GUARDA MARCAS DESSE CON- OU COMUNICAÇÃO? ELE DEVE SER UM FIM
o sujeito é efeito dela, dos poderes e sa- TEXTO LOCAL , COLOCANDO EM QUESTÃO A EM SI MESMO, EXPLORANDO SUA PRÓPRIA
beres que a conformam. Por outro lado, UNIVERSALIDADE E A NEUTRALIDADE COS - LINGUAGEM PARA FORNECER UMA VISÃO
os indivíduos são capazes de seleção e TUMEIRAS E CONSIDERANDO AS APROPRIA- DE MUNDO, OU USAR A POPULARIDADE DO
de dar sentido próprio àquilo que rece- ÇÕES ATIVAS COMO POSSIBILIDADES LEGÍTI- MEIO PARA TRANSMITIR UMA MENSAGEM
bem, se apropriando do conhecimento e MAS, AINDA QUE NEM SEMPRE NA DIREÇÃO ÚTIL À SOCIEDADE?
criando a partir dele também. DO NOSSO DESEJO? CRISTIANA: A arte transmite mensagens,
CRISTIANA: Não existe a possibilidade ainda que não necessariamente voltadas
EM SUA OPINIÃO, DO PONTO DE VISTA DA de efetuarmos o uso da Psicanálise de para a utilidade. O cinema é hoje, talvez,
PSICANÁLISE, EXISTE, DE FATO, UM POVO maneira asséptica, neutra e objetiva. Ela aquilo que a literatura representou nos sé-
BRASILEIRO, OBSERVANDO OS ASPECTOS sempre é lida e compreendida a partir de culos XIX/XX: é a possibilidade de nos
CULTURAIS PRÓPRIOS? EM CIMA DISSO, um psiquismo (no caso individual) e de experimentarmos no outro como outro,
QUAL O VALOR QUE O POVO ATRIBUI, POIS UM CONTEXTO ESPECÓlCO 0OR OUTRO LADO  ampliando, assim, nossas possibilidades
O BRASILEIRO É CONHECIDO COMO UMA isso não implica numa recepção passiva: de nos aproximarmos da alteridade. Não
IMAGENS:123RF

NAÇÃO QUE NÃO DÁ O REAL VALOR PARA A a apropriação desse saber é ativa, e os acho que a arte deva estar a serviço do so-
SUA CULTURA? indivíduos se apropriam da Psicanálise a cial, embora seja sempre social/cultural.

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O QUE SÃO TEORIAS BIODETERMINISTAS E Enquanto houver to dos psicofármacos, a partir dos anos
O QUE VOCÊ QUER DIZER QUANDO FALA 50, e o fortalecimento dessa indústria
QUE HOJE EXISTEM EMBATES ENTRE A PSI- esse sujeito moderno – farmacêutica, que passou a estimular e
CANÁLISE E ESSAS TEORIAS? lNANCIAR PESQUISAS QUE VIABILIZASSEM
CRISTIANA: !0SIQUIATRIASURGIUEMlNSDO DIVIDIDO EMCONmITO  diagnósticos que pudessem ser associa-
século XVIII, com o emblemático gesto
de Philippe Pinel (1745-1826). Com ela,
marcado pelo recalque dos a medicamentos. Em consequência
de tais estímulos e investimentos, essa
organizou-se o asilo como instrumento de e pelo inconsciente, mas abordagem começou a ser difundida
cura e nele a clínica psiquiátrica foi mar- também na opinião pública, e tal circula-
cada pelo tratamento moral. Assim, desde também pela liberdade –, ção passou a produzir e responder a uma
esse momento, a Psiquiatria se constituiu demanda dos próprios sujeitos na busca
como disciplina médica sem, entretan- a Psicanálise também de dar um sentido (mais) “objetivo”, mais
to, jamais ter se enquadrado plenamente
em sua metodologia, permanecendo em
continuará a existir médico e menos psicológico “mais real
EMENOSIMAGINADOvPARASEUSCONmITOS
constante diálogo com saberes do cam- paulatinamente a cultura psicanalítica de e sofrimentos. Segundo George Weisz
po biomédico e, ao mesmo tempo, com QUE TRATAMOS ACIMA %NTRETANTO  AO lNAL (2005), essa aproximação da Psiquiatria
o campo moral, ou das humanidades. Até do século XX, as matrizes biológicas da das ciências de laboratório corresponde-
os dias de hoje, podemos observar essa Medicina mental voltaram a ser privile- ria ao objetivo de dar maior autoridade à
oscilação: ora busca em cada (psico)pato- giadas. Como consequência, a sociedade Medicina mental, aliando seus resultados
logia o mecanismo biopatológico carac- passou também a utilizar tais referenciais a tecnologias a partir das quais dados es-
terístico e curso da doença que permitam para pensar as relações humanas e inter- tatísticos poderiam ser recombinados
a construção de categorias diagnósticas vir nessas relações. Apesar de podermos em múltiplas formas de pesquisa, dando
generalizáveis, ora emoldura o sofrimen- AlRMARQUENO"RASILHÉUMADISPUTAEN- maior visibilidade ao seu conteúdo, cons-
to humano a partir das mais diversas in- tre os dois modos de pensar o sujeito e a truindo regimes de verdade, marcados
mUÐNCIAS QUENECESSARIAMENTEINCLUEMAS sociedade, não é possível negar que hou- PELASIMAGENSNEUROCIENTÓlCASEPORSEUS
dimensões psíquicas, sociais e culturais ve, a partir desse período, a ascensão das dados quantitativos, bem de acordo com
para o adoecimento. Tal oscilação pode teorias biomédicas nas ciências neuropsi- A IDEOLOGIA DA -EDICINA CIENTÓlCA CON-
ser acompanhada ao longo da história quiátricas assim como na opinião pública. temporânea, que considera as ciências
DESSA DISCIPLINA NO lNAL DO SÏCULO 8)8  Vale lembrar, a retomada do viés biológi- básicas como a principal fonte de inova-
as explicações de cunho moral perderam co ganhou ímpeto principalmente a partir ção em Medicina (Löwy, 1994).
a hegemonia, dando espaço para teorias do surgimento da vertente da Psiquiatria
organicistas, que passaram a explicar a biológica norte-americana, consolidada UMA DE SUAS PESQUISAS MAIS RECENTES É
loucura exclusivamente a partir de fatores internacionalmente a partir da publicação SOBRE A APROPRIAÇÃO, INTERNALIZAÇÃO E
biológicos – o que, nesse contexto, impli- do DSM-III, em 1980. NEGOCIAÇÃO DOS SABERES MÉDICO -MEN-
cava necessariamente considerar fatores TAIS NOS MODOS DE SER, SENTIR E FAZER
hereditários e degenerativos. Já a partir UMA DE SUAS ÁREAS DE ESTUDO É A HIS - DOS INDIVÍDUOS EM UM DADO CONTEXTO
do segundo pós-guerra, quando as teorias TÓRIA DA CIÊNCIA PSIQUIÁTRICA, DE SUAS HISTÓRICO - CULTURAL . A QUE CONCLU-
eugênicas e a Psicologia dos povos pas- PRÁTICAS E TECNOLOGIAS. COMO VOCÊ SÕES VOCÊ CHEGOU?
saram a ser consideradas como um erro, OBSERVA A INFLUÊNCIA NA TECNOLOGIA E CRISTIANA: Atualmente estou coordenan-
após o massacre do holocausto, ganharam SEUS AVANÇOS QUASE DIÁRIOS NO PROCESSO do uma pesquisa bem grande a partir de
novamente destaque as teorias de cunho DE FORMAÇÃO DO INDIVÍDUO? documentos clínicos do antigo Hospício
psicológico e/ou humanista, como a Psi- CRISTIANA: Bem, cada época tem a sua Nacional (apoio: Proep, CNPq/Fiocruz).
canálise ou o existencialismo, por exem- tecnologia psiquiátrica. Mas o movimen- Essa pesquisa a que você alude, e que ob-
plo. Nesse período, conceitos como os de to para a retomada de um referencial teve apoio da Faperj, já terminou. Para
neurose, recalque, édipo, inconsciente, perver- exclusivamente biológico ou organicista a investigação, utilizei como fonte cartas
sidade polimorfa, entre outros, passaram a das doenças mentais articula os desen- de leitores e de conselheiros em revistas
circular não apenas no campo mesmo da volvimentos de pesquisas realizadas (e de grande circulação. A ideia era justa-
Psiquiatria, mas foram sendo difundidos lNANCIADASå  NO CAMPO DA "IOQUÓMICA  mente avaliar até que ponto e de que for-
pelo corpo social, sendo apropriados pela com a tentativa de enquadramento da ma os saberes psi eram apropriados pe-
educação, pela literatura e por diversos Psiquiatria dentro do campo médico las pessoas comuns na capital brasileira
outros setores da sociedade, construindo mais geral, além, é claro, do surgimen- na Era Vargas (1930-1945). O resultado

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sociais particulares, como busquei desta-
car ao longo dessa entrevista. Por meio
DESSACHAVEDELEITURAÏPOSSÓVELVERIlCAR
QUE PAUTAS POLÓTICAS ESPECÓlCAS  ASSIM
como contextos sociais, impactam na
apropriação de um saber.

ESPECIFICAMENTE NO QUE SE REFERE À


PRÁTICA CLÍNICA DAS DOENÇAS MENTAIS,
QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS AVANÇOS?
CRISTIANA: O desenvolvimento das Neu-
rociências e de suas tecnologias possibili-
tou a aproximação da Psiquiatria da Me-
dicina somática geral, sonho acalentado
desde Pinel, que já sonhava com o dia em
O cinema é o que a literatura foi nos séculos XIX/XX, a chance de experimentar no outro como outro, QUE SE CHEGARIA Ì CAUSALIDADE lSICALISTA
ampliando as chances de aproximação da alteridade das perturbações psíquicas. Nesse diapa-
são, o funcionamento psíquico se aproxi-
permitiu acessar formas de apropriação A pesquisa em ma cada vez mais da idealização de uma
das novas ideias psi que circulavam pe- subjetividade reduzida ao cérebro e aos
las revistas e o modo como impactaram Psicanálise que se seus neurotransmissores. Em resposta, no
DEMANEIRADIVERSIlCADAAPRODU¥ÎODOS campo das terapêuticas, os psicotrópicos
sujeitos concretos e da cultura urbana
realiza atualmente se tornaram o centro do tratamento, ao
DO PERÓODO 0UDE IDENTIlCAR DISPUTAS E
negociações pela hegemonia discursiva
traz a marca de sua passo que as psicoterapias foram relega-
das a segundo plano, ou mesmo recu-
na construção do ideal de mulher e de historicidade. De sadas como importantes. A Psicanálise
homem modernos, em que o processo PERDEUESPA¥OSIGNIlCATIVONOCAMPODA
DEAPROPRIA¥ÎODOSSABERESCIENTÓlCOSSE fato, desde Freud Psiquiatria, portanto. Se entre as décadas
mostra sempre relativo e parcial nos dis- de 1950 e 1970 ela era o discurso teórico
cursos do público leitor leigo, permitindo
se questiona sobre o central da Psiquiatria, após o DSM-III e
refutar a ideia de um controle biopolítico
ABSOLUTONOPROCESSODEREDElNI¥ÎODOS
estatuto da Psicanálise. seu paradigma biológico o processo de
autonomização da Psiquiatria frente à
papéis sociais. Sua Interpretação Psicanálise se radicalizou. De acordo com
alguns autores, como Birman (2005), teria
VOCÊ É UMA ESTUDIOSA ESPECIALISTA NA dos Sonhos foi muitas ocorrido uma inversão de planos: a Psica-
PSICANÁLISE. EM
HISTÓRIA DA
GERAIS, O QUE MUDOU EM TERMOS DE
LINHAS
vezes considerada como nálise estaria enfrentando um processo de
medicalização, passando a ser atravessa-
CONCEITOS E PRÁTICAS PSICANALÍTICAS AO
ADVINDADAlC¥ÎO da por discursos advindos das Neurociên-
LONGO DOS ANOS? cias e do cognitivismo. Além disso, teria
CRISTIANA: Não trabalho com a episte- caso da América Latina, de passado co- passado a ocupar um plano secundário no
mologia da Psicanálise, mas com a his- lonial (de fato e cultural), a discussão ga- campo da intervenção terapêutica. Inves-
tória social da Psicanálise. Nesse sentido, nha novos contornos. Trata-se, aqui, de tigar tais acontecimentos históricos, não
faço parte de um grupo de autores que, considerar também as discussões mais como avanços ou evoluções, mas como
nos últimos anos, vem chamando aten- amplas acerca das ciências instituídas no essa luta de forças em que o somático e
ção para a importância de se considerar mundo europeu, principalmente francês, o psíquico se tensionam (no sentido de
a Psicanálise como um fenômeno social, germânico ou anglo-saxão, e sua recep- tensão mesmo), e entender os contextos
cultural e político, seja como saber, mo- ção em países tradicionalmente conside- que os fazem mover-se é o interesse do
vimento internacional ou epifenômeno rados na periferia da modernidade. Esse historiador dos saberes psi. Compreender
mesmo da modernidade, sua crítica. Isso interesse é movido pela compreensão de por que a Psicanálise permanece resistin-
implica alertar para os efeitos que a Psi- que o campo intelectual tem apenas cer- do em alguns contextos culturais é outro
canálise adquire em cada contexto. No ta autonomia frente aos determinantes DESAlO4EMOSMUITOOQUEESTUDAR

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in foco por Michele Müller

DESAFIOS da
comunicação
O PAPEL DA LINGUAGEM INFLUENCIA NA FORMA COMO
NOS RELACIONAMOS E ENXERGAMOS O MUNDO, E O SEU
EXERCÍCIO ENVOLVE CAPACIDADES QUE NÃO SÃO ESQUECIDAS

N
ão foi a necessidade de apren- sidade vital de conexão, é um dos aspec- pensamentos e sentimentos continu-
der sofisticadas fórmulas mate- tos mais fundamentais daquilo que nos am desordenados, incomunicáveis e,
máticas ou de construir espa- faz humanos. A linguagem, assim como muitas vezes, indecifráveis. Outros são
çonaves que obrigou a evolução a capacidade de interpretar a mente do desf igurados por uma comunicação
a nos privilegiar com um cérebro tão outro, partindo dos mais sutis e incons- não apenas incompleta, mas suscetível
complexo. Foi a necessidade de conviver cientes sinais, é uma derivação da nossa a inúmeras falhas, sendo que muitas
e de interagir com tantas mentes dife- interdependência, da busca pelo amor, delas estão fora do nosso controle e ja-
rentes da nossa. A natureza sabiamente aceitação e aprovação. mais serão esclarecidas.
poupou espécies mais individualistas A linguagem pode não nos salvar da
ou que vivem em grupos pequenos de condição solitária de perceber o mun-
carregar o peso de um cérebro volumo-
A LINGUAGEM PODE do de uma perspectiva única. Mas nos
so e que consome tanta energia. E nos NÃO NOS SALVAR DA oferece o alívio de compreender e ser
diferenciou com um equipamento bio- compreendido em um nível que, mesmo
CONDIÇÃO SOLITÁRIA
lógico que permite criar vínculos e re- dando acesso à beirada do mar de per-
solver conf litos, ao custo de incontáveis DE PERCEBER O cepções da nossa mente, favorece cone-
desafios psicológicos, como ansiedade, MUNDO DE UMA xões profundas e significativas.
solidão, perdas afetivas e rejeição. Além disso, ao tornar mais nítido
Com a ajuda de uma nova tecnologia, PERSPECTIVA ÚNICA. aquilo que percebemos e sentimos, nos
conhecida como agent based modeling, foi MAS NOS OFERECE permite ter um maior domínio sobre
finalmente possível comprovar que espé- as emoções e ações. Sobre esse poder
cies que vivem em grupos precisam de
O ALÍVIO DE das palavras, a psicóloga e escritora
cérebros maiores e as que vivem em gru- COMPREENDER E SER americana Tara Brach, uma das mais
pos muito grandes e complexos precisam populares professoras de mindfulness
de um que comporte recursos altamente
COMPREENDIDO no Ocidente, ensina, em uma de suas
sofisticados, como a linguagem. A in- meditações guiadas: “Aquilo que você
vestigação foi feita por pesquisadores da A comunicação representa a busca nomeia passa a ter menos controle so-
Universidade de Oxford para avaliar a fundamental pelo conforto de termos bre você. Nomeie um medo e será mais
demanda cognitiva das decisões sociais, testemunhas da nossa experiência nes- forte que ele. Dê nome a uma ref lexão
simuladas por uma ferramenta que re- se mundo. Mas mesmo com toda a sua e você sairá do meio da nuvem de pen-
produz situações com muitas variáveis complexidade, transforma apenas uma samento e estará aberto a algo maior”.
e que não podem ser explicadas com a pequena parte desse f ilme mental ca- Ao ganharmos familiaridade com
precisão de uma fórmula. ótico e subjetivo em informações que determinados conceitos, eles passam
Nossa extraordinária habilidade de podem ser compartilhadas e que façam a fazer parte da forma como opera-
comunicação, resultado de uma neces- sentido aos outros. Muitos dos nossos mos. Se integram aos pensamentos,

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oferecem novas formas de interpretar pelo orgulho ou ganância depois que mente a capacidade de compreensão
o mundo e modif icam ou formam os esses conceitos são incorporados ao necessária para assimilar uma quan-
padrões de expectativas que temos em nosso vocabulário. Essa compreensão tidade de informações crescente em
relação aos outros e a nós mesmos. não ocorre de uma forma restrita e den- volume e complexidade. Desconsidera
Somam-se à nossa própria essência, tro de um tempo limitado. Depende de que a comunicação, com suas possibi-
que a f luidez da língua tem o poder conhecimentos dominados em níveis lidades ilimitadas, representa um desa-
de remodelar. “(...) as palavras têm por variados – mesmo dentro de uma mes- f io para muitos e envolve capacidades
característica fundamental serem um ma faixa etária e contexto cultural – e que podem ser exercitadas no ambiente
ref lexo generalizado do mundo. Este aprimorados no decorrer de toda a vida, escolar. Práticas que estimulam o de-
aspecto da palavra conduz-nos ao li- nas diversificadas formas de interação senvolvimento das habilidades verbais
miar de um tema muito mais profundo social e troca de informações. E por não são fundamentais na superação de di-
e mais vasto – problema geral da cons- se reduzirem a um conjunto de regras f iculdades acadêmicas. Mais que isso,
ciência. As palavras desempenham que podem ser transmitidas por meio de ajudam na formação do pensamento
um papel fundamental, não só no de- métodos sistemáticos, com resultados crítico e da consciência da intenção
senvolvimento do pensamento mas facilmente medidos, acabam trabalha- por trás dos discursos. E, mesmo en-
também no desenvolvimento histórico dos no meio acadêmico apenas de for- tre aqueles que não se intimidam com
da consciência como um todo. Cada ma indireta e não planejada. a f lexibilidade que a linguagem exige,
palavra é um microcosmos da cons- A educação formal, em geral, es- exercem um grande impacto na forma
IMAGENS: SHUTTERSTOCK E ARQUIVO PESSOAL

ciência humana”, coloca Vygotsky em pera que estudantes ganhem natural- como se relacionam com o mundo.
Linguagem e Pensamento.
Passamos a enxergar injustiças e
desigualdades, a identificar melhor Michele Müller é especialista em Neurociências e Neuropsicologia da
sentimentos como mágoa e remorso e Educação. Pesquisa e cria ferramentas para o desenvolvimento da
linguagem. É autora do blog www.leituraesentido.blogspot.com
a entender comportamentos movidos

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psicopositiva por Lilian Graziano

As FORÇAS
incompreendidas (parte II)
DE TODAS AS FORÇAS PESSOAIS
ELA É A MAIS INCOMPREENDIDA.
E VOCÊ, SABE O QUE SIGNIFICA
HUMILDADE?

É
realmente incrível. Apesar de Sendo assim, vamos direto ao Mas vejamos até onde consegue ir
sua signif icativa importância ponto. Imagine a seguinte situação: a nossa incoerência. E para isso, per-
para a Psicologia Positiva, você está conversando com uma pes- mita-me, leitor, recorrer novamente
algumas das forças pessoais soa em uma festa e, dentro de um ( já o f iz na coluna anterior) à f igura
ainda são bastante incompreendi- determinado e pertinente contex- de Jesus. Observe que não o faço aqui
das, seja por parte do público leigo to dessa conversa, a pessoa lhe diz: (como não o f iz anteriormente) a
quanto, pasmem, dos prof issionais. “Eu sou muito inteligente”. Seja sin- partir de uma perspectiva religiosa,
Nesse sentido, demos início, na cero(a): você diria que essa pessoa é nem mesmo espiritual. Recorro aqui
edição passada, a uma série de três humilde? Muito provavelmente não. à imagem de Jesus como elemento
textos que têm por objetivo discu- E, pior, diria tratar-se de alguém ar- cultural e f igura importante da
tir sobre o que chamamos de as três rogante, não é mesmo? Pois saiba que cultura ocidental. Nesse sentido, é
forças mais incompreendidas da Psi- você pode estar errado, sendo def ini- inegável que a f igura de Jesus Cris-
cologia Positiva: a bondade (sobre a tivamente vítima de uma cultura po- to seja vista como ícone de bondade
qual falamos na coluna passada), a pular que absolutamente desconhece e de humildade. Na coluna anterior
humildade e a perspectiva. o signif icado da palavra “humilde”. falei sobre a bondade, razão pela

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Loja
AO LONGO DOS SÉCULOS O CONCEITO
DE HUMILDADE FOI SENDO DISTORCIDO
ATÉ CHEGARMOS NOS DIAS DE HOJE,
QUANDO CONFUNDIMOS HUMILDADE COM
ACOMPANHE
INSEGURANÇA E FALTA DE ASSERTIVIDADE
OS MOVIMENTOS
DO MERCADO
qual f icaremos apenas com a humil- dade corresponde à característica e reconheça as boas
dade. Jesus é símbolo de humildade. daquele que deixa que as suas rea-
Não obstante isso, disse, de acordo lizações falem por si, sem procurar
oportunidades para
com a Bíblia: “Eu sou o caminho, a estar o tempo todo em evidência. o caminho do
verdade e a vida”. Se utilizarmos os Trata-se do sujeito despretensioso, sucesso profissional
mesmos padrões de julgamento que que não se considera mais especial
utilizamos naquela festa hipotética que os demais, e, o mais importante,
do parágrafo anterior, a conclusão alguém que possui uma percepção
seria inevitável: Jesus era um tremen- correta – e não aquém – de si mesmo.
do arrogante! Confesso, com um pouco de
Por que então essa incoerência? constrangimento, que demorei mais
Por que Jesus permanece há milê- de 40 anos para entender precisa-
nios como símbolo de humildade mente o conceito de humildade. E
enquanto nós não podemos sequer como a vida acontece para além dos
reconhecer publicamente nossas estereótipos, quem me ensinou sobre
qualidades sem que sejamos julga- isso foi um CEO de uma grande em-
dos como arrogantes? presa, rico e com MBA em Harvard.
Porque ao longo dos séculos, e mui- Ele era meu último paciente da noi-
to provavelmente pela própria ação te, razão pela qual o estacionamen-
das religiões, o conceito de humilda- to do meu prédio estava sempre fe-
de foi sendo distorcido até chegarmos chado. Nunca reclamou por ter que
nos dias de hoje, quando confundimos parar seu carro na rua, nem sobre
humildade com insegurança, com falta as confusões que o g uarda da noite
de assertividade e, por vezes, com au- fazia, tentando substituir o porteiro
sência de autoestima. do meu prédio. “Isso acontece com
Eu o desaf io, leitor, a relacionar todo mundo. Por que não acontece-
as pessoas do seu círculo social que ria comigo?”, dizia. Eu sorvia essas e
você costumeiramente classif icaria outras manifestações de humildade
como humildes. Você poderia af ir- com a avidez de uma aluna dedica-
mar com toda certeza não se tratar da. Mas senti que a lição estava com-
de sujeitos inseguros? Pois é, essa pleta no dia em que, durante uma
distorção talvez tenha feito de nós sessão, eu disse a ele: “...Mas você
uma sociedade pouco humilde. Não é muito inteligente!”; ao que ele me
admiramos os humildes. Temos pena respondeu com f irmeza: “Eu sei”.
deles. Isso porque, def initivamente, Sim, ele sabia. Mas não precisava
não sabemos o que é humildade. f ingir. Porque a verdadeira humilda-
Para a Psicologia Positiva, humil- de não precisa de falsa modéstia.
IMAGENS: SHUTTERSTOCK / ACERVO PESSOAL

Acesse www.escala.com.br
Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão
em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora e aproveite!
universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento,
onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.
graziano@psicologiapositiva.com.br

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psicopedagogia por Maria Irene Maluf

Desenvolvimento
INFANTIL
OS MARCOS IMPORTANTES DE CADA FASE
NUNCA DEVEM SER NEGLIGENCIADOS,
POIS OS SINAIS DE QUE HÁ ALGO ERRADO
APARECEM SEMPRE NO DIA A DIA E NÃO
APENAS NO CONSULTÓRIO MÉDICO

À
parte o amor que temos pelos cer sozinha uma escada, chutar uma bola
lLHOS HÉTAMBÏMUMAGRANDE com objetivo, assim como aos 36 meses
responsabilidade por seu de- completos deve copiar um círculo dese-
senvolvimento sadio. Assim, nhado em um papel e andar de triciclo.
o acompanhamento pediátrico é muito Não ser capaz de copiar uma cruz ao
importante, mas o olhar diário da famí- completar 4 anos, e um quadrado aos 5, só falem mamãe e papai no seu segundo
lia é imprescindível. assim como abotoar seu casaco, amarrar aniversário, ou que cheguem aos 3 anos e
Para além de problemas emocionais os cadarços do tênis, usar talheres para não formem frases com linguagem com-
e comportamentais, inclusive aqueles comer, não desenhar como esperado preensível pela maioria das pessoas, de-
que merecem atenção redobrada, há para essa idade levantam a suspeita de vem ser levados para uma avaliação, pois
uma pergunta que os pais sempre se fa- um problema de coordenação motora. esses atrasos repercutem de modo decisi-
zem: essa aquisição está de acordo com Existem pequenas variáveis no tempo vo na aquisição da alfabetização.
a faixa adequada de desenvolvimento ou dessas aquisições, devido às oportunida- O próprio desenvolvimento cognitivo
existe um atraso? des de treino, mas a avaliação da gravi- pode ser avaliado, em parte, pela riqueza
Algumas áreas podem ser de im- dade em atrasos de mais de 6 meses deve e tipo de linguagem que a criança utiliza
portância vital no amadurecimento da SERFEITAPORPROlSSIONAIS e também por seus desenhos, mas entre 3
criança e alguns sinais estão presentes No 5º aniversário, a criança é capaz e 4 anos espera-se que já domine algumas
desde os primeiros meses de vida. São de armar um quebra-cabeça de 4 peças FORMASE NOlNALDESSEPERÓODO SEUDE-
alertas que podem ajudar famílias a pro- em até 20 segundos, pode abotoar seis senho tenha intenção clara de reproduzir
CURAREM PROlSSIONAIS E ASSIM IMPEDIR botões em até 70 segundos, pula com os um ser humano reconhecível, com ca-
DANOSMAIORESAOSlLHOS ANTESDAENTRA- pés juntos uma corda, e aos 6 anos avança beça, pernas, braços e tronco. Estimular
da no ensino fundamental. em linha reta com os olhos abertos, colo- essas formas de linguagem é muito im-
A primeira aquisição que exige aten- cando alternadamente o calcanhar do pé portante também para o incremento de
ção diz respeito ao desenvolvimento que avança contra a ponta do que apoia. novas habilidades indispensáveis para a
motor dos bebês. Segurar a cabeça, o Nessa idade também pula bem corda, se escolarização.
TRONCO SENTAR SEEAlNALINICIAROANDAR equilibra em um pé só por 15 segundos, Por volta dos 6 anos, a criança já re-
são etapas esperadas do crescimento distingue direita e esquerda e recorta cor- corda uma historinha, sabe explicar um
que acontecem sucessivamente antes retamente com a tesoura. fato ocorrido, fala articulando muito bem
dos 12 ou até 15 meses de idade. Outra aquisição muito importante todos os sons, ordena objetos de acordo
Ao entrar na pré-escola, aos 2 anos, é a da linguagem. Bebês muito quietos, com determinada qualidade (grossura,
a criança deve ser capaz de subir e des- que não vocalizem antes dos 12 meses e cor, tamanho). Reconhece os números

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de 1 a 10 associando-os com as quanti- O PRÓPRIO mais continuado, sorri quando alguém
dades que representam e faz somas sim- sorri para ela, responde ao ser chamada,
ples. Distingue palavras escritas singelas
DESENVOLVIMENTO imita ações e compartilha interesses. Aos
como seu nome, mamãe e papai. COGNITIVO PODE SER 3 anos já brinca em grupo de crianças e
Até completar 7 anos, é capaz de ex- AVALIADO, EM PARTE, procura se enturmar. Por volta dos 6 anos
plicar o porquê de um raciocínio seu, e as é esperado que tenha um melhor amigo
diferenças principais entre um homem e
PELA RIQUEZA E EPRElRABRINCARSOZINHAOUCOMDOISOU
um cachorro, por exemplo. Faz analogias TIPO DE LINGUAGEM três companheiros da mesma idade do
(por exemplo: um irmão é um menino, QUE A CRIANÇA que em grupos numerosos.
uma irmã é...), conta moedas fracionárias É conhecendo nossas crianças e ob-
e notas de dinheiro, mostra rápida pro- UTILIZA E TAMBÉM servando seu desenvolvimento que as
gressão do pensamento. É um ser curio- POR SEUS DESENHOS TORNAMOS APTAS AOS PRIMEIROS DESAlOS
so, de lógica concreta e pronto para a al- da vida. Qualquer atraso no desenvolvi-
FABETIZA¥ÎOEOSDESAlOSESCOLARES Ao assoprar a primeira velinha, uma mento até essa fase é de suma importân-
Voltando à fase de bebê, ressalto a im- de suas brincadeiras favoritas consiste CIA  DEVE SER AVALIADO POR PROlSSIONAIS 
portância do aspecto social. Aos 3 meses em brincar de se esconder com sua mãe, pois vai atuar de modo a prejudicar todo
a criança de desenvolvimento adequado mostra preferência por um ou outro brin- o aproveitamento pessoal e acadêmico
mostra interesse pelo rosto das pessoas quedo, enquanto engatinha ou anda ex- subsequente, além de diminuir sua auto-
que cuidam dela, por objetos em movi- plora o espaço a sua volta. Perto dos 2 estima e ter repercussão na sua seguran-
mento, e até os 6 meses deve reconhecer anos, a criança estabelece contato visual ça emocional.
a mãe de modo especial, demostra curio-
IMAGENS: SHUTTERSTOCK/ ARQUIVO

sidade por coisas, e aos 9 meses mostra


Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e
sentir angústia perto de estranhos en- Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de
quanto em seu rosto já se percebem ex- Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em
pressões variadas de acordo com a situa- publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de
especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br
ção vivenciada.

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utilidade pública Por Tiago J. B. Eugênio

Estímulo à
perseverança
O APRENDIZADO ENVOLVE A REPETIÇÃO POR UM PERÍODO DE
TEMPO E FAZER ISSO NOS GAMES LEVA O CÉREBRO A CRIAR
NOVAS CONEXÕES NERVOSAS LIGADAS À ATIVIDADE CEREBRAL

J
ogos de videogame são feitos de de- gião mostrou perda da espessura cortical nejamento, a inibição comportamental e
SAlOS/SUCESSOÏMEDIDOQUASEQUE em associação com o uso dos jogos. o raciocínio abstrato. Estudos anteriores
totalmente pela destreza do jogador, O DLPFC é uma das áreas do cór- mostraram que essa área desempenha
sobretudo a coordenação. tex pré-frontal mais recentes do cérebro um papel importante na forma como pro-
Se alguém acredita que jogar videoga- primata, que sofre mudanças estruturais cessamos decisões complexas, tais como
me é uma atividade passiva, pode ser que e funcionais por um longo período – até aquelas que envolvem opções que incluem
desconheça ou subestime o poder ativo o início da vida adulta. Relaciona-se às a realização de objetivos de curto prazo
do cérebro necessário para integrar todas funções executivas, como a memória de com implicações a longo prazo. O FEF é
ASA¥ÜESECONlGURARAVITØRIADOJOGADOR TRABALHO  mEXIBILIDADE COGNITIVA  O PLA- responsável pela elaboração de julgamen-
SOBRE OS DESAlOS CRIADOS PELO DESIGNER tos sobre como lidar com os estímulos ex-
do game. Acredite, jogar videogames é a ternos. Também é importante na tomada
nova academia para nossos cérebros.
A NEUROCIÊNCIA de decisão, uma vez que permite ao cére-
A Neurociência tem se posicionan- TEM SE POSICIONADO bro atentar ao tipo de reação mais adequa-
do como o principal advogado de defesa COMO O PRINCIPAL DAFRENTEAUMESTÓMULOESPECÓlCO
dos games. Pesquisas recentes mostram Juntos, DLPFC e FEF são cruciais no
um efeito positivo dos jogos sobre as fun-
ADVOGADO DE sistema de tomada de decisão executivo
¥ÜESCOGNITIVAS%SSAINmUÐNCIATEMSIDO DEFESA DOS GAMES. do nosso cérebro. Maior espessura nessas
relacionada a mudanças de massa cin- PESQUISAS RECENTES áreas do cérebro (em outras palavras, mais
zenta dos jogadores, especialmente no conexões entre as células cerebrais) indica
córtex pré-frontal. Em estudo publicado MOSTRAM OS maior capacidade de lidar com diversas
na revista PLoS ONE, 152 adolescentes EFEITOS POSITIVOS variáveis e as implicações dessas de for-
foram submetidos à ressonância mag- ma imediata e a longo prazo. Resultados
DOS JOGOS SOBRE AS
nética enquanto jogavam videogame. O de estudos como esse podem representar
experimento estimou a espessura corti- FUNÇÕES COGNITIVAS a base biológica e os efeitos da sociedade
cal e relacionou com o tempo (horas) de gamer sobre nossos cérebros. É como se
jogatina dos participantes por semana. estivéssemos descobrindo uma nova aca-
Os cientistas observaram uma correla- demia e encarando o cérebro como um
ção positiva entre a espessura cortical novo músculo que precisa ser exercitado e
e o tempo em contato com os jogos no DESAlADO!SSIMSENDO SEHOJEOpersonal
córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo trainerÏOPROlSSIONALMAISADEQUADOPARA
(DLPFC, sigla em inglês para dorsolateral elaborar exercícios para o corpo, pode ser
prefrontal cortex) e o campo visual do lobo que no futuro o designer de games seja o
IMAGENS: 123RF

frontal esquerdo (FEF, sigla em inglês PROlSSIONAL MAIS ADEQUADO PARA ELABO-
para LEFT FRONTAL EYE lELDS . Nenhuma re- rar exercícios para nossos cérebros. As

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escolas devem ser as próximas instituições DADE.OSSOCÏREBROADORASERDESAlADO 25 e 30 anos, esse tipo de problema é ain-
AABSORVEREMESSENOVOPERlLPROlSSIONAL e a resposta neuroquímica será mais efe- da mais preocupante nos jovens.
capaz de criar um ambiente de aprendiza- tiva quando as tarefas tendem a se tornar -ESMO DIANTE DESSE DESAlO  NÎO Ï
GEMMAISElCAZEDIVERTIDO mais difíceis com a progressão do jogo. a melhor estratégia proibir os jovens de
Porém, segundo um artigo publica- Como o cérebro gosta de dopamina, não jogar videogames. Isso porque eles tam-
do na revista Neurology Now, o contato é difícil compreender a preferência das bém trazem benefícios. Jogos são uma
excessivo com jogos causa mudanças pessoas pelos bons games que exigem ótima ferramenta de aprendizado e de
no comportamento dos adolescentes. mais do jogador paulatinamente. estímulo à perseverança.
%SSAMODIlCA¥ÎOSEDEVEAOEXCESSODE O córtex pré-frontal é um dos princi-
produção de dopamina pelo cérebro, pais alvo da dopamina. No entanto, em REFERÊNCIAS
neurotransmissor relacionado à depen- excesso, pode desativá-lo. Como essa re- KÜHN, S.; LORENZ, R.; BANASCHEWSKI,
dência em jogos, inclusive os eletrônicos. gião é ligada à tomada de decisões, jul- T.; BARKER, G. J.; BÜCHEL, C.; CONROD, P.
J.; HEINZ, A. Positive association of video
A estrutura de recompensa dos games é gamentos e autocontrole, o aumento de
game playing with left frontal cortical
similar ao de máquinas de um cassino. O dopamina no pré-frontal faz com que os thickness in adolescents. PLoS ONE, v. 9, n.
jogador insiste em bater um recorde, a jogadores percam a noção de tempo, de- 3, p. 1-6., doi:10.1371/journal.pone.0091506
solucionar um quebra-cabeça, matar um DICANDO SEHORASAlOAOGAMEEDEIXAN-
PATUREL, A. Game theory: how do video
inimigo, coletar um item raro, conquistar do de lado outras tarefas. Ainda, como games affect the developing brains of
mais territórios, passar aquela fase difícil. essa região do cérebro completa sua for- children and teens? Neurology Now, v. 10, n.
A vitória e a conquista fazem o cérebro mação apenas quando a pessoa tem entre 3, doi: 10.1097/01.NNN.0000451325.82915.1d
produzir dopamina enquanto joga. A
produção de dopamina aumenta quando Tiago J. B. Eugênio é coordenador do curso de pós-graduação em Games
e Tecnologias da Inteligência aplicados à Educação da Capacitar. Mestre em
o jogador vê a possibilidade de conquistar Psicobiologia pela UFRN e licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas
UMDESAlOMAIORAINDA.ÎOÏÌTOAQUE pela UNESP. Possui formação em Game-Based Learning na Quest to Learn (NY
o level design dos jogos segue uma lógica - EUA) É professor STEAM e de projetos relacionados a produção de jogos e
ciências forenses do Colégio Bandeirantes. tiagoeugenio20@gmail.com
UNIVERSAL AUMENTO GRADATIVO DA DIlCUL-

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RELACIONAMENTO

COMO ACEITAR
O
FIM
O ser humano ainda encontra muitas
dificuldades no sentido de saber lidar com
alguns desafios afetivos, como, por exemplo,
como amar ou ser amado ou como enfrentar
questões relacionadas ao amor-próprio
Por Andrea Calçada

E
ste é um tema univer- Dificilmente encontra-se alguém lações afetivas, como também os senti-
sal! Entra ano e sai ano que não tenha tido tal tipo de vivência. mentos e os processos de comunicação
e apenas muda de tom Os consultórios psicológicos e psiqui- envolvidos na dinâmica das relações
em suas abordagens e átricos estão cheios de pacientes que amorosas” (Cruz; Maciel, 2012).
apresenta novas roupa- os procuram após um rompimento, Ainda segundo os autores: “O
gens; seja ele com enfoque presencial seja para lidar melhor com o luto, seja desejo pessoal de encontrar o par-
ou virtual, entre adolescentes, jovens para controlar uma crise mais grave ceiro ideal corresponde à principal
adultos ou na maturidade. Hetero, que foi disparada. característica das relações amorosas.
homo ou bissexual. É sobre o amor Bielski e Zordan (2014) definem Atualmente, esse desejo convive com
enquanto este existe e sua felicidade. que “o relacionamento amoroso é com- a facilidade em desistir da relação
Sobre o amor quando finaliza e suas preendido como um fenômeno afetivo frustrada e seguir buscando uma nova
dores! Das depressões advindas des- social que abrange os sentimentos e os relação prazerosa, o que é estimulado
sas rupturas aos crimes passionais processos de comunicação na dinâmi- por fatores externos, tais como mídia,
que nos impressionam. ca das relações amorosas. Abrange o novas tecnologias e artes em geral,
A ideia desse artigo é abordar cotidiano e os hábitos dos relaciona- que enfatizam a busca de uma grande
através da pesquisa de alguns autores, mentos, o processo histórico de cons- paixão. Todos são influenciados des-
bem como da experiência psicológica trução dos papéis na conjugalidade e de o nascimento com a informação
clínica, as diferentes formas como as sua dimensão jurídica, a consciência de que, se não encontramos no outro
pessoas lidam com o rompimento afe- do valor atribuído aos vínculos nas re- a felicidade, deixamos de vivenciar o
tivo nos relacionamentos amorosos,
bem como esclarecer essas dinâmicas,
Andreia Calçada é psicóloga, psicoterapeuta com formação em Gestalt, psicoterapia breve, terapia
a fim de explorar formas mais equili- cognitivo-comportamental, hipnose ericksoniana, pós-graduada em Psicopedagogia, especialista
bradas para lidar com esse tipo de si- em Psicologia Clínica e Psicopedagogia Clínica. Professora de cursos sobre avaliação psicológica
tuação. Quem dera se pudesse sempre e experiência de 10 anos em Psicologia Jurídica, como assistente técnica ou perita. Autora dos
livros Falsas Acusações de Abuso Sexual – o Outro Lado da História. Coautora do livro Guarda
lidar com perdas conforme o poema Compartilhada – Aspectos Psicológicos e Jurídicos.
123RF

de Fernando Pessoa.

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Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia
(Fernando Pessoa)

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RELACIONAMENTO

desejado bem-estar subjetivo” (Silva Dificilmente maior autocontrole, não se envolven-


Neto; Mosmann; Lomando, 2009). do tanto nos relacionamentos amoro-
Assinalam que, de acordo com a
encontra-se alguém sos e, também, não expressando sofri-
literatura, o luto é uma resposta natu- que não tenha tido mento quando dessas rupturas.
ral ao rompimento de um vínculo sig- Para eles, o fato de prevalecerem
nificativo para o indivíduo, e quanto
tal tipo de vivência. os sentimentos positivos e não os ne-
mais dependente e intenso for o vín- Os consultórios gativos, como era esperado em outros
culo, e a dependência, mais difícil po- tempos, pode estar relacionado aos
derá ser o processo de luto. Durante e
estão cheios de novos valores que regem a sociedade
após esse processo a pessoa precisará pacientes que os contemporânea, dentre eles a repulsa
se reorganizar. ao sofrimento, o consumismo, o hedo-
A pesquisa desses autores buscou procuram após um nismo, a descartabilidade e a efemeri-
identificar os sentimentos predomi- rompimento, seja dade. Ao mesmo tempo, a sociedade
nantes em adultos jovens após o tér- está mais permissiva, aceitando, com
mino de relacionamentos amorosos. para lidar melhor maior naturalidade, a troca de parcei-
Nesse estudo, constatou-se o seguin- com o luto ou para ros e a vivência de relacionamentos
te: após o fim do relacionamento amo- amorosos seriais.
roso, houve uma predominância de controlar uma crise Na visão de Marcondes, Trierwei-
sentimentos positivos tanto para ho- mais grave que foi ler e Cruz (2006), a ruptura é a quebra
mens como para as mulheres, embora de vínculos, de laços emotivos, sexu-
em intensidades diferentes, pois o ní- disparada ais e afetivos, criados tanto pelo amor
vel de sentimentos positivos para eles como pelo ódio, pelas brigas e pelas
foi superior ao delas. Além disso, as quais as mulheres ainda são educadas reconciliações. Embora seja uma vi-
mulheres atingiram níveis mais eleva- com uma maior valorização do rela- vência dolorosa para ambos, geral-
dos de sentimentos negativos quando cionamento amoroso, estimuladas a mente sofre mais aquele que se perce-
comparadas aos homens, o que indica encontrarem um parceiro, enquanto be como preterido (Gikovate, 2008).
um maior sofrimento por parte delas. os homens são educados com maior Essa dor é, com frequência, sentida
Esses achados podem estar relaciona- ênfase no aspecto predominantemen- fisicamente. São comuns dores no pei-
dos a aspectos culturais que caracteri- te profissional, preponderando a ex- to, sensação de sufocamento, falta de
zam a diferenciação de gênero, pelos pectativa de que eles devam exercer ar, disfunção sexual, incapacidade de
trabalhar efetivamente, alterações no
peso, insônia e outros transtornos do
sono (Pereira et al., 2012).
Esses autores investigaram os sen-
timentos que predominam após o rom-
pimento de relacionamentos amorosos
e as diferenças de intensidade quanto
ao gênero, iniciativa de término e du-
ração do relacionamento em pessoas
entre 17 e 44 anos, ampliando a amos-
tra do estudo citado anteriormente. De
um modo geral, a separação provoca
abalo emotivo tanto em homens como
em mulheres, nas diferentes situações.

Conclusões
D essa forma, segundo os resulta-
dos obtidos com a pesquisa, o
sofrimento causado pelo término de
Existem diferentes maneiras de se lidar com o rompimento afetivo nas relações amorosas, e o um relacionamento amoroso indepen-
objetivo é descobrir formas mais equilibradas para isso de do tempo de duração deste. Além

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PARA SABER MAIS para a superação das dores de amor e
de uma separação conjugal e aspectos
MEDEIA, UMA HISTÓRIA DE AMOR E ÓDIO que a inviabilizam. Freud, em Luto e

M edeia é uma das personagens mais fascinantes da mitologia grega. Diz a


lenda que ela foi uma feiticeira que ajudou Jasão, o líder dos argonautas, a
conquistar o velocino de ouro (a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo), que
Melancolia ([1917] 1969), indica a ne-
cessidade de um tempo determinado
para o trabalho de luto ser concluído e
pertencia a seu pai, Aetes, rei da Cólquida. Neta do Sol, Medeia se apaixonou o ego se ver novamente livre e desini-
por Jasão e movida pelo amor traiu seu pai. Fugiu de sua terra com o grupo bido para novas investidas libidinais.
do amado para Iolcos, na Tessália. Depois de dez anos de casamento, Jasão se O desinvestimento amoroso sobre o
GG "PI G9G ‚ G
9 
 9GHG
 ex-parceiro se faz concomitantemen-
G ‚ GG IG:$IG
GGG hÔ te com a recuperação das partes de si
  G
G9I 
`
GHG^ GhG:/  G
¢ que foram projetadas no outro; e isso


9G‚  GI%GÔG GI só pode vir acompanhado por uma
um manto mágico, que se incendiou ao ser vestido, matando Gláucia. O destino possibilidade de integração egoica de
de Jasão é incerto. Depois disso, Medeia se casou com o rei Egeu, pai de Teseu, cada um dos envolvidos, o que sig-
I    ‚ 9 (
: ` I G IG G 
G
 .9   nifica quebrar com a idealização do
H G
G G   G  G9 G
9  
G9 GG `
G: -G modelo fusional de relacionamento

G 
GGG GHGG^ IG P G9
GG GG  (sem diferenciação e limites entre os
I I
G\GG\
GMedeia, de Eurípedes. parceiros). Com isso, a energia poderá
ser canalizada para outras áreas ou re-
lacionamentos.
Pesquisas investigaram os sentimentos A capacidade de reorganização in-
terna está intimamente ligada com a
que predominam após o término de forma como foi estruturada a persona-
lidade das pessoas envolvidas em um
relacionamentos e as diferenças de intensidade relacionamento e sobre a percepção de
quanto ao gênero, iniciativa de término si mesmo: dependente/independente,
capaz/incapaz, ser uma pessoa capaz
e duração em pessoas entre 17 e 44 anos, de ser amada ou não. Enfim, como foi
ampliando a amostra do estudo estruturada a autoestima.

disso, há uma predominância de atitu- Abordam principalmente os efeitos da


des negativas tanto para homens como perda do amor para a mulher no lugar
para mulheres, embora em intensida- que ocupa como mãe e nas exigências
des diferentes. Nesse ponto, as mulhe- feitas ao parceiro nessa reflexão. Enfo-
res atingiram níveis maiores quando cam que muitas vezes, nesses casos, a
comparadas aos homens, mas, quan- paixão se torna perversão do amor e
do analisadas as atitudes positivas nas a perda do objeto amado assemelha-
mesmas situações, os níveis foram se- -se à perda de partes de si, impedindo
melhantes para ambos. Com relação à
diferença na intensidade de sofrimento
a superação da dor. Se a mulher pre-
cisa ser amada para “ser”, a falta de
ŒLuto e Melancolia Œ
Na obra Luto e Melancolia, Sigmund Freud
entre homens e mulheres, é interessan- amor do parceiro e o rompimento da procura desenvolver considerações sobre a
te considerar o contexto sociocultural relação provocam reações de intensa natureza da melancolia, traçando um parale-
em que essas pessoas estão inseridas, carga destrutiva. A personificação de lo com o afeto normal do luto e buscando
já que este pode estar interferindo nas Medeia em crimes passionais e em discutir suas manifestações de origem psi-
cogênica. A correlação utilizada por Freud
respostas dos sujeitos. processos tramitando em Varas de Fa- entre luto e melancolia se justifica pela
Levy e Gomes, no artigo “Rela- mília ilustra seu “enlouquecimento” semelhança no cenário geral dos dois ele-
ções amorosas: rupturas e elabora- diante da perda do amor. mentos. O luto se caracteriza pela reação
ções”, fazem uma reflexão sobre os Em seguida, as autoras abordam normal à perda de um ente querido e a me-
IMAGENS: 123RF

sentimentos que eclodem quando do algumas contribuições teóricas que lancolia hoje atinge boa parte da população
mundial, sob o nome de depressão.
rompimento de uma relação amorosa. nos ajudam a compreender o caminho

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RELACIONAMENTO

As mulheres alcançaram da estrutura de personalidade de cada


níveis mais elevados de um, a reação será mais ou menos agres-
sentimentos negativos siva, mais ou menos depressiva, e a di-
se comparadas ficuldade em responsabilizar-se pelo
aos homens, o que
término, culpabilizando o outro, se im-
mostra maior sofrimento
por parte delas põe. Muitas vezes o ódio se manifesta
pela ferida aberta e o estrago é feito na
vida de quem está em volta. Do ex-par-
ceiro (a), dos filhos, enfim chegando a
tragédias como vemos estampadas em
jornais do nosso país e do mundo.
Interessante pensar a partir dos
resultados das pesquisas apresentadas
anteriormente: em adultos jovens há
a predominância de sentimentos po-
sitivos tanto para homens como para
as mulheres, embora em intensidades
diferentes, pois o nível de sentimentos
positivos para eles foi superior ao de-
Neurociência afetiva estima) que lhe falta. Quando, então, las. Além disso, as mulheres atingiram

M aria Tereza Maldonado, na apre-


sentação do livro Labirinto de
Espelhos, aponta que os conhecimen-
o rompimento se dá a insegurança e
as instabilidades internas surgem à
tona, além do luto esperado para a fi-
níveis mais elevados de sentimentos
negativos quando comparadas aos ho-
mens, o que indica um maior sofrimen-
tos recentes da Neurociência afetiva e nalização de um relacionamento. Estas to por parte delas.
as pesquisas sobre as origens da cons- estavam apenas tamponadas pelo rela- Constata-se que as mulheres ainda
trução do vínculo entre mãe e filho cionamento. Dependendo do tamanho possuem a maior dificuldade em fazer
desde a gravidez mostram a possibili- da insegurança e da instabilidade, além o luto, bem como lidar com a separa-
dade de desenvolver, desde os primei- ção, principalmente quando do lugar
ros anos de vida, as sementes do amor, de mãe e as exigências feitas ao ex-
da empatia e da capacidade de cuidar. O sofrimento -parceiro. Como já relatei neste arqui-
Criando, assim, condições para que causado pelo vo sobre a imagem das Medeias, Levy
desenvolvam habilidades e competên- e Gomes levantam a questão das que
cias a partir da construção de uma base término de um “matam” seus filhos nas Varas de Famí-
sólida de boa autoestima. Essa base só- relacionamento lia após separações. Embora não seja
lida permite percorrer, de modo mais este o objetivo do artigo, é importante
seguro, os labirintos da vida, com suas amoroso independe vincular aqui a questão da alienação
dificuldades e possibilidades, surge do tempo de parental, ensejando a morte psicológi-
como alicerce de força de vida. Acredi- ca dos filhos envolvidos nesses litígios.
tar em si mesmo, em sua força, em suas duração deste. A necessidade, porém, de uma análise
possibilidades de ser bem-sucedido é
ingrediente básico da autoestima, que
Além disso, há uma histórico-cultural se faz imprescindí-
vel para que se entenda que essa não é
influencia o grau de autodeterminação. predominância de uma questão de gênero, mas da contex-
A formação da boa autoestima depen- atitudes negativas tualização da mulher no mundo e nas
de profundamente do olhar amoroso relações e seus vínculos com o poder.
de apreciação, do ser visto como pes- tanto para homens O quanto a questão das relações
soa de valor, com competência, no mí- vinculares significativas e seu olhar de
nimo por uma pessoa significativa nos
como para valorização e respeito sobre a crian-
círculos de convivência.Quando esse mulheres, embora ça são fundamentais na estruturação
olhar estruturante falha, a pessoa tenta da autoestima e da personalidade. O
alicerçar-se externamente no parceiro,
em intensidades quanto a desvalorização da mulher por
procurando nele a segurança (e a auto- diferentes séculos ainda pesa na estruturação de

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sua autoestima. Quanto mais bem es- Com relação à diferença na intensidade
truturadas encontram-se a autoestima
e a personalidade, maior a flexibilidade de sofrimento entre homens e mulheres,
e melhor a forma como cada um vai li- é interessante considerar o contexto
dar com os rompimentos de relaciona-
mentos amorosos. sociocultural em que essas pessoas estão
inseridas, já que este pode estar
(
GhG
interferindo nas respostas dos sujeitos
P ercebem-se mudanças contempo-
râneas quando se analisa o resul-
tado da pesquisa com adultos jovens Sobre formas melhores de lidar dades que foram procuradas externa-
que demonstram reações positivas às com rompimentos não foram encontra- mente ao invés de serem desenvolvidas
separações, diferentemente do que era dos textos de cunho acadêmico que fa- internamente. Da busca de autonomia
esperado anteriormente. Segundo os lem sobre o assunto diretamente, como interrompida, que deverá ser resgatada,
autores, podendo estar relacionado aos diversos sites o fazem. Tais dicas vão que ajudará cada um a não se sentir tão
novos valores que regem a sociedade desde “deixar fluir” as emoções e fazer o frágil e vulnerável frente a uma separa-
contemporânea, dentre eles a repulsa ao luto até encontrar hobbies, estar com fa- ção. A autonomia e autoconfiança que
sofrimento, o consumismo, o hedonis- miliares e amigos. A internet e as redes impedirão que medos infantis, senti-
mo, a descartabilidade e a efemeridade. sociais devem ser evitadas bem como mentos de rejeição e abandono surjam
À dificuldade em fazer contato e viven- ambientes que fazem lembrar-se do ex- em uma regressão devastadora. Que
ciar emoções mais negativas, bem como -parceiro. Apesar dessas dicas (que por dos rompimentos venham a tristeza,
lidar com as frustrações e a realidade do vezes soam como parte de livros de au- o luto e a saudade. A experiência agre-
cotidiano de um relacionamento mais toajuda) que são importantes, necessá- gada que fará buscar novas experiên-
duradouro. Ao mesmo tempo, a socie- rio se faz um mergulho interno de cada cias evitando repetições prejudiciais
dade está mais permissiva, aceitando, um em busca do resgate de partes de si ao crescimento individual. E também
com maior naturalidade, a troca de par- que se perderam no relacionamento e à monotonia de um casamento falido,
ceiros com maior frequência. projetadas no ex-parceiro, das necessi- bem como aprendendo a lidar com as
frustrações normais a um relaciona-
mento. Enfim, quem se encontra não
se perderá frente a um rompimento.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Thiago de. Relacionamentos
Amorosos: o Antes, o Durante... e o Depois, v.
2. São Paulo: Polo Books, 2014.
ASSIS, S. G. de; AVANCI, J. Q. Labirinto de
Espelhos: Formação da Autoestima na
Infância e na Adolescência. Coleção Fiocruz
Criança Mulher e Saúde. Rio de Janeiro: Editora
Fiocruz,
BIELSKI, D. C.; ZORDAN, E. P. Sentimentos
Predominantes, após o Término do
Relacionamento Amoroso, no Início
da Adultez Jovem, v. 38, n.144, p. 17-24,
dezembro/2014, Perspectiva, Erechim.
Inúmeras vezes o ódio se LEVY, L.; GOMES, I. C. Relações
impõe pela ferida aberta e o amorosas: rupturas e elaborações. Tempo
estrago é feito na vida de quem Psicanalítico, v. 43, n.1, jun. 2011, seção
PG9I‚ 9 temática, Rio de Janeiro.
chegando a tragédias sociais
MARCONDES, M. V., TRIERWEILER, M.; CRUZ,
relativamente comuns
R. M. Sentimentos predominantes após o
IMAGENS: 123RF

término de um relacionamento amoroso.


Artigo 94 da Psicologia: Ciência e Profissão,
v. 26, n. 1, p. 94-105, 2006.

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PERlL Por Anderson Zenidarci

De GENEROSA a LOUCA
A TRAJETÓRIA DA RAINHA DE PORTUGAL, D. MARIA I,
MOSTRA UM GOVERNO COM GRANDES FEITOS, MAS OS
CAPÍTULOS DE DESAGREGAÇÃO PSÍQUICA COM DELÍRIOS
PARANOIDES TAMBÉM MARCAM SUA HISTÓRIA

D.
Maria I nasceu em Lisboa AIS DO QUE PELO REINO %LE EXILOU VÉRIOS mias dos vários países onde estiveram.
EM lLHADOREI$*OSÏ) duques, marqueses, pensadores que de !O CHEGAREM Ì TERRA NATAL ENCONTRAM
e da rainha consorte D. Ma- forma direta ou não se opunham ao seu NO PODER  NOMEADO PELA RAINHA  UM
riana. Em 1777, com a morte COMANDO%XPULSOUOSJESUÓTASDOPAÓSE HOMEM QUE  PELA SUA LONGA RESIDÐNCIA
DOPAI FOIAPRIMEIRARAINHADE0ORTUGAL tomou seus bens. Fosse porque D. Maria EM ,ONDRES  ADQUIRIRA O GOSTO PELOS
Por não haver príncipe varão, e por não TIVESSEANTIPATIAPELO-ARQUÐSDE0OM- MELHORAMENTOS E PELO PROGRESSO INTE-
EXISTIREM0ORTUGALA,EI3ÉLICAQUEAFAS- BAL QUE O SEU ESPÓRITO DEVOTO HAVIA DE LECTUAL ,UÓS0INTODE3OUSA#OUTINHO
TAVAASMULHERESDOGOVERNODOESTADO  sentir contra o perseguidor dos jesuítas A estes homens se devem os méritos
foi coroada e empunhou o cetro, carre- ou porque juntasse o rancor motivado que honram o reinado de D. Maria I,
gando um governo de extrema respon- PELOCONHECIMENTODESEUSPLANOS ODE- FUNDA¥ÜES DE ESTABELECIMENTOS DE CI-
SABILIDADE!TÏENTÎOTODASAShRAINHASv mitiu oito dias depois de subir ao trono, ência e instrução, como a Academia
tinham conquistado esse posto por meio TRAZENDODEVOLTAOSJESUÓTASEOSOUTROS 2EALDAS#IÐNCIAS A!CADEMIADE-A-
de casamento com o rei, portanto não A partir daí ocorre uma mudança RINHA  A !CADEMIA DE &ORTIlCA¥ÎO  A
POSSUÓAMESSEPRIVILÏGIO4AMBÏMOTÓ- RADICALNOPODERENASCABE¥ASPENSAN- #ASA 0IA  A "IBLIOTECA 0ÞBLICA ETC %LA
TULO DE PRINCESA DO "RASIL PASSOU A SER TES OSEXILADOSVOLTAMTRAZENDONOVAS apoiava e propiciava a criação desses
DELA$EVIA PORPROTOCOLO SECASARCOM IDEIAS E INFORMA¥ÜES DAS POLÓTICAS  HÉ- ESTABELECIMENTOS  SOBRETUDO QUANDO
um príncipe português. Apesar da gran- BITOS  NOVIDADES TECNOLØGICAS E ECONO- ENVOLVIAM TAMBÏM lNSDECARIDADEE
de diferença de idade, casou-se com o AJUDAÌPOPULA¥ÎO ERACONHECIDACOMO
tio D. Pedro, irmão do pai. Mesmo sendo MUITOBONDOSA/SEUESPÓRITORELIGIOSO
um casamento de interesses, afeiçoou- A FEZ CONSTRUIR MAGNÓlCAS EDIlCA¥ÜES
SEAOMARIDOEELEAELA TORNANDO SE RELIGIOSAS E MONUMENTOS QUE HOJE VI-
AMIGOS E PRØXIMOS TIVERAM SETE lLHOS SITAMOSENCANTADOS0ORTUGALRESSURGIU
TRÐSHOMENSEQUATROMULHERES QUATRO COMRENOVA¥ÜESEMELHORIAS
MORRERAM ANTES DE COMPLETAR UM ANO #OMO MUITO RELIGIOSA  TINHA UM
Dos três que sobreviveram: o príncipe CONFESSORPESSOAL DURANTEDÏCADASFOIO
HERDEIRO$*OSÏ FALECEUCOMANOSDE ARCEBISPODE4ESSALØNICA HOMEMPOUCO
VARÓOLA$*OÎO QUEPASSAASEROHERDEI- ILUSTRADO  MAS DE UM CARÉTER CORRETO E
ro, é mais tarde coroado como João VI, e de bom senso, que não usava o fato de
AINFANTA$-ARIANA6ITØRIA QUECASOU SERCONFESSORDARAINHAPARAINmUENCIÉ-
COMOINFANTEDE%SPANHA$'ABRIEL LA POLITICAMENTE OU MANIPULÉ LA POR
! RAINHA ERA EXTREMAMENTE CATØLI- MEIODARELIGIÎO3UAINmUÐNCIAERAPARA
ca e dedicava grande respeito e vene- ACALMAR A CONSCIÐNCIA ENFRAQUECIDA DE
RA¥ÎO PELA MEMØRIA DE SEU PAI %NTROU $ -ARIA E LHE SERENAR OS CONmITOS DE
EMCONmITOCOMO-ARQUÐSDE0OMBAL  CONSCIÐNCIA PELA CULPA DE hTER TRAÓDO O
poderoso grande ministro no reinado Era extremamente católica e dedicava grande reinado de seu pai”. Foi um choque para
do pai, mas tinha mais interesses pesso- respeito e veneração pela memória de seu pai ELASABERDESUAMORTE

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NAS CAMINHADAS
DIÁRIAS, SEMPRE Lidava com uma
tristeza profunda pelas
MONITORADAS perdas do marido,

GÔ
‚ 
POR DAMAS DE 
 :%\:*
COMPANHIA, lutos desorganizaram
seu estado emocional
DEVIDO AO ESTADO totalmente
ALTERADO DE
CONSCIÊNCIA,
APRESENTAVA-SE
ALIENADA DE TUDO
AO REDOR, DAÍ VEM
!&2!3%h-!2)!6!)
COM AS OUTRAS”

)NCLUIUESSATRISTEZAÌSOUTRASPERDAS
DO MARIDO  DA MÎE E DO lLHO HERDEIRO
$ *OSÏ /S LUTOS A DESORGANIZARAM TO-
TALMENTE 3EU CONFESSOR PASSOU A SER O
BISPO DO !LGARVE  UM FANÉTICO E DESTI-
tuído de bom senso, que não fazia senão
AGRAVAROESTADODEDESEQUILÓBRIODARAI-
NHA MOSTRANDO LHEOSPECADOSECRIMES
QUECOMETIA5SAVASUAFRAGILIDADEPARA
lNSPRØPRIOSEDESEUSPROTEGIDOS!LUTA
QUETRAVAVANOSEUEMOCIONALENLUTADO 
OSMEDOSRELIGIOSOSDEPUNI¥ÎOETERNAE
ASPRESSÜESPOLÓTICASCADAVEZMAISACIR-
radas produziram uma desagregação
PSÓQUICACOMDELÓRIOSPARANOIDESEALUCI-
NA¥ÜESCOMFATOSOCORRIDOSEMPÞBLICO
$E h2AINHA 'ENEROSAv  PASSOU AOS
58 anos de idade, quase duas décadas de
REINADO  A SER DESIGNADA COMO h! ,OU- respeito à mãe, a conservou até a morte SEM  SEM OPOSI¥ÎO  ALIENADA DE TUDO AO
ca”. Não mais recuperou a capacidade COM O TÓTULO DE RAINHA -ARIA VIVEU NO REDOR DAÓVEMAFRASEh-ARIAVAICOMAS
de governar. Em 1807 embarcou fugida "RASIL POR OITO ANOS  SEMPRE EM ESTADO OUTRASv-ORREUEM NO#ONVENTODO
COMTODAAFAMÓLIAREALPARAO"RASIL POR ALTERADODECONSCIÐNCIAEDEMONSTRANDO Carmo, no Rio de Janeiro, aos 81 anos de
ocasião da invasão dos franceses em Por- PROFUNDAPERTURBA¥ÎODELIRANTE.ASSUAS IDADE%MSEUSRESTOSMORTAISFORAM
TUGAL&OILEVADAÌFOR¥APARABORDOEPELO caminhadas diárias, sempre monitoradas TRANSLADADOSPARA,ISBOAESEPULTADOSNO
caminho gritava de dentro da carruagem PORDAMASDECOMPANHIA ELASESEGURAVA MAUSOLÏUDA"ASÓLICADA%STRELA UMADAS
QUEAQUERIAMLEVARAOSUPLÓCIO AOINFER- NELAS QUEACONDUZIAMPARAONDEQUISES- igrejas que mandou erguer.
no, que eram demônios que vieram rou-
IMAGENS: WIKIPEIDA/ ARQUIVO PESSOAL

BÉ LA %SSE COMOVENTE EPISØDIO OCORREU 


4
GI \+ I GG+/¢-+9 
GG:
G

I
 I G GhÔ
depois de quinze anos da manifestação .G+G G+^ IGG!GI 9
`¢G
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do transtorno esquizofrênico severo, o I
+ I G
-Gb
# GGG+/¢-+:G PG 
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QUEOBRIGOUSEUlLHO OPRÓNCIPE$*OÎO  G
I^ I

G+ I G9II G


IGhÔO IP IG9GG G^ IG:
AASSUMIRAREGÐNCIADOREINO OQUAL POR

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coaching por Eduardo Shinyashiki

Aprenda a APRENDER
A VIDA É FEITA DE NOVAS EXPERIÊNCIAS, SEJA NA ÁREA
PROFISSIONAL OU PESSOAL E, DESDE AS SITUAÇÕES SIMPLES
ÀS COMPLEXAS, É IMPRESCINDÍVEL QUE POSSAMOS
NOS MARAVILHAR COM AS NOVIDADES CONSTANTEMENTE.
ESSE JÁ É UM APRENDIZADO

H
á sempre mais para ser ex- trar possibilidades onde antes acre- à cabeça apenas as coisas que já são
plorado! Esse talvez seja ditávamos existir apenas o trivial. conhecidas, ou seja, o que já realizou
o pensamento que deve- Vamos a um exemplo prático? e faz no presente? Dif icilmente a pri-
ríamos ter ao menos uma Imagine que está escrevendo uma meira ideia a apresentar nessa carta
vez por dia, para colocar sempre em carta sobre a sua vida para um ami- será o seu planejamento para o futuro
pauta a necessidade de olharmos por go que não vê há muito tempo. Logo e as descobertas que tem feito ao lon-
cima do muro do cotidiano e encon- num primeiro momento, não lhe vêm go dos dias. Por uma característica

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de “sedentarismo mental”, buscamos SE O CAMINHO PARA O SUCESSO
sempre o estado de equilíbrio ba-
seado nos fatos e nas situações que
PUDESSE SER ESCRITO DE FORMA SIMPLES,
já nos são familiares e confortáveis, ENCONTRARÍAMOS A SUA SÍNTESE AO
ainda que dentro desse cenário exis- DIZER QUE ELE CHEGA PARA OS QUE
tam situações desagradáveis.
Ref letindo sobre essa questão, é
ENXERGAM O QUE NINGUÉM VIU, AINDA QUE
imprescindível que a gente possa se OLHANDO PARA UM MESMO REFERENCIAL
maravilhar com as novidades da vida
constantemente. Deixe de lado, ain- cado quando algo não está bem no surgem dessa forma. É fácil compro-
da que por alguns instantes no dia, escritório? Essas questões podem var essa situação. Há poucos anos,
todas as certezas e b usque as pergun- parecer simples, mas escondem algo ninguém precisava de um telefone
tas em vez de respostas. Lembre-se importante: a existência do plano celular para dar conta de sua existên-
de que na história da humanidade ti- macro, ou seja, de uma forma de cia. Atualmente, ninguém mais sai de
vemos a queda de grandes verdades, visualizar o mundo que está direta- casa sem seu aparelho pessoal, nem
entre as quais o pensamento de que a mente relacionada à sua totalidade e mesmo para ir até a padaria. Para os
Terra era plana. Bem, se a curiosida- às conexões que se fazem presentes QUEESTÎOPENSANDOOK ISSOJÉNÎOÏ
de – e o empenho em saná-la – nos por trás dos fatos. mais uma novidade”, f ica o convite:
fez evoluir nesse caso, por que não Como sempre, é necessário um qual será o próximo meio de comu-
utilizá-la a nosso favor também nas bom planejamento, e essa visão ma- nicação da humanidade? Vislumbre
demandas de nossa existência? Fe- cro o auxilia nesse processo. Estabe- essa resposta e você pode ser a mais
lizmente, não temos a capacidade de leça seus objetivos e pontue as metas nova personalidade do mundo.
aprender algo a ponto de dominá-lo, sem deixar de lado os efeitos que elas Aprenda a aprender! “Viver e não
o que exige uma renovação periódica terão no plano geral. Para isso, uma ter a vergonha de ser feliz. Cantar e
do que acreditamos conhecer. boa dica é ouvir a sua intuição. O que cantar e cantar a beleza de ser um
Contudo, quando deixamos de in- muitos chamam de “aquela voz que eterno aprendiz.” Eternizada na voz
vestir energia e tempo na tarefa de fala comigo mesmo” pode ser, quan- de tantos talentos da nossa música,
redescobrir, corremos o risco de cair do estimulada da forma correta, uma a canção de Gonzaguinha é o resu-
no mar do “conhecimento ignoran- potente ferramenta para as tomadas mo do que há por trás de pessoas
te”. Essa é a situação vivenciada pe- de decisão. Em outras palavras, de- que unem sonho e vontade de fazer
los prof issionais que viajam o mun- vemos conf iar em nossa intuição, a diferença. Por isso, deixo aqui um
do todo a trabalho sem se darem a deixando que ela nos guie e, à me- pedido: crie um ambiente bem acon-
oportunidade de explorar de forma dida que essa relação se tornar mais chegante em sua casa para realizar o
concreta as regiões por onde passam. contínua, os insights serão mais preci- café da manhã do aprendizado, deixe
Após algum tempo, eles até pode- sos e constantes. essa canção de fundo e escreva tudo o
rão ter muitas histórias interessantes Quando ouve a sua própria voz, que você deve reaprender, abordando
para contar sobre suas idas e vindas, você vê o que mais ninguém pode ver. tópicos complexos ou simples, como
mas poucas terão realmente algo de Se o caminho para o sucesso pudesse “aproveitar o amanhecer em um dia
original, pois é bem provável que não ser escrito de forma simples, encon- de folga”. O importante é que você se
saibam falar sobre a experiência da traríamos a sua síntese ao dizer que reconecte com o espírito da boa des-
culinária local ou de como o povo se ele chega para os que enxergam o que conf iança e aprenda o novo, mesmo
comporta. ninguém viu, ainda que olhando para que ele já seja muito conhecido pelo
Quantas vezes na semana você um mesmo referencial. Inovações hábito. Há sempre algo de novo para
faz uma parada para pensar como es- tecnológicas, novas formas de com- conhecer e enxergar! Fazer diferente
tão se relacionando os fatos ligados portamento e tendências no mercado para fazer a diferença!
a diferentes dimensões da sua vida?
IMAGENS: 123RF/ACERVO PESSOAL

Por exemplo, a sua última promoção Eduardo Shinyashiki é palestrante, consultor organizacional, especialista em
no trabalho se deu em um momen- Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes.
É presidente do Instituto Eduardo Shinyashiki e também escritor e autor de
to positivo no âmbito familiar? Além importantes livros como Transforme seus Sonhos em Vida (Editora Gente), sua
disso, como seu comportamento com publicação mais recente. www.edushin.com.br
amigos e pessoas queridas é modif i-

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livros Por Lucas Vasques

Atuação do psicólogo jurídico (comunicação entre Psicologia e Direito)


No livro Psicologia Jurídica no Processo Civil Brasileiro, a autora, Denise Maria Perissini da Silva, psicólo-
ga clínica e jurídica, atualiza o panorama geral da atuação do psicólogo jurídico nas ações de Família e
)NFÊNCIA TRAZENDONOVASJURISPRUDÐNCIAS REVISÎOBIBLIOGRÉlCAEASINOVA¥ÜESDASLEGISLA¥ÜESREFERENTES
à Guarda Compartilhada e novo Código de Processo Civil. A perícia psicológica será enfocada quanto
AOSASPECTOSLEGAISElNALÓSTICOS RESSALTANDO SEAIMPORTÊNCIADASIMPLICA¥ÜESÏTICASNOEXERCÓCIOPRO-
lSSIONALDOPSICØLOGO BEMCOMOAATUA¥ÎODOPSICØLOGOJUDICIÉRIONAS6ARASDA&AMÓLIAENAS6ARAS
DA)NFÊNCIA$ISCUTETAMBÏMACOMUNICA¥ÎOENTREA0SICOLOGIAEO$IREITO QUESTIONANDOAlGURADO
juiz e a imagem do Judiciário frente à sociedade, e analisando a contribuição de ambos para a compre-
IMAGENS: DIVULGAÇÃO

ensão do ser humano, a busca do ideal de Justiça e a construção da cidadania.

Psicologia Jurídica no Processo Civil Brasileiro


Autora: Denise Maria Perissini da Silva
Editora: Forense
Número de páginas: 592

Compulsão precoce (comportamento na infância)


Estudos revelam que o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) afeta cerca de 2% a 3%
da população geral; em cifras, estima-se que mais de 100 milhões de pessoas no mundo
INTEIROSEJAMPORTADORASDADOEN¥A QUETAMBÏMACOMETEOPÞBLICOINFANTIL/TEMA
ÏOFOCOCENTRALDOLIVROTOC: Aprendendo sobre os Pensamentos Desagradáveis e os Com-
portamentos Repetitivos. Escrito pelas especialistas em terapia cognitivo-comportamental
*ULIANA"RAGA'OMESE#RISTIANE&LÙRES"ORTONCELLO AOBRAABORDA DEMANEIRALÞDICA O
transtorno que, muitas vezes, inicia na infância ou adolescência e tende a se manter ao
LONGODAVIDASENÎOTRATADO TRAZENDOPREJUÓZOSSIGNIlCATIVOSNAQUALIDADEDEVIDA/
LIVROTEMCOMOOBJETIVOAUXILIARNAPSICOEDUCA¥ÎODOTRANSTORNOENOTRATAMENTO APRE-
sentando os principais tipos de sintomas que podem surgir na infância ou adolescência.

TOC: Aprendendo sobre os Pensamentos Desagradáveis e os Comportamentos Repetitivos


Editora: Sinopsys
Gd% GGGG"  G!ÏI
Número de páginas: 32

O que é hipnoterapia? (técnica traz benefícios)


%SSEPEQUENOGUIAENSINANÎOSØOQUEÏAHIPNOSE MASTAMBÏMPARAQUESERVEESEUUSONASVÉRIAS
ESPECIALIDADES PRINCIPALMENTECOMOFERRAMENTANASTERAPIASALTERNATIVAS6OCÐSABEOQUEÏSERHIP-
notizado? E para que serve a hipnose nos tratamentos em Psicoterapia, Medicina e Odontologia? A
PSIQUIATRAEPSICANALISTA3OlA"AUER AUTORADOLIVROPara Entender a Hipnoterapia, EXPLICAOCONCEITO
ECOMOELAÏFEITA#LARIlCATAMBÏMDOISPONTOSIMPORTANTESQUANDOUSARECOMQUEM!DOUTORA
POSSUIANOSDEEXPERIÐNCIANOUSODAHIPNOTERAPIANASSESSÜESEOLIVROFOIUMAMANEIRADELEVARAO
público o conhecimento dessa alternativa que vem acumulando ótimos resultados em seus pacientes.
/GUIATAMBÏMABORDAOSMITOSSOBREAHIPNOSE ASDIFEREN¥ASENTREHIPNOSEDEPALCOversus hipno-
TERAPIA AHISTØRIADAFAMOSAHIPNOTERAPIAERICKSONIANA FALASOBREAAUTO HIPNOSEETRAZTÏCNICASEM
hipnose. Um material rico e completo para quem quer entender a hipnoterapia.

Para Entender a Hipnoterapia


Gd-‚GG
Editora: Wak
Número de páginas: 124

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Educação e Psicologia
dossiê

O universo da
COGNIÇÃO
e o ato de
aprender

Pesquisadores
como Jean Piaget
dedicaram sua obra
para compreender
e explicar o mundo
da criança e o seu
desenvolvimento
emocional, além
do tanto que esses
fatores influenciam
no processo de
SHUTTERSTOCK

aprendizado
www.portalcienciaevida.com.br psique ciência&vida 35
dossiê

FERRAMENTAS
de aprendizagem
Cognição e habilidades socioemocionais são
importantes mecanismos de auxílio no que se refere
ao aprendizado das pessoas e, por isso, devem ser
alvo estratégico da atenção de educadores e familiares
Por Luiza Elena L. Ribeiro do Valle

A
regulação das emoções dos estudos, sendo importante que se nais e comportamentais. Nossas cog-
constitui uma habilidade voltem para essa questão que, tradi- nições ou interpretações sobre os fatos
fundamental para a intera- cionalmente, não se liga aos currículos refletem formas de processar informa-
ção social, influenciando escolares, nem ocupa a preocupação ção. Assim, um objeto qualquer tem
diretamente na expressão de senti- com o bom desempenho do aluno, um significado diferente para cada
mentos e no comportamento de cada embora esteja presente em cada mo- pessoa: ir à escola pode ser uma aven-
pessoa. A regulação das emoções tem mento do aprendizado. Considera-se, tura de descobertas ou pode ser uma
sido definida como estratégia cons- portanto, que a cognição e as habilida- tortura de cobranças, especialmente,
ciente ou inconsciente dirigida a man- des socioemocionais sejam ferramen- se existe uma dificuldade particular
ter, aumentar ou diminuir um ou mais tas de aprendizagem e devem ser alvo em atingir as expectativas avaliativas.
componentes dos comportamentos e de atenção de educadores e familiares. Por isso, uma das técnicas iniciais da
respostas fisiológicas que constroem terapia cognitiva consiste em iden-
as emoções (Mauss; Evers; Wilhelm; Cognição e emoção tificar e corrigir as conceituações
Gross, 2006), em cada indivíduo.
As diferenças individuais resultam
em dimensões de traços pessoais, de ní-
N os anos 80, o encontro entre a
Psicologia e as Neurociências
proporcionou um canal de comunica-
distorcidas e crenças disfuncionais,
substituindo-as por outras crenças e
ideias que possibilitem ao indivíduo
veis de ansiedade e de tendências com- ção e pesquisas em conjunto. Desde experimentar novos comportamen-
portamentais, assim como se alteram então, a parceria denominada neurop- tos e emoções menos prejudiciais a
as ativações cerebrais que influenciam sicologia cognitiva tem incrementado ele mesmo e, como consequência, aos
a capacidade de regular as emoções ou a demanda de produções a partir da outros (Valle, 2015).A partir do apro-
que resultam no surgimento de patolo- troca de informações, material teórico fundamento dos pensamentos auto-
gias mentais, como no caso do estres- e experiência clínica (Andrade et al., máticos, é possível chegar às crenças
se, que pode se desdobrar em diversos 2004, p. 6). centrais do indivíduo, que são as ideias
comprometimentos psicofisiológicos. A terapia cognitivo-comporta- mais fixas e enraizadas, oriundas do
Como a aprendizagem ocorre a mental (TCC) baseia-se numa postura processo de desenvolvimento, das ex-
partir de processamentos cognitivos, a construtivista de que nossas represen- periências e da formação do indivíduo
regulação das emoções que atuam nos tações de eventos internos e externos desde a infância, aceitas por eles como
comportamentos é alvo de interesse determinam nossas respostas emocio- verdades absolutas. Pensamentos já
definidos, independentemente dos
Luiza Elena L. Ribeiro do Valle é psicóloga, mestre em Psicologia Escolar e Educacional, acontecimentos situacionais, que con-
com especialização em Psicopedagogia e Psicologia Clínica. É autora do livro Cérebro e cluem simplesmente: “eu sou assim”,
Aprendizagem – um Jeito Diferente de Viver (Wak Editora).
“eu não consigo”, “eu tenho que”, “eu

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Educação e Psicologia
A habilidade imprescindível para a interação social se chama regulação das emoções, que interfere diretamente na expressão de sentimentos e no comportamento

não gosto” e assim por diante, podem essas experiências passam a ter uma reforços automáticos. Michael Maho-
resultar em comportamentos que ini- função limitadora.A pesquisa de Al- ney (1946-2006) foi um importante
bem a iniciativa de tentar, caracterís- bert Bandura (2008) sobre modelos precursor do movimento cognitivista.
tica de uma constante capacidade de de processamento de informações e Em uma publicação intitulada Cogni-
“vencer” limites que caracteriza o ser aprendizagem, e as evidências empí- tion and Behavior Modification (Maho-
humano. Essas conclusões pessoais se ricas na área do desenvolvimento da ney, 1974), ele enfatiza a importância
referem a pensamentos automáticos, linguagem, suscitou questões sobre do processamento cognitivo. Os con-
que definem resultados de processos o modelo comportamental tradicio- ceitos cognitivos foram estudados in-
cognitivos e se aplicam de forma ge- nal disponível até então, e apontou as tensamente por diferentes correntes,
neralizada a todas as outras situações. limitações de uma abordagem com- como autores russos, com destaque
Por exemplo, a partir de não ter bons portamental não mediacional para para Lev Semenovich Vygotsky (1896-
resultados em uma prova, o indivíduo explicar o comportamento humano. 1934), que verificou que crianças eram
pode ficar convencido de que isso sig- O modelo baseado nos reforçadores bem-sucedidas na aprendizagem de
nifica que ele é assim, que não conse- de respostas com premiação e punição regras gramaticais, independente-
gue e não vai gostar da experiência etc. propôs uma compreensão da aprendi- mente de reforço (Vygotsky, 1962;
O comportamento consequente será zagem sem tentativa, conhecida como 1991).  O papel do mediador se dife-
rejeitar tentativas que possam mudar “modelação”, que ocorre pela observa- rencia nas questões de inteligência,
a posição, fortalecendo aqueles pen- ção de um modelo, sem a necessária porque orienta, sem executar os cami-
123RF

samentos e, em vez de modificá-los, reprodução do comportamento, com nhos da aprendizagem, uma vez que

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dossiê

propôs o raciocínio teórico subjacente


da terapia cognitiva de que o afeto e o
comportamento de um indivíduo são
amplamente determinados pelo modo
como ele olha o mundo (cognições/
pensamentos). Embora vindo de uma
tradição psicanalítica, Albert Ellis
(1913-2007) também revelou insatis-
fações com os resultados práticos do
trabalho psicanalítico (Ellis, 1997).
Segundo Jacobson (1987), a incorpo-
ração das teorias e terapias cognitivas
à terapia comportamental foi assumi-
da por diversos terapeutas e teóricos
comportamentais. Uma “revolução
cognitiva” começou a emergir, embora
os primeiros textos centrais sobre mo-
dificação cognitiva tenham aparecido

hG 

G GGGG Gh€IHG  ƒI G 
HG
psicológicos, como no caso do estresse somente na década de 1970.
A memória operacional susten-
ta o processo de cognição por tempo
Como a aprendizagem ocorre a partir suficiente para que as informações
de processamentos cognitivos, a regulação sejam retidas pela memória de longa
duração, ao mesmo tempo que oferece
das emoções do comportamento é alvo de subsídios para o gerenciamento de ati-
interesse dos estudos, sendo importante que se vidades correntes de cognição, entre
elas a atenção e suas diferentes formas.
voltem para essa questão que, tradicionalmente,
não se liga aos currículos escolares Psicofisiologia do estresse
aprender é uma mudança cognitiva
que independe do outro.
O organismo, ao receber um es-
tímulo, desencadeia uma res-
posta, uma preparação para fuga ou
Outro nome significativo em reação de enfrentamento da situação.
seus achados teóricos foi Jean Piaget Conforme a vulnerabilidade indivi-
(1978), um os principais representan- dual e abrangendo a esfera física e psi-
tes da Psicologia Cognitiva, porque cossocial ocorrem alterações orgânicas
construiu uma teoria do desenvolvi- e mentais, de uma maneira ampla e
mento mental humano. Segundo Pia-
get, a aprendizagem é entendida como
ŒFundamentos da aprendizagem Œ diversificada (Albert; Ururahy, 1997).
A reação do estresse decorre da
O psicólogo canadense Albert Bandura
mudanças que ocorrem na estrutura é dono de uma extensa lista de contri- ativação de uma série de eventos, ini-
do cérebro e só acontece quando as es- buições nas áreas de Psicologia Social, ciando na estrutura do sistema nervo-
truturas cerebrais se modificam (o que Cognitiva, psicoterapia e pedagogia. Em so central (SNC), interagindo com o
se comprova, hoje, em exames neuro- 1968, aos 48 anos, foi eleito o presiden- sistema nervoso autônomo (SNA) e o
lógicos). Em outras palavras, para que te mais jovem da Associação America- sistema límbico, desencadeando uma
alguém aprenda, ocorrem mudanças na de Psicologia (APA). A fase inicial de cadeia de reações e com ativação do
no cérebro com reconfiguração da uma de suas principais pesquisas anali- eixo hipotálamo-hipófise, liberando
sou os fundamentos da aprendizagem
estrutura cognitiva (através de esque- o hormônio adreno-corticotrópico
de crianças e adultos, particularmente,
mas de assimilação e acomodação) do (ACTH) na corrente sanguínea, esti-
em imitar o comportamento observa-
indivíduo, resultando em novos esque- do em outros, especialmente compor-
mulando as glândulas supra-adrenais,
mas de adaptação, para seu equilíbrio. tamentos agressivos. que vão produzir, principalmente,
Foi Beck (1967), no entanto, quem a adrenalina e os corticosteroides,

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Educação e Psicologia
O encontro entre PARA SABER MAIS

a Psicologia e as PROCESSO PSICOFISIOLÓGICO


Neurociências
Sistema límbico
proporcionou Córtex
comunicação e
pesquisas em
conjunto. Desde então, Hipotálamo Sistema reticular
a parceria denominada Hipófise
neuropsicologia
cognitiva tem Glândulas
Sistema nervoso vegetativo
incrementado a
Fonte: França e Rodrigues (1999:, p. 29)
demanda de produções
a partir da troca funções orgânicas. É o núcleo para- fim do dia, porque uma de suas prin-
ventricular que libera a corticotropina cipais tarefas é aumentar a glicose no
de informações (CRH), estimulante que desencadeia sangue para fornecer energia aos mús-
levando o indivíduo ao estado de aler- a reação ao agente de estresse. culos e nervos.A regulação de diversas
ta, pronto para lutar ou fugir, uma ma- O estímulo do hipotálamo sobre o funções do organismo são controladas
nifestação instintiva (veja quadro Pro- sistema nervoso simpático, via suprar- pelos hormônios por um mecanismo
cesso psicofisiológico). renal, libera o hormônio adrenocorti- de feedback ao hipotálamo, que pode
No hipotálamo estão vários con- cotrópico (ACTH), que, por sua vez, acertar o sistema de produção de adre-
glomerados de neurônios, respon- ativa as glândulas adrenais para liberar nalina e noradrenalina. A adrenalina
sáveis por tarefas diversas, regulan- hormônios glicocorticoides no san- aumenta o suprimento de sangue para
do processos fisiológicos contínuos gue. Os níveis de glicocorticoides, nor- o coração, músculos e cérebro; dilata
como respiração, pressão sanguínea, malmente, seguem um ritmo diário: as coronárias e aumenta a frequência
digestão e equilíbrio entre as diversas alto no começo da manhã e baixo no cardíaca. Já a noradrenalina causa va-
soconstrição e aumenta a pressão arte-
rial (veja quadro Hormônios: mecanis-
mo de feedback ao hipotálamo)
A liberação hormonal no sangue
atua em vários órgãos e sistemas, regi-
ões distantes do seu local de origem,
ocorrendo uma redistribuição sanguí-
nea, com menor fluxo sanguíneo para
pele e vísceras e maior para os músculos
e cérebro (Goldstein, 1995). As altera-
ções se fazem sentir em todo o organis-
mo, interferindo nos diversos sistemas.

São eles:
S istema cardiorrespiratório – No
sistema respiratório ocorrem o au-
IMAGENS: 123RF E WIKIPEDIA

mento da frequência da respiração e a


dilatação dos brônquios para facilitar
/G GhÔI  G  ‚IG

GGIG
GG9I OIG9
 maior captação de oxigênio pelo orga-
ser uma aventura de descobertas ou uma tortura de cobranças nismo. O organismo, com excesso de

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dossiê

A TCC baseia-se numa


postura construtivista
de que nossas
representações de
eventos internos e
externos determinam
respostas emocionais
e comportamentais.
As cognições ou
interpretações sobre
os fatos refletem
Para Piaget, a aprendizagem é entendida como mudanças que acontecem na estrutura do cérebro e
`IG
GGIHG 
‚IG
formas de processar
informação
adrenalina, pode desencadear, no sis- terial, palpitações, respiração ansiosa,
tema cardiovascular, manifestações de acompanhadas de extremidades frias rá tornar o sistema vulnerável a danos,
crise hipertensiva, palpitações, infarto e suadas. Nos olhos, há aumento da causando o adoecimento. Se ocorrer
do miocárdio, arritmias; no cérebro, pressão intraocular e dilatação nas a persistência do agente e/ou ambien-
arteriosclerose, acidente vascular cere- pupilas, preparando uma resposta fi- te agressor, o organismo poderá ser
bral (AVC); nos pulmões, a dilatação siológica de adaptação do corpo. sobrecarregado, resultando no apa-
crônica dos brônquios e predisposição Se as circunstâncias externas recimento de inúmeras repercussões
à infecção por vírus, fungos, bactérias, estimulam o sistema que provoca o psicofisiológicas, por sobrecarga de
bacilos e outros micro-organismos. estresse repetidamente, conforme a adrenalina e cortisol.
As manifestações cardiorrespiratórias suscetibilidade pessoal e a intensidade A liberação excessiva de cortisol
consistem na elevação da pressão ar- das mudanças, a tensão crônica pode- acarreta alterações metabólicas, com
aumento da destruição das proteínas,
PARA SABER MAIS diminuição de massa muscular e, em
relação aos carboidratos, haverá au-
TCC USA A REGULAÇÃO mento da produção de glicose, dimi-
nuição dos receptores de insulina, me-
COGNITIVA COM FREQUÊNCIA nor utilização da glicose pelos tecidos

A regulação cognitiva da emoção é muito usada na terapia cognitivo-com-


portamental (TCC), que pressupõe uma relação entre pensamento, emoção
e comportamento (Rangé, 1998). De acordo com essa abordagem terapêutica,
e, no metabolismo dos lipídeos, au-
mento da lípase e lipídeos na corrente
sanguínea e redistribuição da gordura
as emoções são, em grande parte, determinadas pela forma como cada um corporal (Goldstein, 1995).
interpreta as situações, e as interpretações dos fatos e situações estão direta- O sistema cardiovascular sofre o
mente relacionadas às crenças do indivíduo acerca de si mesmo, do mundo e efeito potencializador do corticoide
do futuro. Uma das estratégias comumente empregadas é a da reestruturação com a adrenalina, com o aumento da
cognitiva, que visa ajudar o paciente a interpretar as situações de modo mais hipercoagulabilidade sanguínea, favo-
adaptativo. A regulação emocional focalizada na resposta comportamental ou recendo o infarto do miocárdio (Al-
supressão emocional considera que, após a emoção já ter sido instalada, é bert; Ururahy, 1997).
possível inibir as respostas emocionais, de maneira que as outras pessoas não Sistema imunológico – Nesse
percebam o que se está sentindo (Gross, 2001). Tal inibição aconteceria sobre sistema, há diminuição da defesa do
os sinais de saída das emoções, de modo que o indivíduo não expressasse o organismo, pela diminuição dos gló-
que está sentindo (Butler et al., 2003; Gross, 2001;). bulos brancos e menor síntese de an-
ticorpos, observando uma involução

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Educação e Psicologia
ŒMudanças de paradigmas Œ
Nascido em Neuchâtel, na Suíça, Jean
Piaget (1896-1980) foi um dos mais
relevantes pesquisadores de educa-
ção e pedagogia. Especializou-se em
Psicologia Evolutiva e no estudo de
epistemologia genética. Seus traba-
lhos sobre pedagogia revolucionaram
a educação, pois alterou paradigmas
e teorias tradicionais referentes à
aprendizagem. As ideias de Piaget es-
tão presentes em inúmeros colégios
no mundo todo e suas teorias procu-
ram implantar uma metodologia ino- A liberação hormonal no sangue atua em vários sistemas, provocando redistribuição sanguínea, com
vadora, que busca formar cidadãos ƒGG^IGG GGbII\H
criativos e críticos.
Uma das técnicas iniciais da terapia
do timo. As repercussões no SNC,
por destruição de proteínas e glicose,
I  GI 
 ‚IGI  G
levam a alterações psíquicas e compor- conceituações distorcidas e crenças disfuncionais,
tamentais; no sistema musculoesque-
lético, ocorrência de atrofias e astenias
substituindo-as por outras crenças e ideias
musculares; no tecido ósseo, a com- que possibilitem ao indivíduo experimentar
petição do cortisol com a vitamina D,
impedindo a absorção de cálcio, levan-
novos comportamentos e emoções
do à osteoporose. Ao nível hepático, e os testículos diminuem a produção, e à frigidez. O estresse provoca tensão
ocorre maior liberação de glicose na respectivamente, da progesterona e física e psicológica, queda de capacida-
corrente sanguínea a partir do glicogê- testosterona, interferindo no sistema de intelectual, perturbações do sono,
nio, para o fornecimento de mais fonte reprodutivo (Albert; Ururahy, 1997). levando à fadiga (Goldstein, 1995).
energética para os músculos. Paralela- No sistema gastrointestinal, as pertur- Em síntese, o estresse ocorre em
mente, o baço sofre contração e libera bações interferem tanto na má digestão resposta psicobiológica ao agente es-
mais glóbulos sanguíneos para facili- como no surgimento de gastrite, úlcera, tressor interno ou externo, por meio
tar a captação de oxigênio, e há, ainda, colite, até diarreia crônica, e, na pele, da ação integrada dos sistemas nervo-
um aumento de números de linfócitos com a erupção de micose e psoríase. In- so, endócrino e imunológico, em um
para reparar possíveis danos nos teci- cide, também, no envelhecimento dos processo de alteração e recuperação
dos (Goldstein, 1995). Possibilidade órgãos sexuais, levando à impotência do equilíbrio homeostático.
de aparecimento de obesidade, de dia-
betes mellitus, de câncer (diminuição REFERÊNCIAS
do sistema imunológico).
IMAGENS: SHUTTERSTOCK E WIKIPEDIA

BECK, J. S. Terapia Cognitiva. Teoria e Prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
Sistema gastrointestinal e repro- LURIA, A.; VYGOSTKY, L. S.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. São
dutivo – O sistema gastrointestinal Paulo: Ícone, 2001.
apresenta aumento do ácido clorídrico MAHONEY, M. J.   G
 G (
‚IG . Cambridge: Ballinger Publishing Company,
e pepsinogênio, com diminuição do 1974.
muco protetor intestinal. Os ovários VYGOTSKY, L. S. Thought and language. Cambridge: M.I.T, 1962.

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dossiê

Aprendizagem
cognitiva PERCEPTIVA
Esquemas cognitivos do adulto são derivados dos
esquemas sensório-motores da criança e os processos
responsáveis pelas mudanças são assimilação e acomodação
Por Yago Felipe Hennrich

J ean Piaget revolucionou a edu-


cação. Uma de suas maiores re-
alizações dentro da abordagem
da aprendizagem foi a realiza-
ção de testes avaliativos em crianças,
sões entre as dimensões cognitivas
e afetivas do desenvolvimento psi-
cológico, para Wallon, são genéticas
e organicamente sociais. A estrutu-
ra orgânica do ser humano supõe
que, no desenvolvimento biológico,
a inteligência é construída sobre um
equipamento biológico inato e se
desenvolve numa sequência prede-
terminada. É um processo ativo e
um processo que possibilita a exis- a intervenção da cultura para uma interativo, construído pelo sujeito
tência de experiências significativas atualização. Assim, a teoria do de- em interação contínua com o meio.
para quem as vivencia. Piaget teve senvolvimento cognitivo de Wallon Descreveu estágios de desenvolvi-
princípios epistemológicos comuns tem como foco a psicogênese da mento cognitivo – a inteligência vai
com Vygotsky e Wallon e elaborou a pessoa completa. mudando profundamente ao longo
epistemologia genética, observando Os estágios de desenvolvimento do desenvolvimento; o sujeito passa
o processo da criança ao estabelecer do ser humano (impulsivo-emocio- por períodos de reorganização pro-
relações da parte com o todo dos ob- nal, sensório-motor e projetivo, per- funda, seguidos de períodos de inte-
jetos e situações envolvidos. sonalismo, categorial e adolescência), gração, durante os quais um novo es-
A partir daí iniciou o estudo do apresentados por Wallon, sucedem-se tágio é alcançado e as mudanças são
processo do conhecimento. Algumas em fases com predominância afetiva assimiladas. A cada estágio de desen-
fases de desenvolvimento infantil são e cognitiva. A reflexão pedagógica volvimento corresponde um sistema
descritas por Piaget como pré-opera- sobre um homem dotado de razão, cognitivo específico, que determina
tório, operatório concreto e operató- afetividade, inteligência, corpo e de- todo o funcionamento do sujeito, ou
rio formal. Já Vigotsky tem sua ideia sejo possibilitará a criação de um es- seja, cada estágio resulta do anterior e
centrada em algumas teorias, como paço educativo, que será o lugar de prepara o seguinte.
zona de desenvolvimento proximal, construção dos saberes, por meio de Suas contribuições foram incon-
que se refere ao desenvolvimento diálogo, de reflexão, de pesquisa e da táveis: a construção do conhecimen-
atual da criança (nível de desenvolvi- troca entre os pares de maneira críti- to ocorre quando acontecem ações
mento efetivo ou real) e o desenvol- ca e politizada. físicas ou mentais sobre objetos que,
vimento que poderá atingir (nível de Jean Piaget formou-se em Biolo- provocando o desequilíbrio, resultam
desenvolvimento potencial). gia e procurou utilizar os princípios em assimilação ou acomodação e as-
Para Vigotski, o ser humano biológicos na compreensão dos pro- similação dessas ações e, assim, em
precisa ser interdependente nesse blemas epistemológicos. No desen- construção de esquemas ou conhe-
processo. Ele questiona se as divi- volvimento cognitivo, ele ressaltou cimento. Em outras palavras, uma
vez que a criança não consegue assi-
Yago Felipe Hennrich elaborou este artigo como Trabalho de Processos Psicológicos Básicos 2, milar o estímulo, ela tenta fazer uma
apresentado no curso de Psicologia das Faculdades Integradas do Vale do Iguaçu – Uniguaçu, como acomodação e, após a assimilação, o
requisito parcial para obtenção de nota do 1º bimestre do 2º período. Sua professora foi Darciele Mibach
equilíbrio é, então, alcançado.

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Educação e Psicologia
/G
GG Gh€
+ GGI GhG9I H  GG ÈI G
 ÈI G  ‚IG GGGG I G

Josiane Lopes (revista Nova Esco- do adulto são derivados dos esque- de duas formas, visto que se podem
la, ano XI, n. 95) cita que para quando mas sensório-motores da criança, e ter duas alternativas: criar um novo
o equilíbrio se rompe, o indivíduo age os processos responsáveis por essas esquema, no qual se possa encaixar
sobre o que o afetou, buscando se re- mudanças nas estruturas cognitivas o novo estímulo, ou modificar um já
equilibrar. E para Piaget, isso é feito são assimilação e acomodação. existente, de modo que o estímulo
por adaptação e por organização. Assimilação é o processo cog- possa ser incluído nele.
nitivo de colocar (classificar) novos Após ter havido a acomodação,
Teorias eventos em esquemas existentes. É a a criança tenta novamente encaixar

A lguns autores sugerem que ima-


ginemos um arquivo de dados
na cabeça. Os esquemas são análo-
incorporação de elementos do meio
externo (objeto, acontecimento etc.)
a um esquema ou estrutura do sujei-
o estímulo no esquema e aí ocorre
a assimilação. Por isso, a acomoda-
ção não é determinada pelo objeto,
gos às fichas desse arquivo, ou seja, to. Em outras palavras, é o processo e sim pela atividade do sujeito sobre
são as estruturas mentais ou cogni- pelo qual o indivíduo cognitivamente este, para tentar assimilá-lo. O balan-
tivas pelas quais os indivíduos inte- capta o ambiente e o organiza, possi- ço entre assimilação e acomodação
lectualmente organizam o meio. São bilitando, assim, a ampliação de seus é chamado de adaptação. Em outras
estruturas que se modificam com o esquemas. Na assimilação o indiví- palavras, é o processo pelo qual o in-
desenvolvimento mental e que se duo usa as estruturas que já possui. divíduo cognitivamente capta o am-
tornam cada vez mais refinadas, à Já a acomodação é a modificação biente e o organiza, possibilitando,
medida que a criança se torna mais de um esquema ou de uma estrutu- assim, a ampliação de seus esquemas.
SHUTTERSTOCK

apta a generalizar os estímulos. Por ra, em função das particularidades Na assimilação, o indivíduo usa as es-
esse motivo, os esquemas cognitivos do objeto a ser assimilado. Pode ser truturas que já possui.

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dossiê

As contribuições PARA SABER MAIS

de Piaget foram ORGANIZAÇÃO INTELECTUAL


incontáveis, como,
por exemplo, uma
P iaget descreve o desenvolvimento como um processo de estágios suces-
sivos. Se a criança explica em parte o adulto, pode-se dizer também que
cada período do desenvolvimento anuncia em parte os períodos.
vez que a criança
Período Faixas etárias aproximadamente
não consegue
Sensório-motor Nascimento até 1 1/2 a 2 anos
assimilar o estímulo,
ela tenta fazer uma Pré-operatório 2 a 6-7 anos

acomodação e, Operatório-concreto 6-7 anos a 11-12 anos

depois da assimilação, Fonte: Piaget e Inhelder (2003, p. 11).

o equilíbrio é,
produzida quando houvesse um dese- a característica de um objeto, é ne-
então, alcançado quilíbrio ou conflito cognitivo entre cessário modificar o esquema prévio
dois processos complementares: a as- para restaurar o equilíbrio (veja qua-
A equilibração, por sua vez, é o similação e acomodação. Piaget define dro Organização intelectual).
processo da passagem de uma situa- a acomodação como qualquer modifi- Piaget tem algumas outras con-
ção de menor equilíbrio para uma de cação de um esquema assimilador ou tribuições, como: a organização e a
maior equilíbrio. Uma fonte de de- de uma estrutura. “Esquema é aquilo adaptação, os esquemas, a assimila-
sequilíbrio ocorre quando se espera que é generalizável numa determinada ção e acomodação, a teoria da equili-
que uma situação ocorra de determi- ação” Piaget in Matui (1995, p. 122). bração. A organização e a adaptação
nada maneira, e esta não acontece. Se há um desequilíbrio, ou seja, se justificam. Jean Piaget, para expli-
Segundo Matui (1995), para res- um esquema não correspondente, car o desenvolvimento intelectual,
ponder como se dá a construção do partiu da ideia de que os atos bioló-
conhecimento no adulto, partindo gicos são atos de adaptação ao meio
da biologia do bebê, Piaget elabo- físico e organizações do meio am-
rou a epistemologia genética, uma biente, sempre procurando manter
teoria evolutiva do conhecimento. um equilíbrio. Assim, ele entende
Elaborando testes de inteligência que o desenvolvimento intelectual
para crianças francesas, Piaget ob- opera do mesmo modo que o desen-
servou o processo da criança em volvimento biológico (Wadsworth,
estabelecer relações da parte com o 1996). Para Piaget, a atividade in-
todo dos objetos e situações envol- telectual não pode ser separada do
vidos. A partir daí, iniciou o estudo Œ Desenvolvimento funcionamento “total” do organis-
da construção do conhecimento, intelectual das crianças Œ mo (1952, p. 7).
observando que, na interação com o Psicólogo renomado, o bielo-russo Do ponto de vista biológico, or-
Lev Semenovich Vygotsky (1896-
meio externo, o indivíduo busca sua ganização é inseparável da adaptação.
1934) foi descoberto nos meios aca-
melhor sobrevivência, visando uma dêmicos ocidentais somente após sua
São dois processos complementares
constante equilibração. morte, aos 38 anos. O intelectual foi de um único mecanismo, sendo que
De acordo com Coll, Marchessi, pioneiro na ideia de que o desenvol- o primeiro é o aspecto interno do ci-
Palacios; Cols (2004), para Piaget a vimento intelectual das crianças acon- clo, do qual a adaptação constitui o
meta sempre é a adaptação. A adapta- tece em consequência das interações aspecto externo.
ção leva o indivíduo a procurar uma sociais e condições de vida. Segundo Ainda segundo Piaget (Pulaski,
resposta adequada aos problemas que conceito de Vygotsky, a evolução 1986), a  adaptação  é a essência do
encontra em cada momento. mental da criança é um processo con- funcionamento intelectual, assim
No entanto, segundo Piaget in tínuo de aquisição de controle ativo como a essência do funcionamento
sobre funções inicialmente passivas.
Pozo (1998), a aprendizagem seria biológico. É uma das tendências bá-

44 psique ciência&vida
Educação e Psicologia
Durante o Após ter havido a
desenvolvimento
sensório-motor, a criança acomodação, a criança
faz uso de percepções
sensoriais, como a
tenta novamente
sucção, para explorar o
mundo que a cerca
encaixar o estímulo no
esquema e aí ocorre a
assimilação. Por isso,
a acomodação não
é determinada pelo
objeto e, sim, pela
atividade do sujeito
sobre este, para
tentar assimilá-lo
pessoas ou objetos na ausência deles.
Nesse estágio, a criança elabora uma
estrutura cognitiva para que possa
dar a ela um suporte a futuras cons-
truções e atitudes que irá cometer,
sicas inerentes a todas as espécies. A Para Piaget e Inhelder (2003), na construções perceptivas e intelectu-
outra tendência é a organização, que falta de função simbólica, o bebê ain- ais. O mesmo se dá sobre a afetivida-
constitui a habilidade de integrar as da não apresenta pensamento, nem de subsequente, que é determinada
estruturas físicas e psicológicas em afetividade ligada a representações por certo número de reações afetivas
sistemas coerentes. Ainda de acordo que permitam fazer evocações de elementares. No desenvolvimento
com o autor, a adaptação acontece
através da organização, e assim o or-
ganismo discrimina entre a miría- PARA SABER MAIS
de de estímulos e sensações com os
quais é bombardeado e as organiza
LIMITAÇÃO DO PENSAMENTO
em alguma forma de estrutura. Esse
processo de adaptação é, então, reali- P iaget descreve o desenvolvimento como um processo de estágios suces-
sivos. Se a criança explica em parte o adulto, pode-se dizer também que
cada período do desenvolvimento anuncia em parte os períodos.
zado sob duas operações, a assimila-
ção e a acomodação.
Aparência perceptiva / A criança não realiza inferências a partir de
Desenvolvimento traços não observáveis: propriedades não observáveis diretamente

N o desenvolvimento sensório-
-motor (0 a 2 anos), Piaget
chamou de inteligência sensório-
Centração / descentração O foco está em um só ponto de vista (o próprio),
evitando outras possíveis dimensões
Estados / transformações Não faz relação dos estados iniciais e finais de um
-motora um tipo de inteligência
processo
baseada na percepção da realidade
e na ação motora sobre ela. Nes- Irreversibilidade / Não refaz mentalmente o processo seguido até
sa etapa, a criança faz uso de per- reversibilidade voltar ao estágio inicial
IMAGENS: 123RF E WIKIPEDIA

cepções sensoriais (por exemplo, a Raciocínio transdutivo / Faz associações imediatas entre as coisas
sucção) para explorar o mundo que pensamento lógico raciocinando do particular ao particular
a rodeia e suas ações são práticas: Fonte: Coll; Marchesi; Palacios e Cols (2004, p. 144)
pegar, jogar, morder.

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dossiê

PARA SABER MAIS

PRINCÍPIOS DA TEORIA COGNITIVA


A teoria cognitiva foi desenvolvida pelo suíço Jean Piaget e os princípios
que foram base para o seu trabalho são conhecidos como o conceito
da adaptação biológica, portanto não foram ideias originais. Piaget tomou
esse conceito preexistente e o aplicou sabiamente ao desenvolvimento da
inteligência dos indivíduos, à medida que amadurecem, da infância até a vida
adulta, baseado em sua própria conclusão de que a atividade intelectual não
pode ser separada do funcionamento “total” do organismo. A teoria de Piaget
Œ Psicologia do desenvolvimento Œ
Henri Paul Hyacinthe Wallon (1879-1962)
sobre o desenvolvimento cognitivo classifica o desenvolvimento em quatro
foi um psicólogo, filósofo, médico e
etapas, e comprova que os seres humanos passam por uma série de mudan- político francês que se tornou muito
ças previsíveis e ordenadas. Ou seja, geralmente todos os indivíduos viven- conhecido em função de seu intenso
ciam todos os estágios na mesma sequência. Porém, o início e o término de trabalho científico a respeito da Psico-
cada estágio sofrem variações, dadas as diferenças individuais de natureza logia do desenvolvimento, direcionada,
biológica ou do meio ambiente em que o indivíduo está inserido. principalmente, à infância, na qual assume
uma postura interacionista. A obra de
Wallon é caracterizada pela ideia de que
o processo de aprendizagem é dialético,
O balanço entre dade não presente. A linguagem para
ou seja, não é aconselhável afirmar ver-
a criança é enriquecida rapidamente
assimilação e e as respostas adequadas já serão ra-
dades absolutas. O caminho correto é
revitalizar perspectivas e possibilidades.
acomodação é a ciocínios. São desarticulados e ainda
precisam de lógica, porque a criança
adaptação. É o processo só consegue ver o mundo a partir dela sentação imediata, nem somente às
pelo qual o indivíduo mesma. Para Coll, Marchesi, Palacios relações previamente existentes, mas
e Cols (2004), nesse período, o pen- é capaz de pensar em todas as rela-
cognitivamente samento infantil é descrito por Piaget ções possíveis, logicamente buscan-
capta o ambiente e o como um período de espera das nove do soluções a partir de hipóteses e
grandes transformações operatórias, não apenas pela observação da rea-
organiza, possibilitando que acontecerão nas próximas etapas. lidade. Em outras palavras, as estru-
a ampliação de Por isso, ressaltou as limitações da turas cognitivas da criança alcançam
criança nessa fase (veja quadro Limi- seu nível mais elevado de desenvol-
seus esquemas. Na tação do pensamento). vimento e tornam-se aptas a aplicar
assimilação, o indivíduo o raciocínio lógico a todas as classes
Estágio lógico formal de problemas.
usa as estruturas
que já possui E sse período é onde o pensamen-
to lógico alcança sua expressão
máxima e é aplicado de forma coe-
Um exemplo: Se pedem para a
criança analisar um provérbio, como
“de grão em grão a galinha enche o
pré-operatório (2 a 7 anos), estágio rente e sistemática. A representação papo”, ela trabalha com a lógica da
também chamado de inteligência ver- agora permite a abstração total. A ideia (metáfora) e não com a imagem
bal ou intuitiva, a criança se vê envol- criança não se limita mais à repre- de uma galinha comendo grãos.
ta em uma realidade existencial, que
REFERÊNCIAS
é um mundo interior de representa-
COLL, César; MARCHESI, Álvaro; PALACIOS, Jésus e colaboradores. Desenvolvimento Psicológico
ções. A função simbólica da criança e Educação – Psicologia Evolutiva, v. 1. Porto Alegre: Artmed, 2004.
permite a ela a formação de símbolos MATUI, Jiron. Construtivismo – Teoria Construtivista Sócio-histórica Aplicada ao Ensino. São
mentais, que representam objetos, Paulo: Moderna, 1995.
pessoas ou acontecimentos ausentes. PIAGET, Jean; INHELDER, Bärbel. A Psicologia da Criança. Rio de Janeiro: Difel, 2003.
Desse modo, a criança pode antecipar PULASKI, Mary Ann Spencer. Compreendendo Piaget. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e
um resultado, utilizando represen-  ^‚I9<DCA:
tações (signos, símbolos, imagens e WADSWORTH, Barry. Inteligência e Afetividade da Criança. 4. ed. São Paulo: Enio Matheus
WIKIPEDIA

conceitos) como substitutas da reali- Guazzelli, 1996.

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neurociência por Marco Callegaro

Empatia ou compaixão?
A EMPATIA ENVOLVE A EXPERIÊNCIA DE SENTIR
O QUE PENSAMOS QUE A OUTRA PESSOA ESTÁ
SENTINDO E TEM SIDO APONTADA COMO CRUCIAL
PARA MOVER O COMPORTAMENTO MORAL

E
M EMUMAFALAMUITOCITA- #OMOEXISTEMVÉRIASDElNI¥ÜESDEEM- ternura ou gentileza. Nesse caso, a empa-
DA OENTÎOSENADOR"ARACK/BA- patia, torna-se necessário um breve exame TIA ENVOLVE SENTIMENTOS POSITIVOS FRENTE
MAAlRMOUQUETEMOSUMDÏlCIT DE SEUS PRINCIPAIS SIGNIlCADOS 5MA DAS aos outros. Nesse sentido, desejo que um
em empatia, reivindicando um DElNI¥ÜESSEREFEREÌEMPATIACOGNITIVA A AMIGOANSIOSOlQUEMELHORECALMO MAS
SENSODEEMPATIAPARAINSPIRARAPOLÓTICA capacidade de imaginar o que se passa na NÎOMESINTOANSIOSOJUNTOCOMELE COMO
e a sociedade. Segundo esse movimen- mente do outro, a “teoria da mente” como ACONTECENAEMPATIAAFETIVA2ESERVAREIO
TO  QUANTO MAIS EMPATIA  MELHOR SERÉ O se designa em Psicologia cognitiva. Esse TERMO hCOMPAIXÎOv PARA DESCREVER ESSA
MUNDO  E O FOCO Ï PROMOVER INTERVEN- tipo de empatia pode levar um psicopata ATITUDE ENQUANTOMANTEMOSADESIGNA¥ÎO
¥ÜES VOLTADAS PARA AUMENTAR A EMPATIA APLANEJARSUASMANIPULA¥ÜESECRUELDADES de “empatia” para a ressonância emocio-
EMINDIVÓDUOSECOMUNIDADES4AMBÏM COMGRANDEElCÉCIA PORTANTONÎOÏEXATA- nal com o outro.
EXISTEPREOCUPA¥ÎOCOMPESSOASQUETÐM mente aquilo que mais precisamos na so- ! EMPATIA AFETIVA OU EMOCIONAL ESTÉ
FALTADEEMPATIAECOMSITUA¥ÜESQUEPO- ciedade. Outro sentido da palavra empatia LIGADA Ì ATIVA¥ÎO DOS CIRCUITOS CEREBRAIS
DEMENFRAQUECÐ LA ÏOQUEPODEMOSCHAMARDEEMPATIAhAFE- da dor na pessoa que empatiza com quem
%MBORASEJAUMGRANDEAVAN¥OCON- tiva”, quando sentimos o que a outra pes- ESTÉSOFRENDO5MEXPERIMENTOCOMNEU-
SIDERAR A IMPORTÊNCIA DA EMPATIA  Ï NE- soa está sentindo, ou, pelo menos, aquilo roimagem examinou os circuitos cerebrais
CESSÉRIO ENTENDER EM MAIS DETALHES A QUE INFERIMOS QUE A PESSOA SENTE &INAL- DOCØRTEXANTERIORCINGULADO REGIÎOQUESE
RELA¥ÎOQUEEXISTEENTRECOMPORTAMENTO mente, temos um conceito de empatia que ativa com a experiência de dor. Os parti-
MORALEEMPATIA POISNÎOÏALGOTÎOSIM- SEFUNDECOMOSIGNIlCADODECOMPAIXÎO  CIPANTESFORAMEXPOSTOSAVÓDEOSEXIBINDO
ples como parece. Considere as recen- PESSOASSOFRENDOCOM!IDS EVERIlCOU SE
tes pesquisas mostrando que a empatia que sentiam mais empatia e apresentavam
PODEMOVERAAGRESSÎO3EEMPATIZAMOS A EMPATIA SOMENTE MAIORATIVA¥ÎONOCØRTEXCINGULADOANTE-
com uma pessoa ou grupo, o comporta- rior quando se descrevia que as pessoas
PODE LEVAR A
MENTO AGRESSIVO FRENTE A OUTRAS PESSO- TINHAMCONTRAÓDOASÓNDROMEPORMEIODE
as ou grupos por ser turbinado quando CONSEQUÊNCIAS TRANSFUSÎO DE SANGUE  BEM MAIS DO QUE
“tomamos as dores” dos outros. Ao in- INDESEJADAS quando a narrativa era de contágio pelo
mUENCIAR NOSSAS EMO¥ÜES  A EXPERIÐNCIA USODEINJE¥ÜESINTRAVENOSASCOMDROGAS
COMO AGRESSÃO A empatia está sujeita a vieses morais,
empática pode nos levar a vieses morais
e comportamento cruel para aqueles que E CRUELDADE, COMOFOIDEMONSTRADONOESTUDOEUROPEU
supostamente merecem ser punidos. Po- EXAUSTÃO EMOCIONAL EMQUETORCEDORESDEUMTIMEDEFUTEBOL
DEMOSPONDERARTAMBÏMQUEAEMPATIA RECEBIAMUMCHOQUENAMÎOEASSISTIAM
PODEACARRETAREXAUSTÎOEMOCIONALEES-
E BURNOUT. A OUTRO HOMEM RECEBER O MESMO CHO-
TRESSE  E OS PROlSSIONAIS QUE TRABALHAM PRECISAMOS DE MAIS QUE1UANDOOOUTROHOMEMERADESCRITO
COMSOFRIMENTOHUMANOCOMOMÏDICOS  COMPAIXÃO como sendo do mesmo time, acontecia
PSICØLOGOSEENFERMEIROSFREQUENTEMENTE muito mais resposta neural empática de
DESENVOLVEMASÓNDROMEDE"URNOUTEM NO MUNDO EM dor do que quando era do time concor-
SEUTRABALHODEVIDOÌEMPATIA QUE VIVEMOS RENTE.ÎOÏDIFÓCILIMAGINARQUEAEMPA-

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TIACOMAQUELESQUESÎODENOSSOGRUPO EM EMPATIA /S PORTADORES DE SÓNDROME -ESMOACOMPAIXÎONÎOSUBSTITUIARE-
PODEMOVERACRUELDADEEATÏOGENOCÓDIO DE!SPERGER UMAESPÏCIEDEAUTISMOLEVE  mEXÎO CONSCIENTE E DELIBERADA SOBRE OS
COMAQUELESQUESÎODEOUTROGRUPO%SSE NÎOAPRESENTAMNENHUMAPROPENSÎOPARA DIREITOSEDEVERESENVOLVIDOSNASITUA¥ÎO 
PONTO TEM IMPORTANTES IMPLICA¥ÜES NO AGRESSÎOOUEXPLORA¥ÎO ESÎOCONHECIDOS EAAPLICA¥ÎODEUMAESCALADEVALORESNO
mundo atual, onde aumentam a migra- PORSEGUIREMPRINCÓPIOSMORAISRÓGIDOS JULGAMENTOMORAL BEMCOMOPRINCÓPIOS
¥ÎO E O NÞMERO DE REFUGIADOS  LEVANDO ! EMPATIA ENVOLVE EMO¥ÜES  E ESTAS DEMORALIDADE.ÎOPODEMOSDELEGARDE-
Ì NECESSIDADE DE INCLUSÎO DE GRUPOS DE podem nos desviar de julgamentos mo- CISÜESMORAISQUEAFETAMAVIDADASPES-
estrangeiros na sociedade. RAISPONDERADOS LEVANDOADECISÜESIMO- soas unicamente aos sentimentos empáti-
0ODEMOSPENSARQUEAFALTADEEMPATIA rais. Uma alternativa mais razoável para COS5MAPONDERA¥ÎOQUEUSEPRINCÓPIOS
LEVA Ì AGRESSÎO  E QUE SE ESTIMULARMOS A AEMPATIAÏACOMPAIXÎO QUEPODENOS morais pode ser mais justa e equilibrada
empatia reduziremos os problemas em um MOVER A FAZER O BEM E AUXILIAR AS PES- COMOGUIAPARANOSSASA¥ÜES AINDAMAIS
mundo violento. No entanto, uma análise soas sem as desvantagens da empatia. SEENDOSSADAPELACOMPAIXÎO
DOS ESTUDOS QUE RELACIONAM AGRESSÎO E
Referências:
FALTA DE EMPATIA DESCOBRIU QUE SOMENTE Bloom, P. Against Empathy: The Case for Rational Compassion. Nova York: Ecco Press, 2016.
DAVARIA¥ÎOEMAGRESSIVIDADEPODERIA
IMAGENS: SHUTTERSTOCK/ARQUIVO PESSOAL

Vachon, D. D. et al. The (non)relation between empathy and aggression: surprising results from a
SERATRIBUÓDAÌFALTADEEMPATIA2ESULTADO meta-analysis. Psychological Bulletin, v. 140, p. 751, 2014.
surpreendente, em um estudo que con-
Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento,
SIDEROU AGRESSÎO VERBAL  SEXUAL E FÓSICA  diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto
CONCLUINDOQUEOUTRASEMO¥ÜESEFATORES Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo
eram mais importantes. Outra pista vem Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o
Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).
DOSAUTISTAS QUESABEMOSTERFORTESDÏlCITS

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recursos humanos por João Oliveira

Relações A
s relações institucionais es-
tão cheias de valorações que,
na maioria das vezes, é mais

PRODUTIVAS
de ordem subjetiva do que
realmente material. Toda instituição
mantém uma relação de troca com
seus clientes, seja no próprio mercado
interno (corpo laboral e fornecedores
principalmente) e no mercado externo
5-02/#%33/).34)45#)/.!, (clientes e concorrentes principalmen-
0/335)5-3)'.)&)#!$/-!)/2$/ te), e os resultados positivos só são al-
cançados quando essa relação de va-
15%3)-0,%3-%.4%/.·-%2/ lores está adequada aos interesses das
!02%3%.4!$/.!0,!.),(!$%6%.$!3 partes envolvidas no processo.
Dessa forma, sempre que ocorre a
15!.$/%33%6!,/2!42)"5°$/¡ aquisição de um produto ou serviço,
#/-02%%.$)$/%2%,!#)/.!$/± existe um valor simbólico que é agre-
GADO AO lNANCEIRO 5MA PESSOA  POR
.%'/#)!—§/ /!4%.$)-%.4/¡%&)#!: exemplo, pode comprar uma roupa

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PARA SE SENTIR MAIS BONITA  PARA lCAR LINGUAGEMNÎOVERBAL 3ERASSERTIVO MENOSIMPORTANTE.OSSOPAÓSGUARDA
MAIS AUTOCONlANTE EM BUSCA DE UMA buscar ser objetivo nas colocações sem muitos preconceitos que estão enraiza-
promoção no trabalho, ou para um aprofundamentos e detalhes desneces- dos na cultura e passam, muitas vezes,
encontro com uma pessoa especial. SÉRIOS   3ER ORGANIZADO ADMINISTRA- ocultos ou aceitáveis pela maior parte
%SSEVALORNÎOESTÉNAROUPAEMSI ELE ção do tempo e informações relevantes DAPOPULA¥ÎO&A¥ADIFERENTESENDOÏTI-
pertence ao consumidor que possui são os elementos-chave de qualquer co e correto com todos, independente-
mUÐNCIAS EMOCIONAIS RELACIONADAS AO pessoa que deseje passar uma imagem MENTE DO PERlL QUE APRESENTE  SENDO
UNIVERSO EM QUE VIVE 5M CASAL PODE de organização ao outro; 8) Transmitir PRESTATIVOEPROATIVO 'ERENCIARAS
ir a um restaurante não pela comida ou segurança sobre a informação passa- EMO¥ÜES E TER INTELIGÐNCIA EMOCIONAL
pelo menor preço, mas porque aquele DAOCONHECIMENTODOTEMAÏIMPRES- SEFOROCASODESENTIRDIlCULDADENESSE
foi o restaurante onde se encontraram ASPECTO PROCUREUMPROlSSIONALTERA-
pela primeira vez e, para eles, isso tem peuta ou coach que possa auxiliá-lo no
UM SIGNIlCADO MUITO ESPECIAL 5M 5-"/-#!-).(/ processo de alinhamento emocional;
funcionário pode obedecer uma ordem  3ERCOMPROMETIDOCOMAEMPRESA 
0!2!!&5452!
dada por um gestor sem sequer anali- com seu trabalho e com a satisfação do
sar seu conteúdo e resultados apenas 6!,/2!—§/ OUTROUMBOMCAMINHOPARAAFUTURA
porque esse gestor criou laços de com- 0/3)4)6!¡/).°#)/ VALORA¥ÎOPOSITIVAÏOINÓCIODOCAMI-
prometimento que geram segurança à NHO/BÉSICOJAMAISDEVESERESQUECI-
$/#!-).(//
equipe de trabalho. DO 3ABERSEPARAROPESSOALDOPRO-
0ENSANDOASSIM TODOELEMENTONA "£3)#/*!-!)3$%6% lSSIONAL MANTENDOOPROlSSIONALISMO
INSTITUI¥ÎOSETRANSFORMAEMPROlSSIO- 3%2%315%#)$/ PROVAVELMENTE O DETALHE MAIS DIFÓCIL
nal de atendimento, pois sempre que se de todas as dicas aqui apresentadas.
comunica está na posição de uma pes-
#/-02/-%4)-%.4/ -UITOSACREDITAMQUESEREMOSNAVIDA
soa que atende outra pessoa, buscando #/-!%-02%3!  PROlSSIONALUMESPELHODOQUESOMOS
acolher uma determinada necessidade #/-/42!"!,(/ NAVIDAPESSOAL0OROUTROLADO OUTROS
ESOLUCIONANDOUMADEMANDA/ATEN- confundem os processos e misturam a
dimento, portanto, torna-se sinônimo
%#/-!3!4)3&!—§/ VIDAPESSOALCOMAPROlSSIONAL GERAN-
DECOMUNICA¥ÎOCLARIlCADAQUEDÉVA- $//542/ do problemas de ordem emocional ou
lor ao que está sendo negociado. invés de ter um bom relacionamento
3ÎO ALGUMAS CARACTERÓSTICAS BÉSI- CINDÓVEL 3E NÎO TEM DOMÓNIO SOBRE O interpessoal com todos à sua volta; 15)
cas que devem receber investimento assunto, delegue a quem tem para a 6ESTIR SE DE MODO CONDIZENTE COM O
para que essa valoração dos processos condução do processo comunicacional LOCALDETRABALHOPORÞLTIMOMASNÎO
possa ocorrer de forma natural entre DANEGOCIA¥ÎO 3ERCONlÉVELNUNCA MENOSIMPORTANTE AlNALAEMBALAGEM
o elemento que apresenta a situação prometa o que não tem certeza de po- DIZMUITOSOBREOPRODUTO%STARADE-
(comunicação, produto ou serviço) e DERCUMPRIRNOFUTURO.ÎOHÉESPA¥O quadamente vestida com o padrão da
o cliente (qualquer pessoa dentro ou para possibilidades e, se essa for a úni- instituição coloca a pessoa mais próxi-
FORA DA EMPRESA  3ÎO ELAS   $ESEN- ca opção de comprometimento, deixe ma de adquirir uma boa credibilidade
volver um bom relacionamento e con- isso claro para o outro; 10) Demons- com o outro.
lAN¥A COM O TEMPO  O OUTRO PASSA A TRAR SENSIBILIDADE E RESPEITO ENTENDER 0ORTANTO  PARA TER RELA¥ÜES PRODU-
dar respostas mais rápidas por saber claramente as questões que os clientes tivas é necessário um investimento
COMQUEMESTÉLIDANDO !TENDERAS APRESENTAM 3AIBA OUVIR E NO CASO DE constante em vários e pequenos deta-
NECESSIDADES DOS CLIENTES SOLUCIONAR dúvida pergunte para que o entendi- lhes que, com o tempo, podem fazer
DEMANDAS EXISTENTES  lNALIZANDO OS MENTOSEJAPLENO 3ABERLIDARCOM uma grande diferença no resultado das
PROCESSOS ABERTOS   3UPERAR AS EX- DIFERENTESTIPOSDEPESSOASNINGUÏMÏ ações de uma pessoa ou instituição.
PECTATIVASIRALÏMDOESPERADOSEMPRE
ofertando algo que surpreende positi-
IMAGENS: 123RF/ACERVO PESSOAL

VAMENTE O OUTRO   3ER EMPÉTICO SER João Oliveira é Doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de
Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em
capaz de prever as necessidades que Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções!; Jogos para Gestão
O OUTRO PODE TER DIlCULDADE DE APRE- de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente Humana: Entenda
SENTAR   3ER SIMPÉTICO A ATEN¥ÎO Melhor a Psicologia da Vida; e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental
pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).
dedicada ao outro está mais ligada à

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ciberpsicologia Por Igor Lins Lemos

Espelho, espelho MEU...


T
A ERA DA BUSCA rago este mês provocações ancoradas em uma série te-
levisiva que tem íntima relação com esta coluna. Mui-
PELO HEDONISMO, tos devem estar familiarizados com o nome Black Mir-
FREQUENTEMENTE, DO ror. Para os que não conhecem, trata-se de uma série
que traz a temática tecnológica e suas reverberações, em alguns
NARCISISMO NAS REDES momentos, trágicas. O nome Black Mirror, traduzido livremente
SOCIAIS E DA DEPENDÊNCIA como “espelho negro”, pode ser compreendido, no sentido literal,
como a forma que enxergamos o nosso aparelho celular, televisor,
PELA TECNOLOGIA TRAZ computador, ou seja, uma tela que está em stand-by. São esses
UMA PERCEPÇÃO DE milhões de espelhos que estão ao nosso redor e, como debatido
em diversos outros textos nesta coluna, permitimos que eles se
FELICIDADE BASEADA tornassem papel central nos lares, nos locais de trabalhos, nas es-
NA AVALIAÇÃO DE colas, nas faculdades, nas ruas, nos ambientes culturais, nos mo-
mentos de lazer, no trânsito e em diversas outras circunstâncias.
TERCEIROS SOBRE NÓS. A temática de Black Mirror se refere a uma sociedade que
QUE FELICIDADE É ESSA? utiliza amplamente os recursos eletrônicos, com diversas

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temáticas: uso de mídia, tecnologia na DIVERSOS outros tópicos igualmente importantes se
força militar, realidade virtual, crimes referem à busca do prazer, de ser avaliado
virtuais etc. A série é rica na abertura de
APLICATIVOS GERAM positivamente pelo próximo, e a relação
possibilidade de debates no campo da NOTA PARA OS com nossos traços narcisistas. Imagine-
Psicologia, porém irei me deter apenas USUÁRIOS, DESDE mos que você alcance um número absur-
no primeiro capítulo da terceira tempo- damente alto de curtidas em sua foto. O
rada, intitulado “Nosedive”. Nesse mun-
OS DE TRANSPORTE que ocorre após? Manter o número alto
do futurístico (será que tão distante de ATÉ OS DE PAQUERA. de curtidas o tempo inteiro o torna natu-
nós?), as pessoas avaliam qualquer outra O NÚMERO DE ral ou será que vai precisar adaptar suas
pessoa (do funcionário de uma loja de fotos e mensagens para que elas sejam
sorvete até o colega de trabalho) por CURTIDAS EM UMA divulgadas no molde que a sociedade as
meio de um aparelho que se assemelha FOTO TAMBÉM valida? A dependência tecnológica, tema
a um celular. Mas o que isso realmen- que enfatizo em diversos momentos, não
RETRATA, DE
te implica no cotidiano? Em tudo. As será discutida nesse momento, mas sim
nossas estrelas, assim como no conhe- FORMA INDIRETA, em um último ponto: a felicidade. Cer-
cido Uber, que compreende uma escala A NECESSIDADE DE tamente avaliamos e interpretamos con-
de um a cinco, servem como referên- ceitos sobre o que é felicidade de forma
cia para que possamos ser convidados
ESTARMOS SENDO distinta. Mas tentemos nos aproximar de
a postos maiores de trabalho, viajar de SEMPRE VISTOS uma interseção: qual a relação da felici-
avião com melhores possibilidades de E VALIDADOS dade com o uso de tecnologia? Se sente
horários e conforto, alugar um carro, feliz, realizado(a), acolhido(a) nas redes
comprar uma casa mais bonita, entre que essa mídia não nos traz felicidade. SOCIAIS ! FELICIDADE  EM DElNITIVO  NÎO
diversas outras situações que são avalia- Em relação ao primeiro ponto: quantas está nas redes sociais. Ela se relaciona a
das pelo aparelho. Pensemos: se é por vezes você percebe que está no looping realizações pessoais muito mais nobres e
meio da avaliação digital de terceiros e “Whatsapp-Facebook-Instagram”? O meca- subjetivas que, mesmo variando de sujei-
com essa nota que obtemos deles, quais nismo é simples: visualizamos quais reca- to para sujeito, sabemos que é alcança-
serão os comportamentos que desenvol- dos chegaram no Whatsapp, os responde- da apenas de forma momentânea. Nos-
veríamos para sempre alcançarmos altas mos, entramos no Facebook para ler o feed sa sorte é exatamente essa, a busca pela
notas? Será que seríamos transparentes de notícias, aguardamos as mensagens do felicidade permanente (e encontrada na
ou iríamos vestir diversas máscaras so- Whatsapp fazendo hora no Instagram e en- internet) na verdade nos tornaria mortos-
ciais para que possamos estar sempre tão voltamos ao primeiro aplicativo (isso -vivos-digitais acomodados diante des-
no topo? Infelizmente isso já está sendo não é novidade alguma, concorda?). Esse sa tela, que, quando olham diretamente
feito – há um bom tempo! A reação de tipo de sistema é descrito apenas para para ela, a única coisa que enxergam é
alguns alunos ao assistir a esse capítulo três redes sociais, porém atendo pacientes O SEU REmEXO MORTO /S ELETRÙNICOS SÎO
é de que esse futuro não irá ocorrer, que que usam entre 12 e 16 redes no mesmo fantásticos, mas eles são apenas um dos
não iremos permitir que simples avalia- celular. Precisamos estar on-line o tempo diversos recursos que existem em nossa
ções guiem nossa vida. Porém, será que todo? Se sim, por qual motivo? Se não, en- vida. Momento de sair do piloto automá-
não devemos nos preocupar? Diversos tão o uso se refere a quê? Escapismo? Dois TICO$ESAlOACEITO
aplicativos geram nota para os usuários,
Referências:
desde os de transporte até os de paque-
ROSE, S.; DHANDAYUDHAM, A. Towards an understanding of internet-based problem shopping
ra. O número de curtidas em uma foto behaviour: the concept of online shopping addiction and its proposed predictors. Journal of
também não retrata, de forma indireta, Behavioral Addictions, v. 2, 2014.
a necessidade de estarmos sendo sem- TAVARES, H.; LOBO, D. S. S.; FUENTES, D.; BLACK, D. W. Compras compulsivas: uma revisão e um
pre vistos e validados? relato de caso. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 30, 2008.
Temas que são discutidos neste capí- . *.4& 9+:e-. & 9&:e(›'' 9:e )9(:+G  IGH  GGI ‚I
IMAGENS: SHUTTERSTOCK/ACERVO PESSOAL

internet addiction: a model-based experimental investigation. PLoS One, v. 10, 2015.


tulo são: a necessidade de estarmos em
redes sociais virtuais constantemente; a
Igor Lins Lemos é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento
avaliação de terceiros sobre nossos hábi- pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia
tos, corpo e gostos; a busca pelo hedo- Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE).
nismo frequentemente; o narcisismo; a É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das
dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com
DEPENDÐNCIA E  POR lM  A PERCEP¥ÎO DE

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sexualidade Por Giancarlo Spizzirri e Carla Pereira

Dispareunia
masculina
A PRESENÇA DE DOR DURANTE
AS RELAÇÕES SEXUAIS É MAIS COMUM
NAS MULHERES, PORÉM, COM MENOR
FREQUÊNCIA, TAMBÉM É REFERIDA
POR ALGUNS HOMENS

D
ispareunia é o termo técnico prepúcio não pode ser retraído, surge a
utilizado para a dor antes, du- dor ao tentar a penetração ou também
rante ou após a relação sexual durante a masturbação; 2) Língua presa:
e, em alguns casos, presente o frênulo do pênis é a pequena dobra de
na masturbação. tecido que liga o prepúcio à cabeça da
$E ACORDO COM A #LASSIlCA¥ÎO %S- glande; em alguns homens essa dobra é
tatística Internacional de Doenças e menor, de modo que pode ocorrer uma
Problemas Relacionados à Saúde, 1993 lSSURA DURANTE A PENETRA¥ÎO  CAUSANDO
(CID-10), a dispareunia é uma dor inten- queimação intensa, dor e às vezes san-
sa durante o intercurso sexual, podendo gramento. 3) Doença de Peyronie: é a
ocorrer em homens e mulheres, tendo curvatura anormal do pênis durante a
como causa uma condição patológica ereção. Esse processo ocorre por for-
local ou uma causa emocional. mação de cicatrizes no revestimento do
A dispareunia ocorre, aproximada- corpo cavernoso do pênis. 4) Assoalho
mente, em 15% a 20% das mulheres e pélvico espástico: hipertonia da mus-
na população masculina não excede 5%; culatura do assoalho pélvico, prejudi-
ainda assim, essa não é uma situação cando a função dessa região e levando
que deva ser ignorada pelos homens, AUMADIlCULDADEDECONTRAIRERELAXAR
uma vez que há tratamento praticamen- esse grupo de músculos.
te para todos os casos. Outros fatores que levam à dispareu-
É importante observarmos que as NIA EM HOMENS SÎO OS PROCESSOS INmA-
relações sexuais dolorosas não são uma matórios como, por exemplo, a prostatite
doença, mas sim um sintoma que pode INmAMA¥ÎO DA PRØSTATA  URETRITE INmA-
estar associado a alterações anatômicas, mação da uretra), epididimite (edema do
PSICOLØGICAS INFECCIOSASOUINmAMATØRIAS epidídimo – via pela qual as secreções
Entre as causas anatômicas e/ou dos testículos para os canais deferentes e
mecânicas podemos destacar: 1) Fimo- dutos ejaculatórios são despejados), con-
SE Ï A DIlCULDADE EOU INCAPACIDADE diloma (infecção viral que causa verru-
de se expor a glande, a parte terminal gas na mucosa da glande), herpes (lesão
do pênis, pois a pele que a recobre não da mucosa que gera dor intensa), proces-
APRESENTA ABERTURA SUlCIENTE #OMO O sos alérgicos ocasionadas por produtos

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DISPAREUNIA É UMA DOR INTENSA DURANTE
O INTERCURSO SEXUAL, PODENDO OCORRER
EM HOMENS E MULHERES. NOS HOMENS AS
DORES PODEM OCORRER NOS GENITAIS,
PÊNIS OU TESTÍCULOS, TENDO COMO
CAUSA UMA CONDIÇÃO PATOLÓGICA
LOCAL, ALTERAÇÃO MUSCULOESQUELÉTICA
OU UMA CAUSA EMOCIONAL

DE HIGIENE CORPORAL  LUBRIlCANTES OU LÉ- experiências sexuais podem ser dolo-
tex, doenças fúngicas e doenças sexual- rosas, produzindo evitação de aproxi-
mente transmissíveis (DSTs). mações sexuais na sequência, e sempre
Com relação às causas emocionais, estão associadas a outras condições psi-
essas podem estar relacionadas a causas cológicas relacionadas à falta de asser-
PSICOLØGICAS  DECORRENTES DOS CONmITOS TIVIDADE DIlCULDADEEMEXPRESSIVIDADE
inconscientes que provocam esse tipo emocional e de relacionamento social,
de dor. Embora menos comum em ho- com poucas habilidades sociais e de re-
mens do que nas mulheres, podemos ci- lacionamento afetivo.
tar como fonte de certos problemas re- O tratamento da dispareunia mas-
ceber uma educação familiar repressiva, culina depende da causa, uma vez que
responsável pela transferência de tabus, pode ser física, orgânica ou emocional.
preconceitos e sentimentos negativos. Dessa forma, o tratamento poderá ser
Histórico de abuso ou violência sexual, farmacológico, cirúrgico, psicoterapêu-
que ocorrem geralmente na infância, TICO E lSIOTERÉPICO E  EM ALGUNS CASOS 
TAMBÏM PODE  GERAR CONmITO INTENSO uma intervenção interdisciplinar.
e negação do prazer. É importante in- Para o sucesso do tratamento é im-
vestigar e analisar a dinâmica do casal, portante que o homem quebre para-
UMAVEZQUECONmITOSCONJUGAISPODEM digmas, tabus e preconceitos e, quan-
agravar / despertar a dor durante a re- do apresentar dor na relação sexual e/
lação sexual. ou na masturbação, peça ajuda para o
Observa-se que os aspectos psico- seu médico, o qual poderá investigar
lógicos chegam a representar, como e direcionar a melhor opção de trata-
causa, aproximadamente 50% dos ca- mento, visando sempre a cura e o bem-
sos. Em muitos casos, a dor pode estar -estar do indivíduo.
presente em homens que tiveram pouca
atividade sexual até a terceira década de
ÈI Gd
idade. Não se masturbavam, não têm ABDO, C. H. N. Descobrimento Sexual do
muitas experiências de namoro e de in- G dpara Curiosos e Estudiosos. São
timidades físicas. Assim, as primeiras Paulo: Summus, 2004.

Giancarlo Spizzirri é psiquiatra doutor pelo Instituto de Psiquiatria (IPq)


IMAGENS: SHUTTERSTOCK E ARQUIVO PESSOAL

da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em


Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em
Sexualidade Humana da USP.
GG+ G\‚ GG9
G
GG!GI
G

 ÈI G
Médicas da Santa Casa de São Paulo. Especialização em Sexualidade Humana
(FMUSP); Fisioterapia em Gerontologia e Oncologia. Fisioterapeuta do Serviço
de Fisioterapia Pélvica (Santa Casa de SP).

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GRAVIDEZ

INVISIBILIDADE

SHUTTERSTOCK

56 psique ciência&vida www.portalcienciaevida.com.br


MATERNA Além
Além dada intensa
intensa felicidade
felicidade
proporcionada
proporcionada p pela
ela mmaternidade,
aternidade,
ammissão
issão d dee sser mãe
er m ãe ttraz
raz
como
como cconsequência
onsequência aaspectos
spectos
biopsicossociais
biopsicossociais eenvolvidos
nvolvidos nnaa perda
perda
daa iidentidade
d dentidade d daa m
mulher
ulher após
após o
nnascimento
ascimento d doob bebê
e bê

Por Raquel
Por Raquel JJandozza
andozza

Raquel Jandozza é psicóloga perinatal formada pela


Universidade Presbiteriana Mackenzie, especializada
em Psicanálise Lacaniana pela PUC-SP; doula e
coach ontológica

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GRAVIDEZ

H
á anos, acredita-se que O sentimento de infância surge em
a “maternidade” é um
dom inato à mulher.
meados do século XVIII, momento em
Que há uma imensi- que a criança passa a ser incluída na cena
dão de afeto na relação
materna, não se pode negar. Contudo,
e convívio familiar e seus cuidados – antes
sócio-historicamente, sabe-se que nem delegados a amas de leite – tornam-se função
sempre essa relação se deu dessa forma.
A partir de uma compreensão sociológi-
da família, mais diretamente da mãe
ca, pode-se dizer que “amor materno” é
conquistado e construído. estudos é apontar que naturalizamos po, essa mesma mulher passa a ocupar
Dois grandes autores e historiadores, algo que foi socialmente construído um papel social investido de uma série
Elizabeth Badinter e Philippe Ariès, vão – infância e maternidade. Quais os re- de valores e concepções que a engessam
apresentar em suas obras, Um Amor Con- flexos dessa concepção para as mães na em um “modelo” no qual só lhe resta se
quistado: o Mito do Amor Materno (1985) atualidade? Ora, vejamos: a concepção adequar. Essa adequação, porém, é cus-
e História Social da Criança e da Família de amor materno, inclusive propagado tosa em muitos sentidos, uma vez que o
(1981), respectivamente, a concepção de como “instintivo”, lança na maternidade social pode, em certa medida, ser o pano
que o amor materno não é inato e que a uma enorme expectativa do exercício de de fundo da vivência materna; entretan-
infância é uma construção recente. Para funções e características balizadas por to, no campo subjetivo e emocional, cada
ambos, o “sentimento de infância” surge um ideal social e cultural. mulher vai vivenciá-la de modo singular.
em meados do século XVIII, momento Dentre as transformações sociais, A gravidez, portanto, deixou de per-
em que a criança passa a ser incluída na não se pode esquecer os avanços tecno- tencer somente ao campo do orgânico e a
cena e convívio familiar e seus cuidados lógicos e medicinais que propiciaram à maternidade passou a ser compreendida
– antes delegados a amas de leite – tor- mãe e ao bebê receber tratamentos res- por diferentes campos do saber, inclusi-
nam-se função da família, mais direta- ponsáveis por diminuir os riscos e mor- ve pela Psicologia, que tem buscado o
mente da mãe. Para Ariès, as famílias não tes materno-fetais. Sendo assim, se antes entendimento acerca dos principais fe-
se apegavam afetivamente às crianças gravidez e parto significavam também nômenos psíquicos correlacionados ao
e tampouco lhes dispensavam maiores possibilidade de risco e morte, um novo ciclo gravídico-puerperal. Dentre os fe-
cuidados, uma vez que o índice de mor- cenário obstétrico e neonatal trouxe um nômenos psicossociais observáveis nesse
talidade infantil era muito alto. Já para oposto positivo de vida, mas não menos ciclo, destacamos um – a “invisibilidade
Badinter, a mortalidade infantil seria jus- complexo e por vezes ainda doloroso. e perda da identidade materna”.
tamente reflexo desse distanciamento e Ao engravidar, a mulher se vê diante
ausência de cuidados familiares efetivos. de mudanças físicas e biológicas comuns Padecimento
Um dos objetivos principais desses às mamíferas, contudo, ao mesmo tem-

Houve mudanças em
A “invisibilidade e perda de identida-
de” das mulheres diante da vivên-
cia materna se trata de um fenômeno a
relação ao entendi- ser compreendido sob um prisma tam-
mento do processo da bém social. Consideram-se aspectos in-
“maternidade”, pois hoje dividuais da mulher nesse processo de
existe uma compreensão
sociológica de que “amor
apagamento. Contudo, não recai sobre
materno” é construído ela a total responsabilidade pelo fato.
Pelo contrário, por vezes as mães sequer
reconhecem tal padecimento. Frequen-
temente, ouve-se das mães a menção de
alguns chavões, reclamações e queixas
de sintomas físicos e emocionais que,
muitas vezes, caem em descrédito por
serem já tão comuns à ideia que se tem
da figura materna e, por isso, passam a
ser naturalizados ou, pior, banalizados.
A crescente valorização da infância,

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partir da idealização estética feminina,
não desaparece somente o “belo corpo
feminino”, com a tal concepção se esvai
também a autoestima da mulher.
É no parto em que, atualmente, mais
pode ser visto o “desaparecimento” da
mulher. Com os avanços da Medicina
obstétrica, as mulheres têm sido subme-
tidas a procedimentos que antes eram
delegados ao corpo que naturalmente
cumpria sua função durante o trabalho
de parto, como, por exemplo, as “cesáreas
eletivas”. A cirurgia cesárea – que, segun-
do a História, foi praticada pela primeira
Ao engravidar, a mulher se vê diante de mudanças físicas e biológicas, mas passa a ocupar um papel vez no ano de 1500 por um homem sim-
investido de valores e concepções que a engessam em um “modelo” ples que, em um ato de coragem, salvou
mãe e bebê durante um trabalho de parto
Antes das transformações sociais, complicado, cortando a barriga da mãe
com uma lâmina de barbeiro – teve sua
a gravidez e o parto significavam também prática ampliada e exclusiva ao uso médi-
possibilidade de risco e morte, mas um novo co obstétrico somente no século XVIII.
Entretanto, só se tornou rotineira no sé-
cenário obstétrico e neonatal trouxe um culo XX. Anteriormente, o procedimen-
oposto positivo de vida, mas não menos to apresentava altíssimas taxas de morta-
lidade materno-fetal e só era considerado
complexo e por vezes ainda doloroso quando realmente todas as alternativas
para um parto normal vaginal não tives-
como explicitado nos estudos de Àries E como as mães desaparecem? Há sem obtido sucesso.
(1981), também contribui de modo com- um preditivo? Ela recebe algum tipo de A cirurgia cesárea salva vidas de mu-
plexo na dinâmica de esmaecimento da ameaça de um “rapto” social e identitá- lheres e bebês e quando bem sugerida
mulher e, nesse caso, dentre as persona- rio? Ela sequer deixa um bilhete de so-
gens da cena da vida materna, o bebê é corro ou de volto logo? Não!
quem ganha maior destaque e importân- Toda a cena materna tem se investi-
cia social. Sendo assim, uma vez grávida, do de um primado de beleza. Ao longo
a mulher perde seu status individual – ela da gravidez, a mulher “tem que” ganhar
não só deixa de falar em nome próprio cada vez menos peso e curvas e, quando
como tampouco é ouvida como um in- inevitavelmente a barriga ganha con-
divíduo para além da sua condição gra- torno e total expansividade, “coitada”
vídica. Em geral, quando a sociedade se da mulher que ganhar as linhas das
preocupa com essa mulher é para obter
acesso e informações acerca do bebê em
temíveis estrias. Se, ainda assim, com
sobrepeso, ela não “desaparecer”, que
ŒManobra de Kristeller Œ
O procedimento obstétrico chamado ma-
detrimento do indivíduo que o carrega. ao menos esconda as estrias. O mesmo nobra de Kristeller consiste na aplicação de
Tomando isso como premissa, a vale para a recuperação do peso e forma pressão na parte superior do útero, com o
ideia não é desqualificar os cuidados ne- física no pós-parto. “Fique linda para intuito de facilitar a saída do bebê. O pro-
fissional junta as mãos no fundo do útero,
onatais, mas agregar a compreensão de seu parceiro e seu bebê, afinal quem vai
sobre a parede abdominal, com os polegares
que, sendo essencial a presença da mãe querer uma esposa ou uma mãe toda voltados para frente, tracionando o fundo do
tanto para os cuidados físicos como para largada?” Muitas mulheres ouviram útero em direção à pelve, no momento em
o acolhimento e estabelecimento da saú- isso, internalizaram e acreditam ser de- que ocorre uma contração uterina durante o
de emocional do bebê, uma vez que ela las mesmas essa cobrança estética – e, parto natural ou cesárea. A técnica traz riscos
IMAGENS: 123RF

para mãe e filho e é desaconselhada pela Or-


“desapareça”, a quem ou a que recorre claro que é delas, mas para atingir um
ganização Mundial da Saúde.
esse bebê? padrão e expectativa que a precede! A

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GRAVIDEZ

ser “paciente” dependente das escolhas


e condutas médicas.
“Nesse modelo tradicional conside-
ra-se o corpo feminino sempre depen-
dente da tecnologia, frágil e potencial-
mente perigoso para o bebê. Isso é o que
muitos pesquisadores chamam de viés
de gênero, um olhar preconcebido sobre
a mulher, em que seu corpo é por defini-
ção imperfeito e ameaçador, e não poten-
cialmente adequado e saudável” (Diniz;
Duarte, 2004, p. 19).
Muitas mulheres sequer arriscam
Inúmeras mulheres, quando ficam grávidas, perdem o “rumo profissional”, pois frequentemente a licença entrar em trabalho de parto. Temem a
maternidade não é bem-vista no mundo corporativo dor e possivelmente uma nova frustração
ou constatação de uma “fraqueza”, pois
A gravidez deixou de pertencer infelizmente é essa a cultura que come-
ça a permear o cenário do parto. Muitas
só ao campo do orgânico e a maternidade mulheres que conseguiram ter seus par-
passou a ser compreendida por diferentes tos normal, natural e humanizado, por
vezes, passam a desqualificar as que não
campos, como a Psicologia, que busca o tiveram e as provocações do lado oposto
entendimento dos fenômenos psíquicos também acontecem. Lamentavelmente,
dos dois lados, quem acaba perdendo é
correlacionados ao ciclo gravídico-puerperal a mulher que, informada ou não, empo-
derada ou não, fez ou foi induzida a uma
evita danos e traumas maiores para to- Uma das hipóteses, inclusive que escolha. E não esqueçamos as mulheres
dos. Contudo, o cenário atual apresenta baseou novas medidas por parte da que nem escolhas tiveram ou, pior, que
uma realidade no mínimo alarmante. ANS, era de que o parto normal, por sofreram diversas violências obstétricas.
Em julho de 2016, a ANS (Agência Na- sua imprevisibilidade e longa duração,
cional de Saúde Suplementar) publicou tornava-se desvantajoso economica- Humanização
dados do Mapa Assistencial e constatou
que o Brasil apresenta taxas de cesaria-
nas três vezes superior à média de países
mente para os médicos. Como uma
das medidas para diminuir o número
de cesáreas previamente agendadas,
C ontrapondo tais cenários é que uma
rede de profissionais se uniu em
1993 em prol da humanização do parto
como EUA, Espanha, Alemanha, Fran- baseadas nesses motivos, a ANS, des- e nascimento. A ReHuNa concentra pro-
ça, entre outros que compõem a OCDE de 2015, determinou que os médicos fissionais de diferentes partes do Brasil
(Organização para a Cooperação e De- recebessem três vezes mais pelo aten- e busca disseminar conhecimento ba-
senvolvimento Econômico). Segundo dimento ao parto normal. seado em evidências científicas e, dessa
esses dados, a cada 100 nascimentos no É curioso que, mesmo nesse texto, forma, promover impacto e mudanças
Brasil 84,6 foram de partos cesáreos. Em ao se falar de parto, logo se faz alusão à no modelo obstétrico tradicional, imple-
contrapartida, a taxa média dentre os 34 cena médica hospitalar, taxas, modelos mentando o que hoje já nomeia-se como
países que compõem a OCDE foi de 27,6. de parto, esforço e, por último, fala-se “parto humanizado”. Esse movimento
da escolha da mulher. Diniz e Duarte de “humanização” busca promover os
Realidade alarmante (2004) observaram em seus estudos, a cuidados à mulher e ao bebê, respeitando

C om toda certeza, as mulheres no


Brasil não são anatomicamen-
te diferentes das outras mulheres do
partir de evidências científicas a respei-
to do modelo médico intervencionis-
ta nos partos no Brasil, que as equipes
o protagonismo feminino em seus aspec-
tos emocionais, sociais, naturais e fisioló-
gicos, diminuindo, assim, a quantidade
mundo. Então, o que realmente acon- médicas e hospitalares passaram a ter de intervenções médicas, já comprova-
tece, para que as cesáreas no Brasil domínio sobre o corpo da mulher, que, das cientificamente desnecessárias e por
sejam a primeira alternativa de parto por sua vez, deixou de ser protagonista vezes danosas e letais para mãe e bebê,
para médicos e mulheres? ativa no momento do parto e passou a como é o caso da manobra de Kristeller,

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hoje totalmente desaconselhada no par-
Um dos dilemas da mulher
to, mas ainda muito utilizada no Brasil é que se ela permanecer
(Diniz; Duarte, 2004). em casa, cuidando do filho,
Com o parto humanizado, a mulher pode dar a impressão
tem a possibilidade de retomar seu lugar de que não tem
ambição suficiente para
de protagonismo ativo tanto na sua gravi-
um crescimento
dez como parto e, consequentemente, no profissional
exercício da maternidade. As informa-
ções e acompanhamento que a mulher
deve receber no modelo humanizado
priorizam as evidências científicas em
detrimento da opinião médica, que, por
vezes, poderia ser enviesada (ReHuNa,
2016; Diniz; Duarte, 2004). Em conjun-
to, equipe e a mulher podem discutir o
“plano de parto” dela e, juntas, optarem
pelas melhores alternativas. Desse modo,
o médico, com toda sua expertise, fica a finanças de seu negócio. Por isso, mui- no país e, dentre os que estão emprega-
serviço da mulher e não o contrário. tas mulheres não conseguem conceber dos, a mulher recebe um salário médio
Contudo, não é somente pelo parto trabalho e maternidade em um mesmo inferior ao salário médio de homens
que a mulher vai travar batalhas para plano de vida e carreira. ocupando a mesma função e cargo (Mu-
impedir seu “desaparecimento”, pois lheres - R$ 1.567 e Homens - R$ 2.058).
são diversas as situações que facilitam Desigualdade Ao perder a colocação no mercado
que o mesmo aconteça ao longo da gra-
videz, puerpério e maternidade. Um dos
raptos mais recorrentes é o da dignida-
N ão se pode esquecer, inclusive, que
o mercado de trabalho já é desfa-
vorável para as brasileiras. Como é possí-
de trabalho, ou mesmo ao receber um
salário inferior, a mulher deixa de ter po-
tência financeira e, para algumas famí-
de e independência financeira. Muitas vel constatar em pesquisas mais recentes lias, isso significa a perda de uma renda
mulheres, ao se verem grávidas, perdem do IBGE (outubro, 2015), as mulheres fundamental. A estabilidade financeira
o “rumo profissional”, pois comumente foram as mais afetadas pelo aumento ameaçada pode deflagrar situações de es-
a licença maternidade não é bem-vista do desemprego no Brasil. De acordo tresse não só para mulher, mas para todo
no mundo corporativo. Se empreender com a Pesquisa Nacional de Domicí- conjunto familiar.
ou administrar a própria empresa, a lios (Pnad/IBGE 2015), 4,6 milhões de Então, em algum momento a mu-
mulher irá se desdobrar mais uma vez brasileiras estão desempregadas, o que lher se depara com uma temida decisão:
para dar conta da maternidade, renda e representa 52% do total de desocupados retornar ao mercado formal ou informal
de trabalho. Contudo, essa escolha pres-
supõe perdas, pois, se optar por estar
PARA SABER MAIS
mais próxima do filho, perde a possibili-
COMPLEXO DE ÉDIPO TEVE dade de renda e, optando por ter renda
e trabalhar, terá que delegar os cuidados
INSPIRAÇÃO EM TRAGÉDIA GREGA do filho a terceiros. Feita uma das esco-
lhas, a mulher poderia seguir cuidando
S egundo Plon e Roudinesco (1998), o complexo de Édipo é uma noção central na
Psicanálise. Seu inventor, Sigmund Freud, teorizou o dito complexo a partir de um
personagem da tragédia grega de Sófocles, a saber, o jovem Édipo. O complexo
a seu modo da sua própria vida e filho.
Mas não. Mediante as cobranças sociais,
de Édipo seria para Freud (1909) a representação inconsciente do “desejo sexual” da a mãe não pode sentir que fez a escolha
criança pelo genitor do sexo oposto e sua rivalidade e hostilidade com o genitor do certa em nenhuma das hipóteses. Se per-
mesmo sexo. Para Freud, esse complexo ocorreria entre os três e cinco anos de idade manecer em casa, não tem ambição sufi-
da criança e sua resolução se daria após a puberdade, na concretização de uma nova ciente para um crescimento profissional
escolha de objeto amoroso. “O complexo de Édipo desempenha papel fundamental na e financeiro; o que fica nas entrelinhas é
estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano. Para os psicanalistas, que “nasceu para ser dona de casa”, en-
IMAGENS: 123RF

ele é o principal eixo de referência da psicopatologia” (Laplanche; Pontalis, p. 77). tendendo tal atividade de modo depre-
ciativo. Caso ela reassuma o cargo, “fez o

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GRAVIDEZ

filho para os outros ou o governo criar”. Grávida, a mulher perde seu status
A essa altura, o “desaparecimento” já
passa a ser considerado boa alternativa.
individual – ela não só deixa de falar em
O cenário apresentado, acrescido nome próprio. Em geral, quando a sociedade
de um cinismo ao final, resulta da jun-
ção inclusive de diferentes momentos e
se preocupa com essa mulher é para obter
construções históricas. O apego e a im- acesso e informações acerca do bebê em
portância da função materna na estru-
turação psíquica do sujeito passaram a
detrimento do indivíduo que o carrega
ser mais amplamente estudados no final
do século XIX com Freud teorizando o (tarefas domésticas, cuidado com os fi- mudaram, nem por isso a teoria freudia-
Complexo de Édipo. lhos etc.). As mulheres da época de Freud na deixou de ter sua importância para a
eram responsáveis principais pela edu- compreensão da psique humana.
Estrutura psíquica cação e criação dos filhos. No entanto, Alguns autores pós-freudianos,

A s teorias freudianas, embora desen-


volvidas em conformidade com as
características fundamentais da família
se atualmente, como já mencionado, as
funções e papéis da mulher na sociedade
como Lacan, também vão teorizar sobre
a mulher e a maternidade e sua impor-
tância na constituição psíquica do su-
burguesa, ainda ressoam suas constata- jeito. Lacan (1969), em seu texto “Nota
ções para a compreensão da maternida- Ao decodificar o sobre a criança”, vai ressaltar a importân-
choro do bebê, a
de contemporânea que, em muitos mo- mãe ocupa o lugar
cia da função materna, relacionando tal
mentos, refletem os aspectos tipicamente de interlocutor função aos cuidados marcados por um
burgueses. Sendo assim, é preciso com- desse bebê, e é interesse particularizado da mãe pelo
parar e contrastar também os valores nesse sentido que bebê, dando a ele um lugar específico
atuais com os da sociedade vitoriana na Lacan refere-se à em seu desejo e interesse. Para além de
mãe como o
qual Freud teorizou. Se antes a mulher Outro primordial
todos os cuidados físicos essenciais para
apenas cuidava dos filhos, hoje ela está a sobrevivência do bebê, como alimen-
no mercado de trabalho e acumula tação, higiene etc., a mãe terá que prover
funções. Se por um lado ela é cobrada outras necessidades de ordem psíquica,
para competir de igual para igual com para que o bebê possa advir como sujeito.

IMAGENS: 123RF/DIVULGAÇÃO
os homens, profissionalmente falan- Tais necessidades devem ser ao
do, por outro, ela segue ganhando mesmo tempo articuladas ao campo
menos e ainda tendo funções extras simbólico, o campo da linguagem. Para
– ditas como próprias “da mulher” Lacan (1960), é por meio da linguagem

NAS BANCAS!
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precisa que seus gritos, balbucios e cho- lher que figura a maternidade contem-
ros sejam interpretados por esse Outro porânea. O termo “figurar” foi proposi-
materno. A função materna não termina talmente escolhido, pois, de fato, pouco
aqui, mas já é possível perceber, a partir se sabe dessa mulher, já que, uma vez
dessa pequena explanação, a tamanha “mãe”, ela só agregou para si mais fun-
importância e implicação psíquica de ções, estereótipos, demandas e expec-
uma mãe diante do desenvolvimento tativas internas e externas a que vemos
físico e emocional de seu bebê. sucumbir seus desejos, necessidades e
ŒReHuNa Œ Os recortes históricos, sociais e
psicológicos feitos para este artigo bus-
essência, que não deixaram de existir,
mas podem estar timidamente ou sufo-
A Rede pela Humanização do Parto e Nas-
cimento (ReHuNa) é uma organização da caram dar visibilidade à importância e cadamente pedindo por socorro. Resga-
sociedade civil que atua em todo o Brasil. complexidade que recaem sobre a mu- temos essas mulheres!
O objetivo é a divulgação de cuidados peri-
natais, com base em evidências científicas. A REFERÊNCIAS
rede tem um papel relevante na estruturação
ANS – Agência Nacional de Saúde Suplementar, 2016. In: http://www.ans.gov.br/aans/noticias-ans/
de um movimento denominado humanização
numeros-do-setor/3402-ans-publica-dados-sobre-assistencia-prestada-pelos-planos-de-saude-2
do parto/nascimento. Pretende diminuir as
intervenções desnecessárias e promover um ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1981.
cuidado em relação ao processo de gravidez/ BADINTER, Elisabeth. Um Amor Conquistado: o Mito do Amor Materno. Rio de Janeiro: Editora Nova
parto/nascimento/amamentação, com base Fronteira, 1985.
na compreensão do processo fisiológico. DINIZ, Simone Grilo; DUARTE, Ana Cristina. Parto Normal ou Cesárea? O que Toda Mulher Deve Saber (e
Todo Homem Também). São Paulo: Editora Unesp, 2004.
FARIA, Michele Roman. Constituição do Sujeito e Estrutura Familiar. O Complexo de Édipo de Freud a
que o grito da criança pode adquirir um Lacan. Taubaté: Editora e Livraria Universitária, 2010.
significado, isso através da significação FREUD, Sigmund. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. In: FREUD, S. Edição standard
dada pela mãe para esse grito. Ao deco- brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 10, p. 11-133, tradução J. Salomão. Rio
dificar o choro do bebê, por exemplo, a de Janeiro: Imago, (Trabalho original publicado em 1909.)
mãe vai ocupar o lugar de interlocutor . Carta 71. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de
ou intérprete desse bebê, e é nesse sen- Sigmund Freud, v., tradução J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, (Trabalho original publicado em 1897.)
tido que Lacan refere-se à mãe como o LACAN, Jacques (1969). Nota sobre a criança. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
Outro primordial. Esse “‘banho de lin- LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
guagem” (Faria, 2010) impõe à criança PNAD e IBGE 2015. In: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/pesquisas/pesquisa_resultados.php?id_
uma condição de assujeitamento, ou pesquisa=40
seja, para ter suas necessidades atendi- REHUNA – Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento. In: http://www.rehuna.org.br/
das, a criança totalmente dependente ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

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divã literário por Carlos São Paulo

A segurança da
LOUCURA

IMAGENS: 123RF/ DIVULGAÇÃO E ARQUIVO PESSOAL

G
LER O CONTO O HORLA uy de Maupassant, contista francês, no curso de sua do-
EN¥AMENTALPROVOCADAPELASÓlLIS ESCREVEUUMASEGUNDA
E TORNAR-SE A TERCEIRA versão do seu conto “O Horla”, acentuando a verossimi-
lhança e, como em um diário, contando o seu estado de
PESSOA QUE PODE enlouquecimento. O escritor nasceu em 1850 e, ao terminar esse
DISTINGUIR O EXERCÍCIO conto, tentou suicídio, foi internado num hospício e veio a falecer
aos 43 anos, um ano depois do seu internamento.
DA PRÓPRIA RAZÃO, h/ (ORLAv  LINGUISTICAMENTE  SIGNIlCA PRESENTE  MAS NÎO AQUI 
COMO AFIRMA FOUCAULT, ONDETEMOSEGUINTESIGNIlCADOOQUENÎOESTÉEMMIMNÎOSOU
EU.ARRADONAPRIMEIRAPESSOA OCONTOTRAZCOMOPERSONAGEMUM
É A FORMA DE PERCEBER cidadão que convive com a presença de uma entidade invisível. Ele
QUE O LOUCO NÃO PODE inicia sua história escrevendo a data como em um diário, admiran-
DOODIAEMOSTRANDOOQUANTOGOSTADACASAONDECRESCEU6AIAOS
SER LOUCO PARA SI MESMO POUCOSMOSTRANDOUMESTADOPROGRESSIVODEDILUI¥ÎODAFRONTEIRA

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entre o que ele é e as formas pelas quais NO SÉCULO XIX, FALTAODESENVOLVIMENTOPLENODOCØRTEX
ele se representa. pré-frontal para lhe permitir encontrar
/NARRADORCONVIVEANGUSTIADOCOM
ÉPOCA EM QUE OBJETIVIDADE EM MEIO ÌS SUAS PAIXÜES
os limites dos sentidos humanos. Diz no 6)6%5-!50!33!.4  Assim, os seus pais precisam fazer o pa-
SEURELATOh.ÎOPODEMOSENXERGARNEM A MEDICINA PASSOU PEL DESSE CØRTEX PRÏ FRONTAL %RASMO DE
os habitantes de uma estrela e nem os Rotterdam, em Elogio da Loucura NOSDIZ
HABITANTES DE UMA GOTA DÉGUA % NOS- A ADMITIR A AMEAÇA h3ØALOUCURATEMAVIRTUDEDEPROLONGAR
SOSOUVIDOSQUENOSENGANAM POISNOS ).6)3°6%,$/3 AJUVENTUDE EMBORAFUGACÓSSIMA EDERE-
transmitem as vibrações do ar em notas tardar bastante a malfadada velhice […].
MICRORGANISMOS
SONORASv %M SEGUIDA  VIAJA PARA OUTRA Baco tem sempre, como um rapazinho, o
cidade e lá presencia a prima submeten- CAUSADORES DE ROSTORUBICUNDOEALONGACABELEIRALOU-
DO SEÌSUGESTÎOHIPNØTICA DOENÇAS. MEDICINA ra? É porque passa a vida fora de si, em-
! SUGESTÎO HIPNØTICA  APLICADA A BRIAGADO NOS BANQUETES  NOS BAILES  NAS
essa prima rica, a faz precisar tomar-
E PSICOLOGIA FESTAS NOSFOLGUEDOS RECUSANDOQUALQUER
-lhe um empréstimo e, com isso, ne- *5.4!3#/-%—!6!- relação com Minerva”.
NHUM ARGUMENTO LØGICO FAZ SENTIDO A CONSIDERAR Outro mito que descreve a loucura
para ela. Convencida dessa necessidade, é o mito de Cassandra. Apolo, cativo à
ela suplica-lhe, sem saber que atende a
/).6)3°6%, JOVEM#ASSANDRA LHEDEUODOMDEAN-
um comando hipnótico do qual não tem TEVERTRAGÏDIASEFAZERPREVISÜES.OEN-
consciência, enquanto ele, que assistiu medo se lhe aparecer um torturador novo, TANTO ABELAJOVEMSENEGOUADEITAR SE
ao transe hipnótico, sabia que não havia POISOANTIGOLHEDÉMAISSEGURAN¥A com o deus. Como punição, Apolo fez
NENHUMA LØGICA PARA ESSE PEDIDO %SSA Para nos darmos conta do nosso com que as pessoas não acreditassem
EXPERIÐNCIAFAZONARRADORASSOCIARTUDO próprio eu, precisamos ter um funciona- na previsão de Cassandra e esta passou
que viu à criatura Horla. MENTO SAUDÉVEL DE NOSSO EGO ! SÓlLIS  a ser vista como louca. Ai de quem for
No século XIX, época em que viveu COM OS SEUS AGENTES MICROSCØPICOS  FOI PREPARADO PARA ENXERGAR MAIS LONGE
Maupassant, a Medicina passou a admi- capaz de produzir uma disfunção no quando as demais pessoas ainda não
TIR A AMEA¥A INVISÓVEL DOS MICRORGANIS- EGODE-AUPASSANTAPONTODEDEIXÉ LO CONSEGUEMACOMPANHÉ LO POISTAMBÏM
mos causadores de doenças. Medicina e em condições de maltratar a si mesmo será um louco. Somos loucos quando in-
0SICOLOGIAJUNTASCOME¥AVAMACONSIDE- e buscar saída na tentativa de suicídio. tuímos uma escolha e insistimos nela
rar o invisível. %M SUA DESCRI¥ÎO  DIZ O PERSONAGEM enquanto os outros em nossa volta nos
Sabemos que há muitas coisas em nós h6IVERCOMALOUCURAÏCOMOSENTIRQUE FOR¥AMASEGUIROUTROCAMINHO
ENOMUNDOEMNOSSAVOLTAQUEINEXISTEM o monstro invisível, como um vampiro, 4ODOS OS DIAS  NESSE MUNDO GLOBA-
PARANØSMESMOS!0SICOLOGIACHAMADE SØSESACIADEPOISQUESUGAAVIDAQUEHÉ lizado, nos deparamos com notícias e
COMPLEXos essas subpersonalidades que, EMMIMEMEDEIXASEMENERGIAEENFRA- PROGNØSTICOS E NÎO SABEMOS O QUANTO
assim como na demonstração hipnótica, quecido”, ou similarmente diz na voz do Cassandra nos amedronta com sua lou-
nos fazem viver sem compreender muitas COCHEIROh!SNOITESMECOMEMOSDIASv CURA.INGUÏMOUVIU#ASSANDRAQUANDO
das decisões que tomamos. Mas à luz da 4OMANDO A MITOLOGIA PARA MELHOR ela previu uma crise econômica, moral,
ANÉLISE  ALGUÏM PODE COMPREENDER POR ENTENDERMOSALOUCURA DESTACOQUEEXIS- ética e institucional nessas dimensões
que sua vida afetiva é sofrida e não repe- tia para os romanos o deus Baco (Dio- NO "RASIL !GORA QUE JÉ ACONTECEU  PRE-
tir o erro em casamentos sucessivos. Ou NÓSIOPARAOSGREGOS QUEREPRESENTAVAA CISAMOSCONTEMPLARSEMPAIXÎOONOSSO
pode resistir a mudar uma vida sofrida por intensidade emocional capaz de dissolver modo de ver os candidatos liderarem a
entender que, como um torturado habitu- os limites do eu. Ele era descrito como nação e evitar sentirmo-nos impoten-
ADOADETERMINADOTORTURADOR lCARÉCOM um eterno adolescente, devorado pelas TESDIANTEDEUM"RASILAINDANOESTÉGIO
emoções e que, por essa razão, vivia em h"ACOv OQUALNÎOSEDÉCONTADEQUEJÉ
BUSCADESEXOOUDROGAS3ABEMOSQUEAO é hora de sair da adolescência e enfrentar
Bola de Sebo cérebro adolescente, ainda incompleto, Minerva, a deusa da sabedoria.
(conto “O Horla”)
Autor: Guy de
Maupassant
Editora: Artes e Ofícios Carlos São Paulo é médico e psicoterapeuta junguiano.
Número de páginas: 96 É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.
carlos@ijba.com.br / www.ijba.com.br
Ano de edição: 2011

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cinema Por Dr. Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

A era da
“pós-verdade”
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SERIADONACIONALDEPRODU¥ÎODA.ETmIXE"OUTIQUE
Filmes estreou recentemente e vem a calhar de for-
ma assustadora com o momento social. O “piloto”
lLMADOEMINSPIROU SENAPRØPRIAVIVÐNCIADE
seus criadores como jovens em um mundo altamente compe-
TITIVOEEXCLUDENTEEQUE INCLUSIVE EMUMPRIMEIROMOMENTO
disse não para a produção.
#HEGAAOESPECTADOREMUMAÏPOCANACIONALEMQUEAJUVEN-
TUDELUTAMAISDOQUEOSBRAVOSDOROTEIROECONTRAPERIGOSTÎO
REAISEhCONTROLADOSvQUANTO-OMENTONOQUALOMUNDODISCUTE 
ABISMADO DADOSQUEAPONTAMPARAUMPERCENTUALMUITOPEQUENO
DEINDIVÓDUOSQUEDETÐMAGRANDEMAIORIADOSRECURSOSMONETÉRIOS
DOPLANETAEQUE PORTANTO TÐMUMMODODEVIDAMUITOPRIVILEGIA-
DOCOMACESSOABENSECUIDADOS MASAMAIORIADAPOPULA¥ÎONÎO
TEMESSEDIREITOASSEGURADO.ADAMUITOLONGEDOQUEVEREMOSNES-
SAINTERESSANTEPRODU¥ÎO APRIMEIRABRASILEIRADA.ETmIX QUEPARECE
TERCONTADOCOMUMOR¥AMENTOPRØXIMOAOS2MILHÜES OQUE
ÏCOMPATÓVELCOMASPRODU¥ÜESNACIONAIS MASBEMMENOSPOLPUDO
PERTODEOUTRASPRODU¥ÜESBANCADASPELA.ETmIX

-¡2)4/3).%'£6%)3
%MBORANÎOTRAGAUMAGRANDENOVIDADE UMMISTODEFRANQUIAS
como Jogos Vorazes e Divergente  ENTRE OUTRAS MENOS CONHECIDAS 
APRESENTAMÏRITOSINEGÉVEIS!LGUMASCRÓTICASPOSSÓVEISNOSENTIDO
APENASDEALCAN¥ARMAISQUALIDADE PRINCIPALMENTEDEDIRE¥ÎO ELEN-
CO E DUBLAGEM / ROTEIRO ORIGINAL FOI CRIADO EM  POR 0EDRO
!GUILERA COM A PARCERIA DE $AINA 'IANNECCHINI  $ANI ,IBARDI E
*OTAGÉ#REMA EQUEPARAASÏRIECONTA ALÏMDE!GUILERA COMOS
ROTEIROSDE#ÉSSIO+OSHIKUMO  E E*OTAGÉ#REMATODOS 
%SSAPRIMEIRATEMPORADAFOIDIRIGIDAPELOURUGUAIO#ESAR#HARLONE 

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om. br
A série apresenta um mundo
pós-apocalíptico e devastado
em que faltam água, comida,
energia e outros recursos. Aos
20 anos, todo cidadão pode
participar do Processo, uma
seleção para passar para o
Maralto, onde há oportunidades
de uma vida digna

INDICADO AO /SCAR DE MELHOR FOTOGRAlA /$%"!4%¡3/"2%/0%2#%.45!,0%15%./


em Cidade de Deus/PRODUTOREXECUTIVOÏ
4IAGO-ELO QUEACREDITOUNOPROJETO
$%).$)6°$5/315%$%4º-!-!)/2)!$/3
/UTRO FATOR QUE CATIVA NA SÏRIE Ï TER 2%#523/3-/.%4£2)/3$/0,!.%4!%15%
sua trilha sonora composta por uma va- 0/335)5--/$/$%6)$!-5)4/02)6),%')!$/
RIEDADEDANOSSAMÞSICA CADAUMADELAS
MUITOBEMESCOLHIDAPARAASSEQUÐNCIAS  #/-!#%33/!"%.3%#5)$!$/3 -!3!
em alguns momentos comovem tanto 0/05,!—§/.§/4%-%33%$)2%)4/!33%'52!$/
QUANTO OUATÏMAIS QUEACENA COMOOU-
VIR EM DETERMINADO TRECHO %LZA 3OARES RALTO ONDE HABITAM  DISTANTES DA PLEBE  seja aprovada e assim começar a operar o
cantando A Mulher do Fim do Mundo ESSA OSSUPOSTAMENTEMAISCAPAZESQUECOM- movimento contra esse modelo social de
MULHERQUEPORTANTOSANOSTEMMARCADO PÜEMOS%SSEESQUEMASUPOSTAMENTE DENTRODAQUILOQUESEQUERDERRUBAR
a cena nacional por sua ousadia e fortes perfeito como modelo de sociedade foi
POSICIONAMENTOS COMO  POR EXEMPLO  FUNDADOPORUMCASALQUEÏCULTUADOPOR .).(/$%6%30!3
QUANDO CANTA PARA O PÞBLICO A Carne TODOSQUASECOMODIVINDADES PORÏMHÉO h6OCÐÏOCRIADORDOSEUPRØPRIOMÏ-
(Negra) .AS SEQUÐNCIAS PODEMOS TAM- GRUPOQUETENTAROMPERCOMESSEMODE- RITOv  REPETE EM TOM CONDESCENDENTE O
BÏMOUVIRABELAINTERPRETA¥ÎODE-ONI- LOAPARENTEMENTEAVAN¥ADO MASQUENÎO COORDENADORDO0ROCESSO %ZEQUIEL*OÎO
CA3ALMASOE!NDRÏ-EHMARIDAMÞSICA PASSADEUMANOVAFORMADESEORGANIZAR -IGUEL QUECONHECEREMOSODRAMAÓNTI-
Último Desejo DO MESTRE .OEL  ALÏM DO EM CASTAS /S QUE PARTICIPAM DESSE MO- MOQUEVIVEAOLONGODAPRIMEIRATEMPO-
BELOCANTODEABERTURADE-ARCELO0RET- VIMENTODERESISTÐNCIASENOMEIAMCOMO RADASEUPRØPRIOCONmITOALIMENTARÉAINS-
TO3ÎOMOMENTOSMARCANTES h!#AUSAv%NAEDI¥ÎODESELE¥ÎOQUEO TABILIDADEDAQUILOQUEUMMODELOQUESE
3ERÉ QUE ACREDITAR EM UMA SUPOSTA ROTEIRO ABORDA  O MOVIMENTO TENTA INlL- pretende perfeito defende como a melhor
MERITOCRACIA Ï ALGO RAZOÉVEL -AIS DO TRARUMDESEUSMEMBROS ABRAVA-ICHELE VIA/GRUPOQUECONDUZAPARTEPRINCIPAL
QUENUNCAAATUALIDADEPEDEQUESEPEN- "IANCA#OMPARATO PARAFAZERCOMQUE DA TRAMA  ALÏM DE -ICHELE E %ZEQUIEL  Ï
SENISSO SOBORISCODEENTERRARMOSQUAL-
QUERPOSSIBILIDADEDEUMPAÓSOUMESMO
Eduardo J. S. Honorato é psicólogo e psicanalista, doutor em Saúde
DEUMMUNDOMAISJUSTO!PAISAGEMDE
IMAGENS: DIVULGAÇÃO

da Criança e da Mulher. Denise Deschamps é psicóloga e psicanalista.


FAVELA ONDE VIVEM OS  DA POPULA¥ÎO Autores do livro  GG Gd 

ƒ : Participam de
contrasta com o mundo futurístico dos palestras, cursos e workshops em empresas e universidades sobre
este tema. Coordenam o site www.cinematerapia.psc.br
SELECIONADOS PARA PARTIREM PARA O -A-

WWWPORTALCIENCIAEVIDACOMBR PSIQUECIÐNCIAVIDA
COMPOSTOPOR&ERNANDO-ICHEL'OMES  3%2£15%!#2%$)4!2 JÉSEANTECIPAÏOAs Neves do Kilimanjaro
2AFAEL 2ODOLFO 6ALENTE  *OANA 6ANEZA Les Neiges du Kilimandjaro DE2O-
%-5-!350/34!
/LIVEIRA  -ARCO 2AFAEL ,OZANO  !LICE BERT 'UÏDIGUIAN  O QUAL RECOMENDAMOS
6IVIANE 0ORTO  -ATHEUS 3ÏRGIO -AM- -%2)4/#2!#)!¡ COMVEEMÐNCIA
BERTI E.AIR:EZÏ-OTA  !,'/2!:/£6%,
! .ETmIX JÉ DIVULGOU NOTAS SOBRE O '!4),(/3$%$)3#533§/
COMPROMISSO DE PRODUZIR UMA SEGUNDA
-!)3$/15%.5.#! /GRUPODEJOVENSQUECONDUZATRA-
TEMPORADA  NOTÓCIA QUE AGRADOU A QUEM !!45!,)$!$% ma da série representa de certo modo
apreciou a primeira e provocou surpresa 0%$%15%3%0%.3% algumas das principais formas de posi-
EMQUEMNÎOCONSEGUIUVERMUITOSMÏRI- cionar-se frente a esse mundo altamente
TOSNELA/FATOÏQUEPARAUMASÏRIEINI-
.)33/ 3/"/2)3#/ EXCLUDENTE3UASVIDASDIRECIONADASAUM
CIANTEACRÓTICAnETEXTOSEMBLOGSnFOI  $%%.4%22!2-/3 OBJETIVO QUE CUMPREM COMO UM RITUAL 
EMMUITOSCASOS BASTANTEDURA ALGUMAS 15!,15%2 ALGUMASVEZESATÏMACABRO ARESOLU¥ÎO
VEZES POLÓTICA MESMO  REmETINDO ASSIM O do resto de seus dias. Cada um leva para a
VERDADEIRONINHODEVESPASQUEAQUESTÎO 0/33)"),)$!$%$%5- COMPETI¥ÎOTRA¥OSDESUAHISTØRIAAFETIVA 
CENTRALDOROTEIROABORDA%MUMPAÓSQUE 0!°3/5-%3-/$%5- DOABANDONOPORPAISQUESAÓRAMPARAO
SERECUSAAPASSARALIMPOSEUSERROSHISTØ- 0ROCESSOINDOPARAO-ARALTOEMORRENDO
-5.$/-!)3*534/
RICOSEQUESUSTENTAADESIGUALDADESOCIAL NELE AOSQUEVIRAMSEUSPAISRETORNAREM 
COMOUMAQUESTÎODEMÏRITO ASÏRIEPODE GO DIMINUI CONSIDERAVELMENTE  LEVANDO agora tomados pela fatalidade da falta
MESMOSECONSTITUIREMUMAElCIENTEBO- com elas a esperança de uma vida dig- DEESPERAN¥AEDOCONFORMISMO OUTROS 
fetada e em um palco de acirradas dispu- NA DE AMOR E TRABALHO  OS VÓNCULOS VÎO COMO O PAI DE &ERNANDO  SUBLIMANDO O
TASIDEOLØGICAS se formando com um quantum a mais de desamparo em uma espécie de fanatismo
! JUVENTUDE REBELA SE MUNDO AFORA  competitividade e de uma impulsão inve- QUANTOAO0ROCESSO!SNUANCESQUEVE-
PERDIDAEMPERSPECTIVASNADAFAVORÉVEIS JOSA/SUCESSOÏUMABÞSSOLACRUEL AIN- mos na série são muito interessantes se
O mundo atravessa um momento de pro- DAMAISQUANDOPERDEDEVISTAOSENTIDO OBSERVADASÌPARTE PODEMSERBONSGATI-
FUNDAS MUDAN¥AS QUANTO AO MODO DE DEBEM ESTAREPASSASEUNORTEPARAUMA LHOSDEDISCUSSÎOQUEDARÎOVOZAMUITAS
PRODU¥ÎO FALA SEJÉNOQUESERIANOMEA- orientação consumista em um mundo DASANGÞSTIASQUEHOJEATRAVESSAMPRINCI-
DODEUMAŠ2EVOLU¥ÎO)NDUSTRIAL&ATO QUESEDElNECADAVEZMAISPELODESCAR- PALMENTENOSSOSJOVENS MASTAMBÏMÌS
Ï QUE COM A AUTOMA¥ÎO CADA VEZ MAIS TÉVEL  PELA OBSOLESCÐNCIA PROGRAMADA GERA¥ÜESPASSADAS QUEFORAMVENDOSEUS
RÉPIDA E FRENTE A UMA POPULA¥ÎO QUE SØ 5MlLMEMUITOEMOCIONADOQUETOCANO SONHOSCAPTURADOSEESTERILIZADOS
AUMENTA EONÞMERODEVAGASDEEMPRE- EMBATEENTREOMUNDODEANTESEOQUE .AHORADOCLÓMAXDASÏRIEPODEMOS
VERASTESESDE,E"ONTÎOBEMESTUDADAS
POR3IGMUND&REUDPsicologia das Massas
e Análise do Eu    SOBRE SUGESTÎO E
CONTÉGIO  OPERANDO DE FORMA MARCANTE
QUANDOUMGRUPOPERDESUACARACTERÓSTICA
de coletivo e se entrega a um movimento
DEMULTIDÎOBRUTALIZADA%MOUTROSMO-
mentos podemos ver operando muito do
QUEUMDOSGRANDESTEØRICOSSOBREGRU-
POS  7ILFRED "ION  NOMEOU COMO PRES-
SUPOSTOS BÉSICOS  QUE FUNCIONAM COMO
MOMENTOS lXOS QUE GRUPOS COSTUMAM
ATRAVESSAR  DEPENDÐNCIA  ACASALAMENTO 
LUTA E FUGA ! APROXIMA¥ÎO AMOROSA DE
-ICHELEE&ERNANDOEACATEGØRICACREN¥A
QUELHESÏLAN¥ADACOMOMALDI¥ÎODEQUE
NAMOROSQUESURGEMDURANTEO0ROCESSO
NÎOPERMANECEMNAVIDANO-ARALTO/
A meritocracia é a questão principal da série e explorada com uma crítica interessante. A premissa COLETIVOQUESEDESMANCHAEMMULTIDÎO
de 3% é muito atual. Nesse contexto, o sucesso é uma bússola cruel CEGAEEMBURRECIDADEVESERUMAQUESTÎO

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ASERMUITODEBATIDADAQUIPORDIANTESE ->Ú

QUISERMOSENCONTRARALGUMASAÓDASAUDÉ- candidatos são
vel para nossos impasses. aprovados no
.AS GRANDES LIDERAN¥AS QUE AQUELE Processo, que
testa os limites
TIPO DE ORGANIZA¥ÎO POSSUI HÉ UM BELO dos participantes
TOQUE TAMBÏM A RESPEITO DAS MAIS ANTI- em provas físicas
GASFORMASDEPODEREASNOVASQUESUR- e psicológicas e
GEM COM %ZEQUIEL E !LINE  BEM MAIS os coloca diante
AGRESSIVOS QUE .AIR E -ATHEUS  DOS LÓ- de dilemas morais

deres acolhedores e incentivadores indo


DIRETO AOS QUE MOTIVAM A AGRESSIVIDADE
como o tom para alcançar o mais alto
DESEMPENHODACOMPETITIVIDADEEDAEl-
CÉCIA6EREMOSOMODELODEMUNDOQUE
AS ÞLTIMAS GERA¥ÜES FORAM TENDO QUE LI-
DAR QUANTOMAISVELHOSMAISDIFÓCILLIDAR
com essa nova aceleração e pragmatismo
QUESEINSEREMNOATOMAISBANALLIGADO
ÌVIDAEQUE RECONHE¥AMOS ACABAMPOR !0!)3!'%-$%&!6%,!/.$%6)6%-/3
TAMBÏMIMPRIMIROUTRORITMOAOSVÓNCU-
LOS CADAVEZMAISOBJETIlCADOSEMMETAS
$!0/05,!—§/#/.42!34!#/-/-5.$/
ECAPACIDADEINTRÓNSECADEUTILIZA¥ÎO &5452°34)#/$/33%,%#)/.!$/30!2!
0!24)2%-0!2!/-!2!,4/n/.$%(!")4!- 
6!,% 45$/
Nossos concorrentes entendem em al-
$)34!.4%3$!0,%"% /3350/34!-%.4%-!)3
GUMMOMENTOQUEGRUPOSDENTRODOCO- #!0!:%315%#/-0š%-/3
letivo são uma forma de aumentarem suas
CHANCES ESERÉASSIMQUEOENREDOREUNIRÉ superado encontra-se a capacidade do MAIORQUEAMERASOBREVIVÐNCIANENHUM
OSPERSONAGENSPRINCIPAISEMBUSCADESEU aprovado nas etapas anteriores de aceitar DOSLADOSDEVEPERDERESSADIMENSÎOQUE
LUGAR NOS DESEJADOS  %STARÉ VALENDO O PROCESSO DE ESTERILIZA¥ÎO OBRIGATØRIO PODEATÏSERVISTAPARAALÏMDAESTÏTICA 
QUASE  TUDO PARA ALCAN¥AR ESSE OBJETIVO  PARA A PASSAGEM PARA O -ARALTO 4ALVEZ DE UMA ÏTICA #OMO DIZ UMA FRASE QUE
OSAMORES OSLA¥OSCOLABORATIVOS AÏTICA  a infância não possa ser tolerada com seu roda sem autor determinado em bytes
ATÏMESMOAMORALPODERÎOSERhmEXIBILI- caos criativo em uma sociedade cuja as- DASREDESSOCIAISh%MTEMPOSDEØDIOÏ
ZADOSv EM NOME DO INTERESSE MAIOR  UM SEPSIA DE CREN¥AS NÎO INCLUI EMO¥ÜES E PRECISOANDARAMADOv-ICHELEE&ERNAN-
VALE TUDOONDEAARTEIRONIZAAVIDAEMSEU EXPERIÐNCIASIMPULSIVAS REPLETASDECHORO DOTRAZEMAFOR¥ADESSAQUESTÎOh¡QUE
MUNDODENEGØCIOSNAATUALIDADE E GARGALHADAS  DE AMOR E FÞRIA 0OR AQUI AFOR¥AEARIGIDEZSÎOCOMPANHEIRASDA
-AIS AO lNAL lCAREMOS SABENDO QUE ANDAMOSAMEDICÉ LAEMEXCESSO MORTE%ADOCILIDADEEAmEXIBILIDADESÎO
como último degrau de comprometimen- #OMOALERTAVA,AO4SÏ SØAmEXIBI- AMIGAS DA VIDAv&ATO Ï QUE NESTA ERA  JÉ
TO PARA ENTRAREM  OU SEJA  IREM PARA O LIDADEFALADEVIDA OQUEÏRÓGIDOFALADE IRONICAMENTEAPELIDADADEhPØS VERDADEv 
-ARALTO SERÉNECESSÉRIOABRIRMÎODESUA MORTE EESSASÏRIEVEMSUBLINHARISSODE NÎO Ï MAIS TÎO FÉCIL LOCALIZARMOS ONDE
CAPACIDADE REPRODUTIVA n NÎO HÉ CRIAN- FORMABEMASSINADADEVEMOSREJEITARSI- CADA FOR¥A SE ENCONTRA  OS DISFARCES DE
¥ASENTREOSHABITANTESDOLADODELÉ/S MULACROS DE MOBILIDADE COMO PRETENDE uma sociedade perversa são múltiplos e
 QUE VIVEM NA ESCASSEZ SÎO TAMBÏM UM MODELO DE MUNDO TÎO BEM CARICA- VÐMSEMPREEMVOZDOCEEPLENADEPRO-
RESPONSÉVEIS PELA PRODU¥ÎO DE NOVOS IN- TURADOPELOROTEIRO3ERIAMAISPRUDENTE MESSAS%SEHÉALGOQUE%ZEQUIELPERSO-
DIVÓDUOS QUE TERÎO  DESDE O NASCIMENTO  ABRA¥ARMOSAmEXIBILIDADEQUEDAN¥ANOS NIlCABEMÏAVERDADEIMPRECISA DAQUAL
A META DE ALCAN¥AREM AOS  ANOS A IDA corpos vivos e saciados de algo muito até ele mesmo duvida.
PARAOGRUPODOSMAISAPTOS-UITASDES-
SASCRIAN¥ASABANDONADASÌPRØPRIASORTE 
IMAGENS: DIVULGAÇÃO

UMA VEZ QUE SEUS JOVENS PAIS SUMIRAM >Ú: Criado por Cesar Charlone, Pedro Aguilera. Ano de produção - 2016.
ENGOLIDOSPELO0ROCESSO PORÐXITOOUFRA- GhÔ¢?B :"È¢GG9! IhÔI ^‚IG9-:+G^

origem - Brasil
CASSO NELE #OMO ÞLTIMO OBSTÉCULO A SER

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DISTÚRBIO

O QUE HÁ POR
TRÁS DA DISLEXIA?
Um transtorno específico de leitura, que traz dificuldades
na aprendizagem ou desenvolvimento dessa habilidade.
Não se trata de um problema comportamental ou educacional,
ainda que esses possam dificultar a identificação e melhora
Por Renata Mousinho

D
islexia é um transtorno mados de pouco inteligentes ou pouco um gargalo ou funil, limitando o acesso.
específico de leitura, e esforçados, o que se reflete diretamente Além disso, o erro na leitura de enuncia-
disortografia um trans- na motivação e em sua autoimagem. dos pode provocar respostas aparente-
torno específico de Talvez por essa razão existam vários mente sem nexo, o que não aconteceria
escrita. A dislexia vem estudos internacionais mostrando que na linguagem oral. Outro exemplo são
acompanhada da disortografia, mas essa a população com transtornos de apren- os problemas matemáticos, que podem
última pode vir sozinha (ou seja, pro- dizagem que não tem apoio terapêutico, ser um grande desafio, mesmo quando
blema de escrita, mas com leitura ade- familiar e/ou educacional torna-se mais não há dificuldade em cálculo, pois é
quada). Não se trata de uma dificuldade vulnerável à criminalidade, provavel- necessário ler e interpretar a questão. A
comportamental, apesar de ser possível mente pela saída mais precoce do siste- escrita também pode ser um limitador,
que coexista ou apareça em consequên- ma escolar ou pela menor possibilidade visto que nem tudo o que pensa, o que
cia de suas dificuldades escolares. É im- de emprego. Em compensação, aqueles é elaborado mentalmente, consegue ser
portante também destacar que, para ser bem estimulados, com ambiente favorá- explicitado através desse instrumento.
considerado dislexia, o nível de leitura vel e/ou resilientes, apresentam todas as Como se fala no dia a dia: fica difícil co-
não pode ser compatível nem com o ní- possibilidades de desenvolvimento e su- locar as ideias no papel.
vel de leitura de seus colegas que tiveram cesso, apesar de um certo esforço inicial.
as mesmas oportunidades educacionais A questão passa a ser a seguinte: se é Déficit linguístico
nem com o nível do seu próprio desen-
volvimento em outras áreas, como po-
tencial cognitivo, por exemplo. Não cus-
um déficit específico, por que esses estu-
dantes apresentam outras dificuldades?
A leitura, há anos, vem sendo a base do
A dislexia, definitivamente, não tem
origem na má qualidade da educa-
ção. Mesmo em países em que a educa-
ta reforçar que não se trata de um déficit ensino formal. Ela é boa parte do aces- ção apresenta altos índices de sucesso SHUTTERSTOCK

intelectual. O potencial para aprender so à informação, e sua limitação pode a dislexia existe, e apresenta a mesma
está totalmente intacto. atrapalhar o rendimento em outras porcentagem de países onde estes não
As pessoas com dislexia têm consci- matérias. Vale lembrar que não há uma são uma realidade. Trata-se de um déficit
ência das dificuldades que apresentam, dificuldade para aprender. O problema linguístico, fortemente associado a uma
mas não necessariamente do diagnós- é que se o único caminho para o conte- tendência familiar. O processamento
tico. E sofrem muito por isso. A dúvida údo for a leitura, ela pode servir como fonológico está prejudicado, bem como
do que têm, do porquê dessa aparente
limitação, fora as pressões externas, que
fazem com que ele próprio questione Renata Mousinho é professora associada, mestre, doutora e pós-doutora em Psicologia, todas pela UFRJ.
Coordenadora do Projeto ELO: escrita, leitura e oralidade (UFRJ). Autora do livro Dislexia: Novos Temas,
suas possibilidades, impacta muito sua Novas Perspectivas, ao lado de Luciana Mendonça Alves e Simone Capellini (Wak Editora).
autoestima. Não é incomum serem cha-

70 psique ciência&vida www.portalcienciaevida.com.br


Os manuais
diagnósticos
mais modernos
propõem que, para
um diagnóstico
seguro de dislexia,
haja um teste
terapêutico
ou proposta
de resposta à
intervenção (RTI). O
que, em um país de
tanta diversidade
como o nosso,
torna-se ainda
mais importante
seguinte: estratégias na escola para que
todas as crianças consigam aprender (ca-
mada 1), estimulações em pequenos gru-
pos para aquelas que estão apresentando
dificuldades (camada 2). Então, será
possível observar dois grupos: aquele das
crianças que superaram as dificuldades
iniciais (podem ser descartados diagnós-
ticos como dislexia) e aquele com difi-
culdades persistentes, o que pode se con-
firmar como dislexia, e deve seguir para
atendimento especializado (Veja quadro
esquema simplificado de RTI).

Confirmação
P ara confirmar a presença da disle-
xia ou dificuldades similares são
necessárias avaliações clínicas, mas é
possível desconfiar através de alguns
sua relação com o processamento visual. Exatamente por essa razão, os manu- sinais. Tanto na leitura quanto na es-
Mas é claro que uma má qualidade da ais diagnósticos mais modernos, como crita há impasses que fazem parte do
educação prejudica. Ela pode ou poten- o DSM-5, propõem que, para um diag- processo. Mas a persistência deles
cializar as dificuldades dos disléxicos ou nóstico seguro de dislexia, haja um teste pode indicar dificuldade.
causar dificuldades de aprendizagem de terapêutico ou proposta de resposta à in- No caso da leitura, por exemplo,
outra ordem (que podem até parecer em tervenção (RTI). O que, em um país de ler sob esforço no início é comum, mas
um primeiro momento, mas não são ca- tanta diversidade como o nosso, torna-se manter um ritmo muito devagar por
sos de dislexia realmente). ainda mais importante. A proposta é a um tempo prolongado não é esperado.

www.portalcienciaevida.com.br psique ciência&vida 71


DISTÚRBIO

PARA SABER MAIS tal vocabulário mental que foi explicado


acima, o léxico. Mas continuar errando
CARACTERÍSTICAS ao longo da escolaridade, sem que isso
nem cause ao menos alguma estranhe-
za, pode ser um sinal.
Além das questões ortográficas,
sempre considerando que apenas a per-
sistência em padrões anteriores é pro-
blemática, podem existir falhas no nível
da frase, truncadas, sem pontuação ou
sem letra maiúscula iniciando, ou ainda
no nível do texto, que parece restrito se
compararmos com o potencial de lingua-
gem oral e tempo de escolarização.
Crianças sem dificuldade vão ganhan- tes de A, O e U, que têm som diferente A seguir é possível observar um tex-
do fluência progressivamente, o que não de quando colocado antes de E e I. A di- to, na versão digitada, de uma menina
acontece com quem tem dislexia. O es- ficuldade do disléxico não é entender as de 10 anos, filha de professores. É rele-
talo, ou o clique, como alguns chamam, regras, e sim aplicá-las, pois é necessário vante lembrar que o perfil pode ser bas-
não acontece sem uma ajuda adicional. prever o som que vem depois, antes de tante heterogêneo, portanto nem todos
E tem mais: a leitura laboriosa prejudica optar pelo que vem antes. Então, ele apresentarão exatamente os mesmos
secundariamente a compreensão do tex- consegue completar lacunas para com- tipos de erros:
to lido, mesmo que a compreensão oral pletar M ou N antes das consoantes, já “Mamãe agetou (ajeitou) a cossi-
seja boa. Isso acontece porque a criança que as visualiza e conhece a regra. Mas nha (cozinha) e o cão pagunsol (ba-
lê em pedaços, segmentando muito, e no na hora de escrever ele deve recuperar gunçou) A a mamãe gegou (chegou)
final não consegue mais lembrar do que a letra que vem depois, para optar pela na cosinha (cozinha) e viu duto (tudo)
leu. É possível imaginar melhor vendo o que vai colocar antes. Bagusado (bagunçado) e viu o cão ali
quadro Diferença de leitura. Já fazer opções que explicitam di- Bagusado (bagunçando) a mamãe não
ficuldades ortográficas do português, codou (acordou) e Pegol (pegou) o cão
Escrita sem nenhuma regra que explique (um E pretel (prendeu) o cão mais (mas) o

N a escrita há algumas trocas que,


mesmo precocemente, são sinais
de alerta. Não que indiquem 100% uma
som com várias possibilidades de gra-
fia), como X ou CH, por exemplo, de-
manda um tempo ainda maior. Essa
cão coziquil (conseguiu) fugir e vodo
(voltou) Para a cossinha (cozinha)
mais (mas) como a mamãe esdava (es-
dislexia ou disortografia, mas, em alta demora se dá, pois é necessária experi- tava) na cozinha ele não gozegel (con-
porcentagem, sim. E são trocas raras ência de leitura para que se estruture o seguiu) fim”.
para a maior parte dos escolares. Como
exemplo há a substituição entre letras PARA SABER MAIS
que representam os fonemas homorgâ-
nicos, como P/B, T/D, K/G, F/V, S/Z, ESQUEMA SIMPLIFICADO DE RTI
X/J. Mesmo em palavras regulares, s, ou
seja, que se escrevem exatamente comoomo
adas,
se fala, as primeiras a serem dominadas, Intervenção escolar
In
os erros se mantêm. As inversões nasas se-
muns,
quências das letras também são comuns,
especialmente em sílabas mais longas ngas PPequenos grupos de estimulação
(cravo para carvo, por exemplo). III GhGI
‚I
G

As regras ortográficas, que sãoo do-
minadas progressivamente por todos os os
safio
escolares, tornam-se um grande desafio SSomente aqueles
rar, é
para quem tem dislexia. Para ilustrar, eescolares com
ddificuldades
possível falar de M antes de P e B, S–SS
ppersistentes
ou R–RR entre duas vogais ou G e C an-

72 psique ciência&vida www.portalcienciaevida.com.br


Para confirmar a PARA SABER MAIS
presença da dislexia DIFERENÇA DE LEITURA
são necessárias
avaliações clínicas, A mesma frase pode ser lida de forma diferente por dois escolares. No primeiro
caso a criança tem que recuperar sete informações, sendo várias delas pala-
GI  ‚IG
9GI  G G` G:
G9IGG -
mas é possível da, tem que tentar lembrar quase do dobro, sendo que esses 13 segmentos não
perceber alguns È  ‚IG
:$HIGGI GG
` G
GHG 9G-
la de curto prazo, mas que é indispensável para o sucesso de algumas tarefas.
sinais. Tanto na leitura  ‚IG G
^I  G G GhÔ    Ô 

quanto na escrita há  HG
G: ,G
 G I
 G I  G  G
Ô9
impasses que fazem elas passam a entender o que leem quando ouvem, pois o canal auditivo ainda é
IP GG 
GI: G I G GI
parte do processo direto ao léxico, nosso dicionário mental. É quando conseguimos ler de forma
GP IG9I I
HGGGGGI G:
Providências
V alorizar os pontos fortes do aluno
com dislexia (raciocínio científico,
habilidade matemática ou dom artísti-
co, por exemplo) e evitar colocá-lo em
evidência em suas fragilidades, como alização de gráficos ou organogramas tendo em vista que sua leitura é mais len-
ler alto diante do grupo ou colocar sua para auxiliar na compreensão de textos ta. Depois, apenas um prazo mais flexí-
produção de texto em um mural, são ou na organização da informação, o uso vel de prova pode ser suficiente. No que
orientações que parecem ser de senso frequente de recursos visuais, o acesso à diz respeito à escrita, deve-se considerar
comum. Mas, além disso, há condutas informação para além da leitura. Recur- o que é o mais importante para aquela
importantes tanto no que se trata do sis- sos que a família também pode usar em avaliação específica: o conteúdo ou a
tema de avaliação quanto das estratégias casa. Além desses, os horários fora da es- forma. Não parece justo um aluno com
para favorecer a aprendizagem na escola. cola podem ser aproveitados para visita dislexia, que acerte uma resposta, perder
Em sala de aula muitos são os recursos a museus, para assistir a filmes e docu- pontos superiores ao valor de uma ques-
que o professor pode lançar mão. A re- mentários, além de animações sobre os tão, que acertou, por conta de falhas na
assuntos tratados na escola. ortografia. Às vezes, a prova oral pode
Adaptações das avaliações escolares ser mais eficiente como forma de medir
devem ser consideradas, e minimizadas, a aprendizagem de alguns, em determi-
à medida que a criança vai evoluindo. Por nadas disciplinas. Ou seja, por mais que
exemplo, em um primeiro momento, um existam orientações gerais, essas adap-
ledor (alguém que leia a prova para ele) tações são sob medida. Elas não servem
é útil. Mais à frente, ela já poderá ler sua para favorecer um escolar com dislexia,
própria prova (se ouvindo, de preferên- mas para lhe dar as mesmas oportunida-
cia), pedindo auxílio quando necessário, des de seu colega em determinada fase
ŒLedor Œ
Por definição, ledor é aquele que gosta de ler.
e com mais tempo para sua realização, do seu desenvolvimento.

No entanto, é muito mais do que isso. Ledor é REFERÊNCIAS


aquele que empresta aos cegos, deficientes MOUSINHO, R.; ALVES, L.; CAPELLINI, S. Dislexia: Novos Temas, Novas Perspectivas III. Rio de Janeiro:
visuais e outras pessoas com problemas de Wak Editora, 2015.
leitura, por meio de sua voz, a possibilidade AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders9! ‚ 
de leitura de diferentes textos, especialmen- Edition (DSM-V). Arlington: American Psychiatric Publishing, 2013.
te em avaliações, concursos e vestibulares.
KETTERLIN-GELLER, L. R. Knowing what all students know: procedures for developing Universal Design
A função ganha cada vez mais importância
for Assessment. The Journal of Technology, Learning and Assessment, v. 4, n. 2, nov. 2005.
no cenário educacional, em consequência do
MARCHESAN, I.; SILVA, H.; TOMÉ, M. Tratado das Especialidades em Fonoaudiologia. São Paulo: Book
movimento inclusivo na educação. Esse pro-
Toy, 2014.
fissional é fundamental para assegurar acessi-
bilidade aos conteúdos escolares. TALBOT, J. Experiences of the criminal justice system by prisoners with learning disabilities and
123RF


‚I :Prison Reform Trust, 2008.

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DISTÚRBIO

DESVENDANDO

DISL

74 psique ciência&vida
MITOS SOBRE

EXIA EExistem
xistem muitos
desse
muitos eequívocos
desse distúrbio,
quívocos a rrespeito
distúrbio, mas
mas os
os mais
espeito
mais comuns
comuns ssão
ão
questões
questões rrelacionadas
elacionadas à hhereditariedade,
ereditariedade,
123RF

à troca dee lletras


troca d etras e à possível
possível maior
maior
incidência
incidência em
em meninos,
meninos, eem
m função
função do
do
excesso
excesso de
de testosterona
testosterona da
da mãe
mãe
Por Lou
Por Lou de
de Olivier
Olivier

Lou de Olivier é multiterapeuta, psicopedagoga, psicoterapeuta, especialista em Medicina Comportamental,


bacharel em Artes Cênicas e Artes Visuais. Portadora do distúrbio da dislexia adquirida, é precursora da
multiterapia e criadora do método terapia do equilíbrio total/universal. É também dramaturga e escritora.
SHUTTERSTOCK

Recentemente participou como oradora on-line do Congresso de Psicólogos Clínicos Globais, na Malásia,
abordando dislexia adquirida e multiterapia. Site oficial dislexia adquirida: http://dislexiaadquirida.com

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DISTÚRBIO

H
á anos tem sido di-
vulgada uma série de
equívocos sobre dis-
lexia e isso torna não
só o entendimento
falho como confunde os leigos e até
os profissionais que tratam o distúr-
bio. São três os principais mitos, que
precisam ser explicados a respeito do
transtorno: hereditariedade, troca de
letras e a questão da testosterona. Há
alguns meses um programa de TV en-
trevistou supostos especialistas abor-
dando dislexia. Na sequência, muitos
outros veículos de comunicação pas-
saram a abordar o tema e os vídeos na
internet viralizaram. Isso continua A questão da hereditariedade/genética se faz presente em alguns casos de dislexia, mas é importante
repercutindo de forma negativa pelos ressaltar que existem vários outros tipos do transtorno
diversos erros que foram veiculados.
Daí a necessidade de esclarecimento. A identificação da dislexia ocorreu pela
A questão da hereditariedade/
genética tem sido amplamente difun-
primeira vez em 1881, pelo médico alemão
dida. Não se pode negar que exista Oswald Berkhn. O termo dislexia foi
um tipo de dislexia possivelmente oficialmente utilizado por um oftalmologista,
hereditária/genética, que faz com que
algumas famílias sejam propensas ao também alemão, Rudolf Berlin, em 1887
distúrbio, ou seja, se o pai ou a mãe
tem dislexia, os filhos têm mais proba- classificações que dependem, inclusi- te reconhecida pela Ciência da Saúde,
bilidade de apresentarem o problema. ve, da linha de pesquisa adotada pela a partir de 2011/2012. Lamentável
Mas é preciso frisar que este é apenas Neuropsicologia, pela psicopedago- que esse tipo de desconhecimento ou
um dos tipos de dislexia. Há outras gia, pela multiterapia e outras linhas omissão ainda exista.
de pesquisa que classificam os diver- Já em relação à troca de letras, tra-
sos tipos de dislexia. ta-se de outro equívoco que tem sido
De todos os tipos, o que gera mais amplamente difundido, classificando
confusão tem sido o causado por o problema como sendo supostamen-
trauma, ou seja, a dislexia adquirida. te característica da dislexia. Baseado
Essa dislexia quase sempre é renega- em pesquisas, posso afirmar que o
da e, quando citada, geralmente é de distúrbio não provoca troca de letras.
forma equivocada. Em certo debate O que ocorre com o cérebro do dislé-
televisivo, um médico citou fatores xico é uma dificuldade de entender os
ŒConceito Œ que podem causar dislexia adquirida, sinais das letras, ele não identifica o
Como o termo já diz, dislexia: dificuldade mas omitiu o principal que é anoxia que é letra, ele apenas não distingue
ou ausência da aquisição do conjunto de perinatal/hipoxia neonatal. Em 1998, uma letra de outra e acaba não conse-
palavras de um determinado idioma. De
forma simplista pode-se dizer que seja di-
diversos sites de Saúde e/ou Educação guindo ser alfabetizado ou perdendo a
ficuldade na aquisição da leitura. Ou a per- e também meu portal publicaram essa capacidade de leitura, no caso da dis-
da da capacidade de leitura, em casos de pesquisa na íntegra, tanto no Brasil lexia adquirida.
acidentes que causem dislexia adquirida. quanto na Europa, onde se comprova Isso é muito diferente de trocar “p”
Entre tantos dicionários e livros que pre- a aquisição de distúrbios, especifica- por “b” ou “d” por “q”, ou seja lá qual
tendem definir a dislexia, a definição mais
precisa e simples é a de Gutenberg: “di-
mente dislexia e disgrafia, por anoxia. for a troca. Quando uma criança faz
ficuldade de ler e compreender a escrita”. Inúmeras pesquisas fizeram com que essas trocas de letras, o mais provável
a dislexia adquirida fosse oficialmen- é que tenha uma dificuldade auditiva

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PARA SABER MAIS Apesar da
MULTITERAPIA descoberta e do
termo ser citado
U G
GG‚I 
GGG
 G\G G G9G hÔ

G G:UGGG9GG G
I
G

IG
GIGIb I G
:
G
GGI GGI^‚I: HGGPG
 I
G G9
na Alemanha desde
(
I G GG9 ) I G9  G \I IG
 + IGP 9
1881, demorou
G\
GG G9 IG G9H 
GhG9 I
GG9G
GG
GI G- a ser usado em
GIG
GIG9GGG‡GGGˆG P
9‚I P I:
+GGIG
GIGÔ G
GG \I IGPGGIG
G:
outros países,
`GGGGP   I G9GGH 
GI I IG especialmente no

G
9 ‚IG G G
GhGI
GHG:
Brasil, onde,
até algumas
e, ao passar por ditado, escute errado entre doenças imunológicas e imparcia- décadas atrás,
e, na sequência, escreva errado. Pode lidade não direita. No entanto, nenhum
também ser uma dificuldade visual, dos dados acumulados até o momento ainda se intitulava
que a faz inverter letras ou enxergá-las é conclusivo, porque não é claro que “cegueira verbal”
de forma espelhada. Nessa forma de es- as amostras estudadas foram verdadei-
crita espelhada, deve-se citar também ramente representativas. A evidência tar que não havia nenhum dado con-
que é comum a quase todas as crianças neuropatológica, tanto em estudos de clusivo e considerar o fator genético
em fase de alfabetização inverterem le- autópsia em disléxicos humanos e em isentando as características da mãe,
tras e, com a continuidade dos estudos, modelos animais de anormalidades cor- esses estudos americanos foram feitos
passarem a escrever de forma normal. ticais de desenvolvimento, é coerente, em autópsias de humanos disléxicos
Portanto, trocar letras não pode ser mas não um diagnóstico de patologia e em animais e, além da crueldade a
classificado como “dislexia”. imunológica. Mecanismos são discuti- que se expunham animais que sequer
dos porque um sistema imunitário anor- têm o mesmo organismo e reações hu-
Mais polêmica mal poderia, assim, ferir o cérebro em manas, as pesquisas “mais avançadas”

O utro ponto polêmico é no que se


refere à possível maior incidência
em meninos, em função do excesso de
desenvolvimento, com ênfase nas intera-
ções materno-fetais anormais, incluindo
doença autoimune materno e incompa-
nessa época (1982) eram feitas em cé-
rebros de disléxicos mortos. Enquan-
to isso, países como a Alemanha já
testosterona da mãe durante a gestação, tibilidade materno-fetal. Uma origem estudavam casos de pacientes.
o que já há tempos se descartou. Essa genética também possível em que o pa- A teoria do excesso de testoste-
linha de raciocínio iniciou-se em 1982, pel materno é menos significativo”. rona seguiu até que, em 2007, ou-
com a publicação de The Testosterone O que precisa ser frisado e enten- tro estudo – “No relation between
Hypothesis: Assessment since Geschwind dido é que, além do próprio autor ci- 2D : 4D fetal testosterone marker and
and Behan, de Albert M. Galaburda. O
resumo dessa publicação é o seguinte:
“A hipótese de Geschwind propõe uma
interação causal entre imparcialidade
não direita, doenças imunológicas e de-
ficiência, inclusive dislexia, através da
ação intra-uterina do hormônio mascu-
lino (testosterona). Alguns estudos epi-
demiológicos têm apoiado, pelo menos,
uma associação estatística entre os três
traços; outros não têm. As associações
entre distúrbios de aprendizagem e do-
ença imune e entre os transtornos de
IMAGENS: 123RF

aprendizagem e lateralidade direita não A possível maior incidência de dislexia em meninos, em função do excesso de testosterona da mãe
parecem ser mais bem apoiadas do que durante a gestação, já foi descartada por especialistas

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DISTÚRBIO

dyslexia – Boets, Barta b”, de Smedt, as intervenções educacionais que


Berta; Wouters, Janb; Lemay, Katrie- formaram a base do ensino multissen-
na; Ghesquière, Pola (Neuroreport, v. sorial, que, até hoje, são usadas para
18, n. 14, p. 1487-1491, 17 September, ensinar crianças disléxicas.
2007) – publicou o seguinte: “Tem Já em 1951, G. Mahec fez experi-
sido sugerido que os níveis elevados mentos em que percebeu que crianças
de exposição pré-natal à testostero- sem dislexia leram da esquerda para a
na estão implicados na etiologia da direita mais facilmente e crianças dis-
dislexia e seus frequentes problemas ŒComorbidades Œ
Quando dois ou mais distúrbios se mani- léxicas leram na mesma velocidade,
sensoriais. Este estudo examinou 2D: festam no mesmo indivíduo chama-se de independentemente do sentido, e 10%
4D relação dígitos (um marcador de comorbidade. Geralmente, há um distúrbio dos disléxicos leram melhor da direi-
exposição à testosterona fetal) em principal e outro(s) que se desenvolve(m) ta para a esquerda. Isso deu início à
em paralelo. É preciso prestar atenção,
crianças disléxicas e normais de leitu- ideia do hemisfério direito ser maior
pois muitas das comorbidades acabam se
ra. Foram observadas 4D: há diferen- manifestando após algum tempo de trata- nos portadores de dislexia. Essa ideia
ças entre os grupos em 2D. Mas não mento, o que pode representar um proce- seguiria por muitos anos, mas, na ver-
mostraram a relação postulada com dimento errado ou ineficaz. dade, após muitos anos de pesquisas
leitura, escrita, habilidade fonológica, teóricas e práticas, consegui compro-
a percepção da fala, processamento var que o que ocorria com o cérebro
auditivo e processamento visual. Es- na memória visual de palavras e letras. dos disléxicos (assim como de outros
ses resultados desafiam a validade das Lesão cerebral era outra causa distúrbios) era uma maior excitação no
teorias que atribuem um papel proe- muito estudada, mas, em 1925, Sa- hemisfério direito e maior inibição no
minente à exposição à testosterona muel T. Orton escreveu que a dislexia hemisfério esquerdo. E isso nada tinha
fetal na etiologia da dislexia e suas de- não dependia de lesão ou dano cere- a ver com o tamanho dos hemisférios.
ficiências sensoriais. bral. Orton, em parceria com a psicó- Nos anos 70, enfim, entendeu-se
loga Anna Gillingham, desenvolveu a importância da consciência fonoló-
*  gica na dislexia. Como portadora de

A identificação da dislexia ocorreu


pela primeira vez em 1881, pelo Uma das formas
dislexia adquirida, a partir de um afo-
gamento, eu mesma defendia a tese do
médico alemão Oswald Berkhn. O eficientes de se surgimento do distúrbio por meio de
termo dislexia foi oficialmente uti- um acidente em que ocorra diminuição
lizado por um oftalmologista, tam- tratar a dislexia ou ausência de oxigênio no cérebro, o
bém alemão, Rudolf Berlin, em 1887. é a multiterapia. que inclui AVC, anoxia por afogamen-
Apesar da descoberta e do termo ser to, por enforcamento, entre outros.
citado na Alemanha desde 1881, de-
Engloba as
morou a ser usado em outros países, áreas de +GI9GÔ\
especialmente no Brasil, onde, até
algumas décadas atrás, ainda se inti-
tulava “cegueira verbal” e até hoje há
psicopedagogia,
Medicina
S ão diversos os distúrbios que se
assemelham, mas não são disle-
xia. Os mais confundidos são: dis-
quem defenda apenas a causa heredi- Comportamental, grafia – desordem de integração
tária/genética, negando-se a aceitar visual-motora. De origem grega, dys
a evolução das pesquisas de diversos Neuropsicologia, = dificuldade; difícil, e graphos = gra-
profissionais e pesquisadores de disle- entre outras fia, entende-se que é a dificuldade ou
xias no mundo todo. ausência na aquisição da escrita. Ge-
O termo “cegueira verbal” surgiu técnicas de ralmente, o portador de disgrafia é
em 1896, com W. Pringle Morgan, Psicanálise, além desatento, pode tornar-se hiperativo e
que descreveu a “cegueira de palavra o principal é que a dificuldade se es-
congenital”, publicado em British Me-
de arteterapia, tende a todas as formas de escrita (le-
dical Journal. De 1890 a 1900, James musicoterapia, tras, sinais e até desenhos). Por essas
Hinshelwood publicou vários artigos biodança e características, é comum diagnosticar
IMAGENS: 123RF

sobre dislexia e sugeriu que o maior crianças como disléxicas, sendo que
problema no distúrbio era a deficiência psicodrama seu distúrbio é, na verdade, disgrafia.

78 psique ciência&vida
As crianças que reproduzem letras, si- Descrita em 1983 pela psicóloga
nais e desenhos, mas não reconhecem Helen Irlen, a síndrome tem como
ou conseguem ler o que escreveram, manifestações, além da fotofobia,
podem ser consideradas disléxicas. Já problemas na resolução visiospacial,
as que não conseguem nem ler nem dificuldades na manutenção do foco,
escrever devem ser consideradas dis- estresse visual, alteração na percep-
léxicas e disgráficas. ção de profundidade e cefaleias.
Outro caso passível de confusão é Durante a leitura, segundo pa-
a disortografia – dificuldade na expres- cientes, o brilho ou reflexo do papel ŒComo agir Œ
Existem algumas indicações de como se
são da linguagem escrita. A ortografia branco contra o texto causam irrita- deve agir em relação às pessoas disléxi-
é a parte da gramática que ensina a es- bilidade, assim como a luz natural ou cas: não forçar a alfabetização; encaminhar
crever palavras corretamente, portanto fluorescente. Eles possuem ainda sen- a pessoa ao psicopedagogo; incentivar sua
criatividade; o acompanhamento neurológi-
a disortografia é o escrever incorreta- sação de movimentação das letras que
co também é fundamental; e havendo co-
mente. Esse é um distúrbio específico “pulsam, tremem, vibram, confluem morbidades, outros profissionais devem fa-
na aquisição e reprodução de letras (es- ou desaparecem”, e a leitura passa a zer parte da equipe de atendimento, como
crita de um idioma) e diferencia-se da ser fragmentada. Além disso, queixam psiquiatra, psicólogo, fonoaudiólogo etc.
disgrafia, que é generalizada. de insegurança ao dirigir, estacionar,
com esportes com bola ou em outros
' 
I G movimentos, como descer e subir es- samente verificada, devem entender

A síndrome de Irlen (S.I.), por sua


vez, é uma alteração visuopercep-
tual, causada por um desequilíbrio da
cadas rolantes.
A questão da dislexia necessita ur-
gentemente de uma nova abordagem.
que, de suas publicações, surgem re-
publicações, fundamento de teses,
dissertações, TCCs e tudo isso pode
capacidade de adaptação à luz, que pro- Os profissionais tanto pesquisadores perpetuar um equívoco, como tem
duz alterações no córtex visual e déficits quanto clínicos devem ter mais aten- sido por tantos anos a troca de letras
na leitura. A síndrome tem caráter here- ção ao que se publica. Em especial, e outros nessa linha. Cabe também
ditário e se manifesta sob maior deman- os pesquisadores devem perceber a aos profissionais clínicos buscarem
da de atenção visual. importância da informação minucio- boas informações, livros e palestras
de qualidade, sempre questionando as
informações que chegam, de forma a
entender em profundidade os distúr-
bios e suas características. Aos pais e
professores cabe a responsabilidade
de conversar com seus filhos/alunos,
percebendo alterações no comporta-
Outro caso passível de
confusão é a dificuldade mento e/ou na aprendizagem, reco-
na expressão da nhecendo o momento de encaminhar
linguagem escrita. A o indivíduo a um tratamento adequa-
ortografiaé a parte da do às suas necessidades.
gramática que ensina
a escrever palavras
corretamente, portanto REFERÊNCIAS
a disortografia é o Vídeo de Lou de Olivier, abordando os três
escrever incorretamente principais equívocos sobre dislexia: https://
youtu.be/326yylCXxDQ
Vídeo de Lou de Olivier, abordando a dislexia
adquirida: https://youtu.be/mdsj7e7-1nU
OLIVIER, Lou de. R (ebook). São Paulo: e, 2015.
OLIVIER, Lou de. Distúrbios de Aprendizagem
e de Comportamento. Rio de Janeiro: Editora
Wak.
. Transtornos de Comportamento
e Distúrbios de Aprendizagem. Rio de
Janeiro: Editora Wak.

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em contato

O EXAGERO NA MIRA
A Psicologia é mesmo surpreendente. Na edição 132, um dos artigos mostra uma relação direta
entre algumas características comportamentais, que, comumente, são chamadas apenas de vícios.
Então, dependência química, jogo patológico, dependência da internet, o comprar compulsivo e
ATÏMESMOOSEXOEXAGERADOSÎOCLASSIlCADOSCOMOTRANSTORNOSDOEXAGERO%SSEÏUMCAMPOQUE
PROPÜEUMDESAlOIMPORTANTEPARAOSPROlSSIONAISESPECIALIZADOS4ODOSESSESQUADROSCOMPRE-
ENDEMUMTIPODECONmITOENTREOPRAZERNAREALIZA¥ÎODAA¥ÎOEXAGERADAEOPREJUÓZOQUECAUSA
EMFUN¥ÎODESEUDESCONTROLE%ÏPOSSÓVELIDENTIlCARNASOCIEDADEVÉRIASPESSOASQUESEENQUA-
DRAMNOPROBLEMA0ARASETERUMAIDEIA POROBSERVA¥ÎO POSSODIZERQUEÏDIFÓCILENCONTRARUMA
pessoa que não conheça alguém próximo que sofra de uma das formas desse transtorno.
Leandro Quadros, por e-mail

4%-15%#/22%2 MATOU DEZENAS DE PESSOAS  A SOCIEDADE  !0SICOLOGIA0OSITIVAFAZCOMQUEOLADO


E não é que a ciência vem provando, ao em geral, se relaciona mais com o medo, SAUDÉVEL E BOM DO INDIVÓDUO SEJA LEVADO
longo dos anos, que a saúde do cérebro a constatação do sentimento de fragilidade a sério, sempre, é claro, com os parâme-
também depende do exercício físico? A da vida, a impotência e a revolta. Acredito, TROSQUEACIÐNCIATRAZ%HOJEMEPARECE
CORRIDA  ESPECIlCAMENTE  VEM MOLDANDO inclusive, que são sentimentos que surgem QUEHÉUMCENÉRIOBEMPROPÓCIOPARASUA
a evolução do ser humano ao longo dos mesmo em pessoas que não têm nenhuma A¥ÎO POISCOMOSAVAN¥OSTECNOLØGICOSHÉ
anos. O texto que saiu no número 132 da relação direta com as vítimas. Além disso, uma sociedade, especialmente as crian-
Psique mostra bem que, em dado momen- também creio que um tipo de curiosidade ¥AS NASMÎOSDASCHAMADASNOVASBABÉS 
to da evolução humana, a própria seleção MØRBIDA INERENTEÌSPESSOAS FAZCOMQUE como tablets, smartphones e videogames.
natural favoreceu a capacidade das pessoas acidentes com essa magnitude ganhem A consequência é um empobrecimento de
em aguentar longos períodos de estresse muita repercussão na mídia. relações sociais positivas.
cardiovascular. Não no que se refere à po- Selena de Alencar, por e-mail #AROLINA#ASTRO PORe-mail
TÐNCIA OU RAPIDEZ  MAS  SIM  Ì RESISTÐNCIA
Historicamente, estudiosos defendem a "%.%&°#)/3$/2)3/
tese de que os humanos evoluíram em con- A revista Psique provou, na edição 132,
sequência da necessidade de correr longas QUEAFRASEhRIRFAZBEMPARAASAÞDEvNÎO
distâncias em busca de alimentos, o que Ï UMA lGURA RETØRICA 0ODE SER  INCLUSI-
ACABOUADAPTANDOAANATOMIAEAlSIOLOGIA ve, uma forma de terapia para combater
%MRESUMO OMOVIMENTOFOIRESPONSÉVEL inúmeros problemas físicos e emocionais.
por determinar a estrutura e a função ce- %XISTEM DIVERSAS EXPLICA¥ÜES CIENTÓlCAS
rebrais. Portanto, a inatividade e o sedenta- PARAESSESBENEFÓCIOS5MADELASDIZQUE
rismo tornam os humanos doentes física e a sensação provocada pelo bom humor
mentalmente. Parabéns! AJUDANOTRATAMENTODEDOENTES POISFAZ
Sérgio Ricardo Andrade, por e-mail AUMENTAR A SECRE¥ÎO DE ENDORlNA  QUE
é uma substância que relaxa as artérias,
#/-/—§/.!#)/.!, O LADO BOM DA VIDA MELHORAACIRCULA¥ÎOEBENElCIAEREA¥ÎO
Mais uma personagem interessante foi es- *ÉTINHAOUVIDOFALARDA0SICOLOGIA0OSITI- imunológica. Em contrapartida, “pessoas
colhida para a entrevista da revista Psique. VA MASAPENASSUPERlCIALMENTE0ORISSO  mal-humoradas, impacientes, irritadas,
.AVERDADE DESSAVEZ NAEDI¥ÎO NÎO gostei muito do material publicado no nú- CONTRARIADAS  RÓGIDAS E AUTORITÉRIAS ESTÎO
foi uma personagem, mas duas. As especia- mero 132 da revista, que explicou, de for- mergulhadas num processo de tensão,
LISTAS!NA0AULA2EISDA#OSTAE-ANOELA ma mais aprofundada, as características que promove uma grande descarga de
-ICHELLI ESCLARECERAM VÉRIOS ASPECTOS A DESSA LINHA DE PENSAMENTO 4RATA SE DE adrenalina, o que aumenta a predisposi-
respeito de um tema bem difícil de se lidar: UMMOVIMENTOCIENTÓlCO QUEESTUDAFELI- ¥ÎOPARAACIDENTESVASCULARESv EXPLICAO
o luto. Descobri, por exemplo, que frente ao cidade e bem-estar, além de mostrar como texto. Então, o remédio é sorrir sempre e
primeiro impacto de uma tragédia, como implementar esses elementos no cotidia- procurar olhar o lado bom da vida. Sem
a que ocorreu com o voo da delegação NODASPESSOAS5MMÏTODOQUEPRETENDE DÞVIDA FAZBEMPARAASAÞDE
DO TIME DE FUTEBOL DA #HAPECOENSE  QUE ISSOSØPODESERINTERESSANTEEFAZEROBEM !NA#ÏLIA#ORRÐA PORe-mail

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Ano 11 - Edição 133
Ao longo da história, a loucura vem distingue do mal. Ela é o mal, a fonte
Ethel Santaella
GANHANDO CADA VEZ MAIS ESPA¥O NO do pecado, o próprio demônio. Maté- DIRETORA EDITORIAL

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AICIL FRANCO é psicóloga, mestre e doutora em Psicologia KARIN DE PAULA PSICANALISTA DOUTORAPELA05# 30 
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Fenomenológico-Existencial do RJ. )NSTITUTODE0SICOLOGIA0OSITIVAE#OMPORTAMENTO!TUA Lucas Vasques Peña; Luiza Elena L. Ribeiro do Valle; Raquel Jandozza;
em clínica e consultoria. Renata Mousinho; Tiago J B Eugênio; Yago Felipe Hennrich. Revisão:
ANA MARIA SERRA é PhD em Psicologia e terapeuta Jussara Lopes. COLUNISTAS: Anderson Zenidarci; Carla Pereira;
Carlos São Paulo; Denise Deschamps; Eduardo J. S. Honorato;
COGNITIVAPELO)NSTITUTEOF0SYCHIATRY 5NIVERSIDADEDE LILIANA LIVIANO WAHBA, psicóloga, PhD, professora da Eduardo Shinyashiki; Giancarlo Spizzirri; Guido Arturo Palomba;
,ONDRES$IRETORADO)NSTITUTODE4ERAPIA#OGNITIVA)4#  05# 300RESIDENTEDA3OCIEDADE"RASILEIRADE0SICOLOGIA Igor Lins Lemos; João Oliveira; Jussara Goyano; Lilian Graziano;
Marco Callegaro; Maria Inere Maluf; Michele Muller. O Conselho
ATUAEMCLÓNICA FAZTREINAMENTO CONSULTORIAEPESQUISA !NALÓTICA#OEDITORADArevista Junguiana. Diretora de editorial e a Redação não se responsabilizam pelos artigos e
0RESIDENTEHONORÉRIA EX PRESIDENTEEFUNDADORADA!"0# 0SICOLOGIADA3EREM#ENA 4EATROPARA!FÉSICOS colunas assinados por especialistas e suas opiniões neles expressas.

ANDRÉ FRAZÃO HELENE é biólogo, mestre e doutor MARISTELA VENDRAMEL FERREIRA é doutora em Audiologia FALE CONOSCO
EM#IÐNCIASNAÉREADE.EUROlSIOLOGIADA-EMØRIA PELA5NIVERSITYOF3OUTHAMPTONn)NGLATERRA MESTREEM DIRETO COM A REDAÇÃO
REALIZAÇÃO
E!TEN¥ÎOPELA5NIVERSIDADEDE3ÎO0AULO $ISTÞRBIOSDA#OMUNICA¥ÎOPELA05# 30 ESPECIALISTAEM Av. Profª Ida Kolb, 551 Casa Verde – CEP 02518-000
onde também é professor no curso de Biociência e 0SICOTERAPIA0SICANALÓTICAPELO)NSTITUTODE0SICOLOGIADA530 São Paulo – SP – (+55) 11 3042-5900 – psique@escala.com.br
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MÔNICA GIACOMINI, presidente da Sociedade Brasileira de PARA ANUNCIAR anunciar@escala.com.br
Instituto de Biociências.
0SICOLOGIA(OSPITALARnBIÐNIO%SPECIALISTAEM SÃO PAULO: (+55) 11 3855-2179
CLÁUDIO VITAL DE LIMA FERREIRA é psicólogo, SP (CAMPINAS): (+55) 19 98132-6565
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DOUTOREM3AÞDE-ENTALPELA5NICAMP PØS DOUTORADOEM SP (RIBEIRÃO PRETO): (+55) 16 3667-1800
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RJ: (+55) 21 2224-0095 RS: (+55) 51 3249-9368
3AÞDE-ENTALPELA5NIVERSIDADEDE"ARCELONA %SPANHA  e supervisora titular do Aprimoramento em Psicologia
PR: (+55) 41 3026-1175 BRASÍLIA: (+55) 61 3226-2218
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psiquiatria forense por Guido Arturo Palomba

DIAGNÓSTICO
partido em dois
A PATOLOGIA DUAL JÁ CONTA
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AQUI NO BRASIL E EM
OUTROS PAÍSES, A SERVIÇO DA
INDÚSTRIA FARMACÊUTICA

N
OlNALDADÏCADAPASSADANASCEUNA%SPANHAEEM0OR-
tugal a curiosa ideia de que um paciente pode ter dois
diagnósticos principais ao mesmo tempo, por exemplo,
esquizofrenia e toxicomania, epilepsia e alcoolismo,
transtorno depressivo e vício em jogos de azar, transtorno ob-
sessivo-compulsivo e dependência de tabaco, café, comida e daí
por diante. A isso deram o nome de patologia dual. E hoje já é
POSSÓVELIDENTIlCARSOCIEDADESEASSOCIA¥ÜESPROMOVENDOVÉRIOS
eventos em diversos países sobre o assunto. Para se ter uma ideia,
em março de 2017 ocorrerá o primeiro congresso mundial na não se ignora que a maioria dos dependentes de maconha é
Espanha sobre esse tema. Os inventores dessa concepção mos- portadora de disritmia cerebral e usa essa substância empiri-
tram-se, com todo o respeito, totalmente leigos em nosologia, camente para acalmar as manifestações da doença. São maus
que é uma ciência com regras, preceitos e leis, nascida da neces- calmantes? Sim, são, mas ainda assim são calmantes. E se tra-
sidade de organizar racionalmente os sinais e sintomas clínicos tada a causa, o efeito termina. Em outras palavras, dominada a
de uma doença, disciplinando a massa caótica e desorganizada disritmia cerebral o vício em maconha arrefece. E assim ocorre
das inúmeras moléstias e manifestações patológicas existentes. com os outros transtornos mentais. Dominada a ansiedade e
Em outras palavras, a nosologia é uma forma sintética para con- a obsessão-compulsão, com certeza os comportamentos dela
centrar e nominar a essência da moléstia, cujo conceito começou decorrentes amenizam. Não existe patologia dual, mais uma
com Carlo Lineu (1707-1778, pai da taxonomia moderna) e foi se invenção da decadente Psiquiatria contemporânea, em que os
lapidando no correr dos séculos. ataques aos princípios fundamentais da especialidade ocorrem
A proposta da patologia dual é fracionar a doença, e isso por todos os lados, lembrando que já “mataram” a psicopatolo-
BATE DE FRENTE COM O PRIMORDIAL PRINCÓPIO DAS CLASSIlCA¥ÜES  gia, substituída pelos infantis inventários e protocolos, os quais
segundo o qual é preciso colocar o máximo possível de sinais alargam os diagnósticos, a permitir que cada vez mais pessoas
e sintomas clínicos em uma única entidade nosológica e não tenham algum transtorno mental e, consequentemente, a justi-
SUBDIVIDI LOS0ARAEXEMPLIlCAR NOSARAMPOOBSERVA SEINFEC- lCARMAISRECEITASEMAIORVENDADEREMÏDIOS/ATUALACINTEÌ
ção pulmonar, coriza, tosse com catarro, anorexia, conjuntivite nosologia vai no mesmo sentido: agora, em vez de um transtor-
e as características lesões maculopapulares eritematosas. Se o no psiquiátrico, dois.
sarampo passasse pela avaliação dos “médicos duais”, certa-
ARQUIVO PESSOAL/SHUTTERSTOCK

mente uns diriam que o paciente tem transtorno pulmonar e


dermatopatia, enquanto outros acrescentariam transtorno do
apetite e conjuntivite também. Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro
É preciso recordar que muitas doenças e perturbações men- emérito da Academia de Medicina de São Paulo.
tais podem apresentar-se com adições de todo o gênero. Hoje

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