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TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL:
UM CAMPO HISTORICAMENTE

CONTESTADO
MICHAEL REED

Os estudos organizacionais têm ori- a natureza humana foi transformada pela


gens históricas nos escritos de
pensadores organização racional e científica:
do século XIX, como Saint-Simón, que ten-
Organização poder
como forma de
taram antecipar e interpretar as nascentes ~
esta foi a lição ensinada por Saint-Simon.
transformações ideológicas e estruturais A nova ordem seria regida não mais por
geradas pelo capitalismo industrial (Wolin, homens, mas por "princípios científicos"
1961). A modemização instigada pelo des- __
baseados na "natureza das coisas”, e por-
pertar do capitalismo trouxe mudanças eco- tanto absolutamente independente da von-

nômicas, políticas e sociais, que criaram um tade humana. Dessa forma, da


'

a promessa
mundo fundamentalmente distinto daque-
sociedade organizacional predomí-
era o

nio das leis científicas sobre a subjetivida-


le em que imperavam as formas de produ-
de humana, o que levaria ao desapareci-
ção administração
e em' pequena escala, tí-
mento completo do elemento político. (...)
picas das primeiras fases do desenvolvimen-
[a organização] é o "grande instrumento"
to capitalista do século XVIII e princípiodo
para a transformação das irracionalidades
século XIX (Bendix 1974). Entre o fim do humanas em racionais
comportamentos
século XIX e o início do século XX, as gran- (Wolin, 1961 : 378-383).
des unidades organizacionais difundiram-
Assim, as raízes históricas dos estudos
se amplamente, dominando as esferas eco-
organizacionais estão
profundamente inse-
nômica, social e política, à medida que a
ridas em um conjunto de trabalhos que ga-
crescente complexidade e intensidade da
nhou expressão a partir da segunda metade
atividade coletiva inviabilizavam a coorde-
do século XIX, e que antecipava de forma
nação personalizada e direta, e assim exigi- confiante o triunfo da ciência sobre a políti-
am incrementos de
capacidade administra-
ca, bem como a vitória da ordem do pro-
e
tiva (Waldo, 1948). De fato, a ascensão do
gresso coletivos concebidos racionalmente
"estado administrativo" simbolizou um novo
acima da recalcitrância e irracionalídade
modo de organização da sociedade, em que humanas (Reed, 1985).
O crescimento de uma "sociedade
organizacional" representou um avanço
inexorável da razão, liberdade
justiça e e
Tradução:
*
Jader Cristino de Souza Silva e Marcos
da possibilidade de erradicaçãoda ignorân-
Cerqueira Lima.
Revisão Técnica: Frederico Guanais, Marcos cia, coerção pobreza. As organizações fo-
e

Lima Tânia Fischer. racionalmente resolver


Cerqueira e ram projetadas para
฀฀฀฀ 62 PARTE I- MODELOS DE ANÁLISE

conflitos permanentes entre as necessidades ções "formais" "complexas" ou questio- são


coletivas e as vontades individuais que vi- nadàipõí¡ (transformações) /intêlêcfuzñígé
nham obstruindo o progresso social desde institucionais que estão levando-nos à frag-
os dias da Grécia Antiga (Wolin, 1961). As mentação social, à desintegração política e

organizações garantiam a ordem social e a ao relativismo ético. Quem entre nós pode
liberdade pessoal pela combinação entre dar-se ao luxo de ignorar aquilo que Bauman
processos decisórios coletivos e interesses chama de “padrõesde ação tecnológico-bu-
individuais (Storing, 1962), por meio de um rocráticos modernos e a mentalidade que
projeto de bases científicas em que estrutu- estesinstitucionalizam, geram, sustentam e

ras administrativas subjugassem os interes- reproduzem" (1989 75), que


: e consistiram
ses sectários aos objetivos coletivos institu- nos alicerces
psicossociais e nas precon-
cionalizados. O conflito perene entre “socie- dições organizacionais para o Holocausto?
dade" e "individuo" seria permanentemen- Em suma, os estudiosos de organiza-
te
superadocflinquanto Hegel fez uso da ção contemporâneos encontram-se numa

dialética histórica para erradicar o conflito posição histórica e num contexto social em

social (Plant, 1973), os teóricos organi- que as “certezas" ideológicas e os “remen-


zacionais depositavam sua fé na organiza- dos” técnicos que outrora eram o suporte
ção a solução universal “disciplina” estão sendo
l

moderna como para de sua questiona-


o problema da ordem social. dos e aparentemente já começam a recuar

no debate sobre a natureza da organização


Os
organizacionistas viam a socie-
e quais os meios intelectuais mais adequa-
dade como um arranjo de funções, uma

utilitária
dos ao seu estudo (Reed e Hughes, 1992).
construção de atividades integra-
de
meio de focalizar Fundamentar-se em pressupostos que
das, ou um as energias
qualidades racionais éticas são inerentes
esforço combinado. En- e
humanas em um

símbolo
o de comunidade era a à organizaçãomoderna é algo cada vez mais
quanto
fraternidade, o símbolo de organizaçãoera contestado por vozes altemativas que criti-
o poder... organização signiñca um méto- radicalmente bonda-
cam a objetividade e
meio de
do de controle social, um impor de "naturais” das organizações (Cooper e

ordem, estrutura e uniformizaçãoà socie-


Burrell, 1988). Se textos publicados nos
dade (Wolin, 1961 : 343-344).
anos princípio
50 e dos 60 esbanjavam
No entanto, com a compreensão autoconfiança na "identidade intelectual e

conferida pela perspectiva histórica do fi- racionalismo" de sua “disciplina" (Cf. Haire,
naldo século XX, o estudo e a prática de 1960; Argyris, 1964; Blau e Scott, 1963),
organizaçõesjá são muito diferentes de an- nos trabalhos dos anos 80 e 90, predomi-
As trata- nam expectativas incertas, complexas e con-Q
tes.
primeiraskrnetanarrativas que
vam da ordem coletiva e liberdade indivi- fusas sobre a natureza e o mérito dos estu-

dual por meio da organização racional e do dos organizacionais.


progresso material foram fragmentadas e Em termos kuhnianos, vivemos em

dispersas em uma grande diversidade de uma fase de ciência "revolucionária", não


"discursos" sem nenhuma força moral ou mais em uma fase de ciência “normal"
coerência analítica (Reed, 1992). A prome- (Kuhn, 1970). A ciência normal é domina-
tida garantia dêfprogresso
material e social da pela atividade de resolver problemas e

por meio do incremento tecnológico contí- por programas de pesquisa incremental, re-

nuo, organização
da moderna da admi-
e alizados com base em modelos teóricos

nistração científica hoje em amplamente aceitos fortemente


dia parece
e cada institu-
vez mais distante. ÃEQLLÉQEQrÇÍCLVidaQeter;- cionalizados (Lakatos e Musgrave, 1970).
nica quanto a virtude moral das organiza- Já a ciência revolucionária ocorre quando
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO

os “pressupostoscomuns" sobre
objeto. o de ração paradigmática”por meio do desen-

estudo, os modelos de interpretaçãoe o pró- volvimento intelectual separado e do estí-


conhecimento estão a critica mulo a abordagens distintas dentro de do-
prio expostos
e reavaliaçãocontinuas (Gouldner, 1971). mínios diferentes, que não foram contami-
A pesquisa e a análise são moldadas pela nados pelo contato com as perspectivas com-

busca de anomalias e contradiçõesdentro petitivas (Morgan, 1986; Jackson e Carter,


de um modelo teórico prevalecente, geran- 1991). Essa reação à mudança so-'

do uma dinâmica intelectual interna de con- cial e sublevação intelectual fornece susten-

flitos teóricos. Significa que tal disciplina é tação teórica para “experimentações lúdicas
avassalada por conflitos internos e desacor- sérias" em estudos organizacionais, nos

dos sobre fundamentações ideológicas e quais a ironia e humildade do pós-moder-


epistemológicas; seus vários defensores ha- nismo substituem as obviedades sagradas
bitam e representam “mundos" paradigmá- que caracterizam o modernismo racional,
ticos diferentes, entre os quais a comunica- incapaz de perceber que "a verdade objeti-
ção, e muito menos a mediação, tornam-se va não é o único caminho possível” (Gergen,
impossíveis (Kuhn, 1970; Hassard, 1990). 1992).
A fragmentação e a descontinuidade tor- Se nem o conservadorismo, nem o

nam-se as características predominantes da relativismo agradarem, uma terceira opção


identidade e da rationale do campo de es- é recontar a história da teoria organizacional
tudos, ao invés da estabilidade e coesão que deforma a redescobrir as narrativas anali-
caracterizam a "ciência normal" (Willmott, ticas e os discursos éticos que moldaram seu

desenvolvimento e legitimaram sua essên-


1993).
Uma forte estratégia de reação ao im- cia (Reed, 1992; Willmott, 1993). Tais abor-
resultante'da dagens questionam tanto o retorno às ori-
pacto divisor quebra com a

ortodoxia funcionalista/positivista é a bus- gens quanto a celebração irrestrita da des-


ca nostálgica das certezas do passado e do continuidade e diversidade: nem a adesão
conforto consensual que elas garantiam à onda relativista nem o recuo aos porões
(Donaldson, 1985). Essa "reação conserva- da ortodoxia parecem futuros atraentes para
dora" pode também requerer um consenso o estudo das organizações. primeiro pro- O
den- mete liberdade intelectual ilimitada, mas ao
politico rigidamente imposto Vigiado e

tro do campo, com o fim de reparar o teci- custo do isolacionismo e da fragmentação;


do intelectual danificado por décadas de o segundo recai em um consenso antiqua-
lutas internas e restabelecer a hegemonia do, sustentado por constante vigilância e

teórica de determinado paradigma de pes- controle intelectuais.

quisa (Pfeffer, 1993). Tanto a forma "nos- Este capítulo adota a terceira via. Seu
é história do desen-
tálgica" quanto a “política" de conserva- objetivo reconstruir a

dorismo têm por objetivo resistir às tendên- volvimento intelectual da teoria organiza-
desencadeadas luta cional de forma a balancear contexto social
cias centripetas pela
intelectual e promover o retorno à ortodo- com idéias teóricas, bem como condições
xia teórica e ideológica. Uma combinação estruturais com inovação conceitual. Essa

robusta de “volta às raízes” e "imposição forma de pensar oferece a possibilidade de


de visão
paradigmática”pode ser uma opção bastan- redescobrir e renovar um senso

te atrativa para aqueles que se sentiram per- histórica e de sensibilidade contextual que
dão crédito à às
turbados pela fermentação intelectual que tanto "sociedade" quanto
ocorre nos estudos organizacionais. “idéias”. A história dos estudos organizacio-
Ao invés da “imposição paradigmá- nais e a maneira como essa história é conta-

tica”, outros acadêmicos buscam a "prolife- da não são representações neutras do que
PARTE I -

MODELOS DE ANÁLISE

se conseguiu passado. fato, qualquer


no De das em ortodoxias aceitas sem reflexão e que
processo de reconstrução histórica que pre- portanto nunca poderão caber inteiramen-
tenda servir de base às visões do presente e te em modelos cognitivos parâmetros
e

do futuro é, na verdade, interpretação


uma conceituais estabelecidos. Contudo, a pro-
controversa e contestada que sempre pode- babilidade de que iniciativas teóricas espe-
rá ser refutada. Portanto, o objetivo deste cíficas sejam convertidas em “mudanças de

capítulo é mapear a teoria da organização paradigmas conceituais” mais significativas


como um campo de conflitos históricos em depende muito de seu impacto cumulativo

que diferentes línguas, abordagens e filoso- nas comunidades e tradições intelectuais


fias lutam por reconhecimento e aceitação. que as mediam e recebem (Willmott, 1993).
A próxima seção examina a criação e Dessa forma, ao passo em que a criação te-

o desenvolvimento da teoria em estudos órica é sempre potencialmente subversiva


atividade inte- do status intelectual, seu impacto é sem-
organizacionais como uma quo
lectual que está necessariamente envolvida pre atenuado por meio das relações conhe-
com o contexto social e histórico em que cimento/ poder existentes e pela "recep-
ela é criada e recriada. Ç capítulo então tividade contextual”, que é conferida a de-
examinará seis modelos interpretativos que senvolvimentos intelectuais específicos sob
estruturaram o desenvolvimento do campo condições histórico-sociais particulares
ao longo do último século, bem como os (Toulmin, 1972).
contextos histórico-sociais em que eles atin- Em suma, a criação de uma teoria é

giram certo grau de predominância intelec- uma prática intelectual situada em dado
tual (sempre sujeita a contestação). A pe- contexto histórico e que está voltada para a

núltima seção considera as exclusões ou construção mobilização


e de recursos ide-
omissões mais significativas que se eviden- ais, materiais e institucionais para legitimar
ciam nessas principais tradições narrativas. certos conhecimentos e os projetos políti-
O capítulo é concluído com uma avaliação cos que deles derivam. O debate teórico está
de desenvolvimentos intelectuais futuros, inserido em contextos intelectuais e sociais
contextualizados dentro das formas narra- que têm um efeito crucial na forma e no

tivas previamente esboçadas. conteúdo das inovações conceituais especí-


ficas, à medida que estas lutam com o obje-

tivo aceitação
de obter dentro da comuni-
A ÓRGANIZAÇÃO DA TEORIA dade em geral (Clegg, 1994; Thompson e
McHugh, 1990). Como afirma Bendix, "um
Essa concepção de teorização organi- estudo das idéias como armas para a gestão
zacional é baseada na visão de Gouldner de de organizações poderia proporcionar um
tanto o produto da melhor entendimento das relações entre
que o
processo quanto
teoria devem ser vistos como um "processo idéias e ações” (1974 : xx).
Isto não significa, contudo, não
de ação e criaçãorealizado
por pessoas num que
período histórico específico" (1980 : 9). A existam bases coletivas reconhecidas que
análise e o debate sobre organizações e o possam ser utilizadas avaliação
para a de
base informações teóri- conhecimentos contraditórios. Em qualquer
organizar com em

cas são resultados de uma combinaçãopre- momento histórico, os estudos organiza-


cária de visão individual com produção téc- cionais sempreforam constituídos por linhas
nica situada dentro de um contexto históri- comuns de debate e diálogo, que estabele-
co-socíal dinâmico. Como tal, a criação teó- ceram os limites intelectuais e oportunida-
rica tem responsabilidade
a de subverter des parajulgamento de novas contribuições.
O julgamento coletivo de velhos
convenções institucionalizadas e petrifica- novos e tra-
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO
ai]
balhos é feito com base identificável práticas
em regras e de
normas procedimentos e
negociadas, das “que geram
quais emergem um voca- seu discurso próprio sobre pro-
bulário e uma gramática da análise científica"
orga- va
(Thompson, 1978 : 205-206).
nizacional. Essa "racionalidade fundamen- Assim, teoria é
a
organizacional sujeita a
tada" (Reed, 1993) pode pecar pela falta de procedimentos metodológicoscomuns, mas
universalidade normalmente
que se associa, que podem ser revisados, por intermédio dos
ainda erroneamente (Cf.
que Putnam, quais modelos e teorias explicativas são ne-
1978), às chamadas ciências hard, mas mes- gociados e debatidos. A interação e contes-
assim ela tação
estabelece tradições
mo um modelo de intelectuais rivais impli-

Tabela
1 Narrativas analíticas em análise organizacional.

Modelo de Problemátíca Perspectivas ilustrativas/ Transições `-[


metanarrativa principal contextuaís
exemplos @5W
interpretativa
É `฀\฀
Racionalidade '
Ordem Teoria Orgamzaçoes classica,
das de Estado
ã §
administraçãocientífica, teoria da guarda-noturno P฀฀฀ É
decisão, Taylor, Fayol, Simon a Estado ã
industrial ,É
gL
Integração Consenso Relações Humanas, neo-RH,
funcionalismo, teoria da
de capitalismo ฀฀Y฀
empresarial ฀=H฀
contingência/sistêmica,cultura a capitalismo do ฀฀>฀
corporativa, Durkheim, Bamard, bem-estar ฀s7฀
l
Mayo, Parsons g
É
e

Mercado Liberdade Teoria da


firma, economia de capitalismo g
É
institucional, custos de transação, gerencial í

teoria da atuação, dependênciade a capitalismo k#


recursos, ecologia populacional, neoliberal g ฀yQ฀
Teoria Organizacional liberal ฀฀฀฀
Poder Weberianos neo-radicais, marxismo de coletivismo i p F
crítico-estrutural,processo de liberal ฀฀i฀`฀L฀
trabalho,
Marx
teoria institucional, Weber, a corporativismo
฀฀$฀฀bL฀
negociado í g
Conhecimento Etnométodo, símbolo/cultura de ฀฀฀฀ ฀฀฀฀
organizacional, pós-estruturalista, industrialismo/ ฀k9฀ ฀฀฀฀
pós-industrialista,pós-fordista/ modernidade l i
modemo, Foucault, Garñnkel, teoria
do ator-rede
a pós- A
฀C฀
industrialismo/
pós-modernidade
Justiça Participação Ética de negócios, moralidade e OB, de democracia
democracia industrial, teoria repressiva
participativa, teoria crítica, a democracia
Habermas
participativa
966 PARTE I- MODELOS DE ANÁLISE

ca a existência de entendimentos negocia- naturalidade do raciocínio calculado tem.

dos e relacionados a dado contexto e situa- raízes históricas e ideológicas bem defini-
ção histórica, que argumentação tornam a das. Há uma tendência a considerar Saint-
racional possível (Reed, 1993). Simon (1958) primeiro o "teórico organi-
Os modelos interpretativos da Tabela zacional", supondo-se ter sido ele, “prova-
1 formam o campo intelectual de conflitos velmente, o primeiro a observar o surgimen-

históricos em que a análise organizacional to dos padrões organizacionais modernos,


se desenvolveu -

um campo que deve ser identificando alguns de seus aspectos dis-


mapeado e atravessado levando-se em con- tíntivos e insistindo na importânciaque eles
sideração inter-relações
as entre os fatores teriam para a sociedade que se formava...
processuais e contextuais em torno dos quais percebeu ele que as regras básicas da socie-
essa área do conhecimento emergiu dade moderna haviam sido profundamente
(Morgan e Stanley, 1993). Esses modelos alteradas, de modo que organizações delibe-
conformaram o desenvolvimento dos estu- radamente concebidas e planejadas viriam
dos organizacionais por pelo menos um sé- a desempenhar um novo papel no mundo"
culo, à medida que forneceram: a gramáti- (Gouldner, 1959 : 400-401). A crença de que
ca por meio da qual narrativas coerentemen- a sociedade moderna é dominada por _uma
te estruturadas podem ser construídas e di- “lógica da organização" é recorrente ao lon-
fundidas; gs recursos simbólicos e técnicos go de toda a história dos estudos organi-
por meio dos quais a natureza da organiza- zacionais, promovendo princípio orga-
o de

ção pode ser discutida; e um conjunto de nização social em


que a função técnica racio-
textos e discursos compartilhados que po- nalmente atribuída a cada indivíduo, grupo
dem ser usados para mediar debates entre ou classe define sua localização socio-
audiências leígas ou especialistas. Tais mo- econômica, seu grau de autoridade e tipo
delos desenvolvem uma relação dialética de comportamento. De acordo com Saint-
com processos históricos e sociais, como Simon, tal lógica fomece uma poderosa de-
formas contestadas e
pouco estruturadas de fesa contra o conflito social e a incerteza
conceitualizar e debater aspectos chaves da política, à medida que estabelece uma nova

organização. Cada um deles é definido com estrutura de


poder baseada
capacidade em

vistas à problemática central em tomo da técnica e na sua contribuiçãopara o funcio-


qual eles se desenvolveram e ao contexto namento adequado da sociedade, e não de-
histórico-social em que foram articulados. rivada de fatores aleatórios ou de mercado,
Essa discussão, portanto, fornece uma apre- ou mesmo de privilégiosde berço.
ciação fundamentada de narrativas analíti- A organização construída racional-
cas estratégicaspor quais meio das o cam- mente na forma de dirigi-
um instrumento
po de estudos organizacionais é constituído do para a solução de problemas coletivos,
enquanto prática intelectual dinâmica, de ordem social ou de gestão está refletida
permeada de controvérsias teóricas e con- nos escritos de Taylor (1912), Fayol (1949),
flitos ideológicos em torno da questão de Urwick e Brech (1947) e Brech (1948). Es-
como a "organização" pode e deve ser. ses trabalhos sustentam que a teoria das
organizações
“tem que ver com a estrutura de coorde-
TRIUNFO no RACIONALISMO
nação imposta sobre as unidades de divi-
são do trabalho de uma empresa... A divi-
Como defende Stretton, “bebemos a são do trabalho é alicerce da
o organiza-
racionalidade desde as primeiras gotas de ção; é, de fato, a razão para que ela exis-
leite matemo" (1969 : 406). Tal crença na ta” (Gulick e Urwick, 1937 : 3).
Os autores citados legitimam a idéia Embora a "era da organização” neces-
de que a sociedade e as unidades organi- sitasse de uma nova hierarquia profissional
zacionais que a constituem serão regidas por para atender às necessidades da sociedade
leis cientificas de administraçãoexcluindo industrial em desenvolvimento, sobrepon-
totalmente valores e emoções humanas do-se aos clamores da aristocracia moribun-
(Waldo, 1948). Princípiosepistemológicos da e dos empresários conservadores, essa
e técnicas administrativas transformam visão anti-democrática
pre- era profundamente
ceitos normativos altamente questionáveis e antiigualitária. Uma concepção determi-
em leis cientificas universais, objetivas, imu- nada por critérios técnicos e administrati-
táveis e portanto incontestáveis. O "indiví- vos de hierarquia, de subordinaçãoe auto-
duo racional é, e deve ser, organizado e ridade perdia espaço em um contexto
institucionalizado" (Simon, 1957 : 101- sociopolítico de agitação inspirada em ide-
102). Os seres humanos tornam-se "maté- ais de sufrágio universal, tanto no ambien-
ria prima" transformada pelas tecnologias te de trabalho quanto na pólis (Wolin, 1961;
,....,_ da sociedade moderna em membros bem Mouzelis, 1967; Clegg e Dunkerley, 1980).
comportados e produtivos da sociedade, A organização racional burocrática era so-

pouco propensos a interferir nos planos de cial e moralmente legitimada como uma

longo prazo das classes dominantes e eli- forma indispensávelde poder organizado,
tes. Portanto, os problemas sociais, politi- baseado em funções técnicas objetivas e

cos e morais podem ser transformados em necessária para o funcionamento efetivo e

problemas de engenharia passíveis de solu- eficiente de uma ordem social fundamenta-


ção técnica (Gouldner, 1971). As organiza- da em autoridade racional-legal (Frug,
ções modernas anunciavam o triunfo do 1984; Presthus, 1975).
conhecimento racional e da técnica sobre a Esses princípios estão profundamente
emoção e o preconceito humano, aparente- embutidos nos fundamentos epistemoló-
mente intratáveis. gicos e teóricos das perspectivas analíticas
Esse modelo impregnou o núcleo ide- que constituem o cerne conceitual dos estu-
ológico e teórico dos estudos organiza- dos organizacionais. A "administração cien-
cionais de forma tão abrangente e natural tífica" de Taylor é direcionada ao permanen-

que sua identidade e influência foram vir- te monopólio do conhecimento organiza-


tualmente impossíveis de serem detectados cional por intermédio da racionalizaçãodo
ou questionados. Como Gouldner (1959) desempenho do trabalho e do design fun-
afirma, o modelo prescreve o "mapa" de cional. Como comenta Merkle:
uma estrutura autoritária em que os indiví-
duos são
“ultrapassando origens suas nacionais e
e grupos obrigados a seguir certas
técnicas, taylorismo tomou-se
o um impor-
leis. Princípiosde funcionamento eficiente tante componente perspectivada filosófi-
e eficaz foram promulgados como um axio- ca da civilizaçãoindustrial moderna, defi-
ma para dirigir todas asprática
formas e de nindo virtude como eficiência, estabelecen-
análise organizacional. Tal modelo fornece, do um novo papel para os especialistas em

assim, uma caracterizaçãouniversal da "re- produção, e criando parâmetros para no-

alidade" de uma organização formal, inde- vos padrõesde distribuiçãosocial" (1980 :

pendentemente de tempo, lugar situação.


e
62). Como ideologia ou como prática, o

taylorismo era extremamente hostil a teo-


Uma vez aceito esse “mapa", legitirnou-se
uma visão de organizações como unidades
rias empresariais das organizações que
enfocassem necessidades .técnicas e de
sociais independentes e autônomas, acima legitimaçãode uma pequena elite (Bendix,
de qualquer avaliação moral ou debate po- 1974; Rose, 1975; Clegg Dunkerley,
e
lítico (Gouldner, 1971). 1980). Como ressalta Bendix,
'68 PARTE 1 -

MODELOS DE ANÁLISE

"as ideologias gerenciais de hoje são dis- à medida forem tratadas elemen-
que como
tintas das ideologias empresariais do pas-
aleatórios, externos
tos e portanto não su-
sado, à medida que primeiras suposta-
as
à
jeitos influência dos processos cognitivos,
mente ajudam o empregador ou seus agen- dos procedimentos
tes a controlar e dirigir as atividades dos organizacionais, e mui-
to menos de seu controle.
empregados” (1974 : 9).
O racionalismo exerceu profunda in-
fluência histórico
princípiosorganizacionais
Os Fayol, de no desenvolvimento e

ainda modificados conceitual da análise organizacional. Esta-


que pela crescente

conscientização que de há uma necessida- beleceu um modelo cognitivo e uma pauta


de de "adaptaçãocontextual e de concilia-
de pesquisas que não
puderam ignora- ser

ção de forças, foram orientados pela neces- dos, mesmo por aqueles que quiseram ado-
sidade de construir de tar uma linha radicalmente diferente
uma arquitetura co-

ordenação e controle que contívesse a (Perrow, 1986). Além disso, tal corrente re-

descontinuidade e o conflito inevitáveis cau- percutiu ideologicamente no desenvolvi-


sados pelo comportamento “informal". A mento político
instituições de e estruturas
teoria organizacional "clássica" fundamen- econômicas durante o princípio e meados

do século XX, tornando as corporações e


ta-se na crença de que a
organização forne- o \

ce o
princípio projeto estrutural
do e valori-
estado político "alcançáveispelo conheci-
za uma
prática de controle operacional, que
mento". O racionalismo forneceu uma re-

podem ser determinados racionalmente e presentação de formasorganizacionais


formalizados antes de qualquer operação. emergentes que legitimaram seu crescente
De fato, a teoria assume a poderio e sua influência como característi-
que opera-
cionalização é decorrência automática da cas inevitáveis em uma trajetória histórica
lógica do projeto e funciona como instru- de longo prazo, por meio de discursos acer-
mento de controle embutido na estrutura
ca da
administração gerência tecnocrática
e

formal da organização (Massie, 1965). racional (Ellul, 1964; Gouldner, 1976). Ade-
Ainda o conceito de Simon mais, ele "elevou" a teoria e prática da ad-
que (1945)
de "racionalidade limitada” e sua teoria de ministraçãoorganizacional de uma arte in-
"comportamento administrativo” se ba- tuítiva para um corpo de conhecimentos i

seiem em uma crítica mordaz ao racio- codificados e analisáveis,tornando possível,


nalismo e formalismo excessivos presentes inclusive, transações com o poderoríssimo
na teoria organizacional capital cultural e com o simbolismo da
e gerencial, suas
idéias também fundamentam-se em uma
“ciência”.
abordagem que entende a escolha racional Considerado nesses termos, o racio-
entre opções claramente delineadas como
nalismo estabeleceu uma
concepção de te-
base da ação social (March, 1988). Essa vi- oria e análise organizacionais como uma_
são reduz o “trabalho
interpretativo", vital tecnologia intelectual em
condições de ofe-
bom recer um
para o
desempenho de atores indivi-
duais e organizacionais, a um mero proces- "mecanismo capaz de tomar a realidade
so de cognição dominado
por regras e pro-
passível de manipulação por certos tipos
gramas operacionais padronizados. É notá- de ação (...) ; o racionalismo envolve o pro-
vela exclusão de variáveis importantes cesso de circunscrever a realidade nos cál-
como
política, cultura, moral e história do mode- culos governamentais, por meio de técni-
lo da "racionalidade limitada”. Essas variá-
cas materiais relativamente mundanas"
veis tomam-se analiticamente (Rose e Miller, 1990 : 7).
marginaliza-
das, forem dos parâmetros
omitidas
"organização"
se A torna-se ferramenta
conceituais do modelo preferido de Simon, ou instrumento autorizar
para e realizar
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO 69
à»,

objetivos coletivos por meio do desenho e integração social e as


implicações desse fato
do gerenciamento de estruturas voltadas à para a manutenção da ordem social em um
administraçãomanipulaçãode e
comporta- mundo mais instável e incerto. Essa forma
mentos organizacionais. A tomada de deci- de abordagem permaneceu cega às críticas
sões organizacionais apóia-se em uma aná- de que a autoridade não é eficaz sem “coo-
lise racional das opções disponíveis, com peração espontânea intencional” ou
base conhecimento
em
qualificado e deli- (Bendix, 1974). Os críticos, apreensivos com
beradamente orientado pelo aparato legal o alto grau de racionalismo, enfatizavam a
estabelecido. Essa "lógica das organizações" necessidade prática e teórica de uma base
torna-se garantia de avanço
material, pro- alternativa autoridade
para o poder e inves-
gresso social e ordem politica nas socieda- tidos ao gerencialismo pelo projeto orga-
des industriais modernas, à medida que elas nizacional. O pensamento organicista preo-
convergem para um padrão de desenvolvi- cupava-se também com a maneira como as
mento institucional e capacidade adminis- organizações modernas combinam autori-
trativa em que a "mão invisível do merca- dade com um sentimento de comunidade
do" foi sendo gradualmente substituída pela entre seus membros.
"mão visível da organização".
A missão da organização é não ape-
A despeito do fato de estar presente nas prover bens e serviços, mas também
nos primórdiosdo desenvolvimento da teo-
ria organizacional,
criar ocompanheirismo. A confiança do
o modelo racional nun- autor moderno no poder da organização
ca teve domínio ideológico e intelectual deriva de uma crença mais ampla, de que
completo. Sempre foi contestado por linhas a
organização é o caminho para a reden-
alternativas. Os contestadores freqüente- ção humana frente a sua própria mortali-
dade...
mente compartilhavam o projeto político e Na comunidade e dentro das orga-

ideológico do modelo racional, que consis- nizações, homem moderno


o elaborou
te em descobrir uma nova fonte de autori- objetos politicos em substituiçãoaos obje-
tos de amor. A busca pela comunidade
dade e controle dentro dos processos e es-
buscou refúgio na noção do homem como
truturas organização moderna, porém
da
um animal político; a adoraçãoda organi-
usavam discursos e práticasdiferentes para zação foi parcialmente inspirada na espe-
alcançá-las. Em particular, muitos viam a rança de encontrar uma nova forma de
inabilídade de lidar com o dinamismo e ins- civilidade (Wolin, 1961 : 368).
tabilidade de organizaçõescomplexas como
é
uma das maiores falhas do modelo racio-
Esta questão uma emer- central na

gência perspectiva
da da escola de relações
nal. Esse senso crescente limitaçõesprá-
de
humanas na análise organizacional, que
ticas e conceituais e a natureza utópíca do
embora trate dos mesmos do
problemas
projeto político que o modelo racional sus-
modelo racional, fornece para estes soluções
tentava deram espaço para que o pensarnen- distintas.
to organicista prosperasse onde antes as for-
mas de discurso mecanicista monografia Administraçãoe o tra-
A
predominavam. balhador (Roethlisberger e Dickson, 1939)
e os escritos de Mayo (1933; 1945), por-
tanto, acusam a tradição racional de igno-
REDESCOBRINDO A COMUNIDADE rar as qualidades naturais e evolucionárias

das novas formas sociais geradas pela in-


questões que
As deixavam os cri'- mais dustrialização. Toda a força da escola de
ticos perplexos, a partir dos anos 30 e 40, relações humanas vem da identificaçãodo
eram a incapacidade da organização isolamento social e dos conflitos como sin- '

racionalística em resolver problemas de tomas de uma patologia social. A “boa" so-


70 PARTE I- MODELOS DE ANÁLISE
L
.......... ฀฀฀฀ ............ ._

são de forma embrioná-


ciedade e a organização eficaz antecipada, que aquelas ainda
de facilitar e sustentar a realidade ria, por Roethlisberger e Dickson, que fa-
capazes
sociopsicológica de cooperação espontânea lam da organização industrial como um sis-
e estabilidade social em face de mudanças tema social operante que busca o equilíbrio
econômicas, políticas tecnológicas que
e em um ambiente dinâmico (1939 z 567).
integração do indivíduo do Essa concepção é influenciada pela teoria
ameaçam a e

dentro de uma comunidade mais dos sistemas sociais equilibrados de Pareto


grupo
taxas
ampla. (1935), em que as disparidades nas

Ao longo de vários anos, essa concep- de mudança sociotécnica e os desequilíbrios


são
ção de organizações como unidades sociais que estas trazem aos organismos com-

intermediárias que integram os indivíduos pensados automaticamente por respostas


à civilização industrial moderna, sob a tu- internas que, ao longo do tempo, restabele-
tela de uma administração benevolente e cem o equilíbrio do sistema.
socialmente hábil, institucionalizou-se de tal
Entende-se as estruturas orga-
modo que começou a desbancar a posição que
homeostática
nizacionais são mantidas e

predominante mantida por exponentes do


espontaneamente. As mudanças nos pa-
modelo (Child, 1969; Nichols,
racional
drões são entendidas como
organizacionais
1969; Bartell, 1976; Thompson e McHugh, conseqüência reações
da cumulativas, não
1990). Essa concepção convergia em teo-
planejadas, e adaptativas às ameaças ao

rias organizacionais com características so-


equilíbrio de todo o sistema. Respostas aos

são
ciológicas e abstratas mais acentuadas, que problemas consideradas mecanismos

detinham afinidade prefe- de defesa gradativamente desenvolvidos,


grande com as
moldados valores estão profun-
rências evolucionistas e naturalistas da es- por que
damente internalizados pelos membros da
cola de relações(Parsons, 1956;
humanas
é
organização. O foco empírico, portanto,
Merton, 1949; Selznick, 1949; Blau, 1955). direcionado a estruturas es-
que emergem
Portanto, em suas origens o pensamento
pontaneamente, sancionadas normativa-
organicista estudos organizacionais ba-
nos
mente na organização (Gouldner, 1959 :

seou-se na crença de que o racionalismo 405-406).


fornecia uma visão extremamente limitada
e freqüentemente enganadora das "realida- Dessa forma, processos emergentes, e

des" da vida
organizacional (Gouldner, não estruturas planejadas, asseguram a es-

Mouzelis, 1967; Silverman, 1970). tabilidade e sobrevivência de longo prazo


1959;
Ela enfatizava a ordem e o impos- controle do sistema.
tos mecanicamente ao invés da integração, Ao final dos anos 40 e começo dos 50,
da interdependência e do equilibrio que essa concepção de organizações como sis-

deveria existir nos sistemas sociais em de- temas sociais voltados para as "necessida-
de integração sobrevivência das
orgânico (cada des" e or-
senvolvimento um com sua

dinâmica própria).“Interferências" por parte dens societárias maiores, das quais elas fa-
tais ziam estabeleceu-se como o modelo
de agentes externos, como projetoo parte,
teórico predominante dentro da análise
planejado das estruturas organizacionais,
sobrevivência do sistema. organizacional. simultaneamente e de for-
ameaçam a
desenvolvidos fun-
organização sistema eram os
A como um so- ma convergente,
cial facilita a integração de indivíduos den- damentos da "teoria geral dos
sistemas",
tro da comunidade mais ampla, bem como originária das áreas da biologia e da fisica
técnico-so- forne-
a adaptação desta às condições (von Bertalanffy, 1950; 1956), o que
inspiração conceitual considerável
ciais de mudança, que freqüentemente ocor- cia para
re de forma volátil. Essa visão é teoricamente o desenvolvimento subseqüenteda teoria de
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO
_w

sistemas sociotécnicos (Miller e Rice,, 1967) valor sobre fins e meios em questões técni-
e das"metodologias de sistemas soft" cas podem
que ser
por "resolvidas" meio de
(Checldand, 1994). Foi, contudo, a interpre- um projeto eficaz de sistema e de adminis-
tação estrutural-funcionalista da abordagem j,
tração. Como indica Boguslaw (1965), essa
sistêmica que assumiu proeminência den- conversão apóia-se em uma fachada teóri-
tro da “análise organizacional" não
e que domi- ca, para dizer utópica, de homo-
naria o desenvolvimento teórico e a pesqui- geneidade de valores; a realidade política
sa empíricadesse campo entre os anos 50 e das mudanças organizacionais, bem como
70 (Silverman, 1970; Clegg e Dunkerley, as tensões e deformaçõesque é
elas geram,
1980; Reed, 1985). O funcionalismo estru- mascarada como pequenos elementos de
tural e sua progênie, a teoria de sistemas, atrito de um sistema que em tudo o mais
forneceram um foco "interno" no projeto funciona perfeitamente. Ela também aten-

organizacional, com uma preocupação “ex- de às necessidades ideológicas práticas


e de
terna" voltada para a incerteza ambiental um grupo ascendente de projetistas de sis-
(Thompson, 1967). A primeira visão temas e administradores que almejam o con-
enfatizava a necessidade de grau mínimo trole absoluto em meio a uma sociedade
de estabilidade e segurança intemas a lon- cada vez mais complexa e diferenciada.
go prazo para a sobrevivência do sistema; a Assim, o entusiasmo geral com que a

segunda expunha as
indeterminações ine- teoria de sistemas pela foi recebida comu-
rentes à ação organizacional tendo em vis- nidade de estudos organizacionais nos anos
ta as demandas ambientais e as ameaças que 50 e 60 refletia uma ampla renascença do
escapam ao controle da organização. ques-
A pensamento utópico, que presumia que a
tão fundamental de pesquisa que emerge análise funcional dos sistemas sociais for-
dessa síntese entre preocupações estruturais neceria fundamentos
os intelectuais para a

e ambientais é o estabelecimento da combi- v


nova ciência social (Kumar, 1978). O pro-
nação entre configuraçõesinternas e condi- cesso de diferenciaçãosócio-organizacional,
ções externas que facilitem a estabilidade e talvez com a ajuda deengenheiros sociais
crescimento da organização a longo prazo especializados, resolveria o problema da
(Donaldson, 1985). ordem social por meio de estruturas que
O funcionalismo estrutural e a teoria evoluem naturalmente, capazes de lidar com
de sistemas também fizeram uma “despo- as crescentes tensões endêmicas entre os

litização" eficaz dos processos de tomada interesses individuais e as demandas insti-


de decisão por meio dos quais se estabelece tucionais. A postura de que a sociedade em

uma adaptação funcional adequada entre a si resolveria o problema da ordem social fi-
organização e seu ambiente. "impe- Certos ava-se em um "pressuposto do campo” de
rativos funcionais", tais como a necessida- que “toda a história da humanidade tem
de de equilíbrio de longo prazo do sistema uma forma característica, padrão, uma um

para a sobrevivência,presumivelmente eram lógica ou significado que permeia a diversi-


impostos a todos os atores organizacionais, dade de eventos aparentemente descone-
determinando os resultados dos projetos xos" (Sztompka, 1993 : 107). A análise fun-
produzidos por seu processo decisório cional de sistemas fornecia a chave teórica
(Child, 1972; 1973; Crozier e Friedberg,
para desvendar os mistérios desse desenvol-
1980). Esse "passe de mágica” teórico rele- vimento sócio-histórico, capacitando os ci-
ga os processos políticos margem à da aná- entistas sociais e organizacionais a prever,
lise organizacional. Ao manter as ressonân- explicar e controlar tanto a sua dinâmica
cias ideológicas amplas mais da teoria de interna quanto suas conseqüências institu-
sistemas, a concepção converte conflitos de cionais. Apesar de essa visão lidar com uma

n
72 PARTE I -

MODELOS DE ANÁLISE
.E

forma de evolucíonismo e funcionalismo lísmo, baseados em tradições intelectuais e

sócio-organizacionalcujas raízes remontam históricas muito diferentes. Antes que as

aos escritos de Comte, Saint-Simon e possamos considerar, contudo, é necessário


Durkheim (Weinberg, 1969; Clegg e adentrar as teorias de organização orienta-
Dunkerley 1980; Smart, 1992), ela só veio das pelo mercado.
alcançar
'

a seu apogeu nos anos 50 e 60, no


trabalho dos cientistas sociais que contribu-
íram para o desenvolvimento da teoria da ENTRA EM CENA o MERCADO
sociedade industrial, e que demonstraram
circunspecção histórica e sensibilidade po- Teorias organizacionais baseadas no

litica muito inferiores às de seus predeces- mercado parecem ser uma contradição, em

sores acadêmicos. termos: se os mercados operam da forma


Conseqüentemente, a ortodoxia fun- especificada pela teoria econômica neoclás-
cionalista/de sistemas, que veio a dominar, sica, ou seja, mecanismos de ajustes perfei-
ou pelo menos estruturar, a prática intelec- tos que equilibram preço e custo, então não
tual e o desenvolvimento das análises há nenhum papel conceitual ou necessida-
organizacionais entre os anos 40 e 60, era de técnica para a existência de "organiza-
apenas parte de um movimento muito mais ção". Como constata Coase (1937) em seu

amplo que ressuscitou os modelos evolu- artigo clássico, se os mercados são perfei-
cionistas do século XIX (Kumar, 1978: 179- tos, então as firmas (e organizações) deve-
190). Na teoria
organizacional, essa orto- riam desenvolver transações de mercado
doxia completou-se teoricamente com o perfeitamente reguladas, baseadas no inter-
desenvolvimento da "teoriacontingên- da câmbio voluntário de informações entre
cia" entre o fim dos anose princípio dos
60 agentes econômicos iguais. Coase foi, con-

70 (Thompson, 1967; Lawrence e Lorsch, tudo, forçado a reconhecer a realidade das


1967; Woodward, 1970; Pugh e Hickson, firmas na condição de agentes econômicos
1976; Donaldson, 1985). Essa abordagem coletivos, aos quais se atribui a “soluçãd”
mostrava todas as virtudes e vícios intelec- para as falhas de mercado ou do colapso do
tuais da tradição teórica de onde buscaram sistema. Como mecanismos de "interna-
sua inspiração ideológica metodológica. e
lização" de trocas econômicas recorrentes,
Ela também reforçava a ética gerencialista as firmas reduzem o custo das transações
que tinha a pretensão de resolver, por inter- individuais por meio de padronização e

médio de uma engenharia social especializa- rotinização, e aumentam a eficiência da


da e um projeto flexível de organização alocação de recursos dentro do sistema de
(Gellner, 1964; Giddens, 1984), os proble- mercado emtotalidade,
sua que à medida
mas institucionais e políticos fundamentais minimizam os custos de transação entre os

das sociedades industriais modernas (Lipset, agentes, os quais, por natureza, descon-
1960; Bell, 1960; Galbraith, 1969). fiam de seus parceiros.
Ainda assim, à medida que os anos 60 Coase, inadvertidamente, faz uso do
avançavam, as virtudes do pensamento modelo racional quando admite que o com-

organicista eram cada vez mais sombreadas portamento é motivado, primariamente,


por seus vícios, especialmente
quando as pelo objetivo de minimizar custos de mer-

realidades sociais, econômicas e políticas se cado e maximizar seus retornos. Tanto a tra-

recusavam a adequar-se às teorias explica- dição racionalista quanto a economicista da


tivas promulgadas por tal narrativa. Mode- análise organizacional são construídas com

los altemativos de interpretaçãojá começa- base na “racionalidade limitada" para 'ex-


vam a emergir para questionar o funciona- plicar e prever a ação social e individual;
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO

ambas apóiam teorias


que reconhecem_a (Williamson, 1990). A tentativa original de
organização em termos de eficiência e efi- Barnard de fornecer uma síntese de organi-
cácia; ambas reverenciam intelectualmente zação como uma concepção sistêmica “raci-
os modelos orgânicos, quando enfatizam a onal" e "natural" dá o fundamento das teo-
evolução "natural" das formas organiza- rias baseadas no mercado, que floresceram
cionais, que otimizam retornos dentro dos nos anos 70 e 80, tais como a análise do
ambientes em que pressões competitivas
as custo de transação (Williamson, 1975;
restringem as opções estratégicas. As teo- Francis, 1983) e a ecologia populacional
rias econômicas da organização também li- (Aldrich, 1979; 1992; Hannan e Freeman,
dam com elementos da tradiçãoorganicista, 1989).
quando organizações
enfocam como um Apesar de haver diferenças teóricas
produto evolucionário e semi-racional de importantes entre duas
essas abordagens,
condições espontâneas e involuntárias particularmente em relação à forma e ao

(Hayek, 1978). As organizações são uma grau de determinismo ambiental do qual


resposta automática e um preço razoável a elas se valem (Morgan, 1990), ambas se
ser pago pela necessidade de se dispor de baseiam em uma série de premissas que
agentes econômicos formalmente livres e compatibilizam formas administrativas in-
iguais, capazes de negociar e monitorar con- ternas com condições externas de mercado
tratos em meio a
transações complexas de por meio de uma lógica evolucionária, que
mercado, que não podem ser acomodadas subordina a ação individual e coletiva aos
em arranjos institucionais existentes. imperativos de eficiência e sobrevivência,
Essas teorias econômicas da organiza- que vão muito além da influência humana.
ção surgiram resposta em às limitações A teoria do transação preocupa-se
custo de
explanatóriase analíticas inerentes às teo- com os ajustes adaptativos
que as organiza-
rias clássica e neoclássica da firma (Cyert e ções precisam fazer para enfrentar as pres-
March, 1963). Elas exigem que se conside- sões de maximização da eficiência em suas
re melhor o problema da alocação de recur- transações internas e externas. A ecologia
sos como um determinante primário do populacional destaca o papel das pressões
comportamento e projeto organizacional competitivas, que selecionam alguns tipos
(Williamson e Winter, 1991). O foco na de organização em detrimento de outros.
"microeconomia organização" (Donald-
da Ambas as perspectivas são baseadas em um

son, 1990; Williamson, 1990), assim como modelo de organização em que seu projeto,
uma do comportamento
teoria da ñrma mais funcionamento e desenvolvimento são tra-
sensível às limitaçõesinstitucionais em que tados como resultados diretos de forças uni-
são conduzidas as transações econômicas, versais, podem não modificadas
que ser pela
encorajaram a formulaçãode uma agenda ação estratégica.
de pesquisa com ênfase nas estruturas de O que fica evidente no modelo do
corporativas administração
de e em seu elo mercado é a falta de qualquer tentativa con-
com as funções organizacionais (William- tínua de abordar a questão do poder social
son, 1990). Esse modelo também se vale da e da intervenção humana. Nem a aborda-
concepção de organização
Barnard sobre gem de mercados/
hierarquias, nem a de
como é
cooperação, "que consciente, deli- ecologia populacional, ou mesmo a "teoria
berada e com fins específicos"(1938 : 4), e liberal das organizações" de Donaldson
.

que somente pode ser explicada como o re- (1990; 1994) se interessam muito pelos
sultado de uma interação complexa entre a meios por meio dos quais a mudança
racionalidade formal e a substantiva ou en- organizacional se estrutura em função de
tre requisitos técnicos e ordem moral lutas de poder entre atores sociais e as for-
74 PARTE 1- MODELOS DE ANÁLISE
l
......... Mwwmwnmmnmwwmím..

mas de dominação
legitimam que eles No entanto, elas
permanecem negligentes
(Francis, 1983; Perrow, 1986; Thompson e quanto à questão das estruturas e lutas de
McHugh, 1990). Essas abordagens tratam poder dentro das organizações,por meio das
a "organização” como sendo constituída de quais respondem
estas a pressões econômi-
uma ordem social e moral em que os inte- cas supostamente "objetivas" e "neutras".
resses e valores individuais e grupais são
simplesmente derivados de uma estrutura
de "interesses e valores do sistema", que não FACES no PODER
se contaminam por conflitos setoriais e lu-

tas de poder (Willman, 1983). Uma vez que Poder continua a ser um conceito que,
esse conceito unitário é considerado inato, embora usado em excesso, é um dos menos

“aceito" como um aspecto “natural" e virtu- compreendidos da análise


organizacional.
almente invisível
organização, poder, da o Ele fornece as bases ideológicas e episte-
-

os conflitos e a dominação podem ser segu- mológicas para uma teoria de organizações
ramente ignorados, tratados como elemen- que contrasta, profundamente, com as nar-

tos "extemos” ao campo de visão analítica e rativas analíticas e modelos interpretativos


de preocupação empírica do modelo. previamente discutidos. O poder propala
Essa forma unitária de conceber a or- uma lógica de organização e do organizar
ganização é inteiramente compativel com enraizada analiticamente em concepções
um contexto político ideológico
e mais am- estratégicas de poder social e intervenção
plo, dominado
por teorias neoliberais de humana que são sensíveis à dinâmica
organização e controle da sociedade, que dialética existente entre as limitações estru-

elevam as "forças impessoais de mercado" turais e a ação social, à medida que molda
à categoria analítica de universalidades as formas institucionais reproduzidas e

ontológicas determinando as chances indi- transformadas pela prática social (Giddens,


viduais e coletivas de sobrevivência (Miller 1985; 1990; Layder, 1994). Ele rejeita o

e Rose, 1990; Rose, 1992; Silver, 1987). determinismo ambiental inerente às teorias
Desde as ideologias neoliberais ou darvvi- organizacionais baseadas no mercado, com

nianas do século XIX (Bendix, 1974) até sua ênfase obstinada nos imperativos de efi-
doutrinas mais recentes que enfatizam a ciência e eficácia que garantem a sobrevi-
“sobrevivência dos mais aptos", todas essas vência de
longo prazo tipos de certos de
teorias defendem a expansão progressiva do organização em detrimento de outros. A

mercado, da racionalidade econômica e da perspectiva do poder também questiona os

iniciativa privada, em detrimento de con- pressupostos unitaristas que são inerentes


ceitos cada vez mais frágeis marginaliza-
e aos modelos racionalista, orgânico e de
dos de comunidade, serviço público preo-
e mercado, pois conceitua a organizaçãocomo

cupações sociais. Por meio da globalização, uma arena de interesses e Valores confli-
as nações e empresas envolvem-se em lutas tantes, constituída pela luta de poder.
cada vez mais acirradas, que terão por Ven- O modelo de poder em análise
cedoras organizações as que e economias organizacional é fundamentado na sociolo-
se adaptarem de forma intensiva às deman- gia de dominação de Weber e na análise da
das do mercado (Du Gay Salaman, 1992;
e burocracia e burocratizaçãoque derivam de
Du Gay, 1994). Assim, teorias organiza- seu trabalho (Weber, 1978; Ray e Reed,
cionais baseadas no mercado tradição
lidam com 1994). Mais recentemente, essa

movimentos cíclicosdentro do próprio con- weberiana tem sido complementada pelas


socioeconômico, político ideológico teorizações
฀฀฀
texto e de poder que se inspiraram no

do qual fazem parte (Barley e Kunda, 1992). interesse de Maquiavel pela micropolítica do
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO

poder organizacional expressão con- e sua manobras táticas que buscam inverter o

temporânea, refletida no trabalho de equilíbrio de vantagens entre os diversos


Foucault (Clegg, 1989; 1994). As análises interesses sociopolíticos (Fincham, 1992),
baseadas em Weber enfatizam o caráter sendo menos convincente quando tenta ex-

relacional do poder como recurso ou capa- plicar os mecanismos organizacionais mais


cidade distribuídos de forma diferenciada e amplos que se institucionalizam como es-

que, seempregado com o devido grau de truturas e retóricasaceitas, retóricas que


habilidade estratégica e tática pelos atores legitimam "associações coordenadas de for-

sociais, produz e reproduz relações hierar- ma imperativa", que são permanentes


e e

quicamente estruturadas de autonomia e menos perceptíveis. Assim sendo, esse

dependência(Clegg, 1989; Wrong, 1978). enfoque mais recente de pesquisa sobre os

Isto leva à priorização das formas institu- processos interação, micropolítica,por


de ou

cionais e aos mecanismos por meio dos quais meio do qual as relações poder
de são tem-

o poder é alcançado, convertido em rotinas porariamente sedimentadas em estruturas

e contestado. A "ênfase está nas restrições de autoridade mais permanentes e estáveis,


mais amplas e nos determinantes do com- desvia atenção para longe
a dos "mecanis-

portamento: poder que


as formas de deri- mos hierárquicosque sustentam a reprodu-
vam de estruturas de classe e propriedade, ção do poder” (Fincham, 1992 : 742).
o impacto dos mercados e profissões, e fi- Esse diálogo entre conceituações de
nalmente a questão do gênero, que vem poder weberianas/ institucionais e maquia-

despertando cada vez mais interesse" vélicas/ processuais levaram a uma compre-
(Fincham, 1992: 742). Assim, a análise ensão muito mais sofisticada da natureza

weberiana da dinâmica e das formas de po- multifacetada relações processos das e de


der burocrático na sociedade moderna en- poder, bem como de suas implicações para
há entre a estruturação das formas
fatiza interação complexa que
a a organizacionais.
racionalização da sociedade e a da organi- A análise de Lukes (1974) das "múltiplas
zação, ambas reproduzindo estruturas facetas do poder" tornou-se o maior ponto
institucionalizadas sob o controle de "espe- de referência para a pesquisa contemporâ-
cialistas" e “peritos" (Silberman, 1993). nea sobre a dinâmica e os resultados do
Essa concepção estrutural ou institu- poder organizacional. diferenciação Sua
cional de poder organizacional foi comple- entre as três faces ou dimensões de poder,
mentada por concentrado
um foco mais
nos ou seja, entre as formas de poder
processos micropolíticos,por meio dos quais “episódicd”,"manipulativo" "hegemônico"
e

o poder é obtido e mobilizado, em oposição (Clegg, 1989), resulta em uma ampliação


ou em paralelo regimes
a estabelecidos e a considerável do programa de pesquisa para
suas estruturas de comando. Essa aborda- o estudo de poder na organização, bem

gem está em forte consonância com o tra- como dos modelos pelos quais o tema pode
balho de Foucault sobre o mosaico das coa- ser abordado.
lizões alianças diagonais
e que mobilizam O conceito "episódico" de poder con-

regimes disciplinares (Lyon, 1994). Nesses centra-se nos conflitos de interesse que se

casos, observam-se práticasorganizacionais observa entre atores sociais identificáveis e

em que o poder "sobre outros" pode ser, seu encontro com objetivos opostos, parti-
mantido temporariamente de uma perspec- cularmente em processos de tomada de de-
tiva “de baixo para cima", ao invés da tradi- cisão. “manipulativa”
A visão concentra-se

cional visão "de cima para baixo". Essa in- nas atividades de “bastidores”, por meio das

terpretaçãoprocessual do conceito de po- quais grupos que já detêm o poder manipu-


der organizacional tende a concentrar-se nas lam o processo de tomada de decisão a fim
PARTE l -

MODELOS DE ANÁLISE

de descartar questões que têm o potencial discursos criam tipos específicos de regimes
de perturbar, ou ameaçar, seu dominio e disciplinares em um nível organizacional ou
controle. A interpretação "hegemônica" setorial que estabelecem mediação uma
o papel estratégico de
enfatiza estruturas entre políticas governamentais estratégicas
ideológicas e sociais existentes ao formar, e centralizadas em agentes de intervenção,
assim limitar, seletivamente, os interesses e por um lado, e a sua implementação tática
valores -

e portanto a ação de atores -

so- dentro de domínios localizados, por outro


ciais em qualquer campo de decisão. À me- (Miller e Rose, 1990; Johnson, 1993; vide
dida que se avança da concepção "episódica" também alguns trabalhos recentes sobre a

para a “manipulativa" e, enfim, "hege- teoria do processo de


trabalho, e.g. Burawoy,
mônica" de poder, ocorre um movimento 1985; Thompson, 1989; Líttler, 1990; e ges-
progressivo de análise e valoração que vai tão da qualidade total, e.g. Reed, 1995;
desde a capacidade humana de constituir Kirkpatrick Martinez, 1995).
e

relações poder,de até o papel dos mecanis- Esse tipo de pesquisa tenta explicar a

mos materiais e ideológicos de determinar decadência de


e quebra estruturas
as estruturas de dominaçãoe controle, por "corporativistas" dentro das economias po-
meio das quais essas relações são institu- líticas e práticas organizacionais de socie-
cionalizadas (Clegg, 1989 z 86-128). Há dades industriais avançadas, à medida que
também uma ênfase crescente na explica- enfoca suas contradiçõesinternas e a inca-
ção das estruturas de nivel “macro" e dos pacidade de
responder a iniciativas políti-
mecanismos que determinam os processos cas e ideológicasexternas, trazidas pela di-
organizacionais pelos quais as lutas de po- reita neoliberal que ressurge (Alford e

der micropolitícas são mediadas. Isto acar- Friedland, 1985 ;


Cerny; 1990; Miller e Rose,
retou uma relativização das práticas orga- 1990; Johnson, 1993). Tal pesquisa também
nizacionais específicas que produzem e re- questiona a coerência analítica e o alcance
produzem formas institucionais. explanatório de um modelo teórico de po-
Alguns pesquisadores (e.g. Fincham, der com capacidade limitada de lidar com

1992; Clegg, 1994; Knights e Willmott, as complexidades materiais, culturais e po-

1989) tentaram contornar esta divisão en- liticas das mudanças organizacionais.
tre a concepção/institucional/estrutural e a

processual/ intervencionista
focalizar as ao

práticas organizacionais genéricas (ainda CONHECIMENTO E PODER


que “localizadas"), por meio das quais al-
guns padrões de dominação e controle são O modelo baseado em conhecimento
mantidos. Eles tentaram combinar o enfoque tem sérias prevenções contra os tendências
weberiano na
reprodução institucional de institucionais e estruturais que caracterizam
estruturas dominação
de abordagem com a os modelos analíticos previamente exami-
de Foucaut das micropráticas que geram nados. Esse modelo rejeita as várias formas
formas mutáveis de poder disciplinar. O de determinismo metodológico e teórico e

ponto focal, tanto em termos analíticos a explanaçãológica “totalizante" na qual os

quanto empíricos, é o discurso que usa o outros se inserem. Ao invés disso, essa abor-
pretexto de “perícia" para estabelecer pa- dagem trata de todas as formas da ação so-
drões particulares de estruturaçãoe controle cial institucionalizada e estruturada como

organizacionais em diferentes sociedades e um temporário


mosaico de interações e

setores (Abbott, 1988; Miller e O"Leary, aliançastáticas, que formam redes mutáveis
1989; Powell DiMaggio 1991; Larson,
e e relativamente instáveis de
poder, tenden-
1979; 1990; Reed e Anthony, 1992). Esses do à decadência e dissolução internas. Ele
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO 77

explica desenvolvimento
o de “sistemas”mo- inerente nem significado expla-
demos da disciplina organizacional e con- natório como entidade ou estrutura
trole governamental como mecanismos ne- generalizável e monolítica. A contingência,
gociados contingentes de poder e relações,
e e não a universalidade,
impera tanto no to-
cujas raízes institucionais estão na capaci- cante ao conhecimento localizado e restri-
dade de exercer gerenciamento efetivo dos to, que torna possível a existência de orga-
meios de produçãode novas nizações, quanto
formas do po- nas relações poder que
de
der em si (Cerny, 1990 : 7). elas geram. O foco da pesquisa encontra-se
Assim, surgem como foco estratégico na “ordem interacional” que produz a orga-
de análise mecanismos técnicos e culturais, nização e os de conhecimentos
estoques por
meio dos
por quais campos particulares de meio dos quais agentes se envolvem em prá-
comportamento humano (saúde, educação, ticas situacionais que constróem as estrutu-
Criminologia, administração) são estabele- ras que reproduzem a
“organizaçãd”
cidos como reservas de mercado para cer- (Goffrnan, 1983; Layder, 1994).
tos especialistas ou
grupos de peritos. Esses Várias abordagens teóricas especificas
mecanismos têm muito maior significado do baseiam-se nessa
orientação geral para de-
que os poderes econômicos e políticos au- senvolver uma agenda de pesquisa para
tônomos, tais como "estado" ou “classe". O análise organizacional que tenha, como in-
conhecimento, e o poder que ele potencial- teresse estratégico, os processos de produ-
mente confere, assumem o papel central,
ção do conhecimento por meio dos quais a
fomecendo a chave cognitiva e os recursos
“Organizaçãd” reproduzida. é A etnome-
representativos para a aplicação de um con- todologia (Boden, 1994), as abordagens
junto de técnicas com que regimes discipli- pós-modernistaspara cultura e simbolismo
nares, ainda que temporários e instáveis, organizacional (Calás e Smircich, 1991;
podem ser construídos (Clegg, 1994). Co- Martin, 1992), a teoria da tomada de deci-
nhecimentos altamente especializados e são neoracionalista (March e Olsen, 1986;
aparentemente esotéricos, que podem, po- March, 1988), a
tgoria rede-ator (Law, 1991;
tencialmente, ser acessados e dominados 1994a) e a teoria pós-estruturalista (Kondo,
por qualquer indivíduo ou grupo com trei- 1990; Cooper, 1992; Gane e Johnson, 1993;
namento e habilidade
necessários(Blackler, Clegg, 1994; Perry, 1994) contribuem, co-
1993), fornecem os recursos estratégicos letivamente, para uma mudança do foco na
para apropriação do tempo, do espaço e da análise organizacional, deslocando-o do ní-
consciência. Assim, a produção,codificação,vel macro de formalização ou institu-
estoque e uso daqueles conhecimentos, que cionalização para um nível micro de análi-
são relevantes regulação compor-
para a do se do ordenamento ou rotinização social. A
tamento social, tornam-se uma questão es- seus diferentes modos, essas abordagens -

tratégica para a
mobilização_ e institu- muitas das quais são representadas nesse

cionalização de uma forma de poder orga- livro (Ver os Capítulos de Calás e Smircich,
nizado que permita o “controle à distância" Clegg e Hardy, e Alvesson e Deetz, neste
(Cooper, 1992). Handbook) tentam
-

reformular o conceito

Retrabalhada dentro dessa problemá- de organização como sendo uma "ordem"


tica, “organizaçãd”torna-se
a
portadora de socialmente construída e sustentada, neces-
conhecimentos sociais, técnicos e de habili- sariamente fundamentada em reservas lo-
dades meio dos
por quais modelos particu- calizadas de conhecimento, em rotinas prá-
lares de relacionamento social surgem e re- ticas e em mecanismos técnicos mobiliza-
produzem-se (Law, 1994a). tipo de "or- dos Esse
por atores sociais em suas interações e

ganização"não tem característica ontológica discursos do dia-a-dia.


PARTE 1 -

MODELOS DE ANÁLISE

Tomados em sua totalidade, os estu- tos locais da vida organização


da os distan-
dos contemporâneos de discursos sobre co- cia, teórica e epistemologicamente, dos te-

nhecimento/poder concentram-se nos me- mas normativos e das questões estruturais

canismos por meio dos quais os membros que formaram desenvolvimento


seu histó-
organizacionais tentam impor ordem à or- rico e sua racionalidade intelectual. Pode-
ganização, gerando redes relacionais dinâ- se dizer, pelo menos, que esse afastamento
micas e ambíguas. Essa abordagem ratifica redefíne, radicalmente, sua "missão intelec-
uma visão de organizações como "a con- tual", distanciando-se de universalidades
densação de culturas locais de valores, po- éticas e de abstraçõesconceituais, ao tem-
der, regras, critério e paradoxo” (Clegg, po em que se aproxima de relatividades cul-
1994 : 172). Esses estudos estão em conso- turais de esquemas
e
interpretaúvosque são,
nância imagens
com preconceitos
as e de inerentemente, resistentes a generalizações
um espírito"pós-industrial” “pós-moder-
ou históricas e teóricas. Contudo, essa mudan-
no", de acordo com o qual a
organização é ça em direção à análise local em organiza-
desconstruída em termos da “tomada de ções e a recusa em enfrentar questões mais
decisão localizada, descentralizada, instan- ideológicas e estruturais não passaram de-
tânea..." de forma que as “transformações e sapercebidas. Vários críticos tentaram

inovações organizacionais acontecem do redirecionar o estudo das organizações para


encontro entre informação interação”
e as formas institucionais e as questões anali-

(Boden, 1994 : 210). Isto está, por sua vez, ticas e normativas que elas levantam.
inteiramente de acordo com as teorias da Um exemplo relativamente óbvio des-
especialização
flexível Sabel, 1984) (Piore e se desenvolvimento é encontrado no “novo
e do capitalismo
desorganizado (Lash e Urry, institucionalismo" (Powell e DiMaggio,
1987; 1994), em que as formas ou estrutu- 1991; Meyer e Scott, 1992; Whitley, 1992,
ras institucionais, consideradas
uma vez Outro pode ser visto no Perry, 1992).
res-
constitutivos da "economia política", dissol- surgimento do interesse pela política eco-
vem-se em fluxos e redes de informações nômica da organização e suas implicações
fragmentadas. para a extensão da vigilância e do controle
Há, contudo, uma dúvida persistente burocráticos na "modernidade tardia", que
quanto ao que está perdido nessa "localiza- se observam na complexa cadeia de formas
ção" da análise organizacional e sua apa- e práticas institucionais (Alford e Friedland,
rente obsessão com o nível micro de pro- 1985; Giddens,
1990; Cemy, 1990; 1985;
cessos e práticas. A dúvida faz essas abor- Wolin, 1988; Thompson, 1993; Silberrnan,
dagens parecerem estranhamente dissocia- 1993; Dandekei; 1990). Por fim, debates
das das questões mais amplas sobre justiça, sobre a perspectiva imediata e de longo pra-
democracia
igualdade, e racionalidade. Per- zo para a democracia e participação
gunta-se: e quanto à preocupação socioló- organizacional dentro de estruturas de con-

gica clássica com os aspectos macroes- trole corporativo, debates estes que se de-
truturais da modernidade (Layder, 1994) e senvolveram em economias políticas domi-
suas
implicações na forma como "devería- nadas por ideologias e práticas neoliberais
mos” conduzir nossas vidas organizacionais? durante as décadas de 80 e 90 (Lammers e

Szell, 1989; Morgan, 1990;Fu1k e Steinfield,


1990; Hirst, 1993) e despertaram o interes-
ESCALAS DE JUSTIÇA se por questões globais
que devem ser obje-
to da análise de organizações.
O refúgio analítico que os estudos Cada um desses campos da literatura
organizacionais buscaram dentro de aspec- levanta questões fundamentais sobre os ti-
TEORJZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO

de
pos controle corporativo predominantes papel estratégico desempenhado pe-
vela o
nas
organizaçõescontemporâneas e em suas las lutas de poder entre atores institucionais
bases de julgamentos morais e politicos so- com o objetivo de controlar "a formaçãoe
bre justiça e imparcialidade, em contraste reforma dos sistemas de regras que guiam
com outros interesses e valores. Essa litera- a ação politica e econômica" (1991 : 28).
tura também reafirma a importância das Ao reconhecer que a geração e a

questões relativas à distribuição institu- implementação de formas e práticas insti-


cionalizada de forças econômicas,politicas tucionais são "repletas de conflitos, contra-
e culturais em sociedades desenvolvidas e dição ambigüidade"
e (1991 : 28), a teoria
em desenvolvimento, que tendem a ser institucional tem, como
preocupação cen-

marginalizadas nos discursos pós-modernis- tral, o processo cultural e politico por meio
tas e pós-estruturalistas,centrados na prá- do qual atores e seus interesses/valores são
tica de interpretaçõese representações lo- institucionalmente construídos e mobiliza-
cais. Essas abordagens reavivam uma con- dos no apoio de certas "lógicas orga-
cepção organização como uma estrutura
da nizacionais" em detrimento de outras. Des-
institucionalizada de poder e autoridade que sa forma, explicaçõesque relacionam o com-
está acima das micropráticaslocalizadas dos desenho
portamento e
organizacional aos.
membros organizacionais. contextos de nivel macro -ganham primazia,
DiMaggio e Powell sustentam que o dado que estes são constituídos por padrões
"novo institucionalismo" representa uma de atividades

"rejeiçãodos modelos de atores racionais, "supra-organizacionais que conduzem no


um interesse instituições
nas como variá- tempo e
espaço
no as vidas materiais dos
veis independentes, uma volta às explica- seres humanos, bem como sistemas
por
ções cognitivas e culturais, e um interesse simbólicos por meio dos quais eles
em propriedades de unidades de análise categorizam atividades suas e lhes confe-
supra-individuais que não podem ser re- rem signiñcado" (Friedland e Alford, 1991:
duzidas a
agregações ou tratadas como 232).
conseqüência direta de atributos ou moti-
vos individuais" (1991 : 8).
Na condição de formas institucio-
nalizadas de prática social, as
organizações
Eles concentram foco
seu na estrutu- são vistas como “estruturas nas quais as
ra organizacional e em práticas encontra-
pessoas poderosas dedicam-se a algum va-
das em diferentes setores institucionais, nos
lor ou interesse", e esse poder "tem muito
"mitos de racionalidade” legitimam que e
que ver com a
preservação histórica dos
rotinizam arranjos predominantes e, final- padrões de valores” (Stinchcombe, 1968 :
mente,
107). Portanto, o posicionamento histórico,
é estru- estrutural contextual dos valores
"nas formas pelas quais a ação e e inte-
turada e a ordem é viabilizada por siste- resses de atores coletivos, e não sua
mas compartilhados de regras que, por um
(re)produçãolocal por meio de práticas de
lado, restringem a capacidade e propen- nível micro, surgem como a prioridade ana-
são dos otimizar
atores em recursos e, por lítica e explicativa para a teoria institucio-
outro,privilegiam alguns grupos cujos in-
nal'.
teresses estão assegurados por incentivos
Esse foco no desenvolvimento históri-
e
punições" (1991 : 11).
co e na
contextualizaçãoestrutural de or-
ênfasepráticas que penetram
Sua nas
ganizações, caracteristico do "novo insti-
as estruturas e processos
organizacionais -

tucionalismo", está refletido em um traba-


tais como a classe
o Estado,
social, e recei- lho recente sobre as
mudanças capaci-
na
tas das profissõese indústrias/ setores re- dade de “vigilância controle" das organi-
-

e
PARTE l MODELOS DE ANÁLISE

zações modemas que, como sugere Giddens, teórico, uma vez que a percepção de amea-

tem o tema da "reflexividade institucional" ça à liberdade representada pelas formas


como seu objeto de estudo estratégico. Tra- organizacionais burocráticas "modernas" do
início do século XX
'

ta-se da ecoam agora em deba-


tes participação
sobre democracia, e em
institucionalizaçãode uma postura inves-
meio ao regime de vigilância e controle, tão
tigadora que e calculista se interessa por
sofisticado quanto discreto, que emergiu no
condiçõesgenéricas reprodução
de do sis-
ela mesmo estimula e re-
final do século (Webster e Robins, 1993). À
tema; ao tempo
flete um declínio nos meios tradicionais medida que a organização pós-modernator-
de fazer as coisas. Está também associada na-se um mecanismo de controle sociocul-
à geração poder (entendida de
como ca- tural altamente disperso, dinâmico e des-
pacidade transformativa). A expansão da centrado (Clegg, 1990), impossível de ser
reflexividade institucional está por trás da detectado ou combatido, questões que rela-
proliferação de organizações em contex-
cionam responsabilidade politica e cidada-
tos modemos, incluindo organizações de
nia tornam-se tão importantes agora quan-
alcance global (1993 : 6).
to eram há cem anos. Como Wolin (1961 :

A ascensão de formas e práticas 434) elegantemente argumentou, a teoria


organizacionais modernas é vista como in- organizacional e a teoria politica "devem
timamente ligada à crescente sofisticação, novamente ser vistas como a forma de co-

alcance e variedade de sistemas burocráti- nhecimento que trata do que é geral e

cos de vigilância controle, e que podem ser integrativo para o homem [sic]; uma vida

adaptados a várias circunstâncias sociais e de envolvimento comum”.


históricas diferentes (Dandever, 1990). A Essa aspiração de reaver uma “Visão
emergência e a sedimentação institucional institucional" em análise organizacional, qmue
do estado-nação e das estruturas adminis- fale do relacionamento entre o cidadão, a

trativas profissionais desempenham um pa- organização, a comunidade e o Estado nas

pel crucial no avanço das condições materi- sociedades modernas (Etzioni, 1993; Àrhne,
ais e sociais aos quais a vigilância e o con- 1994), é um tema rico. As pesquisas sobre
trole organizacional podem ser estendidos participação e democracia organizacional
(Cemy, 1990; Silberman, 1993). Mudanças sugerem que esforços de desenvolvimento
tecnológicas, culturais e politicas relativa- de projetos organizacionais vmais partici-
mente recentes estimularam a criação e a pativos e igualitários têm encontrado diñ-
difusão de sistemas de vigilância mais dis- culdades extremas nos últimos 15 anos

cretos, que são muito menos dependentes (Lammers e Szell, 1989). Perspectivas de
da supervisãoe do controle diretos (Zuboff, longo prazo para a democracia parecem
1988; Lyon, 1994). O crescimento da sofis- igualmente pessimistas em um mundo cada
ticação técnica e da penetração de sistemas vez mais globalizado e fragmentado, que
de controle também servem para reafirmar desestabiliza ou mesmo destrói identidades
a relevância atual da preocupação de Weber sociopolíticas e culturais estabelecidas, cor-

sobre a perspectiva, a longo prazo, de roendo a segurança cognitiva e a certeza

envolvimento individual significativo em ideológicaque antes se imaginava possíveis


uma ordem social e organizacional, que (Cable, 1994).
parece cada vez mais próxima, ainda que combinação
A de políticas neoliber-
continue distante, das vidas cotidianas (Ray tárias com vigilância sofisticada não teve

e Reed, 1994). êxito, contudo, para erradicar o desaño per-


A análise organizacional parece, en- manente de encontrar formas de disciplina
tão, ter completado um ciclo ideológico e e controle organizacional mais discretas e
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO

auto-aplicáveis(Lyon, 1994). Como Cerny cal com o global; as práticas e processos


argumentou em relação às mudanças õrganizacionalmente
situados com as racio-
organizacionais no final deste século: nalidades e estruturas institucionais; a or-

Indivíduos devem definir- e grupos


dem negocíada com o controle e o poder
se
estrategicamente e manobrar taticamen- estratégico. Em resumo, é preciso conside-
te no contexto da lógica do Estado, seja rar que:
amoldando-se a regras legais, seja compe-
tindo por recursos distribuídos Vivemos em um mundo maciçamen-
ou regula-
dos pelo Estado, ou mesmo tentando re-
te interconectado e
interdependente, po-
sistir e evitar a influência e o controle rém de forma desigual e irregular, onde a
de
outro Estado ou de atores não estatais (...) ; “organizaçãd”(e desorganização)
e os ti-
o próprioEstado é constituído de uma ca- pos peculiares de organizações represen-
deia de jogos de níveis médio e micro
que
tam “problemas" fundamentais, tanto em
são, também, caracterizadas por lógicas
termos conceituais quanto práticos; em tal
contrastantes, por espaços intersticiais, por cenário, uma visão administrativa domi-
estruturas dinâmicas e tensões contínuas nante e ampla,
por exemplo, só pode ser
(1990 obtida de forma limitada
: 35-36). e
imperialista,
tanto em termos conceituais quanto práti-
Devido jogos políticos sobre-
a esses cos. Procurar entender e analisar tais com-
postos e
freqüentemente contraditórios, plexas interseções e suas ramificações
novos princípios práticas organizativas
e deve, a meu ver, representar compo- um
estão surgindo. As novas nente-chave
soluções propos- para o desenvolvimento fu-
tas turo do campo, se ele espera atender aos
requerem que se repense o relaciona-
desafios práticos e intelectuais que lhe são
mento indivíduo e a comunidade, o
entre o

qual está mudando impostos (Jones, 1994 : 208).»


rapidamente em um
contextosociopolítico que a "o progra- em
estruturada/analítica so-
A narrativa
ma de identidade politica” tem-se tornado bre justiça e democracia
organizacional bus-
muito mais diversificado, instável,
fragmen- ca reconectar o estudo dos discursos e das
tado e contestado (Cable, 1994 : 38-40). A práticas localmente contextualizados com
pesquisa de Lyon (1994) sobre movimen- ordens de poder, de autoridade e de contro-
tos sociais,
grupos de interesse e coalizões le institucionalizados, têm
que racionalidade
politicas contrários a regimes centralizados social e dinâmica histórica
específicas. Es-
e antidemocráticos de vigilância e controle tas, por sua vez, não podem ser entendidas
indica que há outras opções disponiveis além ou explicadas por meio de um foco limita-
da “paranóia pós-moderna" e do do na interaçãoe nos eventos
pessimis- “cotidianos”
mo político ela for-
que parece encorajar. De (Layder, 1994). Tal narrativa força-nos a
ma
semelhante, escritores como Hirst redescobrir o elo vital entre as demandas
(1993) Arhne (1994; 1996) redescobriram
e
práticas e as necessidades intelectuais do
a sociedade civil e diversas
as cadeias de estudo das organizações,bem como os "pon-
formas "associativas" de controle social e tos de interseção" entre o normativo e o
econômico estas continuam analítico.
que a gerar e Esses pontos interseção
de devem
apoiar, mesmo estando nas garras de pres- ser redefinidos se tal análise
quiser reter sua
sões técnicas e sociais para maior centrali- relevância e vitalidade, em um mundo onde
zação poderdo e do controle. estruturas estabelecidas de longo prazo so-
i Portanto, essa narrativa exige que re- frem uma pressão extrema para que se trans-
conectemos, analítica e politicamente, o lo- formem em formas institucionais diferentes.
'

82 PARTE 1 -

MODELOS DE ANÁLISE
l_
......... M฀฀ VVVVVV _
.nm. _....,_.~.J

PoNros DE INTERSEÇÃO -
rios onde se requer uma orientação deter-
minada à ação; e para a tarefa que cabe

Vários temas interconectados consti- àqueles que aceitam os primeiros três te-
mas de expor seu hermetismo conceitual
tuem a “espinliadorsafde”
análise” em tor-
onde este foi imposto artificialmente
no da qual as seis estruturas narrativas ana-
1993
(Connolly, : 225-231).
lisadas neste capítulo podem ser interpre-
tadas como tentativas contestadas de repre- Connolly desenvolve esse argumento
desenvolver critica "univer-
sentação para uma ao
e controle de nosso entendimento
salismo racional” "relativismo radical"
prática
estratégica
e ao
sobre a social insti-
é dominam análise politica
“organizaçãd”. que a nas arenas
tucionalizada que a Assim
como o discurso da teoria política, o discur- da filosofia analítica anglo-americana e do
so da teoria da organização deve ser consi- deconstrucionismo continental (1993 : 213-
247). Ele é particularmente critico do
derado como uma rede contestável e con-
"hermetismo
travam conceitual" artificial e sem
testada de conceitos e teorias, que
batalhas garantias dos relatos foulcaudianos sobre
para impor certos significados em

detrimento de outros a nosso entendimen- discursos de


conhecimento/poder, que en-

da vida tendem atores sociais como artefatos, ao


to partilhado organizacional na»
modernidade recente.
invés de agentes de poder. De acordo com

essa visão, a “tese da contestação essencial


Dizer que uma rede
particular de é preterida pela prática da desconstrução
conceitos é contestável equivale a dizer que total" (1993 : 233). Connolly concebe a te-
os referenciais e critérios de julgamento oria politica, essencialmente, do-
como um¡
que ela expressa estão abertos à contesta-
minio ou espaço de conflitos, no qual inter-
ção. Dizer que essa rede é essencialmente
contestável afirmar cri- pretações rivais da vida politica podem ser
equivale a que os

térios universais da razão como os


analiticamente identificadas e racionalmen-
agora
-

entendemos -

não bastam para conciliar te debatidas por agentes responsáveis, sem

esses conflitos definitivamente. Quem pro- que se apele ao "provincialismo transcen-

põe conceitos essencialmente contestáveis dental" característico do universalismo


investe contra aqueles que interpretam e
epistemológico e do relativismo cultural.
operacionalizam os referenciais a seu pró- Essa concepção pode ser usada para mapear
prio modo, tornando-os representativos da os temas subjacentes ao relato histórico da
vontade de Deus ou da razão ou da natu-
teoria das organizações apresentado neste
reza com um provincialismo transcenden- °

tal; eles tratam os referenciais com


capitulo.
que
estão
Esses temas podem ser resumidos das
intimamente familiarizados como

critérios universais de medida ava- seguintes formas: um debate teórico a res-


para
liar todas as outras teorias, práticas e peito das explicações rivais sobre conceitos
ideais. Eles se utilizam de uma retórica de "atuação" e "estrutura", à medida que
universalista para proteger práticas pro- estes são empregados como conceitos-cha-
vinciais... A frase "conceitos essencialmen- de caracteristicas
ve organizacionais; um
te contestáveis", se bem interpretada, cha- debate epistemológico entre “construti-
ma a atenção para a conexão interna exis-
tente entre os debates conceituais e os
vismo" e “positivismd” e suas implicações
para a natureza e caráter do conhecimento
debates sobre a forma de bem viver; cha-
que os estudos
organizacionais produzem;
ma a atenção para os motivos que agora
acreditar um debate analítico sobre a prioridade re-
temos para que o espaço racio-
nal para tais contestações continuará a lativa a ser conferida, nos estudos orga-
existir no futuro; para o valor de se man- nizacionais, ao nível "local" em oposição ao

ter tais contendas vivas mesmo em cená- nivel "global" de análise; um debate nor-
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO

mativo entre o "individualismo" "coleti-


e constituida e
atuação
constituinte da e da
vismo" concepções ideológicasrivais,
como estrutura na reproduçãoorganizacional (eg.
que competem pela noção de “viver bem” Giddens, 1984; 1993; Boden, 1994) ; no
nas sociedades modernas. Cada das seis
uma
entanto, o conflito gerado por essas lógicas
narrativas contribui e participa
para a for- explanatórias rivais continua sendo fonte de
mação dos espaços intelectuais contestados, tensão criativa nos estudos organizacionais.
abertos por esse debate. Há sempre o risco de que as concep-
ções orientadas para a
atuação afastem por
demais a organização de seu ambiente con-
O debate atuação/estrutura textual, tornando-se incapaz de lidar com

grandes mudançasnas formas institucionais


Layder argumenta que, na teoria so- dominantes. Por outro lado, visões orienta-
cial, debate atuação /
o estrutura “concen- das pela estrutura tendem a resultar em uma
tra-se questão
na de como a criatividade e explanação lógica determinística, na qual a
as restrições
se relacionam por meio da ativi- sociedade esmaga a atuação com uma for-
dade social como podemos explicar sua
-

ça monolitica (Whittington, 1994 : 64). A


coexistência?" (1994 : 4). Os que enfatizam conclusão de Whittington é que a análise
a atuação concentram-se na busca de um de organizações necessita de uma teoria de
entendimento da ordem social e orga-
"escolha estratégica adequada à importân-
nizacional que saliente as práticassociais por
cia da atuação gerencial nossa-socieda- em

meio das quais seres humanos criam e re- de” (1994 : 71). Sua rejeição de extremis-
produzem instituíções. que
Os privilegiam mos teóricos de reducionismo individualis-
a "estrutura" ressaltam a importância dos ta e determinismo coletivista é bem aceita.
padrões relações externas que
e das deter- A necessidade de desenvolver teorias expla-
minam e circunscrevem a
interação social natórias em que a
"atuação deriva da natu-
dentro de formas institucionais especificas. reza simultaneamente facilitadora e contra-
Com relação às estruturas narrativas ditória dos princípiosestruturais de acordo
acima, percebe-se, por um lado, um abismo com os quais agem as pessoas" (1994 : 72)
teórico entre um conceito de organização constitui uma das questões centrais no pro-
que se refere
determinadas a
estruturas grama de pesquisas da análise organiza-
como condicionantes de comportamentos cional.
individuais e coletivos, e por outro lado, um
conceito que induz a uma teoria de redes
de interaçãopreconcebidas, por meio das O debate construtivista/
quais geram-se e reproduzem-se estruturas positivista
temporárias,cujos mecanismos ordenadores
estão em permanente mudança. As narrati- Os assuntos epistemológicostêm de-
vas racional, integracionista e de mercado sempenhado papel estratégicono desen-
um

apóiamfirmemente a
concepção estrutural volvimento da teoria organizacional, espe-
da organização, ao passo que os pesquisa- cialmente nos últimos 25 à medida
anos,
dores que trabalham segundo as
tradições que a ortodoxia positivista vem sendo pre-
de poder, conhecimento e justiça várias
preferem terida por escolas de metodologia
o conceito de atuação organizacional. Mui- interpretativa, e crítica realista
(Hassard,
to esforçotem sido feito na tentativa de su- 1990; Willmott, 1993; Donaldson, 1985,'
perar, ou pelo menos reconciliar essa 1994; Aldrich, 1992; Gergen, 1992). Esse
dualidade teórica, por meio de abordagens debate tem que ver com as formas repre-
que enfatizam a natureza simultaneamente sentacionais, meio das quais
por as "preten-
sões de conhecimento" dos teóricos _da or- O debatelocal/ global
ganização podem ser avaliadas e legitima-
das. Enquanto as narrativas racional, O debate atuação/estrutura gira em
integracionista e de mercado desenvol- de questões fundamentais
se
torno sobre a ló-
veram com base na ontologia realística e na
gica da explanação que deve ser seguida
epistemologia positivista, as tradições de
pelos analistas organizacionais, ao passo que
poder, conhecimento e justiça são mais fa- o debate construtivista/positivista realça a
voráveis a uma ontologia construtivista e a
controvérsia sobre
arraigada as formas
uma epistemologia convencionalista. A pri- através das
representacionais, quais este
meira trata "organização" como um objeto conhecimento deve ser desenvolvido, ava-
ou entidade existindo como tal, que pode
e
liado e legitimado. O debate localismo/
ser explicada em termos de princípios ge- globalismo surge quando o foco narrativo
rais ou de leis que governam seu funciona- se direciona às questões relativas ao nível
mento. A
segunda promove concepção
uma
de análise em que a pesquisa e a análise
da organização como sendo um artefato devem
organizacional ser conduzidos. Como
socialmente construído e dependente, que
Layder (1994) assinala, questões relativas
somente pode ser entendido em termos de a níveis de análise fixam-se em torno de di-
convenções metodológicas altamente restri- ferentes modelos de realidade social e em
tas e localizadas, sempre abertas a revisões torno das propriedades analíticas das enti-
e mudanças]
dades ou objetos localizados nos diferentes
Essas epistemologias radicalmente níveis dentro de tais modelos. Portanto, o
opostas legitimam procedimentos e proto- debate "micro/macro" questiona se a ênfa-
colos muito diferentes avaliar "pre-
para as se deve ser dada aos "aspectos íntimos e
tensões de conhecimento” do pesquisador detalhados da conduta individual [ou] em
organizacional. A epistemologia positivista fenômenos impessoais, de maior escala"
restringe severamente o limite do "conheci-
(1994 : 6).
mento" que pode ser atingido pelos estudos Em estudos abor-
organizacionais, as

organizacionais, limitando-o àqueles fatos


dagens teóricas desenvolvidas com base nas
que podem ser submetidos a um “método estruturas de poder, conhecimento e justiça
de prova" rigoroso, bem como a generaliza-
tendem a dar destaque a processos e práti-

ções semelhantes a leis que ela sanciona. O cas organizacionais em nível local/ micro; as
construtivismo adota uma posição muito narrativas racional, integracionista e de
mais liberal- para não dizer relativista -

e
mercado, por outro lado, começam por uma
recai nas normas e práticas comunais res-
concepção mais global da “realidade da or-
tritas de comunidades pesquisa específi-
de
ganização”. Abordagens etnometodológicas
desenvolvidas ao longo do tempo (Reed,
cas, e pós-estruturalistas
levam o foco local ao
1993). Várias tentativas de se seguir um
extremo, ao passo que a ecologia popu-
meio termo entre essas polaridades episte- lacional e o institucionalismo desenvolvem
mológicas têm sido feitas (Bemstein, 1983), um nível de análise mais global. Abordagens
porém campoo de conflitos onde lutam a
que se fixam no nível local/micro de análi-
corrente relativista/ construtivista e a positi-
estudos ris-
se em organizacionais correm o

vista/objetivista continua existir estu-


“ontologias
a nos
co de basear suas pesquisas em
dos organizacionais.
homogêneas", o que faz com que se tome
muito difícil, se não impossível, ir além das
práticas cotidianas em que os membros se

acham envolvidos (Layder, 218-229). 1994 :

Como resultado, fica comprometida a sua


TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORJCAMENTE CONTESTADO

capacidade teórica de perceber, e muito coletivista da ordem organizacional. As te-


menos explicar, as
engrenagens intrincadas orias organizacionais individualistas estão
e complexas das
práticaslocais, em toda sua fundamentadas em uma perspectiva anali-
variabilidade e contingência, bem como as tica e normativa que vê aorganização como
estruturas institucionalizadas (Smith, resultado de ações e reações individuais
1988). O perigo correspondente que há em potencialmente redutíveis a suas partes com-
“antologias estratificadas" é que elas nunca ponentes. Portanto, teorias baseadas no
vêem a dialética que há entre estruturas e mercado, e a rica vertente das teorias da
práticassociais, as quais se constituem mu- tomada de decisão criadas em torno dessa
tuamente.
perspectiva individualista (Whittington,
A tendência observa,
se análi-
que em 1994), negam que conceitos coletivos tais
se
organizacional, de mudar o foco analíti- como “organizaçãd” têm alguma outra ca-
co tão perto do nível local/micro racterística
para traz ontológica ou
metodológica
consigo o risco de se perder de vista as limi- além de representarem código
um
simplifi-
taçõese recursos estruturais que conformam cado para os comportamentos de atores in-
o processo (re)produção “ordenaçãd” dividuais. A justificativa ideológicapara esse
de ou

organizacional. Alguns estudos, contudo, preceito ontológico/metodológico está na


conseguem manter uma
relação intrincada, crença de que formas de organização social
porém absolutamente vital, entre local e que vão além de associações diretas
global, entre atuação estrutura, e entre
e
interpessoais só podem ser justificadas em
construção restrição. De fato, as pesqui-
e termos de sua contribuiçãopositiva para a
mais recentes
proteção
sas e importantes estudo
no da liberdade e da autonomia indi-
das organizações são encontradas nos tra- vidual.
balhos de Zuboff (1988), sobre
tecnologia O coletivismo encontra-se no ponto
da informação; análise de J ackall (1988)
ideológico/metodoló-
na do
oposto espectro
dos "labirintos morais" a serem descober- à medida
gico, em que recusa o reconheci-
tos emgrandes corporações americanas; e mento de
individuais
atores
como compo-
na pesquisa de Kondo
(1990) sobre a "auto- nentes constituintes da organizaçãoformal;
construção personalidade" em organiza-
da os indivíduos tomam-se
simplesmente cifras
çõesjaponesas. Esses estudos redescobrem para as
programações cognitivas, emocio-
a relação de
e renovam
constituição mútua nais e políticas geradas pelas grandes estru-
existente entre práticas formas institu-
e turas. Se, por um lado, o individualismo ofe-
cionalizadas estão de um tipo visão
que organização
no cerne rece uma da como uma
de análise organizacional que
ultrapassa os criação não intencional dos atores indivi-
limites do entendimento do cotidiano, duais que seguem os desígniosde seus ob-
a dinâmica
conectando-se com
histórica, jetivos políticos e instrumentais, por outro
social e organizacional de-
que estrutura o lado, coletivismo trata a organização como
o
senvolvimento de uma sociedade. uma entidade objetiva que se auto-impõe
aos atores com força que
tal
lhes deixa pou-
ca ou nenhuma altemativa, exceto obede-
O debate individualista/ cer a seus comandos (Whittington, 1994).
coletivista A narrativa integracionista apóia-se muito
nessa visão, à medida que identifica uma
A última vértebra analítica que cons- lógica de funcionamento desenvolvimen- e
titui a estrutura teórica dessa breve história to da organização funciona à revelia dos
que
dos estudos sobre organizações é debateo indivíduos, que limita bastante suas op-
e

ideológico entre a visão individualista e ções de tomada de decisão, ao ponto de


PARTE I -

MODELOS DE ANÁLISE

quase extingui-las. Embora o coletivismo cido nos últimos anos, porém, estas perma-
muito atualmente, ele necem sendo realidades relativamente sub-
esteja menos em voga
estudos
continua concepção
a oferecer uma de or- desenvolvidas e minimizadas nos

ganização e análise organizacional que de- das organizações, para as quais somente

safia diretamente o domínio das perspecti- agora nos voltamos. Quatro temas são

vas analíticas fundamentadas em um pro- cruciais "agenda


para essa latente" na aná-

grama reducionista/individualista. lise organizacional: a questão do gênero e

suas implicações para o modo pelo qual


conceitualizamos, analisamos e praticamos
PONTOS DE EXCLUSÃO a organização; o tema da etnicídade e raça
e sua relevância para o nosso entendimen-

Çada
°

um dos quatro pontos de inter- to desigualdade organizacional;


da o assun-

história to da tecnociência e seu potencial para trans-


à seção apresentados na narrada por
este capítulo estrutura o campo de conflitos formar as estruturas organizacional e os

meios teóricos meio dos quais elas são


no qual a" teoria das organizações vem to- por
intelectualmente abordadas; e, finalmente,
mando forma como um empreendimento
de desenvolvimento subdesen-
e
intelectual identificável e factível. Eles es- o processo

volvimento global e seus impactos em for-


tabelecem um conjunto parâmetros
de em

meio quais aos tornou-se possível, durante mas de controle administração


e das orga-

quase um século, um diálogo entre inter- nizações e instituições em todo o mundo.

pretações concorrentes e conflitantes de

organização, à medida que os cientistas so-

ciais tentam dar conta do crescimento e da Gênero


importância estratégica dessa prática so-

cial. Contudo, os pontos de interseção en- A “cegueira relativa ao gênero" da te-

tre as narrativas são também relevantes por oria e análise organizacional é bem docu-
tudo eles excluem, seja, mentada em outras obras e não necessita
aquilo que ou por
conta dos pontos de exclusão ou de "silên- ser ensaiada (Hearn
outra al., 1989;
vez et

cio" que eles revelam. Calás e Smircich, 1992; Witz e Savage,


As narrativas analíticas estruturadas 1992; Mills e Tancred, 1992; Ferguson,
que constituem o campo de conflitos histó- 1994; Martin, 1994; ver também o Capítu-
ricos da teoria organizacional são estórias lo de Calás e Smircich deste Handbook). O

filtram e mediam seletivamente uma ponto básico que se quer enfatizar aqui é
que
realidade social e histórica extremamente que as categorias, conceitos e teorias fun-
diversa Essas narrativas omi- damentais com quais os a análise orga-
e complexa.
mínimo lida não permitem
tem, ou no marginalizam, aspectos* nizacional geralmente o

reconhecimento do fato de que as estrutu-


da vida organizacional que podem adquirir
são
significado estratégico,se observados de um ras e processosorganizacionais per-
ponto de vista diferente. O teor das narrati- meados por relações e práticas de poder
vas está longe de ser ingênuo; na verdade, baseadas no gênero. Isto acarreta uma for-
ele baseia sobre a reali- ma extrema de miopia intelectual e ideoló-
se nos pressupostos
são excluí-
dade organização
da e os meios intelectu- gica institucionalizada, em que
ais que sejam mais apropriados para sua das dos programas de pesquisa a contribui-

exploração, quee encontram pouca aceita- ção vital das teorias e práticas organi-
ção em outras áreas. zacionais para a produção reproduçãoe de
Nossa consciência e sensibilidade para "pessoas sexuadas" (Mills e Tancred 1992),
com essas omissões ou "ausências" tem cres- bem como as estruturas de desigualdade e
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO 87

controle por meio das quais se perpetua sua sas categorias analíticas e compromissos
subordinação(Witz e Savage, 1992). ideológicos básicos.

Raça e etnicidade Tecnociência

Enquanto a crítica feminista à "ceguei- As práticas sociotécnicos


e os
processos
ra relativa gênero"
ao teoria inata à por meio dos quais a "ordenação orga-
organizacional tem ganhado força nos últi- nizacional" se conforma são temas perma-
mos 10 anos ou mais, a questão dos funda- nentes nos estudos
organizacionais, e
mentos raciais e étnicos do poder nas
orga- reemergem como uma pesquisa de interes-
nizações está apenas começando surgir
a na se estratégico nas
abordagens contemporâ-
literatura como um tópico aceitável de in- neas que se inspiram nas teorias organi-
vestigação e debate (Nkomo, 1992; Reed, zacionais baseadas no conhecimento, tal
1992; Ferguson, 1994; ver também o Capí- como a teoria de rede-ator (Law, 1991;
tulo de Nkomo e Cox deste Handbook): 19943). Contudo, interação
a dinâmica en-

tre cultura e tecnologia atrai ainda mais a


introduzir a cor da pele nos estudos
reflexão sobre
atenção dos pesquisadores que se concen-
organizacionais requer o sig-
nificado dessa desmonte
tram no desenvolvimento de novas tecno-
cor e o da com-

plexa gramática da raça que rotineiramen- logias da informação, que aparentemente


acarretam “uma transformaçãofundamen-
te mistura
terminologias biológicas (por
exemplo, “preto", “branco"), geográficas tal na estrutura e no significado da cultura
(por exemplo, “americano africano", “ame- e sociedade moderna" (Escobar, 1994 : 21 1).
ricano asiático") e históricas (por exem- Scarbrough argumentam e
que Corbett a
plo, "americano nativo", “indigena") para nova
tecnologia da informação está geran-
rastrear a identidade racial. Raça, assim do “circuitos" de controle, significados e
como gênero, apresenta-se como desem-
desenhos mais complexos e inovadores, à
penho por si mesma, um conjunto de prá-
ticas, linguagens e auto-aprendizagens tão
medida que "a força transformacional do
denso e pesado que é possível mascarar a
conhecimento tecnológicopode escapar aos

história como natureza (Ferguson, 1994 : desígnios dos poderosos e ameaçar, e não
93). simplesmente reproduzir, a estrutura eco-

nômico-social existente" (1992 : 23). Mui-


Ferguson conclui que a
introduçãoda to se fala em uma estratégia de controle
análise organizacional
“neotaylorista"
cor na
poderia enco-
organizacional como sendo
rajar-nos "a raça, não força trás mudanças
pensar na como uma motriz
a
por das
propriedade estática que adere aos indivi- tecnológicas contemporâneas (Webster e
duos, mas como um conjunto de práticas e
Robins, 1993). Contudo, uma leitura mais
identidades produzidas por de com- meio matizada sugeriria que as tecnologias avan-
plexas interações entre geografia, história e
çadas vêm abrindo novos focos de conflito
poder" (1994 : 95). Dessa forma, tanto a e circuitos de controle, que tornaram ainda
“sexualizaçãd” quanto a
“colorização” da mais difícil a
realização de previsões sobre
teoria organizacional abriria caminho para tendências de longo prazo nas estruturas de
uma definição "muito mais ampla da cons-
poder
tituição e objetivos dos estudos orga- O trabalho de Escobar (1994) sobre a
nizacionais" (1994 : 97) e faria com que nos
emergência de uma nova "cibercultura" em
dedicássemos a um questionamento mais sociedades avançadas/pós-modernas l evan-
profundo, e portanto mais perigoso, de nos- ta questões fundamentais sobre o papel da
MODELOS DE ANÁLISE

tecnologia como
agente produto e da pro- dos interesses e tradiçõesdo Terceiro Mun-
dução cultural e social. Ele argumenta que do nos estudos organizacionais.
novos desenvolvimentos em inteligência
artificial e biotecnologia, que radicalmente
transformam o relacionamento entre as Desenvolvimento global e

máquinas,corpos e
comportamentos, deses- subdesenvolvimento
tabilizam a divisão convencional do traba-
lho entre ciência, tecnologia e sociedade. Em Pesquisadores como Castells (1989) e
vez da tradicional distinçãocategórica en-
começado
Smith (1993) têm a reconhecer
e "sociedade", está se forrnan-
tre "natureza" as "novas
dependências” entre os países “ri-
do, “por meio de intervençõestecnológicas cos em tecnologia” e os "pobres em
baseadas na biologia, uma nova ordem para tecnologia", que resultam da dominação,
a interação entre a vida, a natureza e o cor- pelo Primeiro Mundo, das inovações como

po" (1994 : 214). Ela reconfigura radical- computadores, tecnologia biológica de e

a prática e o discurso
mente organizacional informação, bem como de sua coordenação
que giram em torno dos desenvolvimentos sistemática dos mecanismos organizacionais
tecnocientíficos. Escobar afirma ainda que associados à "tecnociência". As práticascul-
esses desenvolvimentos levarão a “profun- turais e as formas políticas por meio das
das mudançasna acumulaçãodo capital, nas quais esses novos relacionamentos de ex-
relações sociais e na divisão do trabalho em ploração dependência
e são mediados co-

muitos níveis... A mudança para novas meçam também a atrair a atenção dospes-
tecnologias da informação marcou o apare- quisadores organizacionais (Escobar, 1994;
cimento de processos de trabalhos mais fle- Ramirez, 1994). Contudo, todo o terreno da
xíveis e descentralizados, altamente globalização política, econômica e cultural
estratificados por fatores de gênero, etnia, dominada pelo Ocidente e seus impactos nas
classe e fatores geográficos" (1994 : 120). novas formas organizacionais emergentes
Considerado nesses termos, o concei- no Primeiro e no Terceiro Mundo permane-
to de "tecnociência" começa a sensibilizar cem como temas pouco explorados nas aná-
pesquisadores organizacionais para os no- lises contemporâneas
da organização(Calás,
vos campos organizacionais e cenários insti- 1994).
tucionais nos quais os desenvolvimentos Essa breve revisão de algumas das
científicos e tecnológicosse combinam para omissões apresentadas pelas tradiçõesteó-
criar novas formas de apropriação e meca- ricas revela sua capacidade limitada de auto-
nismos de decisão. Isso é, particularmente, reflexão crítica. Qualquer das narrativas
o caso do desenvolvimento do Terceiro Mun- analiticamente estruturadas, bem como as

do, onde corporações transnacionais dedi- abordagens teóricas particulares e progra-


cam-se à pesquisa e desenvolvimento mas de pesquisa que elas estimulam, exclui
biotecnológico, nas áreas de genética de e marginaliza ao mesmo tempo que inclui e

plantas, cultura de
industriais tecidos
e estrutura. Contudo, a interação dinâmica
manipulaçãogenética microorganismos,
de entre tradições rivais abre espaço para o

que provavelmente resultarão em uma diálogo racional e a reflexão criativa por


“biorrevoluçãd”dirigida pelos imperativos meio das quais o estudo de organizações se
da acumulação de capital ao invés de cres- desenvolve ou "progride" como prática in-
cimento interno. É nesses termos que o re- telectual identificável e coerente. O diálogo
lativo silêncio sobre as
implicaçõescultu- racional entre tradiçõesque competem en-
rais politicas
e da biotecnologia se encaixa tre si e a auto-reflexão crítica sobre suas li-
a negligência constante
perfeitamente com
mitações inerentes são características sem-
TEORIZAÇÃOORGANIZACIONAL UM CAMPO HISTORICAMENTE CONTESTADO 89

pre presentes no campo. Elas provavelmen- os efeitos radicalmente desestabilizadores


te se tornarão características ainda mais sig- da crítica contínua e da desconstrução,des-
nificatívas quando os debates interno e ex- de que seja feita uma reforma adequada
temo a cada narrativa descortinarem as con- dessas fortificações. Ela apóia um reagru-
tradições tensões encontradas
e em qualquer pamento geral e_m paradigma torno de um

comunidade intelectual, bem como nas au- teórico aceito e um programa básico de pes-
diências mais amplas para as quais ela diri- quisas, que neutralizem a dinâmica frag-
ge seu discurso. O estudo das organizações mentária criada pelas abordagens que rom-
vem atravessando um
debate prolongado peram com a ortodoxia. A segunda opção
sobre sua identidade, razão e objetivo há. estimula uma continuada proliferaçãode
mais de três décadas. Esse debate tem lan- “mais questões e incertezas (...) mais nar- e

çado uma verdadeira torrente de novas rativas que gerem questões" (1994b : 249).
abordagens, cujas falas são dirigidas a uma Isto não necessariamente leva os estudos
extensão cada vez maior de audiências, e organizacionais a um redemoinho incon-
que trata de um conjunto muito mais am- trolável de relativismo, argumenta Law, pois
plo questões
de do que o fazia quando as essa opção nos sensibiliza para a necessida-
necessidades técnicas e os interesses políti- de de preservar e utilizar o pluralismo inte-
cos de uma pequena elite formadora de di- lectual viabilizado pela crítica e de revelar
retrizes dominavam o cenário. O debate os "processos pelos quais os atos de narrar
atual também enfatiza algumas questões bá- e ordenar as estórias ocorrem espontanea-
sicas sobre os rumos mais apropriados para mente" (1994b : 249).
o desenvolvimento futuro do estudo de or- Como já seções
foi relatado em ante-

ganizações. riores desse capítulo, o chamado para a re-

clusão e o
reagrupamento em torno de uma

ortodoxia intelectual renovada é uma ten-


NARRANDO o Funmo TEÓRICO dência forte dentro do campo no presente
momento. A seus próprios modos,
Law sugeriu que, longo ao das últimas Donaldson (1985; 1988; 1989; 1994) e

duas décadas, os estudos organizacionais Pfeffer (1993) tentam reviver a narrativa dos
atravessaram "fogueira uma de certezas” em estudos organizacionais como um empreen-
relaçãoa suas fundações ontológicas, com- dimento científico em sintonia_direta com

promissos teóricos, convenções metodoló- as necessidades técnicas e interesses políti-


gicas predíleçõesideológicas(1994b 248-
e : cos das elites formadoras de diretrizes; esta
249). Os pressupostos do domínio relacio- é, aliás, uma aspiração e uma motivação que
nados à prevalência analítica da “ordem" dominou o desenvolvimento do campo des-
sobre "desordem";
a da "estrutura" sobre o de as primeiras décadas deste século. Seu
"processo"; das “internalidades" sobre as apelo por consenso paradigmático e disci-
“extemalidades”; dos “limites" sobre as "eco- plina em torno de uma ortodoxia meto-

logias"; e* da “racionalidade” sobre a "emo- dológica dominante, que


e teórica
forneces-
ção" têm sido incinerados por críticas fero- se, cumulativamente, conhecimento codifi-
zes a sua arrogânciateórica inata e a sua cado e "amigável ao usuário” às elites for-
pretensão metodológica. Law delineia as madoras de
diretrizes, consonância está em

duas respostas possíveispara essa situação: com o atual desejo de restabelecer ordem
"avançar qualquer
a custo" ou, o oposto, intelectual controle
e em um mundo cada
"deixar que brotem mil flores”. A primeira vez mais fragmentado e incerto. Eles são
opção sugere uma reclusão às
fortificações herdeiros intelectuais e ideológicos do
intelectuais que oferecem proteção contra cientificismo tecnocrático que permeia as
Mamma_ -ml

tradições racionais, integracionistas.e de 1993 : 233-234), nem um interesse com-

narrativas de mercado previamente anali- partilhado na mediação de


suspeitas e riva-
sadas. Esse apelo a uma unicidade intelec- lidades mútuas. A concepção de' estudos
tual, em torno de um paradigma teórico re- organizacionais como um campo de confli-
novado e ao consenso ideológico sobre as tos históricos mediados pelo contexto, por-
necessidades tecnocráticas restritivas às tanto, é substituída pela prática de uma

quais a análise
organizacional servir, deve desconstruçãototal e pelo relativismo sem'
se apóiam no pressuposto de que o retorno qualificação em que se baseiam esses auto-
à ortodoxia é um projeto politicamente viá- res.

vel. Essa “escolha de Hobson", entre a or-

O alter ego da visão “de volta à orto- todoxia renovada e o relativismo radical não
doxia” é "tese da incomensurabilidade”, é única
a a
opção: uma sensibilidade maior
que vem recebendo nova vida intelectual da ao contexto sócio-histórico e à dinâmica
crescente influência abordagens pós-
das política do desenvolvimento teórico não
estruturalista e pós-modernista, tais como precisa degenerar-se em uma
desconstrução
a teoria do discurso de inspiração impensada e total como a única alternativa
foucauldiana e a teoria ator-rede (Jackson à ortodoxia ressurgente. O, trabalho, de
e Carter, 1991; Willmott, 1993; 1994; Willmott (1993) baseado n”)aabordagem
Alvesson e Willmott, 1992). simpatizantes kuhniana do desenvolvimento teórico no

da "tese da incomensurabilidade" se acomo- âmbito das ciências sociais e naturais ofere-


dam no relativismo epistemológico, teórico ce uma saida para esse beco sem saída inte-
e cultural. rejeitam Eles
possibilidade a de lectual no qual tanto a ortodoxia quanto o
um discurso compartilhado entre posições relativismo desembocam. Seu foco nos pro-
paradigmáticas conflitantes em favor de um cessos e práticas comunais de reflexão críti-
relativismo sem qualificação, que politiza ca necessária à identificação de anomalias
completamente o debate intelectual entre dentro das teorias existentes oferece uma

tradiçõesrivais. Relaçõesde mútua exclusi- alternativa mais atraente, tanto para a ar-

vidade paradigmas
entre oferecem visões rogância do "sempre em frente” ortodoxo
polarizadas da organização e das linguagens quanto para a desesperança
do "tudo é váli-
da análise organizacional, que não podem do” relativista. Willmott (1993) resiste ao
ser reconciliadas. Assim, as narrativas rivais dogma da incomensurabilidade
paradig-
que constituem “nosso" campo estão trava- mática, ao mesmo tempo em que enfatiza o

das em uma luta pelo poder intelectual sem papel crucial da política acadêmica insti-
nenhuma esperança de mediação. Um "de- tucionalizada ao determinar critérios de
sejo de poder” transcendental nietzschiano acesso aos recursos e infra-estruturafbol-
e uma idéia geopolítica darvviniana de "so- sas, periódicos, etc.) que confor- editores
brevivência do mais adaptado" tornam-se mam as condições em que os diferentes
os parâmetros intelectuais e institucionais paradigmas do conhecimento são produzi-
dentro quais dos essa luta deve ser travada. dos e legitimados. Contudo, essa sensibili-
Não há possibilidade de sustentar uma nar- dade quanto às "práticas de produção” que
rativa por meio da argumentação, da lógica facilitam a aceitação de certas teorias
e da prova; o que há simplesmente é o po- organizacionais e marginalizam ou exclu-
der de um paradigma dominante e das prá- em outras não é suficiente. A análise de
ticas disciplinares que ele gera e legitima. Willmott revela que há pouca consciência
Não há reconhecimento de regras funda- quanto às formas em que essas práticas de
mentais, negociadas, dentro das quais se produção interagem com práticas adju-
pode contestar racionalmente (Connolly, dicatórias, construídas ao longo de deter-
mínado período de desenvolvimento inte- nidades acadêmicas afeta claramente a so-

lectual, para formar as regras negociadas por brevivência de tradições narrativas rivais.
meio das quais abordagens e tradições ri- Contudo, o elo indelével entre o raciocínio
vais possam ser avaliadas. Precisamos de- prático que permeia as narrativas estru-
senvolver maior consciência das maneiras turadas analiticamente e o desenvolvimen-
sutis e íntricadas de interação entre as con- to teórico em um contexto sócio-histórico
dições
materiais e as práticas intelectuais, e dinâmico não pode
apagado pela
ser nem
do modo como essa interação gera e sus- ortodoxia conservadora, nem pelo relati-
tenta as tradições
narrativas e os programas vismo radical. É precisamente o confronto
de pesquisa inerentemente dinâmicos, que entre tradições narrativas rivais, particular-
constituem campo o dos estudos organi- mente quando suas tensões internas e con-
zacionais ao longo do tempo. tradições ou anomalias estão clara e crua-
“Reflexividade institucional" (Giddens, mente expostas, que fornece o dinamismo
1993; 1994) não é apenas a característica intelectual essencial ao
redescobrimento e

que define os fenômenos que são objeto de renovação dos estudos organizacionais.
estudo dos pesquisadores organizacionais; Como argumenta Perry, "não emos es-
po
ela é também uma característica constitutiva capar da história ou do jogo da cultura. Toda
da troca intelectual que eles praticam. O teorização é portanto parcial; toda teo-
estudo de organizações é ao mesmo tempo rização é seletiva" (1992 : 98). Contudo,
progenítor e herdeiro dessa reflexividade aqui não racionalização prol
se trata de em

institucionalizada, à medida que necessa- de um consenso paradigmático forçado ou


riamente depende sistematicamente
e cul- rumo à proliferação irrestrita de para-
tiva uma atitude crítica e um questio- digmas. Ao contrário, está se falando de uma
namento em torno de seus objetos, media- apreciação mais sensível da complexa inte-
dos por meio de uma interação dinâmica ração entre um conjunto de condições
nas tradições
narrativas que constituem seu institucionais e formas intelectuais em mu-

legado intelectual. Os estudiosos da organi- tação, à medida que se combinam para re-

zação não podem evitar esse legado: ele produzir a reflexividade e a crítica que são
define os pressupostos que formam o pano o marco do estudo contemporâneo orga- de
de fundo e o contexto moral que alimentam nizações.
decisões dos pesquisadores implícita
as
quanto a ideo- A proposta destecapítulo é
logia, epistemologia e teoria. Essas escolhas sugerir que os teóricos organizacionais de-
são feitas em um legado que não é simples- senvolveram e continuarão a desenvolver
mente “passadoadiante", mas sim constan- uma rede de debates críticos internos e ex-
temente revisitado, reavaliado e renovado ternos às
tradições narrativas, que irão in-
à medida que passa pelo debate critico e re- delevelmente conformar a evoluçãodo cam-
flexão que são o sangue intelectual dos es- Três debates
po. parecem particularmente
tudos organizacionais. intensos e potencialmente
produtivos no
A reflexividade crítica estão institu-
e a
presente. O primeiro é a necessidade perce-
cionalizadas no âmbito das práticas intelec- bida de desenvolver uma "teoria sobre o
tuaisque constituem organi- o estudo das assunto" não
que degenere nas simplicida-
zações. Os critérios especificos pelos quais des do reducionismo ou nos absurdos do
“mandatos gerais” são definidos, bem é
esses determinismo. O segundo o desejo gené-
como as
condições sociais, econômicas e rico de construir uma "teoria organizacio-
políticas em que eles são ativados, variam nal" que venha a realizar a mediação analí-
no tempo espaço.
e noO poder material e tica metodológica
e entre as restrições do
simbólico mobilizado diferentes comu- localismo e a grandiosidade do
por globalismo.
PARTE 1- MODELOS DE ANÁLISE
P฀P฀
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