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AO JUÍZO DA 2ª VARA CÍVEL DA COMARCA DE NOVO HAMBURGO – RS.

Processo n°: 019/119.222444-5

CARGA RÁPIDA LTDA, empresa, já devidamente qualificada no


processo em referência representada por seu sócio Mário Alberto, CPF
nº XXX, residente e domiciliado na rua XXX, Nº X, que lhes move
MARCELO POLO E MARIETA POLO, igualmente qualificados, vem
respeitosamente e tempestivamente à presença de Vossa Excelência,
por sua procuradora abaixo firmada, apresentar CONTESTAÇÃO Á
AÇÃO que lhe movem os sucessores de Marco Polo, pelos motivos de
fato e de direito que passa a expor:

I – DA INCOMPETENCIA ABSOLUTA DA JUSTIÇA


ESTADUAL
Inicialmente, cabe ressaltar sobre a incompetência da justiça
comum para julgar o fato. Na incompetência absoluta, o processo deve ser
remetido ao juízo competente, pois a matéria e o grau de jurisdição não são
compatíveis com a demanda em curso. Cabe a justiça do trabalho julgar o feito.

Neste caso segue artigo 114 da Constituição Federal:

Artigo 114 Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar:

VI as ações de indenização por dano moral ou patrimonial,


decorrentes da relação de trabalho;

Além do artigo 337 do Novo Código de Processo Civil:

Artigo 337. Incumbe ao réu, antes de discutir o mérito, alegar: II -


incompetência absoluta e relativa;

Portanto, uma vez que esta demanda foi proposta erroneamente neste
Juízo, não sendo o juízo competente, requer o acatamento desta preliminar,
em consequência, os autos devem ser remetidos ao juízo competente.

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II –DOS FATOS
Trata-se de uma ação de danos imateriais, a qual alega a parte
autora que durante o trabalho, seu filho, Marco Polo, sofreu um acidente
enquanto descarregava a carga, por ele transportada, em um comércio
localizado em Estancia velha. Ocorre que, durante o fato, Marco Polo veio a
falecer no local, ou seja, dentro do pátio da empresa cliente da transportadora
Carga Rápida.

Por conseguinte, requereu a condenação da demandada ao


pagamento de 50 salários mínimos nacionais e ainda 2/3 do que Marco Polo
recebia enquanto funcionário da transportadora, o que equivale em média a
R$1.500,00 (mil e quinhentos reais), até que completasse 85 anos de idade.

Dentre os argumentos da família para embasar o pedido de


indenização pretendido, está à alegação de que a responsabilidade civil do
empregador é objetiva, não havendo a necessidade de perquirir culpa do
empregador pelo acidente de trabalho ocorrido enquanto a vítima exercia sua
atividade laboral.

Ocorre, Vossa Excelência, que o acidente de trabalho que


vitimou o empregado da ré, aconteceu por culpa exclusiva da vítima. Desta
feita, conforme será enfrentado nos itens a seguir, as pretensões dos autores
não merecem a guarida do Poder Judiciário.

III – DA AUSÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR

A questão em debate refere-se à ação de danos materiais e


imateriais proposta pelos autores com fundamento no artigo 120 da Lei nº
8.213/91, que preceitua:

Art. 120. Nos casos de negligência quanto às normas padrão de


segurança e higiene do trabalho indicados para a proteção individual e coletiva,
a Previdência Social proporá ação regressiva contra os responsáveis.

Trata-se, assim, de responsabilidade civil subjetiva, na qual,


além dos pressupostos (a) da ação ou omissão do agente, (b) do dano
experimentado pela vítima e (c) do nexo causal entre a ação e omissão e o

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dano, deve ficar comprovada também (d) a culpa do agente, nos termos dos
artigos 186 e 927 do Código Civil, verbis:

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária,


negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e


187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.

Concluindo, tem-se que o direito de regresso por parte dos


autores, exige que alguns requisitos sejam preenchidos, como a ocorrência do
acidente de trabalho, o dano ao instituto, a violação das normas de segurança
do trabalho, caracterizado pelo dolo ou culpa do empregador.

Na espécie, ausente o principal requisito para a pretensão


deduzida na peça vestibular, qual seja negligência (culpa) por parte da ré, já
que os autores ajuízam ação para estabelecer condenação (responsabilização
civil) por prejuízo que lhe foi *supostamente* imputado.

A empresa sempre cumpriu rigorosamente as normas de


segurança no trabalho, fornecendo todos os equipamentos (todos os
funcionários utilizavam os EPIs indicados e necessários), treinamentos e
orientações cabíveis, zelando pela saúde e segurança de todos os
funcionários.

Ademais, cumpre ratificar que a empresa ora ré implementa há


muito tempo programa de prevenção contra acidentes — PPR — bem como
programa de saúde ocupacional — PPSO —, tem comissões internas para
observação e prevenção de acidentes e observa as convenções trabalhista de
sua categoria, como pode-se constatar nos documentos comprobatórios ora
juntados da época do acidente. Salientando também que os motoristas da
empresa, em específico, são submetidos à cursos de reciclagem de direção
periodicamente bem como instruções de cuidados com sua segurança no
desempenho de suas atividades.

A atividade do trabalhador era motorista de caminhão e não


mecânico e o acidente se deu por culpa exclusiva deste, que se posicionou a
baixo deste, por ato voluntário e sem qualquer necessidade, ocasionando o
acidente, logo, o acidente se deu por uma ação imprudente do empregado.

Ora, EXCELÊNCIA, todos os motoristas executam suas


atividades na parte de dentro dos veículos. Os motoristas não ficam a baixo do
caminhão como estava o empregado no dia do acidente e nem existe
necessidade dos trabalhadores ficarem em tal local e por conseqüência,

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também, não há necessidade da empresa colocar dispositivos de segurança no
veículo ao local em que se deu o acidente, porque não é o local em que seus
trabalhadores designados a essa função desenvolvem suas atividades. Onde o
mesmo se realiza manutenção semanalmente conforme o laudo juntado em
anexo.

Todavia, conforme já se disse, no momento do acidente, o


trabalhador vitimado estava indevidamente a baixo do veículo, sem qualquer
necessidade de tanto para o exercício de sua atividade, sendo esta a causa
determinante do acidente, não sendo razoável imputar a responsabilidade
à empresa ré.

Assim segue jurisprudência:

ACIDENTE DE TRABALHO. VENDEDOR VIAJANTE. CULPA


EXCLUSIVA DA VÍTIMA. Não obstante o risco da atividade
desempenhada pelo autor, a comprovação de sua
exclusiva culpa na ocorrência do acidente afasta a
responsabilização da reclamada. (TRT da 4ª Região, 5ª
Turma, 0020364-53.2017.5.04.0521 RO, em 20/02/2019,
Desembargador Claudio Antonio Cassou Barbosa). Assim, não
restando caracterizada a responsabilidade civil da reclamada
pelos danos suportados pela reclamante no acidente em
exame, o qual decorreu de culpa exclusiva da autora, não há
falar no dever patronal de indenizar, na forma do artigo 186 e
927 do Código Civil. Nego provimento ao recurso do
reclamante, considerando prequestionados os dispositivos
legais e constitucionais invocados no apelo1.

Portanto, foi o empregado que agiu com imprudência e assumiu


os riscos de sua conduta imprópria.

Desta forma, resta evidente que a empresa ré não agiu com


culpa, negligência ou imprudência, sendo indevido o ressarcimento pretendido
na presente ação. O acidente foi causado por culpa exclusiva do empregado,
que agiu de forma inadequada.

Cite-se jurisprudência que afasta o dever de indenizar, quando


ausente a culpa do empregador, tal como no caso em comento:

ADMINISTRATIVO. AÇÃO REGRESSIVA DO INSS. ACIDENTE


DE TRABALHO. ART. 120 DA LEI 8.213/91. CULPA DO
EMPREGADOR NÃO DEMONSTRADA. Consoante o disposto
no artigo 120 da Lei nº 8.213/91, "nos casos de negligência
quanto às normas padrão de segurança e higiene do trabalho

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(TRT da 4ª Região, 5ª Turma, 0020364-53.2017.5.04.0521 RO, em 20/02/2019, Desembargador Claudio
Antonio Cassou Barbosa)

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indicados para a proteção individual e coletiva, a Previdência
Social proporá ação regressiva contra os responsáveis". Com
efeito, para a caracterização do dever de indenizar, é exigível a
comprovação de existência de ação ou omissão do empregador,
resultado danoso, nexo causal e negligência em relação às
normas de higiene e segurança do trabalho. Inexistindo prova de
que o empregador descumpriu as normas de segurança do
trabalho, tendo agido a vítima com negligência, não há como
acolher prosperar a iniciativa do INSS de reaver os valores
despendidos com o pagamento de benefício previdenciário.
(TRF4, APELREEX 5006870-51.2015.404.7000, 4ª Turma, Rel.
Des. Federal Vivian Josete Pantleão Caminha, D.E. 27/09/2017)

ADMINISTRATIVO. AÇÃO REGRESSIVA PROPOSTA PELO


INSS. ACIDENTE DE TRABALHO. NORMAS DE SEGURANÇA.
RESSARCIMENTO DE VALORES PAGOS PELO INSS COMO
BENEFÍCIO. PRESCRIÇÃO QUINQUENAL. CONTRIBUIÇÃO
DE SAT/RAT - NÃO EXCLUI OBRIGAÇÃO DA EMPRESA EM
RESSARCIR O INSS. NEGLIGÊNCIA DA EMPREGADORA.
NÃO CONFIGURADA. CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA.
IMPROCEDÊNCIA DA AÇÃO. - Tratando-se de pedido de
ressarcimento de valores pagos pelo INSS a título de benefício
previdenciário, quanto à prescrição, é aplicável ao caso, pelo
princípio da simetria, o disposto no art. 1º do Decreto nº
20.910/32 (prescrição quinquenal). Precedentes do Superior
Tribunal de Justiça. - É dever da empresa fiscalizar o
cumprimento das determinações e procedimentos de segurança,
não lhe sendo dado eximir-se da responsabilidade pelas
consequências quando tais normas não são cumpridas, ou o são
de forma inadequada. - O fato de as empresas contribuírem para
o custeio do regime geral de previdência social, mediante o
recolhimento de tributos e contribuições sociais, dentre estas
aquela destinada ao seguro de acidente do trabalho - SAT, não
exclui a responsabilidade nos casos de acidente de trabalho
decorrentes de culpa sua, por inobservância das normas de
segurança e higiene do trabalho. - Não restando demonstrada a
negligência da empregadora quanto à adoção e à fiscalização
das medidas de segurança do trabalhador e, por outro lado,
configurada a culpa exclusiva da vítima, a ação regressiva
proposta pela autarquia deve ser julgada improcedente. (TRF4,
APELAÇÃO CÍVEL Nº 5002582-80.2013.404.7113, 3ª TURMA,
Des. Federal RICARDO TEIXEIRA DO VALLE PEREIRA, POR
UNANIMIDADE, JUNTADO AOS AUTOS EM 28/08/2015)

DIREITO CIVIL. DIREITO PREVIDENCIÁRIO. ACIDENTE DE


TRABALHO. BENEFÍCIO ACIDENTÁRIO. AÇÃO REGRESSIVA
DO INSS CONTRA O EMPREGADOR. ART. 120 DA LEI Nº

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8.213/91. CULPA DA EMPRESA. NEGLIGÊNCIA. NÃO
COMPROVAÇÃO. PRECEDENTES. . O artigo 120 da Lei nº
8.213/91 é claro ao vincular o direito de regresso da autarquia
previdenciária à comprovação da negligência por parte do
empregador quanto às normas padrão de segurança e higiene
do trabalho, indicadas para a proteção individual e coletiva; . No
presente caso, é incontroversa a ocorrência do acidente de
trabalho e o nexo de causalidade entre este e as lesões que
resultaram na concessão do benefício pelo órgão previdenciário.
Contudo, o acervo probatório indica a ausência de culpa da
empresa demandada. A conclusão que se impõe é a de que o
acidente ocorreu por culpa exclusiva da vítima, que realizou de
forma negligente a manutenção de equipamento, mesmo após
ter recebido treinamento a respeito. (TRF4, APELAÇÃO CÍVEL
Nº 5025324-17.2013.404.7108, 4ª TURMA, Juiz Federal
SÉRGIO RENATO TEJADA GARCIA, POR UNANIMIDADE,
JUNTADO AOS AUTOS EM 21/08/2015)

A indenização solicitada pelos autores, consiste no quinhão de 50


salários mínimos mais ajuda até os 85 anos do referido de cujus.

A responsabilidade de indenizar do empregador está prevista no artigo


932 do Código Civil in verbis:

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:

III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais


e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em
razão dele;

VI – DOS REQUERIMENTOS FINAIS

A) Preliminarmente, a ré REQUER a concessão dos benefícios


da gratuidade da Justiça, eis que atualmente não tem
condições de arcar com as despesas processuais.
B) Igualmente, de forma preliminar, REQUER a declaração de
prescrição do direito da ação com a extinção do processo
com julgamento de mérito na forma prevista no artigo 487,II,
do NCPC .No mérito, ante o acima exposto, com contestação
fundamentada sobre todos os pedidos da petição inicial, a ré
REQUER seja julgada improcedente a presente ação, com a
condenação da autora ao pagamento dos ônus
sucumbenciais, de acordo com o artigo 85, § 2º do Código de
Processo Civil;

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C) De forma sucessiva, caso reste admitida a culpa concorrente
da empresa e empregado, requer a condenação da empresa
ré na proporção de sua culpa.
D) Subsidiariamente, em não sendo acolhida a tese de
improcedência, requer seja revistos os valores pretendisos,
para que obedeças os critérios adotados pelos precedentes
dos tribunais superiores;

E) Protesta o requerido por todos os meios legais e legítimos


para comprovar a veracidade de suas alegações,
notadamente depoimento pessoal, juntada de documentos
novos e oitiva de testemunhas, em consonância com o art.
369 do CPC.

Nestes termos, pede deferimento.

Novo Hamburgo, 08 de Outubro de 2019.

Advogado XXX

OAB/RS XXX