Você está na página 1de 16

Norbert Lechner

Tradução: Lúcia Nagib

Apresentação
1. As estratégias de negociação respon-
dem a uma dupla experiência de crise:
a dos regimes militares e a dos regimes
debate latino-americano sobre ne- democráticos anteriores. No fundo, são
gociação, pacto, compromisso é a resposta a um diagnóstico de "crise
tão importante quanto confuso.
integral". Mesmo sendo a mais visível,
A confusão não é terminológica.
Pode-se distinguir nitidamente entre: não se trata somente da crise econômica
pacto social: acordo bipartite entre em- provocada pelas situações de recessão,
presariado e sindicatos, ou acordo tripar- desemprego, inflação e dívida externa.
tite com a participação do Estado, refe- Está igualmente presente a crise das insti-
rentes a matérias sócio-econômicas; tuições democráticas — a polarização
pacto político: acordo entre dois ou mais ideológica, o fracionamento partidário, os
partidos sobre a composição e o progra- conflitos constitucionais, uma cultura po-
ma de governo, ou, pelo menos, deter- lítica autoritária —, que deu lugar aos
minada legislação; golpes militares. Mas a crise é ainda mais
pacto constitucional: acordo do conjunto ampla; há uma perda ou, pelo menos,
dos partidos sobre as normas fundamen- uma renovação do significado das iden-
tais que regem a convivência social e o tidades coletivas, uma erosão dos laços
sistema político. de arraigamento social e de participação
Mas as coisas não são tão claras e coletiva, um questionamento das referên-
distintas. Os diferentes aspectos podem
cias transcendentais, enfim, uma situação
se entrelaçar, como mostra o exemplo
espanhol. A chamada "ruptura pactuada" de desordem. Para isso contribui uma cri-
consiste num processo que combina um se moral: anos de violência e mentira, de
pacto constitucional (Constituição de miséria e medo, que solaparam os critérios
1978), uma política de consenso e acor- normativos para se julgar a realidade social.
dos político-econômicos (Pactos de Mon- 2. Do exposto se depreende que não po-
cloa). Não se trata de um "grande acor- demos conceber a "solução" da crise (o
do nacional" ou um "contrato social" desdobramento da crise) senão como uma
programado ex ante, mas sim de um pro- construção da ordem. As estratégias de
cesso em que se desenvolvem estratégias negociação que se referem ao problema
de negociação que têm como resultado da ordem podem ser consideradas estra-
ex post uma nova ordem. tégias de democratização. Para esclarecer
Com referência às estratégias de nego- esta perspectiva, convém recordar, em
ciação no Cone Sul, quero ressaltar cinco primeiro lugar, uma distinção a que re-
aspectos problemáticos. centemente Norberto Bobbio (1985, 144)

OUTUBRO DE 1985 29
PACTO SOCIAL NOS PROCESSOS DE DEMOCRATIZAÇÃO: A EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA

deu novo destaque. Já em fins do século 4. A perspectiva da democratização im-


XIX, podia ser constatado, na Europa e plica, nas sociedades do Cone Sul, enfa-
nos Estados Unidos, um "processo de tizar a negociação das "regras do jogo".
contratualização" (H. S. Maine), produ- A lógica da guerra, imposta pelas ditadu-
to de uma industrialização, que organiza ras, deixou os conflitos sociais sem nor-
grandes forças sociais, e de uma divisão mas reguladoras. Não há regras ou roti-
social do trabalho, que provoca uma nas, estabelecidas e reconhecidas por
diferenciação cada dia mais complexa. todos, que delimitem o quadro do pos-
Estes processos históricos de contratua- sível. São situações de incerteza em que
lização das relações sociais não devem
a ação partidária conjunta não tem crité-
ser confundidos com o "contrato social"
rios de cálculo racional. Para desbloquear
enquanto raison d'être do Estado mo-
derno. Também hoje, o debate sobre o a paralisia política, devem ser criadas
corporativismo supõe a existência de ins- novas regras e hábitos de luta política.
tituições democráticas. O específico do O principal objetivo das estratégias de
debate latino-americano é ter que res- negociação é elaborar normas constituti-
ponder ao mesmo tempo ao desenvolvi- vas da ordem política que sejam reconhe-
mento de uma sociedade diferenciada e cidas por todos. Trata-se, antes de tudo,
complexa e a ausência de um modelo de adequar os procedimentos formais à
regulador. Trata-se de dois planos dis- formulação da vontade coletiva. Pois
tintos, mas que não podem ser separa- bem, não se pode elaborar uma vontade
dos. A negociação como mecanismo his- coletiva, a não ser que exista uma repre-
tórico-concreto de articulação de uma sentação do "coletivo" por meio da qual
sociedade pluralista, com poderes parciais os diferentes negociadores se reconhe-
e difusos, remete a um fundamento "me- çam constitutivos de uma comunidade.
tafísico" que representa a identidade des- A negociação relativa às instituições for-
ta sociedade plural. A referência a uma mais se baseia, assim, na produção de
nova fundamentação da democracia se um "sentido de ordem".
faz ainda mais presente se a negociação
5. O debate latino-americano sobre a
se contrapõe explicitamente a dois ques-
tionamentos do princípio da soberania negociação tende a ser visualizado como
popular: as doutrinas da segurança na- um tipo de neocontratualismo. Julgo, ao
cional e o neoliberalismo. contrário, que o pacto não pode ser con-
cebido como contrato. A noção de con-
3. O que caracteriza — e complica — trato pressupõe a existência de partners,
o debate sobre a negociação nos países sejam eles indivíduos (na tradição libe-
do Cone Sul é a vinculação de dois obje- ral), ou interesses organizados (na dis-
tivos: democratização política e transfor- cussão corporativista). Pois bem, um dos
mação social. Nossa história recente, tan- traços significativos da crise é, segundo
to dos governos autoritários como dos me parece, a erosão das identidades cole-
governos democráticos, indica que as tivas. Pode-se falar de "negociadores"
mudanças sociais não podem ser a impo- (individuais e coletivos) somente num
sição unilateral de um autor, se preten- sentido restrito e equívoco. Se entende-
dem ser duradouras. Se o futuro não se mos por democracia não apenas um sis-
encontra predeterminado, então é pre- tema formal e nos referimos, na perspec-
ciso elaborar as alternativas e tomar de- tiva da soberania popular, à democratiza-
cisões — processo coletivo-conflitante, ção como um processo de subjetivação,
então poderíamos talvez ver na negocia-
próprio da sociedade política. Entendo
ção um mecanismo de constituição de
por negociação, primordialmente, estra- sujeitos. A negociação, vista assim, não
tégias de construção de um sistema po- é somente uma ação instrumental (des-
lítico: a deliberação pública e racional tinada a obter determinado resultado),
dos objetivos da sociedade. Tal disposi- mas também uma ação expressiva de um
ção democrática da sociedade sobre seu reconhecimento recíproco. (Usando uma
futuro supõe, porém, uma reorganização formulação de Luhmann, diria: mediante
do corpo social, destruído pela ditadura. a negociação, Ego se reconhece por meio
Portanto, a negociação não pode senão de Alter e é reconhecido por este como
abordar — junto com a constituição de Alter Ego.)
uma sociedade política — a recomposi- Tenho consciência de estar conferindo
ção da sociedade civil. Esta relação entre às noções de negociação e pacto signifi-
o político e o social não costuma ser cados e problemas que o debate — muito
considerada no debate estratégico. pragmático — não considera. Talvez por

30 NOVOS ESTUDOS N.º 13


isto mesmo, as negociações no Cone Sul haja um acordo sobre a solução adequa-
tenham dado resultados desiguais: con- da, pelo menos em linhas gerais. Quer
seguiram institucionalizar sistemas polí- dizer, presume-se a existência de uma
ticos na Argentina e no Uruguai, mas racionalidade auto-evidente e, portanto,
fracassaram na Bolívia e no Chile. Em um quadro de possibilidades comparti-
nenhum país teve êxito a realização de lhado por todos os negociadores. Sob
um pacto social. Não podendo realizar esta perspectiva, a estratégia de projeto
uma avaliação detalhada, caso por caso, procura selecionar os princípios regula-
dos processos que além do mais estão dores e programar os conteúdos materiais
ainda em curso, proponho traçar um "pa- de uma reorganização global da socieda-
râmetro" que permita esclarecer o debate de. Uma proposição de tal consenso sobre
e ressaltar alguns temas. os objetivos da sociedade é a seguinte
A exposição distingue: 1. entre proje- formulação:
to (referente a acordos substantivos) e Em situações de ruptura da convivên-
pacto (referente a regras institucionais), cia entre grupos, a viabilidade da comu-
e 2. no interior do pacto político, entre nidade nacional ou se mantém pela força,
pacto fundacional (acordo para a transi- ou se sustenta na capacidade de acordo,
ção) e pacto consociativo (co-responsabi- acomodação e transação das principais
lidade governamental). Todas estas for- facções. Caso se formule um acordo, este
mas de negociação se inserem em proces- não deve ser transitório, nem puramente
sos de transição e consolidação democrá- tático. Deve ser um pacto a longo prazo,
tica. E o pacto social deve ser situado revisado periodicamente, mas que com-
igualmente neste contexto. Analisando: prometa as principais correntes políticas
3. os motivos do pacto social e 4. alguns democráticas e as associações que repre-
dos problemas delineados, cabe duvidar sentam os principais interesses corpora-
se este "modelo" consegue dar conta da tivos em disputa (Foxley, 1982).
crise. 5. Ao dirigir o olhar para a crise O projeto pode apelar para uma espé-
de nossas sociedades, minha conclusão é cie de "grande acordo nacional", ou,
que as concepções vigentes de pacto — então, mais especificamente, buscar a
político e/ou social — são insuficientes. formação de uma aliança político-cultural
Além das reflexões já adiantadas neste em torno de determinado projeto de de-
resumo, parece-me importante: 6. reto- senvolvimento. No caso do Chile, alguns
mar a discussão sobre o Estado e situar autores constatam: 1. um "atraso" da
as estratégias de negociação numa análise estrutura econômica com relação à demo-
do Estado Democrático. cratização política, 2. atraso devido à
ausência de uma maioria política estável;
e propõem a constituição de um "bloco
Projeto e pacto pelas mudanças" (Pinto, 1983). É enfa-
tizado o caráter político do projeto: o
uma primeira aproximação, po- estabelecimento de um tipo de "compro-
demos distinguir entre acordos misso histórico" entre os principais par-
substantivos, referentes ao con- tidos democrático-populares para orientar
teúdo material de determinado a transformação sócio-econômica do país.
plano, e acordos formais, referentes aos A estratégia do projeto aponta alguns
procedimentos segundo os quais se ela- problemas, que nos introduzem nas difi-
boram as opções e decisões políticas. No culdades do tema. Em primeiro lugar,
caso dos acordos substantivos relativos ao supõe a existência de "áreas de consen-
que fazer a respeito da crise, vou chamá- so" que apenas precisariam ser traduzi-
los de projeto. As noções de pacto privi- das em vontade política. Haveria, por
legiam a formação de acordos relativos às assim dizer, "interesses objetivos" que
regras de como responder. Trata-se de dariam base à elaboração de um projeto
uma distinção analítica, mas que de fato racional. Existindo a possibilidade de tal
assinala duas características diferentes. solução racional-objetiva da crise, justi-
A estratégia de projeto se refere a um fica-se sua imposição de acordo com os
acordo substantivo num duplo plano. Por procedimentos democráticos. Isto é, atri-
um lado, supõe um acordo sobre o diag- bui-se o lugar central ao Estado como
nóstico da crise; por outro, aponta para expressão e instrumento da racionalidade.
um acordo sobre determinada solução. Cabe perguntar se, em situações de incer-
Supõe-se que, havendo um acordo sobre teza como as que reinam no Cone Sul,
as causas e os efeitos da crise, também a obtenção de uma racionalidade cole-

OUTUBRO DE 1985 31
PACTO SOCIAL NOS PROCESSOS DE DEMOCRATIZAÇÃO: A EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA

tiva — formal e substantiva — não seria social, aumenta a probabilidade de uma


algo puramente aleatório. recuperação econômica a médio prazo e
Não existindo uma racionalidade única de uma consolidação democrática. Se um
da qual se possa extrair um determinado setor se abstém, mas os outros não, esse
projeto (determinado conteúdo) como negociador é sacrificado e seu sacrifício
solução necessária, então passa ao pri- será perfeitamente inútil. Se todos se
abstém menos um, o que não se abstém
meiro plano a pergunta sobre os proce-
se beneficia às custas dos demais, reali-
dimentos que permitam elaborar de ma- zando seu próprio interesse e desfrutan-
neira coletiva/conflitante as possíveis do ao mesmo tempo da continuidade de-
opções alternativas. As estratégias de mocrática e da recuperação econômica.
pacto outorgam prioridade à construção
de um sistema institucional. Desde já, ca-
be destacar que não se trata de uma anti- ais situações só podem ser abor-
nomia projeto ou pacto. Enquanto o pro- dadas satisfatoriamente se supo-
jeto remete aos mecanismos institucionais mos uma racionalidade imper-
de negociação como premissa, o pacto feita, ou seja, uma relação ambí-
aponta para um acordo substantivo que gua e complexa entre racionalidade e
confira sentido ao processo institucional. vontade, que leve em conta o que se
Um segundo problema da estratégia de costuma chamar de debilidade da von-
projeto consiste em enfatizar a finalidade tade. Sob esta perspectiva, Flisfisch pro-
de se institucionalizar um acordo, seja põe, apoiando-se nas reflexões de Elster
corporativo ou político, mas sem perder (1979) sobre Ulisses e o Canto das Se-
de vista a pergunta relativa ao por que reias, enfocar o pacto como um meca-
os negociadores deveriam estar interes- nismo de autolimitação e abdicação dos
sados em realizar tal compromisso. Ha- participantes. Através de um pacto insti-
veria uma suposição de que, uma vez tucional, os negociadores "se amarram"
demonstrada a racionalidade genérica de reciprocamente, de modo que nenhum
uma instituição, a vontade dos negocia- sucumba ao canto das sereias: a tentação
dores envolvidos não pudesse atuar senão de perseguir seu interesse egoísta (pres-
em conformidade com tal racionalidade. são social) em detrimento dos demais.
Ou seja, supõe-se uma racionalidade per- Um terceiro problema que é impor-
tante delinear se refere ao caráter demo-
feita, de modo que, uma vez reconhecida,
crático tanto do projeto, como do pacto.
só possa se realizar de maneira direta e
Nem uma, nem outra estratégia de de-
unívoca. Um negociador que, convencido
mocratização, no entanto, implica a res-
do caráter racional de uma ação, não a tauração da soberania popular, o respeito
empreende, está atuando de má fé ou é dos direitos do cidadão e o fomento dos
simplesmente irracional. E esta suposta direitos econômico-sociais. Ou seja, o
irracionalidade ou má vontade do Outro caráter democrático se fundamentaria na
ficaria ausente da argumentação racional. realização dos objetivos universalistas do
Não obstante, ela existe. E, conseqüente- projeto. Pois bem, tal invocação dos Di-
mente, instala-se o cinismo. Por um lado, reitos Humanos mostra-se insatisfatória,
invoca-se a racionalidade para convencer à medida que estes — enquanto reali-
o Outro de determinada ação e, por dade histórico-concreta — são contradi-
outro, suspeita-se sistematicamente de tórios entre si. Sua compatibilização
sua bona fide. Com relação ao cinismo, exige uma hierarquização dos direitos
pode-se dizer que é uma falta de realismo humanos em torno de um princípio dire-
supor que não haveria brecha entre ra- tor (a soberania popular ou a proprie-
cionalidade e vontade. Tal enfoque não dade privada etc.). Todo projeto pode
considera situações como o "dilema do ser entendido como uma hierarquização
prisioneiro". concreta dos direitos humanos de acordo
Flisfisch (1984 b, 18) nos mostra que com determinada norma fundamental,
cada negociador possui duas opções estra- que funciona como o sentido constitutivo
tégicas: utilizar pressão social no momen- da ordem assim instituída. Aqueles que
to considerado propício, ou abster-se de não reconhecem tal direito diretor aten-
utilizar pressão social. Se o conjunto dos tam contra a ordem social e podem ser
negociadores utiliza pressão social, cria expulsos — em nome dos direitos hu-
um conjunto de condições para um novo manos (Hinkelammert, 1984). Em outras
ciclo de militarização. Se o conjunto de palavras, há diferentes interpretações
negociadores se abstém de usar pressão dos direitos humanos, cada qual excluin-

32 NOVOS ESTUDOS N.º 13


do as concepções divergentes. Estas lugar aos golpes militares na região, mos-
exclusões não têm sido problematizadas. tram uma legitimidade escalonada. Em
As estratégias de projeto privilegiam os tempos "normais", opera uma legitimi-
aspectos de governabilidade e eficiência dade formal, baseada na legalidade. Mas
da ordem democrática, sem justificar os quando esta lesa interesses básicos de
limites de inclusão/exclusão da comuni- um setor importante da comunidade,
dade democrática em questão. imediatamente se invoca o direito inalie-
Neste contexto, cabe recordar a refle- nável à liberdade, à propriedade etc., ou
xão de Przeworski (1984), que tematiza seja, um direito anterior e superior à
a incerteza como traço fundamental da legalidade existente. Esta legitimidade
democracia. Se levarmos a sério a demo- material, geralmente não explicitada, re-
cracia como disposição coletiva sobre um mete à analogia de opiniões e sentimen-
futuro aberto, não podemos nos apoiar tos, àquela coesão espiritual e religiosa
num acordo substantivo (no sentido de que já fora tematizada por Tocqueville
um compromisso irrevogável). Na demo- como a premissa da democracia moderna.
cracia, pelo mesmo princípio da sobera- Uma vez que o princípio da soberania
nia popular, todo acordo é revogável. popular permite aos homens pensar tudo
Não há, além dos procedimentos insti- e a se atrever a tudo, o que/quem esta-
tuídos, garantia material que assegure a belece os limites do politicamente exe-
cada agente o respeito a seus "interesses cutável? Hoje desapareceu, se alguma
vitais". Dada esta incerteza, torna-se di- vez existiu, a unidade religiosa. Persiste,
fícil um processo de democratização ou contudo, a pergunta sobre as fronteiras
mesmo de "abertura", enquanto os mem- do possível e do impossível. Trata-se de
bros do "bloco autoritário" não tenham instituir uma "normalidade" em que as
tal presença institucional que lhes per- expectativas de todos os negociadores
mita resguardar, em termos democrático- sejam comunicáveis e comensuráveis. Nis-
formais, seus interesses básicos. Equi- to reside a atualidade do problema do
vale a dizer que a transição para a de- consenso. Já não podemos descrevê-lo co-
mocracia na região depende de uma mo um acordo substantivo que determina
neutralização institucional da incerteza. os conteúdos da futura ordem, mas tam-
Sobre este pano de fundo, pode-se com- pouco podemos reduzi-lo a um acordo for-
preender as vitórias de Alfonsín e San- mal sobre os procedimentos válidos. Esta
guinetti e, sobretudo, a difícil abertura tensão compõe a problemática do pacto.
para a incerteza da competência eleitoral
no Brasil e, como caso extremo, no Chile.
A direita chilena não se curva diante da O pacto político
oposição porque está incerta de sua força
eleitoral e, portanto, de sua capacidade estratégia mais usual de transi-
de controle institucional sobre as mu- ção democrática pareceria ser a
danças sociais. À falta de uma garantia de um pacto fundacional, desti-
formal através das instituições democrá- nado a: 1. afirmar a democracia
ticas (predomínio político-eleitoral), os como alternativa ao regime militar e 2.
setores dominantes preferem submeter convencionar as "regras do jogo" da par-
seus interesses à proteção do Estado ticipação na reorganização da sociedade
Autoritário. e do Estado.
O fato de que em alguns casos a de- Com respeito ao primeiro ponto, a
fesa dos interesses dominantes seja con- alternativa pode ser descrita como uma
fiada aos procedimentos democrático-for- ruptura radical: renúncia do governo
mais e que, em outros casos, se prefira existente, governo provisório e eleições
uma "democracia protegida" contra a para uma Assembléia Constituinte. As
subversão pela competência política, reivindicações da Aliança Democrática no
indica o caráter instrumental das insti- Chile (1983/4) apontaram para este tipo
tuições. Estas não estão assentadas sobre de ruptura. Ou então pode ser uma
si mesmas. As referências à incerteza, ruptura negociada, como na Argentina e,
aos "interesses vitais", à confiança e ao sobretudo, no Uruguai (acordos do Clube
recebimento de ameaças etc. esboçam um Naval). Com respeito ao segundo ponto,
contexto que escapa ao enfoque jurídico- o pacto fundacional pode assumir a legis-
constitucionalista do pacto. Não basta lação vigente, prorrogando sua eventual
uma "legitimidade pela legalidade". Si- modificação para uma futura Assembléia
tuações de crise, como as que deram Constituinte (Peru, Espanha e agora Bra-

OUTUBRO DE 1985 33
PACTO SOCIAL NOS PROCESSOS DE DEMOCRATIZAÇÃO: A EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA

sil), ou simplesmente restaurar o antigo outro lado, a existência de "subcultu-


ordenamento constitucional (Argentina, ras" partidárias de raízes profundas no
Uruguai). Chile e no Uruguai, mas também em so-
Como traços típicos deste tipo de ne- ciedades de tradição mais populista, como
gociação, mencionarei os assinalados por a Argentina e mesmo a Bolívia. Graças
Carlos Filgueira (1984, 16 e segs.) para a estas subculturas, os partidos sobrevi-
o caso uruguaio. veram à repressão ditatorial. Mas essa
1. O pacto aparece mais como uma mesma estabilidade das fidelidades ideo-
necessidade de dar resposta aos desafios lógicas e, sobretudo, das adesões afeti-
de governabilidade da transição para a vas que reforçam os partidos "por den-
democracia, do que como tentativa de tro", torna-os receosos e intransigentes
institucionalizar um novo princípio dou- "por fora". Dado o peso da tradição, as
trinário ou modelo político. crivagens interpartidárias tendem a ser
2. É um acordo primordialmente de- repetidas e só suspensas provisoriamente,
fensivo diante dos riscos da crise econô- em caso de emergência.
mica, da presença militar e da reiteração
potencial de uma polarização ideológica.
3. Trata-se de uma negociação não isto assim, o pacto fundacional
formal e não avalizada pelo Estado. aparece como uma estratégia rea-
lista em países com um sistema
4. O caráter flexível da definição dos
de partidos estruturado. Mas não
mecanismos de negociação facilita um
alto grau de inclusividade dos agentes e podemos silenciar os aspectos negativos.
dos temas conciliáveis. A constância do "panorama político" fa-
cilita a estruturação dos conflitos (em
5. Finalmente, cabe destacar o caráter contraste com a volatilidade que caracte-
transitório do pacto fundacional. Não se
riza o desmoronamento da ditadura).
busca uma "paz eterna", mas sim uma
Mas, ao mesmo tempo em que favorece
trégua. Trata-se de uma "negociação
para a transição", em que nenhum par- os esforços de reorganização, tende a
ticipante renuncia a suas chances de im- ocultar as mudanças culturais ocorridas
por, na futura competência política, seu sob o regime militar e a esquecer os pro-
próprio projeto. blemas que afetaram anteriormente a de-
mocracia nesses países. Sabemos muito
Trabalha em favor de uma negociação pouco a respeito da mudança de valores
transitória, limitada temática e temporal- e do modo de vida nos últimos anos. E
mente à instauração de um sistema polí- não será fácil para os discursos políticos
tico democrático, a continuidade do sis- assumir e interpretar essas mudanças
tema de partidos. Por um lado, o papel (apenas verbalizadas numa sociedade
central das organizações sociais (desde o "privatizada"). Ao contrário, dada a ero-
movimento sindical e estudantil, as co- são das identidades coletivas nestes anos,
munidades cristãs e os agrupamentos de cabe presumir que a ansiedade em re-
direitos humanos, até as agremiações em-
encontrar finalmente nos partidos um
presariais e profissionais), nas diversas
referencial conhecido conduza a uma re-
fases da resistência antiautoritária, volta
composição meramente repetitiva das
rapidamente para os partidos, enquanto
se inicia, de fato, uma abertura ou libe- identidades políticas, reprimindo ou es-
ralização mínima. Esta tendência, já visí- camoteando as novas experiências sociais.
vel no Brasil (onde o sistema de partidos Em situações de crise como as que vive-
foi criado "de cima para baixo", tendo mos no Cone Sul, a regressão a visões
a oposição adquirido uma imagem "ofi- simplificadoras e extremamente empo-
cialista") nas eleições de 1974, surpre- brecidas da realidade é muito tentadora,
ende ainda menos em países como o Uru- já que faz com que esta pareça clara e,
guai e o Chile, com um sistema parti- portanto, controlável. Também o pacto
dário de longa trajetória. O sistema de fundacional pode chegar a funcionar
partidos, uma vez estabelecido, fica rela- como um mecanismo de estabilização
tivamente congelado. Esta notável con- simbólica, apoiando-se mais no estereó-
tinuidade facilita as negociações "de tipo e no ritualismo que na elaboração
cúpula" em torno de um pacto de transi- de novos significados. Com isso, não
ção e, simultaneamente, dificulta com- apenas se tornam politicamente indiges-
promissos de cooperação que poderiam tas as eventuais alterações do universo
diminuir as oportunidades futuras de cultural, como também são arrastados
cada partido. Para isto contribui, por para frente os problemas que fizeram

34 NOVOS ESTUDOS N.º 13


fracassar anteriormente a convivência custos políticos de decisões impopulares
democrática. e neutraliza uma "inflação ideológica".
Circunscrever a negociação a uma fase Em segundo lugar, o direito a veto das
de emergência, diz Filgueira (1984, 18), minorias em matérias importantes. Isto
"equivale a sustentar erradamente que provê a oposição de uma defesa eficaz
o sistema político antecedente gozava de de seus interesses vitais, diminuindo sua
boa saúde". O que não é o caso de ne- preocupação com ameaças. Em terceiro
nhuma democracia da região. Pois bem, lugar, a extensão do princípio de repre-
não é que os partidos não vejam grosso sentação proporcional do campo eleito-
modo os problemas da institucionalida- ral ao aparato estatal e às grandes cor-
de anterior, mas, sim, que se sentem porações de direito público (televisão,
pressionados pela urgência, a tal ponto rádio). A participação de todas as cor-
que preferem prorrogar qualquer deci- rentes (segundo seu cabedal eleitoral ou
são que possa provocar conflitos entre de acordo com um esquema fixo) na
as forças democráticas e desencadear no- administração pública oferece uma ima-
vos processos de polarização ideológica. gem de neutralidade do Estado em si-
Afora tais considerações táticas, pode-se tuações de alta sensibilidade. Em quarto
acenar com outro argumento: a renova- lugar, o pacto consociativo se apóia na
ção do sistema democrático é um assun- autonomia segmentária, que obriga cada
to demasiado sério para ser abordado no grupo a respeitar a legitimidade e a iden-
estreito limite de uma negociação de tidade própria dos demais. Ou seja, os
cúpula. Esta não pode ser senão uma limites sociais existentes são aceitos e
medida de emergência, que entrega as consolidados. Finalmente, inclui também
decisões fundamentais à vontade do ci- acordos setoriais com o fim de regular
dadão e, concretamente, à competência os conflitos em áreas particularmente
político-eleitoral. Já não se recorre a ra- sensíveis (negociações coletivas).
zões práticas (continuidade dos partidos,
premência do tempo), mas aos funda-
mentos teóricos da democracia. Esta argu- em dúvida, os mecanismos men-
mentação mais teórica não invalida as ob- cionados não somente trazem uma
jeções assinaladas e nos serve melhor para trégua, obrigando a uma negocia-
enfocar uma outra concepção de pacto. ção permanente, mas também fo-
Considerando a fragmentação de nos- mentam uma cultura política mais pro-
sas sociedades e, conseqüentemente, a pícia à democratização, de modo que,
ameaça sistemática de uma polarização posteriormente, se possa restabelecer a
da competência política, destacou-se a competência sem chegar ao enfrentamen-
necessidade de "institucionalizar o con- to total. Basta recordar a estabilidade
senso" mediante um pacto consociativo política da Venezuela. O ponto fraco do
entre as principais forças. Exemplos de modelo consociativo consiste em não te-
uma "democracia consociativa" seriam o matizar por que os partidos teriam que
sistema político holandês e a Grande concordar com uma política de consenso.
Coalizão austríaca (Daalder, 1974, Lij- Vale aqui o mesmo que foi dito acima:
phart, 1977). Na América Latina, o não basta que os negociadores (indivi-
acordo da Frente Nacional entre conser- dual e coletivamente) considerem boa e
vadores e liberais na Colômbia (1958- racional a cooperação, enquanto os even-
74), e o Pacto de Ponto Fixo (1958) na tuais benefícios de uma vitória forem
Venezuela aproximam-se de um pacto con- tentadores. Especialmente em sociedades
sociativo. Nestas sociedades, transtor- polarizadas como a chilena, as expectati-
nadas por crivagens religioso-políticas e vas de se conseguir uma vitória que per-
pela guerra (Áustria, Holanda), ou con- mita impor o próprio projeto constituem
vulsionadas pela violência civil e por um eixo fundamental das identidades
longas ditaduras (Colômbia, Venezuela), políticas.
conseguiu-se consolidar instituições de- Precisamente pela força auto-eviden-
mocráticas com base num ou em vários te que pode ter o modelo de demo-
dos seguintes mecanismos de consociação cracia consociativa no Brasil e no Cone
(Klaveren, 1984, 13 e segs.). Em pri- Sul, convém levar em conta certas des-
meiro lugar, a formação de grandes coa- vantagens. Se num contexto pré-demo-
lizões, outorgando a todas ou quase crático o pacto consociativo facilita a ela-
todas as forças políticas co-responsabili- boração de uma Constituição ideologica-
dade governamental. Isto minora os mente neutra, aberta à realização de

OUTUBRO DE 1985 35
PACTO SOCIAL NOS PROCESSOS DE DEMOCRATIZAÇÃO: A EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA

qualquer projeto de sociedade compatí- jo no conflito — e não no equilíbrio ou


vel com a democracia, posteriormente na harmonia — a condição existencial da
costuma produzir uma perda da capaci- democratização. Não obstante, sob o
dade inovadora. A ampliação da repre- ponto de vista da "democracia real" em
sentação proporcional na administração nossos países, seria ingênuo menosprezar
pública e, em particular, no governo a importância de uma limitação mais ou
(sob a forma de grande coalizão) fun- menos ampla da possibilidade de confli-
ciona como um fechamento do sistema tos. Neste contexto se insere o debate
político. Com um espaço fechado para sobre o pacto social. O objetivo é esta-
novos competidores, os partidos — re- belecer uma "paz social" mediante um
lativamente liberados da competência pacto tripartite entre empresariado, os
eleitoral — podem ser mais indiferentes sindicatos e o Estado (ou pacto biparti-
às expressões sociais de descontenta- te, referendado pelo Estado) sobre um
mento e protesto. Aos olhos do cidadão conjunto de questões econômicas, desde
comum, as negociações parlamentares o incremento de preços e salários, até te-
adquirem a imagem de "negociatas". mas de política econômica e legislação
Embora a transparência do poder seja social (Santos & Grossi, 1983; Córdova,
um ideal democrático inalcançável, a 1985).
ausência de um pólo opositor, fiscaliza- Na região, a idéia do pacto social sur-
dor do governo, fomenta a irresponsa- ge numa situação de emergência econô-
bilidade de todo "governo invisível" mica. Como herança dos regimes milita-
(Bobbio, 1985). A história da Proporz- res e seu modelo neoliberal, os países do
demokratie austríaca mostra a crescente Cone Sul têm uma situação de desem-
apatia dos cidadãos e, portanto, a pro- prego, de inflação, de concentração da
gressiva deslegitimação do sistema po- riqueza e de dívida externa que não é so-
lítico. A conquista da estabilidade ins- mente sentida como moral e politicamen-
titucional pode chegar a ser paga com te ilegítima, mas também como econo-
uma crise de representação, tão desesta- micamente inadministrável. Basta ver as
bilizadora quanto a polarização anterior. projeções dos banqueiros norte-america-
Por isso a estratégia do consenso insti- nos; no caso do Chile e do Peru, cal-
tucionalizado, que permitiu instaurar a cula-se que até o fim da década o mon-
democracia através de uma "mudança da tante da dívida externa triplicaria o va-
ordem", tem que ser abandonada poste- lor das exportações, levando à declaração
riormente em benefício da própria de- de estado de insolvência financeira. Estes
mocracia. (Convém recordar, a este res- países têm também a mais explosiva si-
peito, o processo espanhol, onde o tuação de desemprego; caso se mantenha
PSOE — diferentemente do PCE — a taxa de crescimento prevista de 3,6%
apóia o consenso sem abandonar seu pa- anual até 1990, só poderiam ser absor-
pel de oposição e, portanto, sua preten- vidos os que entrassem pela primeira vez
são de alternativa.) Dito de maneira no mercado de trabalho, mas não se cria-
simples: a consolidação da democracia riam empregos para os atualmente de-
não repousa na cooptação da oposição, socupados.
mas na existência de uma oposição fiel A situação de desemprego, de inflação
e eficaz. O desenvolvimento de uma e de dívida externa, assim como o res-
oposição ao mesmo tempo fiel e eficaz surgimento de velhas exigências sociais,
me parece ser uma das questões centrais longamente reprimidas pelos regimes mi-
em sociedades como as nossas, com de- litares, fez com que a dimensão política
sigualdades e distâncias sociais tão dra- da economia fosse redescoberta. Começa
máticas. a haver uma politização da crise econô-
mica. E ela ocorre num duplo sentido.
Por que um pacto social? Por um lado, desencadeia a crise das di-
taduras e abre processos de transição.
atual interesse da democracia Por outro, contudo, obsta a instauração
reside na construção conflitante de instituições democráticas na medida
da ordem social. Se o futuro não em que tende a "sobrecarregar" os pro-
está predeterminado por alguma cedimentos institucionais com matérias
Providência, se a definição da melhor extremamente conflitantes. Cabe presu-
vida possível é uma tarefa constante da mir que: 1. sob condições democráticas,
convivência humana, então o conflito re- há uma tendência ao uso de estratégias
lativo à ordem desejada é inevitável. Ve- de pressão social e que 2. dadas as con-

36 NOVOS ESTUDOS N.º 13


dições de recessão, tais estratégias reivin- Problemas do pacto social
dicatórias reforçam e prolongam a estag-
nação; com isto, 3. geram uma desesta- presidente Alfonsín é um dos
bilização política que fomenta um novo que mais se preocupam em con-
"ciclo autoritário". Daí se conclui que, seguir um pacto social que rea-
4. para evitar tal desenlace, seria neces- tive o processo econômico e —
sário substituir as estratégias de pressão através de tal "normalização" — estabi-
social por estratégias de negociação. Um lize o processo de democratização. A este
eventual mecanismo cooperativo de for- respeito, convém recordar o Pacto Social
mação de decisões e políticas é o pacto de junho de 1973, celebrado por insis-
social. tência de Perón entre a CGT e a CGE.
O pacto social pressupõe que: 1. o O acordo firmado consistiu num aumen-
problema central se funda na contradição to salarial que devia ser absorvido sem
entre capital e força de trabalho assala- se recorrer a um aumento de preços, e
riada; 2. o conflito de interesses é orga- num compromisso mútuo em não se exi-
nizado socialmente através das corpora- gir novos aumentos de salários e preços
ções e 3. pode ser decidido de forma durante dois anos. Em compensação, as
cooperativa, incorporando os interesses empresas industriais receberam subven-
envolvidos no processo político como ções para a exportação e créditos a curto
negociadores reconhecidos e indispensá- prazo. Após uma forte freada inicial, a
veis, fazendo-os co-responsáveis (e, oca- inflação tornou a disparar e com ela res-
sionalmente, completamente responsá- surgiu a pressão da mobilização sindical.
veis) pela implementação da política eco- Um ano depois, quando Perón morreu,
nômica. o Pacto Social era uma mera formalida-
Por que responder a uma politização de. Da experiência argentina se depreen-
da crise econômica com um pacto social? dem várias conclusões (Canitrot, 1984):
A idéia do pacto social não só assume a 1. Um pacto entendido como simples
corporativização da sociedade capitalista acordo sobre salários e preços não pode
como produto da crescente participação eliminar a inflação, se o restante da po-
dos setores subalternos; além disso, lítica econômica está dirigida para pro-
apóia-se nela como alternativa para a es- duzir excessos de demanda. 2. A política
cassa densidade do sistema de partidos econômica é um assunto político que ul-
(Argentina). O que torna tão atraente o trapassa as representações setoriais. Mal
mecanismo do pacto social em nossos paí- conseguem as organizações corporativas
ses (com uma sociedade política fraca ou renunciar à defesa dos interesses de seus
polarizada e um presidencialismo tradi- representados em favor de proposições
cionalmente forte) é que depende da ini- gerais de política, sobre cujos resultados
ciativa governamental. O Executivo pode não há garantias. Portanto, não assumi-
se esquivar do conflito político "devol- rão como próprio, mesmo que o procla-
vendo" a elaboração, seleção e decisão mem em público, um pacto imposto em
da "questão social" à Sociedade Civil. O nome do interesse geral. 3. Os lucros do
pacto social se apresenta, assim, como acordo são hipotéticos, enquanto os
uma possibilidade de fazer governo sem custos são concretos e mensuráveis. Jul-
esperar a consolidação de um sistema gados de acordo com os interesses seto-
político (Portantiero, 1984). riais, as diretrizes corporativas perdem
Finalmente, outra razão, bem simples, sua representatividade, a menos que a
concorre para o atual debate sobre o pac- assinatura do pacto tenha visivelmente
to social: a existência de um "modelo". O evitado males maiores. O fracasso do
modelo social-democrata (desenvolvido pacto intercorporativo colabora com o
inicialmente na Suécia e, posteriormente, descrédito da representação intracorpo-
na Áustria, Alemanha e Inglaterra) ofe-
rativa.
rece um exemplo de Estado Social que
compatibiliza a defesa das liberdades po- Sobre este fundo concreto, quero es-
líticas com o desenvolvimento da igual- boçar em termos mais gerais alguns pro-
dade social. Embora tal intento seja cri- blemas que enfrenta um pacto social.
ticável ou simplesmente inviável em nos- 1. Uma primeira interrogação se re-
sas circunstâncias, o modelo não deixa de fere à representatividade, pergunta que
funcionar como um referencial "real- se coloca em dois planos: o dos negocia-
mente existente" para a compreensão de dores e o dos objetivos do pacto. Um
nossa realidade. dos principais obstáculos, reconhecido

OUTUBRO DE 1985 37
PACTO SOCIAL NOS PROCESSOS DE DEMOCRATIZAÇÃO: A EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA

por todos, é a falta de uma agremiação prego e a dívida externa. Nestes casos,
empresarial única e de uma central sin- o pacto deveria abarcar melhor a políti-
dical única. Mesmo onde existem gran- ca de investimentos (públicos e priva-
des confederações, estas costumam ter dos), que tornaria muito mais complexas
um status de fato. O problema não é as negociações (pois condiciona o direito
tanto legal, nem consiste somente na de propriedade, força critérios de em-
ampliação do número de negociadores e prego e de produtividade, e exige maio-
(pela competência intra-setorial) na maior res prazos para a reflexão).
complexidade da negociação. A dificulda- Qualquer que seja o tipo de objetivos
de principal me parece ser o fato de as convencionados, não podemos deixar de
corporações sociais terem uma dimensão nos perguntar sobre o valor de um pacto
política. Principalmente no movimento "nacional" em face do processo de trans-
sindical, as divisões são do tipo político- nacionalização. A recente experiência ar-
ideológico e estreitamente vinculadas às gentina ilustra bem a imposição do con-
crivagens interpartidárias. Como incor- dicionamento das possibilidades de um
porar ao pacto social uma central sindi- acordo operário-empresarial a uma con-
cal controlada pelos comunistas, se o PC flitante e prolongada negociação com o
não está legalizado ou encontra-se mar- FMI. Este acordo deixa de ser vincula-
ginalizado de fato? Não se trata somente dor para os próprios signatários e perde
de considerações táticas; estão em jogo todo "efeito de demonstração" para ou-
os limites de inclusão/exclusão que con- tros setores, na medida em que não se
figuram a comunidade. Em sociedades ajusta às condições internacionais (nego-
polarizadas, inclinadas a visões sociais ciadas ou de fato) da economia nacional.
do tipo amigo/inimigo (Chile, Peru), Isto me leva a retomar o exposto sob
não há certeza de que o outro partner um outro ângulo: o das exclusões.
seja membro da comunidade ou "inimi- 2. Um dos atrativos do pacto social é
go da ordem". Mas não somente em ter- que — diferentemente do modelo neoli-
mos de imagens e sensações cabe per- beral — ele parte da existência de inte-
guntar se um pacto entre empresariado resses organizados. Se a idéia liberal do
e sindicatos representa realmente um mercado como intercâmbio entre indiví-
compromisso entre as "classes fundamen- duos livres e iguais sempre foi uma má
tais" de nossas sociedades. A referência utopia (Polanyi), hoje é evidente a es-
às classes fundamentais, implícita na es- truturação do processo econômico atra-
tratégia do pacto social nas sociedades vés de uma "corporativização". Sem des-
capitalistas desenvolvidas, é duvidosa em conhecer sua relevância também em nos-
nossa região, tanto pelo peso dos setores sa região, o nível de organização é com-
rurais e das crivagens étnicas, como pe- parativamente baixo. No âmbito do tra-
los recentes processos de desindustriali- balho assalariado, a maioria dos operá-
zação. No Chile, por exemplo, a dimi- rios não se encontra sindicalizada. Para
nuição do volume numérico ou do peso isto contribuem o alto número de em-
estratégico do proletariado afetou (em presas pequenas (geralmente excluídas
termos ainda desconhecidos) o movi- da legislação sindical), o caráter recen-
mento sindical, parecendo ter se deslo- temente mais precário do trabalho assa-
cado a ênfase anterior no "operário" lariado no campo e o incremento das
para o "popular". Sendo assim, poderá taxas de desemprego e subemprego. Se
o movimento sindical, assentado na es- o movimento sindical não pôde incorpo-
fera da produção, representar o movi- rar estes setores, tanto mais difícil será
mento popular, fundamentado no âmbito a sua articulação com os movimentos so-
da reprodução? ciais como, por exemplo, os invasores de
Num outro plano, cabe perguntar se terra, os "sem casa" etc. As reivindica-
um acordo sobre preços e salários (que ções destes não são negociáveis, no sen-
costuma ser o objetivo central dos pac- tido de que têm um significado consti-
tos sociais) "representa" o problema tutivo da identidade coletiva do grupo
central da crise. Considerando exclusiva- (Durham, 1984).
mente a economia, ninguém discute a in- No âmbito do capital, as exclusões
fluência de um convênio sobre preços e não são menores. As corporações empre-
salários numa política antiinflacionária, sariais não costumam incluir os peque-
pelo menos a curto prazo. Mais duvido- nos empresários e o sem-número de
sos são os efeitos que diriam respeito a "trabalhadores por conta própria". Tan-
duas outras áreas prioritárias: o desem- to os sindicatos como as agremiações

38 NOVOS ESTUDOS N.º 13


empresariais excluem o chamado "setor tipo de representação levanta duas obje-
informal" do peso estrutural crescente ções. Por um lado, o perigo do "corpo-
de nossas economias. E, mesmo quando rativismo". Diferentemente do mundo
são incluídas as empresas públicas ou anglo-saxão, no mundo latino as corpo-
semifiscais, torna-se difícil incluir o ca- rações foram criadas pelo Estado ou,
pital estrangeiro, freqüentemente regula- pelo menos, requerem o reconhecimento
mentado por estatutos específicos. deste. Esta tradição é notoriamente anti-
As exclusões arroladas fazem duvidar parlamentar. Geralmente, tem-se exalta-
da capacidade "apaziguadora" dos acor- do a representação congressista, expres-
dos tripartites e fazem temer pela "ex- são da "organicidade" da sociedade, para
ternalização" dos custos do pacto para denegrir o Parlamento como um "fenô-
os ombros dos excluídos. meno de massas". Não espanta que a
tecnocracia, interessada em soluções téc-
nicas, prefira uma negociação entre espe-
ste breve relato, indicando a am- cialistas a uma deliberação pública. Por
plitude dos setores não represen- outro lado, se a representação democrá-
tados pelas organizações empre- tico-igualitária não é abolida, então a ex-
sariais e sindicais e, portanto, clusão dos partidos é inviável. Queira-
excluídos de um pacto social, somente mos ou não, os partidos modernos são
pretende insinuar as estreitas margens (também) representantes de interesses.
da base social e, sobretudo, política para Conseqüentemente, toda proposta derro-
tal estratégia. Talvez as sociedades lati- tada na celebração de um pacto social re-
no-americanas, mais que corporativizadas, aparecerá através de um outro partido
sejam sociedades fragmentadas. Enquan- no debate político-parlamentar. Para evi-
to o corporativismo supõe uma visão de tar isto, não basta garantir a participa-
"interdependência de interesses", as so- ção do Estado num acordo tripartite. Sua
ciedades do Cone Sul tendem a um "fra- (confusa) presença no pacto social é a
cionamento" particularizador. Ilustrati- de governo, fiscalização, administração
vas disto seriam as situações de impedi- pública, enfim, de árbitro e contempori-
mento de veto mútuo e de bloqueio que zador, mas não em sua característica de-
encontramos na Argentina e na Bolívia, cisiva para a democratização: como Esta-
mas também no Chile, Peru e Uruguai. do dos cidadãos, como sociedade políti-
Paradoxalmente, o "Estado forte" dos ca. Em suma, não se trata de subestimar
regimes militares, procurando encarnar a a importância da representação funcio-
unidade orgânica, a totalidade do corpo nal, mas sim de ressaltar a ausência de
social, acabou por fortalecer o particula- uma articulação entre tal representação
rismo. O corpus societário se assemelha funcional e a representação democrático-
a um arquipélago, onde a identidade de igualitária.
cada "ilha" não reside no reconhecimen- Não menos problemática é a exclusão
to do Outro ou pelo Outro. Pois bem, da corporação castrense. A democratiza-
mesmo que este diagnóstico seja correto, ção implica duas tarefas simultâneas,
não anula a idéia do pacto. Quanto mais com relação à desmilitarização do Estado
fragmentada a sociedade, mais urgentes e à inserção social das forças armadas.
são as estratégias de negociação — e Os recentes acontecimentos na Argenti-
mais difíceis. A questão é saber se o na indicam as dificuldades. Nos últimos
pacto social seria o tipo adequado de anos, teve lugar uma progressiva auto-
negociação. nomização institucional das forças arma-
A propósito, quero ressaltar outros das através do desenvolvimento de ideo-
tipos de exclusão. O pacto social não logias e doutrinas corporativas próprias,
contempla duas corporações que nos pro- um contínuo aumento do pessoal, um
cessos de democratização desempenham impressionante incremento da indústria
um papel decisivo: os partidos políticos armamentista e, logo depois, um aumen-
e as forças armadas. to mais que proporcional do orçamento
Surpreende que — depois de reconhe- militar (Varas, 1984). Se este processo
cido o caráter político da crise — se de autonomização militar não é rever-
pretenda solucioná-la numa negociação tido, as forças armadas acabam por im-
técnico-funcional. Com efeito, podemos por ao governo civil a definição do "in-
caracterizar o pacto social como uma me- teresse nacional". Mas além disso (e por
diação de interesses através de uma re- esta razão incluo o ponto aqui), a pres-
presentação funcional. A ênfase neste são castrense pelos recursos fiscais é uma

OUTUBRO DE 1985 39
PACTO SOCIAL NOS PROCESSOS DE DEMOCRATIZAÇÃO: A EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA

"pressão social" particularmente eficaz conciliação; ou seja, como uma renúncia


e anulará qualquer política redistributi- a direitos legítimos. A renúncia dos sin-
va. É, pois, inclusive por razões econô- dicatos uruguaios ao pacto solicitado por
micas que uma negociação sobre a ordem Sanguinetti indica as dificuldades de um
democrática não pode se limitar a um "cálculo racional". Paralelamente, cabe
acordo entre civis. Apenas inserindo no- assinalar o caso dos empresários chile-
vamente a defesa nacional no sistema nos. Procurando uma negociação de todas
político nossos países conseguem avan- as forças democráticas, um setor sindi-
çar na desmilitarização tanto do Estado, cal propôs ao empresariado o estabeleci-
como da própria Sociedade Civil. mento de um pacto social para lhes asse-
Finalmente, gostaria ao menos de gurar a "paz social". Aqui, foram os
mencionar uma outra corporação a con- empresários que desacreditaram das ga-
siderar: os meios de comunicação de rantias oferecidas. As ameaças governa-
massa. O impacto da televisão, do rádio mentais a curto prazo (via controle esta-
tal do sistema bancário) predominam
e da imprensa na formação da "opinião
sobre as promessas sindicais a longo
pública" é tal, que uma negociação de-
prazo.
pende em alto grau da cobertura (visibi-
lidade) e da interpretação (mensagem) Não proponho enfocar o conflito como
de que são objeto os problemas econô- uma luta de classes com interesses anta-
gônicos e, portanto, incompatíveis. Há
micos por parte dos mass media.
compromissos de classes na medida em
3. Todo pacto supõe certas condições que a negociação de benefícios mútuos
gerais de negociação (Santos, 1984). ofereça maior segurança que as expecta-
Uma dessas premissas é que cada parti- tivas de uma vitória no embate frontal
cipante acredite que, mesmo no pior dos (Przeworski, 1981). Um exemplo é a
acordos possível, as concessões realiza- Espanha, onde, apesar ou precisamente
das sejam mais benéficas que um não- por causa da recessão, uma UGT pro-
acordo. Para que todos os agentes prefi- pensa à negociação ganhou as últimas
ram um acordo ao não-acordo, é indispen- eleições sindicais, na frente das Comis-
sável uma compatibilidade de interesses. sões Operárias, propícias à confrontação.
O que me interessa assinalar com estes
exemplos é a força da imagem, do senti-
o caso típico de um pacto social mento de ameaça. Exigir dos agentes um
(enquanto acordo sobre preços e cálculo de custos/benefícios estritamen-
salários), o setor empresarial sabe te econômico-racional não é realista.
que o congelamento de seus pre- Assim como em eleições políticas, na
ços será compensado pelo Estado via negociação de um pacto social o cálculo
subsídios diretos e créditos baratos. O de preferências é guiado tanto por mo-
setor assalariado, em compensação, tem tivos locais, quanto por representações
muito menos garantias de que sua re- globais. Já Maquiavel sabia que a polí-
núncia de hoje será gratificada no dia tica se faz com ilusões. Pode o pacto
de amanhã. Mesmo quando o congela- social se apoiar em "ilusões" compar-
mento dos salários é indexado sobre a tilhadas/compartilháveis?
inflação, resta o problema do desempre- Isto nos leva a um quarto problema.
go. É improvável que o empresário tenha 4. São ainda válidos os pressupostos
uma compreensão e um enfoque do de- em que se baseava o modelo social-de-
semprego que seja simétrico ao do ope- mocrata do pacto social? Tais pressupos-
rário. A urgência deste problema no tos eram, no fim das contas, dois. Por
Chile e no Peru é muito superior à que um lado, uma idéia da economia como
existe na Argentina e no Brasil. Mas, único fator determinante do desenvolvi-
mesmo nestes países, pode-se visualizar mento social e, por outro, uma idéia da
a inoperância do enfoque ortodoxo de política como programação racional-cen-
que "os ganhos significam mais investi- tralizada do desenvolvimento. Havia um
mentos, e os investimentos geram mais consenso em torno da possibilidade de
empregos". O desemprego aparece como se conseguir a integração social de todos
um traço estrutural da economia capita- através do crescimento econômico e da
lista. Que garantia pode esperar o ope- redistribuição da renda; consenso que se
rário a este respeito, por parte dos em- expressa materialmente no Welfare State
presários ou mesmo do Estado? Em tais keynesiano. Com base neste consenso, de-
condições, um pacto aparece como uma lineia-se o pacto social como um controle

40 NOVOS ESTUDOS N.º 13


do ciclo econômico e um ajuste das dis- Estado; o Estado Autoritário não é re-
funcionalidades do mercado capitalista. presentativo. Mas a Argentina, a Bolívia
Poderia parecer que aquele consenso ou o Peru sugerem as graves dificulda-
já não existe. Por um lado, acham-se em des que um Estado Democrático igual-
questão a centralidade da produção e o mente enfrenta.
crescimento econômico. Duvida-se da Em suma, o pacto social tem como
economia como fator determinante de premissa um "consenso" que dê sentido
um progressivo bem-estar e, em conse- a tal acordo. Isto não parecia existir.
qüência, da própria noção de progresso.
Junto com a procura de valores mate-
riais, coexiste a preocupação com valo- Sobre a crise
res pós-materiais (Inglehart). Não se
trata de um fenômeno restrito ao capi- inhas reservas frente ao pacto
talismo metropolitano. No Cone Sul, os social provêm da suspeita, certa-
regimes militares conquistaram durante mente vaga e confusa, quanto ao
certo período o consentimento dos cida- caráter da crise atual. O extenso
dãos com base num "milagre econômi- uso e abuso da noção de crise inibem seu
co"; contudo, seu posterior fracasso e emprego. Não obstante, tentarei explici-
a conseqüente queda das crescentes ex- tar minhas suposições na medida em que
pectativas de consumo fizeram com que todo o debate sobre o pacto social pres-
a preocupação com a segurança (jurídi- supõe um diagnóstico da crise. Qual
ca, trabalhista, policial, moral) viesse a crise? O pacto social responde, confor-
ocupar um lugar prioritário. Reescalona- me vimos, a uma crise cíclica da econo-
mento semelhante ocorreu com valores mia. Esta existe, mas não me parece ser
como a dignidade humana e a liberdade o ponto fundamental. Na Argentina e
política, que são os que orientam as lutas no Chile, a crise econômica tornou visí-
pela democracia em nossos países. Este vel uma crise política e, conseqüente-
fenômeno não anula a exigência do de- mente, o pacto social é analisado "em
senvolvimento econômico como um ele- função de" um pacto político. A inser-
mento indispensável para a própria de- ção do pacto no processo de democrati-
mocratização. Mas já não se trata de um zação é correta, mas insuficiente; falta
valor fixo e unívoco. Por abstrata que explicar a relação da democratização com
seja a invocação do desenvolvimento a crise. Trata-se realmente de uma anti-
econômico, há experiências concretas dos nomia "democracia versus ditadura" ou
significados diferentes e mesmo opostos existe um questionamento generalizado
que podem ter. Pensemos no Chile e de todo ordenamento?
nas sucessivas versões desenvolvimentis- Como as visões apocalípticas são ten-
tas, a socialista e a neoliberal, do desen- tadoras, impõe-se a cautela. E, contudo,
volvimento econômico. tem-se a impressão de que o que está
Por outro lado, e ampliando o que afinal em crise são os valores e as me-
foi dito acima, há uma crise de consenso didas com que qualificamos e classifi-
devido ao progressivo e até explosivo camos o real: uma "crise de sentido".
processo de diferenciação social. A de- Talvez seja um preconceito pessoal, mas
mocratização produz e fomenta uma ex- vejo na incerteza (acentuada pela ero-
trema variedade de interesses e necessi- são das rotinas sob o autoritarismo) a
dades, mas tem dificuldades em expres- característica mais acentuada nas socie-
sar os valores e objetivos de cada grupo dades do Cone Sul. Tanto na Argentina
social. Desmorona a idéia do Estado e no Uruguai, como no Chile e no Peru,
como síntese moral-cultural do conjunto para não falar da Bolívia, tornou-se ex-
da sociedade. Ao mesmo tempo em que tremamente difícil não só prever o futu-
o Estado ganha legitimidade, incorporan- ro, mas inclusive imaginar as alternati-
do novos setores à cidadania ativa, ele vas à situação presente. A incerteza e o
a perde ao deixar de encarnar a raciona- desconcerto não são uma especificidade
lidade coletiva. Também no Cone Sul o determinante. Já em 1938, Antonin Ar-
centralismo do Estado se vê questiona- taud escrevia: Se o signo da época é a
do. A própria tentativa do Estado de confusão, vejo na base desta confusão
revigorar a unidade nacional acentuou as uma ruptura entre as coisas e as pala-
distâncias. Os homens e mulheres destas vras, as idéias e os signos que são sua
sociedades não se reconhecem a si mes- representação (cit. Béjin, 1979, 115). Se
mos enquanto coletividade por meio do este desmoronamento das representações

OUTUBRO DE 1985 41
PACTO SOCIAL NOS PROCESSOS DE DEMOCRATIZAÇÃO:.A EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA

caracteriza nossa situação, não será esta interna; é preciso elevar a produtivida-
mesma confusão que impede de se espe- de. Isto tem um aspecto negativo: o fe-
cificar a crise? chamento de empresas não rentáveis e
André Béjin fala de um desmorona- a redução do emprego. E um aspecto
mento do fundamento fiduciário dos positivo, mas não necessariamente a
signos de valores. Em todos os campos curto prazo: o investimento em bens de
de atividade, os intercâmbios, que até capital capazes de aumentar a produti-
então pareciam fluidos, transparentes e vidade. Inicialmente predominarão os
previsíveis, aparecem caracterizados pela efeitos negativos; a reconversão indus-
viscosidade, a opacidade, a imprevisibili- trial implica demissão de mão-de-obra.
dade. O resultado é uma contração autár- Além disso, a queda dos ganhos di-
quica; a sociedade tende a se retrair e minui os investimentos necessários pa-
atomizar num conglemado de ilhas. Por ra reestimular, a médio prazo, o em-
um lado, ilhas de agentes que transfor- prego. Por isso, a reativação econômica
mam as diferenças sociais em fronteiras exige pactos sociais destinados a fixar os
protetoras e se encerram numa sociedade limites de crescimento de salários com
auto-referenciada. Por outro, ilhas de relação à inflação.
atividades que já não são comensuráveis. Afora o interesse que, por si só, a
Em tal situação de incerteza e dissocia- experiência espanhola tem para nós, o
ção, ocorre, segundo Béjin, uma regres- que me interessa ressaltar neste contexto
são aos "respaldos" fiduciários dos va- é que — precisamente por seu relativo
lores: o ouro (em economia), o carisma êxito na gestão governamental — o
(em política), as revelações fundamen- PSOE atravessa uma crise de identidade
talistas (em religião), as evidências bási- sem precedentes. Não tem uma estraté-
cas (na ciência). gia a longo prazo, com um modelo de
A situação política de nossas socie- sociedade definido e alguns princípios
dades está cheia de tais regressões: pro- éticos claros (Paramio, 1984, 127). A
cura se defender da confusão através da esquerda socialista parece ser obrigada a
férrea afirmação de "algo" eterno e in- fazer o que está fazendo, incapaz de
questionável. Mas como afinal não exis- imaginar uma opção alternativa. E esta
te esse hard core firme e imutável, a "crise de projeto", constatada na es-
regressão desemboca no desencanto. querda européia, é vivida por nós ainda
Parece-me interessante, a esse respei- mais dramaticamente em nossas socie-
to, a análise que faz Paramio (1984) de dades.
um processo aparentemente expansivo e Se é que minhas reflexões apontam
inovador: a experiência do governo so- na direção correta, delineia-se um tema
cialista na Espanha. A crise dos anos 70 decisivo para nosso debate: a crise de
marca o limite histórico da ideologia de identidade. Não conseguimos articular
esquerda, fundamentada numa idéia key- os diferentes aspectos da vida num con-
nesiana de controle do ciclo e da redis- texto coletivo. O efeito mais visível
tribuição da riqueza. Já não parece pos- disso nas sociedades do Cone Sul é a
sível controlar o ciclo econômico através perda de raízes sociais e de participação
da criação de uma demanda solvente. E coletiva. O próprio desejo de comunida-
a partir desse momento, já não é possí- de (mesmo sob a forma de uma fuga
vel dar por efetivado qualquer progresso para a intimidade e a autenticidade, não
irreversível, até que se igualem as opor- contaminadas pela "loucura" do mundo
tunidades. O principal problema passa a social) põe em evidência a diluição da
ser um déficit orçamentário incontrolá- vida coletiva. Sob esta perspectiva, a de-
vel, para o qual Keynes não oferece so- sagregação do movimento sindical e dos
luções. Não pareceria haver outra alter- partidos no Cone Sul não é uma simples
nativa a não ser uma política de austeri- "questão de organização", uma inevitá-
dade para controlar déficit e inflação. Se- vel reacomodação pós-autoritária. Os
gundo Paramio, a esquerda deve admitir apelos à unidade não encontram eco por-
que a crise ocorre na parte da oferta que não conseguem invocar um senti-
(supply side), ou seja, sua origem reside mento do coletivo no qual um "nós"
na redução da participação dos ganhos possa se reconhecer e afirmar.
do capital na renda (profit squeeze) em A própria crise fomenta — pela ur-
conseqüência de um crescimento dos sa- gência das tarefas imediatas — um prag-
lários superior ao da produtividade. matismo cru, que não consegue captar
Portanto, não basta reativar a demanda as raízes, invisíveis da crise.

42 NOVOS ESTUDOS N.º 13


Crise e construção da ordem As estratégias de "pacto social", em
particular, costumam-se concentrar na
importância do debate sobre a gestão da crise (ou, melhor dizendo, ges-
conciliação reside na força da tão da saída da crise), tendo por pre-
auto-evidência que consegue in- missa a existência de regras institucio-
vocar a idéia do pacto como so- nais para a formação de uma vontade
lução da crise. Diante da crise econômi- coletiva. Isto é, supõe-se uma racionali-
ca, o pacto social aparece como a imple- dade relativamente unitária e aplicada
mentação de uma inevitável política de continuamente no tempo pelo Estado,
austeridade. Diante da crise institucio- e um conjunto de agentes que cooperam
nal, o pacto restabelece as normas ge- entre si com facilidade. Esta premissa
rais que regem a vida social e os proce- me parece errada. Predomina, antes, uma
dimentos que orientam a deliberação dinâmica cega, produto de diferentes in-
pública e as decisões de autoridade. Dian- tencionalidades parciais sem código co-
te das crises do regime democrático an- mum. Com alta probabilidade, a decisão
terior, o pacto promete uma mudança daí resultante não será uma intencionali-
de estilo político, que evitaria processos dade ou racionalidade de ordem supe-
de polarização ideológica e de bloqueio rior, elaborada pelo conjunto dos agen-
institucional. Em tudo isso, a idéia do tes, mas sim um mero efeito aleatório,
pacto reúne com sensibilidade as dramá- nem previsto, nem desejado, da ação
ticas experiências dos últimos anos e conjunta. Nestes casos, não se pode falar
outorga ao período de transição demo- de uma "estratégia" propriamente dita.
crática um significado expressivo. Para que exista uma estratégia, não se
A noção de pacto (político e social) pode separar o conteúdo material da pro-
expressa um anseio, mas não o elabora. posta das formas de elaboração. Em ou-
Contrapõe a democratização à crise, mas tras palavras: em nossos países, a reso-
não articula a relação. Talvez o grande lução da crise e a construção da ordem
eco do debate provenha justamente do política são processos simultâneos (Flis-
fato de a ilusão de poder se esquivar fisch, 1984 c, 7).
(bypassing) dos problemas da democra- A construção da ordem costuma ser
cia. Não vem ao caso aqui discutir as concebida principalmente sob o ponto
teorias da democracia. Não obstante, de vista da instauração de instâncias e
parece-me ingênuo discutir as estratégias de procedimentos para a elaboração das
de negociação fingindo que não estamos opções e da tomada de decisões. Esta
tratando de problemas da teoria demo- perspectiva é importante e até prioritá-
crática. De fato, o debate se insere numa ria, desde que se leve em conta algumas
espécie de "renascimento liberal"; alu- implicações. Trata-se de uma reforma
de-se ao intercâmbio e ao mercado polí- institucional; isto significa repensar a
tico, prefere-se um Estado mínimo, me- institucionalidade, evitando-se a atual
ro garantidor das regras do jogo, mas cisão entre uma teoria de sistema, inca-
solicitando-se, simultaneamente, um Es- paz de dar conta da decomposição e da
tado intervencionista, tudo isto sob a recomposição dos sujeitos, e uma teoria
imagem de um equilíbrio harmonioso. da ação, incapaz de tratar, a partir da
Esta recuperação do liberalismo seria constituição dos sujeitos, da institucio-
muito benéfica numa região que não o nalização da vida social.
conheceu, desde que impulsione uma re- A institucionalização do conflito im-
flexão aprofundada sobre a política de- plica, nos países do Cone Sul, a elabora-
mocrática. Como avaliar ex parte populi ção de normas constitutivas. O autori-
e não somente ex parte principis (gover- tarismo destruiu as normas reguladoras
nabilidade) se as estratégias de concilia- que governavam a luta política; esta não
ção são efetiveis e desejáveis, sem refle- está demarcada por limites que, aceitos
tir sobre as relações entre democracia e e compreendidos por todos, se coloquem
pluralismo, entre política e sociedade, no horizonte do politicamente possível.
entre participação e representação? Em Devem ser criadas novas regras e roti- Bibliografia
outras palavras: pergunto-me em que nas, uma nova "gramática" da ação polí- Béjin, André. Crisis de valo-
medida o debate não é uma tentativa tica. Quer dizer, é preciso redefinir o qua- res, crisis de medidas, em
AA.VV.: El concepto de cri-
mais ou menos consciente — sob a pres- dro de possibilidades dentro do qual a po- sis. Buenos Aires, Megalopo-
lis, 1979.
são da urgência — de abordar uma dis- lítica ("a arte do possível") é racional. Bobbio, Norberto. Il futuro
della democrazia. Enaudi,
cussão sobre a democratização mediante A determinação do possível resulta da 1985.
Canitrot, Adolfo. Conflicto y
um método instrumental ad hoc. ação conjunta de diferentes utopias, pro- acuerdo social en la Argen-

OUTUBRO DE 1985 43
PACTO SOCIAL NOS PROCESSOS DE DEMOCRATIZAÇÃO: A EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA

tina, en Canitrot, Foxley, La- jetos históricos e expectativas, diferentes anteriores. O que significa que o nível
gos: Orden economico y de-
mocracia. Santiago, Centro de concepções de tempo e espaço, diferen- de vida não depende senão parcialmente
Estudios del Desarrollo, 1984.
Córdova, Efrén. Pactos so- tes conhecimentos práticos da realidade do salário. A importância social da nego-
ciais. Experiência internacio- ciação coletiva sobre os salários tende a
nal, tipologia e modelos. São e diferentes reações emocionais diante do
Paulo, Ministério do Traba-
lho/IBRT, 1985.
que é e do que poderia ser. Isto é, através decrescer. Isto faz com que hoje as va-
Durham, Eunice Ribeiro. Mo- da produção das normas constitutivas, são riações mais sensíveis do nível de vida
vimentos sociais, a construção redefinidos os códigos interpretativos do não provenham tanto do poder de com-
da cidadania, em Novos Estu-
dos CEBRAP, n.º 10, São
Paulo, 1984.
real. E isto implica uma recomposição pra do salário bruto, como das modifi-
Filgueira, Carlos. Mediación das identidades políticas. cações no regime de prestações de ser-
política y apertura democrática
en el Uruguay. Montevideo, A construção da ordem não se reduz, viços sociais, das variações na taxa de
Documento Trabajo CIESU,
1984.
pois, a uma institucionalização formal. imposto e das cotizações sociais. (. . .)
Flisfisch, Angel. Consenso, Os procedimentos formais adquirem va- Em tais condições, já não é tanto a ne-
pacto, proyecto y estabilidad gociação sindical-patronal, mas a polí-
democrática. Santiago, Centro lor vinculador na medida em que repou-
de Estudios del Desarrollo,
1984 a.
sem numa norma fundamental. Isto re- tica fiscal e social do governo que cons-
Flisfisch, Angel. Reflexiones mete ao espírito das instituições, ou seja, titui o lugar decisivo da arbitragem so-
algo oblicuas sobre el tema de
la concertación. Santiago, Cen- aquele referencial transcendental ou ima- cial (Rosanvallon, 1983, 58). Esta ten-
tro de Estudios del Desarrol-
lo, 1984 b.
ginário coletivo do qual se depreende o dência à socialização encontra resistên-
Flisfisch, Angel. Crisis, Es- significado de determinada instituição cia, por outro lado, na crise do Welfare
tado y Sociedad Política —
la primacia de la sociedad como um valor coletivo. State (seja por uma sobrecarga de rei-
política, Santiago, FLACSO,
1984 c.
Em suma, presumo que as estratégias vindicações sociais, seja por um questio-
Foxley, Alejandro. Algunas de conciliação fracassam se supõem a namento da legitimidade e racionalidade
condiciones para una democra-
cia estable: el caso de Chile. existência de normas reguladoras, de da intervenção estatal). As dificuldades
Santiago, CIEPLAN, 1982.
Grossi, Maria e Santos, Ma-
identidades políticas estáveis, de repre- do intervencionismo estatal não se resol-
rio dos. La concertación so- sentações coletivas instituídas. Em com- vem mediante um pacto social. Podem
cial. Una perspectiva sobre
instrumentos de regulación pensação, podem chegar a ser um estilo ser, ao contrário, uma conseqüência dele.
economico-social en procesos
de democratización, em Críti-
eficaz na medida em que buscam arti- Como assinala Offe (1984, 17): Quanto
tica & Utopia, n.° 9, Buenos cular a dinâmica propriamente institu- mais o governo tenta dirigir e controlar
Aires.
Hinkelammert, Franz. Demo- cional com estes outros "momentos" da a produção e a distribuição, na persegui-
cracia y Derechos Humanos
(manuscrito). Costa Rica,
construção da ordem. ção dos objetivos determinados pelas po-
Depto. Ecuménico de Inves- líticas democráticas, mais depende de
tigaciones, 1984.
Offe, Claus. Interview by J. forças cuja elaboração é indispensável
Keane and D. Held, em Te- or último, devo chamar a aten- para a implementação de tais programas
los, n.º 58. Winter, 1983. ção para um ponto que, de certa e que, portanto, podem obstruir tal im-
Offe, Claus. Societal precon-
ditions of corporatism and maneira, resume os anteriores: o plementação. Seria justamente a inter-
some current dilemmas of de-
mocratic theory. Notre Dame, papel obscuro e confuso do Esta- venção estatal na economia, restringindo
Kellogg Institute, 1984.
Paramio, Ludolfo. La izquier-
do. Os debates sobre a negociação e o o poder e o campo de ação dos interesses
da y Ia crisis económica, em pacto consideram o Estado enquanto es- corporativos, que incrementa a capaci-
Leviatan, 16, Madrid, 1984.
Pinto, Aníbal. Consensos, di- paço de negociação, árbitro das partes, dade dos interesses econômicos de in-
sensos y conflictos en el espa-
cio democrático-popular, em
fiscalização compensadora das diversas fluenciar — por voice ou por exit
Mensaje, 319, Santiago, 1983. concessões, executor dos acordos pactua- (Hirshman) — na política estatal.
Portantiero, Juan Carlos. La
consolidación de la democra- dos. Por um lado, apóiam-se no Estado, No Cone Sul, sob o modelo neolibe-
cia en sociedades conflictivas já que a negociação se opõe justamente
(manuscrito). Buenos Aires, ral de um Estado ao mesmo tempo forte
1984. à idéia de uma auto-regulamentação so- (dominação) e mínimo (economia), o es-
Przeworski, Adam. Estado y
compromiso de clases, em cietária via mercado. Por outro, contu- tudo da intervenção estatal tem decaído.
Lechner (ed.): Estado y polí- do, desconfiam do Estado enquanto "or-
tica en América Latina. Méxi- É certo que o Estado já não representa
co, 1981.
Przeworski, Adam. Ama a in-
denamento napoleônico" do processo so- a unidade orgânica, a totalidade sinte-
certeza e serás democrático, cial. A ambivalência reflete a ausência de tizadora da sociedade. O próprio fra-
em Novos Estudos CEBRAP,
n.º 9, São Paulo, 1984. uma concepção de Estado democrático. casso do Estado Autoritário o confirma.
Rosanvallon, Pierre. Misère de
l’économie. Paris, Seuil, 1983.
O dilema reside no fato de o capita- Mas isto não significa que o Estado seja
Santos, Wanderley Guilherme lismo não poder viver nem com, nem somente uma corporação a mais, seme-
dos. A "negociação" que não
houve, em Novos Estudos sem Welfare State (Offe, 1983, 169). lhante às outras, num "mercado políti-
CEBRAP, n.º 10, São Paulo,
1984.
Por um lado as intervenções do Estado co". Creio que o debate sobre a nego-
Tironi, Eugenio. Clases socia- são indispensáveis para que a mercanti- ciação e o pacto só terá um valor ex-
les y acuerdo democrático.
Santiago, Centro de Estudios lização da força de trabalho possa fun- pressivo dos anseios pós-autoritários se
del Desarrollo, 1984. cionar. Basta ver o incremento das im-
Van Klaveren, Alberto. Insti- não retomar a discussão latino-americana
tuciones consociativas. Alter-
nativa para la estabilidad de-
posições obrigatórias (impostos e previ- anterior sobre o Estado, na abordagem
mocrática en Chile? Santiago, dência social) em sociedades capitalistas do estudo do Estado Democrático.
Centro de Estudios del De-
sarrollo, 1984. desenvolvidas como, por exemplo, a Norbert Lechner é membro da FLACSO - Facultad
Varas, Augusto. Automatiza-
ción castrense y democracia
França. Em dez anos, entre 1973 e 1983, Latinoamericana de Ciencias Sociales.
en América Latina. Santiago, estas imposições subiram de 35% para Novos Estudos CEBRAP, São Paulo
FLACSO, 1984.
45% do PNB, mais que nos trinta anos n.º 13, pp. 29-44, out. 85

44 NOVOS ESTUDOS N.º 13