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O Corcundinha

Condessa de Ségur

Composto e impresso por


Printer Portuguesa, Indústria Gráfica, Ltda. Mem Martins — Sintra
para a EDITORIAL PUBLICA
À MINHA NETA
CAMILA DE MALARET
Querida e boa Camila: é com um grande prazer que te dedico este livro, pois nele vais
encontrar a vida de Cristina... e as suas belas ações engrandecer-te-ão.
Tu tens, relativamente a ela, o beneficio do apoio e exemplo de uns bons pais; assim
encontres tu, como ela, um bom marido que te saiba amar e apreciar como o meu Francisco
ama e aprecia Cristina.
É o desejo da tua avó, que te ama ternamente.
CONDESSA DE SÉGUR (Rostopchine)

1
Princípio de amizade
Cristina viera passar o dia a casa da prima Gabriela; ambas trabalhavam com afinco em
vestir uma boneca que a Sra. Cémiane, mãe de Gabriela e tia de Cristina, lhe oferecera;
haviam já cortado uma camisa e uma saia, quando entrou um criado, chamando-as.
— Meninas, a Sra. Cémiane manda-as chamar ao caramanchão.
GABRIELA — É preciso ir já? Está lá alguém?
CRIADO — Já, menina. Está lá um senhor a conversar com ela.
GABRIELA — Anda daí, Cristina.
CRISTINA — É de arreliar! Não posso vestir a minha boneca, que está nua e a tiritar de
frio.
GABRIELA — Que queres? Não devemos desobedecer à mãezinha, que está à nossa
espera.
CRISTINA — O que é pena é eu, sozinha em casa, não a poder vestir, pois não sei
trabalhar nem tenho quem me ensine. Deus meu, como sou infeliz em não saber fazer nada!
GABRIELA — Porque não pedes à tua criada que lhe corte um vestido?
CRISTINA — Não o cortará, pois nunca faz coisa nenhuma para me ser agradável.
GABRIELA — Então, não sei que dizer... E se eu te fizesse um?
CRISTINA (levantando a cabeça e sorrindo) — E tu fá-lo-ias?
GABRIELA — Parece-me que sim. Posso experimentar.
CRISTINA — Já?
GABRIELA — Já não, pois a mãezinha está à nossa espera. Mas, quando voltarmos,
trabalharemos no teu vestido.
CRISTINA — Entretanto a minha filha morrerá de frio.
GABRIELA — Vou agasalhá-la nesta velha capa; vais ver; dá-ma cá.
Gabriela pegou na boneca, agasalhou-a o melhor possível e colocou-a em cima de uma
poltrona.
GABRIELA — Fica aí muito bem. Agora vamos. A mãezinha espera-nos. Depressa.
Cristina beijou Gabriela, que a arrastou para fora do quarto; chegaram açodadas ao
caramanchão, onde a mãe passeava com um cavalheiro e um rapazito, que ficara um pouco
para trás.
Gabriela e Cristina fitaram-no, surpreendidas. Era um pouco mais alto do que elas,
gordo, de singular aparência; as suas feições eram bonitas e os olhos meigos e inteligentes.
Era agradável, mas tímido.
Cristina aproximou-se dele e pegou-lhe na mão, dizendo:
— Anda brincar com a gente, ou não queres?
O rapazito nada respondeu; olhou, receoso, para Gabriela e Cristina.
— És surdo, rapazinho? — inquiriu Gabriela, amistosamente.
— Não — respondeu o pequeno, baixinho.
GABRIELA — E porque não falas? Porque não nos queres acompanhar?
PEQUENO — Receio que vocês trocem de mim, como os outros.
GABRIELA — E porque havíamos de troçar de ti como os outros?
O pequeno levantou a cabeça e fitou-as admirado.
— Pois não vêem?
GABRIELA — Vejo-te mas não percebo porque troçam de ti. E tu, Cristina, vês alguma
coisa?
CRISTINA — Eu também não vejo nada.
PEQUENO (sorridente e hesitante) — Então querem beijar-me e brincar comigo?
GABRIELA E CRISTINA (beijando-o) — Pois decerto!
O rapazito parecia tão contente, que Gabriela e Cristina se sentiram também contentes.
Na ocasião em que as três crianças se beijavam, a mãe e o tal senhor voltaram-se e este último
soltou uma alegre exclamação:
— Bondosas meninas! São suas, minha senhora? Beijaram o meu pobre Francisco, que
me parece também contente.
SRA. CÉMIANE — Afigura-se-me muito admirado por ver minha filha e minha
sobrinha acolherem tão bem o seu Francisco! Do contrário é que eu me admiraria.
SR. NANCÉ — Bem contente ficaria se toda a gente pensasse como a senhora; o defeito
do meu pobre filho, porém, torna-o tão tímido! Está de tal forma habituado a ser alvo de
gracejos e troças de todas as crianças, que deve estar radiante por se ver apaparicado e
acarinhado pelas suas bondosas e encantadoras meninas.
— Pobre criança! — disse a Sra. Cémiane, fitando-o com ternura.
Os três pequenos haviam-se aproximado. Gabriela e Cristina ainda agarravam as mãos
do rapazito, a quem obrigaram a correr, mas que ria com gosto desta forçada carreira.
GABRIELA — Mãezinha, este menino disse-nos que troçavam dele e ninguém queria
beijá-lo. Qual o motivo, se é tão bondoso e tão simpático?
A Sra. Cémiane não respondeu; Francisquinho fitava-a, ansioso; o Sr. Nancé também se
calara.
CRISTINA — Porque troçam dele?
SR. NANCÉ — Porque ficou assim corcunda após uma queda. E há gente muito má que
se ri dos corcundas, o que é muito mal feito.
GABRIELA — Muito mal feito, lá isso é verdade! Que culpa tem ele em ser corcunda,
demais sendo tão bonzinho!
— Donde é que ele é corcunda? Não vejo... volveu Cristina, andando em volta de
Francisco.
O pobre rapazito estava vermelho e aflito com a inspeção de Cristina, murmurando de si
para si:
“Meu Deus! Se vê o meu defeito, fará como os outros. Troçará de mim!”
A Sra. Cémiane, confusa, procurava fazer acabar aquele manejo sem que o Sr. Nancé
desse por isso; Gabriela principiou também a examinar as costas de Francisco, quando
Cristina exclamou:
— Aqui está, já vejo! É nas costas! Vês, Gabriela?
GABRIELA — Bem vejo, mas não tem importância! Pobre pequeno! E supunhas que
riríamos de ti? Seria mal feito! Não tenhas medo! Como te chamas? Onde está a tua
mãezinha?
FRANCISCO — Chamo-me Francisco; a mãezinha morreu e nunca a vi; o paizinho está
a falar com a vossa mãezinha.
CRISTINA — Este senhor é que é o teu paizinho?
SR. NANCÉ — Por que se admira, minha menina?
CRISTINA — Porque o senhor é alto e magro, e ele tão pequeno e tão gordo!
SRA. CÉMIANE — Que disparate, Cristina! Já viste alguma criança ser tão alta como o
pai? Vão brincar com Francisco e não digam tolices.
SR. NANCÉ — Deixem-me beijá-las, bondosas meninas, e agradeço-lhes do coração
serem tão carinhosas para com o pobre Francisco.
Depois de beijar as pequenitas, foi juntar-se à Sra. Cémiane, enquanto as crianças foram
colher morangos.
CRISTINA — Anda para aqui, Francisco. Toma morangos. São todos para ti.
FRANCISCO — Obrigado, minha boa menina. Como se chamam?
GABRIELA — Eu sou Gabriela.
CRISTINA — E eu, Cristina.
FRANCISCO — Quantos anos têm?
GABRIELA — Tenho sete e minha prima Cristina, seis. E tu?
— Eu... tenho... dez — respondeu Francisco, corando.
GABRIELA — Já dez anos! És mais velho do que o Bernardo.
FRANCISCO — Quem é esse Bernardo?
GABRIELA — Meu irmão. É muito bom rapaz. Gosto muito dele. Agora não está cá.
Anda a estudar com o senhor abade.
FRANCISCO — Eu também vou estudar com o senhor abade, perto daqui, em Drany.
GABRIELA — Ele também. Porque é que ainda não nos tinhas vindo visitar?
FRANCISCO — Não morava aqui. Meu pai foi à Itália por causa da minha saúde; os
médicos disseram que me tornava alto e direito em Itália e, afinal, fiquei mais corcunda do
que dantes, o que deveras me desgosta.
GABRIELA — Não penses mais nisso; afirmo-te que és muito gentil. Não achas,
Cristina?
CRISTINA— Gosto muito dele, e tem aspecto bondoso.
Ambas beijaram Francisco, que ria e mostrava grande contentamento. Ao cabo de um
quarto de hora, tinham enchido de morangos um pequeno cesto, que Gabriela levava no
braço.
— Agora vamos comer — alvitrou Gabriela, enxugando a testa. — Está calor e isto
refresca. Olha, Francisco, senta-te aqui, ao pé de mim, e tu, Cristina, coloca-te do outro lado;
Francisco é que vai repartir.
FRANCISCO — E onde os pomos se não temos pratos?
GABRIELA — Vamos tê-los daqui a pouco. Que cada um de nós apanhe uma folha de
castanheiro. Olhem, aqui estão três.
Todos apanharam uma folha e Francisco principiou a divisão; as pequenitas viam-no
proceder e, quando acabou, Gabriela disse:
— Está mal repartido, pois deste-nos quase tudo e para ti nada ficou.
— Aqui tens uma parte dos meus morangos — volveu Cristina, depondo uma parte dos
seus na folha de Francisco.
— E aqui estão os que te dou — tornou Gabriela, imitando Cristina.
FRANCISCO — São demais, minhas meninas.
GABRIELA — Está assim muito bem. Comamo-los!
FRANCISCO — Como são bondosas! Quando estou com outros meninos, tiram quase
tudo e pouco me deixam.
2
Paulo
As crianças acabavam de comer os morangos, quando viram aparecer um rapaz dos seus
vinte anos, de chapéu na mão, e que cumprimentava à medida que se aproximava das
crianças. Em seguida, permaneceu de pé diante delas, sem dar palavra.
Os pequenos olhavam para ele e também nada diziam.
— Aqui estou — disse o rapaz — Signorina, signor — continuando a cumprimentar.
As crianças cumprimentaram-no também, mas um pouco assustadas.
— Conheces? — ciciou Francisco ao ouvido de Gabriela.
GABRIELA — Não; tenho medo. E se fugíssemos?
— Signorina, signor, cheguei — tornou o rapaz, com pronúncia estrangeira,
continuando a cumprimentar.
Por única resposta, Gabriela tomou a mão de Cristina e desatou a correr, bradando:
— Mãezinha, mãezinha, um sujeito!
Não tardaram a encontrar a Sra. Cémiane e o Sr. Nancé, que tinham ouvido gritar e
acudiam, receando algum desastre.
— Que aconteceu? Onde está Francisco? — inquiriu, ansioso, o Sr. Nancé.
— Ali, ali, na floresta, com um estranho que vai fazer-lhe mal — retorquiu Cristina,
esbaforida.
O Sr. Nancé correu como uma seta e avistou Francisco de pé e sorridente diante do
estrangeiro, que desatou a cumprimentar de novo.
SR. NANCÉ — Quem é o senhor, a que vem e que pretende?
ESTRANGEIRO (cumprimentando) — Recebi uma carta, convidando-me a visitar o Sr.
Conde. É o signor Cémiane?
SR. NANCÉ — Não, mas aqui tem a Sra. Cémiane.
O estrangeiro acercou-se da Sra. Cémiane, recomeçou os cumprimentos e repetiu a frase
que acabava de proferir ao Sr. Nancé.
SRA. CÉMIANE — Meu marido encontra-se ausente, mas deve estar a chegar.
Entretanto, diga-me o seu nome, porque não me recordo de ter recebido a sua visita.
— Paulo Peronni, e aqui tem uma carta do Sr. Conde Cémiane.
E apresentou uma carta à Sr. Cémiane, que a leu, reprimindo um sorriso e dizendo:
— Não é a letra de meu marido.
PAULO — Não é a letra do signor Conde? Mas ele convidou-me para jantar. E eu
estava tão contente! Até vim depressa, com medo de chegar tarde. E agora?
SR. CÉMIANE — Agora... deixe-se ficar. Decerto os seus amigos quiseram pregar-lhe
uma partida. E o senhor pregará a eles, ficando e travando conhecimento conosco.
PAULO — Grazie, signor... Estou aqui há pouco e por isso não conheço ninguém.
O rapaz contou então como, sendo médico italiano, se safara da terrível carnificina da
aldeia de Liepo, que defendera com duzentos rapazes milaneses contra Radetzky 1 .
— Eles ficaram quase todos mortos, cortados aos pedaços; eu salvei-me pondo-me
debaixo dos defuntos; quando a noite chegou, rastejei, rastejei e depois me pus em pé e
desatei a correr. De dia, escondia-me no bosque e comia fruta e, de noite, tornava a correr até
Génova. Depois, exclamei: “Italiano!” e os amigos deram-me pão, carne e uma cama. E
cheguei a esta bela França num navio. Não conhecia ninguém e, quando recebi a carta do bom

1
Marechal austríaco que se tornou célebre pela cruel repressão de revolta dos Lombardos em 1849. (N. do T.)
Sr. Conde Cémiane, fiquei contente. E os colegas riram-se e disseram: “Não vás lá, olha que é
uma partida.” Mas eu não fiz caso e percorri duas léguas numa hora, e agora estou aqui... Os
senhores estão-se a rir, também; é engraçado, não?
A Sra. Cémiane ria-se a valer e o Sr. Nancé sorria, contemplando o pobre italiano, com
muita pena.
— Pobre rapaz! — lamentou, suspirando. — E seus pais?
— Meus pais...
E as feições do rapaz tomaram terrível expressão.
— Meus pais foram mortos pelos austríacos.
SRA. CÉMIANE — Pobre rapaz! É possível?
SR. NANCÉ — Infeliz mancebo! Sem pais, sem pátria, sem fortuna! Mas é preciso ter
coragem. Com a ajuda de Deus tudo se há de arranjar. Confie n'Ele, meu caro. Estar em casa
da Sra. Cémiane já é um princípio de proteção. Sossegue, que tudo caminhará bem.
O pobre Paulo fitou o Sr. Nancé com ar triste e sem dar palavra até ao regresso ao solar.
As crianças ficaram um pouco para trás, a fim de não irem junto de Paulo, que inspirava
certo temor às meninas.
— Que dizia ele a respeito dos austríacos? — perguntou Cristina. — Tinha uma cara tão
zangada!
GABRIELA — Dizia que os italianos queimavam os austríacos... e em seguida
destruíam tudo, casas e pessoas.
CRISTINA — Quem destrói?
GABRIELA — Todos eles.
CRISTINA — Como todos? Que destruíram? Não percebo palavra.
GABRIELA — Também nunca percebes! Aposto que Francisco percebeu.
FRANCISCO — Sim, percebi, mas não conforme contas. Os austríacos é que matavam
os pobres italianos; queimavam tudo, e deram cabo da família deste homem. Percebes agora,
Cristina?
CRISTINA — Muito bem, porque te explicas melhor do que Gabriela.
GABRIELA — Não tenho culpa de que sejas estúpida e não percebas nada. Deves estar
lembrada de que tua mãe muitas vezes te chama tapada como uma porta!
Cristina baixou a cabeça tristemente e calou-se.
— Não és estúpida, Cristininha. Não acredites no que diz a Gabriela.
CRISTINA — Todos dizem que sou feia e estúpida e parece-me que falam verdade.
E uma lágrima lhe correu pela face.
GABRIELA (beijando-a) — Perdoa, minha pobre Cristina, pois não queria desgostar-te.
Não és estúpida, não. Desculpa.
Cristina sorriu e correspondeu ao beijo de Gabriela.
A sineta tocou para o jantar, e os três correram para casa a fim de se limparem da poeira
e arranjarem os cabelos.
O jantar decorreu alegre, mercê da aventura do italiano, que a Sra. Cémiane apresentara
ao marido, e ao voraz apetite do pobre Paulo, que não se fazia esquecer. Na altura do assado,
ainda não tinha acabado de comer a enorme porção de frango guisado, que transbordava do
prato. O criado já servia todos de assado, enquanto Paulo comia o último bocado de frango;
seguia e devorava com os olhos o assado, inquieto, esperando que o servissem. Ao ver,
porém, que o criado se dava pressa em servir o prato de espinafres, ganhou coragem e,
dirigindo-se ao Sr. Cémiane, pediu, em tom comovido:
— Senhor Conde: por favor, diga que me passem o assado.
— Com todo o gosto — respondeu o conde, rindo.
A Sra. Cémiane deu uma gargalhada, que foi o início de um riso geral. Paulo riu
também, mas sem deixar de comer, e engasgou-se, a ponto de ficar aflito. Francisco, ao notar-
lhe a aflição, correu para ele, meteu-lhe os dedos pela boca dentro e tirou um enorme bocado
de assado. Logo tudo voltou à primeira forma. Todos os risos, que tinham cessado perante a
aflição de Paulo, se repetiram quando o italiano, voltando-se, com a boca ainda cheia, para
Francisco, lhe tomou a mão e lha beijou repetidas vezes.
— Buon signorino! Salvaste-me a vida e em paga far-te-ei alto como teu pai. Que é isto?
— indagou, ao passar a mão pela corcunda do pequeno. Sou médico e, como tal, hei de pôr-te
elegante e bonito.
E pôs-se de novo a comer, sem ligar importância a quem estava, e teve o cuidado de não
rir mais até ao fim do jantar.
Bernardo também travou conhecimento com Francisco durante a refeição.
— Tenho pena de não ter vindo mais cedo — disse Bernardo. — Estava em casa do
senhor abade, aonde vou todos os dias à lição.
FRANCISCO — E eu também tenho de ir à casa do senhor abade aprender latim. Sinto-
me satisfeito por também andares lá; ver-nos-emos todos os dias.
BERNARDO — Também eu; provavelmente daremos as mesmas lições.
FRANCISCO — Suponho que não. Que idade tens tu?
BERNARDO — Oito anos.
FRANCISCO — E eu, dez.
BERNARDO — Dez?! És tão pequeno!
Francisco baixou a cabeça; corou e calou-se. Pouco tempo depois de se levantarem da
mesa, vieram participar a Cristina que a criada vinha buscá-la. Cristina mandou-lhe perguntar
se ainda poderia esperar um quarto de hora, na ideia de levar a boneca com o vestido que
Gabriela lhe faria; mas, acostumada à severidade da criada, dispôs-se a ir embora,
despedindo-se dos tios.
GABRIELA — Espera um instante. Dentro de dez minutos tens o vestido pronto.
CRISTINA — Não posso; tenho a criada à espera.
GABRIELA — Que tem isso? Esperará um pouco mais.
CRISTINA — Mas a mãezinha ralhar-me-ia e não me deixava cá voltar.
GABRIELA — Tua mãe não o saberá.
CRISTINA — Isso sim! A criada conta-lhe tudo.
A cabeça da criada assomou à porta.
— Vamos, Cristina, avie-se!
CRISTINA — Aqui estou.
Cristina dirigiu-se à tia, para se despedir.
Francisco e Bernardo quiseram beijá-la, mas não houve tempo, pois a criada entrou na
sala, dizendo:
— Vamos embora ou não, Cristina? Já é tarde e a mãezinha não vai ficar contente com a
demora.
CRISTINA — Mas eu já estou pronta!
GABRIELA — E deixas ficar a tua boneca?
— Já não tenho tempo — volveu, baixinho, Cristina, assustada. — Acaba o vestido,
peço-te. Dar-me-ás quando cá voltar.
A criada tomou a pequenita pelo braço e, sem lhe dar ocasião de beijar Gabriela, levou-a
para fora da sala. A pobre Cristina tremia; tinha muito medo da criada, que era má e injusta.
Esta empurrou-a para o carrinho, que a tinha vindo buscar, subiu e partiram. Cristina chorava
baixinho, enquanto a criada lhe ralhava e ameaçava em alemão, porque era alemã.
— Hei de contar à mãezinha como se portou. Vai ver como ralhará consigo.
CRISTINA — Mas eu não me demorei. Não diga à mãezinha que me portei mal. Não
foi meu intuito desobedecer-lhe, afianço.
CRIADA — Tudo hei de dizer; de mais a mais a menina é mentirosa.
CRISTINA (com lágrimas na voz) — Perdão! Peço-lhe que nada diga à mãezinha,
porque não é verdade.
CRIADA — Não acaba com essas lamúrias? Quanto mais se lamentar, pior.
Cristina enxugou os olhos, reprimiu os soluços, sufocou os suspiros e, após meia hora de
caminho, chegaram ao solar dos Ormes, onde moravam os pais de Cristina. A criada arrastou-
a para a sala onde estes se encontravam e fê-la entrar à força. Cristina deixara-se ficar à porta,
sem se atrever a falar. A Sra. Ormes levantou a cabeça.
— Aproxima-te, Cristina; porque ficas à porta como uma culpada? Mina: Cristina
portou-se mal?
MINA — Como sempre; a senhora bem sabe que Cristina nunca me obedece.
CRISTINA — Mina: afianço-lhe...
SRA. ORMES — Deixa falar a tua criada. Que fez ela, Mina?
MINA — Não queria vir; depois de me haver feito esperar muito tempo, ainda
barafustou, por fim, junto da prima; foi preciso arrastá-la à força.
A Sra. Ormes levantou-se e aproximou-se de Cristina, a quem disse:
— Tinhas-me prometido ter juízo, Cristina.
CRISTINA (titubeando e soluçando) — Afianço-lhe... mãezinha... que tive... juízo.
— Não minta assim, menina — volveu a criada.
SRA. ORMES (à Cristina) — Continuas a mentir como sempre.
O Sr. Ormes, que nada dissera até então, interveio:
— Minha querida, perdoa a Cristina; se desobedeceu, não voltará a fazê-lo.
SRA. ORMES — Mina queixa-se dela constantemente e isto não pode continuar assim.
SR. ORMES (impaciente) — Mina! Sempre Mina! Cristina é muito ajuizada junto de
nós; obedece-nos com grande docilidade.
SRA. ORMES — Porque tem medo de ser castigada.
Entretanto, o Sr. Ormes examinava a fisionomia má e falsa de Mina.
A Sra. Ormes pareceu então duvidar da culpabilidade de Cristina, que confiou a Mina
para fazê-la deitar, recomendando que não lhe ralhasse.
Quando o marido se encontrou a sós com a mulher, disse, comovido: — És severa
demais com a pobre criança; acreditas demasiado nas acusações que a criada te faz e a quem
qualquer coisa melindra. De resto, não deposito grande confiança nela, pois já várias vezes a
tenho apanhado em mentiras, e está-me cá a parecer que detesta a pequena. Devias certificar-
te melhor antes de julgar Cristina.
SRA. ORMES — Não me admiro, pois Cristina é sempre desagradável para ela.
SR. ORMES — O que prova que Mina não se conduz bem... És deveras severa para
Cristina, porque não olhas pelo que se passa. Vigia-as melhor. A pequena tem imenso medo
dela.
SRA. ORMES — Por favor, mudemos de conversa. Tudo isto me irrita.
O Sr. Ormes suspirou, saiu da sala e, curioso por saber o que fazia Mina, foi ver se
Cristina se consolara daquele triste fim de dia; entrou no quarto da filha, que estava na cama,
a chorar baixinho. O pai abeirou-se dela e inquiriu:
— Onde está a criada?
CRISTINA — Saiu.
SR. ORMES — O quê? Deixou-te sozinha?
CRISTINA — Saiu, como todas as noites, assim que me deito.
SR. ORMES — Queres que a chame?
CRISTINA (aterrada) — Ah... não, não, paizinho, peço-te.
SR. ORMES — Tens medo dela?
Cristina não respondeu. O pai insistiu para saber a causa daquele terror e a pequenita
acabou por confessar não saber.
Nada conseguindo, deixou Cristina, triste e preocupado. A consciência censurava-o pelo
pouco cuidado que tinha com ela, tanto mais que a mulher também pouco se importava com a
filha.
Quando voltou à sala, encontrou a esposa mal-humorada; não tornou a falar de Cristina
nem de Mina, mas resolveu tomar a peito vigiá-la e despedi-la na primeira ocasião de mentira
ou calúnia em que a apanhasse.
3
Dois amigos feitos por dois anos de convívio
Passado alguns dias, o Sr. Ormes foi chamado a Paris para um assunto importante. Por
sua vontade, iria sozinho, mas a mulher teimou em acompanhá-lo. E, por isso, esta resolveu ir
ter com a irmã, a Sra. Cémiane, anunciando-lhe a viagem e comunicando-lhe as disposições
quanto à filha.
SR. CÉMIANE — E levam Cristina?
SRA. ORMES — Claro que não. Só vai a minha criada grave e um criado.
SR. CÉMIANE — E que fazem de Cristina?
SRA. ORMES — Não conto demorar-me muito. Ficará com a criada, que terá apenas o
trabalho de tratar dela.
SR. CÉMIANE — Tenho a impressão de que Cristina tem medo dela. Não será severa
de mais para a petiza?
SRA. ORMES — Nada disso! É seca, mas bondosa. Cristina precisa de alguém que lhe
reprima um pouco o feitio impertinente e respondão.
SRA. CÉMIANE — Custa-me a acreditar, pois se me afigura meiga e obediente.
Mandá-la-ei buscar muitas vezes durante a tua ausência. Que te parece?
SRA. ORMES — Parece-me bem. Faz como entenderes, contando que Cristina
permaneça no solar com a criada. Adeus, vou-me embora; parto amanhã e ainda tenho muitas
coisas a fazer.
Quando entrou em casa, ocupou-se da sua bagagem, recomendou a Mina que levasse
Cristina diversas vezes à casa da tia Cémiane, e, na manhã seguinte, muito cedo, partiu.
Essa ausência devia ser de quinze dias; no entanto, prolongou-se de mês para mês, até
dois anos, por causa duma viagem que o Sr. Ormes teve de fazer à Martinica, onde tinha a
maior parte da sua fortuna. A esposa quis acompanhá-lo porque apreciava tudo o que era novo
e extraordinário e, sobretudo, as viagens.
Durante esses dois anos, os Cémiane e o Sr. Nancé não abandonaram a aldeia,
felizmente para Cristina, que via constantemente Gabriela, Bernardo e o seu amigo Francisco,
cuja bondade a sensibilizava e lhe dava o desejo de imitá-lo. Ia muitas vezes passar meses
inteiros a casa dos tios, que se compadeciam do seu abandono. Mina tinha tanto de má como
de hipócrita, mas sabia disfarçar de tal maneira diante de estranhos, que ninguém adivinhava
quanto Cristina sofria com a sua severidade e negligência.
Paulo estimava e protegia Cristina, assim como estimava Francisco, a quem dava lições
de música e de italiano, o que lhe permitia ganhar cinquenta francos por mês, soma
importante para a sua posição e suficiente para poder viver descansado e sem preocupações de
maior.
Por fim, em julho, o senhor e a senhora Ormes regressaram. O encontro com Cristina
não teve nada de enternecedor; os pais beijaram-na friamente, achando-a alta e bonita; estava
com oito anos, mas com a inteligência e o raciocínio de uma criança de dez. Mina nada lhe
ensinava, nem sequer costura; Cristina quase aprendera a ler sozinha, auxiliada um pouco por
Gabriela e Francisco, mas só tinha os livros deles.
No dia seguinte, os pais de Cristina receberam convite dos Cémiane para lá irem passar
um dia com eles e levarem a filha.
Queriam apresentar-lhes o novo vizinho, o Sr. Nancé, bem como um médico italiano
muito original e que os distrairia.
SRA. ORMES — Estou bastante satisfeita porque minha irmã tomou novos
conhecimentos. Havemos de nos aproveitar e convidá-los-emos para jantar na próxima
semana.
SR. ORMES — Como quiseres. Mas parecia-me melhor esperar a sua visita.
SRA. ORMES — Para quê? Se um é encantador e o outro original, gostava de vê-los em
nossa casa: distrair-nos-iam.
O marido calou-se como era seu costume, ante a oposição da mulher, e esta foi tratar do
seu vestido para o dia seguinte.
Nem se lembrou da filha, mas o pai preveniu a criada de que levariam Cristina, cujos
olhos brilharam de alegria.
A certeza de ter o dia livre, deu boa disposição a Mina, que tratou bem a pequena, não
lhe arrancando os cabelos ao penteá-la, nem lhe deitando sabonete nos olhos, como por
maldade era seu costume. Vestiu-a com cuidado e, além disso, deu-lhe para pequeno-almoço
pão com manteiga, mimo a que Cristina não estava habituada, visto, em geral, ser a criada
quem se regalava com a manteiga e com o chocolate destinados à pequena, a quem apenas
dava pão seco e uma chávena de leite.
A manhã ia adiantada e ninguém vinha buscar Cristina, que principiava a inquietar-se,
julgando-se já esquecida, principalmente a ouvir as idas e vindas anunciadores da partida e,
por fim, o ruído da carruagem em frente da porta. Não se atrevia a interrogar a criada, mas os
olhos marejaram-se quando a porta se abriu e o Sr. Ormes entrou, dirigindo-se a ela:
— Vamos embora. Já estás pronta?
CRISTINA — Sim, paizinho, há muito tempo.
SR. ORMES — Por que tens os olhos cheios de lágrimas? Preferes ficar?
CRISTINA — Não, paizinho! Estava com medo de que me tivessem esquecido.
SR. ORMES — Bem vês que não me esqueci, minha filha.
Cristina não se fez rogar e correu para o pai, que a levou à pressa. Ouviu-se então a voz
descontente da mulher, que, chegando à porta, chamava:
— Onde estás, Filipe? Onde está o Sr. Ormes? Porque não aparece a Cristina?
— Aqui estou, minha senhora — respondeu o criado, saindo da antecâmara. — O patrão
foi buscar a menina.
SRA. ORMES — Vá dizer-lhes que estou à espera deles.
SR. ORMES — Não te impacientes, minha querida. Fui buscar Cristina.
SRA. ORMES — Bom dia, Cristina. Por que não... foste ao meu quarto?
CRISTINA — Estive à espera da criada, que me proibiu de sair sem ela.
SRA. ORMES — Mas que ideias tão extravagantes tem Mina! Que necessidade tinha
ela de fechar no quarto esta criança, e impedi-la de vir ter comigo? E tu, Cristina, se
discorresses, não terias esperado pela licença de Mina... Como estás vermelha, minha filha...
Que cara chorosa tu tens... Não és nada bonita!
SR. ORMES — Torna-se impossível saber se ela discorre ou não, pois quase nunca fala,
pelo menos diante de nós. Quanto à sua fealdade, duvido, pois se parece extraordinariamente
contigo.
O marido proferiu estas palavras com certa malícia e quis ajudar a mulher a subir para a
carruagem, mas ela respondeu com certo desabrimento:
— Deixa-me. Posso muito bem subir sem a tua ajuda.
O Sr. Ormes tomou Cristina nos braços e quis colocá-la na carruagem, perto da mãe,
mas esta resingou:
— Senta-a na boleia, senão amarrota-me o meu bonito vestido ou suja-o com os pés.
O marido obedeceu, colocando a pequena ao pé do cocheiro e recomendando:
— Toma cautela com a menina.
— Pode ficar tranquilo! É tão meiga e boazinha, a menina!
Cristina não proferiu palavra, mal se atrevendo a respirar, tal era o medo que tinha de
aumentar a rispidez da mãe e de ficar em casa. Quando a carruagem rodou, soltou um suspiro
de satisfação.
— Tem alguma coisa que a incomode, menina Cristina? — perguntou o cocheiro.
A pequenita permaneceu calada durante o trajeto, lembrando-se do excelente dia que ia
passar na companhia de Gabriela, de Francisco e de Bernardo, que tão bons eram para ela.
Percorridos os três quilómetros que separavam os dois solares, chegaram ao de
Cémiane, onde Gabriela e Bernardo correram ao encontro da prima, que o pai fizera descer da
boleia.
— Avia-te — disse Gabriela. — Anda ver como a tua boneca ficou com o vestido de
noiva que eu lhe fiz. Vem ver como está bonita! É para ti!
A Sra. Ormes já tinha entrado na sala e Cristina deixou-se empolgar pela alegria;
Gabriela e Bernardo levaram-na ao quarto, onde viu a sua boneca deitada numa bonita cama e
vestida de branco. Cristina não se cansava de agradecer a Gabriela e também a Bernardo, que
trabalhara com o carpinteiro para fazer aquela linda caminha para a boneca.
Francisco juntou-se daí a pouco aos seus amigos. Cristina testemunhou grande alegria
em tornar a vê-lo. Enquanto o coração se lhe dilatou e a língua se lhe desenferrujou, a Sra.
Ormes fazia-se amável com o Sr. Nancé, que a Sra. Cémiane lhe apresentara, e com o italiano
que cumprimentara e fazia todo o possível para agradar à Sra. Ormes, pois logo previu que lhe
era preciso cair em graça para ser convidado. Como ela deixasse tombar um alfinete, Paulo
pôs-se de gatas à procura dele.
O criado veio anunciar que o almoço estava na mesa e Paulo continuou, de gatas, em
busca do alfinete, enquanto dizia consigo que iam comer tudo sem se lembrarem dele. Pôs-se
em pé e, agarrando num dos alfinetes que estavam numa pequena almofada da caixa de
costura que se encontrava em cima da mesa, correu para a casa de jantar com ar triunfante,
dizendo:
— Signora, ei-lo aqui. .
— Mas esse não é o meu — exclamou a Sra. Ormes, rindo às gargalhadas. — Este é
branco e o meu era preto!
— Dio mio! — lamentou-se o pobre Paulo, consternado com o que acabara de ouvir.
— Então, Sr. Paulo. Deixe-se de tolices e coma a sua omeleta — disse o Sr. Cémiane,
meio descontente. — De contrário o almoço nunca mais acaba e os pequenos não têm tempo
para brincar nem para ir à pesca dos lagostins.
Paulo não se fez rogado. Engoliu a omeleta enquanto o diabo esfrega um olho. A Sra.
Ormes olhava muitas vezes para Cristina, a quem repreendia com o gesto e com a voz.
— Estás a comer demais. Não sejas tão glutona! Metes na boca cada bocado!
Cristina corava e nada dizia. Francisco, que estava ao lado dela, ao vê-la quase a chorar,
após a décima observação da mãe, não pôde conter-se e respondeu:
— Se come assim, minha senhora, é porque tem fome, e de resto não come demais.
Mete na boca bocados bem pequenos.
A mãe de Cristina não conhecia Francisco e por isso fitou-o, admirada, inquirindo:
— Quem és, meu cavaleirinho, para tão vivamente defenderes Cristina?
FRANCISCO — Sou um amigo, minha senhora, e hei de defendê-la sempre com todas
as minhas forças.
SRA. ORMES — Que não hão de ser muitas, meu pobre pequeno.
FRANCISCO — Isso é verdade, mas o paizinho ajuda-me, se tanto for preciso.
SR. ORMES (com ar trocista) — Por acaso me declaras guerra? E onde está o teu
paizinho, pequeno Esopo?
— Junto de V. Excia, minha senhora — respondeu o Sr. Nancé, em tom grave e austero.
SRA. ORMES (surpreendida) — Como...? Este... esta amável criança...
SR. NANCÉ — Sim, minha senhora. Este pequeno Esopo, como lhe chamou, é meu
filho; tenho a honra de lhe apresentar.
SRA. ORMES (confusa) — Sinto-me desolada... encantada! Não ousaria... Lastimo...
não o ter sabido mais cedo.
SR. NANCÉ — Ter-lhe-ia poupado esta nova humilhação, não é assim, minha senhora?
Pobre criança! Tem suportado tantas! Já está mais afeito do que eu...
FRANCISCO — Por quem é, não se aflija, paizinho. Afianço-lhe que isso me é
indiferente e tenho-me sentido tão feliz, no meio de todos! Bernardo, Gabriela e Cristina têm
sido tão bondosos comigo! Estimo-os tanto!
— E nós também te estimamos muito, meu bom Francisco — disse Cristina, a meia-voz,
apertando-lhe a mão.
— E sempre havemos de estimar-te! És tão bom rapazinho! — volveu Gabriela,
apertando-lhe a outra mão.
BERNARDO — E em toda a parte sempre nos havemos de defender um ao outro, não é
verdade, Francisco?
A Sra. Ormes ficou embaraçada durante aquele diálogo; o marido não estava menos; os
Srs. Cémiane também se encontravam pouco à vontade e descontentes com o procedimento
da irmã. O Sr. Nancé conservou-se triste e pensativo. De repente, Paulo levantou-se, estendeu
os braços e disse em tom solene:
— Ouçam todos. Eu, Paulo, declaro e juro que, quando este pequeno, a quem a signora
chama Esopo, tiver vinte e um anos, há de ser alto e desempenado como o senhor seu pai. E
serei eu quem o há de conseguir, porque ele é bom, já me prestou um grande serviço e eu
estimo-o muito.
SR. NANCÉ — É a segunda vez que me faz essa agradável promessa, Sr. Paulo. Mas
diga-me: se pode realmente endireitar meu filho, porque não o faz já?
— Não se impaciente, signor. Eu sou médico. Agora, é impossível; deixe-o crescer. Aos
dezoito ou vinte anos, é bom; antes, porém, é mau.
O Sr. Nancé suspirou e sorriu simultaneamente, fitando Francisco, cujas feições
exprimiam felicidade e alegria. Conversou animadamente com os amigos; todos falavam e
riam, mas em voz baixa para não perturbarem a conversa das pessoas crescidas.
4
Desenham-se os caracteres

O almoço ia já muito adiantado. Bernardo pediu licença à mãe para se levantar da mesa
com Gabriela, Cristina e Francisco. A licença foi concedida facilmente e as crianças
desapareceram para brincar no jardim.
CRISTINA — Meu bom Francisco, muito grata te estou por me haveres defendido!
Nem sabia como fazer para comer como a mãezinha queria.
FRANCISCO — Foi por isso que respondi por ti, Cristina: via perfeitamente que já nem
te atrevias a comer e estavas com vontade de chorar, e isso fez-me pena.
CRISTINA — E eu também fiquei desgostosa quando a mãezinha parecia fazer troça de
ti.
FRANCISCO — Não valia a pena afligires-te por minha causa, pois já estou habituado
a que se riam... de mim, e isso não me importa. Só quando o paizinho está à minha beira é que
me aflijo, porque sempre se entristece quando lhe falam na minha corcunda. Tem-me tanto
amor...
BERNARDO — Oh! Bem sei! É muito melhor que a minha tia Ormes, que não gosta
nada da Cristina.
CRISTINA — Afianço-te, Bernardo, que estás enganado. A mãezinha estima-me, mas
não tem tempo para se ocupar de mim.
BERNARDO — E porque não tem tempo?
CRISTINA — Porque tem de fazer muitas visitas, precisa provar vestidos! Há pessoas
que a visitam e sai diversas vezes com o paizinho... além de muitas outras coisas.
FRANCISCO — E tu que fazes entretanto?
CRISTINA — Fico com a criada e isso é que é o pior. É tão má, a minha criada!
BERNARDO — E por que não dizes à mãezinha?
CRISTINA — Porque a criada me bateria, mentiria à mãezinha e eu seria repreendida e
castigada.
FRANCISCO — E por que não te queixas, dizendo que ela é má e mentirosa?
CRISTINA — A mãezinha acredita mais depressa nela do que em mim.
FRANCISCO — Nesse caso, vou dizer ao meu pai para ele o participar à tua mãe.
CRISTINA — Não digas nada, peço-te, Francisco. A criada zangar-se-ia comigo e pior
me trataria ainda, além de que a mãezinha não acreditaria. Conto-te isto só a ti, porque sou
muito tua amiga.
FRANCISCO — Mas és muito infeliz, pobre Cristina, e não posso suportá-lo.
CRISTINA — Nada disso me acontece quando estou aqui e principalmente ao pé de ti.
Venho cá quase todos os dias, e, quando a criada está longe de mim, sinto-me satisfeita.
FRANCISCO — Gostava bastante de que meu paizinho fosse a tua casa.
CRISTINA — E por que não vai?
FRANCISCO — Porque tua mãe tem muitas visitas, é deveras elegante e meu paizinho
embirra com essas coisas.
CRISTINA — Mas ele vem à casa de minha tia; é a mesma coisa!
FRANCISCO — Ele diz que não. Que vocês são todos muito bons... que os teus tios
não são de cerimónias e recebem com simplicidade, e diz ainda outras coisas de que me não
lembro.
Bernardo e Gabriela, que estavam afastados, voltaram para junto deles.
BERNARDO — É aborrecido não ter nada que fazer! E se principiássemos a pesca aos
lagostins?
GABRIELA — Pois sim. Vamos pedir as redes, os engodos e os cestos.
BERNARDO — Mas precisamos de quem nos ajude.
FRANCISCO — O Sr. Paulo vem aí agora muito a propósito, mas não nos vê.
Os pequenos desataram a chamá-lo. Paulo voltou-se e dirigiu-se para eles a toda a
pressa, cumprimentando:
— Signorino, signorina. Que querem de Paulo, que está aqui às vossas ordens?
FRANCISCO — Meu bom Sr. Paulo, quer ajudar-nos a preparar as redes para apanhar
lagostins?
PAULO — Ora essa! Pois não! Paulo é grato e nunca esquece o bem ou o mal.
Todos correram em busca do que precisavam e voltaram para junto do ribeiro. Paulo
andava numa roda viva, estendia as redes, metia-as na água.
— Aí não, Sr. Paulo! — gritavam os pequenos. —Há arbustos que prendem as redes.
Paulo mudava de lugar.
— Aí não — bradavam Bernardo e Gabriela — pois não há água, há só pedras.
PAULO — O lagostim gosta de pedras, signor Bernardo.
BERNARDO — Quando as pedras estão na água, mas não quando penduradas no ar.
PAULO— O lagostim tem patas, signor Bernardo. .
BERNARDO — Para andar dentro de água, mas não para sair dela, trepar e cair. Já lhe
disse, Sr. Paulo, que as redes aí não dão resultado. Dê-mas que eu ponho-as onde deve ser.
PAULO — Pronto, signor Bernardo.
Paulo entregou a rede já agarrada a uma raiz que saía da rocha. Bernardo pegou nela e
colocou-a, com mais duas, num recanto onde vinham refugiar-se os lagostins.
Enquanto ele preparava as redes, Paulo ficou imóvel, um pouco envergonhado, um
pouco descontente e não se atrevia a dá-lo a perceber. Francisco e Cristina aperceberam-se do
seu enleio e abeiraram-se dele.
— Meu caro Sr. Paulo — disse-lhe, baixinho, Francisco — peguemos nas quatro
redezinhas que ficam e vamos colocá-las perto de um rochedo. Tenho a certeza de que aí há
lagostins excelentes.
— Acha, signor? — volveu Paulo, com ar alegre.
CRISTINA — Sim, sim, Francisco tem razão. Meu pobre Sr. Paulo, venha daí.
Paulo sorriu e tomou as redezinhas esquecidas; colocou-as habilmente e esperou com
paciência os lagostins, que não tardaram a aparecer aos montes e de tal maneira, que quando
Bernardo levantou a rede e bradou triunfante:
— Já cá estão três!
Paulo puxou as dele e bradou com voz vibrante:
— Apanhei dezoito e magníficos!
BERNARDO — Dezoito, ao pé desta rocha? Não é possível!
Bernardo e Gabriela correram às redes de Paulo e, de fato, encontraram dezoito
esplêndidos lagostins.
— É verdade — confirmou Gabriela. — O Sr. Paulo tinha razão.
— E Bernardo ficou mal! — observou Cristina a Gabriela, afastando-se. — Faz-me
pena o pobre Sr. Paulo, que é muito prestável, bondoso e condescendente...
GABRIELA — Mas bastante ridículo, também!
CRISTINA — E que tem isso, se é dotado de bom coração?
GABRIELA — É verdade, mas não deixa por isso de ser ridículo.
CRISTINA — E tu não gostas do Francisco?
GABRIELA — Gosto, mas não queria ser como ele.
CRISTINA — Quanto a mim, acho-o tão bondoso, que o prefiro cem vezes mais aos
irmãos Adolfo e Maurício Subiram, que são elegantes.
GABRIELA — Pois eu não! Francisco é bom, é certo. Quando, porém, há estranhos,
tenho vergonha dele.
CRISTINA — Não se dá o mesmo comigo, pois desejaria ser irmã de Francisco para
poder estar sempre ao seu lado.
GABRIELA — Para mim, era coisa pouco agradável ter um mano corcunda!
CRISTINA — E eu gostava bastante de ter um irmão tão bonzinho!
— Diz muito bem, signorina Cristina, procede bem e pensa melhor — volveu Paulo,
que se aproximara delas sem que o vissem.
GABRIELA — É muito feio escutar, Sr. Paulo! Até me assustou.
PAULO (malicioso) — A gente só se assusta quando diz mal.
GABRIELA — Mas eu não disse mal. Espero que não vá contar a Francisco o que
ouviu.
PAULO — Por que, se nada disse de mal?
GABRIELA — Não, decerto, mas, seja como for, não quero que Francisco saiba o que
dissemos para não o magoar.
FRANCISCO — Sr. Paulo, peço-lhe que venha ajudar-me a apanhar os lagostins e
metê-los num prato coberto.
Paulo correu para Francisco, que acabava de tirar das redezinhas a pescaria.
PAULO — Por que me chamou, se já tinha o trabalho feito, signor Francisco?
FRANCISCO (corando) — Porque preciso de si... da sua ajuda.
— Nada... não é isso — volveu Paulo meneando a cabeça. — Há outra coisa... Diga a
verdade, pois Paulo será discreto, nada dirá seja a quem for.
FRANCISCO — Gabriela estava comprometida, o senhor afligia-a e eu quis libertá-la.
PAULO — Então ouviu o que elas disseram!
FRANCISCO — Ouvi, mas escusam de o saber... . .
PAULO — E ainda defende Gabriela? Está bem! Hei de torná-lo alto como o paizinho.
Verá!
Francisco desatou a rir, pois não acreditava na promessa de Paulo. Mas estava-lhe
reconhecido pela sua vontade.
A pesca ainda durou algum tempo; pesca milagrosa, pois apanharam, em duas horas,
mais de cem lagostins. O dia findou bem para todos. A Sra. Ormes estava encantada por ter
duas pessoas a mais para convidar; foi amabilíssima para o Sr. Nancé, que convidou para
jantar, daí a dois dias, com Francisco. O Sr. Nancé ia recusar, quando notou o olhar inquieto e
suplicante do filho; por fim, acedeu, com grande alegria de Cristina e de Francisco. A Sra.
Ormes convidou também o Paulo, que a cumprimentou com uma grande reverência para lhe
provar o seu reconhecimento. Os Srs. Cémiane prometeram comparecer também, com os
filhos.
Ao despedir-se, a Sra. Ormes consentiu que Cristina se sentasse ao seu lado, e esta
estava tão radiante com o dia tão bem passado, que só se lembrou da criada ao descer da
carruagem. Mina, porém, ainda não voltara, e Cristina, auxiliada pela mulher do cocheiro,
teve tempo de se despir e adormecer antes de ela chegar.
5
Ataque e defesa
No dia seguinte, recomeçou a sua vida de martírio. Acostumada a sofrer calada,
consolou-se com a ideia do jantar do dia imediato, em que estaria com a prima e com
Francisco.
A Sra. Ormes andava azafamada não só com os preparativos do jantar, mas também
com os vestidos. O cozinheiro inquietava-a, obrigando-a a fazer várias visitas à cozinha, para
ralhar e dar ordens contraditórias. O marido instava com ela para não se meter nesses
assuntos, que competiam aos criados.
A Sra. Ormes retorquia-lhe que a deixasse em paz, que não lhe desse conselhos, pois
nunca a ajudava.
SR. ORMES — Mas para quê tanta azáfama para um jantar de família?
SRA. ORMES — De família? Consideras família o Sr. Nancé e o filho, os Srs. Sibran e
os filhos, Paulo, os Srs. Guilbert e as filhas?
SR. ORMES — O quê? Convidaste toda essa gente?
SRA. ORMES — Decerto! Não quero que o Sr. Nancé jante só conosco, a minha irmã e
meu cunhado.
O marido ainda observou que seria isso preferível a jantar com pessoas desconhecidas e
pouco agradáveis.
A mulher replicou que a deixasse em paz, pois tinha de se preparar antes da chegada dos
convidados, que não tardariam. Em seguida, saiu a correr, enquanto o marido encolhia os
ombros e voltava para o quarto onde, para esquecer as extravagâncias da mulher, que o
subjugava, se entreteve a tocar violino.
Cristina, que não tinha tantas preocupações com os vestidos como a mãe, estava pronta
dentro de breves minutos e viu chegar os tios com os primos, em seguida o Sr. Nancé com
Francisco e Paulo e daí a poucos momentos os Sibran e os Guilbert.
A dona da casa ainda não aparecera e o marido parecia comprometido e desculpava a
ausência da mulher que, segundo dizia, andava muito atarefada com o jantar.
Por fim, surgiu a Sra. Ormes, envergando um vestido que surpreendeu toda a gente.
Provocou os galanteios, fazendo notar os seus belos braços (demasiado curtos para o busto), a
pele branca (lívida e grosseira), a cintura fina (graças a diversos chumaços nas ancas), os seus
lindos cabelos (que pareciam uma carapinha preta). A irmã e o cunhado estavam vexados de a
verem assim ridícula; as outras pessoas divertiam-se, extasiando-se perante as belezas que ela
lhes apontava e que, sem o seu auxílio, não descobririam.
Entretanto as crianças, umas oito, brincavam e conversavam numa saleta ao lado.
Maurício e Adolfo Sibran examinavam com curiosidade trocista o pobre Francisco, a quem
ainda não conheciam. Helena e Cecília Guilbert cochichavam com eles e olhavam com
desdém para Francisco.
— Quem é este corcundinha? — perguntou Maurício a Bernardo.
BERNARDO — É um amigo que conhecemos há perto de dois anos, um excelente
rapazinho.
MAURÍCIO — Excelente rapazinho não me parece, pois, em geral, os corcundas são
maus. É preciso esmagá-los antes que nos arranhem.
BERNARDO — Pois este não os arranhará nem morderá. Repito-lhes: é muito bom
rapazinho.
MAURÍCIO — Não no-lo apresentas?
BERNARDO — Com muito gosto, se prometem tratá-lo bem.
MAURÍCIO — Tranquiliza-te, seremos delicados e amáveis.
BERNARDO — Francisco, aqui tens Adolfo e Maurício Sibran, que querem conhecer-
te.
Francisco abeirou-se dos dois Sibran e estendeu-lhes a mão.
— Bom dia, meu pequeno — disseram os dois irmãos quase simultaneamente. — És
muito elegante e calculamos que já sabes falar e conversar.
Francisco fitou-os, admirado, mas não deu palavra.
— Não sei como se chama — prosseguiu Maurício — mas adivinho-o sem custo;
decerto é parente de um homem encantador chamado Esopo, tornado célebre por uma
excrescência nas costas.
— E também no peito — tornou Francisco, sorridente. — E decerto sabem, pois
também são inteligentes, que o seu espírito era tão notável como a sua corcunda, e, sob esse
ponto de vista, agradeço-lhes a lisonjeira comparação.
Todos desataram a rir; Maurício e Adolfo coraram, pareceram vexados e quiseram falar,
mas Cristina bradou:
— Magnífica resposta, Francisco! Foi bem feito! Quiseram envergonhar-te e afinal eles
é que coraram e ficaram vexados.
MAURÍCIO — Eu, corado e vexado? Um rapaz como eu — (tinha dez anos) — não se
deixa intimidar por uma pobre criança que não tem mais de cinco ou seis anos.
CRISTINA — Dão-lhe cinco ou seis? Pois devem achá-lo muito adiantado para a idade,
visto que, pela forma como respondeu, conhece Esopo melhor do que vocês.
— Às vezes as crianças têm ideias superiores à sua idade — volveu Maurício, muito
irritado.
CRISTINA — É verdade! É o mesmo que acontece aos rapazes que, às vezes, proferem
palavras abaixo da sua idade. Mas fiquem sabendo que Francisco tem doze anos e está muito
adiantado.
MAURÍCIO — Ninguém tal diria, pois eu também tenho doze anos.
CRISTINA — Ora, quem havia de dizer!
MAURÍCIO — Quantos anos julga que eu tenho? Catorze ou quinze anos?
CRISTINA — Nada disso; cinco ou seis, o máximo.
— Que bem defendes os teus amigos! — disse Gabriela, beijando-a.
— E os amigos ficam-lhe muito gratos — replicou Francisco, beijando-a também.
— E nós cada vez gostamos mais de ti — acrescentou Bernardo, beijando-a também por
sua vez.
— Quanto a mim, desejo beijar a signorina — bradou Paulo, agarrando em Cristina e
beijando-a nas duas faces.
— Até me assustou! — exclamou Cristina, rindo. — Não mereço tais elogios. Estava
desesperada por Maurício e Adolfo tratarem assim Francisco e respondi sem pensar.
HELENA (rindo) — É preciso ter cautela com Cristina, quando for mais crescida.
FRANCISCO — Ela é muito bondosa e, por conseguinte, não ofende ninguém.
ADOLFO (irónico) — Acha? O que é ter espírito!
CRISTINA — E coração.
BERNARDO — Acabemos com esta discussão de língua afiada. Vamos sair antes do
jantar. Ainda temos uma hora.
— Pois sim — acederam todos, numa só voz.
E dirigiram-se para o jardim. Maurício e Adolfo, como estavam de mau humor,
entravavam todas as brincadeiras, mas não se atreviam a troçar de Francisco em voz alta; com
Helena e Cecília, riam dele à socapa, bem como de Cristina.
Depois de haverem recusado algumas brincadeiras, resolveram jogar às escondidas.
Dividiram-se em dois grupos: o grupo composto por Maurício, Adolfo, Helena e Cecília
escondia-se; o outro, de que faziam parte Bernardo, Francisco, Cristina e Gabriela devia
procurá-lo.
Quando ouviu o sinal, o segundo grupo correu, mas, por mais que procurasse, não
encontrou ninguém, pelo que teve de renunciar e Bernardo alvitrou que se voltasse para casa.
Esta opinião prevaleceu; após o bonito passeio, regressaram à hora de jantar; o outro
grupo ainda não aparecera. Bernardo e Francisco, inquietos, contaram aos pais o que
acontecera. Estes informaram por sua vez os Srs. Sibran e Guilbert, e os quatro cavalheiros
foram procurá-los, mas voltaram sem os ter encontrado.
6
Os trapaceiros castigados
O jantar foi atrasado; mas, como ninguém aparecesse, sentaram-se à mesa, inquietos.
Comeu-se à pressa e, depois, os homens, espalharam-se pela mata em busca dos ausentes,
enquanto as senhoras voltavam para a sala, onde, daí a pouco, as quatro crianças surgiram
desgrenhadas, esfarrapadas, vermelhas, a transpirar e chorosas.
Foram acolhidas com um exclamativo “Ah!” e as mães correram para os filhos.
— Parvos! — bradou a Sra. Sibran.
— Estúpidos! — secundou a Sra. Guilbert.
— Perdêmo-nos... — responderam as pequenas, entre lágrimas.
— E fomos perseguidos por dois grandes cães...! — volveram os rapazes.
PEQUENAS — Quase nos devoraram!
RAPAZES — Estava escuro e não se via um palmo adiante do nariz.
SRA. GUILBERT — Foi bem feito, que é para outra vez terem mais juízo!
— Mande tocar a sineta para os senhores voltarem — ordenou a Sra. Ormes a um
criado.
A sineta não tardou a fazer regressar a casa os pais e amigos; as crianças ainda foram
repreendidas e o jantar recomeçou, menos lúgubre do que a princípio. Bernardo, Gabriela,
Cristina e Francisco a custo reprimiam o riso sempre que olhavam para os desventurados
companheiros.
Quando acabaram de comer, Gabriela perguntou-lhes como se haviam perdido. Cecília
contou o que acontecera, concluindo:
— A certa altura, surgiram dois enormes cães que correram atrás de nós, apanharam-
nos, rasgaram-nos os fatos. Felizmente apareceu um homem que chamou os cães, que logo
nos largaram, e veio até nós, indagando: “Os meus cães assustaram-vos? Desculpem, são
novos e gostam de brincar, mas não me parece que lhes mordessem.” Todos chorávamos e
não podíamos falar; entretanto, o homem, notando isso, ofereceu-se para nos socorrer. E
Maurício disse-lhe, a chorar, que nos havíamos perdido.
MAURÍCIO (atalhando) — A chorar, eu? Tinha frio e tiritava. Nada mais.
CECÍLIA — Frio, nesta época? Suavas e suas ainda, e não minto dizendo que choravas.
Deixa-me contar o resto e não me interrompas. O homem, ao saber que éramos do solar
Ormes, prestou-se a acompanhar-nos até aqui. Entretanto, eu disse a Maurício e a Adolfo que
a culpa de nos perdermos tinha sido deles, porque queriam fazer grossa partida ao Francisco e
à Cristina.
MAURÍCIO — Isso é mentira! Vocês também ajudaram. .
HELENA — Porque nos convenceram a isso, não é assim, Cecília?
CECÍLIA — Exatamente. Estás fulo contra o Francisco, porque te ripostou à letra, e
contra Cristina, porque defendeu o Francisco, e eu acho que ela fez muito bem e tu muito mal.
Todos ouviram a narrativa e a discussão, a que a Sra. Ormes pôs termo, observando:
— Cristina mete sempre o nariz onde não é chamada. Dir-se-ia que Francisco precisa
dela para se defender. Ora ele sabe bem tratar de si! Peço-te que, para a outra vez, te cales.
CRISTINA — Mas, mãezinha, o pobre Francisco é tão bom, que nunca pensa em
vingar-se...
SRA. ORMES — E és a primeira a precipitar-te, tola e malcriadamente... Se reincides,
proíbo-te de visitar o Francisco... Vai para a cama; aí ao menos, não farás tolices!
O Sr. Nancé viu os olhos suplicantes de Cristina e o ar consternado do filho, e por isso
dirigiu-se à Sra. Ormes, a quem pediu:
— Suplico-lhe que perdoe a Cristina; castigando-a pelo seu ato de coragem e
generosidade, castiga também o meu pobre filho e todos os seus amiguinhos. A senhora é
bastante bondosa para não me negar o favor que lhe solicito.
SRA. ORMES — Nada posso recusar-lhe. Fica, Cristina, visto o Sr. Nancé assim o
desejar, e vai agradecer-lhe.
Cristina dirigiu-se ao pai de Francisco, levantou para ele os olhos marejados de lágrimas
e balbuciou:
— Agradeço-lhe muito, meu bom Sr. Nancé.
Depois pôs-se a chorar. O Sr. Nancé tomou-a nos braços e beijou-a repetidas vezes,
dizendo baixinho:
— Pobre pequenita! És muito bondosa... e gosto imenso de ti.
Tais palavras de ternura consolaram Cristina, cujo pranto cessou, e voltou para o seu
lugar ao pé de Francisco, que ficara deveras comovido com a cena.
Paulo, que se conservara calado durante o jantar, o qual lhe absorvera todas as atenções,
tudo ouvira e observara, e, assim que se levantou da mesa, acercou-se de Francisco e disse-
lhe:
— Quando eu o puser alto, há de esbofetear o patife do Maurício!
— Por quê? — perguntou-lhe Francisco, admirado.
PAULO — Para se vingar. É boa a vingança.
FRANCISCO — É péssima! Prefiro perdoar. Nosso Senhor também perdoa! Só o
Demónio é que se vinga.
— Quem lhe ensinou isso? — inquiriu Paulo, surpreendido.
FRANCISCO — O meu melhor mestre: o paizinho.
CRISTINA — Gosto muito do teu paizinho, Francisco.
FRANCISCO — Tens razão. É tão simpático! Ele também gosta muito de ti.
CRISTINA — Por que?
FRANCISCO — Porque me estimas e és dotada de muita bondade.
CRISTINA — Tem graça! É o mesmo que se dá comigo. Gosto dele porque ele gosta
muito de ti e é bom.
Já era tarde; o jantar retardado a princípio, interrompido depois, durara muito tempo.
Demais, os fatos rasgados de Maurício e de Adolfo, os vestidos esfarrapados das meninas
Guilbert, tornavam impossível mais longa permanência em casa da Sra. Ormes.
Mas, à despedida, a Sra. Guilbert convidou para jantar em casa dela, na semana
seguinte, todas as pessoas que se encontravam na sala, incluindo as crianças.
7
Primeiro favor prestado por Paulo a Cristina
Francisco correspondeu delicadamente à despedida que lhe fizeram Maurício e Adolfo,
algo comprometidos com ele desde que souberam que o Sr. Nancé era o pai, tanto mais que
passava na região por pessoa de excelente fortuna, além de possuir a fama de ser dotado de
bom coração, temente a Deus, caritativo e sempre pronto a fazer os maiores sacrifícios para a
felicidade do filho. O seu grande desgosto era o defeito do pobre pequeno, que fora são e
escorreito até aos sete anos e se tornara corcunda por ter tido a desgraça de cair do alto de
uma escada.
Após a partida dos Sibran e dos Guilbert, todos dispersaram. Cristina prometeu aos
primos pedir licença à mãe para, no dia seguinte, ir visitá-los.
— Vem também, Francisco! Encontrar-nos-emos defronte do moinho do meu tio
Cémiane.
FRANCISCO — Não, Cristina. Tenho de estudar durante duas horas em casa do Sr.
Abade e depois vou para minha casa fazer os exercícios. E tu não estudas?
CRISTINA — Não; leio um pouco sozinha.
FRANCISCO — Mas quem te ensinou a ler não te dá lições?
CRISTINA — Ninguém me ensinou. Gabriela e Bernardo disseram-me como se lia e
depois tentei ler sozinha por mim própria.
— Eu ensinarei o mais que puder à signorina — disse Paulo, que ouvia sempre as
conversas das crianças. — Virei todos os dias e a signorina ficará a saber italiano, latim,
música, desenho, matemática, grego, hebraico e muitas mais coisas.
CRISTINA — Será, deveras, tão amável, Sr. Paulo? Ficarei tão contente em saber
alguma coisa! Mas peça à mãezinha, de contrário, não me atrevo, sem licença dela.
PAULO — Pois sim, signorina, e verá que não sou tão estúpido como pareço.
E, abeirando-se da Sra. Ormes, que conversava com o Sr. Nancé, disse:
— Belíssima signora, desejava imenso poder apreciar todos os dias o seu magnífico
espírito e peço-lhe que consinta que venha aqui diariamente; darei lições à sua filhinha e
encarregar-me-ei de todos os recados que desejar.
SRA. ORMES — Que pedido tão extravagante! Eu também quero, mas para dar lições a
Cristina é preciso um monte de livros, papéis, lápis, canetas e não sei que mais, e aborrece-me
pensar nessas coisas.
Paulo ficou indeciso; não previra aquela dificuldade. O seu aspecto humilde e tímido e o
ar aflito de Cristina sensibilizaram o Sr. Nancé, que se ofereceu, solícito. .
— Não tem necessidade de se ocupar disso, minha senhora. Tenho uma infinidade de
livros e de cadernos de que Francisco já não se utiliza e cedê-los-ei a Cristina para dar as suas
lições com Paulo.
SRA. ORMES — Muito bem! Nesse caso, meu caro Sr. Paulo, venha quantas vezes
quiser, pois me parece ficar bastante satisfeito em visitar-me.
PAULO — Obrigado, signora. Até amanhã.
E Paulo retirou-se, deixando Cristina radiante, Francisco, encantado com a satisfação de
sua amiguinha e o Sr. Nancé feliz por, com tão pouco, ter feito a ventura da pequenita, de
Paulo e, sobretudo, do seu querido filho. Quando ficaram sós, Francisco agradeceu-lhe muito
o que fizera pela Cristina, cujo abandono lhe explicou. Contou-lhe também tudo o que se
passara entre ela e Maurício e tudo quanto, de carinhoso, dissera a seu respeito.
— Gosto muito de Cristina — disse o Sr. Nancé. — Possui um belo coração. Vê-a
sempre que queiras, Francisco; de todas as nossas vizinhas, é a mais amável e a melhor.
8
Mina desmascarada
No dia seguinte, Cristina levantou-se cedo porque a criada fora convidada para um
casamento na aldeia e queria ver-se livre da pequena o mais depressa possível.
— Vá buscar o seu almoço — disse Mina, quando Cristina ficou pronta: — Eu não
tenho tempo. Preciso engomar o meu vestido. E cuidado que o paizinho não a veja, de
contrário apanha um corretivo.
Cristina foi à cozinha pedir o pão e o leite, olhando para todos os lados, com
inquietação.
— De que tem medo, menina? — inquiriu Daniel, o cocheiro, que estava a almoçar.
CRISTINA — De que o paizinho me veja.
COZINHEIRO — Que tem isso? Seu paizinho nunca lhe ralha.
CRISTINA — Mina não quer que o paizinho me veja na cozinha.
COCHEIRO — Mas se foi ela quem a mandou cá!
CRISTINA — Vai a um casamento e está a engomar o vestido.
COCHEIRO — E mandou-a para aqui como um objeto inútil! Se fosse a si, menina, eu
contaria tudo ao paizinho!
CRISTINA — Mina bater-me-ia e a mãezinha não me acreditava.
COCHEIRO — Mas acreditá-la-ia o paizinho.
CRISTINA — Sim, mas não gosto de contrariar a mãezinha. Preciso de me ir embora;
queiram dar-me o pão e o leite para poder almoçar.
COZINHEIRO — A menina não levará o chocolate, pois pode queimar-se.
CRISTINA — Não tenho chocolate: como pão com leite frio.
COZINHEIRO — O quê? A sua criada vem aqui todos os dias buscar o seu chocolate!
CRISTINA — Ela é que o toma, não me dá nenhum.
COZINHEIRO — Mas isso não está certo! Roubar-lhe o chocolate! Aqui tem a sua
chávena de chocolate e tome-o aqui tranquilamente.
CRISTINA— Não me atrevo. E se o paizinho aparece?
COZINHEIRO — Venha para aqui, para a copa, onde ninguém entra e ninguém a verá.
O cozinheiro, bondosa criatura, encaminhou Cristina para a copa, pondo-lhe na frente
uma grande chávena de chocolate e dois excelentes bolos. Cristina comia com gosto o
excelente almoço quando, com grande terror, ouviu a voz da criada.
MINA — Chefe: é favor dar-me o chocolate da Cristina.
COZINHEIRO (em tom aborrecido) — É coisa que não há.
MINA — Ora essa! Então não fez o almoço da menina?
COZINHEIRO (agastado) — Então não mandou cá buscar um bocado de pão seco e
leite frio? Pois já lhe dei.
MINA — Mas não prescinde do chocolate.
COZINHEIRO — Pois não lhe darei.
MINA — Vou queixar-me à senhora.
COZINHEIRO — Faça o que entender, mas deixe-me em paz.
Mina saiu fula; foi, porém, obrigada a esperar durante muito tempo, que a Sra. Ormes se
levantasse, para se queixar do cozinheiro, e isso mais a enfureceu.
Quanto a Cristina, inquieta e assustada, não se atrevera a voltar para o quarto. Deixou-se
ficar à espera de Paulo, a quem considerava como um protetor, mesmo junto da mãe. Este não
tardou a aparecer, sobraçando um grande embrulho. O amistoso acolhimento de Cristina
sensibilizou-o e aumentou a simpatia que já tinha por ela.
PAULO — Aqui tem, signorina, um grande embrulho para si.
CRISTINA — Para mim? E que é?
PAULO — É o Sr. Nancé que lhe manda estes livros, cadernos, canetas, lápis... tudo
quanto é preciso para as suas lições. Mas peço-lhe que não mostre estas coisas e só fale nos
livros que ele lhe prometeu na presença da mãezinha.
CRISTINA — Mas por que?
PAULO — Porque se poderia acreditar que a mãezinha lhe recusa o que lhe falta e
assim podia melindrá-la.
CRISTINA — Nada direi. Agradeça ao bondoso Sr. Nancé e a Francisco. Mas se
perguntar quem me mandou estas coisas, que hei de dizer para não mentir?
PAULO — Dir-lhe-á que foi o bom Paulo que trouxe tudo, e é verdade. Mas descanse,
que nada lhe perguntarão. O seu pai julgará que foi sua mãe e, esta, ao contrário, que foi ele.
Enquanto Cristina desamarrava o embrulho com os livros os papéis, etc., e principiava
uma lição com Paulo, a Sra. Ormes levantava-se e ouvia as queixas de Mina contra o
cozinheiro, que lhe negara o chocolate de Cristina.
SRA. ORMES — Que hei de fazer? Mandar chamá-lo e repreendê-lo? Você tem
questões com toda a gente. Procure o meu marido e diga que lhe quero falar.
MINA — Mas, minha senhora... não será melhor chamar o cozinheiro?
SRA. ORMES — Repito: vá chamar meu marido.
A criada saiu, mas teve o cuidado de não cumprir a ordem da patroa; entretanto, irritada,
prometeu vingar-se na pobre da Cristina, única mártir dos seus aborrecimentos.
“Onde estará metida essa palerma? Desde manhã que a não vejo.” Tanto a procurou,
que a encontrou na saleta, tomando uma lição de escrita com Paulo. Ao vê-la, disse-lhe com
rudeza:
— Que está aqui a fazer? Vá já para o seu quarto!
Cristina ia obedecer à criada, quando Paulo a fez sentar, dizendo:
— Perdão, signorina, deixe-se ficar. Ainda não acabámos a lição. E a menina, Dona
Fúria, vá-se embora e deixe tranquila a signorina.
— Ora deixe-me em paz, seu italiano de uma figa. A Cristina vai comigo. Não precisa
das suas lições e ela há de ir apesar de tudo.
Paulo agarrou Cristina e colocou-a atrás de si. Mina atirou-se a ele, mas recebeu um
murro que lhe achatou o nariz, o que lhe duplicou a fúria e as forças; com um movimento do
braço repeliu Paulo e agarrou Cristina, que puxou a si violentamente.
— Se chama alguém, chicoteio-a! — bradou, continuando a puxar Cristina que Paulo
retinha.
No momento em que Paulo, receando magoar Cristina, a abandonou ao inimigo comum,
Mina soltou um grito e largou a petiza. Mão de ferro lhe caíra sobre os ombros e, fazendo-a
girar, levou-a até a porta. Fora o Sr. Ormes que, sem ser visto por Paulo e Cristina, entrara por
uma porta do fundo e, sentado no vão de uma janela, assistia à lição.
Quando Mina foi expulsa do aposento, o Sr. Ormes serenou a assustada Cristina e
apertou a mão de Paulo.
SR. ORMES — Costuma tratar-te algumas vezes, tão rudemente, como há pouco?
CRISTINA — É sempre assim, paizinho, mas suplico-lhe que nada lhe diga, pois ainda
me bate mais.
SR. ORMES — Como, mais? Então ela bate-te algumas vezes?
CRISTINA — Com uma chibata que tem na gaveta.
— Miserável criatura! — bradou o Sr. Ormes pálido e trémulo de cólera. — Atrever-se
a bater na minha filha!
— Se me dá licença, Sr. Conde — volveu Paulo — eu castigarei Dona Fúria à minha
maneira!
SR. ORMES — Obrigado, Sr. Paulo. Não se preocupe. Vou falar a minha mulher.
Continue a dar lições à pobre Cristina, que vive há mais de dois anos com esta megera.
— Até que enfim! — exclamou a Sra. Ormes, vendo-o entrar. — Chamei-te para ires
ralhar ao cozinheiro. Acabei de saber por Mina que ele não quer dar o chocolate à Cristina.
SR. ORMES — Acabo de descobrir que Mina é uma miserável que se farta de maltratar
a nossa filha.
SRA. ORMES — Essa é boa! Quem te disse isso? E tu acreditas?
SR. ORMES — Acredito porque vi. É preciso despedi-la.
SRA. ORMES — Mais uma maçada! Arranjar nova criada. E para que te meteste nisso?
SR. ORMES — Porque me interessa a Cristina. Quanto à história do chocolate, está-me
cá a parecer que é mais uma maldade de Mina.
SRA. ORMES — Nesse caso fala com o cozinheiro.
SR. ORMES — É o que vou fazer na tua presença.
O Sr. Ormes tocou a campainha; apareceu uma criada a quem ele ordenou que chamasse
o cozinheiro que, dentro de minutos, compareceu.
Depois de interrogado, o cozinheiro contou como o caso se dera, referindo que Mina ia
lá buscar o chocolate para Cristina, mas era ela quem o tomava, enquanto a menina bebia leite
frio e comia pão seco.
SR. ORMES — Foi pena não me haverem dito isso há mais tempo.
COZINHEIRO — Não me atrevia, senhor conde.
SR. ORMES — Por que?
COZINHEIRO — Porque a senhora condessa... não acreditaria... e compreende...
receava desagradar à patroa.
Depois saiu.
O Sr. Ormes, de braços cruzados, fitou a mulher sem dar palavra. Esta, por sua vez,
estava confusa e também se calara.
— Carolina — disse-lhe por fim o marido — é preciso que despeças hoje mesmo essa
péssima criatura.
SRA. ORMES — Mas que aborrecimento! Manda-a tu embora. Não me meto nesse
assunto. Visto tê-lo principiado, leva-o até ao fim.
SR. ORMES (com severidade) — Tu é que lhe vais pôr termo, Carolina, como castigo
do teu desleixo com respeito a Cristina. Põe imediatamente na rua essa mulher.
SRA. ORMES — E que farei de Cristina? Ah! Já sei! Vou encarregar Paulo de tomar
conta dela.
SR. ORMES — É ridículo e impossível, embora Cristina ficasse bem entregue, pois
Paulo é um excelente rapaz e muito querido na região. Enquanto não arranjares uma aia nova,
diz à tua criada que cuide da nossa filha.
O Sr. Ormes saiu, sorrindo da ideia de ver Paulo transformado em aia de crianças!
Entretanto, a mulher tocou a campainha, mandou chamar Mina, fez contas com ela e
despediu-a. Após hora e meia de discussão, a patroa pagou-lhe dois meses mais, passou-lhe
um bom atestado e prometeu recomendá-la.
9
Grande atrapalhação de Paulo
Enquanto Mina se preparava para sair e prometia de si para si vingar-se de Cristina,
dizendo dela o pior possível, Paulo acabava de lhe dar a lição; estava encantado com a
inteligência e a boa vontade da discípula, que aprendia sem custo.
A Sra. Ormes, ao entrar na saleta, encontrou-a mergulhada em livros e papéis.
— Estou aqui, Sr. Paulo, para lhe pedir um favor.
PAULO (curvando-se) — O que quiser, signora.
SRA. ORMES — Acabo de despedir Mina e como não sei que destino hei de dar a
Cristina, queria pedir-lhe que viesse passar alguns dias em nossa casa, para acompanhá-la e
dar-lhe lição.
Paulo, admirado com tal proposta inesperada e cujo ridículo adivinhou, permaneceu
calado durante instantes, boquiaberto e de olhos esbugalhados.
— Hesita? — impacientou-se a Sra. Ormes. Mas disse-me estar resolvido a satisfazer
todos os meus desejos.
PAULO — É certo, signora... Mas...
SRA. ORMES — ... mas... o quê? Desembuche.
PAULO — Signora... Eu também dou lições... ao signorino Francisco...
SRA. ORMES — Pois bem! Terá duas horas de folga por dia e levará a Cristina a casa
do filho de Nancé.
PAULO — Mas, signora... moro muito longe... O Sr. Nancé não mora perto... e para ir e
voltar...
SRA. ORMES — Meu Deus, quantas dificuldades... Ficará a residir aqui... Quer ou
não?
Cristina fitou-o com ar tão suplicante, que ele respondeu quase sem saber o que fazia.
— Quero, signora, quero... mas...
SRA. ORMES — Está combinado. Vou mandar preparar-lhe o quarto. Venha almoçar.
Anda daí, Cristina.
Paulo cedeu, estupefato com o seu consentimento, dado por surpresa. Cristina estava
radiante e apertou-lhe a mão, de fugida, agradecendo baixinho:
— Obrigada, meu bom e querido Sr. Paulo!
À mesa, a Sr. Ormes comunicou ao marido que Paulo vinha morar para o solar,
encarregando-se de Cristina. O marido ficou surpreendido e descontente e apenas disse:
— Não é possível, Carolina! Abusas da condescendência do Sr. Paulo.
SRA. ORMES — Nada disso! Pago-lhe generosamente.
Paulo corou até a raiz dos cabelos e o descontentamento do Sr. Ormes e de Cristina
tornou-se mais visível; ele ia a falar, quando a Sra. Ormes ripostou impaciente:
— Por favor, meu querido! Não faça mais observações. O que está feito, feito está...
Almocemos sossegados. Quer uma costeleta ou vitela estufada, Sr. Paulo?
PAULO — Primeiro a costeleta e depois a vitela, signora.
Carolina serviu-o com abundância, mandou dar-lhe chá, vinho, café e aguardente.
Finda a refeição, pediu-lhe que fosse passear com Cristina até ao parque.
SR. ORMES — A Cristina vai comigo. É conveniente que seja eu próprio quem se
encarregue de levá-la esta manhã a passear, visto não ter ninguém ao pé dela. Anda Cristina.
Levou a filha, interrogou-a a respeito de Mina, censurou-se intimamente por não haver
vigiado aquela péssima criada e por ter deixado tanto tempo a infeliz Cristina entregue aos
seus maus tratos.
Entretanto, Paulo foi à casa do Sr. Nancé, com um ar tão assustado, que pôs em
sobressalto Francisco, que lhe perguntou o que havia acontecido.
E o bom do italiano contou todas as cenas daquela manhã, mostrando-se descontente
com a missão que lhe queriam confiar.
Ao saber do estranho papel que ia representar no solar dos Ormes, o Sr. Nancé
aconselhou-o a que não voltasse lá.
PAULO — Isso é bom de dizer... E a pobre Cristina? A pequenita fica só. A mãe não se
importa com ela, e a petiza nada sabe e tem vontade de aprender. Aborrece-se em estar
inativa. É tão boazinha que faz dó.
Entretanto, Francisco permanecia calado, ouvindo tudo com ar meditativo.
Por fim, disse:
— Dão-me licença que harmonize tudo, paizinho? Todos nós ficaremos contentes.
SR. NANCÉ — Pois sim, porque sei que nada farás de mal. E que pretendes fazer?
FRANCISCO — Sabes perfeitamente que já não careço dos cuidados da minha criada, a
quem estimo de todo o coração. Assim, pedir-lhe-ei que entre para casa do Sr. Ormes, para eu
ter a satisfação de saber a Cristina feliz.
SR. NANCÉ — A ideia é boa e generosa e prova a bondade do teu coração, mas ela
nunca aceitará... entrar ao serviço da Sr. Ormes, que conhece como pessoa desagradável,
caprichosa e difícil de aturar. É melhor que fique para cuidar de ti.
FRANCISCO — Para cuidar de mim temos Matilde, a mulher do seu criado de quarto.
SR. NANCÉ — Faz como entenderes, filho. Tenho, porém, a certeza de que a tua criada
recusará a proposta.
Francisco agradeceu ao pai e foi logo ter com a criada a quem, beijando afetuosamente,
expôs a sua ideia.
Como o pai previra, a mulher recusou, alegando que seria certamente infeliz em casa da
Sra. Ormes e longe dele, que tanto amava.
FRANCISCO — Não serás infeliz, visto ela não ligar importância à Cristina; esta é
muito bondosa e, além disso, ficarás perto de mim.
CRIADA — Mas serei obrigada a ficar junto de Cristina e não poderei visitar-te.
FRANCISCO — Pedirás para vires aqui todos os dias e o paizinho mandar-te-á na
carruagem. Peço-te por mim. Teria grande desgosto em saber Cristina tão infeliz como o foi
com a malvada Mina.
A criada ainda lutou contra o desejo de Francisco. Por fim, vencida pelas súplicas e pela
certeza de que Matilde ficaria junto dele, cedeu e permitiu a Francisco que a apresentasse à
Sra. Ormes.
10
Francisco harmoniza as coisas
Francisco correu logo ao pai a contar-lhe que fora bem sucedido e Paulo foi encarregado
de oferecer à Sra. Ormes os serviços da criada do filho do Sr. Nancé; e fê-lo contentíssimo
por se libertar finalmente da estranha proposta da Sra. Ormes. Encontrou à porta Cristina com
o pai, a quem, de longe, disse trazer-lhe boas notícias de parte do Francisco e do Sr. Nancé.
— Que há? — interrogou o Sr. Ormes, surpreso.
E Paulo contou-lhe que Isabel vinha para casa dele.
O Sr. Ormes perguntou à filha se conhecia a tal Isabel.
CRISTINA — Não, paizinho. Sei apenas que é muito amiga de Francisco.
O Sr. Ormes voltou para casa com a filha, que foi estudar as lições, que Paulo lhe
marcara de manhã. Mais tarde apareceu a mãe, que ficou muito admirada de encontrá-la na
saleta e a fez, de imediato, sair de lá.
Nesse momento, Paulo, que fora buscar Isabel, apareceu com ela, apresentando-a à Sra.
Ormes que, espantada, a cumprimentou.
— É a Isabel. Traz uma carta do Sr. Nancé.
Cada vez mais surpreendida, a Sra. Ormes leu a carta e olhou para a criada, cujo aspecto
digno e modesto, meigo e resoluto, lhe agradou.
SRA. ORMES — Quer entrar para o meu serviço? Pela carta do Sr. Nancé, não há
necessidade de colher informações. Vem ganhar bem e tem tudo quanto quiser, para que eu
nada tenha de ouvir e me deixem em paz. Leve daqui a Cristina com toda esta papelada. E o
Sr. Paulo vai dar-lhe a lição lá em cima no seu quarto.
— E o piano, signora?
— Não quero que ela toque piano na saleta. Proceda como entender. Até ver, Sr. Paulo.
E desapareceu. Paulo, muito desconcertado, Isabel admirada, e Cristina, encantada,
saíram da saleta. Cristina não podia com os livros e os cadernos, pelo que a nova criada pegou
neles; por sua vez Paulo tirou-os das mãos de Isabel.
— Com licença, é pesado demais para si. Mas para onde vai isto, signorina Cristina?
CRISTINA — Lá para cima... para o meu quarto. Quem é esta senhora? — inquiriu
baixinho.
PAULO — É a pessoa que Francisco lhe manda para substituir a Mina. É a criada dele:
Isabel.
CRISTINA — É a Sra. Isabel a quem Francisco tem muita amizade e de quem fala com
tanto carinho? E deixa-o assim, para ficar comigo?
ISABEL — Sim, menina. É com pena que deixo o meu Francisquinho. A minha vontade
era ficar junto dele, mas tanto me pediu, que não lhe pude resistir e resolvi vir para aqui. Não
sei quando a sua mãezinha deseja que eu entre definitivamente. Pode perguntar-lhe?
CRISTINA — Não me atrevo: é preferível que seja o Sr. Paulo, a quem a mãezinha
parece estimar muito. Quer lá ir, meu bom amigo?
PAULO — Com todo o gosto, signorina... Mas se ela se zangar, como hei de continuar
a dar-lhe lição?
CRISTINA — Nada disso acontecerá, Sr. Paulo. Há de ouvi-lo.
E Paulo encaminhou-se vagarosamente para os aposentos da Sra. Ormes, enquanto
Cristina mostrava à nova criada aqueles que devia ocupar.
Entretanto, Paulo batera à porta do quarto da Sra. Ormes, que respondeu:
— Entre. Outra vez Sr. Paulo? Que quer? É visita ou pedido que vem fazer?
Paulo transmitiu-lhe o recado da filha, ao que a mãe redarguiu:
— Imediatamente, visto já cá estar.
PAULO — Não é possível, signora. Tudo o que possui deixou-o ficar em casa do Sr.
Nancé.
SRA. ORMES — Vou mandar buscar.
PAULO — Mas o pior é que Isabel não se despediu de pessoa alguma.
SRA. ORMES — Irá amanhã até lá, de passeio com a Cristina.
PAULO — Mas, signora, ela gosta tanto do Francisco, que não desejava deixá-lo assim,
de repente.
A isso objetou, muito aborrecida, a Sra. Ormes, que fizesse o que lhe aprouvesse e
viesse quando pudesse, pois não tinha paciência para aturar fosse quem fosse, lamentando-se
por ser tão infeliz e ser ela quem tinha de olhar por tudo.
PAULO — Mas Cristina é sua filha; tem de proceder como todas as mães!
SR. ORMES — Pelo amor de Deus não me esteja a pregar moral! Estou fatigadíssima e
ainda tenho mil coisas a fazer. O jantar da Sra. Guilbert é amanhã e ainda não tenho nada
preparado. Faça como melhor lhe aprouver, mas, por favor, deixe-me sossegada.
A mãe de Cristina despediu, sem cerimónia, Paulo; fechou a porta e tocou a campainha
para a criada grave lhe ir buscar os seus vestidos de todas as cores e feitios, a fim de escolher
aquele que mais lhe agradasse.
Paulo foi ter com Cristina e referiu, a seu modo, a conversa entabulada entre ele e a mãe.
Ficou resolvido Paulo dar a Cristina a sua lição, ir com Isabel a casa do Sr. Nancé e que esta
voltaria no dia imediato, a tempo de preparar Cristina para o jantar em casa dos Srs. Guilbert.
11
O Sr. Ormes estraga tudo
Paulo estava cansadíssimo com os passos dados durante o dia; jantou em casa do Sr.
Nancé, a quem historiou a forma estranha como a Sra. Ormes aceitara os serviços de Isabel.
Francisco ficou radiante com a certeza de que Cristina havia de ser feliz, sentindo, contudo, a
falta que a criada lhe iria fazer.
No dia seguinte, quando Isabel se despediu, pediu para acompanhá-la até casa de
Cristina.
Concedida a licença, partiu com Isabel e preferiram ir a pé, enquanto uma pequena
carroça transportava a bagagem para o solar dos Ormes. Seguiam devagar. Francisco retinha
as lágrimas, ao mesmo tempo em que a criada deixava correr as suas.
Francisco consolava-a, dizendo que, indo servir a Sra. Ormes, tinha probabilidades de o
ver muitas vezes. Demais, ela poderia fazer o que lhe apetecesse, pois a sua nova patroa não
se importava com a filha.
Isabel deu-lhe razão. No entanto, precisava de tempo para se habituar à ideia de viver
noutra casa e havia de ter saudades de não o beijar todas as manhãs.
Francisco pensava como a criada e, por isso, calou-se. Chegaram ao solar dos Ormes;
dirigiram-se ao quarto de Cristina, que acabara a lição com Paulo. Ao ver Francisco, a
pequena soltou um grito de alegria e abraçou-o. Francisco, já disposto às lágrimas,
enterneceu-se com aquele testemunho de carinho e desatou a chorar.
— Meu querido Francisco, porque choras? — inquiriu Cristina, apertando-o nos braços.
FRANCISCO — Com pena de Isabel; contudo, sinto-me satisfeito por ela ficar junto de
ti, pois te estimará.
CRISTINA— Mas... então... por que a deixaste sair de tua casa?
FRANCISCO — Para seres feliz, pois temia que te arranjassem outra Mina.
Cristina beijou ternamente Francisco, a quem não poupou elogios, desatando também a
chorar. Isabel fez o que pôde para consolar os dois, o que conseguiu dentro em pouco.
Passada meia hora, Francisco teve de retirar-se. Cristina ainda pediu a Isabel que o
acompanhasse à casa, mas já era tarde; precisava de vestir-se e dirigir-se ao jantar da Sra.
Guilbert.
— Daqui por duas horas tornar-nos-emos a ver — disse Cristina — e também Isabel,
pois a mãezinha afiançou que a criada iria buscar-me às nove.
— Que felicidade! — bradou Francisco, que partiu num carro, com Paulo e com o
criado.
Isabel começou a vestir Cristina com tanto carinho e cuidado como nunca os tivera
Mina para com ela. Agradeceu efusivamente à nova criada, beijou-a, e disse querer ir ter com
a mãe. Abriu a porta, felicíssima, quando lhe surgiu o pai, que ficou admiradíssimo ao vê-la já
pronta, e lhe perguntou quem tratara dela.
CRISTINA — A minha nova criada.
SR. ORMES — Nova criada? De onde veio? Que quer isto dizer? — “Mais alguma
asneira da minha mulher” pensou. — Recomendaram-me uma a quem espero depois do
almoço. Estou aborrecido — resmungou, dirigindo-se a Isabel — que a tenham instalado sem
eu saber. Não posso confiar minha filha a uma estranha e, por isso, faça de conta que não está
ao nosso serviço.
ISABEL — Mas eu supunha que, segundo o que dissera a Sra. Ormes, prestava bom
serviço vindo logo para junto da menina. Se, porém, a minha presença lhe desagrada, retiro-
me. Dê-me apenas tempo para preparar a minha bagagem.
O ar digno e a maneira delicada de Isabel comoveram o Sr. Ormes, que se sentiu um
pouco confuso e volveu, hesitante:
— O tempo que quiser; não quero que fique melindrada e até, se desejar, pode cá passar
a noite.
A criada respondeu preferir voltar para donde viera. Despediu-se de Cristina, lastimando
o que se passava.
Cristina chorava sentidamente ao beijar Isabel. O Sr. Ormes contemplava, surpreendido,
o enternecimento da criada e as lágrimas de Cristina que, desgostosa, exclamou:
— Diga ao meu bom Francisco que prefiro morrer; seria mais feliz!
SR. ORMES — Não digas disparates, Cristina. Vale bem a pena chorar porque não
conservo uma criada nova, que ninguém conhece, e que suponho estar aqui apenas há alguns
instantes!
Cristina quis responder, mas não conseguiu articular palavra. Entretanto, Isabel
preparava as suas coisas, beijava a pequenita e dispunha-se a partir, dizendo que mandava
buscar as malas no dia seguinte; mas que, porém, se causasse transtorno, pediria ao Sr. Nancé
que as fizesse retirar imediatamente.
SR. ORMES — Conhece o Sr. Nancé?
ISABEL — Sim, senhor. Vim de casa dele.
SR. ORMES — Pois será...? Não lhe deu uma carta para mim?
ISABEL — Não, senhor. Trouxe uma para a senhora, que logo me ajustou. Afianço-lhe
que estou arrependida por ter vindo e se previsse o que me aconteceria, nem sequer teria
entrado aqui.
SR. ORMES — Mas eu ignorava que era a pessoa mandada pelo Sr. Nancé; não sabia
que tinha falado à minha mulher. Sendo assim, fique.
Isabel recusou-se, despediu-se mais uma vez de Cristina e saiu.
O pai da pequena ficou contrariado por haver procedido tão levianamente, refletiu por
momentos e foi ter com a mulher, que acabava de se preparar.
SR. ORMES — Então ajustaste agora nova criada?
SRA. ORMES — Agora não. Foi ontem.
SR. ORMES — Por que não me disseste?
SR. ORMES — Porque a escolha de uma criada só a mim compete; tu não percebes
nada do assunto e não sou obrigada a pedir-te licença para proceder como entender.
SR. ORMES — Pois essa maneira de proceder deu mau resultado; como não sabia do
caso, mandei-a embora.
SRA. ORMES (estupefata) — Mandaste-a embora? Mas tu perdeste a cabeça! Nunca
encontrarei mulher que mais me convenha. Vai ter com ela, depressa; diz que lhe quero falar.
SR. ORMES (desapontado) — Tarde demais. Já se foi embora.
SRA. ORMES (irritada) — Já se foi embora? É mau para Cristina, desagradável para
mim que a contratei, injurioso para a pobre criada e impertinente para o Sr. Nancé; que a
recomendou como uma maravilha.
SR. ORMES — Estou verdadeiramente desolado!
SRA. ORMES — Vem a tempo a tua desolação! E são horas de irmos à casa dos
Guilbert. Brígida, vai buscar Cristina.
Passados cinco minutos, Cristina apareceu com os olhos inchados de chorar, o cabelo
em desalinho e o vestido amarrotado.
SRA. ORMES — Que cara! Que te aconteceu, para me apareceres em tal estado? Não
podes ir nesse apuro a casa da Sr. Guilbert. Precisas de pentear-te e vestir-te de novo. Vai ter
com a tua criada.
— A minha criada foi-se embora — volveu Cristina, recomeçando a chorar.
SRA. ORMES — Ah, sim, é verdade! Então vem conforme estás.
SR. ORMES — Ela não pode ir assim.
SRA. ORMES — Cala-te e deixa-me proceder! Sei o que faço. Anda, Cristina.
A Sra. Ormes empurrou o marido, subiu para a carruagem, colocou Cristina no seu
regaço e disse ao cocheiro:
— Para casa do Sr. Nancé.
SR. ORMES — Não esperas por mim? Que vais fazer a casa do Sr. Nancé? Chega a ser
ridículo!
SRA. ORMES — Sei o que faço, o que não acontece contigo! Vamos, Daniel.
O cocheiro partiu, deixando o patrão estupefato e deveras descontente. Meia hora
depois, mandou vir um pequeno carro descoberto e partiu por sua vez.
12
A Sra. Ormes resolve o assunto
A mãe de Cristina chegou à casa do Sr. Nancé precisamente no momento em que este se
preparava para sair. Estava sozinho e ficou muito surpreendido por ver a Sra. Ormes e
Cristina apearem-se.
A Sra. Ormes dirigiu-se-lhe logo, pedindo que esperasse uns momentos; perguntou por
Isabel, pois precisava muito lhe falar, e contou-lhe a asneira feita pelo marido, que a tinha
tomado como uma desconhecida e a despedira, não sabendo que ela já a ajustara. O marido
ficara contrariado, sentia-se aborrecido e Cristina estava apoquentada. Precisava desfazer o
equívoco e levar de novo Isabel.
SR. NANCÉ — Para lhe falar francamente, não sei se o conseguirá, porque deve ter
ficado bastante melindrada pelo procedimento de seu marido. Ainda não voltou, mas daqui a
um quarto de hora deve cá estar, pois, vindo a pé, mete-se por atalhos, que encurta muito o
caminho.
SR. ORMES — Está bem. Esperá-la-ei em sua casa e não saio daqui sem haver
resolvido este caso.
Embora contrariado, o Sr. Nancé ofereceu-lhe o braço e levou-a para a sala onde estava
Francisco, que soltou um grito de alegria vendo Cristina e ficou surpreendido ao notar-lhe os
olhos chorosos.
FRANCISCO — Que tens? Porque vieste? Que aconteceu?
— A tua criada foi-se embora — volveu Cristina, rompendo em soluços.
FRANCISCO — Por que?
CRISTINA — O paizinho despediu-a.
FRANCISCO — Despediu-a? Pobre Isabel! E por que foi?
CRISTINA— Ignoro! Ele não sabia quem ela era.
Francisco emudeceu. Entre a alegria de tornar a ver a criada e o desgosto da Cristina não
sabia o que queria.
A Sra. Ormes contava ao Sr. Nancé a tolice do marido, e aquele não sabia se havia de
acusar a Sra. Ormes, se defender o marido, e por isso se calava. Nesse momento, viram Isabel
a atravessar o pátio, a caminho de casa.
Francisco e Cristina correram para ela.
— Tragam-na aqui! — gritou a Sra. Ormes.
Francisco e Cristina obrigaram a criada a entrar na sala. A Sra. Ormes dirigiu-se-lhe:
— Minha querida Isabel, venho buscá-la. Vai voltar para a nossa casa. Foi um mal-
entendido de meu marido, mas não faça caso, pois está envergonhado e sentido. Cristina não
faz outra coisa senão chorar. Volta, não é assim?
ISABEL — Devo confessar-lhe que as maneiras de seu marido me feriram e receio que
se repitam cenas deste género.
SRA. ORMES — Nunca mais tal fato se repetirá; acredite, e pode confiar no futuro.
— Boa Isabel, não abandones a minha pobre Cristina — disse-lhe, baixinho, Francisco,
beijando-a.
ISABEL — Meus queridos meninos: bem desejo esquecer o mau bocado que passei,
mas o Sr. Ormes quererá, de futuro, tratar-me do mesmo modo a que me habituou o Sr.
Nancé?
SRA. ORMES — Sim, respondo por ele, minha querida Isabel. Nem mesmo sei que
bicho lhe mordeu hoje.
ISABEL — Visto a senhora me demonstrar a confiança que julgo merecer, estou pronta
para voltar. Mas a menina Cristina não está em condições de ir jantar a casa desses senhores.
SR ORMES — Venha conosco. Arranjá-la-á pelo caminho ou lá em casa. Já estamos
atrasados. Venha na minha carruagem, Sr. Nancé. Os pequenos e a Isabel seguirão na sua.
Tendo assim ficado o caso resolvido, partiram. Chegaram um pouco tarde à casa dos
Guilbert, mas ainda a tempo de não alterar a hora do jantar. Passados instantes, apareceu o Sr.
Ormes, que se atrasara por ter ido primeiro a casa do Sr. Nancé procurar Isabel a fim de lhe
pedir desculpa do incidente que se dera essa manhã. Mas já não encontrara ninguém.
Depois de ter cumprimentado os Guilbert, dirigiu-se com vivacidade ao Sr. Nancé, a
quem pediu mil desculpas pelo ocorrido.
O Sr. Nancé respondeu que a Sra. Ormes harmonizara tudo, e Isabel iria retomar o seu
serviço junto de Cristina.
O Sr. Ormes ficou radiante com tão excelente notícia.
Assim que se pôs o jantar na mesa, o Sr. Ormes deixou o Sr. Nancé para oferecer o
braço à Sra. Sibran.
As crianças jantaram numa saleta à parte. Os pequenos Sibran e Guilbert fitaram com ar
trocista Francisco e Cristina, que tinham os olhos vermelhos.
— Muito mal te vestiu e penteou a Mina — observou Gabriela.
CRISTINA — Mina já não está em nossa casa.
GABRIELA — Alegra-me bastante, por ti. Por que se foi embora?
CRISTINA — Foi o paizinho que a pôs na rua, ontem de manhã.
BERNARDO — Conta-nos isso, Cristina, pois deve ser interessante.
HELENA — Mas foi corrida à chibatada?
MAURÍCIO — Sim, com a chibata que usava para bater os tapetes...
CRISTINA — Visto estarem assim a troçar do meu paizinho, nada lhes contarei.
CECÍLIA — Faz-nos a vontade... Conta.
CRISTINA — Não; só depois do jantar é que contarei, mas apenas a Bernardo e a
Gabriela.
CECÍLIA — Muito aborrecido és com as tuas maldades, Maurício.
MAURÍCIO — Mas eu nada disse de mau. Pergunta ao Cavaleiro da Triste-Figura 2 .
CRISTINA — E a quem chamas assim?
MAURÍCIO — Ao teu cavaleiro esgrouviado e de olhos inchados como tu, o que dá a
entender que foram castigados ao mesmo tempo.
CRISTINA — Só aos maus e malcriados como tu é que se castiga. Francisco ainda não
deixou de ser bondoso e, se tem os olhos vermelhos, foi por ter sido bom para mim e para a
criada. E, se o aspecto é triste, é porque tem bom coração. Vale mais cem vezes assim do que
se tivesse ar estúpido e mau.
ADOLFO — E ainda por cima elegante!
CRISTINA— Deixa-o chegar aos vinte anos e veremos se ele não é mais alto e elegante
do que vocês os dois.
MAURÍCIO (soltando uma gargalhada) — Ainda temos de esperar oito anos!
Cristina, corada e irritada, ia a responder, quando o Francisco a reteve:
— Deixa-os falar, pois os pobres rapazes não sabem o que dizem. Não te apoquentes, eu
não me ofendo. Só fazem mal a eles próprios, mostrando-se tais como são.
BERNARDO — Bela resposta! Muito bem te defendes das línguas maldizentes!
Bernardo, Gabriela e as meninas Guilbert troçavam de Maurício e de Adolfo, que

2
Nome pelo qual é conhecido Dom Quixote. (N. do T.)
acabaram por não saber que responder. Para dissimularem o seu enleio, comeram tanto, que
até ficaram agoniados.
As outras crianças fartaram-se de rir, dizendo que eles ou passavam fome ou não
estavam habituados a comer coisas boas em casa.
BERNARDO — Até são capazes de adoecer.
GABRIELA — E ninguém terá pena deles.
Os dois rapazes sentiam-se pouco à vontade e envergonhados. Findo o jantar, todos
desceram ao jardim; as crianças puseram-se a correr e a brincar, exceto o Maurício e o
Adolfo, que ficaram na sala de jantar, meio ocultos pelas cadeiras. Haviam combinado
apoderar-se de alguns cigarros que tinham visto em cima de um fogão e fumá-los quando
estivessem sozinhos, apesar de os pais os proibirem expressamente de tal. Mas não tinham
espírito de obediência e procederam de tal forma, que ninguém se apercebeu da sua ausência.
13
Incêndio e fatalidade
O Sr. Guilbert propôs um passeio de barco pelo lago, desembarcando na outra margem,
onde se assistiria a um bailarico em honra da filha de um caseiro seu. Assim fizeram e
chegaram quando o baile estava no auge. Haviam tomado dois barcos. Com a animação,
ninguém deu pela falta de Adolfo e de Maurício. Eram nove horas, quando o Sr. Nancé falou
em voltar.
A noite desceu e o Sr. Guilbert mandou acender as lanternas dos barcos, o que causava
encantador aspecto. Todos embarcaram e só nesse momento os pais notaram que Maurício e
Adolfo não os tinham acompanhado, o que Helena justificou, dizendo que se tinham sentido
agoniados por terem comido demais.
Chegando a certo ponto donde se avistava o solar, viram, surpreendidos, labaredas que
iluminavam o lago; todos olharam e perceberam, aterrados, que saíam das janelas do solar. Os
remadores redobraram de esforços. Quando puderam desembarcar, já as chamas tomavam
grande incremento. O Sr. Nancé fez ficar as senhoras e as crianças na margem; pediu a
Francisco que não o acompanhasse, e correu com os outros para organizar os socorros. Os
criados andavam desorientados, dando indicações contraditórias que ninguém executava.
O Sr. Sibran aflitíssimo, chamava pelos filhos, mas ninguém lhe respondia.
Entretanto, como não havia bombas nem bombeiros, o fogo alastrava assustadoramente.
A custo se salvaram os objetos de valor, mas os móveis pinturas e espelhos desapareceram no
enorme braseiro.
O Sr. Nancé perguntara aos criados o que fora feito de Adolfo e de Maurício.
— Devem estar no parque. Supõe-se que deitaram fogo à saleta onde haviam ficado,
pois não se encontrou pessoa alguma nas salas, quando se deu pelo incêndio. No rés-do-chão
era-lhes fácil fugir.
O Sr. Nancé, tranquilizado a esse respeito, voltou para junto das senhoras, lembrando-se
da inquietação em que decerto se encontrava Francisco ao vê-lo expor-se a tais perigos, e
também pela terrível expectativa em que estava a Sra. Sibran, devido aos filhos.
Um grito de alegria acolheu a sua presença.
Após as demonstrações de amizade de Cristina e de Francisco, a Sra. Sibran perguntou-
lhe ansiosa:
— E os meus pequenos?
SR. NANCÉ — Creio que se encontram com o pai. Devem estar a chegar.
SRA. SIBRAN — Louvado seja Deus! Estão em segurança. Viu-os? Onde se achavam?
SR. NANCÉ — Não sei dizer-lhe, minha senhora. Segundo o criado afirmou, não
deviam correr perigo algum, mesmo que estivessem no foco do incêndio, pois este era no rés-
do-chão, a pouca altura da terra, e por isso facilmente fugiriam.
SR SIBRAN — Tem razão, mas um incêndio é sempre uma coisa tão terrível! Deus lhe
pague as boas novas que me traz e que meu marido...
Angustioso grito de pavor interrompeu a frase. Numa das mansardas do solar, iluminada
pelas chamas, surgiram duas cabeças lívidas, aterradas, pedindo socorro. Eram Adolfo e
Maurício. Os Srs. Sibran, Ormes e os criados estavam em baixo; o seu grito de terror
correspondera ao angustioso brado dos pequenos.
A Sra. Sibran levantou-se, correu para salvar os filhos, mas Deus poupou-lhe a dor de
ver os seus esforços inúteis, pois desmaiou.
— Pobre senhora! — disse o Sr. Nancé, fitando-a, compassivo. — Para ela foi melhor
assim. Proíbo-te que saias daqui, Francisco. Vou tentar salvar aqueles desventurados.
— Não te exponhas, paizinho! — replicou Francisco, de mãos postas.
— Sossega; pensarei em ti, meu filho, e Deus velará por nós.
E correu para o solar, pedindo aos criados aterrados:
— Depressa! Tragam colchões!
Tantas vezes os empurrou e exortou, que conseguiu que lhe trouxessem uns seis
colchões, que fez colocar debaixo da mansarda onde ainda permaneciam Adolfo e Maurício,
envoltos em fumo e labaredas.
SR. NANCÉ — Saltem! Há aqui colchões! Coragem. .
Maurício atirou-se, mas caiu desastradamente, ficando com metade do corpo em cima
dos colchões e a outra metade no chão. O Sr. Nancé baixou-se para retirá-lo e dar lugar a
Adolfo, mas, mal teve tempo de levantá-lo, pois Adolfo também se atirara e veio cair em cima
dos ombros do irmão, que soltou um grande grito e desmaiou.
— Desgraçado! Não podias esperar meio minuto? — bradou o Sr. Nancé.
— Estava a queimar-me e quase asfixiado pelo fumo! — respondeu, a custo, Adolfo.
E desatou a gemer e a queixar-se da dor causada pelas queimaduras. O Sr. Nancé
entregou-o aos cuidados dos criados, que o levaram para a habitação do caseiro, e ele próprio
se ocupou em fazer voltar a si Maurício, mas foram baldados os seus esforços. Tinha os
quadris e os ombros feridos; as pernas, que haviam batido no chão, estavam pisadas e
partidas. Ordenou que fossem imediatamente buscar um médico, estendeu Maurício no
relvado e disse ao Sr. Sibran que tratasse dos filhos em vez de se lamentar.
SR. SIBRAN — E como estão eles?
SR. NANCÉ — Magoados e queimados, Maurício, perto de si, e Adolfo em casa do
caseiro.
SR. SIBRAN (correndo para o filho) — Maurício! Maurício!
O pequeno soltou um doloroso gemido.
SR. NANCÉ — Tome cuidado! Evite-lhe comoções fortes. Faça-lhe respirar vinagre,
ate-lhe a testa, mas não o sacuda! Ponha dois colchões ao pé e tentemos levantá-lo para
colocá-lo em cima deles.
O Sr. Sibran pediu a toda a gente que o ajudasse a transportar Maurício; entretanto, o Sr.
Nancé repetia ao Sr. Ormes o que devia fazer, enquanto não vinha o médico, e dirigiu-se para
junto das senhoras. Encheu de água o chapéu e deitou algumas gotas sobre a cabeça e a cara
da Sra. Sibran que continuava desmaiada, pedindo às pessoas presentes que fizessem o
mesmo, até ela recuperar os sentidos.
FRANCISCO — Que originou o incêndio, paizinho? — inquiriu. — Onde está a minha
criada?
— A tua criada está bem. Foi tratar do Adolfo. Quanto à origem do incêndio, é
desconhecida. As criadas estavam à mesa e disseram que, na sala, só se encontravam
Mauricio e Adolfo. Não compreendem como o fogo pegou na saleta, nem como os pequenos
foram parar à mansarda. Maurício continua desmaiado e Adolfo geme e não dá palavra.
Ambos estão muito queimados e devem sofrer bastante.
Após estas explicações às senhoras e aos pequenos, a Sra. Guilbert perguntou-lhe se
todos os aposentos do solar haviam sido atingidos e se não tinham onde ficar.
SR. NANCÉ — Ardeu tudo minha senhora. Salvaram-se apenas alguns objetos de valor.
SRA. GUILBERT — Que vai ser de nós? Para onde iremos?
SR. NANCÉ — Se me atrevesse a oferecer-lhe provisório refúgio, minha senhora,
pedir-lhe-ia que aceitasse a minha moradia, de que apenas ocupo uma parte; o resto está à
vossa disposição.
SRA. GUILBERT — Estou-lhe muito grata pelo oferecimento; se meu marido autorizar,
aceitá-lo-ei durante alguns dias, até encontrarmos casa.
SR. NANCÉ — Muito feliz me sinto por auxiliá-la, minha senhora.
SRA. GUILBERT — E poderemos alojar-nos esta noite?
SR. NANCÉ — Pois decerto. Volto para casa e dou as ordens necessárias. Vamos,
Francisco.
As Sras. Ormes e Cémiane prontificaram-se a levar a Sra. Sibran para junto dos filhos.
— Em seguida voltamos para as nossas casas. As pobres crianças devem estar
cansadíssimas — disse a Sra. Cémiane.
14
Alegres momentos para Cristina
Todos se encaminharam para o ponto arrelvado onde se encontrava o Sr. Sibran junto do
filho, que recuperara os sentidos e a fala. Queixava-se das queimaduras e de dores em todo o
corpo; não fazia um movimento sem gemer. A Sr. Sibran ajoelhou perto dele, calada. Beijou-
o na testa e depois permaneceu imóvel e muda. Em seguida, pediu ao marido que levasse o
filho para junto de Adolfo, a fim de tê-los à vista. O Sr. Nancé incumbiu-se da missão e
afastou-se com Francisco, a quem Cristina nem por instantes abandonava. Isabel veio ter com
eles a procurar Cristina para levá-la à carruagem da Sra. Ormes, mas esta já havia partido
quando lá chegaram, pois, tendo perguntado pela filha, lhe disseram que certamente o Sr.
Ormes a tinha levado.
O terror de Cristina ao ver-se esquecida, foi acalmado pelo Sr. Nancé, que lhe disse que
iria com ele, com Francisco e com Isabel e dormiria lá.
Cristina agradeceu, beijando-lhe a mão.
Francisco bendisse a ideia do pai, enquanto os olhos lhe brilhavam de alegria.
Depois de se sentarem na carruagem, esta partiu. Quando chegaram, o Sr. Nancé
encarregou Isabel de instalar Cristina no antigo quarto de Francisco, que ficava pegado ao
dela.
O Sr. Nancé, em vez de ir descansar, ainda foi, com Matilde e Isabel, preparar os
aposentos destinados aos Guilbert e aos criados. Estava tudo pronto quando estes chegaram.
Recebeu-os à porta do solar, instalou-os, recomendou-lhes que estivessem ali como em sua
própria casa, beijou Francisco, que já dormia, e deitou-se, depois de ter dado graças a Deus
por lhe haver concedido tão excelente filho.
Cristina dormiu até tarde e, ao acordar na manhã seguinte, estranhou o quarto, mas
depressa se lembrou dos tristes acontecimentos da véspera e o coração pulou-lhe de alegria à
ideia de que ia ver outra vez Francisco e o Sr. Nancé, com quem almoçaria. Assim que Isabel
a vestiu, e viu aparecer Francisco, correu logo para os seus braços.
— Francisco, conserva-me sempre perto de ti. Sinto-me aqui tão feliz!
FRANCISCO — Bem contente ficaria em conservar-te, mas teus pais decerto não
querem.
CRISTINA— Por que? Que tinha isso? Não se esqueceram eles ontem de mim?
FRANCISCO — Foi a confusão causada pelo incêndio. Verás como te mandam cá
buscar. Entretanto, vem almoçar comigo e com o paizinho. Queres?
CRISTINA — Obrigada, meu bom Francisco. Tiveste uma ideia magnífica!
Francisco beijou a criada, que os fitava com ternura, e, pegando na mão de Cristina,
correram aos aposentos do Sr. Nancé, que foi abraçado e beijado pelas duas crianças, com
grande meiguice.
O bondoso homem sorriu e correspondeu àquele gesto, dizendo:

— Bom dia, queridos filhos! Já estais juntos outra vez?


— Querido Sr. Nancé, conserve-me sempre perto de si e de Francisco, pois bastante
feliz seria assim — volveu Cristina, continuando a abraçá-lo.
SR. NANCÉ — Não é possível, pois tens pai e mãe.
— Que pena! — lamentou ela, deixando cair os braços.
O Sr. Nancé mais uma vez sorriu e beijou-a, anunciando que o almoço estava pronto.
Serviu a Cristina e Francisco uma chávena de chocolate e pão com manteiga, enquanto
tomava uma xícara de chá. Comeram e conversaram e, no fim, o Sr. Nancé disse serem horas
de mandar a carruagem levar Cristina à casa dos pais, que já deviam estar inquietos.
Assim se fez e o pai de Francisco subiu para a carruagem com este, Cristina e Isabel.
Passado um quarto de hora, chegaram ao solar dos Ormes, cujos donos estavam na sala.
SRA. ORMES — Estou-lhe muito grata, Sr. Nancé. Foi grande amabilidade da sua parte
trazer-nos Cristina; estava certa de que haveria alguém que se encarregaria dessa missão.
SR. ORMES — Como se entende que seja o Sr. Nancé que nos traz a Cristina? Donde
vem Sr. Nancé?
SR. NANCÉ — De minha casa.
SRA. ORMES — É que meu marido não sabia que deixei ontem ficar Cristina em casa
dos Guilbert, imaginando que estava com ele. Não é coisa para espantar, pois o incêndio foi
tão terrível, que nos perturbou! Mas esta manhã, sabendo-a ausente, logo calculei que o Sr.
Nancé ou minha irmã Cémiane no-la trariam.
SR. ORMES — Abusas da bondade do Sr. Nancé, Carolina.
SRA. ORMES — Nada disso; e tenho a certeza de que o Sr. Nancé se sente satisfeito
por me haver prestado este favor.
SR. NANCÉ — Sim, minha senhora, não tenha a menor dúvida de que assim é.
— Ora vês?! — bradou Carolina, triunfante. — Imaginas os outros como tu. E estou
persuadida de que se tivesse de fazer alguma viagem e pedisse ao Sr. Nancé para tomar conta
de Cristina, na minha ausência, o faria com prazer.
SR. ORMES — É muito amável, Sr. Nancé.
SR. NANCÉ — Não seria só com prazer, mas com muito interesse. Experimente e verá.
SR. ORMES — Não faças suposições impossíveis, Carolina. — E, dirigindo-se ao pai
de Francisco, perguntou: — Quer almoçar conosco?
SR. NANCÉ — Obrigado, meu caro senhor. Alojei em minha casa os pobres Srs.
Guilbert e ainda não os vi.
Em seguida, partiu com Francisco, enquanto Cristina se encaminhava para o quarto,
com Isabel.
15
Tristes consequências do incêndio
Mais nenhum acontecimento extraordinário tornou a perturbar a tranquilidade dos
solares vizinhos. Cristina continuou a ver o Francisco, a Gabriela e o Bernardo, quase todos
os dias, ora em casa deles ora na sua. O Francisco dedicava-se cada vez mais à pequenita e,
graças ao afeto que também a Gabriela sentia por ele, encontravam-se em muitos passeios e
também nas visitas ao solar de Cémiane. O Sr. Nancé, concordando com o desejo do filho,
oferecia frequentemente almoços e lanches aos petizes dos arredores. Paulo continuava, com
grande êxito, as suas lições aos dois alunos. A Sra. Ormes bem desejaria não pagar ao
professor, mas o marido ainda temia mais o ridículo do que o mau humor da esposa. Por isso
pagou-lhe generosamente, para fazer calar as más línguas; pois na vizinhança fazia-se muita
troça da avareza da Sra. Ormes, em tudo o que dizia respeito à filha.
A vida decorria, pois, tranquila e feliz para Francisco e Cristina e também para o Sr.
Nancé, que via o filho contente. E ainda para Isabel, que gostava muito da pequenita, por
causa da ternura que ela testemunhava ao corcundinha.
Quanto à Sra. Ormes, continuava a esquecer-se constantemente da filha para só pensar
nos vestidos e nos divertimentos. O marido inquietava-se, de vez em quando, com a filha; mas
agora estava sossegado ao ver a dedicação de Isabel e fazia então companhia à mulher.
Davam ambos inteira liberdade à criada, na forma de orientar a filha; foi assim que ela
adquiriu as ideias sãs e os sentimentos religiosos que, até aí, lhe haviam faltado, indo à
catequese com o Francisco que, nesse ano, fez a primeira comunhão, instruído pelo bom do
senhor abade e guiado por seu pai, cuja devoção constituía um alto exemplo para as crianças.
Nos primeiros tempos que se seguiram à entrada de Isabel em casa de Cristina, esta e
Francisco tiveram ensejo de mostrar o seu bondoso coração junto de Maurício e de Adolfo.
As queimaduras deste último faziam-no sofrer muito, mas aquilo nada era, comparado
com o que sofria o irmão. Além das queimaduras, o médico encontrara-lhe os quadris e as
costelas pisados e as pernas muito magoadas, o que muito piorava a situação.
Na mesma noite do incêndio, foram transportados para casa e, depois de terem sido
metidos na cama, os dois médicos chamados começaram a tratar-lhes as queimaduras e a
endireitar-lhes os membros deslocados. Paulo pedira para assistir à operação; quis dar
conselhos e proceder de uma maneira diferente, mas troçaram do que dizia e recusaram-se a
dar-lhe atenção.
Paulo retirou-se, meneando a cabeça, e, no dia seguinte, confiou ao Sr. Nancé:
— O caso afigura-se-me péssimo para Maurício, pois naturalmente ficará corcunda,
desfigurado e com as pernas tortas! Eu procederia de outro modo, e não como esses imbecis.
Maurício soltou terríveis gritos durante a operação, que se prolongou por cerca de meia
hora. Encontrava-se impossibilitado de se mover em virtude dos aparelhos que lhe tolhiam as
pernas e os ombros.
Nos primeiros dias, a sua vida correu perigo e ninguém podia irritá-lo; passado, porém,
um mês, o Sr. Nancé perguntou se Francisco não poderia vir distraí-lo e consolá-lo; os Srs.
Sibran aceitaram, contentes, a proposta e anunciaram aos filhos a visita do Francisco.
— Para que acederam? — volveu Maurício, gemendo. — Vai certamente ficar satisfeito
em me ver doente, pois eu e o Adolfo troçámos dele por ser corcunda.
SRA. SIBRAN — Meu pobre filho, aborreces-te e sofres tanto, que julgámos útil
proporcionar-te uma distração.
MAURÍCIO — Bonita distração!
ADOLFO — Agradável passatempo!
A despeito da má disposição em que se encontravam, não quiseram que a mãe
escrevesse a Francisco a dizer-lhe que não viesse.
No dia seguinte, por volta da uma hora, Francisco apareceu; ambos ficaram calados
quando ele entrou e lhes deu os bons-dias, em tom afetuoso.
FRANCISCO — Sofreram e ainda sofrem muito... não é assim?
Eles permaneceram mudos.
— Ficámos todos muito tristes — continuou o pequeno — com o desastre que lhes
aconteceu... O paizinho mandou todos os dias saber de vocês... Apenas me disseram que
estavam melhor, pedi licença para visitá-los. Principalmente tu, pobre Maurício, que não
podes fazer nenhum movimento. Estou a fatigá-los...? Digam-mE com franqueza, pois
voltarei amanhã ou depois...
Estava um pouco atrapalhado, não sabendo se devia ficar ou retirar-se. Esperou ainda
alguns minutos e, como Maurício e Adolfo se conservassem calados, levantou-se,
despedindo-se e dizendo que, em breve, viria visitá-los com o pai.
Francisco saiu um pouco triste pelo mau acolhimento que lhe fizeram aqueles rapazitos
de quem tinha tanta razão de queixa; generoso e bom, contudo, pensou:
“Não lhes devo querer mal, pois os infelizes sofrem. Virei noutra ocasião e falar-lhes-ei
em coisas que os distraiam.”
Cristina soubera que ele fora visitar os Sibran e no dia imediato foi à casa do Sr. Nancé
saber notícias.
— Continuam a sofrer muito — respondeu Francisco.
Cristina perguntou-lhe se tinham ficado contentes em vê-lo e se haviam dito como se
ateara o fogo. O pequeno volveu-lhe que não sabia, pois eles nada lhe tinham dito.
CRISTINA — De que falaram?
FRANCISCO — Eles nada disseram; fui eu só a falar.
CRISTINA — Teriam queimado também a língua?
FRANCISCO (sorrindo) — Não; mas não deram palavra.
Cristina fitou-o, atenta, e tornou:
— Fizeram-te alguma maldade e não queres dizer... mas adivinho-o pelo teu rosto
embaraçado.
— Adivinhaste, Cristina — replicou o Sr. Nancé, rindo. — Não deram palavra, nem
sequer olharam para ele... Apesar disso, Francisco quer lá voltar.
CRISTINA — És bom demais, Francisco. Não acha?
SR. NANCÉ — Nunca se é bom de mais e raramente se é bastante. Voltando a casa de
Maurício e Adolfo, Francisco pratica um duplo ato de caridade: pagou o mal com o bem e
visitou os infelizes que sofrem e ainda sofrerão muito tempo, em especial Maurício. Talvez a
segunda visita os sensibilize, e, se virem Francisco muitas vezes, pode Ser que se tornem mais
razoáveis.
CRISTINA — Tem razão... Sempre se é melhor quando se passa algum tempo com o
Francisco e consigo. Por isso sentir-me-ia feliz se nunca mais os deixasse...
— Mas tal não é possível e não penses nisso — volveu o Sr. Nancé, beijando-a.
CRISTINA — Quando for mais velha e senhora das minhas ações, virei muitas vezes a
vossa casa e nunca mais os deixarei.
SR. NANCÉ — Até lá, veremos. Há tempo para pensar. Entretanto, vai brincar com
Francisco, pois tenho de trabalhar.
CRISTINA — Em que trabalha?
SR. NANCÉ — Muito curiosa és! Estou a escrever um livro que ainda não
compreendes; trata da educação dos filhos e dos esforços que por eles se devem fazer.
CRISTINA — Não é muito difícil de compreender. Basta proceder como o senhor e
nada mais. Compreendo muito bem todos os sacrifícios que faz por Francisco. Veio instalar-
se no campo por causa dele. Recebe-me e atura-me pela mesma razão. .
SR. NANCÉ (beijando-a) — Basta, querida filha. Quando te conheci, atraí-te a minha
casa por causa de Francisco; mas ganhei-te amizade e agora, depois dele, és a pessoa a quem
mais estimo no mundo. Eu e Francisco falamos bastante de ti.
CRISTINA (agarrando-se-lhe ao pescoço) — Estou deveras contente com as suas
palavras... e aborrece-me muito tratá-lo por senhor Nancé... Preferia tratá-lo por paizinho.
SR. NANCÉ — Isso não se diz; fica-te mal.
CRISTINA — Por que me fica mal?
SR. NANCÉ — Porque seria quase uma censura ao teu pai. É como se dissesses: O Sr.
Nancé é melhor para mim do que o meu verdadeiro pai e estimo-o mais do que a ele.
CRISTINA — Mas... seria a verdade.
SR. NANCÉ — Caluda! Que ninguém te ouça dizer semelhante coisa!
Cristina permaneceu calada por instantes, com a cabeça inclinada no ombro do Sr.
Nancé, que Lhe perguntou em que pensava, ao que ela redarguiu ter ficado bastante contente
por tê-los conhecido a ambos.
SR. NANCÉ (sorrindo) — Sim, o Francisco é muito bom, mas cautela, não se
impaciente ele de estar a perder o tempo a olhar para nós, em vez de brincar.
CRISTINA — É isso que te aborrece, Francisco?
FRANCISCO — Qual história! Gosto muito de te ouvir dizer palavras amáveis ao
paizinho, e de ouvi-lo responder.
Cristina, depois de interrogar Francisco a respeito da próxima visita aos Sibran,
ofereceu-se para acompanhá-lo, mas o Sr. Nancé dissuadiu-a de tal, dizendo não ser próprio
de uma menina de nove anos visitar rapazes.
A pequena alegou que era só por não querer que Francisco se aborrecesse em casa deles,
pois ela, por si, detestava-os ou, melhor dizendo, não gostava daqueles dois irmãos.
SR. NANCÉ — Fizeste bem em te arrepender do teu detesto-os, pois era pouco
caritativo. Agora, meus filhos, vão-se embora, de contrário não posso escrever uma linha.
As crianças foram ter com Isabel e brincaram durante algum tempo; daí a pouco,
apareceu Paulo para dar lição a Francisco.
Em seguida, despediram-se até ao dia seguinte.
16
Maurício modifica-se
No dia imediato, antes da visita que Cristina lhe fazia todos os dias, por volta das três
horas, em virtude das lições que Paulo lhe dava, Francisco voltou com o pai à casa dos Sibran.
Francisco subiu, como na véspera, ao quarto de Maurício e de Adolfo, que,
surpreendidos, o viram entrar. Maurício corou, quis falar, mas não pôde proferir palavra.
Francisco deu os bons-dias aos dois, parecendo-lhe que estavam melhores, pois tinham
os olhos mais animados e estavam menos pálidos. Disse não se demorar muito para não
fatigá-los; que tinha vindo apenas para lhes participar que os Srs. Guilbert nada perderiam
com o incêndio, visto a companhia de seguros lhes pagar todos os prejuízos. Em seguida,
despediu-se deles e encaminhou-se para a porta.
— Francisco! — chamou Maurício, com voz fraca.
O pequeno correu para junto dele.
Maurício pediu perdão a Francisco, que tão bom fora para quem com ele tinha sido tão
cruel, e prosseguiu a conversa, mais animado.
— Se soubesses como Deus me tem castigado! Os aparelhos incomodam-me deveras —
confidenciou Maurício, após uns instantes.
Francisco condoeu-se de Maurício, dizendo estar bastante apoquentado pelo terrível
desastre. E, se lhes fosse agradável, viria visitá-los todos os dias.
MAURÍCIO — Pois sim, bom e generoso Francisco. Vem todos os dias e demora-te o
tempo que puderes.
Francisco despediu-se, mais uma vez, até ao dia seguinte.
Apenas ele saiu, Maurício olhou dolorosamente para o irmão, estranhando que este não
tivesse dito palavra alguma e não ficasse sensibilizado com a ação de Francisco, a quem tão
mal haviam tratado e tão malcriadamente tinham acolhido na antevéspera.
ADOLFO — Detesto este estúpido corcunda; os corcundas são sempre maus, tu mesmo
o disseste.
E ambos continuaram a discutir o assunto, enquanto Francisco, regressando a casa com
o pai, lhe contou, satisfeito, o que Maurício dissera.
Cristina ficou radiante com o êxito desta segunda visita e animou Francisco a continuar
a praticar essa boa ação, a fim de trazer Adolfo também a bom caminho.
Durante dois meses, Francisco foi todos os dias visitar os Sibran. Adolfo curou-se das
queimaduras ao cabo de um mês, permanecendo sempre surdo às solicitações do irmão e
insensível à bondade e à amabilidade de Francisco. Quanto ao desventurado Maurício, pelo
contrário, cada vez mais tocado pela generosa afeição que Francisco lhe demonstrava tornou-
se mais meigo, mais persuasivo, mais resignado de dia para dia. Passados dois meses, o
médico deu-lhe licença para se levantar. A sua fraqueza era tanta que, ao erguer-se, tornou a
cair na cama. Segunda tentativa, mais feliz, permitiu-lhe firmar-se nas pernas e virar-se para o
espelho.
Mas que terror não foi o seu ao ver as pernas tortas, um ombro subido e saliente, os
quadris dobrados e não podendo levantar-se, e o rosto, envolto em cataplasmas, com
cicatrizes e desfigurado pelas queimaduras! Adolfo também o tinha assim, mas muito menos!
. O desventurado Maurício soltou um grito de horror e voltou a cair quase inanimado em
cima da cama. A Sra. Sibran lançou-se de joelhos, com o rosto oculto nas mãos, e o marido
deixou à pressa o quarto para esconder do filho o seu desespero.
A Sra. Sibran destapou a cara inundada de lágrimas e, ao fitar Maurício, o horror e o
desgosto empolgaram-na; temendo um desmaio, em vez de animar o filho, levantou-se e
correu a juntar-se ao marido, para unir a sua dor à dele.
Maurício conservou-se em frente do espelho, continuando a ver as suas deformidades.
Entretanto, a porta entreabriu-se e Francisco surgiu e, sempre pronto a não penalizar ou
melindrar os outros, a custo reprimiu um grito de surpresa e de horror ao ver o infeliz
Maurício, que mais adivinhou do que conheceu. Maurício voltou-se, viu-o e procurou
conhecer a impressão que produzia em Francisco. Nada, porém, conseguiu descobrir, além de
uma expressão de profundo dó e sincero enternecimento.
Francisco amparou nos braços Maurício, que ia a desfalecer: fê-lo sentar, deixou-se ficar
ao pé dele e choraram ambos.
— Coragem, meu amigo — disse Francisco, após instantes. — Não desesperes de voltar
a ser o que eras. Agora, sentes-te fraco; não podes firmar-te nas pernas nem endireitar-te, mas
deixa passar alguns dias, algumas semanas o máximo, e recuperarás as forças e voltarás a ser
direito como dantes.
Após demorada conversa, em que um se lamentava do triste estado em que se
encontrava e o outro se esforçava por animá-lo, Maurício disse não ser nada agradável ver
toda a gente a rir, a segredar e a ouvir dizer às outras crianças:
— Venham ver um corcunda!
FRANCISCO (sorrindo) — Eu sei isso melhor do que ninguém; é triste e doloroso, mas
não há remédio senão a gente conformar-se com os altos desígnios de Deus.
Francisco ainda se demorou muito tempo em casa de Maurício; ao deixá-lo, o desespero
dos primeiros momentos acalmara; prometeu a Francisco ter esperança, resignar-se e
obedecer docilmente às prescrições do médico, mesmo que este lhe indicasse passeios a pé ou
de carruagem.
Adolfo não apareceu enquanto Francisco esteve no quarto de Maurício e ainda não tinha
visto o irmão a pé; apenas este ficou sozinho, entrou Adolfo, que soltou um grito ao ver a
deformidade daquele.
ADOLFO — Como estás feio, meu pobre Maurício! Que ombros! Que pernas! E a tua
cara? Na verdade, lamento-te, pois estás horrendo!
MAURÍCIO (tristemente) — Bem sei, Adolfo; vejo-o sem ser preciso que mo digas!
ADOLFO — Tanto troçavas do Francisco, e ainda estás pior do que ele! Se visses a tua
cara...
MAURÍCIO — Já a vi no espelho.
ADOLFO — E não tiveste medo de ti?
MAURÍCIO — Não... chorei... e o bondoso Francisco chorou também comigo...
ADOLFO — Isso quer dizer. que também devo chorar... Peço-te que me desculpes.
Sinto muito o que te aconteceu, mas torna-se-me impossível chorar como uma criança porque
tiveste a desgraça de ficar defeituoso.
MAURÍCIO — Como é mau o que dizes, Adolfo! Francisco consolou-me, animou-me,
e tu, que és meu irmão e devias compadecer-te de mim, não encontras outras palavras para me
dirigir.
ADOLFO — Se o Francisco chorou contigo foi por ser também corcunda! Mas eu, que
queres que eu faça?
MAURÍCIO — Peço que me deixes sozinho, pois a tua indiferença aflige-me por ti!
Adolfo fez-lhe a vontade, enquanto Maurício juntou as mãos num gesto de desespero e
lamentou, em voz alta, a insensibilidade do irmão, comparada com a benignidade de
Francisco, e perguntou de si para si donde proviria tal diferença e julgou perceber que
provinha da educação diversa que tinham recebido. Ambos educados levianamente, sem
religião, sem princípios, vivendo só para o prazer e a brincadeira; Francisco, educado
piedosamente, seriamente, embora com alegria, praticando a religião e a caridade,
esquecendo-se de si pelos outros e colocando o prazer depois do dever.
“Preciso falar muito com o Francisco” disse consigo “e, se é verdade o que eu
imaginei, hei de converter-me, mudar de modo de pensar e de viver, pois creio que serei mais
ditoso assim.”
17
Feliz extravagância da Sra. Ormes
Cristina apareceu no dia seguinte, como de costume, para saber do doente. Arrasaram-
se-lhe os olhos de lágrimas ao saber como o incêndio e a queda haviam desfigurado Maurício
e o desespero em que este estava quando Francisco chegou.
Um criado entrou, dizendo que o Sr. Nancé os mandava chamar.
As crianças correram ao escritório do Sr. Nancé.
— Que nos quer, paizinho? — inquiriu Francisco.
— Recebi um bilhete da Sra. Ormes para ir com vocês a casa dela. Não sei o que quer
de nós. Vamos já; preparem-se; seguimos a pé.
Dentro de cinco minutos, Isabel e os dois pequenos estavam prontos. O Sr. Nancé
esperava-os à porta.
— Que me quererá a Sr. Ormes? — monologava durante o caminho o Sr. Nancé. — É
tão extravagante, tão absurda, que receio alguma tolice que prejudique a pobre Cristina e, por
consequência, o meu Francisco. Ela aí vem.
De fato, a Sra. Ormes, não podendo aguardar com paciência a chegada do Sr. Nancé,
corria como uma garota de quinze anos, colhendo uma flor ou perseguindo uma borboleta.
SRA. ORMES — Venha depressa, Sr. Nancé, pois tenho a dar-lhe uma boa notícia. Meu
marido acaba de comprar um palácio em Paris, onde darei bailes, concertos... Concertos, não,
porque não gosto de música: quadros vivos!
— E foi só para nos dizer isso — indagou gravemente o Sr. Nancé — que solicitou aqui
a nossa presença?
SRA. ORMES — Nada disso. Foi para lhe propor que viesse viver conosco na nova
casa. Ocupará o rés-do-chão, que alugarei barato.
SR. NANCÉ — Não é possível, minha senhora. Por que não convida o Paulo?
SRA. ORMES — É boa ideia. Quando chegarem, mandem-me Paulo. Adeus, meu caro
Sr. Nancé. Até breve. Parto amanhã. Cristina, despede-te do teu amigo, visto que vais comigo.
CRISTINA — Não quero deixar o meu bom Francisco. Consinta que fique com ele,
mãezinha; suplico-lhe, não me leve daqui.
FRANCISCO — Deixe ficar Cristina, minha senhora. Serei tão infeliz sem a companhia
dela! Por favor, não a leve.
E ambos se abraçaram um ao outro, chorando.
SRA. ORMES — Mas que é isso? Que coisa tão estúpida! Acaba de chorar, Cristina,
pois bem sabes que não gosto de ver lágrimas.
CRISTINA — Hei de chorar enquanto estiver longe de Francisco.
SRA. ORMES — O Sr. Nancé não pode ir; Cristina não me quer acompanhar... Que hei
de eu fazer, Sr. Nancé?
— Minha senhora... — principiou o Sr. Nancé, hesitante.
SRA. ORMES — Diga, diga. Livre-me deste apuro; não posso suportar a luta...
SR. NANCÉ — Ofereço-lhe um meio de se livrar dele. Deixe-me ficar Cristina. Assim,
ficará mais livre, mais à vontade, sem aborrecimentos...
SRA. ORMES — Mas isso é grande maçada para o senhor!
SR. NANCÉ — Qual, minha senhora! Em primeiro lugar, ficarei radiante com a
felicidade destas duas crianças, e depois terei o prazer de lhe prestar um serviço, por pequeno
que seja.
SRA. ORMES — Pequeno? Mas este é enorme... Tem razão. Cristina, em minha casa,
sempre desalojada do quarto por causa dos meus saraus, dos meus jantares... não ficaria lá
muito bem. Em sua casa ficará melhor. Está o assunto arrumado. Mando-a amanhã com
Isabel. Como, porém, preciso dos meus cavalos e dos meus criados, irão na carroça do caseiro
juntamente com as malas.
SR. NANCÉ — Não incomode pessoa alguma, minha senhora. Eu virei buscar Cristina
e Isabel.
SRA. ORMES — Mas isso é favor de grande amigo, Sr. Nancé. Agradeço-lhe
infinitamente. Não se esqueça de me mandar o Paulo.
O Sr. Nancé, liberto de uma inquietação a respeito de Cristina e de Francisco, prometeu
não se esquecer. Ia a retirar-se, quando a Sra. Ormes o chamou.
— O Sr. Nancé é tão bom, que, tenho a certeza, quererá completar o seu favor levando,
hoje mesmo, a Cristina. Tenho tanto que fazer! Meu marido partiu esta manhã e eu parto com
minha irmã. Não tornarei a ver Cristina; assim é preferível entregar-la desde já.
SR. NANCÉ — Com todo o prazer, minha senhora. Quando quer que venha buscá-la?
SRA. ORMES — Pode ser já, e mande o seu carro para as malas que Isabel levar.
Adeus, minha filha, sê boa e obediente; não aflijas o Sr. Nancé. Até a volta, daqui a seis ou
sete meses.
Beijou Cristina nas duas faces, apertou a mão do Sr. Nancé e afastou-se a correr e a
saltitar, como viera.
Então Cristina e Francisco, com o coração radiante, abraçaram-se e, depois, Cristina
beijou o Sr. Nancé, a quem chamou pai e a quem disse quanto o amava.
Este, enternecido, retribuiu-lhe, dizendo ser agora o seu pai adotivo.
E tomou nos braços as duas crianças. O regresso ao solar de Nancé foi triunfal; gritos de
alegria anunciaram à Matilde a permanência de Cristina na casa. O jantar e a noite decorreram
festivos e alegres.
18
Paulo, apanhado, foge
Assim que voltou, o Sr. Nancé mandou chamar Paulo e fê-lo conduzir imediatamente a
casa da Sra. Ormes, que o aguardava, impaciente. Esta, apenas o avistou, correu para ele,
dizendo:
— Venha depressa, meu caro Paulo. Preciso de si. O Sr. Nancé nada lhe disse?
— Não, signora, informou-me só de que a senhora me esperava e dei-me pressa em vir.
SRA. ORMES — Pois bem. Sigo amanhã para Paris; entreguei Cristina ao Sr. Nancé.
Meu marido comprou uma excelente casa, onde darei bailes. Preciso de si.
PAULO — Mas eu não sei dançar. Para nada lhe posso servir e prefiro ficar com o Sr.
Nancé.
SRA. ORMES — Não se trata de dançar. Preciso de si para as minhas pantominas. Fará
de Assuero!
PAULO — Pantominas? E quem é esse Assuero?
SRA. ORMES — Pantominas são coisas encantadoras; quanto a Assuero, é um rei, e é
esse o papel que desempenhará.
PAULO — Não quero ser rei, pois não passo de um simples médico italiano.
SRA. ORMES — Que tolice! Não será rei a valer e apenas por brincadeira. Eu serei,
então, sua mulher.
PAULO (aterrado) — É impossível, signora. Não posso aceitar tal encargo, pois sou
muito novo para que a senhora seja minha mulher.
SRA. ORMES — Mas já lhe disse que é apenas como brincadeira. Preciso levá-lo
comigo.
E deu ordem a Brígida para instalar Paulo; em seguida, saltou para uma carruagem que
se afastou, enquanto Paulo, imóvel e mudo, ficou à porta. Voltando a si do assombro, bateu
com os punhos na cabeça.
“Como sou parvo! Vai levar-me... Mas eu não quero ter uma mulher tão ridícula e
horrível! Prefiro continuar a ser o pobre Paulo e ficar com o Sr. Nancé... dar lições a
Francisco e à Cristininha. Vou falar ao Sr. Nancé e que leve a breca o jantar da signora
Ormes.”
Paulo partiu a correr, não fazendo caso dos gritos de Brígida, e chegou, esbaforido, a
casa do Sr. Nancé, na ocasião em que os pequenos se deitavam, para lhe contar o sucedido.
SR. NANCÉ — Que aconteceu, meu pobre Paulo? Parece perseguido por lobos!
PAULO — Pois era preferível uma alcateia de lobos a ter de aturar as extravagâncias da
Sra. Ormes.
E referiu a cena passada.
PAULO— Quer por força casar comigo! E eu não estou disposto a isso, de modo algum,
nem desejo mal ao marido!
O Sr. Nancé ria a bom rir; tranquilizou-o e explicou-lhe o que ela queria. Paulo
estremeceu e pediu que o escondesse em qualquer parte até a partida da perseguidora. O Sr.
Nancé prometeu-lhe o asilo e proteção possíveis e perguntou-lhe se já tinha jantado.
PAULO — Em parte alguma, signor. Aquela mulher fez-me perder a cabeça e o apetite.
SR. NANCÉ — Pois jantará aqui. Vou dar ordem para que lhe sirvam o jantar e lhe
preparem alojamento.
Enquanto Paulo temia ser raptado, a Sr. Ormes ralhava com todos por o haverem
deixado fugir. E ordenou que fossem buscá-lo, a bem ou a mal, mas que não voltassem sem
ele. Encolerizada, por não ter tempo de ir buscá-lo pessoalmente, partiu fula e chegou do
mesmo modo, achando defeitos em tudo quanto o marido fizera, dando ordens contrárias às
do Sr. Ormes.
Mal chegou, declarou que oferecia uma grande festa daí a quinze dias. E logo começou
uma grande vida espalhafatosa e desordenada: visitas, compras, jantares, espetáculos, deitava-
se de madrugada, levantava-se ao meio-dia; enfim, uma vida de pessoa que não pensa senão
em se divertir. Pôs-se a organizar as pantominas, mas teve grande dificuldade em arranjar
atores e atrizes. Quando se soube que ela queria desempenhar o papel de Ester, ninguém quis
fazer de rei Assuero. No seu desespero, escreveu a Paulo:

Meu caro, meu bom Paulo:


Venho pedir-lhe que me conceda oito dias. Venha amanhã no comboio e apresente-se
em minha casa, na rua da Mulher-Sem-Cabeça n°. 18. Só o reterei durante oito dias e, como
não quero prejudicá-lo nas suas lições, dar-lhe-ei quinhentos francos no dia da sua partida.
Preciso absolutamente de si; sem o Paulo, a minha festa será um fiasco. Se recusar, nunca
mais lhe falarei e proibi-lo-ei de tornar a ver Cristina. Não responda; venha imediatamente.
Carolina Ormes

Quando Paulo recebeu a missiva, tornou a ficar desesperado.


O Sr. Nancé, depois de haver rido com a teimosia da Sra. Ormes, aconselhou Paulo a
que cedesse aos seus rogos e tomasse o comboio que o levaria a Paris em quatro horas. Paulo
suspirou, chorou mesmo, arrepelou-se e partiu, amaldiçoando a dama e as suas pantominas.
Era esperado e foi recebido com entusiasmo. Sem lhe dar tempo para descansar, a Sra. Ormes
arrastou-o para a sala onde se ensaiava; todos os atores que ali estavam acolheram Paulo com
gargalhadas, o que era justificado pelo seu aspecto assustado, estranho, e também pela sua
aparência miserável, porque, para se apresentar bem, tinha envergado a sua casaca antiquada e
manchada, calçara sapatos ferrados e o resto no mesmo jeito.
A Sra. Ormes puxou-o pela mão e apresentou-o a toda a gente:
— Aqui têm o meu Assuero. Principiemos o ensaio.
Colocaram-no em cima de um estrado; um levantou-lhe o braço, outro a perna, o
terceiro abriu-lhe a boca, outro ainda puxou-lhe pelo nariz e esguedelhou-o. Todos se
contorciam a rir, salvo Paulo que, impaciente com tais gracejos e ruídos, saltou do estrado e
barafustou colérico:
— Não quero que trocem de mim, pois não estou habituado a tais farsas. Ou me
respeitam ou tomo o primeiro comboio e vou-me embora.
Todos continuaram a rir com gosto, mas foram-se retirando ante os olhos injetados e os
furiosos gestos de Paulo.
A Sra. Ormes fez o possível para acalmá-lo, pedindo a todos que não desanimassem,
que tudo caminharia bem, visto já ter o seu Assuero.
Chegou, por fim, o dia do espetáculo. A sala estava repleta. Todos aguardavam,
impacientes, a presença de Ester e de Assuero, de quem já riam antecipadamente. Por fim o
pano subiu.
Assuero, teso como um soldado na forma, o cetro ao ombro, à maneira de espingarda,
olhava para os espectadores com ar aterrado. Ester, meio ajoelhada diante dele, de braços
estendidos, fitava-o com olhar suplicante.
— Baixe o cetro sobre a minha cabeça — dissera baixinho, no momento em que o pano
ia a subir.
Assuero baixou-se tarde demais, e tão duramente, que o cetro caiu em cheio na cabeça
da Sra. Ormes; a pancada foi tão violenta, tão imprevista, que ela não pôde deixar de levar a
mão à cabeça e de soltar um pequeno grito. Assuero, desvairado, libertou-se do cetro, da
coroa e do manto, saltou do palco e sumiu-se. Entretanto, Carolina levantou-se, circunvagou
raivosa olhar pelos espectadores, que riam a mais não poder, acercou-se da ribalta e quis falar,
mas a sua boca escancarada, o nariz ossudo, as maçãs do rosto salientes, a testa baixa, enfim,
o seu feio aspecto, fizeram estalar de novo as gargalhadas, pois nunca se tinha visto uma Ester
como aquela.
A Sra. Ormes resolveu finalmente retirar-se, prometendo vingar-se em Paulo do ridículo
em que caíra; este, porém, já ali não estava; adivinhando o desespero e a cólera dela, meteu na
carteira os quinhentos francos que o Sr. Ormes lhe dera, nessa mesma manhã, e correu para a
estação, a fim de apanhar o primeiro comboio.
Muito cedo, no dia seguinte, estava em Nancé, a contar o seu divertido gesto, que
bendizia por o haver libertado da leviana senhora. As crianças, a quem contou as belezas de
Paris consoante as vira e julgara, estavam encantadas.
Poucos dias depois recebeu uma furibunda carta da Sra. Ormes, em que o alcunhava de
malcriado, de bruto e até de ladrão, por ter aceitado e levado os quinhentos francos que o
marido caíra na patetice de lhe dar.
“Foram muito bem ganhos!” pensou Paulo. “Estou-me rindo. Vou escrever-lhe coisas
que lhe farão abrir uma boca tão grande como a de um crocodilo.”
E, sentando-se à mesa, escreveu:

Ó signora! Ó bela! Ó adorável! Como seria possível Assuero ficar aí plantado como um
boneco de pau, em face da linda Ester?! Foi sem querer, signora bella, que lhe deixei cair o
cetro em cima dos fulgurantes cabelos soltos; tudo foi obra da comoção! E, depois, a dor da
sua dor encheu, de tal forma, de dor a minha frágil pessoa, que eu, Paulo, rei Assuero, fugi e
corri como um louco para o comboio. Perdoai, signora do meu cuore, signora da minha
alma, e aceitai a submissa homenagem do vosso humilde e eterno escravo.
Paulo Peronni

E foi mostrar ao Sr. Nancé o que escrevera. Este sorriu com a leitura da carta da Sra.
Ormes e não pôde deixar de soltar uma gargalhada ao ler a de Paulo que, encantado com o
efeito que produzira, esperava que o Sr. Nancé testemunhasse em voz alta a sua admiração.
SR. NANCÉ (devolvendo-lhe as cartas) — Meu caro Paulo, a sua carta, é, no seu
género, tão ridícula como a da Sra. Ormes. Ela insulta-o como um carroceiro e você responde-
lhe com mordaz ironia.
PAULO — Não sou tão parvo como supõem. Essa senhora acredita no que lhe escrevo e
há de perdoar e consentir que eu venha dar lições à Cristininha. É este o motivo da minha
disparatada carta.
SR. NANCÉ — Veremos se acerta e oxalá que assim aconteça.
Dois dias passados, Paulo entrou, radiante, em casa do Sr. Nancé e apresentou-lhe uma
carta, dizendo. .
— Leia e diga-me depois se Paulo é parvo.
O Sr. Nancé tomou a carta em que a Sra. Ormes deixava perceber estar sensibilizada e
arrependida das injúrias que lhe dirigira, declarando que o aceitava como escravo.
— Doida! — exclamou o Sr. Nancé, encolhendo os ombros. — Estou bastante satisfeito
por haver tirado a minha querida Cristina daquela casa de loucuras e dissipação.
19
A bondade de Cristina e as exigências de Maurício
O inverno passava-se de uma forma suave e agradável no solar de Nancé. Francisco e
Cristina acompanhavam o Sr. Nancé nos seus passeios, no intervalo das lições. Francisco, de
vez em quando, sacrificava um passeio com o pai, a fim de visitar o pobre Maurício. Este
ficava sempre contente com estas visitas, que lhe iam transformando por completo o caráter,
tornando-o meigo, humilde e razoável. Adolfo, ao reconhecer essa mudança para melhor, dia-
a-dia se afastava do irmão, detestando cada vez mais Francisco.
Maurício saía havia já algum tempo, mas de forma que ninguém o visse. Certo dia
perguntou a Francisco se o Sr. Nancé Lhe permitiria uma visita. Francisco afiançou-lhe que o
pai ficaria contente em tornar a vê-lo, assim como Cristina.
Maurício ficou admirado ao saber que a Sra. Ormes partira, confiando Cristina aos
cuidados do Sr. Nancé. O pequeno doente objetou que Francisco devia estar satisfeito por ter
perto essa bondosa pequena.
FRANCISCO — Se não te disse há mais tempo, foi por supor que embirravas com ela.
MAURÍCIO — Tanto embirrava com ela como contigo, quando era mau, mas agora me
lembro da maneira como te defendia, como era tua amiga, e por isso também gosto muito
dela. Quando poderei ir a tua casa?
FRANCISCO — Queres lá ir amanhã? Prevenirei o paizinho.
MAURÍCIO — Pois sim. Até amanhã, às duas horas.
Despediram-se e Francisco anunciou ao pai a visita do rapazito.
No dia seguinte, quando Maurício apareceu, confuso e envergonhado com o seu triste
aspecto, Francisco e Cristina correram felizes ao seu encontro. Cristina ficou aterrada à
primeira impressão, mas vencendo a sua relutância por um sentimento bondoso, abeirou-se de
Maurício e beijou-o carinhosamente dizendo:
— Pobre Maurício! Tenho sabido, por intermédio do Francisco, quanto tens sofrido!
MAURÍCIO — Ele tudo me perdoou como espero que tu me perdoes. Deus castigou-me
bem pelas minhas maldosas troças com respeito a Francisco. Ria da tua amizade por ele, da
tua generosa defesa contra os meus ignóbeis ataques. Compreendo agora a ventura de ser
estimado e defendido por um amigo.
CRISTINA — Sou uma pobre rapariga que tudo deve a Francisco e ao Sr. Nancé. Se
não fossem eles, ainda seria ignorante, tola e má.
MAURÍCIO — Ignorante, talvez, mas tola e má, nunca!
— Bom dia, meu caro Maurício — saudou o Sr. Nancé, entrando. — Vejo que já está
muito melhor e a sua coragem mantém-se. Tenho sabido, por Francisco, que tem tido
paciência e resignação. Venha visitar-nos sempre que queira, pois dar-nos-á muito prazer.
Aqui somos todos felizes. Cristina é alegre como um passarinho, meiga como uma pomba e
tagarela como uma pega; claro, como uma pega bem-educada.
Cristina sorriu e beijou a mão do Sr. Nancé. Maurício quis tomar-lhe o braço, pois
andava a custo com as pernas tortas; o primeiro movimento de Cristina foi o de esquivar-se,
mas notando o olhar penalizado de Francisco, aproximou-se de Maurício e deu-lhe o braço.
MAURÍCIO — Gostas mais de correr e andar em liberdade, não é assim, Cristina?
CRISTINA — Não, não. Vou ajudar-te a andar, pois o farei com prazer. Segura-te bem,
Maurício, e não tenhas medo. Posso amparar-te.
MAURÍCIO — Serás tão minha amiga, como és de Francisco?
CRISTINA — Serei tua amiga e ajudar-te-ei conforme puder, mas como de Francisco
nunca. Não posso estimar ninguém como estimo o Francisco e o Sr. Nancé.
Francisco estava radiante com aquela declaração, tão franca, de Cristina; Maurício
entristeceu, e, daí a pouco, queixou-se de cansaço, e voltaram para casa. Passada meia hora de
conversa, levantou-se, despediu-se de todos e saiu. Cristina correu para ele e ofereceu-lhe o
braço, que aceitou, sorrindo melancolicamente. Ao deixá-la, disse:
— Sou muito infeliz, Cristina, e não tenho um amigo.
CRISTINA — Tens o Francisco e esse vale bem todos os amigos. Adeus, Maurício, até
breve.
Cristina voltou para a sala onde, sentado num cadeirão, estava o Sr. Nancé, de quem se
aproximou, cingindo-o com um braço e dizendo:
— Meu pai.
— Isso indica confidência ou confissão — volveu o Sr. Nancé, beijando-a e pondo de
parte o livro.
A pequenita confessou então detestar Mauricio, cuja presença lhe repugnava, e que tinha
sido falsa quando lhe oferecera o braço e dissera ter prazer em tornar a vê-lo, ao passo que
desejava precisamente o contrário.
O Sr. Nancé retorquiu-lhe que não fora falsa, mas bondosa, pois compreendera, em
parte, a aversão e por isso soubera vencê-la. O que não percebia era o motivo por que o
detestava.
Cristina animou-se e explicou que tinha sentido aquilo depois de ele lhe haver pedido
que fosse tão amiga dele como o era de Francisco.
— Querida filha, tens razão em gostar mais de nós do que dos outros, pois que te
amamos como se fosses da família, mas é bom não troçares dos que te pedem para os
estimares, e em especial desse doente, sem afeição alguma no mundo, visto terem-me dito
que, desde que se deformou, o próprio irmão se envergonha dele, não o acompanhando a lado
algum. Como vês, pequena, é uma verdadeira caridade ser boa para com Maurício. Eu ficaria
bastante desgostoso se detestasses alguém.
CRISTINA — Nesse caso, nunca detestarei seja quem for, nem sequer Maurício.
SR. NANCÉ — Está bem, minha filha. Agradeço-te a promessa e confio nela.
Francisco entrou na ocasião em que um último beijo de Cristina fechava a conversa.
FRANCISCO — Tenho dó do pobre Maurício. Foi-se embora tão triste, como nunca o
vi.
CRISTINA — Que tem ele? Que quer?
FRANCISCO — Que tem? Não viste como está corcunda, desfigurado?
CRISTINA — Vi, sim. Está horrendo!
FRANCISCO — Pois é isso que o entristece. Notou que te aproximavas dele, com
relutância.
CRISTINA — É verdade, mas a culpa é só dele!
FRANCISCO — Culpa dele? Bem sabes que foi por ocasião do incêndio que tão
terrivelmente se desfigurou.
Cristina referiu então o que já contara ao Sr. Nancé: o ter-lhe Maurício pedido que fosse
tão amiga dele como era de Francisco. Procurava assim não ter coração, não compreender a
gratidão e a ternura que ela devia ter por Francisco e pelo pai. Ela, que ficaria desolada se os
próprios pais voltassem, privando-a assim de tão boa companhia.
Cristina desfez-se em lágrimas; Francisco animou-a o melhor que pôde, e bem assim o
Sr. Nancé, que lhe chamou tonta, pois nem os pais estavam para chegar, nem era obrigada a
gostar de Maurício como gostava de Francisco, devendo ser apenas compassiva e caritativa.
Cristina enxugou os olhos, confessou que andara mal e prometeu emendar-se.
— Apenas te peço, Francisco, que não me deixes muitas vezes para ir visitar Maurício e
que não gostes tanto dele como de mim.
— Sossega, Cristina; serás sempre aquela de quem gosto acima de tudo, excetuando o
paizinho.
20
Surpresa desagradável
Chegaram os lindos dias da primavera, tornando o campo ainda mais agradável aos
moradores do solar de Nancé. Paulo tornara-se imprescindível.
O Sr. Nancé pediu-lhe que viesse morar com ele, pois a educação de Cristina e de
Francisco exigiam muito tempo e vigilância. Os pais de Cristina pareciam tê-la esquecido. O
Sr. Ormes só de vez em quando escrevia à filha. A mulher nem uma única ocasião tivera para
se informar das suas necessidades. Cristina, sem aprofundar muito, experimentava um vago
sentimento de desgosto pelo abandono dos pais e sentia justificadas a sua ternura e gratidão
para com o Sr. Nancé.
Sentia-se também muito reconhecida com Paulo, pelo cuidado que este punha na sua
educação, o qual, pelo seu lado, se admirava da facilidade com que Cristina aprendia. Acabara
de completar os dez anos e estava tão adiantada como qualquer outra criança da mesma idade,
apesar de só ter começado a estudar aos oito.
Isabel também lhe consagrava uma afeição respeitosa e submissa. Não se cansava de
agradecer a Francisco havê-la resolvido a encarregar-se de Cristina, e dizia:
— Que feliz situação me criaste, entre ti e Cristina, em casa de teu excelente pai! Nada
falta à minha felicidade. Oxalá isto dure muito tempo!
Durou até o verão. Num dia de julho, quando Francisco e Cristina — auxiliados pelo Sr.
Nancé e por Paulo — construíam um caramanchão de folhagem perto do qual colocavam
belas plantas trepadeiras, uma pessoa apareceu entre eles. Era a Sra. Ormes.
A surpresa imobilizou-os, pois nada lhes fizera pressentir tal visita.
— Então, não dizem nada, Sr. Nancé e o meu querido escravo Paulo? Também te calas,
Cristina?
O Sr. Nancé cumprimentou friamente e não deu palavra. Paulo saudou desajeitadamente
e corou como uma papoila. Cristina foi beijar a mãe, mas esta deteve essa demonstração
perigosa para o seu vestido de rendas; tomou-lhe as mãos, beijou-a na testa e fitando-a,
surpreendida, exclamou:
— Como estás crescida! Até sinto vergonha de ter uma filha tão alta. Pareces ter dez
anos.
CRISTINA — E fi-los há oito dias, mamã.
SRA. ORMES — Que tolice! Agora dez anos! Tens apenas oito.
CRISTINA — Estou certa de que tenho dez.
SRA. ORMES — Queres saber melhor a tua idade do que eu? Digo-te que tens oito e
proíbo-te que me contraries. Visto ter vinte e três, tu não podes ter mais de oito.
Ninguém respondeu; mentia e tornava-se dez anos mais nova, porque casara aos vinte e
dois e Cristina nascera um ano depois.
— Agradeço-lhe, Sr. Nancé, ter-se encarregado de minha filha; decerto devia tê-lo
aborrecido muito.
SR. NANCÉ — Pelo contrário, minha senhora. Fez-nos passar um inverno e uma
primavera muito agradáveis.
SRA. ORMES — Sendo assim, quer ainda encarregar-se dela até ao regresso de meu
marido? Espero muitas visitas e não posso preocupar-me com ela. Restituir-ma-á quando
estas se forem embora.
SR. NANCÉ — Tê-la-ei comigo o tempo que queira. Eu e meu filho sentimo-nos muito
felizes em conservá-la junto de nós.
SRA. ORMES — Seu filho? Ah, sim! É aquele bonito pequeno que está ali. Não cresce
com rapidez e assim, com o seu tamanho, não o envelhece a si. Adeus, meu caro senhor.
Paulo, venha comigo. Preciso de si. Adeus, Cristina.
A Sra. Ormes deu alguns passos e depois voltou atrás, dizendo:
— É verdade, Cristina: escusas de ir lá a casa. Eu virei visitar-te. Onde se meteu o
Paulo? Naturalmente, com a pressa de me falar, seguiu adiante.
E Carolina Ormes estugou o passo para encontrar Paulo, a quem queria encarregar de
várias incumbências.
O Sr. Nancé precisou de alguns minutos para se refazer do assombro que lhe causava
essa senhora que, após tão longa separação, falava à filha sem ternura alguma, o que era mais
revoltante do que a antiga indiferença.
Francisco e Cristina ainda não haviam voltado a si do receio de serem separados e da
satisfação de continuarem juntos durante mais tempo.
CRISTINA — Vou ver se como bem para crescer mais ainda e para ficar contigo.
O Sr. Nancé riu com gosto pela resolução de Cristina. Todos se entregavam a ruidosa
alegria, quando Paulo surgiu, ainda com ar assustado e a olhar para todos os lados, a ver se, de
fato, a cabeça da Medusa tinha desaparecido. Encontrando-se em família, consoante dizia,
bateu as mãos, de satisfeito, pôs-se a dançar e a rir às gargalhadas, com grande admiração dos
amigos.
— Escondi-me atrás de uma grande árvore. Ai! Parece que lhe ouço a voz!
E Paulo correu de novo para a árvore, mas era rebate falso, pois ninguém apareceu.
21
Visitas dos pais de Cristina
Os moradores do solar de Nancé só se aperceberam do regresso dos Srs. Ormes pelas
raras visitas que os pais de Cristina lhes faziam. O Sr. Ormes confirmou a proibição que a
mulher fizera à filha de lá ir a casa, justificando-a pela pouca atenção que a mãe lhe poderia
prestar, devido às visitas que sempre tinha, e acabou por dizer que não ficasse melindrada
com aquele modo de proceder.
CRISTINA — Pelo contrário, paizinho. Estou tão contente na companhia do bondoso
Sr. Nancé e do meu Francisco, que não sinto essa falta. E gosto tanto do Sr. Nancé que, por
minha vontade, o trataria de paizinho ou meu pai, mas ele não quer, pois imagina que te
desgostaria.
SR. ORMES — Nada disso! Trata-o como quiseres. E repito: não vás lá a casa. É
verdade: soubeste que teus tios Cémiane foram para a Itália durante alguns anos?
CRISTINA — Não, paizinho; julgava que viessem passar o verão a Cémiane.
SR. ORMES — Foram à Suíça e depois a Itália, por causa de tua tia, que sofre dos
pulmões. Adeus, Cristina; dá lembranças ao Sr. Nancé.
Apenas o Sr. Ormes saiu, Cristina correu ao escritório do Sr. Nancé, onde entrou como
um pé de vento, bradando:
— Paizinho! Meu pai! Já o posso tratar como queria, pois meu próprio pai consentiu.
— Fizeste mal, Cristina, em lhe pedir semelhante coisa — volveu o Sr. Nancé,
abanando a cabeça — visto haver-te dito que não te ficava bem.
CRISTINA (afetuosa) — Por que? Não fez por mim o que faria se eu fosse sua filha?
Por que me obriga a tratá-lo como um estranho? Meu pai, meu querido pai, consinta que eu
lhe dê este tratamento.
Proferindo tais palavras, Cristina ajoelhou-se aos pés do pai adotivo, beijou-lhe a mão e
fitou-o com os grandes olhos meigos e suplicantes, que o Sr. Nancé não pôde resistir;
levantou a pequena, cingiu-a nos braços, beijou-a repetidas vezes e disse-lhe em tom
comovido que o tratasse como quisesse, dando-lhe a entender que, se era pai para ela, Cristina
era para ele estremecida filha.
Cristina agradeceu ao Sr. Nancé e foi contar a Francisco o que se passara. Em seguida,
encaminhou-se para os seus aposentos, onde Paulo a esperava para lhe dar lição.
O verão passou-se assim bastante calmo para Francisco e Cristina.
O Sr. Nancé recusou sempre os convites dos pais da pequena.
Certa vez, a Sra. Ormes disse-lhe que fazia mal em não aceitar os seus convites, pois
nunca tinha assistido a uma das suas festas, que eram sempre muito bonitas.
O Sr. Nancé confessou-se contrariado com o fato de recusar, mas os deveres da
paternidade não se coadunavam com os prazeres da sociedade: preferia passar uma noite com
os seus filhos a assistir às mais brilhantes festas.
SRA. ORMES — Seus filhos? Eu julgava que só tivesse um!
SR. NANCÉ — E Cristina não conta? Não me permitiu que olhasse por ela como filha?
SRA. ORMES — Tem razão... Conserve-a consigo o maior tempo possível. E onde
está? Vim para visitá-la.
O Sr. Nancé tocou a campainha e deu ordem ao criado para ir buscar a pequenita, que
estava a dar lição de piano com Paulo.
SRA. ORMES — Que é feito de Paulo, a quem não vejo há tempos? Preciso dele para
uma decoração de teatro; vamos representar A Princesa Encantada e sou eu a protagonista.
Todos foram unânimes em dizer que devia ir muito bem, tanto mais que os meus braços são
bonitos... Como os acha?
SR. NANCÉ (friamente) — Provavelmente bonitos... mas eu não sou entendedor.
— O pai mandou-me chamar...? — inquiriu Cristina, que chegara, a correr, e julgando-o
só. — Ah!
Cristina acabava de avistar a mãe, a quem as últimas palavras do Sr. Nancé haviam
melindrado.
SRA. ORMES — A quem te dirigias, Cristina?
CRISTINA — Perdão, mãezinha... avisaram-me de que o Sr. Nancé me mandou chamar
e eu imaginei que estivesse sozinho.
SRA. ORMES — E por que o tratas por teu pai?
CRISTINA — O paizinho deu-me licença para tratar o Sr... Nancé por meu pai, porque
é bom para mim.
SRA. ORMES — Ah! Ah! Mais um disparate do senhor meu marido!
O Sr. Nancé percebendo que as coisas se complicavam para a pobre Cristina, julgou
dever intervir. Explicou então que tudo isso fora apenas excessivo reconhecimento pelo pouco
que fazia pela pequena, a qual imaginava, com esse tratamento, exprimir a sua gratidão.
Quanto a ele, nunca esqueceria que Cristina era filha dela, e cuidando da filha, isso lhe servia
para ter sempre presente a recordação da mãe.
A Sra. Ormes, lisonjeada, apertou a mão do Sr. Nancé e beijou Cristina na testa,
dizendo-lhe que tinha razão e que o estimasse muito.
E saiu, prometendo voltar e tranquilizando-o a respeito de Cristina, que não mandaria
buscar.
— Conserve-a consigo como lembrança minha. Adeus, até breve, meu amigo.
O Sr. Nancé cumprimentou-a profundamente e acompanhou-a até a carruagem. Tinha
ela subido e o Sr. Nancé julgava-se já livre, quando a viu novamente apear-se, dirigir-se até a
porta e pedir a Cristina que fosse chamar Paulo.
Cristina obedeceu e daí a pouco apareceu esbaforida, dizendo não haver encontrado
Paulo que, decerto, partira sem saber que a mãe se encontrava ali.
— É aborrecido! Naturalmente não disseram que eu estava. Esse bom Paulo fica sempre
tão contente quando me vê. Mande-o amanhã, Sr. Nancé. Até depois.
Subiu para a carruagem e partiu mandando beijos com os seus dedos grossos, que
supunha afilados.
— Que pena Paulo ter ido embora — lamentou Cristina — tanto mais que não tinha
acabado a lição de piano, nem começado a de história!
SR. NANCÉ — Não te apoquentes, minha filha. É natural que volte mais tarde.
Entretanto, vem comigo e eu te darei essa lição.
CRISTINA — Agradeço-lhe, meu pai, pois gosto muito que me dê lição... Mas, diga-
me: é verdade que cuida de mim por causa de minha mãe e que só me estima em lembrança
dela?
SR. NANCÉ — Tontinha! Cuido de ti por te estimar muito. Se o disse a tua mãe foi
para lhe tirar a má disposição e com receio de que a tua grande ternura por nós lhe sugerisse a
ideia de te fazer voltar para casa, e tu bem sabes o desgosto que com isso sentiríamos, eu,
Francisco e tu mesma.
CRISTINA — Eu morreria de pesar.
— Psiu! Psiu! Ela já se foi embora? — inquiriu uma voz que parecia vir do céu.
O Sr. Nancé e Cristina levantaram a cabeça e viram aparecer a uma janela da água-
furtada a cabeça de Paulo, inquieto e assustado.
— Que está a fazer aí? Julguei que tivesse saído.
— Um momento apenas e já desço — respondeu Paulo que, passados dois minutos,
apareceu aparentemente satisfeito, embora ainda assustado. Explicou haver fugido com receio
de que a signora o perseguisse.
— De nada lhe valeu isso — volveu o Sr. Nancé — pois estou encarregado de mandá-lo
amanhã a casa da Sra. Ormes.
Paulo fez uma careta que deu vontade de rir ao Sr. Nancé, mas este fez-lhe sinal para se
calar, por causa de Cristina.
— Agora, meu amigo, vá continuar as lições com Cristina. Acabe com o seu degredo.
PAULO — Abençoado degredo... dar lições a esta encantadora, meiga, obediente e
inteligente signorina.
SR. NANCÉ (rindo) — Basta, meu caro. Vai envaidecê-la!
CRISTINA — Envaidecer-me de quê? Eu apenas sigo os seus conselhos e os de Paulo.
— É um amor de criança! — bradou Paulo, correndo para Cristina, a quem, no auge da
admiração, levantou no ar e depôs no chão, sem lhe dar tempo a dar um grito de medo.
— Assustou-me, Paulo — disse-lhe a pequenita em tom de censura.
— Perdão, signorina — desculpou-se Paulo, confuso. — Foi a alegria, a admiração...
E voltou para casa, um tanto envergonhado, precedido pelo Sr. Nancé e por Cristina.
22
Maurício no solar Nancé
Francisco continuava a visitar de quando em quando Maurício, cujo estado físico e
saúde não tendiam a melhorar. Enfraquecia em vez de criar forças. A sua deformidade e a
indiferença do irmão causavam-lhe invencível tristeza.
Ia muitas vezes à casa do Sr. Nancé, onde era sempre recebido com amizade; Cristina
era bondosa e amável para ele; testemunhava-lhe compaixão, mas não a amizade que ele
desejaria inspirar-lhe e que sentia por ela. Muitas vezes lhe deu a entender que tinha tanto
direito a essa afeição como Francisco, visto ser doente e desventurado como ele.
— Francisco não é desventurado — respondeu Cristina. — Tem tido coragem...
resignação... De resto...
MAURÍCIO — De resto, quê, Cristina? Diz.
CRISTINA — Prefiro calar-me. Simplesmente, ninguém poderá fazer por mim o que
Francisco e o Sr. Nancé fizeram, como já disse, assim como também já declarei que faria o
que pudesse para te demonstrar a compaixão e o interesse que me inspiras.
Maurício martelava na mesma tecla e Cristina respondia-lhe a mesma coisa e, quando se
encontrava a sós com o Sr. Nancé, queixava-se das impertinências de Maurício.
CRISTINA — Cada vez que ele me diz daquelas coisas, fico a estimá-lo menos; acho-o
ridículo. Pede-me mais do que deve, e como não sei que responder-lhe, não gosto que venha
cá. Que hei de fazer, querido pai? Creio bem que não posso deixar de detestá-lo.
SR. NANCÉ — Não, Cristina; importunou-te, mas tu não o detestarás ao lembrares-te
de que é amigo de Francisco.
CRISTINA — Amigo...! Francisco aceita-o por caridade.
SR. NANCÉ — Tu farás o mesmo. Pede a Deus que te faça boa e caritativa e decerto
não o esquecerá, pois para o ano fazes a tua primeira comunhão.
CRISTINA — depois pensarei em si e em Francisco para imitá-lo. Vai ver como serei
bondosa para Maurício, quando ele cá voltar.
As boas resoluções de Cristina frutificaram.
Maurício julgou notar que Cristina o estimava como ele queria e tornou-se mais alegre e
mais amável durante as visitas.
Um dia em que Francisco voltou da casa de Maurício, contou que achara o seu pobre
protegido muito triste, porque os pais deste lhe haviam anunciado que tinham de ir visitar o
avô a Paris, onde permaneceriam dois meses, e Adolfo iria para o colégio logo que
chegassem.
Então Maurício havia-lhes suplicado que o deixassem ficar, para não o exporem à
vergonha e humilhação que sofreria em Paris.
A mãe respondeu-lhe que faria o sacrifício de deixá-lo, dado o seu estado de saúde, se
tivesse na vizinhança um parente ou um amigo íntimo onde ele pudesse ficar.
Infelizmente não conhecia ninguém e esta viagem ser-lhe-ia fatal. Sentia-se por isso
muito infeliz.
Francisco como não encontrasse palavras para consolar o pobre Maurício, chorou como
ele e aconselhou-o a recorrer a Deus e a Nossa Senhora. Prometeu escrever-lhe muitas vezes;
tentou tranquilizá-lo sobre a sua saúde, sobre os terrores que a sua permanência em Paris lhe
causaria, e deixou-o um pouco menos abatido, mas ainda bastante infeliz e muito triste.
Francisco referiu ao pai e a Cristina o novo e grande desgosto do pobre Maurício.
— Pobre Maurício! — lamentou Cristina. — Que poderemos fazer para consolá-lo na
sua dor?
SR. NANCÉ — Infelizmente os seus desgostos são de outra natureza, e nada se lhes
pode fazer. Podemos, contudo, suavizá-lo, redobrando de cuidados e de afeições até a sua
partida. Francisco irá lá amanhã e nós acompanhá-lo-emos.
CRISTINA — Pois me parece haver encontrado excelente meio de torná-lo não só
menos triste, mas feliz.
SR. NANCÉ — Encontraste um meio? Di-lo depressa.
CRISTINA — Mas talvez... não fique contente.
SR. NANCÉ — A tua ideia é má?
CRISTINA — Pelo contrário, é ótima. Adivinhe... pois não é difícil.
SR. NANCÉ — Como adivinhar, se nada dizes para me ajudares...
CRISTINA — E tu... também não adivinhas, Francisco?
O pequeno fitou-a, atento, e exclamou:
— Creio que sim... — e segredou algumas palavras a Cristina, que respondeu:
— Adivinhaste... É isso mesmo. O pai não calcula o que seja?
SR. NANCÉ — Afigura-se-me que sim... Queres que Lhe proponha...
CRISTINA — Exatamente... Quer?
SR. NANCÉ (sorrindo) — Não me deixaste concluir. Não sabes o que ia dizer!
CRISTINA — Sei, sei. E torno a perguntar-lhe: Quer?
SR. NANCÉ (malicioso) — Pois claro, porque tu tão vivamente o desejas. Mas não por
muito tempo. Oito dias, o máximo.
CRISTINA— Será o bastante para consolá-lo. Mas eu preferia um mês e não oito dias.
SR. NANCÉ (com malicia) — Veremos se eu e Francisco poderemos habituar-nos.
CRISTINA — Hão de habituar-se muito bem. Francisco vai lá amanhã.
SR. NANCÉ (sorrindo) — Não me parece mal que vás tu pessoalmente com Isabel.
Verás ao mesmo tempo o quarto que te dará a Sra. Sibran para ti e para Isabel.
CRISTINA (assustada) — Que quarto? Para que é preciso um quarto?
SR. NANCÉ — Para ficares em casa da Sra. Sibran durante oito dias, até a sua partida,
como desejas.
CRISTINA— Eu, ficar ali? Deixá-los? Ir para casa de Maurício? Tu é que adivinhaste,
Francisco, pois gostas muito de mim.
E Cristina, desesperada e banhada em lágrimas, atirou-se ao pescoço de Francisco que,
triste, olhava para o pai.
SR. NANCÉ (tomando-a nos braços e beijando-a) — Cristina, minha filha! Não chores!
Não te apoquentes! Foi brincadeira. Adivinhei muito bem que me pedias que consentisse na
vinda de Maurício para a nossa casa. Não me deixaste acabar e aproveitei o ensejo para te
castigar da precipitação em compreender os pensamentos incompletos. Estou desolado pelo
desgosto que me demonstraste e fica certa de que, estimando-te como te estimo, não será de
vontade que me separarei de ti.
Cristina, consolada, beijou com ternura esse pai adotivo e esse irmão tão querido e
renovou a proposta de trazer Maurício para Nancé.
SR. NANCÉ — Tudo o que quiserem, meus filhos. Associo-me à vossa caritativa ideia,
embora isso me seja tão desagradável como a Cristina.
Quando Francisco voltou no dia seguinte à casa de Maurício e lhe participou o convite
do pai, o semblante de Maurício exprimiu tal alegria, tal gratidão, que o pequeno ficou
sensibilizado. Agradeceu a Francisco em termos afetuosos e disse que a mãe partiria na
manhã seguinte.
FRANCISCO — Vais para Nancé à tarde?
MAURÍCIO — Hei de falar à mãe, que ficará decerto contente, e irei o mais cedo que
puder. E Cristina não ficará aborrecida com a minha longa permanência junto de vocês?
FRANCISCO — Tal não acontecerá, pois foi mesmo Cristina quem se lembrou e falou
nisso ao paizinho.
MAURÍCIO — Sério? Ah! Como Cristina é boa e que excelente amiga tenho nela!
Francisco exprimiu um pequeno gesto de descontentamento pelo roubo que Maurício
queria fazer-lhe da amizade de Cristina. Refletiu, porém, que Cristina fora apenas compassiva
para Maurício e que aquilo não passava de uma ação caridosa a fim de que ele não piorasse.
— Até amanhã — despediu-se Francisco.
— Até amanhã, querido amigo — tornou alegremente Maurício. — E vais-te embora
sem me apertares a mão?
FRANCISCO — Tens razão. Não me lembrava. Vai cedo.
Francisco regressou há Nancé um pouco apreensivo; encontrou a meio do caminho
Cristina e o pai, que iam ao seu encontro.
O Sr. Nancé perguntou por Maurício, enquanto Cristina inquiriu:
— Que tens? Estás triste?
— Sim, estou zangado comigo mesmo.
E contou ao pai e a Cristina o que o doente lhe dissera.
— E então... — continuou.
CRISTINA (com vivacidade) — E então, zangaste-te com ele e tiveste vontade de lhe
dizer que eu não era sua amiga e que só tu serias o meu único amigo... Não é isso?
FRANCISCO (surpreendido) — Foi... Mas como adivinhaste?
CRISTINA — Porque se deu o mesmo comigo, quando me pediu que fosse amiga dele,
como o sou de ti.
FRANCISCO — Receio que tenha procedido mal, mas a verdade é que não o estimo.
Embora tenha pena dele e o lamente, não me dá prazer visitá-lo.
SR. NANCÉ — E, no entanto, vais lá muitas vezes.
FRANCISCO — É para me castigar deste mau sentimento, que faço mais por ele do que
faria se o estimasse.
SR. NANCÉ — Não podes fazer mais nem melhor, meu filho, porque procedes por
caridade. Sossega... e quando ele aqui estiver, continua a deixá-lo na ilusão de que só és seu
amigo. Deus recompensará esse grande ato caritativo e a tua alma engrandecerá.
CRISTINA — E tem razão, pai, em chamar-lhe grande ato de caridade, porque é difícil
conviver com pessoas que não se estimam como se as estimássemos.
A chegada de Paulo cortou a conversa, que Francisco reatou com o pai antes de se
deitar. E dessa conversa resultou para Francisco absoluta tranquilidade de coração,
redobramento de ternura por Cristina e de compaixão por Maurício, que ele resolveu tratar
ainda com mais amizade do que anteriormente.
23
Morte de Maurício
No dia seguinte, chegou Maurício, pálido, de olhos vermelhos e inchados, o peito
oprimido, pois a partida dos pais causara-lhe profunda dor, embora a mãe prometesse voltar,
logo que o avô melhorasse. Quando viu Francisco e Cristina correrem ao seu encontro, sorriu,
ao passo que um lampejo de alegria lhe iluminava o rosto. Na pressa de se lhes juntar,
tropeçou e caiu ao comprido, no chão; logo um fio de sangue lhe saiu da boca: rompera-se-lhe
uma veia no peito. Francisco e Cristina correram para levantá-lo e, a despeito do seu terror,
não o testemunharam de forma alguma, para não apavorarem Maurício.
— Vai chamar o pai — disse Francisco, em voz baixa, a Cristina, que partiu como uma
seta.
CRISTINA — Pai, venha depressa. Maurício deita sangue pela boca e o Francisco ficou
a ampará-lo.
O Sr. Nancé levantou-se, perguntou onde estavam e disse à pequena que fosse chamar
Isabel. Esta obrigou Maurício a meter-se na cama, a despeito da sua resistência. Como ele
demonstrou grande pena em separar-se dos seus amiguinhos, o Sr. Nancé ficou de lhos levar,
contanto que Maurício falasse o menos possível, o que este prometeu com alegria.
O Sr. Nancé cumpriu a promessa.
Maurício disse-lhes que se encontrava bastante doente e se sentia tão infeliz, que já
pedira a Deus que o chamasse a si.
Mas Francisco e Cristina animaram-no o mais que puderam. Entretanto, o Sr. Nancé,
notando que falavam de mais, disse-lhe que ia mandar embora os pequenos.
Maurício pediu perdão e redarguiu que não daria mais palavra.
Francisco e Cristina sentaram-se-lhe à cabeceira e tentavam distraí-lo, falando com o Sr.
Nancé, sobre os seus projetos do inverno e do próximo verão, incluindo Maurício nesses
projetos, julgando causar-lhe prazer. O pobre rapaz sorriu tristemente e uma lágrima, que
tentava reter, correu-lhe pelas faces.
FRANCISCO — Por que choras? Sofres? Que tens?
MAURÍCIO — Sofro apenas de grande fraqueza, e se choro é porque os terei deixado
quando a primavera chegar.
SR. NANCÉ — Se a tua felicidade e saúde dependem da tua permanência aqui, não
serei tão cruel, que te mande embora.
MAURÍCIO — Não é isso o que quero dizer... Creio que pouco tempo viverei.
FRANCISCO — Maurício, não penses em coisas tristes.
MAURÍCIO — O pouco afeto de meu irmão, a partida de meus pais, que eu imaginava
não me deixarem neste estado, o receio de morrer longe deles, sem os tornar a ver, sem a sua
bênção, sem os seus beijos, tudo isso me mata. Senhor Nancé, tenha pena de mim! Queria
fazer a minha primeira comunhão como o Francisco, e não sei como fazê-la. Nem sei mesmo
rezar! Nada sei do bom Deus nem de religião! Compadeça-se de mim. Diga-me: que devo
fazer?
SR. NANCÉ (comovido) — Meu filho, precisamos nos resignar com a vontade de Deus;
viver se ele quiser, e não nos preocuparmos com o receio de morrer. Agora, sossega até
chegar o médico que mandei chamar. Isabel ou Matilde ficarão ao pé de ti, e entrega-te nas
mãos de Deus. Quanto à primeira comunhão, falaremos amanhã.
Apertou-Lhe a mão e Maurício agradeceu, dizendo sentir-se já mais confortado.
Ao sair, o Sr. Nancé levou consigo Francisco e Cristina, que choravam e mandaram a
Maurício um beijo de despedida, a que ele correspondeu com um sorriso.
— Está, de fato, muito doente, paizinho. — inquiriu Francisco, ansioso.
SR. NANCÉ — Nem sei. É possível que preveja o seu fim!
FRANCISCO — Pobre Maurício! E eu que não o estimava!
CRISTINA — Também eu não! Mas vamos tratá-lo como se o estimássemos muito.
Que te parece, Francisco?
FRANCISCO — Sim, sim. E agora o estimo na verdade, pois causa-me dó.
CRISTINA — O mesmo se dá comigo.
Quando o médico chegou, atribuiu a hemoptise de Maurício à queda. Aconselhou este a
levantar-se, correr e passear o mais que as suas forças lhe consentissem. O Sr. Nancé pediu ao
clínico que escrevesse aos pais a dar-lhes conta do acidente ocorrido. Tal consulta
tranquilizou todos, exceto Maurício, que queria à viva força fazer a primeira comunhão.
O Sr. Nancé, vendo nisso uma vantagem, e tendo recebido carta dos pais do pequeno,
que o autorizavam a ceder ao que supunham fantasia do doente, mandou chamar um sacerdote
compassivo para dar a Maurício a instrução religiosa que lhe faltava. Passado um mês da sua
estadia em casa do Sr. Nancé, Maurício fazia a sua primeira comunhão.
A fraqueza aumentava insensivelmente, a ponto de só a muito custo se firmar nas
pernas, mas o médico aguardava completa cura no começo da Primavera. Alguns dias depois
da sua primeira comunhão, teve nova hemoptise, e nessa altura o Sr. Nancé escreveu aos pais
do pequeno, sem dissimular viva inquietação.
Não se conseguiu deter a hemoptise que se repetiu várias vezes de manhã e com
violência. À tarde, Maurício mandou chamar Cristina e Francisco, ao qual disse não querer
morrer sem pedir perdão pela forma como o tratara anteriormente.
E, dirigindo-se a Cristina, prosseguiu, elogiando-a por havê-lo estimado como irmão e
agradecendo-lhe o carinho com que o tratava.
E, falando ao Sr. Nancé, mostrou-se gratíssimo, não tendo palavras com que pudesse
demonstrar-lhe essa gratidão como desejava.
Nova hemoptise interrompeu Maurício. Francisco e Cristina, de joelhos à cabeceira da
cama, choravam amargamente, enquanto o Sr. Nancé se sentia comovidíssimo. Maurício
reanimou-se, pediu o padre, que já fora mandado procurar pelo Sr. Nancé e que entrou nesse
momento. Depois de haver recebido, a seu pedido, a Santa-Unção, grande calma lhe sucedeu
à agitação e à febre, e pediu ao Sr. Nancé que, se os pais chegassem tarde de mais, lhes desse
o seu último adeus e dissesse a pena que sentira em não poder abraçá-los e beijá-los antes de
morrer.
E continuava:
— Diga-lhes também que fui muito feliz em sua casa, e que os bendigo e lhes agradeço
terem consentido em que viesse morrer junto de vós. Que estimem Francisco e Cristina, por
atenção a mim. Morro, amando-os sem pesar e como bom cristão. Adeus... Adeus... mamã...
Beijou o crucifixo que tinha em cima do peito e não proferiu mais palavra. Cerraram-se
os olhos, a respiração extinguiu-se e deu a sua alma a Deus com um sorriso de cristão.
O Sr. Nancé fizera afastar os pequenos com Isabel, a fim de lhes evitar a impressão dos
derradeiros momentos; fechou os olhos ao pobre Maurício e deixou-se ficar ao pé dele a orar
pelo eterno descanso da sua alma.
No dia seguinte, muito cedo, os pais do rapazito, inquietos e trémulos, entravam
precipitadamente em casa do Sr. Nancé, que lhes comunicou, com todas as cautelas possíveis,
o triste e sereno fim de Maurício. Foi enorme o desespero dos pais, que se censuravam por
não haverem adivinhado o perigo, por o abandonarem no último mês de sua existência e por o
terem deixado morrer em casa de uma família estranha.
Pediram para ver o corpo inanimado do filho, a quem, de joelhos, rogaram que lhes
perdoasse.
Permaneceram largo tempo junto de Maurício, sem que fosse possível arrancá-los dali.
O Sr. Nancé foi ter com eles e conseguiu acalmá-los, enquanto Isabel lhes garantia que o Sr.
Nancé, Francisco e Cristina, tinham sido desvelados enfermeiros.
Quiseram ver e beijar Francisco e Cristina, e agradecer-lhes; todos choravam junto do
corpo de Maurício.
Nos dias seguintes, o Sr. Nancé afastou os pequenos desses comovedores transes e
Paulo contribuiu muito para distraí-los da dolorosa impressão que haviam sentido.
— Que querem, meus rapazinhos? O pobre signor Maurício morreu... como todos
havemos de morrer.
CRISTINA — Seja como for, tenho pena dele...
PAULO — Afinal, o pobre Maurício impedia-os de passear, de brincar, de correr, de
conversar... Não queriam ser desagradáveis àquele rapazito a quem não estimavam.
FRANCISCO — Chiu, Paulo! Pelo amor de Deus, não diga isso a ninguém.
E com observações deste género, Paulo acabou por distraí-los.
Em seguida ao enterro, os Srs. Sibran tornaram para Paris.
Em Nancé voltou a decorrer a vida habitual. Entretanto, a morte do pobre Maurício
entristeceu-lhes durante largo tempo as noites de inverno.
24
Separação e desespero
No verão seguinte voltaram os pais de Cristina e o bando alegre e dissipador que o Sr.
Nancé continuou a evitar. Não vinham mais ternos nem solícitos. Pareciam ter abandonado
completamente a filha ao Sr. Nancé. Esta estranha situação durou ainda alguns anos. Cristina
chegou aos dezesseis e Francisco aos vinte.
Ela tornara-se encantadora menina, sem, contudo, ser bonita; em compensação, era
dotada de excelentes qualidades de caráter e de inteligência.
O defeito de Francisco, que lhe havia evitado novas relações e feito fugir das reuniões
elegantes da vizinhança, tinha dado a Cristina um ar sério e uma indiferença por aquilo a que
se costuma chamar divertimento.
O Sr. Nancé levava os dois a casa da Sr. Guilbert e da Sr. Sibran, mas nunca em dias de
reuniões. Certa ocasião foram obrigados a assistir a uma pequena festa em casa daquela em
que havia iluminações e se queimava fogo de artifício. Mas Cristina sofrera tanto com o
abandono a que votaram Francisco, com os olhares trocistas que lhe dirigiam, que pediu
instantemente ao Sr. Nancé que não mais a obrigasse a sofrer tais dissabores.
— Como quiseres, minha filha. Eu supunha divertir-te; foi o Francisco que me pediu
que te proporcionasse algumas distrações.
— Francisco é muito bom e eu agradeço-lhe as excelentes intenções. Eu, porém, não
careço de divertimentos e tudo quanto seja transtornar a tranquila existência que levamos me
aborrece.
O Sr. Nancé percebera a terna dedicação da filha adotiva; não insistiu e beijou-a,
dizendo-lhe que a mãe regressava no dia seguinte, e tinha de falar-lhe.
CRISTINA — E é forçoso que eu vá consigo?
SR. NANCÉ — Não, minha pequena; bem sabes que te proibiu de que a visitasses.
— Não me importa — volveu Cristina, sorrindo. — Sempre que me vê, é para me
ralhar. Prefiro ficar com Francisco, que continua a ser bondoso e amável.
O Sr. Nancé foi visitar os Srs. Ormes e disse-lhes ser obrigado a levar o filho para o sul,
por causa da saúde dele e por outro motivo; que lhe era impossível levar Cristina e que, a
despeito do desgosto que lhe causava semelhante separação, a julgava absolutamente
necessária.
SRA. ORMES — Não posso tomar conta dela, Sr. Nancé. Que hei de fazer de uma
rapariga como Cristina?
SR. NANCÉ — Mas é preciso tomar uma resolução, porque, afinal, Cristina tem
dezesseis anos e é sua filha.
SRA. ORMES — É mais sua do que minha. E o mais importante é eu não a querer em
minha casa; além disso, a minha vida não lhe agrada.
SR. NANCÉ — Então, concede-me licença para lhe dar um conselho?
SRA. ORMES — Diga, diga depressa.
SR. NANCÉ — Meta-a num convento durante dois ou três anos.
SRA. ORMES — Isso é admirável! Mas não em Paris.
SR. NANCÉ — O convento de Santa Clotilde, em Argentan, é magnífico.
SRA. ORMES — Fica assim resolvido. Não achas bem? — perguntou ao marido. —
Dás, como eu, plenos poderes ao Sr. Nancé?
O Sr. Ormes, mais do que nunca subjugado pela mulher, acedeu a tudo, e o Sr. Nancé
voltou para casa a fim de comunicar aos filhos a triste notícia da sua separação.
Assim que chegou mandou chamar Francisco e Cristina, dando-lhes a triste nova do
afastamento.
CRISTINA (aterrada) — Afastar-me de si... Oh não, nunca!
SR. NANCÉ — E, contudo, assim é preciso. Tua mãe mete-te num convento; quanto a
mim, sou obrigado a levar Francisco por causa da sua saúde e para concluir os estudos no sul
de França e não posso levar-te comigo.
— Minha mãe mete-me num convento, rouba-me meu pai, meu irmão, a minha
felicidade! — bradou Cristina, caindo de joelhos diante do Sr. Nancé. — Tem-me salvo tantas
vezes, porque não me salva agora? Conserve-me consigo.
Francisco correu a levantar Cristina, cingiu-a ao peito e ambos confundiram as suas
lágrimas, enquanto o Sr. Nancé se deixava cair numa cadeira, tapando a cara. Todos três
choravam.
— Meu pai, o seu desgosto, as suas lágrimas, as primeiras que lhe vejo chorar nos oito
anos que aqui estou, demonstram que uma vontade mais forte do que a sua dispõe da minha
existência. Se não o tornar a ver, espero que Deus não me deixará por muito tempo neste
mundo. Quanto a ti, Francisco, rogo-te que nunca esqueças a tua Cristina, que bem feliz tem
sido em consagrar a sua vida à tua felicidade.
Francisco apenas correspondeu com lágrimas às meigas palavras de Cristina, a quem,
finalmente, disse, fitando-a com profunda tristeza:
— Como poderei viver sem ti, minha Cristina?
— A vida só tem um tempo — volveu Cristina, que lhe segredou: — Tenhamos
coragem por causa do nosso pobre pai, que sofre mais por nós do que por ele!
Francisco apertou-lhe a mão e fez com a cabeça um sinal afirmativo.
— Meu pai! — tornou Cristina, beijando-lhe as mãos e as faces inundadas de lágrimas.
— Deus virá em nosso auxílio. Quem sabe? Talvez esta separação nos traga no futuro a
felicidade!
O Sr. Nancé levantou vivamente a cabeça e respondeu:
— Deus te ouça! Que nos reúna um dia para nunca mais nos deixarmos.
A coragem de Cristina animou Francisco; quando o Sr. Nancé viu os filhos mais calmos,
entrou em pormenores a respeito da sua vida futura.
CRISTINA — Quando tiver vinte e um anos, posso dispor de mim. Virei então refugiar-
me aqui e gozaremos melhor a nossa felicidade, de que seremos privados durante... cinco
anos.
— Cinco anos? — exclamou Francisco. — Pois estaremos separados durante cinco
anos?
SR. NANCÉ — Sabe-se lá o que pode acontecer, meu rapaz? Pode ser que nos
encontremos de novo mais cedo.
CRISTINA — Escreva-me muitas vezes.
FRANCISCO — Todos os dias. Meu pai num dia e eu noutro.
CRISTINA— O mesmo farei, se no convento me permitirem. Há ali tanta austeridade...
SR. NANCÉ — Não, minha filha. A superiora é uma antiga amiga de minha mulher; é
excelente senhora e dar-te-á toda a liberdade possível. Foi por isso que indiquei esse convento
a tua mãe, com receio de que ela te metesse em qualquer casa desconhecida e afastada. Aqui,
ao menos, terás tua tia Cémiane, que regressa no fim do ano, após uma ausência de seis anos.
CRISTINA — Gabriela escreveu-me a dizer que minha tia estava completamente curada
após a sua permanência de dois anos na Madeira. E o pai vai para muito longe com
Francisco?
SR. NANCÉ — Para perto de Pau, onde Francisco terminará os seus estudos. Devemos
voltar daqui a dois anos com Paulo, que nos acompanha.
CRISTINA — Também leva o bom Paulo! Nesse caso não me ficará ninguém!
SR. NANCÉ — Ficar-te-á Isabel, e os nossos corações estarão sempre junto de ti.
Os dias decorreram rápidos e tristes. Paulo partilhava dos desgostos de Cristina e
tentava incutir-lhe coragem.
PAULO — Anime-se, signorina. Ainda hão de ser muito felizes... É Paulo quem lhe
diz.
CRISTINA — Sem eles, não é possível!
PAULO — Que demónio! Dois anos depressa passam...
Cristina abanou a cabeça.
PAULO — Não esteja a abanar a cabeça como um sino! Sou eu quem lho diz e sei o que
digo. Daqui a dois anos há de soltar este grito de contentamento: “Viva Paulo!”
Cristina não pôde deixar de rir, e respondeu:
— Só gritarei... Viva Paulo... quando Paulo obtiver licença de minha mãe para eu
regressar à casa do Sr. Nancé e de Francisco.
PAULO — Não digo que não! Não digo que não. .
Esta esperança e a confiança de Paulo tranquilizaram um pouco Cristina, mas esta
tranquilidade não durou muito tempo.
À medida que se avizinhava o momento da separação, o pai e os filhos, tão ternamente
unidos, pareciam redobrar de carinho e afeição.
No dia da partida, as despedidas foram dolorosas. O Sr. Nancé quis levá-la ao convento.
Quando lá chegaram, Cristina, que se animara pelo caminho para não apoquentar o
companheiro, falou, com grande serenidade, da sua correspondência e do futuro, a que não
queria renunciar, embora lhe parecesse muito longínquo.
Posta ao corrente da situação pelo Sr. Nancé, que lhe havia referido tudo quanto
sabemos, a superiora, senhora bondosa e distinta, acolheu Cristina com maternal ternura. Ao
despedir-se do querido pai adotivo, a jovem desmaiou nos braços da superiora.
Quando o Sr. Nancé regressou, encontrou Francisco e Paulo pálidos e calados.
Francisco lançou-se nos braços do pai, que o teve assim durante algum tempo, dizendo-
lhe, em seguida, ser melhor partirem depressa, pois o solar, sem Cristina, tornava-se-lhe
odioso. Francisco concordou.
Os cavalos encontravam-se atrelados e as malas prontas. Os criados mostraram-se
tristíssimos.
— Até daqui a dois anos, meus amigos — despediu-se Paulo, subindo para a carruagem.
Esta rodou e desapareceu.
Algum tempo depois da sua chegada a Pau, fundada esperança veio reanimar o coração
e o espírito de Francisco e do pai.
Os meses foram decorrendo até perfazerem anos. Após dois anos de permanência em
Pau, certo dia, em seguida à recepção de uma carta de Cristina e da Sra. Cémiane, Francisco,
depois de haver conversado demoradamente com o pai, indagou se não poderia transmitir a
Cristina o seu pedido.
O pai disse-lhe:
— Sim, tanto mais que Paulo acaba de mo autorizar e de me dizer que responde por ti.
Francisco apertou afetuosamente a mão do Sr. Nancé e deixou-o, dizendo-lhe que
escrevesse ele, pois se sentia receoso.
— Pois eu estou muito tranquilo. Como podemos desconfiar de tão terno coração?
O Sr. Nancé, porém, não estava tão tranquilo como afirmou; quando Francisco partiu,
passeava agitado pelo quarto.
25
Dois anos de tristeza
Quando Cristina se encontrou a sós com a superiora e teve a certeza de que não tornaria
a ver nem o Sr. Nancé nem Francisco, faltou-lhe o ânimo e deixou-se dominar pelo desespero,
o que assustou a bondosa senhora.
Não sabendo de que meio dispor para encorajá-la, levou-a para a capela e aconselhou-a
a que orasse.
Cristina caiu de joelhos e rezou não por ela, mas pelos seus. Por fim, resignou-se,
submeteu-se ao seu isolamento e prometeu de si para si procurar coragem aos pés do Senhor,
sempre que se sentisse invadida pelo desânimo.
Os primeiros dias arrastaram-se penosamente. Cristina não recebeu cartas, conquanto
todos os dias escrevesse. Finalmente, recebeu a primeira carta de Francisco, impregnada de
tristeza; no dia seguinte, o Sr. Nancé forneceu-lhe alguns pormenores a respeito da sua nova
morada, e a correspondência continuou assim animada e interessante.
Passados seis meses, a Sr. Cémiane regressou a casa; após uma ausência de seis anos, o
seu primeiro cuidado foi visitar a sobrinha, levando consigo Bernardo e Gabriela; as duas
primas não se conheceram, tão mudadas que estavam.
A visita durou hora e meia e a tia observava-a com atenção e curiosidade. Por fim, ao
levantar-se para se despedir, disse:
— Minha Cristina, que fizeste do teu riso cristalino, da tua alegria de outros tempos? Se
te sentes mal aqui, di-lo, pois vais para minha casa.
Cristina beijou a tia e chorou serenamente nos seus braços, dizendo:
— Agradeço-lhe, minha boa tia, mas não é a minha permanência aqui a causa das
lágrimas que choro. Pranteio a ausência do meu pai e do meu irmão adotivos e, assim, torna-
se natural a minha tristeza.
SRA. CÉMIANE — Já não gostas de nós, Cristina?
CRISTINA — Gosto, sim, tia, e hei de gostar sempre, mas não é a mesma coisa. Não sei
como exprimir-me. Se posso viver sem a vossa companhia, não tenho coragem para viver sem
a deles.
SRA. CÉMIANE — Compreendo. As tuas cartas para Gabriela eram todas ternura pelo
Sr. Nancé e pelo Francisco. E como vai ele?
CRISTINA (com vivacidade) — Sempre bom, dedicado, amável.
SRA. CÉMIANE — Sim, mas o seu tamanho e o seu defeito?
CRISTINA— Cresceu, mas o defeito continua na mesma.
SRA. CÉMIANE — Quantos anos tem?
CRISTINA — Completou vinte e um a três meses.
SRA. CÉMIANE — Ouve, Cristina: compreendo o teu desgosto, mas torna-se
necessário não o aumentar com a vida de eremita que levas aqui. Bernardo e Gabriela ficarão
radiantes em te ver lá em casa, e por isso vais passar alguns dias conosco, pois tua mãe já me
autorizou a fazer o que eu quisesse.
CRISTINA — No entanto, tia, permite que escreva ao Sr. Nancé a pedir-lhe
consentimento e aguarde a sua resposta?
— Pois claro, pequena — respondeu, rindo a Sra. Cémiane. — É teu pai adotivo e
procedes bem em consultá-lo.
Daí a quatro dias, a tia de Cristina, que também escreveu ao Sr. Nancé, veio ao convento
buscá-la, bem como Isabel. Cristina recebera consentimento envolto em palavras ternas,
censurando-a por ter esperado tal autorização.
Gabriela e Bernardo ficaram contentíssimos com a vinda de Cristina que, à força, foi
obrigada a distrair-se do seu pesar com a alegria dos primos e com os afetuosos cuidados dos
tios. Encontrava, a cada momento, recordações de Francisco e dos dias felizes que com ele
havia passado.
Gabriela, notando o encanto que a Cristina sentia por tudo quanto respeitasse a
Francisco e ao Sr. Nancé, falava muito neles e interrogava-a sobre a vida que levara em
Nancé; referia-se a Paulo e a Maurício, pedindo informações acerca da sua doença e morte.
— O que é para admirar — volveu Cristina — é nunca se haver sabido como ele e
Adolfo se encontravam na mansarda, na ocasião do incêndio do solar dos Guilbert.
Gabriela referiu o que sabia por Adolfo, que o contara a Bernardo. Maurício encontrara
um maço de cigarros esquecido em cima do fogão e incitara Adolfo a fumá-los; acenderam-
nos e atiraram os fósforos, sem se lembrarem de apagá-los, para trás de uma cortina de
musselina, que ardeu logo. Não podendo apagar o fogo, apavorados, não se atreveram a fugir
para as salas, receando serem encontrados pelos criados e acusados de terem provocado o
incêndio; como avistassem uma porta ao fundo da sala, para ela correram; dava para uma
pequena escada interior, que subiram, e chegaram assim a uma mansarda, convencidos de que
estavam livres de perigo. O resto já era sabido.
GABRIELA — É para estranhar que Maurício nada tivesse dito durante a sua estada em
vossa casa.
CRISTINA— Francisco percebeu que Mauricio gostava pouco de falar e de ouvir falar
no terrível desastre, por isso nunca lhe disse coisa alguma.
GABRIELA — Mas por que não indagaste?
CRISTINA — Porque Francisco me pediu que não lhe falasse no caso.
26
Pedidos de casamento e Respostas diferentes
Cristina encontrara na amizade de Gabriela e de Bernardo e na afeição compassiva dos
tios grande lenitivo para o seu desgosto. Os Guilbert vinham visitá-los amiudadas vezes.
Adolfo pretendia ser muito afeiçoado a Bernardo, a Gabriela e a Cristina. Supunha-se bonito,
amável e fartava-se de troçar da vizinhança, com grande desagrado de Cristina. Muitas vezes,
por isso, zangava-se com Cristina que, sempre bondosa, defendia calorosamente os ausentes e
ripostava de tal maneira, que este tinha de calar-se. Nem sequer suportava o menor gracejo a
respeito de Maurício, a quem, em certa ocasião, defendeu com tanta ternura, piedade e
animação, que Adolfo ficou aterrado. Todos lhe censuraram o cruel ataque contra o irmão
morto e aplaudiram a corajosa defesa de Cristina.
Estas frequentes questões, em vez de afastarem o rapaz de Cristina, mais o
aproximavam; amiudava as visitas e houve um dia em que, após algumas frases delicadas,
pediu à Sra. Cémiane a mão de Cristina.
SRA. CÉMIANE — Não posso dispor da mão de minha sobrinha; a primeira a consultar
deve ser ela, depois os pais e, finalmente, o Sr. Nancé, que a adotou e a quem ama com
extraordinária ternura.
ADOLFO — Para começar por Cristina, a senhora terá a bondade de falar-lhe hoje e
dizer-me, em seguida, para onde devo dirigir a carta de pedido aos Srs. Ormes.
SRA. CÉMIANE — Assim farei, Adolfo, mas não estou muito certa do bom resultado.
ADOLFO — A senhora está a gracejar! Uma pobre rapariga, nas condições de Cristina,
ficaria bem contente por lhe proporcionar ensejo de alcançar situação agradável e
independente. É inteligente e ficaria muito rica. Como gosto imenso dela, peço-lhe com
instância que me ajude a realizar este casamento que me dará o direito de lhe chamar tia.
Adolfo beijou a mão da Sra. Cémiane, tratando-a por tia, e retirou-se.
A bondosa senhora abanou a cabeça e mandou chamar Cristina, à qual deu parte do
pedido de Adolfo, acrescentando:
— Que devo responder-lhe?
CRISTINA — Que lhe agradeço muito o pedido... mas que o recuso em absoluto.
SRA. CÉMIANE — Por que?
CRISTINA — Porque não o amo, minha tia.
SRA. CÉMIANE — Mas é muito amável, rico e bonito rapaz.
CRISTINA — Que quer, minha tia? Desagrada-me.
SRA. CÉMIANE — Antes de recusares tão peremptoriamente, escreve ao Sr. Nancé.
Pensa na tua situação. Não devo esconder-te que tua mãe deu cabo da sua fortuna com
despesas excessivas. Que será feito de ti se eu te faltar?
CRISTINA— Sim, minha tia, escreverei ao Sr. Nancé para lhe dizer que prefiro morrer,
a casar com Adolfo ou qualquer outro.
SRA. CÉMIANE — Não queres casar?
CRISTINA — Não, minha tia. Haja o que houver, sei que nunca seria feliz com um
marido a quem não pudesse amar.
SRA. CÉMIANE — Como queiras, Cristina; essa aversão ao casamento suavizará o
golpe que Adolfo vai receber. Por meu lado, vou escrever ao Sr. Nancé a relatar-lhe a nossa
conversa. Até depois, Cristina; vai escrever a tua carta, enquanto escrevo a minha.
Fora a essa carta de Cristina e à da Sra. Cémiane, que o Sr. Nancé respondera, a rogo de
Francisco.
Após alguns dias do pedido de Adolfo, Cristina recebeu a resposta que esperava,
impaciente. Era o Sr. Nancé que lhe escrevia. Antes de principiar a lê-la, beijou-a.

Minha filha, minha querida Cristina:


O meu Francisco, teu irmão e teu amigo, já não pode mais viver longe de ti; arrasta os
seus tristes dias, sem finalidade e sem prazer. Eu próprio, apesar de todos os esforços que
faço para esconder o meu desgosto, sofro muito com a tua ausência. E tu, minha Cristina,
sinto que és infeliz longe de nós; embora te esforces por parecer calma e alegre, as tuas
cartas bem o demonstram. O Francisco pergunta se queres pôr termo a esta separação. E é
de ti, da tua resposta, que depende toda a nossa felicidade futura. Não julgues que tenho
dúvidas acerca dessa resposta; mas deixa-me dizer-te qual o sacrifício que terás de fazer
para que esta separação acabe. Mal ouso expor-te, minha querida Cristina, tão meiga e
dedicada! Queres tornar-te a minha verdadeira filha, casando com o meu Francisco? Queres
consagrar a tua bela mocidade, a tua vida à felicidade de um pobre aleijado, viver com ele
afastada de todos os divertimentos, expondo-te às cruéis zombarias que o seu defeito
provoca?
A vida será, para ti, grave e monótona; continuará a decorrer entre mim e o Francisco;
apenas a nossa ternura lhe dará calor e colorido.
Espero a tua resposta, minha querida Cristina, com uma ansiedade que facilmente
compreenderás, visto que dela depende a nossa ventura.
Com muito amor
Teu pai

Cristina a custo leu esta carta até ao fim, pois os olhos, velados pelas lágrimas,
dificilmente decifravam a letra do pai. Quando acabou, o seu primeiro movimento foi lançar-
se aos pés do seu crucifixo e agradecer a Deus a felicidade que lhe mandava. Depois correu ao
quarto de Isabel e, abraçando-a, entregou-lhe a carta do Sr. Nancé, aconselhando-a a que a
lesse.
Isabel beijou ternamente Cristina, testemunhando-lhe grande alegria por aquele feliz
acontecimento.
Deixando Isabel, Cristina dirigiu-se aos aposentos da Sra. Cémiane, a quem disse,
beijando-a:
— Querida tia, veja a felicidade que Deus me concede. Leia essa carta do Sr. Nancé.
A Sr. Cémiane leu, sorriu e inquiriu:
— Vais aceitar o pedido de Francisco?
CRISTINA — Com a maior alegria e grande reconhecimento, minha tia, pois é o fim de
todos os meus pesares, o início de uma vida tão feliz, que não ouso acreditar na realidade.
SRA. CÉMIANE — Mas refletiste nas observações que o Sr. Nancé te faz...?
CRISTINA — Pensei na ventura de ser a mulher de Francisco, a filha do Sr. Nancé, no
direito que me dão esses títulos para viver sempre com eles. Nunca sairemos de Nancé e,
assim, não ouviremos os tolos gracejos e as maldades do mundo.
SRA. CÉMIANE — Mas ainda no outro dia me disseste que não querias casar...
CRISTINA — Com Adolfo ou qualquer outro, não, tia; mas com o Francisco, é
diferente.
SRA. CÉMIANE — Esqueces que precisas do consentimento de teus pais. Queres que
lhes escreva, se isso te preocupa?
CRISTINA — Sim, tia, agradeço-lhe a bondade. Pena é que Gabriela e Bernardo não
estejam, pois queria mostrar-lhes a carta de meu pai.
SR. CÉMIANE — Devem chegar daqui a pouco.
CRISTINA — Eu vou já responder e mandar a carta para o correio.
Cristina voltou para o seu quarto e escreveu ao Sr. Nancé, dizendo-lhe que se sentia feliz
por ele querer que ela casasse com Francisco.
Quanto à alusão ao defeito do filho, isso não tinha sentido para ela, pois amava
Francisco por si mesmo. Se esperava a resposta dela com impaciência, podia calcular a
ansiedade com que os aguardava. Despedia-se até breve. Declarava que, intimamente, só
tratava Francisco por seu marido, que era agora sua mulher dedicada e afeiçoada e que, dentro
de algum tempo, se assinaria Cristina Nancé. Acrescentava ter-se esquecido de dizer que não
tinha ainda o consentimento dos pais, mas isso não importava. A tia encarregara-se de
escrever, a pedi-lo.
Quando o Sr. Nancé recebeu aquela resposta de Cristina, arrasaram-se-lhe os olhos de
lágrimas de alegria e gratidão. Mandou chamar Francisco.
— Aqui tens a resposta de Cristina, meu filho.
FRANCISCO — Que diz? Consente?
SR. NANCÉ — Lê e avalia o tesouro que Deus nos concedeu!
Francisco leu e mais de uma vez enxugou as lágrimas que lhe turvavam a vista.
— Encantador e admirável caráter! — volveu restituindo a carta ao pai, que disse,
sorrindo:
— Vou escrever à tua noiva anunciando-lhe a nossa partida. Vai ter com Paulo e
participa-lhe o teu casamento e, de caminho, pergunta-lhe em que dia devemos sair daqui.
Francisco voltou pouco depois com Paulo, em cujo rosto se espelhava a alegria que lhe
ia na alma.
— Depois de amanhã, às oito da manhã, estaremos a caminho. Vou dar ordens ao criado
para fazer as malas.
SR. NANCÉ — E acha que Francisco pode fazer esta viagem?
PAULO — Homem! Até pode ir à China, sem descansar. Que diabo! Está um rapagão
que dá gosto vê-lo. .
SR. NANCÉ — Ainda bem, meu caro Paulo! Seguimos depois de amanhã. Mande-me
cá o criado para satisfazer todas as contas e prevenir o cozinheiro de que se prepare para partir
antes de nós. Vamos, Francisco, arrumemos tudo e não esqueçamos as estatuetas e as outras
recordações destinadas à Cristina.
Não foi preciso dizer-lhe duas vezes, pois, em seguida, após haver escrito algumas
meigas palavras de ternura e gratidão a Cristina, iniciou imediatamente os seus preparativos
de viagem.
27
Cristina responde a tempo
Enquanto em Pau se fazem as malas, voltaremos para junto de Cristina, a quem a tia
mandou chamar, entregando-lhe uma carta da mãe.
CRISTINA — Manda o seu consentimento e o de meu pai para casar com Francisco?
SRA. CÉMIANE — Manda, mas...
CRISTINA — Mas quê? Parece comovida, tia.
SRA. CÉMIANE — Tenho uma triste nova a dar-te.
CRISTINA — Meu Deus! Trata-se do Sr. Nancé ou de Francisco?
SRA. CÉMIANE — Não se trata deles, trata-se do teu dote.
CRISTINA — Assustou-me! Receava uma fatalidade.
SRA. CÉMIANE — Mas é uma fatalidade para ti.
CRISTINA — E que tem isso, minha tia?
SRA. CÉMIANE (admirada) — Que tem isso!? Decerto o Sr. Nancé e Francisco
contavam com um dote.
CRISTINA — Tenho a firme certeza de que só pensam em mim, pois o Sr. Nancé tem o
suficiente para nós três.
SRA. CÉMIANE — És extraordinária, rapariga! A outra coisa a comunicar-te é que teus
pais estão arruinados.
CRISTINA — Lamento-o bastante por eles.
SRA. CÉMIANE — São obrigados a vender a quinta.
CRISTINA — E têm pena?
SRA. CÉMIANE — Não. Vão instalar-se em Florença.
CRISTINA — Isso para mim é indiferente.
SRA. CÉMIANE — Mas a quinta pertencia-te por morte de teus pais.
CRISTINA — Não preciso da quinta, pois tenho Nancé.
SRA. CÉMIANE — Mas o solar de Nancé não é teu, é do teu pai adotivo.
CRISTINA — Mas se ficar a viver com eles é como se fosse meu.
SRA. CÉMIANE — Não há segunda como tu! Não te apoquentas com a ideia de não ter
dote nem herança a receber?
CRISTINA — Apoquentada, eu?! Tanto como se possuísse milhões!
SRA. CÉMIANE — Mas o Sr. Nancé e Francisco hão de ficar contrariados.
CRISTINA — Tanto como eu. Do mesmo modo que quero a Francisco e ao Sr. Nancé
sem fortuna, eles só me querem a mim e não à minha riqueza.
SRA. CÉMIANE — Veremos.
CRISTINA — Estou muito tranquila a esse respeito. Vou participar a Francisco o
consentimento de meus pais.
SRA. CÉMIANE — E também a sua ruína.
CRISTINA — Sim, falar-lhe-ei no assunto. Até depois, querida tia.
SRA. CÉMIANE — Aqui tens a carta de tua mãe.
CRISTINA — Obrigado, tia. Vou mandá-la a Francisco.
Cristina foi para os seus aposentos e abriu com repugnância a carta da mãe, de quem
apenas recebera palavras desagradáveis.
Minha querida irmã
A Cristina está completamente doida por querer casar com um corcunda; antes se
fizesse freira. No entanto, não lhe recusamos o nosso consentimento; com um marido
defeituoso, é claro que terá de ir viver para Nancé sem nunca de lá sair, e isso convém a uma
rapariga nada brilhante nem bonita, como ela. Há ainda outro motivo que nos impele a dar o
nosso consentimento. Tive a infelicidade de ser ludibriada por um homem de negócios
desonesto e estamos quase arruinados: a nossa atual fortuna bastará apenas para pagar as
dividas; ficaremos simplesmente com a propriedade Ormes, que venderemos a um comprador
de madeiras por uma renda de cinquenta mil francos; mas a Cristina não terá dote nem
qualquer herança. O Sr Nancé que tome conta dela, casando-a com o seu corcunda. Logo
que ultimarmos os nossos negócios, partiremos para a Suíça e para Florença, onde ficaremos
a residir. Diz claramente ao Sr Nancé que a Cristina não possui absolutamente nada.
Adeus, minha irmã, cumprimentos ao teu marido.
Imagina que nem dinheiro tenho para lhe fazer o enxoval...! Diz isto também.
Carolina Ormes

Cristina deixou tristemente cair a carta da mãe, dizendo consigo:


“Que indiferença! Nem sequer uma palavra de conforto e de ternura para mim, sua
única filha! Que diferença entre ela e o Sr. Nancé!”
Depois de haver escrito a Francisco, Cristina escreveu ao Sr. Nancé, juntando-lhe a carta
da mãe.
Com palavras meigas, comunicava-lhe que a tia tinha muito receio de que a carta que
lhe mandava, da mãe, o desgostasse.
No dia seguinte ao da partida dessa carta, Cristina recebeu a de Francisco, avisando-a da
sua chegada no dia imediato. Foi logo dar essa boa nova a Isabel e obteve licença da tia para
ir, com Isabel e Gabriela, a Nancé, a fim de preparar tudo no solar. Deviam passar lá o dia.
Era natural que jantassem também e só voltariam à noite. Ambas ficaram radiantes, com a
licença. Bernardo também quis acompanhá-las, mas disseram-lhe que ele as estorvaria nos
amanhos domésticos.
— Então, vou meter-me no quarto para acabar o presente que quero dar a Francisco.
CRISTINA — Um presente? Que lhe queres dar?
BERNARDO — É segredo.
CRISTINA — Para a mulher de Francisco são escusados segredos.
BERNARDO — Tanto para ti como para a Gabriela, como para todos. Adeus, curiosa,
até breve.
Cristina, que recuperava toda a alegria, riu com Gabriela do pretenso segredo de
Bernardo. Ao chegarem ao pátio do solar de Nancé, Cristina deu com os olhos no cozinheiro e
soltou um grande grito de alegria:
— Mallar, Mallar, pois já cá está? A que horas chegam eles amanhã?
MALLAR— Às duas horas devem estar aqui.
CRISTINA — Que felicidade! Virei esperá-los. Pode dar-nos hoje de jantar, a minha
prima, a Isabel e a mim?
MALLAR — Pois decerto, mas peço apenas que me perdoem se o jantar for fraco, pois
pouco tempo tenho para prepará-lo.
CRISTINA — Não faz mal. Dê-nos o que puder. Vamos arrumar a casa, Gabriela.
Trabalharam todo o dia e as horas decorreram velozes. Aproximou-se a hora do jantar.
Cristina levou Gabriela à biblioteca, que era o escritório do Sr. Nancé. Sentando-se na cadeira
do Sr. Nancé, Cristina disse:
— Bondoso pai! Quantas vezes viemos aqui, Francisco e eu perturbá-lo no seu
trabalho! Gabriela, peço a Deus que te dê a felicidade que me deu a mim; um Francisco para
marido e um Sr. Nancé para pai.
GABRIELA — Por coisa alguma deste mundo casaria com um homem defeituoso,
minha pobre Cristina. .
CRISTINA — Que tem isso, querida Gabriela? Se conhecesses o Francisco como eu o
conheço, não te lembrarias do seu defeito, como eu não me lembro, e amá-lo-ias como eu o
amo.
GABRIELA — Isso não! Já pensaste que não podes ir com ele a um baile, a um teatro?
CRISTINA — Não gosto de bailes e teatros.
GABRIELA — Não poderás frequentar a sociedade.
CRISTINA — Detesto a sociedade; entristece-me e aborrece-me.
GABRIELA — Não poderás ir passear nos arredores.
CRISTINA — Prefiro os passeios que Francisco possa dar.
GABRIELA — Mas nem sequer podes receber visitas...
CRISTINA — Não me interessam as visitas. Só me interessam Francisco e o pai, e tu,
Bernardo e teus pais. A vocês sempre receberei com prazer, sem receio de que troçem do meu
pobre Francisco.
GABRIELA — Está tudo muito bem, mas um marido defeituoso é sempre ridículo; nem
lhe podes dar o braço, pois é muito mais baixo do que tu.
CRISTINA — Se é ridículo aos olhos dos outros, mais razão para amá-lo muito;
dedicar-me-ei a ele e a meu pai, para lhes demonstrar viva gratidão por tudo quanto por mim
fizeram. E quanto ao dar o braço, sei andar sozinha.
GABRIELA — Se assim é, ainda bem para ti, mas não te invejo a felicidade.
O jantar veio interromper a conversa das primas. Os criados que tinham ficado no solar
fartaram-se de trabalhar. O cocheiro recebeu ordem para estar no dia seguinte na estação à
hora da chegada do comboio, e Cristina voltou para casa da Sra. Cémiane, satisfeita e alegre,
ansiosa pelo dia seguinte. Mal supunha ela a surpresa que ia ter!
28
A metamorfose de Francisco
Chegou o desejado dia. Cristina, um pouco pálida, com os olhos um tanto pisados,
compareceu ao almoço, após o qual devia ir esperar no solar o Sr. Nancé e Francisco.
SRA. CÉMIANE — Estás pálida, Cristina. Sentes-te doente?
CRISTINA — Não, tia. Dormi mal; a alegria excitou-me e por isso estou um pouco
cansada.
O almoço pareceu demorado a Cristina; assim que Isabel apareceu para acompanhá-la,
despediu-se da tia, de Gabriela, de Bernardo e correu para a carruagem que devia levá-la.
Logo que se encontrou em Nancé, não se afastou mais da escadaria, receando não estar
lá na ocasião da chegada, o que pouco tardou, pois a carruagem que conduzia os viajantes daí
a minutos parou, e o Sr. Nancé, apeando-se, correu a abraçar Cristina, que chorava de alegria,
enquanto com palavras meigas demonstrava a felicidade que sentia. Em seguida, ela
perguntou por Francisco.
SR. NANCÉ — O teu Francisco está aqui, na tua presença.
E nesse momento, Cristina sentiu-se cingida nos braços de um rapaz alto.
Cristina soltou um grito, libertou-se daqueles braços e, refugiando-se nos do Sr. Nancé,
olhou surpreendida e aterrada.
FRANCISCO — Como, Cristina? Já não conheces o teu Francisco? Repele-o?
CRISTINA — O quê? Pois este rapaz tão elegante é o Francisco?
FRANCISCO — Em carne e osso, querida Cristina. Sou eu, curado e direito, graças a
Paulo.
Cristina deu novo grito, mas de alegria, agora, e, por sua vez, abraçou Francisco.
PAULO — E eu, não sou ninguém? Não fazem caso de mim nem me abraçam? Até
Cristina esquece o seu querido Paulo!
— Meu bom, meu caro Paulo! — volveu Cristina, largando Francisco e abraçando
Paulo, repetidas vezes. — Não, não esqueço o que lhe devo! Se soubesse a gratidão que lhe
dedico! Francisco, meu querido Francisco! Ainda bem que te libertaste do defeito que te
estragava a vida!
FRANCISCO — Mas que bendigo, pois me deu a conhecer as adoráveis qualidades do
teu caráter e o alto grau de dedicação que encerra a tua tão bela alma.
— Dedicação? — ripostou Cristina, sorrindo. — Não era dedicação, mas afeto, o
reconhecimento mais terno e bem merecido. Amei-te sempre e a teu pai pelo que fizeram por
mim.
E, dirigindo-se ao Sr. Nancé, quis saber o motivo por que nada lhe dissera a respeito da
tentativa do bom Paulo, ao que o pai de Francisco respondeu recear que o tratamento não
desse resultado e que por isso ela ficasse descontente e pesarosa. Paulo tinha inventado um
sistema mecânico que atuava lentamente, pelo que seriam precisos dois anos para se efetuar a
cura.
CRISTINA — Agora, diga-me: recebeu a minha carta e a de minha mãe?
SR. NANCÉ — Precisamente na manhã do próprio dia em que partimos. Fizeste
magnífico juízo a nosso respeito. Muito longe de sentir a falta da tua fortuna, bastante
satisfeitos ficamos em só recebermos deles a tua querida pessoa e termos de te oferecer o
vestido de noiva.
CRISTINA — Emblema da minha felicidade, querido pai.
As primeiras horas pareceram minutos. Na ocasião de Cristina partir, esta, enlaçando o
Sr. Nancé pelo pescoço, como tantas vezes fizera, quando criança, indagou:
— Não posso... ficar?
SR. NANCÉ — É preferível voltares para casa!
CRISTINA — Mas eu não voltava para casa. Retomava junto de si a vida de outros
tempos.
SR. NANCÉ — Não pode ser, querida filha. Tem paciência. Daqui a três semanas
tornamos-te a roubar.
CRISTINA — Três semanas! Tanto tempo! Não achas, Francisco?
Francisco beijou-a, como única resposta. O criado veio anunciar a Cristina, estar pronta
a carruagem, em que ela e Isabel deviam regressar a casa.
No dia imediato, o Sr. Nancé foi apresentar o filho à Sra. Cémiane, à Gabriela e à
Bernardo, que ficaram assombrados. O fiel Paulo acompanhava-os; queria ser testemunha da
conversa, pois ficou combinado, entre eles, que Cristina nada diria da transformação operada
em Francisco.
— Francisco — disse Gabriela, rindo — não te mexas. Deixa-me examinar-te bem,
como na primeira visita que nos fizeste! Estás um bonito e elegante rapaz e é a Paulo que se
deve tal milagre!
Estavam todos radiantes.
Enquanto Paulo contava a seu modo a cura e o tratamento de Francisco, o Sr. Nancé
conversava com os tios de Cristina, a respeito do casamento, e sossegava-os sobre o dote da
sobrinha. Não tinham de apoquentar-se com a fortuna de Cristina, não querendo até que o
enxoval fosse dado por eles.
SRA. CÉMIANE — Nada disso, Sr. Nancé: Essa despesa é por nossa conta.
SR. NANCÉ — Perdão, minha senhora. Creio ter adquirido o direito de tratar Cristina
como minha filha. Dê-lhe a prenda que quiser, mas deixe-me o prazer de ser eu quem cuide
do enxoval e do mobiliário.
Arrumado o assunto, o pai adotivo de Cristina pediu licença para abreviar a cerimónia.
O Sr. e a Sra. Cémiane estiveram por tudo quanto aquele desejava. Ficou resolvido que
até ao dia do casamento, Francisco e Cristina passariam os dias juntos, ora em Nancé, ora em
casa dos tios. Finda a visita, o Sr. Nancé levou Cristina, para, à noite, a trazer de novo a casa
da Sra. Cémiane.
Passados quinze dias, o Sr. Nancé declarou estar tudo preparado para a assinatura do
contrato, no dia seguinte ao qual se realizaria o casamento.
Na véspera da assinatura do contrato, Cristina recebeu um encantador enxoval, embora
simples e consoante os seus gostos e a vida que desejava levar. Na noite da assinatura
trouxeram-lhe uma caixa, com a recomendação de abri-la logo, o que se fez. Continha um
excelente retrato de Cristina, pintado por Bernardo para Francisco. Tanto este como a futura
esposa, ficaram sensibilizados com a atenção de Bernardo, a quem agradeceram,
reconhecidos.
— Era este o teu segredo? — inquiriu Cristina.
Francisco foi alvo da curiosidade e admiração gerais. Adolfo, que teve a audácia de
aceitar o convite, que lhe fizeram, ficou tão admirado como furioso, pois contava poder
vingar-se da recusa de Cristina, troçando do corcunda, e só pôde enraivecer-se intimamente,
sem se atrever a demonstrar o seu descontentamento.
O dia do casamento decorreu com tranquila felicidade. Cristina, após a missa, foi levada
pelo pai e por Francisco.
— Sua, meu pai! Tua, meu Francisco — disse Cristina, quando a carruagem rodou para
Nancé. Vossa para sempre!
E, reclinando-se no ombro do Sr. Nancé, chorou, mas essas lágrimas foram
compreendidas por seu pai e pelo seu marido, pois eram lágrimas de ternura e felicidade.
29
Conclusão
Desde que casaram, Francisco e Cristina usufruíram de uma felicidade calma e
completa, aumentada ainda pela do pai, que parecia ter redobrado de ternura e amor pelos
dois. Paulo também era alvo da sua grata amizade, jamais esquecendo quanto lhe deviam.
— A si devo o grande, o enorme prazer de contemplar meu filho, de pensar nele sem
tristeza e sem terror pelo seu futuro. Tenho-lhe profunda amizade, Paulo, e o meu coração
paterno sente por si eterno reconhecimento.
— E eu — tornou Paulo — estou contentíssimo com todos e não me farto de abraçá-los.
E Paulo dava saltos de alegria.
Certo dia deu a entender que se encontrava nostálgico, como quem diz, com saudades da
pátria, e ia partir para a Itália, onde se demoraria quinze dias. E perguntava se já poderia
seguir viagem no dia seguinte.
— Pois decerto — respondeu o Sr. Nancé.
Paulo apertou-lhe as mãos, querendo beijá-las, mas este não lhe consentiu e aconselhou-
o a tratar da bagagem.
A ausência de Paulo durou dois meses. No fim do primeiro mês escreveu ao Sr. Nancé,
participando ter encontrado uma rapariga tão encantadora e bondosa como Cristina, com
quem queria casar; não desejando deixá-la em Milão, não querendo também viver longe deles,
pedia-lhe que o aconselhasse.
O Sr. Nancé mostrou logo essa carta aos filhos, perguntando-lhes, sorrindo, o que devia
fazer.
Ambos, Francisco e Cristina, concordaram em que os alojassem no solar.
O Sr. Nancé aconselhou Paulo a que casasse e lhes trouxesse a mulher, que ficaria a
viver em Nancé sempre, se ela quisesse. Ele e Francisco ofereciam-lhe como presente de
noivado um rendimento de três mil francos.
A felicidade de Paulo foi completa e um mês depois apresentava a juvenil esposa aos
seus amigos.
O Sr. Ormes, embrutecido, morreu de repente, alguns anos depois do casamento de
Cristina. Quanto à mulher, velha e mais feia do que nunca, continua a imaginar-se nova e
bonita. Arruinada pela vida que levava, passa agora uma vida desgraçada de miserável.
A Sr. Guilbert veio um dia a Nancé participar o casamento de sua filha Helena com
Adolfo. Foi um triste enlace. Helena só gostava de bailes, de concertos, de teatro; Adolfo era
inveterado jogador; tendo perdido metade da fortuna, bateu-se em duelo e morreu do
ferimento recebido.
Cecília desposou um banqueiro que lhe trouxe dinheiro, mas a tornou infeliz pelo seu
caráter brutal e arrebatado.
Gabriela casou com um juvenil deputado muito inteligente e bondoso.
Bernardo não casou, preferiu auxiliar o pai no amanho das terras, dedicando-se também
à pintura e à música.
Certo dia em que Cristina lhe falou da vida que ele levava e que se lhe afigurava
bastante isolada, respondeu:
— Cristina, vivo e hei de morrer sozinho. Quando te conheci, no nosso regresso da
Madeira, pensei que seria feliz se encontrasse uma rapariga parecida contigo; mas, como não
a encontrei, resolvi ficar solteiro.
Cristina abraçou-o como única resposta e participou a Francisco e ao Sr. Nancé a
explicação de Bernardo, que ficou sendo ainda mais estimado.
Isabel ficou e ainda se conserva em casa dos seus meninos, como ela Lhes chama e que
a enchem de atenções e carinhos.
Quanto a Cristina e Francisco, não se cansaram da sua ventura. Vontades, gostos e
desejos são sempre iguais.
A Sra. Sibran morreu pouco tempo depois do falecimento de Maurício; quanto ao
marido, com remorsos pela educação que dera aos filhos, fez-se frade.
Mina entrou para o serviço de uma princesa valáquia, com a promessa de bom
ordenado. Sendo, certo dia, surpreendida pelo príncipe a bater numa das filhas, aquele fê-la
agarrar e castigar com vergastadas e de tal maneira, que esteve um mês no hospital. Depois de
curada, quis despedir-se, mas o príncipe reteve-a à força e obrigou-a a retomar o serviço e não
se passa um mês sem que seja punida pelos arrebatamentos que de todo em todo não consegue
reprimir. Como vive numa terra longe da civilização, está à mercê do príncipe e não pode sair
de lá. A maldade encontra-se assim justa e terrivelmente castigada.

Fim