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Davison Hugo Rocha Alves

Thiago Broni de Mesquita


(Org.)

As crises da República e
o ensino de História:
a democracia brasileira
em questão
X Simpósio Regional de História

(Belém, 28 a 30 de novembro de 2016)


As crises da República e o ensino de História:
a democracia brasileira em questão
- X Simpósio Regional de História -
Realização: ANPUH/SEÇÃO PARÁ
(Belém, 28 a 30 de novembro de 2016)
Davison Hugo Rocha Alves
Thiago Broni de Mesquita
(Org.)

As crises da República e o ensino de História:


a democracia brasileira em questão
- X Simpósio Regional de História -
Realização: ANPUH/SEÇÃO PARÁ
(Belém, 28 a 30 de novembro de 2016)

Belém- 2017
H
PU
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
AN
S621

Simpósio Regional de História ANPUHA-Pará (10. : 2016 : Belém, PA)


Anais do X Simpósio de História Anpuha-seção Pará : as crises da
República e o ensino de história : a democracia brasileira em questão / organização
Davison Hugo Rocha Alves , Thiago Broni de Mesquita. - 1. ed. - Belém [PA] : Paka-
Tatu, 2017.
recurso digital ; 8 MB

Formato: epdf
Requisitos do sistema: adobe acrobat reader
Modo de acesso: world wide web
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-7803-370-5 (recurso eletrônico)

1. Democracia - Brasil - Congressos. 2. Livros eletrônicos. I. Alves, Davison Hugo


Rocha. II. Mesquita, Thiago Broni de. I. Alves, Davison Hugo Rocha. II. Mesquita,
Thiago Broni de.

17-44977 CDD: 321.8


CDU: 321.7

27/09/2017 28/09/2017
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO .......................................................................................................................... 13

FILIPPE PATRONI: INDEPENDENTISTA, ABOLICIONISTA


E REPUBLICANO. HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA ........................................................... 15

H
José Alves de Souza Junior
Faculdade de História/UFPA

A “INVISIBILIZAÇÃO DOS CABOCLOS”: O PENSAMENTO PSEUDORRACISTA


OITOCENTISTA E O PROJETO REPUBLICANO NA AMAZÔNIA .................................... 31
Karl Heinz Arenz
PU
Faculdade de História/UFPA

ARTE XAMÂNICA NA AMAZÔNIA PRÉ-COLONIAL .......................................................... 45


Luis Paulo dos Santos de Castro (UEPA)

PRIMEIRA DENTIÇÃO OU ESTÔMAGO DE AVESTRUZ:


NOTAS SOBRE O ECLETISMO POLÍTICO, IDEOLÓGICO E ESTÉTICO
DA PRIMEIRA FASE DA REVISTA DE ANTROPOFAGIA .................................................... 57
Heraldo Márcio Galvão Júnior (Unifesspa)
AN
HISTÓRIA ORAL E PATRIMÔNIO: A MEMÓRIA INSCRITA NAS RUAS,
PRAÇAS E MONUMENTOS DE XINGUARA/PA .................................................................... 65
Heraldo Márcio Galvão Júnior (Unifesspa)

AMAS DE LEITE NOS JORNAIS DE BELÉM DO GRÃO-PARÁ DO


SÉCULO XIX: ALIMENTAÇÃO, SAÚDE E LITERATURA MÉDICA ................................. 77
Damiana Valente Guimarães Gutierres (Universidade Federal do Pará)

PLANTAS, GÊNEROS E OBSTÁCULOS: RAZÕES SOCIAIS E


RELIGIOSAS PARA O USO DE PLANTAS DE TERREIRO PELAS
COMUNIDADES TRANS E TRAVESTI ..................................................................................... 89
Júlio Ferro Silva da Cunha Nascimento

O HOMEM (TRANS) COMO SUJEITO HISTORIOGRÁFICO:


VIVÊNCIA, TRAJETÓRIA E LUTA ........................................................................................... 95
Júlio Ferro Silva da Cunha Nascimento
A DESCRIÇÃO HISTÓRICA, GEOGRÁFICA E ETNOGRÁFICA
DO RIO CAPIM FEITA POR JOÃO BARBOSA RODRIGUES .............................................. 105
HISTORICAL DESCRIPTION, GEOGRAPHIC AND ETHNOGRAPHIC
THE CAPIM RIVER MADE BY JOÃO BARBOSA RODRIGUES
Cláudio Lísias Moreira Ximenes
Álvaro Augusto Queiroz Costa
Alan Watrin Coelho

A PAISAGEM DO ITACAIÚNAS EM DOIS TEMPOS: UMA ANÁLISE DOS


DIÁRIOS DE VIAGEM DE CUNHA MATTOS E IGNÁCIO MOURA (1839-1910) .............. 123
Anna Carolina de Abreu Coelho

A IMPRENSA CATÓLICA: UMA ANÁLISE SOBRE A

H
QUESTÃO RELIGIOSA NO JORNAL A BOA NOVA ............................................................... 135
THE CATHOLIC PRESS: AN ANALYSIS OF THE RELIGIOUS QUESTION
IN THE BOA NOVA NEWSPAPER
Raynara Cintia Coelho Ribeiro

ENTRE POLOS: O EMBATE IDEOLÓGICO ENTRE


PU
COLLOR E LULA NAS ELEIÇÕES DE 1989 ............................................................................. 149
Andrey Ferreira Bastos

JORNAL MARABÁ: FACES DO BARATISMO NO SUDESTE


DO PARÁ (1945 E 1946) ................................................................................................................... 163
Aldair José Dias Carneiro

INCLUSÃO DE ALUNOS CEGOS EM AULA DE HISTÓRIA ................................................ 179


INCLUSION OF BLIND STUDENTS IN HISTORY CLASS
Tiese Rodrigues Teixeira Júnior
AN

FARQUHAR, O PORTO E A AVENIDA: UM BOULEVARD-CAIS ....................................... 187


Marcia Cristina Ribeiro Gonçalves Nunes (Universidade Federal do Pará –
Programa de Pós Graduação de História – Doutoranda)

O BOULEVARD-CAIS NA REPÚBLICA: UMA NOVA RUA COMERCIANTE ................. 203


Marcia Cristina Ribeiro Gonçalves Nunes (Universidade Federal do Pará –
Programa de Pós Graduação de História – Doutoranda)

ENTRE O NATURAL E O SOCIAL: O TRABALHO FEMININO ......................................... 217


ENTRE NATURAL Y SOCIAL: EL TRABAJO FEMENINO
BETWEEN THE NATURAL AND THE SOCIAL: THE FEMININE WORK
Gisély Damasceno Furtado
Francivaldo Alves Nunes
O RECONHECIMENTO DA IDENTIDADE CULTURAL POR MEIO
DA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA ................................ 233
THE RECOGNITION OF THE CULTURAL IDENTITY BY MEANS
OF HERITAGE EDUCATION: A REPORT OF EXPERIENCE
Carlos Eduardo Miranda da Conceição

TOMÉ-AÇU: DO RURAL PARA O URBANO SOB UMA PERSPECTIVA


ECONÔMICA E SOCIAL NAS DÉCADAS DE 1940-1980 ....................................................... 245
TOME-AÇU: RURAL TO URBAN IN AN ECONOMIC PERSPECTIVE AND
SOCIAL IN DECADES OF 1940-1980
Tatiane do Carmo

A VOZ E NOME: ESTRATÉGIA E IDENTIDADE DE TRABALHADORES

H
E IMPACTADOS PELA UHE DE ESTREITO – MA/TO 2007-2012 ....................................... 261
THE VOICE AND NAME: STRATEGY AND IDENTITY OF WORKERS AND
IMPACTED BY ESTREITO HYDROELECTRIC POWER PLANT - MA / TO 2007-2012
LA VOZ Y EL NOMBRE: LA ESTRATEGIA Y LA IDENTIDAD DE LOS TRABAJADORES
Y IMPACTADOS POR UHE ESTREITO - MA / A 2007-2012
PU
Cícero Pereira da Silva Júnior

CATALINEIROS: MILITARES DA AERONÁUTICA NA AMAZÔNIA (1960-1985) ........... 279


Carlos Eduardo dos Santos e Santos

CIRCUITOS DE FESTAS DE FÉ ................................................................................................... 293


FAITH FESTIVAL CIRCUITS
Decleoma Lobato Pereira

ENCONTROS ENTRE INFÂNCIA, MORAL E CIDADE NOS


DISCURSOS DA IMPRENSA VIGIENSE NA DÉCADA DE 1920 .......................................... 307
AN

MEETINGS BETWEEN CHILDHOOD, MORALITY AND CITY IN


THE SPEECHES OF VIGIENSE PRESS IN THE 1920S
José Renato Carneiro do Nascimento

DALCÍDIO JURANDIR E O GRUPO MODERNISTA


DA REVISTA TERRA IMATURA .................................................................................................. 313
DALCÍDIO JURANDIR AND THE MODERNIST GROUP
OF “TERRA IMATURA” MAGAZINE
Maíra Maia

MUDANÇA CULTURAL/MUSICAL NA COMUNIDADE


QUILOMBOLA DO MUMBUCA NO JALAPÃO, TO ............................................................ 327
CULTURAL / MUSICAL CHANGE IN THE QUILOMBOLA
COMMUNITY OF MUMBUCA IN JALAPÃO, TO
Marcus Facchin Bonilla (UFT/UFPA)
Sonia Maria Moraes Chada (UFPA)
AS RELAÇÕES ENTRE O CLERO E O ESTADO NA DÉCADA DE 1850:
AS CONTRADIÇÕES DE UM ULTRAMONTANISMO NO PARÁ ....................................... 341
RELATIONS BETWEEN THE CLERGY AND THE STATE IN THE 1850:
THE CONTRADICTIONS OF A ULTRAMONTANISM IN PARÁ
Kelly Chaves Tavares

MEMÓRIA DA GUERRILHA DO ARAGUAIA: RELAÇÕES DE


PODER NA COMUNIDADE INDÍGENA SURUÍ/AIKEWARA .............................................. 353
Paula Miranda Monteiro

POR UMA CIDADANIA MULTICULTURAL - A EXPERIÊNCIA


MUTIDISCIPLINAR DE ENSINO, PESQUISA EXTENSÃO NA
ESCOLA DE APLICAÇÃO DA UFPA, NO TRATO DAS RELAÇÕES

H
ÉTNICO-RACIAIS ........................................................................................................................... 369
Antônia Maria Brioso Tavares (Escola de Aplicação da UFPA)

MEMÓRIA DE MESTRES DO MIRITI:


NATUREZA, TEMPO E TRABALHO NA AMAZÔNIA ........................................................... 381
PU
Claudete do Socorro Quaresma da Silva (UFPA)

A CONTRIBUIÇÃO DA POSSE PARA O POVOAMENTO E


FORMAÇÃO DAS GRANDES FAZENDAS NA FREGUESIA
DE SÃO PEDRO DO FANADO DE MINAS NOVAS NO XIX ................................................. 391
THE CONTRIBUTION OF POSSESSION TO THE SETTLEMENT
AND FORMATION OF LARGE FARMS IN THE PARISH OF SÃO
PEDRO DO FANADO DE MINAS NOVAS IN THE XIX
Juliana Pereira Ramalho

IMAGEM, ETNICIDADE E SABERES INDÍGENAS ............................................................... 405


AN

Denise Machado Cardoso (Docente da Faculdade de Ciências Sociais – UFPA)


Letícia Cardoso Gonçalves (Graduanda em História - FIBRA/ Bolsista de Iniciação
Científica – RENAS/MPEG)
Irana Bruna Calixto Lisboa (Mestranda em Antropologia - UFPA/PPGSA/GEPI)

UM TEMPO, UMA PAISAGEM: OCUPAÇÕES, PAISAGENS


E USO DE RECURSOS NA SERRA LESTE DE CARAJÁS, PARÁ ....................................... 415
Tallyta Suenny Araujo da Silva

LUIZ BRAGA E MILTON HATOUM: FRONTEIRAS MÓVEIS ........................................... 427


Arcângelo da Silva Ferreira

O VALE TOCANTINO: OCUPAÇÃO E NAVEGAÇÃO NOS SETECENTOS .................... 439


Carlos Barbosa
TRABALHO BANCÁRIO: REFLEXÕES SOBRE GÊNERO, CLASSE E RAÇA .............. 459
BANK WORK: REFLECTIONS ON GENDER, CLASS AND RACE
Luciana Carlos Geroleti

RESISTENCIAS, ALFORRIAS E NEGOCIOS DO MUNDO DA ESCRAVIDÃO


NUMA FREGUESIA DO GRÃO-PARÁ OITOCENTISTA (1870-1882) ................................. 471
Roberta Conceição Tavares

DISCURSO, MEMÓRIA E NARRATIVA: O DESEJO DE CONSTRUÇÃO


DE IDENTIDADE EM PARAGOMINAS-PA .............................................................................. 485
Rayana Nadyr Lucena Callou

HISTÓRIA, MEMÓRIA E POLICIA MILITAR: OS ESPORTES E

H
A “VOLTA DA CIDADE CEL FONTOURA” EM BELÉM (1937-1975) ................................ 501
HISTORY, MEMORY AND MILITARY POLICE: THE SPORTS AND
THE “CEL FONTOURA CITY TOUR” IN BELÉM (1937-1975)
Itamar Rogério Pereira Gaudêncio (Academia de Polícia Militar “Cel Fontoura”
- Instituto de Ensino e Segurança do Pará)
PU
1964: GOLPE OU REVOLUÇÃO? A DISPUTA PELA MEMÓRIA
NAS PÁGINAS DO JORNAL O ESTADO DE S. PAULO ......................................................... 515
1964: COUP OR REVOLUTION? THE CONTEST FOR THE MEMORY
PAGES OF THE NEWSPAPER O ESTADO DE S. PAULO
Cássio Augusto Guilherme

CASCA DE CRAVO, ÓLEO DE COPAÍBA E RAIZ DE SALSAPARRILHA:


ESPECIARIAS AMAZÔNICAS EM TRATADOS MÉDICO-BOTÂNICOS
DA EUROPA (SÉC. XVII E XVIII) ................................................................................................ 529
Karl Heinz Arenz (UFPA)
AN

GOVERNOS MILITARES E O PROJETO DE INTEGRAÇÃO


NACIONAL: O MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES NAS PÁGINAS
DO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO (1967-1974) ................................................................. 543
Rafael Patrick Flores
Edvaldo Correa Sotana

TRABALHO E MODERNIZAÇÃO: BELÉM DA BORRACHA


E A RESISTÊNCIA DOS TRABALHADORES, 1900-1907 ....................................................... 559
Sérgio da Silva do Nascimento

DAS NOVIDADES TÉCNICAS: BORRACHA, CIÊNCIA, POLÍTICA E


A REPRESENTAÇÃO PARAENSE NA EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL
DA INDÚSTRIA E DO TRABALHO EM TURIM (1911) .......................................................... 577
Anna Raquel de Matos Castro
BARÃO NA ESTRADA DE NAZARÉ: O ESTUDO DE CASO DE
UMA AÇÃO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL NA E.E.E.I.F. BARÃO
DO RIO BRANCO – BELÉM PARÁ ............................................................................................. 595
Patrícia Carvalho Cavalcante
Raimundo Justiniano do Carmo Neto

“FOI NO BAIRRO DO JURUNAS”: ESTUDO DE CASO DE UMA


AÇÃO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E DE MAPEAMENTO
CULTURAL NA E.E.M HONORATO FILGUEIRA – BELÉM, PA ........................................ 609
Ângela Sánchez Leão
Raimundo Justiniano do Carmo Neto

A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL NA IMPRENSA PARAENSE:


CIDADE E COTIDIANO (1914-1918) ........................................................................................... 621

H
Aline Luiza Fernandes Gomes

“O MAIOR RIO DO ORBE”: O RIO AMAZONAS E A COLONIZAÇÃO


AQUÁTICA DA AMAZÔNIA PORTUGUESA ........................................................................... 635
Elias Abner Coelho Ferreira
PU
(IN)VISIBILIDADE RELIGIOSA: O USO DE IGREJAS
EVANGÉLICAS COMO ESPAÇO DE SOCIABILIDADE
POR HOMOSSEXUAIS NA CIDADE DE BELÉM-PA ............................................................. 651
Alan Silva de Aviz
Orientador: Prof. Dr. Fabiano de Souza Gontijo

REPRESENTAÇÕES DA AMAZÔNIA NA REVISTA INFANTIL O TICO TICO:


ENSINO E PESQUISA EM HISTÓRIA, ENTRE TEXTOS E IMAGENS ............................. 665
Isadora Bastos de Moraes (Mestranda do programa de pós-graduação
AN
em História Social da Amazônia Universidade Federal do Pará)

UM SONHO DE LIBERDADE: ESCRAVIDÃO, RESISTÊNCIA E A


FORMAÇÃO DE QUILOMBOS EM OURÉM DO GRÃO-PARÁ (1778-1823) ................... 675
A DREAM OF FREEDOM: SLAVERY, RESISTANCE AND THE FORMATION
OF QUILOMBOS IN OURÉM DO GRÃO-PARÁ (1778-1823)
Rozemberg Ribeiro de Almeida
Universidade Federal do Pará

TRILHAS COTIDIANAS: ESCRAVIDÃO NEGRA EM SANTARÉM (1860-1888) ............ 691


Maria Elizabete Carmo da Silva (Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA)

A FORMAÇÃO DO CAMPESINATO CABOCLO


NA AMAZÔNIA DOS OITOCENTOS .......................................................................................... 701
THE FORMATION OF CABOCLO PEASANTRY
IN THE AMAZON OF THE EIGHT HUNDREDS
Rebeca S. Nunez Lopes
ENTRE CARTAS E JORNAIS: O CONFLITO DE CANUDOS
E A CONSTRUÇÃO DO MEDO .................................................................................................... 715
Daniel da Silva Costa (Centro Universitário AGES)

SEMEANDO A CIVILIZAÇÃO: DIVERGÊNCIAS EM TORNO


DA INSTALAÇÃO DA ESTRADA DE FERRO DE BRAGANÇA
NOS FINAIS DO SÉCULO XIX ..................................................................................................... 735
Franciane Gama Lacerda (UFPA)

OS RASTROS DEIXADOS PELO CRIME: UM ESTUDO DO PERFIL DAS


MULHERES DEFLORADAS NA COMARCA DE SANTARÉM-PA (1880-1940) ................ 745
Andrecy Nancy (Universidade Federal do Oeste do Pará)

H
HISTÓRIAS DA EDUCAÇÃO NA AMAZÔNIA:
O INSTITUTO SANTANA E AS IRMÃS VICENTINAS DA CARIDADE
NO MUNICÍPIO DE IGARAPÉ-MIRI (PA) .................................................................................. 765
Ernane de Jesus Pantoja Neto (UFPA)
Jadson Fernando Garcia Gonçalves (UFPA)
PU
“CRIMES CABANOS” NA REGIÃO DO BAIXO TAPAJÓS:
ANÁLISE DE FONTES DOCUMENTAIS DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA
DO ESTADO DO PARÁ – FÓRUM DE SANTARÉM (1835-1840) .......................................... 779
Fabíola Caroline Siqueira Araújo
Universidade Federal do Oeste do Pará

OS TRILHOS E O DISCURSO DO PROGRESSO EM MANAUS (1889 a 1930) ................. 797


Wanderlene de Freitas Souza Barros (UFAM – Universidade Federal do Amazonas)

CAPITANIA DO GRÃO-PARÁ E AS CAPITANIAS DO BRASIL:


AN

CONEXÕES A PARTIR DE MOBILIZAÇÕES INDIGENAS E MILITARES


PARA DEFESA NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XVIII ............................................. 813
Wania Alexandrino Viana (Instituto Federal do Pará-Campus/Breves)

PROFESSORES EM CONSTRUÇÃO - A IMPORTÂNCIA


DO PIBID NA FORMAÇÃO DOCENTE EM HISTÓRIA ........................................................ 827
Leandro Tavares Furtado (UNAMA)
Sabrina Gomes de Oliveira (UNAMA)
Taynara Nacly Abenassiff Azevedo (UNAMA)

PIBID-HISTÓRIA-UFOPA: EXPERIÊNCIAS SOBRE O


TRABALHO COM PATRIMÔNIO MATERIAL E IMATERIAL
NO ENSINO FUNDAMENTAL EM SANTARÉM-PA ............................................................... 837
Gabriel Augusto Wanghan da Silva (UFOPA)
Verônica Lima da Silva (UFOPA)
CONSCIÊNCIA NEGRA: UM OLHAR PARA AS MULHERES
DO SÉCULO XIX AO XXI .............................................................................................................. 849
Otávio Vítor Vieira Ribeiro (UFPA)
Amanda Danniely Proença Gonçalves (UFPA)

A EXPERIÊNCIA DISCENTE NO ESTÁGIO SUPERVISIONADO III:


NARRATIVAS DA REGÊNCIA NA ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO
FUNDAMENTAL E MÉDIO PROFª. TEREZINHA DE JESUS RODRIGUES,
SANTARÉM – PA .............................................................................................................................. 863
Andrecy Nancy
Fabíola Caroline Siqueira Araújo
Universidade Federal do Oeste do Pará

A DISCIPLINA ESTUDOS AMAZÔNICOS:

H
OS LIVROS DIDÁTICOS E O SABER ESCOLAR ................................................................... 881
Davison Hugo Rocha Alves

AVANÇOS E LIMITAÇÕES NO CAMPO DA EDUCAÇÃO NA


LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL EM CONTEXTO DE DEMOCRACIA
PU
NO BRASIL: DO CAPÍTULO III DA CF/88 E LEI 9.394/96 AOS
DESAFIOS NO ENSINO DE HISTÓRIA NO CENÁRIO ATUAL .......................................... 893
ADVANCES AND LIMITATIONS IN THE FIELD OF EDUCATION IN
EDUCATIONAL LEGISLATION IN THE CONTEXT OF DEMOCRACY
IN BRAZIL: FROM CHAPTER III OF CF / 88 AND LAW 9.394 / 96 TO THE
CHALLENGES IN TEACHING HISTORY IN THE CURRENT SCENARIO.
Tullyo Robson Furtado Lobato (Universidade Federal do Pará - UFPA)

ENSINO DE HISTÓRIA E PATRIMÔNIO: BREVES REFLEXÕES


SOBRE PATRIMÔNIO IMATERIAL EM SALA DE AULA .................................................... 907
AN
Renato Miranda da Silva
Layane de Souza Santos

A AMAZÔNIA E A DITADURA MILITAR SOB OS OLHOS


DA GRANDE IMPRENSA .............................................................................................................. 925
Camila Barbosa Monção Miranda (PPGH-UFAM)

REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA NA CIDADE DE BELÉM:


HISTÓRICO, AVANÇOS E DESAFIOS ........................................................................................ 939
Edivania Santos Alves – Doutora em Sociologia (PPGSA/UFPA).
Secretaria Estadual de Educação (SEDUC) e Escola Superior Madre Celeste (ESMAC)

O RECONHECIMENTO DA IDENTIDADE CULTURAL POR MEIO


DA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA ................................ 955
THE RECOGNITION OF THE CULTURAL IDENTITY BY MEANS
OF HERITAGE EDUCATION: A REPORT OF EXPERIENCE
Carlos Eduardo Miranda da Conceição
NATUREZA E ENSINO DE HISTÓRIA EM ANANINDEUA ............................................ 971
NATURE AND HISTORY TEACHING IN ANANINDEUA
Victória Emi Murakami Vidigal
Wendell Presley Machado Cordovil
Wesley Oliveira Kettle

OS MILITARES E A LEI DOS ARQUIVOS NA DÉCADA DE 1990 ................................... 983


Ronaldo Almeida Carneiro (UFPA, Mestrando)

A LUTA PELA POSSE DA TERRA NA AMAZÔNIA


CONTEMPORÂNEA: RESISTÊNCIA DOS TRABALHADORES
RURAIS DO BAIXO TOCANTINS E SEUS CONFLITOS COM
O ESTADO E A LEGISLAÇÃO AGRÁRIA DO PARÁ (1961-1981) ..................................... 991

H
Adriane Dos Prazeres Silva
PU
AN
13

Apresentação

Apresentamos os anais do X Simpósio Regional de História da ANPUH-Pará


que teve como tema “As crises da República e o ensino de História: a democracia
brasileira em questão” e ocorreu em Belém no período de 28 a 30 de novembro de
2016. Nesta edição pretendemos debater a construção de uma cultura política
fragilizada, que caminha para uma polarização semelhante a que ocorreu no Brasil antes
do golpe civil-militar de 1964. As conferências e mesas redondas discutiram a
conjuntura política decorrente da crise institucional que se instalou no Brasil desde as
manifestações de junho de 2013, quando diversos setores da sociedade começaram a
reivindicar mais direitos, o combate sistemático da corrupção e colocaram em xeque a
democracia representativa e o sistema presidencialista de coalizão brasileiro. Tais
questões foram discutidas com foco na questão do ensino de História e suas relações
com temas sensíveis e lugares de consciência no Brasil contemporâneo.

Queremos com isso apresentar reflexões que os historiadores e professores de


História podem fazer na sala de aula e fora dela sobre o recente processo traumático que
foi a ditadura militar brasileira e suas leituras no século XXI, especificamente no que
diz respeito às manifestações ocorridas entre março de 2013 a março de 2016. Esta é
ainda uma oportunidade de levar professores, alunos da educação básica e historiadores
a debaterem sobre os direitos humanos no Brasil. Essa reflexão norteou os trabalhos do
X Simpósio Regional de História, promovido pela ANPUH-Pará, em parceria com a
Universidade Federal do Pará (Campus Universitário do Guamá e o Campus
Universitário de Ananindeua), Faculdade de História (FAHIS/Belém), Programa de
Pós-graduação em História Social da Amazônia (PPHIST/UFPA), o mestrado
profissional em Ensino de História (Prof. História-UFPA Ananindeua). O nosso evento
contou com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq).

O evento deveria ser realizado na Universidade Federal do Pará (Campus Guamá


– Belém), mas em virtude da ocupação promovida pelos estudantes universitários a
partir do dia 07 de novembro de 2016, destinada a protesta e tentar barrar a tramitação
da PEC 55, e outras medidas do governo Michel Temer, foi realizado na Universidade
14

da Amazônia (UNAMA – campus Senador Lemos). A diretoria da ANPUH seção Pará


agradece à UNAMA pelo apoio ao evento, inclusive pela isenção de custos.

Nessa edição foram apresentadas 33 propostas de Simpósios Temáticos, dos quais 70


trabalhos completos foram aprovados neste livro e-book reunindo cerca de 290
comunicações orais de profissionais da área de História e áreas afins, além de trabalhos
de alunos da graduação e pós-graduação de História, o livro-ebook também tem 2
trabalhos completos que foram apresentados em mesas redondas durante o
evento. Contamos com o apoio de todas as universidades públicas do estado do Pará
(Ufopa, Unifesspa, Uepa e da Ufpa-Bragança). O evento teve uma diversificada
participação de trabalhos inscritos nos diversos simpósios, por exemplo, debates sobre
aspectos específicos do ofício do historiador por meio de seus grupos de pesquisas, bem
como a realização de debates ocorridos em torno da prática pedagógica do professor de
História. O livro em formato e-book que apresentamos possui 72 trabalhos completos
que foram apresentados nos simpósios temáticos e mesas redondas sobre diversos
temas.

Belém, 8 de agosto de 2017


Profa. Dra. Edilza Joana Oliveira Fontes
Presidente da ANPUH-Pará (2015-2016).
Professora do PPHIST-UFPA.
Coordenadora do ProfHistória-Ananindeua/UFPA.
15

Filippe Patroni: independentista, abolicionista e republicano. História e


Historiografia

José Alves de Souza Junior


Faculdade de História/UFPA

Resumo
Fillipe alberto Patroni Martins Maciel Parente, paraense, estudante de Direito na Universidade de
Coimbra desde 1816, onde entrou em contato com o ideário libeal português, viu, quando da
eclosão da Revolução Constitucionalista do Porto de 1820, a oportunidade de realizar o projeto de
se tornar uma figura política importante no Grão-Pará, ou como deputado extraordinário nas Cortes
de Lisboa, ou como membro da Junta de Governo instalada após o Movimento de 1º de Janeiro de
1821, que proclamou a adesão da província ao constitucionalismo português. Sua atuação política
produziu uma memória que foi transformada em história por uma historiografia que remonta ao
século XIX, chegando ao século XX. É sobre essa relação entre memória e história que este
trabalho pretende tratar.

Palavras-chave: Fillipe Patroni, memória, história, historiografia

Filippe Patroni: independence, abolitionist and republican. History and


Historiography
Abstract
Fillipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, a student of Law at the University of Coimbra
since 1816, where he came into contact with the portuguese liberal ideology, saw, at the outbreak of
the Constitutionalist Revolution of the Port of 1820, the opportunity to carry out the project to
become an important political figure in Grão-Pará, or as an extraordinary deputy in the Cortes of
Lisbon, or as a member of the Government board after the January 1, 1821 Movement, which
proclaimed the province's adherence to portuguese constitutionalism. Its political action produced a
memory that was transformed into history by a historiography that goes back to century XIX,
arriving at century XX. It is about this relationship between memory and history that this work
intends to deal with.
Key words: Fillipe Patroni, memory, history, historiography

Filippe Patroni: independencia, abolicionista y republicano.


Historia e Historiografía

Resume
Fillipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, Pará, un estudiante de derecho en la Universidad de
Coimbra desde 1816, donde entró en contacto con las ideas libeal portugués vio cuando el estallido
16

de la Revolución Constitucionalista de Porto de 1820, la posibilidad de realizar el proyecto


convertirse en una importante figura política en el Gran-Pará, o como adjunto extraordinario en las
Cortes de Lisboa, o como miembro de la junta de gobierno instalado después de que el Movimiento
del 1 de enero de 1821, que proclamó la adhesión de la provincia a constitucionalismo portugués.
Su acción política produjo una memoria que se ha transformado en la historia por una historiografia
que se remonta al siglo XIX, llegando hasta el siglo XX. Es esta relación entre la memoria y la
historia que este trabajo va a tratar.

Palabras clave: Fillipe Patroni, la memoria, la historia, la historiografía

Apesar do reduzidíssimo tempo em que permaneceu no Pará, entre 1820 e 1823, Filippe
Patroni foi consagrado pela historiografia amazônica, ora positiva ora negativamente em diferentes
interpretações, como o principal protagonista e/ou mentor dos eventos lá ocorridos nesse período,
os quais tiveram início com a proclamação do constitucionalismo português, a 1º de janeiro de
1821. Visto como introdutor do ideário vintista na Capitania, teria sido responsável pela
disseminação de ideais independentistas e abolicionistas, através de escritos publicados na imprensa
portuguesa e no jornal “O Paraense”, por ele fundado em Belém, ou de panfletos e pasquins
anônimos que circulavam pela cidade, cuja autoria lhe era atribuída.

O primeiro trabalho historiográfico acerca de tais acontecimentos foi publicado em 1829,


com o título “Compêndio das Eras da Província do Pará”, de autoria de Antonio Ladislau Monteiro
Baena. Nele, Baena pretendeu narrar os fatos ocorridos no Pará, entre 1615 e 1823, com a intenção
de perpetuar a obra colonizadora desenvolvida pelos portugueses no Norte do Brasil. Português de
nascimento, chegou à Capitania em 1803, na qualidade de Ajudante de Campo do Governador e
Capitão-General D. Marcos de Noronha, Conde dos Arcos. Embora não se encontrasse em Belém
quando do Movimento de 1º de janeiro de 1821, Baena o descreveu como alguém que tivesse
participado ativamente dele, registrando o seguinte comentário sobre Patroni:

Patroni que sempre se moveu debaixo de maos principios reguladores das suas
faculdades intellectuais, largou a votiva carreira dos seus estudos da Jurisprudência
Civil para também figurar na melindrosa e arriscada scena política, que se havia
aberto em Portugal: fallou e incumbio-se de estender por meios immoraes e
insidiosos a insurreição nacional à Província do Pará, que vivia em seo socego
usado sem embargo que lhe fossem odiosos os procedimentos illegaes e
arbitrários do Governo Provisional, e sem disposição alguma na generalidade se
seos habitantes para tomar parte em revoluçoens sediciosas: e conseguio unir um
ranchinho de promotores do novo Systema Constitucional, os quaes logo cuidarão
de alliciar e athrair ao seo intempestivo e perfido projecto João Pereira Villaça e
Francisco Rodrigues Barata, ambos Coronéis Comandantes, um do Primeiro
Regimento de Infantaria de Primeira Linha, e o outro do Segundo (1970, p. 319 e
320).
17

O recurso a uma história e a um tempo sempre iguais possibilitou a Baena atribuir a Patroni
um lugar privilegiado nos acontecimentos e uma forma repetitiva de atuação - “sempre se moveu
debaixo de maos princípios reguladores das suas faculdades intellectuais”-, caracterizando-a como
irresponsável, mal intencionada, efetivada por meios vis, o que confirmaria, segundo o autor, as
dúvidas acerca de sua integridade mental. Vale ressaltar que o halo de loucura com o qual Baena
envolveu a figura de Patroni, com a intenção de comprometer o valor dos seus escritos e da sua
prática política, foi retirado de uma “denúncia” encaminhada a Junta Provisória do Governo do
Grão-Pará por José Ribeiro Guimarães, em novembro de 1821, contra a agitação política que por
ele teria sido promovida na Província. No texto da “denúncia” já são encontradas expressões do tipo
“esquentada imaginação, que, tentando traduzir o seu inquieto comportamento, acabaram por
colocar dúvidas sobre sua sanidade mental.

Alicerçado na concepção da história dos personagens, considerados como promotores dos


acontecimentos e de mudanças, Baena atribuiu à ação de Patroni um poder desestabilizador da
ordem provincial, opondo-a à falta de disposição generalizada dos seus habitantes em tomar parte
em revoluções sediciosas e à unidade de pensamento existente nas hostes militares, já que havia
conseguido “alliciar e athrair ao seu intempestivo e perfido projecto” apenas alguns de seus
membros. Baena enfatiza a ambição política de Patroni, que, não conseguindo convencer a Junta
Provisória a nomeá-lo como deputado provincial extraordinário às Cortes de Lisboa,

trata de ser menos largo em língua, de medir os termos e adoçar os comprimentos.


Com reptil lisonja, complacencias e assiduidades solicita e obtém da mesma Junta
ir com o Alferes Miliciano Domingos Simões da Cunha em commissão a Lisboa
perante a Regencia de Portugal, e dar-se-lhe uma ajuda de custo (1970, p 323).

Quando da prisão dos Irmãos Vasconcelos, ao chegarem em Belém provenientes de Lisboa,


sob a acusação de propagarem idéias independentistas constantes em documentos anônimos
trazidos de Portugal, Baena, ao narrar o fato, denunciou Patroni como o autor desses documentos,
considerando-o “como o primeiro Cabeça ou Demagogo da revolução, a qual este filantropo de
caráter nimiamente vivo, pouco reflexivo, e amante de novidades, pretendia actuar com o auxílio da
escravatura” (BAENA, 1970, p. 328). Apropriando-se de termos utilizados pela Junta Provisória
nos documentos em que fazia menção a Patroni, Baena o acusava de pretender utilizar a escravaria
na revolução pela independência.

Fundamentou tal denúncia na existência de uma pretensa circular encontrada com os Irmãos
Vasconcelos que teria “na fronte por divisa duas mãos dadas uma branca e outra preta” e onde
Patroni recomendaria “que o esperassem porque brevemente vinha mudar a ordem das cousas”, e no
nº 10 do Indagador Constitucional, jornal editado em Lisboa, também encontrado em poder dos
referidos irmãos, Patroni havia publicado o seu plano para as eleições no Pará, propondo no artigo
18

10 que: “Um Deputado deverá corresponder a cada trinta mil almas, entrando neste número os
escravos, os quaes mais que ninguem devem ter quem se compadeça delles, procurando-lhes uma
sorte mais feliz, até que um dias se lhes restituão seus direitos”.

Essas eram, segundo Baena, provas mais que suficientes da extrema periculosidade de
Patroni, indivíduo cujas intenções malévolas dirigiam-se à desestabilização política da Província do
Grão-Pará, com o intuito de mergulhá-la num caos revolucionário, com vistas a separá-la de
Portugal. Para reforçar seus argumentos, Baena cita um trecho de um discurso dirigido por Patroni
às Cortes, onde evoca o nome de Thomas Penn: “Delaware he o rio que banha a bella Província
aonde o famoso Penn manteve os direitos da humanidade, não consentindo lá escravatura. Ah!
Quem me dera ser o Penn do Pará” (1970, p. 328).
Domingos Antonio Raiol publicou, em 1865, o primeiro dos cinco volumes que viriam a
constituir a obra “Motins Políticos ou História dos Principais Acontecimentos Políticos da
Província do Pará Desde o Ano de 1821 até 1835”. Segundo o próprio autor, com essa obra se
começaria “a dar publicidade à narração dos principais acontecimentos políticos da Província do
Pará (no) período mais importante da história política da província (...), quando nela se tornaram
mais freqüentes as convulsões populares, dirigidas quase sempre pelos agentes do poder público”
(1970, p. 7). Paraense de nascimento, o autor buscou recuperar os acontecimentos que, no seu
entender, faziam parte do processo de construção de uma identidade nacional no Pará e resgatar a
importância da atuação política de determinados personagens, modeladora dessa identidade. O
trabalho de Raiol enquadra-se dentro dos parâmetros historiográficos que nortearam as obras
produzidas pelos historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico Paraense e Brasileiro,
entre os quais o que atribuía ao historiador a tarefa fundamental de preservar a identidade nacional,
pelo domínio que tinha do passado.

Raiol dividiu sua obra em três partes: “a primeira compreende os sucessos ocorridos desde a
convocação das Côrtes Gerais em Portugal até a proclamação da independência do Brasil. A
segunda compreende os sucessos ocorridos desta época em diante até a abdicação de D. Pedro I. A
terceira, enfim, compreende os sucessos que tiveram lugar desde a revolução de 7 de abril até os
lutuosos dias de 1835” (1970, p. 07). Enfatizando seu desinteresse por glórias e recompensas, Raiol
alegava que o incentivo que o levou a escrever tal obra “foi o desejo de evitar que o tempo apagasse
a memória de acontecimentos tão graves como foram esses, que por muito tempo agitaram a
sociedade paraense” (RAIOL, 1970, p. 7) e ressaltava ser esta a primeira a tratar de tais assuntos.
Ao ressaltar o caráter pioneiro de sua obra, Raiol procurava apagar da memória a obra de Antonio
Ladislau Monteiro Baena, por não concordar com a versão por ele construída sobre os
acontecimentos. Apesar disso, e contraditoriamente, Raiol recorreu com freqüência à obra de
19

Baena, usando-a como banco de dados, por isso encontram-se inúmeras referências à ela em seu
trabalho.

É na primeira parte do texto, ao narrar os fatos relacionados à proclamação do Vintismo no


Pará, que o autor se refere a Filippe Patroni. Nas poucas páginas que lhe dedicou, dividiu sua
atuação política em duas fases: a primeira, iniciada com sua chegada a Belém a 10 de dezembro de
1820, após abandonar seus estudos de Direito na Universidade de Coimbra, na qual Patroni teria se
empenhado em divulgar os ideais vintistas na Província. Seu objetivo era o de levá-la a aderir ao
constitucionalismo português, beneficiando-se do projeto da Regeneração, na esperança de que isto
pudesse tirá-la da situação de obscurantismo e atraso secular em que se encontraria; a segunda, em
que Patroni, percebendo as intenções hostis das Cortes em relação ao Brasil no período em que
permaneceu em Lisboa como Procurador da Província do Pará, dedicar-se-ia a propagar ideais
independentistas. Nas palavras de Raiol:

Sempre que se convoca uma Assembléia Constituinte, apodera-se dos espíritos a


fagueira esperança de melhoramentos; e homem há, que aplaudem de ordinário as
inovações sem refletir muitas vezes nas suas conseqüências.
Felipe Alberto Patroni pensou que as Cortes seriam favoráveis aos seu país natal, e
deixando a Universidade de Coimbra, onde estudava, fêz-se de vela na mesma
galera Nova Amazonas; e chegado ao Pará, constituiu-se defensor do novo sistema
constitucional que a Metrópole pretendia estabelecer com o apoio dos portugueses,
por parecer dar seguras garantias às liberdades pátrias” (1970, p. 14 e 15).

Para o autor, o entusiasmo que tomou conta de Patroni quando da proclamação do


constitucionalismo em Portugal, levou-o a acreditar que isso poderia também significar progresso e
desenvolvimento para o Pará e a aderir irrefletidamente ao movimento, sem ter noção de suas
conseqüências. Raiol não faz qualquer referência às acusações de Baena de que a ação de Patroni
era movida por uma grande ambição política, que o levou a propor a Junta Provisória Provincial a
eleição de um deputado extraordinário as Cortes de Lisboa e a se insinuar como a pessoa talhada
para o cargo. Ao contrário, atribuiu a sua atuação à um sentimento eminentemente patriótico e
desinteressado. Embora acuse Baena de tendenciosidade, Raiol repõe os seus juízos de valor sobre a
ação de Patroni nos acontecimentos ocorridos no Pará, entre 1820 e 1823, mas dando-lhe um novo
significado.

Na opinião de Raiol, a desilusão com as intenções recolonizadoras das Cortes de Lisboa em


relação ao Brasil teriam convencido Patroni “de que nada havia que esperar da metrópole” e a
“começar a preparar os ânimos de seus conterrâneos para a grande obra da emancipação de sua
pátria” (1970, p. 19). Através da circular presumivelmente encontrada em poder dos Irmãos
Vasconcelos, cuja autoria Raiol não tem dúvida ser de Patroni, este concitava os paraenses a imitar
o exemplo dado por Pernambuco, em 1817, e prometia para breve o seu regresso. Assinala o autor
20

que, de volta a Belém, em janeiro de 1822, Patroni iniciou a publicação de “O Paraense” - o 1º


jornal editado na Província -, “no qual começou a fazer severa análise à administração dos negócios
públicos, esforçando-se por desenvolver certas opiniões políticas entre os seus conterrâneos,
opiniões por certo favoráveis ao regime livre dos povos, mas de alguma forma ameaçadoras do
sistema até então seguido pelos agentes do poder” (1970, p. 23).

Em “Adesão do Grão-Pará À Independência e Outros Ensaios”, publicado em 1922, João de


Palma Muniz, engenheiro e 1º Secretário do Instituto Histórico e Geográfico Paraense, procurou
resgatar a importância do processo de adesão do Pará à independência dentro do contexto nacional e
recuperar a verdade histórica dos acontecimentos. Palma Muniz acreditava que o tempo confere ao
historiador o domínio do passado, pois

um século depois dos acontecimentos, já icineradas as paixões coevas, extintos


também os interesses individuais, que sempre atuam para empanar o brilho da
verdade histórica, pode fazer-se serena narrativa dos fatos e isento comentário
sobre o que escreveram os autores contemporâneos; e à luz dos documentos
deixados pelos que intervieram, com amor ou forçosamente, nos acontecimentos,
estudá-los com imparcialidade, concatená-los e dar ao futuro historiador dos fatos
paraenses uma coletânea de documentos, que lhe permitam, sobre o período de
1820-1823, fazer exposição certa e crítica eficiente (1973, p. 16).

O autor propõe-se a privilegiar o “fato singular” ou “acontecimento”, pois considerava-o


como irrepetível e individual, e como agente criador de mudanças. Desse modo, os documentos,
considerados como espelhos da realidade, se transformam em prova inconteste dos fatos históricos,
cabendo ao historiador recolhê-los - já que nos documentos tais fatos se encontram de forma
transparente -, concatená-los numa cadeia linear de causalidade e efeito, para poder apresentá-los
numa síntese. A “imparcialidade” ou “objetividade” deve se constituir numa postura indispensável
do historiador, que quanto mais distante estiver dos acontecimentos, mais fiel será na sua narração.

O estudo de Palma Muniz inicia pelo Movimento de 1º de janeiro de 1821, considerado


como de fundamental importância no processo que culminou com a adesão do Pará à
independência, já que teria lançado a semente dos ideais independentistas, despertando a Província
de séculos de adormecimento. Segundo o autor:

... não se pode pôr em dúvida que as idéias do sistema constitucional vieram
desadormentar o povo do Grão-Pará, nas suas classes mais cultas, permitindo
desenvolverem-se os primeiros sintomas do nativismo, que logo tendeu para a
conquista dos postos da administração pública, pretendendo a exclusão do
elemento reinol.
A semente então lançada germinou e produziu o fruto das idéias de independência,
em período relativamente curto, logo que a imprensa surgiu em conseqüência das
primeiras concessões libertárias(1973, p. 29).
21

Na opinião de Palma Muniz, o Movimento de 1º de janeiro de 1821 trazia em si,


potencialmente, o germe dos ideais emancipacionistas, na medida em que teria despertado a elite
local para questões prementes, como a do monopólio português dos cargos públicos. O autor
classifica os participantes do referido movimento em três espécies: os das idéias, os conspiradores e
os executores. Filippe Patroni foi enquadrado na primeira espécie, pois, apesar de ter sido o
principal propagador dos ideais vintistas no Pará, não teria tido participação ativa nos atos políticos
que consumaram a proclamação do constitucionalismo português na Província. Ao se referir ao
constitucionalismo difundido por Patroni no Pará, Palma Muniz afirma que, num primeiro
momento, não apresenta teor independentista, pois o projeto de Regeneração por ele concebido para
a Província estaria subjacente à permanência dos vínculos entre Brasil e Portugal, embora
reivindicasse igualdade de direitos para os portugueses dos dois hemisférios: “um só rei, uma só
Constituição para os reinos unidos do Brasil e Portugal” (1973, p. 18).

Quanto a tão propalada ambição política de Patroni, o autor afirma não ter encontrado na
documentação nenhuma prova “de haver esse patriota tentado fazer parte do governo interino da
Província”. Mesmo assim, ao se referir a carta enviada por Patroni ao Senado da Câmara, onde
sugeriu que “o Senado com a Junta Provisória convoquem as pessoas de caráter, e por uniforme
vontade se elejam vinte ou trinta eleitores, os quais com madureza e pensada deliberação escolham
um deputado, cujas qualidades devem ser “Ciência”, “Probidade”, “Religião” e mais de tudo Amor
a Pátria” - carta que para alguns historiadores evidenciaria as pretensões políticas de seu autor -,
Muniz não considera “que isso pudesse constituir um crime em um jovem talentoso, cheio de
esperança e de patriotismo, como o ilustre paraense, muito embora o seu temperamento ardoroso,
não refreado ainda pela experiência” (1973, p. 64 e 64).

Observa Muniz que a nomeação de Patroni para a função de Procurador dos interesses do
Pará junto as Cortes teria se constituído num fato decisivo para a evolução dos acontecimentos no
sentido da independência. Argumenta que:

a ida de Patroni para Lisboa concorreu para o apressamento da introdução da


imprensa em Belém, deu azo ao patriota de verificar quais as idéias predominantes,
em relação ao Brasil, nas Cortes Portuguesas, permitiu-lhe transformar as suas
idéias de constitucionalismo subordinado a Portugal em idéias de emancipação
política e independência; fê-lo regressar à sua pátria com tendências de realizar
uma revolução separatista (1973, p. 73).

É nesse sentido que, para Muniz, a atuação política de Patroni adquire relevância, já que
abriu caminho para o processo que integraria o Pará ao Império Brasileiro.

Depois de Palma Muniz, outros autores paraenses, sempre ligados ao Instituto Histórico e
Geográfico Paraense, produziram obras sobre os acontecimentos ocorridos no Pará, entre 1821 e
22

1823, recorrendo a sua obra e as de Baena e Raiol como banco de dados. Embora se propusessem a
reelaborar as interpretações dos três autores, na verdade repuseram-nas, cristalizando-as como
verdades históricas.

Em 1971, Vicente Salles publicou um estudo, intitulado “O Negro no Pará sob o regime da
escravidão”, em que pretendeu analisar a sociedade escravocrata do Norte do Brasil, a partir da
presença do negro “como força de trabalho, como fator étnico, como elemento plasmador da cultura
amazônica; o negro agindo e interagindo neste contexto - suas lutas e vicissitudes”. Em um breve
capítulo onde analisa a participação dos negros nas lutas sociais ocorridas na Província, Salles fez
algumas referências à atuação política de Filippe Patroni, procurando demarcar a distância entre sua
análise e as anteriores. Afirmou que a atuação política de Patroni, ao contrário da linearidade e
coerência que lhe tem sido atribuída nos trabalhos que precederam o seu, caracterizou-se por
inúmeras contradições, que acabaram por reduzir a sua importância nos acontecimentos históricos
dos quais participou. Ao mesmo tempo em que reconhece ter sido Patroni o primeiro a formular os
princípios ideológicos que nortearam a ação da facção nacionalista provincial, considera sua
atuação política “desastrosa”, “inconseqüente”, “individualista”, resultado de um oportunismo
político exacerbado, que o fazia separar o seu pensamento de sua ação. Observemos o que diz
Salles:

Patroni, na sua ação política, tinha qualquer coisa de caudilhesco, imperativo e


arbitrário. A causa era superior à sua personalidade. Assim foi fácil multiplicar os
sectários. Mas estes logo perceberam seu oportunismo e a liderança escapou do seu
controle...
Todavia, o jovem Patroni contribuiu com suas idéias para despertar, em outros,
uma consciência de luta. Dois fatos, pelos menos, merecem destaque: a carta que
enviou de Lisboa pelos Irmãos Vasconcelos, um documento realmente
revolucionário, e a fundação da imprensa no Pará... (1970, p 248).

A leitura do trabalho de Salles evidencia que sua proposta teórico-metodológica aponta para
a tentativa de utilização das categorias do materialismo histórico, o que o levou a adotar em sua
análise a perspectiva da luta de classes. No entanto, o tratamento esquemático dado pelo autor a
estas categorias, levou-o a repor freqüentemente explicações já recorrentes, como as que dissociam
idéia e ação, procedimento que transforma as idéias em entidades que, independentemente dos seus
autores, interferem na realidade histórica. É partindo dessa premissa que Salles afirmou terem as
idéias de Patroni contribuído para despertar, “em outros”, uma consciência de luta.

Em “Poder e Independência no Grão-Pará. 1820-1823”, de 1975, Mário Barata retomou o


tema da adesão do Pará à independência, “considerando que vários aspectos desse período
permanecem mal conhecidos, enquanto um impressionante acervo documental continua inédito nos
arquivos” (1975, p. 13). Assinalou o autor que, escrevendo sobre o período após a publicação das
23

grandes obras de Raiol e Palma Muniz, só lhe resta oferecer à historiografia brasileira “várias novas
contribuições, com o modesto mas possível passo a frente no conhecimento do passado, em relação
às obras fundamentais das gerações de cem anos ou de meio século atrás” (1975, p. 14). Isto, na
opinião do autor, se tornou possível pelo fato de ter, em suas pesquisas, encontrado “documentos
inéditos importantes para a compreensão do processo histórico estudado ou para a ratificação de
uma ou outra informação corrente na bibliografia existente ou para estabelecer a verdade entre
assertivas divergentes, em autores importantes” (1975, p. 13 e 14). Barata justificou a ampla citação
que faz de textos por ele compilados “diretamente de códices de arquivos”, afirmando que a
reprodução dos documentos no seu trabalho constituía-se em fator de fundamental importância,
porque “os documentos originais exprimem o fato histórico ao vivo” (1975, p. 16).

Barata iniciou seu estudo a partir do marco histórico consagrado pela historiografia - o
Movimento de 1º de janeiro de 1821. Ao analisar os antecedentes de tal movimento, o autor
assinalou que antes da chegada de Patroni a Belém, já se tinha conhecimento da Revolução do Porto
de 1820, sendo isso comprovado pelo Ofício nº 6, datado de 9 de novembro de 1820, do Governo
de Sucessão que substituiu o Conde de Vila Flor, Capitão-General da Capitania, a Tomás Antonio
Vilanova Portugal. No ofício, a Junta comunicava que “haverá um mês ou mais ou menos que se
soube aqui da insurreição de Portugal: era natural fazer esta novidade alguma impressão; assim
mesmo há algum sintoma que denote o poder ela alterar-se” (1975, p. 68).

Ao mencionar esse documento, o autor pretendia retificar “tudo o que até hoje os
historiadores da Independência e da Revolução Constitucionalista no Pará tem afirmado” (1975, p.
67), pois os mesmos consideram ser Patroni o difusor da notícia. Citando as afirmações feitas por
Raiol nos “Motins Políticos”, Barata confirmou a relevância do papel desempenhado por Patroni na
proclamação do Vintismo no Pará, cuja atuação foi um “elemento catalítico” para o desfecho do
movimento, mas acrescentou que a pregação ideológica feita por ele só produziu grande efeito
porque já havia na Capitania, antes da sua chegada, “um consenso nas próprias classes dirigentes
de que o fim do absolutismo e a mudança das instituições - mesmo moderada - se impunham para
garantir os indispensáveis direitos humanos, tornados conquista das nações civilizadas, desde o
século XVIII ao menos, e muito mais no albor do XIX” (1975, p. 70). Ao ver as coisas desse modo,
Barata homogeneizou as “classes dirigentes”, atribuindo-lhes unidade ideológica e de interesses -
contrárias ao absolutismo e imbuídas de ideais iluministas - esmaecendo possíveis divergências
políticas internas a essas “classes dirigentes” e conferindo à ação política de Patroni uma natural
coerência, despojando-a de qualquer conflito ou contradição. O autor conservou a pecha de loucura
lançada sobre Patroni por Baena, porém com uma leitura muito diversa daquela feita pelo mesmo,
assinalando que sua atuação política no Pará ocorreu no período em que ele estava “no esplendor de
24

suas qualidades de inteligência, que pouco a pouco infelizmente declinariam pela perturbação
mental” que o acometeria após 1835.

Em “Cabanagem. A Revolução Popular da Amazônia”, de 1986, Pasquale Di Paolo se


propôs a resgatar o sentido eminentemente popular do movimento, recorrendo, para isso, também às
categorias analíticas do materialismo histórico. Nesse sentido, afirma o autor que:

as inúmeras agitações urbanas ocorridas no Pará no século XIX, tiveram como


epílogo a Cabanagem, que, muito mais que um simples motim político, constituiu-
se numa sangrenta luta de classes, já que o caboclo paraense identificou na luta
armada um meio de reformulação das estruturas básicas da sociedade. A
Cabanagem é revolução por ter sido um movimento histórico de conquista do
poder pela base e pelo vértice-não-dominante, caracterizado pela ruptura com os
padrões vigentes e pela abertura para novos horizontes políticos e sociais (1986, p.
367).

Torna-se evidente que o autor quer encontrar no Movimento Cabano os indícios de uma
tentativa organizada de transformação da sociedade paraense pela base e, por isso, utiliza-se de
categorias marxistas, como “revolução”, “classe”, deslocando-as no tempo, destruindo sua
historicidade e procurando moldar a realidade estudada a elas. Desse modo, propõe-se Di Paolo a
fazer a “história do povo”, rompendo com aqueles que reduzem a história “a relatos -
excessivamente descritivos - que visam satisfazer a curiosidade ou homenagear determinados
personagens” (1986, p. 15). Esse tipo de historiografia é elitista, “pois ignora a “outra história”, a
história do povo” (1986, p. 15).

Ao analisar as lutas pela independência política e social da Amazônia, Di Paolo se referiu à


atuação política de Filippe Patroni, classificando-o de patriota idealista e assinalando que as
“grandes causas políticas de sua vida pública foram: independência, abolição e república” (1986, p.
89). Além de repor as imagens de independentista e abolicionista desenvolvidas pela historiografia
por ele denominada descritiva, episódica e laudatória, o autor criou mais um traço para a figura
histórica de Patroni: a de “republicano”.

Ângela Maroja Silveira publicou, em 1986, os primeiros resultados de sua pesquisa sobre o
ideário patroniano, num pequeno ensaio intitulado “O Pensamento Político de Filippe Patroni”, o
qual tem como objetivo maior a tarefa de tirar o pensamento político de Patroni do ostracismo a que
foi condenado pela historiografia das idéias políticas que constituíram o arcabouço ideológico
conformador do Estado Imperial Brasileiro. O trabalho de Silveira pode ser visto como uma
tentativa de desmontagem do discurso patroniano, procurando compreendê-lo por dentro, embora a
autora tenha concentrado seu interesse nas obras produzidas por Patroni no período posterior ao que
estamos tratando, e que contém idéias relacionadas à um outro contexto histórico, em que a
independência brasileira já era um fato consumado.
25

A propósito do halo de loucura que envolve a figura de Patroni, Silveira atribuiu ao próprio
personagem parte da responsabilidade, alegando ser ele resultado da utilização em seus discursos de
simbologias extravagantes, como a do fogo presente num discurso proferido por ele ante as Cortes
de Lisboa, em abril de 1821. Ao comentar o conteúdo ideológico desse discurso, a autora lhe
confere “ressonâncias iluministas”, considerando-o como repetidor de “uma tendência da época que
vemos aflorar no Discurso sobre as Ciências e as Artes de Rousseau ou nas Cartas Inglesas (Sobre
Descartes e Newton) de Voltaire”, tendência essa relacionada ao exercício do poder político por
aqueles “que falam em nome da “linguagem da razão” e da “voz da natureza” (1986, p. 06).

Segundo a autora, a dúvida sobre a integridade mental de Patroni já constava da


documentação oficial e constituía uma estratégia política das autoridades provinciais para
desacreditá-lo perante a opinião pública local, a fim de neutralizar o incômodo impacto que suas
idéias poderiam provocar. O interesse “do grupo que se instalou no poder após o Movimento de 1º
de janeiro de 1821, de alijar Patroni da vida política na Província” (1986, p. 07), viabilizou-se
através da sua nomeação para a função de Procurador dos interesses do Pará junto a Regência do
Reino, o que teria representado uma sutil deportação.

Na opinião de Silveira, “não é surpreendente que a figura de Patroni tenha sofrido tantas
deturpações e seu pensamento ficado tão esquecido. Não é novidade na história da crítica brasileira
prestigiar-se pensadores que não põem em risco a noção de continuidade histórica. Essa tendência
que entre nós tenta reduzir a história do Brasil a um processo pacífico, incruento, regado pelo
espírito político da “conciliação” (que soube inventar na Constituição de 1824 o Poder Moderador),
só poderia abafar um pensamento assistemático, contraditório e que já traz consigo um anarquismo
lavar como o de Patroni” (1986, p. 09).

“O Vintismo no Gão-Pará: Relações entre Imprensa e Poder (1820-1823)”, tese de


doutorado apresentada na Universidade Nova de Lisboa, em 1986, por Geraldo Mártires Coelho e
publicada em 1993, com o título Anarquistas, Demagogos e Dissidentes: a imprensa liberal no
Pará de 1822, constitui-se no trabalho mais recente sobre os fatos políticos ocorridos no Pará, entre
1820 e 1823. Conservando o Movimento de 1º de janeiro de 1821 como marco inicial do período, o
autor aponta como proposta do se trabalho:

o estabelecimento de algumas relações entre a processualidade inerente a esse fato,


as condições concretas nascidas com as projeções do discurso liberal da
Regeneração sobre a sociedade local, e o estabelecimento da imprensa no Grão-
Pará como materialização de um dos arquétipos dominantes nesse mesmo discurso
(1987, p. 91).

Na opinião do autor, a história da Amazônia, entre 1820 e 1850, insere-se num “processo
social e político fundado na transição da antiga ordem colonial para as novas condições ditadas pela
26

emancipação política do Brasil, e pela formação do Estado Nacional brasileiro” (1987, p. 92),
emancipação essa que teria representado uma mudança política, mas não estrutural, dada a
sobrevivência do compromisso com o passado colonial.

Foi nesse quadro que Coelho inseriu a atuação política de Filippe Patroni, procurando
contextualizar suas idéias e evidenciar os fundamentos teóricos que à matizavam. Acrescentando ao
arcabouço documental sobre o período documentos inéditos encontrados no Arquivo Ultramarino
de Lisboa, o autor rejeitou as interpretações que atribuem a Patroni ideais independentistas e
abolicionistas, e vê sua ação como produto da assimilação do discurso vintista e das contradições
geradas pela tentativa de aplicação dessas idéias, por ele reelaboradas, numa situação colonial. Para
Coelho, a adesão do Pará ao Vintismo português não resultou apenas do proselitismo político
desenvolvido por Patroni, mas, também, da conjuntura econômica, política e mental provincial, que
teria condicionado o reconhecimento pela pequena burguesia local do novo estado de
constitucionalismo instaurado em Portugal pela Revolução do Porto de 1820.

Essa conjuntura seria marcada pelo declínio econômico da Província - acelerado, a partir de
1808, com a vinda da Corte para o Brasil - pela sucessão de governos corruptos e autoritários, e pela
presença de uma “inteligentsia” conhecedora da ideologia iluminista, na sua expressão vintista.
Segundo Coelho, “a inteligentsia provincial já tinha conhecimento das matrizes da retórica vintista
(...) antes mesmo da Capitania reconhecer a instauração de um estado de constitucionalismo em
Portugal” (1987, p. 102). Acrescentou que, para Patroni, a proclamação do Vintismo no Pará não
representaria a quebra do vínculo entre a Província e a Metrópole, pois a transposição do projeto
regenerador português para o Pará só se viabilizaria com a conservação de tal vínculo.

Concluiu o autor que:

o discurso que (se) desenvolveu nos meios da pequena burguesia local não
comportava qualquer forma de “inconfidência” para com o poder metropolitano.
Em outras palavras, a ação arquitetada por Patroni contribuiu para que o Vintismo
fosse aceito pelos militantes políticos e pelos comandantes militares do Grão-Pará,
como procedimento necessário para que a Capitania, integrada por identidade de
objetivos com o constitucionalismo metropolitano, pudesse “regenerar-se” por
meio de mudanças que as idéias estruturantes do Vintismo apontavam serem
necessárias à economia e à sociedade (1987, p. 96).

Desse modo, embora pontue a distância de seu trabalho em relação aos anteriores,
considerando que o acesso a uma documentação inédita encontrada no Arquivo Ultramarino
Português lhe possibilitou uma melhor compreensão dos fatos, Coelho repõe a visão unifacetada do
processo político analisado, privilegiando uma das possibilidades por ele apontadas e um momento
da luta político-ideológica, em que uma fração da elite dominante acreditava ser a Regeneração a
solução para os problemas da Província do Pará. Em outras palavras, apesar de sua análise resgatar
27

a acirrada luta política pelo poder travada na Província, essa luta decorreria do fato de terem as
frações da elite dominante feito leituras diferentes do discurso vintista. Ou seja, o autor contemplou,
em sua análise, apenas um dos elementos do intrincado jogo político, no qual diversos projetos
foram sendo construídos, apontando para múltiplas possibilidades de resultado do processo
histórico.

Coelho enfatizou a condição de Patroni de introdutor da imprensa no Pará, com a publicação


do jornal “O Paraense” (1822), ressaltando que a instalação da imprensa na Província significava a
transposição do principal arquétipo do discurso vintista - a liberdade de expressão. Na visão de
Patroni e do próprio autor, a imprensa seria o componente que viabilizaria o seu projeto político de
assumir o poder no Pará. Sua proposta era de um governo “voltado para a criação de uma
administração esclarecida pelas “luzes” do tempo, razão pela qual a idéia de (levá-la) para o Grão-
Pará era inerente a esse projeto, e dizia respeito à necessidade de instrumentalizar a execução dessas
mesmas “luzes”, haja vista a posição que os vintistas conferiam à imprensa como parte necessária
da própria administração pública” (1987, p. 132 e 133).

Acrescentou o autor que a introdução da imprensa no Pará também não representou uma
simples “projeção mecânica do vintismo no norte do Brasil”, nem a “transposição linear das idéias
de 1820 para aquela Província de Portugal no Brasil”, mas

o produto organizado da forma pela qual Filippe Patroni assimilou as estruturas


ideológicas do vintismo, e como buscou materializar essas estruturas através da
síntese de sua própria processualidade - a palavra, veículo pelo qual a Regeneração
organizou e conferiu substância ao ideário burguês do progresso, da ciência, da
liberdade, da tolerância, em síntese, das “luzes” do século XVIII que
fundamentavam a visão de mundo dos liberais vintistas (1987, p. 165).

Na opinião de Coelho, o sentido eminentemente crítico imposto por Patroni à linha editorial
de “O Paraense”, conferindo à imprensa o papel de porta-voz da opinião pública na defesa dos
interesses da comunidade junto ao poder público, transformou o jornal em um espaço aberto à
crítica da administração provincial. Isto fazia com que, freqüentemente, aparecessem matérias que
questionavam a eficiência da gestão colonial na Província, fazendo com que as autoridades locais
atribuíssem ao seu editor ideais independentistas, vinculando-o ao projeto emancipacionista que se
desenvolvia nas províncias do Centro-Sul do Brasil.

As abordagens feitas sobre a participação de Patroni no processo que culminou com a


independência do Grão-Pará privilegiaram sua atuação à frente do Jornal O Paraense (entre março e
junho de 1822). Todavia, o momento mais elucidativo de seu desempenho individual aconteceu
antes, em 1821, quando participou das Cortes Portuguesas como representante (não oficializado) da
Junta Provisória de Governo, designada em janeiro de 1821, quando da proclamação da adesão da
28

Capitania ao vintismo. Ali Patroni demonstrou todas suas habilidades políticas, instrumentalizando
os recursos do discurso liberal no sentido da realização de um ambicioso projeto próprio - o de
tornar-se Governador do Pará. Foi nesse período que o impetuoso acadêmico descreveu, quando se
deu conta que seus planos haviam se frustrado, um percurso estonteante: de fiel defensor do
vintismo, foi, à medida que as Cortes também se tornavam mais conservadoras, com o retorno do
Rei a Portugal e o afastamento dos grupos liberais mais radicais, admitindo a hipótese de, no limite,
realizar a autonomia do Pará rompendo com Portugal, por meio de uma revolução da
independência.

Embora produzidas em tempos históricos diferentes, o que lhes atribui uma historicidade
que reflete o contexto em que foram escritas, as obras analisadas criticamente neste trabalho
repõem, de forma recorrente, a imagem produzida sobre Fillipe Patroni pelos documentos, cujos
autores, no calor da luta política travada no Grão-Pará na primeira metade do século XIX, foram
transformando Patroni num independentista, abolicionista e republicano. Essa memória foi
apropriada pela historiografia aqui comentada e transformada em história.

Apesar de se constituir no elemento a partir do qual o historiador constrói a sua explicação


sobre o passado recente ou remoto estudado e de se constituir num campo de luta, em função de
possibilitar múltiplas instrumentalizações políticas, a memória pode pregar peças aos historiadores,
caso não estejam atentos ao que ela representa: reminiscências, rastros do passado, com os quais
devemos estabelecer uma relação de estranhamento, já que foram produzidos em um tempo e em
um espaço diferentes dos do historiador.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BAENA, A. L. M. Compêndio das Eras do Pará. Belém: Editora da UFPa., 1970.


2. RAIOL, Domingos A. Motins Políticos. Belém: Editora da UFPa., 1970.
3. MUNIZ, João Palma. Adesão do Pará à Independência e outros ensaios. Belém: Conselho
Estadual de Cultura, 1973.
4. SALLES, Vicente. O Negro no Pará. Belém/Rio de Janeiro: UFPA./Fundação Getúlio
Vargas, 1971.
5. BARATA, Mário. Poder e Independência no Grão-Pará. 1820-1823. Belém: Conselho
Estadual de Cultura, 1975.
6. PAOLO, Pasquale Di. Cabanagem. A Revolução Popular no Pará. Belém: Conselho
Estadual de Cultura, 1986.
29

7. MAROJA, Ângela, O Pensamento Liberal de Filippe Patroni. Belém: Editora da UFPa.,


1986.
8. COELHO, Geraldo Mártires. Anarquistas, Demagogos e Dissidentes: a imprensa liberal no
Pará de 1822. Belém: Cejup, 1993.
30
31

A “invisibilização dos caboclos”: o pensamento pseudorracista oitocentista e o


projeto republicano na Amazônia
Karl Heinz Arenz

Faculdade de História/UFPA

Resumo

O projeto republicano, no intuito de levar a cabo a modernização do Brasil, com base na lógica
racional do positivismo, negou aos povos indígenas e às populações rurais de matriz ameríndia uma
participação ativa. Na Amazônia, região com a maior concentração de índio-descendentes, dentre os
quais os chamados “caboclos”, mas também cenário de uma das mais extensas expansões
econômicas no último quartel do século XIX, a marginalização desses últimos foi sistemática. O
pensamento pseudorracista, então em voga, e a manutenção do princípio tutelar na política
indigenista pela jovem República contribuíram para este processo de “invisibilização” que o
presente artigo se propõe a analisar.

Palavras-chave: caboclos, pseudorracismo, integração, República, Amazônia

Abstract: The Republican project, in order to carry out the modernization of Brazil, based on the
rational logic of positivism, denied the Indigenous peoples and the rural populations of Amerindian
origin an active participation. In the Amazon, region with the highest concentration of Indian
descendants, among them those known as Caboclos, but also scenario with one of the most
extensive economic expansions in the last quarter of the nineteenth century, the marginalization of
the latter was systematic. Pseudo-racist thought, then in vogue, and the maintenance of the tutelary
principle in indigenous affairs by the young Republic contributed to this process of
“invisibilization” that the present article intends to analyze.

Key words: Caboclos, pseudo-racism, Integration, Republic, Amazon region

Resumen: El proyecto republicano, con el fin de llevar a cabo la modernización de Brasil, basado
en la lógica racional del positivismo, negó a los pueblos indígenas y a las poblaciones rurales de
matriz amerindia una participación activa. La Amazonia, región con la mayor concentración de
indio-descendientes, entre ellos los que son conocidos como caboclos, pero también área de una de
las más largas expansiones económicas en el último cuarto del siglo XIX, la marginación de estos
últimos fue sistemática. El pensamiento pseudo-racista, entonces muy difundido, y el
mantenimiento del principio de tutela en la política indígena de la joven República contribuyeron a
este proceso de “invisibilização” que este artículo tiene como objetivo de analizar.

Palabras clave: caboclos, pseudo-racismo, integración, República Amazonía

Introdução
O projeto republicano que se articulou no Brasil, desde o início da década de 1870, não
previu uma modificação ou revogação das medidas anteriores referentes às populações indígenas do
país. Ao contrário, manteve-se uma política de confinamento, integração e assimilação, parecida
àquela que já havia sido praticada nos tempos colonial e imperial. Como não bastasse, a lógica
inerente à filosofia positivista, base teórica do projeto republicano, e a aplicação do evolucionismo
32

de Darwin ao pensamento social deram às teorias racistas, amplamente difundidas na segunda


metade do século XIX, um status “científico”. A reflexão de muitos intelectuais e a fundação de
novas instituições, como os museus de História Natural ou as escolas de Medicina e Direito,
contribuíram, para divulgar estas ideias no Brasil (Schwarcz, 1993; Cunha, 1992). Assim, o
pensamento pseudorracista do médico Raimundo Nina Rodrigues é produto desta conjuntura
político-intelectual. Telmo Renato da Silva Araújo (2007, p. 110) observa a respeito:

Com a proclamação da República (1889), no Brasil, nascem novos paradigmas para a construção da
identidade nacional. Seus intelectuais tentaram forjar, desvendar e qualificar esses paradigmas. É
nesse contexto que a influência de Nina Rodrigues se fez presente e que se concretizou na formação
de uma “escola”, na qual se encontram aqueles que compartilharam a idéia de que o conhecimento
do corpo humano e das formas que o constituem eram fundamentais para entender as “raças”.

No que diz respeito aos indígenas e às populações tradicionais de matriz ameríndia daquele
tempo, manteve-se a divisão em grupos e indivíduos, uns supostamente em vias de assimilação e
outros tidos como incivilizáveis. O “grau de civilização” foi, portanto, o critério fundamental para
medir a suposta capacidade de integração como sujeito dócil e útil na sociedade nacional. Na
verdade, durante muitos anos, o fundadores e teóricos da República deram relativamente pouca
atenção à “questão indígena”. Só no contexto de novas expansões para os vastos interiores do país,
como aquela impulsionada pela crescente produção da borracha na Amazônia, no final do século
XIX, surgiram novas discussões acerca de uma política pública em relação aos povos nativos da
terra. Os debates encontraram um certo fecho com a fundação do Serviço de Proteção ao Índio, em
1910, mas a momento algum questionou-se o princípio do antigo regime tutelar (Lima, 1992, p.
155-156). Este, implantado desde os primórdios da colonização, encontrou uma continuidade
enquanto “paradoxo ideológico”, conjugando práticas protetivas com mecanismos de repressão e
dominação (Oliveira, 2006, p. 117). A mesma ambiguidade marcou, embora não institucionalizada
como no caso dos índios, a relação das autoridades e elites com as chamadas populações
tradicionais, muitas vezes, compostas por mestiços.
No que diz respeito à Amazônia, a região brasileira com a maior concentração de povos
indígenas e grupos de matriz ameríndia, a questão da integração destas populações nativas ao
projeto colonial e, posterior, nacional se colocou como uma questão vital. No entanto, a Cabanagem
e as campanhas de retaliação que a seguiram (1835-1840) puseram fim aos esforços
integracionistas, engendrando, antes, um crescente “estranhamento” entre a minoritária elite branca
e a grande massa de índio-descendentes, além de outros grupos étnicos marginalizados. De fato,
Magda Ricci (2010, p. 159) observa, referindo-se aos impactos do movimento revolucionário nos
33

interiores do Pará, que os cabanos “deixaram trás de si uma Amazônia cabocla que exaltava o poder
das novas lideranças [populares]”. Anos após as lutas sangrentas, nem sequer uma nova conjuntura
econômica – a do boom da borracha –, acompanhado pela chegada maciça da mão de obra
nordestina, entre 1870 e 1910, conseguiu reaproximar as populações tradicionais que ficaram ainda
mais marginalizadas.
Com base nessas observações, visa-se, no presente artigo, analisar o processo de
“invisibilização” da população ribeirinha de origem ameríndia, genericamente conhecida como
“caboclos”. Em um primeiro momento, procura-se elucidar os diferentes termos que surgiram para
designar os indígenas “atrelados”, durante os séculos XVII e XVIII, ao projeto colonial mediante
uma rotina de catequese e trabalho compulsório. Em seguida, já referente ao século XIX, enfoca-se
um texto de José Veríssimo sobre as populações indígenas e mestiças da Amazônia, redigido e
publicado às vésperas da Proclamação da República, na perspectiva pseudorracista então corrente.
Enfim, num terceiro momento, atenta-se para o desenvolvimento posterior da situação social dos
ribeirinhos amazônicos, sistematizando as reflexões a seu respeito nas diferentes fases da história da
República.

Caboclos e índios cristãos no período colonial

Antropólogos, sociólogos, linguistas e historiadores não fornecem uma definição consentida


do termo “caboclo” enquanto etnônimo. Sobretudo, seu uso variado em contextos específicos, além
do teor discriminatório, estereotipado ou meramente polêmico que lhe é inerente dificultam
qualquer unanimidade. A mesma estende se também à etimologia do termo. O economista
amazonense Samuel Isaac Benchimol (2009, p. 25) deriva-o, com referência ao geógrafo e
historiador baiano Theodoro Fernandes Sampaio (1855-1937), do vocábulo tupi caa-boc, que
significa “tirado ou proveniente do mato”, destacando, assim, o habitat supostamente natural como
critério primordial para identificar o morador tradicional do interior da Amazônia. Não obstante, o
emprego do termo suscita polêmicas, tanto entre as populações concernidas quanto entre os
cientistas que as estudam.
O antropólogo franco-brasileiro Florent Kohler (2009, p. 43-45) constata que, enquanto
“caboclo” é corriqueiramente aplicado “na intimidade”, a expressão mais recente “ribeirinho”
representa uma “designação cômoda”, por ser isenta de qualquer conotação depreciativa. Também
sua colega brasileira Deborah de Magalhães Lima (1999, p. 29) sublinha que a denominação
“caboclo” não condiz mais com as formas como “‘eles’ mesmos se apresentam/representam”, mas
ela admite que termos novas, como “trabalhadores rurais”, “ribeirinhos” ou “pequenos
agricultores”, também contêm “algumas incongruências”.
34

Mas, apesar da falta de marcadores de identidade claramente definidos e o uso de diversas


alcunhas no decorrer da história, não se contesta o fato de que o termo “caboclo” está diretamente
associado às populações ribeirinhas que tradicionalmente habitam as várzeas do rio Amazonas e de
seus afluentes, embora, no decorrer das últimas décadas, um grande número de integrantes destas
comunidades rurais tenha se instalado nas áreas periféricas das cidades. Esses deslocamentos
recentes resultam da rápida urbanização e de seus impactos no mundo rural. Embora constituam,
numericamente, uma população considerável, os ribeirinhos de matriz ameríndia encontram-se, nas
estatísticas demográficas oficiais subsumidos na categoria “pardos”. Esta opacidade oficial se deve
também ao fato que, durante muito tempo, eles foram percebidos pela sociedade circundante como
indivíduos “incompletos”, tanto em termos étnicos, pois tidos como índios não genuínos, quanto
políticos, porque vistos como pessoas deficitariamente “civilizadas” ou integradas. Na definição de
seu status social, prevalecem até hoje fatores ecológico-culturais que os imaginam quase
exclusivamente como moradores das beiradas e várzeas, vivendo em pequenos núcleos isolados e
estagnados em decorrência de um sistema relacional endogâmico e um regime econômico de
autarquia comunitária (Nugent, 1993; Harris, 1996).
Historicamente, a termo “caboclo” é documentado desde meados do século XVIII. O jesuíta
alemão Johannes Joseph Breuer, missionário residente na aldeia de Ibiapaba, escreve, em 9 de
dezembro de 1747, isto é, na fase final dos aldeamentos religiosos, que os índios “brasilianos”
poderiam ser divididos em duas categorias: “em os Cabocullos ou Tabajaras, o que significa:
Senhores da Aldeia, e em Tapuyas, o que significa Bárbaros”. Na mesma missiva, o padre fornece
um indício de que os dois grupos já se conceberam como diferentes, pois “se misturam raramente,
exceto na minha missão” (apud Stöcklein et al., 1761, p. 30-31). Conforme esta informação, os
próprios índios teriam incorporado a diferenciação entre índio “manso” e “bravo” estabelecida pelos
colonizadores.
Pouco depois, a introdução das reformas sociopolíticas e econômicas do Marquês de Pombal
constitui um novo contexto no qual o termo é citado. O alvará régio de 4 de abril de 1755 o divulga,
diferente da carta inaciana, no sentido de “mestiço”. Esta lei que decretou a igualdade de todos os
indígenas do Estado do Grão-Pará e Maranhão em relação aos vassalos reinóis, proíbe que os filhos
de pais brancos e mães índias, como também os seus descendentes, fossem chamados “com o nome
de caboucolos, ou outro similhante” (apud Varnhagen, 1857 p. 243). A interdição categórica de
termos depreciativos fez parte do esforço da Coroa de emancipar o grande contingente de
trabalhadores indígenas amazônicos já incorporados no intuito de transformá-los progressivamente
em colonos (Souza Jr., 1993).
De fato, a rotina cotidiana de catequese rudimentar e trabalho compulsório que havia sido
instaurada nos aldeamentos sob administração dos missionários (Arenz, 2014), não sofreu
35

modificações significativas com a aplicação do Diretório dos Índios, promulgado em 3 de maio de


1757. No entanto, esta lei-quadro ordenou expressamente tirar dos índios aldeados a “lastimosa
rusticidade, e ignorancia, [...], propondo-lhes não só os meios da civilidade, mas da conveniencia, e
persuadindo-lhes os proprios dictames da racionalidade, de que vivião privados” (§ 1). Por isso,
medidas com fins “civilizatórios” foram implantadas nas antigas missões. Apesar de oficialmente
livres e iguais aos demais vassalos do rei, os índios teriam que adquirir “civilidade e conveniência”,
assumindo um comportamento padronizado pelas autoridades coloniais, que os diferenciasse de
seus congêneres “bárbaros”. O projeto de “civilidade” ocupa, dentre os noventa e seis parágrafos do
Diretório1, os de 5 a 15. O § 5 explicita o objetivo das medidas nestes termos:

Em quanto porém á Civilidade dos Indios, a que se reduz a principal obrigaçaõ dos Directores, por
ser propria do seu ministerio; empregaráõ elles hum especialissimo cuidado em lhes persuadir todos
aquelles meios, que possaõ ser conducentes a taõ util, e interessante fim, quaes saõ os que vou a
referir.

As principais medidas propostas são as seguintes: promoção da língua portuguesa,


introdução de escolas públicas (com catequese), implantação de ofícios artesanais (com
aprendizado), interdição de discriminação verbal (chamando os índios de “Negros”), atribuição de
um sobrenome, imitação do estilo das casa dos Brancos (abandono de casas comuns), combate à
“torpeza”, reforma dos costumes (combate ao uso de álcool e a diversas formas de violência, como
o envenenamento) e uso de vestimenta considerada decente. Estas medidas visaram, no fundo, uma
nova identidade, mediante a diluição progressiva da organização clânica e a interrupção da
transmissão de saberes tradicionais. A imitação do comportamento e de símbolos (nomes, roupas,
linguagem) dos portugueses tornou-se obrigatória.
Em seguida, o Diretório destaca, a partir do § 20, já com atenção à expansão e ao
desenvolvimento da colônia amazônica: o combate à ociosidade como condição para a promoção da
agricultura em vista dos mercados interno e externo (sobretudo, farinha e fumo), o incentivo ao
comércio com a metrópole (cacau, cravo, salsaparrilha, copaíba, café), a regulamentação das taxas e
impostos (“dízimos”), além do transporte (canoas). A partir do § 61, o Diretório define a relação
dos índios com os moradores, sendo o trabalho dos indígenas nos empreendimentos dos colonos
expressamente permitido. Já a partir do § 81, explicita-se as obrigações do diretor; aliás, um cargo
também aberto aos índios.
Nesta nova conjuntura sociopolítica e econômica, os agora chamados “índios cristãos”, além
de trabalhadores braçais, artesãos especializados e remadores para os frequentes transportes de bens

1
Conforme Norbert Elias (1994, p. 91-97), o termo “civilidade” surgiu justamente dentro do contexto do absolutismo e
da consolidação incipiente do estado nacional no século XVII, quando procurava-se estabelecer na Europa novos
códigos tanto de integração como de distinção social.
36

e tropas, tornaram-se intermediários imprescindíveis entre a diminuta elite colonial e a massa das
populações indígenas ainda não ou pouco integradas, impregnando na ordem colonial existente
dinâmicas não previstas (Carvalho Jr., 2005, p. 83).
Na segunda metade do século XVIII, começou a circular, ao lado da alcunha “índios
cristãos”, o termo “ribeirinho”. Se o primeiro possuía uma conotação positiva, pois fazia
implicitamente alusão à suposta capacidade de integração e docilidade dos indígenas convertidos, o
segundo designou o índio “infenso à autoridade colonial, livre da tutela dos diretores” (C oelho,
2005, p. 279). Documentos oficiais das décadas 1760 e 1770 demonstram que a associação
sequencial “ribeirinhos, fujôens e bêbados” foi empregada para descrever índios rebeldes ou
resistentes às normas do Diretório e às ordens dos Diretores das vilas (Coelho, 2005, p. 278-279).
Esta afirmação aponta, inclusive, para as frequentes fugas de índios que, embora emancipados,
foram sujeitos a coações por parte de diretores pouco zelosos no exercício de seu cargo.

Tapuios nos escritos de José Veríssimo

Diferente das percepções setecentistas ainda pouco precisas referentes aos índios
convertidos e “civilizados”, uma reflexão sistemática a seu respeito se produziu na segunda metade
do século XIX. Esta se deu sob o impacto de uma série de profundas transformações políticas e
socioeconômicas que atingiram a Amazônia, como a adesão à independência do Brasil (1823), a
eclosão da Cabanagem (1835), a promulgação do Regulamento das Missões (1845) e da Lei de
Terras (1850), a introdução da navegação a vapor (1852), a abertura do rio Amazonas a navios
estrangeiros (1866) e o primeiro auge do boom da borracha (1879). De fato, em meio aos esforços
de incorporar a região amazônica à jovem nação brasileira, que se reivindicava “civilizada” e
progressista, conforme os parâmetros positivistas em voga desde meados do século XIX, foi
formulado um discurso que, de certa forma, tornou os ribeirinhos de origem ameríndia “invisíveis”.
Um de seus principais expoentes é o jornalista e escritor paraense José Veríssimo Dias de Matos
(1857-1916), cujo ensaio As populações indigenas e mestiças da Amazonia: sua linguagem, suas
crenças e seus costumes, escrito em 1878 e publicado em 1887, às vésperas da Proclamação da
República, tem como base a complexa escala de critérios e nuances “raciológicos” tida, na época,
como cientificamente comprovados.
José Veríssimo Dias de Matos nasceu em 8 de abril de 1857 na pequena cidade de Óbidos
no oeste do Pará. Escolarizado em Manaus e Belém, ele se mudou, em 1869, para o Rio de Janeiro,
onde ingressou na Escola Central. Sete anos depois, ele interrompe sua formação escolar e regressa
ao Pará, destacando-se logo como jornalista e educador. De 1880 a 1891, ele ocupa o cargo de
Diretor da Instrução Pública do Pará. De volta ao Rio de Janeiro, Veríssimo atua novamente no
37

jornalismo e no magistério, chamando atenção, sobretudo, por seus comentários referentes à


reforma do ensino público iniciada pelo governo de Benjamin Constant. As observações feitas
influíram na sua obra Educação Nacional, publicada em 1890 e reeditada em 1906 (Souza, 2014, p.
82-84).
Adepto declarado do positivismo e da República, Veríssimo reconhece, no entanto, “as
dificuldades de disseminação da doutrina entre nós, a qual acabou por se efetivar de forma sectária
e oposta aos seus princípios fundamentais” (Cavazotti, 2003, p. 47). Por isso, o avanço social
constitui, para ele, um eixo fundamental para operar as mudanças modernizantes veiculadas pelo
projeto republicano. Maria Auxiliadora Cavazotti (2003, p. 55) observa que

Veríssimo se alia à corrente de pensadores do século XIX, os quais empreendem a tentativa de


descobrir a lei do devir no interior da nova ciência: a sociologia. A fé otimista no progresso, herdade
da tradição iluminista, é substituída pela lei geral do desenvolvimento social, que aspira o estatuto de
lei científica. Veríssimo, que repudia o caráter partidário, “religioso”, sectário com que foi
disseminado o positivismo comtiano no Brasil, como vimos, preserva-o, no entanto enquanto teoria
que contribui para o entendimento das mudanças sociais.

O principal problema para a viabilidade das reformas sociais e, dentro das mesmas,
educacionais, é, para Veríssimo, a suposta degenerescência das raças, ideia muito corrente na
época2. Seus escritos sobre a Amazônia e as populações tradicionais que a habitam o põem, por
isso, diante de um dilema, visto que a região é majoritariamente habitada por indivíduos tidos como
híbridos e degenerados. Marlucy do Socorro Aragão de Souza (2014, p. 62) aponta que “na
concepção deste intelectual [Veríssimo], superar o processo de degeneração significa mais
educação”. Esta deveria seguir o princípio de Herbert Spencer, segundo o qual o progresso de uma
sociedade dependeria da capacidade dos indivíduos de adaptar-se ao ambiente social (Souza 2014,
p. 62-63). No caso dos habitantes rurais de matriz ameríndia, Veríssimo identifica três fatores que
estariam impedindo a adaptação dos mesmos à sociedade regional circundante. Telmo Renato da
Silva Araújo (2007, p. 123-124) os resume nesses termos:

Partindo de uma visão etnocêntrica do caboclo amazônico, José Veríssimo afirmava que o caboclo
consistia na configuração clara da degenerescência, do atavismo mais radical que marcava as
relações raciais. Para ele, a mestiçagem na Amazônia foi a mais degenerativa possível, em virtude
de, no conjunto de fatores que determinavam a junção racial, estarem três problemas essenciais:
primeiro, a vinda de portugueses da pior espécie para a Amazônia, provenientes de um povo atrasado
e sempre arredio à civilização europeia; segundo, a ineficácia da catequese que não conseguiu educar
os mestiços; e terceiro, o clima tropical que impossibilitava o desenvolvimento humano.

2
Um dos expoentes mais importantes da “degeneração” é o francês Arthur de Gobineau com seus “Ensaios sobre a
desigualdade das raças humanas”, obra que teve certa influência no Brasil (Schwarcz, 1993, p. 65).
38

No já mencionado artigo As populações indigenas e mestiças da Amazonia, Veríssimo


(1887, p. 297-298) se esforça, logo no início, para esclarecer, em minúcias, as designações
supostamente corretas para os diferentes graus de miscigenação 3. Interessa aqui a diferenciação
clara que ele faz entre “mamelucos” e “tapuios”. Um critério fundamental para classificar o
primeiro é sua condição de estar em vias de “retrocesso ou volta [...] a raça mãi”, que no caso seria
a branca. Segundo Veríssimo (1887, p. 298), houve “má observação dos factos”, o que “consagrou
um erro”, isto é, o de chamar indistintamente de “mameluco” a qualquer mestiço de indígena e
europeu, ao invés de reservar esta designação exclusivamente “ao producto do primeiro sangue de
brancos e indios” – o curiboca – e, com mais propriedade ainda, ao “segundo sangue, onde começa
o retrocesso, e que é o resultado de uniões com a raça branca”. Excluídos desta suposta “eugenesia”
estão os outros mestiços, isto é, aqueles que não teriam mais como voltar à “raça-mãe”, nem à índia
e nem à branca. Veríssimo (1887, p. 298) define os descendentes destas uniões, consideradas,
literalmente, como produtos sem volta, de “filho[s] das raças indigenas semi-civilisadas”,
atribuindo-lhes a designação genérica de “tapuios”. O autor ressignifica este termo – por sinal,
muito corrente na época colonial – para designar os índio não-tupi tido como reticente à integração
econômica e adaptação sociocultural. Ciente do sentido primeiro do termo, Veríssimo (1887, p.
299) o define, recorrendo até ao “bárbaro” da Antiguidade:

A essa população que habita as margens do grande rio e dos seus numerosos afluentes, vivendo a
nossa vida, contribuindo para a nossa receita, trabalhando nossas indústrias, e que não é o indio puro,
o brazilio-guarani, nem o seu descendente em cruzamento com o branco, o mameluco, é que, parece-
me, cabe o nome de tapuia. Sabe-se hoje que na lingua tupi-guarani, a mais espalhada e geral entre
os indios do Brazil, a palavra tapuio (...) era, como o barbaro dos romanos, uma denominação
generica do despreso, que se davam entre si os individuos de outras tribos, e que naquela lingua
significava não só o hostil, o inimigo, mas o escravo. Os mamelucos, approximando-se mais e mais
da sociedade de seus pais os brancos, começariam a crear pelo indio aldeado, escravizado, vendido, o
mesmo despreso que na vida selvagem as tribos reciprocamente se votavam, e ao tratal-o pelo
mesmo nome que entre ellas exprimia esse despreso ou – e talvez seja melhor escolhida a expressão
– essa hostilidade. Assim ella passou á nossa sociedade, onde designa todo o individuo descendente
de indio e é muitas vezes empregado com menosprezo, a modo de affronta.

Mais adiante, Veríssimo (1887, p. 299) lamenta a condição social e étnica do “tapuio”
enquanto índio “chamado ao gremio da civilsação e obrigado a partilhar a nossa vida, embora
pária”, justamente por ter perdido “o caracter acentuado de selvagem”. Tanto a miscigenação
“racial”, que o teria afastado de sua raça de referência, quanto a exploração física e a alienação
cultural durante o regime colonial explicam, para ele, a aparente indiferença do tapuio em relação
ao seu entorno social e cultural imediato. Tal fato permitiria atribuir-lhe um status subalterno, não

3
De propósito, evita-se falar, neste artigo, em “mestiçso”, embora as populações rurais de matriz cultural e biológica
indígena o sejam a um certo grau. Este, porém, dificilmente pode ser determinado com exatidão ou de maneira geral;
algo, no entanto, que Vieríssimo tentou fazer, como se vê em seguida.
39

só em relação à elite regional, mas também à mão de obra nordestina que, naqueles anos, estava
chegando em levas sucessivas à Amazônia (Veríssimo, 1887, p. 309-310).
O aparente dilema dos ribeirinhos de origem ameríndia enquanto seres humanos mal
integrados, conforme as arguições de Veríssimo, marcou, até a segunda metade do século XX, a
percepção desta população tradicional. No início dos anos 1930, José Francisco de Araújo Lima
(1884-1945) deu ao discurso evolucionista de Veríssimo um tom racista mais acentuado ao
contrapor o caboclo amazônico ao seringueiro nordestino. Assim, o autor, também educador e
político originário do Pará, apresenta o nativo da região como preguiçoso e estagnado em “uma vida
inerte que herdara dos pais”, em contraste à suposta laboriosidade e adaptabilidade do trabalhador
vindo do Nordeste (Lima, 1945, p. 87).
Não obstante, esta imagem do ribeirinho ou caboclo enquanto pessoa aparentemente isolada
e desconfiada foi diferenciada e atenuada, entre o fim do século XIX e os primeiros decênios do
XX, pela tendência naturalista que permeou as produções literárias de autores amazônicos como
Herculano Inglês de Souza e, também, do próprio José Veríssimo, mas também as representações
pictóricas de pintores regionais, como Antonieta Santos Feio, Andrelino Cotta ou Waldemar da
Costa, ou artigos jornalísticos, como os de Arnaldo Valle (Arenz, 2015, p. 31). Os caboclos foram,
a exemplo dos índios nas produções artísticas e literárias de cunho naturalista, representados como
figurantes idealizados e inseridos em seu ambiente natural ou em cenários típicos do cotidiano rural.

Ribeirinhos nos séculos XX e XXI

Desde meados dos anos 1950, antropólogos e cientistas sociais, tanto brasileiros como estrangeiros
– sobretudo, americanos e britânicos –, escolheram os caboclos amazônicos como sujeitos de
pesquisas críticas aos estereótipos decorrentes do pseudorracismo das décadas precedentes. Seus
trabalhos romperam com a marginalização e “invisibilização” das populações ribeirinhas de matriz
indígena nas produções acadêmicas. Desde então, basicamente quatro tendências interpretativas
podem ser distinguidas. Todas elas sublinham, com base em novos paradigmas que se impuseram
nas ciências sociais – sobretudo, o funcionalismo cultural –, a agência social e a afirmação
identitária dos ribeirinhos, embora persistissem ainda, sobretudo inicialmente, certos vestígios de
cunho evolucionista (Adams et al., 2006, p. 18-21). Neste contexto, convém frisar que duas
décadas, os anos de 1950 e 1990, ambas marcadas por uma abertura política dentro da história
republicana, destacam-se como períodos de intensas reflexões e pesquisas acerca de minorias
étnicas e sociais, inclusive os ribeirinhos amazônicos.
40

A primeira tendência foi marcada pela publicação dos livros Uma comunidade amazônica,
de Charles Wagley (1957), e Santos e visagens, de Eduardo Galvão (1955). Aplicando o método
etnográfico, os dois antropólogos descreveram a quase totalidade dos múltiplos aspectos da vida
cotidiana dos habitantes de uma vila típica às margens do rio Amazonas; no caso, a cidade de
Gurupá, estrategicamente situada na região do Baixo Amazonas. Mesmo que evitassem
estereotipizações generalizadas, os trabalhos de Wagley e Galvão pressupõem o determinismo
ambiental (ou ecológico) e a a-historicidade dos sujeitos analisados. Outros antropólogos e
cientistas sociais deram seguimento a esta linha de pensamento, estabelecendo a “cultura cabocla”
como modelo de adaptação de populações rurais tradicionais ao meio ambiente tropical da região
amazônica. Neste contexto, os americanos Emilio Moran (1974) e Eugene Parker (1985) merecem
menção, pois se mostraram mais preocupados com a condição histórica dos ribeirinhos, analisando,
respectivamente, os processos de “tupinização” na época colonial e de “caboclização” nos anos pós-
Cabanagem em meados do século XIX.
Uma segunda fase de pesquisas, surgida nos anos 1980, revidou com mais vigor a suposta
condição passiva e, por conseguinte, a-histórica dos ribeirinhos. Esses foram agora enquadrados em
discursos de cunho político-ecológico que realçaram, com preferência, sua agência enquanto
pequenos produtores rurais em diversos ambientes sociogeográficos da bacia amazônica. Esta
vertente de caráter ambientalista, tendo como um de seus principais expoentes o americano William
Balée (1998), frisou a perspectiva histórica das múltiplas interações humanas, tanto por parte de
indígenas quanto caboclas, com a natureza na Amazônia.
Pouco depois, já nos anos de 1990, surgiu, influenciada pelo marxismo cultural inglês, uma
terceira tendência de reflexão. Seus representantes principais são os britânicos Mark Harris (1996) e
Stephen Nugent (1993). Estes romperam, de forma incisiva, com a concepção de isolamento das
populações ribeirinhas tal como foi estabelecida pelas pesquisas anteriores de cunho culturalista e
ambientalista. Assim, ao invés de enfocar comunidades rurais regidas pelo princípio do parentesco e
pela prática da subsistência, os ribeirinhos são abordados como agentes inseridos em uma rede de
complexas relações com os demais integrantes da sociedade circundante e preocupados frente à
implementação de grandes projetos agropecuários, hidrelétricos e mineradores, causando
desmatamento e êxodo rural. Harris e Nugent questionam, sobretudo, o forte antagonismo entre
tradição e modernidade que, sob a alcunha de “caboclos”, marcou a percepção e a definição dos
“ribeirinhos” ou “vargeiros” – termos que eles preferem – como pessoas supostamente reticentes a
mudanças.
Desde o final dos anos 1990, está se afirmando uma quarta tendência, articulada
principalmente por cientistas brasileiros, dentre os quais muitos originários da própria Amazônia.
Tendo como suporte teórico os parâmetros da Nova História e também as recentes ações afirmativas
41

de populações nativas nas Américas, as reflexões percebem os chamados “caboclos” como povos
indígenas “ressurgidos” ou “resistentes”. Apesar das diferentes avaliações desse fenômeno ainda
recente (Kohler, 2009; Vaz Filho, 2010), há um acordo de que as múltiplas tentativas de integração,
assimilação e, sobretudo, diluição étnica infligidas – também pelas autoridades republicanas – aos
ribeirinhos no passado, não conseguiram interromper a continuidade dos mesmos enquanto grupos
distintos com identidades e práticas culturais próprias que os situaam dentro do universo indígena.
Em razão disso, as diferentes formas de resistência e de “descaboclização”, no decorrer dos séculos
XVII a XX, ocupam um lugar central nestas pesquisas que insistem na visibilidade histórica dos
diversos grupos de índio-descendentes na região amazônica.

Considerações finais

As reflexões mais recentes acerca das populações ribeirinhas da Amazônia tendem a afirmar
sua condição étnica específica enquanto povos indígenas ou de origem ameríndia, questionando seu
enquadramento convencional em uma macrocategoria etnocultural “mestiça” ou “camponesa” ou
sociopolítica “parda”. Nesta perspectiva, sobretudo, as características tradicionais, consideradas
como tipicamente “caboclas”, como o agrupamento social por parentesco, o regime econômico de
subsistência e a prática de um catolicismo popular permeado de ritos pajeísticos, estão sendo
reinterpretados ante uma nova percepção da diversidade de realidades e sociabilidades nas quais os
ribeirinhos amazônicos estão inseridos desde o século XVII.
Assim, em contraposição a uma (auto)identificação negativa ou “de oposição”, que, durante
muito tempo, foi reforçada tanto por atitudes externas de discriminação racial e segregação social –
inclusive fomentada pelo Estado e seus órgãos – quanto por sentimentos internos de isolamento
espacial e estagnação cultural, cientistas, artistas e ativistas estão atualmente pondo em relevo a
agência histórica dos ribeirinhos frente às diversas formas de pressão assimiladora. Neste sentido,
sublinha-se a continuidade criativa da herança indígena e, também, a implicação de seus agentes em
sociabilidades complexas que revertem os efeitos de um longo processo de “invisibilização”. Este
se viu, durante muitas décadas, sustentado pelo ambíguo conceito de progresso idealizado,
sobretudo, pelos teóricos da República e constantemente invocado e ressignificado, sobretudo, por
políticos e elites para seus interesses próprios em nível local, regional e, também, nacional.
42

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45

ARTE XAMÂNICA NA AMAZÔNIA PRÉ-COLONIAL

Luis Paulo dos Santos de Castro (UEPA)

Este trabalho possui o intuito de analisar a iconografia da cerâmica Konduri encontrada no


sítio arqueológico PA-OR-125 Greig II, localizado no topo de um platô na região de Porto
Trombetas no município de Oriximiná. Neste sítio foram encontrados muitos artefatos cerâmicos
que se acredita fazer parte da cultura xamânica indígena, que possui forte relação com os animais
materializados na cerâmica.
Palavras-chave: xamanismo, Amazônia, arqueologia.

Introdução
Este artigo pretende analisar a iconografia da cultura material cerâmica de um grupo
indígena da Amazônia pré-colonial e que existiu também durante o período colonial, que se
localizava na área entre o Rio Trombetas e Nhamundá. Estes indígenas foram citados por alguns
viajantes e missionários do período colonial como, Mauricio Heriarte e Felipe Batendorff, tais
índios foram chamados de Conduris, Cunirizes ou Condurizes por estes europeus. Pretende-se
estudar a cerâmica encontrada em um sítio arqueológico chamado de Greig II, que se localiza no
topo de um platô chamado Greig, que está dentro de um grande complexo de sítios arqueológicos
indígenas, e que se caracterizam como áreas utilizadas por este grupo indígena entre os séculos X e
XVII (GUAPINDAIA, 2008; MAGALHÃES, 2013). Para este artigo selecionamos algumas das
reconstituições onde foram identificadas representações de morcegos, peixe-gente, jacaré-gente,
sapos e girinos, animais presentes na fauna amazônica e recorrentes nas cosmologias dos indígenas
sul-americanos.
Em 2013-2014, como bolsista no programa PIBIC do Cnpq junto ao Museu Paraense Emílio
Goeldi, em Belém do Pará. O autor deste artigo desenvolveu uma pesquisa de reconstituição
iconográfica da cerâmica Konduri do sítio Greig II junto ao projeto de Cenários Sociais e Paisagem
no Sítio Greig II, realizado pelo pesquisador Marcos Pereira Magalhães. No projeto foi possível
reconstituir 16 formas cerâmicas espalhadas por 18 caixas, predominantemente da escavação 05,
entre as quais se destacaram 7 pratos e um pequeno vaso quase inteiro. Outros fragmentos
interessantes foram analisados, mas não entraram no relatório final.
Partindo do problema de como se pode entender o xamanismo indígena na Amazônia pré-
colonial? Pretende-se investigar a cerâmica Konduri do sítio Greig II no intuito de se testar a
hipótese de que esta arte-cerâmica pertence a contextos cerimoniais xamânicos, analisando a
46

iconografia e a relacionando com a paisagem do sítio. Este trabalho entende que o melhor caminho
é o de dialogar arqueologia, etnohistória e a antropologia com a semiótica.

Os Conduris e a Arqueologia na Amazônia


A chegada dos primeiros europeus na Amazônia se caracterizou por um choque social
significativo, seja para os portugueses, espanhóis ou outras nações europeias que se deparam com
os diversos grupos indígenas presentes ao longo do rio Amazonas entre os séculos XVI e XVIII.
Em vários relatos e crônicas de viajantes e missionários na Amazônia durante os séculos XVI ao
XVII, como Carvajal (1541), Acuña (1639), Heriarte (1662) e Bettendorff (1668), um grupo
indígena era recorrente nas margens de onde hoje é o rio Nhamundá e Trombetas, afluentes do rio
Amazonas, próximos de onde hodiernamente estão os municípios de Óbidos e Oriximiná, no
Estado do Pará, ao norte do Brasil. Este grupo foi denominado de várias formas pelos viajantes,
porém são nomes similares como Cuñuri, Cunurí, Conori e Cunurizes; hoje a arqueologia da
Amazônia denomina Konduri os artefatos encontrados nessas áreas e que possuem uma
similaridade estética e tecnológica.
A cerâmica Konduri é enquadrada em uma “tradição”4 chamada Inciso-Ponteda, que se
caracteriza por uma decoração complexa com modelados biomorfos, sendo estes antropomorfos,
zoomorfos e zooantropomorfos anatrópicos, ou seja, ambivalentes, de acordo com o ângulo de visão
percebe-se feições diferentes, em um ângulo parece um animal, em outro, um rosto humano ou dois
animais (RIBEIRO& RIBEIRO, 1986). Há incisões combinadas com pontuações, entalhados,
engôbo vermelho e branco, bases cônicas trípodes chamadas de bulbos (HILBERT, 1955; PROUS,
1992). Esta tradição é recorrente no Baixo Amazonas e seus afluentes. A cerâmica Konduri também
se destaca pelo uso exagerado do antiplástico cauixi, que é um espongiário de água doce presente na
região, além da pasta da cerâmica possuir uma dureza relativamente baixa, entre 2 e 3 na escala de
Mohs. Entre as representações animais (zoomorfas) há maior presença de sapos e pássaros
(PROUS, 1992, GOMES, 2002).
A arqueologia e a história apresentam a área de interflúvio entre o Rio Trombetas e o
Nhamundá como uma região que foi densamente povoada, com assentamentos lacustres, ou seja,
ribeirinhos, que estavam interligados com assentamentos mais ao interior da área de terra firme, e
que estavam distribuídos ao longo de todo aquele território ou “província”, como chmam os
documentos europeus. Segundo Vera Guapindaia (2008) na região entre o Rio Trombetas e o

4
Este termo está entre aspas por ainda existir um grande debate sobre o modelo teórico de “fases” e “tradições”, ver
mais sobre isso em (SCHAAN, 2007).
47

Nhamundá, existem 38 sítios de terra preta5 com material arqueológico em regiões de lagos; 9 em
rios; 26 em terras baixas e 5 em topo de platô, totalizando 78 sítios arqueológicos de grandes
dimensões.

Além disso, a autora apresenta diferentes funções para os diversos sítios, como sendo os
ribeirinhos com características de habitação, os de terra firme como habitação e acampamento, ou
seja, locais utilizados temporariamente (para caça talvez) e os em topo de platô como
acampamentos, porém um deles possui características especiais, o sítio Greig II, talvez tenha sido
um local para cerimônias e ou rituais. O arqueólogo Marcos Magalhães (2013) foi quem estudou
melhor este sítio e o caracterizou como local de natureza cerimonial, devido suas evidências de
cultura material e botânica, que indicam a presença de um número considerável de plantas úteis e
medicinais, algumas com propriedades alucinógenas e plantas com frutos comestíveis, todos
concentrados no topo do platô. Há presença de espécies como a bacaba, o cacauí, o jatobá
(Himenaea courbaril), a sapucaia (Lecythis pisonis), o pequiá; a copaíba, a quina (Coutarea
hexandra), uxi-amarelo (Endopleura uchi), sara-tudo (Byrsonima japurensis), marapuama
(Ptycopetalum olacoide), entre outras; inclusive plantas como o caripé (Couepia sp.), usado na
fabricação da cerâmica, contas de bauixita, duas lâminas de machado gastas, muito carvão e
sementes carbonizadas também foram encontrados no sítio. Levantando assim a hipóteses de que a
cerâmica localizada neste sítio estaria em um contexto cerimonial xamânico.

Metodologia e a Etnologia
O universo amazônico é muito rico em diversidade cultural e em práticas religiosas, portanto
se faz necessário uma delimitação de conceitos como, cultura, cultura material e xamanismo para
um bom andamento na análise dos instrumentos religiosos de um grupo indígena específico que já
não existe para explicar os detalhes de sua cosmologia ou rituais.

A palavra xamã tem sua origem nos grupos Tungus (ou Evenkis) da Sibéria. Acreditasse que
no processo migratório dos povos asiáticos através da Beríngia, a prática do xamanismo chegou ao
continente americano. O xamã seria o que é portador e ou receptor de habilidades de cura,
premonição, metamorfose e agenciamento entre planos cosmológicos, além de portador de saberes
tradicionais, sendo assim normalmente dirigente de cerimônias e rituais (ELIADE, 2002). No caso
dos indígenas brasileiros, costumou-se chamar este sujeito de pajé, palavra oriunda do tupi-guarani
pai’é.

5
Terra preta arqueológica ou “terra preta de índio”, é uma terra de coloração escura por possuir rica presença de
elementos, como magnésio, cálcio e manganês; que fertilizam a terra e dão sua coloração, quase sempre acusando a
presença de artefatos arqueológicos utilizados pelas populações indígenas antigas.
48

Para melhor entendermos o xamanismo amazônico, utilizamos o perspectivismo ameríndio


de Viveiros de Castro (2011) onde existe uma relatividade perspectiva entre os indígenas da
América do Sul, sobre vários tipos de seres humanos e não humanos de acordo com quem “olha”. O
xamã nos diversos grupos indígenas da Amazônia possui o papel de se deslocar nessas perspectivas
múltiplas, tornando os procedimentos ritualísticos e cerimoniais inteligíveis, possuindo a qualidade
da metamorfose e consegue visualizar para além da “roupa” que o outro usa; como se o animal
vestisse uma roupa de animal, porém este é humano, mas só pode ser visto como tal por outro
animal, desta forma o xamã veste diversas roupas no intuito de reconhecer os seres que lida e se
utiliza disso para traduzir seus dizeres aos outros durante o rito. Dessa forma a identidade é uma
construção cultural muito fluida, dinâmica e viva.

Em relação à cerâmica ou outros objetos produzidos e utilizados pelos indígenas, cabe


também este perspectivismo, ou seja; o vaso cerâmico, quando ornado, pintado e dotado de uma
utilidade específica, adquire uma identidade de qualidade animal ou humana ou as duas
simultaneamente, como já trabalhado pela arqueóloga Denise Gomes (2012) ao abordar a cerâmica
dos antigos Tapajós da região hoje conhecida como Santarém no Pará. Nesse sentido, o trabalho de
Denise Schaan (1996) também foi muito significativo, utilizando paralelos etnográficos para
analisar a iconografia da cerâmica arqueológica proveniente do Marajó, identificando animais e
seres humanos nos artefatos, fazendo a relação da decoração das urnas funerárias, que apresentam
imagens femininas com alusão ao útero, com o processo de enterramento em posição fetal,
realizando uma espécie de retorno ao útero da mãe, mãe-terra talvez.

A produção da cerâmica por parte dos indígenas no passado exprime interesses destes
grupos em manifestar materialmente suas culturas, porém esta materialidade não limita as possíveis
funções sociais destes objetos. Por isto, entendemos cultura material como a materialidade sendo
um atributo inerente da cultura, porém não esgota o objeto culturalmente considerado e o universo
material não se situa fora dos fenômenos sociais de um grupo, sim fazendo parte dele como uma de
suas dimensões (REDE, 1996). Portanto, as funções sociais e os agenciamentos desses artefatos vão
muito além da sua composição material, estética e utilitária, possui uma dimensão imaterial
religiosa e mítica. Utilizando deste aporte teórico, podemos analisar as cerâmicas numa perspectiva
interdisciplinar e semiológica.

Antônio Fidalgo (1998) especialista em semiótica, entende que o signo é uma linguagem em
código e este está dentro de um sistema semiológico. Desta forma, existe uma “função signo”, ou
seja, todo o signo possui uma função utilitária do objeto e seu sentido; existindo sentidos primeiros
e segundos. Toda a conotação precisa de uma denotação, a questão é a ideologia por trás disso, ou
seja, o modelo de pensamento cultural que é a chave semiológica. Para o presente trabalho se tem
49

como chave a etnografia sobre os indígenas da Amazônia. Também é importante entendermos que
se o signo caracterizar o objeto denotado, demonstrando semelhança com o objeto reconhecível,
este é um ícone. Se não for esse o caso, trata-se de um símbolo.

O significado se dá quando se decodificam os signos encontrando o seu sentido, sejam estes


símbolos ou ícones. Porém, a significância se dá quando descobre-se a importância destes signos
numa cadeia semiológica e na cultura como um todo. Desta forma, ao exemplo do sentido de
cultura de Clifford Geertz (2008) é necessária uma descrição densa para o entendimento da teia que
interliga signos, significados e significâncias. Quando observamos as práticas, costumes, discursos
expressos na linguagem falada e gesticulada, começamos a entender a lógica cultural, passando
disto podemos tentar interpretar os signos.

Como estamos falando da cultura material de um povo “pré-histórico”, utilizamos a


etnografia sobre os povos atuais, pois por mais que tenha ocorrido uma ruptura sociocultural no
período colonial da Amazônia, através dos assentamentos missionários, catequese e políticas
escravistas e civilizatórias eurocêntricas por parte do colonizador, alguns aspectos dentro do
universo indígena tiveram continuidade. Esta hipótese esta sendo testada neste trabalho.
Procuraram-se signos e seus significados na cultura material dos indígenas contemporâneos e nas
suas lendas e cosmogonias. Porém faremos apenas inferências, não definindo o significado real dos
signos que iremos analisar, pois tal coisa é impossível.

A arte ameríndia possui continuidades e mudanças em um determinado local e em um


determinado tempo, pois esta (materialidade) é tão dinâmica quanto os costumes, a língua ou outras
dimensões culturais. A forma é fluida mesmo quando expressa conceitos aparentemente sólidos ou
contínuos; demonstrando na fluidez dos signos os momentos de ruptura dessa continuidade. Dentro
do aspecto indígena que estamos discutindo é necessário perceber que os mitos também ganham
materialidade nos objetos e na arte, os objetos devem ser decorados com os desenhos tidos como
“sobrenaturais”, como nos coloca Schaan (1996) ao citar o trabalho de Velthem.

A respeito da identidade podemos entender como uma construção de si mesmo e do se


tornar o ‘outro’. Dessa forma ela está de acordo com contextos, fazendo uma linha fronteiriça entre
o “eu” e o “outro”. Dentro da visão indígena, a noção de identidade humana confronta a identidade
animal ou de presa, e de categorias de outros seres espirituais, além dos outros grupos indígenas ou
dos não indígenas. Para isso utilizamos o perspectivismo ameríndio de Viveiros de Castro (2011, p.
350) onde existe uma relatividade perspectiva entre os indígenas da América do sul, sobre vários
tipos de seres humanos e não humanos de acordo com quem “olha”. Esta concepção ameríndia
suporia a unidade do espírito e a diversidade dos corpos. O xamã, nos diversos grupos indígenas da
50

Amazônia, possui o papel de se deslocar nessas perspectivas múltiplas, tornando os procedimentos


ritualísticos e cerimoniais inteligíveis; possui a qualidade da metamorfose, consegue ver além da
“roupa” que o outro usa. Como se o animal vestisse uma roupa de animal, porém, este é humano,
mas só pode ser visto como tal por outro animal; desta forma o xamã veste diversas roupas no
intuito de reconhecer os seres que lida, e para traduzir seus dizeres aos outros durante o rito. Dessa
forma a identidade é uma construção cultural muito fluida, dinâmica, viva. Em relação à cerâmica
ou outros objetos produzidos e utilizados pelos indígenas, cabe também este perspectivismo; ou
seja, o vaso cerâmico, quando ornado, pintado e dotado de uma utilidade específica, adquire uma
identidade, que pode ser antropomorfa, zoomorfa ou as duas; uma identidade de qualidade animal
ou humana, ou as duas simultaneamente.

Lagrou (2007, p. 58) para falar sobre a fluidez das formas entre os indígenas, se utiliza de
um relato sobre o processo de iniciação de um xamã através de um yuxin. Os yuxin são entidades
que possuem a capacidade de metamorfose e não são limitados a forma que tomam; possuem
intencionalidade, agenciam as formas e as imagens. Este aspecto é imprescindível à análise
iconográfica que é feita nesta pesquisa; pois a cerâmica Konduri apresenta essa característica de
metamorfose, apresentando mais de uma forma animal ou humana simultaneamente.

Para diversos grupos indígenas o mundo é dividido em camadas, subterrâneas, terrenas e


superiores (dependendo do grupo vai de 3 a 5 camadas); os vasos em pedestal da cerâmica Tapajó,
já foram relacionados com essa estrutura cosmogônica de camadas, demonstrando possíveis
relações da cerâmica cerimonial com temas mitológicos (PEREIRA e GUAPINDAIA, 2011;
GOMES, 2002). No princípio da criação os humanos não existiam, e sim formas metamórficas,
como os chamados gente-peixe, que viviam em um mundo subterrâneo e que depois de pedirem à
mãe criadora a oportunidade de sair daquele mundo escuro, a mãe lhes presenteou com duas
trombetas (sendo que na versão dos Dessana, eram dois indivíduos gente-peixe) feitas do osso de
sua coxa, que estes assopraram e furaram a parede ou estrutura onde permaneciam presos.
Parecendo ser referência ao útero da mãe criadora, ao furarem a parede a gente-peixe conheceu a
superfície e juntamente com outros seres como o Sol e o Morcego, foram povoando a terra ao
percorrerem o rio sobre outro ser mítico chamado cobra-canoa, que levava a todos no seu interior.
Estes seres primordiais ou chamados de trovões criaram as malocas, casa de enfeites ou
cerimoniais, e os seres humanos; também originando as mulheres especificamente. Muitos dos
aspectos culturais, como as flautas sagradas, danças, plumagens, trançados de cestaria, leis e armas
foram ensinados pela gente-peixe e pelos outros trovões, seres ou heróis míticos indígenas, como
Abé que é o Sol, ou o Sol/Lua. Tais ensinamentos foram passados aos humanos mortais
(FERNANDES & FERNANDES, 1996).
51

A Análise

Observando a figura 01, lembramos que rãs e sapos são recorrentes na iconografia indígena
na Amazônia como, por exemplo, na cerâmica Tapajônica, em diversos vasos e apêndices, como os
próprios muiraquitãs relatados como provenientes dos rios Nhamundá e Trombetas, e possivelmente
instrumentos de trocas entre os indígenas, usados como colares ou amuletos com condições mágico-
religiosas e de fertilidade (BARATA, 1953; GOMES, 2002). Na Marajoara (SCHAAN, 1996) e
Cunani também encontram-se decorações com representações estilizadas ou realistas de sapos e rãs
(COIROLO at all, 1997), além da própria cerâmica Konduri com apliques de batráquios, como o
encontrado no sítio Aviso I (GUAPINDAIA, 2008) e os da coleção do Museu da USP estudada por
Gomes (2002).

Figura 01: Anfíbios na cerâmica Konduri do sítio Greig II.

Fonte: Material do acervo do MPEG, fotografado e desenhado no laboratório de arqueologia em 2014. Acervo
fotográfico pessoal.

Sabe-se que os sapos normalmente possuem conotação feminina assim como os peixes
(LEGAST, 1987 apud DOLMATOFF, 1951). É importante lembrar que a área geográfica do rio
Trombetas possui muitos lagos e igarapés, sendo comum a existência de numerosos sapos e rãs
neste habitat; além de que este animal sofre metamorfose, possuindo diversas formas no decorrer de
seu desenvolvimento fisiológico. Este fator metamórfico parece ter sido observado pelos indígenas,
por existir na iconografia Konduri, as várias formas que estes anfíbios adquirem, desde uma fase
como girino até a forma de um grande batráquio. Muitas rãs são usadas entre os indígenas por
possuírem glândulas que secretam toxinas, essas utilizadas como alucinógenos ou veneno, usado em
flechas, dependendo da quantidade utilizada. Na língua Tukano, por exemplo, “Taló manlá mashá
52

nomé” significa “Sapo, plural, gente, mulher”, além disso existe um mito onde o nome Cunuri é
citado, quando uma mulher grávida, filha de Diá-pirõ (um herói mítico dos Tukano) vai à procura
de uma fruta chamada Cunuri, próximo a um igarapé de mesmo nome, sendo no mito, um afluente
do Rio Uaupés (FERNANDES & FERNANDES, 1996).

A figura 01 também apresenta o aplique/borda de um prato de 48 cm de diâmetro, moldado


com pasta amarelada-alaranjada, possui borda direta e expandida com lábio redondo; contorno
simples e base plana simples. Podemos visualizar a borda com motivos icônico zoomorfo, estilizado
com forma que lembram um girino perto da fase adulta do processo de metamorfose típico destes
animais. Pela forma de prato, acreditamos que tenha a função de servir. A parte externa do prato
apresenta vestígios de engobo vermelho e muitas manchas de fuligem, o que nos levaria a pensar
que este prato foi utilizado, tendo sido levado ao fogo.

Ainda sobre o aplique, observemos os olhos em forma de “rosquinha”, as discretas patas


com quatro dedos (incisões); a cauda e corpo estilizado com incisões e ponteados, além de existir
um furo abaixo do aplique; nas bordas do prato, ao lado interno, também existem motivos
geometrizantes, sendo incisões contínuas, linhas em zig e zag que lembram uma decoração da
chamada tradição Jauarí, que também utiliza de cauixi como aditivo, pesquisado por Peter Hilbert
(1914) e Alberta Zucchi (2010, p. 130). Sobre os girinos (apliques), podemos fazer um paralelo
etnográfico onde para o povo Tikmu’un-maxakali, do tronco linguístico Macro-Gê, no nordeste de
Minas Gerais, os girinos são um “povo”; ou seja, são girino-gente, e ensinaram aos humanos vários
cantos. Um mito interessante destes indígenas diz que duas mulheres foram pescar em um lago e
foram levadas por rãs (yãmiyxop) para o fundo. Lá elas aprenderam várias músicas e depois fizeram
colares com os girinos e retornaram às aldeias (TUGNY, 2011, p.49). Muito semelhante ao mito das
chamadas “mulheres Amazonas” produzindo os muiraquitãs na região norte do Brasil. Desta forma,
podemos entender que por menor que seja o ser, ele pode corresponder a características
cosmológicas importantes de um povo. Talvez os anfíbios na arte Konduri tenham relação com a
fertilidade e sejam seres que vivem em mundos de fronteira.

Na figura 02, temos alguns apliques zoomorfos, com forma de morcego estilizado, o
primeiro possui incisões na cabeça (linhas paralelas), ponteados abaixo do aplique em fileiras e
incisão geometrizante em forma de X ao meio de um pequeno botão na fronte do aplique, o que
sugestiona estar na posição de onde seria a boca, tem engobo vermelho na parte interna e coloração
preta na externa, demonstrando que a fronte do aplique, que estaria voltado ao lado externo do
artefato. Possivelmente uma vasilha com função de armazenamento de alimentos (devido a
reconstituição que foi feita). O segundo está tão estilizado que apenas podemos distinguir as
53

orelhas, é apenas um ícone de morcego, que se encontravam nas bordas de uma vasilha mediana,
toda preta, possivelmente cada um estava em extremidade oposta ao outro.

Figura 02: Apliques zoomorfos de cerâmica Konduri, sítio Greig II, possíveis morcegos.

Fonte: Material do acervo do MPEG, fotografado no laboratório de arqueologia em 2014. Acervo fotográfico pessoal.

O que trona estas peças muito interessantes é que existe uma relação entre os signos de
decoração indígena de grupos atuais com a decoração deste artefato. Os indígenas Wauja do Alto
Xingu possuem um motivo decorativo em forma de X, chamado Aluwa Tapa que significa “pintura
de morcego” (BARCELOS NETO, 2005, p. 92), grafismo esse visto por xamãs em visões nos
corpos ou “roupas” de seres chamados apapaatai, que seriam entidades, espíritos, monstros ou
heróis culturais entre outras possibilidades qualitativas; neste caso, causadores de doenças nas
pessoas que estavam sendo assistidas pelos xamãs.

Entre os Dessana do Rio Negro, Dolmattoff (1975, p. 179) analisou que os morcegos
vampiros espirituais (oyó uahti) são invocados pelo pajé para carregar o sangue de enfermos com
problemas normalmente de diarreia ou hemorragia. Outra coisa interessante é que a fruta Jatobá,
presente no sítio Greig II, possui faculdades medicinais contra diarreia, tosse e outras coisas, e a
principal forma de dispersão das sementes é através de morcegos. Existiria alguma ligação entre a
representação iconográfica dos morcegos na cerâmica Konduri e a condição de seres míticos?
Seriam eles evocados pelos xamãs para ajudarem no cultivo das sementes ou na cura de problemas
de saúde no Greig II?

Um rito de iniciação xamânica entre os Ikpeng relata que os neófitos devem mergulhar à
meia-noite de lua cheia em um córrego. Precisam afundar até segurarem-se em um tronco
submerso. De lá devem voltar seu olhar para a superfície, vendo o exterior através do fluído
54

disforme que é a água e desta forma aprenderam a ver os sons, igual ao morcego-cego. Esta é uma
habilidade imprescindível ao xamã, pois as visões são sons, os sons estão nos olhos. O instrutor à
margem do rio queima uma resina presente no Jatobá e a despeja na água. Isto faz com que o aroma
do jatobá atraia e paralise diversas espécies aquáticas, que flutuam ao redor do iniciado em estado
de semitorpor. Essas espécies enchem os ouvidos do iniciado com suas vozes ininteligíveis. A
resina se mistura a outros elementos dos corpos dos peixes e dos seres espirituais no corpo do
noviço, desta forma seu corpo é construído como um receptáculo dos sons. Para os Tikmu-un-
maxakali, o morcego-espírito é um dos grandes transmissores dos cantos da sua gente, sendo que
oferecem bananas em troca de cantos e da faculdade de ver como o morcego, ver os sons. Por isso,
entre este grupo, os iniciados como xamãs devem passar resina com mel nos olhos, para ficarem
“cegos” como os morcegos (TUGNY, 2011, p. 96- 98).

Considerações Finais
Infelizmente não é possível apresentar todas as peças e suas reconstituições em um breve
artigo, porém deixam-se aqui algumas inferências e discussões metodológicas sobre o estudo do
xamanismo na Amazônia pré-colonial a partir da cultura material. Os animais presentes na arte
indígena não podem ser encarados como meras referências a fauna local ou que a aparência de
animal se limita a qualidade de animal, é necessário adentrar-se mais fundo nas cosmovisões
ameríndias para se entender as possibilidades de agenciamento de objetos e entidades míticas, além
do uso simbólico do espaço, que no caso do sítio Greig II verificamos que há possibilidade de
relacionar o local a concepções sagradas e de cura xamânica, além da iconografia presente na
cerâmica estar relacionada com as possíveis práticas cerimoniais no local, mas como sempre neste
aspecto, são necessárias mais pesquisas.

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57

Primeira dentição ou estômago de avestruz: notas sobre o ecletismo político,


ideológico e estético da
primeira fase da Revista de Antropofagia
Heraldo Márcio Galvão Júnior (Unifesspa)

Resumo

O presente trabalho traz uma análise incipiente acerca da primeira fase da Revista de Antropofagia,
idealizada inicialmente por Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp, em seus aspectos
gerais.

Palavras-chave: Revista de Antropofagia; Oswald de Andrade; modernismo.

Introdução

Diversas obras historiográficas tratam da problemática ao utilizar as revistas como fontes


devido à sua complexidade. A primeira delas a se considerar é que, segundo Ana Luiza Martins
(2001), revistas são de agradáveis leituras, logo o historiador deve precaver-se para que não se
encante demasiadamente com suas páginas a ponto de considerá-las verdadeiras.
O uso de Revistas como fonte para nossas análises pressupõe reflexões acerca de uma
metodologia própria no lido com tais documentos. Ângela de Castro Gomes (1999) afirma que os
periódicos eram espaços de sociabilidade legitimados em que grupos de intelectuais reuniam-se e
articulavam-se a fim de debater e difundir idéias. Segundo Tânia Regina de Luca (2002) esses
aspectos devem ser levados em consideração e complementa que, ao recolher e analisar os artigos
de periódicos, o pesquisador não deve apenas fazê-lo para justificar suas idéias, mas considerar uma
gama de outros fatores, como as revoluções técnicas do momento, o mecenato que propiciava sua
existência, as condições de produção e, principalmente, a natureza dos capitais envolvidos.
Assim, se faz necessário nos remeter ao interior da Revista de Antropofagia, inserindo-a na
história da imprensa, verificando suas políticas editoriais, seu papel desempenhado no momento de
circulação, idéias e ideais difundidos, a rede de sociabilidade que se fazia presente, distinção de
suas fases, verificar de que maneira a revista dialogava com outros periódicos do período, entre
outros fatores que possibilitem uma melhor interpretação dos artigos recortados e do período
estudado.
Partindo do princípio de que seus idealizadores compartilham de uma visão de mundo
difundida pela publicação da revista e que, como sugere Ana Luiza Martins, esta acaba sendo uma
forma de intervenção no espaço público, deve-se considerar uma gama de questões para uma
análise mais consistente, como: materialidade - papel, impressão, formato, iconografia, dimensões –
organização interna, propagandas e preços para, assim, poder construir a idéia de publico leitor
58

imaginada pelos idealizadores. A partir de tais elementos, somados a uma intensa análise interna,
aproxima-se da noção de mundo veiculada pelos organizadores do periódico.
A relevância em estudar os idealizadores, as redações e os grupos que se formam em torno
deles têm sido incessantemente defendidos pela historiografia devido a necessidade de se identificar
as intenções, motivações e lutas que levam à publicação de periódicos. Para tal, o uso de obras
biográficas e autobiográficas de Oswald de Andrade, Raul Bopp, Tarsila do Amaral, Antônio de
Alcântara Machado e Geraldo Ferraz se faz essencial. Além disso, devido à primeira fase da Revista
de Antropofagia ser muito diferente da segunda, há a necessidade de analisar a formação do
primeiro grupo, as cisões no interior deste grupo e a formação de um segundo. Este trabalho se
torna ainda mais complexo quando temos uma primeira fase produzida de maneira autônoma e a
segunda como parte do jornal Diário de São Paulo, com direção, redação, diagramação e política
editorial próprias.
A idéia de fundar a Revista ocorre concomitantemente ao delineamento do movimento
antropofágico, em fins de 1927, decorrente de diversos fatores internos e externos em meio ao
ambiente paulista reconfigurado a partir do final do século XIX.
Em relação à justificação do caráter único de São Paulo no cenário brasileiro, os modernistas
caracterizam-na como tendo liderança em matéria de cultura devido ao seu cosmopolitismo, fruto
de uma nova raça que se transforma, abrasileirada, multiétnica (o melhor das raças que o mundo
todo despeja nos portos), vencedora, completamente diferente do tipo brasileiro convencional (faz-
se alusão a Peri e Jeca Tatu). Essa raça paulista possuía, então, caráter apenas regional, associando-
a ao bandeirante criador de fortunas.
Em suma, esse grupo, longe se ser homogêneo, considerava que a metrópole paulista teve
uma montagem multifacetada, que inclui considerações raciais (paulista, multietnia), o momento
histórico e o ambiente (metrópole do século XX, industrialização e resultantes: urbanização,
economia monetária, paisagem citadina, multidão), que convergem na visão de cultura como
“sintoma”, “produto” da época e lugar geográfico.
Todo este movimento culminou na Semana de Arte Moderna, em 1922, que acabou sendo
construída historicamente pelos seus contemporâneos e reafirmada por literatos, teóricos e
historiadores, como símbolo do modernismo nacional, local de onde deveria partir os ditames
modernistas. De qualquer forma, a Semana foi um ambiente de exposição e de conciliação das
diferenças destes jovens que visavam construir uma novo conceito de arte, estética e política
adaptada aos novos tempos. O objetivo principal da Semana era, então, se impor contra o
Naturalismo, o Parnasianismo e o Simbolismo.
A partir da Semana de Arte Moderna, pessoas díspares forams e unindo em grupos
heterogêneos em busca de uma arte nacional. No caso de São Paulo, local em que surgiu a Revista,
59

foram sendo formados o grupo aliado ao movimento da poesia Pau-Brasil, com Oswald, Mario de
Andrade, Bopp, entre outros e o movimento verdeamarelo, mais conservador, representado por
Plínio Salgado e Guilherme de Almeida.. O que unia estes modernistas eram inimigos em comum,
ou seja, faziam oposição às tendências dominantes, entretanto não havia clareza na trajetória a ser
seguida.
Oswald, em 1928, publica o Manifesto Antropofágico, baseado no cubismo francês, pois o
que eles procuravam como suporte exótico e moderno, o autor de Os condenados poderia encontrar
no Brasil, na natureza, no índio e no negro, em elementos da cultura popular como carnaval, na
cozinha, mas aglutinando-os aos símbolos da modernidade. Propõe-se, assim, que a cultura
importada fosse reelaborada, transformando o que veio de fora em produto exportável.

Primeira “dentição” ou “estômago de avestruz”


A Revista teve duas fases, intituladas como “dentições”. A primeira possuía o formato de 33
por 24 cm e 8 páginas por número. Totalizando 10 números, foi editada mensalmente de maio de
1928 a fevereiro de 1929 e contou com Antônio de Alcântara Machado como diretor e com Raul
Bopp como gerente.
Ao todo, na primeira dentição assinaram 62 autores entre nomes reais e pseudônimos. O
autor que mais publicou foi Antônio de Alcântara Machado, totalizando vinte artigos ao longo das
dez edições. Se considerarmos intervenções juntamente com Raul Bopp, o número chega a 22. O
autor tem, na revista, basicamente o mesmo papel que Mário de Andrade possuía em Klaxon, ou
seja, editoriais e resenhas de livros. Ficava, então, responsável pelo artigo de abertura e resenhava
obras na página quatro de cada número da Revista.
O segundo autor que mais publicou nesta fase foi, de acordo com a ecleticidade abordada
acima, Yan de Almeida Prado, ficando ausente apenas no primeiro número. Das 9 publicações,
apenas a primeira, intitulada “Idílio”, foi em forma de artigo, em que o autor analisa a atuação de
um repórter de outro jornal. O restante são parte de Os três sargentos [Episódio da Revolução de
1924].
Mário de Andrade publicou cinco artigos, nos números 1, 2, 4, 5 e 10. O primeiro artigo,
intitulado manhã, em clima antropofágico de estréia, recorre a uma paisagem tranqüila, “marupiara
e descansante”, em um “silêncio nortista, muito claro”, em que não desejava mulheres, mas Lenin
ou Carlos Prestes ou Ghandi para, após convidá-los a sentar, contar as para eles sobre a brasilidade,
como nome de peixes, Ouro Preto, Marajó. No segundo número é publicado trecho de Macunaíma.
Nos números 4 e 5 são publicados “Romance de veludo” e “Lundú do escravo”, estudos sobre
folclore e música. Número 10 é um estudo sobre a antropofagia enviado de Natal, quando ele
viajava para conhecer o país e divulgar o movimento.
60

Augusto Meyer tem quatro artigos publicados nesta fase. No primeiro número, publica
“Resolana”, trecho do livro Giraluz; no segundo número, Fim da linha e Serenata, do livro “Gatinha
de Boca”; Oração ao negrinho do pastoreio é publicada no quarto número; e, no quinto, Coro dos
satisfeitos acompanhado pelo Zé Pereira do Bom Sucesso, do livro Bilú.
Com três publicações, temos Carlos Drummond de Andrade – incluindo No meio do
caminho –, Ascenso Ferreira, Jorge Fernandes e Rosário Fusco (dois artigos e um desenho). Com
duas publicações, Oswald de Andrade, Raul Bopp, Plínio Salgado, Brasil Pinheiro Machado, Ruy
Cirne Lima, Achilles Vivacqua, Manuel Bandeira, Mario Graciotti, João do Presente, Luis da
Câmara Cascudo, Sebastião Dias e A. de Almeida Camargo. Com apenas uma publicação temos
quarenta e dois autores. Há ainda, sessões e artigos que não são assinados.6
Com apenas Antônio de Alcântara Machado presente em todos os números, Yan de Almeida
Prado em quase todos eles e uma maioria esmagadora de autores publicando apenas um artigo em
dez números da Revista, pode-se afirmar que uma das políticas editoriais era prezar pela variedade e
alternância de autores que estivessem, nem que fosse minimamente, em concordância com a
antropofagia.
Havia contribuições do Grupo verde-amarelo ou Anta, que mais tarde teria relações cortadas
com o grupo: Plínio Salgado, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo. Um dos motivos que
levou à discordâncias e corte nas relações entre os dois grupos foi a maneira de pensar o
nacionalismo (ufanismo) e questões políticas, chegando a Integralismo, Revolução
Constitucionalista, Comunismo, Anarquismo.
Outrossim, este ecletismo e rotatividade de autores parece ser inclusive uma das
características iniciais do movimento antropofágico, ainda em fase de construção e maturação.
A Primeira Dentição, como um todo, foi mais estética, imbuída de um nacionalismo ainda
abstrato, eclética e uma ideologia entre o antiimperialista e utópica.
O primeiro volume parece resumir a primeira dentição, apresentando O Abapuru, de Tarsila
do Amaral, esteticismo de Mario de Andrade por meio de poemas, críticas literárias promovidas por
Alcântara Machado, um estudo acerca da linguagem tupy feita pelo verde-amarelo e futuro
integralista Plínio Salgado, textos antropófagos de Oswald de Andrade e de Oswaldo Costa, com o
Manifesto Antropófago e “A “Descida” Antropophaga”, consecutivamente. Este modelo parece
manter-se até o décimo e último número da primeira dentição.
Como demonstrado, nesta dentição foram publicados autores de diversas variantes do
modernismo brasileiro, o que nos leva a questionar a afirmação apresentada por diversos estudiosos
sobre o assunto de que a Revista seria apenas um modelo de exportação do modernismo paulista

6
Alguns nomes de autores citados podem ser psudônimos. Esta questão será analisada profundamente posteriormente,
haja vista que a intenção aqui é promover uma descrição ampla da primeira fase da Revista.
61

para as demais regiões brasileiras. Este pressuposto acaba reafirmando a preponderância do


modernismo paulista frente os demais estados da federação, preceito criticado nesta pesquisa.
Para exemplicar, temos o fato de terem sido publicados na primeira dentição No meio do
caminho, de Carlos Drummond de Andrade, trechos de Macunaíma, de Mario de Andrade, Manuel
Bandeira, Augusto Schmidt, Luís da Câmara Cascudo, Plínio Salgado, Guilherme de Almeida,
Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo. Isto representa a ecleticidade do modernismo brasileiro em
meio a suas cisões internas.
Outro ponto que demonstra este ecletismo são as críticas literárias de Alcântara Machado,
que elogia Essa Nega Fulô, de Jorge de Lima, o verde-amarelismo de Martim Cererê, de Cassiano
Ricardo, o antropofágico Macunaíma, de Mario de Andrade e Mennoti Del Picchia. Alcântara
Machado assume na Revista mais ou menos o papel de Mário de Andrade em Klaxon, ou seja,
responsável pelos editoriais e resenhas de livros. Além disso, há diversidade da noção de brasilidade
e de nacionalismo presentes nas páginas da Revista, como obras ligadas ao nacionalismo
conservador do verde-amarelismo, do nacionalismo liberal de Mardio de Andrade e a antropofagia
de extrema esquerda.
Entre os artigos, raras são as questões político-ideológicas levantadas diretamente pelos
autores em relação a Marx e Engels, revolução bolchevique, política e sociedade no Brasil e no
mundo. Não há um enfrentamento direto contra o status quo e o PRP, dominante na cena política
paulista. Os textos mais radicais acabam sendo o Manifesto Antropófago e Schema ao Tristão de
Ataíde, de Oswald, em que o autor resgata uma de suas máximas “A posse contra a propriedade” e
O Nordeste do Sr. Palhano.
Neste último, questiona-se o governo – especialmente o Ministério da Agricultura – quanto
aos problemas históricos, da seca, da fome, do latifúndio, entre outras questões, que afetam o
Nordeste, fazendo uma afronta ao governo e aos grandes proprietários de terra ao defender a
reforma agrária. Dedicado ao engenheiro Senhor Palhano, o artigo questiona a idéia de que o
Nordeste tem problemas sociais apenas devido à seca. Ele atribui a questões políticas:

Não são os açudes e as estradas que resolvem as nossas eternas questões. Não
deixa de ser isso. Mão são sobretudo métodos regionaes de educação, medidas
inteligentes de aproveitament. Para fazermos verdadeiramente obra de construçõa,
temos que enxergar o Nordeste como uma região à parte. E especialisar então para
ela educação, instituições sociaes, administração (...) Querer, por exemplo,
alfabetizar essa gente antes de educá-la na pratica do trabalho da sua terra, ´incorrer
na eterna questão de começar pelo fim. Porque o sertanejo só é preguiçoso nos
sertões. As fazendas de café de S. Paulo e os seringaes do Amazonas não tiveram
buraco mais forte. Explica-se isso pelo completo desconhecimento dos recursos da
terra por parte deles.
62

Sendo assim, percebe-se que a primeira dentição é assinalada por uma consciência ingênua,
certa indefinição e ecletismo estético, político e ideológico, isto é, possuía estômago de avestruz 7,
como coloca Augusto de Campos ao utilizar um dos artigos da revista. A idéia proferida da imagem
do avestruz é tomada como antropofagia, então, em seu sentido superficial, pois leva à construção
imagem do estômago enquanto apenas junção de idéias, temas, estéticas, ideologias em um único
lugar e para por aí. Não concebe a idéia da deglutição no sentido antropofágico posteriormente
construído, da antropofagia enquanto movimento
Toda a argumentação e exemplificação até o momento fez crer que a esta fase da revista foi
genérica, heterogênea, eclética e indefinida teórica e poéticamente, mas seu valor enquanto veículo
midiático de divulgação e evolução da linguagem do Modernismo é inegável. A Revista não
obedece a uma temática padrão, com poemas, estudos, contos, fragmentos de livros, poucos
desenhos, ponderações sobre folclore, notas irreverentes e brincadeiras.
Em relação às origens dos escritores, há a predominância dos estados de São Paulo, Rio de
Janeiro e Minas Gerais, mas há autores que assinam de Pernambuco, Rio Grande do Sul, Paraíba,
Pará (Oswaldo Costa e Abguar Bastos), Rio Grande do Norte, Paraná, Ceará e Alagoas. Ainda há
dois autores estrangeiros: desenho de Maria Clemência, de Buenos Aires, na página três do número
dois e artigo de Nicolas Fusco Sansone, de Montevidéu, na página cinco do mesmo número.

Bibliografia

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CAMPOS, Augusto de. “Revistas re-vistas: os antropófagos”. In Revista de Antropofagia, Edição


fac-símile. São Paulo: Abril, Metal Leve S.A., 1975.

7
Ave de apetite onívoro e estômago complacente e, aliás, estrangeira.
63

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WILLIAMS, Raymond. (1982), "The Bloomsbury fraction". Problems in materialism and culture.
Londres, Verso Editions.
64
65

História oral e patrimônio: a memória inscrita nas ruas, praças e monumentos


de Xinguara/PA
Heraldo Márcio Galvão Júnior (Unifesspa)

Resumo
Com o presente trabalho pretende-se trocas de experiências e socialização dos resultados de um
projeto de extensão, institucionalizado na Unifesspa, que teve como finalidade a construção de um
conhecimento histórico crítico acerca da cidade de Xinguara/PA em meados de sua fundação, 1982,
a partir da memória inserida em seus espaços públicos.
Palavras-chave: memória; história; Xinguara.

Introdução
Cada vez mais vemos o desaparecimento da memória na nossa sociedade. As
transformações da sociedade contemporânea levaram ao fim da história oral, ou seja, o fim da
história-memória carregada por grupos vivos. Hoje, temos a reinterpretação crítica e laicizada do
passado, o que confere as lembranças à História.
O sentimento de perda gerado pela rápida transformação da história, com incontáveis
passados gerados de modo cada vez mais rápido, é compensado pela valorização de uma memória
histórica. Vai-se, então, à busca de e/ou criação de suas representações, de seus "lugares". Nossa
sociedade, com um esforço titânico, procura guardar tudo o que for registro da memória em uma
tentativa de retificação do passado. No entanto, é importante frisar que tal retificação sempre é
política, determinada por embates ideológicos entre os grupos que participam mais ativamente do
processo histórico em questão na sociedade.
Neste sentido, um trabalho que visa analisar a memória de Xinguara/PA perceberá que todo
o processo relativo à sua fundação e solidificação foi encabeçado pelos grupos participantes do
Estado, quer como dirigentes, quer como opositores formais. Todo o processo de construção da
memória, e conseqüente confecção de imaginário político-social, ficou a cargo destes mesmos
grupos. Assim, é um embate simbólico, restrito aos grupos políticos formalmente constituídos, com
marcada ausência do grosso da população. Esta última, quando surge em cena, desempenha
somente papéis decorativos ou legitimadores do interesse de algum outro grupo.
As ruas da cidade de Xinguara demonstram, então, a temporalidade de seu nascimento e sua
utilização na propagação e no processo de construção de símbolos que estão presentes hoje em meio
à sociedade.
É com base neste contexto que este trabalho discute a memória inscrita nas ruas, praças e
monumentos da cidade de Xinguara, um município localizado no sudeste do estado do Pará. A
História da cidade de Xinguara é muito recente se pensarmos no tempo histórico. Xinguara passou à
66

condição de município em 31 de dezembro de 1893, desmembrada de Conceição do Araguaia, e sua


economia é baseada na agropecuária, essencialmente de bovinos e suínos.
Desse modo, as peculiaridades regionais e econômicas trouxeram para a cidade uma
identidade própria, chegando a ser conhecida atualmente como a capital do boi gordo, contando
com festividades e rituais presentes no imaginário social e identitário da cidade.
Não obstante, são raros os estudos que tratam da realidade xinguarense em uma perspectiva
histórica. O que encontramos, ainda que de maneira esparsa e diminuta, são apenas obras
memorialísticas, factuais e literárias.
A construção do símbolo herói em espaços públicos, considerado poderoso por representar
encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva, são
instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de
regimes políticos. A criação destes símbolos não é arbitrária, tem que responder a alguma
necessidade ou aspiração coletiva, refletir algum tipo de personalidade ou de comportamento que
corresponda a um modelo coletivamente valorizado (CARVALHO, 1993).
Com o fim da história-memória e a consagração dos lugares de memória, as ruas são
importantes semióforos, ou seja, um signo provido de significação ou de valor simbólico capaz de
relacionar o visível ao invisível seja no espaço ou no tempo, “pois o invisível pode ser o sagrado
(...) ou o passado ou o futuro distantes (...) e expostos à visibilidade, pois é nessa exposição que
realizam sua significação e sua existência” (CHAUÍ, 2001).
No caso específico do trabalho, acreditamos que as ruas, praças e monumentos guardam a
memória como signo representativo e podem ser entendidos em seu sentido etimológico, isto é, a
descrição pública de feitos lendários de uma sociedade, e em seu termo antropológico, ou seja, a
fim de resolver conflitos, contradições e tensões reais, apela-se para uma solução imaginária para
explicar, entender ou justificar determinada realidade. Partindo destes princípios, faz-se
necessário uma reconstrução memorialística e analítica das personagens inseridas nas vias
públicas a fim de se chegar ao significado de sua representação.

Atividades desenvolvidas no período

Em um primeiro momento, foi conversado com os alunos do terceiro período do curso de


história, turma 2014, sobre as relações do projeto com a disciplina Prática Curricular Continuada III
– Ensino de História: patrimônio material e imaterial. Após a concordância entre todos,
mantivemos uma ligação entre a disciplina e o presente projeto de extensão, respeitando sempre
67

as peculiaridades de ambos, como carga horária, leituras, discussões, práticas, entre outras. Os
alunos foram divididos em 4 grupos para iniciar os trabalhos.

O primeiro ponto foi fazer uma varredura nas bibliotecas da cidade a fim agrupar a
bibliografia e fontes acerca da cidade e promover a leitura e discussão destes. Foram elencadas a
biblioteca da UNIFESSPA, biblioteca municipal, bibliotecas dos colégios, bancas de revistas,
livrarias e bibliotecas privadas dos membros da Academia Xinguarense de Letras.

Em um segundo momento, cada grupo ficou responsável por fazer o levantamento dos
nomes das ruas de um bairro específico e procurar pela legislação de nomeação das ruas. Após
incessantes visitas à Câmara municipal, à Prefeitura Municipal e à mídia escrita da cidade,
encontraram-se apenas duas: a Lei 686/08, de 29 de abril de 2008, que nomeia a Rua 02, do Setor
Itamaraty como Rua João Vitória, em homenagem póstuma a João Francisco da Silva e Lei 858/13,
de 08 de abril de 2013, que nomeia a rua 11, do Setor Itamaraty como Apolônia de Sousa
Nascimento, em homenagem póstuma à moradora, dita pioneira, desta rua.

O acesso a estes locais a fim de procurar a documentação não foi simples. Em alguns casos,
houve resistência à nossa entrada por algum tipo de desconfiança e, em outros, pareceu haver um
descaso para com nosso trabalho e não entendimento da nossa intenção. De qualquer maneira,
nossa presença pareceu gerar desconforto.

Já em relação à documentação da década de 1980 e 1990, nos foi informado na Câmara


que devem estar em Conceição do Araguaia, pois Xinguara foi desmembrada deste município e
não contava com espaço próprio para o armazenamento da legislação. Não foi possível comprovar
tal informação devido à distância, custos de viagem e tempo hábil, afinal a cidade está,
aproximadamente, a 240 km de distância. Outros funcionários da Câmara Municipal disseram que
os nomes das ruas foram dados pelos próprios moradores e, pela tradição, incorporados ao
município.

Devido a estes problemas, dificuldades e imprevistos, uma parte do projeto inicial, que
trata da elaboração de um banco de dados com os nomes das ruas e as respectivas datas de
criação, não pôde ser alcançada.

Dando prosseguimento, foram feitas discussões em sala de aula sobre os resultados das
pesquisas feitas até aquele momento e cada grupo selecionou o nome de uma rua das quais
haviam feito o levantamento, ficando decidido: Avenida Orlando Luís Muraro, do bairro Marajoara
68

II, Rua João Vitória, no bairro Itamaraty I, Rua Nova esperança, no Bairro Nobre e a Escola Estadual
de Ensino Médio Pedro Ribeiro Mota.

Dessa maneira, ficou a cargo dos grupos, sob o acompanhamento próximo do professor,
fotografar tais espaços, procurar por pessoas que porventura conhecessem as personagens
escolhidas, irem até os locais físicos e entrevistar os transeuntes a fim de verificar seu
conhecimento acerca daquela personagem, promoverem entrevistas com membros da família da
personagem, promoverem questionários, enfim, foi apresentada uma gama de possibilidades de
fontes a serem exploradas nas pesquisas e deixado livre para cada grupo escolher as que mais lhe
conviessem.

Após as escolhas metodológicas específicas para cada trabalho, os encontros semanais


foram utilizados para discutir acerca das especificidades de cada uma delas e os alunos puderam
sair para o trabalho de campo. Prioritariamente, os grupos optaram por realizar entrevistas e
questionários.

Antes da realização das entrevistas buscou-se, a partir da leitura de uma bibliografia acerca
da cidade de Xinguara, compor um roteiro para efetuá-las. Entretanto, tal roteiro serviu apenas de
base para haver uma linearidade e manter o foco da pesquisa, e não como um “jogo” de perguntas e
respostas. Assim, optou-se por manter uma conversa descontraída a fim de deixar o (a) entrevistado
(a) à vontade para resgatar suas lembranças e anedotas, fazendo o possível para que não se
instaurasse um caráter de formalidade que, por vezes, poderia resultar em desconfiança e rigidez nas
respostas, haja vista que nosso objetivo é o de encontrar “respostas” nas entrelinhas e vislumbrar em
acontecimentos, à princípio sem muita relevâncias, fulcros de representação acerca da realidade do
período.
Elizeu Clementino de Souza (2006), explicitamente influenciado por Pineau (1999),
categoriza epistemologicamente algumas diferenciações acerca da pesquisa biográfica 8, das quais
elegemos para a nossa pesquisa a “história de vida”, que, segundo o autor, refletem a
autocompreensão de quem somos, das aprendizagens que edificamos durante nossa vida, “das
nossas experiências e de um processo de conhecimento de si e dos significados que atribuímos aos
diferentes fenômenos que mobilizam e tecem a nossa vida intelectual” (SOUZA, 2006, p. 130).
O método narrativo ou autobiográfico da vertente suíça de Genebra, em cujos expoentes
pode-se selecionar Marie-Christine Josso (2006) e Gaston Pineau (2006), oferece-nos a
possibilidade de dar voz a atores sociais diversos, tendo em vista que seus depoimentos nos
possibilitam analisar outras informações que não as versões oficiais de nossa história sócio-cultural.

8
O autor elenca quatro categorias diferentes: a biografia, a autobiografia, os relatos orais e as histórias de vida.
69

Segundo tais autores, seria fundamental a utilização de um posicionamento multiteórico frente aos
relatos, gerando uma forma mais abrangente de análise, já que são ampliadas as possibilidades
interpretativas frente a diversas teorias, não se fechando, conseqüentemente, a apenas um
posicionamento teórico.
Bourdieu chama a atenção para os perigos da ilusão biográfica defendendo a utilização do
conceito de trajetória pois, dessa maneira, evita-se que o sujeito seja deslocado de seu espaço social,
construindo o “conjunto de relações objetivas que uniram o agente considerado ao conjunto dos
outros agentes envolvidos no mesmo campo e confrontados com o mesmo espaço” (BOURDIEU,
1996, p. 190).
Por se tratarem de relatos de vida, ou seja, fontes memorialísticas, deve-se ter a clareza da
diferenciação entre memória e história que, segundo Nora, longe de serem sinônimos, tomamos
consciência que tudo opõe uma à outra devido à memória ser resultado de uma pluralidade de
narrativas e a história ser uma atividade escrita, que organiza as diferenças e hiatos da memória; o
autor afirma ainda que o que chamamos hoje de memória é, na verdade, história; em suas palavras:

A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e (..) está em permanente
evolução, aberta a dialética da lembrança e do esquecimento (...) A História
reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória
é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma
representação do passado. Porque é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a
detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas,
globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências,
cenas, censura ou projeções. A história, porque operação intelectual e laicizante,
demanda análise e discurso crítico. A memória instala a lembrança no sagrado, a
história a liberta, e a torna sempre prosaica. A memória emerge de um grupo que
ela une, o que quer dizer, como Halbwachs o fez, que há tantas memórias quantos
grupos existem; que ela é, por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e
individualizada. A história, ao contrário, pertence a todos e a ninguém, o que lhe dá
uma vocação para o universal. A memória se enraíza no conreto, no espaço, no
gesto, na imagem, no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às
evoluções e às relações das coisas. A memória é um absoluto e a história só
conhece o relativo (...) A memória é sempre suspeita para a história, cuja
verdadeira missão é destruí-la e a repelir. A história é desligitimação do passado
vivido. No horizonte das sociedades de história, nos limites de um mundo
completamente historicizado, haveria a dessacralização última e definitiva (NORA,
1993, p. 09).

Nora ainda explana sobre a memória como portadora de um sentimento de identidade coletivo
que, com sua mutação de memória para história a partir da industrialização e/ou globalização, levou
cada grupo a redefinir sua identidade por meio de sua história, fazendo de cada um “historiador de si
mesmo” pois, com o fim da “história-memória”, houve um aumento considerável das memórias
particulares que buscam sua própria história. Esse fenômeno, que o autor chama de “metamorfose
70

histórica da memória” levou à conversão à psicologia individual, “do social ao individual, do transissivo
ao subjetivo, da repetição à rememoração” (p. 18). Assim, a memória contemporânea torna-se privada.
Dessa forma, “A psicologização integral da memória contemporânea levou a uma economia
singularmente nova da identidade do eu, doa mecanismos da memória e da relação com o passado”
(idem).
Assim, colocamos a questão: como interpretar estas entrevistas, que são memórias individuais?
Neste sentido, Pollak nos fornece subsídios acerca dos elementos constitutivos da memória, pois
apresenta de forma clara que a memória, longe de ser apenas um fenômeno individual, deve ser
considerada como fenômeno coletivo e social, submetido a transformações, flutuações e mudanças
constantes, assim como tem seus aspectos invariantes e imutáveis, e que são os melhores para uma
análise. Destes elementos constitutivos da memória, o autor ressalta três: os acontecimentos vividos
pessoalmente ou indiretamente – pelo grupo ou pela coletividade a qual a pessoa se sente pertencente,
podendo ocorrer um fenômeno de projeção ou de identificação com o passado, “tão forte que podemos
falar de uma memória quase herdada” (POLLAK, 1992, p. 201) –; as pessoas e os personagens, também
encontrados direta ou indiretamente, nos mesmos moldes que os acontecimentos; e os lugares da
memória – ligados a uma lembrança, podendo ou não ter apoio no tempo cronológico. “Esses três
podem dizer respeito a acontecimentos, personagens e lugares reais, empiricamente fundados em fatos
concretos. Mas pode se tratar também de projeções de outros eventos” (idem, p. 202).
Outro apontamento do autor diz respeito à memória possuir como característica a seleção de
acontecimentos e datas pois, devido à experiência individual de uma pessoa, sua participação na vida
pública, as datas e acontecimentos da vida privada e pública serão ora assimiladas, ora separadas e ora
faltarão no relato ou na biografia. Então, o que a memória “grava, recalca, exclui, relembra é o resultado
de um trabalho de organização” (ibidem, p. 204).
Nora, ao descrever a mutação da memória herdada nacionalmente para individual e grupal, liga-
se a Pollak quando este faz a ligação entre memória e sentimento de identidade individual e coletiva,
“imagem de si, para si e para os outros”, que os situa dentro de um grupo (ibidem). Pollak complementa
que a construção de identidade ocorre em comparação aos outros, devido aos “critérios de
aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade”, que ocorre devido a negociações diretas com os
outros, não sendo apenas essência de uma pessoa ou grupo (ibidem).
Depois de feitas as entrevistas, foram transcritas e devolvidas aos entrevistados a fim de que
dessem sua aprovação e, só após, utilizamos nas respectivas análises iniciais. Feitas as correções pelo
professor, os alunos foram convidados a montar pôsteres que ilustrassem e resumissem, de maneira
didática, todo o trabalho feito até então para que pudesse haver uma exposição na Escola Estadual de
Ensino Médio Pedro Ribeiro Mota
71

Em contato com o professor de História da escola supracitada, Gilson França, este se prontificou
a participar da exposição com seus alunos e promover atividades variadas com o tema, assim como
participou momentaneamente da elaboração da exposição.
Após conversa com os grupos, ficou decidido que a exposição não seria estática, ou seja, seria
uma exposição acompanhada pelos membros e explicada aos alunos do colégio.
Como trabalho final, os alunos do terceiro período entregaram suas impressões acerca de todo
trabalho feito e houve troca de experiências.

Painéis apresentados pelos alunos


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74
75

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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POMIAN, Krzysztof. Coleção. In: Enciclopédia Einaudi: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984.
76
77

AMAS DE LEITE NOS JORNAIS DE BELÉM DO GRÃO-PARÁ


DO SÉCULO XIX:
ALIMENTAÇÃO, SAÚDE E LITERATURA MÉDICA9

Damiana Valente Guimarães Gutierres10 (Universidade Federal do Pará)

RESUMO

O artigo trata sobre a ama de leite nos jornais de Belém do Grão-Pará do Século XIX: alimentação,
saúde e literatura. A metodologia da pesquisa é documental com base na análise de conteúdo de
Laurence Bardin (2009). O resultado do estudo mostrou que haviam anúncios sobre produtos que
reforçavam a alimentação, a deliberação da criação de um instituto e anúncio de literatura médica
para escolher ama de leite.
Palavras-chave: Ama de Leite; Belém; Século XIX.

Introdução

A existência das amas de leite tem intensa ligação com a escravidão existente no Brasil do
século XIX. No trajeto desse período, o vínculo da escrava negra com a criança branca foi uma
extensão do período colonial, o que também ocorreu na Província de Belém do Grão-Pará. Segundo
Freyre (2008), a ama de leite teve um importante papel na composição da formação da família
patriarcal brasileira, pois era a ama que cuidava, amamentava e em algumas vezes também educava
a criança branca de família abastada.

O tratamento da ama de leite em relação aos demais escravos era diferenciado, devido a sua
relação próxima com a família mesmo que ela não fizesse parte da família. A relação social e
econômica da ama de leite era fruto de um produto de relações sociais desiguais, de uma prática de
comércio trazida da Europa, principalmente de Portugal. Em alguns casos o vínculo afetivo entre a
ama e a criança ou o bebê branco era estabelecido.

Os negros em Belém do Pará são descritos pelos olhares e relatos dos visitantes que aportaram
na capital da Província do Grão-Pará nesta época do século XIX. Sobre as negras o viajante João
Affonso do Nascimento (apud SALLES, 1971, p.115) comenta que elas “trajavam-se vistosamente
e com certo luxo”. Sobre a mulata paraense, em seu relato é possível observar o tipo físico e o

9
Trabalho Completo enviado ao X Simpósio Regional da ANPUH-Pará/2016
10
Mestra em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Pará; Doutoranda da Linha de
Educação, Cultura e Sociedade do Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto de Ciências da Educação da Universidade
Federal do Pará.
78

trabalho que ela exercia, entre essas funções encontra-se a da ama seca que é a ama que cuida da
criança, mas não a amamenta diferente da ama de leite que tem essa como sua principal função.
De acordo com o referido viajante entre suas figuras regionais inconfundíveis, a mulata se
fazia presente pela Província do Grão-Pará como cozinheira ou costureira, amassadeira de açaí ou
vendedeira de tacacá, ama-seca ou criada de servir, a mulata paraense era sempre original no seu
vestir, não abrindo mão dessa vaidade.
As amas de leite da cidade de Belém eram em sua maioria escravas que trabalhavam nas
casas, cuidavam de bebês e crianças, exerciam atividade remunerada por contra própria alugando-se
ou sendo alugadas por seus senhores. Inicialmente a vinda dos escravos para a Amazônia foi para
suprir a necessidade de mão de obra escrava para trabalhar nos engenhos de açúcar, plantações e na
extração de bens que pudessem ser vendidos. A atividade da ama de leite era uma das atividades
exercidas pelas negras que chegaram à Província do Pará, pela necessidade dos senhores de ter
criadas para amamentar e cuidar de suas crianças. Então chegamos ao seguinte problema: Quais
evidências existiram nos jornais sobre as amas de leite em relação a alimentação, a saúde e a
literatura médica na cidade de Belém do Grão-Pará no século XIX?

Neste artigo, o objetivo da pesquisa foi verificar se haviam anúncios de jornais que faziam
referência sobre a alimentação, a saúde e a literatura médica de orientação de escolha de amas,
assim apresentamos neste estudo os resultados dos anúncios encontrados referentes a esse problema
de pesquisa. A perspectiva é que o estudo possa contribuir com a sistematização da memória da
História da Escravidão e da História da Educação Paraense do século XIX e instigar novos estudos.

A metodologia utilizada foi a pesquisa documental de cunho histórico e a análise de conteúdo.


Jackson Sá-Silva (2009) explica que o uso de documentos em pesquisa permite acrescentar a
dimensão do tempo à compreensão do social. Já para Philips (1974) em Ludke (1986) os
documentos são considerados quaisquer materiais escritos que possam ser usados como fonte de
informação sobre o comportamento humano.
A análise do conteúdo é compreendida como um processo de análise da mensagem e dos
vestígios nela contidos que pode evidenciar informações implícitas, tais como: como, para quem e
quando foi escrita. Tais informações permitem descrever uma determinada época histórica,
costumes e também a linguagem. Por apresentar tais características, a análise de conteúdo se torna
mais apropriada para a pesquisa histórica. Após a classificação dos documentos por tema,
elaboraram-se categorias de análise com base na análise de conteúdo proposta por Laurence Bardin
(2009). Para este autor, “qualquer comunicação, isto é, qualquer veículo de significados de um
emissor para um receptor controlado ou não por este, deveria ser por escrito, decifrado pelas
técnicas de análise de conteúdo” (p.34). A análise do conteúdo é compreendida como um processo
79

de análise da mensagem e dos vestígios nela contidos que pode evidenciar informações implícitas,
tais como: como, para quem e quando foi escrita. Tais informações permitem descrever uma
determinada época histórica, costumes e também a linguagem. Por apresentar tais características, a
análise de conteúdo se torna mais apropriada para a pesquisa histórica.
Brandão (2004) considera este tipo pesquisa como histórica porque o jornal como fonte de
pesquisa retrata através das informações, ofertas de produtos e serviços, os objetos e as
preocupações de um determinado grupo social de certa época.
Os anúncios de jornais como fonte de pesquisa histórica foram tratados por Luca (2010) que
citou como exemplo o trabalho de Gilberto Freyre como pioneiro ao realizar estudos sobre
diferentes aspectos da sociedade brasileira do século XIX, assim como outros pesquisadores
formados com padrão de excelência acadêmica, tais como: Emília Viotti da Costa, Fernando
Henrique Cardoso, Stanley J. Stein, Nicia Vilela Luz e Leôncio Martins Rodrigues, também usaram
os jornais como fonte de pesquisa para obter dados de natureza econômica ou demográfica para
analisar diversos aspectos da vida social e política.
O fato que evidenciou a importância do jornal como fonte de pesquisa foi o ocorrido na
década de 1970, quando houve um deslocamento do estatuto da imprensa: ao lado da história da
imprensa e por meio da imprensa, o próprio jornal tornou-se objeto da pesquisa histórica.
Gilberto Freyre (2010), ao folhear jornais do século XIX, constatou que havia os anúncios que
tratavam das mais variadas realidade dos escravos no Brasil. Os anúncios constituíam um material
extraordinário para estudo e interpretação de certos aspectos do século XIX, sobretudo o retrato de
escravos: descrição das aparências físicas, dos temperamentos, das habilidades, das maneiras de
vestir, violências físicas. Dos diversos anúncios analisados Gilberto Freyre escreve o livro O
escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX, na qual realiza uma tentativa de
interpretação antropológica, através de anúncios de jornais brasileiros do século XIX, de
características de personalidade e de formas de corpo de negras ou de mestiços, fugidos ou expostos
à venda, como escravos, no Brasil do século passado. Tais informações descrevem a sociedade da
época imperial como sendo patriarcal e a relação dos senhores com seus escravos, como afirma este
autor:

A verdade, porém, é que dos anúncios de jornais de escravos à venda ou que


pudessem ser comprados ou alugados, em jornais brasileiros do século XIX, há uns
tantos que revelam que na verdade, houve de cruel, em contraste com aquelas
evidências da benignidade nas relações de não poucos senhores com seus escravos.
A benignidade nas relações de senhores com escravos, no Brasil patriarcal, não é
para ser admitida, é claro senão, em termos relativos. Senhor é sempre senhor
(FREYRE, 2010, p. 26).
80

A partir dessa obra de Gilberto Freyre (2010) foi possível compreender que os anúncios de
jornais constituem a melhor matéria ainda virgem para o estudo e a interpretação de certos aspectos
do nosso século XIX. Para esta pesquisa foram analisados 07 (sete) anúncios encontrados em 06
(seis) jornais que circulavam na Província do Grão-Pará no período de 1845 a 1884, sendo eles: A
Constituição, Treze de Maio, Diário de Belém, Diário do Commercio, A Regeneração, O Liberal do
Pará e Gazeta Official pesquisados na Biblioteca Artur Viana (CENTUR) e na Hemeroteca da
Biblioteca Nacional Digital. Os anúncios foram divididos em 3 categorias de análise a partir da
temática apresentada: 1. Produtos para reforçar a alimentação da ama de leite e complementares; 2.
A saúde da ama de leite: o instituto de exame das amas de leite e 3. Literatura médica para orientar
a escolha de ama de leite. A seguir a análise dos anúncios sobre as categorias eleitas.

1. Produtos para reforçar a alimentação da ama de leite e complementares

Nesta categoria produtos para reforçar a alimentação da ama de leite e complementares,


analisamos os anúncios de produtos que reforçavam a alimentação das amas de leite e também
produtos que complementavam a alimentação. Foram encontrados 05 (Cinco) anúncios nos jornais
Diário de Belém (1885, 1876), A Regeneração (1879) e A Constituição (1879,1880). O primeiro
anúncio descreve uma espécie de elixir de vinho fabricado na França e aprovado pela junta de
Higiene do Brasil, que ao ser dado para a ama de leite beber, tinha como função enriquecer o seu
leite. O cuidado com a saúde da ama era supervisionado por um médico.

VINHO E XAROPE DE DUSART DE LACTOPHOSPHATO DE CAL.


Admitida na nova pharmacopea official de França. Aprovado pela Juncta de Hygiene do
Brasil.
As experiencias dos mais celebres médicos do mundo tem provado que o lactophosphato de
cal no estado solúvel, tal como se acha no vinho e xarope de Dusart, é, em todos os
momentos da vida o reconstituinte por excelência do corpo humano.
Nas mulheres grávidas, facilita o desenvolvimento do feto e basta muitas vezes para evitar
os vômitos e outros acidentes da gravidez.
Administrado ás amas de leite enriquece-lhes o leite, preservando as crianças de cólicas e
diarrehas, a dentição faz-se facilmente sem dor e sem convulsões. Mais tarde quando o
menino está pálido, lymphatico, que suas carnes são flácidas, que aparecem glândulas no
pescoço, acha-se no lactophosphato de cal um remédio sempre efficaz.
Sua acção reparadora e reconstituinte não é menos segura para os adultos anêmicos, que
sofrem de má digestão e para os que se acham enfraquecidos pela idade e pelos excessos.
Seu uso é precioso para os tísicos porque traz a cicatrização dos tubérculos do pulmão e
sustenta as forças do doente, favorecendo sua alimentação.
Em resumo o xarope e vinho de Dusart estimulam o appetite, estabelecem a nutrição de
uma maneira completa e asseguram a formação regular dos ossos, dos músculos e dos
sangue.
Fonte: Jornal Diário de Belém p. 4, nº 162 de Terça-feira, 21 de Julho de 1885. Ano VIII.

A alteração nos hábitos de alimentação e saúde com o consumo de alimentos vindos da


Europa que ajudavam a reforçar a alimentação da ama tinham como objetivo enriquecer o leite. O
81

produto anunciado destacava seus benefícios às crianças, às grávidas e às amas de leite, que ao
terem o seu leite enriquecido com as propriedades do xarope, preservariam as crianças que seriam
amamentadas, de cólicas e diarreias e também evitariam a dor na dentição.
O jornal A Regeneração (1876) e o jornal Diário de Belém (1876), respectivamente,
apresentam anúncios referentes à Farinha Láctea como outra opção além da amamentação pela ama
de leite. No anúncio do jornal A Regeneração, a palavra ama de leite apareceu em destaque para
chamar a atenção de forma imediata de quem o lia, mas descrevia as vantagens da alimentação da
farinha láctea Nestlé com o parecer de médicos de Nova York e Viena favoráveis ao uso do
alimento, de modo que esta informação pudesse transmitir segurança e confiança para o leitor e
instigá-lo a querer comprar o alimento anunciado.

AMA DE LEITE
FARINHA LACTEA DE NESTLÉ
Parecer do Dr. J. Fitz O. Connor madico e chefe da instituição de maternidade de Nova
York
A meu ver nada existe de melhor para substituir o leite materno, dou pois a farinha de
Nestlé a preferncia sobre todos os alimentos empregadoa até hoje.
Nova York, 9 de fevereiro de 1870.
Parecer do dr. J. J. Hall, médico de Maternidade e do hospital das crianças de Nova
Yorque:
A farinha lactea de nestlé que se usa na maternidade há oito meses (tem) produzido
resultados grandemente satisfatórios. As experiencias importantes que se fizeram
provaram-se que a farinha Lactea é o melhor alimento proprio para substituir o leite
materno.
Nova York, 4 de Fevereiro de 1870.
Sendo tão conveniente para as criancinhas quanto mais para pessoas idosas, fracas,
convalescentes e sofrendo do estômago.
Vende-se na rua dos Mercadores n 45 BB, em casa de Manoel J. da Costa e Silva.
Fonte: Jornal A Regeneração, Quarta feira, 16 de Fevereiro de 1876. p. 4 Ano III nº 84.

AMA DE LEITE
FARINHA LACTEA NESTLÉ
Parecer do Dr. W. Mac Crea, medico em chefe do departamento medical melbours.
È raro que eu conceda atestados para um remadio, ou para qualquer artigo alimenticio,
mas quando á farinha látea de nestlé esta tão firmada a sua reputação. Que creio poder
affastarme da minha regra ordinária.
Certifico ter subemetido a farinha lactea de Nestlé a uma experiencia completa e
prolongada como artigo alimenticio para as crianças que sofrerem de diarreia e de outras
meléstias intestinais.
Ordenei que empregassem nas escolas indusdriais, e seu resultado tem sido
constantemente satisfatório. A farinha láctea de Nestlé foi suportada pelo estomago,
quando todos os osutros alimentos eram regeitados.
Melbrne, 2 de setembro de 1871.
Parecer do dr. Fridinger, diretor da maternidade e do asylo dos enjeitados em Viena. A
farinha lactea de nestlé está em algum tempo em uso no Asylo dos enjeitados, e posso
certificar que esta farinha preenche perfeitamente o seu fim.
Como ela não se dá (...) prova de sua facil digestão. Passo a rescomendar este alimento a
toda mãe que não possa por si mesmo alimentar seu filho.
Vienna, 16 de agosto de 1873.
82

Sendo este alimento tão gabado a criancinhas quanto mais deve couvir a essoas idosas,
fracas convalescentes e sofrendo do estômago.
Vende-se em casa de Manoel Jose da Costa e Silva, na rua das Mercedes nº 45, sendo uma
lata da farinha 1$500 ditae de dita 16$000.
Fonte: Jornal Diário de Belém p. 4, nº 134 de Quinta-feira, 22 de Junho de 1876. Ano IX.

Nos dois anúncios acima, verificamos um discurso publicitário que considerava a farinha láctea
como um alimento de fácil digestão, indicado para crianças que sofriam de diarreia e moléstias
intestinais e também a pessoas idosas, fracas, convalescentes e sofrendo do estômago. Tal alimento era
visto como sendo o melhor substituto do leite materno para as mães que não podiam amamentar e
entende-se que, consequentemente, como substituto das amas de leite.
O anúncio do jornal A Constituição (1879) informava que a Farinha Láctea Nestlé era um
benefício para o Brasil, visto a insuficiência de ama de leite. Este alimento foi anunciado como
complemento da amamentação materna, sendo uma alternativa de alimentação para a criança em
prejuízo a escassez da ama de leite, recomendado de acordo com os anúncios europeus. Evidencia-
se a influência europeia exercida nos costumes brasileiros através da intenção de imitar o costume
europeu.

AMA DE LEITE
A escassez das amas sadias e boas, o seu preço elevado, tem tornado a introdução da
farinha láctea de Nestlé, um verdadeiro beneficio para o Brasil.
Hoje uma mãe pode ter a satisfação de criar seu filho com o leite que tiver, pouco ou
muito, sem risco de enfraquecer nem de sofrer na sua saúde, dando como complemento o
excelente alimento de Nestlé tão gabado pelas sumidades medicas da Europa já
anunciadas; com uma despeza mensal que não chega a 10$ pôde-se hoje nutrir uma
criança de peito nas melhores condições possíveis.
Também é muito receitada a farinha Nestlé a todas as pessoas idosas, fracas,
convalescentes, ás que sofrem do estomago, e quem precisam de um alimento de fácil
digestão.
Vende-se em casa de Manoel José da Costa e Silva a rua dos Mercadores n. 45 BB.
Fonte: Jornal A Constituição. Órgão do Partido Conservador. Belém do Pará, Sabbado,
27 de setembro de 1879. p. 3. Anno VI nº 218

O anúncio abaixo publicado no jornal A Constituição (1880), embora tenha Ama de leite no
começo do anúncio, destaca no conteúdo a farinha láctea Nestlé como um alimento de primeira
ordem indicado para crianças de peito, pessoas fracas e convalescentes. A ideia era transmitir para o
leitor que a farinha láctea poderia ser uma alternativa de alimentação em relação a ama de leite para
crianças de peito e também seria indicada para adultos.

AMA DE LEITE
A farinha Lactea de Nestlér é um alimento de primeira ordem para criancinhas de peito,
pessoas fracas e convalescentes; vende-se na rua dos Mercadores n. 45, BB, casa de M. J.
da Costa e Silva á 1$600 a lata.
Fonte: Jornal A Constituição. Órgão do Partido Conservador. Belém do Pará, Quinta-
feira, 26 de agosto de 1880. p. 3. Anno VII nº 190
83

Nos anos finais do século XIX, amas saudáveis eram cada vez mais escassas, fato que
beneficiou a elevação do preço das amas, aliado a isto, a influência da medicina na esfera da vida
doméstica contribuiu para o aumento da prática do aleitamento materno ou artificial. Os anúncios
analisados mostram a farinha láctea Nestlé como um alimento recomendado pela junta central de
Hygiene pública do Rio de Janeiro e a medicina da Europa como um alimento saudável e complementar
ao leite materno.
A história do início da Farinha Láctea Nestlé 11 sucedeu no ano de 1866, na Suíça, quando
ocorreram os primeiros experimentos de Henri Nestlé ao combinar leite de vaca, farinha de trigo e
açúcar, o que resultou na criação da NESTLÉ® FARINHA LÁCTEA. Já no ano de 1867, ocorreu o
lançamento da NESTLÉ® FARINHA LÁCTEA, também na Suíça, este acontecimento marcou o início
das atividades da Société Nestlé no mundo. No entanto, só em 1876 teve o início da importação da
NESTLÉ® FARINHA LÁCTEA para o Brasil. A substituição do leite das amas e das mães por leites e
alimentos industrializados, evidencia a influência exercida pela indústria para a mudança dos hábitos da
amamentação e alimentação infantil.

2. A saúde da ama de leite: O Instituto para o exame das amas de leite

Nesta categoria sobre a saúde da ama de leite: O Instituto para o exame das amas de leite, foi
encontrado apenas um anúncio publicado no jornal Diário de Belém (1877) referente à deliberação do
Conselho de Estado para a criação em Belém de uma maternidade e de um instituto para o exame da
ama de leite, uma espécie de controle de qualidade do leite da ama para a criança, pelo governo. A
respeito deste instituído, a sua localização ou maiores informações são fontes ainda a serem investigadas
posteriormente.

CONSELHO DE ESTADO – Pelo ministério do imperio remetteram-se á secção dos


negócios do império do conselho de estado os papeis relativos á deliberação tomada pela
camara municipal da corte de crear n’aquela cidade uma casa de maternidade e um
instituto para o exame das amas de leite.
Fonte: Jornal Diário de Belém p. 1, nº 126 de Quarta-feira, 06 de Junho de 1877. Ano X.

Este anúncio mostra a preocupação do governo com a saúde da ama de leite, devido à
incidência de transmissão de sífilis, que era comum na época, tanto da ama para a criança e vice-
versa. A contaminação pela sífilis acontecia tanto da escrava para o senhor como vice-versa. Na
casa grande e na senzala, a sífilis foi a doença por excelência entre os negros e senhores. Para
Gilberto Freyre (1998) o filho do senhor de engenho contraía a sífilis quase brincando entre negras
e mulatas ao desviginar-se precocemente aos doze ou aos treze anos. O cinismo do homem branco
chegou a ponto de usar as negras como remédio para curar males sexuais, como no caso da sífilis.

11
A História da farinha Láctea Nestlé disponível em: http://www.nestle.com.br/site/anestle/historia.aspx acesso em:
Janeiro de 2012.
84

Foram os senhores das casas grandes que contaminaram as negras das senzalas, pois muitas delas
tantas vezes entregues virgens, ainda molecas de doze e treze anos, a rapazes brancos já podres de
sífilis das cidades.
A exigência nos anúncio de contratação de amas de leite sadia tinha relação direta com a
disseminação da sífilis que era tão grande no Brasil chegando a prejudicar o comércio do aluguel de
amas de leite. A respeito desta relação perigosa de contágio, Freyre (1998, p.317) supunha que
“muitas mães negras, amas de leite tenha sido contaminada pelo menino de peito alastrando-se por
esse meio, da casa-grande à senzala”. Embora, muitas amas sadias tivessem sido infectadas por
bebês que já tivessem a sífilis, muitos pais que entregavam estes bebês doentes culpavam a ama de
leite pela sifilização. Freyre (1998) comenta sobre o aleitamento pela a ama e a sífilis:

Sendo o aleitamento um dos meios mais comuns de transmissão, compreende-se


quantos resultados favoráveis à população produzirá uma medida de natureza tão
simples e de fácil exequibilidade. - As negras amas de leite - não poderiam se
entregar ao aleitamento mercenário sem atestações ou exames de sanidade pelo
médico competente (FREYRE, 1998, p.317).

É evidente, nesta citação, que o problema causado pela sífilis favoreceu a intervenção médica
na família para que eles examinassem as amas antes que elas amamentassem as crianças, mesmo
que elas tivessem sido contaminadas anteriormente por bebês infectados. Tal ação causou uma
reação por parte dos senhores proprietários das amas, a de reclamar a contaminação de suas
escravas aos pais das crianças sifilizadas.

3. Literatura médica para orientar a escolha de ama de leite

Na categoria literatura médica para orientar a escolha da ama de leite, apresentamos um


anúncios publicado no jornal Treze de Maio (1855) sobre um dicionário de medicina popular, que
entre diversas recomendações e orientações, está a de como escolher uma boa ama de leite. O
anúncio é dirigido a pessoas que não tem como hábito as artes de curar, não tem conhecimentos
médicos e procuram no livro uma fonte de informação de como escolher uma boa ama, além de
diversas outras informações a respeito da saúde.

Ha a venda na livraria de Santos e Irmãos o...


Diccionário de Medicina Popular em que se descrevem, em linguagem accomodada, a
inteligencia das pessoas estranhas a arte de curar, os signaes, as causas, as moléstias, os
socorros que se devem prestar nos accidentes subito, como aos afogados, asphyxiados,
fulmiandaos de raio, ás pessoas mordidas por cobras venenosas, nas perdas de sangue, nas
convulções das crianças os caratteres das cobras que são venenosas e das inoccentes,os
contravenenos de todos os venenos conhecidos; os sonselhos para preservar das moléstias
e preservar a vida, as preceuções que deve tomar quem muda de clima; os preceitos sobre
a educação dos meninos; os cuidados que reclama a prenhez; o parto, as suas
consequencias, a criança recem nascida, a escolha de uma boa ama de leite, a dentição, a
85

desmamação, etc; os peigoas a quem expõe as differentes profissões e os meios de evitá-


los; os erros pupulares nocivos á saude; os meios de descobrir a falcificação do vinho e
dos alimentos; a preparação dos remédios caseiro; as plantas úteis e venenosas, etc.
Segunda Edição mais correta consideravelmente argumentada, e enriquecida com 5
estampas.
Fonte: Jornal Treze de Maio, Quinta-feira, 12 de Abril de 1855, nº 473, p.4, Décimo quinto
ano.

A escolha da escrava ou liberta para ser ama de leite, de acordo com Koutsoukos (2010),
preferencialmente pelos senhores e senhoras era minuciosa e em algumas vezes, com a ajuda e
orientação de médicos. A atenção com a escolha era porque dizia respeito ao convívio da família
com uma pessoa estranha que iria cuidar do bebê. Os critérios para ser uma ama de leite ideal eram
os seguintes: “Elas tinham de ter boa saúde, não ter vícios, ser pacientes e carinhosas com as
crianças” (KOUTSOUKOS, 2010, p.156).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na sociedade patriarcal escravocrata brasileira, transferir os cuidados dos filhos para outras
pessoas era sinônimo de nobreza entre os ricos, o que significa que a posse (em sendo escrava) ou
mesmo o aluguel de uma ama de leite eram associados a status da família. Quanto às amas de leite,
historicamente as origens dessa função estão relacionadas com a escravidão, com mulheres
subjugadas e cativas que foram obrigadas a abandonar seus filhos e amamentar o filho do senhor.
A análise dos anúncios de jornais paraenses sobre as amas de leite, organizados segundo as
categorias demonstradas, possibilitou encontrarmos indícios importantes a respeito da existência
das amas de leite de forma semelhante a outros lugares do pais. A pesquisa possibilitou ainda
conhecer que as amas de leite foram objeto de negócio, isto é, elas foram alvo da escravidão, da
exploração e da obtenção de lucro através do seu aluguel.
Na sociedade paraense do século XIX, observamos a prova na análise dos anúncios, a
existência de uma preocupação com a alimentação do bebê em detrimento da ama de leite e em
relação a escassez de amas e sua substituição pela farinha láctea Nestlé, também o anúncio da
criação de um instituto para exames de amas de leite pelo governo, assim como, também, a
indicação de uma literatura médica para ajudar os senhores e senhoras na orientação na escolha de
uma boa ama.
O estudo sobre o processo de comercialização das amas de leite nos anúncios de jornais
permitiu observar como era evidente a procura e oferta de amas de leite, assim como a maneira
como os cuidados com as crianças eram relegados a outras pessoas. Espera-se que os resultados
alcançados possam contribuir com uma parte da história da escravidão e da história da educação
paraense no século XIX e que possam suscitar novos estudos.
86

REFERÊNCIAS

BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Edição rev. e atual. Lisboa, edições 70, 2009. 281 p.

BRANDÃO, Nagamine Hathsue Helena. Escravos em anúncios de Jornais Brasileiros do Século


XIX: Discurso e Ideologia. Revista Estudos Lingüísticos XXXIII, p. 694-700 2004. [ 694 / 700 ]
em: Acessado em 04 de Janeiro de 2012.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala: formação da família brasileira sob regime
patriarcal. 34ª Ed, Rio de Janeiro. Record. 1998.

______________. Vida social no Brasil nos medos do século XIX. 4ª Ed. Revista – São Paulo:
Global, 2008.

______________. Os escravos nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. 4ª ed. – São
Paulo: Global, 2010.

LUCA, Tânia Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi
(org.). Fontes Históricas. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2010. p. 111-154.
LÜDKE, Menga. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas/Menga Lüdke, Marli E. D. A.
André. – São Paulo: EPU, 1986. (Temas básicos da educação do nosso ensino.

SÁ-SILVA, Jackson. Pesquisa documental: pistas teóricas e metodológicas. Revista Brasileira de


História & Ciências Sociais. Ano I - Número I - Julho de 2009 www.rbhcs.com ISSN: 2175-3423
acessado em abril de 2016.

SALLES, Vicente. O Negro no Pará: sob o regime da escravidão. Rio de Janeiro: Fundação
Getúlio Vargas, Belém: UFPA, 1971. 336 p. (Coleção Amazônica. Série José Veríssimo).

KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. Negros no estúdio fotográfico: Brasil, segunda metade
do século XIX. Campinas, SP, Editora da Unicamp. 2010.

______________. No estúdio do fotógrafo: representação e autorepresentação de negros livres,


forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Tese. Universidade Estadual de
Campinas, Campinas, SP. 2006.

SITES CONSULTADOS:

Biblioteca Nacional Digital: http://bndigital.bn.br/

Hemeroteca Nacional Digital: http://hemerotecadigital.bn.br/

Nestlé: http://www.nestle.com.br/site/anestle/historia.aspx
87

JORNAIS PESQUISADOS:

Jornal Diário de Belém p. 4, nº 162 de Terça-feira, 21 de Julho de 1885. Ano VIII.

Jornal A Regeneração, Quarta feira, 16 de Fevereiro de 1876. p. 4 Ano III nº 84.

Jornal Diário de Belém p. 4, nº 134 de Quinta-feira, 22 de Junho de 1876. Ano IX.

Jornal A Constituição. Órgão do Partido Conservador. Belém do Pará, Sabbado, 27 de setembro de


1879. p. 3. Anno VI nº 218

Jornal A Constituição. Órgão do Partido Conservador. Belém do Pará, Quinta- feira, 26 de agosto
de 1880. p. 3. Anno VII nº 190

Jornal Diário de Belém p. 1, nº 126 de Quarta-feira, 06 de Junho de 1877. Ano X.

Jornal Treze de Maio, Quinta-feira, 12 de Abril de 1855, nº 473, p.4, Décimo quinto ano.
88
89

PLANTAS, GÊNEROS E OBSTÁCULOS:

RAZÕES SOCIAIS E RELIGIOSAS PARA O USO DE PLANTAS DE


TERREIRO PELAS COMUNIDADES TRANS E TRAVESTI

Júlio Ferro Silva da Cunha Nascimento12

RESUMO

A resistência das travestis e mulheres trans às violências e exclusões impostas a população T


são assuntos frequentes em textos onde a transexualidade e a travestinidade são temas. Devido as
dificuldades encontradas nas vivências destas pessoas é comum encontrar maneiras de contornar
tais obstáculos, atitude com caráter de sobrevivência para quem pertence a grupos altamente
marginalizados no meio social. A utilização de diversas espécies de plantas, geralmente para fins
terapêuticos, é de senso comum entre brasileiros, neste trabalho será analisado e problematizado o
uso destas plantas por mulheres transsexuais e travestis no Brasil, procurando relativizar os diversos
motivos para tal comportamento, desnaturalizando seu uso e aumentar a rara historiografia que
retrata pessoas (trans) e travestis.
PALAVRAS CHAVE: plantas medicinais – travestilidade – historiografia trans

PLANTS, GENDERS AND OBSTACLES:

SOCIAL AND RELIGIOUS REASONS FOR THE USE OF TERREIRO PLANTS BY THE
TRANS AND TRAVESTI COMMUNITIES

ABSTRACT

The resistance of transvestites and transgender women to the violence and exclusions
imposed on the T population are frequent issues in texts where transsexuality and travesty are
themes. Due to the difficulties encountered in the experiences of these people, it is common to find
ways to circumvent such obstacles, an attitude with a survival character for those who belong to
highly marginalized groups in the social environment. The use of several species of plants, usually
for therapeutic purposes, is common sense among Brazilians, in this work will be analyzed and
problematized the use of these plants by transsexual women and travestis in Brazil, seeking to
relativize the various reasons for such behavior, denaturalizing their use And to increase the rare
historiography that portrays (trans) people and travestis.
KEY WORDS: medicinal plants – travestilidade - trans historiography

LAS PLANTAS, LOS GÉNEROS Y LOS OBSTÁCULOS:

RAZONES SOCIALES Y RELIGIOSAS PARA EL USO DE PLANTAS DE TERREIRO


POR LAS COMUNIDADES TRANS Y TRAVESTI

12
Graduando em Bacharelado em História pela Universidade Federal do Pará. E-mail: julioferronas@gmail.com
90

RESUMEN

La resistencia de travestis y mujeres transexuales a la violencia y exclusiones impuestas a la


población T son temas frecuentes en textos en los que la transexualidad y travestinidade son
cuestiones. Debido a las dificultades encontradas en las experiencias de estas personas es común
encontrar maneras de evitar estos obstáculos, actitud con carácter de supervivencia para los que
pertenecen a grupos de alta marginación en el entorno social. El uso de varias especies de plantas, a
menudo con fines terapéuticos, es de sentido común entre los brasileños, este trabajo será
examinado y cuestionó el uso de estas plantas para las mujeres transexuales y travestis en Brasil,
tratando de relativizar las diversas causas de este comportamiento, desnaturalizar la utilización y
aumentar la rara historiografía que retrata personas (trans) y travestis.
PALABRAS CLAVE: plantas medicinales – travestilidade – historiografía trans

Introdução

Nos estudos sobre populações transgênero, a resistência das travestis e das mulheres trans às
violências e exclusões são assuntos frequentes. Devido as dificuldades encontradas nas vivências
destas pessoas é comum encontrar maneiras de contornar tais obstáculos, atitude dada como
sobrevivência para quem pertence a grupos altamente marginalizados no meio social.

Não esquecendo o fator cultural que atinge desde as camadas mais altas até as mais baixas, o
sincretismo religioso presente no Brasil é influência na vida dos sujeitos estudados. Tal sincretismo
entre religiões ameríndias, afro e europeia influenciou o comportamento do grupo social estudado
ao utilizar elementos religiosos de uma religião enquanto pertence à outra religião ou nenhuma.

As plantas de terreiro possuem finalidade diferentes conforme a intenção de quem as


utilizam. Geralmente utilizadas para fins terapêuticos, plantas medicinais são usadas para alcançar
resultados diferentes dos que a medicina convencional gera ou devido as plantas de terreiro serem
mais econômicas. Além do quesito bem estar físico, há o espiritual onde o usuário procura “limpar
energias negativas”, atrair pretendentes através de crendices que envolvem certas ervas, atrair
melhores ofertas de emprego, etc.

Se cada indivíduo procura as plantas de terreiro por um motivo específico ligado a sua
vivência e cultura que está inserido, seria possível diagnosticar padrões de um grupo de indivíduos a
respeito da utilização? Este trabalho tem como objetivo analisar e problematizar o uso de plantas de
terreiro pela comunidade transfeminina que possui muitas adeptas da prática.

Em termos dos estudos do passado, a comunidade trans como um todo é raramente abordada
em trabalhos historiográficos, levando a História em terreno para as outras ciências humanas com
bibliografia extensa em relação aos colegas historiadores. A psicologia e as ciências sociais são as
que mais produzem textos a respeito da comunidade trans, textos oriundos desde a metade do século
XX, enquanto a história tem seus trabalhos iniciados após a década de 1980 e hoje em dia o número
91

de historiadores que estudam transexualidade e travestilidade ainda é possível de ser contado com
as mãos.

Conectar história da natureza com temas trans enriquece a ciência do passado por adentrar
mares poucos navegados, a conscientizar o meio acadêmico sobre vivências trans e demonstrar
como é possível abordar transfeminilidade sem ter a prostituição e violência como temas centrais,
quebrando a generalização transfóbica que a sociedade tende a fazer sobre pessoas que são trans.

Por que relacionar transfeminilidade com plantas de terreiro? A resposta vem ao notar a
presença do sincretismo religioso nas falas e práticas de mulheres (trans) e travestis no seu
cotidiano ou em terreiros. Nas falas, nota-se muitas gírias do chamado “bajubá”, que é o dialeto
utilizado por muitas travestis e mulheres (trans), dialeto este cheio de palavras oriundas do Iorubá,
idioma afro utilizado em muitos terreiros. Há relatos de grande presença trans em terreiros, podendo
ter até mães de santo que são transexuais ou travestis, tendo como motivo a maior aceitação em
religiões afro do quem em igrejas cristãs.

Numa pesquisa de campo 13 realizada em 10 terreiros de Candomblé em Ilhéus e Itabuna,


foram identificadas 78 espécies vegetais distribuídas em 43 famílias, sendo as mais representativas
Asteraceae (nove espécies), Lamiaceae (sete espécies), Fabaceae e Myrtaceae (quatro espécies
cada). A obtenção destas espécies por compra em feiras corresponde a 25% do total, mas
especificando para as plantas de intuito medicinal o número cresce para 34%, isto aponta que o uso
de plantas medicinas é frequente dentro e fora dos terreiros.
Trindade (2000) aborda que o uso de espécies nativas associadas à prática de rituais de
Candomblé cria um relacionamento entre o usuário, a espécie de planta utilizada e o orixá de
interesse, cada elemento possuindo suas particularidades e contextos específicos, por exemplo, após
o Padê de Exu e a defumação, também confeccionado com folhas secas, segundo o ritual, jogam-se
folhas em todo o terreiro. A etnobôtanica presente nas religiões afro é complexa e por isso é
necessário estudar não apenas a espécie, mas também a sociabilidade e valor agregado a tal erva.

O uso de plantas varia desde o valor terapêutico do tratamento com arruda para o tratamento
de alergias até o uso de “banhos”, como o banho de mangueira para mudar a “energia” de quem o
utiliza. Seja para fins físicos ou psicológicos, os usuários sabem quem procurar: pais e mães de
santo em terreiros.
Textos sobre a comunidade LGBT presente em terreiros apontam que é de conhecimento popular a
grande presença desta comunidade no espaço afro religioso, com diferentes maneiras de lidar com
lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. O Candomblé e a Umbanda, diferente do

13
PIRES, ABREU, SOARES, SOUZA, MARIANO, SILVA e ROCHA (2009)
92

cristianismo, não possuem escrito uma passagem proibidora de atos entre pessoas do mesmo gênero
ou que que fogem do padrão cisnormativo. Com a existência de tal ato, seria possível concluir que
há total aceitação de LGBTs em terreiros?
Os textos lidos e analisados no intuito da produção do seguinte artigo possuem trechos onde
encontra-se a confirmação da existência de mães e pais de santo LGBT14, passagens onde gays
afeminados se sentem mais confortáveis em estar num terreiro do que numa igreja cristã, idosas
apoiando a permanência de uma moça travesti no terreiro, dados que apontam para uma maior
aceitação LGBT. Porém, há falas de líderes de terreiros onde proíbem a presença de “homens
usando saia”, proibição de gays “muito afeminados”, utilização de termos jocosos 15, negação de
mulheres trans em rituais onde apenas mulheres cis podem atuar, etc. Notou-se que a relação entre
LGBTs e terreiros, mesmo sem proibições escritas, não está livre de influências lgbtfóbicas da
sociedade que a rodeia e que a relação entre os dois elementos varia de acordo com a sociabilidade
de tal terreiro com questões de gênero e sexualidade foras do padrão.
Há a mãe de santo que realiza todos os papéis reservados às mães de santo em relação as
plantas, como cultivo, rituais e receita para quem a procura. Há a cidadã que acredita nas
propriedades místicas das ervas e as utiliza, independente de pertencer a tal religião cristã. Estes
papéis podem ser atuados por travestis e mulheres trans também, afinal a sua identidade de gênero
não as exclui disto.
Kulick, em sua obra “Travesti: prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil”, aborda o dia
a dia de 13 travestis que o autor se pôs a morar junto, Kulick abordou as vivências travestis sem tom
de exotismo e com respeito as concepções e modos de viver de suas entrevistadas. O autor relatou
em sua pesquisa de campo para a sua obra, a rotina de uma delas e como é comum o uso de ervas
para realizar o “banho de ervas” para retirar o “olho gordo” de possíveis pessoas que a querem mal.
Não é comentada na obra se esta personagem em questão frequentava centros de umbanda ou
candomblé, mas é possível concluir que o sincretismo religioso em torno das plantas utilizadas pode
ter sido fator para tal comportamento devido as expressões utilizadas pela a entrevistada em
questão.

Ativistas do movimento transfeminista16 e dados adquiridos pela academia apontam a


exclusão da comunidade trans em espaços públicos como Hospitais 17 e clínicas. A negação do uso
do nome social pelos funcionários da saúde, seja propositalmente ou não, gera constrangimento
para pacientes T, somando com o despreparo médico no tratamento com indivíduos LGBT, gera

14
SANTOS (2013)
1515
DOS SANTOS (2008)
16
MÜLLER (2007)
17
MÜLLER; KNAUTH (2008)
93

grande receio de travestis e transexuais a procurar ajuda médica. Isto obriga a estes indivíduos a
apelar para métodos alternativos, como ervas medicinas receitadas em centros de matriz religiosa
afro.
Pessoas trans são vistas negativamente por grande parcela da sociedade por não se
encaixarem numa estrutura sócio-biológica construída há séculos: homem de pênis, mulher de
vagina. Mulher trans é a categoria de gênero onde uma pessoa se identifica como mulher,
contrapondo a designação masculina que recebeu ao nascer baseada no genital, o pênis. Travesti,
identidade de gênero unicamente brasileira, assemelha-se ao constructo social e biológico da mulher
trans, porém o termo “travesti” possui caráter de resistência por ser visto como termo estigmatizado.
Em contra partida, “cisgênero”18 é o termo “guarda-chuva” que abrange as pessoas que se
identificam com o gênero que lhes foi determinado quando de seu nascimento.
A violência físico-psicológica realizada unicamente por ódio ou aversão às pessoas “trans” é
caracterizada como transfobia. A transfobia possui inúmeras faces e maneiras de prejudicar muitas
travestis, mulheres trans e homens trans: expulsão por parte da família, agressão policial,
prostituição imposta como sobrevivência, exclusão do mercado de trabalho, privações educacionais
e de saúde, homicídios, suicídios, etc.

Conclusão
Travestis e mulheres trans são, como o resto da população brasileira, indivíduos presentes
num espaço onde há séculos ocorre inúmeras relações entre religiões ameríndias, africanas e
europeias gerando concepções onde o sagrado e o pagão dividem espaço, como por exemplo, uma
cristã não temente aos orixás, mas que acredita nas propriedades místicas de plantas oriundas de
terreiros. A segregação transfóbica presente em diversas instituições é influencia para a população T
procurar segmentos da sociedade também marginalizados historicamente, como os espaços de
religião afro, onde a aceitação não é total, mas “negociável” e que possui histórico de líderes
LGBT.
A utilização de diversas espécies de plantas para variados fins possuem influencias não
apena pessoais, como sociais, a exemplo de quem procura ervas medicinais por ter os tratamentos
convencionais negados por transfobia de profissionais da saúde em hospitais públicos ou
particulares. Fatores como desrespeito ao nome social, xingamentos e atendimentos médicos
negados levam muitas pessoas (trans) a evitarem ao máximo procurar profissionais da saúde, o que
torna os procedimentos não convencionais uma alternativa, no caso, as plantas medicinais
encontradas em terreiros.
Criar mecanismo de defesa contra práticas opressoras gera possíveis leituras para autores
acadêmicos, neste caso, analisa-se as práticas culturais como forma de militância, resistência e bem
18
GOMES DE JESUS, Jaqueline. P 14 (2012)
94

estar. Colocar todos os atos das pessoas (trans) como atos políticos retira a subjetividade de seus
sujeitos assim como excluir a luta transfeminista da problematização é excluir o caráter político do
grupo estudado.
Ter mães de santo pertencentes a comunidade trans e o não existir líderes religiosos trans em
outras religiões demonstra como os papeis de gênero diferenciam-se em religiões de matriz judaico-
cristã. Devido estarmos inseridos num contexto histórico-social que naturaliza a violência contra a
população LGBT, todos estão sujeitos a carregar, em diferentes níveis, conceitos transfóbicos,
gerando assim discriminação inclusive em terreiros, porém, ainda é notável que terreiros sejam os
espaços religiosos com maior aceitação e, consequentemente, maior presença LGBT.

Fontes
Trindade, O.J.S., Bandeira, F.B., Rêgo, J.C., Sobrinho, J.L., Pacheco, L.M. & Barreto, M.M. 2000.
Farmácia e Cosmologia: A etnobotânica do Candomblé na Bahia. Etnoecológica, 4(6): 11-32.

GROSSI, Mirian P. Identidade, Gênero e Sexualidade. In: Antropologia em Primeira Mão.


Florianópolis: PROAS/UFSC, 1995.

GOMES DE JESUS, Jaqueline; Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos;


Brasília. (2012).

BUTLER, Judith; Gender Trouble: feminism and the subversion of identity, (1990).

KULICK, Don; Travesti: prostituilçao, gênero e cultura no Brasil.

VALERIANO, Jéssica Barcelos; A homossexualidade no Candomblé de Uberaba. XII Simpósio da


ABHR. MG. 2011.

MÜLLER, Magnor Ido; KNAUTH, Daniela Riva. Desigualdades no SUS: O caso do atendimento
às travestis é “babado!”. CADERNOS EBAPE. BR, v.6, n 2, Jun. 2008.

MÜLLER, Magnor Ido. “Os médicos nunca me tocaram um dedo! Eu cansei daquele posto”: A
percepção das travestis quanto ao atendimento em Saúde. UFRS. 2007.

SANTOS, Ailton da Silva. O gênero na berlinda: reflexões sobre a presença de travestis e


mulheres transexuais nos terreiros de Candomblé. III Seminário Internacional Enlaçando
Sexualidades. UFBA. 2013.
95

O HOMEM (TRANS) COMO SUJEITO HISTORIOGRÁFICO: VIVÊNCIA,


TRAJETÓRIA E LUTA
Júlio Ferro Silva da Cunha Nascimento19

RESUMO
Desde metade do século XX, a transexualidade e travestinidade tornaram-se objetos de pesquisa
para diversas ciências humanas, no entanto, a historiografia tardou em tratar indivíduos trans como
sujeitos históricos, começando tais trabalhos no final do século passado e hoje em dia ainda temos
poucos colegas de profissão com temas trans, em sua maioria, sobre transexualidade feminina e
travestilidade. Neste trabalho, quebra-se o silêncio historiográfico a respeito das problemáticas que
englobam a comunidade dos homens que são trans, geralmente enquadrados em trabalhos que
trabalham pessoas (trans) em termos gerais, o que não faz jus as vitórias, lutas, problematizações e
vivências destes sujeitos homens que quebram os padrões masculinos de gênero e sexualidade.
Utiliza-se diversas fontes de pesquisa como textos filosóficos de Butler, historiadores que dissertam
sobre textos trans, entrevistas com líderes de militância transmasculina brasileira e indivíduos que
aceitaram compartilhar suas vivências para enriquecer os debates a respeito da identidade de gênero
transmasculina e intersecções.

PALAVRAS CHAVE: transmasculina, historiografia trans, transexualidade.

(TRANS) MAN AS HISTORIOGRAPHIC SUBJECT: EXPERIENCE,


TRAJECTORY AND FIGHT

ABSTRACT
Since the mid-twentieth century, transsexuality and travestinity have become objects of research for
various human sciences; however, historiography took time to treat trans individuals as historical
subjects, beginning such works at the end of the last century and today we still have few historians
with trans themes, mostly, about female transsexuality and “travestilidade”. In this work, the
historiographic silence about the problematics that encompasses the community of men who are
trans, generally framed in texts that discuss (trans) people in general terms, which does not defines
correctly to the victories, struggles, problematizations and experiences of these men subjects who
break masculine patterns of gender and sexuality. Various sources of research are used, such as
Butler's philosophical texts, historians who produce trans texts, interviews with leaders of Brazilian
transmasculine militancy, and individuals who have agreed to share their experiences in order to
enrich debates about transmasculine gender identity and intersections.

KEY WORDS: transmasculine, trans historiography, transsexuality.

EL HOMBRE (TRANS) COMO SUJETO HISTORIOGRÁFICO: VIVENCIA,


TRAYETORIA Y LUTA

19
Graduando em Bacharelado em História pela Universidade Federal do Pará. E-mail: julioferronas@gmail.com
96

RESUMEN
Desde mediados del siglo XX, la transexualidad y la travestiidad se han convertido en objetos de
investigación para varias ciencias humanas; Sin embargo, la historiografía tomó tiempo para tratar a
los individuos trans como sujetos históricos, iniciando tales trabajos a finales del siglo pasado y hoy
todavía tenemos pocos historiadores con temas trans, sobre todo, sobre la transexualidad femenina y
la "travestilidade". En este trabajo, el silencio historiográfico acerca de la problemática que abarca
la comunidad de hombres trans, generalmente enmarcada en textos que discuten (trans) personas en
términos generales, lo que no define correctamente a las victorias, luchas, problematizaciones y
experiencias de estos Hombres que rompen patrones masculinos de género y sexualidad. Se utilizan
diversas fuentes de investigación, como los textos filosóficos de Butler, los historiadores que
producen textos trans, las entrevistas con líderes de la militancia transmasculina brasileña y los
individuos que han acordado compartir sus experiencias para enriquecer los debates sobre la
identidad de género y las intersecciones transmasculinas.

PALABRAS CLAVE: transmasculina, historiografía trans, transexualidad.

A transexualidade como objeto de estudo

Partindo das interpretações fundamentais de Judith Butler, Grossi e Jaqueline Gomes de


Jesus a respeito de gênero, o trabalho abordará as vivências de pessoas transmasculinas. A Teoria
Queer (BUTLER, 1990), criada no intuito de questionar os constructos tidos como naturais sobre
gênero, sexualidade e sujeito, é a teoria presente das obras filosóficas de Butler. Gomes de Jesus
trabalha suas obras no rumo da psicologia social que aborda a situação de pessoas trans na política
de movimentos sociais no Brasil (2014), seja no movimento LGBT ou no chamado
“transfeminismo”.
Gênero é ligado aos papéis sociais diferenciados de acordo com uma construção social
coletiva da ideia de feminilidade e masculinidade. O sexo é a diferença biológica entre macho e
fêmea. A identidade de gênero relaciona-se a capacidade pessoal do indivíduo, como ele se sente, se
identifica e se situa, em relação às questões sociais que se enquadra masculino e feminino. A
sexualidade se enquadra nas dimensões individuais do indivíduo e como o mesmo lida com seus
desejos para com outrem (GROSSI, 1995).
O estudo sobre transexualidade é complexo para o meio acadêmico por ser uma quebra de
conceitos sociais que as pessoas em nossa sociedade são submetidas (LOPES; CARVALHO;
CARARRA, 2013). Devido a pessoa transexual não se situar no modelo heteronormatista bigênero,
o estudo torna-se mais difícil por ser uma categoria estudada apenas por volta do século XX, porém
não menos importante.
Aproximadamente em 1950, a transexualidade tornou-se objeto de pesquisa nos Estados
Unidos, tendo como autores principais Robert Stoller, Harry Benjamin e John Money. Nos anos 80,
a maior presença de pessoas (trans) na mídia como Roberta Close e Roberta gerou interesse em
97

autores brasileiros em se aproximar da temática trans e a preocupação em não ligar a


transexualidade com a prostituição e criminalidade (LEITE JR., 2011).
A problemática redução da transexualidade a fatores como criminalidade e prostituição não
era o único obstáculo para o entendimento da pluralidade de vivência trans: criado pelo médico
endocrinologista Harry Benjamin, o termo “transexual de verdade” em sua obra O fenômeno
transexual em 1966 influenciou as ciências humanas ao fortalecer discursos como essencialismo
biológico e a patologização da transexualidade.
A pluralidade de formas de a transexualidade e travestinidade serem vividas confrontam
moldes historiográficos e antropológico de lidar com grupos estudados, gerando trabalhos onde o
autor ou autora padroniza a vivência de toda uma comunidade no intuito de conceituá-la, porém
esquecendo que a diferença é o fator marcante das pessoas estudadas, diferenças internas e externas.
Para estudiosos como Bento (2008), Pelúcio (2005), Arán, Murta e Lionço (2009), Leite Jr.(2011),
entre outros, as múltiplas maneiras de vivenciar a travestilidade e a transexualidade colocam em
questão, mesmo que sem intenção, as normas de gênero que regem nossos conceitos de sexo,
gênero e, no limite, de humano, explicitando a sua fluidez e a sua transitoriedade (Leite Jr.,
2011:220).
A teoria Queer ou teoria transfeminista, aborda o sistema de opressão como possuidor de
uma pluralidade de ações repreensivas que alteram-se de acordo com os marcadores sociais que um
indivíduo possui. A individualidade dos sujeitos não é utilizada no intuito de negligenciar fatores
estruturais, ao contrário, tendo o indivíduo (micro) como consequência de estruturas opressoras
(macro) pode-se analisar as diversas maneiras em que a sociedade age na repreensão de grupos
marginalizados.
A exemplo, temos a mulher negra, que ao estudar uma pessoa com marcadores sociais de
mulheridade e negritude, é possível notar que o racismo e a misoginia agem diferentes de como
agem com a mulher branca e o homem negro: Segundo Pacheco (2013), a mulher negra é maioria
populacional e minoria em termos de relacionamento, sendo ignorada por homens que preferem
mulheres brancas por “negras serem barraqueiras, estressadas, não servirem para namoro” e outras
acusações fundadas na união do racismo com a misoginia. A respeito da pluralidade de marcadores
sociais, Minayo disserta:
As experiências e as trajetórias de vida devem ser percebidas numa
perspectiva de totalidade histórica, em que indivíduos e grupos têm grande parte
suas vidas condicionadas por determinantes de diversas naturezas: econômica,
política, cultural e subjetiva. Estes determinantes compõem a dinâmica do real na
sociedade, e a dialética apresenta-se como o método de abordagem desse real,
esforçando-se por entender o processo histórico em seu dinamismo, provisoriedade
e transformação (Minayo, 1996:65)
98

Durante o estudo do autor sobre a comunidade LGBT, notou-se o “silêncio de Clio” em


estudar as possíveis problemáticas a respeito dos homens pertencentes a comunidade trans.
Enquanto as ciências sociais e a psicologia realizam textos sobre o tema, a historiografia falha em
estudá-los em específico.
Na procura de bibliografia de historiadores que abordassem temas trans, encontrou-se 15
textos, em sua maioria artigos, pertencentes a 5 historiadores, geralmente, focando na parcela
travesti e transfeminina. Homens (trans) aparecem de maneira geral ao se abordar pessoas não-cis,
nota-se que as problematizações de nenhum dos trabalhos historiográficos encontrados têm como
foco a comunidade transmasculina, com exceção de um único texto escrito por Maranhão (2013),
logo, evidencia-se a necessidade de trabalhar pessoas transmasculinas como sujeitos históricos.

Luta e vivência marcadas pela violência transfóbica

A sociedade brasileira possui números alarmantes de violência 20, seja física, psicológica ou
a horrível combinação das duas partes. As medidas policiais criadas no intuito de controlar tais
violências possuem grau de eficiência baixo, possibilitando possíveis análises onde a violência é a
consequência e não causa. Consequências oriundas de estruturas antigas que atualmente se mantem
e se alteram conforme o contexto social da vítima ou agressor(a). Homens (transexuais) 21 são
encontradas nas partes mais inferiores destas estruturas, lugar que reflete sua influência na vivência
social, amorosa e políticas do homem que vivencia a transexualidade.
Pessoas (trans) são vistas negativamente por grande parcela da sociedade por não se
encaixarem numa estrutura sócio-biológica construída há séculos: homem de pênis, mulher de
vagina. Homem (trans) é a categoria de gênero onde uma pessoa se identifica como homem,
contrapondo a designação feminina que recebeu ao nascer baseada no genital, a vagina. Em contra
partida, “cisgênero” (DE JESUS, 2014) é o termo “guarda-chuva” que abrange as pessoas que se
identificam com o gênero que lhes foi determinado quando de seu nascimento.
O gênero travesti, existente há mais de um século, surge com a existência de pessoas
designadas homem ao nascer e que se expressam de maneira tida como extremamente feminina e
que não se identificam como homem, tudo isso ligado a uma espacialidade latino-americana, onde
as travestis construíram uma cultura (modos de agir, de comunicação, de expressão, etc) ao redor
deste termo, seja por falta de termo mais apropriado ou por ressignificar a terminologia, assim como
20
http://www.inf.ufes.br/~fvarejao/cs/Violencia.htm (visualizado na data 19/04/2016)
21
“Pessoas (transexuais) reivindicam a priori serem reconhecidas como pessoas. Ademais, com isso, o termo
transexual não se sobrepõe ao gênero reivindicado por tais pessoas, e como tal autora enfoca este recurso – o uso dos
parênteses – também problematiza o próprio termo transexual, categoria oriunda do discurso médico.
Eventualmente, posso utilizar a expressão trans, após homens e mulheres, expressão esta adotada em frequência pela
população em questão, ainda assim, entre parênteses.” OLIVEIRA (2014)
99

afrodescendentes apropriaram o termo “negro”. Há fontes que indicam sujeitos de vagina que não
se definem como mulher22, porém não com o termo “homem trans” ou “transmasculinos”, por isso
me refiro a estes como “novos homens”.
A violência físico-psicológica realizada unicamente por ódio ou aversão às pessoas trans é
caracterizada como transfobia. A transfobia possui inúmeras faces e maneiras de prejudicar muitas
travestis, mulheres trans e homens trans: expulsão por parte da família, agressão policial,
prostituição imposta como sobrevivência, exclusão do mercado de trabalho, privações educacionais
e de saúde, homicídios, suicídios, etc.
Entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes no país, segundo
pesquisa da organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU), rede europeia de
organizações que apoiam os direitos da população trans23. Jaqueline Gomes de Jesus (2003)
trabalha os assassinatos transfóbicos como genocídio, ideia apoiada por grupos de militância e
resistência LGBT, como a Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra)24 e o Grupo
Gay da Bahia25.

A transfobia exclui a comunidade transmasculina do ensino desde o nível fundamental,


como apontam textos de autores estudiosos do tema, alguns deles “nativos” da comunidade
estudada (ALMEIDA, 2013; OLIVEIRA, 2015; NERY, COELHO, SAMPAIO, 2015). Devido a
esta exclusão, como poderia os homens estudados abordarem a sua própria comunidade na
academia? Como o meio acadêmico poderia representar corretamente esta parcela da sociedade?
Esta falta de representatividade reflete nos textos acadêmico mostrando problemas na relação
pesquisador e objeto de pesquisa? Estaria a academia priorizando uma faceta da comunidade trans,
assim excluindo outras? Se o ativismo destes sujeitos incomoda tanto ao ponto de fazê-los correr
risco de vida, por que suas conquistas não são melhor abordadas? Perguntas que pretendo dar
sentindo neste trabalho.
Os estigmas sofridos e rebatidos por homens (trans) ou indivíduos transmasculinos, que vão
além de processos médicos como cirurgias e hormônios. Uma vez que a comunidade trans é uma
comunidade de pouca visibilidade social e acadêmica, trazer este tema para a academia mostrou-se
importante para o autor. Através de entrevista, obras lidas e depoimentos online de homens,
mulheres e travestis, a presente pesquisa procura demonstrar a vivência destas pessoas analisando

22
Os chamados “two spirit” em certas sociedades nativas do Estados Unidos e Canadá, como os Apache, Lipan
Apache, Chiricahua, Mescalero e Dilzhe'e do sul. Endjsø (2014).
23
http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2015-11/com-600-mortes-em-seis-anos-brasil-e-o-que-mais-mata-
travestis-e
24
http://odia.ig.com.br/noticia/brasil/2014-01-29/brasil-lidera-numero-de-mortes-de-travestis-e-transexuais-aponta-
ong.html
25
http://www.doistercos.com.br/ggb-registra-326-assassinatos-de-gays-em-2014/
100

os dilemas, vida social/familiar das mesmas e, principalmente, seu ativismo no movimento LGBT e
no chamado “transfeminismo”.

1984 a 2016: homens (trans) em prosa

Durante a ditadura militar brasileira, João W. Nery lançara em 1984 o seu primeiro livro
(Erro de pessoa – Joana ou João) sobre a sua vivência como homens (trans), nesta obra o autor
aborda os obstáculos, táticas e violências que marcaram a sua trajetória de vida, texto de grande
valor para entender – e respeitar – a comunidade trans.
Em 2011, “Viagem Solitária - Memórias de um transexual 30 anos depois” era lançado e a
repercussão da obra marcou a vida de Nery e a literatura a respeito de indivíduos trans. Tal
repercussão tornou o autor referência em militância transmasculina, ganhou prêmios de
organizações LGBT e literatura26, entrevistas televisivas (De frente com Gabi, Superpop, Programa
do Jô, Altas Horas, A Liga, Balanço Final, Provocações, Canal Fiocruz, Tabu Brasil, entre outros),
notou a necessidade de abordar seus temas academicamente, então contribuiu para diversos textos
acadêmicos de temas trans com autores como Gaspodini (2014) e Maranhão Filho (2013).
Atualmente, a historiografia trans possui poucos autores estudiosos de “trans tema”, seja
pela exclusão que a transfobia gera, seja por ser considerado um tema “muito novo” por colegas
historiadores. Rita Rodrigues, Fábio Lopes, Elisa Veras e Eduardo Maranhão possuem trabalhos
historiográficos com um foco em transfeminilidade e travestilidade, nenhuma das obras dos autores
abordam homens (trans) em específico - fora Maranhã no texto “Transhomens no ciberespaço:
micropolíticas das resistências” com parceria de João W. Nery - porém os seus textos foram
utilizados para criar um caminho de como abordar transmasculinidade, partido da ideia de que
respeitaram a transexualidade, a historicidade do tema e as diferentes vivências dos pertencentes a
comunidade trans.
Outro fator para o menor registro de atos militantes e vivências transmasculinas é a
invisibilização de muitos homens que são trans e a chamada “passabilidade cis” 27: Almeida disserta
que as características corporais do estereótipo masculino são mais fáceis de serem adquiridas do que
as femininas, portanto, homens (trans) são lidos de forma masculina mais fácil que travestis que
procuram adquirir uma leitura social feminina (ALMEIDA, 2012). E por isso, muitos homens
(trans) preferem “se misturar na multidão” do que atuar em grupos de militância, atitude agravada

26
Prêmio Astra (2011), Prêmio da 10ª Parada Gay de São Paulo (2012) e o Prêmio Arco Íris de Direitos Humanos em
“Visibilidade Trans” (2011).
27
Leitura social onde o indivíduo é lido pelo gênero que pertence e reivindica socialmente, evitando situações
problemáticas e perigosas a respeito de transfobia.
101

devido a transfobia que leva muitos a evitarem o desgaste emocional de se assumirem abertamente
como transexuais.
Para entender a situação dos indivíduos estudados num âmbito local, realizou-se entrevista
com um homem (trans) paraense chamado Fernando 28: este conta os frutos da militância
transfeminista em Belém, os obstáculos sociais e familiares impostos, sobre a sua sexualidade,
processos médicos e reconhecimento enquanto homem.
Fernando relata que desde a infância a discriminação faz parte de sua vida, infância marcada
por exclusão por ser sempre o “estranho” que não se identificava com as meninas e era excluído
pelos meninos. Conforme amadurecia, o de desejo de assumir roupas masculina e cabelo curto
amadurecia junto, tanto que aos 12 anos Fernando cortou o cabelo e assumiu roupas masculinas:
“pra mim isso foi como uma terapia, pra minha família um pesadelo”.
A internet, segundo Fernando e Nery, possui grande importância para a militância e estudo:
ambos utilizam as redes sociais para conhecer e ajudar outras pessoas (trans), alcançar novos
círculos sociais, divulgar campanhas transfeministas; A internet também ajudou Fernando a
encontrar meios de se hormonizar, com quem consultar, como lidar com problemas psicológicos
oriundos da discriminação, como se autoconhecer ao ler textos de relatos escritos “de trans para
trans”.

Considerações finais:
O ativismo político parece ser a tática social mais apropriada para alcançar metas pró
aceitação de vidas transmasculinas. As vivências individuais do grupo estudado é uma perspectiva
micro utilizada para analisar o macro, a nossa sociedade: como o gênero é trabalhos em diversos
setores, como atuam as opressões “gritantes” e as “silenciosas”, como instituições (família, escola,
governo, etc) lidam de forma variada com pessoas transgressoras do binarismo de gênero.
Maria Guzzo e Ana Maria Veiga (2016) alertam para a importância de “trans-historiar” os
estudos do passado, transformar e enfatizar movimentos sociais como objeto de pesquisa, debater o
protagonismo trans e como os movimentos sociais influenciam os textos acadêmicos. A luta
feminista, em seus primeiros trabalhos e manifestações, priorizava a mulher pertencente a camada
social mais alta (branca, rica, cisgênera, etc) e conforme outras minorias ganhavam voz, o
feminismo transformava-se conforme novas protagonistas conquistavam direitos: mulheres negras,
mulheres pobres, mulheres indígenas, mulheres (trans), etc.
Se opressões sociais interagem entre si e criam consequentemente novos padrões de
discriminação, logo, a resposta dos movimentos sociais é de criar maneiras de combatê-los. O

28
Nome fictício para esconder a identidade do entrevistado.
102

transfeminismo é a resposta para a transfobia e misoginia presentes nas sociedades como um todo e
é necessária o registro e análise desta luta, no intuito de utilizar a influência social do meio
acadêmico para a conscientização da população.
Dentre os estudos trans, o homem (trans) é indivíduo menos problematizado,
principalmente na historiografia. Quebrar o silêncio historiográfico sobre transmasculinidade é
quebrar um silêncio político, pois a marginalização da transexualidade é fruto de uma política
social. Abordar transmasculinidade em fóruns, palestras e na mídia ajuda a dar força para homens
(trans), transicionados ou não, a “sair do armário” e aceitarem melhor sua identidade.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Guilherme. “Homens trans”: novos matizes na aquarela das masculinidades?. In:
BENTO, Berenice; PELUCIO, Larissa (orgs.). Dossiê Vivências Trans: Desafios, Dissidências e
Conformações. Estudos Feministas, Florianópolis, n. 20, v. 2, 2012.

BUTLER, Judith. Gender trouble: Feminism and the subversion of identity. Routledge, 2011.

CARVALHO, Mário; Carrara, Sergio; Em direção a um futuro trans? Contribuição para a história
do movimento de travestis e transexuais no Brasil. Sexualidad, Salud y Sociedad - Revista
Latinoamericana, núm. 14, agosto-, 2013, pp. 319-351 Centro Latino-Americano em Sexualidade e
Direitos Humanos Río de Janeiro, Brasil. Disponível em:
http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=293328000014. Acesso em: 10 nov. 2016.

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A DESCRIÇÃO HISTÓRICA, GEOGRÁFICA E ETNOGRÁFICA DO RIO


CAPIM FEITA POR JOÃO BARBOSA RODRIGUES

HISTORICAL DESCRIPTION, GEOGRAPHIC AND ETHNOGRAPHIC THE


CAPIM RIVER MADE BY JOÃO BARBOSA RODRIGUES

Cláudio Lísias Moreira Ximenes 29


Álvaro Augusto Queiroz Costa30
Alan Watrin Coelho31

RESUMO

Em 1871, o botânico João Barbosa Rodrigues (1842-1909) foi comissionado pelo Governo Imperial para
explorar alguns rios do Vale Amazônico a fim de completar a parte das palmeiras da grandiosa “Flora
Brasiliensis”, de Karl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868). Foi assim que Barbosa Rodrigues explorou
o rio Capim e os resultados dessa viagem estão no Relatório “Exploração e Estudo do Valle do Amazonas:
rio Capim”, no qual o botânico realizou não só uma minuciosa descrição geográfica e hidrográfica deste rio,
como também analisou alguns de seus aspectos botânicos, zoológicos e de sua ocupação humana através de
observações arqueológicas e etnográficas. O objetivo deste artigo é estabelecer como os estudos realizados
por Barbosa Rodrigues no rio Capim contribuíram para a elaboração de um conhecimento científico da
Amazônia paraense construído dentro contexto político-científico brasileiro do século XIX, dominado pelo
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IGHB).

Palavras-chave: João Barbosa Rodrigues (1842-1909); rio Capim; Ciência; Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro (IGHB).

ABSTRACT

In 1871, the botanist João Barbosa Rodrigues (1842-1909) was commissioned by the Imperial
Government to explore some rivers of the Amazon Valley in order to complete part of the palms of
the great "Flora Brasiliensis" by Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868). It was so, Barbosa
Rodrigues explored the Capim river and the results of this trip are in the Report "Exploration and
Amazon Valle Study: Capim River" in which the botanist held not only a detailed geographical and
hydrographic description of this river, as well as analyzed its botanical aspects, activities and its
human occupation through archaeological and ethnographic observations. Thus, the purpose of this
article is to establish how the studies by Barbosa Rodrigues in the Capim river contributed to the
development of a scientific knowledge of Pará Amazon built in Brazilian political and scientific

29
Licenciado em História pela Estácio Castanhal. Professor de História na Rede Particular de ensino de Castanhal.
30
Licenciado em História pela Estácio Castanhal.
31
Mestre em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará (2006). Coordenador do Curso de
Licenciatura em História da Estácio Castanhal.
106

context of the nineteenth century, dominated by the Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
(IGHB).

Keywords: João Barbosa Rodrigues (1842-1909); Capim River; Science; Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro (IGHB).

RESUMEN

En 1871, el botánico João Barbosa Rodrigues (1842-1909) fue encargado por el Gobierno Imperial
para explorar algunos ríos de la cuenca del Amazonas con el fin de completar parte de la palma de
la gran "Flora Brasiliensis" por Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868). Fue así que,
Barbosa Rodrigues exploró la hierba del río y los resultados de este viaje están en el Informe
"Exploración y Amazon Valle del estudio: Río de la Hierba", en la que el botánico llevó a cabo no
sólo una descripción geográfica y hidrográfica detallada de este río, así como analizaron sus
aspectos botánicos, actividades y su ocupación humana a través de observaciones arqueológicas y
etnográficas. Por lo tanto, el propósito de este artículo es establecer cómo los estudios realizados
por Barbosa Rodrigues en la hierba del río han contribuido al desarrollo de un conocimiento
científico de Pará Amazon construido en el contexto político y científico brasileño del siglo XIX,
dominada por el Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IGHB).

Palabras claves: João Barbosa Rodrigues (1842-1909); río Capim; Ciencia; Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro (IGHB).

Contexto

Durante o Período Colonial (1500-1822) a Coroa portuguesa procurou “preservar os


conhecimentos adquiridos em suas viagens” instituindo uma “política de sigilo” em torno dos seus
“descobrimentos” que incluía “a proibição da saída de cartas para outros países e a pena de morte
para os infratores” (Dorigo, 2006). Consequentemente, informações acerca do Brasil foram
proibidas de ser publicadas em Portugal, fazendo com que o pouco que se conhecia a respeito da
colônia no restante da Europa se desse através de crônicas feitas por viajantes estrangeiros que, nos
séculos XVI, XVII e XVIII, visitaram e exploraram o Brasil, muitas vezes clandestinamente
(Barbato, 2012).

Este panorama só viria a ser modificado no início do século XIX com a chegada da Família
Real e a abertura dos portos às nações amigas (Domingues, 2006). Assim, a partir de 1808, diversos
naturalistas estrangeiros receberam autorização da Coroa para realizar expedições científicas no
Brasil como, por exemplo, o francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire (1779-
107

1853); os bávaros Johann Baptist von Spix (1781-1826) e Karl Friedrich Philipp von Martius
(1794-1868); e o barão russo George Heinrich von Langsdorff (1774-1852) (Fetz; Deffacci, 2009).
Em geral, os trabalhos desses estudiosos contêm informações não apenas da natureza como também
da etnografia de diversas províncias brasileiras, permitindo perceber não só a influência
humboldtiana que norteou suas pesquisas (Naxara, 2004), como também a “compreensão crítica da
ciência e da sociedade” do século XIX (Fetz; Deffacci, 2009).

Apesar da importância do trabalho desses naturalistas, foi somente a partir da fundação do


Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IGHB) em 1838 que foi feita a sistematização efetiva
das informações concernentes à História e à Geografia do Brasil (Wehling, 2010). O Instituto
nasceu no contexto vivido pela elite intelectual brasileira no século XIX que, após a independência
do país em 1822, foi buscar interpretações que conseguissem responder à questão da origem e da
formação da sociedade brasileira. Essas ideias foram difundidas através dos trabalhos realizados por
diversos estudiosos brasileiros e estrangeiros, em sua maioria membros do IHGB (Coelho, 1991).

Percebe-se assim que a criação do IHGB refletiu a preocupação de seus fundadores


(integrantes de uma elite política vinculada à burocracia monárquica) em estabelecer no Brasil um
“projeto de nação” (Wehling, 1999). Coube a eles a responsabilidade de pensar e construir uma
“uma história oficial do Brasil” (Coelho, 1991) com o intuito de alcançar a “consolidação da
unidade política e o fortalecimento do sentimento nacional” (Wehling, 1999). Desse modo, ao longo
do Segundo Reinado (1840-1889), o IHGB constituiu-se como lócus da construção da história
oficial brasileira, bem como da identidade nacional (Coelho, 1991). Para tanto, o Instituto apoiou,
entre outras ações, a realização de viagens científicas que, segundo seus membros, contribuiriam
para um melhor conhecimento geográfico do território brasileiro, bem como ajudariam na
construção historiográfica brasileira (Guimarães, 1988).

A descrição hidrográfica do rio Capim

Nascido a 22 de junho de 1842 no Rio de Janeiro, João Barbosa Rodrigues teve seus
primeiros contatos com as Ciências Naturais durante o período em que foi aluno do curso de
bacharelado em Ciências e Letras pelo Colégio Pedro II (1864). Foi nessa instituição, na qual
exerceria mais tarde as funções de secretário e professor de Desenho, que ele conheceu o botânico
Francisco Freire Allemão Cysneiros (1797-1874), com o qual aprendeu diversas técnicas botânicas
e realizou algumas incursões pelo interior do Rio de Janeiro a procura de orquídeas. Os resultados
destas incursões foram incluídos numa monografia intitulada “Iconographie des Orchidées du
Brésil” (1870) (Sá, 2001).
108

Apesar de não ter sido publicada durante sua vida, a qualidade desta obra abriu as portas
para que, em 1871, Barbosa Rodrigues recebesse do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras
Públicas, por influência da Princesa Isabel (1846-1921) e de Guilherme Schüch de Capanema, o
futuro Barão de Capanema (1824-1908) (Rodrigues, 1903), a autorização para realizar uma
Comissão Científica de Exploração e Estudo pelo Vale do Amazonas, cujo objetivo principal era
catalogar espécies de palmeiras para contribuir com a conclusão da Flora Brasiliensis de von
Martius. Por conta da Comissão, Barbosa Rodrigues permaneceria na Amazônia por três anos e
meio (1872-1875), durante os quais explorou os rios Tapajós (1872), Urubu e Jatapu (1873),
Nhamundá (1874), Trombetas (1874) e Capim (1874-1875) (Sá, 2001).

A ideia de explorar o rio Capim surgiu no final de 1874 quando, na cidade de Óbidos, local
escolhido para ser sua base de apoio, Barbosa Rodrigues procurou saber quais os rios da região que
ainda não haviam sido explorados por naturalistas. Ao saber que o Capim era um deles 32, o botânico
procurou e conseguiu apoio do Governo Provincial do Grão-Pará para realizar a viagem (Jornal do
Pará, 1874; Rodrigues, 1875).

De acordo com o botânico o rio Capim, na sua foz, era

[...] limitado ao sul por diversas ilhas, e ao norte pela ponta de terra firme, onde na
extrema occidental está edificada a cidade de Santa Maria de Belém. Tem ahi de
largura, quase 1 ½ milha ingleza [...]. Na margem sul uma orla de mata continua, e
na margem norte a mesma orla, interrompida por uma ou outra casa ou
estabelecimento industrial. Ahi fica o paiol da polvora do governo, á margem de
um ribeiro Aurá [...] Acima do Aurá [...] duas milhas, na margem esquerda
terminam as ilhas e apparece um canal que une este rio ao [Moju] [...] quasi
fronteiro ao Ariboca [...] (Rodrigues, 1875, p. 4-5).

Ainda de acordo com Barbosa Rodrigues, desde a sua foz o rio Capim apresentava

[...] margens, em plano inclinado, a formar baixos, mais ou menos elevados e


prolongados para o centro [...] O lugar onde a sonda deu maior profundidade foi
defronte ao Aurá, que media 8 ½ braças no canal e 4 ½ sobre os baixos. Depois de
10 milhas, de caminhar sem mudar de rumo, volta-se formando uma curva saliente
na margem esquerda, denominada Ponta Negra [...] A dez milhas da Ponta Negra,
fica o igarapé Caraparú (corruptella de Acará, peixe do gênero mezonauta, bonito),

32
O naturalista inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913) percorreu a foz do Capim em junho de 1849, mas, no entanto,
não propôs estudar cientificamente o rio. Fez algumas observações da flora e da fauna da região e do fenômeno da
pororoca durante o período que ficou hospedado na fazenda “São José”, propriedade do coronel José Calixto Furtado
(Wallace, 2004).
109

onde outr’ora houve uma freguezia, e ainda hoje é muito habitado (Rodrigues,
1875, p. 5).

Depois do Caraparú estava a ilha Bom Intento e, em seguida, existiam duas fazendas,
“Mucajuba”, fundada em 1762, e a “Bom Intento”, ambas localizadas na margem esquerda. Logo
após, encontrava-se a ilha de Pernambuco dos Frades e, próximo a ela, na margem direita, a fazenda
“Pernambuco”, pertencente ao major José Joaquim Pimenta de Magalhães e localizada “n’um dos
pontos mais lindos do rio, e donde se goza a primeira formação da pororoca” (Rodrigues, 1875, p.
6). Pela mesma margem, cerca de nove quilômetros depois, chegava-se à foz do rio Inhangapi.
Cerca de seis quilômetros e meio depois existia a Engenhoca de Santa Thereza de Monte Alegre
que, segundo Barbosa Rodrigues, era habitado por escravos libertos da Ordem dos Carmelitas
(Rodrigues, 1875). Na margem oposta, a pouco mais de um quilômetro e meio de Santa Thereza,
encontravam-se

[...] uns baixos pedregosos [...] que se estendem para o meio do rio, chamados do
[Bojaru]; onde quase de fronte fica a fazenda de Sant’Anna ou do Mirahyteua [...]
Nestes baixos a pororoca, já com furia se arrebenta e tem feito estragos na margem
[...] Abaixo desta fazenda houve ha mais de um seculo, uma ilha que foi destruida
pela pororoca, e começa o leito do rio e apresentar-se rochoso, elevando-se n’uma
das curvas que faz o rio para SE, a formar os baixos denominados Tatuaia [...]
(Rodrigues, 1875, p. 7-8).

Oito quilômetros após os “baixos”, pela margem direita, ocorria a afluência dos rios Guamá
e Capim, próximo a São Domingos da Boa Vista, onde “o rio com a sua curva e com a recepção do
Guamá, affecta a fórma de um T” (Rodrigues, 1875, p. 8). Alguns quilômetros depois de São
Domingos, na margem esquerda, existia a fazenda “Graciosa”, de propriedade da Santa Casa da
Misericórdia (Rodrigues, 1875, p. 8). Depois dessa fazenda, o curso do rio fazia uma curva no
formato de ferradura, depois da qual surgia o que parecia ser os restos de uma ilha destruída pela
pororoca. Nesse perímetro desaguavam os igarapés Caquita e Palheta (Rodrigues, 1875). Após estes
dois igarapés existiam dois engenhos, ambos pertencentes ao engenheiro Vicente Chermont de
Miranda (1849-1907): o “Tapiyruçú”, que era “antigo, de uma construcção solida e com uma bonita
capella, infelizmente maltratada”, que utilizava as águas represadas de um igarapé com o mesmo
nome para moer a cana-de-açúcar e arroz; e o “Aproaga”, que utilizava as águas do igarapé Jaruará
para mover suas máquinas. Entre eles, desaguavam os igarapés Jari (margem direita) e o Pirajoara
(margem esquerda) (Rodrigues, 1875, p. 23).
110

Três quilômetros adiante estava localizada, na margem direita do rio, a freguesia de


Santana do Capim e, cerca de dez quilômetros depois, mais pela margem esquerda, encontrava-se o
engenho “Santo Antonio”, dentro da fazenda “São José”, de propriedade do chefe do Partido
Conservador na freguesia de Santana do Capim (A Constituição, 1882), José Calixto Furtado
(1806-1882), e que era o único da região que possuía “[...] machinas a vapor, uma com todos os
melhoramentos modernos e de grande custo para o descaroçamento do arroz e a moagem da cana
[...]”. Esse engenho produzia “arroz, assucar, cachaça, farinha etc” (Rodrigues, 1875, p. 23)

O rio formava um pequeno conjunto de cinco ilhas em que existiam vários sítios, entre os
quais desaguavam os igarapés Jaboti Maior e Tachyteua, ambos pela margem direita. Logo após
esse trecho, além de desaguar o igarapé Anunirá, existia uma escola particular

[...] regida pelo habil professor Thomaz Francisco de Madureira Pará, filho de João
Francisco de Madureira Pará, que se tornou celebre, por ter sido o que sem ter
conhecimento de typographia montou a primeira na capital da provincia, fazendo
elle todos os typos; e por ser o autor do systema de mover embarcações por um
machinismo semelhante ao dos relogios, cujo segredo levou comsigo á campa, não
tendo podido concluir a que no Rio de Janeiro estava construindo em 1827 com o
nome de Triumpho Imperial do Brazil (Rodrigues, 1875, p. 27).

Cerca de dez quilômetros adiante do Anunirá, localizava-se a ilha São Caetano. Três
quilômetros, além de desaguar o igarapé Maracachy encontrava-se a ilha Caapoam que, segundo
Barbosa Rodrigues, era a maior ilha do rio Capim, com pouco mais de três quilômetros de extensão
(Cf. Rodrigues, 1875). Mais à frente, estava o igarapé Jauaryteua, denominação dada por Barbosa
Rodrigues devido à existência de grande quantidade de palmeiras do gênero Astrocaryum Jauary no
local (Rodrigues, 1875, p. 27). A partir desse trecho, a margem direita passou a ficar irregular e
formada por pequenos outeiros de argila vermelha. Pela margem esquerda, encontrava-se um sítio e
em seguida a ilha Gipó-oca (Rodrigues, 1875).

A partir dessa ilha encontrava-se a chamada de “região dos lagos”, formada pelo
“Tachy” que, segundo o botânico, no verão, costumava-se fazer grandes salgas de tucunaré e
pirarucu (Rodrigues, 1875), e o “Tymbira”, ambos pela margem esquerda, e o Maria Preta, Caraná-
deua e Cata em Pé, pela margem direita. Quase defronte a este último, pela margem esquerda,
ficava o sítio “São Francisco” e, cerca de três quilômetros depois ficava Badajós (hoje, vila do
município de Ipixuna), localidade que também pertencia a José Calixto Furtado e que, segundo
Barbosa Rodrigues, fora destruída pela Cabanagem, a grande “rebellião de 1835” (Cf. Rodrigues,
1875). Pela mesma margem, acerca de cinco quilômetros de Badajós, e perto do rio Candiru-Miri,
111

ficava a localidade de São Bento . Próximo desaguava, pela mesma margem, o rio Candirú-Açú, que
de acordo com Barbosa Rodrigues, seria o segundo maior afluente do rio Capim. Foi aqui que o
botânico resolveu terminar a expedição, uma vez que não conseguiria subir até as cabeceiras do rio
por causa do período chuvoso amazônico (Rodrigues, 1875).

As freguesias do rio Capim em 1875

À época da viagem de exploração de Barbosa Rodrigues, o rio Capim possuía duas


freguesias: a de São Domingos da Boa Vista33 e de Santana do Capim34. A primeira foi criada em
1758, no final do governo do Capitão-General Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700-1769),
e com o parecer favorável do 3º Bispo do Grão-Pará, o dominicano Frei Miguel de Bulhões e Souza
(1706-1778), que a batizou em homenagem ao patrono de sua Ordem. Localizava-se na margem
direita do rio, nas seguintes coordenadas geográficas levantadas por Barbosa Rodrigues: 1º 40’ 0’’
de latitude Sul e 4º 40’ 33’’ de longitude a Oeste do observatório do Rio de Janeiro 35 (Rodrigues,
1875).

Segundo o botânico, São Domingos estava “[...] no ponto mais lindo do rio Capim, sobre
um terreno solido, que se eleva acima da preamar tres metros [...] onde a pororoca se apresenta
magestosa [...]” (Rodrigues, 1875, p. 8). Possuía 17 casas, que eram “edificadas sem ordem, todas
arruinadas”. Havia nela um comerciante brasileiro e uma escola pública para meninos, que não era
muito frequentada pelas crianças da localidade (Rodrigues, 1875). A freguesia ainda contava com
uma nova igreja matriz que estava em construção desde 1862 (a pororoca tinha destruído as duas
primeiras), que era feita

[...] de pedra e cal, espaçosa para a população dahi; com um frontispicio elegante;
com a capella mór forrada, tendo o tecto lavores de talha dourados e pinturas de
côres sombrias, o que se faz realçar o ouro de seus florões. O alta-mór também é
dourado e cheio de obras de talha, onde se vê o estylo antigo bem representado.
Está este templo mal conservado e pouco asseiado. [...] (Rodrigues, 1875, p. 9).

33
Em 1890, pelo Decreto N.º 236, de 9 de dezembro, a freguesia foi desmembrada da comarca de Belém e elevada a
município. Em 1931, o Decreto N.º 720, de 19 de agosto, alterou o nome para São Domingos do Capim. Em 1943, o
Decreto-Lei N.º 4.505, de 30 de dezembro, alterou o nome para Capim. Em 1961, a Lei N.º 2.160, de 10 de janeiro, o
município voltou a ser denominado de São Domingos do Capim (Cf. Ferreira, 2003).
34
Esta localidade no decorrer dos anos perdeu sua importância, deixando de ser freguesia em 1890 e sendo
posteriormente anexada como distrito do Município de São Domingos do Capim em 1891. Permaneceu nessa
condição até 1995, quando passou a fazer parte do recém-criado município de Aurora do Pará com a denominação de
vila de Santana do Capim (Ferreira, 2003).
35
Segundo medições feitas pela SEPLAN-PA, as coordenadas atuais de São Domingos são 01º 40’ 45’’ de latitude Sul e
47º 46’ 17’’ de latitude a Oeste de Greenwich (Ferreira, 2003).
112

Em 1872, o Governo Provincial tentou mudar a sede da freguesia para outro local, uma vez
que, por sofrer com as destruições causadas pela pororoca, estava em um “estado de decadência”
(Rodrigues, 1875). Tal decisão, contudo, nunca se efetivou. Do aspecto econômico, Barbosa
Rodrigues salientou o cultivo do cacau, do café, do arroz, do tabaco, a fabricação da farinha, além
da extração da goma elástica. Sendo o arroz, o tabaco e a farinha, seus principais produtos de
exportação (Rodrigues, 1875).

Já a freguesia de Santana do Capim se localizava também na margem direita do rio Capim.


Segundo as medições de Barbosa Rodrigues, na latitude S 2º 5’ 0’’ e na longitude O de 4º 40’ 20’’.
Nela havia uma matriz, 14 casas, dois comerciantes brasileiros e uma escola pública com 42 alunos
matriculados. Nessa escola, assim como na de São Domingos, existiam 24 meninos pobres que
estudavam com a ajuda de José Calixto Furtado (Rodrigues, 1875).

Para descrever a composição da população das vilas e freguesias do rio Capim e de seus
afluentes, além das observações, Barbosa Rodrigues utilizou o Mapa de Estatística da Província do
Pará de 187236. Acerca da população das vilas e freguesias do rio Capim e de seus afluentes,
Barbosa Rodrigues salientou três pontos: o primeiro foi que “[...] como em quasi todas as freguesias
da província, principalmente deste rio, a população feminina é superior á masculina, devido á
emigração constante para os seringais [...]” (Rodrigues, 1875, p. 25). Em segundo lugar que
existiam “[...] a raça tapuya, com o seu cruzamento, e a preta, que geralmente representa a
escravatura que se acha dividida pelos diversos engenhos [...]”. E, por último, que

[...] Comparando-se a população hodierna com a de 1833, que era de 5298


habitantes sendo 2673 livres e 2625 escravos, nas três freguezias que então
existiam, vê-se que não só duplicou, como tambem uma grande vantagem se
conseguiu; que, foi a diminuição do elemento escravo que, sendo quasi igual então
ao livre, hoje é muito menor [...] (Rodrigues, 1875, p. 25)

As origens da ocupação humana do rio Capim: o machado de diorito e os Tupinambá

Outro aspecto estudado do rio Capim por Barbosa Rodrigues, foi a sua ocupação humana.
O botânico acreditava que “a bellicosa tribu dos Tupinambás” teria habitado o rio Capim,
confirmando o que “a historia e tradicção” afirmavam (Rodrigues, 1875). Tal hipótese seria

36
Este mapa foi elaborado pelo secretário Antônio dos Passos Miranda (1847-1899) e compôs o relatório do
Presidente de Província Domingos José da Cunha Júnior apresentado a 1º de julho de 1873 (PARÁ, 1873).
113

corroborada por um artefato arqueológico – um “machado de pedra” – que o botânico encontrou em


um terreno que possuía características de ter sido cultivado, localizado a 13 metros acima do nível
do rio, na propriedade de um “velho tapuio” chamado Manoel dos Santos. Foi grande o destaque
dado pelo naturalista a este achado, que considerava ter importância maior a todos os que encontrou
ao longo de suas viagens pela Amazônia (Rodrigues, 1875).

A partir do machado, Barbosa Rodrigues realizou uma pequena digressão sobre os


Tupinambá, afirmando que eles, depois de serem

[...] batidos pelos portuguezes em Cabo Frio em 1572, expatriaram-se e internando-


se pelo sertão uns chegaram as cabeceiras do rio Madeira, por onde desceram, e
outros as do rio Tocantins, por onde tambem descendo, espalharam-se por este rio,
pelo Guamá e pelo Gurupy, onde se aldeiaram em diversos lugares e se
fortificaram [...]. (Rodrigues, 1875, p. 28).

Desse modo, a quando da chegada dos primeiros portugueses à região amazônica, os


Tupinambá eram os “senhores dessa região”, impondo forte resistência aos colonizadores por não
esquecerem o massacre de Cabo Frio (Rodrigues, 1875). Mesmo assim, como salientou Barbosa
Rodrigues (1875), os portugueses conseguiram, “fazendo paz” com esses índios, a 12 de janeiro de
1616, edificar um pequeno forte e, dentro dele, uma pequena igreja dedicada à Nossa Senhora da
Graça, padroeira da nova localidade que viria a se tornar a cidade Belém (Cf. Coelho, G. M;
Coelho, A. W.; Agrassar, I. 2006). Um ano depois, o clima de paz entre portugueses e índios se
alterou, pois, os Tupinambá de várias aldeias como, por exemplo, Cajú, Montigura, Iguapé, Guamá
e Capim, se rebelaram contra os portugueses e, somente após intensos combates, foram derrotados
(Rodrigues, 1875). Alguns anos mais tarde, por intermédio do capitão Bento Maciel Parente (1567-
1642), os Tupinambá ajudaram os colonizadores na dominação das outras tribos (Rodrigues, 1875).
A partir de então, entraram em decadência.

Philips (2014), corrobora o pensamento de Barbosa Rodrigues sobre a dispersão dos


Tupinambá para outras regiões do Brasil, após o confronto com os portugueses em Cabo Frio.
Entretanto, Mellati (2011), acredita que, os índios contatados pelos portugueses em 1616, eram, na
verdade uma tribo descendente dos Tupinambá, os Tenetehara, os quais também foram subjugados
por Bento Maciel Parente. Os Tenetehara pertencem ao tronco linguístico Tupi, da família Tupi-
Guarani e, ao longo do século XIX, se dividiram e formaram os Guajajará no Maranhão e os Tembé
no Pará (Mellati, 2011).
114

Os índios Tembés do rio Capim

No Natal de 1875, Barbosa Rodrigues encontrou e visitou uma aldeia Tembé próxima ao
igarapé Pixuna, um dos afluentes do rio Candirú-açú, localizada “em um terreno elevado, a margem
do rio e rodeada de florestas”, formada por alguns índios que fugiram do aldeamento Santa
Leopoldina e outros que vieram das florestas próximas dos rios Urahy e Pimental (afluentes do rio
Gurupi), e dos rios Putyritá e Cauichy (afluentes do rio Capim) (Rodrigues, 1875). O naturalista
ficou hospedado na casa do Tuxaua, com quem “felizmente” conseguiu se comunicar “[...] não só
por fallar o tucháua já algumas palavras portuguezas, como por entenderem a lingua geral que para
quem viaja por todas as regiões é um poderoso auxiliar [...] (Rodrigues, 1875, p. 39). A partir de
então, Barbosa Rodrigues fará uma longa e importante descrição etnográfica desses índios, que
classificou como sendo

[...] baixos, reforçados, de uma côr morena clara, bonitos, sendo em geral as
mulheres mais altas e gordas, malfeitas de corpo, tendo comtudo feições delicadas
e bonitas. Os que vivem ainda fóra do contacto com os brancos, assim chamam os
civilizados, usam o beiço inferior furado, onde penduram uma rodella de pao [...]
(Rodrigues, 1875, p. 45).

Segundo Barbosa Rodrigues, no

[...] estado selvagem, vivem os Tembés, inteiramente nús, sómente encolhendo o


membro viril, com uma tala de cipó ou fio de algodão, para o encobrir, a que dão o
nome de Tacuonguáua (Tacuonguáua, abreviatura de taconha, membro viril, e
proposição verbal aua.). Trazem os cabellos grandes cahidos pelas costas e
aparados na testa. Fazem um tecido de fios de algodão no braço esquerdo, e tingem
de urucú, para livral-o da pancada da corda do arco, quando é despedida a flexa,
cujo tecido serve de enfeite e só tiram quando se estraga; chamam poapêcuaaua
[...] (Rodrigues, 1875, p. 40-41).

Pela descrição do botânico, percebe-se que o estado da aldeia não era dos melhores, o que,
segundo ele, estava fazendo com que os índios estivessem retornando aos seus antigos hábitos,
andando quase despidos, uma vez que as calças dos homens e as saias das mulheres estavam muito
rasgadas e sujas. Na verdade, estes índios eram “semi-civilizados, ainda [estando] em contacto com
os que vivem nas selvas”. Contudo, aquela era “uma tribu de indole pacifica; de caracter brando e
de constancia nos seus actos. Amam a sua independencia e a liberdade do seu nascimento”
(Rodrigues, 1875, p. 42).
115

Segundo Barbosa Rodrigues, as mulheres da aldeia usavam o tupóy, “[...] uma facha larga
de algodão tecido, branca ou tinta de [urucu], passada a tiracollo sobre o hombro direito, que
pendendo sobre o corpo, enconbre-lhes a parte vergonhosa [...]” (Rodrigues, 1875, p. 42), e que
também servia para carregarem suas crianças. As mulheres eram as responsáveis por fiar o algodão
e tecer as maquyras, as redes usadas por todos os índios para dormir (Rodrigues, 1875). Já sobre os
homens, chamou a atenção de Barbosa Rodrigues, o fato deles usarem arcos cobertos por
muirápára, “um tecido de fio de algodão, excepto no centro, para dar mais consistência”, e dois
tipos de flechas, a tacuara, usada para as caçadas e nas guerras, e a macauau-éte, feita em osso e
usada na pesca (Rodrigues, 1875).

Outros costumes dos Tembé também chamaram a atenção de Barbosa Rodrigues como,
por exemplo, o fato de suas habitações não serem totalmente fechadas e terem a forma de
“pequenos ranchos” cobertos com casca de abiurana (Pouteria torta). Haviam algumas roças de
mandiocas próximas à aldeia, mas os índios ainda caçavam e pescavam, hábitos que denunciavam
seu estado de “semi-civilização” (Rodrigues, 1875). Além disso, esses índios eram

[...] polygamos e os principaes podem ter quantas mulheres lhes parecer. O tucháua
desta maloca, assim como o pai do mesmo, tinham cada um trez mulheres. No
casamento não ha ceremonias, em geral entregam a um rapaz uma menina, que elle
vai habitar até chegar á puberdade, não sabendo-se o dia da união. A gravidez é
que a denuncia. Pelo falecimento tambem não ha ceremonias, enterram em covas
dentro de uma grande casa propria, que chamam iutimáua, envolvendo o morto em
cascas de jutahy (Rodrigues, 1875, p. 45-46).

Contudo, o ponto alto da presença de Barbosa Rodrigues entre os Tembé, foi ter
presenciado a “festa da tucanayra” 37. Na ocasião, os homens Tembé se enfeitavam com uma grande
quantidade de adereços que começavam com o najahy, um conjunto de ornamentos de penas para a
cabeça, que era formado primeiro pelo akanitac, um tipo de testeira feita de “fio de algodão” e de
“pennas da cauda do japu” (Psarocolius decamanus)”; o segundo era o aranipé, uma espécie de
babado feito de pena de arara vermelha (Ara chloropterus), que era preso na parte inferior do
akanitac, o qual caia pelas suas costas; o terceiro era o atuáraué, um tipo de resplendor feito com 3
ou 4 penas de arara que ficava preso em um tecido de algodão que continha penas de papagaio
(Amazona aestiva) (Rodrigues, 1875). Já as mulheres colavam os

37
“Tucanayra - É uma bebida preparada com mel de pau, saburá dos favos e água. Depois de tudo completamente
dissolvido é posto ao sol, durante alguns dias, para fermentar, sendo em seguida coado e guardado num vaso de barro
revestido por uma rede de malhas de fio de algodão e dependurado no teto da casa por meio de um suspensório”
(Figueiredo, 1939, p. 110).
116

[...] cabellos com cêra virgem, e sem ordem, pequenas borlas de papo de tucano,
chamadas uêçaê; cobrem os braços com a penugem branca de gavião real, que é
segura ao breu, com que se untam. A esse enfeite dão o nome de uirá áua. Tirar-se
uma das borlas do ueçaê é uma offensa. Pintam as pernas com urucú e jenipapo
[Genipa americana] [...] (Rodrigues, 1875, p. 43).

Já na parte superior do antebraço, homens e mulheres usavam a tiuapêcuaytap, um tipo de


pulseira feita de tecido tingido de vermelho, que na parte interna, possuía cordões terminados em
borlas de penas de papo de tucano (Ramphastos toco). Nas batatas das pernas amarravam estreitas
“ligas” de cordas chamadas tetémacudu. E nos tornozelos o auáiú, que eram também, “ligas” onde
ficavam presos os chocalhos de piquiá (Caryocar villosum) (Rodrigues, 1875).

Os Tembé usavam o mimê, um tipo de corneta com a qual eles conclamavam toda a tribo
para a dança. Ela era feita de maçaranduba (Manilkara huberi) em duas partes e coladas com a
seiva dessa árvore, a qual é usada também para colar a plumagem que é feita de penas de “papo de
tucano amarello e vermelho e de mutum, pretas” que reveste a buzina (Rodrigues, 1875). Estas
cornetas possuíam o formato de um chifre, e o lado curvo era por onde sopravam. Sobre o orifício
era preso um cordão feito em algodão, com o qual colocavam o mimê em suas costas ou nos
pescoços. Ao Tuxaua estava reservado o uso do arauê, um tipo de cetro, feito de penas de gavião
real (Harpia harpyja), findados por “borlas de papo de tucano” (Rodrigues, 1875).

Segundo Barbosa Rodrigues, a festa começou por volta das sete horas da noite com toques
“estridentes” das mimê, que fez com que os cerca de 80 índios se reunissem no “terreiro limpo da
maloca” para esperar o Tuxaua, que, por sua vez, esperava o término de uma “cantoria triste” feita
por quatro índias idosas em frente a sua casa (Rodrigues, 1875). Uma vez no terreiro, o Tuxaua foi
rodeado pelos índios e, sob a “grande claridade da lua”, e rodeados por tochas de breu, iniciou o seu
“canto rude”. Durante o canto, os índios

[...] De braços unidos ao corpo, com as mãos levantadas [...] responderam em côro,
formando-se a dansa. Formaram dous circulos concentricos em roda do tucháua e
de mais dous velhos que a elle se uniram, todos com seus arcos, tendo cada um
uma mulher a seu lado, e começaram a fazer uma especie de passo lateral, ora á
direita ora á esquerda, batendo com força os pés no chão, repetindo em côro as
sylabas gê-gê-gê. O som rouquenho de suas vozes o ruido que faziam com os pés
tornava medonha esta dansa, que se interrompia para continuar a cantiga das
mulheres em casa. Quasi todos tinham grandes cigarros de tauray; alguns com um
metro de comprido, que não só sorviam a fumaça como sopravam; fazendo o
effeito de um archote. Estes cigarros passavam por todas as bocas, até pelas das
117

crianças de 2 annos. Dão a este cigarro o nome de pitymoú (Pityma, tabaco, ú, por
açu, grande.). Sem interrupção continuou a dansa até a meia noite, correndo em
cuias o tucanayra, no intervallo em que as mulheres cantavam. Fizeram-me bebel-
a, com repugnancia o fiz, mas achei-a de um doce acidulado bem agradavel. Semi-
embriagados já estavam quando deixaram a dansa, quebrando o silencio da noite o
alarido de suas vozes. Visto de parte, á luz da lua e do fogo do breu, parecia uma
dansa infernal (Rodrigues, 1875, p. 44-45).

Durante sua estada entre os Tembé, Barbosa Rodrigues realizou um estudo comparativo do
dialeto utilizado por eles, encontrou várias palavras semelhantes às do vocabulário Tupinambá.
Segundo ele, o dialeto dos Tembé, quando

[...] comparado com a lingua tupy ou geral, pouco differe da actual e essa
differença quase que é causada pela sua degeneração e corrupção. Do vocabulario
que fiz, extraio alguns exemplos [...] Uira-ueté, o gavião real, decomposto e uirá, u
(Na antiga língua tupy, não havia açu grande, mas sim ú, que sendo muito aspirado
como se pronuncia açu.) e eté, que quer dizer o passaro verdadeiramente grande,
palavras todas da lingua geral. Tacuengáuá, nesta phrase vê-se claramente
decompondo-se a palavra taconha, que é da lingua geral de hoje e a terminação
áua (aba de hoje), que sempre que se junta á uma palavra é para indicar uma cousa
feita (Rodrigues, 1875, p. 46).

Barbosa Rodrigues ao comparar o dialeto dos Tembé com o Tupi e a Língua Geral
(nheengatu), concluiu então que estes índios eram “uma das relíquias que existe da valente nação
dos tupinambás” já que existiam poucas diferenças entre os dois dialetos. Para chegar a essa
conclusão, levou em consideração a “degeneração e corrupção” que os indígenas sofreram ao longo
dos anos, e percebeu que ela foi um dos grandes motivos para a perda do dialeto original
(Rodrigues, 1875). Anos mais tarde, em 1888, Barbosa Rodrigues no prefácio de “Poranduba
amazonense”, ao homenagear postumamente seu amigo Batista Caetano de Almeida Nogueira
(1826-1882), utilizou essa ideia de “degeneração e corrupção”, para afirmar que o amigo tinha
razão quando afirmava que

[...] o nheengatu, posto que, corrompido pela influencia portugueza, menos viciado
no Amazonas que no Pará, comtudo é mais puro que o tupi do Sul e que o guarany,
porque o influxo extranho não conseguiu apagar, no fundo, a pronuncia primitiva
do abaneenga [...] (Rodrigues, 1888, p. 10-11).
118

Desse modo, para o botânico “[...] estas [bastavam] para [provar] de que aquelles indios,
não são mais do que filhos de uma das subdivisões da tribu Tupinambá, que a historia nos conta
[...]” (Rodrigues, 1875, p. 46). Outros pontos importantes que ajudaram Barbosa Rodrigues na
elaboração dessa hipótese foram certos costumes dos Tembé que, segundo ele, eram iguais aos dos
Tupinambá como, por exemplo, o consumo de bebida inebriante, o uso do tacoenguaaua (o furo do
beiço) e do tupóy (Rodrigues, 1875).

Os estudos recentes sobre os indígenas brasileiros corroboram com a hipótese de Barbosa


Rodrigues de que os Tembé procediam dos Tupinambá (Cf. Mellati, 2011; Philpis, 2014). Segundo
Paixão (2010), os Tembé seriam na verdade, um grupo de índios Tenetehara, descendentes dos
Tupinambás, que se estabeleceram no Pará oriundos da região do rio Pindaré, um afluente do rio
Gurupi, fronteira entre os estados do Pará e do Maranhão. Durante o século XIX, estes índios foram
divididos por alguns fatores, entre eles, os constantes conflitos com os Timbira, índios da família
Gê (Mellati, 2011), e as constantes secas que castigaram a região, causando o contato dos indígenas
com diversos imigrantes, levando-os a contrair enfermidades (sarampo, varíola e coqueluche). De
acordo com Paixão (2010) “[...] muitos indígenas refugiaram-se nas matas para evitar maiores
contatos [e desse movimento] parte dos Tenetehara, conhecidos como Tembé” alcançaram o Pará,
mais precisamente nas “regiões dos rios Capim, Guamá e Gurupi (...) permanecendo na região do
Maranhão o grupo Guajajará” (p. 81-82).

Considerações finais

A partir da leitura do relatório específico feito pelo botânico acerca do rio Capim publicado
ainda em 1875 contendo “os trabalhos de investigação, de análise, de observação e de realizações
de [Barbosa Rodrigues] no campo da antropogeografia e da etnologia do Brasil, referentes à região
amazônica” (REVISTA BRASILEIRA DE GEOGRAFIA, 1942, p. 388), foi possível estabelecer
um paralelo entre as observações feitas por Barbosa Rodrigues e o ambiente científico que se vivia
à época, dominado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), instituição que, desde
sua fundação em 1838, tinha como missão “revelar” o Brasil tanto aos brasileiros como ao resto do
mundo, fosse através do estabelecimento de parâmetros que levaram a elaboração de uma História
Oficial do Brasil, fosse através da realização de viagens científicas.

Do rio Capim, Barbosa Rodrigues salientou diversos aspectos geográficos e hidrográficos,


bem como aspectos botânicos e zoológicos, além da origem de sua ocupação humana e as condições
que sua população se encontrava à época da viagem. Fiel às determinações do IHGB, o botânico
119

procurou “revelar” as riquezas naturais do rio que poderiam servir para seu desenvolvimento
econômico como, por exemplo, madeiras para a construção civil e “terras férteis” para a agricultura.
Completam o relatório informações sobre riquezas culturais da região do rio Capim e seu entorno.
Sua riqueza em detalhes acabou compondo uma grande fonte de referencia para futuros estudos
sobre a região em questão.

FONTES

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Janeiro: Typographia Nacional, 1875.

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JORNAL DO PARÁ, Belém, 10 dez. 1874. Nº 278, Parte Oficial, p. 1

PARÁ, 1873. Relatorio com que o excellentissimo senhor doutor Domingos José da Cunha Junior,
presidente da provincia, abriu a 2.a sessão da 18.a legislatura da Assembléa Legislativa Provincial
em 1.o de julho de 1873. Pará, Typ. do Diario do Gram-Pará, 1873.

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122
123

A paisagem do Itacaiúnas em dois tempos: uma análise dos diários de


viagem de Cunha Mattos e Ignácio Moura (1839-1910)
Anna Carolina de Abreu Coelho 38

Resumo
Analisamos os relatos de Raimundo José da Cunha Mattos e de Ignácio Moura buscando a
historicidade das relações entre homem e natureza no Araguaia, mais especificamente das
proximidades do Itacaiúna. Durante o século XIX a viagem a serviço do país ou da região era muito
comum, um exemplo disso foram Cunha Mattos e Ignácio Moura, dois intelectuais viajantes que
percorreram a mesma região discursando de formas diferentes sobre um mesmo espaço em
diferentes temporalidades. Sendo ambos viajantes brasileiros ligados ao poder, suas narrativas
fundamentam-se em projetos característicos de uma determinada temporalidade com diferenças e
semelhanças no olhar sobre a paisagem no século XIX e início do século XX.

Palavras-chaves: Intelectuais - Viajantes- Tempo

The Itacaiúnas landscape in two periods: an analysis of the travel diaries of Cunha Mattos
and Ignácio Moura (1839-1910)

Abstract
We analyzed reports of José Raimundo da Cunha Mattos and Ignacio Moura seeking the historicity
of the relations between man and nature in Araguaia, specifically the vicinity of Itacaiúna. During
the nineteenth century the trip to the country or service in the area was very common, an example
were Cunha Mattos and Ignacio Moura, two intellectual travelers who traveled the same region
speaking in different ways on the same space at different times. Being both Brazilian travelers
linked to the power, its narratives are based on projects characteristic of a certain temporality with
differences and similarities in the look on the landscape in century XIX and beginning of century
XX.
Keywords: Intellectuals - travellers- Time

Resumen
Hemos analizado los textos de José Raimundo da Cunha Mattos e Ignacio Moura buscan la
historicidad de las relaciones entre el hombre y la naturaleza en Araguaia, específicamente las
cercanías de Itacaiúna. Durante el siglo XIX hizo al viaje para el servicio del país era muy común,
como Cunha Mattos e Ignacio Moura, dos viajeros intelectuales que viajaban la misma región
proyectos de diferentes maneras en el mismo espacio en diferentes momentos. Siendo ambos los
viajeros brasileños conectados al poder, sus narrativas se basan en proyectos típicos de una cierta
temporalidad diferencias y similitudes en el aspecto del paisaje en el siglo XIX y principios del
siglo XX.

Palabras clave: Intelectuales – Tiempo - Viajeros


As viagens se tornaram mais comuns durante o século XIX devido a melhorias ocorridas no
âmbito dos transportes, que diminuíam o tempo gasto para percorrer as localidades, como

38
Doutora em História pela UFPA/PPHIST, Professora do Curso de História Unifesspa.
124

comprovam o aumento do número de publicações de narrativas de viagens. As viagens desse


período diferenciavam-se um pouco das viagens científicas de cânone iluminista ou de grand tour
do século XVIII, em geral dois aspectos eram ressaltados nas narrativas do século XIX: o gosto pela
a exposição de si cuja estética se aproximava do romantismo e as viagens a serviço do país ligadas
ao conhecimento e ao poder político. (Costa, 2006)
O Barão de Marajó, um intelectual e político que fazia parte do círculo intelectual da corte
brasileira durante o segundo reinado e durante o início do período republicano acreditava que as
viagens a serviço do país proporcionavam o conhecimento das províncias, em especial dos recantos
mais longínquos, esse conhecimento era essencial para a unidade nacional porque com uma elite
conhecedora das especificidades regionais promoveriam uma descentralização e respeito às
especificidades provinciais evitariam revoltas e movimentos separatistas. (Coelho, 2015)
Essa prática foi seguida por alguns intelectuais e políticos do século XIX, que viajaram pelo
próprio país, produzindo relatos dessas viagens como: Couto de Magalhães na obra Viagens ao
Araguaia (1863); João Severiano da Fonseca em Viagem ao redor do Brasil (1875-1878);
Gonçalves de Magalhães em Memória histórica e documentada da Revolução da Província do
Maranhão desde 1839 a 1840 (1848); Filipe Patroni com o relato A viagem de Patroni pelas
províncias brasileiras (1851); e Dom Romualdo de Seixas em Memória dos diferentes sucessos de
uma viagem do Pará ao Rio de Janeiro (1814).
Ainda no período regencial o militar, político e estudioso de geografia Raymundo José da
Cunha Mattos publicou em 1836, um longo “itinerário de viagem” que foi dedicado ao regente
Diogo Feijó intitulada Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão pelas Províncias de Minas
Gerais e Goiás (1836). Nessa obra Cunha Mattos narra suas viagens do Rio de Janeiro ao Pará e
Maranhão, procurando descrever minunciosamente cada localidade sob a perspectiva da geografia
física, dialogando com obras anteriores que relatavam viagens nos mesmos locais. Itinerário do Rio
de Janeiro ao Pará e Maranhão pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás foi uma obra que
produziu observações e descrições minuciosas do espaço nas proximidades do Araguaia e do
Tocantins, ressaltando técnicas e métodos de mensuração do espaço.
Nos fins do século XIX e início do XX o regime republicano buscava uma integração e
conhecimento específico desses territórios dando continuidade as viagens e muitas vezes
financiando esses empreendimentos. Uma dessas viagens foi a do engenheiro Ignácio Moura, na
época deputado que tinha o objetivo de produzir um relatório sobre o burgo agrícola de Itacaiúna
(atual Marabá), essa viagem ocorrida em 1896 e foi publicada em 1910 com o título De Belém à
São João do Araguaia. A obra relata uma viagem feita a serviço do governo do estado do Pará com
o intuito de analisar as condições apresentadas pelo burgo de Itacaiúnas que recebia subsídios do
governo, Moura publicou posteriormente sua viagem em 1908, em uma época próxima o casal
125

Coudreau visitou as mesmas localidades sendo a principal referência para o autor, muitas vezes em
tom de crítica.
Produzidos em situações especificas, esses dois diários escritos por intelectuais viajantes a
serviço do país, ou região expressão a historicidade da produção do texto e da forma de perceber a
paisagem do Araguaia. Buscamos perceber as mudanças e/ou permanências na forma de olhar a
paisagem, a partir da perspectiva de Raymond Williams que ao analisar textos dos autores Gilbert
White, William Cobbett e Jane Austin, escritos em diferentes épocas descrevem a região de
Farnham, localizada na zona rural inglesa, considera as diferentes possibilidades de abordagem
literária de um mesmo local:
As relações reais entre homens e natureza, e existência do real do observado e daqueles que
ele podia ver apenas dissolvidos numa paisagem, voltavam como um problema: de
identidade, de percepção e da própria natureza. (Williams, 2011, p.212)

O Itinerário de Cunha Mattos

Cunha Mattos tinha formação militar era formado na Escola Regimental do Algarves em
matemática pura aplicada à artilharia, após uma estadia de 19 anos em São Tomé e Príncipe,
estabeleceu-se ao Reino Unido (Brasil, Portugal e Algarves) por volta de 1817. O contexto da
escrita da obra de Cunha Matos é a independência política do Brasil e sua postura guarda uma
concepção ampla de pátria; conforme a historiadora Marta Vieira, Cunha Mattos definia pátria
como uma “coisa pública” e “sagrada”, na qual o rei, vinha em primeiro lugar na escala hierárquica,
sendo sucedido pelo governo, pelos concidadãos, pela família e pelos amigos”; alguns de seus
biógrafos referiam-se a ele como um “filosofo militar”. (Vieira, 2010, p.3)
As informações precisas sobre a navegabilidade e o tempo revelam a preocupação de Cunha
Mattos com o conhecimento geográfico na tessitura do território nacional, conforme Vieira (2010) o
Itinerário era propositivo instruindo aos outros viajantes que pretendessem adentrar o sertão, era um
viajante que levava sempre o relógio e o lápis. Alguns trechos apresentavam boa navegabilidade
como próximo do rio Itacaiúnas, Cunha Mattos também observou as construções que houvessem
nos territórios explorados como os que ficavam entre Goiás e o Pará, uma delas era um presidio no
rio Araguaia:
O escritor percebia que o conhecimento empírico das viagens era um assunto de interesse
cientifico e também voltado aos negócios para o público nacional e estrangeiro, sua preocupação é
medir os espaços e pensar em formas de percorrer (estradas ou navegabilidade):
Fazendo-se de dia em dia mais interessantes os conhecimentos geográficos, físicos e
políticos do Império do Brasil, aos naturais e aos estrangeiros, em razão do aumento da sua
agricultura, acrescentamento da sua população, desenvolvimento do seu comércio,
progressos científicos dos seus habitantes, e sobre tudo pelo extraordinário empenho que se
126

mostra na carreira das empresas da navegação, abertura de estradas e canais que facilitem os
meios de transportes, e o estabelecimento de Colônias agrícolas e de mineração, lembrei-me
de procurar entre os meus manuscritos estatísticos, geográficos e históricos, o Itinerário que
escrevi durante as minhas marchas, e no exercício de Governador das Armas da Província de
Goiás, por me persuadir que esta obra. Pode ser de alguma vantagem àqueles que nas sobre
ditas circunstancias desejarem consulta-la. (Mattos, 1836. p.7)

Uma das questões observadas pelo autor relacionava-se com a nomenclatura dos espaços,
cujos nomes mudavam ao interesse de alguns viajantes que pretendiam agradar os que lhes
hospedaram, justificando assim as mudanças de nomes de alguns lugares como rios, córregos e
ribeirões feitos por viajantes para perpetuar a memória dos que lhes hospedaram:
Os curiosos comparando os meus mapas e Itinerários com os mapas antigos, acharão
diferenças em nomes de alguns lugares: eu dou a razão dessas alterações. No sertão cada
fazendeiro tem um santo, seu advogado ou intercessor; e acontecendo estabelecer um sitio ou
fazenda, põe lhe ás vezes o nome desse santo; e isto mesmo também se pratica em algumas
ocasiões de compras de antigas propriedades, mudando os novos senhores os nomes com que
as fazendas eram conhecidas até esse tempo.
Ninguém mais fez uso desta liberdade do que o sábio Barão de Eschwege, e Mr. Marlière.
Eles mudarão e deram novos nomes a rios, córregos e ribeirões, principalmente nas
proximidades do Rio Doce, talvez por motivos bem fundados. Outros viajantes estrangeiros
também os imitirão a este respeito, para fazerem obséquios e perpetuarem a memoria dos
fazendeiros que os hospedarão nas suas casas: eu apresento um exemplo, e poderia oferecer
muitos mais. (Mattos, 1836. p.14-15)

No texto de Cunha Mattos a hospitalidade revelava-se moeda de troca entre proprietários e


intelectuais viajantes. Dessa forma, os proprietários poderiam encontrar uma forma de plasmar sua
memória individual, na nomenclatura de rios, córregos e ribeirões; por outro lado os viajantes
conseguiam uma estrutura mínima para conseguir executar seus trabalhos em locais de difícil
acesso. Essa prática, mencionada por Cunha Mattos indica a tessitura de um espaço de memória,
marcado pela interação com a natureza.
Há pouco lugar para as descrições das paisagens do Araguaia sob o ponto de vista mais
pessoal, o Itinerário busca por um estudo desse espaço que tornasse possível a navegabilidade
produzem uma mensuração do tempo necessário para percorrê-lo. A natureza estudada sobre um
ponto de vista prático da geografia física, do poder de assegurar um território que pudesse ser
explorado economicamente pela administração do império e das províncias no futuro, porque eram
áreas pouco exploradas não haviam sido feitas medições anteriores do Tocantins e do Araguaia:
Belém ao Araguaia. Eu mostrei no roteiro n.° 5o como teve principio a navegação do Rio
Araguaia, braço ocidental do Tocantins; mostrei uma descrição do mesmo rio abaixo; agora
passo a mostrar a do rio acima, para se conhecerem os processos da viagem; os dias que se
gastam nas subidas das cachoeiras, que são muito mais dificultosas de vencer do que quando
se navega em sentido da correnteza das aguas. Da Cidade de Belém do Pará navega-se
quando principia a encher a maré, rio acima; e passando a foz do Rio Guamá, entra-se pelo
Rio Mojú, que recebe o Acará, e vai-se aportar ao Engenho da Ribeira. (Mattos, 1836.p.
217)
127

A formação de Cunha Mattos em matemática feita em uma escola militar influencia seu olha
sobre a paisagem, onde sua perspectiva é a de mensuração do espaço da geografia física, preocupa-
se com as necessidades de conhecer o território chegando a elaborar um mapa de Goiás.

Ignácio Moura de Belém a São João do Araguaia

O outro texto consultado para esta pesquisa foi o de Ignácio Moura. Nascido em Cametá,
cidade paraense próxima de Belém, era engenheiro, em 1826 tornou-se presidente de honra do
Instituto Histórico e Geográfico do Pará; esteve ligado à divulgação da Amazônia em eventos
internacionais como o Congresso Internacional de Americanistas (1908) que ocorreu na cidade de
Viena; o mesmo ocorreu em 1893, quando esteve com o Barão de Marajó e outros intelectuais para
representar o Pará na Exposição de Chicago.
Publicou em 1908 a obra De Belém a São João do Araguaia, esse livro foi o resultado de um
relatório feito em 1896, a serviço do governo do Pará. A viagem tinha o objetivo de analisar as
condições apresentadas no Burgo de Itacaiúnas, atual cidade de Marabá-PA, o governo do Pará
havia concedido um território nessa região a Carlos Leitão, cujo objetivo era formar uma vila e
explorar a agricultura, a pecuária e o extrativismo da castanha do Pará. (Cormineiro, 2015, p.8).
Nesse trecho, Moura apresenta o Burgo de Itacaiúnas:

Dai a alguns minutos, saltávamos no Burgo de Itacaiúna e éramos recebidos pelos colonos,
tendo á frente Carlos Leitão , que nos cercava de obsequiosidades, de modo que
compensassem os enfados anteriores. Eis os principais trechos do extenso Relatório que
sobre esse Núcleo Colonial apresentamos ao Governo do Estado do Pará, como resultado da
comissão a nós incumbida naquela viagem. (Moura, 1910, p.249-250)

O texto inicia com um artigo escrito pelo Barão de Marajó a respeito de suas memórias da
cidade de Belém entre 1847 e 1897, depois Ignácio Moura disserta a respeito de sua viagem
partindo de Belém atravessando cidades próximas ao rio Tocantins até chegar o rio Araguaia, a
narrativa segue em uma linguagem agradável voltada a um publico mais abrangente, inspirado em
narrativas de viagem do século XIX. (Cabete, 2010). Na última parte, anexa seu relatório da viagem
a serviço no Burgo de Itacaiúnas, demonstrando a atuação de um intelectual viajante a serviço de
seu país e de sua região (Costa, 2006, p.33).
A natureza e as formas de viver da povoação do Itacaiúnas são descritas com o mesmo
cuidado que a as condições de navegabilidade. Sendo que o texto se centra em discutir as
128

possibilidades de colonização enfatizando as atividades econômicas produtivas, como é possível


perceber em seu relato que descreve a povoação do lago Vermelho (próximo ao rio Itacaiúnas):
Quando subi aquela escada de Jacob no dia 25 de Março, dei em cima com o terreiro limpo,
que forma a única rua da povoação. Galinhas mariscavam e cabras pastavam num silencio
beatifico, enquanto as mulheres, descuidosamente, na sala aberta das casas, fiavam á roca ou
catavam o milho estendido nas esteiras enxutas. Parecia reinar ali a constituição da primitiva
vida patriarcal: havia só uma casa de forno para fazer a farinha de todos aqueles lavradores.
Mestre Germano, o negro patriarca daquela aldeia, rodava ao forno, enquanto o rapazio
charqueava ao sol carnes de anta, veado e caitetú (Moura, 1901, p.245).

A descrição da “primitiva vida patriarcal”, sob a liderança de mestre Germano, cujo


povoado possuía pequenas criações, plantações e apenas um forno de farinha, demonstrava uma
preocupação com as formas de produção agrícola e pastoril. Estas se mostravam obsoletas ao olhar
do viajante que pretendia analisar as possibilidades de uma produção agropastoril no núcleo
colonial do Burgo de Itacaiúnas
Conforme Lacerda e Vieira havia um projeto no final do século XIX e início do XX em
textos produzidos por autoridades e grupos de letrados nos quais a ideia de progresso e
desenvolvimento partiria da floresta e dos espaços rurais, um dos entraves considerados era a
oposição entre uma natureza fértil e até mesmo excessiva, com uma agricultura rudimentar; desse
modo, o ensino agrícola, a correção dos “excessos da natureza” e o saneamento rural se constituíam
em problemas a serem enfrentados na proposta de desenvolvimento do Pará nos primórdios da
república. (Lacerda; Vieira, 2015, p.159-160). Dessa forma, o Ensino agrícola seria uma proposta
para esses letrados que:
Entendendo os agricultores como atrasados e pouco civilizados, desconsiderando a cultura
dos lavadores do interior do Pará, que associavam muitas vezes a lavoura com o
extrativismo, tais observadores viam no ensino agrícola a solução para este problema.
(Lacerda; Vieira, 2015, p.164)

Esse tipo de perspectiva sobre a natureza e as atividades agrícolas pode ser observada no
discurso de Ignácio Moura, uma importante questão para o autor era a falta de modernização na
lavoura, não havia, por exemplo, moendas e forno para o fabrico de farinha; havendo um contraste
entre a fertilidade da terra e as formas de produção (Moura, 1910, p.251).
Devido a essa situação Moura acreditava que era mais viável a pecuária para a região devido
a uma área de pastagem na região próxima ao Maranhão e a Goiás, local de onde vinham as
provisões de carne verde. Para o autor a vocação dos moradores do Itacaiúnas era a criação de gado:
A realização deste melhoramento daria como resultado o estabelecimento de uma colônia
pastoril de mais futuro que a pequena colônia agrícola já existente, produzindo despesas e
utilizando a verdadeira vocação daqueles habitantes, que sempre foram criadores e só
cultivam a terra por necessidade, para tirar desta o preciso á sua subsistência. Existiam então
no Burgo Itacaiúna, em domicilio próprio, 222 habitantes, compostos na maior parte de
órfãos e mulheres, constituindo 55 famílias agrícolas. (Moura, 1910, p.253)
129

Os moradores do burgo de Itacaiúnas eram foragidos das lutas de Boa Vista (que pretendiam
a separação entre Tocantins e Goiás). O povoado se situava junto a foz do rio Itacaiúnas. Foram
destacadas por Moura as condições climáticas e topográficas, de modo a observar se haviam
condições satisfatórias e higiênicas para a implantação da colônia agrícola, em geral ele considera
boas essas condições com clima ameno próximo aos 28º centigrados, no entanto observa a
insalubridade dos castanhais “conhecidos pontos de infecção da moléstia” (Moura, 1910, p.250).
A questão climática da região já era considerada como um aspecto fundamental nos projetos
de atração de imigrantes estrangeiros desde o século XIX, sendo que diversas estratégias discursivas
eram utilizadas nas obras de propaganda oficial como El Pará (1895) que circulava em cidades
espanholas, de acordo com Sarges e Gomes:
Dessa forma, pretendia-se mostrar, através de dados e testemunhos de sábios e viajantes,
considerados “insuspeitos” pelo governador, que a temperatura sob a linha dos trópicos era
suportável – agradável, até – e que não havia a alardeada insalubridade que causava pavor,
opondo-se à detratação regional levantada pelos sulistas em relação aos aspectos sociais,
salutares e geográficos da Amazônia, “demonstrando a superioridade do clima em razão dos
ventos gerais e alísios e das chuvas abundantes”, contribuintes indispensáveis da salubridade
e habitabilidade do solo. (Sarges; Gomes, 2014, p.4)

Além de demonstrar preocupação com as questões de clima e salubridade da região, Moura


em sua narrativa faz um texto muito elogioso, até mesmo heroico sobre os irmãos Pimentel e
Heliodoro Lima em sua busca dos campos gerais, cuja aventura resultou na descoberta do caucho,
uma variedade de árvore de onde se podia extrair o látex, eles chegaram próximo aos campos, mas
era um território indígena e não prosseguiram a viagem. Ocorrendo na obra de Moura conexões
discursivas entre os irmãos Pimentel em sua busca do “El- Dorado” com a literatura grega
(argonaltas), com textos bíblicos (Moisés), Colombo e com a Divina comédia de Dante Alighieri:
Pobres Moisés, que viam a terra prometida ao longe, onde, se tivessem a felicidade de tocar,
não teriam aventura de lhe gozar os frutos. (...)
Três companheiros, já enfraquecidos pela derrota e desesperados do bom êxito, foram de
acordo que se dividisse o resto da farinha, a fim de poderem tocar para traz; porém, os dois
Pimenteis e Heliodoro Lima, de armas na mão, lhes intimaram prosseguissem até aos
campos ou até á morte. Este movimento de energia daqueles Colombos de um novo mundo
produziu a harmonia na equipagem e restabeleceu a confiança nos chefes e o entusiasmo na
empresa. O espirito de exaltação dos exploradores era tal que, apesar da alimentação
sofrível, cada um deles apresentava a fisionomia emagrecida, como aqueles fantásticos
heróis que o Dante pintou no caminho do Inferno, ou como os argonautas que procuravam o
Velocino de Ouro. Antônio Pimentel, na luta das insônias golpeadas pela energia viril,
sonhou que vira uma barraca indígena bem próxima de campos extensos, tão risonhos como
aqueles em que brincava na infância. Os sonhos eram narrados aos pobres companheiros, em
cujas faces amarelecidas parecia já perpassar o sorriso da descrença ou idiotismo do cético.
(Moura, 1910, p.258)
130

A memória de Carlos Leitão e dos irmãos Pimentel é recorrente em obras sobre a região,
como marco da fundação da cidade de Marabá. 39 Sobre Carlos Leitão alguns trechos do documento
escrito por Ignácio Moura apresentam uma imagem de um administrador do Burgo com
sensibilidade acolhendo as famílias em um barracão “Carlos Leitão, para dar guarida a muitas
famílias que ficaram sem casa, mandou construir um grande barracão de 25 metros de comprimento
sobre 8 de largura com as precisas divisões” (Moura, 1910, p.253). Em outro momento é descrito
como fidalgo “o Sr. Carlos Leitão, sempre com o mesmo trato fidalgo, cedeu-nos uma canoa e guias
que nos ajudassem a explorar rio acima, até ao ponto que fosse da nossa vontade” (Moura, 1910,
p.1962)
Da mesma forma em que na segunda metade do século XIX, Cunha Mattos mencionou que
havia uma tendência entre os intelectuais viajantes colocar nomes dos proprietários de terras que os
acolhiam nos acidentes geográficos; a memória desses proprietários ou colonos também é plasmada
nas obras do início do século XX, não com a nomenclatura da natureza, mas com a construção de
uma memória sobre o local. Moura sendo bem recebido por Carlos Leitão traça um perfil do
responsável pelo Burgo Itacaiúnas muito elogioso (sensibilidade e fidalguia) no relatório entregue
ao governo do Pará, posteriormente publicado na forma de literatura de viagem de certa forma
perpetuando a memória de Leitão (administrador) e dos Pimenteis (heróis) da região que hoje é o
município de Marabá.
Carlos Leitão teria recebido os Pimenteis como heróis em meio a festas entre a povoação do
Burgo, e seria um dos que tentaram divulgar a façanha dos irmãos Pimentel para o governo do
estado e mesmo em um jornal estadunidense:
Carlos Leitão, com a sua gente, os recebeu como a heróis; organizaram-se festas, curaram-
lhes as feridas abertas nos pés e no corpo pelos espinhos da travessia e pelos insetos,
fazendo-se de tudo comunicação oficial ao Governador do Pará. Foi esta viagem interessante
que excitou a curiosidade e o espirito investigador do jornalista new-yorkino. (Moura, 1910,
p.260)

A questão de domesticar os excessos naturais da Amazônia como um discurso recorrente


entre os letrados do início do século XX, discutida por Lacerda e Vieira (2015); pode ser notada nos
escritos de Moura ao elencar os Pimenteis heroicos por seu enfrentamento da natureza demonstrado
nas cicatrizes de espinhos e insetos.
É importante mencionar que a população indígena não é mensurada no texto como parte do
povoamento humano da região, apenas os colonos são considerados nas estimativas populacionais,
os indígenas surgem neste texto de Moura como parte da natureza, devendo posteriormente serem

39
Pode ser encontrada essa referência em muitas obras que falam sobre a região, a exemplo de Marília Emmi: EMMI,
Marilia. A Oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais. Belém: CFCH/NAEA/UFPA, 1987.
131

parte de uma paisagem mais “domesticada” no futuro, a interação entre colonos e indígenas
ocorreria no futuro com a expansão da pecuária:
O caminho traçado pelos viajantes foi aproveitado pelos selvagens, que apareceram, meses
depois, nas cercanias das roças do Burgo, amedrontando os habitantes, que, para evitarem
deles um ataque, organizaram muralha de pau a pique em roda de todo o povoado. Tenho já,
por varias vezes, defendido pelos jornais a malévola intenção que querem prestar aqueles
pobres índios, ocultos na riquezas os campos e afastados de uma civilização, que os recebe
de bacamarte ao olho e de facão em punho (*). Tenho esperanças fundadas no futuro de que
só esses selvagens trarão vida ao Burgo e nos levarão até á beira encantadora daqueles
campos imensos, pasto de boiadas, que farão o nosso engrandecimento pastoril e perpetuarão
o nome dos ousados viajantes que sangraram os pés demarcando o caminho entre a
civilização e a catequese. (Moura, 1910, p.260)

Além da pecuária e de projetos de integração dos indígenas, Moura observa as atividades


extrativas do caucho e da castanha, e as possibilidades de navegabilidade do Araguaia , “O
Araguaia tem águas mais calmas e cachoeiras mais fáceis de remoção do que o Tocantins, existindo
trechos perfeitamente navegáveis, até por vapores, como entre Leopoldina e Santa Maria, em uma
distancia de 960 quilômetros” (Moura, 1910, p.270). Atentando para o abandono da colônia de São
João do Araguaia desde os tempos do império A justiça publica estava quasi completamente
abandonada, e os criminosos de uns e outros Estados vizinhos passeavam por aquelas paragens
desalmados e seguros. (Moura, 1910, p.266-267)
O texto de Moura observa as paisagens de forma utilitária, observando as condições de
colonização do presente visando às possibilidades de produção em uma vindoura modernidade para
a região.

Considerações finais

Os diários de viagem de Cunha Mattos e Ignácio Moura são textos que expressam as viagens
como uma atividade intelectual a serviço do país ou de uma região. Os percursos são inversos,
enquanto Mattos parte do Rio de Janeiro para chegar em Belém, Moura parte de Belém para São
João do Araguaia, centrando seu texto no Burgo de Itacaiúnas.
O texto de Mattos preocupa-se com a configuração de um espaço da nação sendo necessário
um conhecimento empírico do tempo em que se gastava para percorrer as espacialidades, seu
Itinerário é escrito na perspectiva da geografia física de conhecer e percorrer os territórios. Dessa
forma, a natureza é percebida na perspectiva da mensuração do espaço-tempo para chegar a
determinados locais.
Moura por sua vez, apresenta uma perspectiva que se preocupa com as formas de
colonização e atividades produtivas que estavam sendo desenvolvidas na região. As alterações da
paisagem com o extrativismo intensivo da castanha e da seringa são positivas, já a lavoura
132

apresentava grandes entraves devido a forma “primitiva” com a qual era executada, a pecuária seria
a atividade mais promissora aliada a um trabalho de integração dos indígenas. A natureza devia ser
“domesticada” no presente para garantir um futuro prodigioso.
Deve-se perceber a questão dos espaços e da memória em ambos os textos, enquanto Mattos
observava que era costume dos viajantes inserirem na nomenclatura dos espaços dos sertões, os
proprietários que os recebessem com gentileza.
No texto de Moura essa troca entre viajantes e proprietários ocorre com a narrativa
laudatória, que é feita do perfil de Carlos Leitão como um administrador sensível e fidalgo no
tratamento. Da mesma forma, que Leitão procurou tratar os irmãos Pimenteis como heróis em sua
chegada. Moura em sua obra traçou um perfil heroico com várias referências a uma literatura
clássica. Plasmando uma memória local, que sempre é mencionada na historiografia, inclusive neste
pequeno artigo.

FONTES

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135

A IMPRENSA CATÓLICA: UMA ANÁLISE SOBRE

A QUESTÃO RELIGIOSA NO JORNAL A BOA NOVA

THE CATHOLIC PRESS: AN ANALYSIS OF THE RELIGIOUS QUESTION


IN THE BOA NOVA NEWSPAPER
Raynara Cintia Coelho Ribeiro40
RESUMO
Este artigo tem como objetivo empreender uma análise em torno da Questão Religiosa,
abordando aspectos relevantes que envolvem desde o papel da imprensa até a proporção que esta
crise atingiu no Pará, tendo como fonte o jornal católico A Boa Nova que circulou entre 1871 a
1883, na cidade de Belém. Dando ênfase aos debates a partir da imprensa pela qual ela circula e
atingi contornos de pauta central do Império, assim pretendo estabelecer um diálogo entre autores
que trabalham com periódicos como, Marialva Barbosa, Tânia Regina de Luca, Beatriz Kushnir,
Meize Regina e entre outros, com os autores que se debruçaram sobre esta temática como: Holanda,
Santos, Neves, Neto e Hoornaert. Uma vez que, neste período a Igreja Católica utilizava-se da
imprensa como seu principal aliado na luta contra a Maçonaria, no qual está usava várias páginas de
seu jornal para deferir duras críticas a presença dos maçons nas irmandades e confrarias religiosas,
colocados sempre como inimigos da paz, além de serem representados em várias publicações como
uma ameaça a ser contida.
Palavras-chaves: Questão Religiosa, Maçonaria, Igreja e imprensa.

ABSTRACT: The purpose of this article is to undertake an analysis of the Religious Question,
focusing on relevant aspects that range from the role of the press to the proportion that this crisis
reached in Pará, from the Catholic newspaper A Boa Nova that circulated between 1871 1883, in
the city of Belém. Emphasizing the debates from the press through which it circulates and reached
contours of the central agenda of the Empire, I intend to establish a dialogue between authors who
work with periodicals such as Marialva Barbosa, Tânia Regina de Luca, Beatriz Kushnir, Meize
Regina and others, with the authors who have studied this subject as: Holland, Santos, Neves, Neto
and Hoornaert. Since in this period the Catholic Church used the press as its main ally in the
struggle against Freemasonry, in which she used several pages of her newspaper to defer harsh
criticism of the presence of Freemasons in religious brotherhoods and confraternities, always placed
as Enemies of peace, besides being represented in several publications as a threat to be contained.

Keywords: Religious Question, Freemasonry, Church and Press.


RESUMEN: Este artículo tiene como objetivo realizar un análisis en torno a la cuestión religiosa,
abordar los aspectos relevantes que intervienen en el papel de la prensa en la medida en que llegó la
crisis en Pará, teniendo como fuente el diario católico La buena noticia que circuló entre 1871 1883,
en la ciudad de Belén. Haciendo hincapié en las discusiones de la prensa en la que se circula y la
agenda central de golpear esboza el Imperio, por lo que se propongan establecer un diálogo entre
los autores que trabajan con revistas como Marialva Barbosa, Tania Regina de Luca, Beatriz
Kushnir, Meize Regina y entre otros, los autores que han estudiado este tema como: Holanda,
Santos, Neves, Neto y Hoornaert. Desde este momento la Iglesia Católica fue utilizado por la prensa
como su principal aliado en la lucha contra la masonería, que se utiliza varias páginas de su
periódico para conceder duras críticas la presencia de masones en hermandades y cofradías, siempre

40
Mestranda em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará, Campus Belém.
136

se coloca como enemigos de la paz, y se representan en varias publicaciones como una amenaza
para ser contenida.

Palabras clave: Temas religiosos, la francmasonería, la Iglesia y los medios de comunicación.

INTRODUÇÃO

No século XIX o cenário religioso na Província do Pará pautava-se em torno de vários


acontecimentos, entre os quais estava, o conflito entre o poder civil e o eclesiástico, o florescimento
da denominada Questão Religiosa no Brasil, e o estabelecimento das doutrinas romanizadoras, de
Dom Macedo Costa. Através das fontes percebe-se que a origem da crise religiosa se encontra no
Rio de Janeiro em 1872, quando o Padre Almeida Martins é suspenso pelo bispo do Rio de Janeiro,
D. Pedro Maria de Lacerda por ter realizado um sermão numa reunião maçônica. Assim, eclode a
crise religiosa em Pernambuco com D. Vital, e em seguida ocorre no Pará com D. Macedo Costa,
através do lançamento de interditos decretados pelos bispos que ordenaram o banimento de todos os
maçons das irmandades e confrarias. (Holanda, 1972, p.338)
Nesta perspectiva, o conflito entre os bispos versus a Maçonaria foi tomando corpo e se
desenrolou na imprensa paraense, colocando de um lado os bispos ultramontanos usando jornais
católicos como: Synopisis Ecclesiastica (1848-1849), A Estrella do Norte (1863-1869), A Boa Nova
(1872-1883), Estrella D’Alva (1860-1869) e A Regeneração (1873-1876) para deferirem seus
ataques ferrenhos aos maçons. E de outro os maçons utilizando-se de jornais como: O Pelicano
(1872-1889), O Filho da viúva (1873), A Flamigera (1873), O Santo Offício (1870- 1889) e O
Estímulo (1877) para responderem aos ataques sofridos pela imprensa católica. Neste contexto
nota-se a importância da imprensa no desenvolvimento deste conflito, pelo qual ele circula e ganha
dimensões de pauta nacional do Império.

A ESTRUTURA DO JORNAL A BOA NOVA

Em 1871 a Igreja Católica paraense lançou o Jornal A Boa Nova, para responder as
afirmações feitas pelo jornal maçônico e defender as ideias católicas, tendo como lema ou divisa
como apresenta Biblioteca Pública do Pará (1985, p.58): “Tudo o que for verdadeiro, honesto, justo
santo e amavel” extraída do livro da Bíblia “Epístola aos Filipenses”, capítulo 4, versículo 8, além
de possuir um formato com as seguintes: dimensões de 53 cm por 37 cm. (SILVA, 2014, p.36.)

O periódico apresentava-se bem organizado, contendo sumário, periocidade semanal e


bissemanal, com publicações duas vezes por semana, as quartas-feiras e aos sábados, de janeiro a
dezembro, sendo impresso inicialmente, na tipografia do largo da Sé, com a primeira edição em
circulação no dia 04 de outubro de 1871 e tendo sua última edição no dia 20 de maio de 1883. Com
137

relação a sua assinatura por semestre era de 6,000 e por ano de 12,000. De acordo com a Biblioteca
Pública do Pará (1985), o periódico tinha como editor Antonio Ferreira Rabello e seus redatores
eram os cônegos José Lourenço da Costa Aguiar, Luiz Barroso de Bastos e José de Andrade
Pinheiro. Era administrado pelo cônego Clementino José Pinheiro e pelo padre Raimundo Amâncio
de Miranda.

Como observa Freitas ao trabalhar com periódicos devemos estar atentos a diversos
aspectos como, conhecer o jornal com que vou trabalhar, não apenas de forma superficial, mas
buscar entender todo o processo de construção do jornal, pois precisamos olharmos para o
documento procurando ir além de uma leitura aparente, atentando para os detalhes como: quem
assinava cada artigo, qual era a tipografia ou até mesmo quem são seus articulistas. Neste contexto,
cabe ao pesquisador realizar uma investigação mais minuciosa do jornal, em termos de formato,
tamanho, principais artigos, autores, ideias e relações constitutivas. Para que assim consiga obter
uma compreensão devida do periódico, uma vez que se deve avalia-lo no conjunto de seus textos e
no âmbito das “relações que eles estabelecem entre si, para daí compreender o papel que cada uma
de suas partes exerce como agente no campo da cultura e da sociedade brasileira que almeja a
modernidade e a civilização”. (FREITAS, 2001, p.46)

Paiva, através de seu artigo, mostra importantes aspectos que devemos levar em
consideração ao analisarmos jornais, visto que a análise de um periódico é reveladora na medida em
que propõe a construção de uma identidade aliada de nacionalidade. Com base nesses argumentos
torna-se necessário compreendermos alguns aspectos como: A qual público esse jornal era
direcionado, por quanto tempo circulou e qual era a intenção de seus redatores a cada publicação,
ou seja, qual era a ideia que eles buscavam legitimar através dessas informações.

ARTICULADORES DO JORNAL A BOA NOVA

O jornal A Boa Nova era composto pelas seguintes pessoas: o editor Antonio Ferreira
Rabello, Redatores: Conego Jose Lourenço de Aguiar, Luiz de Bastos e Dr. Jose de Andrade
Pinheiro, além de seus administradores: conego Clementino José Pinheiro e padre Raimundo
Amancio de Miranda. As notas biográficas sobre esses colaboradores são bastante escassas. O que
se tem de informação é a respeito de um de seus redatores o bispo da Igreja Católica José Lourenço
da Costa Aguiar que nasceu na vila Distinta e Real de Sobral, na província do Ceará, filho do
negociante Boaventura da Costa Aguiar e de Joana Virgínia de Paula, a qual viveu seus últimos
anos na companhia do filho no Amazonas. Aos dezessete anos, matriculou-se no seminário de
Fortaleza, recebendo ordens do presbítero em 30 de novembro de 1870.
138

A convite de D. Antônio de Macedo Costa, transferiu-se para Belém do Pará, onde o


referido bispo diocesano o fez cônego do cabido da Catedral, também foi provedor da Santa Casa
de Misericórdia, do asilo de Alienados e Lazareto de Tucunduba. Como jornalista foi redator e
proprietário dos jornais A Boa Nova, A Constituição e Diário do Grão-Pará. Em Fortaleza, fora
redator da Tribuna Católica. Por vários biênios, foi deputado pelo primeiro distrito de Belém à
Câmara dos Deputados. Partiu para Roma e ali se matriculou no Colégio dos Nobres para obtenção
do doutorado em direito civil e canônico. De volta ao Brasil, em junho de 1893, foi eleito bispo do
Amazonas, esteve presente no Concílio Plenário da América Latina, realizado em Roma. Em 1905,
partiu para a Europa para tratar da diabetes, faleceu e seu corpo foi sepultado na Catedral de
Manaus.

A respeito disso Barbosa alerta para os cuidados que se deve ter ao trabalhar com jornais,
assim é de suma importância saber quem escrevia esses jornais e qual imagem era construída por
eles, pois sabemos que não existe imparcialidade na imprensa uma vez que, ao escrever em um
periódico o jornalista seleciona fatos, deixando de abordar alguns acontecimentos e priorizando
outros. Observa-se que para além do fornecimento das informações os jornais articulam-se como
atores sociais e frequentemente, assumem um comportamento partidário ocupado inclusive, o status
e a importância do partido ao qual encontra-se alinhado. Desta maneira, ao analisarmos estes
periódicos devemos estar atentos a este tipo de relação e buscar refletir sobre a documentação.

A BOA NOVA COMO VEICULO DE IDEOLOGIA

Num período de constantes disputas entre Igreja e Estado, a imprensa paraense é utilizada
como uma das principais vias de circulação e propagação de ideologias acerca do conflito entre
Igreja Católica e Maçonaria. Neste cenário, os maçons usavam o jornal O Pelicano para exporem
seu ponto de vista acerca da tensão com os bispos, no qual eles “fazem da imprensa um símbolo
para esclarecer a todos quem prezam a verdade, eles usam os instrumentos modernos à disposição
para fundamentar seus pressupostos” (MELO, 2012, p.273). Assim, os membros da Maçonaria se
utilizam das armas que se encontram ao seu dispor para reagir frente aos ataques no púlpito e na
imprensa provocados pela Igreja.

E como resposta a Igreja Católica também se utiliza da imprensa para responder as críticas
deferidas pelos jornais maçônicos e faz do jornal A Boa Nova seu veículo para defender sua visão
frente ao conflito e assim no transcorrer deste período os enfretamentos entre a Igreja Católica e a
Maçonaria eram constantes seja na imprensa periódica ou no púlpito evidenciando o antagonismo
que a cada dia só crescia até culminar na denominada “Questão religiosa” “quando o poder
139

eclesiástico vedou o uso das capelas por abrigarem entre os membros das irmandades uma plêiade
de maçons”(MELO, 2012, p.169).
De acordo com Barbosa, é importante entendermos quem escreviam nos jornais no século
XIX como por exemplo nos periódicos: O Filho da Viúva, O Pelicano, A Boa Nova e entre outros,
para compreendermos de que lugar eles falam e o que está acontecendo nesse período, como é caso
da crise religiosa deflagrada em 1873 que provocou no cenário religioso na Província do Pará uma
série de transformações que culminou na separação entre Igreja e Estado.
Se tratando de um assunto tão relevante para compreensão do deflagrar do conflito
religioso no século XIX é necessário percebermos que a escrita de um jornal não é inocente, uma
vez que seus autores possuem intenções ao escreverem sobre determinado assunto. Portanto, através
desta investigação não pretendo legitimar o papel da Igreja como detentora do poder, mas me
proponho a analisar as ideias vinculadas aos discursos religiosos e políticos.

IMPRENSA CATÓLICA: A BOA NOVA

Inicialmente a imprensa católica foi fundada pela hierarquia com o intuído de se preocupar
com assuntos relacionados a Igreja, ou seja, no que diz respeito ao campo católico, além de
defender a preservação da autonomia para os bispos administrarem as dioceses sem desagregar
completamente esta maneira de ser Igreja. Entretanto, com a Questão Religiosa este propósito se
modificou e no transcorrer do século XIX a imprensa católica torna-se um dos principais veículos
de informação e debate, em que as discussões em torno da crise encontram-se bastante acaloradas
nos periódicos como, O Liberal utilizado pelos liberais para promoverem uma violenta campanha
contra o posicionamento dos bispos, com o intuito de defender o liberalismo, encampando todos os
argumentos e teses defendidas pela maçonaria e A Boa Nova usada por Dom Macedo Costa para
responder aos ataques dos adversários, empregando uma linguagem bastante dura (SANTOS, 1992,
p.319).
Como identifica Melo a imprensa tem seu papel fundamental na divulgação dos
acontecimentos 1889, assim como os jornais católicos se tornam de suma importância para a análise
dos discursos políticos e religiosos da Igreja Católica no decorrer deste período pelo qual a esfera
espiritual utiliza-se de jornais como A Boa Nova para infiltrar suas ideias a respeito do conflito
entre os bispos e a maçonaria, colocando sempre os maçons como uma ameaça a ser combatida.
Luca, ao analisar o jornal literário Dom Casmurro ressalta aspectos importantes quando
trabalhamos com periódicos, visto que ela se propõe a compreender detalhes como: quem são os
responsáveis pelo jornal, quais são seus objetivos, qual a sua trajetória e quais são as principais
140

características do periódico. Assim, devemos estar atentos para aspectos como, o período de
circulação, os assuntos que eram abordados no jornal, seus idealizadores, o público a quem é
dirigido e entre outras informações, evidenciando o quanto é importante fugir de uma análise
superficial das fontes, pois ao nos debruçarmos no trabalho com os jornais é necessário
conhecermos muito bem nosso objeto de pesquisa.

A QUESTÃO RELIGIOSA NO JORNAL A BOA NOVA

Ao empreendermos uma análise em torno do jornal A Boa Nova identifica-se que D.


Macedo intensificou a voz da imprensa católica para interromper esta ausência ao espirito do
catolicismo, no entanto que encontrava morada nas hostes liberais tanto no parlamento como na
imprensa e mesmo perto ao trono imperial. Assim entre os conservadores, tinha alguns que
possuíam alguma simpatia por estes assuntos, embora, “a maioria da Câmara dos representantes da
nação fosse católica, eles foram convencidos do acerto em não separar a esfera espiritualidade da
esfera da secularidade permanecendo o matrimônio e o sacramento” (NEVES, 2015, p.236).

Na década de 1874 o jornal apresenta-se repleto de intensos debates em torno da Questão


Religiosa e o Partido Liberal, no qual os liberais se defendem afirmando que não hostilizam a
religião católica apostólica romana. Mas sim reivindicam mudanças em torno da relação entre Igreja
e Estado. Através da leitura das fontes entende-se que a crise religiosa que abalou profundamente os
alicerces do Império tinha diversas ideias e opiniões, não somente dentro do Partido Liberal, como
também no Partido Conservador e entre os republicanos, propiciando nesse período constantes
debates na imprensa paraense pelo conflito de tais opiniões que na maior parte eram mais
filosóficas do que políticas.

No programa do Partido Liberal professar a liberdade de todas as crenças tinha como


significado de que ninguém fosse perseguido por motivo de religião. Por isso, este programa em
relação à Questão Religiosa encontra-se definido, em garantir a liberdade de consciência como um
direito individual de maior importância. É indispensável também percebermos um outro aspecto
relevante em torno da crise religiosa, que se trata das ideias e opiniões emitidas acerca deste
assunto, visto que estas devem ser consideradas como uma expressão do pensamento individual e
não como uma doutrina, uma vez que se identifica dentro do próprio partido um processo de
ruptura, ocasionado diversas divergências no partido.

Tais como as ideias regalistas dos senhores Souza Franco e Nabuco d’ Araújo, assim como
o racionalista senhor Silveira Martins que apresentavam opiniões individuais e não apenas doutrinas
do Partido Liberal, mostrando autonomia de pensamentos dos atores sociais envolvidos no conflito.
141

Consequentemente esses indivíduos trairiam seu partido, prestando apoio ao ministério na Questão
Religiosa.

De acordo com Damacena e Neves, o periódico “A Boa Nova” tinha os jornais “O Liberal
do Pará”, “A Tribuna” e o “Santo Offício” como seus inimigos declarados por discordarem das
orientações do bispo, não somente em matéria de fé e religião, mas também de visão de mundo.
Deste modo, compreendemos que a análise da imprensa católica releva como Dom Macedo Costa
compreendia seus inimigos e os tratava com o rigor do enquadramento nas hóstias anti-católicas.

Lima, também alerta para importância de observarmos alguns aspectos como, de que forma
ocorria a difusão dessas notícias, periódicos de quais regiões do mundo ou província brasileira
funcionavam como irradiadores das informações sobre os eventos no Pará, observar se trazia ou não
algum tipo de brasão ou qualquer outro símbolo que fizesse alusão ao poder imperial, número de
páginas e quanto custava sua assinatura. Além de identificar a partir de quais meios de propagação e
de quais perspectivas essas notícias chegavam em seus respectivos jornais localizados em seus
estados.

Segundo Kushnir, é necessário compreender o papel social deste periódico como por
exemplo: A Boa Nova era um jornal da Igreja Católica, deste modo criasse um objetivo de mostrar
qual era o papel social do poder espiritual dentro desse contexto, além de outros aspectos que
devemos observar como, quais grupos sociais que produzem esses jornais e qual era sua vinculação
política, lembrando que a vinculação não é estática, ou seja, não necessariamente um jornal está
vinculado a um partido político.

Nesse contexto, o cristianismo era considerado uma religião, já a maçonaria uma


especulação sendo tratada por eles como ambiciosa, tornando-se um inimigo que precisa ser
combatido. Deste modo, o bispo de Pernambuco é considerado pela Igreja Católica como uma
espécie de herói, ou até mesmo um mártir, no qual ele é representado no periódico A Boa Nova
simplesmente como uma vítima deste conflito e que sua condenação seria mais uma página gloriosa
para os registros da Igreja.

Lucas, também enfatiza para a importância da imprensa como meio de informação, no qual
ela torna-se indiscutivelmente um condutor de expressão dos seus idealizadores, ou seja, diretores,
produtores, técnicos e entre outros. Neste sentido, é relevante atentarmos qual a relevância da
imprensa periódica para o desenvolvimento do conflito visto que, ela foi um dos principais veículos
que possibilitou a circulação de informações, exercendo um papel fundamental, pois proporcionou a
ampliação do debate.
142

A CONDENAÇÃO DOS BISPOS DO PARÁ E DE OLINDA

A condenação dos bispos se deu pelo fato de que ambos praticaram violência no exercício
da jurisdição e poder espiritual, no qual os bispos determinaram a confraria do sacramento que
expulsasse do seu grêmio os maçons que ali encontrava-se e aqueles que desobedecesse deparavam
com o interdito, cujos efeitos o governo procurava destruir. Para o bispo de Olinda, o ato que se fez
pouca referência que seria usurpar jurisdição e poder temporal, tratava-se no que diz respeito à
autoridade civil fiscalizar a composição das confrarias e determinara a expulsão dos sectários de
doutrinas infensas à religião católicas, neste caso o bispo chamava para si esta atribuição. Nesta
perspectiva, observa-se que a igreja católica extrapolou seu limite de jurisdição, passando por cima
da autoridade civil para pôr em prática seu plano de eliminar de uma vez por todas a maçonaria das
irmandades e confrarias religiosas.

No entanto, o poder civil alerta que nunca teve autonomia para intervir na averiguação dos
costumes e doutrinas dos membros das confrarias e assim excluírem de seu seio a título de erro e de
perigo dessas doutrinas. Deste modo, com relação à maçonaria, no que diz respeito a toda sociedade
secreta em geral, a autoridade temporal, no desígnio de resguardar a ordem e segurança pública,
limita-se a exigir comunicação do fim da sociedade e protesto de não se opor à ordem social.

Nesta conjuntura, a jurisdição e poder temporal não compreende a atribuição de limpar o


culto a cargo das confrarias de interferência de membros daquela sociedade secreta, é certo que o
bispo de Olinda ordenando a expulsão dos maçons do seio das confrarias e impondo o interdito não
usurpou a jurisdição e poder espiritual.Com base nessas informações percebe-se que a igreja
católica utiliza-se do jornal A Boa Nova para rebate as acusações de usurpação de jurisdição, pois
na sua visão a nenhuma autoridade é dado usurpar jurisdição e poder de outra, se esta não possui
poder e jurisdição. Diante desse cenário entende-se que os bispos do Pará e de Olinda serão
condenados pelo supremo tribunal de justiça, em que acusação que recai sobre o bispo do Pará está
relacionada aos interditos lançados sobre duas capelas, onde funcionavam duas confrarias ou
corporações religiosas.

Para Barbosa a “imprensa na verdade cria condições necessárias ao desenvolvimento de


um campo intelectual, cujos integrantes vão participar diretamente das instituições e dos grupos que
irão exercer a própria dominação” (BARBOSA, 2000, p.52). Por outro lado, os jornais, utilizam-se
desses profissionais com a expectativa de alcançar um público maior, conseguindo com isso, mais
anunciantes, prestígios e poder. Assim, por meio de construções repetidamente referendadas e
cristalizada, a população compõe uma imagem da imprensa que na verdade, era estabelecida pelos
próprios periódicos.
143

A REPERCUSSÃO DAS PRISÕES DOS BISPOS DO PARÁ E DE OLINDA

De acordo com as notícias publicadas pelo jornal A Boa Nova a prisão do bispo do Pará
aconteceu no dia 29 de abril de 1874 em torno das 9 horas da manhã, quando o senhor Pedro
Cunha, então chefe d’ esquadra efetivou a ordem de prisão contra a reverendo o senhor D. Antonio
Macedo Costa, bispo da diocese do Grão-Pará. Outra prisão efetivada neste mesmo ano foi a do
Bispo de Olinda D. Vital que gerou grande repercussão no cenário religioso, envolvendo vários
sujeitos que foram acusados de conspirar contra a esfera espiritual, entre os quais estavam Saldanha
Marinho e o senhor Visconde Do Rio Branco que eram retratados pela imprensa católica como
indivíduos que se combinavam perfeitamente quando o assunto era conspirar contra a Igreja e
consequentemente contra o trono. Assim, eles eram considerados como conspiradores que
espalhavam boatos da absolvição da maçonaria, para pôr em prática seu tenebroso plano de
perseguição contra os bispos.

Nesta perspectiva, percebemos o quanto a Igreja Católica utilizava-se dos periódicos para
manipular as informações e transformar os bispos em vítimas dos terríveis inimigos da Igreja os
maçons, que na sua visão pretendiam destruir a instituição monárquica, depois de algemar e
encarcerar os bispos brasileiros. Deste modo, a crise religiosa é julgada pela imprensa sobre uma
visão negativa, no qual a Maçonaria é vista como um estranho espetáculo sendo dirigida pelos
miseráveis diretores deste império, fazendo ostentação de religião, enchendo as igrejas e
comparecendo as cerimonias e a todas as solenidades do povo cristão. Neste sentido, observa-se o
quanto a presença dos maçons no seio da Igreja Católica incomodava a ponto de se utilizarem da
imprensa católica para lançarem ferrenhas críticas a presença maçônica nas irmandades e confrarias
religiosas.

A QUESTÃO RELIGIOSA JULGADA PELOS LIBERAIS NO PARLAMENTO

Neste cenário, observar que há uma conexão entre a imprensa e o parlamento, no qual os
assuntos debatidos na Câmara do Senado e dos Deputados ressoavam nos jornais, expondo um
conflito que atingiu dimensões de pauta central do Império. Deste modo, os deputados e senadores
se posicionavam a favor e contra a atitude dos bispos e o conselheiro Zacharias de Goes não era o
único liberal que se manifestava contra os bispos brasileiros no parlamento, haviam outros
senadores e deputados que repudiavam a atitude dos bispos em expulsar os maçons das irmandades
e confrarias religiosas. Percebe-se que este conflito tem o seu desenvolvimento dentro da imprensa
periódica, ressoando da imprensa para o parlamento brasileiro e dessa novamente para a imprensa,
provavelmente gerando ecos nas ruas, reverberando da corte para as provinciais e das provinciais
para a corte, adquirindo com a circularidade desses espaços contornos de pauta nacional.
144

Para Barbosa, o documento não é algo que expõe uma informação do passado ou do
presente, sendo antes um produto da sociedade que o fabricou, conforme as relações de forças dos
que detém o poder. Dessa forma, “o jornalismo é o lugar da imparcialidade e neutralidade e os
jornais são a expressão da verdade, porque representam o pensamento da sociedade, graças a sua
popularidade” (2000, p.108). Nesta perspectiva, a imagem que é estabelecida pelos periódicos
define-o como uma instituição imparcial e portadora da verdade, assim o jornal se constituí como
independente, verdadeiro e imparcial. Num outro olhar o jornal se transformava no fio condutor da
narrativa deste modo, o documento não é apenas um interlocutor privilegiado de poder, mas
evidencia a imagem de opositor destemido ou de orientador desinteressado.
Assim, os periódicos se transformam em porta-vozes do poder público, no qual os
jornalistas atribuem uma significação àquilo que fala, mesmo quando não há uma finalidade
deliberada para isso. Portanto, o jornalista torna-se um elemento responsável por esta articulação,
recebendo reconhecimento não apenas em função do poder simbólico que desempenha, mas pelo
poder.

A QUESTÃO RELIGIOSA E A CONSTITUIÇÃO

A constituição órgão do Partido Conservador desfere uma crítica ferrenha ao jornal liberal,
em que reprova, estigmatiza e condenada as doutrinas heréticas propagadas com tanto furor pelo
Partido Liberal, pois no que diz respeito à religião, nada devemos ao liberal se não a mais completa
reprovação das doutrinas heréticas com que tem escandalizado a sociedade paraense que é
eminentemente católica. Identifica neste relato o conflito instalado entre liberais e conservadores
frente a crise religiosa, visto que os liberais ansiavam por mudanças na sociedade enquanto que
alguns conservadores lutavam para que a Igreja Católica continuasse com a sua ingerência sobre a
sociedade.

Neste contexto, a Questão Religiosa provoca várias agitações no cenário religioso na


província do Pará, visto que seria conveniente a solução desta questão caso contrário acarretaria
para esse país uma perene agitação. Por isso, faz se necessário o empenho do Partido Conservador
em encontrar meios aptos para resolver está crise, uma vez que não é ignorado o princípio da Igreja
livre no Estado livre, pois está ideia encontrava muita adesão em liberais de todos os matizes, nos
republicanos, nos maçons e até mesmo em alguns conservadores.

Com base nas informações do jornal A Boa Nova a maçonaria por ser um órgão oficial
utilizava-se do jornal O Pelicano para publicar ousadamente os nomes dos filiados na maçonaria e
provocou o bispo para que procedesse contra as irmandades maçônicas. Dessa maneira, era
conhecido senão de todos, mas pelo menos de muitos que havia maçons na direção das confrarias
145

ou irmandades religiosas, porém o prelado diocesano não julgava certado abrir uma investigação
para conhecer os maçons e puni-los. Observar nesse relato que a Igreja Católica sempre buscava por
meio da imprensa atingir a maçonaria, colocando-se como vítima, no qual os próprios maçons
foram os culpados de provocarem a sua expulsão.

Como se observar as informações que são veiculadas pela imprensa católica são que no
primeiro momento de raiva os maçons enviaram à Câmara dos Deputados uma formidável
representação solicitando a expulsão dos jesuítas, sob qualquer denominação para fora do Império,
logo insinuando o governo o recurso a coroa as irmandades maçônicas, abriu um conflito não
apenas com os dois bispos, mas com a Igreja universal.

Segundo informações noticiadas pelo periódico A Boa Nova o decreto anistiando os bispos
e os governadores do bispado, veio pôr termo ao conflito religioso entre o poder temporal e o
espiritual e assim estabelecer uma harmonia entre essas duas esferas de poder, que almejavam a
felicidade do cristão e cidadão. Nesta conjuntura, foi concedida a anistia aos bispos governadores e
outros eclesiásticos, que se encontravam envolvidos neste conflito suscitados em consequência do
lançamento de interditos posto a algumas irmandades das dioceses do Pará e Pernambuco. Percebe-
se com esse relato que a pena direcionada aos dois bispos não foi cumprida na integrada deixando
assim, impune o conflito que gerou uma série de calorosos debates na imprensa paraense.

Segundo Barbosa, “o jornal não é exclusivo de um leitor isolado, mas calcula-se nos mapas
de circulação das publicações que em um mesmo imprenso é lido por até quatro pessoas” (2000,
p.183). Neste contexto, um periódico realiza um trabalho que vai além de sua obrigação que é
informar e orientar a população e se transformar imprescindível ao leitor, assim, o jornal é sempre
adjetivado ilustrado, defensor, relevante e o articulista encarregado pela seção a quem requer um
obséquio ou favor é, não raras vezes, brilhante competente. Portanto, compreende-se que o jornal é
um componente da realidade e da fantasia, entretanto é indispensável, na medida em que cumpre
um papel singular: intermediar suas queixas e reclamações para um sujeito que para ele, leitor,
sequer tinha rosto.

CONCLUSÃO

Portanto, com base nos argumentos aqui expostos podemos compreender que o cenário
religioso na Província do Pará foi completamente sacudido pelo conflito que gerou ampla
repercussão e de debate na imprensa paraense. Mediante a este contexto percebe-se o quanto a
imprensa teve um papel relevante para o desenvolvimento da tensão entre Igreja Católica versus
146

Maçonaria, pois é por meio desse veículo de informação que está crise circula e ganha dimensões
de pauta nacional do Império.

Deste modo, ao empreender uma análise mesmo que de forma preliminar em torno da
Questão Religiosa no jornal A Boa Nova na década de 1874, pode-se observar alguns aspectos
relevante sobre a imprensa católica neste período como, o fato da Igreja Católica se utilizar da
imprensa como seu aliado na luta contra a maçonaria, no qual está usava várias páginas de seu
jornal para deferir duras críticas a presença dos maçons nas irmandades e confrarias religiosas,
colocados sempre como inimigos da paz, além de serem representados em várias publicações como
uma ameaça a ser combatida. Diante disso, entende-se que a escrita de um jornal não é inocente,
visto que o redator ao escrever sobre determinado assunto tende a expor sua concepção e assim
defende aquilo que acredita tentando legitimar sua ideia.

Mediante aquilo que foi expresso percebemos o quanto a imprensa foi essencial para a
divulgação de informações sobre o que estava ocorrendo em torno do conflito entre Igreja Católica
e maçonaria. Além, da forma como estas noticiais circularam e ganharam contornos de pauta central
sendo amplamente debatida tanto pela imprensa como pelo parlamento revelando aspectos
importantes deste conflito que se tornou um dos elementos catalizadores para a separação definitiva
entre poder temporal e espiritual.

FONTES

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32, Anno IV.
Jornal A Boa Nova. Quarta-feira 14 de janeiro de 1874.Tipografia do Largo da Sé, Belém, 1874.
Num. 4, Ano IV.
Jornal A Boa Nova. Sabado 28 de março de 1874.Tipografia do Largo da Sé, Belém, 1874. Num.
25. Anno IV.
Jornal A Boa Nova. Quarta-feira 29 de abril de 1874.Tipografia do Largo da Sé, Belém. Num. 33.
Ano IV.
Jornal A Boa Nova. Quarta-feira 19 de janeiro de 1874.Tipografia do Largo da Sé, Belém. Num 9.
Ano IV.
Jornal A Boa Nova. Quarta-feira 7 de outubro de 1874. Tipografia do Largo da Sé, Belém. Num.
79. Anno IV.
Jornal A Boa Nova. Quarta-feira 4 de agosto de 1874.Tipografia do Largo da Sé, Belém, 1874.
Num. 61. Anno IV.
147

Jornal A Boa Nova. Quarta-feira de 25 de novembro de 1874.Tipografia do Largo da Sé, Belém,


1874. Num. 81. Ano IV.

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149

Entre polos: O embate ideológico entre Collor e Lula


nas eleições de 1989
Andrey Ferreira Bastos41

Resumo
Após o período ditatorial brasileiro e a criação de uma nova constituição federal, foram
organizadas novas eleições diretas para presidente. O fim do bipartidarismo proporcionou a disputa
entre mais de 20 candidatos de diferentes ideologias, onde muitos eram dissidências de partidos
existentes e partidos considerados clandestinos que foram legalizados. Um segundo turno já era
previsto, Collor e Lula, que lideravam as pesquisas, protagonizaram uma luta direta e autodeclarada
entre esquerda e direita.
A análise busca refletir também sobre as intenções de voto, com foco no segundo turno, o
motivo em que cada eleitor acreditava ser o melhor, de acordo com o grau de instrução e nível
social dos eleitores, além de agregar e entender a opção pelo candidato, que ia muito além de uma
simples escolha ideológica, ao exemplificar com o quesito “escolaridade”, que tinha uma relação
intrínseca na hora da escolha do candidato. Além de discutir as manobras utilizadas entre os dois
candidatos, suas alianças e estratégias para a obtenção dos votos, resultando em uma luta entre a
classe burguesa e o proletariado.
Palavras-Chave: Eleições 1989; Ideologia; Polarização.

Divided by two: The ideological struggle between Collor and Lula in Elections for President of
1989

Abstract: After the Brazilian dictatorial period and the creation of a new federal constitution, new
direct elections for president were organized. The end of bipartisanship has allowed a dispute
between more than 20 candidates of different ideologies, many of whom have been party dissidents
and clandestine parties that have been legalized. A second turn was scheduled, Collor and Lula,
staged a direct and self-declared struggle between left wing and right wing.
The analysis also reflects the voting intentions, with focus on the second turn, the reason
each voter believed to be the best, according to the degree of education and social level of the
voters, adding and understanding the choice for the candidate, that went far beyond a simple
ideological choice, to exemplify with the question of "schooling", which had an intrinsic
relationship at the moment of the choice of candidate. In addition to discuss the maneuvers used
between the two candidates, their allies and strategies to earn votes, resulting in a struggle between
a bourgeois class and proletariat.
Keywords: Elections of 1989; Ideology; Polarization.

Resumen

Después del período de dictadura brasileña y la creación de una nueva constitución federal se
organizaron nuevas elecciones directas para presidente. El fin del bipartidismo proporcionó una
disputa entre más de 20 candidatos de diferentes ideologías, donde muchos de ellos eran miembros

41
Graduando de Licenciatura em História na Universidade Federal do Pará. E-mail: andreybastos68@hotmail.com
150

de partidos viejos y partidos considerados ilegales. Una segunda ronda ya estaba planeado, Collor y
Lula, que eran los dos com más intenciones, llevaron a cabo una lucha directa y auto-declarada
entre izquierda y derecha.
El análisis también se busca reflexionar sobre las intenciones de voto en la segunda ronda, la
razón por la que cada votante cree que es el mejor, de acuerdo con el nivel de educación y el nivel
social de los electores, endendiendo la opción por determinado candidato, que iba mucho más allá
de una simple elección ideológica, para ejemplificar, "la educación", tenía una relación intrínseca en
el momento de la elección del candidato. Además de discutir las maniobras utilizadas entre los dos
candidatos, sus alianzas y estrategias para obtener los votos, lo que resulta en una lucha entre la
burguesía y el proletariado.
Palabras clave: Elecciones de 1989; Ideología; Polarización.

DA REDEMOCRATIZAÇÃO AO PRIMEIRO TURNO.

O fim do período militar, com o General João Batista Figueiredo sendo o último da fase
ditatorial, e a vitória de Tancredo Neves do Partido do Movimento Democrático do Brasil (PMDB),
nas eleições presidenciais de 1985, mesmo que ainda indiretas, marcam o início do processo de
redemocratização do Brasil. Apesar que desde 1974, a própria ditadura já exalava um “ar
democrático”, com o general Ernesto Geisel, considerado o “presidente da abertura”
(NAPOLITANO, 2015). Contudo, a morte inesperada do vitorioso presidente da redemocratização
às vésperas da posse levou seu vice, José Sarney, à presidência. Sarney era detentor de incertezas
por parte da população, visto que o mesmo era membro de uma dissidência da Aliança Renovadora
Nacional (ARENA), o Partido Democrático Social (PDS).

Passados quase cinco anos desde o fim do governo militar, considera-se “a população apta
para eleger o presidente da República” (DAHÁS, 2015, p.15). Conforme o estabelecido na
Constituição Federal de 1988, o sistema político deveria ser organizado de maneira pluripartidária,
e com as mais variadas correntes políticas, inicia-se então o processo eleitoral completamente
abraçado pela democracia, as Eleições Presidenciais de 1989, ocorrida em 15 de novembro do
mesmo ano, sendo a 25ª da história do Brasil. O fato de ser a primeira eleição direta após um
período de quase 30 anos, o contexto de consolidação desse novo sistema pluripartidário, um grande
número de candidatos se apresentou para a disputa, foram 22 registrados para o cargo de presidente
da república.

Desses 22 candidatos, muitos vieram de desmembramentos do próprio PMDB, que formava


junto ao Partido da Frente Liberal (PFL), a Aliança Democrática. Sofrendo com a perda de
popularidade, devido ao fraco e desacreditado governo Sarney. A perda foi tamanha que:

O desgaste de Sarney e do PMDB irá se manifestar, além disso, numa divisão interna deste partido: em 1988
parte expressiva do partido irá formar o PSDB. O próprio candidato Collor de Mello, que em 1986 havia sido
eleito governador de Alagoas pelo PMDB (vindo, anteriormente, do PDS), passa a fazer oposição frontal ao
governo Sarney e funda seu próprio partido (PRN). Por fim, a rejeição ao governo Sarney era tamanha que o
151

próprio PMDB se declara em posição de "independência" frente a esse governo, em sua convenção de março
de 1989, em que Ulysses Guimarães é lançado candidato. (CARREIRÃO, 2000, p.53)

Sendo assim, os candidatos que disputariam o primeiro turno ficaram definidos, conforme
tabela abaixo:

Tabela 1

Nº Candidato Partido Situação

14 AFFONSO CAMARGO PTB Não eleito


22 AFIF PL Não eleito
25 AURELIANO CHAVES PFL Não eleito Eleições 1989 -
12 BRIZOLA PDT Não eleito Candidatos a
33 CELSO BRANT PMN Não eleito Presidente
20 COLLOR PRN Eleito
Fonte: Tribunal Regional Eleitoral
26 CORREA PMB Não eleito de Pernambuco – TRE - PE

56 ENEAS PRONA Não eleito


A MULTIPOLARIDADE DOS
55 EUDES MATTAR PLP Não eleito CANDIDATOS: UM
AQUECIMENTO PARA O
43 GABEIRA PV Não eleito
GRANDE EMBATE
27 LIVIA MARIA PN Não eleito
13 LULA PT Não eleito
11 MALUF PDS Não eleito
57 MANOEL HORTA PDC DO B Não eleito
45 MARIO COVAS PSDB Não eleito
42 MARRONZINHO PSP Não eleito
54 P. G. PP Não eleito
16 PEDREIRA PPB Não eleito
23 ROBERTO FREIRE PCB Não eleito
41 RONALDO CAIADO PSD Não eleito
15 ULYSSES PMDB Não eleito
GUIMARAES
31 ZAMIR PCN Não eleito

Os setores da esquerda brasileira contavam com candidatos como Luís Inácio Lula da Silva, do
Partido dos Trabalhadores (PT), que junto ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) e o Partido
Comunista do Brasil (PCdoB), formavam a coligação Frente Brasil Popular (FBP), com base
política nas lutas sindicalistas e uma das forças representativas dos trabalhadores, e Leonel Brizola,
152

filiado ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), já experiente político, que teve sua vida
influenciada pelo governo trabalhista de Vargas.

Já a direita buscava um candidato que pudesse refletir seus interesses, Mário Covas, do
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), alcunhado por muitos como de “centro-esquerda”,
estava contra Brizola e os demais da esquerda. Porém, dentre todos, tentou lançar o apresentador
Silvio Santos filiado ao PFL desde 1988. Entretanto, sua candidatura se fez pelo Partido
Municipalista Brasileiro (PMB), no qual o candidato Armando Corrêa cedeu o lugar para o
apresentador, 15 dias antes das eleições.

Entretanto, 18 pedidos de impugnação questionaram a legalidade da candidatura, inclusive o


então candidato e governador de Alagoas Fernando Collor de Mello, do Partido da Reconstrução
Nacional (PRN), alegou em entrevista42 que caso Silvio Santos se candidatasse, suas chances de
ganhar seriam ínfimas, visto que possuíam o mesmo público alvo nas campanhas, que seriam as
classes C, D e E. O Superior Tribunal Eleitoral, no entanto, acatou o pedido de impugnação da
candidatura, que estava irregular, trazendo à Collor de Melo e sua coligação Movimento Brasil
Novo, que contava com o Partido Social Cristão (PSC), Partido Trabalhista Renovador (PTR) e
Partido Social Trabalhista (PST), o apoio das vertentes de direita.

Fernando Collor (PRN), Lula (PT), Leonel Brizola (PDT) e Ulysses Guimarães (PMDB)
mostravam-se com maiores intenções de voto. Carreirão (2000) 43 afirma que atributos como
experiência/competência do candidato também obtiveram papel de grande importância na decisão
de voto de parcela do eleitorado.

Collor, em seus 40 anos de idade, já havia sido prefeito de Maceió, deputado federal pelo
Estado de Alagoas e governador do mesmo. Brizola, por sua vez, fora deputado estadual do Rio
Grande Sul, prefeito de Porto Alegre, governador do estado, deputado federal pelo antigo estado de
Guanabara (atual Rio de Janeiro) e ainda era considerado herdeiro político de Getúlio Vargas e João
Goulart, ambos ex-presidentes do Brasil. Ulysses Guimarães, além de deputado estadual de São
Paulo, havia disputado com Tancredo Neves o posto de candidato do PMDB nas eleições de 1985,
tinha também experiências em diplomacia e fora ministro da Indústria e Comércio, entretanto o ato
de mais no situado momento, foi o fato de ter presidido a Assembleia Nacional Constituinte.

Outro motivo que Carreirão (2000) cita como fundamental na escolha do candidato é a
imagem do candidato defensor dos interesses do povo, que propusesse uma renovação política, a
defesa das causas dos trabalhadores. Lula, apesar de ter experiência como deputado federal, era
lembrado pelas suas lutas sindicais, por comando de greves gerais, pelas suas articulações junto à

42
Entrevista concedida à Márcio Pinheiro, do portal UOL Notícias em 13 nov. 2009.
43
Com base na pesquisa do Instituto Vox Populi de maio/junho/89 (Univ.: Brasil; N = 2773). “...em uma amostra
representativa do eleitorado nacional. ” (CARREIRÃO, 2000, p.62).
153

Central Única dos Trabalhadores (CUT), inclusive sendo fichado no Departamento de Ordem
Pública e Social (DOPS) durante a ditadura militar.

Contudo, a imagem jovial repassada por Collor remetia à um governo diferente, à um


governo novo. Sua saída do PMDB e as ferrenhas críticas “a Sarney e à ‘classe política’, aliada a
lemas ‘modernizantes’ e propostas neoliberais, e apresentando-se como defensor dos interesses dos
‘descamisados’. ” (PETIT, 1996, p. 202), somam-se à imagem de renovador. A alcunha de “caçador
de marajás”, segundo Carreirão (2000), levava o eleitor a vincular a luta contra os “marajás” com
uma “luta pelos mais pobres”, ou “luta contra os ricos”. Singer (1990) ao dizer que "o marajá é
antes de mais nada a figura do rico e não necessariamente do corrupto. Exemplifica, em seguida, de
acordo com pesquisa realizada pelo Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG):

Pesquisa realizada pelo Departamento de Ciência Política da UFMG em Belo Horizonte em 1989, permite
uma aproximação da forma pela qual o eleitorado (no caso, o de Belo Horizonte) "recebeu" a ideia dos
"marajás". A pesquisa mostra que a figura do marajá era entendida pelo eleitorado de forma bastante variada,
não podendo ser associada apenas à figura do rico e, portanto, o "combate aos marajás" não pode ser
assimilado apenas à defesa dos interesses dos mais pobres. Embora parte do eleitorado tenha percebido dessa
forma, parte pelo menos tão significativa quanto esta primeira, ao associar o "marajá" ao funcionário público
que "ganha sem trabalhar", ao "funcionário fantasma", viu neste "combate", o combate à corrupção e ao
desperdício do dinheiro público. (CARREIRÃO, 2000, p.66)

Pode-se dizer que a renovação política foi o quesito que mais influenciou na decisão do
eleitorado no primeiro turno. Collor, com 20.611.011 votos (28,5%) e Lula, com 11.622.673 (16%)
foram para o segundo turno com cerca de 44% dos votos. Brizola, Ulysses, Covas e Maluf,
considerados candidatos mais experientes, somados, chegaram em cerca de 42%.

O SEGUNDO TURNO BIPOLAR: COLLOR X LULA

Singer nos propõe que no situado contexto, de uma democracia renascente, onde a “estrutura
partidária se pulverizou", precisava-se reconsiderar a noção de populismo, visto que "a eleição de
Collor, à margem dos partidos, com um discurso de confronto contra as elites e com forte base de
apoio entre aquelas massas urbanas em disponibilidade que sempre caracterizaram o populismo
latino-americano" (Singer, 1990, p. 151).

Os candidatos do PT e PRN protagonizam, de fato, uma luta de classes em meio ao pós-


ditadura, prova de que a esquerda não havia se extinguido. FERRAZ (2009) busca em Marx, que
utiliza esse termo para definir o confronto entre duas classes sociais distintas, o proletariado e a
burguesia, que disputariam, de modo antagônico, em meio ao capitalismo.
Lula agregou à coligação Frente Brasil Popular o PDT, o Partido Verde (PV) e o Partido
Comunista Brasileiro (PCB), além de grande parte das lideranças do PSDB. Petit (1996) afirma que
Brizola e Freire obtiveram um grande percentual de sucesso na transferência de votos para o
candidato do PT, o que já não ocorreu com os eleitores de Mário Covas. Collor, por sua vez, passou
para o segundo turno com cerca de 9 milhões de votos de diferença. Entretanto, os dois candidatos
154

entraram em uma situação complicada. Lula, com o ganho das intenções de voto dos demais
candidatos da esquerda, encostou no candidato do PRN nas pesquisas de opinião.

Lula representava a luta da classe operária, não limitou sua luta apenas nas causas sindicais,
o partido de classe que havia ajudado a fundar “...nasceu sem assumir qualquer tipo de doutrina
previamente estabelecida. ” (PETIT, 1996, p. 09)44. Originário de movimentos sociais, o PT se
empenhou a fazer o papel de partido político revolucionário, porta voz da classe oprimida na luta
ideológica para o socialismo fosse difundido entre a classe trabalhadora, trazendo a luta política
como forma de resistência e combate pelo poder.

Inicia então, aquilo o que Petit (1996) viria a chamar de “simbiose Collor-mídia-políticos
conservadores”. Tendo o domínio da massa de manobra, Collor começou, com a ajuda de
emissoras, revistas e jornais a conduzir boatos45 acerca do candidato do Partido dos Trabalhadores.
Não seria uma manobra tão complexa, a situação era a mais favorável o possível, tinha-se o apoio
midiático e um terreno já preparado pelo governo militar, que pregava incessantemente o
comunismo como algo de extremo caos, inclusive, sua justificativa de governo era livrar o Brasil de
suas “garras”. Exemplo claro mostra-se em pesquisa feita por Cedec/Universidade de São
Paulo/Datafolha, onde mostra de acordo com a escolaridade, o significado de “esquerda” para os
eleitores:

Tabela 2

Significado de “Esquerda” Conjunto Escolaridade


Eleitores
Até 1º G. 2º Grau Superior

Não sabe / Não Respondeu 46 56 29 12

É estar contra o governo 19 12 34 39

É errado / o negativo 10 12 7 1

É o comunismo / socialismo 8 4 10 25

É defender o interesse do povo / 4 3 6 10


trabalhadores

É a mais fraca / menos poderosa 3 4 3 0,4

Significado de "Esquerda", Segundo Escolaridade (Set/89) (%)

Fonte: CARREIRÃO, 2000, p. 77 apud. Cedec / USP / Datafolha - setembro/89 (Universo: Brasil - N = 2083).

44
Prefácio escrito por Emir Sader.
45
“Massa de Manobra” é um conceito de violência simbólica de Pierre Bourdieu, onde a sociedade é conduzida por
uma ideologia opressora, anulando-se enquanto protagonista.
155

Obs.: As porcentagens foram calculadas sobre o número de eleitores em cada faixa de escolaridade.

Considera-se “até 1º G” como o proletariado, a classe trabalhadora. Percebe-se que 46% do


eleitorado não sabia o significado ideológico da palavra, tornando-se um alvo fácil para a alienação.
Dentro desse conjunto, mostra-se que mais da metade possui até o 1º grau (56%), percentual que vai
diminuindo de acordo com o aumento da escolaridade, chegando em 12% em eleitores com nível
superior.

Observa-se ainda, dentro do Conjunto Eleitores (10%), que 12% das pessoas que tinham até
o 1º grau, achavam que ser de esquerda é “estar errado”, fruto talvez, do sistema educacional
vigente no período militar.

Tabela semelhante, mas com perguntas e conteúdos diferentes, realizada pelos mesmos
institutos no mesmo período, com a mesma quantidade de pessoas, pergunta acerca o significado
ideológico de “direita”:

Tabela 3

Significado de
Significado de “Direita” Conjunto Escolaridade "Direita", Segundo
Eleitores Escolaridade (Set/89)
Até 1º G. 2º Grau Superio
r (%)

Não sabe / Não respondeu 44 55 29 12

Ser / apoiar o governo 19 11 34 40

É o certo / o melhor 12 15 8 2

É defender os interesses das elites 5 3 8 17

São os poderosos / os que têm 5 4 6 5


poder

É defender o interesse do povo / 5 5 3 2


trabalhadores

É a liberdade econômica / 5 2 6 17
liberdade política

Fonte: CARREIRÃO, 2000, p. 78 apud. Cedec / USP / Datafolha - setembro/89 (Universo: Brasil - N = 2083).
Obs.: As porcentagens foram calculadas sobre o número de eleitores em cada faixa de escolaridade
156

A análise segue-se igual, quase metade do eleitorado (44%) não sabe o significado
ideológico, onde mais da metade (55%, dentro do conjunto eleitores) são pessoas com até o 1º grau,
15% desses mesmos, acreditam que a direita “é o certo, o melhor”.

Em outra análise, sugere-se considerar a intenção de voto de acordo com o auto


posicionamento sobre “esquerda – direita” e escolaridade do eleitor. O teste fora realizado em
março de 1990 pelas mesmas instituições, entretanto, baseia-se somente no primeiro turno:

Tabela 4

Intenção de Voto, Segundo


Escolaridade Intenção Auto posicionamento TOTAL (%) Posicionamento na Escala
Voto Esquerda-Direita Esquerda-Direita e
Escolaridade (1° Turno/1989)
Esquerda Centro Direita
(%)
Conjunto dos Esquerda 67 34 20 35
Eleitores
Centro 8 26 16 20

Direita 24 41 63 45

(N) (287) (872) (543) (1702)

Não Esquerda 0 25 11 13
Frequentaram
Centro 8 0 13 8
Escola
Direita 92 75 77 78

(N) (12) (24) (47) (83)

Nível Superior Esquerda 91 29 9 40

Centro 5 50 32 40

Direita 4 21 59 21

(N) (56) (208) (22) (286)

Fonte: CARREIRÃO, 2000, p. 80 apud. Cedec/USP/Datafolha (Março/90 - Brasil)

Analisando de acordo com Carreirão (2000), os eleitores que frequentaram a escola, fica
evidente a correlação entre auto posicionamento e intenção de voto. 91% dos que se auto
declararam de esquerda, votaram, de fato, em um candidato da esquerda, enquanto 4% optaram por
157

um candidato da direita. Na oposição, 59% dos ditos de direita votaram em candidatos da direita, e
9% preferiram a esquerda.

Agora, em análise do conjunto onde não frequentaram a escola, as variáveis são


extremamente díspares.

...há um forte predomínio do voto em candidatos da direita (basicamente Collor), mas este
predomínio é ainda maior entre os eleitores que se posicionavam à esquerda, contrariamente ao que
seria esperado se este posicionamento fosse decisivo na escolha eleitoral. (CARREIRÃO, 2000, p.
81)

Em suma, conclui-se que a escolaridade teria grande influência na hora de optar pelos
candidatos. “A votação de Collor mostrou uma relação forte com a escolaridade no município:
quanto mais baixa a escolaridade média maior a votação do PRN” (GUARNIERI; LIMONGI, 2014,
p.9). Os que possuíam baixo índice de escolaridade (subentende-se baixo nível socioeconômico)
optavam pela direita, mais precisamente por Collor. Seu auto posicionamento não fazia jus ao seu
voto, a associação entre “direita versus esquerda” e “Collor versus Lula” estava corrompida,
enquanto aos eleitores de nível superior, o resultado da associação era bem mais próximo do
esperado.

Collor seguiu, com o apoio de sua “simbiose”, a manobrar as massas, com um discurso
nacionalista, anticomunista, recatado, religioso e da “família”. Eventualmente acusava Lula e os
demais da esquerda de estarem preparando o país para um golpe comunista. Reflexos seriam as três
pesquisas analisadas, o discurso de Collor remete à uma ideologia da classe dominante, que para
Marx seria a ideia de mundo e sociedade da burguesia que seria divulgada ao proletariado.

O último debate46 (3 dias antes do dia da votação do segundo turno) realizado mostra
nitidamente as tentativas de Collor a vincular Lula à uma suposta ditadura comunista a caminho do
Brasil. Raimundo Soares, candidato do PT à prefeito de Bujaru (PA), remonta o cenário manipulado
pela “simbiose” da época:

Quando a burguesia percebeu que o Lula tinha chances, né, aumentou a pressão psicológica; aí
você via claramente se criar um clima de terror do Lula, como um diabo do inferno, que, se você
tinha dez galinhas, cinco tinham que ser para ele; se tinha casa, seria obrigado a dividi-la com
outros... (PETIT, 1996, pp. 202-203)

Analisando o primeiro bloco, que abrange acerca de economia, intermediado pelo jornalista
Boris Casoy, fica evidente a manipulação do candidato Fernando Collor. Lula toma como exemplo
alguns países comunistas, dos quais diz que o Brasil deveria seguir o exemplo, impor o estado em
zonas estratégicas da economia e principalmente lutar pelo socialismo, ou seja, organizar-se para
obter o poder por meio de uma revolução socialista, seguindo os preceitos de Marx:
46
Debate resultado da união entre as emissoras Rede Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT.
158

O socialismo não é uma meta, mas sim um destino da humanidade. Para Marx, ele ocorrerá
necessariamente (ao contrário do que pensarão mais tarde alguns setores do marxismo ocidental,
embora não a maior parte de suas correntes). Marx acreditava, ou ao menos demonstrava acreditar,
que o proletariado tinha por missão de classe conduzir a história ao advento do socialismo.
(BARROS, 2011, p. 227)

O candidato do PRN, por sua vez alegara que Lula possui “teses estranhas, marxistas e
estatizantes”47, além de considera-lo inimigo da nação, por ter votado contra a nova Constituição
Federal, acusá-lo de propor luta armada e por cantar o Hino à Internacional Comunista 48 nos
encontros do partido, ao invés do Hino Nacional.

A Revolução Socialista pretendida pelo PT talvez se encaixe nesse fato. Lula foi um dos
deputados presentes na Assembleia Nacional Constituinte de 1988, entretanto, votou contra a
mesma, apesar de tê-la assinado. O mesmo alegara que a nova constituição não abrangeria os
direitos dos trabalhadores, seria preciso uma política de redistribuição de renda, mudar a cabeça dos
mais ricos, em suas palavras, “rico ganhar menos para o pobre ganhar mais” 49. O conflito entre
os dois representa bem o objeto marxista:

Este momento que se conduzira ao último dos antagonismos de classe50 - aquele que opunha
burguesia e proletariado – é compreendido como o momento supremo que ao mesmo tempo resume
toda a história anterior e corresponde ao seu término, que corresponderia à própria implantação da
sociedade sem classes. (BARROS, 2011, p. 227)

Ao término, Collor de Mello obtém mais uma vez um pequeno impulso estratégico de sua
“simbiose”. Uma das emissoras fora acusada de favorecer o candidato Fernando Collor de Mello. A
acusação teve embasamento na segunda reprise do resumo, feito no noticiário noturno e de maior
audiência da emissora. Resumo este, repleto de cortes e edições, consideradas fundamentais para o
resultado.

Esse apoio decisivo do poder econômico e dos meios de comunicação permitiu a Collor concentrar
sua ação na consolidação do eleitorado popular, desdenhando publicamente o apoio dos
empresários, dos militares e de políticos comprometidos com o governo Sarney, partindo do
princípio, correto, de que teria o apoio das classes dominantes e da classe média conservadora no
2o turno, por imposição do enfrentamento contra um candidato de esquerda. (Diretório Nacional do
PT, 1990, p.120)

Por fim, uma manipulada vitória da classe burguesa se concluiu, mostrando que Fernando
Collor havia conseguido manipular a massa, ganhar seus votos, e ainda perante as ferrenhas
“críticas” à elite, garantir o voto pelo simples fato de ser o único candidato da direita, que para o
PT, era possuía apenas uma justificativa:

47
Descrição de Collor sobre as políticas de Lula durante o debate.
48
Hino socialista internacional revolucionário. Também foi hino da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
49
Palavras proferidas durante o debate.
50
Curiosamente, o último debate antes da votação.
159

...garantir a continuidade do controle do governo central pelas oligarquias e grupos econômicos que
comandaram a transição conservadora. A imagem de caçador de marajás, inimigo da corrupção,
dos usineiros e de Sarney, foi decisiva para a vitória de Collor, principalmente por que visava o
eleitorado que o elegeria. Este eleitorado de baixa renda, desorganizado, muitas vezes
desempregado ou semiempregado, morador das periferias dos grandes centros urbanos e do
interior, que as pesquisas classificam como C, D e E e que muitas vezes chamamos de “povão”, na
verdade é um grande desafio estratégico para nosso partido e para toda a esquerda. (Diretório
Nacional do PT, 1990, p.119)

E no intuito de garantir a base na direita, Collor periodicamente atentava para um suposto


golpe comunista, onde a bandeira brasileira seria trocada por uma bandeira vermelha, fazendo
alusão ao Comunismo. O Diretório afirma que o candidato opositor moldou sua campanha para o
segundo turno:

Na base do anticomunismo, da exploração da religiosidade e de sentimentos nacionais 164 QUASE


LÁ inconscientes – a imagem da bandeira nacional – somava a maioria do eleitorado conservador
do país e criava as condições para unificar em torno de si, no 2o turno, a direita e todos os setores
sociais temerosos da esquerda. (Diretório Nacional do PT, 1990, p.120)

O apoio do PCdoB e a subestimação do anticomunismo foram alguns dos itens que levaram
o PT à defensiva. Não foi exposto a real vertente comunista apoiada pelo PT, que repudiava o
stalinismo e o socialismo burocrático, eram a favor da liberdade e dos direitos políticos, mostraram-
se à oposição da política de Pequim. “Não nos apresentamos com nitidez para a classe trabalhadora
com relação a que tipo de socialismo defendemos para o Brasil” (Diretório Nacional do PT, 1990,
p.123)

No documento de avaliação da campanha do Diretório Nacional do PT, é expresso a


significativa vitória para os mesmos. Em 10 anos conseguiram construir-se e promover a
candidatura de um operário metalúrgico, nordestino e sindicalista, em confronto direto com a classe
dominante.

Toda a avaliação das eleições de 1989 faltaria com a verdade caso desconhecesse a significativa
vitória política do Partido dos Trabalhadores e da Frente Brasil Popular com os resultados do 1º
turno. Mais do que uma vitória eleitoral, ela criou condições para a disputa no 2o turno e a
unificação de todo o campo democrático-popular e progressista em torno da candidatura Lula.
(Diretório Nacional do PT, 1990, p.117)

Foram 35.098.998 votos no candidato do Partido da Reconstrução Nacional, totalizando


49,9% e no candidato do Partido dos Trabalhadores, contabilizaram-se 31.076.364 votos, em um
total de 44,2%. A vitória de Collor seria precedida pela abertura do primeiro processo de
impeachment da América latina. A trajetória do PT nesse período ficou marcada pela forte oposição
ao governo. Sua conclusão da primeira eleição pós-redemocratização foi transcrita no já citado
documento de avaliação de campanha:
160

Sem desconsiderar os erros políticos que cometemos e a derrota no campo eleitoral, é necessário
que nossa avaliação qualifique nossa participação na disputa presidencial como importante vitória
política. A partir de agora nossa referência histórica passa a ser os 16% obtidos no 1o turno e nossa
capacidade de reunificar o campo da esquerda, democrático e progressista, na luta contra a direita.
O que se coloca para o PT é dar-se conta do significado dessa capacidade, vencendo os novos
desafios que estão postos diante de si. (Diretório Nacional do PT, 1990, p.125).

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162
163

JORNAL MARABÁ: Faces do Baratismo no Sudeste do Pará (1945 e 1946)


Aldair José Dias Carneiro51

Resumo

As articulações políticas paraenses no último ano da segunda interventoria de Magalhães Barata


(1943-1945) foram impulsionadas pela necessidade de adequação às novas exigências eleitorais
programadas para o regime democrático. Em 1945, foram previstas novas legislações, cuja
conquista e manutenção do poder político passariam a estar relacionadas a aquisição de votos, o que
estimulariam os novos grupos partidários a expandirem suas influências político-territoriais. Diante
da iminência da nova conjuntura, os baratistas no Pará trataram de sair na frente. Ainda sob a égide
do Estado Novo (1937-1945), mantiveram o controle da máquina administrativa, fundaram o
Partido Social Democrático (PSD) e expandiram suas bases eleitorais nas diversas regiões do
Estado. No sudeste paraense os vestígios baratistas foram percebidos nos discursos de interiorização
da política, integração do interior, nas retóricas nacionalistas e na exaltação ao Magalhães Barata. A
difusão das ideologias baratistas no sudeste do Pará coube ao jornal de características políticas,
Marabá. O semanário de circulação local foi criado na cidade de Marabá com o intuito de difundir
o baratismo e o pessedismo e inseminar uma “boa” imagem de Magalhães Barata na região,
preparando sua eleição ao governo paraense. Durante a atuação do Marabá, nos anos de 1945 e
1946, não houveram outros jornais que fizessem oposição a ele na região, por ter sido um veículo
para difusão de pretensões políticas estadonovistas. Logo, a desativação do Marabá esteve
imediatamente relacionada à criação de outro jornal baratista, mas de alcance regional, o diário O
Liberal.

Palavras chave: Estado Novo; Baratismo; Jornais Impressos; Sudeste do Pará.

NEWSPAPER MARABÁ: Faces of Baratismo in the southeast of Pará (1945 and 1946).

Summary

The joints Pará policies in the last year of the second “interventoria” of Magalhães Barata (1943-
1945) were driven by the need to adapt to new electoral requirements planned for democratic rule.
In 1945, were provided for new legislation which conquest and maintenance of political power
would be related to purchase of votes, which would stimulate the new party groups to expand their
territorial and political influences. Given the imminence of the new economic situation, the
baratistas in Pará tried to come out ahead. Still under the aegis of the “Estado Novo” (1937-1945),
kept control of the administrative machinery, founded the Social Democratic Party (PSD) and
expanded their electoral bases in different regions of the State. In Southeast Pará traces baratistas
were perceived in the speeches of internalization, policy integration, in nationalist rhetoric and
exaltation of Magellan. The diffusion of baratistas in the southeast of Pará ideologies fitted the
newspaper political characteristics, Maraba. The weekly local movement was created in the city of
Marabá in order to spread the baratismo and the “pessedismo” and inseminate a "good" image of
Magalhães Barata in the region, preparing his election the Government of para. During the
performance of Marabá, in the years 1945 and 1946, there were no other newspapers to make
opposition to him in the region, for being a vehicle for dissemination of “estadonovistas” political
pretensions. Soon, the disabling of the Marabá was immediately related to the creation of another
paper baratista, but regional range, the daily O Liberal.

51
Doutorando em História Social da Amazônia (UFPA). Professor membro do Projeto de Formação Continuada de
Professores da Educação Básica da Secretaria Municipal de Educação de Marabá-Pará, (aldaircarneiro@hotmail.com).
164

Keywords: Estado Novo; Baratismo; Newspapers Printed; Southeast of Pará.

PERIÓDICO MARABÁ: Caras de Baratismo en el sureste de Pará (1945 y 1946)

Resumen

Las juntas directivas de Pará en el último año de la segunda de interventoria Magalhães Barata
(1943-1945) fueron conducidos por la necesidad de adaptarse a nuevos requerimientos electorales
previstas para la democracia. En 1945, fueron proporcionados por la nueva legislación que
conquista y mantenimiento del poder político estaría relacionado con la compra de votos, lo que
estimularían a los nuevos grupos del partido para ampliar su influencia territorial y política. Dada la
inminencia de la nueva situación económica, la baratistas en Pará intentó salir adelante. Todavía
bajo la égida del Estado Novo (1937-1945), mantuvo el control de la maquinaria administrativa,
fundó el Partido Social Demócrata (PSD) y amplió sus bases electorales en diferentes regiones del
estado. En Pará sureste rastros baratistas fueron percibidos en los discursos de la imputación, de
integración política, en la retórica nacionalista y la exaltación de Magallanes. La difusión del
baratistas en el sureste de Pará ideologías dispone de las características políticas del periódico,
Marabá. El movimiento local semanal nace en la ciudad de Marabá, con el fin de difundir el
baratismo y la pessedismo e inseminar una "buena" imagen de Magalhães Barata en la región,
preparando su elección al Gobierno de Pará. Durante la ejecución de Marabá, en los años 1945 y
1946, no había ningún otros periódicos a hacer oposición a él en la región, por ser un vehículo para
la difusión de pretensiones políticas estadonovistas. Pronto, la desactivación de la Marabá fue
inmediatamente relacionada con la creación de otro papel baratista, pero gama regional, el Diario O
Liberal.

Palabras clave: Estado Novo; Baratismo; Periódicos impresos; Sudeste de Pará.

O baratismo na iminência do regime democrático em 1945

Na passagem do Estado Novo para a redemocratização a região sudeste do Pará, em


especial a cidade de Marabá, passou por mudanças significativas promovidas por um conjunto de
ações políticas nacionais e regionais que antecederam à instauração do regime democrático e
procederam no após 1945. Às novas propostas de regulamentação eleitoral democráticas
estimularam a fundação de partidos políticos, a oficialização de ideologias político-partidárias, a
reorganização de grupos políticos, a criação e rearticulação de jornais impressos engajados e as
buscas por influências político-territoriais. Esses acontecimentos constituíram-se em fatores de
preparação, em vista da possibilidade da atuação política dentro de uma nova conjuntura, onde
manter ou conseguir privilégios estava relacionado ao poder de convencimento popular e à
visibilidade dos agentes políticos. A constante busca por influências político-territoriais regionais na
passagem do Estado Novo para a democracia (1945 para 1946) fez da região sudeste do Pará, a
partir da cidade de Marabá, um dos alvos dessas pretensões gestadas na iminência do período
165

democrático, durante os últimos suspiros do regime estadonovista. Nos referimos, portanto, ao


clima efervescente que marcou este período de transição de uma ditadura de predominância
monopartidária para uma situação multipartidária, como ambiente propício para os novos sujeitos
políticos definirem seus programas em vista de sua adequação ao regime seguinte.
O fato de Getúlio Vargas, em nível nacional, e Magalhães Barata, no Pará, terem sido os
principais responsáveis nas articulações de passagem do Estado Novo para o novo regime, explica a
manutenção de seus respectivos grupos de apoio no poder, na medida em que se processava a
abertura. Mesmo com o regime estadonovista chegando ao fim, a sua estrutura foi aproveitada no
novo arcabouço institucional, já que antes de ser deposto o governo varguista produziu uma série de
instrumentos jurídicos e instituições públicas concebidos conforme a lógica ditatorial. Não houve,
portanto, uma derrogação imediata das características getulistas com a entrada do novo regime de
final de 1945. De acordo com Maria do Carmo Campello Souza, na passagem ao regime
democrático Getúlio manteve-se como interlocutor-chave; e justamente esta posição teria facultado
ao getulismo a possibilidade de adotar as medidas necessárias para a manutenção de sua máquina,
“assentada nas interventorias e já, então, enraizada nos Estados e municípios”: (SOUZA, 1976, p.
106). Com a democracia instaurada e o fim do Estado Novo, não houve uma substituição
significativa dos grupos no governo, tampouco sepultou-se a burocracia vigente no Estado, “a
redemocratização foi conduzida pela elite política que detinha o poder durante o Estado Novo, e sob
sua direção foi promovida a implantação de um sistema pluripartidário [...]”: (GHIGGI, 2014, p.
14).
Na ocasião, os interventores se utilizaram da máquina do Estado para fundar o Partido
Social Democrático, o PSD. O partido teria sido fundado por “elementos estreitamente vinculados à
administração do Estado Novo: interventores, ministros, funcionários públicos, e adquiriu
“condições ímpares para se organizar em todos os estados e vencer as eleições, conquistando a
maioria das cadeiras”: (HIPPOLITO, 2012, p. 68). No Pará, Magalhães Barata, além de dar vida à
versão paraense deste partido, valeu-se dos prefeitos por ele nomeados para difundir a ideologia do
novo grupo político pelo interior do Estado. Desde os primeiros momentos de sua existência, o
Partido Social Democrático paraense esteve intimamente ligado à personalidade de Magalhães
Barata, a princípio em função da interventoria, pois tomou a frente de toda a “articulação oficial
para a fundação do partido, por delegação de Vargas”: (CARNEIRO, 1991, p. 34). Como bem
argumenta a historiadora e cientista política Lucia Hippolito, em 1945 emergiu um PSD gerado não
espontaneamente, mas como uma deliberação de um grupo dominante do período anterior, a fim de
criar instrumentos que lhe permitissem operar na transição para um regime democrático. O PSD
como um partido produzido por interventores nomeados criou seu prestígio e força na prática
eleitoral, atividades parlamentares e na participação nos diferentes níveis do executivo. Partido de
166

quadros que adotou posturas de partido de massa, o PSD adaptou-se aos novos tempos inaugurados
por uma nova constituição em 1946: (HIPPOLITO, 2012, p. 55).
A articulação política acerca da criação do PSD, como partido de referência para os
remanescentes do Estado Novo contribuiu para que estes ingressassem na situação democrática e
continuassem a desfrutar, tanto em nível federal quanto estadual, dos benefícios do poder.
Magalhães Barata, por exemplo, teve à sua disposição um conjunto de fatores oficiais, incluindo
“auxiliares diretos, indiretos e os intendentes”: (CARNEIRO, 1991, p. 34). Formou-se, portanto, a
estrutura necessária que daria suporte à disseminação dos princípios baratistas pelo interior do Pará,
sendo a região sudeste um exemplo disso.
Sobre o contexto nacional e a dinâmica política regional em período de transição
vivenciado em 1945, o historiador Pere Petit também destacou que imediatamente após a Segunda
Guerra Mundial e o afastamento de Getúlio Vargas da Presidência da República, Magalhães Barata
foi também destituído do cargo de interventor federal. Porém, no dia 1º de maio de 1945,
Magalhães Barata havia liderado a fundação da seção paraense do Partido Social Democrático
(PSD) como, aliás, fizeram boa parte dos interventores nomeados por Getúlio Vargas em outros
Estados. Assim, ficam subjacentes aos argumentos de Pettit, que a política de Magalhães Barata
desfrutou de ampla vantagem, justamente em função do tempo de organização partidária, uma vez
que o PSD herdou a estruturação da máquina baratista instituída em 1943, quando todos os prefeitos
municipais foram nomeados pela sua interventoria. A situação de controle facilitou a difusão do
pessedismo, e com ele o baratismo pelo interior do Pará, como exemplo, o sudeste do Pará:
(PETTIT, 2003, p. 128-129).
Acerca da transição política de 1945, Lucia Hippolito também deu a sua contribuição
argumentando que “pela primeira vez na história do Brasil foram criados e fortalecidos partidos
políticos nacionais com programas ideológicos definidos e identificados com o eleitorado”. Logo
nos primeiros resultados do processo político eleitoral pode se notar que o “PSD deu o tom da
política brasileira do período”: (HIPPOLITO, 2012, p. 41). De acordo com a análise de Jorge
Ferreira, as eleições, com o fim do Estado Novo, se tornaram “sistemáticas e periódicas para os
cargos do Executivo e do Legislativo nos planos federal, estadual e municipal”. Essa dinâmica
eleitoral, segundo o historiador, contribuiu para “consolidar um sistema partidário nacional que
expressava as diversas correntes de opinião do eleitorado”: (FERREIRA, 2015, p. 12). A ambição
de Magalhães Barata em 1945 foi expressa em jornal do período que descreveu a solenidade de
fundação do PSD. A oficialização do grupo político representava a percepção de um futuro já
determinado por Vargas, daí a urgência de agir primeiro e organizar-se para a nova conjuntura
chefiando a maioria absoluta das forças políticas do Estado. No propósito de bem servir a
orientação política traçada ao país pelo presidente Getúlio Vargas e seus auxiliares de
167

administração, o coronel Barata, instaurando a convenção do PSD no Pará, abriria, conforme a


concepção baratista, um período novo na vida política paraense. Barata, portanto, cuidou de
estruturar a nova entidade partidária em moldes democráticos, tornando-a compatível às novas
exigências do Estado. Definindo-a, conforme pronunciamento de Barata, numa “diretriz política
serena, progressista e patriótica”.52
As referências do pesquisador francês Serge Berstein acerca da constituição dos
partidos políticos tornaram-se úteis para a análise também em outros ambientes como o sudeste do
Pará. Para Berstein “refletindo sobre a natureza dos partidos políticos e sua função na sociedade
política contemporânea eles levaram os historiadores a se interrogarem sobre o significado da
existência e o papel dos partidos na pequena fatia histórica que lhe diz respeito”, do final do século
XIX até os dias atuais: (BERSTEIN, 2003, p. 60). O PSD, fundado em 17 de julho de 1945,
começou a “ser organizado primeiro nos estados, sob a liderança dos interventores, reunindo
prefeitos, membros da administração estadual e outras forças que apoiavam o governo, como
proprietários rurais, industriais, comerciantes, funcionários públicos e outros”: (HIPPOLITO, 2004,
p. 21-47). E, do ponto de vista da sua origem, comenta Lucia Hippolito, “o PSD corresponde
perfeitamente ao partido criado de fora para dentro, formado no fim do Estado Novo e composto
basicamente pelos interventores nomeados por Vargas”. Conforme Hippolito, o partido teria
fornecido à elite política que havia se consolidado nos estados durante a ditadura estadonovista uma
possibilidade de sobreviver num regime democrático: (HIPPOLITO, 2012, p. 47).
Foram criadas no período de transição em 1945, as bases para a realização de eleições
diretas para os cargos executivos e legislativos, fazendo sobressair as nuances ideológicas entre os
diferentes grupos políticos. Conforme análise político-eleitoral realizada pela historiadora Luciana
Ghiggi, pressionado pela oposição ao seu governo, “Vargas editou a Lei Constitucional número 09
em 28 de fevereiro de 1945, convocando eleições para presidente, governadores, Congresso
Nacional e Assembleias Legislativas”. Como determinação dessa primeira medida foi publicado
dentro de noventa dias, o Decreto número 7.586/1945, regulamentando o alistamento eleitoral e as
eleições em si. A redação do novo Código Eleitoral foi coordenada pelo então ministro da justiça e
ex-interventor de Pernambuco Agamenon Magalhães. O documento apresentava cinco itens
fundamentais: alistamento simples, voto secreto, justiça eleitoral, apuração rápida e imediata e as
competências dos partidos nacionais: (GHIGGI, 2014, p. 20). A regulamentação eleitoral propiciou
aos partidos nascentes a procura por novos espaços de influência dentro do processo de
redemocratização desencadeado – ao menos, em parte – pelo decreto supracitado.

52
Jornal A Vanguarda. Belém, 30 de abril de 1945.
168

O jornal Marabá e o baratismo no sudeste do Pará

Ressaltamos o período em que Magalhães Barata, enquanto líder político no poder, se


articulou a fim de adequar-se a uma nova situação política. A ação se deu com a iminência do
regime político democrática que lhe exigiria a apresentação de sua imagem e capacidade de
convencimento eleitoral para se manter enquanto governo. Isso fez com que um plano político-
econômico administrado por Barata, como interventor federal durante o Estado Novo, fosse
deslocado para o interior do Estado, como exemplo o sudeste do Pará. Caracterizou-se, portanto,
uma continuidade do projeto varguista pensado para a Amazônia nos últimos anos do regime
ditatorial. Nesse contexto, às intervenções político-ideológica no sudeste do Pará se deram por
baratistas em seus discursos, veiculados por jornais impressos, em forma de concepções de
progresso e integração de uma região pouco povoada e desprovida de projetos políticos.
Neste contexto de transição, em 1945, é importante apontar que a difusão das diferentes
tendências partidário-ideológicas dependia, em grande medida, de jornais impressos. Assim, a
corrida por influência político-territorial no final do Estado Novo abraçou os meios de comunicação
que estabeleceram suas próprias escalas de valores. Tais meios de comunicação impressos criaram
possibilidades para a independência de argumentação e se transformaram em suportes para a
difusão ideológica dos partidos políticos nascentes que ainda procuravam, desesperadamente, suas
posições no meio social. A possibilidade de difusão dos discursos e imagens políticas,
proporcionados por periódicos impressos criou, visivelmente, regiões de disputas. Destacaram-se os
jornais impressos de representações político-partidárias projetados, principalmente, para veicularem
ideologias e bajularem imagens políticas. Com o fim de um período de censura, o Estado Novo, a
tendência foi multiplicar e diversificar as publicações. O jornalismo desenvolvido na referida
situação adquiriu tendências profundamente ideológicas, militantes e panfletárias. Seu objetivo,
antes mesmo de informar, era o de tomar posição, exacerbar a militância, tendo em vista a
mobilização dos leitores: (RIBEIRO, 2007, p. 02).
Segundo o cientista político Antônio Lavareda, “quase toda imprensa tinha uma clara
orientação política”, funcionando a partir de uma determinada ótica e orientação: (LAVAREDA,
1991, p. 129). O processo de difusão da mídia teria sido impulsionado por um contexto de
redemocratização política, bem como, pela ascensão tecnológica vivenciada no Brasil após a
Segunda Guerra, fundamentais para a consolidação de um jornalismo empresarial e diversificação
dos elementos presentes na esfera pública nacional. Os usos dos jornais impressos funcionaram,
sobretudo, “difundindo uma agenda de discussão política, social e cultural, que ia além da
informação neutra e objetiva, mas alimentava e contribuía para a formação da opinião pública
nacional”: (SOUZA, 2012, p. 70). Logo após o Estado Novo, apesar de todas as mudanças e da
169

difusão de um discurso nesse sentido, jamais as tão apregoadas neutralidade e imparcialidade


seriam alcançadas, pois, o jornalista e o editor falavam sempre de um lugar, um ponto de vista
político. Tal lugar era carregado de sentidos e dotado de um filtro cultural, através do qual esses
sujeitos enxergavam o mundo. Por isso, embora o jornal apresentasse uma leitura como sendo um
retrato do real, “essa leitura (era) um discurso, uma representação do real lido, a partir do olhar e da
cultura política daqueles que a produziram”: (SOUZA, 2012, p. 69). Através desses mecanismos, os
baratistas agiram a fim de arrebatarem o sudeste do Pará, usando os instrumentos que possuíam em
mãos, o poder da influência. As atuações do baratismo no sudeste do Pará foram divulgadas por via
do periódico denominado Marabá, apresentando duas formas importantes: uma preventiva, que
estava relacionada ao fato de ter sido o primeiro a implantar suas ideologias na região, evitando
outras; e outra continuísta, pelo fato de persistirem, no período após 1945, elementos característicos
do Estado Novo.
O jornal Marabá foi fundado no município de mesmo nome, em janeiro de 1945, como
um “jornal de orientação política para circulação local, sob a responsabilidade do baratista em
Marabá, Antônio Vilhena de Souza” e dirigido pelo jornalista João Correa da Rocha, tendo o
advogado José Cursino de Azevedo como editor chefe e Mário Mazzini como redator secretário. 53
Uma pequena folha medindo 40cm x 28cm, contando entre quatro e oito páginas, o jornal de
publicação aos sábados era vendido anualmente por 35 cruzeiros, semestralmente por 20 cruzeiros e
por 1 cruzeiro o número avulso. O jornal caracterizou-se pelas extremas pretensões político-
partidárias e poucos anúncios comerciais e por veicular um julgamento acerca da região de grandes
castanhais do sudeste do Pará. O Marabá dotava-se de conteúdo predominantemente político, de
referência local e regional com alguns anúncios nacionais e globais. Conforme a equipe editorial, o
jornal estava sendo instalado em um lugar carente de organização política e que, por ser uma região
economicamente importante, precisava de progresso. O sudeste do Pará necessitava de alguém com
pulso firme e ideias interessantes para administrá-la. E, como solução, os baratistas do Marabá
apresentaram uma característica histórica atribuída ao Magalhães Barata. As ações panfletárias do
Marabá expunham, em 1945 e 1946, Magalhães Barata como o candidato natural do PSD a
governador do Pará e, portanto, o jornal assumiu a função de apresentação e difusão da campanha
eleitoral do então interventor paraense (Imagem 1). Mesmo sendo impedido de concorrer às eleições
de 19 de janeiro de 1947, “por força de um veto oficial imposto aos ex-interventores”, Barata
transferiu ao sudeste do Pará, via jornal Marabá, as peculiaridades políticas do Estado Novo:
(CARNEIRO, 1991, p. 67).

53
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 8 de dezembro de 1945, n. 1, p. 4, (Arquivo Público de Marabá, Fundação Casa da
Cultura).
170

Imagem 1

Jornal Marabá, 13 de janeiro de 1946, p. 1. Ratifica a candidatura do então senador Magalhães Barata ao
governo do Estado do Pará.

O jornal baratista foi apresentado como um instrumento doutrinário, pensado para um


lugar considerado politicamente inexplorado, que segundo os editores do jornal, veicularia sobre a
região de castanhais novas ideias e orientações típicas de um periódico de “doutrinas sãs, educativas
e patrióticas”. 54 Pelos argumentos apresentados na cidade de Marabá, o periódico de tendências
populistas representou a “voz de Magalhães Barata” e havia sido criado para executar uma prática
de domesticação da região de castanhais. Conforme a coordenação do Marabá, ele chegaria para
atuar em uma nova terra, com um propósito de implantar políticas que guiariam a região no
caminho do progresso, “abrindo nova senda para a perfeição do caráter da sua gente”.55 O discurso
veiculado pelo jornal baratista no sudeste do Pará propunha uma continuidade da intervenção do
Estado em matéria de incentivo à mobilidade da fronteira, incorporando amplos “espaços vazios”, e
da reunião dos diversos núcleos demográficos isolados. Para tal fim, a ideologia da fronteira ou
bandeirantismo, teve um papel fundamental no expansionismo baratista pelo interior paraense:
(SECRETO, 1998, p. 12).
Em análise histórica de Magalhães Barata, a historiadora Rita Ester Bezerra Loureiro
verificou em publicação de jornais e entrevistas a predominância de uma “memória da perfeição” a
qual os grupos políticos e pessoas que tiveram uma relação direta com Magalhães Barata trataram
de apontá-lo como um lugar de memória. Para tanto, somente era dito o que contribuiria para
engrandecer a imagem do ex-interventor e instituir a noção de um homem público ideal:
(LOUREIRO, 1998, p. 12). Semelhante, a imagem e história de Magalhães Barata, apresentadas ao
sudeste do Pará, precisavam estar cercadas de honrarias e simbologias de poder. Assim, os
baratistas procuravam desenvolver com os ritos dos discursos, formas de imaginar e ver Magalhães

54
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 11 de agosto de 1945, n. 5, p. 3, (Arquivo Público de Marabá, Fundação Casa da
Cultura).
55
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 11 de agosto de 1945, n. 5, p. 3, (Arquivo Público de Marabá, Fundação Casa da
Cultura).
171

Barata, ordenando proximidades e distâncias entre o líder e seus súditos. O trabalho que os
coordenadores do Marabá executaram na região empregou um conjunto de técnicas que envolveu
comportamento e atitudes adequados perante a imagem apresentada do líder pessedista. As
recomendações, fundamentalmente, insistiam na importância de uma etiqueta política e na
necessidade de impor uma certa distância do líder representado, a fim de fazer respeitar a dignidade
inerente a sua inquestionável função política. Criar um espaço politicamente sadio e aceitável para
colocar Barata no centro era uma das constantes ações dos anunciantes. Um modelo de
personalidade histórica recriada no presente, unia-se a alta patente militar e seu conjunto de
honrarias o destaque das letras maiúsculas que seu nome figurava no meio de textos caixa baixa,
JOAQUIM DE MAGALHÃES CARDOSO BARATA.56
Em poesia do editor chefe do Marabá, José Cursino de Azevedo, pseudônimo “Cajado”,
com o título “Honra ao mérito”, por exemplo, ilustra uma das características do chefe pessedista
vendidas pelos editores do jornal Marabá, revelando uma das formas em que Barata foi apresentado
ao sudeste do Pará. Apresentado como um “artista de renome”, “herói”, “valente”, grande de alma e
coração e que precisava “ser cantado pela voz da história” como o “gênio do direito”. O texto foi
uma dedicatória ao aniversário do interventor Barata em dia 2 de junho de 1945, pronunciada “pelo
menino Antônio Lira, aluno do grupo escolar”, no salão nobre da prefeitura municipal de Marabá,
em sessão solene.57 A poesia associava Barata a um herói, eloquente e valente, suas proposições
precisavam ser acatadas. Dizia a poesia que:

56
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 28 de julho de 1945, n. 3, p. 1, (Arquivo Público de Marabá, Fundação Casa da
Cultura).
57
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 1 de setembro de 1945, n. 8, p. 3, (Arquivo Público de Marabá, Fundação Casa da
Cultura).
172

Os homens de mais alto sentimento


E perfeição de artista de renome,
Os que precisam ler com o sentimento,
Na grandeza sublime de seu nome.

O manuscrito da maior verdade,


Com as letras do seu templo soletrando
Ordem, trabalho, paz, tranquilidade,
E tudo que elas vão lhes ensinando;

Estes homens, assim, que pelo povo


E pela Pátria se dedicam tanto,
Que animam a vida num ideal mais novo,
Plantando uma ventura em cada canto;
Estes homens, assim, heróis, valentes,
Homens que todo um povo lhes congraça,
Homens de têmpera, homens eloquentes,
De uma alma grande e coração sem jaça;

Estes homens merecem ter a glória


Pela sua virtude esplendorosa,
E ser cantado pela voz da história,
Como a grande figura luminosa

Do verdadeiro gênio do direito


Que a justiça da lei o aplaude e o acata!
Assim subindo vai nesse conceito,
O BRAVO CORONEL JOAQUIM
BARATA!!!58

58
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 1 de setembro
de 1945, n. 8, p. 1, (Arquivo Público de Marabá,
Fundação Casa da Cultura). Poema recitado em
2 de junho de 1945 como homenagem a
Magalhães Barata, Interventor Federal, na
Câmara Municipal de Marabá em
comemoração ao seu aniversário.
173

O Marabá apresentava ao público do sudeste do Pará, a imagem de um


vencedor, personalidade cujo nome sempre fora “grandemente ovacionado” pelo povo,
enquanto um soldado valente, “o GRANDE BARATA, redentor da terra paraense”, o
“organizador do trabalho sadio e progressista”, o “democrata de alma e coração”. 59 No
jornal baratista explicitava o pedido para a “nova era da política paraense”, propondo
que todo povo do Pará fizesse uso do “retrato do ilustre patrício, grandes e pequenos,
ricos e pobres, gente de todas as castas, façam questão de possuí-lo e colocá-lo, com
orgulho, no lugar de honra na sala de visitas”. 60
O jornal Marabá que veiculou às pretensões políticas baratistas no espaço
do sudeste do Pará teve uma existência efêmera, suas primeiras edições foram
percebidas no mês de janeiro de 1945 e suas últimas em setembro de 1946. A extinção
do semanário do sudeste paraense Marabá está relacionada à fundação em Belém do
Pará, do jornal de circulação regional O Liberal, pois à medida que um desapareceu o
outro surgiu, com uma diferença de pouca mais de um mês (Imagem 2). O Marabá foi
criado no sudeste do Pará, sobretudo, para a divulgação da campanha eleitoral de
Magalhães Barata ao governo do Estado, visando às eleições de 1947. Quando
impugnada a candidatura do ex-interventor, o jornal O Liberal foi uma alternativa para a
divulgação da campanha do substituto de Barata, Moura Carvalho e de outros
pessedistas. Como veículo de informação, O Liberal acabou unificando em torno de si,
os correligionários pessedistas e fazendo frente à oposição ao baratismo. O diário O
Liberal nasceu em 15 de novembro de 1946, criado por Luis Geolás de Moura Carvalho
e outros nomes para ser um órgão de propaganda dos membros do Partido Social
Democrático, chefiado por Magalhães Barata: (SEIXAS, 2013). O jornal baratista
regional possibilitou o diálogo com às diversas lideranças do PSD nos vários
municípios do interior paraense. 61 Embora sendo dois jornais baratistas, eles se
distinguiram em algumas características que certamente estão relacionadas ao tempo e
lugar de suas respectivas atuações. Porém, ambos exaltaram o projeto pessedista e a
imagem de Magalhães Barata.

59
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 28 de julho de 1945, n. 3, p. 1, (Arquivo Público de Marabá, Fundação
Casa da Cultura).
60
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 28 de julho de 1945, n. 3, p. 1, (Arquivo Público de Marabá, Fundação
Casa da Cultura).
61
Jornal O Liberal, 03 jan. 1947, p. 3.
174

Imagem 2

(1ª) Jornal Marabá, Marabá, 08 de setembro de 1945 (capa). (2ª) Jornal O Liberal em edição de
18 de janeiro de 1947 (capa). Apresentam o interventor paraense Magalhães Barata.

O jornal Marabá elevava semanalmente imagens, ações e características de


Magalhães Barata, apresentando grandes feitos e destacando sua trajetória política e,
ainda encampava uma campanha eleitoral na região sudeste paraense em nome do
próprio Barata para o governo do Estado e da predominância do baratismo, porém, sem
expressar embates políticos em suas linguagens. Já o diário O Liberal, além de divulgar
os projetos pessedistas, destacava a imagem de Barata e de seus respectivos
representantes e hostilizava, incansavelmente, as ideologias de oposição. 62
Conforme seus editores, o Marabá representava mais um edifício elevado
“as margens do rio Tocantins e Itacaiunas” em nome do “trabalho” e da “esperança”. 63
O momento de transição em 1945, no discurso baratista proferido no sudeste do Pará,
propunha claramente uma busca do passado, a crença no sucesso do estilo político
instituído em 1930, de moralização política e de controle das instituições do Estado.64 E
convocava o povo de Marabá e região sudeste paraense a unir-se ao interventor no
investimento heroico para elevar a região ao pedestal patriótico, a unir-se ao resto do
Brasil e a se fazerem brasileiros. 65 E então expunha seu desejo político na região através
do princípio da ordem, da moral e do progresso:
Eu ti farei o povo mais ordeiro, mais progressista, honesto e
venturoso; eu te farei dizer que és brasileiro, que és grande, nobre,
justo, altivo e forte, em defesa da nossa linda Pátria, a mais bela
Nação, uma terra formosa bendita, terra santa e boa. 66

62
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 14 de julho de 1945, n. 1, p. 2, (Arquivo Público de Marabá, Fundação
Casa da Cultura).
63
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 14 de julho de 1945, n. 1, p. 2, (Arquivo Público de Marabá, Fundação
Casa da Cultura).
64
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 15 de setembro de 1945, n. 10, p. 4, (Arquivo Público de Marabá,
Fundação Casa da Cultura).
65
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 15 de setembro de 1945, n. 10, p. 4, (Arquivo Público de Marabá,
Fundação Casa da Cultura).
66
Jornal Marabá, Marabá, Pará, 15 de setembro de 1945, n. 10, p. 4, (Arquivo Público de Marabá,
Fundação Casa da Cultura).
175

Quanto ao estilo de O Liberal, caracterizou-se pelo envolvimento em


disputas políticas desde seu nascimento e, portanto, continha em suas publicações
mecanismos de defesa e de ataque em relação às atitudes de oposição ao Magalhães
Barata e seguidores do PSD, além do trabalho com a memória relacionada à instituição
política de 1930. Para o jornal pessedista regional, os baratistas e o povo seriam “um
ombro a ombro, desde 1930, marchando desassombradamente numa só cadência e
desfraldando uma só bandeira, a bandeira da vitória”. 67 Nas publicações do jornal
regional pessedista estavam perceptíveis os investimentos no fortalecimento da
campanha do escolhido de Barata para substituí-lo como candidato ao governo
paraense, Luis Geolás de Moura Carvalho. E, por isso, contrariava os editores do jornal
regional concorrente e oposicionista, Folha do Norte.68
A inexistência de outros jornais no sudeste do Pará em tempo de atuação do
Marabá que apresentassem ideologias contrárias à baratista, pode estar relacionada ao
fato do semanário do sudeste paraense ter sido fundado ainda no Estado Novo e, por
isso, amparado pelos órgãos de repressão, num período em que só o governo expunha,
oficialmente, suas ideologias e censurava a oposição. Como argumenta Maria Verônica
Secreto, no primeiro governo de Vargas de 1930 a 1945, surgiram órgãos oficiais de
propaganda que objetivaram também o controle e a repressão de ideias contrárias ou
consideradas ameaçadoras ao regime varguista. Com a política do Estado Novo, foi
criada, em 1939, uma peça fundamental: o Departamento de Imprensa e Propaganda
(DIP), órgão vinculado diretamente à Presidência da República, que se ocupava não só
do controle dos meios de comunicação, mas também da censura, difusão e divulgação
de mensagens propagandistas. A partir de 1940 o DIP teve seu poder ampliado, “com a
instalação, em cada estado do país, de um Departamento Estadual de Imprensa e
Propaganda (DEIP)”: (SECRETO, 1998, p. 124). A ação foi uma tentativa de centralizar
e coordenar a propaganda, auxiliando nas entidades sociais sobre a propaganda
nacional.

Considerações Finais

Com relação ao jornal Marabá, ele foi pensado como uma forma de
inseminar o baratismo e o pessedismo na região sudeste paraense, uma forma consciente
e planejada, porém uma atitude típica da situação determinada pelo ritmo da cultura
política nacional daquela época de transição em 1945. Foram atitudes estimuladas por

67
Jornal O Liberal, 03 jan. 1947, p. 2.
68
Jornal O Liberal, 15 nov. 1946, capa.
176

um estilo político que exigia ações rápidas para a apresentação de personalidade e


imagem em lugares politicamente desconhecido, neste caso, Barata foi influenciado
pelo sentimento de mostrar-se primeiro e o fez no sudeste do Pará através do Marabá.
Outra observação acerca do jornal Marabá, está relacionada ao fato de ele ter sido
criado para fins eleitorais, tendo em vista o seu desaparecimento justamente após as
sucessivas vitórias nacionais e regionais do baratismo e pessedismo nas eleições de
dezembro de 1945 para senadores, deputados e presidente da República. A criação do
jornal baratista de alcance regional O Liberal substituiu o Marabá, cuja circulação
estava limitada ao sudeste do Pará. Portanto, o diário baratista regional unificou os
pessedistas paraenses em torno de si.

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SOUZA, Maria do Carmo Campelo. Estado e Partidos políticos no Brasil, 1930 a 1964. 1ª
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178
179

INCLUSÃO DE ALUNOS CEGOS EM AULA DE HISTÓRIA


INCLUSION OF BLIND STUDENTS IN HISTORY CLASS
Tiese Rodrigues Teixeira Júnior 69

RESUMO
Este artigo trata de um relato de experiência de trabalho docente, com alunos cegos em
aulas de História, desenvolvido no período de fevereiro a outubro, de 2016, em uma
turma de ensino médio, da Escola Pública do estado do Pará, professora Anunciada
Chaves. Participaram da experiência, os alunos da turma 101, do turno da tarde,
formada por 27 alunos, adolescentes, na sua maioria, em aulas de História com duração
semanal de 2:15 h. Durante as aulas foram colocadas em curso atividades que tinham o
objetivo de incluir, os irmãos Diego e Manuel Lira, ambos cegos desde o nascimento.
Nesse processo foram feitas anotações sobre esta experiência em um caderno de campo.
A composição deste trabalho, dentre outras interfaces, está permitindo a documentação
escrita de práticas de ensino em aulas de história, no ensino básico, com alunos cegos e
talvez possa ajudar em diálogos sobre o tema na Amazônia.
PALAVRAS-CHAVE: Inclusão. Alunos Cegos. História.
ABSTRACT

This research it is a talk of experience of teaching with blind students in History class.
Developed from February until October, from 2016, in one public high class, named
Anunciada Chaves, in Pará Country. Participated of the experience students from 101
class, in afternoon time, composed for 27 students, the most of are teenagers. In each
week we had 2: 15 hours in class. During experience we made activities that objective
to include the brothers Diego e Manuel Lira, both are blinds since born. During the
process it was made writing about that experience in one notebook. These annotations it
is to help to register the practices of teaching in history class in basic school with blind
students and maybe can help in dialogues about the subject in Amazon.
KEY WORDS: Inclusion. Blind Students. History.

RESUMEN
Este artículo es un informe de experiencia docente que trabaja con lós estudiantes
ciegos en las clases de historia, desarrollada en el período de febrero a octubre, 2016, en
una clase de la escuela secundaria, la escuela pública de Pará, profesora Anunciada
Chaves, há participado en el experimento los estudiantes de la clase 101, en turno de la
tarde, que consta de 27 estudiantes, adolescentes sobre todo en las clases de historia con
la semana 2:15h.Durante las clases se colocaron las actividades en curso que se
pretendia incluir los hermanos Diego y Manuel Lira siendo los dos ciegos de
nacimiento. En este proceso se hicieron notas sobre esta experiencia en un cuaderno de

69
tiesejr@gmail.com
Professor de História, SEDUC-PA. Doutorando em Ciência Socioambiental, pelo NAEA, na Universidade
Federal do Pará. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa Sobre Mudança Social no Sudeste Paraense,
GEPEMSSP, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, UNIFESSPA.
180

campo. La composición de esta obra entre otras interfaces está permitiendo que la
documentación de las practicas de enseñanza escrito en las clases de historia en la
escuela primaria con estudiantes ciegos y podria ayudar en los diálogos sobre el tema en
la Amazonia
PALABRAS-CLAVES: Inclusión. Estudiantes ciegos. Historia.

INTRODUÇÃO
Os debates sobre o ensino de História na educação básica, em âmbito nacional e
regional, aos quais tenho tido acesso, pouco falam sobre a inclusão de alunos com
necessidades educativas especiais, em aulas de História. Creio que publicizar uma
experiência nesta seara pode contribuir com a construção do ser professor de História,
no espaço amazônico, em nossos dias.
Falar em processos de educação inclusiva, para mim, não é menos delicado que
entrar em uma sala de aula, em que haja uma aluna ou um aluno que demande sua
inclusão, na aula que vou conduzir. É um desafio constante. Um agir na urgência, um
decidir na incerteza. Perrenoud (2001). É um nunca estar preparado. A experiência aqui
exposta é resultado de um lugar sociocultural específico, formado por um corpo de
pessoas únicas e o relato não tem a pretensão de ser portador de novidade, apenas de
registrar um esforço meu, de aprender no exercício docente a incluir alunos cegos em
minhas aulas de História.
A sociedade ocidental, ao longe de sua história tem sido marcada por políticas
extremas de exclusão em relação à pessoa com deficiência. Exemplo disso ocorreu em
Esparta, na Grécia antiga, uma sociedade onde a beleza física e o culto ao corpo eram
condições para a participação social. Em Roma, as crianças com deficiência eram
jogadas no rio, ou em precipícios.
No século XIX, ocorreu a tentativa de recuperação da criança com deficiência,
com a intenção de ajustá-la à sociedade. Neste século também, a medicina passou a
conquistar espaço nos estudos das deficiências. Neste período foram descobertas várias
doenças, as pessoas com deficiência continuavam segregadas em asilos e hospitais, já
com o objetivo de tratamento médico. Desta forma, até o século XIX, a deficiência
ligava-se à incapacidade, e havia pouca possibilidade de mudar esse cenário. Abandonar
ou eliminar pessoas com deficiências era tido como uma atitude normal.
No Brasil, na segunda metade do século XX houve uma disseminação de
instituições de segregação especializadas eram chamadas de escolas especiais e centros
de reabilitação. Era o início da História da educação especial no Brasil e foi marcada
pelo atendimento clínico à pessoa com deficiência e tinha um cunho filantrópico. Na
década de 1980 teve início um processo de integração social de pessoas com deficiência
nos sistemas de educação do país.
Desta forma, a integração social surgiu como necessidade de inserção social do
individuo com deficiência, sem que a sociedade se modificasse. Na realidade quem
deveria estar preparado para ser inserido era a pessoa deficiente. Para isso, os métodos
181

clínicos estavam prontos a ajudar a pessoa a ser socializada e agir de forma “normal”,
como a sociedade desejava.
A história das pessoas com deficiência é marcada por atos de segregação e tem
influenciado a postura sociocultural que ainda temos. As práticas preconceituosas de
nossa sociedade mostram essa história massacrante limitante da pessoa deficiente. A
certeza de que elas poderiam ser tratadas em ambientes segregados fortaleceu os
estigmas de rejeição tão presentes em nossos dias. Sassaki (1997).
Sobre os temas educação inclusiva e educação especial, as pesquisas que ecoam
em solo amazônico apontam que é preciso pensar a formação inicial e continuada das
professoras e dos professores. A formação inicial ainda é marcada por um caráter amplo
e generalista, fato que a torna frágil. No universo de educadores especiais e educadores
do ensino regular, é urgente que haja parcerias pedagógicas. A formação continuada,
neste painel aparece como sendo uma oportunidade para que se aprenda a ser professor.
Castro e colaboradoras, (2015). Neste sentido, defende-se que a sala de aula com
alunos, que tenham uma demanda por uma educação diferenciada é, também, um
espaço de formação. Compartilhar essas práticas é ajudar a acimentar essa construção.
O objetivo deste artigo é relatar algumas etapas da experiência docente, ao longo
do ano de 2016, com os irmãos Diego e Manuel Lira, alunos cegos, do ensino médio, da
rede pública de ensino do estado do Pará. As aulas de história foram planejadas, com a
intenção de incluir os mesmos nas atividades propostas para a turma, da qual fazem
parte. Em alguns momentos, a ações foram as mesmas para toda a turma, como a leitura
pública, por exemplo, em outros, houve alteração nas propostas para que a inclusão
fosse possível, como nas sessões de ditado. Este relato foi mostrado aos referidos
alunos, que o validaram e permitiram sua exposição.

O LOCAL E OS ALUNOS PARTICIPANTES DA EXPERIÊNCIA


Esta experiência docente foi realizada com alunas e alunos do 1º ano do ensino
médio, da Escola Estadual professora Anunciada Chaves, do município de Goianésia
do Pará, região sudeste do estado do Pará. As aulas ocorreram no período de fevereiro a
outubro de 2016, na turma 101, no turno da tarde. Dos 27 adolescentes, a maioria é do
sexo feminino. Entre os jovens do sexo masculino estão os irmão Diego e Manuel Lira,
ambos cegos de nascimento.

AS ETAPAS DA EXPERIÊNCIA
A escola inclusiva deve ser o lugar, onde as crianças devem aprender
independente das dificuldades ou das diferenças que possam ter. É o lugar em que
estilos e ritmos de aprendizagens assegurem uma educação de qualidade para todos, em
que estratégias de ensino e parcerias, sejam elementos fundamentais dentro do currículo
escolar. Oliveira (2015).
O ano de 2016 proporcionou o meu encontro, com um dos maiores desafios da
minha vida docente, até então. Sou professor de História da Rede Pública de ensino, no
182

interior do Estado do Pará. No turno da tarde, na sala 101, do primeiro ano do Ensino
Médio, tenho dois alunos cegos, Os irmãos Diego e Manuel Lira. Desde o início do ano,
quando foi confirmado que os dois seriam alunos da escola, eu me perguntava, como
iria trabalhar com eles, nas aulas de História, se caso fossem meus alunos? Sentia um
nervoso geral, por não me sentir em condições de enfrentar tal desafio, já que não
recebemos nenhuma “preparação” para receber os alunos com necessidades
educacionais especiais. A escola até o momento não dispõe dos recursos adequados para
essa empreitada. Como se fosse possível haver preparação para se viver.
Então, as aulas começaram em fevereiro, e fui comunicado que os irmãos seriam
meus alunos. Fiz ar de que estava tudo bem, mas no fundo, só eu sabia. Insegurança
total! Ao planejar minhas aulas, pensei que ao chegar à sala de aula, eu tinha que
interagir com eles, trazê-los “pro limpo”, fazê-los participar das aulas. Meu nervoso
desapareceu quando entrei naquela turma e o Diego, logo reconheceu minha voz, disse
que eu havia desenvolvido um projeto de leitura, há tempos, em sua escola do ensino
fundamental, que eu contava histórias e ele não esqueceu a minha voz. Foi um balsamo.
Acalmei. Nas primeiras aulas, eu planejava atividades em dupla, pois era a forma que
encontrei de incluí-los nas aulas. Na terceira aula, senti que era preciso mudar.
Algumas semanas depois, cheguei à sala de aula, e começamos os trabalhos:
primeiro a sessão de leitura, em seguida os comentários das palavras-chave do texto,
destacadas pelos alunos, e então, fui orientar nossa atividade. Bem, eu explicaria o
assunto, Grécia, e a tarefa da turma era anotar no mínimo dez palavras que
considerassem importantes no contexto, para começarmos a compor um dicionário de
História da Grécia Antiga. Essa estratégia foi pensada em especial, para Diego e
Manuel, já que não temos livros em Braile na escola. Língua que, aliás, eles dominam.
Escrevem depressa. Fazem anotações e pedem que eu acelere minha explicação, e não
reduza a velocidade por canta deles. Eu fico espantado, me pego repetindo os conceitos
de forma mais pausada, para que eles possam acompanhar. Me sinto sempre aprendiz
diante deles.
Após a etapa de seleção das palavras, a proposta era reunir os alunos em duplas,
para que juntos eles criassem verbetes explicativos das palavras selecionadas, e depois
as colocassem em ordem alfabética, como num dicionário convencional. À medida que
eu dava às orientações, ouvia o Diego dizer, que eles estavam esperando os colegas para
compor a dupla. Percebi que a turma parecia ignorar aquilo. Um fato novo para mim. A
turma parecia sempre de mãos estendidas. Eu estava errado. Então disse-lhes que já já,
eu iria lá, para compormos um trio, e fazermos a atividade. Depois eu votaria à
indiferença da turma.
Assim fizemos. Democracia, Filosofia, Hilotas....foram algumas das palavras
destacadas pela dupla. O Diego era o mais ávido por criar verbetes, apontando, por
exemplo, que a Democracia em Atenas era para poucos e tinha que ficar claro no
verbete. Eu me postei como o escriba do trio. Surpreso com a capacidade intelectual de
dois jovens, com limitação visual, e uma gigantesca capacidade de preencher os locais
por onde passam. São alegres, gentis, calorosos, humanos, inteligentes, espertos, bem-
humorados, críticos, líderes. O Manuel, o mais “piadista” vez por outra estava zoando
os flamenguistas. Eu ria de mim. Como um dia eu tive medo de trabalhar História com
183

aqueles alunos? Alunos que me ensinam tanto a cada encontro? Naquele dia, senti mais
forte a necessidade de melhorar a proposta de inclusão de minhas aulas.
Ao final da atividade, peguei as folhas com a escrita em Braile e ofereci meu
grampeador ao Diego, que gentilmente recusou, disse que ia usar o dele, o Manuel de
pronto aceitou, queria sair logo para conversar com os colegas, sabia que já estava
terminando nosso horário. Ainda demos boas gargalhadas, pois, o grampeador do
Diego, quase não funcionava. As folhas em Braile com a atividade daquela aula, foram
para as mãos da professora Janete Magesk, tradutora e interprete de Braile no
município. Ela não é professora da rede estadual, mas está sempre disposta a nos
auxiliar.
Para a próxima aula, selecionei um texto sobre cultura na Grécia, que foi
traduzido para o Braile. Comecei a sessão de leitura com o Manuel, afinal, em uma de
minhas conversas com o Diego, ele me disse:
-Professor, eu até gosto de áudio-livro, mas nada, definitivamente nada, substitui
a leitura!
Eu claro, concordei. Aquela afirmativa do Diego, no entanto, colocou em mim, a
urgência de criar situações de leitura e de escrita, em Braile, nas aulas de História, que
até aquele momento eu não tinha parado para pensar. Como fazer? Sem um livro sequer
em braile. Voltei pra casa e fiquei matutando sobre o assunto pelos próximos dias.
Não percebia um recurso que estava na minha frente. O Diego e o Manuel sabem
ler e escrever em braile, foi então que percebi que poderia usar estas habilidades.
Primeiro, eu propus fazer uma exposição oral sobre a Idade Média, e pedi que todos os
alunos anotassem palavras-chave, e depois fizessem intervenções a partir delas, meu
foco era o Manuel e o Diego. Essa etapa me levou a tentar o ditado, desta vez, para a
dupla, como um recurso de produção de texto em braile, na sala de aula, a partir do livro
de História utilizado na turma. Tentei. Tá Funcionando. Agora, na maioria das vezes,
planejo duas atividades para a turma 101. Uma delas é o ditado de um texto para meus
alunos cegos. Uma vez o texto escrito em braile, eles fazem a leitura pública, ou leitura
dirigida, ou retiram palavras-chave e utilizam para dar base às produções escritas em
sala de aula. Este exercício, também, atende à necessidade de escrita e leitura apontada
pelo Diego.
Essa estratégia permite, que eles não precisem mais fazer sempre os trabalhos
em dupla, como aconteceu no primeiro semestre, de 2016. Percebi que a presença do
texto em braile criou uma autonomia para fazer as atividades, que melhorou o
desenvolvimento da aula de História. Na última, aula houve a produção de um texto em
prosa, sobre absolutismo, ao ler os textos, senti que preciso fornecer mais informações
sobre os assuntos, que os ajudem a fortalecer seus argumentos no momento da produção
escrita. Creio que, a proposta de inclusão de meus alunos cegos nas aulas História, aos
poucos vai se construindo, a partir, também, dos saberes que meus alunos “especiais”
carregam e compartilham comigo.
184

CONSIDERAÇÕES
No percurso desta experiência docente com alunos cegos em aulas de História,
um sentimento, dos muitos que tem me acompanhado é de não estar pronto, para a
aventura de conduzir aulas para alunos com necessidades educativas especiais. Digo
isso, porque por muitas vezes me peguei bradando, de forma tola, que os professores da
escola Anunciada Chaves não foram “preparados” para a educação inclusiva. Como se
isso fosse possível. No fundo, hoje penso que nunca estaremos totalmente prontos, para
atender às necessidades de alunos negros, alunos índios, alunos gays, alunos
hiperativos, alunos superdotados...para situações docentes que exijam de nós uma
pedagogia diferenciada. Perrenoud (2001).
Morin (2006) lembra que a educação precisa pensar a unidade e a diversidade
humana. É urgente compreender a unidade na diversidade, que se estende, também, a
aspectos mentais, afetivos, intelectuais. Ainda que não seja o foco deste relato, é preciso
pontuar, que os alunos aqui citados carregam um desenvolvimento intelectual acima da
média da maioria dos seus colegas de escola. Fruto de um percurso sociocultural que
precisa ser olhado mais de perto.
O Diego e o Manuel, desde que os vi, pela primeira vez, na 3ª série, do ensino
fundamental, em um concurso de Poesias, já reivindicavam outra Pedagogia. Uma, em
que eles fossem protagonistas. E foi assim, que os encontrei este ano em sala de aula.
Na turma 101, eles dominam a cena. Conduzem as aulas. Provocam os debates.
Questionam os professores. Aprendem e ensinam. Não sei quantos de nós professores,
ao encontrá-los na vida escolar, estávamos prontos para com eles aprender. E não
importa se as regletes, ou, os suportes do papel são antigos, e se às vezes desmontam, se
espalham pela sala de aula, ou se o antigo grampeador se recusa a grampear as folhas de
papel. Eles estão quase sempre atentos, a vida que acontece em seu entorno e dela
exigem participar.
A presença de Diego e Manuel, naquela sala de aula criou uma dimensão
particular. Um tempo particular. Relações docentes específicas. Os demais alunos da
turma parecem cúmplices: No silêncio, nas brincadeiras, no respeito, e nas
solidariedades, na hora da saída alguém sempre fica esperando em sala, para dar os
braços e leva-los até o portão da escola, onde há um banco e eles ficam sentados à
espera do transporte escolar. Ali, os passantes os cumprimentam e de longe a gente ouve
o bate papo acontecendo. Na escola, suas presenças são tão fortes, quanto suas
ausências.
Ao responderem presente, no momento da chamada, em sala de aula, eles me
fazem ”Fazer uma escolha ideológica (...) desfocar o olhar da limitação, da lesão, e
direcioná-lo para a atuação” ANJOS (2015, p. 08). Reitero que, a intenção aqui é
apenas compartilhar uma experiência, com alunos cegos em aulas de História.
Experiência com tempo e espaço definidos, que longe de anunciar verdade, anuncia uma
tentativa de ajudar no registro de saberes sobre inclusão de alunos cegos em aulas de
História.
Outro ponto a considerar diz respeito à formação do historiador professor. Os
alunos em situação de deficiência – cegos, mudos, hiperativos, com síndrome de Down,
185

com baixa visão etc estão chegando às salas de aula do ensino básico, como em
Goianésia do Pará, por exemplo, e não podem ser ignorados pelos professores, se estes
tiverem o compromisso com processos de inclusão e de promoção da cidadania. Neste
sentido é importante pensar como, e em que momento do curso de História, as questões
da educação especial e da inclusão se fazem presentes?

REFERÊNCIAS
ANJOS, Hildete Pereira do. (Org). Olhando a Educação como um direito: deficiência,
inclusão e diversidade. Belém: Paka-Tatu, 2015.
MORIN. Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez,
2006.
OLIVEIRA, Ivanilde Apoluceno de. Políticas e práticas de inclusão de pessoas com
deficiência na Amazônia Paraense: Um olhar a partir de produções acadêmicas. In
Olhando a Educação como um direito: deficiência, inclusão e diversidade. (Org).
ANJOS, Hildete Pereira do Belém: Paka-Tatu, 2015.
PERRENOUD, Philippe. A pedagogia na escola das diferenças: fragmentos de uma
sociologia do fracasso. Porto Alegre: Artmed, 2001.
____________________.Ensinar: agir na urgência, decidir na incerteza.Porto Alegre:
Artmed, 2001.
SASSAKI, Romeu. Inclusão. Construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro:
WVA, 1997.
186
187

FARQUHAR, O PORTO E A AVENIDA: um boulevard-cais.

Marcia Cristina Ribeiro Gonçalves Nunes


Universidade Federal do Pará
Programa de Pós Graduação de História - Doutoranda

Resumo

O artigo tem por objeto investigar a urbanização às margens da Baía do Guajará,


antigo espaço destinado a acostamento de embarcações da Província do Grão Pará,
denominado de rua Nova do Imperador até sua transformação no Boulevard da
República. O objeto da pesquisa será entender qual é o sentido dessa transformação e
mostrar como esse espaço tomará nova forma. Como essa rua que fica ao lado de um
porto vai adquirindo sentidos diferentes em momentos diversos na vida da cidade. Uma
rua que não está desvinculada do rio, a qual se liga a diversos pontos de desembarque
onde se transaciona quase todo o comércio local, tomará nova forma se transformando
num boulevard que é cais, mantendo suas atividades com o rio e dialogando com
pessoas que entram e saem das mais diferentes posições sociais em frente a pequenos
negócios, lojas de todos os tipos e novos equipamentos urbanos.

Demonstrar a importância na reorganização do espaço, onde a nova ordem


econômica formada por comerciantes, seringalistas, financistas e profissionais liberais
direcionou a remodelação da cidade, sendo o poder público responsável em atribuir a
tarefa de disciplinar e embelezar a cidade criando mecanismos que interferiram na vida
cotidiana das pessoas. Um boulevard que está inserido na modernidade de sua época
sendo equipado com materiais e edificações carregado de significados, se sobrepondo à
cidade imperial e se pondo à uma cidade civilizada como o próprio período republicano.

Palavras-chaves: boulevard, urbanismo, edificações

FARQUHAR, THE HARBOUR AND THE PROMENADE: a boulevard-pier

Marcia Cristina Ribeiro Gonçalves Nunes


Universidade Federal do Pará
Programa de Pós Graduação de História - Doutoranda
188

Abstract
The article has for object to investigate the urbanization on the shores of the Bay
of Guajara, former space for the side of boats in the province of Grão Pará, named
Emperor Street until its transformation in the Boulevard of the Republic. The object of
the research is to understand what the meaning of this transformation is and show how
this space will take new shape. As this street which is right next to a port will acquire
different directions at various moments in the life of the city. A street that is not
detached from the river, which connects to several landing points where it transacts
almost all local businesses, will take new form turning into a boulevard that is pier,
keeping its activities with the river and dialoguing with people coming and going from
different social positions in front of small businesses, shops of all kinds and new urban
facilities.
Demonstrate the importance in the reorganization of the space, where the new
economic order formed by traders, rubber gatherers, financiers and professionals
targeted remodeling of the city, being the public authorities responsible for assigning
the task of disciplining and beautify the city creating mechanisms that would in
everyday life of the people. A boulevard that is inserted into the modernity of his time
being equipped with materials and buildings laden with meanings, overlapping the
imperial city and setting to a civilized town as its Republican period.
Key words: boulevard, urbanism, buildings

FARQHAR, EL PUERTO Y LA AVENIDA: un boulevard-muelle

Marcia Cristina Ribeiro Gonçalves Nunes


Universidade Federal do Pará
Programa de Pós Graduação de História - Doutoranda

Resumen

El artículo tiene por objeto investigar la urbanización a orillas de la Bahía de


Guajara, antiguo espacio para el deteniendo de embarcaciones en la Provincia del Grão
Pará, nombrado de Calle Nueva del Imperador hasta su transformación en el Boulevard
de la República. El objeto de la investigación será entender cuál es el sentido de esa
transformación y mostrar cómo este espacio tendrá nueva forma. Como esta calle que
está justo al lado de un puerto va adquiriendo sentidos diferentes en distintos momentos
de la vida de la ciudad. Una calle que no está desvinculada del río, la cual se conecta a
diversos puntos de desembarque donde se transaciona casi todo el comercio local,
tomará uma nueva forma convirtiendose en un boulevard que es el muelle, manteniendo
sus actividades con el río y dialogando con personas que entran y salen de las diferentes
posiciones sociales en frente a pequeños comercios, tiendas de todos los tipos y nuevas
instalaciones urbanas.
Demostrar la importancia de la reorganización del espacio, donde el nuevo orden
económico, formado por comerciantes, recolectores de caucho, financistas y
189

profesionales liberales, dirigió la remodelación de la ciudad, siendo las autoridades


públicas responsables de la asignación de la tarea de disciplinar y embellecer la ciudad
creando mecanismos que interfieren en la vida cotidiana de las personas. Un boulevard
que se inserta en la modernidad de su época, siendo equipado con materiales y
construcciones llenas de significados, sobreponerse a la ciudad imperial y se pone a uma
ciudad civilizada como el proprio período republicano.

Palabra clave: bulevard, urbanos, edifícios

FARQUHAR, O PORTO E A AVENIDA: um boulevard-cais.

A Amazônia, em especial Belém, passara a ser incluída no circuito do


capitalismo internacional a partir da segunda metade do século XIX, em decorrência do
desenvolvimento da economia da borracha. A proposta de embelezamento da cidade era
uma das prioridades dos governantes que desejavam ver Belém no contexto da
civilização e, portanto, no circuito dos viajantes e investidores estrangeiros, e nada mais
pragmático do que enquadrar os habitantes do lugar nos moldes civilizatórios europeus.

Conforme explica Sarges, o conceito de modernidade em Belém estava


intimamente ligado ao progresso expresso por meio do desenvolvimento urbano. Este se
manifestava através das grandes obras públicas e serviços urbanos, atendendo às
necessidades básicas da população e da construção de símbolos modernos como as
ferrovias, intensificação das transações comerciais e a internacionalização de mercados.
A consagração política do Intendente Antônio Lemos 70 na capital paraense se deu em
grande parte por suas realizações e operações urbanas na construção da Belém moderna.
Mas eram obras e políticas urbanas voltadas apenas para o centro da cidade. Na prática,
esta organização espacial significou afastar aqueles que não participavam diretamente
das riquezas da borracha, aqueles que enfeavam o centro urbano – ou seja, aqueles que
destruíam a concepção da Belém moderna, como podemos verificar nas ações e
medidas públicas introduzidas por Lemos:
O Intendente, um excepcional administrador, dedicou-se por 14 anos a
“embelezar”, como ele mesmo dizia, a cidade. Remodelou o espaço

70
Em 1897, com a saída de Paes de Carvalho da Presidência do Partido Republicano do Pará para assumir
o Governo do Estado, Lemos se tornou seu substituto no partido. Deste modo, como líder partidário, foi
eleito para a Intendência de Belém, um cargo público com prestígio apenas inferior ao do Governador – o
que lhe proporcionou inúmeras oportunidades para distribuir ou retirar favores, consolidando
gradativamente desta forma o domínio da máquina política local.
190

urbanizado atuando em todos os níveis, alargou, calçou e multiplicou


as ruas. A construção foi regulada desde a disposição no lote até a
ornamentação de fachadas. Arborizou ruas e deu uma nova feição aos
parques e praças. Além de remodelar o espaço urbanizado retomou o
tratamento urbanístico do bairro do Marco, que constituía a direção
natural do crescimento da cidade e deveria ser um dos bairros mais
bonitos e elegantes de Belém (Derenji, 1987, p. 151).

O planejamento urbano adotado por Lemos optou pelo abandono do centro


histórico e por uma remodelação da área adjacente ao porto, não coincidente com a área
mais antiga da cidade. O porto seria apenas o ponto de partida das grandes realizações
urbanas e de um plano maior para a construção da Belém moderna. Era necessário que
Lemos colocasse a sua assinatura na nova fisionomia urbana de Belém, e para tanto
seria necessário construir marcos visuais no período de sua administração em obras
públicas e na modernização da infraestrutura urbana de Belém (Soares, 2008, p.53).

A CONSTRUÇÃO DO BOULEVARD DA REPÚBLICA

A paisagem onde aparece o Boulevard da República, hoje Boulevard Castilhos


França, foi a grande avenida construída no litoral da cidade, vista e divulgada por
diversos viajantes, pintores e memorialistas como a porta da entrada de Belém. Porta de
entrada da Amazônia, vista da Baía do Guajará, paisagem emblemática da Província do
Grão Pará, modificada no decorrer do período de 1864 à 1914. Um período conhecido
por Belle Époque, período de paz na Europa, sem guerra onde o capitalismo se expandiu
no mundo inteiro e Belém foi uma das importantes cidades do norte do Brasil que
alcançou status dessa modernidade em virtude da progressiva extração da borracha, e,
segundo o historiador Aldrin Figueiredo (Zenti, 2016), “o porto mais importante por
onde essa mercadoria seria escoada era Belém. Assim, ali se instituíram financiadoras,
exportadoras, bancos ingleses e americanos e muitos trabalhadores estrangeiros”. Desde
o século XVIII, o litoral na Baia do Guajará passou por um processo de aterramento até
ser construído o Boulevard da Republica, inserido na modernidade do período
republicano, numa cidade necessitando acima de tudo, de um cais e de uma rua que se
conectasse com o rio, preparada assim, para receber o progresso numa das áreas da
cidade que passará por maiores e mais radicais transformações na sua configuração
espacial.
191

Contudo, deve-se levar em consideração que o projeto urbanístico de Lemos, em


primeiro lugar, atendia às exigências necessárias ao escoamento da produção,
armazenamento e exportação da borracha. Assim, o porto tornou-se a atração principal
do projeto de modernização urbana, e o traçado urbano obedecia aos requisitos básicos
de planejamento, com ruas e avenidas longas e amplas para facilitar o escoamento dos
produtos. O porto seria apenas o ponto de partida das grandes realizações urbanas e de
um plano maior para a construção da Belém moderna.

Em 1906 resolveu o Governo Federal chamar concorrência pública para a


execução das obras de melhoramento do porto de Belém. A esta concorrência, que já
sucedia uma anterior, e cujo contrato, lavrado com um proponente, havia caducado,
apresentou-se o engenheiro Percival Farquhar, que se propunha, por si ou por
companhia que organizasse, dar execução às obras projetadas, mediante algumas
alterações ao projeto primitivo. Aceita a proposta, foi lavrado o contrato em 06 de abril
do mesmo ano, e em seguida organizada a companhia Port of Pará, a que o
concessionário subrogara todos os deveres, direitos e vantagens da concessão relativa ao
Decreto nº5.978 que lhe havia sido dada. Dessa forma, a 20 de dezembro de 1906, era
autorizada a companhia Port of Pará a funcionar no Brasil, por decreto nº 6.283. Em 07
de fevereiro do ano seguinte eram aprovados os estudos, plantas e orçamentos para as
obras que a companhia apresentara à aprovação do Governo, naquela ocasião 71.

Segundo o mencionado Decreto-lei que outorgou a Fraquhar construir e


organizar o porto, desde a foz do rio Oriboca, no Guamá, até a ponta do Mosqueiro,
situado na ilha de mesmo nome, ficando essa longa linha de litoral dividida em duas
seções, à jusante e à montante do forte do Castelo: “...o primeiro trecho da 1ª seção teria
1.500m de cais acostável, a partir da Doca do Ver-o-Peso, com os respectivos
boulevards, arganéos e escadas e devidamente aparelhado” (Penteado, 1973, p. 69). Era
algo que Belém ainda nunca houvera visto e previra-se uma série de características
técnicas.

As obras a serem realizadas para 1ª secção do porto constavam de construção de


1.670m de caes acostável a partir da ponta do Castello na direção da jusante da maré:

71
Mensagem dirigida em 07 de setembro de 1909 ao Congresso Legislativo do Pará pelo Governador do
Estado João Antonio Luiz Coelho, p. 93-95.
192

aterro da área compreendida entre o dito caes e o litoral atual, inclusive as docas
ali situadas, bem como o espaço entre a Doca do Ver-o-Peso e o Mercado de Ferro;
dragagem de um canal de 300m de largura em toda extensão do caes a partir do Castello
para serviço de navegação fluvial; dragagem de um canal de 200m de largura entre o
trecho acima considerado e Mosqueiro; construção de um boulevard paralelo ao caes
com 30m de largura, estendendo-se pelo atual Boulevard da República, com as
respectivas obras de drenagem; construção de armazéns aparelhados, junto ao
caes para depósito das mercadorias de carga e descarga; estabelecimento de
guindastes elétricos, móveis e iluminação elétrica; colocação de boias flutuantes nos
canais de acesso; fornecimento de guindaste flutuante ou fixo; fornecimento de
rebocador; construção de linhas férreas elétricas atrás dos armazéns e ao longo do caes;
construção de uma casa de máquinas para produção de energia elétrica destinada ao
serviço de iluminação e tracção; construção de um depósito especial para explosivos e
inflamáveis; construção de uma carvoeira; construção de edifícios para funcionamento
de alfandega, correios e telégrafos nacionais; construção de um edifício para
administração e fiscalização da companhia das docas; construção de 1.00m de caes de
saneamento entre o Castelo e o Arsenal de Marinha ( Jornal Folha do Norte, 22 de abril de
1906. p. 1).

Farquhar em 2 de outubro de 1909, inaugura a primeira fase do porto, um lance


de cais com 120 metros de comprimento e um armazém. As obras continuam num ritmo
acelerado: constroem-se 1.869 metros de cais; a dragagem movimenta 5.665.913 m3 de
areia e lama, aterro do futuro boulevard Castilhos França; são construídos 13 armazéns
de estrutura metálica fornecidos pela firma francesa Schneider e Cº, de Creusot, que
perfazem uma área total 27.700 m2; para carga e descarga do porto, são instalados 11
guindastes elétricos; são construídos 6.500 metros de vias férreas; o cais é iluminado
por um total de 2.200 lâmpadas elétricas; o canal de acesso ao porto é sinalizado por 30
boias. O Boulevard da República, totalmente concluído, é inaugurado em 13 de maio de
1912 na gestão do intendente Virgílio Martins Lopes de Mendonça.

A partir de 1914, a desvalorização da borracha faz a Port of Pará entrar em crise,


ficando adiadas "todas as obras da segunda seção do cais" e algumas da primeira, como
a construção do edifício da Alfândega, dos Correios e Telégrafos. A crise aumenta no
período compreendido entre 1914 e 1920, quando Port of Pará registra um significativo
193

crescimento em suas despesas, todas cobertas pelo Governo Federal referentes às taxas
de cais cobradas acima dos 6% a que tem direito pela concessão. Em 1940, a
Companhia Port of Pará passa a ser controlada pelo Governo Federal brasileiro.

EDIFICAÇÕES NO BOULEVARD DA REPUBLICA

Para Derenji (2004, p. 27), a arquitetura privada, assim como a pública, tem um
enorme desenvolvimento no período que vai do fim do século XIX aos primeiros 10
anos do século XX. Fala-se em 14.400 novas construções no ano de 1909, quando a
cidade tinha 200.000 habitantes. Nem todas as construções podiam, no entanto, ser
renovadas, apesar do incentivo às novas construções que a Intendência Municipal
promoveria, especialmente no governo de Antônio Lemos (1897-1911). Procura-se,
então, a solução paliativa de reformular a parte exterior dos prédios. A ecletização de
fachadas é fato conhecido, ainda que pouco estudado em sua especificidade, e é a
responsável pela ornamentação carregada em estuques, transbordando nos frontões dos
edifícios que conservavam, em sua grande maioria, interiores bem mais discretos e
modestos. Se a arquitetura manteve despojada, o mesmo não pode se dizer da decoração
dos ambientes internos que adotaria os padrões europeus de gosto, o prazer da
acumulação e da ostentação, que são característicos do período.

Assim, podemos observar que o ecletismo não foi uma arquitetura propriamente
brasileira, visto a importação não só de materiais e elementos pré-moldados, o que
impulsionou a construção civil no país. Assim, o ecletismo no Brasil, em grande parte
se deu pela simples importação de seu projeto formal, visto pela falta criatividade, no
sentido de adaptabilidade climática ou construtiva local nos projetos produzidos para as
cidades brasileiras como um todo. Contudo, a arquitetura eclética foi amplamente
consumida pela elite dominante nas cidades brasileiras, traduzindo-se, ou melhor,
simbolizando a forma burguesa de se morar ( 2004, p. 27).

Dentre várias edificações, algumas foram construídas, já na vigência da lei


lemista. Ao lado disso, porém, algumas delas aparentemente passaram pelo processo a
que se poderia chamar ecletização: sua conformação anterior teria sido alterada para que
sua forma externa fosse adequada aos padrões de ordem e de estética impostos pela
194

Intendência Municipal. Esta é possivelmente a situação de algumas edificações do


Boulevard da República. Um boulevard que está inserido na modernidade de sua época
sendo equipado com materiais e edificações carregado de significados, se sobrepondo à
cidade imperial e se pondo à uma cidade civilizada como o próprio período republicano.
Assim, edificações emblemáticas, construídas desde a Belém Colonial e no Império,
que permanecem, até os dias de hoje, com a mesma tipologia, mas que foram passando
por funções diversificadas até o momento da República.

Faz parte do conjunto das edificações do Boulevard da República o antigo


Conjunto Arquitetônico dos Mercedários, constituído pela Igreja das Mercês e seu
respectivo convento. Data de 1640 o início da história dos missionários mercedários em
Belém do Pará, onde começaram sua obra construindo um hospício com ermida no local
atualmente ocupado pela igreja das Mercês, cuja invocação está ligada à história de uma
aparição de Nossa Senhora a São Pedro Nolasco data quando aqui chegaram os
primeiros mercedários, em 1640, com a expedição de Pedro Teixeira a igreja foi
começada a ser construída (Ferraz, 1979).

A maior parte da construção do conjunto dos mercedários, composto pela igreja


e pelo convento de mesmo nome, é resultado da obra executada a partir do projeto do
arquiteto Antônio Landi, que aportara em Belém como membro da Comissão
Demarcadora das Fronteiras, enviada de Lisboa para delimitar as conquistas dos
portugueses e espanhóis na Amazônia, a qual terminou por volta de 1790, inspirada em
um barroco simples, trazido de Bolonha para a imensidão amazônica. O convento passa
para posse do Governo em 1796, onde Francisco de Souza Coutinho, governador e
capitão do Estado do Grão Pará, o adaptou aos serviços da Alfândega aproveitando a
área do rés ao chão do Convento e na sacristia da Igreja das Mercês (Coleção História
do Pará, 1972).

Dessa forma, tivemos inicialmente a Alfândega de Belém localizada em uma das


edificações do conjunto arquitetônico dos Mercedários, na Rua Nova do Imperador, a
qual era descrita por diversos viajantes como sendo uma edificação confortável e
espaçosa. No final dos anos de 1850 a Alfândega, para Avé-Lallemant, era considerada
o maior edifício da cidade, “(...) de paredes muito grossas e de construção sólida. Tanto
embaixo, nos antigos recintos, como em cima, onde, com a demolição das antigas celas,
195

se obtiveram salas imensas, podem ser armazenadas grandes quantidades de


mercadorias” (Pereira, 2015). A Alfandega funcionava como uma repartição
governamental oficial de controle do movimento de entradas e saídas de mercadorias
para o exterior ou dele provenientes, responsável, inclusive, pela cobrança dos tributos
pertinentes.

Nesse mesmo prédio, desde 1847, funcionava a Recebedoria de Rendas junto


com a Alfândega no antigo Convento das Mercês, até a construção de sua nova
edificação que foi construída ao lado do futuro Mercado de Ferro. Em 1882, no
Relatório do Dr. José da Gama Malcher 72 é apresentado ao conhecimento da
Assembleia Legislativa a necessidade de uma edificação para Recebedoria de Rendas:
“a construção de um edifício no local do telheiro da Ponta de Pedras destinado à
Recebedoria de Rendas Provinciaes onde na Secretaria encontram-se os orçamentos,
plantas e perspectiva da referida obra”. Em 1884, o presidente Silveira de Souza 73
comenta sobre a continuidade da obra bastante adiantada, juntamente com a ponte de
madeira no prolongamento da Pedra. No ano de 1886, na fala do Exm. Sr. Conselheiro
Tristão de Alencar Araripe 74, é entregue provisoriamente prédio da Recebedoria de
Rendas Provinciaes junto com o prolongamento da ponte e trapiche, arrematados por
José Duarte Rodrigues Bentes.

A Recebedoria de Rendas, encontra-se situada em frente ao Mercado Municipal.


Esse novo prédio em estilo neoclássico, composto de dois andares, e tendo em sua
fachada o uso da platibanda com frontão interrompido por um grande relógio, simetria
em suas aberturas com portas no pavimento térreo e balcões no pavimento superior. O
prédio da Recebedoria de Rendas, importante repartição arrecadadora, apresenta-se
inserida dentro do Código de Polícia Municipal obedecendo o Art. 85º do capítulo XVII
sobre as condições de alturas mínimas de portas com 4m e das janelas com 3m, ambas
abrindo para dentro da edificação. A platibanda e o frontão da Recebedoria obedecia a

72
Relatorio com que o exm. sr. presidente, dr. Manuel Pinto de Souza Dantas Filho, passou a
administração da provincia ao exm. sr. 1.o vice-presidente, dr. José da Gama Malcher. Pará, Typ. do
"Liberal do Pará," 1882
73
Falla do exm. sr. presidente, Silveira de Souza. Pará, Typ. do "Liberal do Pará," em 15 de outubro de
1884.
74
Falla com que o exm. sr. conselheiro Tristão de Alencar Araripe, presidente da provincia do Pará, abriu
a 1.a sessão da 25.a legislatura da Assembléa Provincial no dia 25 de março de 1886. Belem, Typ. do
"Diario de Noticias," 1886.
196

altura de 0,80m no seu perímetro e esgotamento das águas pluviais em canos instalados
dentro das paredes com canos de metal internos na edificação.

Traduzir quantidades indicadas em documentos da época do Império é atividade


de risco, uma vez que não havia padronização das medidas e, quando explicadas,
referiam-se a outras medidas igualmente não-padronizadas. A légua e a braça são as
duas medidas mais encontradas em leis, relatórios e outros textos do Império sobre
terras, colonização e imigração. Atribui-se a braça - medida correspondente ao
comprimento de dois braços abertos - 2,20 m; e ao palmo a medida de 0,22m (Lemos,
1980). Dessa forma, na Rua Nova do Imperador os terrenos para os sobrados deveriam
medir 11,66m de largura por 35,20m de comprimento (fundo) e a rua deveria ter 22m de
largura.

Sob o signo da valorização do ouro negro construíram-se mais sobrados, entre


eles os de dois, três ou quatro andares os quais obedecem ao critério lusitano: “mestres
de obras e proprietários portugueses, atraídos à Belém pelos altos negócios da borracha,
acharam de renascê-los na cidade, como se quisessem mantê-la, na íntegra, nas
tradições lisboetas”. Leandro Tocantins (1963), em sua obra Santa Maria de Belém do
Grão Pará: instantes e evocações da cidade, relata sobre o emprego de azulejos nas
fachadas destes sobrados:
Sem se apresentar como arte e indústria originárias de Portugal, o azulejo é
contudo uma tradição lusitana. Uma das boas tradições lusas introduzidas em
Belém, por volta de 1840, ou talvez, pouco antes. Generalizava-se, nessa
capital, a técnica de revestimento cerâmico nas fachadas, copiando Lisboa. A
borracha que tanta vida e esplendor trouxe à capital paraense, contribuiu para
estimular o uso do azulejo. Portugal e França, e Alemanha por último,
mandaram muitas peças durante a fase da alta valorização financeira da goma
elástica – 1890 à 1914, período que se extinguiu a importação dos azulejos
europeus.

O Código de Polícia Municipal dizia no Art. 88º do capítulo XVII que todas as
edificações - os sobrados - a serem construídas do Castello seguindo o litoral deveriam
ter altura mínima de 02 pavimentos, obedecendo 12m de altura; no art. 85º em relação
às fachadas, ficou estabelecido que portas ou janelas se abrissem para o pavimento
térreo, situados no alinhamento do logradouro público, teriam que abrir para o interior
da edificação. Obedecidas as condições de alturas mínimas de portas com 4m e das
janelas com 3m, ambas abrindo para dentro da edificação. A platibanda teria altura
mínima de 0,80m e a cornija proporcional a edificação, tendo o esgotamento das águas
197

pluviais em canos instalados dentro das paredes com canos de metal internos na
edificação.

Em nenhum caso seria permitida a construção de beirais com telhas, exceto


quando houvesse um projeto de arquitetura especial, ainda assim sujeita à aprovação.
Nenhum prédio poderia exceder a altura de 20m, exceto templos ou palácios, ou
qualquer tipo de edificação que exercesse importância arquitetônica. Deste modo,
adotaram-se, ainda, as medidas referentes ao pé-direito2 dos prédios: térreos ou o 1°
pavimento até 5m, o 2º pavimento 4,5m, e o 3º em diante com 3m de altura. Os
cômodos, como banheiros, latrinas, copas, despensas ou depósitos não poderiam ter um
pé-direito inferior a 4m de altura.

Dois mercados públicos fazem parte do cenário do Boulevard da República. A


história da construção do primeiro mercado público teve início com o conselheiro
Jerônimo Francisco Coelho, que ao assumir o cargo de presidente da Província do Pará,
em 08 de maio de 1848, encontrou uma cidade sem um mercado, nos moldes dos
existentes em várias cidades europeias. A historiografia reporta o ano de 1852, como
aprovação e início da construção do primeiro Mercado Público na cidade de Belém,
hoje conhecido como Mercado de Carne (Cruz, 1945).

No ano de 1867 foi edificado o Mercado Municipal que detinha um conjunto


arquitetônico significativo: alvenaria de tijolos, o prédio neoclássico, estilo
característico do império brasileiro, trazido pelos franceses da missão artística que
dentre os objetivos que vieram imbuídos estava a abertura da Academia Imperial de
Belas Artes (Pereira, 2008).. Com o decorrer do tempo, este último mercado, que
vendia de tudo menos peixe, foi se tornando pequeno em virtude do crescimento
das suas atividades comerciais, fato que levou o intendente Antônio Lemos a
providenciar a ampliação do Mercado Municipal ou Mercado da Carne. Quatro décadas
mais tarde, em 17 de dezembro de 1908, eram inauguradas as obras realizadas
pelo engenheiro Francisco Bolonha, a quem fora arrendado o Mercado da Carne
durante trinta anos. O jornal local, “A Província do Pará”, relatou trecho do
discurso de Francisco Bolonha destacando que todos os melhoramentos realizados
pelo intendente municipal elevavam a cidade de Belém ao mesmo nível das mais
importantes cidades do mundo.
198

O edifício foi acrescido de mais um pavimento e, no pátio interno, quatro


pavilhões de ferro destinados à comercialização de carnes, além de um menor onde
seriam instalados os banheiros públicos. Devido às inscrições do nome da
firma de Glasgow, “WALTER MACFARLANE”, encontradas nas suas colunas,
presume-se origem escocesa. Os pavilhões centrais, com 10,00m por 20,00m e 4,00m
de altura, são elogiados pela elegância, enquanto que os antigos abrigos dos talhos
de carne são lembrados como “monstruosos barracões de madeira”. A edificação
era provida de instalações hidráulicas, o que facilitava a lavagem diária das suas
instalações, permitindo a higienização nos talhos. O sistema de esgotos foi
reformado para conduzir os efluentes e as águas pluviais ao coletor da rede
urbana. Foi contemplado, inclusive, com instalações e materiais adequados ao combate
a incêndios.

O Mercado de Ferro, construído e explorado comercialmente, com anuência do


Conselho Municipal, pelos engenheiros Bento Miranda e Raymundo Vianna, este
mercado na cidade de Belém iniciou suas atividades em dezembro de 1901. A
estrutura em ferro que compõe o edifício, supõe Silva (1986), deve ter sido
importada, muito embora o autor não consiga precisar a sua origem. O mercado
possui uma área central de 57,00m por 21,00m,cercada por um conjunto de quarenta
e quatro instalações comerciais, com 15,00m² cada e quatro torres nas
extremidades, com 22,00m²cada uma, destinadas ao comércio de pequeno porte. Acima
das instalações laterais, inscritos na mesma área, localizavam-se os depósitos ou
as residências dos empregados. A porção ocidental da área central abrigava o comércio
informal e os ambulantes que se concentravam num espaço de 315,00m²,
especialmente destinada a esta finalidade. A administração do mercado era abrigada
por um pavilhão central, octogonal com 2,5m de raio. A estrutura da coberta é formada
por um conjunto de tesouras metálicas e um sistema de lanternins de 9,00m por
15,00m elevando-se um metro acima delas. Dezoito clarabóias distribuídas ao
longo do telhado admitem a luz do sol.

A construção do porto, na primeira década do século XX, incrustado no centro


urbano transformou a paisagem da área, modificou usos e formas de ocupação.
Possuindo edificações históricas, séc. XVII, e as edificações do séc. XIX e XX, é
199

possível termos um panorama da valorização da obra de engenharia do porto e a


narrativa da história desse momento modernizado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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econômico da borracha: 1870-1912. In: FABRIS, Annateresa (org.). Ecletismo na
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Orphanato Municipal de Belém do Pará (1893-1931). Tese de Doutorado. Uberlândia:
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200

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modernidade no plano urbanístico de expansão da cidade. Dissertação. Rio de Janeiro:
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3a. ed. São Paulo: Editora Nacional. 1980.

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SOARES, Karol Gillet. As formas de morar na Belém da Belle-Époque (1870-1910).


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http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/ciclo-borracha-paris-tropical-
434959.shtml. Acesso em 15mai.2016

JORNAIS
Jornal Folha do Norte, 1906, p. 1.
201

RELATÓRIOS
Relatorio com que o exm. sr. presidente, dr. Manuel Pinto de Souza Dantas Filho,
passou a administração da provincia ao exm. sr. 1.o vice-presidente, dr. José da Gama
Malcher. Pará, Typ. do "Liberal do Pará," 1882

Falla com que o exm. sr. conselheiro Tristão de Alencar Araripe, presidente da
provincia do Pará, abriu a 1.a sessão da 25.a legislatura da Assembléa Provincial no dia
25 de março de 1886. Belem, Typ. do "Diario de Noticias," 1886.

Relatório do presidente Bonifácio de Abreu, de 05 de novembro de 1872.


Mensagem dirigida em 07 de setembro de 1909 ao Congresso Legislativo do Pará pelo
Governador do Estado João Antonio Luiz Coelho, p. 93-95.
202
203

O BOULEVARD-CAIS NA REPÚBLICA: uma nova rua comerciante

Marcia Cristina Ribeiro Gonçalves Nunes


Universidade Federal do Pará
Programa de Pós Graduação de História - Doutoranda

Resumo

No final do século XIX e início do século XX presenciou-se no Brasil a


transformação do espaço público, o modo de vida, a propagação de uma nova moral e a
montagem de uma nova estrutura urbana, no sentido de mostrar ao mundo civilizado
que diversas cidades e, no presente artigo, a cidade de Belém se tornaria símbolo do
progresso, imagem que se transformou na "obsessão coletiva da nova burguesia".

Assim, o presente artigo falará da urbanização às margens da Baia do Guajará, o


antigo espaço destinado a acostamento de embarcações da cidade, denominado de Rua
da Praia até sua transformação em Boulevard da República, demonstrando a
importância na reorganização do espaço, onde a nova ordem econômica formada por
comerciantes, seringalistas, financistas e profissionais liberais direcionou a remodelação
da cidade, sendo o poder público responsável em atribuir a tarefa de disciplinar e
embelezar a cidade criando mecanismos que interferiram na vida cotidiana das pessoas.
Um boulevard que dialoga com o rio, dialoga com as pessoas das mais diferentes
posições sociais, que está inserido na modernidade de sua época.

Palavras-chaves: boulevard, urbanismo, modernidade

THE BOULEVARD-BERTH IN THE REPUBLIC: a new merchant street

Marcia Cristina Ribeiro Gonçalves Nunes


Universidade Federal do Pará
Programa de Pós Graduação de História - Doutoranda

Abstract

In the late 19th and early 20th century witnessed in Brazil the transformation of
public space, the way of life, the spread of a new morality and the installation of a new
urban structure, in order to show the civilized world that various cities and, in this
article, the city of Belém would become a symbol of progress, image that became the
"collective obsession of the new bourgeoisie".
204

So, this article will speak of urbanization on the shores of the Bay of Guajara,
the old space for the side of boats in town, called the Street of the Beach to his
transformation into a Boulevard of Republic, demonstrating the importance in the
reorganization of the space, where the new economic order formed by traders, rubber
gatherers, financiers and professionals targeted remodeling of the city, being the public
authorities responsible for assigning the task of disciplining and beautify the city
creating mechanisms that would in everyday life of the people. A boulevard that
converses with the river, dialogues with people from different walks of life, which is
inserted into the modernity of his time.

Key-word: boulevard, urbanism, modernity

EL BOULEVARD-MUELLE EN LA REPÚBLICA: una nueva calle comerciante

Marcia Cristina Ribeiro Gonçalves Nunes


Universidade Federal do Pará
Programa de Pós Graduação de História - Doutoranda

Resumen

A finales del siglo XIX y principios del siglo XX presenció en Brasil la


transformación del espacio público, el modo de vida, la difusión de una nueva moral y
la instalación de una nueva estructura urbana con el fin de mostrar al mundo civilizado
que varias ciudades y, en este artículo, la ciudad de Belém se convertiría en un símbolo
de progreso, imagen que se convirtió en la “obsesión colectiva de la nueva burguesía".
Así, este artículo hablará de la urbanización en las orillas de la Bahía de Guajara,
el antiguo espacio destinado a deteniendo de embarcaciones de la ciudad, llamado la
Calle de la Playa hasta su transformación en el Boulevard de la República, demostrando
la importancia de la reorganización del espacio, donde el nuevo orden económico
formado por comerciantes, recolectores de caucho, financistas y profesionales liberales,
dirigió la remodelación de la ciudad, siendo las autoridades públicas responsables de la
asignación de la tarea de disciplinar y embeller la ciudad creando mecanismos que
interfieren en la vida cotidiana de las personas. Un boulevard que dialoga con el río, con
las personas de diferentes posiciones sociales, que se inserta en la modernidad de su
tiempo.
Palabra clave: bulevard, urbano, moderno
205

O BOULEVARD-CAIS NA REPÚBLICA: uma nova rua comerciante

A Amazônia, em especial Belém, passara a ser incluída no circuito do


capitalismo internacional a partir da segunda metade do século XIX, em decorrência do
desenvolvimento da economia da borracha. A proposta de embelezamento da cidade era
uma das prioridades dos governantes que desejavam ver Belém no contexto da
civilização e, portanto, no circuito dos viajantes e investidores estrangeiros, e nada mais
pragmático do que enquadrar os habitantes do lugar nos moldes civilizatórios europeus.

Conforme explica Sarges (2010, p. 21) o conceito de modernidade em Belém


estava intimamente ligado ao progresso expresso por meio do desenvolvimento urbano.
Dessa forma, a modernidade se manifestava através das grandes obras públicas e
serviços urbanos, atendendo às necessidades básicas da população e da construção de
símbolos modernos como as ferrovias, intensificação das transações comerciais e a
internacionalização de mercados. O processo de modernização de Belém ocorreu por
estar associado à economia e demografia, mas em grande parte também para atender os
valores estéticos exigidos pela elite, em virtude de uma melhor segurança e da
acomodação de uma prática da ideia positivista de progresso, adotada pelo regime
republicano. Foram “tentativas de adaptação aos modernos costumes europeus, num
profundo contraste com a realidade amazônica, além das tensões sociais geradas por
uma nova ordem social capitalista emergente.”

A consagração política do Intendente Antônio Lemos 75 na capital paraense se


deu em grande parte por suas realizações e operações urbanas na construção da Belém
moderna. Mas eram obras e políticas urbanas voltadas apenas para o centro da cidade.
Na prática, esta organização espacial significou afastar aqueles que não participavam
diretamente das riquezas da borracha, aqueles que enfeavam o centro urbano – ou seja,
aqueles que destruíam a concepção da Belém moderna, como podemos verificar nas
ações e medidas públicas introduzidas por Lemos:
O Intendente, um excepcional administrador, dedicou-se por 14 anos a
“embelezar”, como ele mesmo dizia, a cidade. Remodelou o espaço

75
Em 1897, com a saída de Paes de Carvalho da Presidência do Partido Republicano do Pará para assumir
o Governo do Estado, Lemos se tornou seu substituto no partido. Deste modo, como líder partidário, foi
eleito para a Intendência de Belém, um cargo público com prestígio apenas inferior ao do Governador – o
que lhe proporcionou inúmeras oportunidades para distribuir ou retirar favores, consolidando
gradativamente desta forma o domínio da máquina política local.
206

urbanizado atuando em todos os níveis, alargou, calçou e multiplicou


as ruas. A construção foi regulada desde a disposição no lote até a
ornamentação de fachadas. Arborizou ruas e deu uma nova feição aos
parques e praças. Além de remodelar o espaço urbanizado retomou o
tratamento urbanístico do bairro do Marco, que constituía a direção
natural do crescimento da cidade e deveria ser um dos bairros mais
bonitos e elegantes de Belém (Derenji, 1987, p. 151).

O planejamento urbano adotado por Lemos optou pelo abandono do centro


histórico e por uma remodelação da área adjacente ao porto, não coincidente com a área
mais antiga da cidade. O porto seria apenas o ponto de partida das grandes realizações
urbanas e de um plano maior para a construção da Belém moderna. Era necessário que
Lemos colocasse a sua assinatura na nova fisionomia urbana de Belém, e para tanto
seria necessário construir marcos visuais no período de sua administração em obras
públicas e na modernização da infraestrutura urbana de Belém.

No final do século XIX e início do século XX presenciou-se no Brasil a


transformação do espaço público, o modo de vida, a propagação de uma nova moral e a
montagem de uma nova estrutura urbana, no sentido de mostrar ao mundo civilizado
que diversas cidades e, no presente artigo, a cidade de Belém se tornaria símbolo do
progresso, imagem que se transformou na "obsessão coletiva da nova burguesia". A
cidade deveria ter seu espaço público higienizado, retirando todos os elementos que
pudessem contrapor esse princípio de higiene, o que, na prática, significava retirar as
casas não condizentes com este preceito.

Algumas ações foram criadas nesse sentido, como as Leis e Posturas Municipais
(1892-1897) e o Código de Polícia Municipal (1900), dentre outras medidas. O Código
de Polícia Municipal foi instituído pela Lei n. 276 de 03 de julho de 1900, pelo
intendente municipal. Contudo, este código apresentava diversos títulos, e era
considerado bastante rigoroso e era composto pelos seguintes elementos: 08 títulos, 27
capítulos e 156 artigos76. Nesse sentido, visando-se à compreensão das formas de
habitar nos aprofundaremos apenas ao Título IV: da cidade, seu embelezamento e
decoração, que trata justamente das obrigações dos construtores para que, desta forma,

76
Título I: Disposições preliminares. Título II: Hygiene e Saúde Pública. Título III: Comodidade e
garantia dos habitantes. Título IV: Da cidade, seu embelezamento e decoração. Título V: Garantias
Públicas. Título VI: Do respeito à moral e bons costumes. Título VII: Compra e venda. Título VIII:
Disposições Diversas.
207

seja possível saber se esta regulamentação foi seguida e apropriada pelos moradores na
construção de seus edifícios.

O novo documento tinha como objetivo precípuo, o disciplinamento dos hábitos


e costumes de todos os munícipes, principalmente às populações que moravam nos
subúrbios, pois seriam os moradores destas áreas que também eram vistos pelo centro
da capital. Nas palavras do Intendente era uma gente que apresentava “hábitos
bisonhos”. Estabelecia direitos e deveres, assim como todos os serviços da comuna.
Àquela altura, diante de todos os problemas oriundos das áreas de saúde, higiene,
saneamento e instrução a implantação do novo código se tornava urgente e
imprescindível, para a afirmação do projeto do Governo que estava em curso
(DUARTE, 2013, p. 107). O Código de Polícia Municipal era orientado por dois
princípios formais: os de higiene e o das normas estéticas que, na prática, eram
comumente associados.

As medidas técnicas da construção davam a esta regulamentação um caráter


autoritário e segregacionista, posto que, obrigava o seu construtor a seguir um conjunto
de regras que, em suma, serviam para a obstrução da construção de casas não
condizentes com o projeto de modernização urbana de Belém, o que provocava uma
redistribuição da população no meio urbano, assim como ocorria em nível mundial e
nacional. Esta lei ainda revelava uma precocidade nortista ao tratamento de reformas
urbanas em relação ao restante do país. Derenji (1998, p. 110) afirma:
Lemos conseguiria, nos anos seguintes e com o apoio político de um
governador indicado por ele, Augusto Montenegro, o progressivo
enquadramento de todas as construções existentes ou por construir, no
perímetro urbano às disposições posturais que modificariam a
estrutura da cidade durante o seu governo. Não só quem tinha dinheiro
para reedificar e enquadrar-se nos parâmetros de
embelezamento/saneamento era excluído, já que o ajuste fiscal, com o
aumento de impostos sobre as áreas beneficiadas, completava o
conjunto de medidas elitizantes reacomodando as diversas camadas
sociais segundo os padrões de renda.

Mais tarde, foram criadas regras ainda mais rígidas para a construção de casas
em Belém. A Lei n. 378 de 16 de janeiro de 1904 reformula, de forma contundente os
208

capítulos XVI e XVII do Código de Polícia Municipal que regulam a construção e


reconstrução de prédios urbanos 77.
Cada edifício caracteriza-se por uma pluralidade de valores:
econômicos, sociais, técnicos, funcionais, artísticos, espaciais e
decorativos, e cada um tem a liberdade de escrever histórias
econômicas da arquitetura, histórias sociais, técnicas e
volumétricas. [...] Mas a realidade do edifício é consequência de
todos esses fatores, e uma sua história válida não pode esquecer
nenhum deles (Zevi, 2002, p. 26).

A CONSTRUÇÃO DO BOULEVARD DA REPÚBLICA

A paisagem onde aparece o Boulevard da República, hoje Boulevard Castilhos


França, foi a grande avenida construída no litoral da cidade, vista e divulgada por
diversos viajantes, pintores e memorialistas como a porta da entrada de Belém. Porta de
entrada da Amazônia, vista da Baía do Guajará, paisagem emblemática da Província do
Grão Pará, modificada no decorrer do período de 1864 à 1914 (Penteado, 1973). Um
período conhecido por Belle Époque onde Belém foi uma das importantes cidades do
norte do Brasil que alcançou status dessa modernidade em virtude da progressiva
extração da borracha, e, para Zenti (2016), segundo o historiador Aldrin Figueiredo, “o
porto mais importante por onde essa mercadoria seria escoada era Belém. Assim, ali se
instituíram financiadoras, exportadoras, bancos ingleses e americanos e muitos
trabalhadores estrangeiros”. Desde o século XVIII, o litoral na Baia do Guajará passou
por um processo de aterramento até ser construído o Boulevard da Republica, inserido
na modernidade do período republicano, numa cidade necessitando acima de tudo, de
um cais e de uma rua que se conectasse com o rio, preparada assim, para receber o
progresso numa das áreas da cidade que passará por maiores e mais radicais
transformações na sua configuração espacial.

O Intendente Lemos foi o primeiro a realizar uma tentativa de planejamento


urbano para a expansão da cidade, traçando ruas que atingiam até 44 metros de largura e
transversais com 22 metros. Era um grande empreendimento, pois o plano seguia com a
malha viária de Belém, em grandes quarteirões, e totalmente reticulado, considerado até

77
BELÉM. Lei n. 378, de 16 de janeiro de 1904. Reforma os Capítulos XVI e XVII do Código de Polícia
Municipal, que regulam a construção e reconstrução de prédios urbanos. Lex: Leis e Resoluções
Municipaes e Actos do Executivo, Belém, p. 18-27. 1904.
209

visionário para época. O planejamento urbano adotado por Lemos optou pelo abandono
do centro histórico e por uma remodelação da área adjacente ao porto, não coincidente
com a área mais antiga da cidade (Derenji, 1994, p. 267). Contudo, deve-se levar em
consideração que o projeto urbanístico de Lemos, em primeiro lugar, atendia às
exigências necessárias ao escoamento da produção, armazenamento e exportação da
borracha. Assim, o porto tornou-se a atração principal do projeto de modernização
urbana, e o traçado urbano obedecia aos requisitos básicos de planejamento, com ruas e
avenidas longas e amplas para facilitar o escoamento dos produtos. O porto seria apenas
o ponto de partida das grandes realizações urbanas e de um plano maior para a
construção da Belém moderna.

Em 1906 resolveu o Governo Federal chamar concorrência pública para a


execução das obras de melhoramento do porto de Belém. Apresentou-se o engenheiro
Percival Farquhar, que se propunha, por si ou por companhia que organizasse, dar
execução às obras projetadas, mediante algumas alterações ao projeto primitivo. Aceita
a proposta, foi lavrado o contrato em 06 de abril do mesmo ano, e em seguida
organizada a companhia Port of Pará, a que o concessionário subrogara todos os
deveres, direitos e vantagens da concessão relativa ao Decreto nº5.978 que lhe havia
sido dada78.

As obras a serem realizadas para 1ª secção do porto constavam de construção de


1.670m de caes acostável a partir da ponta do Castello na direção da jusante da maré:
aterro da área compreendida entre o dito caes e o litoral atual, inclusive as docas
ali situadas, bem como o espaço entre a Doca do Ver-o-Peso e o Mercado de Ferro;
dragagem de um canal de 300m de largura em toda extensão do caes a partir do Castello
para serviço de navegação fluvial; dragagem de um canal de 200m de largura entre o
trecho acima considerado e Mosqueiro; construção de um boulevard paralelo ao caes
com 30m de largura, estendendo-se pelo atual Boulevard da República, com as
respectivas obras de drenagem; construção de armazéns aparelhados, junto ao
caes para depósito das mercadorias de carga e descarga; estabelecimento de
guindastes elétricos, móveis e iluminação elétrica; colocação de boias flutuantes nos
canais de acesso; fornecimento de guindaste flutuante ou fixo; fornecimento de

78
Mensagem dirigida em 07 de setembro de 1909 ao Congresso Legislativo do Pará pelo Governador do
Estado João Antonio Luiz Coelho, p. 93-95.
210

rebocador; construção de linhas férreas elétricas atrás dos armazéns e ao longo do caes;
construção de uma casa de máquinas para produção de energia elétrica destinada ao
serviço de iluminação e tracção; construção de um depósito especial para explosivos e
inflamáveis; construção de uma carvoeira; construção de edifícios para funcionamento
de alfandega, correios e telégrafos nacionais; construção de um edifício para
administração e fiscalização da companhia das docas; construção de 1.00m de caes de
saneamento entre o Castelo e o Arsenal de Marinha (Jornal Folha do Norte, 1906, p. 1).

Farquhar em 2 de outubro de 1909, inaugura a primeira fase do porto, um lance


de cais com 120 metros de comprimento e um armazém, o aterro do futuro Boulevard
Castilhos França; o Boulevard da República, totalmente concluído, é inaugurado em 13
de maio de 1912 na gestão do intendente Virgílio Martins Lopes de Mendonça. A partir
de 1914, a desvalorização da borracha faz a Port of Pará entrar em crise, ficando adiadas
"todas as obras da segunda seção do cais" e algumas da primeira, como a construção do
edifício da Alfândega, dos Correios e Telégrafos.

EDIFICAÇÕES NO BOULEVARD DA REPUBLICA

Para Derenji (2004, p. 27), a arquitetura privada, assim como a pública, tem um
enorme desenvolvimento no período que vai do fim do século XIX aos primeiros 10
anos do século XX. Fala-se em 14.400 novas construções no ano de 1909, quando a
cidade tinha 200.000 habitantes. Nem todas as construções podiam, no entanto, ser
renovadas, apesar do incentivo às novas construções que a Intendência Municipal
promoveria, especialmente no governo de Antônio Lemos (1897-1911). Procura-se,
então, a solução paliativa de reformular a parte exterior dos prédios. A ecletização de
fachadas é a responsável pela ornamentação carregada em estuques, transbordando nos
frontões dos edifícios que conservavam, em sua grande maioria, interiores bem mais
discretos e modestos. Se a arquitetura manteve despojada, o mesmo não pode se dizer
da decoração dos ambientes internos que adotaria os padrões europeus de gosto, o
prazer da acumulação e da ostentação, que são característicos do período.

Dentre várias edificações, algumas foram construídas, já na vigência da lei


lemista. Ao lado disso, porém, algumas delas aparentemente passaram pelo processo a
211

que se poderia chamar ecletização: sua conformação anterior teria sido alterada para que
sua forma externa fosse adequada aos padrões de ordem e de estética impostos pela
Intendência Municipal. Esta é possivelmente a situação de algumas edificações do
Boulevard da República. Um boulevard que está inserido na modernidade de sua época
sendo equipado com materiais e edificações carregado de significados, se sobrepondo à
cidade imperial e se pondo à uma cidade civilizada como o próprio período republicano.

Faz parte do conjunto das edificações do Boulevard da República o antigo


Conjunto Arquitetônico dos Mercedários, constituído pela Igreja das Mercês e seu
respectivo convento. Nesse mesmo prédio, desde 1847, funcionava a Recebedoria de
Rendas junto com a Alfândega no antigo Convento das Mercês, até a construção de sua
nova edificação que foi construída ao lado do futuro Mercado de Ferro. Em 1882, no
Relatório do Dr. José da Gama Malcher 79 é apresentado ao conhecimento da
Assembleia Legislativa a necessidade de uma edificação para Recebedoria de Rendas:
“a construção de um edifício no local do telheiro da Ponta de Pedras destinado à
Recebedoria de Rendas Provinciaes onde na Secretaria encontram-se os orçamentos,
plantas e perspectiva da referida obra”. No ano de 1886, na fala do Exm. Sr.
Conselheiro Tristão de Alencar Araripe 80, é entregue provisoriamente prédio da
Recebedoria de Rendas Provinciaes junto com o prolongamento da ponte e trapiche,
arrematados por José Duarte Rodrigues Bentes.

A Recebedoria de Rendas, encontra-se situada em frente ao Mercado Municipal.


Esse novo prédio em estilo neoclássico, composto de dois andares, e tendo em sua
fachada o uso da platibanda com frontão interrompido por um grande relógio, simetria
em suas aberturas com portas no pavimento térreo e balcões no pavimento superior. O
prédio da Recebedoria de Rendas, importante repartição arrecadadora, apresenta-se
inserida dentro do Código de Polícia Municipal obedecendo o Art. 85º do capítulo XVII
sobre as condições de alturas mínimas de portas com 4m e das janelas com 3m, ambas
abrindo para dentro da edificação. A platibanda e o frontão da Recebedoria obedecia a

79
Relatorio com que o exm. sr. presidente, dr. Manuel Pinto de Souza Dantas Filho, passou a
administração da provincia ao exm. sr. 1.o vice-presidente, dr. José da Gama Malcher. Pará, Typ. do
"Liberal do Pará," 1882
80
Falla com que o exm. sr. conselheiro Tristão de Alencar Araripe, presidente da provincia do Pará, abriu
a 1.a sessão da 25.a legislatura da Assembléa Provincial no dia 25 de março de 1886. Belem, Typ. do
"Diario de Noticias," 1886.
212

altura de 0,80m no seu perímetro e esgotamento das águas pluviais em canos instalados
dentro das paredes com canos de metal internos na edificação.
Desde 05 de novembro de 1872, o presidente da Província do Pará, Bonifácio de
Abreu, determinou o tamanho dos terrenos dos proprietários diante da rua Nova do
Imperador na qual não havendo casas do lado da baía, terá a ventilação sempre franca,
não necessitando de maior largura de via no que se ordena:
Procedeu-se imediatamente as necessárias demarcações, em virtude
das quaes ficaram os sobreditos terrenos com 16 braças de fundo e a
nova rua ao longo do dito caes com 53 palmos de largura. ... a lei de
1º de outubro de 1828 delibera sobre a regularidade das ruas e
disposição do Código de Posturas Municipaes que determina tenhão
as ruas e travessas que se houverem de abrir 10 braças de largura81.

Sob o signo da valorização do ouro negro construíram-se mais sobrados, entre


eles os de dois, três ou quatro andares os quais obedecem ao critério lusitano: “mestres
de obras e proprietários portugueses, atraídos à Belém pelos altos negócios da borracha,
acharam de renascê-los na cidade, como se quisessem mantê-la, na íntegra, nas
tradições lisboetas” (Tocantins, 1963, p. 109).

O Código de Polícia Municipal dizia no Art. 88º do capítulo XVII que todas as
edificações - os sobrados - a serem construídas do Castello seguindo o litoral deveriam
ter altura mínima de 02 pavimentos, obedecendo 12m de altura; no art. 85º em relação
às fachadas, ficou estabelecido que portas ou janelas se abrissem para o pavimento
térreo, situados no alinhamento do logradouro público, teriam que abrir para o interior
da edificação. Obedecidas as condições de alturas mínimas de portas com 4m e das
janelas com 3m, ambas abrindo para dentro da edificação. A platibanda teria altura
mínima de 0,80m e a cornija proporcional a edificação, tendo o esgotamento das águas
pluviais em canos instalados dentro das paredes com canos de metal internos na
edificação.

Em nenhum caso seria permitida a construção de beirais com telhas, exceto


quando houvesse um projeto de arquitetura especial, ainda assim sujeita à aprovação.
Nenhum prédio poderia exceder a altura de 20m, exceto templos ou palácios, ou
qualquer tipo de edificação que exercesse importância arquitetônica. Deste modo,
adotaram-se, ainda, as medidas referentes ao pé-direito2 dos prédios: térreos ou o 1°
81
Relatório do presidente Bonifácio de Abreu, de 05 de novembro de 1872, p. 46
213

pavimento até 5m, o 2º pavimento 4,5m, e o 3º em diante com 3m de altura. Os


cômodos, como banheiros, latrinas, copas, despensas ou depósitos não poderiam ter um
pé-direito inferior a 4m de altura.

Dois mercados públicos fazem parte do cenário do Boulevard da República. A


historiografia reporta o ano de 1852, como aprovação e início da construção do primeiro
Mercado Público na cidade de Belém, hoje conhecido como Mercado de Carne (Cruz,
1945, p.205 e 206). Antes do fim do século XIX este mercado foi ampliado, seguindo
projeto de Francisco Bolonha, devido a carência de espaço que este já proporcionava
para tal função (Silva, 1987). O edifício foi acrescido de mais um pavimento e, no pátio
interno, quatro pavilhões de ferro destinados à comercialização de carnes, além de um
menor onde seriam instalados os banheiros públicos. Devido às inscrições do
nome da firma de Glasgow, “WALTER MACFARLANE”, encontradas nas suas
colunas, presume-se origem escocesa. Os pavilhões centrais, com 10,00m por 20,00m e
4,00m de altura, são elogiados pela elegância, enquanto que os antigos abrigos dos
talhos de carne são lembrados como “monstruosos barracões de madeira”.

Outro importante mercado foi o Mercado de Ferro, construído e explorado


comercialmente, com anuência do Conselho Municipal, pelos engenheiros Bento
Miranda e Raymundo Vianna, este mercado na cidade de Belém iniciou suas
atividades em dezembro de 1901. A estrutura em ferro que compõe o edifício,
supõe Silva (1987), deve ter sido importada, muito embora o autor não consiga
precisar a sua origem. O mercado possui uma área central de 57,00m por 21,00m,
cercada por um conjunto de quarenta e quatro instalações comerciais, com
15,00m² cada e quatro torres nas extremidades, com 22,00m²cada uma, destinadas ao
comércio de pequeno porte. Acima das instalações laterais, inscritos na mesma área,
localizavam-se os depósitos ou as residências dos empregados. A porção ocidental
da área central abrigava o comércio informal e os ambulantes que se concentravam num
espaço de 315,00m², especialmente destinada a esta finalidade. A administração do
mercado era abrigada por um pavilhão central, octogonal com 2,5m de raio.

A estrutura da coberta é formada por um conjunto de tesouras metálicas e um


sistema de lanternins de 9,00m por 15,00m elevando-se um metro acima delas.
Dezoito claraboias distribuídas ao longo do telhado admitem a luz do sol. O
214

aproveitamento da iluminação e da ventilação naturais se dá também através da larga


utilização de venezianas abaixo do lanternim e das tesouras, associadas a aberturas
externas que se comunicam com o interior do mercado através dos mezaninos. Lemos
comenta que o excesso de luz que atinge o interior do pavilhão torna-seum
inconveniente à conservação dos gêneros alimentícios perecíveis, e um agravante às
condições de conforto térmico. A ausência de proteção solar das fachadas dos
estabelecimentos externos implicou, ao longo do tempo, na construção de uma
marquise em concreto alterando a configuração original do edifício.

Belém ainda conserva prédios autênticos que testemunham a sua história, são
conjuntos arquitetônicos que remontam desde o período colonial – da sua fundação às
grandes reformas realizadas pela coroa portuguesa no séc. XVIII – até a época fausta da
borracha, na passagem do século XIX para o XX.

BIBLIOGRAFIA

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CRUZ, Ernesto. Belém, Aspectos geo-sociais do município. Rio de Janeiro, José


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econômico da borracha: 1870-1912. In: FABRIS, Annateresa (org.). Ecletismo na
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SECULT, 2004.
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http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/ciclo-borracha-paris-tropical-
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JORNAIS
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216

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passou a administração da provincia ao exm. sr. 1.o vice-presidente, dr. José da Gama
Malcher. Pará, Typ. do "Liberal do Pará," 1882

Falla com que o exm. sr. conselheiro Tristão de Alencar Araripe, presidente da
provincia do Pará, abriu a 1.a sessão da 25.a legislatura da Assembléa Provincial no dia
25 de março de 1886. Belem, Typ. do "Diario de Noticias," 1886.

Relatório do presidente Bonifácio de Abreu, de 05 de novembro de 1872.


217

Entre o Natural e o Social: o Trabalho Feminino


Entre natural y social: el trabajo femenino
Between the Natural and the Social: the Feminine Work

Gisély Damasceno Furtado82


Francivaldo Alves Nunes 83

Resumo

O presente artigo trata do trabalho desenvolvido pelas mulheres na pesca artesanal em


Cametá e a influência destas atividades na formação da identidade de pescadora.
Considera as mulheres pescadoras enquanto categoria cultural e política que desde 1970
organizaram-se na luta pelo reconhecimento profissional mediante as transformações do
capitalismo. Problematiza o processo de construção identitária das mulheres pescadoras
artesanais em Cametá e os seus impactos sobre o processo organizativo a partir da
análise da divisão sexual do trabalho. A investigação é de abordagem qualitativa que
busca analisar sob ótica do materialismo histórico a construção da identidade dessas
trabalhadoras, ações e formas de organização local.

Palavras-chave: Mulheres Pescadoras. Trabalho. Identidade.

Resumen

Este artículo trata de la labor realizada por las mujeres en la pesca artesanal en Cametá y
la influencia de estas actividades en la formación de una identidad pescadora. Considera
pescadoras como una categoría cultural y político que desde 1970 se organizaron en la
lucha por el reconocimiento profesional por las transformaciones del capitalismo.
Preguntas que el proceso de construcción de la identidad de las mujeres de pescadores
artesanales en Cametá y su impacto en el proceso de organización a partir del análisis de
la división sexual del trabajo. La investigación es un enfoque cualitativo que busca
analizar en perspectiva del materialismo histórico la construcción de la identidad de los
trabajadores, las acciones y las formas de organización local.

Palabras clave: Mujer en la pesca. Trabajo. Identidad.

82
Graduada em História, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura da
Universidade Federal do Pará/Campus de Cametá. Professora de História no Ensino Fundamental e
Médio da rede pública e privada de Cametá.
83
Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (2011), com Estágio Pós-Doutoral na
Universidade Nova de Lisboa (2014). É Mestre em História Social da Amazônia (2008) e Graduado em
História (2000) pela Universidade Federal do Pará. Coordenador do Campus de Ananindeua e atua no
Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia (Campus de Belém) e Programa de Pós-
Graduação em Educação e Cultura (Campus de Cametá).
218

Abstract

This article deals with the work done by women in artisanal fishing in Cametá and the
influence of these activities in the formation of fisherman identity. It considers women
fishing as a cultural and political category that since 1970 has been organized in the
struggle for professional recognition through the transformations of capitalism. It
problematizes the process of identity construction of women artisanal fishers in Cametá
and its impacts on the organizational process from the analysis of the sexual division of
labor. The research is a qualitative approach that seeks to analyze from the standpoint of
historical materialism the construction of the identity of these workers, actions and
forms of local organization.

Keywords: Fishermen. Job. Identity.

Introdução

A pesca artesanal é uma das atividades mais antigas desenvolvidas pelo homem.
Inicialmente, com a finalidade de sobrevivência, principalmente os indivíduos ou as
comunidades ribeirinhas, pescavam o necessário para alimentar-se. Com as mudanças
culturais, econômicas e políticas os hábitos se alteraram e se tornou necessário pescar
para além do consumo.
O produto resultado da atividade pesqueira passou a ser trocado, comercializado
resultando na possibilidade de geração de renda. Quando na divisão de tarefas entre
homens e mulheres nas sociedades ditas “primitivas”, cabia aos homens à tarefa de
buscar alimentos como caça e pesca, e as mulheres a preparação desses alimentos, o
cuidado com a casa, com as crianças, em suma, as atividades do lar. Historicamente,
constituíram-se tarefas de homens e de mulheres, que passaram a serem consideradas
divisões naturais.
A naturalização das tarefas possibilitou aos homens ser reconhecidos pela
atividade desempenhada levando a sua profissionalização, especialmente aquelas que o
caracterizavam como provedor do lar, enquanto que as mulheres enfrentaram e ainda
enfrentam dificuldades para o reconhecimento profissional mediante a construção
histórica do trabalho feminino.
A profissionalização da atividade pesqueira foi resultado de lutas dos indivíduos
que se organizaram em associações e passaram a questionar o seu reconhecimento.
Como consequência desse processo, surgiu uma série de legislações que definiram a
entidade representativa – as Colônias, a profissão de pescador artesanal e a atividade,
como a Constituinte da Pesca de 1988, a Lei 10779/2003 e a Lei 11699/2008.
219

As mulheres não conseguiram reconhecimento com a instituição das primeiras


leis sobre a Pesca e o direito de associarem-se as Colônias como pescadoras, entretanto,
tiveram acesso aos serviços assistencialistas por serem mulheres de pescadores.
Para que as mulheres fossem reconhecidas pelo trabalho desenvolvido na pesca
foi necessária à organização em classe e ações políticas para que fossem incluídas nos
projetos de lei como profissionais da atividade pesqueira.
A partir de 1970, as mulheres passaram a se organizar, internacionalmente
através do UNIFEM – Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento da Mulher,
como resposta das mudanças econômicas do capitalismo, e no contexto nacional, dos
órgãos representativos da classe, como o MONAPE – Movimento Nacional dos
Pescadores e o MOPEPA – Movimento dos Pescadores do Pará. Por meio das
organizações e lutas, as mulheres conseguiram ser reconhecidas como profissionais da
pesca somente em 2009 pela Lei 11959.
Na Amazônia brasileira, região tocantina, a partir de 1970 ocorreu uma série de
transformações que possibilitaram alterações nas organizações dos pescadores, entre
eles, a Constituinte da Pesca de 1988 que concedeu autonomia a colônias de pescadores,
retirando-as da intervenção do Estado, a construção e funcionamento da Hidrelétrica de
Tucuruí que impactou sobre o pescado e consequentemente a vida dos pescadores, entre
outros elementos que serão desenvolvidos no decorrer deste texto.
A partir disto, este trabalho será desenvolvido em duas seções. Na primeira
seção desenvolveremos sobre as atividades laborais desenvolvidas pelas mulheres,
como o trabalho do lar e para além da casa, e como essas mulheres compartilham as
experiências de trabalho de pesca. O diálogo será realizado com Maria Cristina
Maneschy e Lourdes Furtado para que observemos que o trabalho desenvolvido pelas
mulheres pescadoras em Cametá faz parte uma dinâmica compartilhada pelos sujeitos
sociais que vivem da pesca em diferentes espaços amazônicos.
Na segunda seção desenvolveremos a discussão sobre a construção da identidade
das mulheres como pescadoras. Analisaremos como essas mulheres constroem sua
identidade a partir do trabalho desempenhado na pesca e a como a profissionalização
desta mulher como pescadora impacta sobre sua organização política, a exemplo, na
Colônia de Pescadores Z-16.
Diante do exposto, nossa finalidade é compreender como esta mulher que se
reconhece e se afirma na profissão de pescadora atua na Colônia de Pescadores Z-16 e
220

como se organiza na luta por direitos sociais bem como entender a natureza dialética
deste processo no interior da entidade representativa.

Mulheres: fronteiras entre as atividades do lar e a da pesca

Mary Del Priore (1990), ao investigar a mulher no período colonial brasileiro


afirma que

Se a gravidez, o parto e os cuidados com os filhos magnif'icavam a


mulher, incitando-a ao privatismo da casa e, por conseguinte, faziam-
na partícipe do processo de ordenamento da sociedade colonial, por
trás da imagem de uma mãe ideal, as mulheres uniam-se aos seus
filhos para resistir à solidão, à dor e, tantas vezes, ao abandono. Além
do respaldo afetivo e material, a prole permitia à mulher exercer,
dentro do seu lar, um poder e uma autoridade dos quais ela raramente
dispunha no mais da vida social. Identificada com um papel que lhe
era culturalmente atribuído, ela valorizava-se socialmente por uma
prática doméstica, quando era marginalizada por qualquer atividade na
esfera pública. (p. 6)

Logo, social-historicamente definiu-se e construiu-se o papel das mulheres no


espaço privado em que suas atividades laborais deviam estar restritas ao lar. A
mentalidade das mulheres mães, donas de casa, cuidadoras do lar, senhoras dos afazeres
domésticos disseminou-se e incorporou-se ao que denominamos de naturalização de
tarefas.
Historicamente foram construídas e definidas as tarefas masculinas e
femininas, sendo as do espaço público destinado ao sexo masculino e do privado, um
legado do sexo feminino.

A comunhão entre o desejo institucional de domesticar a mulher no


papel da mãe e o uso que as populações femininas fizeram deste
projeto foram tão bem sucedidos que o estereótipo da santa-mãezinha
provedora, piedosa, dedicada e assexuada construiu-se no imaginário
brasileiro no Período Colonial e não mais o abandonou. Quatrocentos
anos depois do início do projeto de normatização, as santas-mãezinhas
são personagens de novelas de televisão, são invocadas em para-
choques de caminhão ("Mãe só tem uma", ''Mãe é mãe''), fecundam o
adagiário e as expressões cotidianas ("Nossa mãe!", "Mãe do céu");
políticos, em discursos, referem-se as suas mães como ''santas [...].
(Del Priore, 1990, p. 6)
221

Mediante a essas definições, as mulheres que não se enquadravam nos modelos


institucionalizados eram condenadas socialmente, e identificadas como subversivas,
como observa Maria Odila Dias (1995) ao investigar o quotidiano de São Paulo no
século XIX. Usando os documentos do recenseamento, processos judiciais, devassas,
registros de licença da Câmara, esta autora investiga os papéis e funções assumidas
pelas mulheres que são solteiras, chefes de família que a partir da ausência de seus
maridos, buscam estratégias de sobrevivências como comerciantes, lavadeiras,
jornaleiras, tropeiras, pedreiras, em suma, mulheres bravas, que exercitavam a arte de
inventar.
O trabalho de Dias (1995) leva-nos a reflexão de que mesmo tendo-se
construído a mentalidade da mulher mãe-cuidadora, muitas mulheres resistiam aos
paradigmas europeus na constituição das relações de gênero. Ao indicar o crescente
número de mulheres que buscam estratégias e alternativas de sobrevivência nas cidades
do século XIX, os papéis informais nos diferentes espaços sociais (fontes, lavadouros,
ruas, praças, chafariz) desempenhados, afronta os ABCs femininos da Europa e imprimi
uma organização familiar e relações sociais singulares brasileiras.
São essas mulheres, que por motivos de sobrevivência, desempenhavam papéis
e funções que a sociedade as negava, na atividade pesqueira a realidade não é diferente.
A pesca era vista como atividade resolutamente masculina, no imaginário societário
cabia aos homens à busca por alimentos e as mulheres à espera de sua chegada para a
sua preparação. As crianças aprendiam desde cedo o que era tarefa de homens e de
mulheres.
Aqui nos cabe inicialmente algumas reflexões. Primeiro, que aos homens
existia o tempo livre de dedicação à pesca, pois as mulheres estavam por trás da
confecção dos instrumentos de trabalho e preparação dos alimentos pescados.
Por conseguinte, alguns negam a mulher enquanto pescadora, pois afirmam que
seu trabalho não produz lucros uma vez que não realizam comércio. No entanto, ao
avaliar na perspectiva marxista, o trabalho não se restringe a atividade comercial, mas a
produtividade, e esta se relaciona a produção para sobrevivência, neste sentido, se
analisarmos o processo de trabalho na pesca podemos observar que as atividades
femininas constituem-se tão produtivas quanto ao ato do homem ir ao rio, pescar para
consumo e venda. Ainda que as mulheres estivessem restritas ao espaço privado, suas
atividades são fundamentais para a realização do trabalho da pesca pelos homens, logo,
222

Nesse cenário, a posição das mulheres trabalhadoras da pesca


artesanal na divisão sexual do trabalho representa a dimensão
ontológica do estudo ora apresentado, haja vista a situação de
invisibilidade e subordinação vivenciada por esses atores sociais [...]
Apesar da intensa divisão sexual do trabalho, a literatura especializada
sobre mulher e relações de trabalho no ambiente pesqueiro artesanal
atesta a expressiva participação feminina no processo de produção do
pescado. Dentre as atividades mais corriqueiras, desempenhadas por
essas mulheres, ressalta-se a confecção e reparo de apetrechos de
pesca; a coleta do pescado; o preparo do produto para
comercialização; a comercialização etc. além disso, as mulheres têm
de enfrentar uma dupla jornada de trabalho, na qual as atividades
relacionadas ao espaço privado da família lhe são imbuídas através do
processo de socialização de gênero (Escalier; Maneschy, 2004, p. 77).

Diante disso, percebemos que as mulheres sempre desempenharam funções na


atividade pesqueira, mas por diferentes fatores, como a socialização de gênero,
distribuíam-se tarefas entre homens e mulheres, estas ficaram “apagadas” nas funções
desempenhadas na pesca. Por isso, por longos anos, essas pescadoras não conseguiam
estar associadas às Colônias, criadas para representação de classe, pois eram
marginalizadas pelas atividades realizadas.
Fassarela (2008) reforça a questão de gênero como responsável pela
dificuldade em reconhecer as mulheres como pescadoras, pois “No âmbito da pesca, o
pouco reconhecimento da atividade produtiva das mulheres reflete-se na divisão social e
sexual do trabalho nas esferas pública e privada, interferindo na valorização e
visibilidade do trabalho feminino.” (p. 1)
Ainda de acordo com esta autora, as mulheres conciliavam as tarefas da casa
com a atividade da pesca, o que se pode inferir que esses atores sociais sempre
desempenharam atividade na pesca.

[...] exercendo atividades na pesca que vai da captura e/ou coleta ao


beneficiamento de pescado, além de trabalhos manuais, como o de
tecer e “arremendar” redes. [...] conciliação de tarefas domésticas e
atividades profissionais. Além do trabalho profissional, a mulher se
divide no dia-a-dia entre atividades de casa, de cuidado dos filhos,
quintal e animais, tarefas que merecem destaque pelo grau de
importância que têm para a sustentabilidade do grupo familiar e que,
invisíveis, são tidas como trabalho destituído de valor produtivo.
Constata-se que, sob esse aspecto, dois grandes problemas afetam a
condição feminina. (Fassarella, 2008, p. 175).
223

Ou seja, o trecho exposto a pouco de Fassarella (2008), imprimi-nos afirmar


que a mulher não executava atividades apenas nos espaços privados, pois trabalhava na
captura e coleta de peixes, mariscos, mas até então, não era reconhecida.
Da mesma forma, Maneschy (2010), e Maria Odila Dias (1995), também
alertavam para o fato das mulheres já desempenharem trabalhos que pela naturalização
de tarefas eram obrigações masculinas, restava a estas mulheres o reconhecimento pelas
atividades realizadas para além do lar, e ainda, aquelas que eram fundamentais e
permitiam a realização das tarefas no espaço público pelos homens, como o de tecer ou
arremendar redes.
Maneschy (2010) reafirma a condição de rompimento das mulheres pescadoras
com os estereótipos criados, como apresenta Mary Del Priore (1990), durante o período
colonial no Brasil, como se observa a seguir

As mulheres se encontram em posição determinante no processo


produtivo e reprodutivo das comunidades pesqueiras artesanais. Dessa
maneira, assumem uma postura protagonista, tendo em vista que
destroem as barreiras impostas pela divisão sexual do trabalho, que
reserva aos homens o espaço público - espaço do poder, das decisões
– e as mulheres o espaço privado - espaço do lar, do cuidado, da
invisibilidade – expressão máxima do patriarcado. (Escalier;
Maneschy, 2004, p. 1).

O trabalho das mulheres na pesca ficou então subsumido com a divisão sexual
do trabalho. Porém, a partir de 1970, com a reformulação do capital do Estado do Bem-
Estar Social para o Neoliberalismo, a vida dos pescadores sofreu transformações e a
mulher passou a participar de forma mais intensa da atividade pesqueira, Lourdes
Furtado (2006) salienta

Dependendo da organização social, dos modos de produção e


tecnologia adotados, estes podem ser classificados como ‘pescadores
tradicionais’ ou ‘pescadores industriais’, duas categorias de referência
não-nativas. Ambos, porém, são partes de um contexto sociocultural,
econômico e político mais amplo e mais complexo, com o qual
interagem e estão sujeitos às dinâmicas sociais intervenientes e,
consequentemente, a níveis de maior ou menor complexidade. (p. 161)

Lourdes Furtado (2006) nos faz compreender que mesmo os pescadores


artesanais sofrem os impactos das mudanças do Estado de Bem-Estar para o Estado
224

Neoliberal, e como já dito, as mulheres alteram suas relações de trabalho buscando


alternativas de subsistência para aumentar a renda familiar mediante os impactos
gerados também pela implantação da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Atualmente,
conforme aponta Diegues (2004), os pescadores vivem empenhados em suas lutas por
alternativas de trabalho e renda face às dinâmicas sociais a que estão sujeitos.
O status diferenciado em relação ao valor do trabalho do homem e da mulher
na pesca a partir de 1970 passa ser diminuído, entre outros fatores, pela organização das
mulheres e lutas pelo reconhecimento do trabalho desenvolvido na pesca. E é deste
assunto que nos ocuparemos na seção seguinte, da luta das mulheres para serem
reconhecidas como pescadoras e de sua afirmação na Colônia de Pescadores Z-16 para
assegurar seus direitos sociais.

Ações Políticas e Organização Sindical: por uma identidade de Mulher Pescadora

Os pescadores avançaram politicamente a partir da criação da Constituinte da


Pesca em 1988. A partir da Constituinte fortaleceram seus movimentos sociais, como o
MONAPE – Movimento Nacional dos Pescadores e suas representações estaduais e
locais. Lourdes Furtado (2012) explicita que para além de consolidar as associações em
favor da causa pesqueira, possibilitou revelar o valor das relações de gênero para
desmistificar a subserviência da mulher nas áreas de pesca, e a um agir crítico dos
pescadores sobre a realidade em que vivem.
Silva; Leitão (2012) observam que as mulheres enfrentaram grandes
dificuldades em obter o reconhecimento da profissão de pescadora, apesar de já
realizarem diversas funções na pesca conforme apresentamos na primeira seção.

A pesca artesanal foi reconhecida como atividade comercial pelo


Código de Pesca de 1967. Entretanto, nessa ocasião não houve o
reconhecimento do trabalho das mulheres na pesca, considerado mera
extensão do trabalho doméstico. Com a admissão das mulheres na
Marinha, a partir da Lei nº 6.807, de 1980, foi conferido registro de
pesca a poucas mulheres que trabalhavam de forma autônoma na
pesca artesanal, geralmente para aquelas que trabalhavam embarcadas.
Tal reconhecimento profissional foi realizado por algumas
Presidências das Colônias de Pescadores. Não houve uma política
pública articulada para o reconhecimento das pescadoras artesanais
como profissionais. Por isso, muitas mulheres que efetivamente
trabalhavam nas atividades de pesca artesanal não conseguiram ser
registradas como pescadoras. Em 2003, com a legislação sobre
225

economia familiar, muitas pescadoras conseguiram o registro de


pesca. Entretanto, ainda necessitam comprovar a relação familiar com
a pesca, dependendo da situação profissional do núcleo familiar para
comprovar que realmente é pescadora artesanal. Caso não consiga
essa comprovação, não é reconhecida como segurada especial para
fins trabalhistas e previdenciários. Há um problema, portanto, de
reconhecimento de gênero na pesca artesanal, o que é verdadeiro
entrave à garantia dos direitos sociais dessas profissionais. (p. 1)

As mulheres pescadoras eram necessárias se organizar junto à classe, romper


com o estereótipo de mães, donas do lar e executoras de afazeres domésticos e lutar para
obter o reconhecimento pelo trabalho junto à pesca e constituir sua identidade como
pescadora. Visava-se não apenas assegurar direitos sociais conquistados através das
Colônias de Pescadores, mais também assumir a profissão.
As pescadoras passaram a se organizar através de diferentes órgãos na tentativa
de lutar pela sua identidade do trabalho na pesca. Criaram associações de pescadoras ou
de mulheres de pescadores, como a ANP – Articulação Nacional de Pescadoras no
Brasil, a AKTEA – rede europeia de organização de mulheres na pesca, articularam-se
com o CPP - Conselho Pastoral de Pescadores realizaram congressos com a finalidade
de que as atividades habitualmente desempenhadas pelas mulheres e não consideradas
como atividades pesqueiras para fins de reconhecimento profissional fosse legalizado
uma vez que, a legislação vigente não reconhecia as mulheres como profissionais da
pesca.

Mulheres que exercem atividade laboral junto à captura e


processamento do pescado e que, no entanto, não gozam dos
benefícios profissionais previstos ao pescador. São, quando muito,
consideradas como mulheres de pescador, dependentes destes, mas
não profissionais da pesca. [...]
As pescadoras participam efetivamente no processo produtivo
pesqueiro, desde a coleta do pescado no mar (mulheres embarcadas,
como ocorre na região da Baía de Babitonga, em São Francisco do
Sul) até o processamento do pescado (mediante a esviceração e
retirada de escamas). Importante ressaltar ainda que as mulheres são
diretamente envolvidas na fabricação e no conserto dos petrechos e
instrumentos de pesca (rendas, anzóis, espinhéis), viabilizando meios
para a realização da pesca artesanal. Desmistificam, portanto, a
atividade pesqueira como trabalho masculino. (Silva; Leitão, 2012, p.
2)

A declaração acima revela a dificuldade das mulheres pescadoras da região


amazônica em se tornarem oficialmente profissionais da pesca, pois Maneschy; Álvarez
(2010) afirmam que
226

No caso de comunidades pesqueiras litorâneas das regiões Norte e


Nordeste, quando se faz referência a atividades de pesca realizadas
por mulheres, trata-se geralmente de tecer redes, beneficiar pescado,
coletar mariscos e algas e pescar nas proximidades, aliadas a outras
tarefas em terra, todas instáveis. (p. 2).

A situação das mulheres não foi totalmente considerada, pois para o


reconhecimento de sua condição profissional como pescadora, dependia da condição
profissional familiar do marido ou do pai. Ora, assim sendo, se a mulher não fosse
casada, ou não conseguisse comprovar que pai ou esposo eram pescadores, esta não
seria considerada pescadora. Então, o problema da falta de reconhecimento do trabalho
das pescadoras persistia, pois às mulheres não era conferido o status de pescadora, mas
de auxiliar do homem na atividade pesqueira.
A falta de reconhecimento do trabalho das pescadoras impediu seu acesso a
muitos direitos conquistados pelas mulheres em outras atividades laborais. Um claro
exemplo é a concessão de auxílio doença por parte da Previdência Social. Além disso,
licença maternidade e seguro desemprego são direitos garantidos a todas as
profissionais, mas que, pela condição auxiliar das pescadoras, não lhes é possível
acessar. Outro problema é a contagem do tempo para aposentadoria especial, da qual
fazia jus os pescadores artesanais, mas não as mulheres trabalhadoras da pesca,
conforme trata Maneschy; Álvarez (2010).
As mulheres precisaram tomar consciência de suas atividades, compartilhando
suas experiências na modificação das instituições legais para reconhecimento de seu
trabalho na pesca. Para Thompsom (1981) a história é concebida como processo da vida
real dos homens e das relações que estabelecem entre si, entre si e a natureza, por meio
do trabalho, assim,

[...] pescadores configuram-se como elementos potencializadores de uma


consciência de classe para si, ao lhes possibilitarem a organização política,
como os saberes do trabalho relacionados à contestação da realidade e à
atuação política. Tais saberes, contudo, encontram-se numa relação de
negação-afirmação de si próprios, diante das contradições vivenciadas pelos
pescadores em sua interface com as ações do capital na região. (Rodrigues,
2012, p. 10)
227

É na constituição de uma consciência de classe que as mulheres se mobilizam


na reivindicação de direitos, construindo sua identidade como profissional da pesca e
reivindicando reconhecimento econômico, político e cultural.

As pescadoras argumentaram que reconhecer sua condição significa,


também, incluir a prevenção dos problemas de saúde ocupacional que
lhes afligem, tais como Lesões por Esforço Repetitivo (LER),
problemas de coluna e de pele devido à exposição ao sol, afecções
ginecológicas e vulnerabilidade a animais peçonhentos. Elas pleiteiam
uma cobertura de saúde mais abrangente e adaptada a sua realidade.
Lembram que, assim como os pescadores, elas trabalham desde muito
cedo. Finalmente, as pescadoras almejam segurança nos territórios de
trabalho e de moradia e, também, pesquisas sobre as espécies que elas
capturam para que sejam estabelecidos períodos de defeso.
(Maneschy; Álvarez, 2010, p. 4).

Nesse caso, as mulheres tinham muitos obstáculos a desarticular, sendo o


primeiro a superação das divisões sexuais de tarefas entre homens e mulheres e
posteriormente a mudança na legislação para que as mulheres pudessem ser aceitas na
associação das Colônias. O direito de associarem-se como pescadoras ocorreu apenas na
década de 1990, mas as mulheres pescadoras permaneceram suas lutas pela conquista de
direitos.
O papel do movimento feminina no contexto da década de 1970 foi de grande
relevância para a difusão da visão de classe trabalhadora, em especial, da noção e
compreensão de trabalho. Contribuiu na difusão de ideologia feminina, que refletiu em
estudos de gênero mais também na inserção da mulher no mercado de trabalho e na luta
pelo reconhecimento das atividades laborais desempenhadas.
Entre as conquistas das mulheres a partir da tomada de consciência de classe,
cita-se a Lei 11959 de 2009 que dispunha sobre a política nacional para regular a
atividade pesqueira que incluiu na Seção II do Artigo 4º, no parágrafo único
“Consideram-se atividade pesqueira artesanal, para os efeitos desta Lei, os trabalhos de
confecção e de reparos de artes e petrechos de pesca, os reparos realizados em
embarcações de pequeno porte e o processamento do produto da pesca artesanal”. A
descrição possui relação direta com o exercício das mulheres desenvolvidas na pesca,
conforme apontam Maneschy; Álvarez (2010).
Para antes disso, a Lei 10779 de 2003 previa a profissão de pescador artesanal
apenas para quem exercesse a atividade initerruptamente, de forma artesanal e
228

individualmente ou em regime de economia familiar, ou ainda, que não disponha de


outra fonte de renda que não da atividade pesqueira. Definidos nessas condições ficaram
de fora as mulheres pescadoras.
A pesca artesanal constitui-se como fonte objetiva de subsistência para as
mulheres e sua família, que através do compartilhamento de experiências e manutenção
de vínculos humanos constroem sua identidade de pescadoras. Neste sentido, esse
trabalho assume a tese da teoria marxista que possibilita ver as identidades de gênero,
de idade, de cultura, quantas possam ser privilegiadas, no processo de transformação da
sociedade, relacionadas e submetidas à identidade de classe conforme trata Ademar
Bogo (2010).
Ainda na perspectiva de Bogo (2010), a identidade que emerge aqui a partir do
trabalho, das ações políticas e organização sindical refletem a teoria marxista de que as
mudanças no capital impõem novas organizações e formulações de novas identidades
que se adaptam, afirma e nega as transformações concretas e necessidades humanas.
As mulheres, na condição de dominadas, têm buscado se organizar em classe e
através de lutas organizadas conseguirem sua emancipação. Nessas condições, essas
mulheres aperfeiçoam suas associações, elevam seu nível de consciência e melhoram
suas relações sociais e de solidariedade de classes, ainda de acordo com Ademar Bogo
(2010).
Mediante o reconhecimento legal das mulheres como pescadoras pela lei
11959/2009, as mulheres passaram a se associar as entidades representativas, sendo em
Cametá, em torno de 6000 associadas à Colônia de Pescadores Z-16.
As associadas têm participado com frequência das reuniões realizadas, de
cunho informativo e formativo, bem como algumas delas ocupam cargos
administrativos na instituição, seja como Coordenadoras de distrito ou como membros
da equipe diretiva do órgão.
Cabe ainda, manter a pesquisa para observar se esta participação das mulheres
tem sido como protagonistas das problemáticas, decisões ou apenas para cumprimento
de exigências legais. A priori, é notável a presença das mulheres na Colônia de
Pescadores Z-16, inclusive, nas atividades comerciais de Feiras de Pescado promovidas
pelo órgão, nos cursos de computação, cursinhos pré-vestibulares em que esses sujeitos
vislumbram melhores condições de vida.
229

Além disso, a Colônia de Pescadores Z-16 tem trabalhado com intuito de


promover os direitos sociais as associadas, oferecendo serviços dentários, e auxiliando
no processo de aposentadoria.
Mesmo apresentando atos significativos para a vida das pescadoras, e dos
pescadores em geral, Maneschy; Álvarez (2010) afirma que

Formar ou vincular-se a organizações é, muitas vezes, uma exigência


para atuar na defesa de direitos sociais e políticos, na defesa da terra e
do meio ambiente, assim como para alcançar políticas compensatórias
e de apoio à geração de renda. De fato, embora as mulheres possam
efetivamente participar das decisões relativas à produção no interior
da família, compartilhando a administração das pescarias com os
companheiros, elas carecem de voz nas organizações.
Nesse quadro, evidencia-se o interesse em compreender como as
mulheres estão construindo identidades novas e reivindicando
reconhecimento em condições de vulnerabilidade econômica, política
e cultural. (p. 3)

Verifica-se que mesmo após lutas e enfrentamentos realizados pelas mulheres


para conseguir reconhecimento pelo ofício da pesca muito há de se conquistar ainda.
Haja vista que alguns direitos como afirma Maneschy; Álvarez (2010) ainda são
negados. Esta luta não é apenas de mulheres pescadoras, mas do movimento de
mulheres em geral em que o século XX foi palco de conquistas significativas para as
mulheres.
Telião Negrão (2000) chama atenção que o século XX foi considerado por
alguns estudiosos como o século das mulheres, entre eles Noberto Bobbio, Fritjof Kapra
e Manuel Castells, onde organizadamente produziram revoluções culturais importantes
e ingressaram em diferentes esferas da vida pública, da mesma forma, muitas barreiras
continuam a impedir a plena realização desses atores sociais nos espaços públicos,
inclusive do mercado de trabalho e campo da política, espaço que continua a ser visto
como resolutamente masculino. É nesse espaço de avanços e recuos, vitórias e
obstáculos, que as mulheres têm construído novas identidades ligadas ao exercício do
trabalho e participado de movimentos sociais em prol da sua emancipação.
230

Considerações Finais

As mudanças ocasionadas no mundo para atender as novas demandas do


capital impactam sobre os diversos aspectos da vida dos trabalhadores, o mundo do
trabalho altera-se, as mulheres organizam-se e lutam pelo reconhecimento da profissão.
O processo de luta pelo reconhecimento da profissão pelas mulheres foi
resultado de um movimento muito maior de organizações feministas que passam a
ocupar os espaços públicos que até então eram destinados aos homens. Um dos
principais obstáculos dessas mulheres era superar a divisão sexual do trabalho e sua
naturalização.
Historicamente os espaços públicos bem como suas atividades eram destinados
aos homens, às mulheres podiam até exercer muitas dessas atividades, mas não eram
reconhecidas pelos ofícios. Foi somente a partir de organizações de classe que as
mulheres passaram a conquistar direitos e pôr em questionamento a divisão natural e
sexual do trabalho.
Na pesca artesanal desenvolvida na região tocantina, em especial em Cametá,
as mulheres que já realizavam atividades de preparação de instrumentos de trabalho da
pesca, como matapi, redes, passaram a exigir seu reconhecimento como pescadoras e
abandonar a identidade de mulher de pescador. É necessário ressaltar que essas
mulheres não trabalhavam apenas na confecção de material de pesca, também pescavam
peixes, camarão, coletavam uruá para alimentar sua família.
Como o espaço privado era o das mulheres, muitas das vezes pescavam para
comercializar (em pequenas quantidades), mas entregavam a seu pai, maridos ou filhos
para realizar a venda do produto. Nesse sentido, mais uma vez a divisão sexual do
trabalho era o entrave para as mulheres serem reconhecidas pela atividade pesqueira.
São as políticas implementadas no Brasil e na Amazônia a partir da década de
1970, mediante a proliferação do neoliberalismo, da implantação da Hidrelétrica de
Tucuruí que as novas exigências de mão-de-obra e de maximização de lucros
permitiram uma maior visualização das mulheres no mercado de trabalho, sem deixar de
lado a organização e luta das mulheres pelo reconhecimento.
É a partir das lutas empreendidas que as mulheres passam a construir uma nova
identidade que se relaciona diretamente com o trabalho desenvolvido na atividade
pesqueira, reconhecimento que possibilitou o seu profissionalização, e assegurou
231

direitos como a licença maternidade, saúde, aposentadoria, dentre outros e sua


organização política e ascensão dentro da Colônia de Pescadores Z-16.
Mas como dito no desenvolvimento deste trabalho, há muito ainda há se
conquistar dentro do embate político, organizacional da identidade de mulher pescadora,
inclusive de investigar como a Colônia de Pescadores Z-16 tem permitido o acesso
dessas mulheres enquanto protagonistas. Nossa tarefa ainda continua nesse desbravar do
processo identitário das mulheres enquanto pescadoras e suas ações políticas como
sindicalistas.

Referências

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trabalho e lutas por reconhecimento em diferentes contextos. Revista Coletiva, n. I,
jul/ago/set, 2010.

BOGO, Ademar. Identidade e Luta de Classes. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e Poder. In: Quotidiano e poder em São
Paulo no século XIX. 2. ed. rev. São Paulo: Brasiliense, 1995, pp. 19-67.

ESCALLIER, C.; MANESCHY, M.C. Mulheres na pesca artesanal no Pará: percepção


e estatuto. Boletim Rede Amazônia, ano 3, n. 1, p. 77-83, 2004.

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percepções a partir do olhar feminino. In: Ser social. Brasília, v. 10, n. 23, p. 171-194,
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Amazônia: contribuições para projeto de estudo pluridisciplinar. Belém: Emílio Goeldi.
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Brasil Colônia. (Tese de Doutorado). Disponível em: <www.pagu.unicamp.br/pf-
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RODRIGUES, Doriedson. Saberes Sociais e Luta de Classes: um estudo a partir da


Colônia de Pescadores Z-16-Cametá/PA. (Tese de Doutorado). Disponível em:
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10 out. 2013.

SILVA, Vera Lúcia da; LEITÃO, Maria do Rosário de Fátima Andrade. A regulação
jurídica da pesca artesanal no Brasil e o problema do reconhecimento do trabalho
profissional das pescadoras. Disponível em: <
www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/17redor/17redor/paper/.../230/152>. Acesso em: 06
jul 2016.

THOMPSON, Edward P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro:


Zahar, 1981.
233

O reconhecimento da identidade cultural


por meio da educação patrimonial: um relato de experiência.

The recognition of the cultural identity

by means of heritage education: a report of experience.

Carlos Eduardo Miranda da Conceição

RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo descrever o processo de reconhecimento ou recriação


da identidade cultural tendo como referência o acervo patrimonial material e imaterial de uma
dada sociedade. Partindo de ações pedagógicas concretas dentro de um projeto educativo na
área das ciências humanas executado em uma escola particular na Amazônia ocidental,
percebemos que o dinamismo cultural exige não apenas um olhar cuidadoso do amazônida
para com os símbolos e especificidades da região, mas, sobretudo, uma postura crítica deste
mesmo sujeito diante do confronto inevitável com valores e símbolos alienígenas, próprio do
processo de globalização. Sendo assim, as experiências descritas buscam valorizar aquilo que é
peculiar ao amazônida chamando a atenção para a necessidade de apropriação, preservação e
reconhecimento de seus bens culturais possibilitando novos debates, posturas e atitudes dos
sujeitos com o patrimônio regional sem a desvinculação da conjuntura identitária nacional. As
ações desenvolvidas pelo projeto “Educação Patrimonial na Amazônia: história e perspectivas”
permitiram não só o cumprimento de leis federais relacionadas ao ensino das culturas africana
e indígena, mas também o contato direto de uma comunidade educativa em particular com as
referências materiais e as culturas, modos de vida e costumes de populações tradicionais que,
até então, pareciam fazer parte ora do passado, ora de um mundo isolado sendo tratados
recorrentemente como exóticos e não civilizados.
PALAVRAS-CHAVE: Identidade; Cultura; Patrimônio; Educação.

ABSTRACT

The current work, in the form of experience, it´s aimed to describe the process of recognition
or recreation of Manaus’ cultural identity, in the Amazonas’ state, with reference to the
material and immaterial patrimony collection of the society. Starting of concrete pedagogical
actions within the educational progect Heritage Education in Amazonia: stories and
perspectives in the area of human sciences executed in a private school, we perceived that the
cultural dynamism requires not only a careful look of amazonian to the symbols and
specificities of region, but, especially a critical stance of this same subject facing of the


Bacharel e Licenciado em História, especialista em Educação, Cultura e Organização Social e mestrando
em Ensino de História na Universidade Federal do Pará. E-mail: miranda_cadu@hotmail.fr
234

inevitable confrontation with foreign values and symbols, proper of the globalization process.
Therefore, the experiences described seek to value what is proper to the amazonian drawing
attention to the necessity of appropriation, preservation and recognition of their cultural
properties aiming to enable new debates, stances and attitudes of the subjects with the
regional patrimony without the disruption with the national identity conjuncture. The actions
developed by the project allowed not only the fulfillment of federal laws related to teaching of
african and indigenous cultures, but also the direct contact of a educational community
particularly with the material references and the cultures, lifestyles and habits of traditional
populations that, till then, seemed to be part sometimes of the past, sometimes of a secluded
world being treated recurrently as exotics, useless and little civilized.

KEY-WORDS: Identity; Culture; Heritage; Education.

RESUMEN

Este estudio en formato de relato de experiencia tiene como objeto describir el proceso
de reconocimiento o recreación de la identidad cultural en la ciudad de Manaus, Estado
de Amazonas, usando como referencia los documentos patrimonial material e inmaterial
de la sociedad. Empezando por las acciones pedagógicas dentro del proyecto educativo:
“Educação patrimonial na Amazônia: histórias e perspectivas” en el área de las ciencias
humanas puesto en práctica en una escuela privada, percibimos que el dinamismo
cultural exige no solamente una mirada especial del pueblo de la Amazonía para con los
símbolos y características de la región, sino la adopción de una postura crítica de este
sujeto delante de la lucha inevitable con los valores y símbolos alienígenas, propio del
proceso de la globalización. Por lo tanto, las experiencias descritas buscan valorizar
aquello que es peculiar al pueblo y llama su atención para la necesidad de la
preservación y reconocimiento de sus valores culturales, posibilitando nuevas
discusiones, posiciones y actitudes de los sujetos con su patrimonio sin perder su
identidad nacional. Las acciones desarrolladas por el proyecto permitirán el
cumplimiento de las leyes federales conectadas a la enseñanza de las culturas africanas
e indígenas, juntamente el encuentro de una comunidad educativa de la escuela privada
con referencia material y cultural de las costumbres de las poblaciones tradicionales
que, hasta el momento, parecían hacer parte ora del pasado ora de un mundo aislado
siendo tratados casi siempre como exóticos, inútiles y poco civilizado.

PALABRAS-CLAVE: IDENTIDAD, CULTURA, EDUCACIÓN Y PATRIMONIO.

Introdução

Na atualidade importantes discussões têm sido levantadas sobre a questão identitária


dos mais variados grupos sociais frente aos processos de globalização que, entre outros efeitos
significativos, provocou o estreitamento físico ou virtual das relações socioculturais no mundo
235

todo; mudanças estas que têm sido problematizadas no interior das Ciências Humanas.84 Neste
contexto, queremos destacar o dilema da preservação da identidade diante dos desafios e
exigências dessa nova configuração histórica, especialmente na Amazônia neste início do
século XXI.

Apropriando-nos da ideia de Stuart Hall (2003) que afirma, dentro da concepção


multiculturalista, que não existem culturas inteiramente isoladas, fixas ou puras, nossa
pretensão é compreender de que forma os fatores econômicos podem contribuir para a perda
de valores culturais. E para fazê-lo, optamos por relatar uma experiência educativa ocorrida
em uma escola de nível fundamental e médio na cidade de Manaus-AM85.

O projeto “Educação Patrimonial na Amazônia – História e Perspectivas” nasceu com o


objetivo de gerar um processo de educação patrimonial pautado no resgate da história dos
povos da região a fim de proporcionar a valorização da cultura e da identidade regionais em
suas mais diversas formas de expressão – negadas por muitos alunos e mesmo por
professores. Assim, buscou-se favorecer aos educadores e educandos maior possibilidade de
pesquisa e experiência do fazer histórico-antropológico em respeito aos bens materiais e
imateriais produzidos pelo homem amazônida ao longo do tempo, cada um se reconhecendo
dentro desse processo. 86

Esse objetivo de discutir o regional também se dá por uma constatação: existe uma
dificuldade de se enxergar a cultura local quando se fala em identidade nacional apesar da
interferência, por exemplo, das próprias comunidades nos processos de tombamento. Os
símbolos criados para representar tal identidade acabam se restringindo a bens culturais
específicos, sobretudo aos que existem no centro-sul do país. O problema não está nestes
símbolos em si, mas na forma como eles são usados para representar uma nação
extremamente diversa e que acaba não dando a devida importância e reconhecimento a
outros elementos culturais específicos de cada região. Os símbolos nacionais que se destacam
em relação aos regionais privilegiam uma cultura ditada pelo eixo centro-sul na maioria das
vezes, quando todos deveriam ser tratados com o mesmo grau de importância.87

O conceito de educação patrimonial foi fundamental para termos essa visão onde o
regional como elemento de identidade de um povo se torna primordial não apenas para
propagação e valorização da cultura, mas para seu próprio usufruto. Portanto, nossas ações
tiveram como base o princípio que diz que a educação patrimonial

84
Como índice para aprofundamento teórico consultar: CARDODO DE OLIVEIRA, Roberto. Caminhos da
identidade: ensaios sobre etnicidade e multiculturalismo. São Paulo: Editora UNESP; Brasília: Paralelo
15, 2006.
85
A referida escola é o Centro Educacional Santa Teresinha, sob administração da Congregação das
Filhas de Maria Auxiliadora.
86
Segundo Allana Moraes (2005), o termo “patrimônio” originalmente se refere à herança paterna,
familiar. Mas após a Revolução Francesa e a formação dos Estados nacionais, seu caráter passou a ser
social representando, assim, a herança do povo de uma nação para a posteridade. Mas a seleção ou
criação dos símbolos nacionais acabava sendo excludente, pois se baseava nos interesses do Estado.
87
A criação do tombamento do patrimônio imaterial de um país, determinada pela UNESCO, possibilitou
o reconhecimento dos modos de fazer, celebrar e festejar do povo acrescentando ao conjunto de bens
materiais – estes mais relacionados à elite política e econômica ao longo da história – aspectos
relevantes da constituição da identidade de uma nação. Porém, sendo este um processo recente e
apesar dos avanços de países como o Brasil, os bens imateriais de cada região ainda precisam ter maior
visibilidade dentro do conjunto patrimonial nacional.
236

trata-se de um processo permanente e sistemático de trabalho


educacional centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária de
conhecimento individual e coletivo. A partir da experiência e do
contato direto com as evidências e manifestações da cultura, em todos
os seus múltiplos aspectos, sentidos e significados, o trabalho de
Educação Patrimonial busca levar as crianças e adultos a um processo
ativo de conhecimento, apropriação e valorização de sua herança
cultural, capacitando-os para um melhor usufruto desses bens, e
propiciando a geração e a produção de novos conhecimentos, num
processo contínuo de criação cultural (HORTA et al, 1999, p. 06).

Levando em consideração que as discussões sobre cultura e identidade amazônica


propostas na atividade a ser relatada têm como ponto de partida a valorização do patrimônio
cultural material e imaterial da região, queremos compartilhar o processo em que elas se
deram com os diferentes sujeitos envolvidos no projeto. Será possível perceber que os valores
dados às diversas manifestações culturais e símbolos patrimoniais variam muito dentro de
uma mesma coletividade e que, por isso mesmo, a prática educativa se faz necessária, pois
nem todos têm a consciência da importância dos bens culturais materiais e imateriais. Essa
falta de reconhecimento esbarra na memória individual e coletiva que, muitas vezes, torna-se
fragilizada devido à ausência de ações pedagógicas que a estimule.

Fazer com que os indivíduos de um grupo reconheçam a relevância da preservação


dessa memória a partir de ações educativas conjuntas que partam da formação do professor
até a socialização com os alunos é um processo revelador porque todos buscam criar, discutir
e desenvolver as metas juntos, o que facilita a aprendizagem com seus pares.88 Por outro lado,
a experiência obtida com o projeto vem confirmar que as ações pedagógicas pautadas na
prática, e não meramente na teoria, possibilitam maior aprendizado ao aluno bem como
melhor relação entre ele e o educador, uma vez que este se expõe ao processo também como
um aprendiz, ampliando-se o conceito de cidadania para todos os envolvidos.

Também as necessidades dos professores de história e geografia do ensino


fundamental e médio da escola onde o projeto se desenvolveu são fatores importantes para o
relato desta experiência. Temáticas no âmbito da arqueologia, das sociedades indígenas e da
cultura afrodescendente, além da necessidade da formação de valores como o respeito às
diferenças, chamaram a atenção para a necessidade de se trabalhar com a história regional de
forma mais sistemática e consistente visando o conhecimento e a valorização do patrimônio
material e imaterial amazônico, pois partimos do princípio de que apenas nos conhecendo
enquanto sociedade é que, de fato, poderemos tomar a consciência do mérito da preservação
de nossa memória e de nossos símbolos para perpetuá-los.89

88
A preservação da memória coletiva se dá, apropriando-nos de Gilmar Mendes (2009), da educação
dos sentidos. Por isso o projeto propôs espaços onde os alunos aprendessem a valorizar a cultura local
através do olhar, do tato e do olfato, sendo-lhes permitido tocar nos objetos feitos com matéria-prima
da região amazônica, bem como sentir o cheiro de suas ervas expostas permanentemente.
89
O projeto, ao contrário do que possa parecer, não se limitou a incutir representações prontas sobre
um dado elemento cultural, mas facilitar a compreensão de diferentes narrativas que podem existir
sobre o mesmo. Para maior discussão sobre narrativa e o papel do leitor sobre a história, apropriamo-
nos das ideias de Paul Ricɶur (2007).
237

Relatar as atividades do projeto “Educação Patrimonial na Amazônia”, além de trazer


para o espaço escolar discussões mantidas, muitas vezes, somente no âmbito de instituições
governamentais, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN),
também é uma forma de contribuir para a propagação de práticas alternativas para a
obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nos
estabelecimentos de ensino fundamental e médio do Brasil, segundo as leis 10.639/2003
11.645/2008 do Ministério da Educação.

O projeto, ao tratar das questões amazônicas ao longo da história da formação de seu


território até a atualidade,90 perpassa pela contribuição cultural do indígena e do negro,
muitas vezes deixados às margens das discussões ou, quando muito, tratados de forma
homogeneizante, devido a fatores como as lacunas da formação do próprio profissional da
educação, que muitas vezes acaba reproduzindo em sala de aula uma visão conservadora em
relação a estes povos.

Preservar a memória e valorizar o patrimônio cultural a partir de práticas educativas


que envolvam educandos e educadores numa perspectiva crítica e formativa, pautada na
pesquisa e no debate, permite uma reflexão individual e coletiva sobre a identidade regional
que se encontra fragilizada diante dos assédios da cultura de massa, dos aparatos tecnológicos
e da propaganda apologética ao consumo. Pretendemos, com isso, contribuir para que cada
amazônida fale sua língua sem, contudo, cair em atitudes xenófobas ou bairristas que
prejudiquem seu encontro com o outro.

Educar para preservar: o nascimento de uma ideia

No ano de 2006, ao ingressar como professor de História em uma escola da rede


privada de Manaus-AM91, começamos a vislumbrar, junto à Coordenação Pedagógica, a
possibilidade de criação de uma Coordenação de Ciências Humanas para apoio, formação e
desenvolvimento de projetos específicos na área. Como ponto de partida dos trabalhos, surgiu
a ideia de elaborar um projeto educativo que atendesse três necessidades básicas a um só
tempo:

1. Contribuir para maior autonomia, visibilidade e maturidade das disciplinas de


Ciências Humanas na escola, que passariam a trabalhar de forma mais articulada;
2. Atender as requisições do Ministério da Educação que passou a exigir, através das
Leis 10.639/03 e 11.645/08, o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nos
currículos dos ensinos fundamental e médio;
3. Associar os conteúdos ministrados através do currículo formal com a necessidade
de se discutir e conscientizar alunos e professores sobre a importância da preservação da
memória histórica e da valorização do patrimônio material e imaterial amazônico.

90
Lembramos que o projeto foi desenvolvido no período de 2006 a 2009.
91
A escola e questão é o Centro Educacional Santa Teresinha, localizada no centro histórico de Manaus
e que, à época do projeto, atendia mais de mil alunos em todos os níveis da educação básica.
238

Essas necessidades estavam em todos os níveis de ensino, incluindo a Educação


Infantil que começava a estudar a História da África já no primeiro ano dentro da proposta
curricular da instituição. Optamos por trabalhar com a educação patrimonial em todas as
séries. Para o sucesso do projeto, porém, antes era necessária a formação dos educadores.

Segundo Marc Bloch (2001), o estudo das particularidades de uma sociedade é algo
salutar e legítimo. Com base nestas ideias, estávamos propondo novas metodologias e
abordagens de estudo nos processos de ensino e aprendizagem na e para a Amazônia a partir
do estudo de crenças, da economia, da estrutura social de um povo e, enfim, das
representações simbólicas que se consumam em diferentes temporalidades.

O projeto começou a ser pensado fora do horário do expediente e de maneira


voluntária. A adesão foi bastante significativa, estando presentes pessoas do corpo técnico e
discente da educação infantil e dos níveis fundamental e médio, pais de alunos e professores
das mais diversas áreas do ensino. Com o apoio do arqueólogo Fábio Origuela, representante
do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, amadurecemos o projeto
propondo a criação de um sítio arqueológico e daquilo que inicialmente chamamos de
Laboratório de História, mais tarde nosso Espaço Amazônia. Nascia, assim, o projeto Educação
Patrimonial na Amazônia – História e Perspectivas.92

Formação de educadores, o primeiro passo

A formação dos educadores no que diz respeito às questões relacionadas ao


patrimônio foi a primeira atividade do projeto. Para isso, a escola, através de sua coordenação
pedagógica, buscou apoio no já referido IPHAN e também na Universidade Federal do
Amazonas – UFAM. Nesta fase de formação, o objetivo era fazer cada participante se apropriar
de conhecimentos específicos através de encontros temáticos que possibilitariam uma futura
intervenção em sala de aula de forma mais consistente. Diversos foram as temáticas
discutidas, tais como: patrimônio material e imaterial, arqueologia, legislação patrimonial;
história da Amazônia, memória e identidade.

Alguns desses temas foram apresentados por Fábio Origuela (IPHAN), sobretudo os
referentes ao patrimônio, à arqueologia e à legislação, e pelo Prof. Dr. Ottoni Mesquita
(UFAM), especialmente aqueles voltados à história patrimonial da cidade de Manaus. O apoio
desses profissionais foi imprescindível para a formação dos professores que, com o tempo,
buscaram superar a dificuldade de apoio externo através da formação de grupos de estudo.

Os temas eram debatidos a partir de textos publicados no meio acadêmico, mas


também pela produção dos próprios professores envolvidos. Com suas experiências, cada um
acabava dando importantes contribuições e aprendia-se na coletividade. Estávamos
conseguindo nosso objetivo maior: aumentar não apenas nosso arcabouço teórico sobre o
patrimônio regional, mas também a valorizá-lo, meta a ser estendida aos alunos no ano
subsequente.

92
Importante é destacar que o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) promove
com regularidade ações educativas sobre a importância da preservação patrimonial do país. Porém, o
trabalho mais direto com as escolas ainda parece ser uma lacuna que, se melhor preenchida, poderá
contribuir para a formação de cidadãos mais conscientes desde a idade escolar.
239

Paralelamente aos assuntos abordados em cada reunião discutia-se a conformação do


sítio arqueológico93 e do laboratório de história. Diante da diversidade das ideias, foi
unanimidade um olhar geográfico amplo sobre a Amazônia, cujos elementos urbanos e
ribeirinhos, indígenas e negros seriam valorizados. Isso significa que alguns materiais para
exposição no laboratório já estavam sendo adquiridos. As viagens de algumas pessoas da
equipe às cidades de Porto Velho, Santarém, Belém, dentre outras, possibilitaram a aquisição
de fotos, cartões postais, artesanato, utensílios e até de material arqueológico para compor o
acervo do laboratório.

Após os estudos de todas as temáticas propostas, o ano de 2006 terminou com a parte
prática: um estudo de campo para se registrar e averiguar a situação do patrimônio
arquitetônico e paisagístico de Manaus. Essa excursão permitiu o debate sobre muitos dos
temas abordados nos encontros anteriores, sobretudo aos relacionados à história e à
memória. Identificou-se, assim, elementos que poderiam auxiliar as ações pedagógicas sobre
os conteúdos de história, geografia e literatura regional numa proposta interdisciplinar,
lembrando da formação do povo da região numa perspectiva crítica, da necessidade de
preservação patrimonial e, claro, do cuidado com o meio ambiente já que, em Manaus, a
cidade se confunde com a floresta.

A construção do Espaço Amazônia: o projeto se estende aos alunos.

Em 2007, a primeira coisa a fazer era conseguir o espaço físico para a instalação do
Espaço Amazônia e do sítio arqueológico junto à direção escolar. Tarefa árdua que só foi
possível graças ao apoio incondicional da coordenação geral de ensino, então sob a
responsabilidade da antropóloga Claudina Azevedo. Essa dificuldade, aos olhos dos
professores, não passava de certa falta de vontade política vinda da burocracia regimental de
escolas confessionais, mas após muito insistirmos, enfim obtivemos autorização para
ocuparmos uma sala e usarmos uma parte do terreno da instituição para o sítio arqueológico.
Nosso empenho aumentou ainda mais quando soubemos, por meio do IPHAN, que nenhuma
escola no país, até então, tinha um projeto de educação patrimonial parecido com o que
propomos. Isto impulsionou ainda mais toda a equipe a superar dificuldades e divergências a
fim de levar a ideia adiante.

Em sala de aula, a proposta começou a ser apresentada aos alunos, que passaram a ser
nossos parceiros. A meta era fazer com que eles também pudessem contribuir com objetos
para compor o acervo do Espaço Amazônia e daí começava nosso trabalho de conscientização
com estes sujeitos. A falta de recursos financeiros era a maior de todos as dificuldades. A
escola, apesar de ser particular, alegava não estava passando por uma boa fase econômica,
além disso, a direção dizia que todo projeto deveria ser desenvolvido de acordo com graus de
importância, e naquele momento não éramos prioridade.

Superadas algumas dificuldades e divergências, foi possível inaugurar o Espaço


Amazônia como sala multidisciplinar para aulas temáticas, substituindo o laboratório de
história, pois o termo “laboratório” poderia não ser bem compreendido pelos discentes por

93
Pretendendo não nos alongarmos muito, antecipamos aqui que, devido à falta de recursos, a ideia de
construção do sítio arqueológico acabou não se concretizando.
240

parecer mais vinculado à pesquisa e até mesmo às ciências da natureza do que ao ensino
propriamente dito. O Espaço Amazônia passou a ser a sala específica para qualquer atividade
relacionada aos conteúdos de cunho regional. Os alunos se acomodavam em esteiras dispostas
ao chão dividindo espaço com objetos de cestaria, artesanato e ícones da religiosidade local;
nas paredes, viam-se mapas da Amazônia legal, painéis fotográficos da Amazônia urbana e
outros objetos de artesanato; a sala também estava equipada com aparelhos de som, TV, DVD,
ar-condicionado e quadro branco.

Dentre as atividades pedagógicas que vieram com o projeto destacamos as seguintes:

 Passeio dos alunos da educação infantil e fundamental 1 nas dependências da


própria escola como reconhecimento identitário do patrimônio em que cotidianamente
estavam presentes (como já dito, o prédio da escola é tombado como patrimônio estadual);
 Aulas específicas de História e Geografia regional, sobretudo aos alunos do ensino
médio que se preparavam para ingressas na universidade;
 Reuniões da Coordenação de Ciências Humanas de Ensino para organização de
projetos, cumprimento de cronogramas, formação continuada dos professores da área,
estratégias de ensino e avaliação.
A receptividade dos alunos às novas práticas desenvolvidas foi imensa. As discussões
iniciais eram bastante produtivas e percebeu-se uma criticidade dos adolescentes em relação à
forma como a Amazônia ainda é representada na mídia, como se a região se resumisse a uma
floresta quase inabitada desconsiderando uma urbanização significativa e a existência de uma
população de cerca de 25 milhões de habitantes com uma diversificada cultura. Uma aluna
registrou suas impressões sobre o projeto:

As aulas de história regional (...) foram de total aproveitamento, visto


que tínhamos em mãos textos organizados [pelo professor], os quais
eram sintéticos, objetivos e, sobretudo, críticos. Tudo isso associado
a uma grande criação denominada Espaço Amazônia, ambiente no
qual presenciei, sem dúvida, algumas das melhores aulas de História
regional que se pode ter, relacionadas ao conteúdo, ao ambiente que
inspirava a temática e ao conforto regionalístico. (Mirina Nogueira,
aluna do 3º ano do ensino médio em 2009).

O projeto, então, foi avaliado como positivo e acabou tendo outras ramificações, tais
como a excursão à Comunidade Indígena Beija-Flor e a Semana dos Povos Indígenas buscando
abranger toda a comunidade educativa.

O projeto vai às ruas: visita à Comunidade Indígena Beija-Flor.


241

O município de Rio Preto da Eva fica a uma distância de 80 km da capital amazonense e


conta com a presença de uma comunidade indígena formada por diversas etnias 94. Logo,
então, veio. Surgiu, então, a ideia de uma visita monitorada dos nossos alunos do 8º ano ao
local como forma de extensão aos conteúdos regionais ministrados em sala.

A proposta interdisciplinar resultou na elaboração de um jornal produzido pelos alunos


noticiando o modo de vida, a história e as lutas dos indígenas no limiar do século XXI. Para se
concretizar a visita, foi necessário o pagamento de certa quantia em dinheiro aos indígenas,
justificados por eles próprios aos alunos como forma de se locomover até a capital,
principalmente quando tinham problemas de saúde; além disso, nem sempre lhes era possível
prover seu sustento a partir da floresta devido às inconstâncias da natureza.

Chegando à Comunidade Beija-Flor fomos recebidos por alguns membros e conduzidos até
uma grande maloca. O diálogo com nossos alunos foi de grande produtividade, pois se discutiu
desde a questão da demarcação das terras indígenas até a preservação de suas línguas e
costumas. Interessante foi perceber que os alunos conseguiram se reconhecer no diferente e,
em alguns casos, experimentar aquilo que conheciam como diferente. O almoço, por exemplo,
foi dado pelos próprios indígenas: peixe assado na folha da bananeira acompanhado com
farinha de mandioca. Além disso, presenciaram o uso de arco e flecha e permitiram-se
pinturas feitas pelas crianças da comunidade.

As discussões e as experiências vividas na Comunidade Indígena Beija-Flor resultaram


num belo informativo produzido pelos alunos que passaram a se reconhecer no outro, a
desmistificar a visão pejorativa que se tem do indígena valorizando, assim, essa importante
parte do patrimônio amazônico.

Semana dos Povos Indígenas: povos tradicionais da Amazônia visitam a escola.

A necessidade de se trabalhar os conteúdos específicos da História Regional exigidas


pela SEDUC/AM e da história e cultura africana e indígena segundo as exigências do MEC,
fizeram com que a equipe de Ciências Humanas, juntamente com a coordenação pedagógica,
pensasse uma maneira de abordar esses conteúdos através de um evento multidisciplinar que
envolvesse toda a comunidade educativa. Foi aí que surgiu a ideia de realizar – associado ao
objetivo de valorização da cultura regional do projeto Educação Patrimonial –, uma semana
temática: a Semana dos Povos Indígenas.

O objetivo maior da semana, além dos supracitados, era debater e relativizar as


comemorações oficiais do Dia do Índio, quase que exclusivamente pautadas num romantismo
saudosista sem críticas para a realidade atual dos povos tradicionais da Amazônia. Assim, as
atividades propostas dividiram-se em duas frentes principais: as lúdicas e as de formação e

94
A Comunidade Indígena Beija-Flor é formada por índios das etnias Tukano, Sateré-Mawé, Tuyuca,
Marubo, Maioruna, Dessana, Arara, Apurinã e Baniwa totalizando 231 pessoas que vivem numa área de
42 hectares, no município de Rio Preto da Eva, região metropolitana de Manaus-AM.
242

discussão teórica através de uma releitura do próprio Estatuto do Índio95 dentro da atual
conjuntura amazônica.

No ano de 2008 quando a semana teve como tema central “A questão indígena na
Amazônia: olhares e diálogos”, as atividades variaram de pesquisas sobre as comunidades
indígenas para a composição de painéis expositivos à produção de um filme experimental
sobre os descendentes indígenas dentro da própria escola. Além disso, foram frequentes as
discussões sobre diversos temas como as lutas e conquistas dos povos tradicionais da
Amazônia ao longo da história e as experiências contemporâneas dos indígenas que habitam a
cidade de Manaus.

Mas foi a culminância do evento que garantiu o sucesso da experiência, pois durante
um dia inteiro os alunos da escola e de uma instituição pública convidada puderam ter contato
com membros da Comunidade Indígena Rouxinol, do estado do Amazonas, que apresentaram
número de danças, fizeram venda de artesanato e deram entrevistas aos alunos que
necessitavam recolher depoimentos para as atividades solicitadas pelos professores.

No ano seguinte, a proposta da Semana dos Povos Indígenas, cujo tema foi “Ethos
Amazônico: valores, ética e memória indígena no século XXI”, se estendeu aos Jogos Internos.
Para eficiência das atividades, os alunos deveriam fazer a pesquisa sobre a etnia de sua turma
e produzir um banner padronizado pela coordenação do evento. Esse mesmo banner foi para a
exposição na semana e durante os jogos. A coordenação propôs aos alunos uma série de
seminários e rodas de conversa com representantes de associações indígenas e
governamentais e da própria UFAM para tratar das questões indígenas pautadas no fim do
preconceito e da discriminação, nos conflitos pela terra, na aquisição de direitos enquanto
cidadãos, na relação que têm com a natureza e com o mundo urbano.

A ideia desta semana era levar temas mais maduros e formativos para os alunos do
Ensino Médio propondo discussões que não apenas olhassem o passado dos índios
romanticamente, mas também os desafios, as lutas e as perspectivas dos povos tradicionais da
Amazônia no início do novo século.

Conclusão

Quando falamos em identidade cultural e educação patrimonial ainda pensamos tais


temas como grandes desafios em sala de aula. E não é para menos, pois sofremos com uma
carência de políticas educacionais específicas e concretas capazes de transformar essas
discussões em atividades pedagógicas satisfatórias. No entanto, a partir do momento que
vemos a escola como um espaço de produção de conhecimento democrático, é possível
vislumbrar uma educação menos conteudista e mais formativa.

Sendo assim, o projeto Educação Patrimonial na Amazônia possibilitou este novo olhar
à realidade não apenas do ribeirinho e do indígena, mas também da relação existente entre
cada um de nós com o outro na tentativa de compreender a unidade na diversidade buscando,

95
Promulgado pela Lei 6.001 de 19 de dezembro de 1973, no governo Médici, o Estatuto do Índio
dispõe sobre a situação jurídica dos povos tradicionais do país e suas comunidades com “o propósito de
preservar sua cultura e integrá-los, progressiva e harmonicamente, à comunhão nacional”.
243

assim, o respeito à diferença, dentro dos princípios da alteridade. O reconhecimento do


diferente, dando a devida importância ao saber escolar se faz importante porque “se o
trabalho for realizado com abertura para ouvir o outro e desenvolvendo a razão crítica,
estaremos contribuindo para auxiliar nossos alunos a compreender a historicidade da vida
social, com os seus riscos e suas potencialidades”. (MONTEIRO, 2007, p. 111).

Mais do que simples eventos, cada experiência vivida, cada aula ministrada, cada
palestra ouvida, cada foto tirada foi um exercício de reconhecimento e valorização da cultura
amazônica; um olhar para si mesmo a partir do outro; um espaço para problematizar nossa
própria postura diante do mundo e relativizar o interesse do mundo sobre a própria Amazônia.

Acreditamos que nossas propostas permitiram compreender um pouco mais da


complexidade desta imensa região sem cairmos em tendências pejorativas ou caricatas. E
assim íamos afirmando, enquanto comunidade educativa, nossa identidade regional através da
educação patrimonial.

Não podemos deixar de expor nossas dificuldades enquanto profissionais que


necessitam de melhor formação dentro das temáticas da cultura, da identidade e do
patrimônio, pois apenas nosso amadurecimento intelectual poderá fazer com que as
atividades, como as que aqui foram relatadas, possam ser mais eficientes. Também, ainda é
necessário um olhar mais cuidadoso das instituições públicas e privadas no sentido de
viabilizar propostas cujo fim seja a preservação e valorização de nossa memória.

Exercitar o respeito e o cuidado que devemos ter com nosso patrimônio deve ser
constante, pois as metas se alcançam a longo prazo. A mudança de olhar sobre nós mesmos
requer paciência, criticidade e perseverança. Mesmo sabendo que muito ainda tem a ser feito,
estamos cientes de ter dado um passo, ou até menos que isso, na construção de uma
Amazônia mais consciente de si. E este relato de experiência fica como um convite para que
todos juntos lutemos pela propagação da nossa própria história e preservação da nossa
memória ressignificando o saber histórico escolar.

Referências

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244

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RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp,


2007.
245

TOMÉ-AÇU: DO RURAL PARA O URBANO SOB UMA


PERSPECTIVA ECONÔMICA E SOCIAL NAS DÉCADAS DE 1940-
1980.96
TOME-AÇU: RURAL TO URBAN IN AN ECONOMIC PERSPECTIVE AND
SOCIAL IN DECADES OF 1940-1980.

Tatiane do Carmo.97

RESUMO
Este trabalho tem como tema analisar as transformações urbanas e sociais do
município de Tomé-Açu no estado do Pará. Neste sentido, propõe-se a identificar o
processo rural urbano e social da cidade, processo no qual ocorreu por práticas
econômicas e pelo setor político onde ocasionou sua emancipação política. O objetivo
deste trabalho é analisar as transformações que ocorreram na cidade, devido o
desenvolvimento agrícola e capitalista e discutir como essas mudanças afetaram o
cotidiano da sociedade e a importância do setor rural em relação às transformações no
espaço urbano, em vez de separar as mudanças econômicas e demográficas de um lado,
das mudanças sociais do outro, tentar-se-á discuti-las de um modo integrado, entretanto
antes disso é importante analisar o processo de modernidade, urbanização e
industrialização e suas concomitantes mudanças econômicas, políticas e sociais em
sentido global e nacional. Para a compreensão da análise, fez-se a utilização, de
imagens, documentos históricos e relatos orais.
Palavras-chaves: rural, urbano, modernidade, sociedade.
ABSTRACT: This work has as its theme analyzed the urban and social transformations
of the municipality of Tomé-Açu in the state of Pará. In this sense, it is proposed to
identify the urban and rural social process of the city, a process in which occurred
economic practices and the political sector which led to his political emancipation. the
objective of this study is to analyze the changes that took place in the city because of
agricultural development and capitalist and discuss how those changes affected the daily
life of society, and the importance of the rural sector in relation to the transformations in
the urban space instead of separate changes economic and demographic the one hand,
the social changes of the other, attempts will be made-to discuss them in an integrated
manner, however before that it is important to analyze the process of modernity,
urbanization and industrialization and its concomitant economic, political and social in
global and national sense. For understanding the analysis, there was the use of images,
historical documents and oral histories.
Keywords: rural, urban, modern, society, Tomé-Açu.

96
Transição urbana
97
Graduada em licenciatura plena em História pela universidade federal do Pará-campus Caméta-pólo-
Tomé-Açu
246

INTRODUÇÃO

O estudo tem por objetivo analisar as transformações urbanas e


socioeconômicas ocorridas no município de Tomé-Açu no Estado do Pará no período
entre 1940-1980. Para atingir tal objetivo foram levantadas informações orais e
documentos encontrados na prefeitura e bibliografias da história local. Os dados
levantados indicam os fatores necessários para a transformação urbana e
socioeconômica da cidade que foi impulsionado pela imigração e pelo cultivo da
pimenta do reino.

Entre os fatores que motivaram e alimentaram o processo urbano na cidade,


está o fator moderno, onde proporcionou a elaboração de um projeto urbanístico voltado
ao modelo Brasiliense. Procurou-se pesquisar sobre as construções particulares e
públicas e as principais ruas de Tomé-Açu que remetem á década de 60 quando a então
vila passa a ser cidade e procura se estabelecer com ares de modernidade sob a
influência do urbanismo brasiliense, Tendo em vista todos esses materiais, adentrou-se a
discorrer sobre o foco que é trabalhar sobre as mudanças urbanas no município. A
discursão baseia-se na importância que a economia rural passa a ter na transformação do
espaço dessa cidade e em sua trajetória, devendo considerar a importância da economia
rural da região á um nível global, a partir das relações entre agricultura e sociedade.

O processo de introdução da cultura da pimenta-do-reino (Piper nigrum) no


município de Tomé-Açu pelos pequenos produtores rurais japoneses nas décadas de
1940 e 50 causou grandes mudanças de natureza econômica, social e política no campo.
É necessário entendermos como esse processo influenciou de forma decisiva nessas
mudanças e como o setor rural obteve consistência na formação da cidade, destacando
que a cidade não deixou completamente sua característica rural, pois esta caminhava em
passos lentos, porém com objetivos para uma emancipação com intuito político e
econômico independente.

O presente artigo é composto por três partes principais. Na primeira parte é


abordada a localização e as características do município de Tomé-Açu, com intuito de
proporcionar uma melhor compreensão sobre a pesquisa. Na segunda parte discutimos o
processo de transformação urbana que o município vivenciou devido outro processo
extremamente importante para sua consolidação, o processo de imigração responsável
pela fixação nipônica na região e na terceira parte é abordado o processo de
247

modernização urbana no município, causada principalmente pela ideia de modernidade


moldada à cidade de Brasília.

A escolha de tal período se justifica em razão de identificar a transição do rural para o


urbano e possibilitar uma melhor compreensão sobre o processo gradativo das
transformações ocorridas no município.

LOCALIZAÇÃO E CARACTERISTICAS DO MUNICÍPIO DE TOMÉ-AÇU.

Tomé-Açu é um município brasileiro localizado na região norte do País no


Estado do Pará e na mesorregião nordeste do Estado. Segundo IBGE (2016) O
município possui uma população estimada em 61.095,00 mil habitantes distribuídos em
5.145.325 km² de extensão territorial.

Tomé- Açu nasce como uma colônia da vila são José do Acará, Aonde se
tornou uma espécie de campo de concentração para os Japoneses imigrantes durante a
segunda guerra mundial na década de trinta, porém no final da década de 50 ganhou sua
emancipação política passando de colônia para município pela lei nº 1.725, que
conseguiu para Tomé-Açu sua elevação à categoria de município do Estado do Pará,
constituindo-se como tal, com terras desmembradas do município de Acará, a qual lhe
pertencia na condição de distrito. Assim, no dia 1º de setembro de 1959, foi instalado
oficialmente pelo Governador Luís Geolás de Moura Carvalho, o município de Tomé-
Açu.

Figura 1: mapa da localização de Tomé-Açu no Estado do Pará

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tomé-Açu

O município possui a nomenclatura originada dos índios Tembé da etnia


Tenetehara que em tupi guarani quer dizer “nós somos gentes verdadeiras”, Os quais
partilhavam com os índios Guajajara do Estado do Maranhão a mesma língua e tradição
248

cultural “98·. A cidade ganhou o apelido de “Terra da pimenta”, por ter sido produtora
de grande quantidade de pimenta do reino e se tornou a maior exportadora do produto
no país e no mundo que por meio desse cultivo elevou a então colônia para categoria de
município, por esse fator veio à ampla dependência econômica agrícola, sendo
dependente de suas plantações por um determinado período, através dessa economia que
a cidade desenvolveu um grande fluxo de mercadorias e pessoas que vieram tentar a
vida, porém devido a essa economia em ascensão é que a colônia desenvolveu suas
transformações urbanas, sociais e econômicas.

PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO URBANA EM TOMÉ-AÇU.

O fluxo migratório se constituiu em peça fundamental do governo para


assegurar a mão de obra na região. As cidades do interior surgiram como lugares
estratégicos para garantir essa ocupação. “A nova configuração amazônica reflete as
articulações mediadas pelas estratégias de ocupação. Só é possível entender o atual
cenário urbano-regional através dos vínculos tecidos entre os fluxos migratórios”
(SOUZA 2013, pg10.). A urbanização esta relacionada como peça fundamental para a
organização do espaço regional.

A geógrafa Bertha Becker (1990) ao analisar o contexto contemporâneo


destas mudanças que se materializam no espaço regional amazônico enfatiza a
urbanização como um dos aspectos prioritários no conjunto destas transformações. Para
ela:

A importância da urbanização como instrumento de ocupação se relaciona


assim a três papéis fundamentais exercidos pelos núcleos urbanos: a atração
dos fluxos migratórios, a organização do mercado de trabalho e o controle
social, o que atribui à urbanização um novo significado, que se refere a sua
dinâmica social e territorial. (BECKER, 1990, p. 52).

O estudo sobre a transição do rural para o urbano em Tomé-Açu se deu a


partir das discussões historiográficas sobre o fator imigração japonesas, outro processo
fundamental para a criação e consolidação do município que ocorreu no final da década
de vinte. A imigração japonesa para a região proporcionou o desenvolvimento
econômico através do cultivo da pimenta do reino que consequentemente influenciou no
desenvolvimento urbano da cidade.

98
Trecho baseado em informações retiradas do site www.trabalhosfeitos.com/ensaios/História-De-
Tomé-Açu/404917. html
249

Neto (2008) afirma que tivemos no Brasil correntes imigratórias que sem
deixar de lado sua cultura e ancestralidade se misturaram aos brasileiros, tornando esta
terra mestiçada culturalmente e deixando nas cidades em que fixavam residência, suas
técnicas e suas práticas no campo, sendo possível observar nas características urbanas e
rurais destas cidades através de suas arquiteturas que remontam sua terra natal. Na
cidade de Tomé-açu há inúmeros prédios característicos da arquitetura nipônica.

A configuração espacial da colônia nas décadas de quarenta era totalmente


rural gerida pela companhia japonesa NANTAKU, pois não havia prefeitura e nenhum
poder público. O termo “colônia” será lembrado a partir da pequena propriedade que
segundo Seyferth (1990) “dará surgimento aos povoados a partir da distribuição de lotes
aos colonos, a organização do espaço geográfico, as moradias e suas características
arquitetônicas e consequentemente gerará a transformação urbana”. (SEYFERTH 1990,
p. 24).

Segundo Nagai (2002). Os principais centros públicos da colônia eram:


Tomé-Açu, sede da administração, Quatro Bocas e Água Branca, sede do primeiro
centro onde havia estabelecimentos como a cooperativa agrícola, hospital, escola, praça
de esportes, campos experimentais agrícolas, entre outras instalações e o escritório da
companhia localizada no centro da pequena vila que mais tarde se tornaria o principal
bairro da cidade,

Suas ruas eram espaçosas, porém poucas, que davam acesso ao comércio e
assim que os japoneses chegavam era enviado para quatro bocas e breu e tinham seus
lotes divididos em 25 hectares para cada família, Quatro-Bocas, Ipitinga, arraia,
mariquita, Agua Branca e breu foram pequenos bairros criados em Tomé-açu, para
receber os imigrantes devidos seus terrenos serem planos e bons para plantios, poucos
japoneses permaneceram na sede por que os terrenos eram pedregosos e acidentados,
como podemos observar neste mapa da colônia. É possível verificar a divisão de áreas
que foi feita para as famílias dos colonos distribuídas na cidade de Tomé-Açu nos oitos
bairros de Boa Vista, Ipitinga, Quatro Bocas, Arraia, Mariquita, Água Branca e Breu.

Figura 2: linha dos lotes de Tomé-Açu, e nos oito bairros de boa vista.
250

Fonte: Acervo do Museu da Nipo Brasileira em Tomé-Açu

A maioria dos espaços era caracterizada por campo e plantações de grãos e


hortaliças, plantados por imigrantes japoneses, italianos e alemães, pois veio também
uma boa leva desses imigrantes, mas prevaleceram os japoneses, os nativos também
faziam suas plantações e moravam as margens do rio, na década de quarenta não havia
Infraestrutura na vila de nenhuma espécie, porém as necessidades básicas dos japoneses
como saúde e alimentação eram providenciadas pela companhia nipônica Nantaku.

A estrutura econômica da vila era baseada na agricultura familiar, na colônia


Acará (como era conhecida à colônia Tomé-Açu) o principal objetivo agrícola seria o
cacau, porém esta cultura agrícola leva dois anos para produzir frutos e nesse meio
termo os colonos teriam que estudar um meio de se manter naquele período.

Na época não se podia ainda contar com a plantação de arroz e hortaliças,


nem havia frutas comuns da região para abastecer os colonos, todos os produtos
alimentícios eram comprados em Belém, na cantina da companhia, o arroz era
comprado a 90 mil reis o saco, enquanto o arroz produzido com casca teria que ser
vendido a oito mil reis o saco de 60 quilogramas e o feijão 12 mil reis o saco, também
de 60 quilogramas, portanto o que se comprava era tudo caro, enquanto o que se vendia
era muito barato. O trabalho era pesado baseado na agricultura familiar, por isso todos
os integrantes das famílias tinham de trabalhar unidos para o cultivo da terra e obter seu
sustento, muitas famílias tanto de imigrantes quanto dos nativos tinham que plantar de
tudo um pouco além de hortifrútis, plantava arroz, feijão, mandioca etc...

A estrutura arquitetônica das casas começou a ser moldada com a chegada


dos colonos japoneses, pois os nativos aprenderam a construir casas mais elaboradas
com os imigrantes que trouxeram suas ferramentas do Japão, as casas dos nativos eram
simples de esteios fincados no chão ou de barro cobertas de cavaco ou palha de Inajá
com piso de chão batido, os modelos das casas dos nativos eram em madeira inteira ou
251

de esteios, feitas de barro e muitas vezes sem divisão nenhuma em seu interior, apenas
um grande salão ou quando tinha sua divisão era ade apenas dois quartos, uma sala e
uma cozinha, no entanto com a chegada dos Japoneses muitos passaram a adotar o
modelo de escama de peixe, casas com tábuas atravessadas e com varandas ao redor,
esse modelo arquitetônico foi por muito tempo utilizado na cidade, era muito comum
encontrar na cidade casas e prédios públicos neste modelo, principalmente no início da
emancipação.

Segundo Numazawa (2009) esse modelo arquitetônico trazido pelos


japoneses e adequado à cidade se iniciou na Era Muromachi á era Meiji no Japão, estilo
arquitetônico utilizado em séculos que foram construídos na cidade de forma similar, os
casarões foram construídos a partir das décadas de cinquenta e sessenta com o sucesso
econômico na região. Esses casarões eram construídos por (mestres de obra) conhecidos
como Daiku que vinham diretamente do Japão com o intuito de enriquecer no Brasil.
Vale ressaltar segundo a autora que os Daiku não possuíam escolaridade para construir
essas casas, mas a técnica e os encaixes eram passados de pai para filho como segredo..

A TRANSFORMAÇÃO RURAL PARA URBANA SOB A INFLUÊNCIA


ECONÔMICA.

A propósito, a chegada da pimenta-do-reino no Pará confunde-se com a


história da imigração japonesa na Amazônia, a partir do município de Tomé-Açu,
Foram os imigrantes Japoneses que trouxeram essa especiaria para a região; e
transformaram a lavoura paraense com esse produto.

A vida na colônia acaraense começou a modificar a partir do cultivo da


pimenta do Reino trazida pelos japoneses que cruzou com a pimenta nativa se tornando
híbridas e possibilitou a alta produtividade, onde começou a gerar muito emprego e
consequentemente muita migração, a população começou a aumentar, pois diferente de
muitas cidades brasileiras os migrantes saíram das suas cidades para trabalhar no
campo, por falta de oportunidade de trabalho, o que o cultivo da pimenta proporcionou
o que

Para (Matos et al,2004.pg.07) As mudanças que vem ocorrendo nas áreas


rurais brasileiras chegam a impressionar, sobretudo ao se recordar que, há muito tempo
atrás, vários estudiosos temiam o esvaziamento do campo, alardeando-o como tendência
inexorável, o fato é que mesmo que ainda exista algum êxodo rural, este já não
252

consegue evitar a tendência de recuperação de parte expressiva das áreas rurais no país.
A produção de pimenta a cada dia crescia a olhos vistos, gerando renda e riqueza para
muitos colonos e transformando a configuração urbana de Tomé-Açu, foram surgindo
vários benefícios sociais como saúde e educação, foram construídas nesse período um
hospital e algumas escolas para atender a população que a cada dia crescia um pouco,
no entanto a conquista foi gradual. Tomé-Açu na década de quarenta configurava-se em
alguns repartimentos públicos em condições arquitetônicas precárias, e com o
crescimento econômico começou a surgir caminhões nas fazendas, casas mais
elaboradas e abertura de mais estradas para o escoamento do produto.

O comércio da pimenta do reino trouxe para Tomé-Açu muitos benefícios,


principalmente o urbano que começou a se configurar lenta e gradualmente e fez a
região desenvolver estruturalmente e politicamente e foi através de interesses políticos
que a colônia passou de uma simples vila para se tornar em um dos municípios de maior
extensão agrícola para do mundo.

Ao falar sobre a influência social da pimenta do reino o autor Condurú


destaca a importância do setor econômico o desenvolvimento das comunidades.
(CONDURÚ, 1982.p.08) ressalta que Mais do que todo esse conjunto de negócios é a
cultura regional que mais utiliza mão de obra, dando oportunidades de trabalho a
crianças, mulheres e ao próprio homem, com um largo leque de operações, que exige
diferentes esforços físicos, possibilitando que vilas se formem e desenvolvam em sua
função E pontua: Da pimenta não só depende o produtor, mas o comerciante, que atende
as propriedades, os agentes de compra, os transportadores, os produtores e vendedores
de adubos e defensivos, os técnicos assistentes, os serviços de crédito, os exportadores e
o próprio governo, através dos tributos.

No entanto se entende que a produção de pimenta é capaz de transformar


setores sociais e econômicos englobando-os, onde toda a vida da região circule em
função dessa agricultura, não diferente desse contexto, Tomé-Açu viveu a experiência
de dependência econômica nas décadas de cinquenta e sessenta, vivendo o auge de suas
produções, Em meados dos anos 1950, as plantações de pimenta chegaram a 440 mil
pés e sua produção a 840 toneladas.

A rede de comercialização da pimenta da Cooperativa de Tomé-Açu se


espalhou por todo o Brasil e passou a controlar o mercado nacional. Com autorização do
253

governo federal, a cooperativa também começou a exportar seu “diamante negro”


(nome dado á pimenta por sua valorização comercial) para os Estados Unidos e
Argentina.

Diante desse fator econômico fica claro a importância econômica do cultivo


da pimenta do reino para a colônia, aonde esta foi plantada não só pelas bases da
produção familiar, mas também pelo fator científico e administrativo, definindo a
pimenta não só no setor econômico quanto cultural, beneficiando diretamente as
implicações econômicas do Estado e da região.

PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO URBANA EM TOMÉ-AÇU.

Com o sucesso econômico, Tomé-Açu viveu tempos de abundância,


despertando nos colonos e moradores da vila a vontade de se emancipar do Acará, pois
para eles não fazia sentido depender de outra cidade já que a colônia tinha possibilidade
para ser autônoma, e inicia o processo que vai culminar na emancipação política e
transformar a pequena vila em um município em 1959 através do governo de Luís
Geolás de Moura Carvalho. Começando então um longo processo de transformação
urbana influenciado pelo setor agrícola.

O período da emancipação é de observação na história da cidade, pois é


nesta fase que toma forma na localidade a mudança em seu espaço alterando
significativamente a sua estrutura rural para urbana, como toda a colônia Tomé-Açu era
dominada pelos poderes políticos do Acará, porém com a emancipação a recém- criada
cidade ganha autonomia para caminhar sozinha e para isso era necessário à construção
de prédios públicos e de casas populares, seguindo os pensamentos do então presidente
Kubistchek em modernizar para progredir, começa o projeto para urbanizar a cidade
seguindo o modernismo aplicado em Brasília com a venda dos bens da nipônica foram
construídos vários prédios públicos, estradas e pontes para a escoação da produção
agrícola, as construções beneficiavam tanto o centro da cidade como o bairro de quatro
bocas e breu.

Importante ressaltar que a colônia despertou o interesse pela emancipação


política a partir do momento em que passou a obter uma importância significativa de
sua economia, aonde convergiu em fatores responsáveis pela formação de um mercado
interno lucrativo e em expansão, abastecido por produtos de exportação e importação
254

sendo responsáveis pelo desenvolvimento Agrícola da região e que possibilitou o


crescimento urbano da cidade.

A estrutura urbana de Tomé Açu a partir de 1960 começa a tomar forma


com o projeto idealizado pelo engenheiro Douglas de Matos Cohem, que tracejou e
desenhou os prédios públicos baseados na formação urbana de Brasília no sentido de
criar uma cidade moderna e progressista, baseada nas estruturas sociais que se
propagava na capital brasileira, Ao discutir que o projeto modernista sempre se
entendeu como instrumento de mudança social, Holston aborda essa questão sobre o
modernismo associado à inovação arquitetônica, a mudança nas percepções individuais
e a transformação social, “mude-se a arquitetura e a sociedade será forçada a seguir o
programa de mudança social que a arquitetura representa”. (HOLSTON, 1993, pg. 101).

Essas mudanças estão relacionadas a uma economia elevada em várias


regiões, influenciando grandes e pequenas cidades. “Quando há uma grande elevação
econômica as metrópoles passam a se modernizar esteticamente com o objetivo de se
tornar mais “progressista” e civilizada, termos comuns no período”. (FOLLIS, 2004, p.
01). Esse fator proporciona as cidades de pequeno porte a se modernizarem ou se
espelharem em outras, no entanto essas transformações não ocorrem na mesma
proporção como é o caso de Tomé-Açu que se espelhou no projeto modernista de
Brasília na década de 60, que será citada mais adiante como a forma com que se
processa o urbanismo no Brasil de diferentes maneiras.

A estrutura urbana da cidade de Tomé-Açu foi organizada anos mais tarde


na década de oitenta no governo de Moacir vieira, sob a lei 1079 de 17 de outubro de
1984 onde “dispõe sobre as construções no município de Tomé-Açu, Estado do Pará e
dá outras providências”99, no entanto sua formação de solo é irregular e pedregoso
fazendo com que os tracejados da cidade se tornassem irregular. Esta estrutura se
adequou a Quatro bocas onde seus terrenos eram planos, sendo possível alinha-lo em
formato xadrez como em Brasília, (no entanto o projeto para quatro bocas foi realizado
anos mais tarde, lentamente). Podemos observar estes traços urbanos nos seguintes
mapas.

Figura6: mapa do município de Tomé-Açu e seu respectivo traçado urbano

99
Lei em uso
255

Fonte: (SETOURB) secretaria de transporte obras e urbanismo100

Podemos observar na figura seguinte a intenção em adaptar á cidade ao


modelo urbano brasiliense no formato xadrez com que Quatro bocas distrito de Tomé-
Açu adquiriu com o passar do tempo seguindo esse molde urbano projetado desde a
década de sessenta, trata-se aqui neste contexto de uma localidade mais elaborada em
relação ao centro em toda a sua estrutura pós anos sessenta com a evolução da cidade,
pois diferente deste, Quatro bocas recebeu todo planejamento necessário para
adequação urbana aos moldes brasilienses, sua diferença em relação ao centro da cidade
está nas formas geométricas de seus quadrados habitacionais e suas ruas mais alargadas
e alinhadas e sua centralização econômica que beneficia todo o setor rural em volta.

Figura 7: mapa de quatro bocas distrito de Tomé-açu pós anos 60, modelo em grelha.

Fonte: (SETOURB) secretaria de transporte obras e urbanismo101

100
OBS: Mapa acima foi produzido décadas depois do primeiro projeto urbano da cidade, no entanto o
trecho destacado no mapa corresponde ao centro de Tomé-Açu nos anos 60, projetado no modelo em
grelha aos moldes brasilienses.

101
Obs.: O mapa acima foi construído décadas depois do primeiro planejamento urbano da cidade, no
entanto ele faz referência ao modelo brasiliense que foi aplicado na cidade desde a década de 60. Trecho
destacado por ser o início da transformação urbana em quatro bocas e seu centro comercial que se tornou
importante para a região.
256

A modernidade chegou à cidade na década de sessenta através dos meios de


transportes, construções de casas, praças, escolas, hospitais, abertura de estradas,
construção do aeroporto e comércio, pois a nova cidade paraense começou a despertar o
interesse de muitos comerciantes que investiram na cidade, logo o centro da cidade
começou a despertar para o comércio que nesta época se localizava próximo ao trapiche
e ao clipe, (lugar de comércio muito conhecido na cidade, primeiro terminal rodoviário
da cidade nos primeiros anos). Este local era muito movimentado pelo constante fluxo
de pessoas e por estar localizado na entrada da cidade, já que o único transporte era
fluvial, porém com a necessidade de escoamento mais eficiente e rápido era necessário
criar condições melhores para transportar o produto para a capital paraense por isso em
1972 no governo de Fernando Guilhom foi criada a PA 140 e com ela vária pontes de
acesso entre elas a principal ponte que passou então a ser a entrada da cidade via
rodovia, para onde o comércio migrou. Assim que foi aberta a estrada o movimento
começou a aumentar e a cidade se desenvolver, Tomé-Açu se vê pela primeira vez
ligada por terra a Belém. A produção de pimenta bate seu recorde histórico de cinco mil
toneladas

Aos poucos entre as décadas de sessenta e setenta a cidade começou a se


configurar, os terrenos começaram a ser demarcados e os bairros a serem formados.
Como em qualquer outra cidade, Tomé-Açu recebeu influências urbanas de seus
imigrantes em especial na arquitetura. As particularidades orientais se apresentam em
várias dessas residências, além de escolas, associações japonesas e instalações
produtivas como os galpões de pimenta do reino. Pode se dizer que a arquitetura
Japonesa na região expressa de maneira concreta o cenário social e econômico que a
cidade estava vivenciando, começando pelas habitações e se fundindo a outros setores.

Segundo (NUMAZAWA, 2009. Pg. 25) A tipologia das edificações


encontradas em Tomé-Açu é uma miscelânea de arquitetura que se iniciou na Era
Muromachi à Era Meiji. Este estilo arquitetônico atravessou séculos e as edificações, ao
longo do tempo, têm sido construídas de maneira similar à antigamente.

Os Prédios públicos seguiram os moldes brasilienses, estes se localizam no


centro da cidade tendo os três poderes um ao lado do outro, construídos na década de
sessenta, logo após a emancipação política da cidade, com o objetivo de mostrar a
sociedade a modernização e o progresso que a região passou a adotar.
257

A dinâmica da economia da produção de pimenta agrícola exportadora


assegurava as condições para o desenvolvimento econômico e social, criando condições
para a modernização urbana da cidade, possibilitando a construção de vários prédios
públicos como a prefeitura, a câmara, a praça, o fórum e a biblioteca pública, mercado
municipal etc... Por certo período a cidade conteve-se ao redor de seu núcleo urbano,
porém com a chegada dos migrantes esta se expandiu e proporcionou a criação de novos
prédios que se localizam paralelamente entre quatro bocas e centro, aonde proporcionou
a quatro bocas a condição de distrito da cidade por sua condição dinâmica
economicamente e socialmente elitizada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As cidades brasileiras se modificaram influenciadas pelo crescimento do


capitalismo agrícola, base da economia brasileira que proporcionou o desenvolvimento
rural em todo o país, especificamente na Amazônia, aonde predominou a economia
Agroextrativista, alicerce para a formação de muitas cidades interioranas da Amazônia e
sustentáculo das metrópoles industrializadas.

A cidade de Tomé-Açu foi uma dessas cidades que surgiram através de uma
expansão do capitalismo Agrícola, pois diferente de outras cidades brasileiras aonde se
desenvolveram a partir do investimento de indústrias na cidade predominou o setor
agroextrativista com o objetivo de modernidade e progresso, fazendo surgir a partir
desse conjunto uma cidade com perspectiva econômica através do cultivo da pimenta do
reino, aonde proporcionou várias transformações significativas em seu cenário urbano,
todo o desenvolvimento da cidade está ligada ao desenvolvimento da pimenta do reino,
tanto a sua conjuntura política quanto urbana e social.

O desenvolvimento da cidade foi baseado em vários fatores fundamentais


entre eles a imigração e a migração como fatores fundamentais na construção política e
social da cidade que proporcionou uma característica peculiar à localidade.
Desenvolvida através de um fluxo migratório agrícola a cidade foi palco de um retorno
do camponês desprovido de infraestrutura nas metrópoles, vitima de um capitalismo
excludente e que volta ao campo em busca de melhores condições de trabalho e de vida.
Sua transformação urbana se tornou uma mescla entre um progresso ditado pela
258

modernidade brasiliense e um ruralismo brasileiro influenciado pela cultura oriental dos


Japoneses, o que tornou esta cidade multicultural e economicamente próspera.

Do ponto de vista político podemos dizer que Tomé- Açu foi alvo inspirador
para uma organização política interessada em se emancipar devido ao grande
enriquecimento trazido pela pimenta do reino e as possibilidades de desenvolvimento na
região, com isso surgem às organizações que levam a emancipação política e comercial
do município.

A modernidade chega à cidade influenciada pelo desenvolvimentismo


ditado na década de cinquenta pelo governo Kubistchek e é alicerçada pelos moldes
brasilienses em sua ideia de progresso, por isso sua configuração urbana é toda moldada
a de Brasília, porém contrasta com edificações Japonesas herança de uma imigração na
década de trinta, e com casebres populares de nativos em situações precárias, totalmente
rural, no entanto esse ideal modernista e progressista que foi idealizado em Tomé-Açu
para sua formação urbana, esbarrou na falta de industrialização para seu
desenvolvimento urbano se concretizar de fato, por isso a cidade dependente da
atividade agrícola não industrializada de certa forma estagnou, pois toda a estrutura de
trabalho era ainda manual, ou seja, o seu setor rural não se modernizou para que seu
setor urbano se desenvolvesse. Assim a cidade apenas transformou seu espaço rural para
urbano com características modernas.

O processo rural para o urbano na localidade se realizou de forma lenta,


entrando muitas vezes em momentos de estagnação econômica que influenciou tanto o
urbano quanto o social, Podemos perceber que o processo urbanístico da cidade se
desenvolve de forma gradativa, pois se trata de um município criado no século XX e se
processa em fase de expansão, por isso não perdeu totalmente suas características rurais,
apesar de estar urbanamente associado à modernidade.

Todo o seu desenvolvimento urbano vem sendo processado de forma


acentuada a partir da década de 80 com vários empreendimentos inaugurados em
beneficio da sociedade e entra os anos dois mil com seu processo urbano em
desenvolvimento, como asfaltamento das ruas e construções em geral.

FONTE

IBGE (2016)
259

REFERÊNCIAS

BECKER, B. K. - 1990 – Amazônia. SP: Ática


CONDURÚ, José Maria. Pimenta Hoje: Outubro/82. Informativo técnico do
Ministério da Agricultura, 1982. Disponível na Biblioteca Pública Arthur Vianna –
Belém/Pa.

MATOS, R.; SATHLER, D.; UMBELINO G. Urbano influente e rural não agrícola
em Minas Gerais. Anais do XI Seminário sobre a Economia Mineira. (2004).
Disponível em www.abep.nepo.unicamp.br.Acessado em 30/08/15

NAGAI, Akira. Um Nikkei da terra dos tembés/ Akira Nagai-Belém: Alves Gráfica e
Editora, 2002.

NETO Francisco Rodrigues da Silva. Bem dispostos e sadios A entrada de


imigrantes japoneses no Estado do Pará a partir das imigrações oficiais no início
da década de 30.2008 disponíveis em:

NUMAZAWA, Camila Thiemy Dias: Arquitetura japonesa no Pará [dissertação]:


estudo de caso em edificações com técnica construtiva que favoreceu uma maior
durabilidade da arquitetura em madeira no município de Tomé-Açu. - Florianópolis,
SC, 2009

SEYFERTH, Giralda. Imigração e cultura no Brasil. Brasília: UNB, 1990.


www.snh2011.anpuh.org/.../1298691555_ARQUIVO_politcasdeincentiv. Acessado em
09/12/15

SOUSA, Jailson de Macedo. As formas atuais da urbanização amazônica e os seus


reflexos na produção do espaço urbano de imperatriz-ma. uerj.rio de janeiro. 18 a
22 novembro de 2013.
260
261

A voz e nome: estratégia e identidade de trabalhadores e impactados


pela UHE de Estreito – MA/TO 2007-2012

The voice and name: strategy and identity of workers and impacted by Estreito
Hydroelectric Power Plant - MA / TO 2007-2012

La voz y el nombre: la estrategia y la identidad de los trabajadores y impactados


por UHE Estreito - MA / A 2007-2012

Cícero Pereira da Silva Júnior 102


Resumo

O trabalho em questão empenha-se em compreender as dinâmicas centrífugas e


centrípetas dos deslocamentos que tiveram lugar na cidade de Estreito, no Sul do
Maranhão, entre 2007 e 2010, por ocasião da construção da hidrelétrica de Estreito
MA/TO. A construção desta hidrelétrica induziu a uma espécie de migração laboral de
trabalhadores especializados ou não neste tipo de empreendimento, em busca de
trabalho e renda e que, por um motivo ou outro acabaram por alocar-se definitivamente
na cidade após o termino de seu contrato com a empresa responsável pela obra.
Proponho-me a abordar esses deslocamentos como um “jogo de vai e vem”
(GINSBURG, 1989, p. 175), em que tanto as escolhas quanto as estratégias individuais,
são tomadas em face do peso do mundo social em que os indivíduos se encontram e
acabam por contribuir no processo de construção de suas identidades. Isso nos permitirá
vislumbrar o tecido social complexo que se desdobra invisível ao olhar mais
preocupado com a imagem binária que estes processos deixam transparecer.

Palavras-chaves: Identidade – Hidrelétrica de Estreito – Trajetória – Histórias de Vida

Abstract: The work in question aims to understand the centrifugal and centripetal
dynamics of the displacements that took place in the city of Estreito, in the South of
Maranhão, between 2007 and 2010, during the construction of the Estreito MA / TO
hydroelectric plant. The construction of this hydroelectric plant led to a kind of labor
migration of skilled or unskilled workers in this type of enterprise, in search of work
and income and who, for one reason or another, eventually became permanently in the
city after the termination of their contract with The company responsible for the work. I
propose to approach these displacements as a "back-and-forth" game (Ginsburg, 1989,
175), in which both choices and individual strategies are taken in the face of the social
world in which individuals Find and ultimately contribute to the process of building
their identities. This will allow us to glimpse the complex social fabric that unfolds
invisible to the look more concerned with the binary image that these processes reveal.

102
Mestre em Linguagens e Saberes na Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
Doutorando em História Social da Amazônia pela UFPA. Professor da Secretaria de Estado de Educação
(SEDUC-PA).
262

Keywords: Identity - Straits Hydroelectric - Trajectory - Life Stories

Resumen: La obra en cuestión se ha comprometido a la comprensión de la dinámica de


los movimientos centrífugas y centrípetas que tuvieron lugar en la ciudad del estrecho
en el sur de Maranhão, entre 2007 y 2010, durante la construcción de la hidroeléctrica
Estrecho MA / A. La construcción de esta presa condujo a un tipo de especialista en
migración laboral o no este tipo de trabajadores de la empresa en busca de trabajo y de
ingresos y que, por una razón u otra terminó asignando de forma permanente en la
ciudad después del final de su contrato con el la empresa responsable de la obra.
Propongo hacer frente a estos cambios como un "juego de ida y vuelta" (Ginsburg,
1989, p. 175), donde se toman las decisiones tanto como las estrategias individuales, a
pesar de que el peso del mundo social en el que los individuos se reúnen y terminan
contribuyendo en la construcción de su proceso de identidades. Esto nos permitirá
vislumbrar el tejido social complejo que se desarrolla invisible para buscar más
preocupados por la imagen binaria que estos procesos traicionan.

Palabras clave: Identidad - Estreito hidroeléctricas - Trayectoria - Historias de la Vida

Introdução

A construção da hidrelétrica de Estreito MA/TO, entre 2007 e 2012, provocou


movimentos migratórios de várias naturezas e direções. Desde trabalhadores que
acorriam à região em busca de emprego, a famílias que, por conta do lago formado pela
barragem, viram-se obrigados a abandonar as localidades em que habitavam para
retomar a vida em reassentamentos distantes do rio (SILVA JÚNIOR, 2016). A empresa
responsável por sua construção é o Consórcio Estreito Energia (CESTE), formado pelas
empresas GDF Suez-Tractebel Energia, Vale, Alcoa e Intercement.
Esta hidrelétrica encontra-se instalada no rio Tocantins, na divisa entre os
estados do Maranhão e Tocantins, nas cidades de Estreito – MA e Aguiarnópolis – TO.
Além destas duas cidades, sua área de impacto atinge Carolina – MA e as cidades os
seguintes municípios tocantinenses: Aguiarnópolis, Babaçulândia, Barra do Ouro,
Darcinópolis, Filadélfia, Goiatins, Itapiratins, Palmeirante, Palmeiras do Tocantins e
Tupiratins, no estado do Tocantins. Além das Terras Indígenas Kraholândia, Krikati e
Apinayé (LAMONTAGNE, 2010, SILVA JÚNIOR; PETIT, 2014,)
Dessa maneira, à luz da História do Tempo Presente proponho-me abordar
esses deslocamentos como um complexo “jogo de vai e vem” (GINSBURG; PONI,
1989, p. 175), no qual os indivíduos incorporam novos domínios de experiência
baseados na transitoriedade do lugar, nas relações sociais e na maneira de reproduzir a
própria existência. Para tanto lançarei mão da História Oral, entendida aqui como uma
263

abordagem em que “a experiência de vida das pessoas de todo tipo possa ser utilizada
como matéria-prima” (THOMPSON, 1992, p. 25), isto é, como fonte de conhecimento
histórico.
Nesse sentido, as trajetórias de vida de dois indivíduos serão postas em
primeiro plano. O primeiro é o baiano Adonias Avelino Brandão, que se dirigiu à região
de Estreito – MA em busca de trabalho na hidrelétrica. Pesar de não ter conseguido,
permaneceu na cidade. O outro é André Rodrigues Silva Santana. Natural de Estreito –
MA, trabalhou na barragem, mas acabou circulando por outros empreendimentos, fora
do Maranhão. A intersecção entre as memórias destes indivíduos que vivenciaram de
formas distintas a inserção da hidrelétrica no cotidiano de Estreito, nos conduzirá por
discussões acerca da relação entre identidade, história, e suas implicações nas trajetórias
individuais. Além de ajudar a “indagar as estruturas invisíveis dentro das quais [o]
vivido se articula” (GINSBURG; PONI, 1989, p. 178)
Tal como a história, a memória é um discurso sobre o passado. Os discursos,
sejam eles orais ou escritos, transcendem o âmbito meramente informativo. Por ser uma
ação social que envolve sentido e significado na capilaridade das relações de poder, seu
escopo consiste em convencer ou dissuadir. Assim senso, o discurso da memória
deslinda uma experiência do passado vivido ou transmitido. Essas categorias
intercambiam-se.
O exame das fontes orais exige uma articulação fluida e tensa entre o empírico
fornecido pela entrevista e o esforço teórico que sua análise exige. Reduzir a escala de
análise para a trajetória de um indivíduo a partir de suas memórias não o desloca de sua
conjuntura; pelo contrário, nos ajuda a pensar as “relações econômicas em conjunto
com as relações sociais, políticas e culturais, a partir da referência empírica recolhida na
observação direta” (LIMA, 2012, p. 212).
Nesse sentido, por meio da redução da escala de análise desejo vislumbrar algo
da realidade social que se impôs aos indivíduos após a instalação do canteiro de obras
da barragem. Assim, as trajetórias destes indivíduos servirão como via de acesso à
compreensão dos impactos, transformações e conflitos ocasionados pela conjuntura que
se formou a partir da construção da usina hidrelétrica de Estreito. Essa escolha não
implica na inclinação em afirmar que o recorte feito se articula como uma miniatura da
sociedade na qual ele está inserido ou mesmo o seu reflexo reduzido. O objetivo é
entender dimensões específicas de uma realidade social mais ampla, através da trajetória
laboral destes dois indivíduos. Uma dessas dimensões é justamente a precarização das
264

relações de trabalho às quais aqueles que empregaram-se no canteiro de obras


precisaram submeter-se.

Dramatis Personae suas redes de sociabilidade

Escolhi observar a conjuntura que se formou após a inserção da hidrelétrica de


Estreito por sobre os ombros de dois indivíduos, cujas trajetórias de vida possuem a
hidrelétrica de Estreito como ponto de convergência. São eles o baiano Adonias Avelino
Brandão e o maranhense André Rodrigues Silva Santana. São os fragmentos de
cotidiano fornecidos por suas narrativas que nos possibilitarão enxergar algo da
realidade social que envolveu a cidade de Estreito – MA à época da construção da
hidrelétrica.
Adonias nasceu na Bahia na cidade de Cachoeira. Ainda novo mudou-se com a
família para Conceição da Feira e, algum tempo depois, para Santo Estevão 103. Chegou
a Estreito em 2009, a convite de seu irmão mais velho, conhecido como “Boca”,
empregado na hidrelétrica desde 2008. Boca lhe arranjara trabalho no canteiro de obras
como armador de ferragens. Antes disso, Adonias passara uma temporada de oito meses
no Rio de Janeiro, trabalhando na manutenção de redes de esgoto. A impossibilidade de
sustentar-se com um salário de 611,00 R$ obrigou-o a retornar à casa da mãe, em Santo
Estevão - BA.
Quatro anos antes de sua chegada, os jornais locais já propalavam a expectativa
de que o empreendimento alavancaria a economia e o desenvolvimento da região. Em
2004, o Momento, jornal editado na cidade de Estreito, apontava que o empreendimento,
além de “ser uma obra de interesse nacional, de geração de energia para todo o país” 104
abriria cerca de 15 mil vagas de empregos diretos e indiretos. O Jornal Capital de
Imperatriz – MA, noticiava em 2006 que a construção da hidrelétrica geraria mais de
“seis mil empregos diretos e mais 15 mil indiretos”105. Por sua vez, O Progresso,
também de Imperatriz, trazia uma tabela com informações meticulosamente
organizadas, dentre as quais constava a expectativa de 5.500 empregos diretos e 16.500

103
Dados fornecidos pelo último senso demográfico realizado pelo IBGE, indicam que são cidades
pequenas. Cachoeira possui 35.013 habitantes, Conceição da Feira 22.840 e Santo Estevão 53.473. Todas
situadas nas imediações de Feira de Santana, cuja população é estimada em 622.639 habitantes. Cf.
IBGE, Cidades.
104
Usina de Estreito poderá sair do papel. Jornal Momento. Estreito. 13 a 24 abril. 2004. Região. p.04
105
Novas hidrelétricas geram 27 mil empregos no Tocantins. Jornal Capital. Imperatriz, 06 Jul. 2006,
Tocantins, p. 07.
265

empregos indiretos106. Assim, Adonias encontra-se entre aqueles que se dirigiram a


Estreito fiados na promessa de emprego e renda que acompanha projetos desta natureza.
No entanto, seu vínculo empregatício durou somente dois meses 107. Vejamos por que:
Na verdade, eu sou armador de ferragem, mas não tinha vaga quando eu
estava. Só tinha vaga de ajudante de armador. Aí eu entrei como ajudante,
mas eu fazia o serviço dos armadores todinhos, que eles eram só carteira
quente. Então, como eu vi que não dava certo - eu recebia 480,00 R$, eles
recebiam 777,00 R$ e ainda ficavam fazendo pouco da minha cara - porque
eu fazia o serviço deles e recebia menos [...] fazia o serviço de armador e
ganhava de ajudante108.

Os carteiras quentes a quem Adonias se referiu, são operários que exercem


uma função, mas têm registrada na carteira de trabalho outro ofício. Como os ajudantes
de armador que ficharam na empresa como armadores. É possível que a postura destes
trabalhadores tenha influenciado a decisão de Adonias. Ora, ao mencionar: “eu vi que
não dava certo”, deixa entrever que evidentemente não estava satisfeito com as
condições em que trabalhava. Ora, viera a Estreito para trabalhar de armador, mas
precisou contentar-se com uma ocupação subalterna, cujos vencimentos eram inferiores
aos de seu emprego anterior. Para completar, ainda tinha que aturar os colegas de
trabalho que tiravam troça por ele ganhar menos e trabalhar mais que eles. Todavia,
ainda assim, tal decisão parece inusitada, por vir de alguém que chegara a poucos meses
na cidade em busca de emprego.
Além de nos apresentar o motivo que precipitou sua desistência do trabalho, o
entrevistado reitera que não foi dispensado, mas escolheu deixar o emprego: “na lista de
corte, foi eu mesmo que coloquei meu nome [...]; não foram os engenheiros que me
colocaram para fora [...]. Eu esperei o apontador sair [...], fui lá e olhei meu nome, se
estava na lista de corte, e não estava. Aí eu fui e coloquei” 109. Tal escolha não penas
afastou-o naquele momento do canteiro de obras, mas pode ter também criado
condições para que não voltasse a trabalhar na barragem, distanciando definitivamente
dela sua trajetória laboral.
Bem distinta é a trajetória feita pelo maranhense André, que teve sua relação
empregatícia com a hidrelétrica marcada por idas e vindas. Entre 2009 e 2010, por

106
Consórcio estreito espera licença do Ibama para iniciar hidrelétrica. O Progresso. Imperatriz, 23 Jan.
2005. Regional, Caderno 1 p. 04.
107
Trabalhou na fase das obras civis, que dentre outras coisas, consistia em desviar o curso do rio
Tocantins pela estrutura do vertedouro da barragem.
108
Adonias Avelino Brandão. Entrevista realizada em 25 de outubro de 2016.
109
Adonias Avelino Brandão. Entrevista realizada em 25 de outubro de 2016.
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possuir uma carteira da marinha, trabalhou atravessando numa balsa mecânicos de um


lado a outro do rio Tocantins.
Tinha um colega meu que alugou o barco para a barragem, para ficar
levando os engenheiros, fazendo pesquisa. Aí primeiro eu fichei com
uma outra empresa que prestava serviço para uma terceirizada e eu fui
para Araguaína, fiz exames e fichei com esse cara, fiquei só
atravessando mecânico do lado do Tocantins para o Maranhão no
turno da noite110

Em seguida emprega-se numa empresa terceirizada que prestava serviços para


o Consórcio Estreito Energia (CESTE), como ajudante de eletricista. Neste ínterim
retoma as funções de ajudante de marinheiro.
Da “Santos Lotações”, a primeira empresa que eu fichei lá dentro. Aí
eu saí, fiz esse curso e consegui com um colega meu que morava aqui
perto de ajudante de eletricista [...]. Quando eu fichei, entreguei os
documentos todos, eles viram que eu tinha carteira da marinha. Aí
esse colega meu falou: ‘Vem para cá que a gente tá precisando de um
[ajudante de marinheiro]’. Já fui classificado de ajudante para
marinheiro. Aí [...] passei onze meses também, entre ajudante e
marinheiro. Aí teve uma redução e eu saí111

Todo este percurso feito por André só pode ser entendido se examinarmos a
rede de sociabilidades em que ele se viu enredado, assim como as escolhas que efetuou
em meio às circunstâncias a que sua rede de relações acabou por lhe conduzir. O
historiador espanhol Jose Maria Imízcoz que debruçar-se sobre os indivíduos por meio
de suas redes sociais possibilita-nos entender meandros da sociedade pouco percebidos
em análises pretensamente mais globalizantes, pois “partir de los actores y de sus
configuracionaes reales para observar como se articulan realmente y explicar mejor sus
conductas y dinâmicas” (IMÍZCOZ, 20004, p. 121).
Em meados de 2010, encontramos André em outra empresa prestadora de
serviços à barragem. Desta vez como lixador. Dois meses depois é promovido a
soldador na mesma empresa. Nesse interim, mesmo empregado, André matriculou-se
em um curso de Técnico em Segurança do Trabalho com vistas a conseguir uma vaga
em outra empresa que também prestava serviços ao CESTE, a “Inês Engenharia e
Montagem”. Podemos supor que esta atitude de André se calcava na experiência de
contratos curtos que tivera nas empresas em que havia trabalhado. No entanto, o
certificado de técnico em segurança do trabalho não era suficiente para seu ingresso.

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André Rodrigues Silva Santana. Entrevista realizada aos 25 de outubro de 2016.
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Além da demanda por emprego ser superior à sua oferta, André não era o único
Técnico em Segurança do Trabalho que concluía o curso. Era fundamental, então,
lançar mão de uma estratégia ou atentar-se ao surgimento de uma oportunidade. Mais
uma vez, estabelecer relações com alguém ligado à barragem impõe relevância. André
esboça o problema nestes termos: “eu estava querendo entrar nela. Só que eu não
conhecia ninguém”112.
Isso nos indica que, se a capacitação para o emprego era importante, conhecer
alguém que lhe intermediasse uma entrevista com o empregador era fundamental. Tanto
é assim, que a dificuldade foi resolvida no momento em que nosso interlocutor conhece
a neta de um encarregado da área de mecânica da empresa. Ele nos diz que, “Fazendo o
curso lá, eu conheci a neta de um supervisor [...] e ela perguntou: ‘André tu saíste a
OAS?’”. André responde afirmativamente. Então a jovem lhe pergunta se ele não estaria
interessado entrar numa empresa na qual seu avô era supervisor de solo. Ao quê André
responde: “pois então arruma alguma coisa aí para mim”. “Tu queres fichar de
lixador?”, indaga a moça. “Ficho, na hora”, responde André. Então, “O avô dela
mandou me chamar. Eu fui lá e fichei de lixador. Aí pronto. Fiquei dois anos e dois
meses” 113
Nesta mesma empresa, André passa de lixador a soldador. Em 2012, é
dispensado e ruma para Imperatriz, dessa vez para trabalhar na Suzano Papel e
Celulose: “Trabalhei lá onze meses. Aí o pessoal que estava aqui me convidou para ir
para Rondônia, para Jirau [...]. Passei um ano quatro meses lá [...]. Aí saí de lá e entrou
a crise. Aí não consegui mais fichar” 114.
Em 2014 encontramo-lo trabalhando como soldador na hidrelétrica de Jirau 115,
em Rondônia. Lá passou um ano e quatro meses. Tenta em seguida fichar-se na
hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira – PA, mas não consegue. Podemos notar aqui
que as possibilidades de trabalho se expandem para André ancoradas em dois fatores:
Primeiro, à medida que sua grade de sociabilidades vai se tornando mais complexa. Em
segundo lugar, sua versatilidade. Ora, além de ter a carteira que lhe permitia conduzir
embarcações, acabara de fazer um curso de ajudante de eletricista. Todavia, o fato de
André em toda a entrevista precisar o tempo que permaneceu em cada empresa nos leva

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A hidrelétrica de Jirau foi construída em Rondônia e faz parte do complexo de usinas instaladas no rio
Madeira.
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à ilação de que, se por um lado, ter amigos que de alguma forma possuíam acesso à
hidrelétrica facilitava a aquisição de uma vaga no canteiro de obras, por outro lado, essa
malha relacional mostrava-se ineficaz quando se tratava de manter-se no emprego. Isto
fica claro quando André decide pleitear uma vaga de soldador em altamira, na
construção de Belo Monte.
Estava querendo ir para Belo Monte. Passei duas vezes tentando fichar
lá, mas não consegui [...] fiz duas vezes o teste lá, mas acho que
sumiram com meu teste [...] o encarregado que me chamou para lá
[...]. O fiscal chamou ela para ir para Belo Monte. Aí ele foi e queria
levar a equipe dele, só que quando chegou lá, ele não tinha as forças
para fichar a gente. Aí ficou, tentou e não deu certo, aí peguei e fiquei
aqui. Aí fichei na Suzano de novo, passei um mês fichado, aí voltei
para cá para Estreito116.

Em Belo Monte sua rede de relações mostrou-se ineficaz. Era necessário


também que seu elo com a barragem tivesse influência.
Retorna ao Maranhão e emprega-se novamente na Suzano. Passado um mês
volta a Estreito e é convidado por um colega de firma para tentar a sorte em Mato
Grosso, na construção da hidrelétrica de Sinop, mas sua tentativa soçobra diante da
negativa das empresas em concederem emprego ao Maranhenses, conhecidos no
canteiro de obras como dados a confusões. Ao tornar a Estreito emprega-se por três
meses em uma empresa responsável pela manutenção da ferrovia Norte-Sul. Em 2016
decide então investir o dinheiro ganho com a venda de um terreno em um curso de
“martelinho de ouro” feito em São Paulo. De volta a Estreito, trabalha por alguns meses
em uma empresa responsável pela manutenção da barragem. Atualmente empenha-se na
abertura de uma oficina de estética automotiva.
Voltemos a Adonias. Não foi por vontade própria que não conseguiu retornar
ao canteiro de obras da barragem. Após sua saída voluntária retorna para a Bahia. Em
2010 volta a Estreito para tentar novamente uma vaga na construção da hidrelétrica, mas
não consegue ser fichado. Porém, permanece em Estreito até o final deste ano, pois o
irmão lhe arranjara um emprego no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil
(PETI) e no PROJOVEM, como professor de Capoeira. No fim de 2010 retorna à Bahia,
mas o desemprego força-o a voltar novamente para Estreito e retomar as atividades de
professor de Capoeira no início de 2011. A partir daí, tendo Estreito como lugar de
referência, Adonias transita pelas localidades adjacentes dando aulas novamente pelo

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PETI e PROJOVEM. Segundo ele: “dei aula dois anos aqui, no Estreito; dei aula dois
anos em Aguiarnópolis e dei aula sete meses na Ribeira” 117.
Seu retorno a Estreito não foi motivado somente por necessidades econômicas.
Adonias talvez tenha raciocinado que as relações que forjara em sua primeira estadia em
Estreito, facilitariam a aquisição de uma ocupação remunerada. Somando-se a isto,
havia o fato de nosso interlocutor ter contraído relações afetivas mais profundas na
cidade. Ao ser perguntado o motivo pelo qual havia retornado mais uma vez à cidade
ele nos responde assim:
Porque eu me dei bem com uma mulher aqui, aí fiquei. Gostei da
cidade, todo mundo gostava de mim. Eu não tinha desavença com
ninguém, não brigava com ninguém [...]. E aí eu fiquei, aí eu retornei
[...]. Depois não deu certo com essa mulher que eu estava, aí fui e me
casei com outra (que é essa daqui). Passei três anos com a outra, não
deu certo. Aí fui casei com essa, aí já tem quatro anos. Agora eu vou
na Bahia dar uma passeada, levar ela para conhecer a família118.

A coabitação com uma mulher do lugar, com toda certeza, deve tê-lo
introduzido num rol de relações menos frágeis e que lhe oportunizaram novas formas de
rendimento. Isto pode ser corroborado, pelo fato de Adonias, concomitante às suas
atividades como professor de Capoeira, associar-se à Colônia de Pescadores de Estreito:
“Das outras vezes eu voltei porque... estava bom aqui. Eu sou pescador também, sou
armador [...] e a pesca aqui, eu vivia bem e vivo até hoje” 119.
A condição de pescador permitiu que Adonias fosse atingido pelos efeitos
negativos da barragem de Estreito. O principal deles foi a mortandade de peixes na
região do lago. Como associou-se à Colônia de Pescadores antes da abertura da primeira
comporta da hidrelétrica, Adonias pode comparar as condições de pesca antes e depois
da construção da barragem e reitera que a mortandade de peixes acentuou-se após o
fechamento das comportas: “às vezes em um dia eu faço um salário; fazia, porque agora
está meio difícil. Depois que a barragem foi feita, aí diminuiu a pesca. Eu pegada
dezesseis peixes, em quatro eu fazia 600 R$. Agora, está meio devagar” 120. E o
confronto entre o antes e o depois da barragem continua desta forma:
Eu pegava quinze, dezesseis Jaús, Surubim, esses outros peixes. E
agora, eu vou [e] acho cinco, seis... é assim. Depois da barragem
diminuiu a.... logo que teve uma mortalidade, acho que foi umas cinco
a seis carretas de peixes, na barragem, [por] que faltou oxigênio. Aí,

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inclusive os pescadores entraram com uma ação para receber essa


indenização da mortalidade dos peixes, mas não conseguiram ainda. E
até hoje, ainda morre peixe lá. Eles tiram escondido e enterram para
ninguém saber. Mas tem alguns trabalhadores que avisam para a
gente121.

A mesão à mortalidade de peixes não foi uma referência isolada. Em 2011 a


associação de índios Apinajés entre com uma ação no Ministério Público denunciando o
CESTE como responsável pela mortandade de aproximadamente 20 toneladas de
peixes122. O discurso, de Adonias, no entanto, não toma uma direção ecológica ou
ambientalista. De antemão, não há a preocupação com a preservação da natureza ou de
protesto à sua destruição. Seu protesto é mais econômico que ambiental. Ele se ressente
de que sua renda atual seja muito inferior à dos anos anteriores ao funcionamento da
hidrelétrica. A morte dos peixes é vista por Adonias menos como catástrofe ambiental
do que como problema econômico direto e imediato que ele precisa contornar de
alguma forma.
Os dois narradores nos fornecem duas trajetórias distintas que possuem a
construção da hidrelétrica como eixo. Se por um lado a vida profissional de Adonias
afasta-se da hidrelétrica por completo; os caminhos empregatícios de André
estabelecem com ela uma relação de ida e volta. Talvez o tempo que Adonias passara no
canteiro de obras não lhe permitira construir redes de sociabilidade que lhe
possibilitassem continuar o percurso de armador de ferragens na hidrelétrica ou em
outro empreendimento que exigisse a qualificação.

As estratégias diante da precariedade das relações de trabalho

Não obstante as flagrantes discrepâncias que os caminhos percorridos por


André e Adonias guardam entre si, suas trajetórias que Estreito aderiu à mesma lógica
engendrada por projetos hidrelétricos que, por sua vez, é reflexo de da estrutura mais
geral da sociedade capitalista moderna. Esta lógica é marcada pela precarização das
relações de trabalho, traduzida em contratos curtos, por temporada. Manuel Castells
afirma que essa “flexibilidade e instabilidade do emprego e a individualização da mão-

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Por que eles estão morrendo? Toneladas de peixes mortos no lago de hidrelétrica de Estreito preocupa
população em ambientalistas. Jornal Momento. Estreito. 07 a 23 abril. 2011. Maranhão-Pará-Tocantins.
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de-obra” (CASTELLS, 1999, p. 17), assim como a organização das atividades


econômica em redes globalizadas é característica fundamental do capitalismo moderno
que obedece à premissa de que a insegurança dos postos de trabalho eleva o nível de
competitividade que, por sua vez, aumenta a produção e os lucros.
Os discursos de nossos interlocutores, não obstante suas distinções, nos
apontam para uma característica importante do cotidiano dos trabalhadores de alguma
forma envolvidos na construção da hidrelétrica de Estreito. Essa característica é a
insegurança empregatícia. As relações de trabalho são marcadas por uma espécie de
obsolescência programada. São curtas e flexíveis. Esta não é, evidentemente, uma
característica inaugurada por este empreendimento; ele tão somente realiza essa espécie
de relação de maneira eficaz.
Essa obsolescência programada flexibiliza não somente as relações dos
trabalhadores entre si e com seus empregadores, mas inflige um caráter fluído aos
próprios trabalhadores, que precisam não somente movimentar-se de empresa em
empresa, mas deslocar-se para outros lugares e migrando também de profissão. A
entrevista de André é muito ilustrativa a respeito disso. Ele nos expõe sua última
contratação para trabalhar na barragem desta maneira: “Eles disseram, ‘André, tu
assinas o contrato, o serviço é de sessenta e poucos dias (para mais ou para menos)’ Aí
eu falei: ‘tranquilo’. Aí fichei. Fizemos lá o serviço, tivemos uma ótima pontuação,
tanto pelo CESTE, quanto pela Tractebel” 123.
À precariedade das relações de trabalho assim como à dificuldade de fichar em
uma firma sem indicação, os trabalhadores lançavam mão de diversas estratégias. André
nos cita duas. A primeira, utilizada por ele mesmo, foi a de ocultar sua origem
maranhense dos empregadores.
Aí eu cheguei lá com o endereço de residência do Tocantins e um
número do Tocantins para ver se eu fichava [...]. Eles me alojaram e
tudo, mas quando ‘puxaram’ meus documentos e não tinha o meu
nome no comprovante de residência, inventaram meio mundo de
problemas, disserem que não dava para me fichar naquele dia [...] que
eu tinha que vir para cá, que depois eles me ligavam124.

A outra forma de lidar com a precariedade dos empregos era a de tirar


vantagem de alguma maneira dessa situação.

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André Rodrigues Silva Santana. Entrevista realiz