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O Mecanismo

§1- Na Idade Clássica se definiam duas correntes que tinham como objeto de estudo os
seres vivos, sendo essas: a fisiologia e a história natural, sendo somente a segunda
constituída como ciência, pois o pensamento da época favorecia a análise das estruturas
visíveis. Com isso, o de mais importante seria investigar os conceitos utilizados para o
estudo do mundo vivo.
§2- No século XVII haveria apenas uma alternativa para determinar um lugar para os
seres vivos e também explicar seu funcionamento: “Ou os seres são máquinas de que só
se deve considerar as formas, dimensões e movimentos, ou escapam às leis da
mecânica, devendo-se então renunciar a encontrar unidade e coerência no mundo”. Com
essa escolha o ator diz que os filósofos, físicos, e médicos não hesitariam sobre a
seguinte afirmação “toda natureza é máquina, como a máquina é natureza”. François
Jacob cita Hobbes, e analisa sua citação dizendo que “pode-se distintamente considerar
o animal como uma máquina ou como um autômato cujos membros se mexem como os
de um homem com vida artificial” sendo isto uma identidade, sendo que todos os corpos
são submetidos às mesmas leis de movimento. François completa falando que esse
mecanicismo é natural e necessário para a época, assim como o vitalismo no início da
biologia.
§3- Até o final do século XVIII não existe uma delimitação entre os seres e as coisas,
ainda não existe divisão fundamental entre vivo e não-vivo. Habitualmente a divisão
feita (mineral, vegetal e animal) serve para estabelecer grandes categorias entre os
corpos. De acordo com Charles Bonnet podemos também nos basear no grau de
organização dos corpos (na capacidade de raciocinar, faculdade de se mover),
distinguindo “os Seres brutos ou sem organização, os Seres organizados e inanimados,
os Seres organizado e animados e finalmente os Seres organizados, animados e
racionais” sendo que nesses diferentes grupos não há cortes bem definidos. Essa
organização só representa a complexidade da estrutura visível, não se reconhece ainda a
qualidade específica chamada vida pelo século XIX, também não existem grandes
funções necessárias à vida (existem órgãos que funcionam). Sendo que a fisiologia será
consistida em reconhecer as engrenagens e articulações, referindo-se a Hobbes
novamente.
§4- Logo, no século XVII não se separa um lugar para os corpos vivos, e subtraindo
eles ao que François Jacob chama de “à grande mecânica que faz o universo girar”. O
que é acessível à análise são as leis do corpo dos animais, dando como exemplo a
ossatura dos animais e se seu tamanho (que não pode aumentar indefinidamente, pois
quebraria sua coerência e dificultaria o funcionamento dos órgãos, de acordo com
Galileu). Outro exemplo dado por Borelli é o voo dos pássaros, no qual deve existir uma
relação de peso corporal, envergadura das asas em conjunto com a musculatura, para
que o organismo se desprenda do solo, com isso, é acrescentado que um homem mesmo
que com asas não conseguiria se desprender do solo, pois sua musculatura no peito não
se faz suficiente.
§5- François conclui que no século XVII, a teoria dos animais-máquinas é imposta pela
natureza do conhecimento. Diz que talvez pode ter existido nos gregos, em Aristóteles,
ou nos atomistas, alguma atração pelo mecanicismo. Entretanto esse se dava de forma
diferente, pois, nos gregos tratava-se de analogias com o objetivo didático, já na Idade
clássica, o interesse é outro, a unificação das forças que regem o mundo. Para
Aristóteles o motor de todo movimento resida na alma, e para Descartes as propriedades
dos objetos só podem vir do arranjo da matéria. Sendo verdade para os movimentos de
uma máquina, que foram criadas com o objetivo dela exprimir um determinado
movimento. O que faz-se também verdade no corpo dos animais, sendo inútil invocar
alguma outra alma ou algum outro princípio de movimento e de vida. Portanto o
mecanicismo deve se aplicar a fisiologia, sendo tudo possível em relação das forças
físicas.
§6- À medida que a complexidade dos seres vivos avança, fica mais difícil os adequar
ao mecanicismo, pois “A imagem que dá dos seres vivos, a de uma máquina composta
de engrenagens capazes somente de transmitir o movimento recebido, só pode levar a
procurar fora da máquina tanto sua razão de ser quanto seu fim. Uma máquina só se
explica de fora”, tendo uma finalidade ela só se aplicaria a essa tarefa. As diversas
formas de acentuar ou limitar o mecanicismo se manifestam da mesma forma na Idade
clássica, fazendo maior referência a metafisica do que pela ciência da época. Descartes
em sua descrição do mundo vivo,teria excluído dois domínios (Deus –pois não intervém
mais– e o pensamento humano– cuja complexidade ultrapassa os animais, ou é
realizável nos autônomos como a linguagem).
§7- Há dois componentes no animismo da Idade clássica. Primeiro a valorização do que
vive, que é acompanhado por um fetichismo e situa-se acima de todos os outros corpos.
“A necessidade de valorizar o vivo em geral, o homem em particular, traduz-se então
por dois tipos e antropomorfismo: prolonga-se até o infinito a hierarquia de uma
inteligência soberana ou, ao contrário, atribui-se ao conjunto das formas vivas algumas
qualidades próprias ao homem”. Físicos e geômetras encontram que cada alvéolo
corresponde à metade dos cristalógrafos (“dodecaedro romboidal”), que é a formação
cuja simetria melhor permite a ocupação do espaço, portanto, é possível assumir a
atitude de procurar uma explicação em um modelo mecânico.
§8- Outra atitude diante dos alvéolos é a análise na qual somente a figura e o
movimento devem justificar a regularidade das estruturas, podendo então pesquisar as
condições que se apresentam essas articulações geométricas. É dado diversos exemplos
de lugares em que ocorre essa regularidade, ocorrendo sempre que objetos de forma
semelhante são submetidos a forças sensivelmente iguais, mas em sentidos contrários.
“Não se quer ver, ou não se duvida, que esta regularidade, maior ou menor, depende
unicamente do número e da figura, e não da inteligência destes pequenos animais” (diz
se referindo as abelhas utilizadas como exemplo para citar os hexágonos de suas
células), com essa fola, é possível considerar que as formas dos alvéolos são sem
referência e sem inteligência.
§9- O outro componente do animismo na época é a reação contra o mecanicismo
cartesiano e contra os abusos quando levado sua lógica ao extremo. De acordo com
Hartsoeker se aborda os seres vivos para o estudo com “a opinião de que tudo se faz
quase que unicamente pelas leis da mecânica, sem a ajuda de uma alma e de uma
inteligência”. Na Idade clássica o animismo retoma uma hostilidade em relação ao
ateísmo, seria necessário uma força espiritual, uma Psyché para executar as vontades
divinas, pois não há outra justificação para a finalidade dos seres vivos, esse agente
recebe diversos nomes: Alma, Inteligência, “natureza plástica”, e no século XVIII se
tornará “força vital”. Com isso, ele “é uma qualidade particular da matéria que constitui
os seres vivos, um princípio que se difunde por todo corpo, aloja-se em cada órgão,
cada músculo, cada nervo, para conferir-lhe suas propriedades”. François Jacob então
diz que “mas se o vitalismo do final do século e do começo do século seguinte aparece
como uma etapa decisiva para que os seres se separem das coisas e para que se constitua
uma biologia, o animismo da Idade clássica não funciona como operador do
conhecimento”. Na Idade clássica o que importa, diz o autor, é retirar os objetos e os
acontecimentos do halo de crenças e de fantasias que mascaram seus contornos, de
colocá-los dentro dos limites do visível e do analisável, ou seja, transformá-los em
objetos de ciência. Pois o mecanicismo representa mais a atitude em conformidade com
a ciência, ao contrário do animismo, que representa mais uma filosofia e uma moral do
que uma atitude de pesquisa científica.
§10- O mecanicismo muda de natureza com Newton, e incorporando o mundo das
substâncias dá origem à química. “A matéria e ao movimento que constituíam o mundo
de Descartes, o de Newton adiciona o espaço, isto é, um vazio em que se movem as
partículas”, o que as mantém no lugar e as liga entre si é a atração, que fornece aos
químicos a força que permite substituir as influências astrais que a alquimia ligou os
metais às estrelas e planetas. “Quando se misturam as substâncias, elas não ficam
inertes: deslocam-se umas em relação às outras. Observam-se assim, entre corpos
diferentes, relações que fazem com que se unam uns aos outros com maior ou menor
facilidade”. A força que liga certos corpúsculos de diferentes natureza se chama
“afinidade”, uma propriedade dos corpos que é possível ser medida, determinando a
ordem que se deslocam os outros.
§11- Logo é possível separar grupos, famílias de corpos que possuem propriedades em
comum (como ácidos ou as bases). Podendo classificar as substâncias como se fazia
com as plantas. François Jacob diz que “como a química é antes de tudo uma ciência da
análise, a denominação dos corpos se reveste de uma importância particular: ‘Um
método analítico é uma língua e uma língua é um método analítico”. Para Lavoisier,
trata-se da introdução da análise na química, sendo possível com o aperfeiçoamento da
linguagem. E o autor começa a descrever em seguida como Lavoisier fez sua ordenação,
começando pelas substâncias simples e assim por diante. “As substâncias tornam-se
assim, acessíveis à ordem e à medida. Podem ser classificadas, denominadas, suas
propriedades podem ser medidas”. Constituindo a química como ciência com suas
técnicas, linguagem e conceitos próprios.
§12- Com esse novo modo de mecanicismo, um mecanicismo modificado, abre-se
portas para um novo domínio da fisiologia se tornar objeto de estudo. Harvey pode
analisar a circulação do sangue, uma das funções que diz respeito às leis do movimento,
pois, “o coração é uma bomba e o sangue um líquido submetido às leis da hidráulica”.
Da mesma forma a análise das duas funções (que pertencem ao campo da química):
digestão e respiração, se tornam acessíveis. “Se Réaumur e Spallanzani podem abordar
o estudo da digestão, é porque esta, é levada a cabo unicamente pela ação de um
dissolvente e pela fermentação que ele produz” diz Réaumur. Faz-se então uma
analogia, o suco gástrico de certa forma age sobre as carnes e os ossos como a água
sobre o ouro, conectando assim, ao fato de que Lavoisier conseguiu compreender a
respiração, colocando a respiração de um pássaro e a combustão de uma vela como
semelhantes, sendo possível serem analisados com as mesmas técnicas, medidas e
conceitos. A semelhança com a combustão faz com que Lavoisier ligue a respiração à
digestão, pois no século XVIII não há fogo sem o consumo de combustível, e, portanto,
ele cita: “se os animais não reparassem através da alimentação o que perdem pela
respiração, logo faltaria óleo para o lampião e o animal pereceria como um lampião se
apaga quando lhe falta alimento”. Ou seja, em todo órgão existe um domínio que pode
ser estudado, pelas técnicas da química.
§13- Ou seja, para Lavoisier analisa-se o animal em termos de máquina, segundo
princípios variados (não apenas pela figura e pelo movimento), já que é possível
descobrir fenômenos elétricos até mesmo no músculo de uma rã. O modelo que melhor
permite descrever um corpo vivo é o da máquina a vapor, “com uma fonte de calor que
é preciso alimentar, um sistema de resfriamento e mecanismos para ajustar as operações
das pares para coordená-las, harmonizá-las, para Lavoisier a máquina animal tem três
reguladores principais: respiração, transpiração, e digestão. Respiração que consome o
oxigênio e o carbono e que fornece o calórico. Transpiração que aumenta e diminui
dependendo da necessidade do calórico. Digestão que devolve ao sangue o que ele
perde pela respiração e transpiração. Podendo ser possível estes diferentes domínios da
fisiologia serem analisados dessa forma, pois se tornam acessíveis aos métodos e aos
conceitos da física e da química. Inclusive, essas analogias e modelos contribuem para
transformar a representação dos seres vivos no fim do século XVIII. “Um corpo vivo
não é simplesmente uma associação de elementos, uma justaposição de órgãos que
funcionam. É um conjunto de funções, sendo que cada uma responde a exigências
precisas”. E, por fim, se conclui que o que dá aos seres suas propriedades é “um jogo de
relações que secretamente une as partes para que o todo funcione”. Dando abertura para
que a ideia de um conjunto de qualidades específicas aos seres surja. E essa ideia será
chamada de vida pelo século XIX.