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ISSN 2179-3506 AW@RE REV. ELET., v3, n.

1, 2013

AW@RE 2013/02
SUMÁRIO

EDITORIAL ARTIGOS
EDITORIAL 2 TERAPEUTA SUPERVISOR:
Por Angela Schillings ACOMPANHANDO DESCOBERTAS 14
Por Ana Maria Justo

O ATENDIMENTO INFANTIL NA CLÍNICA


GESTALT: UM RELATO DE CASO 23
Por Leonardo Pereira de Lima
DEBATE
INICIANDO OS ATENDIMENTOS: A
SUPERVISÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL E O CONFRONTO
GRADUAÇÃO - UMA EXPERIÊNCIA ENTRE A COM A FRUSTRAÇÃO. DESCREVENDO O
DOCÊNCIA E A PSICOTERAPIA 3 PROCESSO DE UMA PSICOTERAPEUTA
Por Célia Cristina Bandeira
INICIANTE EM GESTALT TERAPIA 33
Por Sarah Hermes Reguse
SUPERVISÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA NA
GRADUAÇÃO - UMA EXPERIÊNCIA ENTRE A VIVER, PRECISAR, AJUSTAR: UMA
DOCÊNCIA E A PSICOTERAPIA 4 COMPREENSÃO GESTÁLTICA DOS
Por Ana Maria Veiga Lima
AJUSTAMENTOS CRIATIVOS NO
DESENVOLVIMENTO INFANTIL. 40
SUPERVISÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA NA Por Mariane Comelli dos Santos
GRADUAÇÃO - UMA EXPERIÊNCIA ENTRE A
DOCÊNCIA E A PSICOTERAPIA 6 PROCESSO E ELABORAÇÃO DE PERDAS
Por Luciana Rosa
SOB A PERSPECTIVA DA GESTALT TERAPIA 47
Por Caroline Schmitz Cardoso

“LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A


VOLTA POR CIMA”: UM DIÁLOGO ENTRE
CONCEITOS DA GESTALTTERAPIA E DE
OPINIÃO RESILIÊNCIA 53
Por Luciane Pereira dos Santos Santana
A SUPERVISÃO COMO EXPERIÊNCIA
TRANSFORMADORA: UM ALICERCE PARA
ALUNOS EM FORMAÇÃO NA ABORDAGEM
GESTÁLTICA 7
Por Fabíola Mansur Polito Gaspar EXPRESSÃO LIVRE
APRENDER A APRENDER: OS PRIMEIROS
PASSOS DE UM PSICOTERAPEUTA 61
ENTREVISTA Por Elise Haas

SUPERVISÃO DE ALUNOS DE GRADUAÇÃO


EM PSICOLOGIA CLÍNICA 11
Por Angela Schillings

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ISSN 2179-3506 AW@RE REV. ELET., v3, n.1, 2013

AW@RE 2013/02
EDITORIAL Por Angela Schillings

Caros colegas, estamos lançando alunos do curso de especialização em demonstram como alguns temas que
mais uma edição da nossa Revista Gestalt-terapia no acompanhamento foram figuras no trabalho terapêutico
Eletrônica Aw@re e neste número, de psicólogos já graduados. A com seus clientes, tais como os
optamos por dedicarmo-nos ao tema Entrevista foi feita com nosso ajustamentos criativos na infância,
“Supervisão e seus desdobramentos colega Georges Boris, professor elaboração de perdas e resiliência,
com terapeutas iniciantes”. e supervisor da Universidade de podem desencadear a necessidade
Esta temática possui um caráter Fortaleza (UNIFOR) que nos traz, de uma maior compreensão teórica
fundamental no desenvolvimento através de sua larga experiência, por parte do aluno. E, finalizando
da formação dos psicólogos clínicos pontos significativos e necessários esta edição, apresentamos na seção
e dos psicoterapeutas, já que ao à reflexão deste lugar de supervisor. Expressão Livre a poesia de uma
iniciarmos nossa trajetória somos Abrimos a seção Artigos com o jovem supervisora que faz da arte da
invariavelmente acompanhados por trabalho de Ana Maria Justo, gestalt escrita sua forma de expressar a arte
um supervisor. Esta atividade de terapeuta e supervisora de alunos de de ser supervisor.
supervisão possui peculiaridades graduação, que descreve a vivência
Como temos poucas publicações
diversas - do lugar de quem da autora refletida teoricamente à
sobre esta temática, esperamos que
supervisiona e do lugar de quem luz da Gestalt-terapia. Os artigos
as experiências aqui relatadas possam
está aprendendo a se desenvolver de Leonardo Pereira Lima e Sarah
ser de valia aos supervisores que já
no papel de terapeuta, formando um Hermes Reguse nos mostram a
possuem experiência nesta tarefa
campo rico em seus entrelaçamentos. importância que os estágios possuem
(pois, sem dúvida, se identificarão),
na vida dos alunos e como a partir
Nesta edição, contamos com a aos profissionais que desejam iniciá-
das supervisões é possível uma
participação das gestalt terapeutas la, bem como aos alunos que buscam
compreensão dos fenômenos do
Célia Cristina Bandeira, Ana Maria saber um pouco mais sobre este
campo, possibilitando lidar com as
Veiga Lima e Luciana Rosa, que início de jornada como terapeutas
dificuldades iniciais neste processo.
se disponibilizaram a discutir a principiantes na prática profissional.
Mariane Comelli dos Santos, Caroline
experiência de supervisão de
Schmitz Cardoso e Luciane Pereira
estagiários de curso de graduação em
dos Santos Santana escrevem sobre
psicologia, na seção Debate. Fabíola Um grande abraço,
temáticas que foram mobilizadas
Polito Gaspar, na seção Opinião,
durante a sua relação com seus Angela Schillings
nos convida a ter contato com sua
primeiros clientes que, mesmo não Editora Geral
perspectiva como supervisora de
estando descritas em primeira pessoa,

Angela Schillings é Mestre em Psicologia; Especialista em Psicologia


Clínica; Gestalt Terapeuta há 28 anos; Professora do Departamento de
Psicologia da UFSC há 32 anos; Formadora de Gestalt Terapeutas há 24
anos; Diretora do Centro Comunidade Gestáltica – Clínica e Escola de
Psicoterapia em Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

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DEBATE
SUPERVISÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA NA GRADUAÇÃO -
UMA EXPERIÊNCIA ENTRE A DOCÊNCIA E A PSICOTERAPIA

Por Célia Cristina Bandeira


Célia Cristina Bandeira tem Graduação em Psicologia pela Universidade
Federal de Santa Catarina (1988). Mestrado em Engenharia de Produção pela
Universidade Federal de Santa Catarina (2002) com o tema: Interferência
das vivências de desenvolvimento pessoal no empreendedorismo interno.
Especialização em Gestalt Terapia e Especialista em Psicologia Clínica pelo
CFP (2003). Psicoterapeuta da Clínica do Comunidade Gestáltica efetuando
atendimentos nas modalidades: adulto, casal e família; pacientes oncológicos
e enlutados. Professora e supervisora do Curso de Especialização de Gestalt
Terapia na Escola do Comunidade Gestáltica. Docente e orientadora nas áreas
de: Psicologia Clínica e Organizacional. Consultora de empresas na área de
Gestão de Pessoas.

O inicio do meu trabalho como É baseado nesta abordagem que o de contato e assumissem sua autoria,
supervisora de alunos de graduação trabalho de supervisora aconteceu. transformando conhecimento em
em psicologia foi um grande desafio, experiência de vida. Esse processo de
Dividir a celebração desse
pois minha experiência até então aprendizagem grupal proporcionou
processo de supervisão neste
era como professora, consultora uma exploração de todos os tipos
momento era algo especial para
e terapeuta. Senti o peso e a de diversidade e provocou ricas
mim e para eles, porem a figura
alegria de experienciar com esses experiências de troca.
“responsabilidade” era muito
alunos principiantes o meu iniciar
forte para o grupo. Procurei criar Para o atendimento clinico,
de supervisora. Sentia também a
um campo aberto onde eles precisamos dos ensinamentos de
responsabilidade de contribuir com
pudessem se experimentar, se Buber, pois é necessário muito
meu conhecimento e experiência
sentir à vontade para perguntar, cuidado, presença, inclusão e
para a formação de futuros
criar, questionar, vivenciar suas confirmação porque estamos
profissionais. Essa nova fase me
angustias nesse novo, então cada lidando com a vida de outra pessoa.
envolvia de tal modo que a minha
etapa para eles era também uma O processo dialógico é a exploração
expressão era de total excitamento,
nova etapa para mim. A supervisão do “entre”, logo o foco encontra-
de muita instigação e também de
era um encontro, era um processo se neste relacionamento que é
medo de não dar conta deste novo
de crescimento e desenvolvimento horizontal, enfatizando o vivenciar
papel.
no campo. Era também um de dois participantes. Cada grupo
A Gestalt-terapia é a minha acontecimento de busca de recursos que chegava era cheio de ansiedade
linha de trabalho e de vida. Essa para dissolução de confluências, e questionamentos por parte dos
metodologia destaca que o meio introjetos, projeções, retroflexões estagiários: “Será que vou conseguir
onde a pessoa está inserida é e egotismos, pois as interrupções ser terapeuta?”. “Será que vou saber
fundamental para sua compreensão, do contato eram evidentes tanto o que fazer diante do cliente?”. E
e também estuda o que ocorre e no cliente quanto no estagiário. da minha parte como supervisora:
como ocorre na fronteira entre Eu e Esse olhar permitiu que os alunos “Quem eram esses alunos?” “Será
Outro, e como um influencia o outro. dialogassem com suas interrupções que fiz a escolha certa?” “Será

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que vamos conseguir desenvolver movimento de ajustamento criativo esse caminho de ser terapeuta.

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um bom trabalho?” “Será que vou em cada etapa do processo.
Cada grupo de estagiários que se
conseguir passar minha experiência,
Hoje o frio da barriga mudou, forma leva uma parte minha e meu
meu conhecimento para eles?”.
não é mais medo de não dar conta fundo vai se enriquecendo com essas
Como coloca Zinker (2007, p.19):
e sim por esse novo que se inicia a experiências ímpares. E eles deixam
“Deixamos que o outro seja. Não
cada ano. Cada ano tem um novo marcas em meu crescimento como
queremos violar sua integridade
grupo e cada grupo sua dinâmica, psicóloga, como supervisora e como
impar.”
seus limites, sua capacidade de ser humano. Vê-los seguindo em
Agora olhando para traz vejo o awareness, suas fronteiras de frente me enche de emoção e de um
caminho trilhado como um processo contato e seu comprometimento sentido ético para continuar e, mais
de assimilação e crescimento meu com o trabalho. Sinto também do que tudo, sei que contribuo para a
enquanto profissional, pois cada orgulho ao ver a transformação formação deles serem quem eles são
insegurança, cada questionamento, de cada aluno - a forma insegura, e não como que deveriam ser.
cada duvida dos alunos me medrosa que chegam e que, aos
Referência:
fortaleciam e me faziam pensar e poucos, no desenvolvimento do
repensar cada parte do trabalho. processo, os possibilita tornarem-se ZINKER, J. Processo criativo em
Sentir e ver o crescimento deles mais seguros, com menos fantasias Gestalt-terapia. São Paulo:
nesses encontros provocou um e com muita vontade de continuar Summus, 2007.

SUPERVISÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA NA GRADUAÇÃO -


UMA EXPERIÊNCIA ENTRE A DOCÊNCIA E A PSICOTERAPIA

Por Ana Maria Veiga Lima

Ana Maria Veiga Lima é psicóloga, graduada pela Universidade Federal de


Santa Catarina. Atua como psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos
e também como supervisora de estágios em Psicologia. Além disso, trabalha
com Orientação Profissional e Projetos de Vida para jovens e adultos.

A proposta de discutir a vivência de ser supervisora em psicologia clínica na graduação é instigante na medida em que
esta é uma vivência que considero em construção, visto que estou me descobrindo neste papel. Muitas das sensações
descritas por Célia Cristina Bandeira estão sendo experienciadas de forma semelhante por mim neste momento, porém
outros aspectos que ainda não foram descritos também me chamam atenção e serão discutidos neste relato.
O frio na barriga descrito por Célia Cristina Bandeira permanece em mim. Talvez não relacionado ao “não dar conta”,
mas ao excitamento presente nos estagiários neste momento que é de finalização de uma etapa para dar início a outra.
Sinto o calor do excitamento ao escutar perguntas sinceras, puras e profundas totalmente diferentes das perguntas
feitas pelos teóricos da Gestalt, uma vez que os alunos estão “fora” deste contexto, estão entrando para a Gestalt

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Terapia. Talvez o fato de estarmos de procurar respostas nos livros e no intervenção em GT, porém ele nunca

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mais familiarizados com a teoria nos professor, porém na supervisão surge poderá ser maior do que a relação
tire um pouco do estranhamento a possibilidade de eles procurarem entre dois seres humanos e o que
daqueles que estão vendo tudo respostas neles mesmos e esse é um surge dessa.
pela primeira vez. O contato com processo que necessita de suporte,
O trabalho de supervisora em
o novo transforma, sendo assim, a demanda muita energia e pode ser
psicologia clínica na graduação
curiosidade deles se une a minha dolorido. Como é bonito, ao final do
me possibilita um crescimento
disponibilidade para pensarmos estágio, o terapeuta em formação
indescritível, visto que a cada relato
juntos. relatar que esses momentos sem
ou necessidade apresentados por
respostas prontas lhe ensinaram a
Acompanhar o início da experiência um estagiário revejo a minha prática
pensar e a se conhecer, que agora ele
em psicologia clínica na abordagem como psicóloga clínica e como alguém
sabe o que ele tem a oferecer e quais
gestáltica exige a compreensão do que inicia neste processo de ensinar.
são as suas dificuldades, pelo menos
significado desse momento para Durante o andamento do estágio,
as que apareceram até o momento
cada aprendiz de terapeuta, pois seus vou conhecendo um terapeuta que
atual. Dessa forma, percebe que a
primeiros atendimentos acontecem nasce e se transforma na relação com
perfeição não está em você copiar
no seguinte contexto: término da o grupo pelo qual sou responsável.
um estilo de alguém que admira ou
faculdade e início da vida profissional, Acredito que este seja um trabalho de
decorar citações de autores e sim que,
com todas as reflexões profundas grande responsabilidade, pois assim
conforme Clarkson (2004), a única
que um processo de mudança pode como na psicoterapia não vislumbro
coisa na qual você realmente pode
proporcionar. que o cliente tome decisões parecidas
alcançar a perfeição é em ser você
com as minhas, na supervisão o meu
A supervisão em psicologia mesmo.
maior desejo é que o estudante do
clínica na graduação se diferencia da
Compreendo a supervisão como fim do curso de psicologia possa se
maioria dos outros cursos por mesclar
um caminho de autopercepção com tornar o terapeuta que ele é, com o
uma atitude docente e terapêutica.
o suporte necessário. Através do seu estilo e sua natureza. Sublinho
Não basta dar um “Ok”, verificar se
desenvolvimento de awareness, o a afirmação de Juliano (1999, p.21)
o trabalho foi realizado de forma
estagiário pode cada vez mais se de que “este terapeuta precisa ser
satisfatória ou não. O supervisor
aproximar da sua própria natureza fundamentalmente um homem
precisa auxiliar o estagiário a
e, de acordo com Nietzsche de fé”, pois é a fé que, em última
enxergar as suas potencialidades e
(2006), tornar-se o que se é, ou instância, impulsiona as intervenções
suas interrupções, afinal a supervisão
seja, se transformar naquilo que na supervisão. Fé no processo
é do terapeuta e não do cliente.
verdadeiramente é. O objetivo não terapêutico, fé na autogestão
No caminho para se tornarem é que o estudante finalize o estágio psicológica, fé na possibilidade de
psicólogos, os estagiários vêm dispondo de todo saber sobre a GT, aprendizagem de cada um, sabendo
de uma vivência em grande parte ou sobre si próprio, mas que tenha que sempre pode surgir algo criativo
teórica na faculdade. No momento percorrido um caminho experiencial e singular de cada ser humano.
do estágio, muda a figura, pois é hora que lhe possibilite dar sentido à
Compartilho a sensação da Célia
de deixar para fundo todo aparato experiência de ser terapeuta e que
Cristina Bandeira de que ao término
teórico preparado nos últimos anos e lhe permita ser espontâneo nos seus
do estágio sinto que algo de mim
viver a experiência presente de “estar atendimentos, podendo fluir entre a
segue com os estagiários e que algo
com” o cliente. Para isso, é necessário relação Eu-Tu e Eu-Isso, descrita por
deles fica comigo... Saio com a certeza
que o supervisor “esteja com” os Martin Buber (2001) no contato com
de que houve um encontro, existiu
estagiários durante a supervisão, seus clientes.
troca entre eu e não eu, fenômeno de
para que eles aprendam através da
Através das intervenções bem grande importância dentro da GT e
experiência o que é disponibilidade.
sucedidas do supervisor, o estagiário denominado como contato.
Esta é uma mudança de perspectiva
se dá conta do que acontece com ele
complexa para a maioria dos alunos, Referências:
e o que o impede nos atendimentos,
pois até este momento o domínio
possibilitando que ele encontre uma BUBER, M. Eu e Tu. São Paulo:
teórico garantia o sucesso. Nesse
compreensão e possível saída de Centauro, 2001.
caminho percorrido, aprenderam a
forma criativa e singular.
se basear em autores para poder JULIANO, J. C. A arte de restaurar
expressar algo que fosse válido no A parte teórica da GT também se histórias. São Paulo: Summus,
ambiente acadêmico e agora chegou faz necessária e é inserida através 1999.
a hora de escutar o que o cliente do interesse e necessidade daqueles
NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra.
traz e se expressar a partir das suas que estão atendendo. É importante
Rio de Janeiro: Editora Record,
percepções e dos seus sentimentos. salientar que a teoria não é o objetivo
2006.
Algumas perguntas comuns no início fim do estágio e sim o meio, ou o
das supervisões são: “o que eu faço na método, pelo qual o estagiário vai CLARKSON, P. Gestalt Counselling in
próxima sessão?”, “o que eu faço se ele compreender seus clientes e a si Action. Londres: Sage Publications,
não falar mais sobre esse tema?”. Um mesmo. O método é essencial para 2004.
caminho conhecido pelos alunos é o qualquer tipo de compreensão e

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SUPERVISÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA NA GRADUAÇÃO -
UMA EXPERIÊNCIA ENTRE A DOCÊNCIA E A PSICOTERAPIA

Por Luciana Rosa


Luciana Rosa é Psicóloga, graduada pela Universidade Federal de
Santa Catarina e Arte Educadora, graduada pela Universidade do Estado
de Santa Catarina / CEART. Gestalt-terapeuta, Psicoterapeuta de crianças,
adolescentes e adultos. Especialista clínica em Gestalt terapia pelo CRP/
Comunidade Gestáltica. Aperfeiçoamento em Gestalt-terapia com crianças
e adolescentes com Felícia Carroll fundadora do West Coast Institute for
Gestalt Play Therapy, divulgadora do método Oaklander e membro da
equipe do Violet Solomon Oaklander Foundation. Aperfeiçoamento em
Gestalt-terapia com crianças com Luciana Aguiar/RJ. Especialização em
Arte e Ciências Humanas pela Universidade do Estado de Santa Catarina
e Formação clínica em Psicodrama pelo DRAN/SC. Desenvolve palestras,
oficinas, cursos e assessoria pedagógica em parceria com escolas do ensino
fundamental e médio.

O exercício profissional como supervisora surgiu O desafio estava lançado!


como mais um desafio no meu desenvolvimento
Hoje, passado algum tempo dessa experiência,
como psicóloga clínica, pois entendo que a formação
posso fazer algumas reflexões dessa prática e de quais
clínica em Gestalt-terapia envolve entre outras
desafios e demandas recebi dos meus estagiários,
coisas: o alinhamento com a abordagem escolhida,
parceiros de trabalho.
aprofundamento de leitura e teoria, psicoterapia, e
muita, muita disponibilidade para a prática. Mas nesse Destaco como o mais marcante para mim, a
caminho, o aprendizado como supervisora abriu novos particularidade do campo de estágio, campo da prática
desafios e conhecimentos. psicológica, tão esperado pelos alunos no fechamento
da graduação. Um momento da consolidação da postura
Ainda como aluna da Especialização Clínica em
clínica em psicologia, do exercício diagnóstico agora
Gestalt-terapia, descobri através dos supervisores que
vivenciado na prática, do treinamento das primeiras
tive essa possibilidade do exercício da psicologia e
intervenções com foco na relação de trabalho, e
psicoterapia, e sonhei em um “dia chegar lá” também.
principalmente momento do encontro com o outro, o
Durante toda a Especialização, especialmente no
cliente.
último ano dedicado as práticas clínicas, ansiava a
cada encontro pelo momento da supervisão! Momento Nesse sentido, entendo que o desafio que um campo
difícil, de exposição das duvidas e inseguranças, mas de estágio apresenta tanto para o supervisor quanto
que traziam tanto crescimento e amadurecimento do para o aluno, é o de aprendermos a nos encontrarmos.
meu “ser terapeuta” que valia tudo, sempre no caminho Aprendermos a estabelecer a parceria de trabalho na
da awareness, da certeza de estar amadurecendo tríade supervisor/aluno/cliente. Pra mim é aqui que
profissionalmente com responsabilidade! encontramos toda a dificuldade e, paradoxalmente,
toda a riqueza do campo de estágio. É o trabalho
Até esse ponto, havia no meu horizonte futuro
de desenvolvimento para todos os envolvidos, da
aprender a ser supervisora de psicólogos. Mas foi com a
capacidade de escuta, de compreensão e parceria.
surpresa do convite para ser supervisora local de estágio
da UFSC que outro desafio se abriu: supervisionar alunos E esse encontro trás outro desafio: construir com
que estão terminando a Psicologia e acompanhá-los os alunos outros referenciais de trabalho e avaliação.
nessa passagem para a vida profissional. Esse desafio Destaco esse outro ponto, pois os alunos chegam ao
me instigou ainda mais e abriu meu fundo para a minha campo de estágio após quatro anos de graduação
própria experiência como estagiária e como esse imbuídos do formato de avaliação de desempenho
momento de fim de curso, foi determinante para mim e construídos em relação às disciplinas e trabalhos
para minhas escolhas como Gestalt-terapeuta. acadêmicos. No início do nosso trabalho e das nossas
avaliações, as diferenças tornam-se evidentes. Estar
Movida por essa lembrança, aceitei o desafio com
com um cliente e avaliar o quanto isso é “bom” ou
sorriso no rosto, mas ciente do quanto gostaria de
“suficiente” trazem novos parâmetros. Não há mais um
construir com meus estagiários algo semelhante àquela
domínio de conteúdo a ser assimilado. Não há mais
experiência tão marcante que tive.

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uma nota ou conceito que possa definir ou guiar tal experiência. E como ainda assim podemos avaliar e construir

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um bom trabalho? Essa é uma questão constantemente presente.
São esses para mim, como supervisora, os maiores desafios. Abrir um campo para deixar os alunos expressarem
as primeiras ansiedades em relação ao contato com um cliente. Abrir espaço para pensar sobre a responsabilidade
do trabalho, do contato inicial nas triagens, das primeiras sessões, do trabalho psicoterapêutico e das finalizações.
Acompanhar, guiar e compartilhar cada uma dessas etapas é o que considero a arte do trabalho supervisivo.
Nessas etapas, supervisor e alunos aprendem, exercem o pensamento clínico, compartilham saberes e angústias,
estudam a teoria, relacionam teoria e prática, falam de si, dos outros, das experiências e do trabalho com as
pessoas e suas existências.
Seguindo os passos deixados por Perls, espero no trabalho como supervisora estar construindo com meus
estagiários a compreensão de que: “A Gestalt-Terapia é estar em contato com o óbvio” (1977:82).

Referência:
PERLS, F. Gestalt-Terapia Explicada. São Paulo: Summus, 10977.

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OPINIÃO
A SUPERVISÃO COMO EXPERIÊNCIA
TRANSFORMADORA: UM ALICERCE PARA ALUNOS
EM FORMAÇÃO NA ABORDAGEM GESTÁLTICA
Por Fabíola Mansur Polito Gaspar

“Em presença do Outro, nos damos relação a outros campos como, por nos modos saudáveis como nos não-
conta de que formamos agora um exemplo, o campo formado por saudáveis – ajustamentos funcionais
sistema diferente daquele que éramos um casal de namorados ou por um e disfuncionais.
quando estávamos sós. Formamos grupo de amigos. Essas diferenças
No contexto psicoterapêutico,
um novo todo, maior do que a se estendem, principalmente, para os
o campo cliente-terapeuta abarca
soma de suas partes. Forma-se uma objetivos e propósitos que o campo
um estar na presença do outro, com
nova rede, um novo conjunto inter- da supervisão contempla.
suas historicidades e singularidades,
relacionado em que o movimento de
E eu diria que aquela definidas por um fluxo figura-fundo
um interfere no movimento do outro.
transformação, a que se referiu Jean, que, sem dúvida, afeta esse encontro
Daí decorre a impossibilidade de se
vai muito além de referenciais teóricos de maneira ímpar. Aqui, a suspensão
sair ileso desta aventura conjunta. A
e de profundos estudos acerca fenomenológica é fundamental,
transformação de um implica também
da Gestalt-terapia, uma vez que o uma vez que o terapeuta deve,
na transformação do outro”(grifo
“encontro”, que pode acontecer tanto verdadeiramente, deixar entre
meu)(Juliano,1995, p. 78).
na psicoterapia quanto na supervisão, parênteses seus julgamentos, a fim
Essa é a visão do processo guarda uma grande oportunidade de de se colocar a serviço daquele a
terapêutico, tão poeticamente facilitar com que o supervisionando quemescuta e que está diante de si.
descrita por uma das pioneiras e mais possa restaurar, repensar, reconfigurar
Vale a pena ressaltar que a
respeitada gestalt-terapeuta no Brasil suas visões acerca de seu trabalho
formação do gestalt-terapeuta implica
– Jean Clark Juliano. Tomo a liberdade clínico. Ressalto que esse “encontro”
não somente no embasamento
de transportar essa metáfora também a que me refiro é entendido a partir
teórico da Abordagem escolhida,
para a relação de supervisão, pois, a dos pressupostos de Martin Buber, na
mas também em uma formação
partir do momento em que, tanto os medida em que, da mesma forma que,
ética e uma orientação que envolve
alunos dos cursos de Especialização entre o terapeuta e seu cliente podem
o estar com o outro, respeitando sua
em Gestalt-terapia, que já são acontecer encontros Eu-Tu e Eu-Isso,
singularidade. E a supervisão tem um
profissionais,quanto aqueles que já assim também entre supervisor e
papel fundamental nesta perspectiva,
têm uma trajetória mais longa estão supervisionando, essas duas formas
pois além de visar um esclarecimento
diante de outro colega -o supervisor podem ocorrer.
do pensar clínico, prioriza uma
- é inevitável que uma transformação
Na supervisão, o aluno estabelece orientação aos alunos acerca de
aconteça!
com seu supervisor uma relação questões éticas e didático-vivenciais.
A Gestalt-terapia, com base de confiança, de cumplicidade. A
As supervisões que ocorrem
em seus fundamentos filosóficos, empatia é imprescindível para que
durante os cursos de Especialização
pressupõe uma Abordagem que esse vínculo se forme, favorecendo
em Gestalt-terapia têm como dois dos
preconiza o encontro. Encontro este momentos Eu-Tu. Ao mesmo tempo,
principais objetivos serem um terreno
pautado por aquilo que se apresenta o supervisor precisa estar atento para
fértil para os alunos no que se refere
no campo – o fenômeno – a partir do os aspectos teóricos, uma vez que
à construção e lapidação de cada um
momento em que cliente e terapeuta uma das finalidades para as quais está
como terapeuta, especialmente no
estão frente a frente. Diria que o campo sendo solicitado é justamente auxiliar
sentido da postura ética e do manejo
formado por cliente e terapeuta o terapeuta a reconhecer a dinâmica
clínico, quanto do aprendizado
contempla alguns diferenciais em de funcionamento do seu cliente, seja

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que favorece o sedimentar deuma alunos os deixavam extremamente semelhante, em como ele vai se

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compreensão mais ampla e, ao mesmo inseguros, com dificuldades de lançar relacionar com seu terapeuta. Então,
tempo, competente em termos de mão de suas habilidades intuitivas o aprendizado do limite (tanto para
visão diagnóstica processual. e/ou já apreendidas em termos de o terapeuta quanto para o cliente) é
conhecimento para dar seguimento a crucial como uma nova possibilidade
Abro um parêntese para enfatizar
um bom atendimento. de crescimento e transformação de
que, por mais que nos cursos de
um comportamento, provavelmente,
graduação em Psicologia existam os Como, na Gestalt-terapia, as
mais nutritivo.
estágios em clínica, não há, como nos expressões corporais, gestos,
cursos de Especialização, tamanha postura, enfim, o que o cliente Essa mesma dificuldade acerca
gama de oportunidades no que transmite de maneira não-verbal é do limite pode se estender também
se refere ao desenvolvimento do muito valorizado, enfatizamos, no para a forma como o contrato acaba
olhar clínico, como são oferecidas decorrer das supervisões, que a forma sendo construído, o que eu chamo
nas supervisões. Estas, sem dúvida, deve ser tão ou mais considerada de contrato “às avessas”, no sentido
contribuem imensamente para que o conteúdo. Geralmente, de que, muitas vezes, o próprio
melhor instrumentalizar o aluno para a forma guarda riquezas que a cliente é quem coloca as condições,
as demandas desua vida profissional! palavra “esconde” ou não consegue controlando emanipulando o
abarcar. O trabalho acerca da terapeuta a seu bel prazer. Os alunos
Nesses anos em que tive a
forma possibilita uma ampliação de e, especialmente, os profissionais
oportunidade de supervisionar alunos
consciência por parte do cliente que iniciantes costumam “cair” nessas
dos cursos de Especialização em
é muito importante na restauração manipulações, com vistas a não se
Gestalt-terapia e também profissionais
de ajustamentos saudáveis. Como sentirem inadequados perante seus
recém-formados e ainda aqueles
nos ensinou Perls (1977, p. 81), “...não colegas (por exemplo, em situações
que já tinham certa experiência,
escutem as palavras, escutem apenas de aprendizado no transcorrer das
um dos meus principais focos de
o que a voz lhes conta, o que os supervisões dentro dos cursos); a não
atenção recaía mais na pessoa desses
movimentos contam, o que a postura “perderem” o cliente (especialmente,
profissionais e, menos, na pessoa do
conta, o que a imagem conta”. se estiver em início de carreira)
cliente propriamente dito. Isto porque
ou, ainda, a não serem vistos por
era notório, especialmente por parte Outro ponto essencial é o terapeuta
estecomo terapeutas muito “durões”,
dos alunos em formação, uma grande estar atento às emoções que seu
sem flexibilidade.
sensação de ansiedade e angústia cliente lhe causa, como é impactado
ao perceberem uma mistura entre por este, pois isso pode ser muito É muito conhecida entre os
suas histórias e as histórias trazidas útil na construção do pensamento profissionais da Abordagem
por seus clientes por exemplo. diagnóstico e, consequentemente, do Gestáltica uma frase de Perls, que diz
Como consequência, o “momento melhor caminho de condução clínica que o ideal é que os Gestalt-terapeutas
terapêutico” acabava ocasionando que o terapeuta poderá optar. sejam habilidosos frustradores. Isso
em ambos os envolvidos, sensações significa equilibrar acolhimento e
“...na situação de supervisão (...) o
de estarem “perdidos”, em um beco limite, sensibilidade e firmeza.
supervisando vai desenvolver, no aqui
sem saída, como se não soubessem
e agora, sua capacidade de refletir No segundo caso, o de clientes mais
mais por onde ir, o que investigar,
a relação na relação. A supervisão silenciosos, geralmente, os alunos
quais emoções trabalhar.
é o contexto próprio e único ao costumam reconhecer e manifestar
Utilizo o termo “momento aperfeiçoamento desta habilidade suas dificuldades em lidar com o seu
terapêutico” para significar as fundamental do psicoterapeuta, que próprio silêncio; o que culmina em
vivências de role playing, que fazem não coloca em risco nem o próprio uma intensa sensação de angústia ao
parte do currículo dos alunos em psicoterapeuta nem o seu cliente” lidar com o silêncio do outro. Quando
formação na Abordagem Gestáltica. (Buys, 1987, p. 17). estamos em silêncio, geralmente
Entendo o role playingcomo um ficamos mais susceptíveis a entrar em
Mais um aspecto bastante
experimento de cunho didático- contato com nossas emoções, nossos
recorrente nas supervisões diz
vivencial, em que os alunos ora são medos, pensamentos que até então
respeito à dificuldade de os alunos
clientes e ora terapeutas, com vistas desejaríamos manter distantes, por
lidarem tanto com clientes muito
a ampliar seu aprendizado acerca do exemplo. Como o silêncio geralmente
falantes quanto com aqueles em que
manejo clínico e da construção de um acarreta grande ansiedade ao
o silêncio toma conta do setting. No
estilo pessoal de ser terapeuta. “...o terapeuta, ele acaba acreditando que
primeiro caso, as sessões costumam
aspecto didático da supervisão é uma tem que tirar o cliente desse estado
passar do tempo adequado e o
das características que a diferencia ou, ainda, que precisa “preencher”
terapeuta costuma revelar enorme
fundamentalmente da psicoterapia” esse espaço que parece “vazio”, com
dificuldade em colocar um limite
(Buys, 1987, p. 18). palavras, com convites para utilizarem
apropriado, que também chamo de
outros recursos ou instrumentos
Além disso, a preocupação inicial um “limite terapêutico”. Isso porque,
terapêuticos. É nesse momento que,
de dar conta tanto da teoria quanto a forma como o cliente funciona e se
muitas vezes, a utilização da técnica
das sensações que apareciam no relaciona no seu dia-a-dia, sem dúvida,
pela técnica entra em ação, questão
contato com os clientes por parte dos irá se repetir e aparecer, de maneira
que contribuiu e ainda contribui para

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uma visão totalmente distorcida experiência” (Buys, 1987, p. 16). Esse concordo com as palavras de “...

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e preconceituosa da Abordagem mesmo autor enfatiza que “a ausência Amatuzzi: ‘É preciso que seja um falar-
Gestáltica. das intervenções didáticas teóricas ao-outro, e não simplesmente um
ou o descaso em relação a elas falar voltado para o outro (...) Uma fala
Outra questão que,
leva a uma prática de baixo nível no só será verdadeiramente fala se nela
constantemente, angustia os alunos
sentido da compreensão do processo se descobrir o outro, se nela os pólos
no momento da supervisão diz
como um todo: não favorece a visão da relação estiverem constituídos ou
respeito aos relatos de como temem
crítica da atuação psicoterapêutica confirmados’” (Holanda, 1998, p. 159).
a exposição de sua atuação perante
nem a sua constante renovação e Neste sentido, a fala do supervisor
os demais colegas. Como serão
aprofundamento” (Buys, 1987, p. 26). ganha uma importância crucial,
vistos? E se “der um branco”? Serão
podendo ser transformadora para
julgados como incompetentes, fracos, Ressalto ainda que, para grande
ambos os envolvidos nessa relação.
profissionais sem base prático- parte dos alunos, os supervisores são
teórica? Um grande sentimento de tidos como pessoas extremamente É importante também que o
vergonha costuma tomar conta e, preparadas, com um grande supervisor tenha humildade e
sem dúvida, isso acaba interferindo conhecimento teórico e um excelente consciência para reconhecer se está
e prejudicando o desenrolar do manejo clínico, como se nunca apto ou não para dar supervisão. A
atendimento e, principalmente, um tivessem dúvidas. Esse lugar que, experiência profissional, em termos
contato de boa qualidade entre particularmente, me lembra uma de tempo de atuação clínica, muitas
terapeuta e cliente. Tentamos, na expressão psicanalítica do “sujeito vezes não é garantia e não significa
maioria das vezes, mostrar para os suposto saber” não deve ser fomentado estar aberto ou ter habilidades para a
alunos que esse é o momento de por parte do supervisor. Pois, por atividade de supervisão.
aprendizagem e que os “erros” são mais que estes, verdadeiramente,
Aproveito esse momento para
muito bem vindos, justamente, para tenham mais experiência e, por
dizer que, particularmente, supervisão
aprimorar a prática. conseguinte, uma percepção mais
é uma palavra que denota um sentido
apurada e, provavelmente, uma
Nestes momentos, a forma como de arrogância para mim, pois parece
maior instrumentalização em termos
o/a supervisor/a conduz a situação que alguém tem uma “super visão”,
de atuação, não devem alimentar
é essencial para o encorajamento enquanto o outro não a tem ou tem
esse lugar com vistas a minimizar
do aluno e para que este consiga uma visão precária daquilo que
os conhecimentos, o aprendizado e
ultrapassar seus medos e encontrar acontece no campo psicoterapêutico.
a construção do ser terapeuta dos
uma espontaneidade que o ajude a A diferença pode estar em um manejo
alunos.
construir sua forma peculiar e singular mais lapidado que os profissionais
de ser terapeuta. Aqui, cabe fazer a seguinte mais experientes podem ter; mas
pergunta: como um profissional isso também não impede que os
Para alguns profissionais, no
se prepara para ser supervisor? alunos ou um profissional iniciante
caso de supervisões solicitadas no
Como ele sabe ou sente que está também estabeleçam um contato
âmbito do consultório particular,
pronto, preparado para realizar essa enriquecedor, ou ainda que o caminho
muitas vezes elas são vistas com
atividade? escolhido pelo aluno na condução
certo constrangimento, por serem
e apontamento de determinada
consideradas um recurso utilizado Não poderia deixar de fazer esse
questão trazida pelo cliente seja
pelo terapeuta para tentar sanar questionamento nesse artigo que,
pertinente e brilhante! Então,
sua insegurança pessoal diante da mesma forma como alunos e
gostaria de registrar que o nome
da história do cliente que está profissionais buscam a supervisão
supervisão é entendido por mim
acompanhando. Acontece que a para aprimoramento de suas
como uma visão mais ampliada, em
supervisão não é uma atividade intervenções e compreensões clínicas,
função da experiência profissional
desprovida de embasamento, como aqueles que se propõem a serem
e das habilidades potencializadas
se fosse um recorte, um retalho que supervisores, sem dúvida, também
para o exercício dessa função, sem,
tapa uma “falha” na atuação do aluno precisam buscar respaldo em cursos
absolutamente, minimizar ou denegrir
ou do profissional. Ao contrário, que os instrumentalize e também lhes
os caminhos escolhidos pelos alunos.
“...a supervisão de psicoterapia forneça maiores recursos para exercer
é atividade específica, com uma essa atividade específica. Tomo a liberdade de compartilhar
estrutura própria, com um processo uma passagem que vivi há algumas
Ser supervisor requer verdadeira
peculiar e diferente da psicoterapia. semanas quando, após proferir
disponibilidade, atenção redobrada,
Para ser eficiente, a supervisão deve uma palestra para alunos de uma
vasto conhecimento e uma
fundamentar-se numa rica experiência universidade em uma cidade do
capacidade de abrangência teórico-
psicoterapêutica, mas não é essa interior do estado de Santa Catarina,
vivencial tanto em relação ao
experiência. O aperfeiçoamento da uma aluna me perguntou o que
terapeuta-supervisionando quanto
supervisão é o aperfeiçoamento eu havia aprendido sobre mim no
em relação ao cliente deste que
dos psicoterapeutas” (Buys, 1987,p. decorrer de minhas experiências
está sendo acompanhado. No que
12). E, ainda é através dela que o profissionais até então? Por incrível
diz respeito ao vínculo estabelecido
aluno e/ou profissional podem “... que pareça, nunca havia pensado
entre supervisor e supervisionando,
avaliar, corrigir e refletir sobre sua profundamente sobre isso e aquela

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pergunta me pegara de surpresa, ou daquele que, a princípio, teria um se lançam no espaço se confiarem

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deixando-me bastante emocionada. maior conhecimento, mas sim, por ser na força do parceiro, na solidez
Muito intuitivamente, sentindo-me um olhar que acrescenta e que pode dos trapézios e principalmente na
em contato com o que meu corpo “...facilitar o processo de construção rede que os amparará se houver o
e minhas emoções sinalizavam, do estilo pessoal (e único) de seu momento da queda”
respondi: aprendi a reconhecer que, supervisando” (Buys, 1987, p. 19).
Referências:
mesmo errando (no sentido clínico
Da mesma forma que a
mesmo), eu não preciso me sentir BUYS, R. C. (1987). Supervisão de
psicoterapia “não se trata de um
incompetente por isso. Psicoterapia na Abordagem
trabalho sem rumo” (Buys, 1987, p. 43),
Humanista Centrada na Pessoa.
E é essa a mensagem que gostaria a supervisão também tem propósitos,
São Paulo: Summus.
de deixar para os alunos e profissionais finalidades e objetivos importantes
que lerem esse trabalho! Não que demandam uma organização HOLANDA, A. F. (1998).Diálogo e
desanimem diante dos obstáculos singular. Ela também é diferente de Psicoterapia: Correlações entre
que a construção do ser terapeuta uma “troca de experiências” acerca Carl Rogers e Martin Buber. São
lhes apresentar. Experimentem, de casos clínicos, muito conhecida Paulo: Summus.
ousem, com responsabilidade, com pelos colegas da área “psi” como
JULIANO, J. C. (1999)A Arte de
dignidade e respeito ao outro. “intervisão”.
Restaurar Histórias: libertando o
Assim como Juliano (1995, p.38) Por fim, a ideia é a de mostrar que diálogo.São Paulo: Summus.
diz que “...o cliente precisa dos a supervisão, além de um alicerce
PERLS, F. S.Gestalt-terapia Explicada.
olhos do terapeuta, não por serem essencial na formação do gestalt-
São Paulo: Summus, 1977.
o ‘olhar certo’, mas sim, porque se terapeuta, pode, com certeza, ser
constituem ‘num olhar diferente’, e uma experiência transformadora SOARES, L. L. M. (2009). A Gestalt-
a própria condição de diversidade para supervisor e supervisionando, terapia na Universidade: da f(ô)
já possibilita ‘oxigenar’ seus temas”, cuja imagem caberá em mais uma rma à boa forma.Recuperado em
assim também eu diria que o aluno descrição poética de nossa mestre 05 de junho, 2013, dehttp://www.
precisa dos olhos do supervisor, não Juliano(1995, p. 77): revispsi.uerj.br/v9n1/artigos/pdf/
por serem o olhar mais experiente v9n1a12.pdf
“...dois trapezistas habilidosos só

Fabíola Mansur Polito Gaspar é psicóloga; Especialista em Psicologia


Clínica pelo Hospital do Servidor Público Estadual São Paulo; Gestalt-
terapeuta pelo Instituto Sedes Sapientiae; Professora e Supervisora de
curso de Especialização em Gestalt-terapia do Comunidade Gestáltica –
Clínica e Escola de Psicoterapia.

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ENTREVISTA Com Prof. Dr. Georges Daniel Janja Bloc Boris

SUPERVISÃO DE ALUNOS DE GRADUAÇÃO


EM PSICOLOGIA CLÍNICA
Por Angela Schillings

Angela: Como você iniciou a Angela: Qual é o seu “estilo” de ser


atividade de supervisão de alunos supervisor?
de graduação em psicologia clínica?
Georges: Creio que a supervisão
Georges: Tornei-me professor da se configura como uma atividade
Universidade de Fortaleza, por situada entre o ensino da teoria e a
meio de seleção, em 1985, sendo própria psicoterapia. Assim, busco
responsável por disciplinas de cunho que as orientações incluam sempre
humanista, fenomenológico e/ou a articulação entre a fundamentação
existencial. Após alguns semestres, teórica e a discussão dos casos
quando os primeiros alunos chegaram clínicos. Com este objetivo, tento
utilizar o método das versões de
ao período de estágio na área clínica,
sentido, conforme proposto por
foi uma consequência que eu me
Mauro Amatuzzi, por meio do qual
tornasse supervisor em gestalt-
o estagiário, logo após as sessões,
terapia, já que tinha formação nesta registra sua experiência vivida. Não
abordagem. Desde esta época, tenho Prof. Dr.
se trata de um registro nem mesmo Georges Daniel Janja Bloc Boris
acompanhado estagiários de clínica um resumo da sessão, mas breves
em gestalt-terapia. apontamentos sobre sua vivência básicos ou experiência mínima quanto
pessoal (sentimentos, sensações, ao universo clínico, muitas vezes
Angela: Quais são os fatores mais impressões, temores, expectativas). nem mesmo tendo se submetido a
importantes no processo de escolha Acredito que este é um material seu próprio processo psicoterápico,
na seleção dos estagiários? importante para a supervisão, indo como se o estágio fosse apenas mais
além da discussão das sessões e dos uma disciplina, que, cumprida, lhes
Georges: Já há algum tempo, na casos, focando o principal instrumento proporcionaria o suficiente para se
UNIFOR, os professores, infelizmente, do processo psicoterapêutico: a tornarem psicoterapeutas. Também
não selecionam seus estagiários, (inter)subjetividade do próprio observo que, terminado o estágio,
pois os alunos apenas optam pelo psicoterapeuta. Também peço que o apenas alguns psicoterapeutas
referencial clínico (humanista, estagiário faça registros semelhantes iniciantes buscam formações
psicanalítico, comportamental etc.) com os textos lidos e com a própria específicas nas linhas teóricas que
em que preferem estagiar, sendo supervisão. Desta forma, busco escolheram, e, infelizmente, quando
direcionados a um professor que os ter acesso à experiência vivida elas terminam, a maioria deixa de
orientará. Anteriormente, os alunos dos estagiários, bem como lhes acreditar que a supervisão de um
se inscreviam para estagiar com um proporciono um instrumento rico de psicoterapeuta mais experiente seja
reflexão e de acesso à sua própria um recurso valioso e imprescindível na
determinado professor, conforme
vivência com cada paciente. trajetória de qualquer psicoterapeuta.
seu contato prévio com ele e com o
A formação de um psicoterapeuta é
referencial. Geralmente, eu escolhia
Angela: Quais as dificuldades mais contínua e sistemática, persistindo
alunos que já tinham contato prévio
frequentes com que os alunos se ao longo de sua vida profissional
com a gestalt-terapia ou com as deparam no estágio em psicologia e devendo ser sempre condizente
abordagens humanistas, a partir de clínica? com sua vida pessoal e as diversas
grupos de estudo ou de sua própria opções e experiências que ele faz e
psicoterapia, mas, de fato, poucos Georges: Há vários anos, elaborei um vivencia. Não é, portanto, pontual e
faziam um investimento prévio, o que artigo em que trato desta questão. circunstancial, uma situação que se
gera(va) algumas dificuldades, que Creio que muitos alunos chegam ao resolve apenas num único momento
descreverei adiante. final do curso sem conhecimentos difícil, mesmo que determinante,

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como o dos últimos semestres de compreensiva, escamoteando

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– particularmente os negativos – do
curso de psicologia. É comum que os sua própria insegurança. Assim, o paciente, que lhe parecem acima das
psicoterapeutas iniciantes tenham psicoterapeuta iniciante se percebe suas possibilidades de continência.
uma parca apreensão dos conceitos e diante de uma lacuna angustiante: O psicoterapeuta iniciante mostra-se,
dos temas dos enfoques teóricos que ao mesmo tempo em que se percebe nestes casos, compreensivo, atencioso
adotam, bem como de seus recursos limitado a respeito do manejo e disponível, mas não consegue
técnicos e de seu manejo. Uma das adequado do referencial teórico- intervir, propor ou aprofundar as
possíveis razões deste limite é que, técnico que fundamenta a sua prática, questões reveladas pelo paciente,
no caso das psicoterapias humanistas, é inexperiente em vivências pessoais pois tal risco sugere uma situação
elas surgiram, em grande parte, como e profissionais que possam lhe excessivamente perigosa. Assim,
uma reação ao positivismo, adotando, proporcionar maior confiança em si ambas as posturas – onipotente e
em muitas situações, posturas mesmo. É comum que se enfatize a impotente – escamoteiam os limites
irracionalistas, anti-intelectuais importância do embasamento teórico e a real “potência” do psicoterapeuta
ou intuitivistas. Entretanto, se o do psicoterapeuta, mas é menos iniciante, trazendo à tona seu dilema
psicoterapeuta deve estar plenamente freqüente que se discutam os riscos de entre a técnica e a pessoa do técnico.
presente no processo psicoterápico, aí um apego à teoria, ou seja, a tendência O uso da técnica deve ser cauteloso
deve estar incluída, certamente, a sua de muitos psicoterapeutas iniciantes a e fundamentado numa estratégia
racionalidade, sem excluir as vivências servir à teoria como uma defesa contra clínica que sintetize a teoria e a prática
emocionais e intuitivas propiciadas suas próprias dúvidas, adotando do psicoterapeuta e o vínculo entre
por um enfoque de psicoterapia que se vivência, compreensão, pensamento e
propõe a lidar com indivíduos plenos e ação entre psicoterapeuta e paciente. A
sem dicotomias e com seu sofrimento técnica jamais deve ser proposta como
psíquico. A omissão da realização de um truque para resolver problemas,
seu próprio processo psicoterápico Creio que boa parte das mas como um recurso facilitador
pessoal é um sério agravante da dificuldades do processo da conscientização do paciente,
situação do psicoterapeuta iniciante, da supervisão se deva a utilizado quando ele já se dirige a
com repercussões preocupantes no algum tipo de ação determinada
acompanhamento dos pacientes,
seu caráter intermediário a partir de sua necessidade e
como o mau manejo de sentimentos entre a psicoterapia de sua disponibilidade. Muitos
negativos, tanto do psicoterapeuta do próprio aprendiz de psicoterapeutas iniciantes vivenciam
quanto do paciente. Pouca psicoterapeuta e o estudo sintomas semelhantes aos de seus
disponibilidade e descompromisso teórico da abordagem. pacientes, o que gera dificuldade de
com a pessoa do paciente são contato ou envolvimento extremo,
bastante corriqueiros, voltando-se numa tentativa de resolver seus
mais o psicoterapeuta iniciante a próprios problemas através do outro,
seus interesses ou a seu vínculo com ou inadequação das intervenções,
a tarefa ou com a instituição. Desta levando, frequentemente, o paciente à
forma, é razoavelmente comum que uma atitude formal, intelectual ou desistência do processo psicoterápico,
psicoterapeutas iniciantes estejam tão perfeccionista. A auto-idealização ou, por vezes, ao abandono
preocupados consigo mesmos que, pode conduzir o psicoterapeuta (concreto ou por meio de atitude de
lamentavelmente, podem mesmo iniciante a um encantamento com distanciamento) como um artifício
esquecer seu compromisso com seus seu próprio poder, ou a tentativas de por parte do psicoterapeuta iniciante.
pacientes e/ou com suas tarefas. sedução ou de punição do paciente, Especialmente nestas situações,
por exemplo. A postura onipotente é essencial que o psicoterapeuta
Angela: Como supervisor quais são pode se apresentar através de busque suporte no seu próprio
as possibilidades e os limites mais arrogância (que busca aparentar processo psicoterápico, na supervisão
claros da supervisão? eficiência) ou de uma excessiva de profissionais experientes e
disponibilidade (que visa a atender a competentes, bem como no necessário
Georges: Creio que boa parte qualquer expectativa, necessidade ou envolvimento com o estudo teórico.
das dificuldades do processo da exigência do paciente com o objetivo Como disse o Abel Guedes, “ser
supervisão se deva a seu caráter de ser reconhecido e admirado), terapeuta é um privilégio. [...] [Sua]...
intermediário entre a psicoterapia do escamoteando aparentemente a arte é ‘tocar’ as pessoas. ‘Tocar’ pela
próprio aprendiz de psicoterapeuta insegurança e a inexperiência do palavra, gesto, afeto, expressão, olhar,
e o estudo teórico da abordagem. psicoterapeuta iniciante. Em alguns movimentos, etc., nos seus pontos
De um lado, precisamos acessar a casos, ao adotar uma postura sensíveis, adormecidos, cristalizados,
subjetividade do estagiário para poder onipotente, o psicoterapeuta iniciante encantados. Eu consigo ‘tocar’
compreender a sensibilidade e a pode assumir uma atitude invasiva, quando fui ou estou sendo tocado por
percepção dele sobre os pacientes e a desconsiderando a capacidade de essa mesma pessoa”. A possibilidade
relação e os processos psicoterápicos o próprio paciente encontrar seus de tocar e de ser tocado – no sentido
que desenvolvem. A precariedade de caminhos e suas alternativas de de sensibilizar e de se envolver com
seu auto-suporte interno pode levar conduta. Na polaridade oposta o mundo existencial do paciente –
o psicoterapeuta iniciante a buscar ao psicoterapeuta onipotente, gera, muitas vezes, no psicoterapeuta
apoio excessivo no uso de técnicas encontramos, com mais frequência, iniciante, temor da relação
ou mesmo na adesão rígida à teoria o aprendiz que assume uma atitude psicoterapêutica ou encantamento
que fundamenta seu referencial impotente, se mostrando inoperante com seu próprio poder, encobrindo a
psicoterápico em detrimento do por se sentir incapaz de lidar com sua polaridade oposta, ou seja, o fato
desenvolvimento de uma atitude emoções, experiências ou conteúdos de que, frequentemente, pode ser

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tocado por seus pacientes. Acredito experiências “fora” da psicoterapia agiram “corretamente”. Nesta fase, as

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que grande parte das dificuldades e o espaço psicoterápico equivale a versões de sentido podem constituir
dos psicoterapeutas iniciantes diga um “paraíso” ilusório e idealizado ou um importante recurso de acesso e de
respeito a um desconhecimento a um “depósito” seguro, mas inócuo, exploração do mundo existencial do
e a uma confusão quanto a como e a vida do paciente a um “inferno” psicoterapeuta e de sua relação com
lidar com os sentimentos gerados ameaçador e insuportável. Creio que os pacientes;
pelos e nos pacientes, bem como à a grande dificuldade dos processos de
parca conscientização das tarefas supervisão, particularmente na clínica- 2. Mais adiante e aos poucos, os
da psicoterapia e do psicoterapeuta. escola, se deve à sua semelhança e, psicoterapeutas iniciantes passam
A tarefa da psicoterapia inclui o ao mesmo tempo, à sua diferença em a selecionar as situações e os
conhecimento teórico, a vivência relação à própria psicoterapia. Se, por momentos psicoterapêuticos mais
técnica, o vínculo autêntico com o um lado, a supervisão não se propõe significativos, levando à supervisão
paciente, a satisfação com o trabalho, a ser um espaço de intervenção do não mais todas as sessões de todos
além do desenvolvimento pessoal supervisor nas questões pessoais os pacientes, mas a situação geral
do outro e de si mesmo como seres e íntimas dos psicoterapeutas daqueles pacientes que acompanham
humanos. Portanto, requer do iniciantes, por outro lado, sem uma ou, mais especificamente, dos que
psicoterapeuta uma síntese pessoal real compreensão do vínculo entre os preocupam mais. Neste estágio,
da teoria e da técnica, de forma a seus temas existenciais e os processos as versões de sentido acrescentam
não escravizá-lo nem a uma nem que ele acompanha, a supervisão aos psicoterapeutas iniciantes mais
à outra. Neste sentido, podemos corre o risco de se tornar um mero versatilidade e flexibilidade diante
definir a psicoterapia como um estudo teórico-técnico distanciado. de pacientes que os tocam mais
processo interpessoal que envolve O grande desafio é, portanto, como significativamente ou que mais
psicoterapeuta e paciente por meio articular estes dois polos, sem absorvem sua atenção;
de contatos verbais e não verbais, confundi-los. Creio que as versões de
com objetivo definido de auxílio às sentido constituem uma ferramenta 3. Finalmente, se o processo avança,
dificuldades emocionais do paciente, enriquecedora da supervisão de o foco da supervisão deixa de
visando à sua própria integração psicoterapeutas iniciantes. Concluo, ser unicamente o paciente e seus
à vida. A definição dos objetivos descrevendo as várias fases que problemas, passando a se constituir
específicos do processo psicoterápico costumo perceber nos processos de num contexto mais amplo, no qual o
é uma variável importante, na medida supervisão e o uso das versões de psicoterapeuta iniciante está, de fato,
em que o cont(r)ato terapêutico, se sentido em cada uma delas: diante de um referido paciente, que
mal definido, mal estruturado ou mal provoca tais ou quais repercussões
esclarecido, pode levar a fracassos 1. Num primeiro momento, os nele. É nesta fase que as versões de
consideráveis. A integração e a psicoterapeutas iniciantes têm sentido podem ser mais ricamente
vinculação do processo psicoterápico necessidade de descrever e de exploradas, pois elas podem incluir
com a vida pessoal do paciente, por discutir todas as sessões de seus mais expressivamente as vivências da
sua vez, é uma meta básica, pois, de diversos pacientes, o que torna a pessoa do psicoterapeuta iniciante,
outra forma, corre-se o risco de criar supervisão freqüentemente mecânica, que pode analisar e discutir melhor, na
uma vivência dicotômica, na qual a numa alternância entre “o paciente supervisão, sua atuação nos processos
teoria não se coaduna com a prática, disse isso” e “eu respondi aquilo”, psicoterápicos que acompanha.
as sessões são incongruentes com as conferindo com o supervisor se

Georges Boris é psicólogo, mestre em educação e doutor em sociologia


pela Universidade Federal do Ceará (UFC). É professor titular da graduação
e do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Psicologia
da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). É um dos coordenadores do
APHETO – Laboratório de Psicopatologia e Psicoterapia Humanista-
Fenomenológica Crítica. Traduziu para o português o primeiro livro de
Fritz Perls, Ego, Fome e Agressão: Uma Revisão da Teoria e do Método
de Freud. É psicoterapeuta, supervisor de estágios em psicologia clínica
e formador de psicoterapeutas em Gestalt-Terapia. Autor de Falas de
Homens: A Construção da Subjetividade Masculina e de Grupos Vivenciais
e Cooperação: Uma Perspectiva Gestáltica, desenvolve estudos acerca dos
temas existenciais, das práticas psicoterápicas e das relações de gênero,
baseado na fenomenologia existencial de Jean-Paul Sartre.

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ARTIGOS
TERAPEUTA SUPERVISOR: ACOMPANHANDO DESCOBERTAS

Por Ana Maria Justo

RESUMO ABSTRACT
O presente trabalho discorre acerca da experiência de This paper discusses the experience of supervision
supervisão de estágio vivenciada pela autora e refletida lived by the author and thought of in light of Gestalt
teoricamente a luz da Gestalt-terapia. A atuação de um Therapy Theory. The role of a supervisor is on the frontier,
supervisor encontra-se na fronteira entre o trabalho do between the work of a professor and the work of a
professor e o do psicoterapeuta. A Gestalt-terapia caracteriza- psychotherapist. Gestalt Therapy is characterized by an
se como uma abordagem fenomenológica existencial existential, phenomenological and dialogic approach,
dialógica e, portanto, a formação de um psicoterapeuta não and becoming a psychotherapist cannot occur in a purely
pode ocorrer de modo puramente técnico e sistemático. technical and systematic training. Just as in psychotherapy
Assim como nas sessões terapêuticas, também durante a sessions, during the training of psychotherapists we
formação dos psicoterapeutas são priorizadas as intervenções prioritize interventions aiming to develop awareness. We
experiências facilitadoras do desenvolvimento de awareness. think that the therapist, as a person, is more important
Entende-se que o psicoterapeuta é mais importante que than any technique. Because of this they need to know
qualquer técnica e nesse sentido ele precisa conhecer seus their limits and possibilities. The role of supervision is to
limites e possibilidades. É papel da supervisão proporcionar provide the necessary support to interns in this moment
o suporte necessário aos estagiários nesse momento de of transition from a student role to a psychologist. The
transição do papel de estudantes ao de profissionais em supervision aims to work with reflections about the
psicologia. A supervisão, desse modo, tem a finalidade therapeutic situations experienced by students, an
de trabalhar reflexões sobre as situações terapêuticas ability that has to be developed by the interns over time.
vivenciadas pelos alunos, habilidade a ser desenvolvida The supervisor in clinical psychology is someone who
pelos estagiários ao longo do tempo. O supervisor em accompanies the experience of students, providing the
psicologia clínica é alguém que acompanha a experiência necessary support and promoting the development and
dos alunos, fornecendo o suporte necessário e propiciando awareness of the creative strength of the interns for
o desenvolvimento de awareness e do poder criativo dos therapeutic situations. Both, interns and supervisor, end
mesmos frente às situações terapêuticas. Tanto estagiários this experience profoundly modified, because to “teach”
quanto supervisor saem dessa experiência profundamente the interns about the dialogic meeting, there is no other
modificados, uma vez que para “ensinar” aos estagiários way than to promote this kind of meeting, which causes
sobre o encontro dialógico não há outro modo que não seja ripples of transformation on everyone involved.
promover junto deles encontros desse tipo, os quais são
transformadores. Keywords: Gestalt Therapy Psychotherapist;
Supervision; Internship in Clinical Psychology.
Palavras-chave: Gestalt-terapia; Psicoterapeuta;
Supervisão; Estágio em Psicologia Clínica.

INTRODUÇÃO em uma universidade do interior do papeis já vivenciados de cliente e de


estado de Santa Catarina. A atividade terapeuta, os quais também fizeram
Este trabalho monográfico tem
de supervisão de grupos de estagiários parte de minha formação como
por objetivo explorar teórica e
de graduação em psicologia ocorreu terapeuta na abordagem gestáltica.
reflexivamente a experiência de
concomitantemente com a maior
ser supervisor em Gestalt-terapia. A atuação de um supervisor
parte da especialização em Gestalt-
Tem como base as experiências de encontra-se na fronteira entre
terapia, e nesse sentido foi um
atividade de supervisão de estágio o trabalho do professor e o do
espaço de reflexões e vivências
em psicologia clínica, ocorridas psicoterapeuta. O supervisor é
importantes relativas aos temas que
semanalmente, durante os cinco um professor, na medida em que
eram trabalhados durante o curso,
semestres nos quais atuei como sua função envolve processos
possibilitando a sedimentação da
professora do curso de psicologia pedagógicos e a atividade supervisiva
experiência clínica, para além dos

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tem, em teoria, o papel de “ensinar” chegar a este objetivo. Consiste em

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REQUISITOS A UM GESTALT-
um aluno a trabalhar como terapeuta. TERAPEUTA uma forma objetiva de experienciar
Entretanto, este ensino se dá de as situações; diferente da relação EU-
A Gestalt é principalmente uma
modo diferenciado, já que vai muito TU, que é do domínio da emoção e da
postura diante da vida, que implica
além de assimilar um conteúdo. entrega, o relacionamento EU-ISSO
um contato vivo com o mundo,
Cabe propiciar meios para que os implica num distanciamento reflexivo
com a pessoa do outro, na sua
alunos possam experimentar-se e, (Buber, 2006).
singularidade, sem pré-concepção
sobretudo, criarem as suas próprias
de qualquer ordem. Esse contato A riqueza da experiência humana
formas enquanto terapeutas. Esta
apoia-se sobre a vivência, na e terapêutica está justamente na
modalidade de ensino caracteriza-se
experiência de primeira mão, no capacidade e na possibilidade de
como um tipo de “experimentação”
aqui e agora, o que estimula uma intercalar as duas atitudes, pois
que se dá com o acompanhamento
presença constante e atenta, com ambas são importantes à vida.
do supervisor. Neste sentido, o fazer
ênfase na percepção sensorial; Conforme Buber (2006), não se
do supervisor se aproxima de uma
focaliza o fluxo e a direção da consegue manter sempre uma atitude
atuação terapêutica, já que ele se
energia corporal. (Jean Clark EU-TU, pois o homem é incapaz de
torna facilitador e testemunho de
Juliano, 1999: 26). habitar permanentemente nesse
uma experiência de desenvolvimento
encontro. “Se o homem não pode
de awareness e de contato no campo.
Conforme descrito graciosamente viver sem o ISSO, não se pode
O supervisor, diferentemente por Jean Clark Juliano (1999), a Gestalt- esquecer que aquele que vive só com
de um professor, não tem junto aos terapia fundamenta-se na experiência o ISSO não é homem”. (Buber, 1923;
seus alunos um “plano de ensino”, humana. Numa experiência com o apud Von Zuben, 2006, p. 37). Assim,
um script, ou uma meta específica a mundo como ele é e com as pessoas verifica-se que o encontro verdadeiro
atingir. O trabalho se desenvolve na como elas são, no momento presente. (EU-TU) é uma vivência necessária
medida em que cada um dos alunos Isso implica em reduzir expectativas ao homem, embora, infelizmente,
vai adquirindo suporte para seguir e ampliar a percepção. Enquanto um encontro sem expectativas seja
adiante, atender o primeiro cliente, abordagem psicoterapêutica, a pouco ocorrente na sociedade atual.
atender o segundo, experimentar Gestalt-terapia caracteriza-se como
Dentro da prática psicoterápica,
diferentes formas de atendimento, e uma abordagem fenomenológica
conforme Luczinski e Ancona-Lopez
assim por diante. Enfim, experimentar- existencial dialógica. Trata-se de uma
(2010), o encontro (EU-TU) não é o
se como terapeuta. O trabalho de abordagem fenomenológica, por seu
objetivo final da terapia, mas parte
supervisão se dá, assim como o de caráter descritivo, muito mais que
desta, ou seja, o encontro não é a
psicoterapeuta, por meio da redução explicativo ou prescritivo; existencial,
resposta, mas o início da caminhada.
fenomenológica, deixando de lado os pois trabalha diretamente com a
Há um impulso inerente do homem
à prioris e facilitando o contato com a existência humana, mais do que com
em singularizar-se e colocar-se
experiência. É preciso “estar com” os o problema apresentado; e dialógica,
em movimento na presença do
alunos, numa experiência de troca, de pois preconiza o contato humano
outro, e é este potencial que pode
respeito e de confiança mútua. num diálogo dialético, onde cada
ser alavancado a partir da relação
uma das partes envolvidas interfere
O papel e os fazeres do supervisor terapêutica. Segundo as autoras,
na vivência do outro. O dialógico
ainda são pouco abordados na “Entregar-se ao encontro é exercer
refere à experiência do “entre”, de
literatura gestáltica no Brasil. No o que de mais humano se faz em
acolhimento ao outro, na valorização
entanto, salienta-se que tal temática psicologia: interesse genuíno pelo
de sua humanidade, sendo a filosofia
apresenta relevância considerável, outro, buscando compreendê-lo”
dialógica foi criada por Martin Buber
na medida em que é experiência (2010, pg. 82). Trata-se de uma postura
a partir da sua definição das palavras
vital na formação da maior parte dos terapêutica de coexistência, onde
princípio EU-TU e EU-ISSO.
psicólogos, e certamente marcante o terapeuta é levado aos caminhos
na experiência dos terapeutas que A palavra-princípio EU-TU refere- que o cliente abre. O terapeuta sente,
seguem a abordagem da Gestalt- se a uma interação (relação) que percebe, reflete e retorna através dos
terapia. é atemporal e não localizada no seus sentimentos e suas percepções,
espaço. É uma vivência intensa, viva possibilitando que o cliente sinta,
O presente trabalho inicialmente
e pulsante; é recíproca, envolve perceba e reflita sobre as ocorrências
apresenta uma contextualização da
presença, totalidade. Há uma entrega consigo a partir dessa relação
Gestalt-terapia enquanto abordagem
ao outro (seja pessoa, situação ou (Schillings, 2012).
fenomenológico existencial dialógica,
coisa) sem esperar nada em troca,
o que repercute em uma postura A relação terapêutica é pautada na
sem um objetivo, sem um lugar a
terapêutica diferenciada. Em seguida, abordagem dialógica, que prioriza o
chegar. A vivência EU-ISSO, por sua
será abordado o papel da supervisão encontro. A Gestalt-terapia, focaliza
vez, consiste num relacionamento
ao psicoterapeuta iniciante. E por o que precisa ser explorado, e não o
onde o outro não é encontrado em
fim, será explorada a experiência da que precisa ser mudado. Trabalha-
sua alteridade. O relacionamento
autora enquanto supervisora, também se com o foco na ampliação da
tem um objetivo, um lugar a chegar
discutida à luz da Gestalt-terapia. awareness. Conforme Ribeiro
e o outro é um instrumento para se
(2006), awareness trata-se de uma

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palavra cujo significado abrange mais prejudicial que a falta de domínio perpassa por um processo de

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complexidade e é de difícil tradução. da mesma, já que este apego pode autoconstrução, no qual a pessoa
Pode ser entendida, segundo este cumprir a função de um afastamento aprende a ser ela mesma, se apropria
autor, por consciência da própria da experiência no campo, distanciando de sua forma e de suas habilidades
consciência, no aqui-e-agora. Não é o terapeuta da possibilidade de uma (Pinheiro, 2006).
puramente cognitiva, mas a expressão relação EU-TU. Nesse caso, pode haver a
Quanto mais nos conhecemos,
vivenciada, percepção integrada interrupção de contato que se configura
melhor podemos entender avaliar
de todas as partes do organismo. como o egotismo disfuncional, ou
e controlar nosso comportamento
A awareness é um caminho de ajustamento egotista, o qual é um
e melhor compreender e apreciar
mudança, um processo de integração mecanismo de evitação de contato.
o comportamento dos outros.
harmoniosa entre pessoa e mundo. No ajustamento egotista, a ansiedade
Quanto mais familiarizados
aparece no momento da ação no meio
“O momento da awareness é conosco mesmos, menor a ameaça
e o indivíduo tenta controlar o meio,
um acontecimento, não pode que sentimos diante do que
visando não envolvimento (PHG, 1997).
ser encomendado; todavia, encontramos (Benjamin, 1978: 23).
O controle do meio é realizado pelo
sem procurá-lo, dificilmente o
isolamento, pois o indivíduo prioriza
atingiremos – ainda que, quando Tais reflexões, apontadas por
sua parte no campo, tendo sensação
ele acontecer, terá sido sempre Pinheiro (2006) e Benjamin (1978),
de estar no controle, mantendo o meio
por acaso.” (Ribeiro, 2006, p. 77). atentam ao fato de que um terapeuta
ao seu serviço. Assim, o indivíduo
precisa, além de conhecer teórica e
procura controlar o meio, acumulando
Assim, o terapeuta observa o que tecnicamente sua abordagem, estar
uma série de conhecimentos, achando
é importante para a regulação do disponível para si mesmo, o que
que o meio está sob o seu domínio.
cliente, partindo do pressuposto que engloba estar consciente e potente
Entretanto, se não inclui a novidade e
a awareness aumentada e o contato a partir da identificação de suas
a espontaneidade, não pode crescer,
pleno levarão ao crescimento. A habilidades e suas interrupções. Assim,
ficando fixado. Não permite que o
pessoa, em sua totalidade é acolhida, é necessário ao aluno de psicologia
envolvimento aconteça, para evitar
observada e aceita, e este é o suporte abandonar a ideia de ser terapeuta
a emoção. Mas como esse controle
elementar para o início do diálogo (ideal) e acolher a noção de ser o
nunca é suficiente, o indivíduo busca
(Yontef, 1998). terapeuta real (o terapeuta “João”, a
constantemente mais informações
terapeuta “Maria”, ou quem quer que
Ao considerar que o fazer para sua proteção. Procura elaborações
seja). Trata-se de ser terapeuta dentro
psicoterápico do Gestalt-terapeuta se objetivas para proteger sua fragilidade.
de sua pessoa real, com todas as suas
dá a partir de uma relação dialógica, Protege-se então do vínculo, do
possibilidades e limites reais, a partir
salienta-se que a Gestalt-terapia não envolvimento espontâneo, pelo medo
de experiências de contato.
pode ser uma teoria que o indivíduo do abandono (PHG, 1997).
aprende e dela passa a fazer uso como Contato configura-se um
Segundo Erthal (2004), esse tipo
um instrumento (Pinheiro, 2006). conceito central à Gestalt-terapia, na
de apego teórico ou técnico é bastante
O desenvolvimento de um Gestalt- medida em que o indivíduo está em
comum aos terapeutas quando
terapeuta envolve um processo constante troca com o meio. Considera-
iniciam seu trabalho. O profissional
que é vivencial e que extrapola se que entre o organismo e meio existe
iniciante costuma se apoiar em
consideravelmente os limites de uma uma relação indissociável. A partir
regras, ou roteiros. Procura seguir um
aprendizagem teórica ou de domínio deste olhar, o comportamento humano
script que abafa sua espontaneidade
de qualquer tipo de técnicas. deixa de ser compreendido a partir da
e capacidade criativa. A insegurança
realidade interna do indivíduo e passa
Aponta Boris (SD) que é bastante e a inexperiência o fazem buscar
a ser entendido a partir do campo
comum salientar, nos cursos fórmulas mágicas, para buscar reduzir
existente no aqui-e-agora. Assim,
de formação, a importância do a ansiedade que é natural nesse
qualquer ação é entendida a partir da
embasamento teórico do terapeuta. momento inicial. Essa ansiedade,
relação entre a pessoa e o campo em
De fato, espera-se que um terapeuta todavia, parece estar ligada às
que esta se insere; não existe ação
deva conhecer a teoria sob a qual expectativas relativas ao ser terapeuta
descontextualizada (Perls, 1988). E essa
se fundamenta em seu fazer clínico. e de uma postura ou intervenção
fundamental troca entre o indivíduo e
Entretanto, esse autor chama também adequada, o que os distancia de uma
o meio que o circunda, quando fluida
atenção para o fato de que menos possibilidade de vivência espontânea
e com disponibilidade de awareness,
frequentemente são discutidos os e criativa, objetivo fundamental da
se dá por meio de experiências de
riscos de um apego do terapeuta à Gestalt-terapia.
contato.
teoria, quando esta serve como uma
Ressalta-se que dentro das
defesa do terapeuta contra a própria Polster e Polster (1979) falam do
abordagens fenomenológico-
insegurança, adotando uma atitude contato enquanto função que sintetiza
existenciais o psicoterapeuta é mais
formal, intelectual ou perfeccionista união e separação, envolvendo o
importante como pessoa que o
(Boris, SD). senso de eu e não-eu. Yontef (1993)
método ou técnica que utiliza (Ribeiro,
conceitua contato enquanto um
Considera-se que um apego 1986). A partir dessa premissa básica,
processo de união e afastamento.
excessivo à teoria pode ser tão ou considera-se que sua instrumentação
Robine (2006) complementa com a

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noção de que para que haja contato conhecimento é sempre limitado, cliente. Não há roteiros, intervenções

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é necessário um objeto exterior, uma referindo-se a uma parte dentro da específicas recomendadas, prescrições.
vez que não se pode falar em contato totalidade. E é preciso confiar na Há um encontro humano, único, com
consigo mesmo. Dentre todas estas sabedoria intuitiva do cliente, que um cliente que busca terapia, pois está
definições, no entanto, verifica-se que sabe o que é bom para ele, inclusive num sofrimento com o qual não está
há em comum a noção de troca entre naquilo que deve ser expresso ao conseguindo lidar sozinho.
o eu e o não-eu. Ou seja, o contato diz terapeuta. Assim, ao receber o cliente,
Soares (2009) aponta algumas
respeito à interação entre a pessoa é importante ser curioso de maneira
habilidades mínimas necessárias
e o meio, de maneira fluida, ou seja, respeitosa: “Se a porta está fechada
ao trabalho clínico: estar com o
saudável. Entretanto, nem toda forma é porque não é para vermos” (Frazão,
outro, disponibilidade, aceitação das
de interagir com o meio é contato. O 2012).
diferenças, conhecer o que potencializa
contato pressupõe a awareness.
Considera-se que estar disponível e o que despotencializa cada um. Isso
Awareness é definida por Yontef para o contato é a intervenção primeira implica em experienciar a fronteira de
(1998) como estar em contato com a do Gestalt-terapeuta. Na relação com contato, correndo os riscos do vir-a-ser.
própria existência, com aquilo que é. o cliente é ele mesmo o instrumento
Disponibilidade para correr riscos...
Ou seja, é estar em contato vigilante capaz de criar um contexto propício ao
eis algo fundamental a qualquer
com os eventos mais importantes do desenvolvimento humano (Pinheiro,
terapeuta. Abandonar a necessidade
campo, com apoio sensoriomotor, 2006). E cabe ao terapeuta a ação
de controle constante sobre si mesmo
emocional, cognitivo e energético. de observar o cliente com atenção,
e principalmente sobre o outro.
Laura Perls (1977) aponta que em deixando fluir a sua percepção de
Entregar-se à experiência de contato,
Gestalt-terapia o único objetivo é modo que possa se capturar pelas
modificar-se e sair dela modificado.
a awareness (ampliação desta) e, coisas (Frazão, 2012).
Conforme Thérèse Tellegen, “está
conforme Yontef (1998) ela é ao mesmo
O cliente sempre chega à terapia apto a ser Gestalt-terapeuta aquele
tempo o meio e o fim da psicoterapia.
por conta de um sofrimento, que que apresente a disponibilidade para a
Para além de desenvolvimento e
pode não aparecer diretamente como mudança” (Soares, 2009, p.157).
ampliação no cliente, a awareness é
uma queixa. Ele procura terapia numa
essencial à experiência do terapeuta O trabalho do Gestalt-terapeuta,
espécie de “última esperança”, de
e fundamental como “guia” do seu uma vez que não se limita à aplicação de
que algo melhor está por vir. E cabe
trabalho clínico. técnicas específicas, mas compreende
ao terapeuta em primeiro lugar ouvir,
experiências de contato, a partir da sua
A awareness do terapeuta é seu com ouvidos e olhos, também aquilo
sensibilidade vivenciada nos encontros
suporte de trabalho clínico e deve que não consegue ser verbalmente
humanos, não é algo que se desenvolve
se realizar, conjuntamente com expresso. Inclusive as fantasias e
rapidamente, a partir de algumas
esse “dar-se conta”, uma suspensão impressões que se passam com o
leituras e compreensão teórica do
fenomenológica. A suspensão, ou terapeuta, sendo que o mesmo deve
setting terapêutico. A formação de um
redução fenomenológica, propõe que sempre se manter aware de si mesmo.
terapeuta é um processo que abrange
se volte aos fenômenos (ou àquilo que A escuta deve ser acompanhada de
certa complexidade, na medida em que
surge). Consiste em inibir as tomadas um acolhimento amoroso, humano. E
extrapola uma formação puramente
de posição ou os julgamentos frente as reflexões mais racionais (o pensar
técnica e inclui o autoconhecimento
ao mundo objetivo – colocá-los entre sobre, ou pensar pelo cliente) não
e desenvolvimento perceptivo e
parênteses – e encontrar-se com o devem ocorrer durante a sessão, mas
sensorial. Por isso, a formação de um
mundo como ele é. (Husserl, 1929). Não nos intervalos entre elas (Frazão,
terapeuta precisa ser desenvolvida aos
é preciso se abster de todas as crenças 2012). O terapeuta visa compreender
poucos, com o suporte de alguém, que,
e conhecimentos que fazem parte da o cliente, que é diferente de entender.
com experiência e disponibilidade,
sua história, mas é colocar tudo isso O foco de trabalho está em desvelar
acompanhe a sua inserção nessas
“entre parênteses” e estar aberto a como o cliente experiencia suas
vivências. Este é o papel da supervisão
perceber o mundo como ele é. Esta vivências, e estar junto dele nesse
clínica.
redução fenomenológica é justamente processo. Sofrimento é algo que
o que possibilita ao terapeuta estar precisa ser honrado e o campo É importante salientar que
aberto e disponível ao encontro com o terapêutico traz aquilo que o terapeuta a atividade supervisiva não é
outro da maneira como ele é. proporciona para ele. Destaca-se que a exclusividade de estagiários ou
experiência que o cliente tem de “ser psicoterapeutas iniciantes. Um
Assim, busca-se uma sintonia
visto” é fundamental (Frazão, 2012). terapeuta poderá requisitar supervisões
disponível à experiência do cliente,
ao longo de toda sua carreira, as quais
respeita-se sua singularidade Considerando-se os autores
costumam ser bastante produtivas
existencial, lembra-se que a cada abordados até então, evidencia-se
para seu desenvolvimento profissional,
experiência é individual e não que a intervenção experiencial é o
o qual estará sempre em formação,
generalizável. É importante o terapeuta instrumento básico do terapeuta (Buys,
inacabado e se modificando a cada
confirmar a existência do cliente, numa 1987). Ou seja, sua atuação se dá a partir
cliente novo, ou mesmo a cada nova
posição de humildade. A humildade de sua sensorialidade, que possibilita
sessão.
é essencial ao psicoterapeuta, uma ação espontânea e criativa,
pois é preciso admitir que nosso aware e facilitadora de awareness no

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Nesse sentido, qualquer atividade A supervisão é um momento em

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O PAPEL DA SUPERVISÃO DO
PSICOTERAPEUTA INICIANTE supervisiva não age diretamente que se fala sobre a psicoterapia que
sobre o cliente atendido, mas sim está sendo realizada pelo aluno,
As atividades de estágio têm um
sobre o terapeuta em formação. onde a experiência é examinada,
papel central na vida acadêmica
questionada, melhor entendida.
dos alunos, uma vez que marcam a O momento da supervisão de
Estagiário e supervisor refletem juntos
transição do papel de estudante para um atendimento psicoterápico tem
sobre a experiência do psicoterapeuta
o papel de profissional (Barreto & como objetivo transmitir alguns
iniciante (Buys, 1987). É um ambiente
Barletta, 2010). O estágio é o momento ensinamentos e reflexões teóricas.
de troca, de contato.
final da formação acadêmica, no qual Mas principalmente, fazer com que
se vislumbra a integração entre os os estagiários possam perceber a Todo organismo necessita do
conhecimentos teóricos assimilados si mesmos, e terem maior clareza ambiente para trocar materiais
durante a graduação, com a vivência sobre a relação que estabelecem essenciais (Perls, 1977). E no ambiente
da prática profissional. Essa inserção com seus clientes (Tavora, 2002). do estágio em psicologia clínica, o
profissional é acompanhada por um A supervisão tem a importante supervisor é aquele que possibilita
professor e profissional da área de finalidade de trabalhar o contexto ao terapeuta iniciante um espaço
atuação específica em que se dá o relacional apropriado à reflexão de acolhimento e facilitador do seu
estágio. O estagiário, por sua vez, sobre a situação terapêutica. O desenvolvimento de awareness sobre
é o aluno que, já tendo cumprido supervisor deve ser capaz de refletir o que acontece com ele mesmo e sobre
os necessários pré-requisitos junto com o supervisando, como está o campo terapêutico. O supervisor é
curriculares, insere-se no campo de a relação terapêutica. Essa reflexão um importante provedor de suporte
atuação, passando a exercer seu papel é uma habilidade a ser desenvolvida ao terapeuta. É um heterossuporte
profissional, o qual é supervisionado, pelo terapeuta, e no contexto da inicial que vai gradualmente se
ou seja, orientado acompanhado supervisão, não coloca em risco nem transformando num autossuporte do
por um professor, ao longo de o terapeuta nem o seu cliente, na aluno, que com o passar do tempo,
alguns semestres. Tal experiência medida em que ocorre num momento aciona seus próprios recursos, dos
visa fornecer aos alunos o suporte posterior e em ambiente protegido mais variados, para criar a direção
necessário durante a transição que (Buys, 1987). das suas próprias intervenções e ele
estes vivenciam do “ser estudante” ao mesmo refletir sobre o que acontece
É evidente que um treinamento
“ser profissional”. no campo, com o cliente.
técnico, fundamentado teoricamente
Diferentemente de vários outros é parte importante da supervisão. A experiência de supervisão de
tipos de atuações profissionais, o Entretanto, o domínio teórico não é estágio é passageira. Embora não
treinamento de um terapeuta requer garantia de intervenções terapêuticas seja a única experiência de supervisão
condições específicas. O estagiário proveitosas. E é exatamente essa de um terapeuta, a supervisão de
não pode, por exemplo, aprender a noção que se concretiza no papel estágio em psicoterapeutas tem
atuar como terapeuta por meio do do supervisor, que é alguém que marcada importância, uma vez que
acompanhamento das sessões de domina teoria e técnica, mas que, é o acompanhamento, por vezes um
um profissional mais experiente. O principalmente, é capaz de apresentar tanto conturbado, dos seus primeiros
aprendizado também não se dá pelo um olhar que é externo ao que se passos nessa forma de atuação
domínio de técnicas com um roteiro passa no setting terapêutico, e que profissional, a qual, antes de tudo, é
a seguir, ou apenas por meio de focaliza, ora em partes, ora no todo. uma atuação humana.
role playings. O aprendizado de um
Na relação entre supervisor e
terapeuta e principalmente, Gestalt-
aluno existe uma terceira pessoa,
terapeuta, somente pode ocorrer SER SUPERVISOR: ACOMPANHAR
com importância central: o cliente
a partir da vivência verdadeira e NOVOS TERAPEUTAS
(Buys, 1987). O cliente é protagonista
implicada desse papel, junto a um
no momento dos atendimentos, e a Amigo, não seja um perfeccionista.
cliente real, que chega a terapia com
supervisão é fundamental no amparo Perfeccionismo é uma maldição
demandas reais a serem trabalhadas.
e suporte do terapeuta para intervir e uma prisão. Quanto mais você
Tais características fundamentais junto a este cliente. No momento treme, mais erra o alvo. Você
à inserção profissional de da supervisão, entretanto, ora o é perfeito, se se permitir ser.
um psicoterapeuta envolvem cliente está em foco, ora ele é apenas Amigo, não tenha medo de erros.
responsabilidade considerável. coadjuvante, na medida em que é o Erros não são pecados. Erros são
Desde o primeiro contato com o meio pelo qual se torna possível o formas de fazer algo de maneira
cliente, o terapeuta iniciante é o trabalho junto ao estagiário. Talvez se diferente, talvez criativamente
responsável pelas suas intervenções. possa afirmar que os momentos mais nova. Amigo, não fique aborrecido
A supervisão não ocorre na medida ricos de um processo de supervisão por seus erros. Alegre-se por eles.
em que o terapeuta intervém, mas sejam justamente aqueles em que o Você teve coragem de dar algo de
sempre depois do término da sessão. cliente vira fundo, e o terapeuta em si (Fritz Perls, 1977, p. 18).
E ainda assim, não é feita diretamente formação é o foco, é trabalhado, em
sobre o caso, mas sobre o relato do seus potenciais e interrupções. Aprovados em todas as
caso, na perspectiva do estagiário. disciplinas obrigatórias do curso

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de psicologia. Já se passaram oito na noção de certo e errado. Se o aluno a sua própria perspectiva e visão

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semestres. Anatomia e fisiologia respondia conforme as expectativas de mundo. Desta forma pode-se
humana, processos psicológicos do professor que elaborou a prova dizer que em um grupo não há uma
básicos, desenvolvimento humano, ou trabalho: certo; se não: errado. E perspectiva que seja certa ou errada,
gestalt, psicanálise, behaviorismo, é aqui que começa a se diferenciar ou uma melhor que a outra, mas sim
cognitivismo, família, processos o fazer do supervisor daquele de que existem maneiras diferentes de se
grupais, psicologia social, comunitária, um professor. O supervisor tem sim perceber uma mesma coisa (Cardoso,
testes psicológicos, comportamento um papel que é pedagógico, mas 2009). Por isso, pode-se dizer que o
organizacional, psicopatologias, em Gestalt-terapia, não há certo ou trabalho em grupo de supervisão é
entrevista, diagnóstico, saídas de errado enquanto polaridades, e o favorável a movimentos criativos, de
campo, trabalhos, relatórios, provas. desenvolvimento dos alunos não está acolhimento das diferenças e convívio
Livros, cadernos, muita bagagem... vinculado às expectativas de alguém com as possibilidades e limites de
Chega a temida e esperada hora de que os conduz no seu aprendizado. cada indivíduo, de forma um pouco
se tornarem terapeutas. Em meio O aprendizado, nesse caso, é mais distante da noção de certo e
a tantas abordagens e campos experiencial, é vivido, sentido, para errado, ou do supervisor enquanto um
abertos ao estágio, a escolha foi além da compreensão meramente modelo a ser seguido.
pela clínica em Gestalt-terapia. intelectual. Vem de dentro para fora.
Temores e contradições são
Os sentimentos e as fantasias são E não há como prever exatamente
expressos de forma mais ou menos
contraditórios. Envolvem: medo, qual será o resultado da experiência.
clara durante as supervisões,
desejo, ousadia, sucesso, fracasso,
Assim, considera-se que o estágio momento em que os alunos solicitam
impasses, abandono, choro, rejeições,
em Gestalt-terapia é muito mais um “aval” ao mestre, e esperam um
silêncios, finais felizes, etc... Há
do que uma disciplina, e jamais sinal do reconhecimento de que estão
um vivo excitamento, e a vontade
poderia seguir os moldes de uma. prontos para os futuros atendimentos
de experimentar como é “ser um
A grande vantagem da experiência (Soares, 2009). Não é incomum que
Gestalt-terapeuta”, com o mesmo
de supervisão de estágio é esta o supervisor tenda a ser idealizado
brilho no olhar que havia nas aulas de
ser um processo pedagógico “sem pelos seus alunos e tomado como
psicologia clínica, em que ao aprender
moldes”. Não há um plano de ensino, um modelo absoluto (Erthal, 2004).
sobre a teoria, também se descobria
um objetivo específico predefinido. Assim, considera-se que o grupo de
muito sobre si mesmo.
Trata-se de um acompanhamento a supervisão, ao propiciar a troca direta
É chegado o semestre do estágio. um grupo de alunos nas suas novas de experiências entre os estagiários,
Os alunos chegam à universidade experiências enquanto terapeutas. possa diminuir a idealização sobre
mais motivados que nunca. E ao Um grupo de alunos? Sim. Trabalhar o supervisor, uma vez que os alunos
mesmo tempo temerosos... “Nunca com a supervisão dos estagiários fazem mais contato com experiências
atendemos sozinhos!”, “O primeiro em grupo é uma experiência reais. Treinar em grupo é inserir o
cliente, pode ser atendido em extremamente proveitosa, tanto na terapeuta iniciante em um mundo
duplas?”, “E se seu não souber o que perspectiva do supervisor, quanto dos de relações reais e presentes onde
dizer?”, “E se meu cliente não vier, próprios estudantes. ele pode avaliar-se, espelhar-se e se
posso ligar pra saber o que houve?”, “E encontrar com o outro. É prepará-
A Gestalt-terapia concebe o
se o filho quiser entrar junto com ela lo para a relação profunda que se
homem como um ser em relação.
na sessão, o que eu faço?”. “Não vou estabelece entre terapeuta e cliente
Em relação consigo mesmo e com
conseguir me lembrar de tudo que o (Tavora, 2002).
o mundo, num constante vir-a-ser,
cliente disse. Posso gravar a sessão?”
o qual só pode existir num campo Ao iniciar o estágio em psicologia
Uma série de fantasias chega junto
circundante. A partir dessa condição, clínica como novos terapeutas,
dos estagiários na primeira semana
o contato é considerado a matéria- os estudantes encontram-
de supervisão. E é natural que seja
prima da relação humana (Cardoso, se em diferentes estágios de
assim, já que tudo o que eles têm de
2009). E a proposta é fazer com amadurecimento pessoal e
experiência sobre “ser terapeuta” é
que no momento do aqui-e-agora o profissional. Em contrapartida,
na terceira pessoa: a partir das suas
indivíduo possa entrar em contato deparam-se com semelhantes
leituras, de ver seu próprio terapeuta
consigo mesmo, de modo que possa angústias provocadas pelos primeiros
atuar, ou de ouvir falar. Nesse
se tornar mais aware, percebendo contatos com os clientes (Tavora,
momento atender clientes ainda é
assim suas sensações, sentimentos, 2002). No processo de apropriação de
uma experiência que está distante
observando a si mesmo (Farah, um método de atendimento e definição
das suas vivências e as projeções,
2009), e considera-se que o trabalho do seu estilo pessoal de trabalhar,
ainda são a única possibilidade.
de supervisão possa ser favorecedor eles necessitam da orientação teórica
Com essas inúmeras projeções de awareness e de contato, os quais e do acompanhamento afetivo que
que chegam no início da supervisão, são recursos fundamentais a um possam auxiliar no suporte para
aparece o medo de errar. O que terapeuta, como já mencionado. os seus primeiros passos como
não surpreende. A maior parte das terapeutas.
Percebe-se que cada indivíduo
experiências pedagógicas ao longo
tem maneiras próprias e diferentes A formação do terapeuta envolve
da história dos alunos estava pautada
de se situar no mundo tendo em vista um processo de transformação,

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onde o aluno é retirado da fôrma introjeção disfuncional, o que significa perceptivos e emocionais, embora em

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que o despotencializa e se deixa uma adesão artificial da abordagem algum momento alguma coisa possa
descobrir, potencializar, trabalhando (Soares, 2009). Evita-se o contato e tornar-se mais proeminente (figura).
criativamente na experiência as ações são puramente normativas, A partir da awareness o aluno pode
compartilhada de transformar-se o que distancia o terapeuta de uma perceber quais são suas dificuldades,
(Soares, 2009). A autora aponta que abordagem dialógica. Considera-se como ele as cria e como pode
o contexto acadêmico informa (e que a literatura teórica é um ponto resolvê-las. A awareness possibilita
enforma) o estudante de psicologia de apoio essencial e de referência ao ao aluno tornar-se consciente de suas
com um arsenal de teorias e técnicas. psicoterapeuta, mas não basta por si capacidades e habilidades. Nesse
Cabe aos supervisores representantes mesma, devendo sempre ser adotada sentido, muitas vezes a experiencia
da Gestalt-terapia “o papel de tirar com flexibilidade, fundamentando de supervisão toca em vivências
da f(ô)rma e instigar a boa forma, e sendo fundamentada pela prática bastante íntimas e fragilizadas dos
de acordo com a lei da pregnância” profissional, pelas vivências pessoais, estagiários.
(Soares, 2009, p. 153). No grupo de pela supervisão e pela psicoterapia
Se, por um lado, a supervisão
supervisão ocorre um processo de do próprio psicoterapeuta. Ou seja,
não se propõe a ser um espaço
assimilação, onde o aluno começa a introjeção saudável consiste numa
de intervenção do supervisor nas
a alinhavar o “lá-e-então” das espécie de “digestão” da teoria a
questões pessoais e íntimas dos
disciplinas, da sua história de vida e partir de experiências e vivências.
psicoterapeutas iniciantes, por outro
experiências pessoais e profissionais,
Para que haja maior profundidade, lado, sem uma real compreensão do
com o “aqui-e-agora” do que sabe, do
é preciso que na supervisão vínculo entre seus temas existenciais
que não sabe, do que quer e que não
sejam trabalhados os aspectos e os processos que ele acompanha,
quer.
constituintes da relação terapêutica a supervisão corre o risco de tornar-
O aprendizado no estágio, (Buys, 1987), os quais dizem respeito se um mero estudo teórico-técnico
numa perspectiva fenomenológico- às vivências diretas dos alunos distanciado. O grande desafio é,
existencial, embute a proposta de enquanto terapeutas. A intervenção portanto, saber como articular estes
humanizar-se e aprender a cuidar experiencial é o instrumento básico dois polos, sem confundi-los (Boris,
de humanos (Soares, 2009, p. 155). do psicoterapeuta. E na supervisão ela 2008).
Assim, treinar futuros terapeutas também tem relevância (Buys, 1987)
Soares (2009) considera que
exige, concomitantemente, técnica, e papel central. A supervisão tem
cabe ao supervisor conectar o
arte e sensibilidade. Exige respeito uma dimensão experiencial, na qual
graduando com o mundo, por meio
às diferenças e crença no talento se mostra bastante fértil focalizar a
de intervenções que abram caminho
que pode brotar de cada iniciante experiência dos terapeutas, tanto em
para sua experiência de contato. É
temeroso, tímido em suas iniciativas relação a si mesmo quanto ao cliente
importante que o estagiário esteja
e pouco confiante em si. Significa (Buys, 1987). E todas as intervenções
disponível para aceitar sua condição
também deixar que os estagiários experienciais nos grupos de
de não pronto, bem como perceber
ensinem ao supervisor a arte de supervisão em Gestalt-terapia
a psicologia como uma prática ainda
ser paciente, de acreditar sem ver focalizam o desenvolvimento de
não pronta, o que se evidencia na
resultados imediatos e de abster- awareness dos estagiários, para que
experiência grupal (Soares, 2009).
se de induzi-los a um modelo de possa se estabelecer o contato fluido
Se algum dia o terapeuta sentir-
terapeuta já pronto (Tavora, 2002). no campo. Yontef (1998) considera que
se completamente pronto, cabe
a awareness é estar em contato com a
Há diversos momentos em que o estranhamento, pois quando
própria existência, com aquilo que é.
cabe ao grupo de supervisão apropriar- se considera que ser terapeuta
Ou seja, é estar em contato vigilante
se da teoria. Entretanto, como aponta gestáltico é uma experiência
com os eventos mais importantes do
Buys (1987), a teoria deve ser também sobretudo vivencial, não é possível
campo, com apoio sensoriomotor,
discutida a partir das experiências estar completamente pronto, o que
emocional, cognitivo e energético. A
vividas - sejam elas durante o estágio pertence ao plano da idealização. No
awareness é um aspecto central a ser
ou em outros momentos de vida - e entanto, sem idealizar, é importante
desenvolvido junto aos estagiários,
não simplesmente adotada, sem que o terapeuta acesse seus recursos
pois é o aprendizado fundamental,
críticas. Conforme Perls (1988), o e seu suporte real para o atendimento.
a partir do qual poderá ser
crescimento do indivíduo se dá a partir Boris (2008) aponta que é importante
desenvolvido seu potencial criativo
das trocas realizadas com o meio: abandonar a polaridade impotência/
para as intervenções terapêuticas.
retira-se algo do meio e devolve- onipotência, e trabalhar a potência do
lhe algo, sendo possível aceitar Frazão (2010) define awareness terapeuta, a partir dos recursos que
ou rejeitar o que o meio oferece. como percepção do que se passa este tem, no contato com o cliente.
Trata-se da introjeção saudável, que dentro e fora de si, no momento
Nesse sentido, o conceito de
consiste numa assimilação daquilo presente, tanto ao nível corporal,
fronteira de contato é um eixo para o
que vem do meio. Entretanto, se a quanto ao mental e ao emocional.
trabalho terapêutico e também para
teoria trabalhada não é assimilada de É a possibilidade de perceber,
o momento da supervisão (Soares,
modo a fazer sentido aos alunos, sua simultaneamente, o meio externo
2009). A fronteira é o limiar da
internalização se dá por meio de uma e interno, por meio de recursos
mudança, trazendo possibilidades e

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limites. Assim, é função do supervisor, colegas. Novos alunos chegam para acolhimento de cada terapeuta iniciante

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junto aos seus alunos, ficar com o que uma nova caminhada, e o supervisor como é, trabalhando a partir de seus
é do jeito que é, trabalhando dentro de de um determinado grupo nunca é recursos disponíveis e dificuldades. Para
um limiar de limites e possibilidades. exatamente o mesmo do ano anterior: que o terapeuta iniciante possa acolher,
Sem almejar o terapeuta ideal, “o seu papel de supervisor sempre é necessário que este seja acolhido em
o supervisor pode ficar com os é aprimorado ao longo de uma rica sua singularidade. E assim, uma relação
terapeutas reais, andar junto com os aprendizagem compartilhada por dialógica estabelecida em supervisão
alunos em suas descobertas, o que todos os envolvidos” (Tavora, 2002). possibilita a vivência dialógica também
guarda muitas semelhanças com a no momento em que o estagiário está
Rodrigues (1992), ao falar do
relação entre terapeuta e cliente, clinicando junto aos seus clientes.
trabalho do terapeuta, aponta que
mesmo que o contexto supervisivo
este ofício pode ser comparado ao A awareness a respeito do que
abranja temáticas mais específicas (as
do jardineiro: arar a terra, jogar as se dá no campo, com suspensão
quais sem dúvidas refletem no todo).
sementes e preparar o solo para uma fenomenológica, possibilita que se
É importante o supervisor ter vista que
maior possibilidade de germinação, coloque em primeiro plano a relação
ao fazer da Gestalt-terapia, seja em
tendo a clareza, no entanto, que terapêutica – em detrimento das
atividade terapêutica ou supervisiva,
afetamos e somos afetados durante técnicas - e ao mesmo tempo a
envolve um trabalho com ênfase na
todo o percurso. Arrisco transpor essa diferencie de qualquer outra relação
experimentação e pela autenticidade
metáfora ao fazer do supervisor, que cotidiana. É a disponibilidade para
(Prestrelo & Quadros, 2011).
cultiva seu jardim, ao longo de um ano o contato que sustenta o trabalho
Assim, ao supervisor cabe a função acadêmico, investindo sua energia e de um Gestalt-terapeuta. E esta
de trans-missão, na medida em que afeto, bem como aprendendo muito habilidade é fundamento central
ele serve como um acompanhante junto aos terapeutas em formação. ao processo de formação de
nessa passagem, que é feita pelos E ao final desta jornada, muito psicoterapeutas, trabalhada em cada
sentidos, afetos e criações. Cabe possivelmente acompanha e admira encontro supervisivo. Não cabe ao
ao supervisor legitimar o poder as flores e os frutos, dos alunos e supervisor dar respostas prontas aos
criativo que se mostra presente nos clientes modificados, assim como o alunos sobre como intervir a cada
terapeutas iniciantes (Soares, 2009). próprio jardineiro/supervisor, que já caso. O suporte que o supervisor
Aos poucos, o estilo próprio de cada não é mais o mesmo. pode fornecer aos iniciantes Gestalt-
estagiário vai sendo formado. Ocorre terapeutas é no sentido de ensiná-los
uma integração processual entre o a observar o que acontece no campo,
modo de ser enquanto pessoa e a sua CONSIDERAÇÕES FINAIS ampliando sua percepção, por meio
práxis. Estereótipos são derrubados de descrição, sensorialidade e redução
A partir das experiências vividas
e predomina a vivência experiencial fenomenológica. Para isto, destaca-
e refletidas durante este trabalho
dos campos terapêutico e supervisivo se ainda a importância do processo
monográfico, à luz da Gestalt-terapia,
(Erthal, 2004). E aí se destaca o terapêutico dos estagiários, como
constata-se que a atividade de
encantamento do supervisor com a facilitador de awareness e agente
supervisionar estágio em psicologia
permanente possibilidade de criação possibilitador der seu trabalho clínico.
clínica consiste, em primeira instância,
a partir da experiência supervisiva e
em uma experiência de “estar com” os Enquanto facilitador de awareness
de atendimentos (Soares, 2009).
alunos. Acompanhar os acadêmicos dos estagiários em relação ao seu
Aponta Tavora (2002) que no numa fase de transição, de aprendizado, aprendizado e seu fazer clínico, a
momento em que o estágio vem se de descoberta, de evolução e de experiência do supervisor abrange uma
aproximando do seu final, o supervisor mudanças. A vivência dos alunos no riqueza inestimável. É um testemunho
começa a gradativamente perder estágio configura-se a um ritual de do desabrochar, tal qual uma flor, de um
a sua função. Segundo a autora, passagem, onde os mesmos deixam grupo de alunos, normalmente jovens,
nesse momento os profissionais de ser alunos e tornam-se profissionais que inicialmente retraídos e temerosos,
em nascimento devem a dar os em psicologia. Ao supervisor cabe acabam por se mostrarem cheios
primeiros passos por si mesmos. Fora testemunhar essa passagem e, quando energia e de ideias contagiantes. Além
constituída a base de sua identidade necessário, intervir de modo a tornar de presenciar seu desenvolvimento
profissional, e fora dos muros essa experiência um pouco mais clara enquanto profissionais da psicologia,
da universidade e sem o suporte e segura. aprecia-se o seu crescimento pessoal.
cotidiano do professor/supervisor, Na medida em que os alunos vão
Embora tenha certas
eles precisarão escolher e buscar o se apropriando da teoria gestáltica,
particularidades, uma vez que tem
suporte de que ainda necessitarem mudanças são visíveis na sua forma de
características pedagógicas, a postura
nesta etapa que se inicia (Tavora, se posicionar perante a vida, perante a si
de um supervisor em muito assemelha-
2002). mesmo e às pessoas a quem atendem.
se à postura terapêutica. Assim como
É a Gestalt-terapia sendo apreendida,
O supervisor precisa lidar a a relação terapêutica, a relação entre
sentida e vivenciada, quando cada um
cada ano com o desligamento de supervisor e estagiários pode se
é capaz de criar sua própria forma de
seus orientandos, que envolve a constituir como um terreno fértil, onde
ser terapeuta, não mais precisando de
transformação do vínculo pedagógico não se trabalha tanto com expectativas,
um modelo a seguir.
em uma relação profissional entre normas ou regras, mas sim com o

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Finaliza-se este trabalho citando Cardoso, C. L. (2009). Grupos

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Perls, F. (1988) A abordgem gestáltica e
o sábio terapeuta Buys (1987; p.19): “O terapêuticos na abordagem a testemunha ocular da terapia. Rio
objetivo mais nobre que um supervisor gestáltica: uma proposta de atuação de Janeiro: Zahar.
pode almejar é facilitar o processo de clínica em comunidades. Estudos e
pesquisas em psicologia, 9 (1) 124- Perls, F. Hefferline, R. & Goodman, P.
construção do estilo pessoal (e único) (1997). Gestalt Terapia: São Paulo:
138.
do seu supervisando”. Reitera-se sua Summus
fala e destaca-se que ao ser supervisor, a Erthal. T. C. S. (2004). Treinamento em
Psicoterapia Vivencial. Campinas: Pinheiro, M. (2006). A formação do
caminhada nesse processo é tomada de Gestalt-terapeuta e a importância
aprendizados e muito recompensadora, Livro Pleno.
de seu reconhecimento. IGT na
tão bela quanto um desabrochar de Farah, A. B. A. Psicoterapia de grupo: Rede, 3(4), 1-3.
uma flor. reflexões sobre as mudanças no
contato entre os membros do grupo Prestrelo E. T. & Quadros, L. C. T.
durante o processo terapêutico. (2011). A Abordagem Gestáltica na
REFERÊNCIAS Revista IGT na rede, 6(11), 302-328. universidade: desafio, construção,
possibilidades.IGT na Rede, 8(15),
Augras, M. R.-A. (2009). O Ser da Frazão, L. M. (2010). Notas de aula. 175-184.
compreensão: fenomenologia da Teoria da Awareness. Especialização
situação de psicodiagnóstico. 13. ed. em Gestalt-terapia. Comunidade Quadros, L. C. T. (2012). Desafios da
Petrópolis: Vozes. Gestáltica. Aula de 15 de junho de prática clínica na formação de
2010. psicólogos: revendo fronteiras
Bandeira, C. C. (2012). Pensamento e criando possibilidades. IGT na
Clínico Processual I. Slides de Frazão, L. M. (2012). Notas de aula. Rede, 9(17), 187 – 199.
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em Gestalt-terapia. Comunidade suportiva do terapeuta. Ribeiro,J. P. (1986). Psicoterapia:
Gestáltica, Florianópolis/SC. Especialização em Gestalt-terapia. teorias e técnicas psicoterápicas.
Comunidade Gestáltica. Aulas de 15 São Paulo: Summus.
Barreto, M. C. & Barletta, J. B. (2010). A e 16 de junho de 2012.
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clínica sob as óticas do supervisor Husserl, E. (1929). Conferências de Paris. de Gestalt-Terapia. São Paulo:
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Graduação - Ciências Biológicas e da Robine, J-M. (2006). O self
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Boris, G. D. J. B. (2008). Versões filosofia de Buber: o encontro na à boa forma. Estudos e Pesquisas
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a supervisão de psicoterapeutas Fe n o m e n o l ó g i c o - E x i s t e n c i a l
iniciantes. Psicologia Clínica, 20 (1), Perls, F. Hefferline, R & Goodman, P.
(1997) Gestalt Terapia. São Paulo: Dialógica na Prática Clínica.
165-180. Slides da aula (maio de 2012).
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Buber, M (1974/ 2006). Eu e Tu. São Conferência no Congresso da Tavora, M. T (2002). Um modelo de
Paulo: Centauro Associação Europeia de Análise supervisão clínica na formação
Transacional, Áustria. do estudante de Psicologia: a
Buys, R. C. (1987). Supervisão de experiência da UFC. Psicologia em
Psicoterapia: na abordagem Perls, F. (1977). Introdução. Em: J. O. Estudo, Maringá, 7 (1), 121-130.
humanista centrada na pessoa. São Stevens (Org.) Isto é Gestalt. São
Paulo: Summus. Paulo: Summus. Yontef, G. M. (1998). Processo, Diálogo
e Awareness. São Paulo: Summus.

Ana Maria Justo é Psicóloga e Mestre em Psicologia pela Universidade


Federal de Santa Catarina, cursou especialização em Gestalt-Terapia
no Comunidade Gestáltica. Atualmente é doutoranda em psicologia na
Universidade Federal de Santa Catarina e psicoterapeuta do Comunidade
Gestáltica.

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O ATENDIMENTO INFANTIL NA CLÍNICA GESTALT:
UM RELATO DE CASO
Por Leonardo Pereira de Lima

RESUMO ABSTRACT
Este trabalho baseou-se no relato de um atendimento This paper was based upon the report of a clinical
ocorrido na clínica social da Comunidade Gestáltica – Clínica e social care performed at Comunidade Gestáltica - Clinic
Escola de Psicoterapia. Representa a primeira experiência em and School of Psychotherapy. It represents the first
estágio clínico de um graduando em psicologia e tem como experience at internship of a undergraduate student in
objetivo exemplificar a dinâmica da clínica infantil orientada clinical psychology and aimed to illustrate the dynamic of
pela Gestalt Terapia. Buscamos destacar os principais pontos the children clinic guided by Gestalt Therapy. We seek to
deste trabalho terapêutico para que possam acolher parte da highlight the main topics of this therapeutic work in order
angústia dos primeiros atendimentos de qualquer terapeuta, to ease part of the early anguishes of any therapist, and
além de contribuir com quem esteja estruturando seu also to contribute with those who are structuring their
modelo de atendimento clínico infantil. Foram apresentadas model for children clinic. The sessions were presented
cronologicamente as sessões de atendimento, intercaladas chronologically, interspersed with the theoretical
com as discussões teóricas que nortearam as intervenções. discussions that guided the interventions. The client was
O cliente foi um menino de dez anos, cujos pais trouxeram a ten-year-old boy whose parents brought as the main
como queixa principal seu medo excessivo de ficar sozinho complaint an excessive fear of being alone in different
em diferentes ambientes. Depois das entrevistas iniciais, surroundings. After the initial interviews, the diagnostic
a compreensão diagnóstica apontou para a necessidade understanding pointed out to the need for working the
de se trabalhar os limites com a criança, com a finalidade limits issue with the child, in order to develop his sense of
de desenvolver sua autonomia, capacidade de escolha e autonomy, decision capacity and ability to solve problems.
habilidade na resolução de problemas. Assim, iniciaram-se Interventions initiated after this diagnostic phase,
as intervenções, alternando os atendimentos do menino e de alternating sessions between boy and parents. Although
seus pais. Apesar do atendimento ter continuidade mesmo the attendance has been continued even after this
após o encerramento do artigo, os relatos foram interrompidos article´s closure, the reports have been interrupted at the
na ocasião em que os pais afirmaram que “o medo havia time parents claimed that “the boy´s fear had decreased
diminuído 90%”, passando suas preocupações para o by 90%”, changing their concerns for the child’s school
desempenho escolar do filho, que também se relacionava performance, which was also related to a matter of limits.
com uma questão de limites. Concluímos o artigo destacando We conclude this paper highlighting how important is for
como importantes para o psicoterapeuta infantil a realização the child psychotherapist to conduct specific training, to
de uma formação específica; o investimento contínuo em seu invest in his/her own therapeutic work, and to have, as a
próprio trabalho terapêutico; e apresentar, como característica fundamental characteristic, availability to play.
fundamental, disponibilidade para brincar.
Keywords: Gestalt Therapy, Child´s attendance, Clinic,
Palavras-Chave: Gestalt Terapia; Atendimento infantil; Case report.
Clínica; Relato de caso.

Era uma vez um menino chamado Pedro. Ele era muito simpático, INTRODUÇÃO
inteligente e adorava conversar com as pessoas. Mas seus pais estavam Esse é um entre os incontáveis
preocupados: Pedro tinha medo, muito medo de ficar sozinho. Não casos que aparecem na clínica
conseguia ficar desacompanhado em nenhum cômodo da casa. Sempre terapêutica do serviço de
buscava alguém por perto ou puxava conversa para que as pessoas não atendimento social da Comunidade
saíssem do seu lado. Apesar de já ter dez anos e seu próprio quarto na Gestáltica – Clínica e Escola de
casa, dormia com a irmã. Na escola, sempre que tinha vontade de ir ao Psicoterapia. Dentro do estágio
banheiro, pedia para alguém acompanhá-lo. Caso contrário, chegava em realizado nesta instituição, os
casa super apurado e então ia fazer xixi, mas claro, deixava a porta aberta. graduandos em psicologia têm a
Seus pais se perguntavam por que seu filho tinha tanto medo, já que “tudo oportunidade de atender clientes
havia sido normal na vida de Pedro”. Mais que isso, ele não passara pelas da comunidade de baixa renda,
dificuldades financeiras que tiveram ao nascimento de sua irmã, agora estendendo a este público a
com 15 anos, mesma idade com que sua mãe descobriu que ia ganhar seu possibilidade de atendimento
primeiro bebê. Nesta fase, seus pais Márcio e Juliana não podiam comprar psicoterapêutico, sob a supervisão
tudo o que desejavam e viviam com restrições. Porém, agora as coisas responsável de terapeutas com
eram diferentes, e ofereciam tudo o que podiam ao filho. Pedro também vasta experiência clínica. O presente
apresentava dificuldades no desempenho escolar e seus professores já trabalho, relato da primeira
estavam preocupados, dizendo que o menino não aprendia e costumava experiência em estágio clínico
demorar muito para fazer as tarefas. Definiam-no como “uma caixinha de de um graduando em psicologia,
surpresas”. Por vezes, dava respostas corretas e inesperadas. Sua mãe não tem como objetivo exemplificar
ficava tão surpresa, pois sabia que Pedro era bem esperto e que conhecia a dinâmica da clínica infantil
todo o alfabeto. Depois de outras alternativas, Márcio e Juliana tomaram orientada pela Gestalt Terapia.
uma decisão: buscar nosso atendimento psicológico. Buscamos destacar os principais

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pontos deste trabalho terapêutico

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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA BREVE HISTÓRIA DA CLÍNICA
para que, como exemplo prático, INFANTIL
Não é intenção neste artigo
possam acolher parte da angústia
aprofundarmos ou esclarecermos Dentro da psicologia, a infância
dos primeiros atendimentos
conceitos da Gestalt Terapia. passa a receber atenção especial a
que qualquer terapeuta um dia
Entendemos como importante tocar partir dos trabalhos de Freud, que
enfrentou, enfrentará ou esteja
em alguns pontos fundamentais da aponta para a grande importância
enfrentando. O trabalho busca
teoria que norteia este trabalho, de desta fase na construção da
trazer contribuições para quem
maneira breve e sucinta. personalidade e na origem de grande
esteja estruturando seu modelo
parte das doenças psíquicas dos
de atendimento, em linguagem A Gestalt Terapia é definida como
indivíduos (Freud, 1980). Dentre suas
didática e direta e, principalmente, um método clínico fenomenológico-
descobertas, está o fato das crianças
de forma pragmática, característica existencial- dialógico.
serem afetadas pelas interações com
de quem escreve este artigo. Fenomenológico, pois trabalha com
os adultos, o que não mudou a forma
a descrição do fenômeno, com aquilo
Ressaltamos que a forma como destes adultos interagirem com elas,
que se mostra, aquilo que aparece
foi conduzido o atendimento e seus porém “legitimou a possibilidade
como disponível, que se apresenta
comentários não têm pretensão de um determinado adulto, o
no aqui e agora. Existencial, pois
de mostrá-los como os únicos psicoterapeuta, agir e falar de uma
lida com a existência humana
possíveis. Representam, dentro dos forma específica com a criança de
completa que ali se apresenta, com
diversos significados existentes, modo que isso pudesse trazer algum
um todo que engloba e circunda
aqueles encontrados pelo benefício terapêutico” (Aguiar, 2005,
a situação presente, e não apenas
estagiário e sua supervisão, sendo p. 29). Surge ainda com Freud a ideia
com o problema ou a queixa. E
passíveis de equívocos e abertos a do brincar como uma possibilidade
dialógico, pois considera a interação
críticas. Qualquer padronização ou de expressão e elaboração de
entre todos os seres humanos, um
generalização de atendimento vai frustrações e conflitos, o que passa
interferindo na realidade vivencial
contra a perspectiva gestáltica do a ser entendido pela Gestalt Terapia
do outro.
ser humano enquanto singular em como uma maneira da criança
cada existência em particular. O A Gestalt Terapia tem uma transformar ativamente seu meio
que procuramos é dar fundo para concepção holística de ser humano, para suprir suas necessidades.
discussões que venham a contribuir ou seja, uma visão integrada do
Tanto para Anna Freud (1971)
com a formação de futuros homem e da realidade que o cerca.
como para Melanie Klein (1981),
terapeutas que iniciam sua jornada. Enxerga um ser humano capaz
o brincar se torna um importante
de autogerir-se e autorregular-
Entre as diversas leituras instrumento de trabalho, porém
se, criando e recriando-se a
básicas exigidas para nosso estágio com funções distintas. Anna Freud
cada instante, transformando-se
em clínica de Gestalt Terapia utilizava-o como forma de vínculo
num constante vir a ser, agindo
destacamos duas, específicas para entre criança e psicoterapeuta. Já
em seu meio e assim, também
a clínica infantil: “Gestalt Terapia Klein, inaugurando uma nova forma
o transformando (Perls, 1985).
com crianças: teoria e prática”, de de trabalho clínico com crianças,
Entende a singularidade de cada
Luciana Aguiar, e “Descobrindo utilizava o brincar como substituto
indivíduo na sua própria existência,
crianças”, de Violet Oaklander. De da verbalização, possibilitando
considerando a originalidade
antemão, recomendamos a leitura a interpretação analítica sobre a
da experiência de cada um e as
destes textos na íntegra para “linguagem do brinquedo”, mais
possibilidades de contato que cada
aprofundamento em quaisquer tarde chamada de linguagem lúdica.
indivíduo estabelece com o mundo
dos temas aqui abordados, Segundo Aguiar (2005), Melanie Klein
e com o outro, posto que o próprio
deixando claro que o primeiro livro contribui também com um olhar mais
indivíduo é um ser relacional (Kiyan,
serviu de base estrutural para a atento aos primeiros anos de vida da
2006). O meio onde cada pessoa
confecção deste artigo. Nossos criança, especialmente nas relações
se desenvolve, seu espaço de
agradecimentos antecipados à estabelecidas neste período, algo
vida, é entendido como campo, e
autora, que tanto contribuiu para de grande importância também na
todo comportamento é concebido
nossas discussões. perspectiva gestáltica, considerando
como uma função da relação da
que nesta fase o campo relacional da
Esclarecemos que os nomes pessoa com este meio, onde há
criança é bastante estreito e reduzido
dos clientes foram trocados para uma incessante troca (D’Acri, Lima e
a poucas pessoas. Além disso, a
preservar suas identidades e, com Orgler, 2007). O tipo de relação do
criança tem suas possibilidades
o mesmo propósito, detalhes não indivíduo com o meio é determinante
de atuação no meio limitadas:
pertinentes a presente discussão para seu comportamento. Quando
possui uma maior fragilidade física,
foram omitidos. Informamos este relacionamento é satisfatório,
dependência para satisfação de suas
também que a produção deste o comportamento do indivíduo é
necessidades básicas, imaturidade
artigo foi autorizada pelos chamado de funcional. Quando
orgânica e, portanto, não possui
responsáveis através de um causa conflito, é entendido como
autonomia em diversos aspectos de
termo de consentimento livre e disfuncional (Perls, 1985).
sua existência.
esclarecido.

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Winnicott traz o brincar como intercaladas com as discussões de funcionamento é de extrema

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o espaço onde o terapeuta deve teóricas que foram servindo de importância para entendimento
encontrar a criança, onde o contato base para a orientação do trabalho. do contexto onde se encontra a
entre ambos é valorizado. Tal sentido Esclarecemos ainda que em criança e para todo o processo
se tornou uma das bases da condução nosso estágio somos orientados a terapêutico (Aguiar, 2005). No caso
do processo terapêutico infantil na transcrever ao final de cada relato aqui apresentado, por se tratar de
Gestalt Terapia (Aguiar, 2005). de atendimento “O que senti” e “O um casal que vive junto, as sessões
que tive vontade de fazer”. Estes com os pais foram sempre realizadas
Outras duas fundamentais
questionamentos visam que o com a presença de ambos, para
contribuições tiveram origem na
estagiário desenvolva awareness do que a demanda fosse percebida a
Escola Francesa de Psicanálise
que ocorre no consultório, para que partir do ponto de vista do casal,
(Aguiar, 2005). Uma delas é o
possa fazer o exercício da redução possibilitando também a percepção
entendimento de que a criança não é
fenomenológica, discutir com a do funcionamento do mesmo na
doente, mas que reflete as disfunções
supervisão seus encaminhamentos, relação. Com pais que não vivem
de seu meio. A segunda aponta para
pensar e repensar o atendimento de juntos, separados ou divorciados,
a atenção sobre quem exerce as
seu cliente. Compartilhamos algumas recomenda-se que sejam realizadas
funções maternas e paternas para a
destas transcrições que julgamos sessões individuais, mas é acima
criança, independente de critérios de
pertinentes para discussão, as quais de tudo previsto que todos os
gênero ou dos laços biológicos que
mostram as angústias e dúvidas de responsáveis legais tenham ciência
têm com a criança.
quem inicia sua atividade clínica, do início do atendimento, ainda que
Aguiar destaca como fundamental buscando o acolhimento e a empatia sejam impossibilitados de comparecer
na clínica infantil: do leitor que também vive este ou façam opção por não participar.
momento.
A aceitação da criança como ela No atendimento aqui descrito,
é, o respeito pelo seu tempo e devido à abertura e disponibilidade
pela sua capacidade em resolver dos pais de Pedro, apenas um
O ATENDIMENTO
seus próprios problemas, a não- encontro foi considerado suficiente,
diretividade das suas ações ou Sendo a clínica social da porém, uma ou mais entrevistas
conversas, o estabelecimento de Comunidade Gestáltica um serviço iniciais podem ser necessárias.
um sentido de permissividade gratuito para estes fins, primeiramente Durante a entrevista, optamos por
e o desenvolvimento de uma é feita uma entrevista de triagem para direcionar o mínimo possível a
sólida relação de confiança entre confirmar se o cliente se encontra no conversa, atentos tanto ao conteúdo
criança e psicoterapeuta são os perfil sócio-econômico estabelecido quanto ao processo daquilo que se
princípios básicos dessa nova pela instituição. Uma vez selecionado apresenta, ou seja, não só o que os
forma de compreender e trabalhar e escolhido o estagiário responsável, pais nos trazem, mas principalmente
psicoterapeuticamente com a agendamos os primeiros encontros. “como” trazem suas histórias.
criança (Aguiar, 2005, p. 35).
A Gestalt Terapia traz como
forma de manejo prático para o início
Por fim, é importante ressaltar a ENTREVISTAS INICIAIS
do processo terapêutico na clínica
visão gestáltica sobre o significado
infantil o acolhimento e escuta dos Sessão nº 01
do sintoma, como um movimento de
responsáveis pela criança. Mesmo
saúde e uma tentativa de equilíbrio da Conversa com os pais
que a procura dos atendimentos
criança lidar com seu campo vivencial.
nem sempre seja por espontânea Juliana e Márcio formam um casal
Porém, apesar dessa importante
vontade, ainda são estes que chegam jovem que vive com Pedro, de 10 anos,
função na autorregulação da criança,
até a clínica e com os quais devemos e a filha mais velha, de 15 anos. A mãe
uma vez que evoca as queixas que
fazer o primeiro contrato terapêutico. contou o motivo que os trouxeram
as trazem até nosso consultório, o
Nos primeiros encontros pedimos ao atendimento: o medo de Pedro de
sintoma não está sendo suportado
que venham sem as crianças e falem ficar só em qualquer ambiente da casa
pelo campo vivencial da criança,
livremente sobre o motivo que os e de ir sozinho ao banheiro na escola.
mostrando-se, portanto incapaz de
trouxeram até o consultório, nos Relataram que certa vez na escola,
manter o equilíbrio satisfatoriamente.
contem um pouco da história do outro aluno tentou trancar Pedro
Assim, num primeiro momento, nosso
casal, como se conheceram, como no banheiro, prendendo o dedo do
atendimento deve ser conduzido pela
foi a chegada desta criança, suas filho com a porta e ocasionando um
busca do contexto e dos motivos que
expectativas em relação a ela (Aguiar, pequeno corte. Os pais conheceram-se
fazem com que ela precise agir desta
2005). É importante destacar a quando eram adolescentes e tiveram
forma (sintoma) para se autorregular
compreensão gestáltica de que os a primeira filha quando Juliana tinha
(Aguiar, 2005).
pais não são meros fornecedores de 16 anos. Ambos trabalhavam desde os
Na sequência deste trabalho, informações sobre seus filhos, mas 11 anos de idade. Enfrentaram muitas
apresentaremos cronologicamente sim parte integrante da problemática dificuldades no início, lamentando
as sessões de atendimento do existencial da criança. Conhecer não poderem proporcionar um maior
caso descrito no início deste artigo, quem são esses pais e suas formas conforto para a filha mais velha.

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Márcio expressou sua expectativa do estagiário e mudava de assunto. sempre com a irmã, desconversou.

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quanto ao prognóstico, assim como Pegou o telefone de brinquedo e Questionado sobre o medo, também
a expectativa do menino ser como “ligou” para a mãe: disse que estava desconversou. Falou que precisava ir
ele era: “ser ágil e ter equilíbrio se divertindo muito. Pediu para fazer ao banheiro e foi sozinho, sem hesitar.
para subir, descer e pular”. A filha um desenho e para tal, solicitou que
O que eu senti: no início da sessão,
já começou a trabalhar e, segundo o estagiário mudasse de lugar, assim
novamente senti-me impotente
eles, é responsável e esforçada. ele poderia sentar mais próximo dos
diante de Pedro, que parece conduzir
O casal mostrou-se disponível e lápis. Respeitou as regras impostas
toda sessão se lhe for permitido.
comprometido com o atendimento, no consultório, colocando as coisas
depositando confiança no terapeuta. no lugar antes de sair. O que tive vontade de fazer:
explorar mais sobre a queixa.
Colhidas as informações O que eu senti: senti-me cansado
necessárias com os responsáveis, e impotente. Achei Pedro “chato” em As interrupções na fala de Pedro,
partimos para as entrevistas com alguns momentos. questionando se percebia que não
a criança, onde também vamos escutava o estagiário, foram avaliadas
O que tive vontade de fazer: tive
conhecê-la, fazer seu acolhimento, pela supervisão como precipitadas
curiosidade em explorar a queixa
escutá-la e entrar em contato com para as entrevistas iniciais, um
dada pelos pais.
seu modo de funcionamento. Com momento onde a observação deve
Pedro optamos por três encontros, Fomos orientados a evitar prevalecer. O estagiário as justificou
ainda que o cliente tenha se mostrado intervenções nas primeiras sessões. como tentativas de romper com a
espontâneo e proativo desde o É uma fase exploratória na qual ainda dinâmica proposta pela criança, uma
primeiro encontro, permitindo que o estamos entrando em contato com ação que se caracteriza como uma
estagiário se sentisse mais seguro. o cliente. Tendo a Gestalt Terapia intervenção.
uma base fenomenológica, portanto
Lembramos que deve ser O estagiário encontrava-se
descritiva (PHG, 1997), deve-se
estabelecido um contrato de ansioso em confirmar a queixa dos
inicialmente observar e conhecer com
atendimento também com a criança, pais e deu-se conta dessa condição.
cautela o funcionamento da criança,
principalmente quanto à frequência e Não foi orientado a agir neste
antes de quaisquer intervenções.
duração das sessões, impossibilidade sentido, pois traria algo que não
Buscamos compreender a forma
de levar brinquedos do consultório é figura para a criança, pois o que
desta criança em interagir com o
para casa e de deixá-los em ordem ao aparece como queixa para os pais ou
meio, para a qual os comportamentos
sair, explicando os motivos para tal. responsáveis não é necessariamente
apresentados dentro do consultório
O respeito ou resistência da criança um incômodo para a criança (Aguiar,
são representativos.
a estas regras nos dá pistas iniciais 2005). Ao contrário, a queixa dos pais
de sua forma de interação com o É importante a awareness da pode representar um ajustamento
meio. Também é importante a ideia sensação do terapeuta diante do criativo desta criança em lidar
da participação do cliente (tanto cliente, pois esta pode refletir uma com seu meio, que passa a ser
adulto como a criança) na formulação das formas como o meio recebe considerado disfuncional por não
do contrato, sendo cada contrato aquele que ali se apresenta, ou ir de encontro às expectativas de
específico e único, resultado do seja, como a criança expressa sua seus responsáveis. Neste sentido,
encontro entre as partes (Rosa, 2011). agressividade, entendida pela Gestalt é de extrema importância que
como sua forma de agir e existir no busquemos compreender se estes
Sendo, para a maioria das
mundo (Perls, 2002). comportamentos são manifestados
crianças, a primeira vez que se
em certas dinâmicas familiares em
encontram diante de um psicólogo,
particular ou se, por se encontrarem
criamos um momento para que façam
Sessão nº 03 cristalizados, utilizados sem
suas perguntas quanto a esta nova
discriminação e nos mais diversos
pessoa e espaço de sua existência, Realizada com Pedro
contextos.
acolhendo suas fantasias, dúvidas e Pedro chegou com o pai, se
curiosidades. dirigiu para a sala e foi abrindo a
caixa, conduzindo as brincadeiras. Sessão nº 04
Novamente fiz algumas colocações e
Sessão nº 02 Realizada com Pedro
comentários que ele ignorou, mudou
Realizada com Pedro de assunto. Perguntei se ele percebia O Pai, ao me ver antes da sessão,
que não estava me escutando. Disse a disse para o filho: “olha o seu amigo”.
Pedro foi entrando na sala,
ele que também teríamos que reservar Pedro chega novamente bem
muito ativo e falador. Disse que era
algum momento para conversa, não animado ao encontro. Entra na sala,
50% Ninja. Pegou logo as espadas,
apenas para brincadeiras. Entre outras já vai abrindo a caixa, empolgado
fazendo movimentos rápidos e
perguntas, Pedro não respondeu ao em brincar, principalmente com as
precisos. Explorou todo o ambiente e
ser perguntado se ia ao banheiro na espadas. Disse que tinha medo de
a caixa de brinquedos. Não respondia
escola. Quando falávamos sobre onde ladrões e bandidos: “às vezes tenho
algumas das perguntas que lhe eram
ele dormia e perguntei se dormia medo de ficar sozinho”. Contou o
feitas. Ignorava algumas das falas

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episódio em que ficou preso no A mãe, por sua vez, aceitou tudo que agendamento da visita. A

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banheiro, e disse que fez um “baita o filho propôs. Embora o estagiário coordenadora disse que Pedro é muito
cortinho” no dedo. Pedro perguntou tenha achado este fato algo comum, inteligente, mas fica muito na dele, às
algumas vezes se teria acabado as supervisoras chamaram atenção vezes parado, distraído. A professora
o “tempo de brincar”, checando o que este não é um comportamento tem que ficar em cima para que faça
relógio da sala. geral: muitas mães se opõem ou as atividades. Relatou que ele não
resistem às propostas dos filhos. interage muito com outras crianças,
O que eu senti: senti a sessão mais
mas não demonstra se incomodar
divertida. Ele pareceu mais agradável. Foi solicitado ao estagiário
com isso. Ele é alfabetizado e passou
que refletisse sobre o que Pedro
O que tive vontade de fazer: fiquei direto. Acha que ele pode ser “um
representa para esta família e em que
curioso em explorar e intervir mais desses gênios incompreendidos”.
fase aparece na vida do casal.
sobre a questão do medo, mas segui a Neste momento, uma professora
orientação dada na última supervisão. Na sessão seguinte, descrita logo que estava na mesa ao lado interveio
abaixo, observamos a repetição do dizendo que leram algo sobre autismo
Aguiar (2005) coloca que “o
comportamento de Pedro com o pai, e que Pedro se encaixava em algumas
vínculo é a condição básica para que
que também foi muito complacente. características. Tentei desconstruir a
a psicoterapia aconteça”, importante
para suportar nossas intervenções
ideia, dizendo que todos nós temos
e o que as tornam efetivamente
muitas daquelas características,
Sessão nº 06 sendo que no final da conversa
transformadoras. Pelos relatos,
acreditamos que foi estabelecido um Sessão com Pedro e Márcio, seu reforcei que Pedro não apresentava
bom vínculo entre o estagiário e a pai nenhum sinal de transtornos ou
criança, assim como com os pais.
déficit, muito menos de autismo.
Pedro chegou para a sessão com Sobre a ida ao banheiro, a professora
o pai e dirigiu-se diretamente para a adotou uma estratégia em que todos
sala, abrindo a caixa antes mesmo vão ao banheiro, por fileiras, assim
Sessão nº 05
que entrássemos. Márcio trouxe o Pedro não tem mais que ir sozinho.
Realizada com Pedro e Juliana, parecer final do ano letivo emitido
sua mãe. pela escola, dizendo que Pedro
foi aprovado, apesar de algumas COMPREENSÃO DIAGNÓSTICA
Pedro entrou na sala, pegou as
dificuldades e falta de atenção. Márcio
espadas e iniciou querendo que eu Com base em todos os
falou que não tinha lido o parecer.
brincasse com ele. Brincamos por atendimentos, tendo colhido
Pedro pegou as espadas e propôs
alguns segundos, e eu sugeri que ele diferentes perspectivas, podemos
ao pai as mesmas brincadeiras de
convidasse a mãe para a brincadeira, construir a devolutiva com os pais.
sempre. Márcio falou que ele desde
pois era a proposta daquele encontro. Lembramos que, usando a mesma
pequeno adora espadas. Pedro
Os dois começaram então a lutar lógica que orienta as entrevistas
conduziu as brincadeiras, incluindo-
com as espadas. Pedro comportou- iniciais, devolutivas com pais que
me em quase todas, apesar do meu
se da mesma forma que agia comigo, não vivem juntos também devem
pedido em não participar, sempre
conduzindo todas as brincadeiras. Foi ser realizadas com cada um dos
assertivo e autoritário no que cada
agressivo com as espadas, fazendo responsáveis em particular. Nestas,
um devia fazer. Mostrou novamente
com que Juliana diversas vezes se comunicamos aos pais nossos
preocupação com o término da
esquivasse para se proteger. Ela deu pareceres e sensações baseados
sessão. O pai participou de todas
algumas sugestões, mas ele não nas entrevistas iniciais. Enquanto
as atividades, mostrando calma,
respondia a tudo que ela falava, a fazemos nossa exposição, é
paciência e carinho com o filho.
ignorava. No final, Pedro lamentou importante confirmar com os pais se
o término da sessão, demonstrando nosso parecer faz sentido para eles.
tristeza na voz. Perguntei se tinha Nossa percepção pode apresentar
Outra estratégia que pode ser
passado rápido, ele disse que foi equívocos ou os pais podem não
utilizada é a visita à escola da criança,
devido ao meu atraso (neste dia, o estar disponíveis ou preparados
para investigar suas relações neste
estagiário atrasou 10 min). A mãe para o que trazemos. A consulta
ambiente, entender como a criança
comentou: “que esperto”. da opinião coloca os pais numa
é acolhida e se o discurso dos pais
coincide com o dos professores, posição ativa dentro do processo
coordenadores e demais profissionais terapêutico, acolhe inseguranças e
A sessão da criança com os pais nos permite observar como recebem
da instituição. Buscamos investigar
tem o intuito de observarmos qual o as orientações:
mais sobre o funcionamento de Pedro
funcionamento da criança com cada
neste outro contexto. Poder observar as reações dos
um deles.
responsáveis e sua capacidade de
Avaliando a dinâmica de Pedro dar-se conta de suas implicações
na supervisão, observamos que se Visita à escola de Pedro na situação da criança, dá-nos
manteve a mesma apresentada nas algumas diretrizes bastante
Fiz contato prévio com a
sessões individuais com o estagiário. importantes para o posterior
orientadora pedagógica para

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trabalho a ser desenvolvido em confirmado nos atendimentos e Portanto, com base nestes fatos,

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suas sessões de acompanhamento brincadeiras: o menino não se o que mais se evidenciou no caso de
(Aguiar, 2005, p. 173). mostrou uma criança com temores Pedro foi a necessidade de trabalhar
ou acanhada, nem expressou ou os limites. Segundo Aguiar, a vivência
Assim, vamos construindo mencionou medo de algo em de limites é um elemento crucial
e estruturando mutuamente a específico. Pelo contrário, foi corajoso para o processo de diferenciação em
estratégia de intervenção que será e um tanto agressivo em alguns relação ao outro:
estabelecida. As sessões a partir momentos: apresentou-se como
A experiência dos limites permite
deste momento podem ser realizadas “50% ninja” e comportou-se como tal.
que a criança perceba uma fronteira
com uma maior ou menor alternância O medo para Pedro parece apenas
entre ela e o outro, marcando a
entre os encontros com os pais e a ter a função de conseguir ainda mais
diferença entre eles, e fazendo
criança, e até mesmo com visitas a atenção, justificando sua necessidade
com que ela sinta-se querendo
escola, de acordo com o que se fizer de manter alguém por perto o tempo
e comportando-se diferente do
necessário e com o que o terapeuta todo. Em nosso entendimento, Pedro
outro. Ao deparar-se com um
achar mais conveniente para a não gosta de ficar sozinho porque
limite, a criança necessitará, como
situação em específico. prefere estar acompanhado, e não
em outras situações, encontrar
No que se refere à devolutiva porque tem medo real de algo. O
a melhor forma possível de lidar,
para os pais de Pedro, avaliamos que medo é uma forma de ajustamento
realizando ajustamentos criativos
desde o início do atendimento Pedro criativo utilizado por Pedro para
necessários para tal e, com isso,
dominou as sessões em que esteve conseguir o que quer e satisfazer suas
a possibilidade de alcançar novas
presente, ditando as brincadeiras e o necessidades de atenção.
aquisições mais satisfatórias
ritmo dos encontros. Foi assertivo e Entretanto, Oaklander (1980) (Aguiar, 2005, p. 83).
enérgico. Além disso, essa dinâmica alerta que os medos das crianças
parece ser a mesma com aqueles precisam ser reconhecidos, aceitos A autora ainda destaca a
que o cercam: de forma efetiva Pedro e respeitados. Podem ter origem importância de um equilíbrio ao
consegue com que todos, inclusive no em fatos reais, fantasias ou ideias oferecer estes limites: se em excesso
ambiente escolar, acabem fazendo falsas, assim como ser resultado da podem prejudicar o desenvolvimento
o que ele deseja. De certa forma, posição desigual que a criança ocupa da autonomia, capacidade de escolha
acaba “manipulando” as pessoas em nossa sociedade. Por não caber e resolução de problemas. Já a falta de
a seu redor, o que não deve ser aqui o aprofundamento do tema, limites pode gerar crianças “inseguras
entendido de forma negativa, mas recomendamos a leitura de “Temores”, e com uma noção equivocada do
sim como um aspecto saudável da parte do livro Descobrindo Crianças, mundo, das pessoas e dos seus
criança, que age no meio de maneira onde Oaklander (1980) descreve direitos e deveres” (Aguiar, 2005,
efetiva para suprir suas necessidades situações em que trabalha o medo p.85). Também afirma como essencial
de atenção e conforto. O conflito com diversas crianças. Entretanto, a diferenciação entre autoridade e
está nas consequências destes deixamos como orientação para autoritarismo, pois estabelecer limites
comportamentos: impede que Pedro os pais que sempre acolham este não significa a imposição de idéias
apresente evolução no desempenho sentimento da criança, procurando arbitrárias junto às crianças, mas uma
escolar, cumpra com suas tarefas saber a que se refere o medo quando forma de orientá-la, estabelecer uma
escolares, adquira sua autonomia ou ele se expressa. Nestes momentos, sensação de segurança, adequação e
faça novos amigos. Mais que isso, os pais devem construir junto à previsibilidade.
parece uma forma cristalizada de criança estratégias de enfrentamento,
As supervisoras deram orientações
interação com o meio. primeiramente através da escuta e
sobre o cuidado ao expormos a
Conforme recomenda Aguiar entendimento dos temores, seguindo
situação aos pais, de forma que
(2005), refletimos também sobre para o acolhimento e desmistificação
a criança ou os pais não sejam
o lugar que a criança ocupa dentro da fantasia da criança ou a
colocados como vítimas ou vilões,
da família. Vindo numa nova fase confirmação de perigos concretos.
mas como parte de um contexto
da vida do casal, com condições Devemos nos apresentar como
dialógico que propiciou que Pedro
financeiras mais favoráveis, Pedro disponíveis, pacientes e presentes
agisse desta forma.
parece representar a experiência de ao enfrentamento de medo com
uma vida melhor, onde não deveriam ela: para uma criança que tem medo
existir dificuldades e tudo deveria de algo embaixo da cama, levantar Sessão nº 07
ser perfeito. Deste modo, parece a cama e ver o que existe naquele
espaço; se tem medo de um monstro Sessão devolutiva com Juliana e
que seus pais evitam qualquer tipo
no armário, explorar o armário, etc. Márcio
de sofrimento ao filho, tornam-se
superprotetores e têm dificuldades Dificilmente serão ações que darão Comecei destacando os pontos
em frustrá-lo, atendendo às suas fim imediato ao temor existente, mas positivos: toda a dedicação do
vontades e caprichos. confirmam o sentimento da criança, casal e os aspectos saudáveis de
a instrumentalizam e ampliam a Pedro. Eles falaram que sentiram o
Quanto ao medo trazido pelos possibilidade de ressignificação de menino mais calmo, apresentando
pais, em nenhum momento foi suas fantasias.

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“melhoras” desde que iniciou o forma, muito se discutiu sobre o pudessem estar com Pedro, em

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atendimento. Falei da dificuldade “simples brincar” durante as sessões. períodos mais convenientes para
que senti em lidar com o garoto, Falamos sobre o brincar diferenciado todos, delimitando isso claramente
de como ele me envolvia e parecia que criamos no espaço terapêutico para o menino (mais qualidade
envolver a todos com sua conversa, e da importância de um momento de presença do que quantidade).
conseguindo o que queria. Os pais onde a criança sinta-se confirmada Perguntei como eles se sentiram
confirmaram minhas percepções. e reconhecida, o que pode ter um com o menino saindo sozinho e falei
Falaram também que quem manda efeito muito transformador. Porém, sobre o que isso representava: um
no controle remoto da televisão em queremos deixar claro que o trabalho crescimento de Pedro.
casa é o filho. Perguntaram sobre a do terapeuta infantil não deve se
questão dos medos de Pedro e eu limitar a isso, mas o fato é que
expliquei que algumas vezes o medo algumas vezes a criança não traz para O entendimento foi de que
pode ser usado como uma estratégia o consultório os conflitos ou queixas Juliana confirma-se superprotetora.
pela criança. Eles retomaram relatados pelos pais. Quando isso não Além disso, trouxe para a sessão
algumas situações de medo e, acontece, devemos respeitá-la e fazer um medo que não era do filho, mas
principalmente o pai, concordou que daquele espaço um momento de seu. Pedro por outro lado, pela fala
Pedro podia estar usando o medo espontaneidade e confirmação de seu dos pais, parece estar adquirindo
como desculpa, pois em situações self. Algumas vezes, pode representar confiança. A supervisão chamou
que eram interessantes para ele, o tudo que ela precisa na ocasião. atenção à mudança que estamos
medo sumia. Sugeri que quando ele propondo no campo e o quanto
Devido ao período de férias, as
apresentasse medo, conversassem os pais estarão disponíveis a ela:
sessões foram interrompidas por
mais sobre isso, perguntando a que se assumir que Pedro está crescendo,
seis semanas, o que fez com que
referia este medo e como poderiam que irá gradativamente conquistar
retomássemos o atendimento com
ajudar a superá-lo, de uma forma sua liberdade e deixará de ser o
uma nova conversa com os pais para
acolhedora. Falamos então sobre a bebezinho da casa.
obtermos notícias de como foram
necessidade de dar limites ao garoto Passamos a pensar na devolutiva
as férias, se ocorreram mudanças
e que trabalharíamos juntos nisso. com a criança, onde buscamos
nesse período e, principalmente,
Combinamos que a partir daquele relembrar o que fizemos em nossos
investigarmos como foi o recebimento
momento seriam realizadas duas encontros, o que percebemos
da devolutiva. Assim, pudemos avaliar
sessões com Pedro e uma com os como suas potencialidades e suas
se estávamos alinhados com os pais
pais, alternadamente. dificuldades (Aguiar, 2005). Da
no encaminhamento do atendimento.
O que eu senti: que estávamos no mesma forma que com os adultos,
caminho certo. Senti a conversa bem devemos devolver o que é possível
descontraída e que os pais saíram Sessão nº 08 para a criança, observando se ela
bem aliviados. Fazendo o relatório, está disponível ou não para suportar
Sessão de retorno com Juliana e
parece que há certa resistência da as devoluções sobre suas formas
Márcio
mãe em assumir que Pedro possa de estar e agir. Procuramos também
estar usando o medo como uma Comecei pedindo que relatassem dar espaço para que a criança possa
estratégia e tenha relação com seu o que havia ficado da nossa última se expressar, dar sua opinião sobre
excesso de proteção. conversa e como tinham sido aqueles os encontros, sua impressão sobre
dias de férias. Juliana disse que fazia o terapeuta ou algo mais que possa
O que tive vontade de fazer: saber
sentido o que conversamos e que querer compartilhar ou perguntar.
logo como serão estes dias até a
Pedro havia apresentado melhoras.
próxima sessão.
Disse que um dia ele pegou seu
O fato dos pais estarem dinheiro e saiu de casa sozinho, foi Sessão nº 09
procurando atendimento psicológico comprar picolé, algo que não faria
Sessão devolutiva com Pedro
e disponibilizarem seu tempo para antes. Porém, retomando sobre
focar e pensar nas dificuldades que o medo do filho, confirmou que Pedro chegou com o pai, muito
estão enfrentando, além da criação ele realmente tem medo de algo, animado para a sessão. Estava de
de um novo espaço para a criança, relatando sua experiência pessoal óculos e eu chamei atenção ao fato,
são elementos que têm influência quando criança, quando tinha medo elogiando o uso e lembrando de
no meio familiar, e muitas vezes por de monstros. Márcio contou que o filho sua importância. O uso dos óculos
si só, causam mudanças positivas pedia sua presença constantemente, foi outra dificuldade relatada pelos
neste campo. Assim, justificam-se as dizendo que muitas vezes ele enrolava pais. Eu disse que iríamos conversar
“melhoras” de Pedro. Pedro e ia fazer outra coisa. Chamei sobre o que fizemos nos últimos
atenção dos pais sobre o “enrolar”, encontros. Pedro contou que sempre
Durante as supervisões, que eram
que talvez não fosse a forma mais conversamos e brincamos, que
realizadas com mais dois estagiários,
adequada de se relacionar, que gostava muito e sentiu falta dos
foi expressa a angústia dos mesmos
tentassem deixar mais claras suas encontros. Perguntado sobre qual
por “não estarem fazendo nada” com
intenções. Sugeri que procurassem o motivo dos encontros, respondeu
a criança, “apenas brincando”. Desta
separar momentos específicos onde que era importante ter alguém para

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conversar e brincar. Falei que desde atenção se desloque para outro Sessão nº 11

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o início o percebia como um garoto lugar. É importante entendermos sua
Sessão com Pedro
muito esperto, ativo e inteligente, mas necessidade de usar este artifício e
que por vezes ele não me escutava ou como o medo tornou-se funcional na Brincamos bastante. As mesmas
não fazia o que eu propunha, fugindo relação com seus pais. brincadeiras com os apetrechos de
do assunto. Perguntei se ele notava cozinha. Pedro sempre faz alguma
Na final do atendimento descrito
isso e Pedro respondeu que sim. comida e me serve. Também brincou
acima, através da brincadeira com
Expliquei que para fazer amigos é com as espadas. Foi contrariado em
os bonecos, Pedro teve uma nova
importante negociar, escutar e certas alguns momentos na brincadeira, mas
oportunidade de expressar angústias
vezes saber ceder um pouco. Pedro aceitou os posicionamentos. Disse
ou ansiedades quanto a dormir
falou sobre seu quarto e perguntei que estava dormindo no seu quarto,
sozinho. Pela sua fala, estava tranquilo
se ele dormia ali. Pedro hesitou na mas sua irmã ainda dormia lá, devido
e sem temores quanto a este fato.
resposta, mas acabou entregando ao problema com o ventilador. Disse
A brincadeira permite que a criança
que não dormia lá por “já estar também que está indo ao banheiro
elabore e ressignifique seus conflitos.
acostumado”. Falei da importância sozinho na escola. Eu o parabenizei.
para todos da casa que Pedro durma Quanto à dúvida do estagiário
O que eu senti: senti que não tinha
sozinho, e propus que ele tentasse em propor que a criança fizesse
muito o que fazer. Para Pedro não
dormir em seu quarto. Falamos do a tentativa de dormir sozinho, foi
existem conflitos em seu mundo. Ele
medo de ficar sozinho concluindo avaliada pela supervisão como uma
lida muito bem com os problemas e
juntos e pela sua fala que na verdade escolha particular do estagiário para
com as pessoas. Parece se confirmar a
ele não sente tanto medo, mas não o momento, sem um juízo de valor. A
falta de limite para o menino. Cumpre
gosta de ficar sozinho. Conversamos avaliação da capacidade de Pedro em
o que é proposto com clareza no
sobre o quanto é necessário, e lidar com o proposto foi entendida
consultório, mas quando possível, usa
algumas vezes conveniente, que como correta.
de habilidade, insistência e conversa
fiquemos sozinhos. Pedro mostrou-se Nas sessões 10 e 11 iniciaram-se para driblar o que não quer.
ansioso em brincar. Pegou a casinha efetivamente as intervenções do
e escolhemos bonecos para cada O que tive vontade de fazer:
estagiário, que passou a ser mais ativo
membro de sua família. Pedi que conversar com os pais. Eles também
nas brincadeiras, buscando trabalhar
colocasse cada boneco em um quarto têm que trabalhar os limites com
os limites com o menino e observar
para dormir e que conversasse com o o filho e aprender a lidar com esse
seu funcionamento diante a eles.
“Pedro boneco”, o qual disse – pela ponto.
voz de Pedro – que se sentia bem Pedro reage de forma saudável
dormindo sozinho. Sessão nº 10 aos limites impostos na sessão. Uma
O que eu senti: dúvida se agi vez bem estabelecidos, ele os acata,
Sessão com Pedro
da forma correta ao propor que apesar das recorrentes tentativas e
ele dormisse sozinho. Porém Pedro Pedro entrou na sala e perguntou se insistências em reverter a negociação
parece bem maduro e articulado iríamos conversar primeiro ou brincar. em seu favor. Paciência e firmeza são
tanto para dormir sozinho como para Fomos brincando e conversando. Ele necessárias para convencê-lo, algo que
ignorar o combinado. falou que dormiu no seu quarto esta para pais desatentos ou muitas vezes
semana, sendo que um dia sua irmã cansados não é uma tarefa tão simples.
O que tive vontade de fazer: dormiu também no seu quarto, pois
conversar com os pais para que Decidimos fazer uma nova sessão
o ventilador dela estava quebrado.
ajudassem na tarefa proposta. com os pais, para retomada da
Eu o parabenizei. Perguntei se ele
devolutiva, buscando saber como
A hipótese do medo de Pedro ser ia ao banheiro sozinho na escola.
receberam o que conversamos
apenas uma estratégia para manter Pedro disse que sua mãe enviou
no último encontro com eles, se
as pessoas ao seu lado mostrou- um bilhete para a nova professora
observaram mudanças e o que
se verdadeira através de uma explicando que o filho tinha medo de
gostariam de trabalhar no momento.
construção mútua entre a criança e o ir ao banheiro sozinho, porém ontem
O estagiário foi orientado a perguntar
estagiário. Através da investigação ele estava muito apurado e então foi
aos pais sobre as mudanças de
sobre o medo, a própria criança sozinho. Falamos sobre este medo. Ele
comportamento que Pedro diz que
pôde dar-se conta do significado do relembrou quando um menino fechou
realizou (ir ao banheiro e dormir
medo, não reconhecendo nenhum a porta do banheiro e machucou seu
sozinho). Também foi sugerido que
temor real. Porém, este não deve ser dedo. Pedro conta a história de forma
exponha aos pais sua percepção de
entendido como o único caminho tranquila e divertida. Chamei atenção
que os limites trabalhados dentro da
que este sentimento possa significar ao fato que aquilo foi algo isolado.
sessão são respeitados pelo menino,
para a criança: Pedro também pode Falou “que já havia superado o medo”.
problematizando junto a eles a
ter (e provavelmente tem) medos Brincamos bastante. No final retomei
importância dos limites na educação
reais. Além disso, apresentando- nossa conversa sobre ele continuar
de qualquer criança, colocando-se
se como um sintoma, a simples dormindo no quarto e não ter mais
disponível para ajudá-los em como dar
“resolução” do medo de Pedro pode medo nas idas ao banheiro.
estes limites a Pedro.
fazer com que sua necessidade de

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Sessão nº 12 A previsão é que os atendimentos Destacamos também como

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de Pedro continuem até que os pais extremamente importante a postura
Sessão devolutiva com Juliana e
sintam-se seguros em trabalhar estes de todo terapeuta em não restringir-
Márcio
limites com ele. se apenas a seu aprimoramento e
Novamente os pais de Pedro atualização teórica, mas da mesma
Outra questão trabalhada foi
trouxeram que ele teve muitas forma investir continuamente em seu
o acolhimento da fantasia que
mudanças desde outubro, que próprio trabalho psicoterápico, uma
Márcio e Juliana expressaram de
“melhorou 75%”. Falaram sobre vez que seu desenvolvimento pessoal
que “resolvendo este problema”
ele dormir no quarto com a irmã “é condição básica para que ele
não enfrentariam mais dificuldades
e sobre ir ao banheiro sozinho na possa relacionar-se terapeuticamente
e que tudo seria “normal” a partir de
escola. A mãe queria saber se eu com seu cliente”. (Aguiar, 2005, p.
então na vida de Pedro. Explicamos
observava as mesmas mudanças 297). Este investimento é condição
que novas queixas e demandas irão
dentro do consultório. Eu disse sine qua non para que o gestalt-
sempre surgir, de acordo com o
que não: que desde o início Pedro terapeuta desenvolva a awareness
contexto, com o desenvolvimento
se apresentava como uma criança de seus próprios limites e aprenda a
e a fase de vida de Pedro. Sentimos
proativa, inteligente, esperta, lidar com eles, o que é fundamental
que tal fato frustrou as expectativas
decidida. Disse que Pedro dentro das para uma atitude descritiva e o
do casal, porém os prepara para o
sessões sempre respeitou os limites exercício da redução fenomenológica
enfrentamento de novas demandas,
que lhe eram impostos se eu fosse (Rodrigues, 2008). Ainda mais
como parte da existência de qualquer
claro e insistente com ele. Passamos especificamente para o terapeuta
indivíduo.
então a falar sobre limites. O pai infantil, recomendamos que busque
disse que tem colocado limites para As sessões com Pedro, Juliana e em seu processo particular o contato
o garoto e tem tido êxito. A mãe Márcio tiveram continuidade mesmo e acolhimento de sua criança interior,
teve menos sucesso, mas contou que após o encerramento deste artigo. pois certamente irá deparar-se com
em uma festa Pedro pediu para ir ao Porém, interrompemos aqui o relato ela em seu consultório durante as
banheiro e ela orientou que se virasse das sessões, entendendo que neste sessões de atendimento.
sozinho: ele descobriu onde era o ponto se concluiu uma etapa do
Outra questão que deve ser
banheiro e resolveu seu problema. Ela atendimento, que cumpre com a
abordada relaciona-se a uma das
confessou que ficou apreensiva, mas proposta deste trabalho.
características necessárias ao
se surpreendeu com o resultado. Fiz
terapeuta infantil: a disponibilidade
o convite de colocarem estes limites
para brincar. Aguiar (2005) afirma que
mais claramente, explicando para CONSIDERAÇÕES FINAIS
na “medida em que a linguagem lúdica
o filho o porquê e o que pretendiam Entre outras particularidades, é a predominante, então a brincadeira
com eles. Falei que não existia certo o atendimento infantil possui é o diálogo e o psicoterapeuta precisa
ou errado na maneira deles agirem, uma dinâmica singular, requer um participar” (p. 198). Sentar-se ao chão,
mas que podíamos aprender uns planejamento específico para cada sujar-se de tinta, cantar canções
com os outros e pensar na forma configuração familiar, envolve a infantis, fazer vozes e barulhos
como querem educar Pedro. Falamos entrevista com diversos indivíduos estranhos ou imitar animais são
sobre a importância dos limites na e exige a elaboração de diferentes atitudes comuns durante as sessões,
vida em geral. Juliana perguntou se estratégias de intervenção. Assim, podendo ser cruciais na construção
eles deveriam continuar na terapia. concordando com Aguiar que do vínculo com a criança e no próprio
Respondi que isso cabia a eles “a psicoterapia de crianças é processo terapêutico. Também são
decidir, se já sentiam-se satisfeitos fundamentalmente diferente da de grande relevância os recursos
com as mudanças ocorridas, mas que psicoterapia de adultos” (Aguiar, 2005, lúdicos presentes no consultório. Não
ainda havia o que se trabalhar. Falei p. 291), ratificamos a necessidade acreditamos na obrigatoriedade da
que no momento achava importante de uma formação específica para o presença deste ou daquele material
eles imporem estes limites a Pedro e psicoterapeuta infantil, com conteúdo em particular, mas lembramos que
percebermos juntos como todos iriam programático direcionado ao esta escolha deve ser feita com foco
lidar com isso. profissional que pretende trabalhar naquilo que cada material pode
A partir daí, seguimos intercalando com crianças. O estágio foi de extrema oferecer como estímulo para a criança
as sessões de Pedro e seus pais, importância para o reconhecimento compartilhar sua experiência (Aguiar,
sendo que os avanços no relato dos desta necessidade e para vivência 2005), assim como na liberdade de
pais foram gradativos e Pedro sempre prática da complexidade presente escolha e preferências de trabalho de
apresentava a mesma dinâmica no na clínica infantil. A oportunidade cada terapeuta.
atendimento. Na sessão de número de estagiar com profissionais que já
Por fim, nos cabe agradecer a
15, os pais relataram que “a questão cursaram e ministram uma formação
oportunidade e confiança depositada
do medo havia melhorado 90%”, específica em clínica infantil foi única
pela orientadora e supervisoras que,
então focaram suas preocupações e deve ser considerada imprescindível
de maneira acolhedora, permitiram
para o desempenho escolar de Pedro, para qualquer psicoterapeuta que
ao estagiário uma vivência profunda
que também se relacionava, em nosso pretenda clinicar com esta clientela.
e responsável do atendimento
entender, com a questão dos limites.

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clínico, sendo fundamentais em seu Freud, A. (1971). O tratamento Perls, F.S., Hefferline, R., Goodman,

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longo caminho de formação como psicanalítico de crianças. Rio de P. (1997). Gestalt-Terapia. (F.R.
terapeuta. E, não menos importante, Janeiro: Imago. Ribeiro, Trad). São Paulo, Summus.
agradecemos ao Pedro e sua família, (Original Publicado em 1951)
Freud, S. (1980). Três ensaios sobre
como os primeiros clientes que
a teoria da sexualidade. In Perls, F.S. (2002). Ego, fome e
qualquer estagiário poderia sonhar,
Obras Completas. Ed. Standard agressão. São Paulo: Summus.
pela sua disponibilidade, entrega e
Brasileira. Rio de Janeiro: Imago.
vínculos construídos, sem os quais Polster, E., Polster, M. (2001). Gestalt-
(Original Publicado em 1905)
este estágio não teria a mesma Terapia integrada. São Paulo:
riqueza, significado e importância. Kiyan, A.M.M. (2006). E a Gestalt Summus.
emerge: vida e obra de Frederick
Rodrigues, H.E. (2008). Introdução à
Perls. São Paulo: Altana.
Gestalt-Terapia (5ª Ed). Petrópolis,
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Rosa, L. (2011). Cont(r)ato terapêutico
com crianças: teoria e prática. Editorial.
na clínica gestáltica. Aw@re
Campinas: Livro Pleno.
Perls, F.S. (1985). A abordagem Revista Eletrônica, v.2, n.1, 44-49.
D’Acri, G.; Lima, P.; Orgler, S. (2007). gestáltica e testemunha ocular Recuperado em 23 de julho, 2013,
Dicionário de Gestalt-Terapia: da terapia (2ª Ed). Rio de Janeiro: de http://www.aware.psc.br/
gestaltês. São Paulo: Summus. Zahar. V2N1/v2n1.html

Leonardo Pereira de Lima é psicólogo formado pela Universidade


Federal de Santa Catarina em 2013/1.

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INICIANDO OS ATENDIMENTOS: A FORMAÇÃO
PROFISSIONAL E O CONFRONTO COM A
FRUSTRAÇÃO. DESCREVENDO O PROCESSO DE UMA
PSICOTERAPEUTA INICIANTE EM GESTALT TERAPIA
Por Sarah Hermes Reguse

RESUMO ABSTRACT
O presente artigo tem como objetivo propor uma This article has the purpose to propose a theoretical
reflexão teórica acerca da formação e construção do reflection about the formation and construction of the
psicoterapeuta, sendo abordados temas como a preparação psychotherapist, and also approach themes like preparation
do psicólogo para atuar na área clínica, em psicoterapia, e, of the psychologist to work with Clinic Psychology, in
especificamente, na abordagem gestáltica, fundamentada psychotherapy, and, specifically at the gestalt approach
na suspensão fenomenológica. O propósito do artigo é based at the Phenomenological Reduction. The goal of this
refletir sobre como ocorre o processo de formação de um article is to think about how the formation process to become
psicoterapeuta. Para tanto se reúne aqui a fala de autores a psychotherapist happens. For this purpose is included
que se dedicaram a refletir sobre tal questão. Além disso, here other authors that devoted themselves to think about
aborda- se o tema do confronto com a frustração vivenciada that question. Beyond that, it is mentioned the theme of the
pelo terapeuta, sendo todos os conceitos trabalhados à luz confront with the frustration lived by the therapist, and all
da teoria da Gestalt Terapia. the concepts are worked at the light of the theory of Gestalt
Therapy.
Palavras-Chave: Preparação; Gestalt Terapia; Suspensão
fenomenológica; Frustração. Keywords: Preparation; Gestalt Therapy;
Phenomenological Reduction; Frustration.

INTRODUÇÃO lidar com a frustração no processo de vivida por alguém em início de


tornar-se terapeuta, tendo em vista a atendimento é a que se segue:
Espera-se com este artigo
mobilização ocorrida no processo de
refletir teoricamente a partir Este é o desafio: Como estar
aprendizagem e reconhecimento de
da seguinte pergunta que presente no „nada-mais-que-
expectativas do terapeuta ao deparar-
acompanha terapeutas iniciantes: processo e ainda assim não se
se com a realidade, os imprevistos, as
“O que devemos fazer para nos perder no abismo. Como utilizar
novidades e surpresas do contexto do
prepararmos para a difícil tarefa a segurança da teoria e, ainda
atendimento psicoterápico.
de lidar com a história, muitas assim, não usá-la como uma
vezes dolorosa, de um outro”? Ou O tema frustração pode ser defesa contra o desconhecido.
seja, este artigo abordará o “como” abordado por diferentes olhares: a Como responder à singularidade,
se dá o processo de tornar-se frustração do próprio terapeuta com e, ainda assim, valorizar nossa
psicoterapeuta, em um momento seu trabalho, com os clientes, com humanidade comum. O terapeuta,
em que, conforme afirma Cardella seus limites, o frustrar o cliente, etc. se está consciente da amplitude
(2002, p.102): “Fazer-se psicólogo No presente trabalho, o foco é o da das possibilidades humanas,
e, em especial, psicoterapeuta frustração do próprio terapeuta, das empenha-se em uma tarefa
no mundo contemporâneo expectativas mobilizadas antes e verdadeiramente paradoxal - uma
é uma tarefa cada vez mais durante os primeiros atendimentos tarefa na qual há pouca segurança;
desconcertante e complexa”. Foram clínicos e de como lidar com este somente a certeza de se encontrar
utilizadas referências que abordam fenômeno no processo de formação com o desconhecido, o único,
o tema buscando dar subsídios a do mesmo. o nunca-antes-experienciado.
experiência da autora, quando do (HYCNER, 1997, p.38)
Para alinhar o conhecimento
início do estágio em Psicologia
geral ao específico, haverá uma
Clínica, na abordagem gestáltica,
breve introdução sobre alguns
realizado em Clínica Social de
conceitos base da Gestalt Terapia que
instituição privada do tipo Clínica- 1. Gestalt Terapia
fundamentam a compreensão do que
Escola. De acordo com Rodrigues (2011,
é ser terapeuta nesta abordagem.
Em razão desta interlocução p.42) “A melhor maneira de conhecer
Uma passagem que exemplifica
teórico-prática considerou-se a GT é ter uma experiência direta
toda a motivação para o presente
importante discutir o tema de como com esta abordagem; vivenciá-la,
artigo refletindo também a angústia

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para que a ideia do todo possa ser Terapia origina-se do humanismo, de um psicoterapeuta: 1) gosto pela

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experimentada”, uma vez que “É mais “que, por natureza, relaciona-se com palavra e um carinho espontâneo
uma abordagem profundamente temporalidade, ou seja, o mundo da pelas pessoas; 2) uma extrema
sentida do que uma teoria” (HYCNER, não matéria, operacionalizando-se no curiosidade pela variedade da
1997, p.30). existencialismo e na fenomenologia. experiência humana com o mínimo
Teorias que também trabalham no possível de preconceito; 3) certa
Nas palavras de Perls (2011), o
mundo não mensurável da qualidade”. quilometragem rodada; 4) boa dose
fundador desta abordagem:
(RIBEIRO, 2011, p.36). de sofrimento psíquico. (CALLIGARIS,
Uma Gestalt é uma forma, uma 2008).
O mesmo autor define que:
configuração, o modo particular
A temática dos primeiros passos
de organização das partes Conceito de mundo e conceito
do terapeuta será abordada sob dois
individuais que entram em sua de pessoa funcionam como uma
enfoques, um mais geral, comum às
composição [...] a natureza Gestalt, como uma relação figura-
diversas abordagens e outro específico
humana é organizada em partes fundo, uma configuração a partir
do método fenomenológico, que
ou todos, que é vivenciada pelo da qual, dependendo do aqui-
fundamenta a Gestalt Terapia,
indivíduo nestes termos, e que agora do sujeito pensante, ele
sendo eles: preparação e suspensão
só pode ser entendida como uma parte ou do mundo ou da pessoa
fenomenológica. Este último é
função das partes ou todos dos para constituir a ideia sobre ele
um conceito muito conhecido e
quais é feita (PERLS, 2011, p.19) próprio e/ou sobre o mundo.
importante na Gestalt Terapia e que,
(RIBEIRO, 2011, p.45).
com certeza, auxilia no momento dos
Yontef (1998) define a Gestalt
atendimentos de psicoterapia.
Terapia como uma terapia existencial-
fenomenológica. “Ela ensina a 2.1 Preparação
terapeutas e pacientes o método 2. Primeiros passos na
Partindo do princípio de que
fenomenológico da awareness, Constituição de Psicoterapeuta
“o terapeuta é o seu próprio
no qual perceber, sentir e atuar
“Conheça todas as teorias, domine instrumento (...) e usa seu próprio
são diferenciados de interpretar e
todas as técnicas, mas ao tocar estado psicológico como instrumento
modificar atitudes preexistentes”
uma alma humana, seja apenas da terapia” (POLSTER; POLSTER,
(YONTEF, 1998, p.15). Seu objetivo
outra alma humana” (Carl Jung). 2001, p.35), é fundamental que o
é “tornar os clientes conscientes
psicoterapeuta passe a desenvolver
(aware) do que estão fazendo, É natural que estudantes e seu próprio trabalho de psicoterapia,
como estão fazendo, como podem “aspirantes” a psicoterapeutas se ou seja, que tenham “seus
transformar-se e, ao mesmo tempo, perguntem “O que é necessário para instrumentos”, ele mesmo, afiados.
aprender a aceitar-se e valorizar-se” ser um bom psicoterapeuta?”. Alguns “Para tornar-se disponível para o
(YONTEF, 1998, p.16). autores tentaram responder esta encontro é preciso que o gestalt-
De acordo com Rodrigues pergunta, como Calligaris (2008) e terapeuta, desde o início de sua
(2011, p.56) “A GT trabalha Cardella (2002). formação, vá tomando consciência
psicoterapicamente com este ser Ambos os autores corroboram das exigências da profissão, sendo a
no mundo, percebendo-o como um com a idéia de que inicialmente o mais fundamental o trabalho árduo e
todo (dentro da medida do possível) aspirante a psicoterapeuta deve intenso sobre a sua própria pessoa”
em seu contexto, com uma atitude investir em seu próprio trabalho (CARDELLA, 2002, p.102).
descritiva voltada para o momento do pessoal. “Uma peça chave da É importante que cada terapeuta
encontro – o aqui-e- agora”. formação de um psicoterapeuta é o tenha realizado a sua própria terapia,
Para Serge e Anne Ginger (1995, tratamento ao qual ele mesmo se pois:
p.17) a Gestalt “desenvolve uma submete” (CALLIGARIS, 2008, p.55)
Não há melhor introdução
perspectiva unificadora do ser Calligaris (2008) introduz uma à variedade do sofrimento
humano, integrando ao mesmo tempo idéia interessante, de que algumas humano do que a descoberta
as dimensões sensoriais, afetivas, “características” já estejam integradas de que, em algum canto de seus
intelectuais, sociais e espirituais” na própria pessoa, como ao afirmar pensamentos, ele pode encontrar
(grifo dos autores). que para ser um bom psicoterapeuta, palavras, lembranças, razões,
A visão de mundo da Gestalt “é útil que a gente possua alguns visões e pensamentos parecidos
Terapia origina-se da teoria holística, traços de caráter ou de personalidade com aqueles que afetam, agitam
que é “operacionalizada pela que, dito aqui entre nós, dificilmente ou mesmo enlouquecem seus
Psicologia da Gestalt e pela teoria podem ser adquiridos no decorrer da pacientes (CALLIGARIS, 2008, p.
do campo. Todas essas teorias formação: melhor mesmo que eles 55-56).
relacionam-se com espacialidade e estejam com você desde o começo”
trabalham no mundo mensurável da (CALLIGARIS, 2008, p.3). Na visão de Calligaris (2008, p.55),
materialidade” (RIBEIRO, 2011, p.36). Em sua opinião o autor descreve “Se você quer ser psicoterapeuta, o
algumas características importantes essencial de sua formação acontecerá
Já o conceito de pessoa na Gestalt
depois da faculdade ou, quem sabe,

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durante seus estudos. De qualquer tanto no que se refere às suas 2001) “a descrição da experiência

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forma, se dará fora da academia”. habilidades como às dificuldades, imediata do psicoterapeuta por meio
Ou seja, sabe-se que durante a enfatizando a singularidade de das versões de sentido é capaz de
faculdade estudam-se temas diversos cada terapeuta. revelar a maior quantidade possível
em psicologia, mas para se tornar de vivências compartilhadas entre
um psicoterapeuta existem opções 2. Desenvolvimento da habilidade psicoterapeuta e paciente”. De
importantes a serem seguidas, de reverter sua percepção para a acordo com o mesmo autor: “O
como cursos de especialização, por compreensão do cliente, como psicoterapeuta sob supervisão deve
exemplo. ajudar o aluno a aceitar e lidar escrever, livre e espontaneamente,
com os sentimentos que emergem logo após a sessão, tudo o que lhe
A gestaltista Cardella (2002),
na relação com o cliente. ocorra sobre a relação psicoterápica,
no entanto, desenvolve teorias
sobre o paciente e sobre si mesmo”
de como os estudantes podem 3. Desenvolvimento do raciocínio (BORIS, 2008, p.177).
desenvolver melhor suas capacidades lógico. A partir da teoria e da
de terapeutas, mesmo enquanto experiência de si, do contato Imagens, metáforas, sentimentos
permanecem em processo de consigo mesmo. (CARDELLA, seus ou do paciente, qualquer
formação. Diz observar ser possível 2002, p.105 apud FRAZÃO s/d, coisa. Busca-se alcançar o
aprimorar a qualidade da formação p.5). sentido da sessão, tal como a
profissional “quando se favorece o vive o terapeuta na relação com
desenvolvimento pessoal do aluno a Outro aspecto importante na o paciente, destacando na versão
partir de oportunidades que alarguem construção do psicoterapeuta é de sentido o que toca o terapeuta,
seu campo de percepção e o contato receber um apoio, seja ele dos quer dizer, o que se produz nele a
com seu universo particular” professores, mas principalmente da partir da relação com o paciente,
(CARDELLA, 2002, p.94). supervisão, uma vez que o processo como lhe chegam os conteúdos
terapêutico implica por parte do trabalhados na sessão, assim
Além disso, outra importante
terapeuta um grande envolvimento como impressões e sentimentos
tarefa da formação de psicoterapeutas
pessoal e que “o coloca diante das suscitados a partir deles. Através
seria a contribuição para que o
muitas intrigantes e profundas da versão de sentido, busca-
aluno desenvolva “familiaridade e,
questões existenciais quando se entrar em contato com as
talvez, muita estranheza, perante
mergulha no universo singular de cada sensações originadas da relação
a si mesmo: suas crenças, seus
cliente, e coloca-se dialogicamente terapeuta-paciente e clarificar
valores, seus afetos, suas emoções,
disponível para a relação” (CARDELLA, a percepção do terapeuta para
suas concepções, seus desejos, suas
2002, p.102). compreender o significado do
necessidades, seus pontos cegos e,
material trabalhado durante a
até, suas dificuldades” (CARDELLA, Ainda sobre a temática da sessão no contexto do processo
2002, p.95). supervisão, Calligaris (2008, p.124) psicoterapêutico (BORIS, 2008,
Ainda neste sentido, é afirma que sua função “salvo situações p.177 apud MOREIRA, 2001, p. 315-
recomendável que os psicoterapeutas catastróficas, deve ser autorizar o 316).
se deparem com diferentes formas terapeuta, inspirar-lhe a confiança em
de existência, e que a partir desta seus próprios atos”. Frazão (1983, p.183 De acordo com estes relatos,
experiência, possam verificar o que apud CARDELLA, 2002, p.106) afirma conclui-se que esta “preparação”
há de semelhante ou desigual na ser “fundamental o aluno compartilhar para os atendimentos de psicoterapia
sua forma de pensar, uma vez que “o sua experiência e emprestá-la como se desenvolverá ao longo de toda a
encontro com a alteridade capacita meio para a aprendizagem de cada carreira do psicoterapeuta, porque
o psicoterapeuta a relacionar- um dos membros do grupo”. Os “é no contato com a nossa própria
se com seu cliente; para tanto, o alunos de Psicologia, em geral, vivência que elaboramos as noções
psicoterapeuta necessita conhecer e devem realizar seus estágios em fundamentais das quais a Psicologia se
saber fazer uso da própria experiência, duas das três possíveis áreas: serve a cada momento” (FORGHIERI,
para estar a serviço de seu cliente” Escolar, Organizacional e Clínica. 1993, p.4 apud MERLEAU-PONTY,
(CARDELLA, 2002, p.90). Uma vez que escolhem seus estágios 1973, p.33). A prática clínica “é um
e supervisores, torna-se muito rico exercício cotidiano de revelação, não
A Gestalt Terapia pode contribuir quando as supervisões podem ser apenas para o cliente, mas também
para o desenvolvimento das realizadas em pequenos grupos, para para o terapeuta, que ao praticar a
habilidades terapêuticas, e, para que cada estagiário também aprenda inclusão está sujeito aos „riscos‟ e
isso, Cardella (2002) descreve três com o relato dos colegas. aos fascínios dos encontros e dos
objetivos no trabalho de formação de
Uma supervisão dentro da desencontros consigo mesmo e com
psicoterapeutas:
abordagem da Gestalt Terapia o outro” (CARDELLA, 2002, p.102).
1. Desenvolvimento da segue o modelo da supervisão Acreditamos que a “angústia” dos
autopercepção do terapeuta. fenomenológica, e pode fazer uso das psicoterapeutas iniciantes consiste
Sensibiliza-se o aluno para a “versões de sentido”. De acordo com nesse encontro com o novo, com
importância de um processo Boris (2008, p. 177 apud MOREIRA, o desconhecido, com o “nunca
contínuo de autoconhecimento,

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antes visto”, e conforme nos mostra De acordo com Forghieri (1993, Hycner (1997) afirma que para

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Rodrigues (2011, p.59): p.18) “a ‘suspensão’ fenomenológica estabelecer uma postura dialógica
Já com a GT não há como ter não é feita apenas em relação ao genuína é importante que o terapeuta
uma metodologia rígida que dê mundo, mas abrange, também, o suspenda seus pressupostos que
um conhecimento que deixe o próprio sujeito [...] tomado como possam interferir na relação. Ou seja,
profissional certo do que vai tema de reflexão, deixando aparecer o terapeuta deve tentar, mesmo que
acontecer e como vai agir – o eu puro ou o ‘ego transcendental’, momentaneamente, “suspender
exatamente assim como acontece como expectador imparcial, apto todos os seus vieses pessoais,
no mundo, na vida, onde não a apreender tudo o que a ele se conhecimento geral sobre pessoas,
sabemos o que vai acontecer, apresente como fenômeno”. sobre psicopatologias e categorias
mas podemos aprender a lidar de diagnóstico, a fim de estar tão
Sendo assim, de acordo com
com o que acontece. O gestalt- completamente aberto quanto
este conceito, o mundo receberá
terapeuta atua em consonância possível à singularidade da outra
um sentido não somente a partir
ao aqui e agora, ao que o mobiliza pessoa”. (HYCNER, 1997, p.39-40,
das constituições de um único
a trabalhar: a própria pessoa do grifo do autor). Um dos objetivos
sujeito, “mas do intercâmbio entre
cliente como um todo, com seu desta forma de lidar com o outro
a pluralidade de constituições dos
sofrimento, ou sua alegria, com a é a possibilidade de o terapeuta
vários sujeitos existentes no mundo,
falta de contato, ou um contato encaminhar o encontro “desta
realizado através do encontro que se
que não focalize a situação maneira, numa relação eu/tu, onde
estabelece entre eles” (FORGHIERI,
emergente. Mesmo quando a o humano que se revela encontra
1993, p.19).
pessoa está caminhando sozinha, no outro o que precisa: a presença
Este conceito é também também da sua humanidade”
se descobrindo, percebendo
fundamental porque “um (RODRIGUES, 2011, p.77).
na sua própria forma de viver
psicoterapeuta precisa, no mínimo,
como ela age para se boicotar A relação Eu/Tu faz parte das
de algum discernimento a respeito do
ou se impedir, então ao gestalt- palavras princípio da abordagem
que pertence a ele e o que pertence
terapeuta cabe a atitude solidária, dialógica e foi instituída pelo filósofo
ao cliente” (CARDELLA, 2002, p.97).
humana, de estar junto à pessoa Martin Buber. Em síntese, existem
E ao fazer este discernimento, o
nesta, muitas vezes difícil, dois modos de presença: Eu/Tu e
psicoterapeuta está se utilizando da
empreitada. Eu/Isso. Para Buber (2001, p.59)
suspensão fenomenológica.
“entre o Eu e o Tu não se interpõe
Esta angústia e este medo frente A autora afirma que: nenhum jogo de conceitos, nenhum
ao novo podem se repetir em outras esquema, nenhuma fantasia; e a
para ser capaz de colocar a
situações na vida do psicoterapeuta, própria memória se transforma no
própria experiência a serviço do
pois cada experiência é uma momento em que passa dos detalhes
outro, contribuir para que o cliente
nova experiência, cada pessoa é à totalidade”.
possa retomar seu processo
diferente da outra, e não há como
de crescimento, é preciso que Em relação à postura dialógica
ir para o encontro com o outro com
o psicoterapeuta iniciante presente na Gestalt Terapia, Hycner
métodos prontos, com um “à priori”
saiba qual é essa experiência, (1997, p.40) afirma que “esta é uma
estabelecido, pois nunca sabemos
saiba de si. É necessário que forma ‘Zen’ de estar, ou uma ‘limpeza’
com o que iremos nos deparar. O que
aprenda a identificar o que é de meditação, de tal forma que o
nos resta enquanto psicoterapeutas
seu e o que é da outra pessoa; terapeuta fique aberto para o único,
é estarmos disponíveis e
quais as sensações, emoções o inusitado - para ser surpreendido”.
cotidianamente curiosos para encarar
e impressões advindas dessa Dessa forma o terapeuta também está
estes diferentes encontros.
relação. Para tanto, precisa ser presente “de modo profundo, fazendo
perturbado, contrariado, viver surgir a sensação de se admirar
2.2 Suspensão Fenomenológica - a experiência da estranheza, da diante da extrema singularidade
o que isso significa? exposição (CARDELLA, 2002, e humanidade da pessoa que tem
p.96). diante de si” (HYCNER, 1997, p.40).
Um tema bastante propício
para ser discutido juntamente Esta não é, no entanto, uma
Outro aspecto de extrema
com o da preparação é o conceito tarefa fácil, uma vez que “qualquer
importância diz respeito à
da Gestalt Terapia de suspensão pessoa seriamente preocupada
awareness do que está acontecendo
fenomenológica, ou seja, o colocar com a suspensão dos pressupostos
entre o terapeuta e o cliente. “O
entre parênteses algo meu para reconhece com rapidez que
terapeuta precisa estar em contato
poder lidar com o que é do outro. é impossível suspendê-los
com o cliente e consigo mesmo.
Para Yontef (1998, p.218) “a atitude completamente” (HYCNER, 1997,
Isso exige awareness, capacidade
fenomenológica é reconhecer e p.40). O que é necessário é adotar
de diferenciação e de estabelecer
colocar entre parênteses (colocar de uma postura de estar consciente dos
contato de boa qualidade,
lado) idéias preconcebidas sobre o próprios preconceitos, o máximo
colocando-se a serviço do outro”
que é relevante”. que for possível, e ter humildade e
(CARDELLA, 2002, p.104).
cuidado ao reconhecer que os nossos

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preconceitos são inconscientes e fora disponível, energizada. Ficando com Friedlaender apresenta a teoria de

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do âmbito da consciência (HYCNER, o fenômeno tal qual ele se apresenta, que todo evento está relacionado
1997). Em relação aos clientes, “esse tal qual ele é, mais do que com a um ponto-zero, a partir do
cuidado evita que eu me precipite com aquilo que foi, poderia ou deveria ser qual ocorre uma diferenciação
muita rapidez a conclusões, sugestões (JULIANO, 1999, p.29). em opostos. Esses opostos
e interpretações”. (HYCNER, 1997, apresentam, em seu contexto
Percebe-se que a relação do
p.40). específico, uma grande afinidade
psicoterapeuta com o conceito da
entre si. Permanecendo atentos
Os clientes vêm a mim para suspensão fenomenológica é algo que
no centro, podemos adquirir uma
serem ouvidos - não apenas suas se desenvolverá ao longo de todo o seu
habilidade criativa para ver ambos
palavras, mas também aquilo que processo enquanto profissional.
os lados de uma ocorrência
não estão dizendo. Precisam que
e completar uma metade
eu os ouça além do nível literal,
incompleta (PERLS, 2002, p.45-
do que é dito. Querem (muitas 3. Terapeuta iniciante: O confronto
46, grifo do autor).
vezes sem estar conscientes com a frustração
disso), ser encontrados em um
Como não se encontram muitas O tema da frustração pode ser
nível mais profundo. Isso não
referências a respeito dos “erros” analisado a partir desta teoria, em que
poderá acontecer se minha
ou dificuldades da profissão de há uma diferenciação em opostos,
própria perspectiva ocupar muito
psicoterapeuta a afirmação de Porchat no caso, frustração de um lado,
do espaço psicológico entre nós
(1985) torna-se essencial, quando expectativas de outro. De acordo com
ou - o que é pior -, ela for imposta
afirma que os psicólogos carecem Perls (2002, p.50) “o ponto de onde a
em detrimento da experiência do
“de saber antecipadamente, com que diferenciação começa é usualmente
outro. Não posso ficar em contato
tipo de vivências pessoais internas chamado ponto-zero”. Este ponto
com a experiência do cliente e
vão se defrontar no decorrer de seu zero “nos remete também ao próprio
senti-la se estou demasiado preso
trabalho enquanto psicoterapeutas” campo vivencial da pessoa, uma vez
à minha própria experiência.
(PORCHAT, 1985, p.11). Também não que, quando nos referimos a ele,
Suspender temporariamente
é usual trabalhos sobre a frustração nos referimos ao que é considerado
minhas pressuposições não
do terapeuta, mesmo esta sendo uma ‘normal’, ou ‘indiferenciado’
constitui garantia, mas aumenta
frase tão clichê entre os profissionais da (RODRIGUES, 2011, p.103).
a possibilidade de estar mais
área: “prepare-se para se deparar com
disponível para meus clientes num Perls (2002) nos descreve
a frustração”... Percebe-se que poucos
nível profundo (HYCNER, 1997, p. um exemplo que caracteriza o
profissionais arriscam-se a escrever
40, grifo do autor). “pensamento de opostos” e que tem
sobre isso.
como objetivo demonstrar a vantagem
Enquanto tendemos a ficar De acordo com a língua portuguesa, desta forma de pensamento.
em “primeiro plano”, como frustração é a ação de frustrar. Este
Suponhamos que você tenha
freqüentemente acontece quando verbo, por sua vez, significa “privar
sofrido um desapontamento.
somos iniciantes na terapia, ou alguém daquilo que lhe é devido.
Provavelmente você estará
quando estamos inseguros, isso Decepcionar; enganar; baldar. Não
inclinado a culpar pessoas ou
poderá interferir na percepção do suceder aquilo que se esperava;
circunstâncias. Se você polarizar
outro e no encontro genuíno com malograr-se, falhar” (LAROUSSE, 1979,
‘desapontamento’, encontrará
a outra pessoa. (HYCNER, 1997). É p.394).
como seu oposto ‘expectativa
necessário, então, “que o terapeuta
Já a definição de frustração em realizada’. Desta forma, você
esteja aware do ‘entre’, ou seja, da
dicionário de psicologia é: adquire um novo aspecto – o
experiência relacional propriamente
conhecimento de que existe
dita, considerando o encontro e as 1- O bloqueio de um comportamento
uma conexão funcional entre
resistências tanto do cliente como que visa reduzir uma necessidade.
seus desapontamentos e suas
suas” (CARDELLA, 2002, p.105). 2- O estado de frustração se revela
expectativas: grande expectativa
Para a mesma autora, identificar em forma de irritação, agressão,
– grande desapontamento;
de onde parte a resistência é uma hostilidade, raiva, projeção,
pequena expectativa –
tarefa complexa, que exige bastante regressão e outros mecanismos.
pequeno desapontamento;
humildade e disponibilidade do Geralmente o acontecimento
nenhuma expectativa – nenhum
terapeuta para examinar seus pontos frustra a pessoa, mas ela também
desapontamento (PERLS, 2002,
cegos e defensivos, e também pode lançar-se no estado de
p.52).
disponibilidade para trabalhá-los em frustração em vez de contornar
sua psicoterapia pessoal. uma barreira. É considerada como a
Para Perls (2002), quando temos
mais freqüente causa da neurose de
Juliano (1999) afirma que para o contexto podemos determinar
angústia” (DORIN, 1978, p. 117-118).
realizar bem seu trabalho, a principal os opostos e por sua vez também
característica do terapeuta é “a determinar o campo específico, e
Para compreender este tema,
qualidade de sua presença: uma “esta compreensão será de grande
remetemo-nos a teoria da “Indiferença
atitude descontraída e atenta, inteira, auxílio na abordagem da estrutura
Criativa”.

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e do comportamento do organismo personalidade” (FALEIROS, 2004, p. carreiras que exigem tanto cuidado,

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em seu meio” (PERLS, 2002, p.65). 16 apud Ribeiro 1986, p.210). responsabilidade, preparação
“interior”, uma boa dose de vivências
Entende-se com isso que, uma Além disso, ao relatar quais
e experiências DE VIDA.
vez que o psicoterapeuta entenda qualidades e requisitos espera-
que ele vivencia a frustração porque se de um psicoterapeuta, elenca, Ao escolhermos a profissão de
existe por parte dele uma expectativa, dentre outros: “suportar frustrações, psicoterapeutas, estamos optando
ele poderá lidar melhor com isso, de ser espontâneo, ter simplicidade, por entrar em contato com outras
forma que não atrapalhe a sua relação criatividade” (FALEIROS, 2004, p.25). pessoas de maneira intensa, íntima,
com seus clientes e para buscar um complexa. Estamos nos permitindo
Em outra obra, intitulada “Ser
melhor bem estar para si. tocar outros e sermos tocados o
terapeuta”, os autores perguntam
tempo inteiro. Estamos dispostos a
Forghieri (1993) faz uma a um psicólogo como é a profissão
sermos afetados de todas as maneiras
interessante análise acerca das do terapeuta, e ele responde: “é
possíveis. Estamos dispostos a nos
maneiras de existir ao afirmar que: um trabalho rico, sempre novo,
doarmos.
surpreendente, variando das
O desejar, o recear, o amedrontar-
freqüentes frustrações, aos raros Não obstante, é por isso e
se, o afligir-se fundamentam-se
momentos de realização, de trabalho muitos outros motivos que sentimos
no ‘cuidado, ou preocupação por
completo e bom” (GUEDES, 1985, tamanha ansiedade e insegurança na
algo’, que é inerente ao nosso
p.15). hora de atuarmos. Nossa profissão
existir no mundo [...] a raiva e a
requer responsabilidade, uma postura
agressividade, ou a depressão Ainda nesta mesma obra, outra
cuidadosa.
que costumamos vivenciar psicoterapeuta afirma que “não é
quando nos sentimos frustrados fácil estar sempre disponível e com O objetivo do artigo foi demonstrar
e contrariados, também são a mesma energia. Sinto que quando a partir da teoria de importantes
manifestações de nossa não estou bem, meu trabalho fica mais autores como se dá o processo
maneira preocupada de existir” pesado e até aumenta a possibilidade de formação do psicoterapeuta e
(FORGHIERI, 1993, p.36) de uma contaminação psíquica” também relatar sobre o tema da
(RAMOS, 1985, p.45). Esta fala frustração, que pode acometer muitos
Perls (1977) trabalha também com também nos remete ao cuidado que profissionais – principalmente aqueles
um viés positivo da frustração, como devemos ter quando temos muitas que depositam na experiência do
ao afirmar: “Sem frustração não existe “expectativas” com determinado atendimento uma grande expectativa.
necessidade, não existe razão para paciente, ou ao contrário, quando não
É interessante poder abordar
mobilizar os próprios recursos, para estamos tão bem quanto ao nosso
o tema da frustração de forma
descobrir a própria capacidade para estado de espírito, uma vez que “esta é
honesta e como algo comum na
fazer alguma coisa” (PERLS, 1977, uma das profissões mais desafiadoras,
vida dos psicoterapeutas. Ou seja,
p.54). já que a nossa consciência e nosso
poder afirmar que ela pode sim fazer
equilíbrio emocional são testados a
Para Vavassori (2010, p.11) “a parte do cotidiano desta profissão.
cada momento” (RAMOS, 1985, p.45)
frustração auxilia no desenvolvimento É nítido também que ela pode ser
do auto-apoio, de a pessoa utilizar A mesma autora afirma que: vista com outro enfoque além do
seu próprio potencial, sem criar tom negativo, e que tem grande valia
No inicio da profissão é comum
dependências”. Afirma ainda para o próprio psicoterapeuta quando
termos muitos sonhos e ilusões
que “a vivência da frustração a ele puder avaliar “a causa”, seja ela
sobre qual deve ser o ‘caminho’
princípio não é danosa, podendo a “expectativa não alcançada” ou
para a totalidade psíquica;
sim ser extremamente saudável. É qualquer outra. Sugere-se a busca
hoje percebo como isso leva a
fundamental para o processo de pelo “ponto-zero”, ou seja, o equilíbrio.
uma grande inflação psíquica.
desenvolvimento do ser humano
O analista se desumaniza e Importante citar a colocação
que permita ao indivíduo, desde
corre o risco de, por ter certo de uma psicóloga para futuros
criança, viver frustrações, na medida
conhecimento dos mecanismos terapeutas:
de sua habilidade para assimilá-
psíquicos, padronizá-los e afastar-
las” (VAVASSORI, 2010, p.11 apud Então, meu conselho para futuros
se cada vez mais da verdade
PINHEIRO, 2007, p.118). terapeutas é: além de uma boa
terapêutica. É como se quisesse
bagagem de terapia própria, além
A presença da frustração faz moldar a todos, exercendo
de uma boa bagagem de teoria,
parte do trabalho do psicoterapeuta. um poder ideológico que foge
todos os romances do mundo,
Faleiros (2004) afirma que todo completamente aos objetivos da
todos os cinemas, todos os teatros
psicoterapeuta “deve estar preparado psicoterapia. (RAMOS, 1985, p.47).
do mundo, todas as viagens do
para reagir positivamente ante as
mundo, todas as fofocas e em
próprias frustrações, seja quando Considerações Finais
todos os grupos em que elas
percebe a dificuldade em que se
Ser psicoterapeuta é uma das estiverem, uma curiosidade
encontra ante um cliente difícil,
mais belas e desafiadoras profissões eternamente aberta em todos
seja quando esse cliente lhe revela
existentes. Não são tantas as os lugares e um outro emprego
aspectos negativos da própria

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para começar. E claro que uma HYCNER, R. A base dialógica. In:

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grande vontade de ver o outro HYCNER, R.; JACOBS, L. Relação
mudar, uma grande solidariedade, e cura em Gestalt-Terapia. São
uma capacidade de identificação Paulo: Summus, p. 29-49, 1997.
infinita, uma empatia sem fim e
JULIANO, J. C. A arte de restaurar
uma disposição mesmo de ser o
histórias: o diálogo criativo no
outro por muitas horas. (Mautner,
caminho pessoal. São Paulo:
1985, p.34)
Summus, 1999. 150 p.
Espera-se que este artigo possa LAROUSSE, K. Pequeno dicionário
ajudar futuros psicoterapeutas que enciclopédico. Rio de Janeiro:
se encontram em momentos de Editora Larousse do Brasil, 1979.
questionamentos e anseios e também
MAUTNER, A. V. In: PORCHAT, I.;
resgatar naqueles profissionais
BARROS, P. (orgs.). Ser terapeuta:
experientes a lembrança de como foi
depoimentos. São Paulo: Summus,
o início de sua caminhada e quantos
1985.
sentimentos semelhantes possam
ter sido vivenciados. Que sirva de PERLS, F. S. Gestalt- terapia explicada.
impulso na busca de suas próprias 2. ed. São Paulo: Summus, 1977.
respostas, seu próprio acalento, e sua
PERLS, F, S. Ego, fome e agressão: uma
própria motivação para o exercício
revisão da teoria e do método de
desta belíssima profissão.
Freud. São Paulo: Summus, 2002.
PERLS, F.S. A abordagem gestáltica
Referências: e testemunha ocular da terapia.
2.ed. Rio de Janeiro: LTC, 2011.
BUBER, M. Eu e tu. São Paulo:
Centauro, 2001. POLSTER, E. ; POLSTER, M. Gestalt-
Terapia integrada. São Paulo:
BORIS, G. D. J. B. Versões de Sentido:
Summus, 2001. PORCHAT, I.; Sarah Hermes Reguse
Um instrumento fenomenológico-
BARROS, P. (orgs). Ser terapeuta: é psicóloga formada pela
existencial para a supervisão de
depoimentos. São Paulo: Summus, Universidade Federal de Santa
psicoterapeutas iniciantes. Psic.
1985. Catarina em 2013/1.
Clin. Rio de Janeiro, vol.20, 2008.
RAMOS, D. In: PORCHAT, I.;
CALLIGARIS, C. Cartas a um jovem
BARROS, P. (orgs.). Ser terapeuta:
terapeuta. Rio de Janeiro: Elsevier,
depoimentos. São Paulo: Summus,
2008. CARDELLA, B. H. P. A
1985.
construção do psicoterapeuta -
uma abordagem gestáltica. São RIBEIRO, J. P. Conceito de mundo e
Paulo: Summus, 2002. de pessoa em Gestalt Terapia:
revisitando o caminho. São Paulo:
DORIN, E. Dicionário de Psicologia.
Summus, 2011.
São Paulo: Melhoramentos, 1978.
RODRIGUES, H. E. Introdução à
FALEIROS, E. A. Aprendendo a ser
Gestalt- Terapia: conversando
psicoterapeuta. Psicologia Ciência
sobre os fundamentos da
e Profissão, 2004, 24 (1), 14-27.
abordagem gestáltica. 8.ed.
Disponível em: http://www.scielo.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
br/pdf/pcp/v24n1/v24n1a03.pdf.
Acesso em: 26 mai 2013. VAVASSORI, M. B. Acolhimento
e Frustração: Tramas da
FORGHIERI, Y. C. Psicologia
terapia gestáltica. Monografia
Fenomenológica: fundamentos,
apresentada ao Comunidade
métodos e pesquisa. São Paulo:
Gestáltica – clínica e escola de
Pioneira, 1993.
psicoterapia – como requisito
GUEDES, A. M. In: PORCHAT, I.; parcial à obtenção do título de
BARROS, P. (orgs.). Ser terapeuta: Especialista em Psicologia Clínica
depoimentos. São Paulo: Summus, na abordagem da Gestalt-terapia,
1985. 2010.
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: uma YONTEF, G. M. Processo, Diálogo e
terapia do contato. São Paulo: Awareness: Ensaios em Gestalt-
Summus, 1995. Terapia. São Paulo: Summus, 1998.

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VIVER, PRECISAR, AJUSTAR: UMA COMPREENSÃO
GESTÁLTICA DOS AJUSTAMENTOS CRIATIVOS
NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL.
Por Mariane Comelli dos Santos

RESUMO ABSTRACT
A Gestalt Terapia compreende o desenvolvimento The Gestalt-therapy understands the child development
infantil como um processo dinâmico e contínuo, no qual as a dynamic and continuous process, which the individual
o sujeito vive em uma total interação com o meio. A partir lives in a whole interaction with the environment. From this
dessa interação, procura a melhor forma de estar no mundo, interaction, he looks for the best form to be in the world, to his
de modo a ter suas necessidades satisfeitas na medida das needs could be satisfied according to the possibilities put by
possibilidades colocadas pelo meio. A partir do relato de the environment. Therewith, from the report of a Psychology
uma experiência de estágio de Psicologia com crianças de internship experience with children of a poor community, this
uma comunidade carente, o presente artigo pretende que article intends to reflect about the capacity of these children
se reflita sobre a capacidade que estas crianças possuem de to adjust themselves in a creative form, even in situations that,
ajustarem-se ao meio de forma criativa, mesmo em situações for adults, could seem inappropriate. The article also seeks a
que, para os adultos, possam parecer inadequadas. Busca- comprehension about the importance of these adjustments
se também uma compreensão sobre a importância destes for the healthy children’s development.
ajustamentos para um desenvolvimento infantil saudável.
Key-words: Gestalt-therapy, Child development, Creative
Palavras-chave: Gestalt Terapia; Desenvolvimento adjustment.
infantil; Ajustamentos criativos.

INTRODUÇÃO o principal objetivo do presente comportamentos parecerem, muitas


estudo é refletir sobre experiências vezes, inadequados aos olhos dos
Saiba: todo mundo foi neném
de trabalho com crianças, vivenciadas adultos. Deseja-se partilhar a ideia
Einstein, Freud e Platão também em um estágio de Psicologia na de que estes pequenos seres, que
comunidade Girassol (nome fictício), chamamos de crianças, na verdade,
Hitler, Bush e Sadam Hussein
em Florianópolis, de modo a buscar são grandes guerreiros em busca de
Quem tem grana e quem não tem uma compreensão acerca do “ser- seu equilíbrio e felicidade.
criança” nesta realidade, enfocando
principalmente naquilo que se
Saiba: todo mundo teve infância considera mais saudável e criativo em Metodologia
Maomé já foi criança cada uma das crianças com as quais
O presente estudo caracteriza-
os estagiários trabalharam.
Arquimedes, Buda, Galileu se como um relato de experiência,
Para isso, inicialmente, para o qual foi realizada uma
e também você e eu. será apresentada a noção de pesquisa bibliográfica sobre a noção
(Arnaldo Antunes – Saiba) desenvolvimento humano sob a de desenvolvimento humano para
óptica da Gestalt Terapia, seguida a Gestalt Terapia, destacando-
pela caracterização dos ajustamentos se o imprescindível papel dos
A abordagem gestáltica traz criativos e sua importante função no ajustamentos criativos neste
uma contribuição peculiar no que se desenvolvimento infantil. Depois, processo. A partir deste referencial
refere ao desenvolvimento humano. serão relatadas algumas vivências teórico, elaborou-se uma reflexão
Apoiado em uma visão holística, o do estágio realizado, seja em grupos, que aborda as experiências de uma
desenvolvimento é encarado como duplas ou em atendimentos individuais prática de estágio em Psicologia
constante e sem fim, no qual o com as crianças da comunidade com crianças de uma comunidade de
sujeito tem um papel ativo no seu Girassol. Essas experiências Florianópolis.
próprio processo de desenvolver- serão discutidas em três tópicos:
Essas experiências foram tecidas
se. A partir desta compreensão de “Brincadeiras Criativas”, “O Poder do
ao longo de nove meses, por meio de
desenvolvimento da Gestalt Terapia NÃO” e “Xingamentos”. Pretende-
grupos com as crianças, passeios pela
(principalmente no que se refere se, com isso, discutir a fantástica
comunidade, diálogos e supervisões.
à infância), será discutido o papel capacidade de autorregulação que a
Um dos grupos contava com
fundamental dos ajustamentos criança possui, mesmo em situações
aproximadamente 12 crianças, na faixa
criativos neste processo. Com isso, muito difíceis e apesar de seus
etária de 11 a 13 anos, e o outro com

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três crianças de 9 a 10 anos. Os grupos compreensão do desenvolvimento da criança como constituído por

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contaram, respectivamente, com 20 supera a dicotomia entre o orgânico/ características genéticas e fisiológicas,
e 13 encontros. Foram realizados, maturacional e o social/normativo, seu contexto familiar, social, cultural
também, oito atendimentos além de acolher a possibilidade de político, geográfico e histórico,
individuais com uma menina de 10 regularidades no desenvolvimento além de sua percepção do self, com
anos e três atendimentos com dois humano e resgatar o caráter de sujeito seus pensamentos, necessidades,
irmãos, de 10 e 13 anos. global, histórico, social e cultural. Para fantasias, sentimentos, etc. Assim,
a autora, a Gestalt Terapia articula de acordo com Berger (2011), toda a
O estágio do qual resultou o
o biológico e o social, partindo do expressão advinda da criança fala
presente trabalho foi um período
conceito de interação que se baseia do todo que ela é, todo este que só
de intensa experimentação. Além
na noção de “ser-no-mundo” da existe em interconexão com o meio.
do aprendizado técnico relacionado
Fenomenologia, na Teoria de Campo,
à prática em Psicologia, essa Antony (2006) apresenta um
na Teoria Organísmica e na visão de
experiência proporcionou um exemplo dessa interconexão entre os
todo da Psicologia da Gestalt. Desse
aprendizado vivencial, provocando elementos constituintes da criança.
modo, o desenvolvimento humano é
profundas mudanças nos estagiários, Para a autora, as modificações
entendido como um processo singular
em seu modo de estar no mundo e estruturais da mente e do corpo da
e infinito, a partir da permanente
de percebê-lo. Diante disso, pode- criança acarretam mudanças nas
interação entre o biológico e o social,
se dizer que, no presente trabalho, relações com o meio que, por sua
num diálogo constante entre todos os
não há separação entre observador vez, influenciam um novo estado
elementos do campo.
e observado, entre sujeito e objeto, de desenvolvimento psicofísico.
entre teoria e prática. Portanto, o A maior parte das teorias do A criança muda, o meio muda; o
que é relatado aqui não é o que desenvolvimento humano divide esse meio muda, a criança muda numa
de fato aconteceu no período de processo em fases, estágios, posições relação de corregulação diante
estágio (partindo do pressuposto e organizações, como, por exemplo, das transformações inevitáveis.
de que não existe um existir de as fases de desenvolvimento Não existe, portanto, parada no
fato), mas as reflexões provocadas psicossexual de Freud, a teoria das desenvolvimento, uma vez que,
pelo contato dos estagiários com posições de Melanie Klein e as fases mesmo que o ambiente permaneça
as crianças e com a comunidade. do desenvolvimento cognitivo de com pouca mudança, a criança
As hipóteses formuladas são uma Piaget. Antony (2006) defende que está mudando em todas as suas
interpretação dos autores frente às essas divisões dão uma ideia de dimensões.
situações vivenciadas, não havendo a classificação e hierarquização do
Diante disso, podemos
pretensão de explicar completamente processo de desenvolvimento. Para
concordar com Soares (2005) em
os fenômenos observados, mas a autora, a Gestalt, por ser embasada
sua afirmativa de que desenvolver-
desejando-se apenas explicitar em teorias sistêmico-holísticas,
se tem, principalmente, um sentido
uma compreensão possível para os compreende o desenvolvimento
relacional, na medida em que um
mesmos, com base na Gestalt Terapia. em sua multidimensionalidade
indivíduo não se desenvolve sem
e interdependência, que irão
desenvolver suas relações, sem afetar
propiciar múltiplas possibilidades
e sem ser afetado pelo meio. Podemos
O desenvolvimento humano na de experiências, comportamentos e
concordar também com Aguiar
Gestalt Terapia configurações psicológicas.
(2005), que destaca que, ao falarmos
Para a Gestalt Terapia, o homem é Considerando-se os pressupostos sobre desenvolvimento, estamos nos
um “ser-no-mundo” e age ativamente de seu campo filosófico referindo ao contato, que por sua
neste mundo, transformando-o e (Humanismo, Fenomenologia, vez sempre se relaciona com uma
sendo transformado por ele, numa Existencialismo), a GT realça a mudança no indivíduo. Lembrando
relação de reciprocidade. Este imprevisibilidade e a singularidade que, para a Gestalt Terapia, o contato
homem não pode ser compreendido das experiências, a possibilidade é a função que sintetiza a necessidade
isoladamente, uma vez que está do novo, a incerteza do curso da de união e de separação, só existindo,
sempre em um contexto no qual vida frente às diversas situações do portanto, quando existe fronteira
há um conjunto de forças atuando, cotidiano e enfatiza a importância entre dois seres. É por meio do
atingindo-o em sua totalidade. Na da relação como fundamento contato que cada pessoa pode se
medida em que se detém ao que se último da condição humana. A encontrar com o mundo exterior de
descreve, percebe-se a realidade criança em desenvolvimento, uma forma provedora (Polster, 1979).
como sendo mutável, processual e portanto, é fruto das influências Como o contato acontece durante
que flui continuamente em novas ambientais (sociais, culturais), da toda a vida de um indivíduo, pode-
situações que são sempre únicas aleatoriedade dos acontecimentos se concluir que as possibilidades de
(Rodrigues, 2009). e das potencialidades [...] mudança e transformação também
herdadas (Antony, 2006, p.2). o acompanham por toda a vida,
É baseada nesta concepção de
garantindo ao desenvolvimento
homem que a Gestalt compreende
Nesse sentido, Aguiar (2005) humano um caráter contínuo, sem
o desenvolvimento humano.
designa o campo organismo-meio prazo de validade.
Aguiar (2005), afirma que essa

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Outro ponto importante na Ao se falar em desenvolvimento ordem de importância e escolhendo

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compreensão gestáltica da infância é humano a partir da Gestalt Terapia, a melhor opção possível para cada
a responsabilidade (entendida como é inevitável e fundamental falar situação, evitando danos a si e
habilidade em dar repostas) conferida sobre os ajustamentos criativos. prejuízo nas suas relações pessoais
ao sujeito pelo seu desenvolvimento. Tomando-se como ponto de partida a (Antony, 2009)
Segundo Berger (2011), não se pode ver afirmação de que o desenvolvimento
Aguiar (2005) trata a energia
a criança como um ser completamente se dá a partir da relação com o meio,
agressiva como um elemento
frágil e determinado pelas influências o organismo precisa estabelecer
fundamental para o ajustamento
do meio ou de suas relações primárias. um acordo entre si e o meio. Isso
criativo. É por meio dela que o sujeito
A criança deve ser compreendida significa que o sujeito deve encontrar
manipula o meio ou a si próprio
como um ser atuante, que mesmo a melhor forma possível de satisfazer
para satisfazer suas necessidades,
frágil como no caso de um bebê, pode suas necessidades dentro dos limites
destruindo para transformar o
deixar os pais sem dormir por algumas existentes no meio. Esse processo
ambiente. Segundo a autora, a
noites, ou mudar toda a dinâmica de é denominado “autorregulação
agressividade precisa ser vista
funcionamento de uma casa usando organísmica” e, segundo Rodrigues
como uma força mais ampla do
os recursos que lhe são possíveis no (2009), é uma forma de resolver o
desenvolvimento, que atua com
momento. evento que se tornou figura naquele
objetivo de auxiliar o indivíduo a
momento.
Soares (2005) se refere a essa enfrentar dificuldades, a correr
responsabilidade ao afirmar: Ainda de acordo com Rodrigues riscos, a buscar no meio a sua
(2009), buscamos o tempo todo essa sobrevivência, etc. É por meio do uso
Assim, entendo que desenvolver-
possibilidade de autorregulação da energia agressiva que o indivíduo
se implica em maior consistência
organísmica, equilibrando da maneira vai se afirmando, conquistando o seu
na experiência de poder: poder
que nos for possível as forças espaço, impondo-se perante os outros
respirar, poder perceber, poder
existentes no meio do qual fazemos e satisfazendo suas necessidades.
sentir, poder falar, poder calar,
parte. O modo encontrado para se
poder frustrar-se, poder ver, poder Para Peruzzo (2011), a necessidade
buscar essa autorregulação é o que
não querer ver, poder envergonhar- primordial da criança é a de ser
chamamos de ajustamento criativo.
se, poder deixar, poder desistir, confirmada e aceita pelo outro. De
A definição de ajustamento criativo
poder almejar, poder criar-se, poder acordo com a autora, sendo essa
de Ribeiro (2006 como citado em
receber, poder acolher-se, poder necessidade a prioritária, a criança
Peruzzo, 2011) trata esse conceito
parar, poder prosseguir, poder se utiliza de todos os ajustamentos
como um processo pelo qual o
aguardar, aguardar-se, poder cuidar criativos que lhe parecem possíveis na
“corpo-pessoa”, fazendo uso de sua
e cuidar-se (p.2). tentativa de satisfazê-la. No entanto,
espontaneidade, encontra em si, no
segundo afirma Barbosa (2011), quando
ambiente ou em ambos resoluções
Assim, podemos identificar como a criança se fixa em uma determinada
disponíveis para se autorregular.
principais contribuições da Gestalt estratégia de ajustamento criativo,
Terapia para a compreensão do Desse modo, para a Gestalt a fluidez da figura-fundo é impedida
desenvolvimento humano: o caráter Terapia, o desenvolvimento humano e as respostas criativas ficam
contínuo e permanente do mesmo, a é um processo permanente e contínuo temporariamente bloqueadas,
constituição do todo do organismo, de ajustamentos criativos, processo deixando de fazer contatos nutritivos
obrigatoriamente, em interação com o esse que é mediado pela capacidade com o meio e fixando-se em uma
meio e a responsabilidade do sujeito de autorregulação organísmica do gestalt continuamente aberta. Antony
pelo seu desenvolvimento. indivíduo (Antony, 2006). O destaque (2009) chama isso de ajustamento
do ajustamento criativo na infância disfuncional.
existe porque, segundo Antony
Um ajustamento disfuncional
A infância e seus ajustamentos (2009), a capacidade que a criança
é saudável até um determinado
criativos tem de encontrar formas criativas
momento, sendo capaz de ajudar
Se faltar calor, a gente esquenta para enfrentar situações estressantes,
na satisfação das necessidades do
hostis ou negligentes é fantástica,
Se ficar pequeno, a gente aumenta organismo. No entanto, quando esse
visto que a dimensão sensorial/
Se não for possível, a gente tenta ajustamento se torna a única resposta
intuitiva predomina em sua existência.
que o indivíduo consegue dar, surge
Vamos ficar acima, velejar no mar de lama Assim, quando o ambiente não o sintoma (ajustamento criativo não
Se faltar o vento, a gente inventa atende as necessidades primárias da saudável). Este traz consequências
criança, esta, para se autorregular, desagradáveis e/ou prejudiciais ao
modifica a necessidade original, sujeito (Aguiar, 2005).
Vamos remar contra a corrente
realizando um ajustamento criativo
Assim, adoecer é uma forma de
Desafinar do coro dos contentes coerente com as possibilidades de
autorregulação que mostra uma
Se for impossível, se não for importante supri-las do meio. A criança saudável
personalidade fazendo uso de seus
deixa-se guiar pela sabedoria de
Mesmo assim a gente tenta recursos psíquicos particulares para
seu organismo, reconhecendo suas
(Humberto Gessinger – Pose) encarar o sofrimento, a dor, a tensão.
necessidades, organizando-as em

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Os sintomas surgem como tentativas No que se refere ao trabalho colchões de espuma velhos. As

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de ajustamentos criativos, que com grupos, Oaklander (1980) estagiárias se assustaram, pois um
aparecem para amenizar a angústia afirma que o processo do grupo é o lugar era razoavelmente alto em
e sinalizar que uma necessidade aspecto mais valioso do trabalho relação ao tamanho das crianças. No
importante está insatisfeita, uma grupal com crianças. O modo como entanto, parecia muito divertido e
gestalt está aberta. Por conseguinte, elas reagem e como se relacionam emocionante, a ponto de deixar uma
é possível perceber que na doença umas com as outras é algo que das estagiárias com muita vontade de
há também uma tentativa de cura, demonstra claramente suas relações experimentar a brincadeira.
de retorno à saúde e ao equilíbrio interpessoais em geral. Para a autora,
(Antony, 2009). o grupo é um lugar em que a criança
pode tomar conhecimento sobre como Caminhar pelo barranco:
Desse modo, é possível
ela interage com outras crianças, de
compreender o desenvolvimento Ao caminharem pela comunidade,
modo a assumir a responsabilidade
humano como uma busca ativa os estagiários encontraram um
pelo que faz e poder experimentar
e constante de cada sujeito pela enorme barranco, e, para sua
novos comportamentos. Além disso,
opção (possível dentro dos limites surpresa, crianças (que faziam um
o contato com outras crianças nestas
do meio) que melhor satisfaça suas passeio com a escola) passavam
situações pode ajudar a mostrar à
necessidades. Portanto, pode-se alegres e saltitantes por cima
criança que as outras têm sentimentos
pensar que, mesmo na doença, há dele. Um dos meninos contou aos
e problemas semelhantes.
sempre uma tentativa de resolução estagiários que era comum que as
saudável das situações vivenciadas, crianças brincassem naquele lugar,
tentativa esta que deve ser explorada embora fosse perigoso.
Discussão
quando se trabalha com crianças. É
a partir dessa compreensão que o
presente trabalho pretende discutir Soltar pipa:
As brincadeiras criativas
as experiências vividas com as Talvez a pipa seja uma das
crianças da Girassol – espera-se É só andar pela comunidade
brincadeiras preferidas das crianças
olhar para o que elas demonstram Girassol para perceber ajustamentos
desta comunidade. Enquanto se
de mais saudável e criativo. criativos saltando aos olhos de
caminha pelas ruas, é só olhar para
quem observa atentamente. Em
cima para deparar-se com uma
relação às brincadeiras, as crianças
enorme quantidade de pipas, linhas
O trabalho da Gestalt Terapia da comunidade são também muito
e rabiolas presas nos fios dos postes.
com crianças criativas. Assim, para dar início
Conversando com as crianças,
à discussão das experiências de
Tendo em vista que o percebe-se que a maioria delas
estágio vividas neste contexto, serão
desenvolvimento, para a Gestalt sabe soltar pipa, assim como sabe
apresentados alguns exemplos
Terapia, é um movimento de como fabricá-la. Certo dia, houve um
de brincadeiras realizadas pelas
sucessivos ajustamentos criativos campeonato de pipas na comunidade
crianças, que são entendidas pelos
que resultam em uma constante que, inclusive, os estagiários foram
estagiários e supervisores como
reconfiguração do self, o trabalho convidados pelas crianças para
formas de ajustamentos criativos.
dessa abordagem com crianças (não assistir.
somente individual, mas também As crianças da Girassol, em geral,
em grupos) pode ser bastante útil não possuem jogos eletrônicos,
para ajudá-las a reconfigurar-se de bonecos falantes, carrinhos de Lutinhas:
uma forma que lhes seja mais fluida controle remoto, celulares, e
Parece que lutar é uma atividade
e saudável (Aguiar, 2005). toda a sorte de recursos lúdicos
muito apreciada pelas crianças da
e tecnológicos que as crianças de
Segundo Oaklander (1980), o Girassol, tanto pelos meninos quanto
classe média e alta têm acesso.
objetivo do trabalho com crianças pelas meninas. No recreio da escola,
Contudo, isso não as impede de
é resgatar o fluxo satisfatório do nos grupos dos estagiários e nos
brincar. Pelo contrário, essa “falta” se
desenvolvimento das mesmas, relatos das crianças, esse tipo de
torna um desafio à imaginação, que,
proporcionando chances de brincadeira era muito presente. Eram
aliada à possibilidade de se brincar
reencontrar a vivacidade e o chutes, tapas e socos que, na maioria
na rua, resulta em brincadeiras muito
contato pleno com o mundo, por das vezes, segundo as crianças, não
divertidas e criativas. Algumas delas
meio da exploração dos sentidos, doíam e nem magoavam. Apesar de
serão relatadas a seguir.
do reconhecimento de seu corpo, parecer uma atividade violenta, esta
da identificação, aceitação e pode ser compreendida também
expressão de seus sentimentos, como uma forma de lidar com a
Saltos das alturas:
da possibilidade de fazer escolhas, energia agressiva (tendo-se em
expor suas necessidades (e buscar Enquanto as estagiárias levavam mente a noção de agressividade
formas de satisfazê-las) e, por uma menina para casa, algumas da Gestalt Terapia). Nesse sentido,
fim, aceitar quem ela é na sua crianças brincavam de se jogar de pode-se retomar Aguiar (2005), que
singularidade. um lugar alto sobre uma pilha de traz essa energia agressiva como um

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modo de afirmação, conquista de desenvolver-se implica uma maior e de defender fervorosamente uma

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espaço, imposição perante os outros consciência na experiência de poder. opinião distinta dos demais pode ser
e satisfação de necessidades. muito saudável. Afinal, essa é uma
Assim, é possível notar que em
forma de agarrar com unhas e dentes
A partir disso, pode-se pensar que, todas as brincadeiras aqui descritas
a possibilidade de se diferenciar, de
no contexto homogeneizante em que há um poder a ser provado e um
se afirmar como um sujeito único, que
vivem estas crianças, o movimento desafio a ser vencido: um desafio ao
merece ser ouvido e cuja opinião deve
de conquistar um espaço individual, outro (como nas brincadeiras de pipa,
ser levada em conta.
de tentar se colocar como alguém bolinhas de gude e lutinhas) ou a si
capaz de atingir fisicamente o outro, mesmo (brincar no barranco, pular Quando um ambiente não favorece
de dominá-lo, de vencê-lo em uma nos colchões). Portanto, pode-se a expressão da individualidade da
luta de brincadeira pode ser muito enxergar que o ajustamento criativo criança, dando pouca importância
natural e saudável. Para Aguiar não está apenas na invenção das ao que ela pensa, sente e deseja, ela
(2005), essa energia é essencial para brincadeiras com o que há disponível pode encontrar sua maneira (muitas
o ajustamento criativo. no meio, mas também está na forma vezes desagradável aos olhos dos
de conduzi-la: num ambiente em adultos) de experimentar o seu direito
que as crianças, em geral, são pouco de escolha. Essa atitude também
Bolinhas de gude, ou bulicas: valorizadas, elas encontram uma pode ser considerada um ajustamento
maneira de demonstrar o seu valor a criativo, afinal, nada pode ser mais
Essa é uma brincadeira antiga
si mesmas e aos outros. saudável e criativo do que aceitar e
que ainda se constitui como uma
exercer a singularidade.
grande diversão para as crianças da
comunidade. Nas ruas e na escola, A partir dessa compreensão do
O poder do NÃO
era muito comum encontrar grupos fenômeno, é possível encontrar a
de crianças envolvidas com essa A partir da convivência dos criança atuante descrita por Berger
atividade. Olha, professora! Ganhei estagiários de Psicologia com as (2011), aquela que não é apenas frágil
cinco bulicas hoje. Eu sou o melhor crianças da comunidade Girassol, e determinada pelo meio, mas que
jogador de bulicas da escola! , disse verificou-se que muitas delas se também o determina e reivindica
um menino a uma das estagiárias. mostravam bastante contestadoras sua participação no mesmo. No caso
e negavam muito daquilo que era da negação, percebe-se a criança
proposto a elas. Essa característica que luta para colocar sua opinião,
Trazendo-se à tona essa temática aparecia na escola, e causava muito para ser ouvida e respeitada em suas
das brincadeiras, é possível discutir incômodo aos professores. Nos preferências, ao invés de aceitar
que o brincar é uma atividade mais grupos dos estagiários, isso também passivamente tudo o meio lhe propõe.
dependente da criança (com sua se manifestava e, por vezes, também
Contudo, havia crianças em
criatividade) do que do brinquedo em incomodava.
que essa forma se apresentava tão
si. Assim, pode-se pensar que uma
Por muitas vezes, os estagiários cristalizada que podia até mesmo
pilha de colchões velhos pode ser
puderam se colocar no lugar dos ser encarada como um sintoma.
tão divertida quanto um vídeo game
professores e compreender o quanto é Eram crianças que contestavam o
de última geração. Isso se deve à
difícil lidar com crianças que contestam tempo todo, que negavam tudo o que
capacidade da criança de se divertir
e negam a maior parte daquilo lhes era proposto. Elas geravam um
com aquilo que ela tem disponível
que é proposto, principalmente, grande desconforto aos professores,
ao seu redor, portanto, pode-se
quando a proposta é planejada com coordenadores pedagógicos e
compreender esse fenômeno também
antecedência e cuidado. A frustração estagiários. Porém, é preciso lembrar
como uma forma de ajustamento
era um sentimento comum, tanto aos que, conforme afirma Antony (2009), o
criativo da criança ao seu ambiente.
professores, quanto aos estagiários. sintoma aparece como uma tentativa
Além disso, de acordo com de ajustamento criativo, como forma
Contudo, ao se pensar a respeito
Furtado (2009), o brincar é uma de aliviar a angústia e apontar que
disso, pode-se perceber que aquelas
forma de experimentar o mundo e uma necessidade importante não
crianças, em geral, possuíam pouco
de aprender mais sobre si mesmo, está sendo satisfeita. Neste caso,
poder de decisão. Com a escassez
sendo também um meio pelo qual é possível supor que a angústia
de possibilidades de escolha,
os sentimentos da criança podem ser de não ser ouvida e a necessidade
muitas vezes, sobravam apenas o
elaborados. Por meio da brincadeira, (extremamente insatisfeita) de
sim e o não. Ou, quando algumas
a criança pode experimentar novas ser aceita em sua individualidade
possibilidades diversas eram dadas
formas de ser e estar no mundo. No levam a criança a estar no mundo
pelos estagiários, uma pequena
caso das brincadeiras mencionadas de uma forma muito contestadora e
confusão se armava, com opiniões
neste trabalho, é possível observar negadora, e essa se torna, de acordo
diferentes e irredutíveis. Às vezes, o
que as crianças experimentam papeis com Aguiar (2005), a única resposta
consenso parecia impossível.
de poder, de sujeitos que vencem que o sujeito consegue dar.
desafios e que são capazes de Pensando-se sobre ajustamentos
É importante ressaltar, que esse
enfrentar o outro. Isso remete à ideia criativos, pode-se entender que esse
tipo de ajustamento não é exclusivo
de Soares (2005), que afirma que movimento de dizer um não irredutível,

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das crianças da comunidade Girassol, e/ou capaz de realizar coisas boas. Com relação a si mesma. Isso remete à ideia

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nem das crianças de comunidades isso, o comportamento de diminuir o de Antony (2009), de que, quando a
carentes em geral; da mesma forma outro pode ser compreendido como criança não tem suas necessidades
que também não significa que todas as uma tentativa de não se sentir menor, básicas atendidas (no caso, “ser
crianças da comunidade apresentem de “nivelar-se” com seus semelhantes. aceita”), ela modifica a necessidade
essa característica. O que se quer Portanto, se o xingamento for utilizado original (transformando-a em “não
examinar neste tópico é que este tipo como uma estratégia de afastar um ser rejeitada”), ajustando-a às
de reação (negação, contestação) sentimento de menos valia, pode-se possibilidades do meio. Portanto,
pode ser compreendido como um entendê-lo como um ajustamento. o que se pode considerar como
apelo pelo direito de ser ouvida, apelo Contudo, é preciso ter cuidado em saudável aqui não é o comportamento
este que pode ser observado em chamá-lo de criativo, uma vez que sua de xingar o outro, mas a tentativa
algumas crianças desta comunidade existência acaba dificultando, ou até de buscar uma estratégia de
e que, da mesma forma, pode ser mesmo impedindo, o contato. Para enfrentamento daquilo que se
observado em outras crianças de Barbosa (2011), quando a estratégia apresenta como uma necessidade e,
outras localidades e classes sociais. de ajustamento criativo se torna fixa, não sendo isso possível, a tentativa de
a criança perde a fluidez do processo modificar a necessidade na busca de
de figura-fundo, deixando de fazer sua satisfação.
Xingamentos contatos nutritivos com o meio.
De qualquer maneira, o caráter de
Desde o primeiro encontro com o
“tentativa” de ajustamento criativo Considerações finais
grupo de crianças, pode-se perceber
não pode ser negado, assim como
que os xingamentos são um fenômeno A partir do referencial teórico da
a estratégia de proteger-se dos
muito presente no dia-a-dia delas. Ao Gestalt Terapia e da experiência de
xingamentos, não sendo afetado por
final deste primeiro encontro, uma das estágio com crianças na comunidade
eles, também pode ser considerada
crianças chegou a pontuar que não Girassol, foi possível construir uma
uma tentativa de ajustamento
gostou de ver todos xingando uns aos nova visão acerca do desenvolvimento
saudável.
outros. Algumas crianças concordaram infantil. Pode-se compreendê-lo como
e prometeram se esforçar para Por meio do conceito de projeção, um processo dinâmico, contínuo e
que isso não ocorresse mais. No é possível compreender esse cheio de energia canalizada para a
entanto, uma parte das crianças não fenômeno de forma mais completa. autorregulação.
concordou com a proposta de parar De acordo com Rodrigues (2009), a
Foi possível, também, entender
com os xingamentos e afirmaram projeção é um ajustamento, que pode
a capacidade de ajustamento ao
que continuariam a fazer isso. E ser saudável ou não, no qual a pessoa
ambiente como uma condição
continuaram. não reconhece que são suas próprias
presente em todo ser humano, de
ideias ou fantasias que estão sendo
Expressões como: “burro”, “baleia”, qualquer idade, cultura, etnia ou
percebidas, reconhecendo-as como
“ET”, “gorducho”, “olhão”, “esquisito”, classe social. No entanto, foi dado um
advindas do meio. A partir disso, é
etc, eram algumas das mais frequentes. enfoque no período da infância, num
possível pensar que, ao encontrar
Esse comportamento gerava um contexto de vulnerabilidade social
em si características condenáveis, a
grande incômodo nos estagiários. e econômica. Esse foco teve como
criança pode lançá-las para o outro,
No entanto, as crianças, em geral, objetivo desnaturalizar o olhar sobre
para poder criticá-las sem maiores
não pareciam se importar com os as crianças carentes como sujeitos
danos a si mesmo. Assim, se a criança
xingamentos que davam e recebiam. “problemáticos”, algumas vezes
se sente burra, por exemplo, pode
Assim como as brincadeiras de luta, vistos como completas vítimas da
criticar e desprezar a burrice do outro,
que geralmente não machucavam, os sociedade, e, outras, como completos
ao invés de admitir que detesta o
xingamentos pareciam não ofender. culpados por seus comportamentos.
fato de se sentir burra. A opção pelo
A impressão causada nos estagiários Ao se propor a compreender o
outro como alvo da crítica parece mais
era de que, para algumas daquelas desenvolvimento a partir dos seus
segura e menos dolorosa para si.
crianças, era difícil reconhecer algo de ajustamentos criativos, desejou-se
positivo no outro. Portanto, repetia-se Com isso, pode-se resgatar a discutir a completa indissociabilidade
aquela forma de olhar para o outro a afirmação de Peruzzo (2011) de que entre o sujeito e seu meio, resultando
partir das características negativas do ser confirmada e aceita pelo outro é em um processo dinâmico de
mesmo. a necessidade primordial da criança. influências entre um e outro. Assim,
Se isso não ocorre da forma que temos um meio que impõe algumas
Ao se tentar entender o que há de
ela necessita, se o ambiente não a condições, e um sujeito que é ativo em
criativo e saudável neste fenômeno,
aceita e a confirma do jeito que ela sua procura sobre o que fazer nestas
é possível formular algumas
é, ela precisa garantir, pelo menos, condições, de forma a satisfazer
especulações. Em primeiro lugar, a
que não seja rejeitada. Para afastar suas necessidades a partir do que é
partir da convivência com as crianças
o medo da rejeição, decorrente de possível no momento.
dos grupos, pode-se perceber que
suas características negativas, ela as
muitas delas apresentam uma baixa Xingar, contrariar, se
projeta no outro, numa tentativa de
autoestima. Para algumas, é difícil se arriscar e uma infinidade de outros
aliviar os sentimentos negativos em
reconhecer como alguém bom, bonito comportamentos que puderam ser

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observados durante o estágio são produtos de uma complexa rede de relações

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entre organismo e meio, que não podem ser analisados sobre uma única direção.
Portanto, não se devem considerar vilões ou mocinhos, culpados ou vítimas,
mas sujeitos em busca de equilíbrio e felicidade. E isso não vale apenas para
crianças de uma comunidade carente, mas para todo e qualquer ser humano,
em toda em qualquer situação.

Referências:
Aguiar, L. (2005). Gestalt Terapia com Crianças. Campinas: Editora Livro Pleno.
Antony, S. (2006). A criança em desenvolvimento no mundo: um olhar gestaltico.
IGT na Rede, Rio de Janeiro, 3 (4).
Antony, S. (2009). Os ajustamentos criativos da criança em sofrimento: uma
compreensão da Gestalt Terapia sobre as principais psicopatologias da
infância. Estudos E Pesquisas Em Psicologia, 9 (2), 356-375.
Barbosa, P. (2011). A criança sob o olhar da Gestalt Terapia. IGT na Rede, 8 (14),
2-22.
Berger, A. S. S. (2011). Uma conversa sobre a visão holística na Gestalt Terapia e
sua influência na forma de ver o cliente e o trabalho psicoterápico. Congresso
de Psicologia da UNIFIL. Londrina, 23-29.
Furtado, C. N. (2009) Polaridades: estudo de caso na clínica infantil. (Monografia
de Especialização em Psicologia Clínica) - Comunidade Gestáltica: Clínica e
Escola de Psicoterapia, Florianópolis, 44 f.
Oacklander, V. (1980). Descobrindo Crianças. São Paulo: Summus.
Peruzzo, G. (2011). Os ajustamentos criativos no desenvolvimento infantil: uma
revisão gestáltica. IGT na Rede, 8 (15), 369-399. Mariane Comelli dos
Santos é psicóloga formada
Polster, E. & Polster, M. (1979).  Gestalt Terapia Integrada.  Belo Horizonte:
pela Universidade Federal de
Interlivros.
Santa Catarina em 2012/2.
Rodrigues, H. E. (2009).  Introdução à Gestalt Terapia: Conversando sobre os
fundamentos da abordagem gestáltica. Petrópolis, Rj: Vozes.
Soares, L. L. M. (2005). Um convite para pensar sobre desenvolvimento em
Gestalt Terapia. IGT na Rede, 2 (3), 1-5.

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PROCESSO E ELABORAÇÃO DE PERDAS SOB
A PERSPECTIVA DA GESTALT TERAPIA

Por Caroline Schmitz Cardoso

RESUMO ABSTRACT
As perdas são processos constituintes da vida de Losses are constituent processes of the life of every
todo indivíduo, e por mais doloridas que possam ser, são individual, and however painful that may be needed for
necessárias para o crescimento. O olhar direcionado à perda, growth. The gaze directed at loss, or what we learned in
ou o que aprendemos nas nossas construções, irá embasar our buildings, will back up what impact it has on our daily
o impacto que ela possui no nosso cotidiano, e até mesmo lives, and even more definitive in situations like death. This
em situações mais definitivas como a morte. Este artigo traz article presents a theoretical discussion of the losses in the
uma discussão teórica sobre as perda e o olhar dado pela Western context, and the look given by Gestalt therapy
Gestalt Terapia sobre esta elaboração. Grande parte das on the development. Much of publications propose to
publicações propõe discutir a perda personificada na figura discuss the loss personified figure of death, but from the
da morte, entretanto surgiu o questionamento sobre como assumptions above came the questions about how is the
se dá o desenrolar e o impacto das perdas, não só a morte, progress and impact of losses, not only death but also the
mas também as perdas mais primordiais e cotidianas na vida most basic and daily losses in life individual, in line with the
do indivíduo; em consonância com a interação da teoria da interaction of the theory of Gestalt therapy with this process.
Gestalt Terapia com esse processo assim como a significância Just as the significance that may have the development of
que pode ter o desenvolvimento de um luto saudável pautado a healthy grief ruled a look at significant losses. Gestalt
em um olhar atento para as perdas. A Gestalt Terapia na sua therapy in his performance of the proposed rescue with
atuação propõe o resgate do saudável com o dar-se conta healthy to realize the possibilities of avoidance, the ability
das possibilidades de atuação, da capacidade de discriminar to discriminate the choices that individuals assume and take
as escolhas que o indivíduo assume e de se responsabilizar responsibility for them. Thus, selfhood itself is not enough,
por elas. Sendo assim, a individualidade por si só não basta, we are interdependent in the middle, and this unique form
somos interdependentes do meio, e esta forma única do of the individual to relate to the way that builds the impact
indivíduo se relacionar com o meio constrói o impacto que as that losses will result in its development.
perdas vão surtir no seu desenvolvimento.
Key-words: Losses. Grief. Gestalt Therapy. Process.
Palavras-chave: Perdas. Luto. Gestalt-Terapia. Processo.

INTRODUÇÃO como são elaboradas reflete na do cuidado. Nossas necessidades


concepção do luto. são sanadas em consonância com
Quando mencionado, o luto
a disponibilidade do outro e limites
muitas vezes é reportado àquela Não só através do desenvolvimento
de contato se confrontam com
elaboração da morte de um ente como em cada escolha que firmamos
a satisfação de necessidades. A
querido, entretanto, é ele muito mais a perda faz parte do processo. Uma
angústia da separação já sinaliza uma
abrangente em nossa vida. Dá-se na escolha trás consigo uma renúncia
perda, mesmo que temporária e a
elaboração de uma perda significativa, e com a renúncia a perda de algo
comunicação que for estabelecida
podendo ser ela personificada em por outro, sem necessariamente
neste momento será de primordial
um ente querido, em seres que ter conotação fatalística, mas de
importância para a significância que
impactaram no desenrolar das término, de fechamento de algo para
isso terá em nossas vidas. A forma
relações, como de todo e qualquer possibilidade da emergência de outro.
como as crianças aprendem a lidar
causador impactante que se separa, O olhar direcionado à perda, ou o que
com as perdas simbólicas que fazem
se ausenta. aprendemos nas nossas construções,
parte da vida de todo ser humano
irão embasar o impacto que ela possui
As perdas vêm através do referem à transição de períodos de
no nosso cotidiano, e até mesmo em
desenvolvimento natural do indivíduo desenvolvimento e separação ou
situações mais definitivas como a
que ao passar de uma fase a outra faz ausência de pessoas significativas.
morte.
o fechamento de uma etapa que ficou
A elaboração dessas perdas,
para trás; um adulto, por exemplo, Nos primórdios dos nossos
sejam elas da intensidade que for,
tem a perda da infância, o idoso da relacionamentos estabelecemos
se desenrola acessando fundos
juventude, e assim por diante. Essas os primeiros laços afetivos que
de gestalten que foram abertas e
“mortes” se referem a transições se dirigem aos nossos cuidadores
fechadas, co-dados de como fomos
de períodos do desenvolvimento e e desde então já estabelecemos
aprendendo em nossas vidas a finalizar
separação ou ausência de pessoas nossos primeiros contatos com a
as situações que inevitavelmente tem
significativas. Sendo assim, a forma perda daqueles que se ausentam
um fim. Estas elaborações trazem em

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si o contexto em que nos inserimos, perdas, mesmo que balanceadas uma característica da qual tenhamos

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desde o cultural até o mais singular pelos ganhos, quando nos afastamos constante consciência, mas é na
círculo familiar. do cuidador. Entretanto, quando fronteira de contato que o indivíduo
não bem elaborado, o preço desse experiência o “eu” em relação ao
A Gestalt Terapia irá permear
abandono, perda e separação pode “não-eu”. (Polster & Poslter, 2001).
toda interlocução do tema pela
ser muito alto. (Viorst,1986). Para a Todo contato é dinâmico e criativo,
proposta do resgate do saudável, da
Gestalt Terapia, quando o indivíduo e é através do dinâmico processo
espontaneidade, que acessa fundos
não consegue identificar a barreira figura-fundo que o contato permite
para trazer a fronteira de contato
que o separa do meio, quando sente crescimento e assimilação. (Perls,
possibilidades de crescimento sempre
que ele mesmo e o meio são um e Hefferline & Goodman, 1997).
em interação com o meio. A construção
não consegue distinguir as partes
da perda e seus desdobramentos As perdas e ausências vivenciadas
do todo, está em confluência com
nas relações do indivíduo vistas por pela criança contribuem para a
o meio. (Perls, 1988). A confluência
um prisma gestáltico pressupõem formação da concepção de morte
estabelece uma base frágil para o
a existência de um outro, da e sua elaboração. A omissão dos
relacionamento uma vez que dois
interdependência campo/organismo pais, ou a figuração sobre o tema,
indivíduos não podem ter exatamente
e suas repercussões no aqui-e- provoca mais sofrimento e confusão
a mesma mente. (Polster & Polster,
agora, trazendo sempre as relações para a criança que tenta entender o
2001).
de contato estabelecidas e a que está acontecendo ao perceber
responsabilização do indivíduo. Em um estado patológico da as mudanças que a morte ou perda
confluência o indivíduo não consegue provoca no meio em que ela vive. O
Por interdependência campo/
discriminar o que é dele e o que é do sofrimento não pode ser silenciado,
organismo entende-se essa interação
outro. Não sabe onde começam a a experiência de perda provoca na
do organismo com o ambiente, não
terminam estas barreiras e, por isso, criança o medo da sua morte e dos
apenas física, mas também social e
não consegue sequer fazer contato que convivem com ela, e é nesse
cultural. Onde o campo existe sempre
consigo mesmo e discriminar as suas contexto que o apoio e explicação
em relação à, e os elementos que
necessidades, sinalizando assim uma por parte da família é essencial.
o compõem pertencem ao campo;
interrupção de contato. (Perls, 1988).
estão submetidos às forças desse
Freud (como citado em Brún 2003)
campo e também atuam de modo
corrobora com o tema ao afirmar que Processo e elaboração das
criador e ativo. Organismo/ambiente
“a fronteira entre o luto e a melancolia perdas
deve ser entendido como relativo aos
é estreita, quando a perda do objeto
fenômenos que se desenvolvem entre Vivemos situações de perda
transforma-se em perda do eu” (p.22).
um dado organismo e seu ambiente, não só através da morte, como
A perda, para a criança nas primeiras
entre um indivíduo e o que ele não é. O também em situações de abandono,
etapas do desenvolvimento ou
organismo é aqui estabelecido como mudanças e separações. “Essas
quando em confluência patológica,
um princípio organizador, elemento perdas são parte da vida – universais,
é sentida como perda permanente.
referente; o ambiente é a outra parte inevitáveis, inexoráveis. E essas
A criança só começa a compreender
do campo, e o próprio organismo está perdas são necessárias porque para
que a mãe está viva e que vai voltar
incluído no campo. (Robine, 2006). crescer temos de perder, abandonar
com uma elaboração saudável desta
e desistir.” (Viorst, 1986). Sejam
Grande parte das publicações confluência. (Viorst, 1986). Entretanto,
as perdas necessárias, ou as que
propõe discutir a perda personificada se a infância constitui-se em uma série
colocam o indivíduo em situação
na figura da morte, entretanto surgiu de separações, elas deixam cicatrizes
patogênica, percebe-se um alto nível
o questionamento sobre como se dá profundas e atacam o elo mãe e filho
de ansiedade e mais especificamente
o desenrolar e o impacto das perdas, que ensina que somos dignos de
da morte mesmo sendo ela
não só a morte, mas também as ser amados. (Viorst, 1986). A forma
inevitável; entretanto, o impacto
perdas mais primordiais e cotidianas como são “tratadas” essas mortes
continua significativo e muitas vezes
na vida do indivíduo; em consonância simbólicas reflete na concepção da
desenvolve estados que paralisam.
com a interação da teoria da Gestalt morte real e concreta, que representa
Terapia com esse processo, assim a realidade única e absoluta, onde A perda não deve ser silenciada
como a significância que pode ter o nada mais se pode fazer. com o objetivo de poupar a
desenvolvimento de um luto saudável. criança, pois acaba impedindo-a
Em casos de confluência
de se expressar no luto, criando
patológica os antídotos são o contato,
o receio de perguntar a respeito
a diferenciação e a articulação. Com
As primeiras perdas de tal acontecimento, podendo
estes fatores combinados o indivíduo
gerar também sentimento de
Quando nascemos deparamo-nos passa a experienciar suas escolhas,
solidão e medo de perder pessoas
com uma dentre as nossas muitas necessidades e sentimentos sem
significativas. (Berthoud, Felizari,
dificuldades: tornar-se um ser a coincidir com os de outras pessoas.
Morth & Soares, 1996).
parte. Ser capaz de exteriormente se Por contato entende-se não apenas
defender sozinho, e interiormente se união ou intimidade, mas a pré- O homem necessita de contato,
sentir separado, precisamos superar condição para o crescimento. Não é não vive só, seja fisiológica ou

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psicologicamente, a perda e a assume a forma de sentimentos não clama por fechamento, podendo

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seguinte elaboração do luto acessa resolvidos expressos de maneira potencializar a dor e tocar em
fundos e muitas vezes desencadeia incompleta”. E é nessa maneira fundos que trazem dores de perdas
dores de perdas mal elaboradas, de estar que o indivíduo passa a anteriores que ainda clamam por uma
de gestalten abertas que mechem acumular despedidas mal feitas, melhor forma de fechamento.
no todo. Na Gestalt Terapia se olhares mal dados para vivências de
Para a Gestalt Terapia a saúde seria
considera que a pessoa expressa-se perdas. Geralmente o que foi vivido
a capacidade de reconhecimento do
holisticamente, o que significa que só é realmente fechado quando se
indivíduo em manter-se em contato
ela expressa por si tudo o que ela é, retoma uma vivência no aqui e agora,
com o contexto, de ter a capacidade
inclusive sua forma distorcida de se que toque no fundo de dor e facilite
de optar sobre a melhor forma e o
relacionar com o mundo. Através de a awareness. (Dudenhoeffer, 2010). A
melhor momento de efetuar suas
suas funções de contato, a pessoa se despedida assume papel relevante
trocas dentro de um processo de
expressa ao mundo, inclusive quanto no fechamento de fatos e situações
escolha espontâneo. (Rodrigues,
às dificuldades ou impossibilidades vividas no dia a dia; a despedida
2009).
momentâneas de fazer contato com passa a ser um processo e não mais
ele e com o que há de novo nele. um ato isolado. As desapercebidas O organismo reage como um
(Rodrigues, 2009). pequenas perdas, emergem e todo as situações experienciadas
tornam-se figuras, em um movimento no meio em interação com o fator
Uma situação inacabada, ou gestalt
próprio apresentam uma articulação emocional. Desta forma, os fatos
aberta, é toda experiência que clama
de tempo e espaço. Focando naquilo psicológicos devem ser tratados em
por fechamento; são movimentos que
que não se tem mais, apresenta-se consonância com os do organismo.
não são completados e que buscam
uma predisposição para se despedir, A autorregulação organísmica seria
naturalmente por um fechamento, por
fechar a gestalt que necessita ser a procura do organismo por uma
uma autorregulação organísmica, por
vivida intensamente e rápida, pois conclusão da excitação. (Rodrigues,
equilíbrio. O processo homeostático,
não há mais tempo para ser perdido e 2009). A autorregulação envolve
ou autorregulação organísmica,
os adiamentos deixam de fazer parte tanto o aparato psíquico, quando o
caracteriza-se por manter o equilíbrio
da rotina. (Dudenhoeffer, 2010). organismo biológico em si para o
do indivíduo e sua saúde através da
fechamento de situações que ficaram
satisfação das suas necessidades, Uma Gestalt é uma forma, uma
abertas; quando tocamos em uma
mesmo em condições adversas. configuração, o modo particular de
parte, tocamos no todo.
Uma vez que as necessidades estão organização das partes individuais
constantemente emergindo e elas que entram em sua composição. A Quando vividas em plenitude
perturbam o equilíbrio, este é um ciclo premissa básica da Psicologia da as situações de perda facilitam
constante que pode perdurar por toda Gestalt é que a natureza humana é o contato, a proximidade da dor
a vida. Quando o indivíduo permanece organizada em partes ou todos, que propicia o ajustamento criativo.
num estado de desequilíbrio por é vivenciada pelo indivíduo nestes (Dudenhoeffer, 2010). O que passou
muito tempo e é incapaz de satisfazer termos, e que só pode ser entendida deixa a sua marca no presente e essa
as suas necessidades, sinaliza um como uma função das partes, ou presença existe mesmo que este
estado não saudável. (Perls, 1988). todos dos quais é feita. (Perls, 1988). passado tenha sido esquecido ou não
esteja constantemente consciente
A necessidade de uma estabilidade Do fechamento das situações
(Rodrigues, 2009) ou aware para
após cada situação de perda, inacabadas depende o processo
o indivíduo. Corroborando Polster
experienciada como desequilíbrio, de luto saudável. Num indivíduo
& Polster (2001), “a awareness é
demonstra a capacidade do ser saudável os processos de formação
um meio contínuo para manter-
humano de fazer, desfazer e refazer, e destruição de gestalten são
se atualizado com o próprio eu”, a
de compor, descompor e recompor, contínuos, as interrupções de contato
awareness é um processo de estar
de lidar com problemas e soluções, em vivências de perdas muitas vezes
em contato vigilante com os eventos
de se fragilizar e se fortalecer e atuam na interrupção do nosso fluxo
do campo organismo/ambiente com
de encontrar caminhos onde não auto-regulativo, impedindo-nos
apoio sensório-motor, emocional,
pareciam existir. (Dudenhoeffer, de viver plenamente o momento
cognitivo e energético. (Yontef, 1988).
2010). Para que a satisfação de presente. As perdas ocorrem, quando
necessidades ocorra, fechando uma saudáveis, de modo fluido, fazendo Perdas atuais tocam em fundos de
gestalt e permitindo a emergência parte da interação organismo/meio. perdas anteriores que possam não ter
de outras, o indivíduo deve ser capaz No fechamento de uma gestalt, sido bem elaboradas, o não saudável
de manipular a si e ao meio, pois a aquela interação finaliza e o indivíduo estaria na confluência com esta perda,
satisfação das necessidades só ocorre em determinada escala vivencia onde o indivíduo dá respostas antigas
no campo (Perls, 1988). uma perda. Quando saudável e a um evento novo, não se atualiza,
bem elaborada como parte da não cresce e potencializa ainda mais a
As gestalten abertas sinalizam
autorregulação organísmica, permite sua dor. A Gestalt considera o homem
situações inacabadas, para Yontef
a abertura de novas gestalten e seu no campo e seu comportamento
(1998) “Gestalt incompleta é um
posterior fechamento; quando não consequentemente faz parte e é
assunto pendente que exige
saudável a forma se cristaliza, a perda reflexo dessa interação; sendo esse
resolução. Normalmente, isso

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campo altamente mutável, que que o excita, é parte integrante dos Uma vez que o indivíduo não entra

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constantemente se renova fruto da desdobramentos de formação figura e em contato com as reais necessidades
sua própria natureza. Suas formas de fundo saudáveis. que tem de fechamento para aquela
interação devem ser também fluidas perda, projeta no meio o sentimento
Entretanto, na confluência em
e mutáveis. (Perls, 1988). de evasão. Quando o indivíduo já está
um processo neurótico, o indivíduo
imerso em um processo mal elaborado
Quando o indivíduo se torna está em uma indiferenciação
da sua perda surge, neste momento,
incapaz de alterar suas técnicas organismo/ambiente (Robine, 2006).
o sentimento de raiva, inveja, revolta
de manipulação e interação Na continuidade deste processo
e ressentimento da perda de algo
desenvolve-se os ajustamentos de contato, quando a situação se
culpabilizando o meio que o serviu
neuróticos. A repetição não significa apresenta e o indivíduo não consegue
de introjeções. Corroborando Perls
necessariamente que a ação é a responder de acordo com a sua
(1988), na projeção o indivíduo
mesma, mas na neurose o indivíduo excitação e necessidade genuína, passa
desloca a barreira com o meio a seu
afunila em uma única saída e dá a responder com o que vem do meio,
favor de forma que seja possível
uma mesma resposta (repetição) mas que não é assimilado. Na neurose
negar e não aceitar as partes da sua
para diferentes situações. Este é um o indivíduo tem uma inversão dos
existência que considera difícil. Uma
momento em que indivíduo encontra- afetos ao priorizar o que vem de fora,
perda pode ser uma parte difícil de
se cristalizado, fica menos capaz de não significa somo sendo do meio,e sim
acessar, principalmente se elaborada
ir ao encontro de qualquer de suas como se fosse seu o que vem do meio,
dentre processos interrompidos. Sem
necessidades de sobrevivência. caracterizando assim uma introjeção
suporte o indivíduo projeta no meio a
(Perls, 1988). Para Perls, Hefferline & patológica.
perda, a dor, o medo, esperando se
Goodman (1997) a neurose surge do
Corroborando Robine (2006), a livrar das suas introjeções imaginárias.
resultado de interrupções do ciclo
introjeção quando saudável é um
de contato e da perda das funções Por não conseguir identificar sua
processo de apropriação que leva a uma
de ego do self. Por self entende-se necessidade genuína e partir para uma
assimilação e construção de sentido,
o sistema de contatos presentes e o má elaboração de seus processos,
ou a constituição de um introjeto. A
agente de crescimento do organismo neste caso presente a perda, o
introjeção é o processo, enquanto que o
no meio. indivíduo se utiliza da agressão não
introjeto é o conteúdo.Em oposição, em
manifesta no processo para voltar-
Em situações de contato o self um processo patológico de introjeção
se contra si mesmo. O medo da
é a força que forma a gestalt no o indivíduo evita a agressividade
perda despertou uma angústia, uma
campo, é o processo de figura/fundo necessária para desestruturar aquilo
destruição que se volta para o único
em situações de contato. Quando que existe neutralizando sua existência,
objeto disponível: o próprio indivíduo.
interagimos, o self está operando de modo que as coisas como se
(Robine, 2006).
de formas diferentes, através da apresentam tornam-se invioláveis e o
função id, ego e personalidade (uma indivíduo a aceita tal qual ela lhe chega. Quando o indivíduo retroflete
função está mais emergente que (Polster & Polster, 1979). um comportamento, trata a si como
a outra dependendo da dinâmica). gostaria de tratar a situação; a energia
Em um processo de elaboração
Por id entende-se a indiferenciação que antes estava sendo canalizada
de perda os introjetos advindos dos
no processo de formação da figura, fora é focada no próprio indivíduo
jargões de “nos manter centrados”,
onde o self está em relaxamento para que se coloca no lugar do meio
ou de “levantar a cabeça e seguir em
algo que captura a espontaneidade. como alvo de comportamento. (Perls,
frente” potencializam a dor pela falta
A personalidade é a forma pela qual 1988). Neste sentido, a elaboração
de confirmação no meio. Ao se tornar
o organismo assimila as vivências e da perda pode vir acompanhada do
uma elaboração não saudável, estes
como engloba o meio. Já função ego desenvolvimento várias formas de
introjetos de que não se deve chorar,
seria justamente a atualização nas somatização, como o alcoolismo por
sofrer ou elaborar o luto de forma muita
escolhas e rejeições na experiência exemplo.
“prolongada”, impedem o indivíduo
de contato. Na neurose o que deveria
de dar vazão a sua dor e avaliar as Para que o contato final seja
ser rejeitado, ou transformado, é
possibilidades de fechamento para alcançado, deve haver uma
aceito passivamente e a interrupção
esta situação. elaboração do processo. Na
de contato passa a ser uma defesa do
finalização de um ciclo de contato
self no sentindo de se manter íntegro O próprio desejo não pode ser
saudável, o indivíduo prioriza a sua
e tentar finalizar uma gestalt que reconhecido, assumido, desdobrado.
parte no meio para se lançar na
clama por fechamento. A introjeção consiste em deslocar o
complementação do contato, para
instinto ou apetite potencial, e adotar
A confluência, em um processo possibilitar a emergência de uma
o desejo do outro, o sentido oferecido
de contato saudável, pressupõe nova figura de forma espontânea.
pelo outro para a experiência em
uma espontaneidade, existe uma Entretanto, no processo não
substituição à construção do seu próprio
curiosidade de não haver à priori, saudável, “a aproximação do contato
desejo ou sentido. O afeto é invertido
possibilitando a emergência do final é de tal forma ansiogênica
antes mesmo de ser reconhecido e,
excitamento. Essa ausência de que o egostimo é utilizado como
portanto, experenciado.(Robine, 2006,
fronteira vivida momentaneamente freio último para evitá-lo” (Robine,
p.121).
até o indivíduo ser tocado por algo 2006, p.132), ou seja, é uma forma

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de manipulação do meio para que o O ajustamento é o processo que (Kubler-Ross, 2000, p.44). A negação

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indivíduo seja priorizado ao controlar propulsiona a interação entre as é uma medida temporária, sendo logo
o aparecimento do novo, manipular necessidades do organismo e os substituída por uma aceitação parcial.
de forma que isto não aconteça. Em estímulos do ambiente. A necessidade
Quando a negação não pode
uma perda é comum que o egotismo busca por um objeto, por uma resposta
mais ser sustentada surgem os
seja uma forma de controle para que do ambiente; a criação refere-se à
sentimentos de raiva, revolta, inveja
a emoção não venha a campo; é uma descoberta de uma nova forma de
e ressentimento. Esta raiva não é
forma de se assegurar que a entrega integração a partir desses dados
direcionada e projeta-se no meio.
ao processo de elaboração não é presentes. Ajustamento e criação
(Kubler-Ross, 2000). Como indivíduo
“precoce” e manter seguro o medo da são pólos necessários um ao outro
e meio são parte constituintes de um
perda do afeto. para que se estabeleça o equilíbrio
todo, o campo, nenhum deles pode
saudável e dinâmico do organismo.
Frente a situações intoleráveis que ser responsabilizado pelas doenças
(Robine, 2006).
não podem ser evitadas, o self através do outro, pois ambos estão doentes.
da função ego, prioriza a necessidade O processo de ajustamento criativo (Perls, 1988). Em uma projeção não
de sobrevivência em detrimento de compreende agressão e destruição saudável negamos as partes que
um crescimento harmonioso gerando das velhas estruturas para que uma consideramos difíceis e deslocamo-
então o processo da neurose. A nova configuração possa existir, as ao mundo. “Em vez de ser um
necessidade de sobreviver age possibilitando desta maneira que participante ativo de sua própria
como força propulsora em todos os as formas antigas sejam destruídas vida, aquele que projeta se torna um
seres vivos e demonstram sempre no interesse do novo contato. Sem objeto passivo de sua própria vida,
duas tendências: sobreviver como a agressão, a satisfação passa a não aquele que projeta se torna um objeto
indivíduos e espécie e crescer. ser sentida, podendo provocar medo, passivo, vítima das circunstâncias.”
(Perls, 1988). O relacionamento tem interrupção e ansiedade a partir dos (Perls, 1988, p.50).
origem no contato e é por meio dele ajustamentos neuróticos. É o medo
Em uma tentativa de adiar a perda,
que as pessoas crescem e formam da agressão, destruição e perda que
associada a uma culpa interior, o
identidades, e a Gestalt Terapia resulta em agressão e destruição
indivíduo passa para uma fase curta
se propõe a ajudar o paciente a voltada para dentro. (Perls, Hefferline
e temporária de barganha, tentando
desenvolver o seu próprio suporte & Goodman, 1997).
prolongar o seu estado anterior
para o contato ou afastamento.
Ajustamentos neuróticos são à perda com promessas de bom
(Yontef, 1998).
aqueles onde o indivíduo está comportamento, geralmente dirigidas
Uma perda que clama por uma cristalizado numa forma antiga, a Deus. Entretanto, quando a perda
melhor forma de fechamento, obsoleta, para atuar frente ao fica muito evidente e impossível
mal elaborada, pode impedir novo, incapaz de ir ao encontro de de contorná-la o indivíduo cai em
o crescimento, a atualização. suas necessidades. (Perls, 1988). grande tristeza, em depressão pelas
Qualquer organismo vivo tem de Como coloca Viorst (1986) “amores, despedidas de sonhos, planos,
crescer e atualizar-se, ajustando-se ilusões, dependências e expectativas vivências significativas que não mais
criativamente ao meio com o qual impossíveis, das quais todos nós serão realizadas no seu imaginário
se relaciona. Esta é sua tendência temos de abrir mão para crescer” (p. pela ausência de constatação real no
natural, na qual ele se vê implicado 244). Ainda citando a autora “vivemos aqui e agora.
com o mundo, mas na qual muitas de perder, abandonar e desistir [...]
Quando o indivíduo consegue
vezes também se vê interrompido. a perda é sem dúvida uma condição
externar todos os sentimentos de
Restabelecer esse fluxo vital encontra- permanente da vida humana”(p.244) e
negação, raiva, barganha, tristeza para
se no cerne da Gestalt Terapia, que a o modo como esta elaboração vai se
superar cada estágio que a elaboração
denomina de awareness, termo que desenrolar depende da singularidade,
do luto propõe ele atinge a aceitação
não se faz traduzir bem por nenhum fundos e história construída por
e passa a elaborar suas despedidas e
outro em nossa língua, mas que diz cada qual. Entretanto parece haver
partida. (Kubler-Ross, 2000).
respeito a uma espécie de consciência um padrão para o processo de luto,
organísmica. (Cavanellas, 1998). elaboração da perda, de um adulto Segundo Dudenhoeffer (2010), na
(Viorst, 1986). terapia com o foco na abordagem
Awareness é o tornar-se
gestáltica propicia-se o aparecimento
consciente, “quando o indivíduo é A primeira reação a uma notícia
dos mais diversos sentimentos até
capaz de escolher e organizar a própria de perda muito significativa, como
que seja possível atingir o que é
existência de maneira significativa.” a morte, por exemplo, vem com a
impossível, o perdido, o que já não
(Yontef, 1998, p.19). Como propõe negação, utilizada por pacientes
se tem mais, o que deixou de existir.
Robine (2006) “A awareness é saudáveis ou não para lidar com a
Reconhece-se o limite estabelecido
figura sobre um fundo. [...] É esse situação dolorosa e desagradável.
e vislumbra-se o possível, abre-se a
conhecimento imediato que torna “A negação funciona como um pára-
possibilidade de seguir com uma nova
possível a criação figura/fundo. [..] É choque depois de notícias inesperadas
situação reconfigurada, colocando o
um tipo de consciência de campo”. É e chocantes, deixando que o paciente
que antes era falta como possibilidade
tornar-se consciente. se recupere com o tempo, mobilizando
presente.
outras medidas menos radicais”.

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Considerações finais Referências
A Gestalt Terapia propõe o Berthoud, C. M. E., Felizari, C. O.,
resgate do saudável com o dar-se Morth, M. M. & Soares, D. B. (1996)
conta das possibilidades de atuação, Desenvolvimento cognitivo da
da capacidade de discriminar as concepção de morte em crianças
escolhas que o indivíduo assume e de 4 a 7 anos. Revista Biociências,
se responsabilizar por elas. Sendo Taubaté, v.2, n.1, p.69-79.
assim, a individualidade por si só não
Brun, D.(2003). A relação da criança
basta, somos interdependentes do
com a morte: paradoxos de um
meio, e esta forma única do indivíduo
sofrimento. Revista Psychê, São
de se relacionar com o meio e que
Paulo, n.12, p.12-25.
constrói o impacto que as perdas vão
surtir no seu desenvolvimento. Cavanellas, L.B. (1998). A Gestalt
Terapia no envio da modernidade:
A singularidade do indivíduo se
teoria e técnica no confronto da
expressa no momento da ação no
dor. Universidade do Estado do
mundo, e se esta forma de atuar no
Rio de Janeiro: Rio de Janeiro.
campo se repete, há interrupção de
contato, podendo confluir com perdas Dudenhoeffer, M. C. (.n.d). Da perda
anteriores e potencializar ainda mais a saudade: a despedida enquanto
a sua dor ou paralisá-lo de outras processo. Disponível em: <http://
formas, que quando não saudáveis o www.laboratoriogestaltico.uerj.
impedem de elaborar essas perdas br/index2.html>. Acesso em 23 de
contínuas e necessárias. maio de 2010.
Contínuas, pois estão ocorrendo Kovásc, M. J. (1992). Morte e
a todo o momento com a abertura desenvolvimento humano. São
e o fechamento de gestalten e com Paulo: Casa do Psicólogo.
as escolhas que são feitas a cada Caroline Schmitz Cardoso é
Kubler-Ross, E. (2000). Sobre a morte
segundo. Necessárias, uma vez Psicóloga (UFSC) e Administradora
e o morrer. São Paulo: Martins
que são as perdas que sofremos, (UDESC). Especializando-se
Fontes.
que também optamos por sofrê-las em Psicologia Clínica/Gestalt-
por sermos partes integrantes do Perls, F. Hefferline, R. & Goodman, P. Terapia (Comunidade Gestaltica),
campo, nos possibilitam crescimento. (1997). Gestalt-terapia. São Paulo: consultora em Gestão de Pessoas.
Só existe aquilo que cresce e só Summus.
cresce aquilo que existe. Por isso é Perls, F.(1988). A abordagem gestáltica
importante ter um olhar cuidadoso e a testemunha ocular da terapia.
para existência do indivíduo e as Rio de Janeiro: Editora Guanabara.
perdas que delas fazem parte para o
desenvolvimento de um luto saudável. Polster, E. & Polster, M. (2001). Gestalt
terapia integrada. São Paulo:
Para isto, a Gestalt Terapia propõe Summus.
o desenvolvimento de suporte
para que o indivíduo possa entrar Robine, J.M. (2006). O self desdobrado:
em contato e entrar em contato perspectiva de campo em Gestalt-
com os aspectos que ainda causam Terapia. São Paulo: Summus.
sofrimento. As perdas precisam deste Rodrigues, H. E. (2009). Introdução
olhar para serem compreendidas, à Gestalt-Terapia: Conversando
trabalhadas, e se for o caso, fechar a sobre os fundamentos da
gestalt como um processo saudável. abordagem gestáltica. Rio de
De acordo com Dudenhoeffer Janeiro: Vozes.
(2010, p.6), “Humanos que somos Viorst, J. (1986). Perdas necessárias.
fugimos das perdas porque elas nos São Paulo: Melhoramentos.
apontam a finitude, o nunca mais. O
homem desenvolve várias maneiras Yontef, G. M. (1998). Processo, diálogo
de suavizar as despedidas, das mais e awareness. São Paulo: Summus.
simples nem nos damos conta, não
fomos criados para perder.”

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“LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA
POR CIMA”: UM DIÁLOGO ENTRE CONCEITOS
DA GESTALTTERAPIA E DE RESILIÊNCIA
Por Luciane Pereira dos Santos Santana

RESUMO ABSTRACT
O presente artigo propõeuma revisão de literatura This article proposes a revision of the literature on the
com vistas a uma articulação teórica entre o conceito de theoretical articulation between the concepts of resilience
resiliência ealguns conceitos fundamentais da Gestalt and some fundamentals pertaining do Gestalt Therapy, such
Terapia como: awareness, contato, fronteira de contato as: awareness, contact, frontiers of contact and creative
e ajustamento criativo. De acordo com a literatura adjustment. According to existing research and literature, there
pesquisada, não existe consenso para a definição de is no existing consensus for the definition of resilience. This
resiliência. Esse “terreno”,instável e em construção, acaba academic “terrain” is unstable in its defining construction, as
por despertar grande interesse em muitos pesquisadores. it awakens a great interest in many researchers. Nonetheless,
No entanto,justamente por estar em dinâmica construção it is exactly because of the continuing dynamic construction,
e formulação a ideia e compreensão do que é resiliência, growing formulation of ideas and comprehension, which
há de se ter cautela principalmente quando as ciências the concept of resilience encompasses, that it needs to be
humanas utilizam um conceito da Física para explicar um principally approached with caution from a human sciences
fenômeno psicológico. O levantamento literário permitiu perspective, which uses Physics to explain this psychological
melhor compreensão dos fatores que envolvem a resiliência, phenomenon. The increasing literature on this subject has
assim como o aprofundamento acerca dos conhecimentos permitted a better comprehension of the factors that involve
da Gestalt Terapia. resilience and therefore a better understanding regarding the
knowledge of Gestalt Therapy.
Palavra chaves: Gestalt Terapia,Resiliência;Awareness;
Fronteira de Contato. Keywords: Gestalt Therapy, Resilience, Awareness,
Frontiers of Contact.

INTRODUÇÃO simples, no entanto não está muito comum, por exemplo, é que o campo
clara a sua definição, nem o seu de estudos da resiliência, assim como
O momento histórico atual é
significado psicológico. Rodriguéz a abordagem gestáltica, também se
marcado por grandes transformações
(2005,como citado em Barlach, 2005, utilizou da articulação teórica entre
tecnológicas, econômicas, culturais,
p.6) afirma que resiliência “é um os conhecimentos psicológicos e
sociais e pela ocorrência frequente
fenômeno fácil de entender, mas difícil as Ciências Exatas como a Física,
decatástrofes ambientais.O homem
de definir e impossível de ser medido para auxiliar o entendimento e a
atual vive um processo dinâmico
ou calculado exaustivamente”. Para construção de seus conceitos. Em
neste ambiente e contexto,assumindo
Barlach (2008), essa afirmação Gestalt Terapia pode-se perceber,
uma postura criativa,de modo
é um ponto de interesse crucial principalmente, essa articulação na
que flexibilidade, adaptação ou
dos pesquisadores que fazem uso teoria de campo de Kurt Lewin, que,
ajustamento são necessários para o
do conceito de resiliência como segundo Yontef (1988), é fundamental
prosseguimento do curso vital.
referencial para pesquisas em um para a construção da metodologia da
Segundo Barlach (2005), as campo ainda instável. Barlach Gestalt Terapia.
pesquisas voltadas para o campo (2008) se refere a esse campo
Assim como alguns conceitos
da resiliência humana buscam a metaforicamente como “semelhante
psicológicos da Gestalt Terapia,
compreensão domotivo pelo qual à areia movediça”.
o conceito de resiliência não está
algumas pessoas, frente a condições
Embora a produção acadêmica a esgotado ou acabado, e pode ser
adversas, desenvolvem-se ou
respeito do fenômeno resiliência seja explorado pelas Ciências Humanas,
crescem satisfatoriamente, enquanto
extensa em outras áreas da Psicologia, não apenas no sentido de definí-
outras cedem e se vitimizam
como na recente Psicologia Positiva, lo, mas também de aprofundar
chegando a desenvolver patologias.
fundada por Martin Seligman no final o entendimento do processo de
As pessoas consideradas resilientes
da década de 90, em Gestalt Terapia resiliência.A compreensão da forma
sobressaem-se, aparentemente, aos
há pouca literatura acerca desse como se dá o processo possibilita
limites da condição humana.
fenômeno. Apesar disso, percebem- maior exploração da pluralidade
De acordo com Barlach (2008), se algumas semelhanças entre os desse fenômeno,ampliando
o entendimento do fenômeno fundamentos da Gestalt Terapia e a as possibilidades de atuação e
resiliência parece relativamente compreensão de resiliência. Uma base intervenção no campo das Ciências

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Humanas, e, especialmente, em organismo, do relacionamento,

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Contato
Psicologia. do grupo ou da  sociedade se
“O organismo tem tanta
torne Gestalt, que venha para
O objetivodo presente artigo não necessidade psicológica como
o primeiro plano, e que possa
é aprofundar ou esgotar o assunto, fisiológica de contato; ela é sentida
ser integralmente experenciado
mas fomentar reflexões em busca de cada vez que o equilíbrio psicológico
(reconhecido, trabalhado,
melhor compreender o que é resiliência é perturbado, assim como as
selecionado, mudado ou jogado
e como ela pode ser articulada com necessidades fisiológicas são sentidas
fora etc.) para que então possa
os conceitos fundamentais da Gestalt sempre que o equilíbrio fisiológico é
fundir-se com o segundo plano
Terapia:awareness, contato, fronteira alterado” (Perls, 1988, p. 22).
(ser esquecido ou assimilado e
de contato e ajustamento criativo. A
integrado) e deixar o primeiro O conceito de contato
proposta é apresentaresses conceitos
plano livre para a próxima Gestalt é extremamente rico e
da abordagem gestáltica, segundo o
relevante. (Perls, 1973, p. 2, citada complexo.   Ribeiro (1997, p. 15)
referencial teórico pesquisado, e, ao
por Yontef, 1998, p.31) destaca que  “seu universo é o
final,identificar as semelhanças entre
universo da totalidade. Ele inclui
a resiliência e aGestalt Terapia.
Nos dizeres de Ribeiro (1985), tudo, porque tudo está em relação,
“Toda e qualquer forma de afetando a natureza das coisas. A
psicoterapia oculta e revela, ao natureza, dita viva ou morta, é contato
Um pouco de história
mesmo tempo, uma teoria do e, nesse sentido, existência e contato
Segundo Rodrigues (2007), homem.” (p.17). De acordo com se confundem.”.Ribeiro (1997) afirma
Frederick S. Perls foi o primeiro Ribeiro (1985) a psicoterapia busca um que é por meio do contato que se
autor da Gestalt Terapia. Perls, sistema de comportamento, por meio segue o fluxo de figura e fundo, isto é,
quando psicanalista, deparou-se com do ser humano, do seu agir, do seu o caminho de formação e destruição
algumas limitações na sua prática pensar. Cria uma estrutura ou sistema de novas gestalten em um processo
clínica e desenvolveu divergências que aponta para linhas mestras do infinito de renovar-se.
teórico-metodológicas em relação modelo vivencial de cada sujeito. Ao
Segundo D´Acri, Lima e Orgler
à Psicanálise. Em decorrência mesmo tempo, o que é próprio de um
(2007), o casal Polster contribuiu
disso, lançou o livro Ego, Hunger homem,  feitasas devidas ressalvas,
significativamente com a definição do
and Aggression (Ego, Fome e pode aplicar-se a outros homens.
conceito de contato. De acordo com
Agressão), em 1942, na África do Sul “Nesse sentido, o indivíduo é também
Polster e Polster (2001, como citados
e em 1947, na Grã Bretanha, com o um universal” (Ribeiro, 1985, p. 17).
por D’Acri, Lima e Orgler, 2007, p. 60)
objetivo inicial de fazer uma revisão
“a mudança é resultado inevitável
da teoria de Freud. No entanto,
do contato, à medida que ocorrem
por controvérsias com alguns Conceitos da Gestalt Terapia
a assimilação do que é nutritivo e a
fundamentos da teoria psicanalítica,
rejeição do que é nocivo.”E ainda,
essa obra levou Perls a romper com
referente ao contato:
o modelo e com o meiopsicanalítico. Awareness
A partir desse rompimento, Perls Só pode acontecer entre seres
De acordo com Yontef(1998),
estava livre da rigidez do arcabouço separados, que precisam ser
“Awareness é o processo de
teórico da psicanálise.Isso lhe independentes e sempre se
estar em contato vigilante com o
possibilitouinvestir na estruturação arriscam a ser capturados na
evento mais importante do campo
de um novo campo clínico, que união. No momento da união,
indivíduo/ambiente, com total apoio
nomeou de “Gestalt”.Em 1951, nos o senso mais pleno que um
sensoriomotor, emocional, cognitivo e
EUA, conjuntamente com Paul indivíduo tem de si mesmo é
energético”(p. 31). Segundo o mesmo
Goodman e Ralph Hefferline,publicou movido rapidamente para uma
autor, fazem parte da awareness
“Gestalt Therapy, a primeira obra nova criação.   (Polster; Polster,
o processo de conhecimento do
eminentemente gestaltista. 2001, p. 112)
próprio controle, a responsabilidade,
“A Gestalt Terapia baseia-se em e a escolha pelo próprio sentimento e
Silveira (2012) esclarece que
uma teoria que prega o envolvimento comportamento, ou seja, a awareness
o fenômeno do contato é o que
do indivíduo e sua responsabilidade é acompanhada por aceitação. Isso
decorre da relação de awareness
diante do mundo e de si mesmo.” implica literalmente em resposta-
do ser singular com o ambiente.
(Robine, 2006, p. 96). habilidade, habilidade para
Relaçãoessa que ocorre desde o
responder, de forma a não ser passivo
Quanto ao objetivo da Gestalt processo de separação do organismo
frente àdeterminação do próprio
Terapia, Yontef (1998) traz a seguinte em relação ao ambiente protetor para
comportamento. Outro importante
afirmação de Laura Perls (1973): o aberto, composto, diversificado
aspecto da awareness é que ela
e rico em surpresas. “Cada um
O objetivo da Gestalt Terapia acontece sempre no aqui-e-agora
faz contato com o mundo de uma
é o continuum da awareness, a e está constantemente mudando,
maneira singular. [...] No contato
formação continuada e livre de evoluindo,e se transcendendo.
ocorre o encontro de singularidades”
Gestalt, onde aquilo que for o (Yontef, 1998).
(Silveira, 2012, p.21).Para Polster e
principal interesse e ocupação do

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Polster (2001, p.114), “ver ou ouvir não e as confusões eu-outro, que mesmo tempo é criador do mundo,

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são uma garantia de um bom contato, dificultam o processo de ele transforma o mundo (Robine,
é mais o modo como vê ou ouve crescimento da pessoa e que, 2006). Para Cardella (2002), “O
que determina um bom contato”. portanto, são trabalhados num simples ajustamento isento de
Em Perls, Hefferline e Goodman processo psicoterapêutico criatividade levaria também a uma
(1997),todo contato édinâmico e que visa, por intermédio do simples acomodação aos padrões
criativo, porém o contatonão pode desenvolvimento do auto-suporte e às exigências do meio, assim
aceitar passivamente a novidade do cliente, restabelecer o fluxo de como a criatividade destituída de
simplesmente ajustando-se a ela, seu crescimento. (p.49). ajustamento poderia levar o indivíduo
porque a novidade precisa ser a um anarquismo desprovido de
assimilada de uma boa forma. De acordo com Robine (2006),Perls funcionalidade.” (p. 53).
Perls,Hefferline e Goodman,como e Goodman compreendem que a
“Nós nos nutrimos do ambiente-
citado em Polster e Polster (2001), experiência está situada na fronteira
como-um-todo, mas colocamos o
referem-se ao contato da seguinte de contato, entre ambiente e
nosso foco em determinados objetos
forma: organismo. “O fenômeno que se
que convêm aos nossos interesses”
manifesta nessa fronteira constitui
[...] fundamentalmente, um (Silveira &Peixoto, 2012, p. 73).
o que eles chamam de “contato”:
organismo vive em seu ambiente Segundo Silveira e Peixoto (2012) “O
O contato é awareness do campo
ao manter suas diferenças, e interesse que move cada pessoa num
ou resposta motora nesse campo”
mais importante, ao assimilar o determinado ambiente é o motor
(Robine, 2006, p. 76).
ambiente em suas diferenças; que dá movimento ao processo
e é na fronteira que os perigos de regeneração” (p.74).Perls e
são rejeitados, os obstáculos são
Ajustamento criativo Goodman, como citado em Silveira e
superados e as coisas assimiláveis Peixoto (2012) apresentam a questão
são selecionadas e integradas. Perls usou o termo ajustamento das recomposições do campo e suas
(Perls, Hefferline e Goodman, 1951, criativo para descrever a natureza relações com o ajustamento criativo
citado por Polster & Polster, 2001, do contato que o indivíduo mantém no momento em que discutem que
p.113.). na fronteira entre organismo e meio, a criatividade se definha quando ela
com vistas a sua autorregulação não está continuamente destruindo
frente a situações diversas. (D´Acri, e assimilando o que está disponível
Lima &Orgler, 2007). Em D Acri, Lima no meio, isso acontece porque a
Fronteira de contato e Orgler (2007, p. 21) “O ajustamento criatividade não é mais objeto de
criativo torna-se fundamental para a interesse.
“A fronteira de contato é o ponto
autorregulação humana.”.  
em que o indivíduo experiencia o ParaSilveira e Peixoto (2012), é na
“eu” em relação ao não “eu”.” (Polster Para Frazão (1998, como relação de um dado acontecimento,
& Polster, 2001, p.115). Fronteira é citado em Dondé, 2004, p. valendo-se, até certo ponto, de sua
aquilo que diferencia e ao mesmo 21),ajustamento criativo é o que potência agressiva que o organismo
tempo separa. Na fronteira ocorrea a Gestalt Terapia chama de “a se regenera criativamente. Essa
experiência entreo organismo e seu capacidade de interagir ativamente potência agressiva caminha
meio,  de modo que,sem deixar de com o ambiente na  fronteira lado a lado com a criatividade
ser quem é, o organismose modifica de contato, adaptandoquando rumo à transformação.“Não
e se transformapelo contato que necessário  a  demanda  das existe ajustamento criativo sem
estabelece com o que ele não é necessidades  às possibilidades de o movimento de destruição e
(D´Acri, Lima &Orgler, 2007). E é na atendimento do ambiente”. Na visão assimilação do material disponível
fronteira de contato organismo/ de Perls, Hefferline e Goodman (1997), no ambiente” (Silveira & Peixoto,
meio que acontece a preservação “o processo de ajustamento criativo 2012, p. 77).
ou a transformação que conduz à a novos materiais e circunstâncias
compreende sempre uma fase de Podemos entender que esse
construção dos mundos próprios a
agressão e destruição, porque é processo demanda um ajuste criativo,
cada momento (Silveira, 2012). Silveira
abordando, apoderando-se de velhas não apenas como adaptação, mas
esclarece que mundo próprio é o
estruturas e alterando-as que o uma adaptação criativa do sujeito
território vital construído, tanto por
dessemelhante se torna semelhante” com seu meio de acordo com a
meio da culturalização dos sentidos,
(p.47). suas possibilidades .Esse processo
quanto das percepções e desejos na
afeta tanto o sujeito e o seu meio
relação com o ambiente.
Por meio do ajustamento possibilitando um crescimento.
Segundo Cardella (2002): criativo, o sujeito é modificado pelo O indivíduo busca satisfazer suas
meio, ou, a partir do contato com o necessidades, solucionar seus
É na fronteira de contato que
ambiente,ele se transforma (Robine, problemas por meio do ajustamento
podem ocorrer mudanças e
2006). Para o autor, quando Perls e criativopara que seja possível sanar
transformação do indivíduo. É
Goodman acrescentaram a qualidade sua necessidade ou sofrimento
também na fronteira que se dão
de “criativo” ao ajustamento, eles momentâneo.
as obstruções, os impedimentos
evidenciaram que o homem ao

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Outra área em que o conceito de que a definição do fenômeno da

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E a resiliência?
resiliência é bastante utilizado é na resiliência é “um conjunto de forças
Barlach (2008) esclarece que a
Administração. Vergara (2008) pontua psicológicas, biológicas e sociais
palavra resiliência ou resilio, originária
que a resiliência na Administração que ajudam o sujeito a enfrentar
do latim, significa retornar a um
é fundamentada basicamente na situações adversas em situações de
estado anterior. De acordo com Faria
Psicologia Positiva. Conforme Vergara mudança” (Ribeiro, et al., 2011, para.
e Saraiva (1967, 2000), como citado
(2008), “os estudos em administração 28). O mesmo autor destaca que,
em Brandão, Mahfoud e Gianordoli-
também veem resiliência como um assim como o conceito de estratégias
Nascimento (2011), a resiliência seria
processo, que varia com o tempo e de enfrentamento, o fenômeno da
“derivada de re(partícula que indica
com as circunstâncias” (para. 25). A resiliência é compreendido como
retrocesso) e salio (saltar, pular),
mesma autora afirma que, ao longo “relacionado à qualidade de vida e
significando saltar para trás, voltar
do tempo, as pessoas adquirem permeado por questões subjetivas e
saltando” (para. 11). Esse conceito
habilidades para identificar o que é contextualizadas dentro da história
foi aplicado inicialmente às Ciências
estressante, e de avaliar a ação dos do indivíduo.” (Ribeiro, et al., 2011,
Exatas. Brandão et al. (2011) apresenta
outros. Vergara (2008) observa que para. 28)
a definição da Física do conceito de
as pessoas também vão adquirindo a
resiliência como a capacidade do “A resiliência se configura como
competência de recuperar o equilíbrio
material absorver energia na região processo de natureza interativa, de
de suas vidas à medida que vão sendo
elástica, sendo estaregiãocapaz de forma que o conjunto composto por
bem sucedidas, por meio da maneira
retornar àsua forma original após fatores de risco e de proteção está
que elas tratam as adversidades.
o cessar da sua deformação. Beer na base de seu desenvolvimento.”
e Johston (1981, 1989), como citado As ciências humanas transportaram (Ribeiro, et al., 2011, para. 29).
em Brandão et al. (2011), explicam e adaptaram o termo resiliência Dessa forma, podemos dizer que o
que “a capacidade do material da Física. Desde então, “o conceito conceito de resiliência,considerando
estrutural suportar um impacto sem tem sido utilizado para descrever a a perspectiva da interação entre
ficar deformado permanentemente capacidade que um indivíduo ou grupo indivíduo/ambiente, sugere uma
depende da resiliência” (para. 12, de indivíduos, mesmo num ambiente compreensão dinâmica a respeito dos
grifo do autor). A teoria da resiliência desfavorável, tem de se construir ou fatores de risco e proteção, de modo
na Física é, portanto, a teoria que se reconstruir positivamente frente que a postura resiliente demanda
assegura a propriedade que o corpo às adversidades” (Barlach, 2008, um equilíbrio entre esses fatores.
tem de retornar ao seu estado inicial para. 4). Essa afirmação corrobora (Ribeiro, et al., 2011). Ribeiro et al.
quando a força que o oprime cessa com visão de Resende, Ferreira, (2011) explicam que, tanto os fatores
(Vergara, 2008). Naves, Arantes, Roldão, Sousa, & de risco quanto os de proteção
Abreu, (2010), apontando que “em podem exercer uma influência mútua
Segundo Brandão et al. (2011), a
Psicologia, a definição de resiliência ao longo do tempo, assim como sua
Engenharia faz uso da resiliência em
não é tão clara e precisa quanto na origem pode ser de origem interna ou
módulo para calcular a quantidade
Física, mas seu conceito tem o caráter externa.
limite de energia que um material
de possibilitar a superação das
pode suportar antes de regressar ao Conforme Ribeiro (et al.,2011),
adversidades.” (Resende et al., 2010,
seu estado inicial. Essa noção tem inicialmente o foco das pesquisas
para. 8).
relação com o limite da elasticidade compreendendo o conceito
do material. Em Brandão et al. De acordo com Ruttere de resiliência concentrava-
(2011), a origem da definição tem Zomignani (1990, 2002) como citado se em determinados traços da
desdobramentos a começar pela em Vergara(2008),resiliência é “a personalidade, assim como no
transposição do conceito da Física. propriedade que a pessoa tem, não desenvolvimento saudável em
Conforme esse autor, com a tomada de voltar à sua forma original como condições adversas.De acordo com
do conceito de resiliência da os objetos da física, mas de minimizar os avanços nas pesquisas acerca da
Física,alguns cuidados são necessários ou dominar os efeitos nocivos da resiliência, outras variáveis foram
como, por exemplo, o entendimento adversidade, em uma resposta ao consideradas, como a vulnerabilidade
de limite de elasticidade do material. risco” (para. 19). dos sujeitos em situações traumáticas,
Uma das concepções psicológicas de assim como o desenvolvimento da
Podemos inferir que esse
resiliência tem mais a ver com o limite resiliência nos sujeitos, o que passou
entendimento acerca do termo
da elasticidade do material do que a ser incongruente com a ideia inicial
resiliência sugere que ela é
com a resiliência da Física. De acordo de conceber resiliência com um “traço
“construída” no indivíduo frente
com Brandão et al. (2011), se os da personalidade”.Na atualidade,a
à experiência de uma situação
pesquisadores optarem por observar visão predominante, liderada por
traumática. O fenômeno resiliência
“como as pessoas se abalam, se Luthar, Cicchetti e Becker (2000),
“não ocorre apesar da adversidade,
transformam sob uma pressão e Masten (2001) e Waller (2001),como
mas em função dela, e todo e qualquer
se recuperam posteriormente, eles citado em Barlach(2008), é de que a
indivíduo, portanto, tem potencial
deveriam estudar a elasticidade resiliência é um fenômeno tratado
para ser resiliente” (Barlach, 2005,
(psicológica) humana”. (Brandão et al. como um processo multidimensional
p. 40). Ribeiro, Mattos, Antonelli,
2011, para. 15) e dinâmico.
Canêo, e Júnior (2011) esclarecem

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Conforme Costa e Bigras na Física. De acordo com Oliveira e situações muito intensas para ele

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(2007),“em diferentes momentos, o Bardagi (2009), “o termo estresse tem e tende a reações que geralmente
indivíduo pode ser vulnerável a uma sua origem na física e é entendido o afastam da realidade como
determinada circunstância e resiliente como o grau de deformidade que desorientação, diminuição da
a outra, a depender dos fatores de uma estrutura sofre, quando é atenção, estreitamento do
risco e de proteção existentes e das submetida a um esforço” (para. 2). A campo da consciência, agitação,
interações que se desenvolvem entre partir desse conceito, segundo Rossi hiperatividade e amnésia.
o indivíduo e o ambiente” (para. 24). (1994); Oliveira e Bardagi (2009),o (Martins, 2006, p. 4)
Doutor Hans Selye, considerado o
O desenvolvimento é um processo
cientista pioneiro no entendimento Viver sem estresse é um mito,
contínuo de adaptação (assimilação
do estresse,criou o modelo clássico porque a nossa atuação depende do
e acomodação) entre indivíduos
dividido em três fases: de alerta, estímulo do estresse, no entanto, a
e seus ambientes, condição que
de resistência e de exaustão ou ausência do estresse ou seu excesso
impõe ao estudo desse fenômeno
esgotamento. Selye define o estresse podem comprometer a saúde (Rossi,
uma abordagem contextualizada,
como “qualquer pressão imposta 1994).
considerando sempre o ecossistema
à pessoa. Essa pressão pode ser
constituído pela díade composta
de origem física, psicológica ou
pelo ser humano e seu meio. Esta Discussão
psicossocial” (Rossi, 1994, p. 26).
visão é oposta aos estudos que
entenderam a resiliência como um Segundo Martins (2006), a fase O campo das ciências
resultado decorrente de traços de inicial é a de alarme.É o estágio psicológicas, para explicar alguns de
personalidade, pois este enfoque onde “o corpo e todo o metabolismo seus conceitos, acaba por se conectar
enfraquece a participação do contexto sofrem uma aceleração diante de um e familiarizar de alguma forma com
na produção da resiliência (Barlach, estímulo (condição) estressor (a)” (p. alguns pensamentos das Ciências
2008). Em Barlach (2008), o equilíbrio 5); Para Lipp (2000),como citado em Exatas como aFísica. Assim como o
– alcançado pelos indivíduos assim Oliveira e Bardagi(2009), nessa fase conceito da resiliência em psicologia
denominados resilientes – só pode a pessoa está mais motivada para a foi desenvolvido a partir do conceito
ser explicado por uma perspectiva ação, portanto se caracteriza como de resiliênciada física,a Gestalt
que incorpore, em suas análises, a um estresse positivo. A resistência Terapia também foi “beber” da fonte
interação dinâmica entre sistemas. ou estresse contínuo, segundo dos conhecimentos teóricos da Física.
Martins (2006), “é o período no Como exemplo dessa aproximação
A falta de consenso na literatura e interface entre os conceitos da
qual o indivíduo procura se adaptar
não permite conclusões unívocas, Gestalt Terapia e as ciências exatas
ao estresse” (p. 5); a última fase é
confirmando que se trata de um pode-se citar a teoria de campo de
a da exaustão, e ocorre quando os
campo de investigação que se Kurt Lewin. Ressalvas precisam ser
estímulos estressores permanecem
encontra em formação. feitas ao se transpor o conceito de
(Martins, 2006). Em Oliveira e Bardagi
(2009), a fase da exaustão é a pior resiliência dos materiais, proveniente
e mais negativa, porque ocorre um daFísica, para a área das Ciências
Estresse e a resiliência
desgaste físico causando um grande Humanas e da Psicologia, pois, sob
O estresse é um aspecto relevante desequilíbrio interno (homeostase). o enfoque psicológico, resiliência
a ser considerado no entendimento precisa ser compreendida como
Em resumo, o estresse provoca um processo no qual existe uma
de resiliência, visto que a própria
uma necessidade de adaptação complexidade e multiplicidade de
definição de resiliência faz alusão,
do organismo, onde acaba fatores e variáveis que precisam ser
mesmo que de forma indireta,ao
requerendo um esforço físico levados em contanos estudos deste
conceito de estresse, quando faz
e mental. Se este processo fenômeno. O que pode ser feito são
uso de palavras como adversidade,
permanecer por muito tempo, alusões à referência e apontamentos
risco, fatores internos e externos.
o organismo alcança a fase de conceituais a respeito das definições,
Percebe-se estreita ligação entre
resistência. Se não for revertido, tomando o devido cuidado com as
estresse e resiliênciapoisse tratam de
chega próximo à sua exaustão, particularidades de cada ciência. A
fenômenos relacionados.
causando problemas como cautela faz-se necessária no sentido
Mas o que realmente é estresse? gastrite, queda de cabelo, de que o ser humano é um ser vivo
Qual sua origem? É possível vivermos falhas de memória, depressão com particularidades, que vive em
sem estresse? Atualmente, é comum episódica, ansiedade, crises de um determinado tempo e local, e,
ouvirmos no dia a dia queixas pânico, entre outros. O estresse diferente do objeto material seria
referentes ao estresse. E, geralmente, pode tanto proteger o indivíduo impossível o sujeito regressar a sua
quando empregado popularmente no alerta a situações de perigo, forma primeira exatamente.
no nosso cotidiano,a concepção de como também, prejudicar no
estresse tem conotação negativa. caso de sobrecarga. Em algumas A partir doscuidados necessários
situações o indivíduo vive o que e entendimento dos conceitos de
Assim como a resiliência, o
chamamos de Estresse Agudo, resiliência da Física e do conceito de
conceito de estresse originou-se nas
quando é incapaz de lidar com resiliência aplicado àPsicologia,infere-
Ciências Exatas, mais especificamente

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semetaforicamente que a tensão/ dos colaboradores,têm feito uso requer autossuporte, e isso pede

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pressão com a deformidade do de treinamentos para motivar identificação do próprio estado, o que
material teria uma correspondência e aumentar a produção, sem significa “conhecer sua experiência,
com relação à situação de risco, considerar outros fatores a respeito comportamento e situação presente”
ao estresse, experiência adversa, do colaborador,como a qualidade de (Yontef, 1988, p. 138).
e suas respostas fariam uma vida.A atenção nesse sentido refere-
Silveira (2012) afirma que “cada
correspondência com a awareness, se ao limite entre o abuso de poder e
um faz contato com o mundo de uma
adaptação e ajustamento criativo do a sobrecarga de trabalho.É necessário
maneira singular. [...] No contato
sujeito. cautela para evitar o modismo no
ocorre o encontro de singularidades”
mundo organizacional.
De acordo com Brandãoet (p.21).Essa afirmação de Silveira
al. (2011),há de se considerar a Na visão da Gestalt Terapia, o corrobora com o entendimento do
importância da origem da definição homem é um ser depossibilidades conceito de resiliência no sentido de
do conceito de resiliência, porque é em movimento e livre para fazer queela também ocorre de maneira
a partir do seu entendimento que as escolhas, que necessita de contato singular. A postura resiliente está
ações e o uso do conceito resiliência desde o início da vida. Segundo ligada, de certa forma, àhistoricidade
vão se desdobrar.Por exemplo, as Ribeiro (1997), há muitos escritos de cada um. De acordo com a literatura
pesquisas que têm o objetivo de sobre a palavra contato, mas poucos pesquisada, a resiliência pode ocorrer
extrair o máximo de pessoas bem a respeito do conceito contato. Essa tanto de ”dentro para fora”, como
adaptadas frente às adversidades característica se assemelha com a um traço da personalidade, ou de
ou a situações estressoras vão focar dificuldade de definir o significado de ”fora para dentro” desenvolvido
na resistência ao estresse ou nas resiliência. Barlach (2005) esclarece após a adversidade ou no decorrer
pessoas que já passaram por essas que “embora o sentido do fenômeno da dificuldade, dependendo da
vivências e se recuperaram. Já as da resiliência seja relativamente historicidade do indivíduo.
pesquisas baseadas nos estudos de simples de captar (intuitivamente),
Barlach (2005) afirma que a
resiliência acerca da recuperação sua definição e significado psicológico
pressão rotineira vivenciada no dia
e superação focariam nas pessoas são inequívocos” (p. 6), é um conceito
a dia nos grandes centros urbanos
mais fragilizadas, e o objetivo seria de fácil de entender, mas difícil de definir.
do século XXI demanda certa
tornar essas pessoas mais fortes.
Para que a pessoa tenha uma competência adaptativa, semelhante
Em Perls (1988), para que um postura resiliente, precisa fazer àquela competência apresentada
indivíduo feche uma Gestalt, contato com a situação adversa. frente às catástrofes naturais ou
satisfazendo suas necessidades, Esse contato para a Gestalt Terapia, desastres socioambientais relatados
possibilitando a passagem ao segundo Frazão (1999), como citado por pesquisadores da resiliência.
próximo assunto, ele deve ter a em Lima (2008), dá-se por meio das Percebe-se que essa afirmação se
capacidade de manipular a si próprio funções de contato: visão, audição, assemelha com o entendimento
e ao seu ambiente, porque até mesmo olfato, fala e movimento. “É através de homeostase,autorregulação
as necessidades exclusivamente das funções de contato que nossa organísmica e ajustamento criativo
fisiológicas só podem ser satisfeitas percepção se organiza e nossos que fundamentam a abordagem
frente à interação organismo sentimentos adquirem possibilidade” gestáltica.
com o ambiente.Conforme esse (Lima, 2008, p. 121). Na resiliência, o
De acordo com Rodrigues
entendimento,o indivíduo resiliente sujeito vai ampliar a awareness de
(2007), “buscamos o tempo todo
precisa estar aware frente à situação si e do meio, contatando o meio de
tal possibilidade de autorregulação
adversa ou estressora, percebendo uma forma positiva, experienciando
organísmica, equilibrando da
seu meio externo e interno (emoções, suas fronteiras de contato. Para
maneira que nos for possível as
sensações no momento presente) de Polster e Polster (2001), independente
forças existentes no meio do qual
modo que seja possível, a partir do seu do que a awareness possa revelar,
fazemos parte” (p. 81). Com base nos
autossuporte, manipular a si mesmo e ela é um fator decisivo no processo
estudos para esse artigo, percebe-
ao seu meio. Por mais difícil que seja do desenvolvimento de um novo
se que aautorregulação organísmica
a situação, a Gestalt está aberta e comportamento.
corresponde a forma que o organismo
ele vai procurar de alguma forma um
Na resiliência, a mudança é um interage com o meiopara que possa se
fechamento(fechar essa Gestalt).
resultado inevitável, da mesma atualizar, considerando e respeitando
O campo da resiliência, como forma que acontece no contato. a sua natureza. De certa forma, o
exposto anteriormente nesse Precisa ocorrer uma assimilação sujeito procura buscar manter seu
artigo, encontra-se em processo do que é nutritivo e a rejeição equilíbrio por meio do processo
de exploração, no entanto, há de do que é nocivo (D`Acri, Lima homeostático.
se ter cautela quanto ao emprego &Orgler, 2007). A pessoa precisa
Segundo Perls (1988) “O processo
de conceito de resiliência em verificar qual é a sua realidade (as
homeostático é aquele pelo qual o
“todos” os contextos. Por exemplo, dificuldades sentidas eas informações
organismo mantém seu equilíbrio
no mundo do trabalho atual, recebidas) e, dentro disso, verificar
e, consequentemente, sua saúde
percebem-se muitas empresas o que é possível e o que é inviável.
sob condições adversas” (p. 20).
que, na moda do desenvolvimento Para Yontef (1988),crescimento

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Perls (1988) sugere que “poderíamos interagir ativamente com o meio importância da cautela ao transportar

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chamar o processo homeostático de na  fronteira  de contato,  adaptando- conceitos de outras ciências para as
processo de auto-regulação, processo se quando necessário a demanda ciências humanas, visto cada uma
pelo qual o organismo interage com das necessidades às possibilidades ter particularidades que precisam ser
seu meio” (p. 21). No ajustamento de atendimento do meio.Essa compreendidas e respeitadas.
criativo o sujeito é agente da sua capacidade do ajustamento criativo
A presente revisão de
vida, ele interage de forma criativa se assemelha com a capacidade de
literatura ressalta a importância
estabelecendo contato com seu meio adaptação criativa da resiliência.O
de se investigaremos estudos dos
e transformando-se. indivíduo assume a responsabilidade
conceitos relacionados à resiliência,
de sua vida frente ao trauma passado
Como exemplo da demanda da assim comode fomentar pesquisas
e procura, da melhor maneira possível,
“competência adaptativa”,termo e discussõess a respeito das
dar seguimento à sua vida.
empregado por Barlach (2008), pode- possibilidades de intervenção do
se citar a doença,e, em especial, as Outro ponto que se destaca e se psicólogo neste campo. Considera-
doenças crônicas e as incuráveis, assemelha com a Gestalt Terapia é a se também a necessidade de
como o câncer. De acordo com substituição do questionamento “por ampliar as discussões para além
Schillings (1997),como citado em Silva quê?”.A pessoa acaba por focar seu da definição do conceito de
e Boaventura, (2011): interesse não mais na causa, mas em resiliência,compreendendo o aspecto
como ela chegou até aquela situação de caráter interdisciplinar relativo à
Diversos pacientes oncológicos
e o que ela pode fazer para mudar a resiliência e sua inter-relação com
precisam trabalhar a aceitação
partir do que ela já tem de suporte. Em outros fenômenosimplicados como,
da doença e os sentimentos
Perls (1988), “as perguntas ‘por que’ por exemplo, o estresse.
gerados pela mesma como raiva,
só produzem respostas no passado,
culpa e decepção, o lidar com a Apesar de atualmente grande
defesas, racionalizações, desculpas
dor decorrente do tratamento, parte da literatura conceber que a
e a ilusão de que um evento pode se
o engajamento necessário e a capacidade de resiliência vai muito
explicado por um causa única” (p. 89).
capacidade de lutar a favor da além da recuperação de um dano,
saúde, a compreensão do adoecer, Na resiliência, as pessoas mesmo visto que essa capacidade implica no
entre outros. (Silva & Boaventura, em situações de risco, passando por crescimento pessoal com a superação
2011, para. 41). graves dificuldades, superam seus do que se era anteriormente,
problemas demonstrando muita não existe um consenso, dando
criatividade.“A nossa capacidade de margem amuitos questionamentos
nos ajustarmos criativamente vem a a respeito desse entendimento.Essa
Dessa forma “A doença pode ser
ser a expressão mesma das nossas generalização acaba por aparentar
vista como uma abertura para novas
potências de afetar e ser afetado” que se estudam vários fenômenos
possibilidades existenciais a partir
(Silveira & Peixoto, 2012, p. 79). com a mesma nomenclatura.A
do confronto com determinados
Gestalt Terapia abre possibilidades
impedimentos.” (Silva & Boaventura, Assim como a Gestalt Terapia,
para ampliar um entendimento mais
2011, para. 29).Observa-se que,assim a resiliência se configura como um
concretoacerca da resiliência.
como a awareness, a resiliência processo interativo e relacional. A
também está acompanhada por partir disso, verifica-se que alguns No momento histórico em que nos
aceitação. Na resiliência, quando a aspectos semelhantes se destacam encontramos, as adversidades estão
pessoa passa a aceitar, ela começa entre os conceitos da Gestalt Terapia em todos os cantos.As mudanças
a mudar e superar as dificuldades. e da resiliência. são tão rápidas que as pessoas
Conforme Barlach (2005), o acabam ficando interrompidas no
questionamento se modifica, passa contato com o meio.Muitas vezes, a
do “por que eu?” para o “pra quê eu?”. Considerações finais dessensibilização é tamanha que o ser
A primeira pergunta temrelação com humano fica noautomático,perdendo
Esse artigo teve como propósito
uma explicação causal, remetendo- a vitalidade.Às vezes essa vitalidade
verificar a relação entre alguns
se a erros ou punições, por exemplo. só regressa quando alguma
conceitos da Gestalt Terapia e a
No segundo questionamento, a adversidade se interpõe no seu
Resiliência, possibilitando maior
orientação é para a mudança, a busca curso vital, abalando a homeostase.
compreensão de seusconceitos.
de possibilidades.A explicação passa Nesse momento frente à dificuldade,
a ser algo positivo que o remete a um A partir da revisão de literatura, algumas pessoas conseguem
tipo de “ser escolhido”, com metas a percebeu-se a importância da reinventar suas vidas, e, literalmente,
serem superadas, um vencedor, que concepção do termo resiliência, uma levantam-se, sacodem a poeira e dão
faz a diferença. Percebe-se que as vez que as consequências do seu a volta por cima.
pessoas vislumbram possibilidades, entendimento e da origem da sua
A Gestalt Terapia pode auxiliar
assim como acontece no ajustamento definição desdobram-se nos projetos
significativamente,não apenas na
criativo. e intervenções das pessoas que
construção do conceito de resiliência,
utilizam esse enfoque teórico.
No ajustamento criativo mas também na promoção de saúde
existe uma capacidade de Observou-se também a e qualidade de vida, pensando em

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w w w. c o m u n i d a d e g e s t a l t i c a .
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Refazendo um caminho. 4. ed. São
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EXPRESSÃO LIVRE
APRENDER A APRENDER: OS PRIMEIROS
PASSOS DE UM PSICOTERAPEUTA
Por Elise Haas

O menino não sabia que poderia ter rodas,


O irmão segurava a bicicleta atrás, sem pretensão, sem empurrão, só
mantinha-se ali, como a dizer: “pode ir, que estou aqui, não tenha medo.”
O pequeno, que antes olhava a cada minuto para trás, conferindo se o
maior estava ali, a confortar seu medo, agora já podia quase esquecer que
havia alguém lhe segurando...
Sentia mais firmeza, olhava à frente e o chão não amedrontava.
O ventinho gostoso no rosto, agora era suave e companheiro. Antes, mal o
percebia; estava gelado por dentro.
E, aos poucos, ele pedalou mais, e o sol parecia lhe sorrir. E o irmão soltou a
Elise Haas é gestalt-terapeuta,
mão e contemplou quietinho, pra não assustá-lo, sua partida, livre e só!
supervisora e um ser humano com
(...) muitas artes.
Dali a pouco, o pequeno se dá conta de que está longe, e olha para trás,
“Mano, não tá na hora de vol...tar?”
E ele vê!
Vê o caminho que percorreu, vê que está por suas próprias pernas, que não
caiu, e que, mesmo quando se desequilibrar, tem pés, braços, para defendê-lo,
e, na pior das hipóteses, um ombro de irmão pra lhe dar apoio caso encontre
o chão, num deslize.
Aprender é assim. Aprender é um processo tão inevitável, tão incrível e sem
volta, que ao se descobrir capaz, nada o derruba, pois o chão é logo ali, e é
possível levantar quando cair.

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EDITORA GERAL
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Angela Schillings
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COMISSÃO EDITORIAL EXECUTIVA Macarena Diuana (Portugal) - SLEPG
EDITORES EXECUTIVOS Margherita Spagnuolo Lobb (Itália) - Istituto di Gestalt
HCC Marta Fishman Slemenson (Argentina) - AGBA
Marcelo Pires de Araujo
Myriam Muñoz Polit (México) - Instituto Humanista de
Leandro de Medeiros Benedet
Psicoterapia Gestalt
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EDITORES DE SEÇÃO en Buenos Aires
Marcelo Pires de Araujo Philip Lichtenberg (EUA) - GTIP
Leandro de Medeiros Benedet
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BRASIL
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