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AS GEOGRAFIAS DE JORGE AMADO E A IMPORTÂNCIA DAS

REFLEXÕES SOBRE AS REPRESENTAÇÕES NO ENSINO DE GEOGRAFIA

Lucas Tavares Honorato

Doutorando em Geografia (PPGEO/UFF)


Mestre em Geografia (PPGEO/UFF)

Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF)

lucasthonorato@yahoo.com.br

Amanda Barreto Mello

Bacharel e Licenciada em Geografia (UFF)

amanda.barreto.mello@gmail.com

Resumo: O presente trabalho trata-se de um esforço de reflexão acerca das


possibilidades da literatura como instrumento pedagógico privilegiado e ferramenta
fundamental para o re-trabalhamento das representações do/no espaço naturalizadas
pelos alunos. Para tal, apresentamos as possibilidades concernentes a atividade de
intervenção com a obra Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, para os alunos do
Ensino Fundamental II, no Colégio Estadual Baltazar Bernardino, fruto da parceria com
o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID/CAPES de
Geografia da Universidade Federal Fluminense – UFF, onde refletimos sobre a
dificuldade e possibilidades de re-trabalhamento das representações dos alunos acerca
do Nordeste no Brasil.

Palavras-chave: Cotidiano; Representações; Literatura.

Introdução
Durante o desenvolvimento das aulas nas escolas, comumente nós professores
nos deparamos com inúmeros desafios ao criar ou recriar formas de aplicação dos
conteúdos estabelecidos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN.

O PCN emerge da demanda por novos parâmetros da Educação em geral no


Brasil, segundo certos preceitos: parte-se do pressuposto de que a escola precisa formar
cidadãos e não somente vincular informações a indivíduos; conjectura um conjunto de
diretrizes, como: o respeito às diversidades culturais, referencias igualitárias de
conhecimentos específicos, somado ao desenvolvimento da sociedade em prol da
formação do cidadão. Em síntese, compreende o ensino como formação do “ser humano
pleno”. É importante destacar que, “ser humano pleno” aqui diz respeito a formação de
sujeitos dotados de pensamento crítico, responsabilidade social e ambiental, respeitador
das pluralidades culturais, do outro e de si mesmo. Seria o “ser humano pleno” agente
de crítica e autocrítica e capaz de (re)criar-se enquanto ser moral e ético, em vistas aos
direitos e deveres que concernem à cidadania.

Especificamente no que tange a Geografia, o PCN levanta questões


fundamentais ao refletir sobre os objetos e sobre os métodos do pensar e fazer
geográfico; como também, o porquê e qual Geografia que deve ser ensinada (seus
métodos e objetivos), os objetivos do ensino da disciplina na escola, e sua importância
social. Releva-se o papel da geografia em seu caráter conjuntural, como ponto entre as
demais ciências, reiterando o papel crucial da interdisciplinaridade.

O ensino de Geografia, então, deve objetivar uma perspectiva de compreensão


da sociedade e seus espaços, da singularidade e da pluralidade, de intervenção na
realidade, a partir do alicerce analítico-crítico de constante busca da apreensão dos fatos
históricos em sua totalidade.

Os temas propostos pelo PCN para serem trabalhados em sala de aula, em


consonância com seus objetivos gerais, buscam expressar a unidade e a integração da
geografia física e da geografia humana, reconhecendo as particularidades de cada
enfoque.

Para tal, o projeto situa quatro eixos de trabalho: “a compreensão da realidade”;


“trabalhar o mundo atual em sua diversidade”; “apropriação do conhecimento
geográfico pelos alunos”; “temas que expressem conteúdos tanto conceituais como
procedimentais e atitudinais”.

Ressalvamos algumas críticas: admitimos que de certa forma o documento falha


ao apontar a necessidade de pautar a dimensão subjetiva do perceber e do agir no
mundo e perante o mundo do aluno (dimensão simbólica e ligada ao imaginário), sem,
contudo, considerar as representações que os alunos carregam e (re)produzem no
cotidiano de suas vidas e a dificuldade de re-trabalhar estas representações
daqueles/naqueles indivíduos – inclusive no tocando às representações do/no espaço. A
dificuldade de definição de práticas pedagógicas mais adequadas e propostas de ensino
efetivos e consonantes ao documento muitas vezes emanam deste contexto. Para além,
considerada a realidade do sistema educacional brasileiro, é clara a ausência de um
substrato consolidado (muitas vezes das condições objetivas mínimas, como
infraestrutura, recursos de mídia, estabilidade profissional etc.), que consubstanciem a
possibilidade de aplicação das propostas apresentadas pelo documento. É que
historicamente têm sido construídas políticas educacionais contraditórias e/ou
descontínuas (como no caso dos Centros Integrados de Educação Pública – CIEPs) e/ou
projetos educacionais que não tem efetivamente consolidado as condições mínimas que
viabilizem a efetiva aplicação das propostas do PCN. Frente a este contexto,
percebemos que o documento discorre e propõe ações sobre uma realidade não
compatível com a “realidade da sala de aula”.

O presente artigo busca apresentar os resultados de um conjunto de atividades


propostas aos alunos do Ensino Fundamental II, do Colégio Estadual Baltazar
Bernardino, localizado no bairro de Santa Rosa, Niterói/RJ, fruto da parceria com o
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID/CAPES de
Geografia da Universidade Federal Fluminense – UFF, onde refletimos sobre a
dificuldade e possibilidades de re-trabalhamento das representações dos alunos acerca
do Nordeste no Brasil. Atentando para o segundo eixo proposto pelo PCN, a saber:
“trabalhar o mundo atual em sua diversidade”, buscamos discutir sobre as possíveis
aproximações entre ensino de Geografia e literatura, como forma de refletir sobre o
estigma das representações dadas acerca da região Nordeste. Investigaremos na obra
Gabriela, Cravo e Canela (1958) de Jorge Amado, algumas das diversas geografias
possíveis no intuito de superar um dos muitos conflitos entre as práticas didáticas e os
desígnios do PCN, no que tange a necessidade de re-trabalho das representações do/no
espaço que os alunos trazem para sala de aula, e lhes apresentar as “outras Geografias
possíveis” como estratégia de afirmação da diversidade no Mundo.

A Literatura e o papel do imaginário no ensino de Geografia


Ao final da década de 60, o pensamento do filósofo Henri Lefebvre apresentou
uma série de novas reflexões acerca do espaço geográfico. Calcado na noção de valor
de troca e valor de uso, buscou elucidar o conflito entre a apropriação e a dominação
dos espaços. Os lugares, a partir de então, não mais exprimiriam apenas a transformação
do espaço em mercadoria pela dinâmica do sistema capitalista, mas carregariam sempre
a potência das possibilidades de apropriação. Conforme aponta Smith (1988, p. 139):

as relações espaciais são geradas logicamente, mas tornam-se


dialeticizadas através da atividade humana no espaço e sobre ele. É
este espaço dialectizado e de conflito que produz a reprodução,
introduzindo nele suas múltiplas contradições.
O espaço emerge então como espaço socialmente construído, da reprodução das
relações sociais, das práticas socioespaciais e da produção de fatos e acontecimentos
históricos por excelência. O próprio Lefebvre (1973) nos afirma que o modo de
reprodução da sociedade é o modo de reprodução do seu espaço. É que as reflexões de
Lefebvre nos leva a perceber que não se trata do espaço “num sentido genérico e
abstrato, muito menos de um espaço natural-concreto. Trata-se, isto sim, de um espaço-
processo, um espaço socialmente construído” (HAESBAERT, 2007, p. 21).

Ao remontar o espaço, o autor propõe uma apreensão tripla: concebido-


percebido-vivido, clarificando suas diferentes faces, compreendendo desde sua gênese
lógica à práxis do cotidiano dos indivíduos nos lugares. Espaço da racionalidade, da
produção e da reprodução, da ideologia e do poder, mas, também, das possibilidades de
superação dos conflitos e contradições do capitalismo. Segundo Haesbaert (2004), para
Lefébvre (1986), o espaço decifrável e que se lê pode ser tratado em suas diferentes
qualidades constitutivas: como espaço imaginário, da coexistência e da diferença, do
vivido (espaços representacionais); como espaço absoluto, dimensão externa e objetiva
dominada no processo de (re)produção das relações de produção (formas
arquitetônicas), do concebido (representações do espaço); e como espaço relativo, que
não comporta somente objetos espaciais duráveis, mas também espaços de
representação (imagens, narrativas, míticas), do percebido (práticas espaciais, espaços
sabidos).

Segundo Ferreira (2007), analisando o mesmo autor, as relações sociais existem


como produtos e produtores a partir e com a construção de certas espacialidades.
Espacialidades estas que correspondem ao espaço socialmente construído (“espaço
como constructo social”), ao mesmo tempo concreto e abstrato. E é nestas
espacialidades efetivamente vividas e socialmente criadas que as dimensões do espaço
percebido, o concebido e o vivido se organizam e se imbricam tornando ainda mais
densa a trama espacial correspondente, que refere-se tanto à estrutura definida pelas
forças hegemônicas quanto à ação dos agentes locais.

Segundo Haesbaert (2007, p. 21),

“Lefebvre distingue apropriação de dominação (“possessão”,


“propriedade”), o primeiro sendo um processo muito mais simbólico,
carregado das marcas do “vivido”, do valor de uso, o segundo mais
concreto, funcional e vinculado ao valor de troca. Segundo o autor: “O
uso reaparece em acentuado conflito com a troca no espaço, pois ele
implica "apropriação" e não “propriedade". Ora, a própria apropriação
implica tempo e tempos, um ritmo ou ritmos, símbolos e uma prática.
Tanto mais o espaço é funcionalizado, tanto mais ele é dominado
pelos "agentes" que o manipulam tomando-o unifuncional, menos ele
se presta a apropriação. Por quê? Porque ele se coloca fora do tempo
vivido, aquele dos usuários, tempo diverso e complexo”. (Lefebvre,
1986:411- 412, grifo do autor). Como decorrência desse raciocínio, é
interessante observar que, enquanto "espaço-tempo vivido", o
território é sempre múltiplo, "diverso e complexo", ao contrário do
território "unifuncional" proposto e reproduzido pela lógica capitalista
hegemônica, especialmente através da figura do Estado territorial
moderno, defensor de uma lógica territorial padrão que, ao contrário
de outras formas de ordenação territorial (como a do espaço feudal
típico), não admite multiplicidade, sobreposição de jurisdições e/ou de
territorialidades”.

Do ponto de vista dos jogos de apropriação e dominação é crucial compreender


que equacionam diferentes forças: as forças da ordem próxima e da ordem distante. De
forma que, ao contendo a ordem próxima (mais afim à apropriação), a ordem distante
(mais afim à dominação) a persuade e completa nela seu poder de coação. E, contida na
ordem distante, a ordem próxima encarna-a, constrange-a, projeta-a sobre um terreno (o
lugar) subordinado ao plano da vida concreta.

Espaço das “linhas de fuga” deleuzianas, da “tática” de De Certau, das “fissuras”


de Holloway, o lugar é re-politizado enquanto locus do cotidiano, tendo o corpo como
arma, já que “é na vida cotidiana que se situa o núcleo racional, o centro real da práxis”
(Lefebvre, 1991b, p. 38). O indivíduo, em suas estratégias e táticas do fazer-se
cotidiano, na enunciação do caminhar, figura a própria dialeticidade que remonta ou
confronta. É na experenciação do espaço no cotidiano que a geograficidade emerge à
compreensão do indivíduo através da linguagem das representações. Espaço do capital,
das representações hegemônicas, mas, sobretudo, produto-produtor da Vida em todas as
suas contingências e contradições – que são das “outras Geografias possíveis”.

Nesta perspectiva, “ao contrário de reificar o espaço, dialetiza-o como produto-


produtor, numa teoria unitária que reúne o físico, o social e o mental, com base na
análise da relação intrínseca entre forma e conteúdo” (D’ALMEIDA, 2011 p. 8). É na
dialética que ao mesmo tempo em que o espaço carrega consigo o conjunto dos
simbolismos próprios das práticas e do cotidiano, do modus particular, do vivido;
transmite também as mensagens hegemônicas do poder e da dominação, espaço
concebido das representações do espaço, já que o espaço social contém não só as
relações sociais como também certas representações dessas relações sociais – que
podem ser declaradas e públicas ou, por outro lado, ocultas, e que têm peso e influência
considerável na produção do espaço, já que correspondem a um conjunto de signos,
símbolos e códigos que estão intimamente relacionados ao exercício do poder. Dessa
forma, as diferenças e representações reveladas pelo/no espaço refletem-se na essência
das relações sociais, nas percepções, vivências e memórias dos indivíduos no cotidiano.
Chegamos a conclusão de que as percepções que os indivíduos, grupos ou sociedades
têm do lugar nos quais se encontram e as relações que com ele estabelecem, fazem
parte do processo de construção das representações do espaço geográfico e de suas
“visões de mundo”. É neste sentido que os lugares desempenham papel fundamental na
constituição do imaginário. Ou, nas palavras de Castro (1997, p. 178): “imaginário
social é também um imaginário geográfico”. São os lugares os espaços das
representações, espaço dos símbolos do imaginário social. Por conseguinte, é no
cotidiano que elas se reafirmam. Por inversão, é no cotidiano que as possibilidades de
questionamento, tensionamento e rompimento com as representações do/no espaço
evidenciam-se.

Julgamos ser o papel do professor que busca tencionar e problematizar aos


alunos as representações dadas acerca da região nordeste, trazer para o cotidiano dos
mesmos a experienciação da realidade destes lugares. Contudo, conforme colocado
anteriormente, nosso dia a dia na escola mostra que a própria estrutura escolar,
curricular e didática tradicional do ensino fragmentado e descontextualizado das
disciplinas, muitas vezes intangíveis à realidade e ao cotidiano do aluno, tem deixado a
desejar no que diz respeito a aproximação dos conteúdos à realidade dos alunos, apesar
de inúmeros esforços individuais.

Através da literatura e mediante a visão de conjunto/totalidade própria da análise


geográfica, tentamos reestabelecer a unidade na diversidade e abrir outras possibilidades
de análise crítica e ação frente às representações dadas do/no espaço por parte dos
alunos. Buscamos ir além da aula descritiva e distante da realidade dos alunos, muitas
vezes, um bando de conhecimentos amontoados e defasados, pouco tangível a estes.
Debruçamo-nos sobre a literatura, não de modo a “substituir a análise científica pela
criação artística, mas apenas retirar desta [literatura] novos aspectos de interpretação:
reconhece-la como um meio de enriquecimento” (MONTEIRO, 1988, p. 117 apud
SILVA, s/d, p. 1).

Concordamos com Marandola Jr. (2008, p. 1), ao afirmar que:

A capacidade de produzir arte faz parte daquilo que torna o homem


único. A ciência moderna, no entanto, tratou de dissociar arte de
pensamento e, com isto, ciência de arte. A Geografia, enquanto
ciência moderna respeitou essa separação, embora em certos
momentos tenha se utilizado de descrições artísticas como ilustração
para seus trabalhos, em especial as literárias. Nas reestruturações
epistemológicas contemporâneas, no entanto, reconduzir a Geografia
para seu encontro com a Arte é tanto necessário quanto
imprescindível para seu desenvolvimento. Isso não ocorre apenas pela
incorporação da arte como documento, mas sobretudo como símbolo e
marca de um espaço-tempo cultural.
Acreditamos que é possível apreender a geografia dos lugares pela leitura de
diversos autores, a citar, por exemplo, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Graciliano
Ramos, Guimarães Rosa, Lima Barreto, João Cabral de Mello Nego, Nelson Rodrigues,
entre outros, cujas obras retrataram diferentes paisagens e aspectos e espaços do Brasil e
do brasileiro.

A literatura pode ser considerada um instrumento que nos apresenta diferentes


possibilidades, já que a linguagem poética não é uma linguagem que limita, que define,
que encerra o sentido. Seguindo a tradição bachelardiana, aceitamos que a imagem
poética oriunda da linguagem literária, não duplica a realidade presente (falsa
realidade), muito menos é um eco do passado. As imagens são vividas, experimentadas,
re-imaginadas, produzindo experiência e possibilitando ao aluno realizar interpretações,
vivências subjetivas das imagens particulares dos lugares retratados – re-imaginar o
imaginádo. Vemos a arte como instrumento valioso no desenvolvimento das
competências e habilidades cognitivas em conjunto, como a capacidade de
contextualização, análise crítica, expressão de ideias, para a construção de
conhecimento e ação.

Quando o aluno lê um texto literário, a imagem construída por ele tem


significado em si mesma, no momento presente e de maneira distinta em cada leitor, que
se torna também autor. A literatura traz, através do imaginário, para o cotidiano do
aluno os lugares. Enquanto o autor narra, aluno-autor vive, experimenta, e revive - em
todos os sentidos – o gosto, o cheiro, os ruídos, a textura do “lugar-paisagem”. É ai que
a imagem particular dos lugares colide e se completa na história.

O elemento poético ladeado e mediado pelas informações e conteúdos


geográficos apresentados aos alunos, tende a complexificar/tencionar as representações
naturalizadas e “já dadas” dos lugares. A literatura consegue ampliar visões e permite
diferentes percepções e interpretações acerca de uma mesma realidade. Enquanto a
narrativa poético-literária traz o aluno para a experienciação desses lugares através da
imaginação, tornando-os palpáveis ao aluno as experiências narradas, as informações e
conteúdos geográficos apresentados pelas obras literárias ainda servem como
ferramentas que encaminham, conectam, complementam e solidarizam, para embasar
uma análise crítica particular do aluno acerca das representações dadas daqueles lugares
narrados e os conteúdos programáticos planejados e princípios deflagrados pelo
documento do PCN.

O retrato da Bahia no cenário nordestino: Jorge Amado, da literatura à política.


A obra literária de Jorge Amado (1912 – 2001) conheceu inúmeras adaptações
para cinema, teatro e televisão. Ganhador de inúmeros prêmios nacionais e
internacionais, com 49 livros publicados e propondo uma leitura voltada para as raízes
nacionais, Jorge Amado é considerado um dos maiores autores brasileiros de todos os
tempos. É um dos autores brasileiros mais publicados em todo o mundo, com obras
publicadas em 55 países e vertida para 49 idiomas (RAILLARD, 1990).

As obras do autor surgem no início da Era Vargas, no cenário de um Brasil


irradiado pela renovação cultural na Europa, que se expressava, aqui, no Movimento
Modernista, tendo como marco a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. A
partir da Revolução de 30, surge o movimento conhecido por Romance de 30, uma
literatura que buscava tratar as questões sociais, usando a linguagem do povo. A arte,
como meio de representação e desejo da sociedade, e a cultura, usada como elemento de
apoio e de crítica à ditadura (SILVA e ARAÚJO, s/d, p. 5).

Oriundo de Itabuna/BA, Jorge Amado parte para o Rio de Janeiro, então Capital
da República, para estudar na Faculdade de Direito da então Universidade do Rio de
Janeiro – hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também atuou como
jornalista. Seu primeiro livro, O País do Carnaval, 1931, repercute e surpreende o
público pela aguçada crítica política. Em 1932, tornou-se militante político de esquerda,
publicando também na década de 30, os livros Cacau, Suor, Jubiá, Mar Morto e
Capitães de Areia. Alguns de seus livros foram apreendidos pela polícia política de
Getúlio Vargas. Em 1945, foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro
(PCB), posteriormente vivendo isolado na Argentina e no Uruguai (1941 a 1942), em
Paris (1948 a 1950) e em Praga (1951 a 1952).

Em suas obras, o elemento poético, ao lado das denúncias sociais sobre os


problemas e as dificuldades do povo, remete a preocupação de Jorge Amado em
demonstrar como a sociedade compreendia, vivenciava, sentia e se apropriava do
espaço de acordo com suas necessidades. Uma literatura que se inspirava na realidade
do momento histórico que vivia, buscando transformá-lo. Não só denunciava, o autor
falava a língua do povo. Retratava a alegria, a beleza, a luta, a resistência e suas
proezas. Em suas obras, denuncias dos problemas do povo se confundem com sua
poética, tornando complexas as representações meramente estigmatizadas e pejorativas
do espaço e do povo baiano e nordestino. Ficção e história popular também pouco se
diferenciavam. Jorge Amado dá voz ao povo e a cultura popular baiana e nordestina,
pluralizando os discursos e o imaginário acerca desses.

A obra: Gabriela, Cravo e Canela e as diversas Geografias.


Sua obra Gabriela, Cravo e Canela, que data de 1958, é o romance do autor com
maior número de traduções, tendo sido editado em 32 idiomas, adaptado três vezes à
televisão (1960, 1975 e 2012), cinema (1983), dança, fotonovela (1975) e HQ (1975). A
obra compõe o que seria a primeira fase do autor (1931-1958). Fase dos romances de
rebeldia e denúncia, nas quais trata das questões sociais, da pobreza, da exploração, da
prostituição, da miséria, da crença popular e a religiosidade, das questões raciais,
através de personagens, em sua maioria, “marginais” – o pescador, a prostituta, o
retirante, as mães-de-santo e etc. É um retorno aos tempos áureos da sociedade
cacaueira do universo dos coronéis, jagunços e retirantes (em outros três romances do
autor o tema é ainda mais explorado: “Cacau”, “Terra dos Sem Fim” e “São Jorge dos
Ilhéus”). O autor vale-se da riqueza das imagens que se constroem durante a narrativa,
desde a saída de Gabriela, retirante e personagem principal, do sertão, devido a grande
seca e em busca de melhores condições de vida, até o desenrolar e o desfecho da obra
no litoral sul baiano, na cidade de Ilhéus. Cabe a nós elucidarmos as diversas geografias
presentes nas imagens criadas pela linguagem literário-poética da obra.
A história se baseia no romance da personagem, com Nacib, filho de sírios
registrado em terras brasileiras por seu pai, dono do bar mais conhecido das redondezas
que se encanta pela beleza, alegria, simplicidade e sensualidade da baiana.

No decorrer do livro, o autor descreve as transformações ocorridas por toda


cidade de Ilhéus/BA, que prosperava através do cultivo de cacau, que deu inicio ao
desenvolvimento urbano, com a fundação de um jornal, a construção de vias, casas e
um porto adequado para escoar o valioso fruto, que enriquecia cada vez mais os
coronéis.

Contudo, apesar das transformações na paisagem cada vez mais urbana, os


costumes enraizados pela sociedade que ali habitava, não evoluíam em conjunto ao
progresso da cidade. Os ricos fazendeiros comandavam com mãos de ferro o local e a
vida da população fazendo valer seus desejos e opiniões, através de seus jagunços, de
forma violenta na maioria das vezes.

Além disso, a questão cultural e temas como prostituição, infidelidade,


assassinatos, dentre outros, perpassam esta que é uma das mais célebres obras de Jorge
Amado.

Os passos de Gabriela, do Sertão à Zona da Mata: Os biomas e as condições


climáticas em uma porção do extenso Nordeste.

Jorge Amado traz em sua crônica, a narrativa da paisagem da sub-região do


Sertão baiano e retrata seus aspectos físicos e ambientais. Apresentar este conteúdo para
alunos oriundos de outras regiões que não esta, pode tornar-se um grande desafio.

O autor narra com seu lirismo inigualável, o deslocamento dos retirantes, que
entregues a própria sorte, saiam do sertão em busca de uma vida promissora na cidade
de Ilhéus, na labuta com o cacau quando diz:

Os bandos de imigrantes desciam do sertão, a seca nos seus


calcanhares, abandonavam a terra árida onde o gado morria e as
plantações não vingavam, tomavam as picadas em direção ao sul.
Muitos ficavam pelo caminho, não suportavam a travessia de
horrores, outros morriam ao entrar na região das chuvas onde o tifo,
o impaludismo, a bexiga os esperavam. Chegavam dizimados, restos
de famílias, quase mortos de cansaço, mas os corações pulsavam de
esperança naquele dia derradeiro de marcha. Um pouco mais de
esforço e teriam atingido a cidade rica e fácil. As terras do cacau
onde dinheiro era lixo nas ruas. (AMADO, 1958, p. 77)
Com a chegada da protagonista a seu destino, a transição da paisagem sertaneja
para a Zona da Mata é pontuada pelo autor, que em poucas linhas descreve a
diversidade inserida em um mesmo estado: “A paisagem mudara, a inóspita caatinga
cedera lugar a terras férteis, verdes pastos, densos bosques a atravessar, rios e regatos, a
chuva caindo farta.” (Ibid., 1958, p. 76).

Como podemos observar, a crônica pode tornar-se uma aliada do professor na


aplicação das matérias relacionadas a biomas e sub-regiões do Nordeste. Permite que
estudantes distantes desta realidade desconstruam a imagem de seca, fome e más
condições da região, como um todo. Pois ele identifica áreas que no mesmo Estado da
Bahia, possui em seu interior o bioma da caatinga no Sertão, com chuvas escassas; o
Agreste como área de transição; e a Mata Atlântica presente na Zona da Mata cacaueira
no litoral sul, com chuvas fartas e vegetação frondosa.

As transformações da “Rainha do Sul”: Sua urbanização.


Outro conteúdo que pode ser bem explorado no livro, é questão da urbanização.
A ênfase acerca do tema na cidade é marcante nas linhas do autor:

Progresso era a palavra que mais se ouvia em Ilhéus e em Itabuna


naquele tempo... Aparecia nas colunas dos jornais, no quotidiano e
nos semanários, surgia nas discussões na Papelaria Modelo, nos
bares, nos cabarés. Os ilheenses repetiam-na a propósito das novas
ruas, das praças ajardinadas, dos edifícios no centro comercial e das
residências modernas na praia, das oficinas do Diário de Ilhéus, das
marinetes saindo pela manhã e à tarde para Itabuna, dos caminhões
transportando cacau, dos cabarés iluminados, do novo Cine – Teatro
Ilhéus, do campo de futebol, do colégio do dr. Enoch, dos
conferencistas esfomeados vindos da Bahia e até do Rio, do Clube
Progresso com seus chás-dançantes. É o progresso! Diziam-no
orgulhosamente, conscientes de concorrerem todos para as mudanças
tão profundas na fisionomia da cidade e nos seus hábitos. (Ibid.,
1958, p. 12)
Com a riqueza gerada pelo cacau, Ilhéus fincou em sua história o início de seu
desenvolvimento urbano, que trouxe visibilidade para a “Rainha do Sul”, como era
conhecida a cidade de grande importância no cenário nacional. Motivados por tal
“progresso” é que centenas de retirantes se deslocavam do Sertão em direção à capital
do cacau.

Podemos perceber no decorrer da crônica, a descrição das figuras ilustres da


cidade, como os imponentes coronéis, médicos, advogados, dentistas, agrônomos,
engenheiros, além de retirantes, do jagunço, da prostituta, por exemplo. Este contexto
auxilia a compreensão do estudante acerca das transformações, do que é o espaço
urbano e das relações sociais que ali se estabeleciam.

O ciclo do cacau: Trabalhando a economia da região.


A questão econômica também é amplamente presente. Muitos imigrantes, de
procedências diversas, chegaram ao sul da Bahia em busca de trabalho promovido pelo
ciclo do cacau, responsável por profundas mudanças sociais. Dentre eles, sergipanos,
alagoanos, cearenses, italianos, portugueses, espanhóis, sírios, árabes, libaneses, que
desembarcavam em Ilhéus ávidos de fortuna. Amado ressalta que:

Graças a essa gente diversa, Ilhéus começara a perder seu ar de


acampamento de jagunços, a ser uma cidade. Eram todos, mesmo o
último dos vagabundos chegado para explorar os coronéis
enriquecidos, fatores do assombroso progresso da zona. (Ibid., 1958,
p. 32)
Devido à urbanização da cidade, o comércio se expandia e fazia-se necessária a
abertura de estradas, implantação de lojas e armazéns que atendessem às necessidades
da população local, gerando empregos e renda a muitas famílias.

Desta forma, analisando o contexto econômico que o cacau proporcionou neste


período da história do Brasil, através da narrativa do autor, o professor tem a
possibilidade de ilustrar melhor aos estudantes, a dinâmica desenvolvida na região que
foi possibilitada por este tipo de agricultura e sua comercialização.

Os coronéis do cacau: A questão agrária e seus desdobramentos.


Com o auxílio de seus jagunços, grandes proprietários de terra travavam
disputas, que levaram ao estabelecimento de imensos latifúndios. A concentração de
terra, retratada pelo escritor, contribuía ainda mais para o quadro de desigualdade social.
Os conflitos pela disputa das terras para o plantio no estado foram tão violentos, é
corrente na região o dito popular de que as fazendas do sul da Bahia foram adubadas
com sangue humano.

Muitos imigrantes eram incumbidos de derrubar a mata e plantar mudas. Em um


trecho, o autor narra o desejo de um dos seus personagens de enriquecer “fazendo o que
sabia”:

Clemente não tinha ofício. Labutara sempre no campo, plantar, roçar


e colher era tudo o que sabia. Ademais viera com a intenção de se
meter nas roças de cacau, tinha ouvido tanta história de gente
chegando como ele, batida pela seca, fugindo do sertão, quase morta
de fome, e enriquecendo naquelas terras em pouco tempo. (Ibid.,
1958, p. 77)
A questão agrária é um tema de suma importância em Geografia. Para aplicar o
conteúdo, o professor necessita fazer uso da história e recorrer a tempos remotos que
tragam à luz alguma base para considerações atuais acerca do assunto. Para alunos
oriundos de áreas urbanas, distantes da realidade do campo, é ainda maior a dificuldade
em assimilar a carga de informações contidas nesta questão.

Utilizamos da figura do retirante sertanejo, descrito pelo escritor, para


estabelecer a diferença entre ele e os coronéis do cacau, anteriormente citados, senhores
de grandes porções de terra, que na maioria das vezes as conseguia a partir de lutas
armadas e tomava como sua propriedade, fazendo uso da mesma para o plantio,
cercando-a e impossibilitando que outros tivessem acesso ao solo, para sequer dele
subsistir.

Outras tantas questões pertinentes à Geografia são abordados nesta obra. Dentre
elas, podemos citar a rica contribuição no campo cultural, onde o escritor cita festas e
comidas típicas da região, danças, costumes, vocabulários, ricamente explorados e a
contribuição sobre a política e as relações de poder estabelecidas na região.

Considerações Finais
Quando nos deparamos com a problemática da dificuldade de romper o estigma
das representações dadas acerca da região nordeste e do nordestino, vimos na literatura
uma possibilidade de avanço.

Conforme teorizado e defendido, a literatura é uma excelente ferramenta para


aproximação do conteúdo geográfico aos alunos. Analisamos a obra de Jorge Amado,
Gabriela, Cravo e Canela, na perspectiva de que a narrativa conduz a experiências,
através das imagens conjecturadas, enriquecedoras aos alunos. Desta perspectiva,
mediada pelos conhecimentos e informações e conteúdos geográficos presentes na obra,
elencamos diversas possibilidades de trabalho: estudos da paisagem, urbanização,
economia e sociedade, estrutura agrária, relação campo e cidade e etc.

Durante nossas pesquisas, poucos artigos puderam ser encontrados sobre o


estudo das possibilidades de aproximação entre ensino de geografia e literatura.
Segundo Teixeira e Frederico (2009) a literatura vem sido utilizada, embora
timidamente, por geógrafos para empreenderem análises espaciais desde o início do
século XX. Nota-se que a maioria dos artigos que encontramos para nossa bibliografia
são bastante recentes, o que clarifica uma tendência de expansão deste campo de
pesquisa. A pertinência dos estudos se exprime nesta tendência. Nosso trabalho é uma
tentativa que traz à evidência este debate como possibilidade de avanço nos estudos
relacionados a esta temática e as possibilidades didáticas e pedagógicas que este
debruçar nos abre.

BIBLIOGRAFIA

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CASTRO, Iná Elias de. Solidariedade territorial e representação. Novas questões


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