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Angola Dezembro 2009

Angola Dezembro 2009 “O impacto da crise em Angola segundo o FMI e o apoio deste
Angola Dezembro 2009 “O impacto da crise em Angola segundo o FMI e o apoio deste

“O impacto da crise em Angola segundo o FMI e o apoio deste organismo às medidas de política económica”

I – FMI aprova facilidade de crédito Stand-By de 1,4 bln USD a Angola

1. Na última edição deste Boletim, de 30 de Setembro último, intitulada “No rescaldo da crise, fase mais difícil parece ultrapassada”, para além de se assinalar o facto de a posição das reservas cambiais ter evidenciado uma recuperação em Julho - indicador da maior importância para conter os fenómenos especulativos que seriam susceptíveis de minar a confiança dos investidores e de perturbar seriamente o normal desenvolvimento da actividade económica – fez-se ainda referência à deslocação a Luanda de uma delegação do FMI, no início de Agosto, para avaliar as medidas macroeconómicas adoptadas pelas autoridades no sentido de conter o excesso de despesa tanto pública como privada.

Nesse mesmo documento acrescentava-se que havia ficado agendada para o mês de Setembro uma

nova visita da mesma delegação “

mediante o qual o FMI possa prestar assistência a Angola na gestão do impacto da crise internacional na sua economia”.

o objectivo de desenvolver negociações para um programa

com

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2. Assim aconteceu e, na sequência dessa segunda visita foi apresentado ao Board do FMI

2. Assim aconteceu e, na sequência dessa segunda visita foi apresentado ao Board do FMI uma proposta

que mereceu aprovação em 23 de Novembro último, nos termos da qual o FMI concede a Angola uma facilidade de crédito de USD 1,4 mil milhões – o qual reveste particular significado por se tratar do maior

pacote financeiro disponibilizado pelo FMI a países da região Sub-Sahariana no decurso da presente crise - enquadrada num típico “Stand-by Arrangement”, com uma duração de 27 meses, incluindo algumas medidas de ajustamento da política económica dirigidas ao restabelecimento dos equilíbrios macro-económicos e ao reforço das reservas em divisas internacionais.

II – Choque económico de 2009 e suas consequências

4. Afigura-se de especial interesse e oportunidade, nesta edição de final de ano, deixar uma referência

mais desenvolvida à avaliação que ao FMI mereceu a situação da economia angolana bem como às previsões de evolução a médio prazo, no âmbito do exercício subjacente à aprovação do referido Arrangement.

5. O FMI começa por recordar que Angola experimentou uma fase de “boom económico” desde o final da

guerra civil, em 2002, beneficiando da forte expansão da produção de petróleo e das vantagens do novo clima de paz, traduzido numa taxa de crescimento anual de dois dígitos. Angola tornava-se em 2008 o maior exportador de petróleo de todo o Continente Africano e também o 4º

produtor mundial de diamantes.

Em contraponto, a despesa pública experimentou também um crescimento muito rápido – ritmo idêntico ao do crescimento das receitas petrolíferas – enquanto que o crédito bancário à economia se expandiu a ritmo anual superior a 70% nos últimos anos, sinalizando uma forte expansão do consumo e do investimento privados, em especial das empresas.

Este ritmo impetuoso de crescimento da despesa pública e privada, a que acresceu uma taxa de câmbio fortemente apreciada em termos reais, colocou Angola numa posição de particular vulnerabilidade quando em final de 2008 e início de 2009 os preços do petróleo caíram abruptamente, passando de uma média de USD 98 ao longo de 2008 para USD 44 no 1º trimestre de 2009 - um choque económico externo de grandes proporções para uma economia muito dependente da actividade petrolífera (recorda-se que as exportações de petróleo representam mais de 90% das exportações totais de bens e de serviços).

A quebra nas receitas petrolíferas foi ainda agravada pela redução de cerca de 20% na produção de petróleo em resultado dos compromissos no âmbito da OPEC.

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6. Com a queda abrupta dos preços do petróleo, a actividade económica desacelerou rapidamente, ao

6. Com a queda abrupta dos preços do petróleo, a actividade económica desacelerou rapidamente, ao

mesmo tempo que os saldos orçamental e das contas externas passavam de excedentários para deficitários. Como consequência dessa conjugação de factores adversos e também como reflexo do esforço do BNA para manter a estabilidade da taxa de câmbio oficial e do facto do Governo ter sido forçado a desfazer-se das disponibilidades em divisas que mantinha junto do BNA para financiar as suas despesas, as reservas internacionais de divisas caíram até Junho cerca de 1/3, para um montante equivalente a cerca de 2,75 meses de importações e a um rácio de 1/1 para as responsabilidades de curto prazo.

III – Medidas de resposta ao choque e seus resultados: situação melhora

7. É nesse período mais crítico que as Autoridades se viram forçadas a adoptar uma sucessão de

medidas monetárias e orçamentais de contenção da despesa, mencionadas no nosso Boletim de Setembro (parágrafo nº6), incluindo o racionamento na venda de divisas, com o objectivo fundamental de suster a hemorragia das reservas em divisas e de preservar a solvabilidade externa do País.

Esse conjunto de medidas, tomadas numa sequência aparentemente forçada pela evolução dos acontecimentos, não terá sido suficiente, segundo o FMI, para restaurar a confiança nos mercados, tendo continuado a verificar-se pressão sobre as reservas em divisas bem como o alargamento do “spread” entre as taxas de câmbio oficial e paralelo, tendo este último atingido um pico de 25% em Setembro.

Note-se, não obstante, que a posição de reservas em divisas, após a recuperação verificada em Julho, se manteve praticamente estável em Agosto e em Setembro, mostrando que as medidas de contenção da despesa lograram pelo menos estancar as perdas que haviam sido registadas no período anterior.

8. No último trimestre do ano parece ter-se entrado numa fase de maior acalmia e de controlo da

situação, tendo o BNA retomado a prática de leilões regulares de divisas, passando a gerir a a taxa de

câmbio USD/KWZ de forma flexível, em resultado do que esta passou dos anteriores USD/KWZ=78 para um valor que é actualmente de USD/KWZ=88,5 traduzindo uma correcção acumulada de cerca de 17% desde o início do ano (4% em Abril e 13% desde Outubro).

Note-se que nesta nova fase de gestão da taxa de câmbio o BNA não assume um objectivo fixo para a mesma, aceitando a flexibilidade da cotação diária, em resultado do que a taxa de câmbio tem vindo a evoluir nas últimas semanas num sistema semelhante ao de “crawling-peg”, seguindo a regra da oferta e da procura e colocando a taxa oficial em linha com as taxas praticadas pelo sistema bancário.

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O FMI valoriza muito positivamente a retoma dos leilões diários de divisas pelo BNA bem

O FMI valoriza muito positivamente a retoma dos leilões diários de divisas pelo BNA bem como da política

de gestão flexível da taxa de câmbio adoptada

Como resultado desta nova política do BNA, assinala o FMI que o “spread” entre a taxa de câmbio oficial

e a do paralelo estreitou significativamente, situando-se em Novembro já abaixo de 10%.

Naturalmente como reflexo da nova política do BNA de abertura à venda de divisas ao mercado, o nível das reservas experimentou em Outubro uma redução, de USD 12,8 mil milhões para USD 12,1 mil milhões, a qual se deve considerar até pouco expressiva se tivermos em conta que se passou de uma situação prática de “racionamento” para a satisfação normal da procura do mercado.

IV – Estrutura do Stand By Arrangement aprovado pelo FMI

9. Passando aos pontos fundamentais do Stand-by Arrangement aprovado pelo FMI, cabe referir que o mesmo assenta em três pilares:

- Um primeiro pilar contemplando medidas de ajustamento orçamental, a partir de 2010, com uma

redução significativa do défice primário sem consideração das receitas petrolíferas, conseguido em

primeiro lugar através de uma redução da despesa com a aquisição de bens e serviços.

Fica expressamente salvaguardada a realização das despesas sociais necessárias bem como das despesas em infra-estruturas vitais para o desenvolvimento.

O programa contempla ainda um reforço do sistema de gestão orçamental e das regras de transparência

na contabilização das despesas e das receitas.

- Um segundo pilar consistente no ajustamento controlado das taxas de câmbio, no quadro de uma

política monetária mais rigorosa, em ordem a normalizar as condições de funcionamento do mercado de câmbios – algo que se pode considerar já em execução desde Outubro último, com a retoma do funcionamento dos leilões de divisas e a flexibilidade deslizante da taxa de câmbio, atrás referidas.

- Um terceiro pilar dirigido à manutenção da confiança no sistema financeiro, incluindo medidas de reforço das funções de regulação e de supervisão do BNA, em ordem a limitar os riscos decorrentes da desaceleração económica e dos elevados montantes atingidos pelos empréstimos em moeda estrangeira (USD), sem cobertura de risco de câmbio, típicos de uma economia altamente “dolarizada”.

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10. O FMI conclui que o Stand-By Arrangement deverá ajudar Angola a repor os equilíbrios

10. O FMI conclui que o Stand-By Arrangement deverá ajudar Angola a repor os equilíbrios macro-

económicos fundamentais e a amortecer e absorver os efeitos da crise durante o período de execução do programa (27 meses).

Mas o FMI acrescenta que serão necessárias reformas bem mais profundas para que sejam criadas condições de desenvolvimento mais sustentado dos sectores não-petrolíferos, reformas especialmente direccionadas para uma maior competitividade das empresas e o estímulo ao investimento privado.

Neste ponto, permitimo-nos recordar a ênfase que na anterior edição deste Boletim foi dada (ponto IV) à necessidade de diversificação da produção de bens e de serviços de forma a tornar a produção menos dependente de um só produto.

É interessante verificar a convergência entre os pontos de vista então expressos e as recomendações que o FMI agora formula.

V – Perspectivas económicas até 2014

11. Passamos às perspectivas económicas para os próximos anos avançadas agora pelo FMI, com base

numa selecção das variáveis mais significativas, incluindo a informação desde 2006 e a estimativa para

2009.

Produto Interno Bruto

Começando pelo PIB, confirma-se a última previsão que avançamos de um crescimento praticamente nulo em 2009 (-0,4%), seguido de uma apreciável recuperação em 2010 e anos seguintes (até 2014) embora longe de atingir o ritmo de dois dígitos observado nos anos anteriores à crise.

Note-se que a produção dos sectores não-petrolíferos deverá crescer sempre mais que a do sector petrolífero, em especial nos anos finais do período de previsão.

PIB – variação em %, 2006-2014

 

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2014

 

Global

+18,6

+20,3

+13,2

-0,4

+7,1

+8,3

+6,3

+6,3

+5,8

Petróleo

+13,1

+20,4

+11,9

-5,8

+6,1

+6,1

+2,6

+2,7

+1,4

Outros

+27,5

+20,1

+14,8

+6,7

+7,7

+10,0

+9,0

+8,7

+8,5

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Inflação

Inflação No tocante à inflação, nota-se que se assiste nesta altura a uma aceleração do índice

No tocante à inflação, nota-se que se assiste nesta altura a uma aceleração do índice de preços, resultante do clima de instabilidade criado com a crise e nomeadamente em resultado do comportamento dos mercados de câmbios, embora nos próximos anos – provavelmente como espectável consequência das medidas de política macro-económicas enquadradas no “Stand-By Arrangement” – o FMI antecipe uma considerável desaceleração, para valores bastante inferiores a dois dígitos nos últimos anos da previsão.

Índice de preços no consumidor – Variação em %, 2006-2014

 

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2014

Média

13,3

12,2

12,5

14,0

15,0

9,8

8,7

7,5

6,0

Fim período

12,2

11,8

13,2

14,0

13,0

9,5

8,0

7,0

7,0

Exportações

Passando à evolução das exportações, cabe salientar a queda abrupta que se verifica em 2009, após anos de muito forte crescimento, seguindo-se um período de recuperação a partir de 2010 embora com abrandamento do ritmo de crescimento no período subsequente, certamente em linha com a evolução esperada dos mercados externos.

Exportações – variação em % (FOB, em USD)

 

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2014

Globais

+32,2

+39,3

+44,0

-43,6

+34,9

+11,0

5,0+

+2,2

-1,1

Petróleo

+33,4

+41,1

+45,2

-44,9

+35,9

+10,9

+4,9

+2,0

-1,7

Importações

 

No caso das importações constata-se uma evolução bastante semelhante à das exportações – crescimento muito rápido até 2008, queda acentuada em 2009 e recuperação forte em 2010, embora com abrandamento no período subsequente.

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Importações – variação em % (FOB, em USD)   2006 2007 2008 2009 2010 2011

Importações – variação em % (FOB, em USD)

 

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2014

Totais

+5,1

+55,6

+53,6

-21,3

+25,2

+5,5

+3,8

+1,9

+3,1

Termos de troca

Analisando a evolução dos termos de troca, pode verificar-se que após ganhos sucessivos nos anos anteriores a 2009, neste último ano Angola sofre uma forte perda, naturalmente como consequência da quebra da cotação internacional do petróleo. Nos anos seguintes é esperada uma recuperação, embora moderada a partir de 2011.

Variação dos termos de troca, em %

 

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2014

Totais

+20,4

+4,8

+26,5

-41,1

+25,2

+2,8

+1,6

+1,4

+1,4

VI – Conclusões

12. Estas previsões do FMI não permitem esperar, pelo menos para os anos mais próximos, taxas de crescimento da economia tão espectaculares como as que se verificaram na fase de “boom” que antecedeu a crise de 2009.

A economia deverá voltar a crescer a bom ritmo, depois da forte desaceleração de 2009, mas os impactos da crise deverão continuar a manifestar-se durante um período de tempo considerável, obrigando a uma gestão macro-económica – basicamente nos planos orçamental e monetária/cambial – bastante mais exigente para assegurar que os equilíbrios económicos fundamentais não são postos em causa.

A preservação dos equilíbrios económicos fundamentais afigura-se um ponto merecedor de especial reflexão, depois da grande turbulência que marcou o ano agora a findar, designadamente por parte dos parceiros económicos de Angola e das próprias empresas que em muitos casos terão alimentado expectativas de expansão dos seus negócios que esta crise veio colocar em causa.

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A economia de Angola continua, neste quadro previsional, a oferecer perspectivas bastante interessantes certamente, a

A economia de Angola continua, neste quadro previsional, a oferecer perspectivas bastante interessantes certamente, a proporcionar oportunidades de investimento com satisfatório retorno do capital, mas parece muito improvável que nos anos mais próximos possa acomodar um ritmo de expansão dos negócios semelhante aos observados nos anos anteriores à crise de 2009.

Esta análise reveste-se de interesse ainda para as instituições de crédito que directa ou indirectamente operam no mercado angolano e que são solicitadas a financiar actividades e projectos de investimento, num e noutro caso carecendo de avaliação formulada com base em cenários de evolução económica consistentes.

Nota Final (Disclaimer)

Fontes principais de informação macroeconómica: FMI e Banco Nacional de Angola

As observações que se encontram expressas neste documento acerca do significado da informação objectiva nele apresentada, não constituem opinião do Banco BAI Europa, reflectindo exclusivamente a opinião das pessoas que elaboraram o respectivo texto.

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