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Edição do Professor

Novos PORTUGUÊS 1

3URȃVVLRQDLV
Ana Catarino
Isabel Castiajo
Maria José Peixoto

De acordo com
Novo Programa
12 PROJETO DE LEITURA 14 PARA COMEÇAR

MÓDULO 1
1. POESIA TROVADORESCA
18 PARA CONTEXTUALIZAR 19 PARA INICIAR 22 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA INFORMAR LEITURA

22 “A poesia trovadoresca” 20 Exposição sobre um tema


“Feiras medievais”
22 “Cantiga”
21 Apreciação crítica
23 “Os agentes difusores da poesia
“Pela liberdade na Idade Média”
trovadoresca”
CANTIGAS DE AMOR

28 “Quer’eu em maneira de proençal”, 24 “A figura feminina nas cantigas 26 Exposição sobre um tema
Dom Dinis de amor” “A sociedade portuguesa do século XIII”
30 “Se eu pudesse desamar”, 33 Apreciação crítica
Pero da Ponte “O poder, talvez”
30 “Que soidade de mha senhor ei”,
Dom Dinis

CANTIGAS DE AMIGO

36 “Ai flores, ai flores do verde pino”, 34 ”Cantigas de amigo” e “Paralelismo” 42 Artigo de divulgação científica
Dom Dinis “Amor: cria dependência como
35 “Refrão”
37 “Nom chegou, madr’, o meu amigo”, uma droga, mas sabe bem como
Dom Dinis o chocolate”

38 “Bailemos nós já todas tres, ai amigas”,


Airas Nunes
39 “Ondas do mar de Vigo”,
Martim Codax
40 “Poys nossas madres van a San Simon”,
Pero Viviaez
40 “Sedia-m’ eu na ermida de San Simión”,
Mendinho

CANTIGAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER

52 “Roi Queimado morreu com amor”, 50 “Cantigas de escárnio e maldizer” 48 “Vídeos na Internet”
Pero Garcia Burgalês
51 “Cantigas de escárnio” e “Cantigas
53 “Ai, dona fea, foste-vos queixar”, de maldizer”
Joam Garcia de Guilhade
54 “Foi um dia Lopo jograr”,
Martim Soares

58 PARA SABER 59 PARA VERIFICAR 60 PARA RECUPERAR

2
ÍNDICE

ORALIDADE ESCRITA GRAMÁTICA

19 COMPREENSÃO DO ORAL
Reportagem
“Viagem Medieval em Terra
de Santa Maria”

24 EXPRESSÃO ORAL 27 Exposição sobre um tema 31 Formação de palavras


Arte de Trovar – relação texto vs. Divertimentos característicos 31 Conectores
imagem da Idade Média
31 Subordinação
32 ORALIDADE/EDUCAÇÃO LITERÁRIA 29 Exposição sobre um tema
Apresentação Oral/Tópico Poema “Namoro”
de Programa
Canção de Paulo Gonzo e Olavo Bilac

41 ORALIDADE/EDUCAÇÃO LITERÁRIA 41, 55 Étimo


Apresentação Oral/Tópico 41 Funções sintáticas
de Programa
49, 55 Pronome pessoal
Cantiga “Poys nossas madres van
em adjacência verbal
a San Simon” e a imagem Festas
do concelho de Gondomar

49
9 Ex
E
Exposição
xposição so
sobre um tema 49 Formação de palavras
Virtudes e riscos do uso do Facebook 55 Classe de palavras
55 Funções sintáticas
55 Conector
49, 55 Referente
55 Subordinação

APRENDER / APLICAR

44 Evolução do português
61 PARA AVALIAR 56 Fonética e fonologia / etimologia

3
MÓDULO 1
FERNÃO LOPES
2. CRÓNICA DE D. JOÃO I (Excertos da 1.a parte)
66 PARA CONTEXTUALIZAR 67 PARA INICIAR 69 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA INFORMAR LEITURA

Crónica de D. João I 75 “Fernão Lopes e a Crónica de D. João I” 69 Exposição sobre um tema


D. João I
76 Capítulo 11 (excerto)
72 Exposição sobre um tema
82 Capítulo 115 (excerto)
“A maior das vitórias”
84 Capítulo 148 (excerto)

86 PARA SABER 87 PARA VERIFICAR 88 PARA RECUPERAR

MÓDULO 2
GIL VICENTE
1. FARSA DE INÊS PEREIRA
94 PARA CONTEXTUALIZAR 95 PARA INICIAR 96 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA INFORMAR LEITURA

Farsa de Inês Pereira 97 “A sátira e o ideal de ordem” 118 Exposição sobre um tema
“A verdade das relações”
98 (A vida de solteira de Inês – excerto 1) 97 “Farsa e auto – natureza e estrutura
da obra” 129 Apreciação crítica
104 (A carta de Pero Marques –
“Um homem, uma mulher
excerto 2)
e um tribunal”
110 (Os judeus casamenteiros –
excerto 3)
112 (Apresentação do Escudeiro e
casamento de Inês – excerto 4)
115 (A vida de casada de Inês –
excerto 5)
124 (Inês livre para novos amores –
excerto 6)

130 PARA SABER 132 PARA VERIFICAR 134 PARA RECUPERAR

4
ORALIDADE ESCRITA GRAMÁTICA

67 EXPRESSÃO ORAL 70 Síntese 77 Processos fonológicos


Pesquisa a partir de imagens “Fernão Lopes – o historiador”
Como escrever uma síntese
68 COMPREENSÃO DO ORAL
73 Síntese
“Fernão Lopes – vida e obra”
A maior das vitórias”
68 EXPRESSÃO ORAL
74 Exposição sobre um tema
Síntese
D. João I
“Fernão Lopes – vida e obra”
74 COMPREENSÃO DO ORAL
“Conta-me História”, RTP
APRENDER / APLICAR

78 Funções sintáticas I

89 PARA AVALIAR

ORALIDADE ESCRITA GRAMÁTICA

95 EXPRESSÃO ORAL 114 Síntese 101, 119 Conectores


Adequação de imagens à obra do conteúdo do excerto 4,
101 Processos fonológicos
de Gil Vicente Farsa de Inês Pereira
107, 119 Funções sintáticas
96 COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL 120 Apreciação crítica
Documentário Como escrever uma apreciação 107 Classe de palavras
“Grandes livros - Gil Vicente” crítica
119 Subordinação
96 EXPRESSÃO ORAL 121 Apreciação crítica
Síntese a partir de uma imagem
de uma entrevista
128 EXPRESSÃO ORAL
Apreciação crítica de prancha
APRENDER / APLICAR
de BD vs. obra em estudo
102 Lexicologia: campo semântico
e campo lexical
108 Lexicologia: arcaísmos
e neologismos
122 Processos irregulares de formação
de palavras
135 PARA AVALIAR

5
MÓDULO 2
LUÍS VAZ DE CAMÕES
2. RIMAS
138 PARA CONTEXTUALIZAR 139 PARA INICIAR 140 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA INFORMAR LEITURA

Rimas 140 “Lírica tradicional e renascentista”

REPRESENTAÇÃO DA AMADA

142 “Ondados fios d’ouro reluzente” 141 “Petrarquismo em Camões: influência


e originalidade”
143 “Um mover d’olhos, brando e piadoso”

144 “Descalça vai para a fonte”

146 “Endechas”

A EXPERIÊNCIA AMOROSA E A REFLEXÃO SOBRE O AMOR

149 “Quem ora soubesse” 148 “A tensão amorosa em Camões”

150 “Tanto de meu estado me acho


incerto”

A REPRESENTAÇÃO DA NATUREZA

152 “Alegres campos, verdes arvoredos” 151 “Locus amoenus”

153 “Aquela triste e leda madrugada

A REFLEXÃO SOBRE A VIDA PESSOAL

155 “O dia em que eu nasci, moura 154 Camões: a época, o homem


e pereça” e o poeta”

O TEMA DA MUDANÇA E DO DESCONCERTO

157 “Correm turvas as águas deste rio” 156 “A lírica camoniana” 161 Apreciação crítica
“Um justo entre as Nações”
158 “Mudam-se os tempos, mudam-se
as vontades” 164 Exposição
“Os pintores descobrem a realidade”
160 “Que me quereis, perpétuas
saüdades?”

160 “Os bons vi sempre passar”

166 PARA SABER 168 PARA VERIFICAR 169 PARA RECUPERAR

6
ORALIDADE ESCRITA GRAMÁTICA

139 COMPREENSÃO DO ORAL


Documentário
sobre Luís de Camões

145 COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL 147 Exposição sobre um tema 145 Subordinação
Áudio “Garota de Ipanema”, Representação da mulher
145 Classe de palavras
Tom Jobim e Vinicius de Moraes na lírica camoniana

147 COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL


Apreciação crítica
Áudio “Endechas”, Sérgio Godinho

159 COMPREENSÃO DO ORAL 157 Referente


Anúncio publicitário
157 Funções sintáticas

APRENDER / APLICAR

162 Funções sintáticas II

170 PARA AVALIAR

7
MÓDULO 3
LUÍS VAZ DE CAMÕES
1. OS LUSÍADAS
174 PARA CONTEXTUALIZAR 175 PARA INICIAR 177 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA INFORMAR LEITURA

180 Canto I, ests. 1 a 3 177 “Origem e valor simbólico 206 Artigo de divulgação científica
Imaginário épico – Proposição do termo ‘lusíadas’” “Explorando Vénus”

181 Canto I, ests. 4 a 5 177 “A génese de Os Lusíadas” 214 Exposição sobre um tema
Imaginário épico – Invocação “Exploradores oceânicos”
178 “Poema épico
182 Canto I, ests. 6 a 18 Estruturação interna e externa
Imaginário épico – Dedicatória de Os Lusíadas”

186 Canto I, ests. 105 e 106 195 “Simbologia da Ilha dos Amores”
Reflexões do poeta
(A fragilidade da vida humana) 215 O conteúdo de cada canto

187 Canto V, ests. 92 a 100


Reflexões do poeta
(O desprezo pelas artes)

189 Canto VII, ests. 78 a 87


Reflexões do poeta
(Lamentações de teor
autobiográfico)

194 Canto VIII, ests. 96 a 99


Reflexões do poeta
(O poder do vil dinheiro)

196 Canto IX, ests. 52, 53 e 66 a 70


Imaginário épico
(A Ilha dos Amores)

198 Canto IX, ests. 88 a 95


Imaginário épico e
Reflexões do poeta
(A imortalidade)

200 Canto X, ests. 75 a 91


Imaginário épico
(A máquina do Mundo)

207 Canto X, ests. 145 a 156


Reflexões do poeta
(Lamentações do poeta)

218 PARA CONSOLIDAR 220 PARA VERIFICAR 222 PARA RECUPERAR

8
ORALIDADE ESCRITA GRAMÁTICA

175 EXPRESSÃO ORAL 185 Reescrita de texto 185, 199, Funções sintáticas
Leitura de imagens (sinonímia/economia lexical) 202, 210

176 COMPREENSÃO DO ORAL 203 Exposição sobre um tema 185, 210 Campo lexical/Campo semântico
Documentário Os Descobrimentos
“Grandes Livros − Os Lusíadas” 185 Classe de palavras
210 Exposição sobre um tema
181 COMPREENSÃO DO ORAL As qualidades bélicas e literárias 191 Conector
Áudio de Luís de Camões
Tema “Contentores”, Xutos 191, 210, Coordenação/Subordinação
e Pontapés 214

199, 202 Tempo e modo verbal


186 COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL
Áudio 202 Referente
Apreciação crítica de uma canção
210 Processos fonológicos
211 COMPREENSÃO DO ORAL
Reportagem
“World of Discoveries”

APRENDER / APLICAR

192 Frase complexa: coordenação

204 Frase complexa: subordinação

Orações subordinadas
adverbiais

212 Orações subordinadas


substantivas e adjetivas

224 PARA AVALIAR

9
MÓDULO 3
HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
2. “AS TERRÍVEIS AVENTURAS DE JORGE DE ALBUQUERQUE COELHO (1565)”
228 PARA CONTEXTUALIZAR 229 PARA INICIAR 232 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA INFORMAR LEITURA

233 “Antecedentes − missão de Jorge 232 “A História Trágico-Marítima” 231 Exposição sobre um tema
de Albuquerque Coelho”(Excerto 1) “A carreira da Índia”
237 “A nau”
235 “Partida” (Excerto 2) 240 Apreciação crítica
“Sucessos e naufrágios
238 “Encontro com os corsários” das naus portuguesas“
(Excerto 3)
241 Exposição sobre um tema
242 “Tempestade” (Excerto 4) “As viagens dos Descobrimentos”
244 “Regresso a Lisboa” (Excerto 5) 248 Relato de viagem
“Dois anos a pedalar…”

254 PARA CONSOLIDAR 255 PARA VERIFICAR 256 PARA RECUPERAR

BLOCO INFORMATIVO
I – GRAMÁTICA (Sistematização)
260 Classes de palavras
267 Verbo
· Formas finitas e formas não finitas; modos e tempos
· Verbos regulares / irregulares
· Conjugações verbais
· Verbos defetivos (pessoais e unipessoais)
269 Pronome pessoal em adjacência verbal – regras de utilização
271 Funções sintáticas
274 Frases ativas e passivas
275 Discurso direto e indireto
277 Processos de coordenação e de subordinação entre orações
277 Contacto de línguas
· Substrato
· Superstrato
278 Palavras convergentes e divergentes
278 Processos fonológicos
· Inserção
· Supressão
· Alteração

10
ORALIDADE ESCRITA GRAMÁTICA

229 COMPREENSÃO DO ORAL 241 Síntese 234, Funções sintáticas


Documentário As viagens dos Descobrimentos 239, 247
“História Trágico-Marítima –
243 Apreciação crítica 234, Subordinação
os naufrágios do Império”
Quadro de William Turner 239, 247
230 EXPRESSÃO ORAL 245 Texto lacunar
Comparação do “Poema da malta 239, 249 Tempo e modo verbal
das naus” com o documentário 247 Apreciação crítica
245 Classe de palavras
(imagem)
COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL
Relação temática 245 Relações semânticas
246
Canção (“Fado português”) 246 Campo lexical
e História Trágico-Marítima

APRENDER / APLICAR

250 Geografia do português no mundo

257 PARA AVALIAR

279 Arcaísmos e neologismos


280 Formação de palavras
· Derivação
· Composição
281 Processos irregulares de formação de palavras
281 Palavras monossémicas e polissémicas
282 Campo semântico e lexical
282 Relações semânticas

283 II – GÉNEROS TEXTUAIS

284 III – RECURSOS EXPRESSIVOS

285 IV – NOÇÕES DE VERSIFICAÇÃO

286 V – TEXTO DRAMÁTICO

287 Domínios de Referência, Objetivos e Descritores de Desempenho – 10.° Ano

11
PROJETO INDIVIDUAL
DE LEITU RA Segue-se uma breve abordagem de três obras propostas no programa de Português para
o PIL (Projeto Individual de Leitura). Depois de as ler, preencha a ficha-modelo apresenta-
da na página seguinte.

Os da minha rua

D iz o autor que são estórias…


E, de facto, são. São a história da sua infância e princípio da adolescência,
a história da sua Luanda, a história da sua Rua Fernão Mendes Pinto…
Estórias onde vivem amigos que se oferecem para almoçar lá em casa e beber
ONDJAKI
1977
Fanta, irmãs que partilham óculos, familiares próximos e outros nem tanto, cães
aconchegados de mimos e outros repudiados, piscinas especiais, carnavais tra-
dicionais, festivais da canção, telenovelas brasileiras na televisão mais linda do
mundo!…
Tudo isto numa escrita inicialmente simples, que depois cresce ao mesmo rit-
mo que o seu autor.

Capitães da areia

S ão meninos abandonados, órfãos, vítimas da fome, da miséria, da doença e do


preconceito. Meninos que são obrigados a crescer à força para sobreviver. E, como
sobreviver é difícil nas ruas da Baía, tornam-se marginais, num bando temido, che-
JORGE AMADO
fiado por Pedro Bala, que rouba e inquieta os respeitáveis da cidade. Um bando feito
1912-2001 de carências, de ausências, de sonhos, de afetos…
Enfim, um bando feito de crianças que nunca o foram, mas que o são, por vezes,
num velho carrossel multicolor, tão desamparado como eles!

Robinson Crusoé

P ublicado em 1719, este romance relata, na primeira pessoa, as venturas e desventu-


ras de Robinson, um náufrago que sobrevive durante cerca de três décadas numa
ilha remota e desconhecida dos Trópicos.
DANIEL DEFOE
De início, completamente só, Robinson debate-se com sérias dificuldades na luta
1660-1731 pela sobrevivência. Até que numa sexta-feira encontra uma estranha personagem…
É uma narrativa empolgante, com selvagens, canibais e uma fauna e flora desco-
nhecidas do Velho Mundo. É o confronto de duas civilizações: a do colonizador impe-
rialista e a do colonizado frágil e facilmente escravizado. Mas é também uma história
de cooperação e de descoberta do outro.

12
FICHA
FIC H A DE LEITURA/APRECIAÇÃO
LEITURA/AP R EC IAÇ ÃO CRÍTICA
C RÍTICA DA OBRA

SOBRE
O AUTOR
E A SUA
ESCRITA

Título:
Editora/ano da edição:
Estrutura: divisão em capítulos
SOBRE
A OBRA Sim. Quantos?
SELECIONADA
Não.
Características da obra e registo discursivo:

Tema:
Acontecimentos principais:
SOBRE
A HISTÓRIA,
A AÇÃO,
OS EVENTOS
OCORRIDOS
Outros acontecimentos:

O espaço:
SOBRE
O ESPAÇO
E O TEMPO
(lugares e O tempo:
características
principais)

Protagonista(s):
Caracterização do(s) protagonista(s):
SOBRE
AS
PERSONAGENS Outras personagens:
E/OU Narrador:
O NARRADOR
Relevância para a compreensão da obra:

Descrição sucinta da obra:

Ç
APRECIAÇÃO
CRÍTICA
Comentário crítico:

13
PA R A C O M E Ç A R
COMPREENSÃO DO ORAL

Visione uma primeira vez um vídeo sobre um projeto destinado a estudantes.

1. 1. Complete as seguintes afirmações.

1.1 O filme é uma pequena reportagem exibida pela a. sobre o


b. .

1.2 O programa decorrerá na cidade de a. e terá a duração de b.


dias.

1.3 Os países envolvidos neste intercâmbio são: a. , Noruega, b. ,


c. e d. , além de Portugal.

1.4 Na peça jornalística são destacadas as estudantes a. , uma


Monção recebe alunos de 5 países europeus aluna portuguesa, e b. , uma aluna c. .
no âmbito do projeto Comenius

2. Escolha a opção que completa melhor o sentido da frase.


PROFESSOR

2.1 Considerando o conteúdo da reportagem, o projeto envolve


[A] as escolas e as autarquias.
Vídeo
“Monção recebe alunos [B] o Ministério da Educação e o presidente da Câmara.
de 5 países europeus
no âmbito do projeto [C] os alunos e os professores.
Comenius”
[D] toda a comunidade de uma certa região.
Compreensão do oral
2.2 Durante o período de duração do programa, os participantes ficam alojados em
1.1 a. Alto Minho TV; b. Projeto [A] hotéis pagos por eles.
Comenius
1.2 a. Monção; b. sete [B] casa dos seus correspondentes.
1.3 a. Chipre; b. Finlândia
c. Polónia; d. Croácia
[C] habitações destinadas ao turismo.
1.4 a. Adriana; b. Olga; [D] casas alugadas para esse fim específico.
c. polaca
2.1 [D] 2.3 O conhecimento do país, da região e da sua cultura far-se-á através
2.2 [B]
[A] da participação em palestras e do visionamento de filmes e documentários.
2.3 [C]
3. Promoção da aprendizagem [B] do visionamento de documentários e da frequência de aulas.
da língua inglesa; construção
de novas amizades, a nível [C] da frequência de aulas, de atividades diversas e visitas pelo Alto Minho.
pessoal.
[D] da realização de atividades diversas e visitas pelo Alto Minho.
Expressão oral
Visione uma segunda vez o vídeo.
1. Resposta de caráter
pessoal. Contudo,
os alunos podem referir
3. Enumere os argumentos apresentados pelos alunos para incentivar este tipo de
os seguintes aspetos: atividade.
enriquecimento ao nível
pessoal, pois conhece-se
outras culturas, outras
pessoas; fazem-se novas
amizades; aprende-se línguas EXPRESSÃO ORAL
em situação real; pode-se
viajar, sem preocupações com
alojamento, sentindo-se 1. Recupere o conteúdo do vídeo visionado e expresse a sua opinião, num discurso de
o jovem mais amparado, 2-3 minutos, sobre o contributo deste tipo de atividades para reconhecimento de
porque acolhido.
culturas diferentes da nossa.

14
LEITURA

Leia atentamente um excerto de uma reportagem sobre o Ensino Profissional.

Ensino Profissional: o sistema


e os novos desafios
Por Anabela Pato

Encontro desvendou as competências do ensino profissional e os obstáculos ultrapassados até ao momento

O que é que o mercado de trabalho procura hoje em


dia? Esta é questão base que qualquer profissional deve
colocar a si próprio atualmente, quando enfrenta pela
primeira vez o mercado de trabalho. Para além da vocação,
5 vontade, competência e capacidade de trabalho, há um
fator central em todo este processo: a formação.
Uma realidade que cruza cada vez mais com a crescen-
te exigência por parte das empresas ao nível do recruta-
mento.
10 Este foi o alerta emitido aos cerca de 200 jovens alunos,
professores e diretores de escolas públicas e de escolas
profissionais, que marcaram presença na Conferência
“Ensino Profissional: Competências do futuro”, levada a
cabo pelo jornal “Região de Leiria”, no auditório da Escola Com um reforço das competências qualificativas, para
15 Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria. além das quantitativas, hoje o ensino profissional aposta
Com índices de empregabilidade muito elevados, como cada vez mais em adequar o desenho curricular proposto
foi afirmado pelos quatro oradores intervenientes na con- aos jovens, às empresas e às necessidades do tecido eco-
ferência, o ensino profissional público e privado tem sido, 30 nómico e social. Esta é a opinião dos quatro oradores. Para
ao longo dos anos, alvo de evoluções e inovações, princi- Ana Penim, administradora delegada do Instituto de Ne-
20 palmente desde há quatro anos. Fundado em 1889, o ensi- gócios e Vendas, as escolas profissionais públicas e priva-
no profissional foi “o protagonista da mudança”, como das devem centrar as suas atenções nos alunos e estes,
frisa José Luís Presa, presidente da Associação Nacional por sua vez, devem ter a noção de que “no mercado atual
de Escolas Profissionais, uma vez que esta “alternativa ao 35 não basta parecê-lo, temos de sê-lo.”
sistema regular de ensino” sempre contou com o apoio de in www.gustaveeiffel.pt/Downloads/eventos/
J_Leiria-Reportagem.pdf (texto adaptado,
25 atores locais, como autarquias e sindicatos.
consultado em dezembro de 2016).

1. Selecione a opção correta, de acordo com o sentido do texto.

1.1 O texto é uma reportagem porque


[A] está disposto graficamente em duas colunas.
[B] transmite a opinião de quem escreve.
[C] noticia um acontecimento, apresentando testemunhos de intervenientes.

15
Po es i a Trova d o resca

1.2 A utilização de aspas na linha 13 deve-se


PROFESSOR [A] à reprodução das falas de um dos oradores.

1. [B] ao título de um artigo publicado pelo jornal “Região de Leiria”.


[C] à designação da conferência promovida pelo jornal “Região de Leiria”.
Leitura

1.1 [C] 1.3 Os quatro oradores intervenientes partilham a opinião de que


1.2 [C] [A] a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria tem índices de empre-
1.3 [B] gabilidade muito elevados.
1.4 [A]
[B] os índices de empregabilidade são muito elevados nas escolas profissionais.
Gramática
[C] o ensino profissional público tem índices de empregabilidade mais eleva-
1.1 dos que o ensino profissional privado.
a. Complemento direto.
b. Complemento agente
da passiva. 1.4 O ensino profissional aposta essencialmente
c. Sujeito.
[A] na adequação do ensino às necessidades do mercado de trabalho.
d. Predicativo do sujeito.
e. Complemento oblíquo. [B] na preparação dos alunos para apoiar as autarquias e os sindicatos.
1.2 Oração subordinada
adverbial causal. [C] no reforço da quantidade de matérias a lecionar.
1.3 Pretérito perfeito
composto do indicativo.
1.4 Palavra derivada por
sufixação. GRAMÁTICA

Escrita
1. Tenha em atenção as seguintes passagens textuais selecionadas do texto.
a. “Esta é a questão base que qualquer profissional deve colocar a si próprio
Resposta de caráter
pessoal, contudo os alunos atualmente, quando enfrenta pela primeira vez o mercado de trabalho.” (ll. 2-4)
podem referir os seguintes
aspetos: b. “como foi afirmado pelos quatro oradores intervenientes na conferência.” (ll. 16-18)
Introdução: a escola é um
c. “o ensino profissional público e privado tem sido, ao longo dos anos, alvo de
instrumento privilegiado na
promoção pessoal, social e inovações e evoluções, principalmente desde há quatro anos.” (ll. 18-20)
profissional.
Desenvolvimento: contacto
d. “Fundado em 1889, o ensino profissional foi o protagonista da mudança.” (ll. 20-21)
com pessoas de todas as e. “uma vez que esta ‘alternativa ao sistema regular sempre contou com o apoio
classes sociais, aprendizagem
de vários valores, entre de atores locais’” (ll. 23-25)
os quais os de cidadania;
desenvolvimento de 1.1 Indique as funções sintáticas desempenhadas pelas expressões sublinhadas.
competências e aquisição de
habilitações para o exercício
de uma profissão no futuro. 1.2 Classifique a oração da alínea e.
Conclusão: pelo exposto,
a escola torna-nos pessoas 1.3 Indique o tempo e o modo da forma verbal “tem sido” (l. 18).
mais conscientes, mais
bem formadas e melhores 1.4 Designe o processo de formação da palavra “atualmente” (l. 3).
cidadãos.

E S C R I TA

Para uns, a escola é mal-amada; para outros, é uma fonte de saber e permite a abertu-
ra de janelas para o mundo.

Elabore um texto, de 100 a 140 palavras, exprimindo a sua opinião sobre a importância
da escola para a formação dos jovens. Deve respeitar a seguinte estrutura tripartida:
• introdução − apresentação sucinta do tema e da posição assumida;
• desenvolvimento − defesa da posição por meio de apresentação de duas razões;
• conclusão – fecho do texto e considerações finais.

16
MÓDULO

1
1. Poesia Trovadoresca
PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR

PARA DESENVOLVER
Educação Literária
Poesia trovadoresca
• Cantigas de amor
• Cantigas de amigo
• Cantigas de escárnio e maldizer
Leitura
Exposição sobre um tema
Apreciação crítica
Artigo de divulgação científica
Escrita
Exposição sobre um tema
Oralidade [Comprensão/Expressão Oral]
Reportagem [Compreensão do Oral]
Gramática
Evolução do português [Aprender/Aplicar]
Fonética e fonologia/etimologia [Aprender/Aplicar]
• Formação de palavras
• Conectores
• Subordinação
• Funções sintáticas
• Classe de palavras
• Referente
• Processos fonológicos
• Étimo
• Pronome pessoal em adjacência verbal
PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR
PARA CONTEXTUALIZAR

476 1096 1143 1261 1308 1325


Queda do Império Concessão do condado Fundação Nascimento do Transferência da Morte
Romano Portucalense a Henrique da nacionalidade rei poeta D. Dinis Universidade para de D. Dinis
no Ocidente – início de Borgonha por Afonso VI portuguesa Coimbra
da Idade Média de Leão e Castela

Os valores culturais da Idade Média A nação portuguesa e a evolução


• A cultura na Idade Média cingia-se a um grupo social
da língua
privilegiado: o clero. • Alguns autores separam o galego do português muito
• A minoria clerical controlava a produção e a reprodu- cedo, por altura da fundação do reino de Portugal, enquanto
ção de texto escrito, geralmente de teor religioso: Bíblia e as outros defendem que essas línguas constituem uma única
5 obras de Santo Agostinho. até aos nossos dias.
• Os membros do clero mais categorizados viajavam bas- 5 • Os trovadores – galegos, portugueses e castelhanos –
tante (sobretudo nos séculos XIII e XIV), comunicando em escreviam todos na mesma língua, artificial, e não neces-
latim, que era língua da escrita, sendo utilizada em várias sariamente a que cada um falava. Trata-se de uma língua
nações. literária, usada pelos poetas.
Elaborado a partir de José Mattoso, O essencial sobre a cultura • A separação definitiva entre o galego e o português
medieval portuguesa: séculos XI a XIV, Lisboa, 10 ocorreu a partir do século XV.
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, p. 3.
• O processo de evolução da língua foi influenciado:
- pela peste negra, que dizimou grande parte da popula-
A religião na sociedade medieval ção adulta, originando um salto de gerações;
- pelas guerras de D. Fernando e de D. João I com Castela,
• A Igreja montou e geriu aquilo a que poderíamos cha- 15 que perturbaram o equilíbrio político.
mar uma visão do mundo exclusivamente confessional.
• A nobreza da primeira dinastia, que tinha ajudado
• A religião confundia-se com a própria sociedade, es-
D. Afonso Henriques a fundar o reino e a governá-lo durante
tando presente na esfera pública (procissões) e privada (ora-
séculos, toma o partido de D. Beatriz, filha de D. Fernando, o
5 tório privado e o convento de clausura).
que resultou na perda da guerra e do poder.
• A prática cristã dominava todas as fases da vida: do 20
• Uma nova nobreza, que recebe terras e poder económico.
nascimento, marcado pelo batismo, até à morte.
• Lisboa torna-se a capital do país, perdendo o norte do
• O mundo do Além estava sempre presente: quer nas
país a sua influência.
orações pelos mortos quer nos pedidos de intercessão aos
10 santos.
• A língua portuguesa atinge o fim do seu período de
formação e de crescimento.
Elaborado a partir de Maria de Lurdes Rosa, "Sagrado, devoções,
religiosidade", in José Mattoso (dir.), História da vida privada em Elaborado a partir de Ivo Castro, Introdução a história
Portugal, Idade Média, vol. I, coordenação de Bernardo Vasconcelos português [2004], 2.a ed., revista e muito ampliada, Lisboa, Colibri,
e Sousa, Lisboa, Temas e Debates, 2011, p. 376. 2006, pp. 76-77.

18
PARA INICIAR

COMPREENSÃO DO ORAL

Visione e escute atentamente um excerto de uma reportagem transmitida pela SIC.

1. Tendo em conta a informação recolhida, selecione a opção correta.

1.1 A peça jornalística refere-se a uma situação que


[A] já aconteceu.
Viagem Medieval
[B] está a acontecer. em Terra
de Santa Maria
[C] vai acontecer.

1.2 A situação retratada diz respeito a uma manifestação PROFESSOR

[A] cultural.
[B] social. Vídeo
“Viagem Medieval
[C] militar.
em Terra de Santa Maria”

1.3 A peça jornalística foca


Oralidade
[A] as várias atividades que o evento proporciona. 1.1; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7

[B] a comparação entre este evento e outro do mesmo género. 1.1 [B]; 1.2 [A]; 1.3 [C]
[C] um acontecimento específico do evento. 2
a. F – Todos os anos a viagem
medieval destaca um reinado
Proceda, agora, a um segundo visionamento da reportagem. diferente.
b. F – O acampamento foi
cedido por D. Afonso IV. João
2. Registe como verdadeiras ou falsas as afirmações seguintes. Corrija as falsas. da Maia era o responsável pelo
acampamento.
a. A Viagem Medieval em Santa Maria da Feira é um acontecimento que, anual- c. V
mente, reconstitui o reinado de D. Afonso IV. d. V
e. F – Há voluntários, como
b. Um dos acontecimentos retratados nesta Viagem Medieval diz respeito ao o caso da entrevistada, que
acampamento cedido por João da Maia a um conjunto de fidalgos e de militares. participam pela primeira vez
no espetáculo.
c. Durante o espetáculo, assiste-se à simulação de um ataque ao acampamento f. V
3.
conduzido por mercenários. a. jornalístico
d. O assalto ao acampamento tem-se revelado como um dos pontos altos da Via- b. informar
c. atualidade
gem Medieval. d. profunda
e. local
e. Os voluntários têm, todos eles, grande experiência de participação nestes espe- f. depoimentos
táculo. g. intervenientes

f. Apesar de voluntários, estes intervenientes tiveram formação técnica.

3. Sistematize as marcas próprias deste género jornalístico, selecionando a opção


que lhe permite obtê-las.
A reportagem é um género a. (jornalístico/literário), cuja finalidade é
b. (deleitar/informar) o público sobre um acontecimento do(a) c. (atua-
lidade/passado) com interesse mediático. Trata, normalmente, a informação de uma for-
ma mais d. (superficial/profunda), cobrindo um evento e. (local/interna-
cional), recorrendo a f. (depoimentos/memórias) de vários g. (escritores/
intervenientes).

BLOCO INFORMATIVO – p. 283

19
Po es i a Trova d o resca

LEITURA
Leia o texto a seguir apresentado.

Feiras medievais
As feiras medievais correspondiam a uma das institui-
ções mais curiosas do período medieval; a sua função
económica consistia fundamentalmente na localização,
em prazos e termos determinados, de produtores, consu-
5 midores e distribuidores, corrigindo assim a falta de comu-
nicações fáceis e rápidas.
Quase todas as feiras se realizavam em épocas relacio-
nadas com festas da Igreja: no local onde se faziam existia
uma paz especial, a paz de feira, que proibia toda a dispu-
10 ta ou vingança, ou todo o ato de hostilidade, sob penas
severas em caso de transgressão.
Feira medieval de Lendit, in Grandes Crónicas de França, Jean Fouquet,
A primeira menção duma feira portuguesa nitidamen- século XIV.
te diferente do mercado local é a que vem registada 20 Entre os privilégios que mais favoreceram o desenvol-
no Foral de Castelo Mendo, de 1229, e que se realizava vimento das feiras, cumpre mencionar o que isentava os
15 três vezes no ano e durante oito dias de cada vez. Todos feirantes do pagamento de direitos fiscais (portagens e
os que a ela acorressem, tanto nacionais como estrangei- costumagens). Às que usufruíam desta regalia deu-se o
ros, teriam segurança desde oito dias antes até oito dias nome de feiras francas.
depois da feira, na ida e na volta, contra qualquer respon- in http://concelho-sernancelhe.planetaclix.pt/Feira_Aquilinia-
sabilidade civil ou criminal que pesasse sobre eles. na-2004-03.html (adaptado, consultado em fevereiro de 2017).

1. Selecione a opção correta.


PROFESSOR
1.1 O objetivo principal deste texto é
Leitura
7.1; 7.2; 7.4; 8.1 [A] transmitir informação. [C] expressar uma opinião.
[B] apresentar um ponto de vista. [D] apresentar um conjunto de sugestões.
1.1 [A]
1.2 [C]
1.3 [D] 1.2 O texto é predominantemente
1.4 [C]
1.5 [D] [A] narrativo. [C] expositivo.
[B] argumentativo. [D] conversacional.

1.3 O texto apresenta marcas de


[A] discurso pessoal. [C] clareza e subjetividade.
[B] lirismo. [D] clareza e objetividade.

1.4 O texto apresenta uma linguagem predominantemente


[A] conotativa. [C] denotativa.
[B] metafórica. [D] simbólica.

1.5 Pelas características atrás identificadas, podemos concluir que estamos perante
[A] uma síntese. [C] um texto de opinião.
[B] um texto de apreciação crítica. [D] um texto expositivo.

20
LEITURA
Leia o texto de apreciação crítica abaixo e responda, de seguida, aos itens apresen-
tados.

1
Pela liberdade, na Idade Média trevas, escuridão; estado de
completa ignorância
2
afirmar ou crer em algo como
O Nome
Nome
o
om da Ro
Rosa,
osa,
sa de
e Umb
Umberto
m ert
mb rto
o Eco,
Eco, Li
Lisboa:
isbo
sboa:
a: Dif
D
Di
Difel,
el, 2004,
20
004,
04 50
506
6ppp.
p
p. sendo verdadeiro e indiscutível
Este foi o romance que deu a conhecer
Umberto Eco ao grande público, constituin-
do um enorme êxito de vendas em Portugal
desde que foi publicado pela primeira vez,
5 e continua ainda a ser uma obra bastante
popular. E não é de espantar: escrito com
imenso humor, o romance dá-nos a conhe-
cer de uma forma expressiva o que era viver
num mosteiro medieval.
10 O tema central do romance e a liberdade
de estudo e de ensino, a livre circulação do
conhecimento. [Numa época] mergulhada em obscurantismo1 durante séculos, os mos-
teiros cristãos constituíam fortalezas onde o conhecimento era preservado com imensas
dificuldades. Dado a inexistência da imprensa, os livros tinham de ser copiados à mão por
15 monges dedicados; em consequência, os livros eram bastante raros e de difícil acesso. […]
Evidentemente, havia outros obstáculos à livre circulação do conhecimento, na Idade
Média, além do problema tecnológico de não existir ainda a imprensa. Um dos mais impor-
tantes, tema central deste livro, era o dogmatismo2 religioso, que encarava o conhecimento
como potencialmente perigoso. O romance de Umberto Eco apresenta-se como um livro
20 de detetives: uma série de misteriosas mortes afetam um mosteiro e o protagonista tem
por missão descobrir a verdade, um pouco ao estilo de Sherlock Holmes. […] Entretanto,
o leitor fica preso da primeira à última página, precisamente para saber como se resolve o PROFESSOR
mistério. […]
Leitura
A imaginação fervilhante do autor acaba por vezes por ser labiríntica, levando a que 7.1; 7.2; 8.1
25 quase se perca o fio da história. Mas a bondosa relação do protagonista com o seu discípu-
lo, a sua defesa da racionalidade límpida e sem cedências, a oposição ao dogmatismo que a. O Nome da Rosa,
procurava fazer paralisar o conhecimento – todos estes elementos fazem deste romance de Umberto Eco.
b. Idade Média, mosteiro
uma experiência inesquecível. medieval.
c. Os livros eram raros e
Desidério Murcho, in http://criticanarede.com/lds_nomedarosa.html de difícil acesso; inexistência
(consultado em janeiro de 2015, adaptado). da imprensa; falta de
circulação do conhecimento,
dogmatismo religioso, que
encarava o conhecimento,
1. O autor deste artigo faz uma apreciação crítica de uma obra. Complete os tópicos como potencialmente
perigoso.
que se seguem com dados do texto. 2. “os mosteiros cristãos
a. Titulo da obra e autor constituíam fortalezas
onde o conhecimento era
b. Época e local onde decorre a ação preservado”; “os livros
tinham de ser copiados à
c. Duas características da época retratada mão por monges dedicados”;
“dogmatismo que
procurava fazer paralisar
1. O Nome da Rosa revela o papel do clero na reprodução de livros e na divulgação de o conhecimento”
conhecimento. Comprove a afirmação com exemplos textuais.

21
Po es i a Trova d o resca
PARA DESENVOLVER

PROFESSOR INFORMAR
Leitura/Educação
Literária Leia os tópicos apresentados abaixo e resolva a atividade proposta na página seguinte.
8.1; 15.1

TEXTO A
Apresentação
Poesia trovadoresca –
A poesia trovadoresca
Contextualização
histórico-literária
• A poesia galego-portuguesa é um marco relevante na Idade Média Europeia.

• Está compilada em três grandes cancioneiros profanos – Cancioneiro da Ajuda


(CA); Cancioneiro da Biblioteca Nacional (CBN) e Cancioneiro da Vaticana (CV).

• É, inicialmente, da autoria dos trovadores (trobadors) provençais, que adotam


como língua literária a língua d’oc, sendo Guilherme, IX Duque da Aquitania e VII
Conde de Poitiers (1071-1127), o primeiro trovador de que há notícia.

• Nascida na corte requintada da Provença (sul de França), é a poesia da fin’amors


(um amor puro, idealizado e fiel).

• Espalha-se pela Europa, para as cortes do Norte da França, Inglaterra, Sicília, Itá-
lia, Alemanha, atravessa os Pirenéus, fixa-se na Catalunha e no reino de Aragão
e atinge a região galego-portuguesa (século XII), onde se encontra e entrecruza
com uma poesia indígena (nativa).

• É do encontro de duas linhas poéticas, uma estrangeira, refletida nos cantares


de amor, a outra peninsular (indígena), espelhada nas cantigas de amigo (e
também nas cantigas de natureza satírica), que resultam as composições reu-
nidas nos três cancioneiros profanos referidos acima.
Elaborado com base em Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa.
A Idade Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, pp. 99-100.

TEXTO B
Cantiga
• O termo cantiga é de uso geral na Arte de Trovar do Cancioneiro da Bibliote-
ca Nacional de Lisboa, utilizando-se também o termo cantar com o mesmo
significado.

• As cantigas ou cantares são composições constituídas por letra e música, es-


tando estas interligadas.
Manuscrito
do Cancioneiro da Ajuda, séc XIII. • Apresentam quatro tipos de classificação (géneros): cantigas de amor e can-
tigas de amigo, de conteúdo amoroso, e cantigas de escárnio e cantigas de
maldizer, de conteúdo satírico e burlesco.
Elaborado com base em Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org. e coord.),
Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, trad. José Colaço
Barreiros e Artur Guerra, Lisboa, Editorial Caminho, 1993, pp. 132-133.

22
TEXTO C
Os agentes difusores da poesia trovadoresca
Trovadores, jograis e jogralesas ou soldadeiras dão vida à arte de trobar, princi-
palmente nas cortes e nas casas dos grandes senhores, mas também na praça, para
um público mais vasto e de outra condição social.
• O trovador é um nobre que compõe os seus textos e que apenas os executa por
um prazer pessoal ou por um ato de galanteria para com as damas.
• O jogral é executante, difusor de textos alheios e próprios.
• A jogralesa trabalha ao lado do jogral, dançando e cantando, ao som de instru-
mentos por ele tangidos, ou tocando ela própria.
Elaborado a partir de Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa.
A Idade Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, pp. 102-103.

1. Associe cada elemento da coluna A ao da coluna B que lhe completa o sentido.


PROFESSOR

Coluna A Coluna B 1.
[1] acompanhava o jogral, executando um [A] – [3]
[A] A lírica trovadoresca
instrumento e dançando. [B] – [5]
[B] Esta arte de trovar, posteriormente, [2] cantavam e tocavam em praças [C] – [9]
públicas, para o povo. [D] – [7]
[C] O cantar de amor provençal [E] – [10]
[3] teve origem na Provença. [F] – [8]
[D] O trovador, de origem nobre, [G] – [12]
[4] abordam o tema do amor. [H] – [4]
[E] O jogral [5] espalhou-se pelas cortes e grandes [I] – [11]
casas senhoriais europeias. [J] – [1]
[F] As cantigas características da lírica [k] – [6]
trovadoresca [6] é francês (da Provença). [L] – [13]
[M] – [2]
[G] A cantiga de amigo [7] compunha a letra e a música das
cantigas que também executava.
[H] Os cantares de amor e de amigo 2.
[8] encontram-se reunidas em três a. peninsular/indígena
cancioneiros profanos.
[I] A sátira e a crítica a costumes b. amoroso
e personagens [9] chegou, finalmente, ao noroeste c. amor
peninsular no século XII. d. provençal
[J] A jogralesa e. escárnio
[10]tocava, acompanhando o trovador.
f. satírico
[K] O primeiro trovador de que há registo
[11] estão presentes nas cantigas de g. peninsular/indígena
[L] O público a quem se destinavam estas escárnio e de maldizer.
composições poéticas [12] é de origem peninsular.
[M] Para além das cortes e das casas
senhoriais, os trovadores e os jograis [13] é a nobreza.

2. Complete as seguintes frases.


A cantiga de amigo é de origem a. e o seu conteúdo é de tema b. ,
à semelhança da cantiga de c. , que, no entanto, é de origem d. .
Já as cantigas de e. e de maldizer são de conteúdo f. e de origem
g. .

23
Po es i a Trova d o resca

EXPRESSÃO ORAL
Observe a imagem apresentada e leia, de seguida, o trecho de Arte de Trovar.

PROFESSOR

Oralidade E porque algunas cantigas i ha em


1.1; 1.4; 4.1; 4.2; 4.3; que falam eles […]
5.3; 5.4
é bem de entenderdes se
1. Os alunos podem focar som d’amor […]
vários aspetos: CBN, Arte de Trovar, IV, in Aida Fernanda Dias,
– presença de uma jogralesa,
História crítica da literatura portuguesa. A Idade
de um jogral: ambiente cortês,
palaciano, a execução musical Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, p. 147.
de uma cantiga; um nobre que Iluminura do cancioneiro da
assiste ao “concerto”; ajuda (nobre, bailadeira com
– cantiga de amor. castanholas, jogral com saltério
trapezoidal).

1. Exponha, agora, oralmente, num discurso de 2-3 minutos:

• três aspetos presentes na imagem que se relacionem com as características da poe-


sia trovadoresca (vide pp. 22-23);
• o tipo de cantiga que poderia estar a ser interpretada.

INFORMAR

Leia atentamente o texto que se segue e responda ao questionário da página seguinte.

A figura feminina nas cantigas de amor


No centro desta manifestação cultural poético-musical, e logo desde a primeira
metade do século XIII […], o lugar de destaque é ocupado por uma mulher à qual
são atribuídas as mais altas qualidades […]. Com efeito, a mulher cantada pelo
trovador é apenas a “senhor fremosa”, a de “melhor falar e parecer”, a de “melhor
5 semelhar”, a “senhor ben talhada”, ou, nos casos mais palavrosos, a de “bon prez1,
bem falar, bon sen2 e parecer” e também a “mais mansa e de mui melhor doairo3
e melhor talhada”. Simples constatação de uma sobrevalorização onde a pobreza
do vocabulário é notória […].
Perante a figura de uma mulher assim delineada, o trovador coloca-se numa
10 postura submissa, semelhante à do vassalo perante o seu senhor […]. Definidas à
partida as respetivas posições, o homem dá largas à sua voz cantando o seu esta-
do de infelicidade amorosa, iniciado no momento em que a viu pela primeira vez
e prolongado pelos sinais da não correspondência por parte da dama, temendo
1 que ela o repudie e obrigue a afastar-se assim que se inteirar da sua inclinação
virtude, honra
2
senso, razão, juízo 15 amorosa, e desejando por fim apenas ficar junto dela para a ver, para lhe falar, ou
3 tão-somente ouvir a sua voz.
elegância, graça
António Resende de Oliveira, O trovador galego-português e o seu mundo,
Lisboa, Editorial Notícias, 2001, pp. 23-24.

24
Cantigas de amor

1. Complete as frases, estabelecendo as relações corretas entre os elementos da co- PROFESSOR


luna A e os da coluna B.
Leitura/Educação
Literária
Coluna A Coluna B 7.1; 7.4; 8.1; 8.2; 15.1; 16.1

[A] Com a expressão “manifestação cultural [1] que os trovadores são formalmente 1.
poético-musical” (l. 1), o enunciador pouco originais na construção do retrato [A] – [4]
refere-se feminino. [B] – [5]
[B] A mulher elogiada nas cantigas de amor [2] de não ser correspondido pela amada, [C] –[3]
[D] – [6]
contentando-se apenas em estar na sua
[C] Com a expressão “melhor falar e [E] – [1]
presença.
parecer” (l. 4), [F] – [2]
[3] o trovador caracteriza a mulher como
[D] Ao descrever a dama com a expressão sendo culta e bela. 2.
“bon sen” (l. 6), a. amoroso
[4] à cantiga de amor.
[E] Ao mencionar “a pobreza do vocabulário”, b. mulher
(ll. 7-8), o enunciador pretende realçar c. indiferença
[5] é a “senhor” e pertence à nobreza.
d. submisso
[F] A partir do segundo parágrafo, o autor
e. vassalo
pretende salientar o facto de, na cantiga [6] o trovador valoriza as qualidades morais
f. angustiado/atormentado
de amor, o sujeito poético ter receio da figura feminina.
g. correspondência
h. senhor
i. dama
2. Complete o quadro abaixo, tendo em conta a informação veiculada pelo texto lido j. idealizada
e a atividade anterior. k. qualidades
l. psicológicas

Cantigas de Amor

Principais Caracterização Caracterização


linhas temáticas do sujeito poético da figura feminina

• Sofrimento a. É d. , com É uma i. altiva,


va,
causado pela visão da um comportamento distante, extremamente nte
b. , pela sua semelhante ao de um j. , a quem são ão
c. ou pela e. face ao atribuídas as mais ais
possibilidade de rejeição. seu senhor, totalmente altas k. físicas,
as,
• Elogio superlativado da dependente da amada l. e sociais.
ais.
amada. e que, por isso, vive
f. ,
temendo a não
g. amorosa
ou a indiferença da sua
“h. ”.

25
P ao de sr ei a ATnrtoóvnai do o Vr ei es icraa

E S C R I TA

TEXTO EXPOSITIVO (EXPOSIÇÃO SOBRE UM TEMA)


Leia o seguinte texto e atente nas passagens destacadas e nas ideias-chave.

Título
Delimita o tema com A sociedade portuguesa no século XIII
objetividade.
A sociedade portuguesa do século XIII é formada por três grupos, com direitos e
1.O Parágrafo
Introdução deveres diferentes: a nobreza, o clero (grupos privilegiados) e o povo, o grupo mais
Identificação e desfavorecido, que executava todo o tipo de trabalho e pagava impostos.
caracterização do objeto.
2.O Parágrafo A nobreza tinha sobretudo funções guerreiras. Participava com os seus exércitos
Desenvolvimento 5 na Reconquista, ao lado do rei, recebendo em troca rendas e terras.
Nobreza (tópico 1):
Atividade dominante. O senhorio era pois a propriedade de um nobre na qual viviam camponeses
livres e servos. […] O senhor tinha grandes poderes sobre quem vivia no senho-
rio: cobrar impostos, fazer justiça, ter um exército privado... Quando não estava em
3.O Parágrafo –
Nobreza guerra, o senhor nobre dedicava-se a dirigir o senhorio e a praticar exercícios físicos
Direitos e privilégios; 10 e militares. Organizava festas e convívios onde, para além do banquete, se tocava,
atividades lúdicas
(desportivas e culturais). cantava e dançava. Estas festas eram animadas por trovadores e jograis. Jogava-se
xadrez, cartas e dados.
4.O Parágrafo Tal como a nobreza, o clero era um grupo social privilegiado. Tinha a função
Clero (tópico 2)
Função principal, direitos
de prestar assistência religiosa às populações. Tinha grandes propriedades que lhe
e privilégios. 15 haviam sido doadas pelo rei ou por particulares e não pagava impostos. Tal como a
nobreza, exercia a justiça e cobrava impostos a quem vivia nas suas terras. […]

5.O Parágrafo No mosteiro, para além de cumprirem as regras impostas pela ordem a que per-
Clero tenciam, os monges dedicavam-se ao ensino, à cópia e feitura de livros, à assistên-
A vida nas ordens cia a doentes e peregrinos. Em algumas ordens religiosas, os monges dedicavam-se
religiosas e outras
funções (didáticas, 20 também ao trabalho agrícola nas terras do mosteiro. Noutras, eram militares, tendo
culturais, médicas combatido contra os Mouros.
e bélicas).
A maioria dos camponeses vivia nos senhorios, trabalhava muitas horas, de sol a
6.O Parágrafo sol, e de forma muito dura. Do que estes produziam, uma grande parte era entregue
Povo (tópico 3) ao senhor, como renda. Deviam ainda prestar-lhe outros serviços, como a reparação
Atividade principal,
deveres, formas
25 das muralhas do castelo, próximo do qual viviam, em aldeias. Moravam em casas
e condições de vida pequenas, de madeira ou pedra, com chão de terra batida e telhados de colmo. Estas
precárias.
casas tinham apenas uma divisão. […]
Enquanto trabalhavam, também cantavam. Celebravam-se em todo o país as
7.O Parágrafo
Povo grandes festas religiosas que incluíam o repicar dos sinos, as procissões, as feiras,
Atividades religiosas 30 as refeições coletivas e os bailes. Depois da missa, ou da procissão, dançava-se e
e lúdicas em que
participava ativamente
cantava-se nos terreiros das igrejas onde também se realizavam vendas. Por vezes,
ou como assistente. a plebe podia assistir a alguns espetáculos que os nobres organizavam. Os mais
frequentes eram as competições militares.
Concluímos assim que, durante o século XIII, a sociedade portuguesa se encon-
8.O Parágrafo
Conclusão
35 trava dividida em classes, que possuíam mais ou menos privilégios. Esta hierarqui-
Hierarquização da zação condicionou as ocupações e os divertimentos dos diferentes grupos, tendo
sociedade medieval
tido a guerra e as expedições militares uma forte influência nesta estruturação.
e a influência da guerra
nesta organização social. in http://hgp5.blogs.sapo.pt/998.html (texto adaptado, consultado em dezembro de 2016).

26
Cantigas de amor

O texto expositivo assume um caráter demonstrativo, configurando uma elucidação/ PROFESSOR


explicação sobre um(a) tema/ideia, apresentando objetividade e concisão.
Sugestões de filmes, cuja
Para escrever um texto deste género, deverá atentar em algumas orientações nas três intriga se passa na época
fases essenciais: (1) fase preparatória, (2) fase da redação e (3) fase da revisão. medieval:
O reino dos céus, Ridley Scott;
Robin Hood, Ridley Scott;
COMO ESCREVER UM TEXTO EXPOSITIVO O Físico, Philipp Stölzl;
O Nome da Rosa, Jean-
1. Fase preparatória -Jacques-Annaud.

• escolher um tema sobre o qual exista informação pertinente, de modo a selecionar


um aspeto específico; Guiões de visionamento
de filmes
• pesquisar informação e selecionar adequadamente fontes, considerando o seu grau
de confiabilidade, como por exemplo livros e textos críticos de autores com provas Escrita
dadas, jornais e revistas com credibilidade; 10.1; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3;
12.4
• colocar notas nas fontes usadas bem como registar as datas e as estatísticas para
comprovar os dados e anotar os dados bibliográficos; Tópicos de resposta:
• selecionar os aspetos a contemplar no texto; Introdução:
- Localização temporal da
• planificar o texto, organizando os tópicos selecionados. Idade Média (séculos V a XV).
- Estratificação social –
divisão da sociedade em
2. Fase da redação classes, que apresentavam
bastantes diferenças ao nível
• identificar o assunto/a ideia que vai ser explorada, no primeiro parágrafo; das atividades lúdicas.
• organizar sequencialmente os dados recolhidos e selecionados; Desenvolvimento:
- Nobreza: torneios, caça,
• exemplificar/justificar os aspetos registados; festas nos castelos com
a presença de músicos e
• empregar corretamente os conectores do discurso; dançarinos, serões na corte.
- Clero: participava em muitas
• indicar corretamente as citações e/ou as fontes utilizadas. das atividades lúdicas da
nobreza.
3. Fase da revisão - Povo: a dança, a música,
romarias e festas populares.
• ler o texto elaborado para perceção da sua coerência interna e coesão textual; Conclusão: A importância
dos divertimentos na
• corrigir gralhas ao nível da ortografia, da acentuação e da pontuação; organização da sociedade
medieval: acentuação
• verificar a contemplação das orientações fornecidas (se as houver), nomeadamente da estratificação social,
ao nível do número de palavras requerido. contribuição para o
conhecimento da cultura e da
forma de viver medievais.

ESCREVER UM TEXTO EXPOSITIVO

Desde sempre, o ser humano procurou formas de se divertir.


Proceda a uma pesquisa e redija um texto expositivo, de 120 a 150 palavras, no qual
exponha os diferentes tipos de divertimentos característicos da Idade Média.
Siga o plano orientador que se apresenta.
• Introdução – contextualização temporal da Idade Média e breve caracterização
deste período.
• Desenvolvimento – demonstração dos diferentes tipos de divertimentos associa-
dos às diferentes classes sociais e a sua importância na organização da sociedade
medieval.
• Conclusão – síntese das principais ideias.
BLOCO INFORMATIVO – p. 283

27
Po es i a Trova d o resca
Cantigas de amor – A coita de amor e o elogio cortês

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

FIXAÇÃO DE TEXTO Leia a cantiga de amor de autoria do rei D. Dinis.


As composições
poéticas têm como
fixação de texto: Quer'eu em maneira de proençal
Elsa Gonçalves
(apresentação crítica,
seleção, notas
Quer’eu em maneira de proençal1 DOM DINIS
1261-1325
e sugestões para análise fazer agora um cantar2 d’amor,
Para além de ter reinado
literária) e querrei3 muit’i4 loar5 mia senhor6 durante 46 anos, foi o poe-
e Maria Ana Ramos
(critérios de transcrição, a que7 prez8 nem fremosura nom fal9, ta medieval mais fecundo.
Temos hoje conhecimen-
nota linguística 5 nem bondade; e mais vos direi ém10; to de 137 cantigas da sua
e glossário), A lírica
galego-portuguesa,
tanto a fez Deus comprida de bem11 autoria: 73 de amor, 54 de
amigo e 10 de maldizer.
Lisboa, Editorial que mais que todas las do mundo val.
Comunicação, 1983.
Excetuam-se as
composições das
Ca12 mia senhor quizo13 Deus fazer tal,
páginas 30 (cantiga B), quando a fez, que a fez sabedor14
37 e 40, que têm como 10 de todo bem e de mui gram valor,
fixação de texto:
Mercedes Brea (coord.); e com tod’est[o]15 é mui comunal16
Lírica profana galego- ali u deve17; er18 deu-lhi bom sém19,
-portuguesa, vols. I e II,
Santiago de Compostela,
e desi20 nom lhi fez pouco de bem
Xunta de Galicia, 1996. quando nom quis que lh’outra foss’igual.

15 Ca em mia senhor nunca Deus pôs mal,


mais21 pôs i prez e beldad’e loor22
e falar mui bem, e riir melhor
que outra molher; desi é leal
PROFESSOR
muit’, e por esto nom sei oj’eu quem
Educação Literária 20 possa compridamente23 no seu bem
14.2; 14.3; 14.4; 14.7; falar, ca nom á, tra-lo24 seu bem, al25.
14.8; 15.1; 16.1
Dom Dinis, B 520/V 123.
1. O elogio da dama à maneira
provençal "e querrei muit'i
loar mia senhor" (v. 3). 1
em maneira de proençal: à maneira dos provençais; 2 cantiga; 3 quererei; 4 aí, nela, isto é, na cantiga;
2. Características físicas: 5
louvar; 6 mia senhor: forma comum com que o trovador se dirige à mulher amada. No galaico-português,
a. bela − “mais pôs i prez
e beldad’e loor” (v. 16). era uma palavra uniforme; 7 a que: à qual, a quem; 8 virtude, honra, mérito; 9 falta; 10 dela, isto é, da
Características “mia senhor”; 11 tanto a fez Deus comprida de bem: Deus fê-la perfeita; 12 porque; 13 quis; 14 sabedora;
15
psicológicas: e com tod'est[o]: e apesar de tudo isto; 16 sociável, afável; 17 ali u deve: quando deve [sê-lo];
18
b. honrada − “a que prez […] também, ainda; 19 juízo, senso; 20 desi: além disso; 21 mas; 22 louvor; 23 perfeitamente, cabalmente;
nom fal” (v. 4). c. bondosa − 24
“a que prez nem fremosura além de; 25 outra coisa.
nom fal, / nem bondade”
(vv. 4-5). d. virtuosa − “tanto 1. Identifique o tema desta cantiga, apresentando o verso que o indica explicitamente.
a fez Deus comprida de bem”
(v. 6). e. valorosa − “e de mui
2. Apresente os atributos da mulher celebrada nesta cantiga, completando a tabela
gram valor” (v. 10). f. sociável
− “e com tod’est[o] é mui seguinte.
comunal / ali u deve” (vv. 11-12).
g. sensata − “er deu-lhi bom Características físicas Características psicológicas
sém" (v. 12).
Formosa — "a que […] nem fremosura nom fal" b. e.
3. O trovador evidencia as
qualidades morais da mulher, a. c. f.
como forma de a destacar
de todas as outras e de a d. g.
apresentar como muito
superior a ele próprio.
3. Indique o tipo de características destacadas pelo trovador, justificando a sua intenção.

28
Cantigas de amor

4. Complete o texto abaixo com os vocábulos propostos, de modo a dar conta de uma PROFESSOR
breve análise da presente cantiga.
4.
a. morais
• divinização • psicológico • ideal • superioridade
b. comparação
• morais • Deus • perfeita • comparação • enumeração c. enumeração
d. ideal
e. psicológico
O trovador evidencia as qualidades a. da mulher, utilizando para isso vários f. perfeita
g. superioridade
recursos expressivos, tais como a b. , a hipérbole, “tanto a fez Deus comprida h. Deus
de bem / que mais que todas las do mundo val.” (vv. 6-7), e a c. ,“… prez e beldad’e i. divinização
loor” (v. 16). Assim, é clara a sobrevalorização da amada não só por ser descrita como
Escrita
a mulher d. quer a nível físico quer a nível e. , mas também como a 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4
dama mais f. entre todas as existentes no mundo, característica explicitada
no final de cada cobla: “que mais que todas las do mundo val”; “quando nom quis Proposta de resolução:
que lh’outra foss’igual”; “ca nom a, tra-lo seu bem, al”. O sujeito poético enviou à sua
amada um cartão tipografado,
A referência a Deus é outra forma de destacar a g. da mulher, cuja perfei- com duas respostas possíveis
(não e sim). Como não resultou,
ção depende da vontade de h. . Por essa razão, todos os seus atributos são insistiu, enviando recado por
apresentados como uma dádiva divina, o que contribui para a sua i. . intermediário (a Zefa do Sete),
em que suplicava o amor da
amada. Também procurou a
avó Chica, uma conceituada
E S C R I TA feiticeira, para que fizesse um
feitiço “bem forte e seguro”;
1. Leia atentamente as seguintes estrofes do poema “Namoro”, de Viriato Cruz, que no entanto, o feitiço falhou.
Enfim, a amada negou sempre
dão conta de um amor não correspondido na época atual. o seu pedido, chegando
mesmo a troçar do sujeito
poético, em conversa com
[…] as amigas, no baile.
Mandei-lhe um cartão Esperei-a de tarde, à porta da fábrica, (80 palavras)
que o Maninjo tipografou: ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
"Por ti sofre o meu coração" paguei-lhe doces na calçada da Missão,
Num canto – sim, noutro canto – não ficamos num banco do largo da Estátua,
5 E ela o canto do não dobrou. 20 afaguei-lhe as mãos...

falei-lhe de amor... e ela disse que não.


Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão […]
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia, E para me distrair
me desse a ventura do seu namoro... levaram-me ao baile do sô Januário
10 E ela disse que não. mas ela lá estava num canto a rir
25 contando o meu caso às moças mais lindas

Levei à avó Chica, quimbanda1 de fama do bairro operário.


a areia da marca que o seu pé deixou […]
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu... Viriato Cruz, No reino de Caliban II,
Antologia panorâmica de poesia africana de expressão
15 E o feitiço falhou. portuguesa, vol. 2, Lisboa, Seara Nova, 1976.

1.1 Escreva um pequeno texto expositivo de 70 a 100 palavras. Observa os tópicos e 1


o que tem todo conhecimento
a estrutura apresentados. do mundo astral, inclusive da
• introdução – indicação do tema; magia negra, e que pode ajudar
a fazer o bem.
• desenvolvimento – enumeração de três estratégias implementadas pelo sujeito
poético para conquistar a sua amada; a reação da jovem ao seu pedido e a atitu-
de da jovem no baile;
• conclusão – referência ao modo como terminou a relação amorosa.

29
Po es i a Trova d o resca
Cantigas de amor – A coita de amor e o elogio cortês

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia as duas cantigas apresentadas.

CANTIGA A
Se eu pudesse desamar
Se eu pudesse desamar
a quem me sempre desamou,
e pudess’algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
5 Assi me vingaria eu,
se eu podesse coita1 dar,
a quem me sempre coita deu.

Mais sol nom2 posso eu enganar


meu coraçom que m’enganou,
10 por quanto me fez desejar
a quem me nunca desejou.
E per esto3 nom dormio4 eu, CANTIGA B
porque nom poss’eu coita dar, Que soidade de mha senhor ei
a quem me sempre coita deu.
Que soidade1 de mha senhor ei2
15 Mais rog’a Deus que desampar 5 quando me nembra3 d’ela qual a vi,
a quem m’assi desamparou, e que me nembra que bem a oi4
vel6 que podess’eu destorvar7 falar; e por quanto bem d’ela sei,
a quem me sempre destorvou. 5 rogu’eu a Deus que end’a o poder5,
E logo dormiria eu, que mh a leixe6, se lhi prouguer7, veer
20 se eu podesse coita dar,
a quem me sempre coita deu. Cedo; ca8 pero9 mi nunca fez bem10,
se a nom vir, nom me posso guardar11
Vel8 que ousass’eu preguntar d’ensandecer12 ou morrer com pesar13;
a quem me nunca preguntou 10 e porque ela tod’em poder tem,
por que me fez em si cuidar9, rogu’eu a Deus que end’a o poder
25 pois ela nunca em mim cuidou. que mh a leixe, se lhi prouguer, veer
E por esto lazeiro10 eu,
porque nom poss'eu coita dar, Cedo; ca tal fez nostro senhor,
a quem me sempre coita deu. de quantas outras no mundo som
Pero da Ponte, A 289/B 980/V 567.
15 nom lhi fez par14, a la minha fe15, nom;
e poi-la fez das melhores melhor,
1
sofrimento causado pelo amor; 2 sol nom: nem mesmo; rogu’eu a Deus que end’a o poder
3
E por esto: e por isto, e por causa disto; 4 durmo; que mh a leixe, se lhi prouguer, veer
5
desampare, abandone; 6 ou, ao menos; 7 estorvar,
perturbar; 8 pelo menos; 9 pensar; 10 lastimo-me, Cedo; ca tal a quizo16 Deus fazer,
lamento-me
20 que se a nom vir, nom posso viver.
PROFESSOR
Dom Dinis, B 526/V 119.

1
saudade; 2 tenho; 3 lembra; 4 ouvi; 5 que end'a o poder: que tem
Áudio – “Se eu pudesse desamar” poder para isso; 6 deixe; 7 prouver, agradar; 8 porque; 9 mas; 10 nunca
Áudio – “Que soidade de mha senhor ei” fez bem: nunca correspondeu ao meu amor; 11 deixar; 12 enlouquecer;
13
desgosto; 14 igual; 15 a la minha fe: por minha fé; 16 quis.

30
Cantigas de amor

1. Proceda à análise temática e estilística das duas cantigas de amor, orientando-se PROFESSOR
pelos tópicos do quadro seguinte.
Ed. Literária/Gramática
14.1; 14.2; 14.3; 14.4;
"Se eu pudesse desamar" "Que soidade de mha senhor ei" 14.9; 16.1; 18,4
1. Cantiga A
a. Desejo de vingança por
parte do sujeito lírico em
Assunto a. a. relação à sua “senhor” pelo
facto de ela lhe causar um
enorme sofrimento amoroso
(coita de amor). b. A amada
mostra-se fria e indiferente
em relação ao sujeito lírico.
c. O sujeito lírico revela
Caracterização angústia, dor, desilusão e, ao
b. b.
da amada mesmo tempo, um sentimento
de revolta pela forma como a
sua “senhor” interage com ele.
d. O sujeito poético manifesta
vontade de se vingar do
Estado de sofrimento que lhe foi infligido
pela amada, retribuindo-lhe a
espírito do c. c. mesma dor que ele sente.
sujeito lírico e. Personificação: “meu
coraçom que m’enganou”;
repetição com variação na
palavra de rima: “desamar/
Atitude do desamou”.
sujeito lírico face d. d. Cantiga B
à amada a. Anseio do sujeito lírico em
ver a amada (saudade), sem a
qual não consegue viver.
b. A amada é caracterizada
como sendo eloquente e
Recursos poderosa; a melhor de todas
expressivos mais e. e. as existentes. c. O sujeito lírico
significativos revela estar completamente
apaixonado, dependente
da amada e desesperado,
por causa das saudades
que sente dela. d. Apesar
de ter consciência da não
GRAMÁTICA correspondência amorosa por
parte da sua “senhor”, o sujeito
poético manifesta vontade de
1. Na cantiga A, considere as palavras “desamar” (v. 1) e “desampar” (v. 15). a ver, já que, sem ela, acredita
que irá enlouquecer ou morrer
1.1 Identifique o prefixo de ambas as palavras e explicite o seu valor. por amor. e. Repetição (vv. 2-3);
hipérbole e comparação
(vv. 14-15); anáfora: “Cedo; ca”
2. Classifique as seguintes palavras quanto ao processo de formação e identifique nas estrofes 2 e 3.
a(s) respetiva(s) forma(s) de base, seguindo o modelo abaixo. Gramática
18.4; 19.6; 19.7
Modelo: desamar – palavra derivada por prefixação; forma de base: "amar".
1.1 Prefixo “des”. valor
a. desamparado de negação.
2. a. palavra derivada por
b. enlouquecer prefixação; forma de base
“amparado” (há mais hipóteses,
c. pesaroso dependentes da forma de
base); b. palavra derivada por
d. pinga-amor parassíntese; forma de base
“louco”; c. palavra derivada
e. invulgar por sufixação; forma de base
“pesar”; d. palavra composta
(palavra + palavra); formas
3. Indique o valor dos conectores sublinhados nos seguintes versos. de base “pinga” e “amor”;
e. palavra derivada por
“Se eu pudesse desamar / a quem sempre desamou”; “E per esto nom dormio eu, / prefixação; forma de base
porque não poss’eu coita dar, / a quem me sempre coita deu.”; “Que soidade de mha “vulgar”.
senhor ei / quando me nembra d ‘ela qual a vi,”

31
Po es i a Trova d o resca

PROFESSOR 4. Transforme as frases simples que se seguem em complexas, utilizando o conector


indicado entre parênteses e fazendo as alterações necessárias.
3. Se: valor condicional;
porque: valor causal; quando: a. O trovador pede ajuda a Deus. Deus mostrar-lhe-á a sua amada. (se)
valor temporal.
b. O trovador lembra-se da beleza da sua amada. O trovador sente muitas saudades
4. a. Se o trovador pedir ajuda
a Deus, Este mostrar-lhe-á da sua amada. (quando)
sua amada. b. Quando o
trovador se lembra da beleza c. O trovador revela a sua coita amorosa. A sua “senhor” não corresponde aos seus
da sua amada, sente saudades sentimentos. (porque)
dela. c. O trovador revela a sua
coita amorosa porque a sua d. A “senhor” das cantigas de amor é uma mulher inacessível. O trovador exprime o seu
“senhor” não corresponde aos
seus sentimentos. d. Embora a
amor por ela. (embora)
“senhor” das cantigas de amor
seja uma mulher inacessível,
5. Classifique as orações subordinadas nas frases seguintes.
o trovador exprime o seu amor
por ela. a. Caso o sujeito poético não veja a sua amada, enlouquecerá.
5. a. Caso o sujeito poético
não veja a sua amada – b. Como o trovador se considerava um vassalo da sua “senhor”, era visível nas cantigas
subordinada adverbial
condicional. b. Como o
de amor a superioridade da mulher.
trovador se considerava um c. Apesar de as cantigas de amor galaico-portuguesas se aproximarem das proven-
vassalo da sua “senhor” –
subordinada adverbial causal. çais, há entre elas aspetos distintos.
c. Apesar de as cantigas de
amor galaico-portuguesas se
aproximarem das provençais 6. Identifique as funções sintáticas desempenhadas pelos constituintes sublinhados:
– subordinada adverbial
concessiva. a. “a quem me sempre desamou” (v. 2)
6. a. Complemento direto; b. “e pudesse algum mal buscar” (v. 3)
b. Complemento direto;
c. Sujeiro; d. Sujeito. c. “meu coraçom que m’enganou” (v. 9)

Oralidade/Educação d. “E logo dormiria eu” (v. 19)


Literária
BLOCO INFORMATIVO – pp. 280-281,
1.5; 5.3; 6.1; 15.4; 16.2
264, 277, 271-273
1.
a. Quando amanheces, logo no ORALIDADE / EDUCAÇÃO LITERÁRIA
ar, / Se agita a luz sem querer";
"o dia vem devagar, / Para
te ver"; "joia de luz / entre as 1. Ouça atentamente a canção interpretada por
mulheres"; b. "E já rendido, Paulo Gonzo e Olavo Bilac, dois “trovadores”
ver-te chegar"; "Onde eu
queria entrar um dia, / P’ra me
do nosso tempo, e selecione:
perder"; "Ardo em ciúme desse a. duas expressões que revelem o elogio super-
jardim"; "Por minha cruz";
c. “jardins proibidos”; "Desse lativado da mulher amada;
outro mundo só teu".
b. duas expressões que evidenciem o estado
1.1.
Os alunos devem referir: de espírito do sujeito poético;
semelhanças temáticas entre “Jardins Proibidos”
c. uma expressão que sugira a inacessibilidade
a canção “Jardins Proibidos” e
as cantigas de amor da lírica da mulher amada.
trovadoresca, se atendermos
às expressões acima 1.1 Com base na informação presente nas alíneas anteriores e no estudo feito sobre
transcritas, que remetem a cantiga de amor, faça uma apresentação oral (5 a 7 minutos) sobre os seguin-
para o elogio superlativado
da mulher amada, para a sua tes aspetos:
inacessibilidade e para a coita
amorosa, isto é, o sofrimento • a relevância da cantiga de amor medieval no mundo contemporâneo;
amoroso do sujeito poético.
No fundo, a cantiga de amor • as semelhanças existentes entre o tema musical apresentado e este tipo de
da época medieval, ao nível cantiga.
do conteúdo, continua atual.

Link
“Jardins proibidos”

32
Cantigas de amor

LEITURA

Leia o seguinte texto referente a um concerto de um outro cantor português, Pedro


Abrunhosa, e responda às seguintes questões.

O poder, talvez
Por Valdemar Cruz

[…] Fui ao Coliseu na noite do passado sábado. Sala a


abarrotar de gente, tal como na véspera e na quinta-feira e
tal como se prevê que aconteça no próximo sábado no MEO
Arena em Lisboa.
5 Durante quase três horas e meia, Abrunhosa, por vezes
na companhia de mais dezassete pessoas, entre músicos
e cantores, fez uma arrasadora demonstração de como
o profissionalismo sem concessões, associado a uma pode- mundos estanques e não é possível viver numa redoma,
rosa e rara qualidade artística e estética, pode transformar alheio aos dilemas e dramas contemporâneos.
10 um palco no mais sedutor e improvável dos locais de culto, Num desses breves instantes resolveu pegar de frente
onde o olhar se derrama e o espanto se materializa. no modo como pode ser construído o futuro a partir de tão
Quem se deteve apenas no espaço cénico terá perdido 30 duro presente. Por isso optou por falar do silêncio. O silêncio
parte relevante do que de essencial se passava na sala duran- enquanto forma de desistência. O silêncio enquanto proces-
te aquela celebração acompanhada por muita gente a viver so de desencanto. O silêncio como metáfora do medo.
15 dias sofridos, gente marcada pelos perigosos desafios do […] Abrunhosa quis esconjurar o silêncio reinante na socie-
quotidiano, gente condicionada por ferretes inomináveis. Ainda dade. As vozes caladas têm de fazer-se ouvir, até porque o si-
assim houve festa. Percebeu-se o brilho em tantos olhares. Foi 35 lêncio gera o caos, disse. A frase tem impacto, é provocatória,
contagiante a adrenalina descarregada. Houve gritos imensos mas nem será o mais importante no contexto de uma canção
feitos metáforas de instantâneas libertações interiores. na qual se fala de bombas em Belfast e Beirute, de mortos na
20 Pedro conhece os anseios e angústias do público. Antes de Palestina e feridos em Israel, ou fascistas em Berlim e Moscovo.
mais por serem cidadãos do seu próprio país em sofrimento. Para quem ouvir para lá da superfície, não será difícil perceber
Como já há muito demonstrou não lhe interessar o estéril 40 que o que está em causa […] é, […] talvez, poder. E quem o
debate pela forma, ou da estética pela estética, o músico exerce. E o modo como o exerce. […]
não se exime de, nos seus concertos, num espaço que é, http://leitor.expresso.pt/library/expressodiario/05-02-2015
25 antes de mais, de celebração musical, mostrar como não há (consultado em fevereiro de 2015).

1. Tratando-se de uma apreciação crítica, o seu autor parte da apresentação do ob- PROFESSOR
jeto apreciado (um concerto), fazendo, depois, um comentário crítico do mesmo.
Ordene as seguintes afirmações, de acordo com a ordem sequencial do texto. Leitura
7.1; 7.4; 8.1
[A] O autor considera o espetáculo de Pedro Abrunhosa no Coliseu uma demons-
tração de profissionalismo e um momento de qualidade fora de comum. 1. [D]; [A]; [C]; [E]; [B]
[B] O autor evidencia a forma como o artista amaldiçoa o silêncio, valorizando a
palavra e a mensagem oculta que deve ser entendida na letra de uma canção.
[C] O autor descreve a reação emotiva do público e o envolvimento dos espetácu-
los do cantor na realidade social.
[D] O autor apresenta o objeto que vai ser alvo da sua apreciação crítica.
[E] O autor destaca o momento em que o cantor se refere ao silêncio como uma
forma de evidenciar a desilusão e o medo.

33
Po es i a Trova d o resca

INFORMAR

Leia os tópicos abaixo, a tabela e os textos e resolva a atividade proposta.

TEXTO A
Cantigas de amigo
• A cantiga de amigo é tematicamente semelhante à cantiga de amor – em
ambas o argumento essencial é, de facto, o amor não correspondido, causa de so-
frimento, de desconforto e, consequentemente, de lamento.
• A cantiga de amigo distingue-se da cantiga de amor a vários níveis, como se
pode verificar no quadro abaixo.

Aspetos
Cantiga de amigo Cantiga de amor
distintivos
Sujeito de Feminino: quando o poeta trovador finge Masculino: quando o poeta
enunciação que é a mulher a expor as suas próprias fala de si mesmo (de acordo
penas (de acordo com a Arte de Trovar). com a Arte de Trovar).

Condição social É uma jovem do povo, a donzela, “uma É nobre, a requintada


da mulher dona virgo” (virgem), aparentemente “senhor”, aristocraticamente
e respetiva simples e ingénua, sinceramente esquiva, distante,
caracterização apaixonada, vulnerável (frágil) a qualquer indiferente ao sofrimento
desilusão, mas sempre pronta a defender do sujeito poético.
e a lutar pelo seu amor.

Ambiente em Ambiente natural marítimo ou rural: Ambiente cortês


que se move o o mar, as árvores, a fonte, o cervo (veado),
sujeito poético o papagaio.

Destinatário A própria natureza é testemunha do A dona é o destinatário


da confissão sofrimento amoroso, interagindo, por vezes, preferencial do cantar
do sofrimento com a própria donzela. sofrido do sujeito poético.
amoroso O amigo é muitas vezes o recetor da donzela,
(confidentes) podendo dialogar com ela.
A mãe e as amigas confidentes são também
interlocutores da jovem.

TEXTO B
Paralelismo
• É um princípio estruturante dos textos poéticos, típico da poesia ao gosto po-
pular, em que se repetem segmentos textuais ou elementos temáticos.
• A grande maioria das cantigas de amigo (também muitas cantigas de amor, de
escárnio e de maldizer) apresenta estruturas paralelísticas, ocorrendo repetição lite-
ral (repetem os mesmos versos) ou sinonímica (apresentam expressões ou termos
de significado equivalente) de um ou mais versos de cada estrofe.
Elaborado com base em Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org. e coord.),
Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, trad. José Colaço Barreiros e Artur Guerra,
Lisboa, Editorial Caminho, 1993, pp. 135, 509 e 570-571.

34
Cantigas de amigo

TEXTO C
Refrão
As marcas gráficas que distinguem o início
do refrão nos manuscritos da lírica galego-por-
tuguesa parecem revelar a importância que era
atribuída ao refrão como elemento estruturante,
5 quando a lírica galego-portuguesa foi arquiva-
da por escrito. Sendo uma parte da cantiga que
se repete, o refrão aparece, nos testemunhos
referidos, abreviado a partir da segunda estrofe.
[…]
10 Do ponto de vista da versificação, o refrão
é vulgarmente definido como um conjunto de
versos com autonomia rimática que se repete
integralmente no fim de cada estrofe, com um
número de versos inferior ao do corpo da es-
15 trofe e cuja medida silábica é igual à dos res-
tantes versos da cobla. […]
Relativamente aos géneros, o refrão é mais
frequente entre as cantigas de amigo (443-87,8%) "Em gram coita, senhor", Dom Dinis,
B 506/V 89, Manuscrito do Cancioneiro
do que entre as cantigas de amor (380-52,4%) ou da Biblioteca Nacional.
20 entre as satíricas (134-31%).
Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org. e coord.),
Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa,
trad. José Colaço Barreiros e Artur Guerra, Lisboa,
Editorial Caminho, 1993, pp. 135, 509 e 570-571.

Atente no texto A
PROFESSOR
1. Assinale as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas, corrigindo as falsas.
Leitura / Educação
a. A cantiga de amigo e a cantiga de amor partilham o mesmo sujeito de enuncia- Literária
ção. 7.1; 7.4; 8.1; 14.8; 16.1

b. Tanto a cantiga de amigo como a de amor desenvolvem o tema do sofrimento


1.
amoroso.
a. F – Na cantiga de amigo, o
c. A donzela presente nas cantigas de amigo pertence a uma classe social elevada. sujeito é do sexo feminino; na
de amor é do sexo masculino.
d. O sujeito poético presente na cantiga de amigo pode ser caracterizado pela sua b. V
ingenuidade e pela paixão que sente pelo amigo. c. F – É uma jovem do povo.
d. V
e. Nas cantigas de amigo, a paisagem natural, para além de cenário onde a donzela
e. V
se move, é também sua confidente.
f. F – A maior parte das
f. As cantigas de amigo não apresentam paralelismo literal. cantigas de amigo apresenta
paralelismo literal.
g. O refrão é uma estrutura paralelística frequente nas cantigas de amigo. g. V
h. F – O refrão repete-se
h. O refrão é um conjunto de versos que se repete parcialmente a meio de cada integralmente no fim de cada
estrofe. estrofe.

35
Po es i a Trova d o resca
Variedade do sentimento amoroso – Relação com a Natureza

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia expressivamente, após preparação prévia, a cantiga que se segue.

Ai flores, ai flores do verde pino

− Ai flores, ai flores do verde pino1, [− Vós me preguntades polo voss’amigo,


se sabedes2 novas3 do meu amigo! e eu bem vos digo que é san’6 vivo:
Ai Deus, e u é4? 15 Ai Deus, e u é?]

Ai flores, ai flores do verde ramo, Vós me preguntades polo voss’amado,


5 se sabedes novas do meu amado! e eu bem vos digo que é viv’e sano.
PROFESSOR Ai Deus, e u é? Ai Deus, e u é?

Educação Literária Se sabedes novas do meu amigo, E eu bem vos digo que é san’e vivo
14.1; 14.2; 14.3; 14.4;
14.6; 14.7; 14.8; 14.9; aquel que mentiu do que pôs5 comigo! 20 e seera vosc’ant’o prazo saído7.
15.1; 16.1 Ai Deus, e u é? Ai Deus, e u é?
1. O sujeito da enunciação
dirige-se angustiadamente 10 Se sabedes novas do meu amado, E eu bem vos digo que é viv’e sano
às “flores de verde pino” para
saber novas do seu amigo aquel que mentiu do que mi á jurado! e seera vosc’ant’o prazo passado.
que tarda em chegar. Estas Ai Deus, e u é? Ai Deus, e u é?
respondem-lhe que ele está
bem e que em breve estará Dom Dinis, B 568/V 171.
junto dela.
2. A primeira parte é
1
constituída pelas quatro pinheiro; 2 sabeis (subentende-se dizei-me antes
primeiras estrofes, nas quais
de sabedes); 3 notícias; 4 e u é: e onde está?;
a donzela interroga “as flores 5
do verde pino”, no sentido de combinou; 6 são, saudável; 7 terminado.
saber se elas têm notícias do
seu amigo; a segunda parte
corresponde às restantes
estrofes, onde consta a
resposta dada pela Natureza,
que a sossega, pois o seu
amigo está vivo e em breve
estará junto dela.
3. Além da desilusão, é
evidente a angústia e o
desespero da donzela perante
a possibilidade de o amigo
faltar ao encontro combinado.
4. A Natureza funciona como
interlocutora confidente do
sujeito lírico.
5. A nível estrutural surge, por
exemplo, a repetição de “ Ai
flores, ai flores do verde pino”/ 1. Exponha o assunto da cantiga, identificando as vozes nela presentes.
“Ai flores, ai flores do verde
ramo” (em que se substitui
“pino” por “ramo”); Também 2. Proceda à divisão da cantiga em duas partes, justificando.
temos repetição dos versos
2 e 5, com a substituição de
“amigo” por “amado”. Há ainda 3. Descreva o estado de espírito do sujeito poético.
a repetição integral do 2º verso
da primeira estrofe que é o
1º verso da terceira. O refrão 4. Refira o papel desempenhado pela Natureza.
também é um exemplo de
paralelismo.
5. Retire da cantiga um exemplo de paralelismo.

36
Cantigas de amigo
Confidência amorosa

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia a cantiga de amigo apresentada.

Nom chegou, madr’, o meu amigo


Nom chegou, madr’1, o meu amigo,
e oj’est o prazo saido2.
Ai madre, moiro3 d’amor!

Nom chegou, madr’, o meu amado,


5 e oj’est o prazo passado.
Ai madre, moiro d’ amor!

E oj’est o prazo saido,


por que mentio o desmentido4.
Ai madre, moiro d’amor!

10 E oj’est o prazo passado,


por que mentio o perjurado5.
Ai madre, moiro d’amor!
1
mãe
2
Por que mentio o desmentido, e oj'est o prazo saido: e hoje
termina o prazo
pesa-mi6, pois per si é falido7. 3
morro
15 Ai madre, moiro d’amor! 4
falso, mentiroso
5
falso
6
Por que mentio o perjurado, causa-me pena, desgosto
7 PROFESSOR
pesa-mi, pois mentio a seu grado8. pois per si é falido: pois faltou
por sua livre vontade
Ai madre, moiro d’amor! 8
a seu grado: por sua vontade,
Dom Dinis, B 566/V 169. por gosto
Áudio
“Nom chegou, madr’,
o meu amigo”
1. Assinale os versos da cantiga que contêm as informações presentes nas afirma-
Educação Literária
ções seguintes. 14.2; 14.3; 14.4; 14.5;
14.7; 14.9; 15.1; 16.1
a. Presença de um vocativo que remete para o interlocutor e confidente do sujeito
poético.
1.
b. Expressão repetida de um sentimento amoroso intenso vivido pelo sujeito lírico. a. Versos 1, 4 ou refrão
b. Refrão (v.3)
c. Constatação, por parte do sujeito da enunciação, do incumprimento da promessa c. vv. 1 e 2
d. vv. 8 e 11
do amigo. e. v. 14
d. Apresentação do amigo como falso e mentiroso. 2. O sujeito poético confidencia
à sua mãe o amor que sente pelo
e. Desilusão da donzela face à possibilidade de o seu sentimento não ser correspon- seu amigo e a sua desilusão pelo
facto de aquele ter faltado ao
dido. encontro combinado, sentindo
a donzela que ele o fez de forma
2. Exponha o assunto da cantiga. deliberada, o que poderá revelar
que não é correspondida.
3. Transcreva o refrão desta composição poética. 3. “Ai madre, moiro d’amor!”
4. O recetor é a mãe.
4. Identifique o recetor do sujeito poético.

37
Po es i a Trova d o resca
Variedade do sentimento amoroso

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia a cantiga de amigo abaixo apresentada da autoria de Airas Nunes.

Bailemos nós já todas tres, ai amigas


Bailemos nós já todas tres, ai amigas,
so1 aquestas2 avelaneiras frolidas3,
e quem for velida4 como nós, velidas,
se amigo amar,
5 so aquestas avelaneiras frolidas
verra5 bailar.

Bailemos nós já todas tres, ai irmanas,


so aqueste ramo destas avelanas6,
e quem for louçana7 como nós, louçanas,
10 se amigo amar,
so aqueste8 ramo destas avelanas
verra bailar.

Por Deus, ai amigas, mentr’al nom fazemos9,


PROFESSOR so aqueste ramo frolido bailemos,
15 e quem bem parecer como nós parecemos,
se amigo amar,
Áudio so aqueste ramo so’l10 que nós bailemos
“Bailemos nós já todas
verra bailar.
tres, ai amigas”
Airas Nunes, clérigo, B 879/V 462.
Educação Literária
1
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; sob, debaixo de; 2 estas; 3 floridas; 4 bela, formosa; 5 virá; 6 avelãs; 7 louçã, bela; 8 este
14.7; 14.9; 15.1; 16.1 9
mentre (= enquanto) nom fazemos al (= não fazemos outra coisa); 10 so’l que: sob o qual.

1. A cantiga remete para um


cenário primaveril, de festa
e dança, que é visível nas 1. A cantiga remete para um ambiente festivo, de dança, na primavera. Justifi-
“avelaneiras frolidas”
(v. 2), e em expressões como que esta afirmação, recorrendo a elementos textuais.
“Bailemos” (v. 1) e “verra
bailar” (v. 6).
2. Identifique o destinatário do sujeito lírico.
2. O sujeito poético, a donzela,
dirige-se às amigas.
3. A donzela está 3. Apresente dois traços caracterizadores do sujeito poético, fundamentando a
extremamente feliz, porque
está apaixonada (“Bailemos sua resposta com expressões textuais pertinentes.
nós já todas três, ai amigas
(…) se amigo amar”, vv. 1-4),
daí o convite à celebração do 4. Preencha os espaços com os termos ou expressões adequadas ao sentido do
amor, através da dança (“se texto.
amigo amar, / so aquestas
avelaneiras frolidas / verra O convite à dança está expresso na forma verbal a. “ ” , conjuntivo
bailar.”, vv. 4-6).
4.
usado com valor exortativo (incitador). Mas essa participação no baile implica uma
a. Bailemos (v. 1) condição – estar apaixonada – como se comprova no verso b. “ ” . As
b. “se amigo amar” (v. 4)
donzelas são apresentadas como sendo belas e atraentes, como se pode verificar
c. “quem for velida como nós”
(v. 3) nas expressões c. “ ” e d. “ ”.
d. “quem bem parecer como
nós parecemos” (v. 15)

38
Cantigas de amigo
Confidência amorosa – relação com a Natureza

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia a cantiga de amigo da autoria de Martim Codax.

Ondas do mar de Vigo


Ondas do mar1 de Vigo, MARTIM CODAX
Séc. XIII
se vistes meu amigo?
Trata-se provavelmente de um jogral galego, ativo em
E ai Deus, se verra2 cedo! meados ou no terceiro quartel do século XIII. Embora
seja um dos dois únicos autores presentes nos can-
cioneiros medievais cujas composições se conserva-
Ondas do mar levado3, ram igualmente num manuscrito individual, o desig-
5 se vistes meu amado? nado Pergaminho Vindel, onde vêm acompanhadas
da respetiva notação musical (o outro dos autores
E ai Deus, se verra cedo! sendo D. Dinis), nada se sabe de concreto sobre a sua
biografia. O seu apelido parece excluir a hipótese de
um estatuto social elevado. Seria pois um jogral ou
Se vistes meu amigo, segrel, muito possivelmente ligado a Vigo, localidade
o4 por que5 eu sospiro? repetidamente cantada nas suas composições.

E ai Deus, se verra cedo!

10 Se vistes meu amado,


1
ria, baía;2 virá, voltará;
por que ei6 gram coidado7? 3
mar levado: mar bravo, mar
E ai Deus, se verra cedo! encapelado; 4 aquele; 5 quem;
6
Martim Codax, B 1278/V 884/PV 1. tenho; 7 preocupação.

1. Complete o texto, de modo a obter uma breve análise da cantiga “Ondas do mar de
Vigo”, selecionando, entre as palavras propostas, as que são adequadas.

• mãe • refrão • donzela • angústia • interrogativas


• Deus • exclamativas • paralelística • amigo • Natureza

Esta cantiga de amigo é, quanto à sua estrutura, a. , pois, para além da


existência de refrão, o segundo verso da primeira cobla é igual ao primeiro da terceira. O
sujeito lírico, a b. , faz da c. sua confidente e confessa-lhe a sua PROFESSOR

extrema d. perante a ausência do e. .


As frases f. acentuam o desespero da jovem, assim como as exclamativas Áudio
“Ondas do mar de Vigo”
presentes no g. . É nesse momento que ela também evoca h. ,
pois está desesperada. Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.8

1.
a. paralelística
b. donzela
c. Natureza
d. angústia
e. amigo
f. interrogativas
g. refrão
h. Deus

Pergaminho de Vindel, n.o 1.

39
Po es i a Trova d o resca
Confidência amorosa – relação com a Natureza

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia as cantigas de amigo abaixo apresentadas e responda ao questionário da página


seguinte.
CANTIGA A
Poys nossas madres van a San Simon
CANTIGA B
Poys nossas madres1 van a San Simon
de Val de Prados candeas queymar2, Sedia-m’eu na ermida de San Simión
nos, as meninhas3, punhemus4 d’andar Sedia-m’eu1 na ermida de San Simión
con nossas madres, e elas enton e cercaron-mi-as ondas que grandes son.
5 queymen candeas por nós e por ssy Eu atendend’2o meu amigu'! E verrá?
e nos meninhas, baylaremos hy5.
Estando na ermida, ant’3o altar,
6
Nossus amigus todus lá hiran 5 cercaron-mi-as ondas grandes do mar.
por nos veer, e andaremos nos Eu atenden[d’o meu amigu'! E verrá?]
bayland’ant’eles, fremosas, en cos7,
10 e nossas madres, poys que alá8 van, E cercaron-mi-as ondas que grandes son:
queymen candeas por nos e por ssy, non ei4 [i]5 barqueiro nen remador.
e nos meninhas [baylaremos hy]. Eu [atendend’o meu amigu'! E verrá?]

Nossus amigus hiran por cousir9 10 E cercaron-mi-as ondas do alto mar:


como baylamus, e poderan veer non ei [i] barqueiro nen sei remar.
15 baylar moças de .... bon parecer; Eu aten[dend’o meu amigu'! E verrá?]
e nossas madres, poys lá queren hir,
queymen candeas por nós e por ssy Non ei i barqueiro nen remador:
e nos meninhas [baylaremos hy]. morrerei [eu], fremosa, no mar maior.6
Pero Viviaez, B 735/V 336. 15 Eu aten[dend’o meu amigu'! E verrá?]

1
mães; 2 acender velas em cumprimento de promessa feita; 3 meninas; Non ei [i] barqueiro nen sei remar:
4
tratemos; 5 aí; 6 irão; 7 sem manto, em corpo bem feito; 8 lá; 9 ver. morrerei eu, fremosa, no alto mar.
Eu [atendend’o meu amigu'! E verrá?]
Mendinho, B 852/V 438.

1
Sedia-m’eu: Estava eu; 2 esperando; 3 diante; 4 tenho; 5 aqui; 6 alto.

PROFESSOR

Áudio
“Poys nossas madres
van a San Simon”

Áudio
“Sedia-m’eu na ermida
de San Simión”

40
Cantigas de amigo
Confidência amorosa – relação com a Natureza
PROFESSOR
1. Proceda à análise das duas cantigas e preencha o quadro seguinte.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 15.1;
"Poys nossas madres van "Sedia-m’eu na ermida 16.1; 16.2
a San Simon" de San Simión"
1. “Poys nossas madres van
a San Simon”
Assunto a. a. a. A donzela incentiva as
amigas a acompanharem as
mães a San Simon de Val de
Estado de espírito Prados, como pretexto para
b. b. verem os amigos e poderem
do sujeito lírico dançar, mostrando--se perante
eles.
b. A donzela está
Relação com o amigo c. c. entusiasmada porque aquele
será um meio para estar com o
seu amado.
c. O entusiasmo demonstrado
pela donzela evidencia uma
possível correspondência
amorosa ou, pelo menos,
GRAMÁTICA uma relação que ela sente
como possível, na medida
em que acredita que a dança
Atente na cantiga A. possa funcionar como um
instrumento de sedução.
1. Identifique a função sintática desempenhada por “de bon parecer” em “moças de “Sedia-m’eu na ermida de
San Simión”
bon parecer”(v. 15). a. A donzela espera
ansiosamente pelo amado na
igreja de San Simión, até que
Atente na cantiga B. as ondas a cercam e a deixam
num estado de desespero
por temer morrer afogada,
2. Identifique a função sintática desempenhada pelos constituintes sublinhados. já que não tem ninguém que
a socorra, o que evidencia
a. “e cercaron-mi-as ondas que grandes son.” (v. 2) também o seu receio de
que o amigo não chegue a
b. “Eu atendend'o meu amigu'”. (v. 3) comparecer ao encontro
marcado.
c. “morrerei [eu], fremosa, no mar maior.” (v. 14) b. Inicialmente, a donzela
manifesta estar apaixonada
e ansiosa por ver o amigo;
3. Refira duas palavras do português moderno que integram o mesmo elemento eti- depois expressa aflição e
mológico que “Sedia” (v. 1). desespero quando se apercebe
BLOCO INFORMATIVO – pp. 271-273, 280-281 dos perigos que enfrenta e,
simultaneamente, desilusão
pelo atraso do amado, o que
pode ser indicativo da sua não
comparência.
c. Apesar de a donzela
se mostrar apaixonada, é
ORALIDADE / EDUCAÇÃO LITERÁRIA evidente alguma insegurança
em relação ao seu amado, já
que o seu tardar a faz duvidar
Elabore, oralmente, em dois minutos, uma breve do seu amor, ao mesmo
apresentação oral (5 a 7 minutos) sobre os aspetos tempo em que a coloca numa
situação de perigo.
comuns entre a cantiga A e a imagem, no que se re-
fere ao caráter profano e religioso das romarias na Gramática
Idade Média e na atualidade. 17.4; 18.1
1. Modificador do nome
restritivo.
2. a. Sujeito.
b. Complemento direto.
c. Modificador do grupo verbal.
3. Sede, sediado, sedentário.

Oralidade/Educação
Literária
BLOCO INFORMATIVO – p. 283 1.4; 5.3; 6.2; 15.4

41
Po es i a Trova d o resca

LEITURA

O amor é o tema central das cantigas estudadas até ao momento.


Leia, a propósito desse sentimento, o seguinte artigo de divulgação científica.

Amor: cria dependência como uma droga, mas sabe


bem como o chocolate
Por Nicolau Ferreira

A maravilhosa máquina cerebral destrói a mitologia do


amor? Ainda não, talvez nunca. Mas já se sabe muito: as re-
giões ativadas quando vemos a pessoa de quem gostamos
ou os químicos libertados. E é tudo verdade: o estômago
5 apertado, o coração acelerado, o vício, a intensidade do pri-
meiro ano de relação. O amor é a droga. […]
A base neurológica do amor romântico é o título insosso
de um artigo científico publicado em 2000, que se propu-
nha pela primeira vez olhar para o cérebro de 17 pessoas e
10 ver quais as áreas que ficavam luminosas perante fotogra-
fias dos seus amados. […]
Os observados eram analisados enquanto viam fotogra-
fias dos seus mais-que-tudo que iam passando entre foto-
grafias de amigos do mesmo sexo que o/a companheiro/a.
15 No cérebro, a afluência especial de oxigénio a determina-
das regiões era registada pela máquina e denunciava pela
primeira vez as redes complexas associadas ao amor e que
permitem alguém dizer palavras como "verdadeiramente",
"profundamente" ou "loucamente" num contexto piroso,
20 mas completamente justificável com um "deixa lá, ele/ela
está apaixonado/a".
As setas de Cupido, c. 1882, Perrault Leon Jean Basile (1832-1908).
Sabe-se hoje que existem 12 regiões do cérebro que
são recrutadas quando pensamos na pessoa que amamos.
Stephanie Ortigue, uma investigadora da Universidade de
25 Siracusa, nos Estados Unidos, analisou com colegas a escassa
Não à dor, sim ao vício
bibliografia sobre a deteção destas regiões e verificou que
existem diferenças quando se sente o amor de paixão, e quan- Uma equipa de investigadores da Universidade de
do se sente o amor incondicional (o sentimento que se tem re- Stanford, nos Estados Unidos, percebeu que os circuitos
lativo a pessoas doentes, por exemplo) e o amor maternal. […] ativados no cérebro quando estamos apaixonados têm se-
30 As imagens por ressonância magnética mostram que 40 melhanças com os ativados quando sentimos dor e tentou
o amor é complexo. "Apesar de muitas teorias da emoção perceber se existe uma ligação entre eles.
terem incluído o amor como uma emoção básica, é mais A equipa dos Estados Unidos pegou em voluntários que
do que isso", disse Ortigue, citada pelo jornal britânico estavam a namorar há menos de um ano e procurou perce-
The Independent. "O amor inclui emoções básicas e emo- ber o que é que a observação de fotografias dos parceiros
35 ções complexas, motivações direcionadas para objetivos, 45 fazia quando sentiam uma dor causada por uma madeira
imagens do corpo, cognição e apreciação." aquecida que os cientistas lhes colocavam na mão.

42
Cantigas de amigo

O que os investigadores descobriram é que a perceção reportagem da Esquire, Fisher responde a esta pergunta
da dor era reduzida quando observavam a fotografia dos 60 com uma imagem: "Eu posso conhecer cada ingrediente
namorados em relação a fotografias de conhecidos. "Um de um pedaço de bolo de chocolate, mas quando me sento
50 dos locais-chave [medidos através de ressonância mag- para comê-lo, continuo a sentir alegria." Há outra coisa que
nética] é o nucleus accumbens, um centro para a recom- compreender a base neurológica do amor romântico não
pensa de vícios associados aos opiáceos, cocaína e outras nos retira − o mistério. Não sabemos por quem nos vamos
drogas", explicou Jarred Younger, primeiro autor do artigo 65 apaixonar, nem porquê, nem quando.
publicado sobre esta descoberta na revista Public Library
55 of Science One, que saiu em 2010.

Como um bolo de chocolate


Público, edição online de 14 de fevereiro de 2011
[…] Dito isto, a questão que podemos colocar é, se ao (adaptado, consultado em dezembro de 2017).
compreendermos o que é o amor e a forma como amamos,
deixamos de viver a experiência de forma romântica. Numa

1. Selecione a opção que completa corretamente as afirmações.

1.1 Neste texto, o seu autor


[A] apresenta a sua opinião em relação ao poder do amor sobre as pessoas. PROFESSOR

[B] divulga os resultados de uma investigação neurológica do amor.


Oralidade (p. 41)
[C] expõe os resultados de uma investigação sobre doenças neurológicas. Sugestão de tópicos
de resposta:
1.2 A investigadora Stephanie Ortigue chegou à conclusão de que o nosso cérebro As romarias da atualidade não
são assim tão diferentes das da
[A] reage da mesma forma a todos os tipos de amor. Idade Média.
Na cantiga, as jovens iam
[B] deteta doze tipos diferentes de reações amorosas. dançar, ver os amigos (caráter
profano), as mães iam pagar
[C] reage de forma diferente ao amor paixão e ao amor maternal. promessas, queimar velas e
orar (caráter religioso).
1.3 Uma equipa de investigadores americanos concluiu que A organização das festas
do concelho de Gondomar
[A] o amor provoca uma dor semelhante à produzida por uma queimadura. apresenta a romaria à N.a S.a
do Rosário (caráter religioso)
[B] os circuitos ativados no cérebro pela dor e pelo amor são idênticos. e a Feira das Nozes (caráter
profano), onde todos podem
[C] os voluntários observados não sentiram dor ao ver as fotos dos seus par- fazer compras e conviver.
ceiros. A acompanhar as atividades
religiosas estão sempre as de
caráter mais lúdico.
1.4 Na última parte do texto afirma-se que
[A] o amor continua a surpreender, apesar das investigações científicas de- Leitura
senvolvidas. 7.2; 7.3; 7.6; 8.1

[B] amar é como apreciar um bolo de chocolate, pois os ingredientes são 1.1 [B]
idênticos. 1.2 [C]
[C] compreender a base neurológica do amor acaba com a infelicidade amorosa. 1.3 [B]
1.4 [A]
2. A, E e F
2. Selecione, das marcas a seguir apresentadas, aquelas que estão presentes no texto.

A. Hierarquiazação B. Predomínio da primeira C. Comentário crítico.


das ideias. pessoa.

D. Dimensão narrativa. E. Explicitação de fontes. F. Caráter expositivo.

43
Po es i a Trova d o resca
DAR
Evolução do português
TU
S
APRENDER
E

LEITURA
ICA
G RA M Á T
R
A ROMANIZAÇÃO
AUTO DE MORALIDADE composto per Gil Vicente por contemplação da sere-
PR A
ATIC níssima e muito católica rainha dona Lianor, nossa senhora, e representado per
O latim era a língua dos habitantes do Lácio, onde se localizava Roma. No entanto,
seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei dom Manuel, primeiro de Por-
enquanto língua viva, não era usado da mesma forma por todos os romanos. Assim, era
tugal deste nome.
possível identificar variedades:
a. o latim vulgar
Comença – um latim
a declaração falado e diversificado,
e argumento integrando características
da obra. Primeiramente, no presente mais po-
auto,
pulares;
se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos sùpitamente a um
rio,b.o oqual
latim clássico
per – utilizadode
força havemos porpassar
escritores
em latinos
um decomo
dousCícero
batéisou Virgílio
que e ensinado
naquele porto
estão,nas escolas.um deles passa pera o paraíso e o outro pera o Inferno: os quais
scilicet1,
No século
batéis tem cadaIII a.um
C., os
seuromanos iniciaram
arraiz na proa: oa do
ocupação
Paraísodaum
Península
Anjo, eIbérica e a romani-
o do Inferno um
arraiz
zação dosinfernal
povose que
um aíCompanheiro.
encontraram, acabando por impor o latim vulgar como língua de
comunicação a ser usada pelos povos vencidos. No entanto, o latim clássico continuava a
ser O primeiro
utilizado comoentrelocutor
a língua daé igreja,
um Fidalgo que chega da
da administração, com um Paje,
ciência e nosque lhe levaonde
mosteiros, um
rabo mui comprido
continuou e ũa cadeira de espaldas. E começa o Arraiz do Inferno ante que
a ser ensinado.
o Fidalgo venha.

DO LATIM AO GALEGO-PORTUGUÊS

Substratos da Península Ibérica


São os idiomas falados pelos povos que habitaram a península antes da invasão romana
(Celtas, Iberos, Fenícios, Gregos) e que foram absorvidos pelo latim, deixando neste vestígios,
ou seja, certos termos linguísticos. O quadro abaixo apresenta dois dos substratos mais im-
portantes da língua portuguesa:

Substratos Termos linguísticos Áreas


Celta camisa, cerveja, carro, caminho, vassalo, lousa, bétula
diversificadas
Grego evangelho, pedagogia, homogéneo, Cristo*
* Alguns destes termos já tinham sido absorvidos pelo latim, antes de os romanos invadirem a Península Ibérica, como é o
caso de “evangelho” e “Cristo”.

Superstratos da Península Ibérica


O latim vigorou como língua oficial da Península Ibérica até ao século V, altura em que se
deram as invasões germânicas, em 409. A estas seguiram-se as invasões árabes, em 711, e
ambos os acontecimentos acabaram por ter impacto na situação linguística da Península.
Embora os germanos e os árabes não tenham conseguido impor a sua cultura nem a sua
PROFESSOR
língua, legaram novas palavras ao idioma que então se falava.
Considerando que algumas
definições de superstrato Substratos Termos linguísticos Áreas
(cf., por exemplo, Dicionário
Terminológico, dt.dgidc. Germânico guerra, orgulho, dardo, elmo, luva, escanção atividade guerreira
min-edu.pt) referem ou
sugerem uma situação a agricultura, a indústria,
de substituição linguística,
há autores que falam
alambique, alecrim, açúcar, alfinete, arroz, as ciências e as artes,
Árabe
de adstrato para se azeitona, azulejo, xarope o comércio ou a
referirem ao árabe. administração

44
Os franceses também tiveram algum impacto na evolução da língua, devido à sua in-
fluência nas cortes dos primeiros reis da primeira dinastia e ao impacto da poesia provençal.

O PORTUGUÊS ANTIGO (SÉCULOS XII-XV)

É possível, neste período, detetar duas fases na evolução da língua portuguesa:


a. A fase mais remota do português corresponde à fase do galego-português (ou ga-
laico-português), idioma progressivamente formado no noroeste peninsular e que a
Reconquista do território expandiu para sul; aparece registada na poesia trovadores-
ca e em documentos oficiais e particulares da época, por exemplo, O Testamento de
D. Afonso II, datado com segurança de 1214.
b. A partir de meados do século XIV, com o movimento de Reconquista até sul do ter-
ritório português, assistiu-se a uma evolução gradativa da língua, que terminaria com
a separação do galego-português em dois idiomas (galego e português). Para essa
cisão, foram determinantes vários fatores, a saber:
• a separação política entre Portugal e a Galiza;
• o contacto com populações ao longo do repovoamento do centro e sul do território
implicou transformações linguísticas que não se verificaram no norte;
• a mudança da corte portuguesa para Lisboa;
• a influência prestigiante da Universidade (ora em Lisboa ora em Coimbra) e dos mos-
teiros de Alcobaça e de Santa Cruz de Coimbra, que ditavam já, de certa forma, o bem
falar e o bem escrever.

O PORTUGUÊS CLÁSSICO (SÉCULOS XVI-XVIII)

Durante este período, assistiu-se a uma considerável latinização e inovação da língua


portuguesa, particularmente no domínio lexical, por vários motivos:
• com o Renascimento dá-se a recuperação do latim clássico e surgem novas palavras
por via erudita;
• Camões (entre outros autores), com a sua obra, contribui para o processo da enrique-
cimento da língua;
• surgem publicações que pretendem fixar e regulamentar a língua portuguesa: em 1536,
nasce a primeira gramática portuguesa, de Fernão de Oliveira;
• os Descobrimentos trazem o conhecimento de outros povos, costumes, paisagens e
produtos exóticos, o que implica a introdução de vocabulário para designar novas rea-
lidades;
• Luís António Verney, no século XVIII, luta pelo ensino do português nas escolas, em opo-
sição ao ensino do latim.
Por outro lado, a expansão ultramarina permitiu que a língua se alastrasse por vários con-
tinentes e que se viesse a tornar a língua nacional e/ou oficial de países como o Brasil, Angola
ou Moçambique.

45
DAR
Evolução do português
TU
S
APRENDER
E

ICA
G RA M Á T
R
O PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO (A PARTIR DO SÉCULO XIX)
PR A
ATIC
A partir do século XIX, o português continuou a evoluir, devido aos seguintes fatores:
• a criação de gramáticas e dicionários intensifica-se;
• a criação literária de alguns escritores, como Eça de Queirós ou Fernando Pessoa, con-
tribui para o enriquecimento da língua;
• os progressos industriais e agrícolas têm um grande impacto, com a criação de termos
capazes de referir as novas realidades: neologismos e empréstimos – galicismos (do
Para mais informações sobre francês) e anglicismos (do inglês);
a evolução do português,
consultar, por exemplo: • os meios de comunicação começam a exercer um papel de relevo na uniformização e
• Ivo Castro, Introdução divulgação da língua.
à história do português. (2004),
2.a ed., revista e muito ampliada,
Lisboa, Colibri, 2006.
• Ivo Castro (dir.), História
da língua portuguesa em linha,
APLICAR
Centro Virtual Camões,
2002-2004.
s.
URL: http://cvc.instituto-camoes. 1. Selecione a opção correta.
pt/hlp/index1.html
• Esperança Cardeira, O essencial 1.1 A romanização é um processo que consiste na
sobre a história do português,
Lisboa, Editorial Caminho, 2006. [A] imposição do latim clássico nas regiões conquistadas pelos romanos.
[B] reconquista do sul da Península Ibérica pelos romanos.
[C] assimilação da cultura e da língua latina pelos povos vencidos pelos romanos.

1.2 O latim clássico


[A] está na base da formação da língua portuguesa.
[B] é a variedade linguística utilizada pela população culta.
[C] não é usado por nenhuma classe social da Península Ibérica.

1.3 Os substratos da língua portuguesa são termos


[A] linguísticos que os povos invasores do século VIII impuseram aos falantes
da língua latina.
[B] linguísticos usados pelos povos nativos antes da chegada dos romanos e
que se infiltraram no latim.
[C] gregos que se integraram no galaico-português aquando da reconquista
cristã.

1.4 O celta é um idioma que


[A] é substrato da língua portuguesa.
[B] é superstrato da língua portuguesa.
[C] foi absorvido pelo árabe.

46
APLICAR

1.5 As invasões germânicas e árabes contribuíram para a formação do português com


[A] termos específicos de certas áreas de atividade.
[B] vocabulário muito diversificado, pertencente a certas profissões.
PROFESSOR
[C] vocabulário específico relacionado com a atividade guerreira.
Gramática
1.6 Superstratos são as línguas faladas 17.1; 17.2; 17.5
[A] pelas pessoas mais cultas, que as impunham às restantes.
1.
[B] pelos povos nativos, e que deixaram vestígios no latim vulgar.
1.1 [A]
[C] pelos povos invasores que deixaram marcas na idioma dominante. 1.2 [B]
1.3 [B]
1.7 O português antigo 1.4 [A]
[A] é o latim vulgar trazido pelos romanos. 1.5 [A]
1.6 [C]
[B] é o português falado a sul de Portugal no século XII. 1.7 [C]
[C] é, numa primeira fase, o galaico-português. 1.8 [B]
1.9 [A]
1.8 A universidade e alguns mosteiros 1.10 [A]
1.11 [C]
[A] contribuíram para evolução do latim clássico.
1.12 [B]
[B] contribuíram para a separação do português do galego.
[C] não tiveram nenhum impacto na evolução do português.

1.9 A partir do século XVI, a descoberta de novas paisagens e o contacto com outras
culturas implicaram
[A] o aparecimento de novos termos na língua portuguesa.
[B] a introdução de novas línguas que se impuseram ao português.
[C] um retrocesso no desenvolvimento da língua portuguesa.

1.10 Com a recuperação do latim clássico nas artes e nas ciências,


[A] formaram-se novas palavras na língua portuguesa.
[B] a língua portuguesa sofreu um enorme empobrecimento.
[C] o povo português começou a falar latim.

1.11 No século XIX, “nasce” o português contemporâneo, como consequência de vários


fatores, entre os quais se destacam
[A] a criação literária de Camões.
[B] o aparecimento da primeira gramática portuguesa.
[C] o desenvolvimento industrial do país.

1.12 Os empréstimos no século XIX são


[A] neologismos criados a partir da língua portuguesa.
[B] palavras estrangeiras introduzidas no português.
[C] neologismos criados a partir do francês.

47
Po es i a Trova d o resca

LEITURA

Leia a letra de uma cantiga apresentada no programa da RTP 1 Estado de Graça.

Vídeos na Internet
É coisa linda esta moda afinal
De publicar videozinhos de cariz anormal
Duas miúdas em modo animal
Aos chutos e pontapés, na peixeirada total
5 Gravaram no telemóvel – só visto…
Mais tarde é bom recordar
A chapadinha, joelhadazinha
Estado de Graça,
Depois no Facebook há gente a “likar”
RTP
Aquela brincadeira, “rasca” e rasteira
10 A pancada agora vai aleijar

[Refrão]
O português é engraçado
PROFESSOR
Anda à porrada em qualquer lado
O português é distraído
Facilmente é atingido
Vídeo 15 O português é prémio Nobel
“Estado de Graça, RTP” A gravar com o telemóvel
Leitura
Pra mais tarde publicar
7.1; 7.2; 7.4; 9.2 Só pra ver o que é que a coisa vai dar.

1.1 [A]; 1.2 [B]. Anda pr’aí a maior comoção


2. Para além de se
censurarem hábitos
20 O país revoltou-se contra esta agressão
violentos dos portugueses, Na Internet e em todas as televisões
é sobretudo criticada a
tendência atual para se expor
Aquelas duas pitinhas a puxar dos galões
tudo o que se faz nas redes Gravaram no telemóvel – só visto…
sociais, nomeadamente no
Facebook, ainda que os vídeos
Mais tarde irão lamentar
partilhados possam transmitir 25 Serem parvinhas, serem tolinhas
uma imagem muito negativa
dos seus protagonistas. De
A malta do “iutubas” vai comentar.
tal forma isto acontece que Há gente tão parvinha, tão mal-educadinha.
chega mesmo a colocar-se
a hipótese de, no futuro,
Na prisão é que elas devem ficar.
ser mais fácil condenar os
criminosos, porque eles
próprios acabarão por fazer
Vai ser mais fácil apanhar malandrões
prova da sua culpabilidade 30 E atirá-los a todos para as nossas prisões
através destas redes sociais.
Gravando os crimes com um simples telefone
Publicar na Internet e “soprar no trombone”

Pois estas duas araras – só visto…


Quiseram logo mostrar
35 Um crime gravado e escarrapachado
Em pleno Facebook, é só comentar
Há gente tão ceguinha, tão burra e tapadinha
Faz o mal e logo o quer partilhar…
Letra e música de Gimba

48
Cantigas de escárnio e maldizer

1. Selecione a opção que completa corretamente cada afirmação. PROFESSOR

1.1 O propósito da cantiga é Gramática


17.4
[A] criticar.
[B] elogiar. 1.1 A palavra provém do verbo
inglês like.
[C] informar. 1.2 Trata-se de um
empréstimo.
[D] narrar.
1.3 O termo significa “gostar
de”.
1.2 Esse efeito é conseguido sobretudo através da
2.1 “malandrões”
[A] metáfora. 2.2 Justifica-se pelo facto
de a forma verbal surgir no
[B] ironia. infinitivo, terminando em -r.
Quando assim é, o pronome
[C] antítese. pessoal em adjacência verbal
implica a apócope do -r,
[D] aliteração. assumindo o pronome
a forma “-los”.
2. Explicite as críticas apresentadas ao longo da cantiga.
Escrita
10.2; 11.1; 12.1; 12.2;
12.3; 12.4; 13.1

Proposta de escrita:
GRAMÁTICA Parágrafo 1: forma de
comunicação tecnológica,
fácil e atrativa, que possibilita
1. Preste atenção à palavra “likar” (v. 8). comunicação à distância.
1.1 Identifique a origem do termo. Parágrafo 2: o caráter
misterioso proporcionado por
1.2 Classifique a palavra, tendo em conta a sua origem. esta forma de comunicação
seduz os mais jovens,
1.3 Explicite o significado do termo. que fazem “amizades”
com pessoas que não
correspondem ao perfil que
2. Atente nos versos “Vai ser mais fácil apanhar malandrões / E atirá-los a todos para apresentam;
as nossas prisões” (vv. 29-30). – a exposição de fotografias
pode ser prejudicial, pois
2.1 Identifique o referente da forma pronominal “-los”. outros terão acesso a elas
e poderão manipulá-las;
2.2 Justifique a forma do pronome pessoal “os”, nesta situação. – indicar dados da vida pessoal
(morada, escola, emprego,
aniversários) pode ser
BLOCO INFORMATIVO – pp. 280-281, 269-270 prejudicial, principalmente
quando se trata de crianças
que são um alvo fácil para
pedófilos.
Parágrafo 3: a nossa
exposição a um público vasto
E S C R I TA e desconhecido é sempre
perigosa, porque nem sempre
se sabe quem está do outro
Redija um texto expositivo, de 120 a 150 palavras, sobre os riscos do uso da rede social lado.
Facebook, seguindo, para isso, o plano abaixo apresentado.

• Parágrafo 1 – Apresentação sumária das características do Facebook.


• Parágrafo 2 – Três riscos inerentes ao uso do Facebook e cuidados a ter.
• Parágrafo 3 – Síntese dos principais aspetos referidos.

BLOCO INFORMATIVO – p. 283


MANUAL – pp. 26-27

49
Po es i a Trova d o resca

INFORMAR

A par da poesia lírica trovadoresca, no Noroeste da Península, foi também cultivada a


poesia satírica, de natureza autóctone.

Leia os tópicos abaixo e os excertos da Arte de Trovar, que a este propósito se pro-
põem, e resolva a atividade apresentada na página seguinte.

Cantigas de escárnio e maldizer

• Na lírica galego-portuguesa, a sátira presente nas


cantigas de escárnio e maldizer é dirigida a personagens
representantes das diversas categorias socioprofissio-
nais, atingindo todos os graus da hierarquia social:
5 – do papa ao simples freire (monge) ou freira;
– do cavaleiro ao ricome (rico-homem);
– do infançon ao escudeiro;
– do jogral ao trobador.
O rei é a única figura que não é alvo de qualquer sá-
10 tira ou crítica.

• Nas cantigas da lírica galego-portuguesa, a sátira


política e social é conduzida a nível pessoal com acu-
sações de:
– covardia;
15 – traição;
– avareza;
– incapacidade.
• Para além das críticas de caráter pessoal, são vários
os aspetos/assuntos satirizados nestas cantigas:
20 – os relativos a acontecimentos históricos;
– os costumes sociais (em particular, os que se ligam
com a decadência da nobreza);
Trovadores perante o Rei e a sua – a polémica literária (em que se aponta no trovador
Corte, século VIII, Escola Alemã. escarnecido a falta de respeito pelas regras de bem trovar);
25
– a paródia da própria cantiga de amor, do amor cortês (“brinca-se” com o so-
frimento amoroso – a coita de amor – e com o retrato da figura feminina).
• Com estas cantigas, pretende-se criar efeitos cómicos, geradores do riso,
recorrendo o trovador a vários recursos expressivos:
– ironia;
30
– termos obscenos (em textos mais ferozes);
– diminutivos e aumentativos grosseiros;
– equívoco (jogos de palavras que têm dois sentidos);
– metáforas.
• Muitas destas cantigas apresentam estrutura narrativa, relatando um peque-
35
no episódio pitoresco e cómico, saído do quotidiano.
• Estas cantigas têm um importantíssimo valor documental para o conheci-
mento da língua e da sociedade da época.
Anna Ferrari, “Cantiga de escarnho e maldizer”, in José Augusto Cardoso Bernardes et al. (dir.), Biblos:
Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial Verbo, 1995, pp. 970-974
(adaptado).

50
Cantigas de escárnio e maldizer

Cantigas de escárnio

Cantigas d’escarneo som aquelas que os trobadores fazem querendo dizer mal
d’algu~
e~elas, e diz~
e-lho per palavras cubertas que hajã dous entendimentos pera
lhe-lo nõ entenderem… ligeiramente.
CBN, Arte de Trovar, V, in Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa.
A Idade Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, p. 147.

Cantigas de maldizer

Cantigas de maldizer som aquelas que faz~e os trobadores […] descubertamente,


~
e elas entrã palavras a que querem dizer mal e nõ haver outro entendimento senõ
aquel que querem dizer chaamente e outrossi as todas fazem dizer […].
CBN, Arte de Trovar, VI, in Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa.
A Idade Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, p. 147.

1. Assinale as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas, corrigindo as falsas.


a. Nas cantigas de escárnio e maldizer, o trovador critica todas as categorias so-
ciais.
b. São vários os aspetos satirizados nestas cantigas, sendo alguns de caráter mais
pessoal e outros relacionados com costumes, feitos históricos e a própria arte PROFESSOR
de bem trovar.
Educação Literária
c. As cantigas de conteúdo satírico apresentam palavras ofensivas quando se pre- 7.2; 7.4; 8.1; 15.1; 16.1
tende criticar ferozmente alguém ou um acontecimento.
1.
d. As cantigas de escárnio e maldizer também fazem uma paródia ao amor cortês. a. F – Exceto o Rei.
b. V
e. Os aumentativos e os diminutivos empregues nestas produções poéticas têm
c. V
sempre um valor apreciativo.
d. V
f. Um dos recursos expressivos frequentes nestas cantigas é a ironia. e. F – Têm sempre valor
depreciativo.
g. Algumas composições satíricas apresentam narratividade, pois verifica-se es- f. V
sencialmente a expressão de estados de espírito do “eu”, na primeira pessoa. g. F – Algumas composições
satíricas apresentam
h. As cantigas de maldizer distinguem-se das de escárnio pelo facto de, nas pri- narratividade, pois relatam
meiras, se criticar direta e claramente o alvo visado. um episódio, servindo-se das
categorias da narrativa.
h. V
2. Selecione, dos termos indicados entre parênteses, aquele que se adequa às infor-
2.1 autóctone
mações fornecidas pelo texto. 2.2 particular
2.3 velada
2.1 A poesia satírica galego-portuguesa teve origem (provençal/autóctone).
2.4 amor
2.2 Os trovadores galego-portugueses manifestam preferência pelo caráter
(particular/geral) das cantigas de maldizer.

2.3 Nas cantigas de escárnio, a crítica era feita de forma (velada/direta).

2.4 Entre os vários temas satirizados destaca-se a crítica à artificialidade dos senti-
mentos demonstrados na cantiga de (amigo/amor).

51
Po es i a Trova d o resca
A dimensão satírica: a paródia do amor cortês e a crítica dos costumes

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia a cantiga apresentada.

Roi Queimado morreu com amor


Roi Queimado1 morreu com amor
em seus cantares, par Santa Maria,
por ũa dona que gram bem queria2;
e, por se meter por mais trobador, 1
trovador com quem Pero
5 por que lh’ela non quis[o] bem fazer, Garcia Burgalês conviveu e que
compôs algumas cantigas de
feze-s'el em seus cantares morrer, amor, usando frequentemente
mais3 resurgiu depois, ao tercer dia. o tópico aqui satirizado
2
que gram bem queria: por
4 quem tinha grande amor
Esto fez el por ũa sa senhor 3
mas
que quer gram bem5; e mais vos ém6 diria: 4
isto
10 por que cuida7 que faz i maestria8, 5
que quer gram bem: por quem
enos cantares que faz, á sabor9 tem grande amor
de morrer i10 e des i d'ar viver11; 6
acerca disso
esto faz el, que x'12o pode fazer, 7
pensa
8
mais outr'omem per rem nono faria. que faz i maestria: que faz
versos com engenho, como se
fosse um mestre
15 E nom á13 já de sa morte pavor, 9
á sabor: tem desejo, vontade
se nom, sa morte mais la temeria, 10
nesse momento
mais sabe bem, per sa sabedoria, 11
e des i d'ar viver: e em seguida
que viverá, des quando morto for14; de voltar a viver
12
e faz-[s'] em seu cantar morte prender15, x’: mero reforço de expressão,
intraduzível no português
20 des i ar vive16: vedes que poder atual
que lhi Deus deu, − mais queno cuidaria! 13
tem
14
des quando morto for: desde
E se mi Deus a min desse poder o momento em que morrer
15
qual oj'el á, pois morrer, de viver, aceitar
PROFESSOR 16
des i ar vive: volta
já mais morte nunca [eu] temeria.
seguidamente a viver
Pero Garcia Burgalês, B 1380/V 988.
Áudio
“Roi Queimado morreu 1. Associe os tópicos de análise (coluna A) às expressões transcritas do poema (coluna B).
com amor”

Educação Literária Coluna A Coluna B


14.2; 14.3; 14.4; 14.7;
15.1; 16.1 [A] Identificação do alvo da sátira. [1] “mais resurgiu depois, ao tercer
dia”,
[B] Verso revelador dos exageros do amor cortês.
1.
[A] – [2] [C] Expressão irónica denunciadora do artificialismo [2] “Roi Queimado”
[B] – [3] do “morrer de amor”, pela alusão a uma situação
[C] – [1] inverosímil. [3] “feze-s'el em seus cantares
[D] – [5] morrer”
[D] Sátira à presunção de Roi Queimado por se
[E] – [4]
considerar bom trovador. [4] “já mais morte nunca [eu]
2. O sujeito poético critica
o artificialismo do "morrer [E] Ironia do sujeito poético ao afirmar não recear a temeria”
de amor", que "Roi Queimado"
demonstra nas suas cantigas, morte, se ele fosse abençoado por Deus, como
[5] “por que cuida que faz mestria”
bem como a má qualidade da Rei Queimado.
sua poesia.
2. Refira, por palavras suas, os dois aspetos criticados no trovador "Roi Queimado".

52
Cantigas de escárnio e maldizer

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia expressivamente, após preparação prévia, a cantiga que se segue.


1
mas
Ai, dona fea, fostes-vos queixar 2
agora
3
louvarei
Ai, dona fea, fostes-vos queixar 4
de qualquer modo
que vos nunca louv[o] em meu cantar; 5
louvar
mais1 ora2 quero fazer um cantar 6
louca, maluca
em que vos loarei3 toda via4; 7
tendes
5 e vedes como vos quero loar5: 8
tão
dona fea, velha e sandia6! 9
desejo, vontade
10
louve
11
Dona fea, se Deus mi perdom, em esta razom: por este motivo
12
pois avedes7 [a] tam8 gram coraçom9 louvor, elogio
13
que vos eu loe10, em esta razom11 louvei
14
10 vos quero já loar toda via; ainda que

e vedes qual sera a loaçom12:


dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei13 PROFESSOR


em meu trobar, pero14 muito trobei;
15 mais ora já um bom cantar farei,
em que vos loarei toda via; Áudio
“Ai, dona fea, fostes-vos
e direi-vos como vos loarei: queixar”
dona fea, velha e sandia!
Educação Literária
Joam Garcia de Guilhade, B 1485/V 1097. 14.1; 14.2; 14.3; 14.4;
15.1; 16.1

1.
a. F – É uma dama da nobreza,
como se confirma pela forma
de tratamento empregue na
apóstrofe “Dona fea”.
b. F – A senhora queixa-se de
o trovador nunca lhe ter feito
um cantar de amor.
c. F – A composição poética
satiriza o amor cortês.
d. V
1. Assinale as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas. De seguida, corrija e. F – O trovador é experiente
as afirmações falsas. na arte de trovar, como está
evidenciado em “pero muito
a. O destinatário da sátira nesta cantiga é uma mulher do povo. trobei” (v. 14).
f. V
b. A senhora queixa-se de o trovador lhe ter chamado “velha, feia e sandia”. 2. Ambas as cantigas
satirizam os códigos
c. A composição poética elogia o amor cortês. convencionais do amor cortês.
d. A ironia é um dos recursos expressivos utilizados nesta cantiga. Em “Roi Queimado” critica-se
o artificialismo do “morrer
e. O trovador é pouco experiente na arte de trovar. por amor” expresso pelos
trovadores e em “Dona fea,
f. O trovador traça o retrato físico e psicológico da senhora. foste-vos queixar”, criticam-se
os elogios estereotipados que
eram dirigidos às mulheres
2. Estabeleça uma comparação entre a cantiga analisada e a anterior, no que se refe- nas cantigas de amor.
re ao objeto de crítica.

53
Po es i a Trova d o resca
Cantigas de escárnio e maldizer – A dimensão satírica: a paródia do amor cortês e a crítica dos costumes

PROFESSOR EDUCAÇÃO LITERÁRIA


Leia a cantiga a seguir apresentada.
Áudio
“Foi um dia Lopo jograr”
Foi um dia Lopo jograr
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.7;
14.8; 15.1; 16.1
Foi um dia Lopo jograr1
a cas2 d’um infançom3 cantar
1. a. “um dia” (v. 1) e mandou-lh' ele por dom4 dar
b. “cas d’um infançom” (v. 2) tres couces na garganta;
c. “Lopo jograr” (v. 1) e 5 e foi-lh’escass’ 5a meu cuidar6,
“infançom” (v. 2)
d. “Foi […] a cas d’um infançom
segundo com’el canta.
cantar / e mandou-lh’ele
por dom dar / tres couces na
garganta” (vv. 1-4)
Escasso foi o infançom
e. “Foi-lh’escasso’a meu em seus couces partir entom,
cuidar” (v. 5) ca7 nom deu a Lop[o] entom
2. Um dia, o jogral Lopo foi 10 mais de tres na garganta;
cantar a casa de um fidalgo,
mas este não gostou da e mais merece o jograrom8,
forma como ele cantou e segundo com’ el canta.
mandou dar-lhe três couces
na garganta como forma de Martim Soares, B 1366/V 974.
pagamento. Na opinião do
sujeito poético, foram poucos
1
os couces, já que merecia jogral; 2 casa; 3 fidalgo de categoria inferior; 4 como
muitos mais, tão mau era o
seu cantar. pagamento; 5 e foi-lh'escass': e foi forreta; 6 a meu cuidar:
3. na minha opinião; 7 pois; 8 mau jogral.
a. V
b. F –O rei não era alvo da
sátira dos trovadores. 1. A sátira, nesta cantiga, constrói-se a partir de uma estrutura narrativa.
c. F – São de origem autóctone Complete a tabela com expressões do texto que exemplificam as categorias da
mas sofreram influências da
sátira provençal. narrativa apresentadas.
d. V
e. V Tempo Espaço Personagens Ação Narrador
f. F – Era um dos temas
das cantigas de escárnio a. b. c. d. e.
e maldizer.
g. F – Apresentam críticas
a determinadas categorias
socioprofissionais,
especificamente hábitos ou 2. Apresente sinteticamente o episódio narrado nesta cantiga. Comece o seu texto
vícios de certas personagens.
por “ Um dia…”.

3. Relembre o estudo das cantigas de escárnio e maldizer e assinale as afirmações


como verdadeiras ou falsas. Corrija as afirmações falsas.
a. As cantigas de escárnio e maldizer satirizam, direta ou indiretamente, algo ou
alguém.
b. Entre os vários comportamentos satirizados pelos trovadores, encontrava-se a
crítica à governação do rei.
c. As cantigas de escárnio e maldizer são de origem autóctone, não tendo sofrido
influências da sátira provençal.

54
Cantigas de escárnio e maldizer

d. A dimensão satírica das cantigas de escárnio e maldizer confere-lhes grande PROFESSOR


valor documental.
Gramática
e. Um dos recursos utilizados nas cantigas de escárnio é o “equívoco” ou “jogo du- 18.1; 18.4
plo”.
1. a. “um”
f. A sátira ao amor cortês era o principal tema das cantigas de escárnio e maldizer. b. “Lopo”
g. As cantigas de escárnio e de maldizer apresentam elogios a determinadas cate- c. “cas”, “infançom”, “dom”,
“couces”, “garganta”,
gorias profissionais. “jograrom”
d. "en”, “por”
e. “lhe”, “ele”
GRAMÁTICA f. “três”
2. Caseiro, casario, casebre.
1. Preencha o quadro seguinte, retirando da cantiga os exemplos solicitados. 3.1 a. Complemento agente
da passiva.
c. Predicativo do sujeito.
d. Complemento direto.
Determinante e. Complemento direto.
Nome Nome Pronome Quantificador
artigo Preposição
próprio comum pessoal numeral 3.2 As cantigas de escárnio e
indefinido maldizer abarcam-no.
3.3 Valor de oposição.
3.4 “o amor cortês”.
a. b. c. d. e. f. 3.5 “Quando se fala dos
trovadores galaico-
-portugueses” – oração
subordinada adverbial
temporal; “destaca-se o seu
gosto pela sátira pessoal.” –
oração subordinante.

2. Sabendo que o vocábulo “cas” é a forma arcaica de “casa”, apresente três outras pa-
lavras do português moderno que integrem o mesmo elemento etimológico.

3. Atente nas seguintes frases.


a. O amor cortês era frequentemente satirizado pelos trovadores nas cantigas de mal-
dizer.
b. As cantigas de escárnio e maldizer abarcam um vastíssimo leque de personagens.
c. Os comportamentos quotidianos eram alvo da sátira dos trovadores.
d. A poesia satírica parodia o amor cortês, enquanto a cantiga de amor o enaltece.
e. Quando se fala dos trovadores galaico-portugueses, destaca-se o seu gosto pela
sátira pessoal.

3.1 Indique a função sintática dos constituintes sublinhados.

3.2 Reescreva a frase b., pronominalizando o complemento direto.

3.3 Indique o valor lógico do conector “enquanto” (frase d.).

3.4 Indique o referente do pronome pessoal “o” na frase d.

3.5 Divida e classifique as orações na frase e.

BLOCO INFORMATIVO – pp. 260-264, 278-279,


271-273, 269-270, 277

55
DAR
Fonética e fonologia / etimologia
TU
S
APRENDER
E

ICA
G RA M Á T
R
FONÉTICA E FONOLOGIA
PR A
ATIC
Ao longo dos séculos de evolução da língua portuguesa foram ocorrendo alterações
em termos fonéticos e fonológicos, ou seja, no que aos sons e fonemas diz respeito. Estas
alterações resultam de fatores diversos, como a tendência para a diminuição do esforço
articulatório (a que por vezes se chama “lei do menor esforço”) ou a influência de uns vo-
cábulos sobre os outros (analogia).
Quanto à sua forma, é possível distinguir três tipos de processos fonológicos: os de
1
A assimilação pode ser inserção, os de supressão e os de alteração de unidades.
regressiva, quando uma
unidade fónica se aproxima
articulatoriamente de uma
a. Processos fonológicos de inserção
que se lhe segue; progressiva,
quando a relação das duas
unidades se inverte; completa, Prótese Adição de uma unidade fónica no início da palavra. INDA- > ainda
sempre que as duas unidades
Epêntese Adição de uma unidade fónica no interior da palavra. HUMILE- > humilde
fónicas se tornam exatamente
iguais; incompleta, quando a Paragoge Adição de uma unidade fónica no fim da palavra. ANTE > antes
assimilação não é total e as duas
unidades fónicas apenas
se tornam mais semelhantes.
2
São palatais as consoantes b. Processos fonológicos de supressão
/‫ݕ‬/ (cf. chuva), /‫ݤ‬/ (cf. janela),
/‫ݠ‬/ (cf. filho) e /݄/ (cf. ninho).
Aférese Queda de uma unidade fónica no início da palavra. alá (port. antigo)> lá
Nota: A passagem de u para o
no final de palavra representa Síncope Queda de uma unidade fónica no meio da palavra. MALU- > mau
uma alteração apenas gráfica,
pois o som representado Apócope Queda de uma unidade fónica no fim da palavra. AMARE > amar
mantém-se.

c. Processos fonológicos de alteração

Alteração de uma unidade fónica por influência de outra, ou seja, duas unidades
Assimilação fónicas diferentes tornam-se mais semelhantes ou iguais porque uma se aproxima IPSE > esse
articulatoriamente da outra1.
Processo exatamente inverso à assimilação, ou seja, duas unidades iguais ou com
Dissimilação LILIU- > lírio
características semelhantes distanciam-se articulatoriamente.
Transformação de uma consoante surda (por exemplo, /p/, /t/, /k/) na sua correspondente
Sonorização PIETATE- > piedade
sonora (nestes casos, /b/, /d/, /g/).
Tipo de assimilação que acontece quando uma unidade ou sequência ganha uma
Palatalização FLAMMA- > chama
articulação palatal (assim se formam as consoantes palatais do português)2.
Metátese Troca de posição de unidades mínimas ou sílabas no interior de uma palavra. SEMPER > sempre
Transformação de uma consoante em vogal (depois de outra vogal, esta unidade realiza-se
Vocalização OCTO > oito
como semivogal).
Crase Contração de duas vogais numa só. TIBI > tii > ti
Contração Transformação em ditongo de uma sequência de duas vogais em hiato, pela
Sinérese LEGE- > lee > lei
semivocalização (transformação em semivogal) de uma delas.
Enfraquecimento de uma vogal em posição átona. Na atualidade, no português europeu, esse fenómeno é observável
Redução
quando comparamos formas como casa/casebre, em que uma mesma vogal surge com diferentes timbres, consoante
vocálica
se encontra em sílaba tónica (casa) ou em sílaba átona (casebre).

56
ETIMOLOGIA

Étimos – palavras (ou radicais) que estão na base das palavras portuguesas. A etimolo-
gia é a ciência que estuda a origem e a evolução das palavras.

Palavras divergentes Palavras convergentes


Palavras que, apesar de provenientes do Palavras que, apesar de derivarem de étimos
mesmo étimo, apresentam formas diferentes diferentes, apresentam a mesma forma em
em português. português.
padre Ex.: SANU- são (‘saudável’)
Ex.: PATRE-
pai SANCTU- são (‘santo’)

PROFESSOR
APLICAR
Gramática
1. Identifique os processos fonológicos operados na evolução das palavras apresen- 17.3; 17.4; 17.5; 17.6; 17.7
tadas.
1.
a. FENESTRA- > feestra > festra > fresta h. OCULU- > oclo > olho a. síncope, crase, metátese.
b. sonorização.
b. SECRETU- > segredo i. MULTU- > muito c. síncope, assimilação.
d. síncope, epêntese.
c. PERSONA- > persoa > pessoa j. PLENU- > cheo > cheio e. apócope, síncope.
f. síncope, crase.
d. CENA- > cea > ceia k. MATERIA- > madeira g. síncope, prótese,
palatalização.
e. CRUDELE- > crudel > cruel l. NOCTE- > noite h. síncope, palatalização.
i. vocalização.
f. PEDE- > pee > pé m. SOLES > soes > sóis j. síncope, palatalização,
epêntese.
g. SPECULU- > speclu > espelho k. sonorização, metátese.
l. vocalização.
2. Identifique o processo fonológico que a comparação das palavras “mala”/“maleta” e m. síncope, sinérese.
“porta”/“portão” nos mostra. 2. Redução vocálica. Existe
um enfraquecimento
da mesma vogal
3. Atente nas seguintes frases. (representada por <a> e <o>,
respetivamente), em posição
a. O rio era um dos elementos da Natureza presentes nas cantigas de amigo. átona.
b. Rio-me com algumas cantigas de escárnio e maldizer. 3.1 Trata-se de palavras
convergentes já que, apesar
de apresentarem a mesma
3.1 Tendo em conta o significado dos vocábulos sublinhados, classifique-os quanto ao forma, provêm de étimos
étimo de que provêm. Confirme a sua resposta através da consulta de um dicionário. diferentes: a. RIVU- (> rio);
b. RIDERE (> rir).
4. Tendo em conta o seu sentido, selecione, da lista de palavras apresentada, aquelas 4. e 4.1
que apresentam um constituinte que provém do étimo latino MATER (‘mãe’). [A] matriarcal – sistema em
que a mulher, mãe, aparece
[A] Matriarcal. [C] Maternidade. [E] Matricida. como figura central.
[C] maternidade – estado
[B] Matrimónio. [D] Matrícula. [F] Matreira. de quem é mãe (também local
onde as mulheres dão à luz).
4.1 Explicite o significado de cada uma das palavras selecionadas, tendo em conta o [E] matricida – homicídio
étimo de que provêm. da mãe.
5.
5. Apresente duas palavras que contenham constituintes que integram cada um dos a. fraterno, fratricida,
fraternidade, frade.
étimos listados abaixo. b. agricultura, agrário,
agrícola, agricultor.
a. FRATER (‘irmão’). c. URBS (‘cidade’). c. urbano, urbanização,
urbanismo.
b. AGROS (‘campo’). d. CIVIS (‘cidadão’). d. civil, cívico, civilização,
civismo.

57
PA R A S A B E R Poesia Trovadoresca

POESIA LÍRICA

Cantigas de amor Cantigas de amigo

Origem • provençal • autóctone

Sujeito de
• trovador • a “amiga” (a donzela)
enunciação

Objeto • a dona (a “senhor”) • o amigo

Características
• ser divinizado, quase inatingível, • ser terrestre, de cariz
da figura
da aristocracia essencialmente popular
feminina

Características • vassalo • apaixonado


da figura • submisso • ausente
masculina • sofredor • mentiroso

• doméstico
• palaciano • familiar
Ambiente
• cortês • rural
• marítimo

• artificial • simples
Essência • convencional • espontânea
• aristocrática • popular

• a paixão pelo amigo


• a saudade
• elogio da mulher amada • a incerteza e a insegurança
Tema
• a coita amorosa na relação
• os arrufos de amor
• o ciúme

POESIA SATÍRICA

Subgéneros Características Intenção crítica

Cantigas • sátira dissimulada, dúbia


• sátira política
de escárnio e encoberta
• crítica de costumes
Cantigas • paródia do amor cortês
• sátira direta, mordaz e explícita
de maldizer

58
PA R A V E R I F I C A R

Verifique os seus conhecimentos após a leitura e a análise de várias cantigas da poesia


trovadoresca galaico-portuguesa.
PROFESSOR

1. Identifique as afirmações verdadeiras e as falsas. De seguida, transforme as afir- Educação Literária


mações falsas em afirmações verdadeiras. 14.3; 14.8; 15.1; 16.1

a. Nas cantigas de amor, o sujeito de enunciação é a donzela apaixonada.


1.
b Um dos temas mais frequentes nas cantigas de amor é a coita amorosa. a. F –O sujeito de enunciação
é o trovador enamorado.
c. Na primeira cantiga de amor trovadoresca apresentada nesta unidade, a mulher b. V;
c. V
surge sobrevalorizada. d. F – A presença da Natureza
surge de forma recorrente
d. Nas cantigas de amor é recorrente a referência à Natureza. nas cantigas de amigo e não
e. Em geral, a mulher celebrada nas cantigas de amor é de um estatuto social ele- nas de amor.
e. V
vado. f. F – É recorrente assistirmos
à dor do sujeito lírico quer por
f. A correspondência amorosa entre o sujeito lírico e a mulher enamorada é recor- não ser correspondido em
rente nas cantigas de amor. termos amorosos quer pela
mulher amada se mostrar
g. Por serem de natureza mais popular, as cantigas de amor apresentam recorren- indiferente em relação a si.
g. F – São as cantigas de
temente uma estrutura paralelística. amigo que apresentam
uma natureza mais popular
h. Nas cantigas de amor, o sentimento expresso pelo trovador é convencional e e frequentemente uma
pouco natural. estrutura paralelística.
h. V
i. A donzela, nas cantigas de amigo, tem como única confidente a mãe. i. F – Além da mãe, existem
outras confidentes como
j. É frequente assistirmos, nas cantigas de amigo, à angústia da donzela motivada as amigas ou a Natureza.
pela ausência do amigo. j. V
k. V
k. Nas cantigas de amigo, é comum a donzela apresentar traços de simplicidade l. V
e ingenuidade. m. F – A mulher representada
nas cantigas de amigo é mais
l. As cantigas de amigo refletem um ambiente mais familiar do que as cantigas espontânea e menos artificial
de amor. do que a mulher celebrada nas
cantigas de amor.
m. A mulher representada nas cantigas de amigo é mais artificial do que a mulher n. F – Apesar de em algumas
cantigas de amigo ser evidente
celebrada nas cantigas de amor. a correspondência amorosa,
em muitas outras assistimos
n. Ao contrário das cantigas de amor, nas cantigas de amigo há sempre correspon- à desilusão da donzela em
dência amorosa. relação ao objeto do seu amor.
o. V
o. O sentimento amoroso é o tema central das cantigas de amigo e de amor. p. F – As cantigas de escárnio
e maldizer têm como objetivo
p. Um dos temas mais recorrentes nas cantigas de escárnio e maldizer é a celebra- a sátira, pelo que não se
ção da mulher amada. encontram nelas temas
como o da celebração da
q. As cantigas de maldizer distinguem-se das de escárnio pelo facto de nas primeiras mulher amada. Aliás, existem
cantigas em que se satiriza o
se fazer referência direta e ostensiva ao alvo visado. excesso de convencionalismo
presente nas cantigas de
r. Um dos recursos expressivos mais recorrentes nas cantigas de escárnio e maldizer amor, no que toca à descrição
é a ironia. da mulher amada.
q. V
s. Num grande número de cantigas de escárnio e maldizer, assiste-se a uma paródia r. V
ao amor cortês. s. V

59
PA R A R E C U P E R A R

Relembre o estudo da poesia trovadoresca e realize as atividades seguintes.

PROFESSOR
1. Associe os elementos da coluna A aos elementos da coluna B que completam ade-
quadamente o seu sentido.

Apresentação
Galeria de imagens
Coluna A Coluna B
Apresentação
Síntese da Unidade [A] A cantiga de amigo e a [1] são marcas formais associadas às cantigas de amigo.
Teste interativo cantiga de amor
[2] critica todos as categorias socioprofissionais, exceto
Poesia trovadoresca
[B] Paralelismo e refrão o rei.
Educação Literária [3] desenvolvem ambas a temática do sofrimento
14.3; 14.4; 14.7; 16.1 amoroso, embora difiram no que se refere ao emissor.
[C] Na poesia satírica, o trovador
[4] satiriza algo ou alguém, recorrendo a “palabras
1.
[A] – [3] [D] O amor cortês também cubertas”, ou seja, à ironia e a jogos de palavras.
[B] – [1] [5] é objeto de crítica, quer ao nível da linguagem,
[C] – [2] [E] Na cantiga de escárnio, o quer relativamente à forma como o trovador compõe
[D] – [5] enunciador ou canta.
[E] – [4]
2.
a. trovador
b. senhor 2. Complete os espaços com as palavras adequadas, selecionando-as entre as pro-
c. morais
d. coita
postas abaixo.
e. indiferente
f. poder
g. morrer indiferente, sensível, morrer, senhor, morais, coita, hipérbole, poder, trovador
h. hipérbole
3.
a. “porque está angustiada Na cantiga de amor, o emissor é o a. , que expressa o seu amor pela sua
com a ausência do amigo.” –
oração subordinada adverbial b.“ ”, caracterizada como “fremosa”, “de “bom prez”, “mui comunal”, reunindo
causal;
b. “Quando não recebe as qualidades físicas, c. e sociais.
notícias do seu amigo” –
oração subordinada adverbial
Na relação que se estabelece entre o trovador e a sua dama, aquele revela a sua
temporal; d. amorosa porque a mulher é muitas vezes e. aos seus
c. “Embora a ‘senhor’ seja
descrita como uma mulher sentimentos. O homem submete-se ao seu f. , de tal forma que prefere
perfeita”– oração subordinada
adverbial concessiva; “que ela g. a viver sem o seu amor. Por isso, a h. é um dos recursos
é cruel” – oração subordinada
substantiva completiva. expressivos de que o trovador se serve para exprimir o seu sofrimento pela indiferença
3.1. a. Predicativo do sujeito;
b. Modificador e sujeito da dama.
simples, respetivamente;
c. Modificador e complemento
direto, respetivamente. 3. Identifique e classifique as orações subordinadas nas frases que se seguem.
a. A donzela desabafa com a mãe porque está angustiada com a ausência do amigo.
b. Quando não recebe notícias do seu amigo, a donzela fica desesperada e impaciente.

c. Embora a “senhor” seja descrita como uma mulher perfeita, o trovador sabe que ela
é cruel.
3.1 Identifique as funções sintáticas dos constituintes sublinhados nas frases ante-
riores.

60
Almeida Garrett
PA R A AVA L I A R Poesia Trovadoresca
GRUPO I

Leia a cantiga que se segue.


PROFESSOR

Vi eu, mia madr’, andar


Vi eu, mia madr’1, andar Apresentação
1
minha mãe Soluções Ficha
as barcas eno mar: 2
morro-me de Avaliação
e moiro-me2 d’amor. 3
praia
4
esperar GRUPO I
5
esperar
Foi eu, madre, veer 6
aí Educação Literária
5 as barcas eno ler3: 14.2; 14.3; 14.4; 14.7;
e moiro-me d’amor. 14.8; 14.9

1. Trata-se de uma cantiga de


As barcas [e]no mar amigo, visto que o sujeito de
e foi-las aguardar4: enunciação é uma donzela
que lamenta à sua mãe
e moiro-me d’amor. (confidente) a ausência do seu
amigo.
2. Esta cantiga pode dividir-se
10 As barcas eno ler em duas partes. A primeira diz
e foi-las atender5: respeito às quatro primeiras
coblas e corresponde à
e moiro-me d’amor. descrição da situação
inicial, ou seja, ao facto de
a donzela acorrer à praia na
E foi-las aguardar esperança de ver o seu amigo
e non o pud’ achar: chegar numa das barcas que
estão a aportar; a segunda
15 e moiro-me d’amor. corresponde às últimas quatro
coblas e aqui assiste-se à
desilusão da donzela por,
E foi-las atender afinal, não ter reencontrado
e non o pudi veer: o seu amor.
3. Apesar de começar por
e moiro-me d’amor. descrever o seu estado de
ansiedade e de esperança em
ver o amigo, a donzela, desde
E non o achei i6, o início, através do refrão,
20 [o] que por meu mal vi: manifesta a sua angústia,
o seu sofrimento amoroso
e moiro-me d’amor. e a sua desilusão pelo facto
de não ter encontrado o seu
Nuno Fernandez Torneol, B 645/V 246. amigo. Revela ainda remorsos
por se ter apaixonado, quando
1. Comprove que a composição poética é uma cantiga de amigo, apresentando afirma: “[o] que por meu mal
vi:”. (v. 20).
duas características ao nível do conteúdo que fundamentem a sua resposta. 4. a. No verso “Vi eu, mia
madr’, andar” está presente
a apóstrofe “madre”, como
2. Proceda à divisão do texto em duas partes lógicas, explicitando o assunto forma de realçar o interlocutor
de cada uma delas. e confidente da donzela –
a mãe.
b. Em “e moiro-me d’amor.” é
3. Caracterize, fundamentando, o estado de espírito do sujeito poético. evidente a hipérbole que serve
para realçar o sofrimento
amoroso de que a donzela
4. Identifique os recursos expressivos presentes nos versos abaixo indicados, padece.
comentando a sua expressividade. 5. A cantiga é composta por
sete dísticos e um refrão
a. “Vi eu, mia madr’, andar”. (v. 1) b. “e moiro-me d’amor.” (v. 3) monóstico, segundo o
esquema rimático: aa’R / bb’R /
a’a’’R / b’b’’R / a’’aR / b’’bR /
5. Proceda à análise formal da cantiga, atendendo ao número e tipo de estrofes, cc’R / dd’R. As rimas são todas
ao seu esquema rimático e à classificação das rimas. emparelhadas.

61
Almeida Garrett
PA R A AVA L I A R Poesia Trovadoresca
GRUPO II

Leia atentamente o texto

A Língua Portuguesa Por Hélia Correia

Ela não esqueceu nunca o tempo em que era uma camponesinha descarada
1
artifícios; 2 prostração, doçura; que dançava debaixo de aveleiras em flor. Ri facilmente e, ao menor pretexto,
3
descuido; 4 frescura, pujança;
5
tira os sapatos, prende as saias com a mão, parte outra vez ao encontro da sua
decai, corrompe(-se).
natureza que aceita mal a convenção e os arrebiques1. Tem o latim por pai, é cer-
5 to, mas um pai com barba vagabunda, alheio à higiene e às declinações. Herdou
das mouras uma certa languidez2, essa demora no olhar que indica a predispo-
sição para o descuido nos pormenores mais práticos da vida. Atravessou-a o es-
pírito dos Celtas. Está visto que haveria de nascer versejante e com algum defeito
de maneiras. Creio eu que, como em todas as moçoilas, lhe resulta o desleixo3
10 em sedução. […]
Mesmo no grande épico lusíada, vemos Camões a rir daquele marinheiro, Ve-
loso de seu nome, que desceu em muito menos tempo do que o tinha subido um
outeiro que escondia nativos assanhados. Por efeitos de história e crescimento,
civilizou-se um pouco, entrou na corte, fez vénia às muitas modas chegadas do
15 estrangeiro. […]
Grandes amores teve ela com Mestre Gil Vicente e foi esse um enlace sem
igual na duração e na intensidade, e, mais, em nunca um do outro se enjoarem,
antes encherem de apalpões e viço4 as deprimidas salas palacianas. […]
Saiu para além do mar com os marinheiros, mas não entendeu nada do Im-
20 pério. O que quis foi dançar e misturar-se. Enquanto eles degolavam e ofen-
diam, ela deitou-se na frescura das palhotas e gerou promissoras combinações
da espécie. Enquanto a missa e a lei teimavam no latim, ela, a menina do desca-
ramento, espalhava as filhas pelo mundo fora, numa alegre e opulenta semen-
teira. Abriu os braços a fonemas e a deuses que eram até então estrangeiros e
25 hostis mas nela se deixaram docemente fundir.
Enquanto a nobreza degenera5, por secagem do sangue e doçarias, a nossa
mocetona continua trocando afeto em terras de África e Brasil, tomando e ofere-
cendo, e outro não é o segredo da sua juventude. Menininha que eu vi nas mãos
do Mia Couto, a rir da brincadeira que era uma flor rodando pelos ares abaixo.
30 Menininha que disse estar bem e estar feliz.
in https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/outros/antologia/menina-e-moca-/616
(consultado em janeiro de 2017).

1. Para responder a cada um dos itens de 1.1 a 1.9, selecione a opção que lhe permite
obter uma afirmação correta.

1.1 No primeiro período textual, a autora evoca


[A] as origens camponesas do Português.
[B] o lirismo trovadoresco, nomeadamente as cantigas de amigo.

[C] a origem latina da língua portuguesa.

62
1.2 Com a frase “Atravessou-a o espírito dos Celtas” (ll. 7-8), Hélia Correia faz referência a
[A] um substrato da língua portuguesa.
[B] um superstrato do Português.
PROFESSOR
[C] uma língua posterior ao galaico-português.
GRUPO II
1.3 No primeiro parágrafo, a autora pretende, através da personificação, evidenciar
Leitura
[A] a naturalidade e a espontaneidade da língua portuguesa. 7.1; 7.2; 7.6; 8.1

[B] o caráter rude e sujo da camponesinha, herdado de seu pai. 1.1 [B]
1.2 [A]
[C] a sedução alegre que herdou das mouras.
1.3 [A]
1.4 [C]
1.4 No segundo parágrafo, assiste-se a uma evolução da língua portuguesa decorrente 1.5 [C]
1.6 [B]
[A] da influência da poesia lírica de Camões. 1.7 [A]
1.8 [C]
[B] do episódio de Fernão Veloso.
1.9 [B]
[C] do seu contacto com a cultura palaciana.
Gramática
18.1
1.5 No penúltimo parágrafo, assistimos
2.1 Sujeito subentendido “ela”.
[A] ao nascimento das variantes regionais africanas.
2.2 Comparação.
[B] à importância do ensino do latim, regulado por lei. 2.3 Complemento direto.

[C] à disseminação do português pelos continentes africano e sul-americano.

1.6 No último parágrafo, a autora prossegue com o recurso à


[A] enumeração das qualidades da nobreza.
[B] personificação da língua portuguesa.

[C] enumeração das trocas comerciais entre África e o Brasil.

1.7 Na frase “Enquanto eles degolavam e ofendiam” (ll. 20-21), existe um pronome
[A] pessoal que é sujeito simples.
[B] indefinido que é sujeito indeterminado.
[C] pessoal que é sujeito composto.

1.8 O conector “Enquanto” (l. 20) é uma conjunção subordinativa


[A] causal.
[B] final.
[C] temporal.

1.9 Em “ela deitou-se na frescura das palhotas” (l. 21), as expressões sublinhadas cor-
respondem respetivamente
[A] ao complemento direto e ao complemento indireto.
[B] ao complemento direto e ao complemento oblíquo.
[D] ao complemento indireto e ao complemento oblíquo.

63
Almeida Garrett
PA R A AVA L I A R Poesia Trovadoresca

PROFESSOR 2. Responda aos itens apresentados.

GRUPO III 2.1 Indique e classifique o sujeito sintático da frase “Tem o latim por pai” (l. 4).

Escrita 2.2 Identifique o recurso expressivo presente em “como em todas as moçoilas” (l. 9).
10.1; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3;
12.4; 13.1 2.3 Refira a função sintática desempenhada por “Grandes amores”, presente no início
do terceiro parágrafo.
Proposta de resolução:
Introdução: origem da
cantiga de amigo associada GRUPO III
aos primórdios da nossa
nacionalidade, num contexto
cultural e social muito Redija um texto expositivo, de 150 a 250 palavras, numa linguagem clara, objetiva e
diferente do da atualidade. precisa, onde apresente as principais diferenças entre as relações amorosas retrata-
Desenvolvimento: das na poesia trovadoresca e as vividas pelos jovens na atualidade.
Parágrafo 1
– Motivos da infelicidade
amorosa da donzela – Para isso, comece por completar o seguinte plano de texto, elaborando os tópicos
ausência do amigo devido à relativos a cada uma das partes.
guerra; não correspondência
amorosa. · Introdução: as relações amorosas na Idade Média e no século XXI.
– Dificuldades de
comunicação com o amado, · Desenvolvimento: parágrafo 1 - …
o que leva à confidência
amorosa com a Natureza, a parágrafo 2 - …
mãe e as amigas. –…
Parágrafo 2
– Facilidade de comunicação · Conclusão: fecho do texto, sintetizando os principais aspetos referidos.
na atualidade – telemóvel,
redes sociais, que encurtam
as distâncias.
– Locais de encontros
amorosos diferenciados: as
fontes, as romarias, os bailes
da Idade Média por oposição
aos espaços partilhados pelos
jovens de hoje em dia (escola,
festas, discotecas…) e aos
locais de encontro virtuais.
Conclusão: as relações
amorosas estão sujeitas às
condicionantes específicas da
época histórica.

64
MÓDULO

2. Fernão Lopes
PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR

PARA DESENVOLVER
Educação Literária
Crónica de D. João I
• Excertos dos capítulos 11, 115 e 148 da 1.a Parte
Leitura
Exposição sobre um tema
Escrita
Síntese
Exposição sobre um tema
Oralidade [Comprensão/Expressão Oral]
Documentário [Comprensão do Oral]
Síntese [Expressão Oral]
Gramática
Sintaxe [Aprender/Aplicar]
• Processos fonológicos
PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR
PARA CONTEXTUALIZAR

1380-90 1383-85 1443 1453 1460


Nascimento do cronista Crise política portuguesa Redação Queda do Império Morte de Fernão
Fernão Lopes da Crónica de Romano no Oriente – Lopes
1385 — Aclamação de D. João I
El-Rei D. João I fim da Idade Média
como rei de Portugal /
por Fernão Lopes
Batalha de Aljubarrota

A Idade Média, o seu “historiador” Fernão Lopes e a evolução da língua portuguesa.

Atente nos seguintes aspetos, para melhor compreender as transformações que ocorrem nes-
ta época, bem como o autor que irá ser objeto de estudo.

A nação portuguesa • Uma nova nobreza, constituída por burgueses nobilita-


e a evolução da língua dos ou por filhos segundos das casas nobres, que recebem
terras e poder económico, e que se instala no centro e no sul
• A separação definitiva entre o galego e o português do país, sucede à anterior.
ocorreu a partir do século XV, período em que se deram gran- Elaborado a partir de Ivo Castro, Introdução à história
des alterações sociais e políticas. do português [2004], 2.a ed., revista e muito ampliada,
• O processo de evolução da língua foi influenciado: Lisboa, Colibri, 2006, pp. 76-77.
5 – pela peste negra que dizimou provavelmente grande parte
da população adulta, originando um salto de gerações; Fernão Lopes, um intérprete fiel
– pelas guerras entre D. Fernando e de D. João I de Castela, da mudança política
que perturbaram o equilíbrio político;
– pela mudança da corte para Lisboa que se torna a capital • Ao chegar a crise de 1385, o povo português estava já na
10 do país. posse de uma consciência da sua própria identidade, rea-
gindo, por isso, violentamente contra a ameaça de absorção
A crise dinástica e uma nova dinastia
por parte de outro Estado (Castela).
apoiada por uma nobreza renovada 5 • Fernão Lopes compreendeu perfeitamente o signifi-
• A nobreza da primeira dinastia, que tinha ajudado cado dos acontecimentos que envolveram essa tomada
D. Afonso Henriques e os seus descentes a fundar o reino e a de consciência e elegeu o povo como protagonista da Cró-
governá-lo durante séculos, toma o partido de D. Beatriz, nica de D. João I.
filha de D. Fernando, rainha de Castela e herdeira legítima do Elaborado a partir de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Apontamentos
de Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, 1993, p. 38.
15 trono, o que resultou na perda da guerra e do poder.

66
PARA INICIAR

EXPRESSÃO ORAL

Observe as imagens apresentadas.


LEGENDA DAS IMAGENS

A. D. João I de Portugal,
c. 1435, Museu Nacional
de Arte Antiga.
B. Dom Nuno Álvares Pereira,
c. 1841, Charles Legrand
(primeira metade do
século XIX), Biblioteca
Nacional de Portugal.
C. Fernão Lopes (pormenor),
Painéis de São Vicente
de Fora, c. 1470, Nuno
Gonçalves, Museu Nacional
de Arte Antiga.
D. A Batalha de Aljubarrota,
Jean de Wavrim (séc. XV),
Crónicas de Inglaterra,
A D. João I, Mestre de Avis. c. 1470-1480.
E. Cerco de Lisboa (1384),
Crónicas de Jean Froissart,
séc. XV.
D Batalha de Aljubarrota.
NOTA AO ALUNO
Quando se faz uma
pesquisa, convém que
a informação a que
se tem acesso prime
pela qualidade, pelo que
é premente que haja
espírito crítico
na seleção das fontes.
Assim, não só é
B Nuno Álvares Pereira. importante recorrer
a obras ou sítios de
Internet fidedignos como
também é necessário
confrontar a informação
obtida com outras fontes,
de modo a assegurar
a sua autenticidade.
A título de exemplo, para
o trabalho que se propõe,
sugerem-se as seguintes
fontes:
• Giulia Lanciani
e Giuseppe Tavani
(coor.), Dicionário da
literatura medieval galega
C Fernão Lopes. E Cerco de Lisboa.
e portuguesa, Lisboa,
Editorial Caminho, 1993,
pp. 180-182 [Crónica
Realize, em grupo, uma pesquisa, numa enciclopédia, num manual de História, na In- de D. João II] e pp. 271-
-274 [Fernão Lopes].
ternet ou noutro suporte, sobre a individualidade ou o acontecimento retratado em
• Teresa Amado, Fernão
cada uma das imagens (cada grupo debruçar-se-á sobre uma imagem). Lopes, contador de
História, Lisboa, Editorial
1. Apresente à turma, em 2-3 minutos, uma síntese das informações recolhidas Estampa, 1991.
e mais pertinentes. • Fundação Batalha
de Aljubarrota, disponível
2. Discuta, em trabalho de pares, a relação que se pode estabelecer entre as várias em http://www.
fundacao-aljubarrota.pt/
imagens.

67
Fernão Lopes
PARA DESENVOLVER

COMPREENSÃO DO ORAL

Proceda à audição atenta de um registo áudio sobre Fernão Lopes.

1. Com base no conteúdo das colunas A e B, forme nove afirmações verdadeiras sobre
a vida e obra do autor.
PROFESSOR

Oralidade
Coluna A Coluna B
1.6; 2.1; 2.2; 3.1; 3.2; 4.1;
4.2; 5.2; 5.3; 6.2; 6.3
[A] Esteve ao serviço do reino português [1] foi escrivão dos livros de D. João I.
Expressão Oral (p. 67) durante dois reinados e uma regência,
[2] a assessorar o infante D. Fernando, como
1. e 2. respetivamente,
A imagem C representa “escrivão da puridade”.
Fernão Lopes, autor da [3] das Crónica de D. Pedro, Crónica
Crónica de D. João I, sobre o [B] É autor
respetivo monarca (imagem de D. Fernando e Crónica de D. João I.
A), que foi aclamado rei de [C] A sua vida pública está documentada
Portugal depois da morte [4] surge pela primeira vez como tabelião-
a partir de 1418,
de D. Fernando e durante -geral do reino.
a crise de 1383-1385. Nessa [D] Em 1419
mesma crónica, são episódios [5] o de D. João I, o de D. Duarte e a do
como o do cerco de Lisboa infante D. Pedro.
(imagem E), levado a cabo [E] A partir de 1422, dedicou-se também
pelos castelhanos, bem como [6] é uma das fontes fundamentais
o da Batalha de Aljubarrota
(imagem D), no qual se [F] Em 1437 da biografia de Fernão Lopes.
destaca a figura de D. Nuno [7] quando foi primeiramente nomeado
Álvares Pereira (imagem B),
mentor da estratégia que
[G] Em 1454, foi substituído nas suas guarda das escrituras do Tombo, como
conduziu os portugueses funções escrivão dos livros do infante D. Duarte.
à vitória e que, durante toda
a crise, esteve ao lado [H] A carta datada de 1434, da [8] por Gomes Eanes de Zurara, talvez
de D. João, Mestre de Avis. por doença ou velhice.
responsabilidade de D. Duarte,
[9] para que escreva as crónicas dos reis
[I] Nessa mesma carta, o rei D. Duarte da primeira dinastia portuguesa até
Vídeo concede ao cronista 14 mil reais ao reinado venturoso de D. João I.
Fernão Lopes – vida e obra

1.
[A] – [5]
[B] – [3]
[C] – [7]
[D] – [1]
[E] – [2]
[F] – [4] EXPRESSÃO ORAL
[G] – [8]
[H] – [6]
Sintetize, oralmente, em 2-3 minutos, os aspetos
[I] – [9]
mais significativos da vida e da obra de Fernão
Lopes, baseando-se nas informações recolhidas
no documento áudio e no exercício realizado an-
teriormente.

Planifique o seu texto numa perspetiva cronológica.

Crónica d'El-Rei D. João I com iluminura da vista


de Lisboa do século XV, Torre do Tombo.

68
Crónica de D. João I

LEITURA

D. João I é figura central da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes.

Leia o texto seguinte, que apresenta alguns aspetos biográficos deste monarca portu-
guês. Responda, depois, aos itens propostos.
PROFESSOR

Leitura
7.1; 7.4; 7.6; 8.1
Educação Literária
D. João I 16.1

a.
No ano de 1357 nasce D. João, mais um filho ilegítimo do infante D. Pedro. Ascende, ain- 1357 e 1413 (14 de agosto).
da criança, a Mestre de Avis e, liderando a ordem e frequentando a corte, atravessará os b. Filho ilegítimo do infante
D. Pedro.
governos de seu pai e de seu irmão D. Fernando. Após a morte deste monarca (1383), os c. Mestre de Avis, regedor
acontecimentos precipitam-se e diversas forças sociais guindam-no1 a um protagonismo e defensor do reino e rei de
Portugal.
5 político que fará dele regedor e defensor do reino e, finalmente, rei de Portugal, nas Cortes d. 1385.
de Coimbra de 1385. Desde logo, com os apoios certos e tendo como braço armado Nuno e. Em 1387, com D. Filipa de
Lencastre.
Álvares Pereira, vai submetendo opositores e combatendo os Castelhanos, dentro e fora do
f. Guerra com Castela,
reino, numa sequência de guerras que só cessarão com a assinatura de paz em 1411. Então, assinatura da paz em 1411,
nascida que já era uma vasta prole2 do seu casamento com D. Filipa de Lencastre em 1387, conquista de Ceuta.
g. Justo, vitorioso, devoto e
10 e consolidada uma corte, D. João governará apoiando-se na sua linhagem e em fiéis vassa- culto.
los. Conquista Ceuta em 1415, uma vitória sobre os infiéis que lhe garante fama em toda a
cristandade. […]
D. João morre a 14 de agosto de 1413, ao fim de um longo reinado de 48 anos, e foi se-
pultado no Mosteiro da Batalha, marco real e simbólico da sua vitória real. Consagra-se
15 em mito de rei guerreiro fundador de uma nova dinastia, que na visibilidade da Capela do
Fundador, panteão fúnebre de Avis, se projeta em memória aristocrática de uma prestigia- 1
conduzem-no, dão-lhe
2
da linhagem e de uma realeza sacralizada. As metamorfoses3 iniciais da ascensão política descendência
3
do Mestre suscitaram diferentes e contraditórias leituras de historiadores, mais luminosas mudanças, etapas

umas, mais sombrias outras. Já como monarca, D. João veio a acolher e a recolher, para
20 além da morte, uma “boa memória” de rei justo, vitorioso, devoto e culto, que pela voz dos
povos foi proclamado pai dos Portugueses.

Maria Helena da Cruz Coelho, D. João I, "Reis de Portugal", Círculo de Leitores, 2005, texto da contracapa.

1. Construa o retrato de D. João I, preenchendo a tabela seguinte com informações


retiradas do texto.

Feitos
Nascimento Início do
Ascendência Títulos Casamento guerreiros e Qualidades
e morte reinado
políticos

a. b. c. d. e. f. g.

69
Fernão Lopes

E S C R I TA

SÍNTESE

Leia atentamente o texto que se segue.

Fernão Lopes – o historiador


Fernão Lopes é, ainda hoje, muitas vezes imaginado como o “pai” da historiogra-
1.O Parágrafo fia portuguesa. Já Lindley Cintra demonstrou, porém, que esta nasceu no reinado de
O pai da historiografia
portuguesa é o conde
D. Dinis (isto é, na 1.a metade do século XIV), em resultado de um notável esforço de
D. Pedro de Barcelos imitação da historiografia castelhana, e tem no conde D. Pedro de Barcelos o autor dos
(Livro de Linhagens e seus primeiros textos fundamentais: o Livro de Linhagens e a Crónica de 1344. Cerca
Crónica de 1344), apesar 5
de muitos crerem ser de três quartos de século mais tarde, Lopes inscreve-se nesta tradição, sendo aliás a
Fernão Lopes. Este segue Crónica de 1419 um excelente testemunho dessa realidade. Com ele, consolidar-se-á
a tradição (Crónica de
1419), mas provocará
uma nova fase na evolução da nossa historiografia: aquela que garante a transição do
uma evolução na nossa estilo do “memorial” ou do “cronicão” para o estado de “crónica”. A simples anotação
historiografia, que se do acontecimento, por vezes apenas conhecido pela tradição oral e registado sem
tornará mais complexa, 10
de narrativa ordenada demasiada preocupação de rigor, cede definitivamente o lugar a uma narrativa orde-
cronologicamente, mais nada (diacronicamente), de estrutura e apresentação internas muito mais complexas
rigorosa e baseada em
fontes diversificadas. e apurada no manuseamento de materiais informativos muito diversificados.
2.O Parágrafo Creio […] que ao estilo de trabalho e à própria conceção de história de Fernão Lopes
A situação profissional não será manifestamente estranha a sua condição profissional. [...] A sua contribuição
do cronista – 15
conservador durante 36 mais importante para o desenvolvimento da historiografia na Europa deve em grande
anos da Torre do Tombo – parte atribuir-se ao estreito contacto que manteve com a Torre do Tombo, do qual
permitiu-lhe o acesso a
muitos e diversificados foi conservador durante 36 anos […] [e daí] a reconhecida utilização, pelo cronista, de
documentos. uma vasta gama de documentos [...].
3.O Parágrafo Em primeiro lugar, e inevitavelmente, as fontes narrativas, [...] o grande alimento
20
Recorreu a fontes
diversas: as narrativas, das Crónicas. [...] A par das fontes narrativas, Fernão Lopes utilizou também [...] fontes
as de natureza de natureza diplomática e arquivística. [...] Por fim, parece-me ser pertinente agrupar
diplomática e
num terceiro bloco um conjunto de outros testemunhos [...] nomeadamente, memó-
arquivística e a um
conjunto de outros rias dispersas [...], informações orais, elementos lendários e tradicionais, representa-
testemunhos (memórias ções artísticas e até epitáfios.
dispersas, informações 25

orais, entre outros). [...] Fernão Lopes é um escritor ao serviço do poder e dele inteiramente dependente,
4.O Parágrafo do ponto de vista económico e profissional. [...] Quer isto dizer que a própria existência
É um escritor ao serviço
do poder e, por isso, tem do escritor só se justificava em função da utilidade de que este se pudesse revestir para
de ser útil para os que o o meio que o acolhia e remunerava. [...]
remuneravam.
30
Lopes pretendeu, sobretudo, justificar os acontecimentos verificados em Portugal
5.O Parágrafo
A sua principal missão
em 1383-1385, tanto no plano das suas ocorrências específicas como (e fundamental-
consistia em justificar mente) no das grandes decisões dali decorrentes. Com isso, visava, bem entendido,
os acontecimentos legitimar o comando político vigente na primeira metade do século XV! [...]
ocorridos entre 1383--
1385 e legitimar o poder Competiu a Fernão Lopes, cerca de meio século depois (e, recorde-se, por enco-
vigente na primeira
metade do séc. XV. 35
menda expressa de D. Duarte, mais tarde confirmada pelo infante D. Pedro), transfor-
6.O Parágrafo mar em legítimo o ilegítimo.
É a pedido de D. Duarte e João Gouveia Monteiro, Fernão Lopes, texto e contexto, Coimbra,
do Infante D. Pedro que o Minerva, 1988, pp. 85-88 e 114-116 (adaptado).
cronista transforma em
legítimo o ilegítimo.

70
Crónica de D. João I

Recorde os passos para elaborar uma síntese, tendo em conta as três fases essenciais:
fase preparatória, fase da redação e fase da revisão.

COMO ESCREVER UMA SÍNTESE

1. Fase preparatória
• ler para apreender a estrutura e o sentido global do texto;
• sublinhar as ideias/os factos essenciais e subjacentes à progressão textual (eliminan-
do repetições, pormenores, exemplificações, …);
• selecionar vocabulário ou expressões-chave;
• assinalar conectores ou articuladores que ligam frases entre si, estabelecendo rela-
ções de semelhança, de contraste/oposição, de anterioridade ou de posterioridade,
causa, etc.;
• registar, à margem do texto, a ideia central de cada parágrafo.
2. Fase da redação
• utilizar uma linguagem própria;
• respeitar as ideias do texto, não obrigatoriamente pela ordem de apresentação;
• evitar a colagem ao texto de partida;
• eliminar pormenores desnecessários;
• substituir sequências textuais por outras mais económicas;
• inserir juízos de valor, comentários.

Exemplificação

Fernnão Lopes,
Fernão Lopo es, nã
nãoão sesend
ndo
nd
sendo o o pap
paii da h isto
is t ri
to r og
ogra
rafi
ra
historiografia f a Po
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Efetivamente,
Efetivi am
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L vrvroo de Linhagens)
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esta nasce. nas
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Co ntu
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do,
d , Lope
do Lopes,s embora
p s, emb o a siga
bor s gaa a tradição,
si tra
radi
diçã
ção,
çã o, provocará
proovo
vocacará
ca rá uma
uma evolução
evo
v lu
luçã
ção
çã o na
n nossa
nos
ossasa historiografia,
his
isto
tori
to riog
ri ogra
og raafia que
f a, que se se
tornaráá ma mais
m iss ccomplexa
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om p exxa na cconstrução
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narrativa
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(obedecendo
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cronologia),
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ologia
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ia ), mmais
aiss ri
ai rigorosa,
igo
gororo
osa
s ,
5 porque
poorqquee baseada
bas e daa eem
asea m foffontes
ntes
ntes ddiversificadas:
ivver
e si
s fi
f ca
cadadas:
da narrativas,
s ass na
n rrat
rr ativ
at ivas
iv as,, as d
as dee na
natureza
natuture
tu reza
re za ddiplomática
iplo
ip lomá
lo máti
má tica
ti ca e aarqui-
rqui
rq ui-
vística
vííst outros
utrros ttestemunhos.
s icaa e outr
ou esteemunhoss. Te
es Terr ex
T exercido
xerci d ffunções
c do unçõ
un ções
çõ ess nnaa To
Torre
orr
r e do T Tombo
ombo
om bo ffacilitou-lhe
acilililit
ac itou
it ou-l
ou h o aacesso
-lhe
-l he cess
ce ssso
a es ssaas fo
essas font
ntesess. Po
fontes. P réém, não é cronista
Porém, croonists a isento
issen
e to o pois
poi
o s está
está aoao serviço
seerv
rviç
içço de D. D. Duarte
Duar
Du arte
ar te e d doo in
infa
fant
fa ntee
nt
infante
D Fernando,
D. Fer
e na
n nd o que
ndo, incumbiram
que o incumbi r m dee legitimar
b ra legitim
imar
im ar o p poder
der vigente,
od vig
i en
ig entete, consequente
te c ns
co n eq equeuent
ue ntee dos
nt do os acontecimen-
acon
ac onnte
teci
c me
ci men n-
tos ocorridos
o ridos entre 1383-1385).
ocor
oc 1383-138 3 5)
5.
(111
(1 11 palavras)
palavr
pal avras)
avras))

3. Fase da revisão
• verificar a articulação lógica das ideias (coerência) e a gramaticalidade da escrita
(coesão);
• corrigir falhas ao nível da ortografia, da acentuação, da pontuação, da sintaxe e da
seleção do vocabulário;
• respeitar a extensão textual indicada, normalmente correspondente a um quarto do
texto de partida, ou seja, um texto de 400 palavras poderá originar uma síntese de 100.

71
Fernão Lopes

LEITURA

Leia o texto de natureza expositiva a seguir apresentado, no qual se retoma a questão


da crise dinástica em Portugal descrita por Fernão Lopes, e responda às questões da
página seguinte.

A maior das vitórias


Por Luís Almeida Martins

por Nuno Álvares Pereira, um elemento da pequena no-


breza, amigo do Mestre de Avis, e na altura nomeado
25 Condestável, ou seja, comandante supremo das tropas.
Entretanto, outro exército castelhano cercava Lisboa,
que se defendeu como pôde. Uma terceira invasão en-
trou pela Beira Alta, mas foi travada em julho de 1385
perto de Trancoso.
30 As coisas estavam a correr bem para as cores nacio-
nais. E pode mesmo falar-se de cores nacionais, porque
nessa altura já o Mestre de Avis fora aclamado rei de Por-
tugal nas Cortes de Coimbra, com o nome de D. João I. […]
Mas se a revolução de 1383, um verdadeiro movi-
35 mento social da burguesia e do povo, unidos contra a
Batalha de Aljubarrota, Jean de Wavrin (séc. XV), in Crónicas
de Inglaterra, c. 1470-1480. nobreza, fora bem sucedida, a guerra contra Castela
estava longe de se encontrar ganha.
O casamento, em 1383, da filha única de D. Fernando, No verão de 1385, Juan I de Castela entrou pessoal-
“O Formoso”, com o rei Juan I de Castela pôs em perigo mente em Portugal à cabeça de um grande exército de
a independência de Portugal. Com efeito, quando nesse 40 32 mil homens. Toda a nobreza do seu país fazia parte
mesmo ano o soberano português morreu, o castelhano dele e muitos cavaleiros franceses (aliados de Castela)
5 achou-se com direitos à coroa do nosso país − e legal- também. [...] Os invasores traziam consigo 16 canhões,
mente tinha razão. coisa que por cá nunca se vira.
Foi então que, enquanto a maior parte da nobreza Ao encontro dessa imponente máquina de guerra
lusa apoiava o pretendente estrangeiro, a burguesia e o 45 partiu uma pequena hoste portuguesa de 6 mil ho-
povo se revoltaram, pois não queriam ser governados mens, comandada por Nuno Álvares Pereira. [...]
10 por um castelhano. Existia já então um claro sentimen- Ao terem conhecimento de que os invasores se
to nacional. Houve, assim, um levantamento popular encontravam perto de Leiria, os nossos resolveram en-
em Lisboa e gerou-se uma grande confusão de norte trincheirar-se num terreno que lhes pareceu adequado
a sul. Sob a orientação da burguesia mercantil, D. João, 50 para travar batalha. Era um planaltozinho próximo de
o Mestre da ordem de Avis, foi eleito nas ruas Regedor e Aljubarrota, e ali cavaram uns buracos-armadilha (as
15 Defensor do Reino, e uma das primeiras coisas que fez covas de lobo). Os castelhanos acharam preferível con-
foi assassinar o Conde de Andeiro, amante da rainha tornar o planalto e lançar o ataque num ponto onde o
viúva Leonor Teles e partidário dos castelhanos. declive era menos acentuado. Mas era exatamente o
E foi no meio disto tudo que Juan de Castela deci- 55 que os portugueses esperavam: alteraram o seu posi-
diu invadir Portugal para se apoderar do trono a que se cionamento e, aproveitando as defesas construídas
20 achava com direito. Um exército entrou pela fronteira durante a noite, aguardaram a pé firme o impetuoso
do Alentejo, mas, a 6 de abril de 1384, foi derrotado em ataque da cavalaria inimiga, lançado quando o sol já
Atoleiros (Portalegre) pelos portugueses comandados declinava.

72
Crónica de D. João I

60 A batalha resolveu-se numa hora e saldou-se pela importunado pela ambição expansionista de Castela e se
derrota dos castelhanos e dos franceses, que debanda- pôde dedicar em paz à sua própria ambição expansionista −
ram em desordem. Muitos fugitivos foram chacinados esta para outros continentes. Haveria pois todos os motivos
pela população da zona. […] e mais um para que 14 de agosto fosse feriado nacional.
Portugal garantiu assim a independência, com D. João I
Visão, edição online, 26 de dezembro de 2011
65 no trono. Foi graças a esta vitória que Portugal deixou de ser (adaptado, consultado em dezembro de 2017).

1. Selecione a alternativa que completa corretamente o sentido de cada afirmação. PROFESSOR

1.1 O assunto que domina o texto relaciona-se com Leitura


7.1; 7.4; 7.6; 8.1
[A] a crise política vivida em Portugal no século XIV.
[B] o casamento da filha de D. Fernando, D. Beatriz. 1.1 [A]
1.2 [C]
[C] o sentimento popular após a morte de D. Fernando.
1.3 [B]
[D] a crónica de Fernão Lopes sobre Leonor Teles. 1.4 [A]

1.2 A invasão de Portugal pelo rei de Castela estava fundamentada Escrita


11.1; 12.1; 12.3; 12.4
[A] na legitimidade do sucessor português.
[B] no sentimento nacional de independência. Luís Martins refere que o
casamento de D. Beatriz
[C] na legitimidade conferida pelo casamento. com o rei de Castela, que
se considerava herdeiro da
[D] na vontade dos portugueses e dos castelhanos. coroa portuguesa, ameaçou
a independência de Portugal.
1.3 O pretendente castelhano ao trono português era apoiado Porém, enquanto parte da
nobreza lusitana o apoiava,
[A] pela nobreza e pela burguesia. o povo e a burguesia
revoltaram-se contra
[B] por parte da nobreza lusitana. a governação castelhana,
com várias subversões em
[C] pelo povo e pela burguesia. todo o país. O Mestre de Avis,
sob orientação da burguesia,
[D] por todos os burgueses castelhanos. empreendeu o assassinato
do conde Andeiro. Neste clima,
1.4 A ideia defendida pelo autor no final do texto é a de que D. Juan invadiu Portugal para
se apoderar do trono, mas foi
[A] o dia 14 de agosto deveria ser feriado nacional. derrotado em Atoleiros pelos
portugueses liderados por
[B] devemos a D. João I a nossa independência. Nuno Álvares. Entretanto, outro
exército castelhano invadia
[C] teria sido preferível a vitória dos castelhanos. Lisboa e uma terceira invasão
iniciou-se pela Beira Alta.
[D] sem a vitória lusa não haveria Descobrimentos. A guerra estava longe do
fim. Então, D. Juan invadiu
Portugal com um forte exército.
Para o travar, um grupo de
portugueses, comandando por
Nuno Álvares, dirigiu-se para
Leiria, fixando-se num planalto
E S C R I TA próximo de Aljubarrota,
e reprimiu o ataque inimigo.
Deste modo, os portugueses
Sintetize o texto anterior em cerca de 150 palavras. garantiram a independência.
(148 palavras)

BLOCO INFORMATIVO – p. 283


MANUAL – pp. 70-71

73
Fernão Lopes

PROFESSOR COMPREENSÃO DO ORAL

Visione e escute atentamente um excerto do


Link
"Conta-me História" programa Conta-Me História, da RTP, sobre a
fase da História retratada por Fernão Lopes
Oralidade na Crónica de D. João I.
1.1; 1.4

1.
1. Assinale como verdadeiras ou falsas as
a. V afirmações seguintes. Corrija as falsas.
b. F – D. Fernando já tinha
morrido na altura da batalha a. A batalha de Aljubarrota surge na se-
de Aljubarrota, cujos quência da crise política de 1383-1385.
principais protagonistas Conta-me História,
foram D. João, Mestre de Avis, RTP
b. Um dos protagonistas da batalha de
e Nuno Álvares Pereira.
c. V Aljubarrota foi o rei D. Fernando.
d. F – Foi durante toda
a primeira dinastia que isso c. A crise política portuguesa é também fruto da crise social e económica que de-
aconteceu. flagrava na Europa.
e. F –Entre D. Fernando
e D. João de Castela. d. É sobretudo no reinado de D. Fernando que Portugal atinge crescimento em ter-
f. F – A sua avó.
g. F – Por ser amante do Conde
mos geográficos, económicos e demográficos.
Andeiro. e. Na sequência das guerras fernandinas, foi assinado o Tratado de Salvaterra de Ma-
h. F – Havia também a
possibilidade de ascender gos entre D. Fernando e Henrique II de Castela.
ao trono o infante D. João de
Portugal, o outro meio-irmão f. Em caso de morte de D. Fernando, e se o príncipe herdeiro não tivesse ainda ida-
de D. Fernando e que se de suficiente para assumir o trono, ficaria como regente de Portugal a sua mãe.
revelava como o herdeiro mais
legítimo por ser filho de g. O povo odiava D. Leonor Teles sobretudo pelos maus conselhos dados a D. Fer-
D. Inês de Castro, ao passo
que D. João, Mestre de Avis,
nando nas questões políticas que envolviam Portugal e Castela.
era fruto de uma relação de
D. Pedro com a aia, Teresa
h. D. João, Mestre de Avis, revela-se como a única alternativa legítima ao Tratado de
Lourenço. Salvaterra de Magos.
i. V
j. V i. O infante D. João de Portugal fugiu para Espanha, depois de ter assassinado a mu-
k. F – Parte da nobreza lher, na expectativa de aceder ao trono.
apoiava D. Leonor Teles,
apesar de a sua regência j. O povo acreditava que D. Leonor Teles estava envolvida no assassinato da irmã.
colocar em causa a
independência nacional. k. Parte na nobreza apoioava D. Leonor Teles por considerar que esta asseguraria
l. F – Havia também uma parte
da nobreza portuguesa que
a independência nacional.
apoiava D. João.
m. V
l. Os únicos apoiantes do Mestre de Avis eram oriundos do povo.
n. F –Inicialmente o Mestre de m. D. Nuno Álvares Pereira assume-se como o paradigma das virtudes da arte militar.
Avis hesitou, perante o plano
traçado por Álvaro Pais, mas, n. Álvaro Pais apresentou o seu plano ao Mestre de Avis e este aprovou-o de ime-
depois, acabou por aceitá-lo.
diato.
Escrita
10.2; 11.1; 12.1;
12.2; 12.3; 12.4; 13.1

Tópicos:
E S C R I TA
Introdução: Crise de 1383-
-85, identificada como uma
crise dinástica, dado que Redija um texto expositivo, de 120 a 150 palavras, baseando-se nas informações re-
Portugal estava sem sucessor colhidas a partir do visionamento do documentário. Siga as seguintes orientações.
ao trono e na iminência de vir
a ser governado por um rei
castelhano. • Introdução: identificação do assunto.
• Desenvolvimento: − duas causas da crise dinástica;
− movimentações em prol do rei castelhano e do Mestre de Avis.
BLOCO INFORMATIVO – p. 283
MANUAL – pp. 26-27 • Conclusão: solução encontrada pela fação apoiante do Mestre.

74
Crónica de D. João I

INFORMAR
PROFESSOR
Leia os tópicos apresentados abaixo e resolva a atividade proposta.
Desenvolvimento: Duas
causas da crise: morte de
D. Fernando sem deixar
sucessor, estando a sua
Fernão Lopes e a Crónica de D. João I filha casada com D. João de
Castela; regência entregue
a D. Leonor Teles, viúva de
• Fernão Lopes é o autor da primeira e segunda partes da Crónica de D. João I. D. Fernando e amante do
conde Andeiro, que apoiava
• Nestas duas partes, assiste-se ao protagonismo da “comunal gente”, a arraia a causa castelhana.
miúda, ou seja, toda a população que, nas ruas e praças das cidades, se agita, se Movimentações em prol do
rei castelhano e do Mestre de
manifesta ruidosamente, sempre com extrema liberdade de linguagem e de atitu- Avis: uma parte da nobreza
5 des, a favor da causa nacional, sendo, no entanto, por vezes, manipulada. apoiava a rainha D. Leonor
Teles; o povo e alguns nobres
• Os sacrifícios desse povo unido são engrandecidos pelo cronista, sobretudo colocaram-se do lado do
Mestre de Avis, que tinha
nos capítulo 148, em que se relata o cerco de Lisboa, confundindo-se a população como apoiantes Álvaro Pais,
com a própria cidade. No entanto, Fernão Lopes não se inibe de relatar também a chanceler-mor do falecido rei
D. Fernando e Nuno Álvares
crueldade de uma multidão enfurecida noutros capítulos. Pereira.
10
• Para além das ruas e adros da cidade, os espaços interiores (câmaras do paço Conclusão: Solução
encontrada: matar o conde
real e dos castelos) também são cenário dos acontecimentos relatados, de jogos de Andeiro, movimentado o
conveniências pessoais e da ânsia de poder de D. Leonor Teles. povo para a defesa do Mestre,
anunciando o contrário – era
• Fernão Lopes, não se limitando apenas ao relato de feitos guerreiros, apre- o conde que matava o Mestre.
senta-nos, nesta crónica, uma larga visão de conjunto da época, em páginas em-
15
polgantes, que exibem o realismo visualista de uma reportagem, pois o narrador Leitura
7.2; 7.4
situa-se no próprio momento em que ocorrem os factos que narra. O recurso a
diversas sensações (visual e auditiva, principalmente) também contribui para esse 1
realismo descritivo. a. F – Relata outros factos,
tais como o fervor do povo
• O cronista dá vida a essas personagens, com a reconstituição de diálogos que (agitação) nas ruas, os seus
20 sacrifícios e as intrigas no
as caracterizam indiretamente, e revela também a sua subjetividade ao longo da paço.
narração dos factos, tecendo comentários, fazendo juízos de valor, recorrendo a c. F – É empolgante, vivo,
frases exclamativas e interrogações retóricas. sendo realista, com recurso
a sensações diversificadas
Maria Ema Tarracha Ferreira, Crónicas de Fernão Lopes, 2.a ed.,Lisboa, no relato dos factos.
Ulisseia, 1988, p. 13 e pp. 30-36 (adaptado).
d. F – Existem diálogos,
em discurso direto, que
caracterizam também
as personagens.
e. F – O cronista tece
1. Selecione das seguintes afirmações as que são falsas e proceda à sua correção. comentários pessoais,
expressa sentimentos,
a. Na Crónica de D. João I, Fernão Lopes relata apenas as batalhas travadas pela emoções e juízos de
valor através de frases
conquista da independência nacional. exclamativas.
b. A força popular assume, nesta crónica, um lugar de destaque no desenrolar dos
acontecimentos.
c. O modo de narrar deste cronista é monótono e fantasista.
d. A caracterização das personagens envolvidas na ação é feita apenas pelo narra-
dor.
e. O cronista, enquanto narrador, adota sempre uma perspetiva objetiva sobre o
que relata.
f. Fernão Lopes também destaca no povo a sua agressividade.

75
Fernão Lopes
Afirmação da consciência coletiva | Atores (individuais e coletivos)

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia o excerto do capítulo 11 da Crónica de D. João I* e responda às questões que se seguem.

Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o Meestre, e como


aló foi Alvoro Paaez1 e muitas gentes com ele.

O Page do Meestre que estava aa porta, como2 lhe disserom que fosse pela vila
segundo já era percebido3, começou d’ir rijamente a galope em cima do cavalo em
que estava, dizendo altas vozes, braadando pela rua:
– Matom o Meestre! matom o Meestre nos Paaços da Rainha! Acorree ao Mees-
5 tre que matam!
E assi chegou a casa d’Alvoro Paaez que era dali grande espaço.
As gentes que esto ouviam, saiam aa rua veer que cousa era; e começando
de falar u~ us com os outros, alvoraçavom-se nas voontades4, e começavom de
tomar armas cada uũ como melhor e mais asinha5 podia. Alvoro Paaez que es-
10 tava prestes e armado com ũa coifa6 na cabeça segundo usança daquel tempo,
* FIXAÇÃO DE TEXTO cavalgou logo a pressa em cima du~ u cavalo que anos havia que nom cavalgara; e
Fernão Lopes, in Teresa
Amado (apresentação todos seus aliados com ele, braadando a quaes quer que achava dizendo:
crítica), Crónica de – Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre, ca7 filho é del-Rei dom
D. João I de Fernão Lopes Pedro.
(textos escolhidos),
ed. revista, Lisboa, 15 E assi braadavom el e o Page indo pela rua.
Editorial Comunicação, Soarom as vozes do arroido pela cidade ouvindo todos braadar que matavom
1992 [1980].
o Meestre; e assi como viuva que rei nom tiinha, e como se lhe este ficara em
logo8 de marido, se moverom todos com mão armada, correndo a pressa pera u9
1
burguês bastante rico, padrasto
deziam que se esto fazia, por lhe darem vida e escusar morte. Alvoro Paaez nom
de João das Regras, que fora 20 quedava10 d’ir pera alá11, braadando a todos:
chanceler-mor dos reis D. Pedro – Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por quê!
e D. Fernando; abandonou este A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer.
cargo com o pretexto de doença;
Nom cabiam pelas ruas principaes, e atravessavom logares escusos, desejando
mas, segundo Fernão Lopes,
ter-se-ia afastado da corte, cada uũ de seer o primeiro; e preguntando uũs aos outros quem matava o Meestre,
envergonhado com a desonra 25 nom minguava12 quem responder que o matava o Conde Joam Fernandez13, per
de D. Fernando, ocasionada pelo mandado da Rainha.
licencioso comportamento
E per voontade de Deos todos feitos duũ coraçom14 com talente15 de o vingar,
da rainha; tornou-se o chefe
da insurreição de 1383; como forom16 aas portas do Paaço que eram já çarradas, ante que chegassem, com
2
quando; 3 combinado; espantosas palavras começarom de dizer:
4
alvoraçavom-se nas voontades: 30 – U matom o Meestre? que é do Meestre? quem çarrou estas portas?
revoltavam-se; 5 depressa; Ali eram ouvidos braados de desvairadas maneiras. Taes i havia que certefica-
6
parte da armadura que
defendia a cabeça; 7 porque;
vom que o Meestre era morto, pois as portas estavom çarradas, dizendo que as bri-
8
em lugar de; 9 onde; 10 não tassem17 pera entrar dentro, e veeriam que era do Meestre, ou que cousa era aquela.
parava; 11 lá ; 12 não faltava; Deles18 braadavom por lenha, e que veesse lume pera poerem fogo aos Paaços,
13
Conde João Fernandes 35 e queimar o treedor19 e a aleivos20. Outros se aficavom21 pedindo escaadas pera
Andeiro, nobre galego, amante
sobir acima, pera veerem que era do Meestre; e em todo isto era o arroido atam
da rainha e por ela nomeado
conde de Ourém; 14 todos feitos grande que se nom entendiam uũs com os outros, nem determinavom neũa
duũ coraçom: todos animados cousa. E nom soomente era isto aa porta dos Paaços, mas ainda arredor deles per
pela mesma coragem; u homeũs e molheres podiam estar. Ũas viinham com feixes de lenha, outras
15
desejo; 16 como forom: logo 40 tragiam carqueija pera acender o fogo cuidando queimar o muro dos Paaços com
que chegaram; 17 arrombassem;
18
alguns deles; 19 traidor;
ela, dizendo muitos doestos22 contra a Rainha.
20 De cima nom minguava quem braadar que o Meestre era vivo, e o Conde Joam
adúltera; alusão a D. Leonor
Teles; 21 insistiam; 22 insultos Fernandez morto; mas isto nom queria neuũ creer, dizendo:

76
Crónica de D. João I

– Pois se vivo é, mostrae-no-lo e vee-lo-emos.


45 Entom os do Meestre veendo tam grande alvoroço como este, e que cada vez
se acendia mais, disserom que fosse sua mercee23 de se mostrar aaquelas gentes,
doutra guisa poderiam quebrar as portas, ou lhe poer o fogo, e entrando assi den-
tro per força, nom lhe poderiam depois tolher24 de fazer o que quisessem.
Ali se mostrou o Meestre a ũa grande janela que viinha sobre a rua onde estava
50 Alvoro Paaez e a mais força de gente, e disse:
– Amigos, apacificae vos, ca eu vivo e são som a Deos graças!
E tanta era a torvaçam25 deles, e assi tiinham já em creença que o Meestre era
morto, que taes havia i que aperfiavom26 que nom era aquele; porem conhecen-
do-o todos claramente, houverom gram prazer quando o virom, e deziam uũs
55 contra os outros:
– Ó que mal fez! pois que matou o treedor do Conde, que nom matou logo a alei-
vosa com ele! Creedes em Deos27, ainda lhe há de viinr alguũ mal per ela!. Oolhae e
veede que maldade tam grande, mandarom-no chamar onde ia já de seu caminho,
pera o matarem aqui per traiçom. Ó aleivosa! já nos matou uũ senhor, e agora nos
60 queria matar outro; leixae-a, ca ainda há mal d’acabar por estas cousas que faz.
E sem duvida se eles entrarom dentro28, nom se escusara a Rainha de morte, e
fora maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar. O Meestre
estava aa janela, e todos oolhavom contra ele dizendo:
– Ó Senhor! como vos quiserom matar per treiçom, beento seja Deos que vos
65 guardou desse treedor! Viinde-vos, dae ao demo esses Paaços, nom sejaes lá mais.
E em dizendo esto, muitos choravom com prazer de o veer vivo. Veendo el es-
23
tonce29 que neũa duvida tiinha em sua segurança, deceo afundo30 e cavalgou com que fosse sua mercee:
que se dignasse sua mercê
os seus acompanhado de todolos outros que era maravilha de veer. ( = o Mestre)
24
impedir
25
perturbação
26
1. Explique a importância do “Page do Meestre” no desenrolar da ação. juravam
27
tão certo como Deus existir
28
2. Refira os argumentos apresentados por Álvaro Pais para legitimar a defesa do Mestre. se eles entrarom dentro: se
eles tivessem entrado
29
então
3. Aponte o responsável pela morte do Mestre, na opinião do povo. 30
abaixo

4. Caracterize a Rainha aos olhos do povo, justificando a opinião deste último. PROFESSOR

5. Descreva a reação do povo ao aparecimento do Mestre à janela. Educação Literária


14.2; 14.3; 14.4; 14.5;
6. Complete o texto com expressões textuais que comprovem o afunilamento do espaço. 14.7; 15.1; 15.2; 16.1

1. O facto de o pajem entrar


É evidente o afunilamento do espaço neste excerto, porquanto a ação se inicia nas em cena, exclamando
a.____________ e nos b.____________ por onde o pajem lança o pregão, se localiza, depois, que matavam o Mestre,
fez desenrolar todos os
nos c.____________ e, por fim, termina num espaço limitado, inacessível ao povo, uma acontecimentos.
d.____________, onde o Mestre faz a sua aparição, como se de um santo se tratasse. Na verdade, a mensagem por
si proferida mobilizou todo o
Fernão Lopes parece assumir aqui o papel de um repórter que vai acompanhando o povo de Lisboa e impeliu-o a
tumulto e o percurso da multidão até chegar ao local alvo das suas atenções. sair à rua. As suas palavras
fizeram também despertar
na população um sentimento
de revolta e de grande
BLOCO INFORMATIVO – pp. 278-279 animosidade em relação
àqueles que se assumiam
GRAMÁTICA como os protagonistas da
tentativa de assassinato do
1. Identifique os processos fonológicos ocorridos na evolução das seguintes palavras: Mestre de Avis. Por isso, o
povo muniu-se de armas e,
a. "Meestre" (l. 1) > mestre c. "preguntando" (l. 24) > perguntando apressadamente e em magote,
dirigiu-se aos paços da rainha.
b. "Acorree" (l. 4) > acorrei d. "ne~ua" (l. 37) > nenhuma

77
Funções sintáticas I
N DE
RE R
APRENDER
AP

LEITURA
ICA
G RA M Á T
FUNÇÕES
AUTO DESINTÁTICAS
MORALIDADE composto per Gil Vicente por contemplação da sere-
R
APL ICA níssima e muito católica rainha dona Lianor, nossa senhora, e representado per
seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei dom Manuel, primeiro de Por-
Funções sintáticas Exemplos
PROFESSOR tugal deste nome.
SUJEITO
2. Álvaro Pais relembrou que Comença a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto,
o Mestre era filho de um rei – Função sintática desempenhada por um
o rei D. Pedro – e declarou
se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos sùpitamente a um
constituinte que comanda a concordância
não haver qualquer razão que rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto
justificasse a sua morte. verbal.
estão, scilicet1, um deles passa pera o paraíso e o outro pera o Inferno: os quais
3. O povo atribuía a Pode ser desempenhada por
responsabilidade ao conde batéis tem cada um seu arraiz na proa: o do
– um grupo nominal (a.);
Paraíso um Anjo, e o do Inferno um
a. Fernão Lopes foi um grande escritor.
João Fernandes, que estaria a arraiz infernal e um Companheiro.
– uma oração subordinada substantiva b. É evidente que Fernão Lopes é um grande
cumprir a vontade da rainha.
4. O povo não tinha uma completiva (b.); escritor.
opinião muito favorável O primeiro entrelocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um
– uma oração subordinada substantiva relativa c. Quem já leu Fernão Lopes conhece o seu
em relação à rainha, pois rabo mui comprido e ũa cadeira de espaldas. estilo. E começa o Arraiz do Inferno ante que
considerava-a responsável (c.).
pelo que estava a acontecer: o Esses
Fidalgo venha.
constituintes podem ser substituídos
“dizendo muitos doestos
contra a rainha”, Era ainda
– pelos pronomes pessoais eu, tu, ele, ela, você,
opinião generalizada que esta nós, vós, eles, elas, vocês (a’. e c’.);
era uma mulher adúltera – pelo pronome demonstrativo invariável isso, a’. Ele foi um grande escritor.
e traidora: “Ó, que mal fez!
Pois que matou o treedor do quando se trata de uma oração subordinada c’. Ele conhece o seu estilo.
Conde, que nom matou logo a substantiva completiva (b’.). b’. Isso é evidente.
aleivosa com ele!” (ll. 56-57),
pelo que se desejava a sua O sujeito pode ser
morte: “E sem duvida, se eles – simples, quando é constituído apenas por
entrarom dentro, nom se
escusara a Rainha de morte…” um grupo nominal ou oracional (d.); d. Os historiadores procuram sempre a
(l. 61). – composto, quando é constituído por mais do verdade. / Quem lê Fernão Lopes fica
5. Quando o Mestre surgiu à que um grupo nominal ou oracional (e.); encantando com a vivacidade do discurso.
janela, no início, houve quem
duvidasse dessa realidade. – nulo, quando não existe realização e. O Mestre de Avis e D. Nuno Álvares Pereira
No entanto, e depois de o lexical (f.). foram figuras relevantes na crise dinástica.
reconhecerem, todos se
regozijaram pelo facto de
f. [-] Conheço a Crónica de D. João I.
ele estar vivo e lamentaram
aquilo que acreditavam ser PREDICADO
uma traição da rainha. Função sintática desempenhada por um grupo
6. verbal, que inclui obrigatoriamente, além de
a. “ruas principaes”
b. “logares escusos” um verbo ou complexo verbal, os respetivos
c. “Paaços” (da Rainha) complementos (a. e b.) ou predicativos (c.). a. O povo acorreu ao Paço.
d. “grande janela”
Pode também incluir o modificador (do grupo b. Os populares queriam a salvação do
verbal) (b.). mestre a todo o custo.
Gramática
17.3 c. A crise de 1383-85 é um período muito
importante.
1.
a. crase VOCATIVO
b. sinérese
c. metátese
É uma função sintática que ocorre em
d. epêntese contextos de chamamento (frases
imperativas, exclamativas, interrogativas).
Identifica o interlocutor e aparece isolado a. Acorramos ao Mestre, amigos, que o matam
por vírgula (a.). sem razão!

78
Funções sintáticas Exemplos

COMPLEMENTO DIRETO
É uma função sintática interna ao predicado,
cujo constituinte é selecionado por um verbo
transitivo direto.
Pode ser desempenhada por
– um grupo nominal (a.); a. O povo aclamou o Mestre de Avis.
– uma oração subordinada substantiva b. O povo pensava que o Mestre tinha sido
completiva (b.); alvo de traição.
– uma oração subordinada substantiva relativa c. O povo viu à janela do Paço quem tanto
(c.). desejava.
Quando o complemento direto se apresenta
sob a forma de um grupo nominal, pode ser
substituído pelos pronomes pessoais me, te,
se, o, a, nos, vos, se, os, as (a’.) a’. O povo aclamou-o.
Quando é um grupo oracional, pode ser
substituído pelo pronome demonstrativo
invariável isso, em posição pós-verbal, (b’.) ou b’. O povo pensava isso.
por o (b’’.). b’’. O povo pensava-o.

COMPLEMENTO INDIRETO
É uma função sintática interna ao predicado,
cujo constituinte é selecionado por um verbo
transitivo indireto.
Pode ser desempenhada por um grupo
preposicional, geralmente introduzido pela
preposição a, simples ou contraída (a.). a. Após a revolta, D. Leonor Teles escreveu a
Pode ser substituído pelos pronomes pessoais D. João de Castela.
me, te, lhe, nos, vos, lhes (a’.) a’. Após a revolta, D. Leonor Teles escreveu-lhe.

COMPLEMENTO OBLÍQUO
É uma função sintática interna ao predicado,
cujo constituinte é selecionado por um verbo
transitivo indireto.
Pode ser desempenhada por
– um grupo preposicional (a.); a. O povo confiava no Mestre de Avis.
– um grupo adverbial (b.). b. Saído de Castela, D. João chegou
rapidamente aqui.

COMPLEMENTO AGENTE DA PASSIVA


É uma função sintática de uma frase passiva,
cujo constituinte se inicia pela preposição
por, simples ou contraída,
e que corresponde ao sujeito da frase ativa a. A morte do Conde Andeiro foi engendrada
(a.). por Álvaro Pais.

79
DAR
Funções sintáticas
TU
S
APRENDER
E

LEITURA
ICA
G RA M Á T
R AUTO DE MORALIDADE composto per Gil Vicente por contemplação
Funções sintáticas Exemplos da sere-
PR A
ATIC níssima e muito católica rainha dona Lianor, nossa senhora, e representado per
seu mandado ao poderoso
PREDICATIVO DO príncipe
SUJEITO e mui alto rei dom Manuel, primeiro de Por-
tugal deste
É uma nome.
função sintática interna ao predicado, cujo a. Fernão Lopes foi guarda-mor
constituinte é selecionado por um verbo copulativo1. da Torre do Tombo.
Comença a declaração
Pode ser desempenhada por e argumento da obra. Primeiramente,
b. As suas crónicas no presente
ficaram auto,
célebres.
1
São exemplos de verbos se– fegura
um grupoque, no (a.);
nominal ponto que acabamos de espirar, c. A chegamos
leitura da suasùpitamente
obra é do maior a um
copulativos: ser, estar, ficar,
parecer, permanecer, tornar-se, rio, o qual
– um grupoper força
adjetival havemos de passar em um de interesse.
(b.); dous batéis que naquele porto
revelar-se, ... estão, scilicet1,
– um grupo um deles
preposicional (c.);passa pera o paraíso e d.
oO outro pera
trabalho o Inferno:
do João os quais
sobre o autor
– um grupo
batéis tem cada um(d.).
adverbial seu arraiz na proa: o do Paraíso ficouum bem.
Anjo, e o do Inferno um
arraiz infernal e um Companheiro.
MODIFICADOR
É uma função sintática não selecionada por nenhum a. Os portugueses derrotaram
Em termos gráficos, O primeiro entrelocutor é um Fidalgo
núcleo, seja verbal seja oracional (frásico).
que chega com um Paje, que lhe leva um
os castelhanos na batalha de
o modificador de nome rabo
Podemui comprido e ũa
ser desempenhada porcadeira de espaldas. E começa o Arraiz do Inferno ante que
Aljubarrota.
apositivo distingue-se o –Fidalgo venha.
do restritivo por surgir um grupo preposicional (a.); b. Eles lutaram corajosamente.
separado por vírgulas. – um grupo adverbial (b.); c. Sempre que o Mestre de Avis o
– uma oração subordinada adverbial (c.). pediu, o povo português combateu.
Em início de frase ou entre constituintes d. O mestre de Avis, nos Paços da
obrigatórios, isola-se geralmente por vírgula (c. e d.). Rainha, foi apoiado pelo povo.

MODIFICADOR DO NOME RESTRITIVO


É uma função sintática não selecionada pelo nome
que o antecede ou precede, restringindo a referência a. A cidade de Lisboa foi cercada pelos
desse nome. castelhanos.
Pode ser desempenhada por b. Os textos mais antigos dão-nos
– um grupo preposicional (a.); uma visão elogiosa dos reis
– um grupo adjetival que estabelece concordância portugueses.
com o nome (b.); c. As crónicas que Fernão Lopes
– uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva escreveu retratam o povo como um
(c.). verdadeiro herói.

MODIFICADOR DO NOME APOSITIVO


É uma função sintática não selecionada pelo nome
que o antecede ou precede, acrescentando-lhe a. O povo, em alvoroço, revelou-se
informação acessória. Surge isolado por vírgula(s), partidário da causa do mestre.
parênteses ou travessões. b. O povo – emocionado e grato –
Pode ser desempenhada por deu vivas ao rei.
– um grupo preposicional (a.); c. Fernão Lopes, cronista do reino,
– um grupo adjetival que estabelece concordância viveu entre os séculos XIV e XV.
com o nome (b.); d. A população de Lisboa, que durante
– um grupo nominal (c.); o cerco da cidade passou muita
– uma oração subordinada adjetiva relativa explicativa fome, nunca deixou de apoiar o
(d.) Mestre.

80
APLICAR

1. Associe a coluna A à coluna B de modo a indicar a função sintática dos constituintes


PROFESSOR
sublinhados em cada frase.
Gramática
Coluna A Coluna B 18.1

[A] D. Leonor Teles e todos os presentes ficaram


1.
estupefactos com a morte do Conde Andeiro. [A]–[5]; [B]–[3]; [C]–[4];
[1] Complemento direto
[D]–[3]; [E]–[4]; [F]–[2];
[B] Toda a cidade se manifestou contra D. Leonor. [G]–[1]; [H]–[5]; [I]–[2]
2.
[C] Por causa do cerco, houve muita fome em a. “Com a fome” – modificador
do grupo verbal; “difíceis” –
Lisboa. [2] Complemento indireto modificador do nome
restritivo, "em Lisboa" –
[D] D. João de Castela enviou tropas para Portugal. modificador do grupo verbal;
b. “cabecilha da revolução” –
modificador do nome
[E] Depois da morte do Conde Andeiro, começou apositivo; c. “que os reis
[3] Complemento oblíquo
a insurreição. de Portugal e de Castela
assinaram” – modificador
do nome restritivo, "não" –
[F] O povo pedia ao Mestre que não o abandonasse.
modificador do grupo verbal.
3.
[G] Durante o cerco de Lisboa, homens e mulheres [4 Modificador a. “O povo” – sujeito; “dirigiu-se
defenderam a cidade de várias maneiras. aos paços da rainha” –
predicado; “aos paços
[H] Muitas das pessoas cercadas pelas muralhas da rainha” – compl. oblíquo;
estavam esfomeadas. “da rainha” – modificador
[5] Predicativo do sujeito do nome restritivo.
[I] Durante a Batalha de Aljubarrota, D. Nuno b. “D. Leonor Teles, mãe
Álvares Pereira dirigiu preces a Deus. de Beatriz” – sujeito; “mãe
de D. Beatriz” – modificador
do nome apositivo; “governou
Portugal” – predicado;
2. Identifique os modificadores existentes nas frases que se seguem. “Portugal” – compl. direto.
a. Com a fome, viveram-se tempos difíceis em Lisboa. c. “O povo de Lisboa” – sujeito;
“de Lisboa” – modificador
b. Álvaro Pais, cabecilha da revolução, pedia ao povo que acorresse ao Mestre. do nome restritivo;
“permaneceu cercado durante
c. O acordo que os reis de Portugal e de Castela assinaram não agradava ao povo. meses” – predicado; “cercado” –
predicativo do sujeito;
“durante meses” – modificador
3. Identifique as funções sintáticas exercidas pelos constituintes das seguintes frases. do grupo verbal.
d. “Efetivamente” –
a. O povo dirigiu-se aos paços da rainha. modificador; “D. João” –
sujeito; “ordenou às tropas que
b. D. Leonor Teles, mãe de D. Beatriz, governou Portugal. combatessem” – predicado;
às tropas – compl. indireto; que
c. O povo de Lisboa permaneceu cercado durante meses. combatessem – compl. direto.
d. Efetivamente, D. João ordenou às tropas que combatessem. e. “Infeliz” – modificador do
nome apositivo; “o povo” –
e. Infeliz, o povo procurava em Deus algum conforto. sujeito; “procurava
em Deus algum conforto” –
3.1 Reescreva as frases que incluam complementos diretos ou indiretos e substi- predicado; “em Deus – compl.
tua-os pelo respetivo pronome. oblíquo; “algum conforto” –
compl. direto.
3.1
b. D. Leonor Teles, mãe
de D. Beatriz, governou-o.
d. Efetivamente, D. João
ordenou-lho.
e. Infeliz, o povo procurava-o
em Deus.

81
Fernão Lopes
Afirmação da consciência coletiva

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia o seguinte excerto do capítulo 115 da Crónica de D. João I e responda à questão


apresentada na página seguinte.

Per que guisa estava a cidade corregida pera se defender, quando el-Rei
de Castela pôs cerco sobr’ela.

Nem uũ falamento1 deve mais vizinho seer deste capitulo que havees ouvido2,
que poermos logo aqui brevemente de que guisa estava a cidade, jazendo el-Rei de
Castela sobr’ela; e per que modo poinha em si guarda o Meestre, e as gentes que
~
dentro eram, por nom receber dano de seus emigos 3
; e o esforço e fouteza4 que
5 contra eles mostravom, em quanto assi esteve cercada.
Onde sabee que como5 o Meestre e os da cidade souberom a viinda del-Rei
de Castela, e esperarom seu grande e poderoso cerco, logo foi ordenado de reco-
lherem pera a cidade os mais mantiimentos que haver podessem, assi de pam e
carnes, come quaes quer outras cousas. E iam-se muitos aas liziras6 em barcas
10 e batees, depois que Santarem esteve por Castela, e dali tragiam muitos gaados
mortos que salgavom em tinas, e outras cousas de que fezerom grande açalma-
1
palavras, ditos; 2 alusão mento7; e colherom-se8 dentro aa cidade muitos lavradores com as molheres
ao capítulo anterior, onde e filhos, e cousas que tiinham; e doutras pessoas da comarca d’arredor, aqueles
se descreve o soberbo
a que prougue9 de o fazer; e deles10 passarom o Tejo com seus gaados e bestas
acampamento do rei de Castela,
que se estendia de Santos até
15 e o que levar poderom, e se forom contra11 Setuval, e pera Palmela; outros ficarom
Campolide e outros lugares em na cidade e nom quiserom dali partir; e taes i12 houve que poserom todo o seu13,
volta; 3 inimigos; 4 coragem; e ficarom nas vilas que por Castela tomarom voz.
5
logo que; 6 lezírias (terras Os muros todos da cidade nom haviam mingua14 de boom repairamento15;
que ficam na margem do rio);
7
abastecimento; 8 refugiaram-
e em seteenta e sete torres que ela teem a redor de si, forom feitos fortes cara-
-se; 9 aprouve, agradou; 20 manchões de madeira, os quaes eram bem fornecidos d’escudos e lanças e dardos
10
e alguns; 11 em direção a; e beestas de torno16, e doutras maneiras com grande avondança17 de muitos vira-
12
aí; 13 que poseram todo o seu: tões18. […]
que puseram em segurança
E ordenou o Meestre com as gentes da cidade que fosse repartida a guarda dos
os seus haveres; 14 necessidade;
15
reparação, fortificação; muros pelos fidalgos e cidadãos honrados19; aos quaes derom certas quadrilhas20
16
armas que disparavam 25 ~ d´armas pera ajuda de cada uũ guardar bem a sua. Em cada
e beesteiros e homees
setas a grandes distâncias; quadrilha havia uũ sino pera repicar quando tal cousa vissem, e como21 cada uũ
17
abundância; 18 setas grandes;
19 ouvia o sino da sua quadrilha, logo todos rijamente22 corriam pera ela. […]
de boa categoria social,
burgueses; 20 quadrelas,
E nom soomente os que eram assiinados23 em cada logar pera defensom, mas
lanços de muralha onde ainda as outras gentes da cidade, ouvindo repicar na See, e nas outras torres, avi-
se colocavam os vigias; 30 vavom-se os corações deles24; e os mesteiraes25 dando folgança26 a seus oficios,
21
quando; 22 apressadamente; logo todos com armas corriam rijamente pera u27 diziam que os Castelãos mos-
23
designados; 24 avivavom-se
travom de viinr. Ali viriees os muros cheos de gentes, com muitas trombetas e
os corações deles: sentiam-se
mais corajosos; 25 operários; braados e apupos esgremindo espadas e lanças e semelhantes armas, mostrando
26
folga; 27 onde ~
fouteza contra seus emigos.

82
Crónica de D. João I

35 Nom curavom28 entom do texto que diz: “Que mais ajuda a egreja o reino com 28
não se importavam;
suas orações, que os cavaleiros com as armas”; nom se guardava ali a degratal29: 29
disposição da Igreja;
“Clerici arma portantes”30, aos quaes segundo dereito nom convem de tomar ar- 30
“clérigos empunhando
mas, posto que seja pera defensom da terra; mas clerigos e frades, especialmente armas”;
31
da Trindade, logo eram nos muros, com as melhores que haver podiam. […] não obstante
32
visitava;
40 E nom embargando31 todo isto, o Meestre que sobre todos tiinha especial cui- 33
soldados que faltavam à
dado da guarda e governança da cidade, dando seu corpo a mui breve sono, reque- chamada, rebeldes
ria32 per muitas vezes de noite os muros e torres com tochas acesas ante si, bem 34
diligentes, rápidos
35
acompanhado de muitos que sempre consigo levava. Nom havia i neuũs revees33 preparativos
dos que haviam de velar, nem tal a que esqueceesse cousa do que lhe fosse en-
45 comendado; mas todos muito prestes a fazer o que lhe mandavom, de guisa que,
a todo boom regimento que o Meestre ordenava, nom minguava avondança de
trigosos34 executores. […]
Ó que fremosa cousa era de veer! Uũ tam alto e poderoso senhor como el-Rei
de Castela, com tanta multidom de gentes assi per mar come per terra, postas em
50 tam grande e boa ordenança, teer cercada tam nobre cidade! E ela assi guarnecida
contra ele de gentes e d’armas com taes avisamentos35 por sua guarda e defensom!
Em tanto que diziam os que o virom, que tam fremoso cerco de cidade nom era
em memoria d’home~ es que fosse visto de mui longos anos atá aquel tempo.

1. Ordene as seguintes afirmações, de acordo com a ordem sequencial do texto, indi- PROFESSOR
cando as linhas que justificam essa seriação.
Educação Literária
[A] O esforço e o envolvimento do Mestre são realçados pelo facto de este dormir 14.2; 14.3; 14.4; 14.5;
pouco e de vigiar constantemente as defesas da cidade. 14.7; 15.1; 15.2; 16.1

[B] Entre os portugueses, uns associaram-se à defesa da cidade, outros coloca-


1.
ram-se ao lado do inimigo.
[D] (ll. 1-5)
[C] O Mestre tinha a função de assegurar que todas as medidas tomadas para a [E] (ll. 6-17)
proteção da cidade estavam a ser executadas. [B] (ll. 18-22)
[C] (ll.23-27)
[D] Fernão Lopes refere que se vai debruçar sobre a situação vivida na cidade de
[H] (ll. 28-34)
Lisboa aquando do cerco castelhano.
[G] (ll. 35-39)
[E] O cronista enuncia os procedimentos adotados pela população para se pre- [A] (ll. 40-47)
caver do cerco, nomeadamente a recolha de mantimentos para o interior das [F] (ll. 48-53)
muralhas.
[F] Apesar de ser inerente a um historiador a procura pela verdade dos factos
e tanto quanto possível ser objetivo, Fernão Lopes não se coíbe de expres-
sar a sua opinião quando traça o paralelo entre a força castelhana e a força
portuguesa.
[G] Os próprios membros do clero davam mostras de uma consciência coletiva,
dirigindo-se às muralhas e pegando em armas, o que ia contra a lei da Igreja.
[H] A consciência coletiva é explorada no texto sobretudo pela forma como se des-
taca o envolvimento de cada uma das classes sociais no desempenho das suas
funções.

83
Fernão Lopes
Afirmação da consciência coletiva

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia o excerto seguinte do capítulo 148 da Crónica de D. João I.

1
Das tribulações que Lixboa padecia per mingua1 de mantiimentos.
falta
2
porque
3 Na cidade nom havia triigo pera vender, e se o havia, era mui pouco e tam caro
antiga medida para líquidos
4
bolbos que as pobres gentes nom podiam chegar a ele; ca2 valia o alqueire quatro livras;
5
6
melaço cristalizado e o alqueire do milho quareenta soldos; e a canada3 do vinho tres e quatro livras;
onde
7 e padeciam mui apertadamente, ca dia havia i que, ainda que dessem por uũ pam
viviam deles (dos porcos)
8
negociantes de gado 5 ũa dobra, que o nom achariam a vender; e começarom de comer pam de bagaço
9
passando fome d’azeitona, e dos queijos4 das malvas e raizes d’ervas, e doutras desacostumadas
10
fome cousas, pouco amigas da natureza; e taes i havia que se mantiinham em alféloa5.
No logar u6 costumavom vender o triigo, andavom homees ~ e moços esgaravatan-
do a terra; e se achavom alguũs grãos de triigo, metiam-nos na boca sem teendo
10 outro mantiimento; outros se fartavom d’ervas, e beviam tanta agua, que achavom
mortos homees ~ e cachopos jazer inchados nas praças e em outros logares.
Das carnes, isso meesmo, havia em ela grande mingua; e se alguũs criavom
porcos, mantiinham-se em eles7; e pequena posta de porco, valia cinco e seis li-
vras que era ũa dobra castelãa; e a galinha, quareenta soldos; e a duzia dos ovos,
15 doze soldos; e se almogávares8 tragiam alguũs bois, valia cada uũ sateenta livras,
que eram catorze dobras cruzadas, valendo entom a dobra cinco e seis livras; e a
cabeça e as tripas, ũa dobra; assi que os pobres per mingua de dinheiro, nom co-
miam carne e padeciam mal; e começarom de comer as carnes das bestas, e nom
soomente os pobres e minguados, mas grandes pessoas da cidade, lazerando9,
20 nom sabiam que fazer; e os geestos mudados com fame10, bem mostravom seus
encubertos padecimentos. Andavom os moços de tres e de quatro anos pedindo
pam pela cidade por amor de Deos, como lhes ensinavam suas madres, e muitos
nom tiinham outra cousa que lhe dar senom lagrimas que com eles choravom que
era triste cousa de veer; e se lhes davom tamanho pam come ũa noz, haviam-no
25 por grande bem. Desfalecia o leite aaquelas que tiinham crianças a seus peitos per

84
Crónica de D. João I

mingua de mantiimento; e veendo lazerar seus filhos a que acorrer nom podiam,
choravom ameúde sobr’ eles a morte ante que os a morte privasse da vida. Muitos
esguardavom as prezes11 alheas com chorosos olhos, por comprir o que a piedade
manda, e nom teendo de que lhes acorrer, caíam em dobrada tristeza.
30 Toda a cidade era dada a nojo12, chea de mezquinhas querelas, sem neuũ prazer 11
preces
que i houvesse: uũs com gram mingua do que padeciam; outros havendo doo dos 12
tristeza, aborrecimento
atribulados; e isto nom sem razom, ca se é triste e mezquinho o coraçom cuidoso13 nas 13
preocupado
14
cousas contrairas que lhe aviinr podem, veede que fariam aqueles que as continua- contudo
15
damente tam presentes tiinham? Pero14 com todo esto, quando repicavom, neuũ nom 16
inimigos
está
35 mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus ~ emigos15. Esforçavom-se uũs 17
em al departir: falar sobre outra
por consolar os outros, por dar remedio a seu grande nojo, mas nom prestava conforto coisa
18
de palavras, nem podia tal door seer amansada com neũas doces razões; e assi como ficados os geolhos: ajoelhados
~ falando com 19
é natural cousa a mão ir ameúde onde see16 a door, assi uũs homees queixavam
20
misérias
outros, nom podiam em al departir17 senom em na mingua que cada uũ padecia. 21
firmando-se de todo nas peores
40 Ó quantas vezes encomendavom nas missas e preegações que rogassem a Deos cousas que fortuna em esto podia
devotamente por o estado da cidade! E ficados os geolhos18, beijando a terra, obrar: só pensando nos maiores
braadavom a Deos que lhes acorresse, e suas prezes nom eram compridas! Uũs cho- males que naquelas circunstâncias
ravom antre si, mal-dizendo seus dias, queixando-se por que tanto viviam, como lhe podiam acontecer

se dissessem com o Profeta: “Ora veesse a morte ante do tempo, e a terra cobrisse
45 nossas faces, pera nom veermos tantos males!” Assi que rogavom a morte que os
levasse, dizendo que melhor lhe fora morrer, que lhe seerem cada dia renovados
desvairados padecimentos. Outros se querelavom19 a seus amigos, dizendo que fo-
rom desaventuirada gente, que se ante nom derom a el-Rei de Castela que cada dia
padecer novas mizquiindades20, firmando-se de todo nas peores cousas que fortu-
50 na em esto podia obrar21.
Sabia porem isto o Meestre e os de seu Conselho, e eram-lhe doorosas d’ouvir
taes novas; e veendo estes males a que acorrer nom podiam, çarravom suas ore-
lhas do rumor do poboo.
Como nom querees que maldissessem sa vida e desejassem morrer alguũs
55
~ e molheres, que tanta deferença há d’ouvir estas cousas aaqueles que as
homees PROFESSOR
entom passarom, como há da vida aa morte?
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.5; 14.7;
15.1; 15.2; 16.1
1. Preencha a seguinte tabela com base na leitura do excerto.
1.
a. escassez de bens como
Situação dos mantimentos na cidade trigo, milho, vinho, carne;
os alimentos que existiam
a. eram muito caros e difíceis
de obter. b. sofredora. c. forte
Caracterização geral da população durante o cerco perante o inimigo (esquecendo
a fome). d. solidária no
b. sofrimento. e. crente em
c. Deus. f. desejosa da morte.
g. arrependida da adesão
d. à causa de D. João I (alguns
e. elementos do povo). h. ciente
da gravidade da situação,
f. mas consciente de nada
g. poder fazer, tentava ignorar
os rumores. i. compreende o
Reação do Mestre desespero do povo decorrente
das necessidades por que
h. passava; refere a humanidade
do Mestre ao apontar a sua dor
Ponto de vista do cronista perante os lamentos do povo.
i.

85
PA R A S A B E R Crónica de D. João I

CRÓNICA DE D. JOÃO I

1.a parte – Pré-Aljubarrota 2.a parte – Pós-Aljubarrota

Narração dos acontecimentos desde a morte Narração dos acontecimentos ocorridos


do rei D. Fernando até à aclamação de D. João durante o reinado de D. João I.
como rei.

ATORES INDIVIDUAIS E COLETIVOS

D. Leonor Teles De cariz dramático, revela ser determinada, persistente, dominadora, indomável, astuciosa e adúltera.

Conde Andeiro Assume a ameaça castelhana sobre a integridade nacional, acabando por funcionar como “bode-
-expiatório” para se desencadear a revolução.

Rei de Castela Representa a força de Castela, mostrando-se orgulhoso, ambicioso e calculista.

Álvaro Pais Apresenta-se como chefe da insurreição de 1383 e mentor do assassinato do Conde Andeiro. Revela-se
astuto, determinado e destemido.

D. João, Manifesta-se como um homem vulgar, que tem dúvidas e hesitações e que chega a cometer erros.
Mestre de Avis No entanto, é também o líder das multidões, o homem que assume a sua missão e que se mostra ambicioso,
revelando, por isso, um cariz realista.

Nuno Álvares Pereira Revela-se como um herói com um forte pendor místico. A par da sua faceta espiritual e do virtuosismo que
o rege, distingue-se pela sua determinação, coragem, perspicácia e lealdade.

Apresenta-se como a força gregária, animada de uma vontade definida e coletiva, representada, por
Povo isso, em expressões como “todos postos sob um mesmo cuidado”, “todos animados de uma só vontade”,
“enquanto a cidade soube”. Apesar de ignorante, supersticioso e, por vezes, até cruel, revela-se como a
força motora da revolução e, por isso, aquela que mais padece, resiste e se afirma.

PROFESSOR AFIRMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA COLETIVA

A insurreição que se opera em Portugal em 1383, ainda que tenha sido encabe-
Apresentação çada por Álvaro Pais, um dos burgueses mais influentes do reino, só vinga porque
Galeria de imagens
foi apoiada pelo povo.
Apresentação
É, efetivamente, a plebe que, colocando em causa a validade da sucessão di-
Síntese da Unidade
nástica por não reconhecer legitimidade ao rei de Castela para assumir a regência
Teste interativo
Fernão Lopes de Portugal, empurra o Mestre de Avis para a revolução.
É, pois, esta consciência da identidade nacional, este sentimento patriótico ge-
neroso e esta ligação à terra, em detrimento da eleição régia, que faz do povo o
protagonista da insurreição que culminou com o triunfo da vontade popular.

86
PA R A V E R I F I C A R

Verifique os seus conhecimentos após a leitura e a análise dos excertos da Crónica PROFESSOR
de D. João I, de Fernão Lopes.
Educação Literária

1.
1. Identifique as afirmações verdadeiras e as afirmações falsas. Corrija as falsas. a. F – A Crónica de D. João I
debruça-se sobre a ascensão
a. A Crónica de D. João I, escrita por Fernão Lopes, debruça-se sobre a ascensão e reinado do Mestre de Avis,
filho de D. Pedro e de uma aia,
e o reinado do infante D. João de Portugal, filho de D. Pedro e de D. Inês de Castro. Teresa Lourenço.
b. V
b. A Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, surge como uma forma de legitimar
c. V
a coroação do Mestre de Avis como rei.
d. V
e. F – A insurreição inicia-se
c. A crise de 1383-1385, que se viveu em Portugal, assume sobretudo contornos com a morte do Conde Andeiro.
políticos.
f. V
g. V
d. D. Leonor Teles é uma das figuras principais relacionadas com a crise de 1383-
h. F –O povo regozijou-se
-1385. com o facto de o Mestre
de Avis estar vivo e apoiou
e. A insurreição inicia-se com a morte de D. Fernando, perpetrada por D. João, Mestre o assassinato do Conde
de Avis, e idealizada por Álvaro Pais. Andeiro.
i. V
f. O homicídio do amante de D. Leonor Teles surge como resposta à ameaça cas- j. F –Apesar de o Mestre
de Avis não ser um sucessor
telhana que pairava sobre a coroa portuguesa. legítimo ao trono, o povo
apoiava-o por reconhecer
g. Os protagonistas do assassinato ocorrido nos paços da rainha manipularam o nele a única garantia da
povo, de modo a garantir o seu apoio. independência nacional.
k. V
h. O povo regozijou-se com o facto de o Mestre de Avis estar vivo, mas condenou a l. F – Foram os castelhanos
morte do Conde Andeiro. que puseram cerco à cidade
de Lisboa, como forma de
dissuadir o Mestre de Avis
i. A questão da sucessão ao trono português colocou em confronto os sentimentos dos seus propósitos.
do povo e as ambições de uma parte da nobreza. m. F – Apesar de se terem
preparado antes do cerco,
j. O povo apoiava D. Leonor Teles por reconhecer nela a garantia da independência a determinada altura, e dada
a sua duração, as
nacional e por considerar que o Mestre de Avis não era um sucessor legítimo ao necessidades do povo,
trono. sobretudo em termos
alimentares, passaram
k. A chegada do rei de Castela a Portugal deve-se a D. Leonor Teles. a ser muitas.
n. F – O Mestre soube de
antemão que os castelhanos
l. Como forma de retaliar a invasão castelhana, D. João, Mestre de Avis, pôs cerco tencionavam cercar Lisboa
à cidade de Lisboa. e, por isso, deu ordens para
as pessoas se abastecerem
m. Durante o cerco de Lisboa, as necessidades foram residuais porque aqueles e protegerem.
que se mantiveram dentro das muralhas da cidade se prepararam convenien- o. V
temente.

n. O cerco de Lisboa ocorreu de forma inesperada, sem que ninguém estivesse a


contar com isso.

o. O povo apresenta-se como a força motora e impulsionadora da revolta ocorrida


por questões dinásticas.

87
PA R A R E C U P E R A R Crónica de D. João I

1. Complete o texto com as palavras propostas.

• legitimando • nação • exclamações • povo • historiador • D. João I


• verdade • independência • atribulações • escritor • história • acesso repórter

Na Crónica de D. João I, Fernão Lopes retratou, como nenhum outro cronista, a cri-
se de 1383-85, procurando a a. dos factos. A função de guarda-mor da
Torre do Tombo permitiu-lhe o b. a documentos importantes da nossa
c. .
O cronista destaca o mestre de Avis, futuro d. , e. a sua elei-
ção após a morte de D. Fernando. Mas é o f. quem sai enaltecido, ao revelar
a consciência de uma g. prestes a perder a h. .
Tal como um i. , Fernão Lopes convida-nos a “esguardar como se estivés-
PROFESSOR
semos presentes”, e leva-nos até às j. do cerco de Lisboa. Apesar da impar-
1. a. verdade
cialidade pretendida, o narrador emociona-se com as descrições que faz, servindo-se das
b. acesso
c. história k. e das interrogações retóricas.
d. D. João I
Concluindo, Fernão Lopes não foi só um l. que fixou um momento fulcral
e. legitimando
f. povo da nossa história, mas sobretudo um notável m. , atento ao pormenor e ao
g. nação visualismo descritivo ao longo da narração.
h. independência
i. repórter 2. Indique todos os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes
j. atribulações palavras.
k. exclamações
a. Filiam > filha
l. historiador
m. escritor b. Sabedes > sabeis
c. Amicum > amigo
Gramática
2. a. apócope do “m” / d. nocte > noite
palatalização
b. síncope do “d”/ sinérese;
3. Associe cada elemento da coluna A ao único elemento da coluna B que lhe corres-
c. apócope do “m”/
sonorização ponde, de modo a identificar a função sintática destacada em cada frase.z
d. vocalização
Coluna A Coluna B
3.
[A] – [2] [A] Quando o povo soube que matavam o Mestre, acorreu logo
[1] Complemento direto
[B] – [3] ao paço.
[C] – [1]
[B] Álvaro Pais foi astucioso na sua estratégia. [2] Modificador
[D] – [1]
[E] – [6] [C] Embora o Mestre de Avis hesitasse, acabou por aceitar a
[F] – [4] ideia do amigo. [3] Predicativo do sujeito
[G] – [5]
[D] Todos queriam saber se o Mestre estava vivo. [4] Complemento
indireto
[E] Quem cercou Lisboa foi D. João de Castela.
[5] Complemento
[F] Os habitantes de Lisboa pediram ao Mestre que os
oblíquo
protegesse.
[G] Mal os sinos repicavam, todos se dirigiam logo para a muralha. [6] Sujeito

88
Almeida Garrett
PA R A AVA L I A R Crónica de D. João I
PROFESSOR
GRUPO I

Leia o excerto do capítulo 148 da Crónica de D. João I e responda às questões. Apresentação


Soluções Ficha
de Avaliação
Das tribulações que Lixboa padecia per mingua de mantiimentos.
GRUPO I
Estando a cidade assi cercada na maneira que já ouvistes, gastavom-se os
mantiimentos cada vez mais, por as muitas gentes que em ela havia, assi dos Educação Literária
14.3; 14.4; 14.7; 15.1;
que se colherom dentro, do termo1, de home~ es aldeãos com molheres e filhos, 15.2; 16.1; 17.3; 18.1; 19.7
come dos que veerom na frota do Porto; e alguũs se tremetiam2 aas vezes em ba-
5 tees e passavom de noite escusamente contra as partes de Ribatejo, e metendo-se 1. Dentro das muralhas
recolheu-se muita gente vinda
em alguũs esteiros, ali carregavom de triigo que já achavom prestes, per recados de todos os locais da capital e
que ante mandavom. E partiam de noite remando mui rijamente, e algũas galees ainda do Porto, o que causou
uma grande escassez de
quando os sentiam viinr remando, isso meesmo remavom a pressa sobre eles; alimentos (“gastavom-se os
e os batees por lhe fugir, e elas por os tomar, eram postos em grande trabalho. mantiimentos cada vez mais,
por as muitas gentes em que
10 Os que esperavom por tal triigo andavom per a ribeira3 da parte de Exobregas, ela havia”, ll. 1-2).
aguardando quando veesse, e os que velavom, se viiam as galees remar contra lá, 2. A principal dificuldade era
o ataque dos castelhanos aos
repicavom logo por lhe acorrerem. Os da cidade como ouviam o repico, leixavam barcos que transportavam o
o sono, e tomavom as armas e saía muita gente, e defendiam-nos aas beestas4 trigo.
3. A comparação salienta
se compria, ferindo-se aas vezes dũa parte e doutra; porem nunca foi vez que5 a falta de alimentos vivida
15 tomassem alguũ, salvo ũa que6 certos batees estavom em Ribatejo com triigo, e na cidade, de tal forma que
só um milagre, como o da
forom descubertos per uũ homem natural d’Almadãa, e tomados per os Castelãos; multiplicação dos pães,
e el foi depois tomado e preso e arrastado, e decepado e enforcado. E posto que tal poderia pôr fim à fome.
triigo algũa ajuda fezesse, era tam pouco e tam raramente, que houvera mester de 4. Para fazer face à escassez
de alimentos, o povo de Lisboa
o multiplicar como fez Jesu Cristo aos pães, com que fartou os cinco mil home~ es. começou a expulsar de dentro
20 Em esto gastou-se a cidade assi apertadamente, que as pubricas esmolas co- das muralhas aqueles que não
acrescentavam nada à defesa
meçarom desfalecer7, e neũa geeraçom de pobres achava quem lhe dar pam; de da cidade, como as prostitutas
guisa que a perda comum vencendo de todo a piedade, e veendo a gram mingua e os judeus.
5. Os castelhanos,
dos mantiimentos, estabelecerom deitar fora as gentes minguadas8 e nom per- inicialmente, acolhiam as
teencentes pera defensom; e esto foi feito duas ou tres vezes, ataa lançarem fora pessoas que eram expulsas,
pensando que saíam por
25 as mancebas mundairas9 e Judeus e outras semelhantes, dizendo que pois taes iniciativa própria, querendo
pessoas nom eram pera pelejar, que nom gastassem os mantiimentos aos defen- aliar-se a Castela.
sores; mas isto nom aproveitava cousa que muito prestasse.
Os Castelãos aa primeira10 prazia-lhe com eles, e davom-lhe de comer e aco-
lhimento; depois veendo que esto era com fame, por gastar mais a cidade, fez
1
30 el-Rei tal ordenança que n~ euũ de dentro fosse recebido em seu arreal, mas que zona de Lisboa; 2 arriscavam;
3
pela margem; 4 com tiros de
todos fossem lançados fora; e os que se ir nom quisessem, que os açoutassem e
besta; 5 porem nunca foi vez que:
fezessem tornar pera a cidade; e esto lhes era grave de fazer, tornarem per força nunca aconteceu que; 6 salvo ũa
pera tal logar, onde chorando não esperavom de seer recebidos; e taes i havia que que: exceto, quando…; 7 escassear;
8
de seu grado se saíam da cidade, e se iam pera o arreal, querendo ante de todo seer miseráveis, 9 prostitutas; 10 ao
35 cativos, que assi perecerem morrendo de fame. princípio

1. Releia o primeiro parágrafo do excerto.


Refira uma consequência que o cerco castelhano trouxe à cidade de Lisboa, fun-
damentado a sua resposta com uma expressão textual.

89
Almeida Garrett
PA R A AVA L I A R Crónica de D. João I
2. Indique a principal dificuldade sentida pela população durante o transporte do tri-
go para dentro das muralhas.

3. Comente o sentido da comparação “como fez Jesu Cristo aos pães, com que fartou
~ (l. 19).
os cinco mil homees.”

4. Releia o terceiro parágrafo do texto e enuncie a medida tomada para fazer face à
escassez de alimentos.

5. Indique por que razão, inicialmente, os castelhanos ficavam contentes com a ex-
pulsão de algumas pessoas de dentro das muralhas.

GRUPO II

Leia o texto e responda ao que lhe é solicitado.

A grandeza de Fernão Lopes


Mas não basta saber criticar as fontes para ser um historiador. O melhor his-
toriador, conforme hoje o conhecemos, será aquele que compreender os mais
complexos fatores de uma dada sociedade em transformação, determinar a cada
passo a importância relativa de cada um deles, de maneira a poder dar-nos dessa
5 sociedade, não uma faceta, mas uma visão de conjunto.
Também sob este aspeto a literatura medieval não nos oferece verdadeiros
historiadores. Normalmente, os cronistas medievos estão ligados a uma corte real
ou senhorial, a um convento, a um grupo social aristocrático ou governante, e
apenas relatam os acontecimentos que interessam
10 a esse restrito meio em que parece resumir-se para

eles uma nação inteira ou até todo o universo. Tra-


balhando geralmente para cortes de cavaleiros, a
história aparece através deles como uma série de
feitos de cavalaria, torneios, aventuras de reis ou
15 grandes senhores, intrigas palacianas. A grande

massa da nação, os interesses e os ideais que im-


pelem os conjuntos de homens são por estes cro-
nistas ou desconhecidos ou incompreendidos. […]
Em contraste com esta visão unilateral e frag-
20 mentária de outros cronistas medievais, Fernão

Lopes dá-nos da sociedade portuguesa dos séculos


XIV e XV um amplo panorama em que entram múl-
tiplos e contraditórios fatores, e em que, combinada
com as ações individuais, desempenha um papel
25 preponderante a movimentação de grandes forças

coletivas e anónimas.
Lendo Fernão Lopes, não perdemos de vista a
corte e a sua vida íntima, bodas e amores, intrigas e
conjuras palacianas. Mas vemos também, e com um
30 relevo proporcionado, a cidade de Lisboa e os seus

90
mesteirais, que largam o trabalho para organizar “uniões” na rua, participar em PROFESSOR
comícios populares, pegar em armas quando é a ocasião; vemos alfaiates, tanoei-
ros, camponeses salientar-se porque falam em nome de grandes agrupamentos GRUPO II
que adquirem vontade própria; vemos gente de trabalho arrebanhada à força nas
Leitura
35 aldeias, para as galés que o rei D. Fernando envia contra a esquadra castelhana; 8.1
vemos “povos do reino” assediando os castelos, derrubando-lhes as muralhas,
que uma longa opressão tinha calado. […] 1.
1.1 [A]
A grandeza de Fernão Lopes como historiador consiste, principalmente, nes- 1.2 [C]
ta visão multifacetada que abrange os aspetos sociais da vida nacional e que lhe 1.3 [C]
40 permitiu transmitir-nos o fresco global de uma época, em vez de simples nar-
rativas de aventuras individuais vistas segundo a ideologia cavaleiresca, como
as que nos apresentam outros cronistas medievos. Graças a esta superioridade
de visão, possuímos hoje um precioso relato de conjunto da grande crise social
que marcou em Portugal a passagem da Idade Média para os tempos modernos.
António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura
Portuguesa, 17.a ed., Porto, Porto Editora, 2010, pp. 124-127.

1. Selecione a alternativa que completa corretamente cada afirmação, considerando


a globalidade do texto.
1.1 Um bom historiador, nos tempos modernos, será aquele capaz de
[A] apresentar uma visão global da sociedade.
[B] apresentar uma imagem detalhada dos indivíduos que a compõem.
[C] centrar-se nas figuras mais representativas dessa sociedade.
[D] interpretar corretamente as fontes de que dispõe sobre essa sociedade.
1.2 Os historiadores medievais
[A] centravam-se nas grandes preocupações e nos ideais de uma sociedade.
[B] realizavam o seu trabalho de forma autónoma e independente.
[C] apresentavam uma imagem sectária da história.
[D] apresentavam uma visão global da história.
1.3 No panorama medieval, Fernão Lopes
[A] assume um papel preponderante, à imagem de outros cronistas do seu
tempo.
[B] sobressai por conferir especial relevo aos heróis individuais.
[C] contrasta por introduzir a força do elemento coletivo.
[D] contrasta por apresentar uma visão fragmentária da sociedade portu-
guesa.

91
Almeida Garrett
PA R A AVA L I A R Crónica de D. João I

PROFESSOR 2. Assinale as afirmações que se seguem como verdadeiras ou falsas, transformando


as afirmações falsas em afirmações verdadeiras.
Gramática
17.3; 18.1 a. A expressão sublinhada na frase “A grande massa da nação, os interesses e os
ideais que impelem a quase totalidade dos homens são por estes cronistas des-
2. conhecidos ou incompreendidos.” (ll. 15-18), é complemento oblíquo.
a. F – Complemento agente da
passiva. b. Na passagem de “vita” para “vida” ocorreu a sonorização.
b. V
c. F – “O melhor historiador” é c. Em “O melhor historiador […] será aquele que compreender os mais complexos
o sujeito. fatores…” (ll. 1-3), o sujeito da frase é “aquele”.
d. F – “palaciana” é derivada
por sufixação. d. A palavra “palacianas” (l. 15) é derivada por prefixação.
e. F – É complemento oblíquo.
e. Na frase “A grandeza de Fernão Lopes como historiador consiste, principalmen-
f. V
3. te, nesta visão multifacetada” (ll. 38-39), o constituinte sublinhado é complemento
3.1. Sujeito simples. indireto.
3.2. Adjetivo qualificativo.
3.3. “visão multifacetada”.
f. O último parágrafo textual inicia-se com um conector de valor causal.

GRUPO III 3. Responda aos itens apresentados.

Escrita 3.1 Identifique a função sintática desempenhada pelo constituinte sublinhado em


11.1; 12.1; 12.3; 12.4; 13.1 “desempenha um papel preponderante a movimentação das grandes forças co-
letivas e anónimas”. (ll. 24-26).
Síntese
O texto salienta a grandeza 3.2 Indique a classe de palavras a que pertence o vocábulo sublinhado em “A grandeza
de Fernão Lopes enquanto
cronista, distinguindo-o dos de Fernão Lopes como historiador consiste, principalmente, nesta visão multifa-
outros autores medievais, cetada”. (ll. 38-39).
que relataram apenas
acontecimentos íntimos da 3.3 Indique o referente do elemento sublinhado em “que lhe permitiu transmitir-nos o
corte, pois estavam ao serviço fresco global de uma época” (ll. 39-40).
de um rei ou de um nobre.
Não são, por isso, verdadeiros
historiadores, desconhecendo
o que era a nação fora do
ambiente palaciano. GRUPO III
Fernão Lopes, pelo contrário,
sem deixar de retratar a vida Faça a síntese do texto presente no grupo II em cerca de 100 palavras.
da corte, descreveu as ações
empreendidas pelo povo de (Não se esqueça de empregar, sempre que possível, vocabulário próprio.)
Lisboa, que se une para a
defesa da Pátria, revelando
a consciência coletiva que
começava a desenhar-se na
época representada.
A sua obra dá-nos, assim,
uma visão de conjunto de
um período fulcral da nossa
história, que marcou a
passagem da Idade Média para
a modernidade.
(114 palavras)

92
MÓDULO

2
1. Gil Vicente
PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR

PARA DESENVOLVER
Educação Literária
Farsa de Inês Pereira
Leitura
Exposição sobre um tema
Apreciação crítica
Escrita
Síntese
Apreciação crítica
Oralidade [Compreensão/Expressão Oral]
Documentário [Compreensão/Expressão Oral]
Síntese [Expressão Oral]
Apreciação crítica
Gramática
Lexicologia: campo semântico e campo lexical [Aprender/Aplicar]
Lexologia: arcaísmos e neologismos [Aprender/Aplicar]
Processos irregulares de formação de palavras [Aprender/Aplicar]
• Conectores
• Processos fonológicos
• Funções sintáticas
• Classe de palavras
• Subordinação
PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR
PARA CONTEXTUALIZAR

1465 1495 1498 1500 1521 1536 1539


Data Aclamação Chegada Descoberta Aclamação Estabelecimento Início da atividade
provável do de D. Manuel I de Vasco do Brasil de D. João III da Inquisição em Portugal do Santo Ofício,
nascimento como rei de da Gama por Pedro como rei Data provável da morte em Portugal
de Gil Vicente Portugal à India Álvares Cabral de Portugal de Gil Vicente

Atente nos seguintes aspetos, para melhor compreender esta época, bem como
Gil Vicente, autor que nela se insere e que irá ser objeto de estudo.

O Fim da Idade Média e o Humanismo

Séculos XV e XVI Gil Vicente


• Verifica-se neste período, a nível europeu, a desintegra- • Nasceu no reinado de Afonso V, testemunhou as lutas
ção do sistema feudal, acompanhada de um grande surto de políticas do reinado de D. João II, a descoberta da costa africa-
desenvolvimento económico (crescimento da produção na, a chegada de Vasco da Gama à Índia, o fausto do reinado
artesanal e agrícola; desenvolvimento do comércio; criação de D. Manuel, as perseguições sangrentas aos cristãos-novos
5 das primeiras manufaturas; indícios de industrialização). 5 e o estabelecimento da Inquisição em Portugal.
• Este desenvolvimento é favorecido pelos descobrimen- • Inspirou-o o espírito crítico e realista característico da
tos ibéricos, o que também contribui para o desfazer das burguesia, que se traduziu na crítica atrevida aos vícios sociais.
conceções medievais sobre o universo. • Foi, durante 35 anos, nas cortes de D. Manuel I e D. João III,
• Surgem novos métodos de investigação, baseados na uma espécie de organizador dos espetáculos palacianos,
10 observação e na experiência, o que implica uma rutura com 10 tendo alguma liberdade de expressão.
o pensamento pedagógico e filosófico de base escolástica. • Alcançou na corte uma situação de prestígio, que lhe per-
• A invenção da imprensa, em meados do século XV, por mitiu certas liberdades e audácias, de acordo com o ambiente
Guttenberg, veio permitir uma mais fácil circulação e divul- intelectual renovador e agitado que se vivia.
gação das ideias e das notícias e o acesso à cultura por • Soube aproveitar essa situação para uma crítica atrevi-
15 parte de um número cada vez maior de intelectuais de origem 15 díssima a diversos vícios da nobreza e do clero, tendo aparen-
burguesa. temente o acordo do rei.
Elaborado a partir de Amélia Pinto Pais, História da Literatura em Elaborado a partir de António José Saraiva (apresentação e leitura),
Portugal, uma perspetiva didática. Época medieval e época clássica, Teatro de Gil Vicente, Lisboa, Dinalivro, ed. revista, 1988, pp. 9-12.
vol. I, Porto, Areal Editores, 2004, p. 109.

94
PARA INICIAR

EXPRESSÃO ORAL PROFESSOR

Legenda das imagens


Observe atentamente a sequência de imagens que se apresenta. A. Barco de Vasco da Gama
(pormenor), 1880, Ernesto
Casanova.
B. Iluminura medieval,
séc. XV, Bibliothèque
Boulogne-sur-mer.
C. O Juízo Final (pormenor),
1535-1541, Miguel Ângelo,
Capela Sistina, Vaticano.
D. Tributo a Gil Vicente,
Jardim dos Poetas, Oeiras.
E. Diabo, Frade e Florença,
Auto da Barca do Inferno,
representação no Museu
dos Jerónimos.
F. Amantes, c. 1740, Pieter Jan
van Reysschoot (1702-1776),
A B Yale Center of British Art,
Paul Mellon Collection, EUA.

Oralidade
5.1; 5.2; 5.3;
6.1; 6.2; 6.3

1. As imagens B, C, D e E
associam-se à obra Auto
da Barca do Inferno,
uma vez que representam,
respetivamente,
(B) os Cavaleiros, únicas
C D personagens que embarcam
na barca do Paraíso;
(C) a punição “no outro
mundo” (em virtude dos maus
comportamentos na vida
terrena); (D) as barcas
e os barqueiros − o Anjo
e o Diabo; (E) a personagem
Frade que se faz acompanhar
da sua moça Florença.
As imagens A e F relacionam-
-se com o Auto da Índia:
(A) a nau simbolizará
a viagem do marido da Ama;
E F (F) imagem que poderá aludir
à temática central da obra −
o adultério cometido pelas
1. No 9.o ano, contactou com uma obra de Gil Vicente. Selecione as imagens que se mulheres cujos maridos
integravam as expedições
poderão associar à obra estudada, justificando a sua escolha. marítimas.
2. Resposta de caráter
2. Considere as imagens C e F. Escolha uma delas e proponha uma justificação para pessoal. No entanto, o aluno
deve referir a pertinência
a sua adequação à obra estudada, atendendo à intenção do dramaturgo. da imagem em função
da intenção do autor:
Estruture o seu discurso, tendo em atenção: · em C, referente ao Auto
da Barca do Inferno, criticar
· a organização pertinente das ideias; e modificar o comportamento
humano, fazendo apelo
· a extensão temporal (2-3 minutos); à ideia da punição;
· em F, Auto da Índia, chamar
· o vocabulário diversificado e cuidado; a atenção para algumas
das consequências das
· a adequação de recursos verbais e não verbais: postura, tom de voz, articulação expedições: o abandono das
e expressividade. mulheres e a sua repercussão
nos valores morais, visível,
por exemplo, no tema do
adultério.

95
Gil Vicente
PARA DESENVOLVER

PROFESSOR COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL

1. Visualize e escute atentamente um


Apresentação primeiro excerto fílmico relativo a Gil
“O teatro vicentino”
Vicente e à sua obra, retirado da série
Vídeo televisiva Grandes Livros.
Excerto fílmico relativo
a Gil Vicente Identifique como verdadeiras ou falsas
Áudio as afirmações que se seguem. Corrija
“A Pretexto” as falsas. Gil Vicente,
Grandes Livros, RTP
Oralidade a. No topo do Teatro Nacional D. Ma-
1.1; 1.4; 2.1; 2.2; 3.1; 3.2; ria II existe uma estátua de Gil Vicente devido ao facto de este ter nascido na
5.1; 5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3
capital de Portugal.
1. b. A obra vicentina bem como o seu autor foram recuperados na era romântica, no-
a. F – A estátua é justificada
com o facto de Gil Vicente meadamente por Almeida Garrett, em virtude do seu relevo e interesse literário.
ser, popularmente, conhecido
como o “pai” do teatro
c. A intimidade de Gil Vicente com os membros da coroa permitiu-lhe entrar no
português. quarto da jovem mãe de D. João III para apadrinhar o recém-nascido príncipe.
b. V
c. F – O dramaturgo vai d. O dramaturgo quinhentista viveu na corte cerca de 35 anos, onde escreveu, en-
ao quarto da princesa para cenou e/ou dramatizou as suas obras, protegido pela rainha D. Leonor.
a distrair e representar
o Monólogo do Vaqueiro. e. A obra de Gil Vicente estende-se de 1502 a 1536 e engloba comédias, farsas e mora-
d. V
lidades, seguindo, assim, o rumo das manifestações teatrais precedentes.
e. F – Não segue o rumo das
manifestações teatrais f. O autor português desempenhava as funções de Mestre da Retórica da Represen-
anteriores; pelo contrário,
rompe com a tradição. tação, pelo que não só escrevia e representava as suas obras como também tinha
f. V a função de organizar as festas reais que servissem para celebrar efemérides.
g. V
2. a. As datas relativas g. A obra do dramaturgo foi editada em 1562 e, posteriormente, em 1586. Contudo,
às obras vicentinas situam- o autor deixara de ser referenciado desde 1536 até 1834.
-se entre 1502 e 1536. b. Em
35 anos, Gil Vicente terá
produzido cerca de cinquenta 2. Na primeira emissão de A Pretexto (9 de outubro de 2012), programa de entrevistas
peças. c. Os responsáveis pela da RUC – Rádio Universidade de Coimbra −, o tema foi Gil Vicente. Como convidado,
compilação da obra vicentina
foram os seus filhos, que
o professor José Augusto Cardoso Bernardes, especialista em estudos vicentinos,
editaram um livro com as falou sobre aquele autor e a sua obra, comentando igualmente uma entrevista
suas peças. d. Gil Vicente não a Ricardo Araújo Pereira no Programa Nós e os Clássicos (SIC Notícias, maio de 2011)
só escrevia as peças como
também as encenava, ajudava sobre o teatro de Gil Vicente.
a representar e, posteriormente,
as reescrevia para compilar Escute a entrevista e recolha informação relativa aos tópicos que se apresentam,
em livro. e. Nas obras completando a tabela.
vicentinas, surgem temas
como a morte, a vida, a
astúcia, a honestidade Datas balizadoras da produção vicentina a.
e o tratamento de diferentes
ideais humanos. f. O teatro Número de peças teatrais produzidas por Gil Vicente b.
vicentino é uma caricatura
do século XVI e as suas figuras
funcionam como caricaturas Responsáveis pela compilação da obra vicentina c.
que não se devem generalizar,
mas que visam tipos de Atividades desempenhadas por Gil Vicente relacionadas com as
homens existentes, como d.
é o caso do fidalgo, no Auto
peças teatrais da sua autoria
da Barca do Inferno.
Dois temas tratados na obra vicentina e.

Relações entre o teatro de Gil Vicente e a sociedade da época f.

BLOCO INFORMATIVO – 2.1 Com base nas informações recolhidas no exercício anterior, elabore, oralmente,
p. 283
entre 2 a 3 minutos, uma síntese dos principais aspetos focados na entrevista.

96
Farsa de Inês Pereira

INFORMAR PROFESSOR

Leitura
Leia a informação seguinte e os tópicos abaixo sobre a sátira vicentina e responda 7.2; 7.5; 8.1
ao solicitado. Ed. Literária
14.3; 14.4; 16.1
Tendo como datas possíveis de nascimento e morte, respetivamente, 1465 e 1536,
Gil Vicente situa-se num período de transição entre as eras medieval e renascentis- 1.
São personagens que
ta. Assim, é provável que a sua obra reflita especificidades de uma e de outra época. apresentam comportamentos
Se, por um lado, apresenta aspetos medievais, nomeadamente no que se refere à e elementos característicos
representativos de
forma e a certos temas, sobretudo ligados à preponderância da religião na vida do determinada classe social
ser humano, por outro lado, apresenta uma visão crítica da sociedade e uma cons- ou profissional. Podem
representar também vícios
ciência dos problemas sociais característicos da época. ou defeitos humanos muito
generalizados. Os exemplos
referidos no textos são
o Escudeiro, os frades,
TEXTO A os clérigos em geral
e os Ermitões.
A sátira e o ideal de ordem
• A sátira, para Gil Vicente, é uma forma de compreender a desordem e a confusão
que imperam na sociedade quinhentista, não sendo poupado nenhum grupo social.
• Além de personagens individuais, o autor também ridiculariza defeitos hu-
manos generalizados.
• São várias as personagens-tipo ridicularizadas, representando os vários es-
tratos/grupos sociais: o povo miúdo, os pretensiosos, os famintos, os Escudeiros
versejadores de trovas, tocadores de viola, frades, clérigos e os ermitões foliões
e debochados.
Elaborado a partir de José Augusto Cardoso Bernardes, História crítica da literatura portuguesa.
Humanismo e Realismo, vol. II, Lisboa, Editorial Verbo, 1999, pp. 139-141.

TEXTO B
Farsa e auto – natureza e estrutura da obra
Características

• Na forma simples, reduz-se a um episódio cómico colhido no


quotidiano, na vida de uma personagem típica.
• Numa forma mais complexa, como é o caso da Farsa de Inês
Pereira, é uma história mais completa (com princípio, meio
e fim).
Farsa
• Pode partir de um dito popular que funciona como argumento
para a ação. No caso da Farsa de Inês Pereira, o argumento é “an-
tes quero burro que me leve que cavalo que me derrube”.
• Os diálogos e as ações sucedem-se sem transição, não havendo
preocupação com a unidade de tempo.
• Tem um ensinamento religioso e um objetivo moral.
Auto de moralidade • As personagens são personificações alegóricas (o anjo, o diabo,
a vaidade…) ou tipos reais caricaturados.
Elaborado a partir de António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa,
17.a ed., Porto, Porto Editora, 2010, pp. 194-197 (adaptado).

1. Defina, por palavras suas, personagem-tipo, apresentando exemplos.

97
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a
Representação do quotidiano | Caracterização das personagens | Relação entre personagens

PROFESSOR EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Gil Vicente é considerado uma das mais importantes figuras do teatro português. Criou
Apresentação cerca de 50 peças, desde 1502 até 1536, data da representação da última que se conhece.
Texto dramático
Leia a obra Farsa de Inês Pereira, representada em 1523, na corte de D. João III.

*FIXAÇÃO DE TEXTO
António José Saraiva
A Farsa de Inês Pereira*
(apresentação [1523]
e leitura), Teatro
de Gil Vicente, Lisboa,
[Auto] Feito por Gil Vicente, representado ao muito alto e mui poderoso Rei D. João
Dinalivro, ed. revista,
1988, pp. 163-204. o terceiro no seu convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII.
O seu argumento é um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me
*NOTAS
António José Saraiva, leve que cavalo que me derrube.
op. cit., e outros. As figuras são as seguintes: Inês Pereira; sua Mãe; Lianor Vaz; Pero Marques;
dous Judeus (um chamado Latão, outro Vidal); um Escudeiro com um seu Moço;
um Ermitão.

Entra logo Inês Pereira, e finge que está lavrando só


em casa, e canta esta cantiga:

Canta Inês:
Quien con veros pena y muere
que hará cuando no os viere?1

(Falado):
Inês Renego deste lavrar
e do primeiro que o usou!
5 Ò diabo que o eu dou,
que tão mao é d'aturar!
Ó Jesu! que enfadamento,
e que raiva, e que tormento, Antes o darei ao diabo
que cegueira, e que canseira! que lavrar mais nem pontada.
10 Eu hei-de buscar maneira Já tenho a vida cansada
d'algum outro aviamento.2 de jazer sempre dum cabo.3
25 Todas folgam4 e eu não,
Coitada, assi hei-de estar todas vêm e todas vão
encerrada nesta casa onde querem, senão eu.
como panela sem asa Hui! e que pecado é o meu,
15 que sempre está num lugar? ou que dôr de coração?
E assi hão-de ser logrados
dous dias amargurados, 30 Esta vida é mais que morta.
que eu possa durar viva? São5 eu coruja ou corujo,
E assi hei-de estar cativa ou são5 algum caramujo
20 em poder de desfiados? que não sai senão à porta?
E quando me dão algum dia
35 licença, como a bugia6,
1
“quem, vendo-vos pena e morre, o que fará quando vos não
que possa estar à janela,
vir?”; 2 arranjo de vida; 3 de estar sempre no mesmo sítio;
4
alegram-se; divertem-se; 5 sou; 6 macaca; 7 alusão à alegria de é já mais que a Madanela
Maria Madalena quando soube da ressurreição de Cristo. quando achou a aleluía.7

98
Farsa de Inês Pereira

Vem a Mãe, e, não na achando lavrando, diz: Mãe E como? Tamanho é o mal?
Lia. Tamanho? Eu to direi:
Logo eu adevinhei
40 lá na missa onde eu estava, vinha agora pereli14
como a minha Inês lavrava 85 ò redor da minha vinha,
a tarefa que lhe eu dei... e um clérigo, mana minha,
Acaba esse travesseiro! pardeos15, lançou mão de mi16.
Hui! naceo-te algum unheiro? Não me podia valer.
45 Ou cuidas que é dia santo? Diz que havia de saber
Inês Praza a Deos que algum quebranto 90 se era eu fêmea se macho.
me tire de cativeiro. Mãe Hui! Seria algum muchacho
que brincava por prazer?
Mãe Toda tu estás aquela…8
Choram-te os filhos por pão? Lia. Si, muchacho sobejava…
50 Inês Prouvesse a Deos! Que já é rezão Era um zote tamanhouço!...17
de eu não estar tão singela9. 95 E eu andava no retouço,
Mãe Olhade lá o mao pesar…10 tão rouca que não falava.
Como queres tu casar Quando o vi pegar comigo
com fama de preguiçosa? que me achei naquele perigo:
55 Inês Mas eu, mãe, são aguçosa11 – Assolverei! − Não assolverás!
e vós dais-vos de vagar. 100 – Tomarei! − Não tomarás!
– Jesu! Homem! que hás contigo? −
Mãe Ora espera, assi vejamos.
Inês Quem já visse esse prazer! – Irmã, eu t’assolverei
Mãe Cal'te, que poderá ser, c’o breviairo de Braga.18
60 que «ante a Páscoa vem os Ramos.» – Que breviairo, ou que praga!
Não te apresses tu, Inês. 105 Que não quero! Aque d'el-Rei! –
«Maior é o ano que o mês»: Quando vio revolta a voda,19
quando te não precatares, foi e esfarrapou-me toda
virão maridos a pares, o cabeção da camisa.
65 e filhos de três em três. Mãe Assi me fez dessa guisa20
110 outro, no tempo da poda.
Inês Quero-m'ora alevantar.
Folgo mais de falar nisso
Eu cuidei que era jogo
− assim Deos me dê o paraíso, −
e ele... dai-o vós ò fogo!
mil vezes que não lavrar.
Tomou-me tamanho riso,
70 Isto não sei que o faz...
riso em todo meu siso,
Mãe Aqui vem Lianor Vaz.
115 e ele leixou-me logo.
Inês E ela vem-se benzendo...

[entra Lianor Vaz]

Lia. Jesu! que me eu encomendo!


Quanta cousa que se faz!12

75 Mãe Lianor Vaz, que é isso?


Lia. Venho eu, mana, amarela13? 8
Hoje dir-se-ia “lá estás tu…”; 9 sozinha, solteira; 10 “vejam que
Mãe Mais ruiva que uma panela! desgraça…”(ironia); 11 diligente; 12 como podem acontecer certas
Lia. Não sei como tenho siso! coisas ; 13 pálida; 14 por ali; 15 interjeição “por Deus”; 16 agarrou-
Jesu, Jesu, que farei? -me; 17 era um bruto de tal tamanho; 18 em Braga foi impresso o
80 Não sei se me vá a el-Rei, Breviário; Bracarense em 1494; 19 quando viu estragados os seus
se me vá ao Cardeal. planos; 20 maneira.

99
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a
Representação do quotidiano | Caracterização das personagens | Relação entre personagens

PROFESSOR Lia. Si, agora, ieramá!21


Também eu me ria cá
Educação Literária das cousas que me dizia:
14.2; 14.3; 14.4; 14.5;
14.9 chamava-me «luz do dia».
120 – «Nunca teu olho verá!» –
1. As didascálias apresentam
Inês e as ações que ela Se estivera de maneira
desempenha. sem ser rouca, bradara eu.
2.1 Inês não aceita nem gosta
das tarefas domésticas,
Mas logo o demo me deu
concretamente de bordar; cadarrão e peitogueira,22
não lhe agrada também ter de 125 cócegas e cor de rir,23
permanecer em casa (como
era usual no século XVI), uma e coxa pera fugir,
vez que isso constituía, para e fraca pera vencer.
a personagem, uma espécie
de cativeiro e tornava a vida Porém pude-me valer
enfadonha. Lamenta, ainda, sem me ninguém acudir...
o facto de outras raparigas
da sua idade se divertirem,
enquanto ela tem de
130 O demo, e não pode al ser,
permanecer “cativa” em casa. se chantou24 no corpo dele.
2.2 O monólogo funciona Mãe Mana, conhecia-t’ele?
como um desabafo e um
lamento caracterizadores da Lia. Mas queria-me conhecer!
personagem. Mãe Vistes vós tamanho mal?
2.3 Inês é uma jovem, em Eu me irei ao Cardeal,
idade de casar, revoltada
135 Lia. Mãe Deras-lhe, má hora, boa,30
com a sua condição social e far-lhe-ei assi mesura e mordera-lo na coroa.
e com todas as tarefas e e contar-lhe-ei a aventura
comportamentos exigidos 165 Lia. Assi! Fora excomungada!
pela sua situação. A avaliar que achei no meu olival.
pelo seu comportamento, Não lhe dera um empuxão,
não é muito diligente. Assim, Mãe Não estás tu arranhada, porque são tão maviosa,31
sentindo-se cansada da 140 de te carpir, nas queixadas.25 que é cousa maravilhosa.
vida que é obrigada a levar,
anseia libertar-se por meio do Lia. Eu tenho as unhas cortadas E esta é a concrusão.
casamento. (vv. 7-11): e mais estou tosquiada.26 170 Leixemos isto! Eu venho
“Ó Jesu! que enfadamento, /[…]
/ d'algum outro aviamento.”) E mais pera que era isso? com grande amor que vos tenho,
3. A Mãe, de forma irónica, E mais pera que é o siso? porque diz o exemplo antigo
condena o facto de Inês ter 145 E mais no meo da requesta27 que amiga e bom amigo
abandonado o bordado, uma
das incumbências que lhe veo um homem de ~ ua besta,28 mais aquenta que o bom lenho.
deixara: “logo […] lhe eu dei…”; que em vê-lo vi o paraiso.
“naceo-te algum unheiro?"(vv. 175 Inês está concertada
39-44).
Por esta razão, afirma que
E soltou-me porque vinha, pera casar com alguém?
a filha é preguiçosa e que, bem contra sua vontade. Mãe Até 'gora com ninguém
devido a essa fama, terá Porém, a falar verdade,
dificuldades em encontrar
150
não é ela embaraçada.32
marido. A Mãe procura ainda já eu andava cansadinha. Lia. Em nome do anjo bento
convencer a filha de que os Não me valia rogar,
pretendentes não tardarão 180 eu vos trago um casamento.
em aparecer e de que a vida de nem me valia chamar: Filha, não sei se vos praz.33
casada não é o que esta pensa, – «Àque de Vasco de Fois29 Inês E quando, Lianor Vaz?
pois rapidamente aparecerão
os filhos. Por tudo isto, 155 acudi-me, como sois»!
aconselha-a a não ter pressa E ele... senão pegar:
21
“que («ante a Páscoa vem os interjeição “em má hora”; 22 catarro e tosse;
Ramos»” e “Maior é o ano 23
– Mais mansa, Lianor Vaz, vontade de rir; 24 pôs-se; meteu-se; 25 alusão a um
do que o mês”(vv. 60 e 62).
assi Deos te faça santa. costume medieval, segundo o qual a mulher forçada
4. Inês só tem um desejo –
casar o mais rapidamente – Trama te dê na garganta! devia carpir-se arranhando a face; 26 cabelo cortado;
27
possível: “Praza a Deos […] contenda; 28 um homem que conduzia um animal
cativeiro” e “Prouvesse a Deos! 160 Como! Isto assi se faz? de carga; 29 Vasco de Fois era alferes-mor da Ordem de
[…] tão singela” (vv. 46-47 – Isto não revela nada... Cristo; 30 subentende-se o termo “sova”; 31 bondosa;
e 50-51). 32
– Tu nam vês que são casada? comprometida; 33 agrada.

100
Farsa de Inês Pereira

Lia. Já vos trago aviamento.34 Lia. Nesta carta que aqui vem PROFESSOR
195 pera vós, filha, d'amores,
Inês Porém, não hei-de casar veredes vós, minhas flores, 5.1 Lianor Vaz veio a casa de
Inês, com o objetivo de lhe
185 senão com homem avisado.35 a descrição que ele tem. apresentar uma proposta de
Ainda que pobre e pelado, Inês Mostrai-ma cá, quero ver. casamento: traz uma carta de
um pretendente à mão de Inês
seja discreto em falar, Lia. Tomai. E sabedes vós ler? (vv. 194-197).
que assi o tenho assentado. 200 Mãe Hui! ela sabe latim, 5.2 Inês mostra-se pouco
recetiva e desconfiada, ao
Lia. Eu vos trago um bom marido, e gramáteca, e alfaqui37 contrário de sua Mãe e de
190 rico, honrado, conhecido. e tudo quanto ela quer! Lianor, que estão muito
entusiasmadas com o
Diz que em camisa vos quer.36 pretendente. A atitude de
Inês Primeiro eu hei-de saber 34
Inês justifica-se pelo facto de
arranjo de vida; 35 discreto; 36 “diz que vos aceita sem já ter em mente um modelo
se é parvo, se sabido. dote”; 37 a Mãe pretende mostrar que a filha é culta. de homem bem definido, que
poderá não corresponder à
proposta de Lianor. Por esta
razão, ainda que a alcoviteira
1. Identifique a funcionalidade das didascálias iniciais. o caracterize como “um
bom marido, / rico, honrado,
2. A farsa tem início com um monólogo de Inês Pereira. conhecido / […] que em camisa
vos quer” (vv. 189-191), Inês
2.1 Enuncie os aspetos do quotidiano da personagem que lhe desagradam. quer primeiro saber como ele
é, mostrando interesse em
2.2 Explicite a funcionalidade deste monólogo. ler a carta que ele lhe enviou
(v. 198).
2.3 Apresente três traços caracterizadores desta personagem a partir das suas pala- 6. vv. 184-188
7.
vras. a. Comparação. A jovem
compara-se a uma panela sem
3. Apresente as críticas e os conselhos expressos pela Mãe de Inês a partir do verso 39. asa, aludindo, desta forma, ao
facto de não ter ainda casado.
4. Identifique o desejo expresso por Inês ao longo do diálogo com a sua Mãe. b. Ironia. A mãe de Inês zomba
da pressa da filha em casar,
afirmando, de modo irónico,
5. Uma nova personagem junta-se às anteriores. que o facto de se encontrar
ainda solteira é uma desgraça.
5.1 Refira o objetivo da vinda desta personagem a casa de Inês.
5.2 Compare o grau de entusiasmo de Inês ao de Lianor Vaz, relativamente à proposta Gramática
desta última. 17.3

6. Transcreva os versos que melhor definem o modelo de homem de Inês Pereira. 1.1 Valor de oposição (conector
adversativo)
1.2 Estabelece um contraste
7. Identifique os recursos presentes nos seguintes versos, analisando a sua expressi- entre o modelo de homem que
vidade no texto. Inês tem em mente e o que lhe
apresentam.
a. “assi hei-de estar / encerrada nesta casa / como panela sem asa”. (vv. 12-14) 2.
a. apócope de “s”
b. “Olhade lá o mao pesar...” (v. 52) b. metátese
c. assimilação
d. epêntese de “i”

GRAMÁTICA

1. Releia os versos “Porém, não hei-de casar / senão com homem avisado”( vv. 184-185).
1.1 Indique o valor lógico do articulador inicial.
1.2 Apresente uma explicação para a sua utilização.

2. Identifique o(s) processo(s) fonológico(s) ocorrido(s) em cada um dos casos


apresentados de seguida.
a. Jesus > Jesu (v. 73) c. pera > para (v. 143)
b. BREVIARIU- > breviairo (v. 103) d. meo > meio (v. 145)

BLOCO INFORMATIVO – pp. 261, 278-279

101
Lexicologia: campo semântico e campo lexical
N DE
RE R
APRENDER
AP

ICA
G RA M Á T De acordo com o Dicionário Terminológico (DT), “O léxico de uma língua inclui não ape-
R
APL ICA nas o conjunto de palavras efetivamente atestadas num determinado contexto mas tam-
bém as que já não são usadas, as neológicas e todas as que os processos de construção de
palavras da língua permitem criar”.

CAMPO LEXICAL
É o conjunto de palavras associadas, pelo seu significado, a um determinado domínio
conceptual.

palco animais

personagem
em ator ribeiro flor

TEATRO NATUREZA

ponto encenador
en planície montanhas

cena arbusto

CAMPO SEMÂNTICO
É o conjunto de significados, ou aceções, que uma palavra assume, em função do contexto
em que ocorre, quer surja isolada ou integrada numa expressão, como se pode verificar nos
exemplos:

1. Campo semântico de “pé”.


a. O João rematou com o pé direito.
b. Quando chega tarde a casa, o João entra com pés de lã.

c. Seria difícil medir um campo de futebol em pés.

2. Campo semântico de “cabeça”.


a. A Teresa acordou com dores de cabeça.
b. A prima da Maria tem boa cabeça para os estudos.
c. O António é o cabeça da lista A, candidata à Associação de Estudantes.
d. Vi um rebanho com trezentas cabeças de gado.
e. É necessário enfrentar as situações de cabeça erguida!

102
APLICAR

1. Considere as seguintes frases.


a. Aos domingos, gosto de passear junto ao mar e observar os peixinhos, as algas,
os barcos, as ondas e a suavidade da areia.
b. O Manuel, como tem dificuldades em andar, apoia-se num pau.
c. Comprei uma mesa nova em pau de carvalho.
d. Coloquei na mochila, para levar para a escola, gramáticas, livros, canetas e até um
dicionário.
e. No fim da frase, deves colocar um ponto.
f. Gosto de macarrão, mas deve estar no ponto.
g. A tia do Pedro nunca dá ponto sem nó.
h. Acabei de separar o meu vestuário para a próxima estação, mas preciso de com-
prar uma saia, duas camisas, meias, um gorro e, talvez, um sobretudo.
PROFESSOR
1.1 Distinga aquelas em que ocorrem palavras pertencentes ao mesmo campo lexical.
Gramática
1.2 Transcreva as palavras e os respetivos campos lexicais. 19.3; 19.4

1.3 Preencha a tabela, agrupando as frases em que a mesma palavra aparece com 1.1 a., d. e h.
sentidos diferentes, seguindo as instruções. 1.2 a. mar – peixinhos, algas,
barcos, ondas, areia
d. escola − mochila,
gramáticas, livros, canetas,
A. B. C. D. E. dicionário
h. vestuário – saia, camisas,
Significado Campo meias, gorro, sobretudo
Frases em Significado
Palavra "denotativo" "lexical" ou 1.3. A.1. Pau A.2. Ponto
que ocorre que adquire
ou "conotativo" "semântico" C.1. b. cajado, bordão, bengala
c. madeira
b. ___________ b. ___________ _____________ C.2. e. sinal de pontuação
1. _____________ b. e c. f. no momento certo
c. ___________ c. ___________ _____________ da cozedura
g. ser interesseiro; ter
e. ___________ e. ___________ _____________ segundas intenções
D.1. b. denotativo
c. denotativo
2. _____________ e., f. e g. f. ___________ conotativo _____________ D.2. e. denotativo
g. conotativo
g. ___________ g. ___________ _____________ E.1. e E.2. campo semântico
2.
a. casa, apartamento, cabana,
tenda, …
2. Construa os campos lexicais dos seguintes vocábulos. b. flores, ninhos, sol, verde,
verdejante, …
a. Habitação. c. ator, cenário, duplo,
personagem, guião, …
b. Primavera.
3.
c. Cinema. a. O noivo colocou o anel
na mão esquerda. / O ladrão
praticou um assalto à mão
3. Redija um par de frases para cada palavra dada, utilizando-a em contexto e com armada.
significados diferentes. b. Nunca visitei a Ilha do Pico. /
O António, da turma B, é uma
a. Mão. ilha, não convive com ninguém.
c. Os jogadores de futebol
b. Ilha. não podem jogar à bola
com o braço. / Um braço de
c. Braço. rio entrando pela floresta
embeleza a paisagem.

103
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Caracterização das personagens | Representação do quotidiano | Dimensão satírica

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Continue a ler a Farsa de Inês Pereira.

Lê Inês Pereira a carta: 240 Lia. Não queirais ser tão senhora.
Casa, filha, que te preste,
«Senhora amiga Inês Pereira, não percas a ocasião.
Pero Marques, vosso amigo,
205 que ora estou na nossa aldea Queres casar a prazer
mesmo na vossa mercea no tempo d'agora, Inês?
m'encomendo1. E mais digo, 245 Antes casa em que te pês,6
digo que benza-vos Deos, que não é tempo d'escolher.
que vos fez de tão bom jeito. Sempre eu ouvi dizer:
210 Bom prazer e bom proveito «ou seja sapo ou sapinho,
veja vossa mãe de vós. ou marido ou maridinho,
E de mi também assi, 250 tenha o que houver mister.»7
Este é o certo caminho.
ainda que eu vos vi
est'outro dia folgar Mãe Pardeus, amiga, essa é ela!8
215 e não quisestes bailar Mata o cavalo de sela
nem cantar presente mi...» e bom é o asno que me leva.
Inês Na voda de seu avô, 255 Lia. Filha, «no chão de Couce
ou onde me viu ora ele? quem não poder andar, choute.»9
Lianor Vaz, este é ele? E: «mais quero eu quem m'adore
220 Lia. Lede a carta sem dó,2 de quem faça com que chore.»
que inda eu são contente dele. Chamá-lo-ei, Inês?
260 Inês Si.
Prossegue Inês Pereira a carta: Venha e veja-me a mi.
Quero ver, quando me vir,
«Nem cantar presente mi. se perderá o presumir
Pois Deos sabe a rebentinha3 logo em chegando aqui,
que me fizestes então. 265 pera me fartar de rir.
225 Ora, Inês, que hajais benção
de vosso pai e a minha, Mãe Touca-te10 bem, se vier,
que venha isto a concrusão. pois que pera casar anda.
Inês Essa é boa demanda!
E rogo-vos como amiga, Cerimónias há mister
que samicas vós sereis4, 270 homem que tal carta manda?
230 que de parte me faleis Eu o estou cá pintando:
antes que outrem vo-lo diga. sabeis, mãe, que eu adivinho?
E, se não fiais de mi, Deve ser um vilãozinho…
esteja vossa mãe aí Ei-lo, se vem penteando:
e Lianor Vaz de presente. 275 será com algum ancinho?
235 Veremos se sois contente
que casemos na boa hora.»
1
Inês Des que nasci até agora recomendo-me a vossa mercê; 2 sem vos agastardes; 3 fúria;
4
talvez; 5 nem tão disparatado; 6 casa mesmo contrariada; 7 tenha
não vi tal vilão com'este,
o que necessário for; 8 essa é que é a verdade; 9 “quem não puder
nem tanto fora de mão5! ter o que deseja, contente-se com o que tem”; 10 arranja-te.

104
Farsa de Inês Pereira

Aqui vem Pero Marques, vestido como filho de lavra- Cuido que lhe trago aqui
dor rico, com um gabão azul deitado ao ombro, com o peras da minha pereira...
capelo por diante, e vem dizendo: Hão-de estar na derradeira.18
Tende ora, Inês, per i.19
Pero Homem que vai onde eu vou 320 Inês E isso hei-de ter na mão?
não se deve de correr.11 Pero Deitai as peas20 no chão.
Ria embora quem quiser,
que eu em meu siso estou. Inês As perlas21 pera enfiar…
280 Não sei onde mora aqui... Três chocalhos e um novelo...
olhai que m’esquece a mi! E as peas no capelo...22
Eu creo que nesta rua... 325 E as peras? Onde estão?
Esta parreira é sua.
Já conheço que é aqui. Pero Nunca tal me aconteceu!
Chega Pero Marques aonde elas estão, e diz: Algum rapaz m'as comeu...
que as meti no capelo,
285 Pero Digo que esteis muito embora. e ficou aqui o novelo,
Folguei ora de vir cá... 330 e o pentem não se perdeu.
Eu vos escrevi de lá Pois trazia-as de boa mente...
ũa cartinha, senhora... Inês Fresco vinha aí o presente
Assi que… e de maneira... com folhinhas borrifadas!23
290 Mãe Tomai aquela cadeira. Pero Não que elas vinham chentadas
Pero E que val aqui ũa destas?12 335 cá em fundo no mais quente.24
Inês (Ó Jesu! que João das bestas!
Olhai aquela canseira!) Vossa mãe foi-se? Ora bem...
Sós nos leixou25 ela assi?...
Assentou-se com as costas pera elas, e diz: Cant’eu quero-me ir daqui,
Eu cuido que não estou bem... não diga algum demo alguém...26
295 Mãe Como vos chamam, amigo? 340 Inês Vós que me havíeis de dizer?
Pero Eu Pero Marques me digo, Nem ninguém que há-de dizer?
como meu pai que Deos tem. (O galante despejado!27)
Faleceo, perdoe-lhe Deos, Pero Se eu fora já casado,
que fora bem escusado, d’outra arte havia de ser,
300 e ficamos dous eréos.13 345 como homem de bom recato.
Perém meu é o mor gado.14
Mãe De morgado é vosso estado? Inês (Quão desviado este está!
Isso veria dos céos! Todos andam por caçar
suas damas sem casar,
Pero Mais gado tenho já quanto, e este... tomade-o lá!)
305 e o mor de todo o gado,
digo maior algum tanto.
E desejo ser casado,
11
prouguesse15 ao Espírito Santo, não se deve envergonhar; 12 “para que serve uma coisa destas?”;
13
herdeiros; 14 herdei a maior parte do gado (a mãe julga que ele
com Inês, que eu me espanto
disse “morgado”); 15 prouvesse (agradasse); 16 partícula de refor-
310 quem me fez seu namorado. ço; 17 “se alguém está melhor para ela do que eu”; 18 no fundo;
19
Parece moça de bem, “segurai aí, Inês”; 20 cordas para prender os animais; 21 contas de
e eu de bem, er16 também. vidro de enfiar; 22 capuz do gabão; 23 réplica irónica de Inês Pereira,
Ora vós ide lá vendo afirmando que, assim, naquela confusão, o presente vinha fresco;
24
Pero Marques não percebe a ironia e afirma que, pelo contrário,
se lhe vem milhor ninguém,17 as peras vinham “quentes”; 25 deixou; 26 não vá alguém fazer co-
315 a segundo o que eu entendo. mentários; 27 “vejam o atrevimento deste galante” (ironia).

105
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Caracterização das personagens | Representação do quotidiano | Dimensão satírica

350 Pero Vossa mãe é lá no muro? Se fora outro homem agora,


Inês Minha mãe eu vos seguro e me topara a tal hora,
que ela venha cá dormir. estando assi às escuras,
Pero Pois, senhora, eu quero-me ir 390 falara-me mil doçuras,
antes que venha o escuro. ainda que mais não fora...
355 Inês E não cureis mais de vir.
[torna a Mãe e diz]
Pero Virá cá Lianor Vaz,
veremos que lhe dizeis... Mãe Pero Marques foi-se já?
Inês Homem, não aporfieis,28 Inês Pera que era ele aqui?
que não quero nem me praz. Mãe E não t'agrada ele a ti?
360 Ide casar a Cascais. 395 Inês Vá-se muitieramá!35
Pero Não vos anojarei mais, Que sempre disse e direi:
ainda que saiba estalar;29 mãe, eu me não casarei
e prometo não casar senão com homem discreto,36
até que vós não queirais. e assi vo-lo prometo
400 ou antes o leixarei.
[Pero vai-se, dizendo]
365 (Estas vos são elas a vós: Que seja homem mal feito,
anda homem a gastar calçado, feo, pobre, sem feição,
e quando cuida que é aviado, como tiver descrição,
escarnefucham30 de vós! não lhe quero mais proveito.
Não sei se fica lá a pea... 405 E saiba tanger viola,
370 Pardeus! Bom ia eu à aldeia!) e coma eu pão e cebola.
[voltando atrás] Siquer ũa canteguinha!
Discreto, feito em farinha,
Senhora, cá fica o fato?31 porque isto me degola.37
Inês Olhai se o levou o gato...
Pero Inda não tendes candea?32 410 Mãe Sempre tu hás-de bailar,
Ponho per cajo33 que alguém e sempre ele há-de tanger?
375 vem como eu vim agora, Se não tiveres que comer,
e vos acha só a tal hora: o tanger te há-de fartar?
parece-vos que será bem? Inês Cada louco com sua teima.
Ficai-vos ora com Deos: 415 Com ũa borda de boleima38
çarrai a porta sobre vós e ũa vez d'água fria,
380 com vossa candeazinha. não quero mais cada dia.
E sicais34 sereis vós minha: Mãe Como às vezes isso queima!
entonces veremos nós...
[Vai-se Pero Marques e diz] Inês Pereira E que é desses escudeiros?
420 Inês Eu falei ontem ali
Inês Pessoa conheço eu
que passarão por aqui
que levara outro caminho...
os judeus casamenteiros
385 Casai lá com um vilãozinho,
e hão-de vir logo aqui.
mais covarde que um judeu!

28
Não teimeis; 29 saiba que vou sofrer; 30 escarnecem; 33
suponhamos; 34 se por ventura; 35 em má hora;
31 36
“fato” é uma palavra do vocabulário dos pastores qualidade do que possui as virtudes palacianas
que designa os objetos de uso pessoal; 32 candeia (saber, educação, finura, etc.); 37 é disso que eu
(Pero espanta-se por ser escuro e Inês não ter gosto; sou doida por isso; 38 um bocado de bolo.
acendido “uma luz”;

106
Farsa de Inês Pereira

1. Assinale as afirmações verdadeiras e as falsas, considerando a carta de Pero


Marques. De seguida, corrija as afirmações falsas.
a. Pela leitura da carta, o pretendente aparenta ser um homem delicado e distinto.
b. Inês era uma desconhecida para o abastado lavrador. PROFESSOR

c. Pero Marques mostra preocupações com a reputação de Inês.


d. À medida que a jovem vai lendo a carta, vai crescendo o interesse por Pero Marques. Áudio
“Inês Pereira lê a carta”
e. Após a leitura da carta, Inês acede, finalmente, a que sua Mãe chame o candidato
a marido.
Educação Literária
f. Lianor Vaz e a Mãe utilizam uma linguagem proverbial para apresentarem uma 14.3; 1 4.4; 14.7; 15.1
opinião favorável ao casamento de Inês com Pero Marques.
1.
g. Com a expressão “Cerimónias há mister / homem que tal carta manda?” (vv. 268- a. F – Aparenta ser um
camponês rude e mesmo
-269), Inês está a ser irónica, pois não vê necessidade de se vestir conveniente-
algo tonto.
mente para receber um pretendente tão pouco cortês. b. F – O pretendente assegura
que vira Inês num baile.
h. A chegada de Pero Marques provoca o cómico na peça.
c. V
i. Pero Marques oferece a Inês as peras que trazia no capelo. d. F – A Inês não agrada o tom
da carta nem os comentários
j. O marido ideal, para Inês, deve ser rico, discreto e ter a educação de quem fre- que Pero faz sobre um possível
quenta os ambientes palacianos. encontro e futuro casamento.
e. F – Quem chama o candidato
k. A Mãe revela-se uma mulher sensata e experiente, aconselhando Inês a esperar é Lianor Vaz.
pelos judeus casamenteiros. f. V
g. V
h. V
GRAMÁTICA i. F – Pero Marques não
encontra as peras, que trazia,
1. Releia os seguintes versos. aconchegadas e quentinhas,
no fundo do saco.
a. “Senhora, cá fica o fato?” (v. 371) j. F – O marido ideal para
Inês pode não ser rico, desde
b. “parece-vos que será bem?” (v. 377) que seja discreto e tenha a
educação de quem frequenta
c. "entonces veremos nós...” (v. 382) os ambientes palacianos.
d. “E não t’agrada ele a ti?” (v. 394) K. F – A Mãe aconselha Inês a
ser prudente, não se deixando
e. “e assi vo-lo prometo” (v. 399) levar por frivolidades
(vv. 410-413).
f. “Eu falei ontem ali” (v. 420)
Gramática
g. “que passarão por aqui” / os judeus casamenteiros” 18.1
(vv. 421-422)
1.1
1.1 Indique a função sintática dos elementos a. Vocativo
sublinhados. b. Complemento indireto;
predicativo do sujeito
1.2 Identifique, nas frases, as seguintes classes c. Sujeito simples
de palavras: d. Complemento indireto
e. Complemento direto
a. verbos no presente do indicativo; f. Modificador
g. Complemento oblíquo;
b. nomes; sujeito simples
1.2
c. pronomes; a. fica, parece, agrada,
prometo
d. conjunções; b. senhora, fato, judeus
c. vos, nós, te, ele, ti, lo, eu
e. determinantes. d. que, e
e. o, os
f. advérbios. f. cá, bem, entonces (então),
assi (assim), ontem, ali, aqui
BLOCO INFORMATIVO
pp. 271-273 e 260-264

107
Lexicologia: arcaísmos e neologismos
N DE
RE R
APRENDER
AP

ICA
G RA M Á T A língua está em constante evolução: umas palavras modificam-se, ocorrendo evolu-
R ção fonética; outras caem em desuso (arcaísmos); e outras surgem de novo (neolo-
APL ICA
gismos).

Observe o seguinte quadro, em que se encontram sistematizados estes dois conceitos.

Definição Exemplos

Arcaísmos
São termos de uso corrente num a. “O demo, e não pode al ser…”
determinado período na história da (‘outra coisa’)
língua, que acabam por cair em desuso b. “E rogo-vos como amiga, que samicas vós
posteriormente. sereis.”
O texto literário é uma fonte documental (‘talvez’, ‘porventura’)
privilegiada da existência desses vocábulos, c. “e ficamos dous éreos”
como se pode comprovar com a Farsa de Inês (‘herdeiros’)
Pereira.

Neologismos
São novos termos que surgem na língua a. “Eurocéticos não perturbarão
o Parlamento Europeu”
• devido à evolução nas áreas científica,
tecnológica ou política (a.); […] José María Gil-Robles falou ao DN sobre
as suas expectativas em relação
às eleições europeias. Desvaloriza o impacto
que um elevado número de eurodeputados
eurocéticos, populistas e extremistas possa
vir a ter no funcionamento da eurocâmara.
DN, edição online (acedido em fevereiro
de 2017).

• no domínio literário, criados por escritores, b. “Mas, para espantação e reza, meu pai
com intenções expressivas ou estilísticas golfinhou-se entre as ondas…”; “[…] um
(b.). esticão na linha me indicava a presença de
um peixe namordiscando o anzol…”
Mia Couto, Mar me quer, 13.a ed., Lisboa,
Editorial Caminho, 2013.

Podem formar-se através de formas diferentes c. “Microsoft quer ‘ativar’ Portugal e no


a partir da exploração de recursos já existentes Porto já há 18 vagas por preencher
na língua e/ou através dos diferentes processos Ativar Portugal é o nome e o objetivo da
de formação de palavras (regulares e iniciativa da Microsoft que se propõe criar
irregulares) como é o caso da extensão dois mil postos de trabalho até ao final do
semântica (c.). ano. O portal online arranca esta quarta-
-feira. […] A entrada no mercado pode
estar mais perto e o processo pode passar
apenas pela colocação do currículo na
plataforma online.”
Jornalismo Porto Net (jpn), edição online
(acedido em fevereiro de 2017).

108
APLICAR

1. Considere os seguintes versos de uma cantiga de amigo da autoria de Dom Dinis.


Levantou-s’a velida
Levantou-s’alva,
E vai lavar camisas
1.1 Evidencie os termos que atualmente constituem arcaísmos.
1.2 Reescreva os versos, substituindo os termos arcaicos identificados em 1.1 por ter-
mos atuais que lhes correspondam.

2. Releia agora estes versos da Farsa de Inês Pereira (vv. 194-199).

Lia. Nesta carta que aqui vem Inês Mostrai-ma cá, quero ver.
pera vós, filha, d'amores, Lia. Tomai. E sabedes vós ler?
veredes vós, minhas flores,
a descrição que ele tem.

2.1 Reescreva-os, substituindo as formas verbais arcaicas aí presentes pelas corres-


pondentes atuais.

3. Leia atentamente os seguintes trechos.

A.

O pr
primeiro-ministro
rim
mei
eiro
o-mmin nisstr
tro
o assegurou
asse
as segu
se guro
gu rou
ro u hoje
hoje que
que
u o programa
pro
rogr
gram
gramaa de assistência
am ass
s isstêêncciaa está
esttá encerrado,
ence
en cerr
cerr
rrad
addo,
o
estando
es
sta
t nddo a ser
see negociada
nego
ne gociiad da com
com a "troika"
"tro
"t roik
ro ika"
ika" a forma
for
orma
ma dede ultrapassar
ultr
ultrap
trapas
ap assa
as sarr a al
sa aalteração
teeraçã
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ditada
ita
tada
da ppelo
ello
acór
ó dãão do
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Tri
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Cons
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de 2017).
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B.

Os astrónomos
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obri
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ra m um planeta
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1 ).
)
19.1; 19.2; 19.6

C. 1.1 e 1.2 “velida”: bela, formosa;


“alva”: alvorada, madrugada.
As meninas
mene in
inas
as p
passavam
assa
as sava
savaam […[…].
]. N Nós
ós ficávamos
ficácáva
vamo
va mo
os no om muro,
uro,
ur o, o
olhos
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hos ttrincando
r nc
ri n an
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o aass so
sombras
omb bra
r s fe
feme
femea-
meea- 2.1 “veredes”: vereis;
meninas.
meenina
nas.
na sN Nosso
osso
os o futebol
boll era
futtebol
eb era ali,
alili,, na mesa
esaa de matraquilhos
mes mat
atra
raqu
ra hoss do Bar
quilililho
qu ho Bar Viriato.
Vir t . […]
iriaato […] Era
Era ali
alli que
ue vibra-
qu viibr
braa- “sabedes”: sabeis.
3.1
nossas
vam ass n o sa
os multidões
s s mu ult
l idõe
õ s qu
õe quando
quan
ando
an pequena
do a p eque
eq uena
ue bola
na bolla de mmadeira
adei
ad eira
ei ra eescorrecaía
sco
scorreeca
or caíaa n
caía no buraco
o bu
bura
raco
aco oddaa ba
baliza.
bali
liiza
za.. A. “troika” e “tranche”:
Mia Couto,
Couto
Cou , ““O
uto Oddia
i em
ia em que fu
fuzilaram
uzil
zilara
aram
aram o gu
g
guarda-redes
ard
rda-r
a-rrede
eddess da
da m
minha
inh
nh
ha e
equipa”,
q pa”
qui p , economia/política
in Cro
Cronicando,
Cronic
nicand
nicando
and Lisboa,
o, L sboa, Caminho,
isb
sboa, C min
Caminho,
ho
h o 20
2006.
0
06
06. B. “mega-Terra”: ciência/
astronomia
C. “femeameninas"
3.1 Faça o levantamento dos neologismos em cada texto, indicando a área em que e "escorrecaía": literatura
aqui são usados. 3.2
A. "troika": entidade externa;
3.2 Indique uma palavra ou expressão com significado equivalente ao dos vocábulos "tranche": prestação
que destacou nos textos A. e B.. B. "mega-Terra": Terra gigante
3.3 “femeameninas”: fêmea
3.3 Decomponha os neologismos do texto C., indicando as palavras que os originaram. e menina(s); “escorrecaía”:
escorregava e caía.

109
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a
Caracterização das personagens | Dimensão satírica

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia atentamente o seguinte trecho da obra em análise, no qual os Judeus casamentei-


ros dão novas a Inês da sua busca por um pretendente discreto.

Aqui entram os Judeus casamenteiros, cha- Vid. Judeu, queres-me leixar?


mados, um Latão, e outro Vidal e diz Latão: Lat. Leixo, não quero falar.
Vid. Buscamo-lo...
Lat. Ou de cá!
Lat. Demo foi logo!
425 Inês Quem está lá?
470 Crede que o vosso rogo
Vid. Nome del Deu, aqui somos!
vencerá o Tejo e o mar.
Lat. Não sabeis quão longe fomos!
Vid. Corremos a iramá. Eu cuido que falo e calo...
Este e eu. Calo eu agora ou não?
430 Lat. Eu, e este... Ou falo se vem à mão?
Vid. Pola lama e polo pó, 475 Não digas que não te falo.
que era pera haver dó, Inês Jesu! Guarde-me ora Deos!
com chuiva, sol e Nordeste. Não falará um de vós?
Foi a coisa de maneira, Já queria saber isso...
435 tal friura e tal canseira, Mãe Que siso, Inês, que siso
que trago as tripas maçadas. 480 tens debaixo desses véos...
Assi me fadem boas fadas
Inês Diz o exemplo da velha:2
que me saltou caganeira!
«o que não haveis de comer
Pera vossa mercê ver leixai-o a outrem mexer.»
440 o que nos encomendou Mãe Eu não sei quem t'aconselha...
Lat. O que nos encomendou 485 Inês Enfim, que novas trazeis?
será se hoiver de ser. Vid. O marido que quereis,
Todo este mundo é fadiga… de viola e dessa sorte,
Vós dixestes, filha amiga, não no há senão na corte
445 que vos buscássemos logo... que cá não no achareis.
Vid. E logo pujemos fogo1...
490 Falámos a Badajoz3,
Lat. Cala-te!
músico, discreto, solteiro.
Vid. Não queres que diga? Este fora o verdadeiro,
Não sou eu também do jogo? mas soltou-se-nos da noz.4
450 Lat. Não fui eu também contigo? Fomos a Vilhacastim5
Tu e eu não somos eu? 495 e falou-nos em latim:
Tu judeu e eu judeu, – «Vinde cá daqui a ũa hora,
não somos massa dum trigo? E trazei-me essa senhora.»
Vid. Si somos. Juro al Deu! Inês Tudo é nada, enfim?
455 Lat. Leixa-me falar.
Vid. Esperai, aguardai ora!
Vid. Já calo.
500 Soubemos dum escudeiro
Senhora, há já três dias…
1 de feição d'atafoneiro6
logo nos apressámos Lat. Falas-lhe tu ou eu falo?
2
diz o ditado que virá logo essora,
3 Ora dize o que dizias:
Há um músico João de Badajoz que fala... e com’ora fala!
na corte de D. João III 460 que foste, que fomos, que ias
Estrugirá esta sala.
4 buscá-lo, esgaravatá-lo…
escapou-se-nos da mão
5 505 E tange... e com’ora tange!
músico espanhol ao serviço
da corte portuguesa Vid. Vós, amor, quereis marido Alcança quanto abrange,
6
que anda sempre ocupado mui discreto, e de viola? e se preza bem da gala.7
7
e se preza de ser um cavalheiro Lat. Esta moça não é tola,
465 que quer casar per sentido…
110
Farsa de Inês Pereira

Vem o Escudeiro, com seu Moço, que lhe Escudeiro [falando para o Criado]
traz ũa viola, e diz, falando só:
535 Olha cá, Fernando, eu vou
Se esta senhora é tal ver a com que hei-de casar.
como os judeus ma gabaram, Avisa-te que hás-de estar
510 certo os anjos a pintaram, sem barrete onde eu estou.
e não pode ser i al. Moço (Como a Rei! Corpo de mi!10
Diz que os olhos com que via 540 Mui bem vai isso assi...)
eram de Santa Luzia, Esc. E se cuspir, pola ventura,
cabelos, da Madanela... põe-lhe o pé e faz mesura.
515 Se ela fosse donzela, Moço (Ainda eu isso não vi!)
tudo essoutro passaria…8
Esc. E se me vires mentir,
Moça de vila será ela 545 gabando-me de privado,11
com sinalzinho postiço, está tu dissimulado, PROFESSOR
e sarnosa no toutiço, ou sai-te lá fora a rir.
520 como burra de Castela. Isto te aviso daqui, Educação Literária
Eu, assi como chegar, faze-o por amor de mi.
14.2; 14.5; 14.9
cumpre-me bem atentar
550 Moço Porém, senhor, digo eu 1. Os judeus desempenham
se é garrida, se honesta,
que mau calçado é o meu a função de casamenteiros
porque o milhor da festa e aparentam ser desonestos
pera estas vistas assi. e astutos, pois pretendem
525 é achar siso e calar. convencer Inês e a Mãe da
Esc. Que farei, que o sapateiro dificuldade da busca realizada
Mãe [falando para Inês] não tem solas, nem tem pele? para encontrar um marido
para a jovem.
555 Moço Çapatos me daria ele,
Se este escudeiro há-de vir 2. Os judeus exageram na
se me vós désseis dinheiro... descrição que fazem da busca,
e é homem de discrição, fazendo crer que o caminho
hás-te de pôr em feição, Esc. Eu o haverei agora. percorrido foi longo (v. 427),
e falar pouco e não rir. E mais, calças te prometo. que sofreram as agruras das
variações meteorológicas
530 E mais, Inês, não muito olhar, Moço (Homem que não tem nem preto12, (vv. 431-433) e que essa busca
e muito chão o menear,9 560 casa muito na má hora.) foi minuciosa (vv. 460-461). Por
outro lado, exageram também
por que te julguem por muda, as qualidades do pretendente,
para influenciar Inês para que
porque a moça sesuda 8
o sentido destes versos parece ser “fosse ela donzela esta o aceite (vv. 499-507).
é ũa perla pera amar. (virgem) e o resto não teria importância”; 9 mostrar- 3. Antes de conhecer Inês,
-se modesta e humilde nos gestos; 10 interjeição que o Escudeiro parece cético,
significa espanto e irritação; 11 de ser íntimo do rei; pois duvida das qualidades
12 de noiva, mas mostra-se
moeda de cobre.
cauteloso com a forma
de agir no encontro. Durante
1. Apresente três traços caracterizadores dos judeus que contribuam para a carica- o diálogo, revela o seu caráter
dissimulado quando adverte
tura destas personagens. o Moço para não o corrigir nem
mostrar admiração se o vir
mentir ou fazer-se passar por
2. Destaque os versos em que se hiperbolizam as dificuldades da busca efetuada pe- aquilo que não é.
los dois casamenteiros. 4. Os versos parentéticos
refletem o pensamento do
Moço e pretendem criticar/
3. Trace o retrato do Escudeiro, nos dois momentos, atendendo ao seu monólogo e ao denunciar o comportamento
diálogo com o Moço. do Escudeiro, quer quanto aos
seus modos quer no que se
refere ao facto de este tentar
4. Refira a intencionalidade do autor com os versos parentéticos presentes nas répli- aparentar ser rico.
5. Metonímia. Significando
cas do Moço. “preto” apenas moeda de
cobre, o Moço usa a expressão
para se referir à falta de
5. Indique, explicitando o seu sentido, o recurso expressivo presente na expressão
dinheiro e de bens materiais
“Homem que não tem nem preto” (v. 559). por parte do Escudeiro.
BLOCO INFORMATIVO – p. 284

111
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a
Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Representação do quotidiano | Dimensão satírica

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia, de forma dialogada e expressiva, o excerto textual em que o Escudeiro se apresenta


a Inês e esta o recebe como marido.

Chega o Escudeiro onde está Inês


Pereira, e alevantam-se todos, e fazem Moço, que estás lá olhando?
suas mesuras, e diz o Escudeiro: Moço Que manda Vossa Mercê?
600 Esc. Que venhas cá.
Antes que mais diga agora, Moço Pera quê?
Deus vos salve, fresca rosa, Esc. Pera fazeres o que mando!
e vos dê por minha esposa, Moço Logo vou.
por mulher e por senhora. (O diabo me tomou:
565 Que bem vejo 605 tirar-me de João Montês
nesse ar, nesse despejo, por servir um tavanês3,
mui graciosa donzela, mor doudo que Deos criou!)
que vós sois, minha alma, aquela Esc. Fui despedir um rapaz
que eu busco e que desejo. por tomar este ladrão,
610 que valia Perpinhão.
570 Obrou bem a Natureza Moço!
em vos dar tal condição Moço Que vos praz?
que amais a discrição Esc. A viola.
muito mais que a riqueza. Moço (Oh como ficará tola,
Bem parece 615 se não fosse casar ante
575 que a discrição merece c’o mais çáfio4 bargante
gozar vossa fermosura, que coma pão e cebola!)
que é tal que, de ventura,
outra tal não s’acontece.1 Ei-la aqui bem temperada,
não tendes que temperar.
Senhora, eu me contento 620 Esc. Faria bem de ta quebrar
580 receber-vos como estais: na cabeça, bem migada!
se vós vos não contentais, Moço E se ela é emprestada,
o vosso contentamento quem na havia de pagar?
pode falecer, nô mais.2 Meu amo, eu quero-m'ir.
Lat. (Como fala! 625 Esc. E quando queres partir?
585 Vid. Mas ela como se cala! Moço Ante que venha o inverno
Tem atento o ouvido... porque vós não dais governo
Este há-de ser seu marido, pera vos ninguém servir.
PROFESSOR segundo a coisa s'abala).
Esc. Não dormes tu que te farte?
Educação Literária
14.1; 14.2; 14.3; 14.5 Esc. Eu não tenho mais de meu, 630 Moço No chão, e o telhado por manta...
590 somente ser comprador E çarra-se-m’a garganta
do Marichal, meu senhor, com fome.
1
não há beleza como a vossa
e são escudeiro seu. Esc. Isso tem arte...5
2 Sei bem ler, Moço Vós sempre zombais assi.
o vosso contentamento
é a única qualidade que pode e muito bem escrever, 635 Esc. Oh que boas vozes tem
faltar-vos e bom jogador de bola,
3
595 esta viola aqui!
estouvado
4
rude; bronco; vadio
e quanto a tanger viola, Leixa-me casar a mi,
5 logo me vereis tanger. depois eu te farei bem.
isso arranja-se

112
Farsa de Inês Pereira

Mãe Agora vos digo eu Podeis topar um rabugento,


640 que Inês está no paraíso! desmazelado, baboso,
Inês Que tendes de ver c’o isso? 680 descancarrado,8 brigoso,
Todo o mal há-de ser meu. medroso, carapatento.
Mãe Quanta doudice! Este escudeiro, aosadas,9
Inês Como é seca a velhice! onde se derem pancadas,
645 Leixai-me ouvir e folgar, ele as há-de levar
que não me hei-de contentar 685 boas, senão apanhar.
de casar com parvoíce. Nele tendes boas fadas.

Pode ser maior riqueza Mãe Quero rir com toda a mágua
que um homem avisado? destes teus casamenteiros!
650 Mãe Muitas vezes, mal pecado,6 Nunca vi judeus ferreiros
é milhor boa simpreza. 690 aturar tão bem a frágoa.10
Lat. Ora oivi, e oivireis. Não te é milhor, mal por mal,
Escudeiro, cantareis Inês, um bom oficial,11
algũa boa cantadela. que te ganhe nessa praça,
655 Namorai esta donzela que é um escravo de graça,
e esta cantiga direis: 695 e casarás com teu igual?

Canta o Judeu
Lat. Senhora, perdei cuidado:
Canas do amor, canas o que há-de ser, há-de ser;
canas do amor. e ninguém pode tolher
Polo longo de um rio o que está determinado.
660 canaval vi florido, 700 Vid. Assi diz Rabi Zarão.
canas do amor. Mãe Inês, guar’-te de rascão!12
Escudeiro queres tu?!
Canta o Escudeiro o romance de «Mal Inês Jesu, nome de Jesu!
me quieren en Castilla», e diz Vidal: Quão fora sois de feição!13

Vid. Latão, já o sono é comigo. 705 Já minha mãe adevinha...14


Como oivo cantar guaiado,7 Houvestes por vaidade
que não vai esfandagado... casar à vossa vontade?
665 Lat. Esse é o demo qu’eu digo! Eu quero casar à minha.
Viste cantar dona Sol: Mãe Casa, filha, muit’embora.
Pelo mar vai a vela 710 Esc. Dai-me essa mão senhora.
vela vai pelo mar? Inês Senhor, de mui boa mente.
Esc. Per palavras de presente
Filha Inês, assi vivais
vos recebo desd’agora.
670 que tomeis esse senhor
escudeiro cantador
Nome de Deos, assi seja!
e caçador de pardais,
715 Eu Brás da Mata, escudeiro,
sabedor, revolvedor,
recebo a vós Inês Pereira
falador, gracejador
por mulher e por parceira
675 afoitado pola mão,
como manda a Santa Igreja.
e sabe de gavião...
Tomai-o por meu amor. 6
infelizmente; 7 cantar nostálgico ou lamentoso;
8
descarado; 9 interjeição que significa admiração;
10
desempenharem bem as suas funções; 11
artífice; 12 vadio; 13 sois tão pouco razoável; 14 já
minha mãe se põe a adivinhar; a fazer agouros.

113
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a
Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Representação do quotidiano | Dimensão satírica

Inês Eu, aqui diante Deos, Cantam todos a cantiga que se segue:
720 Inês Pereira, recebo a vós,
Mal ferida va la garça
Brás da Mata, sem demanda
enamorada,
como a Santa Igreja manda
sola va y gritos dava.
Lat. Juro al Deu! Aí somos nós!
755 A las orillas de un rio
la garça tenia el nido;
15
Os Judeus ambos
os judeus felicitam Inês pelo ballestero la ha herido
seu casamento
Alça manim, dona, ò dono, ha.
en el alma;
16
Sê bem-vinda, Luzia 725 Arrea espeçulá.15
17 sola va y gritos dava.
outra ocasião Bento o Deu de Jacob,
18
fórmula de despedida bento o Deu que a Faraó E, acabando de cantar e bailar, diz
19
depressa; cedo
espantou e espantará. Fernando:
Bento o Deu de Abraão
PROFESSOR 760 Ora, senhores honrados,
730 benta a terra de Canão.
ficai com vossa mercê,
Escrita Para bem sejais casados!
e nosso Senhor vos dê
11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; Dai-nos cá senhos ducados.
13.1 com que vivais descansados
Mãe Amenhã vol-os darão.
Isto foi assi agora,
Proposta de síntese: Pois assi é, bem será 765 mas melhor será outr’hora.17
1. Perdoai pelo presente:
a. Na réplica inicial,
735 que não passe isto assi.
o Escudeiro mostra-se muito Eu quero chegar ali foi pouco e de boa mente.
galante, tecendo vários
chamar meus amigos cá, Com vossa mercê, Senhora...18
elogios a Inês: compara-a
a uma rosa e chama-lhe e cantarão de terreiro.
“graciosa donzela”, Luz. Ficai com Deos, desposados,
afirmando que casará com ela Esc. Oh! quem me fora solteiro! 770 com prazer e com saúde,
de imediato. Enuncia, 740 Inês Já vós vos arrependeis? e sempre Ele vos ajude
de seguida, as suas próprias
características e os seus dons Esc. Ó esposa não faleis, com que sejais bem logrados.
(saber ler, tanger viola…). que casar é cativeiro. Mãe Ficai com Deos, filha minha,
b. Perante o Moço, mostra-se
arrogante e, durante este Aqui vem a Mãe com certas moças e não virei cá tão asinha.19
diálogo, confirma-se, de A minha benção hajais.
novo, a sua pobreza e a sua
mancebos pera fazerem a festa, e diz ũa 775

fanfarronice. delas, per nome Luzia: Esta casa em que ficais


c. É também neste ponto vos dou, e vou-me à casinha.
que a Mãe se mostra pouco Inês por teu bem te seja!
convencida das qualidades Oh! que esposo e que alegria! Senhor filho e senhor meu,
do noivo de Inês e questiona
o trabalho dos judeus. Estes, 745 Inês Venhas embora, Luzia,16 pois que já Inês é vossa,
por sua vez, são também e cedo t’eu assi veja. 780 vossa mulher e esposa,
críticos relativamente ao
caráter e atributos de Brás da Mãe Ora vai tu ali, Inês, encomendo-vo-la eu.
Mata. Apesar de tudo, mesmo e bailareis três por três. E, pois que des que nasceo
contra a vontade da Mãe,
Inês e o Escudeiro decidem Fer. Tu connosco, Luzia, aqui, a outrem não conheceo,
casar-se.
750 e a desposada ali, senão a vós, por senhor,
d. O Escudeiro revela que lhe tenhais muito amor,
mudanças de comportamento, ora vede qual direis. 785

pois mostra desagrado quando que amado sejais no céo.


a Mãe prepara uma festa para
comemorar a união e no modo
ríspido como responde a Inês BLOCO INFORMATIVO – p. 283
“Ó esposa não faleis, / que
casar é cativeiro” (vv. 741-742).
Faz-se uma pequena festa na E S C R I TA
qual participam alguns amigos.
Findo o casamento,
os noivos ficam sozinhos,
depois de terem sido 1. Sintetize o conteúdo deste excerto, num texto correto e coerente, contendo entre
abençoados pela Mãe, que vai 150 e 200 palavras, contemplando os seguintes aspetos:
viver para outra casa.
(176 palavras) a. réplica inicial do Escudeiro; c. comentários dos judeus e da Mãe;
b. diálogo entre o Escudeiro e o Moço; d. mudanças no comportamento do Escudeiro.

114
Farsa de Inês Pereira
Caracterização das personagens | Relações entre personagens

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Leia agora o excerto relativo à vida de casada de Inês Pereira.

Ida a Mãe, fica Inês Pereira e o Escudeiro. E senta- Pode ser maior aviso,
-se Inês Pereira a lavrar, e canta esta cantiga: maior descrição e siso
que guardar eu meu tisouro?
Si no os huviera mirado Não sois vós, mulher, meu ouro?
no penara, 825 Que mal faço em guardar isso?
pero tampoco os mirara
Vós não haveis de mandar
O Escudeiro, vendo cantar a Inês Pereira, mui em casa somente um pelo.
agastado lhe diz: Se eu disser: – isto é novelo –
havei-lo de confirmar.
790 Vós cantais, Inês Pereira? 830 E mais quando eu vier
Em vodas m'andáveis vós? de fora, haveis de tremer;
Juro ao Corpo de Deos e cousa que vós digais
que esta seja a derradeira! não vos há-de valer mais
Se vos eu vejo cantar, que aquilo que eu quiser.
795 eu vos farei assoviar…
[para o criado]
Inês Bofé1, senhor meu marido,
se vós disso sois servido, 835 Moço, às Partes d'Além3
bem o posso eu escusar. me vou fazer cavaleiro.
Esc. Mas é bem que o escuseis, Moço (Se vós tivésseis dinheiro.
800 e outras cousas que não digo! não seria senão bem...)
Inês Porque bradais vós comigo? Esc. Tu hás-de ficar aqui.
Esc. Será bem que vos caleis. 840 Olha, por amor de mi,
E mais, sereis avisada o que faz tua senhora:
que não me respondais nada, fechá-la-ás sempre de fora.
805 em que2 ponha fogo a tudo, [para Inês]
porque o homem sesudo
traz a mulher sopeada. Vós, lavrai, ficai per i.
Moço Com o que me vós leixais
Vós não haveis de falar 845 não comerei eu galinhas...
com homem, nem mulher que seja Esc. Vai-te tu per essas vinhas,
810 nem somente ir à igreja que diabo queres mais?
não vos quero eu leixar. Moço Olhai, olhai! Como rima!4
já vos preguei as janelas, E depois de ida a vendima?
por que vos não ponhais nelas. 850 Esc. Apanha desse rabisco.5
Estareis aqui encerrada Moço Pesar hora de São Pisco!
815 nesta casa, tão fechada Convidarei minha prima...
como freira d'Oudivelas.
E o rabisco acabado,
Inês Que pecado foi o meu? ir-me-ei espojar às eiras?
Porque me dais tal prisão?
Esc. Vós buscastes descrição,
820 que culpa vos tenho eu?

1
exclamação que pode significar ‘na verdade’; 2 mesmo que;
3
Marrocos; 4 (por antífrase ) que disparate!; 5 restos da vindima.

115
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a
Caracterização das personagens | Relações entre personagens

855 Esc. Vai-te per essas figueiras, Juro em todo meu sentido
e farta-te, desmazelado! que se solteira me vejo,
Moço Assi? assi como eu desejo,
Esc. Pois que cuidavas? 895 que eu saiba escolher marido,
E depois virão as favas. a boa fé, sem mal engano,
860 Conheces túbaras de terra? pacífico todo ano,
Moço I-vos vós, embora, à guerra, e que ande a meu mandar.
que eu vos guardarei oitavas6... Havia m'eu de vingar
900 deste mal e deste dano!
Ido o Escudeiro, diz o Moço:
Entra o Moço com ũa carta de Arzila, e diz:
Senhora, o que ele mandou
não posso menos fazer. Esta carta vem d’Além,
865 Inês Pois que te dá de comer, creo que é de meu senhor.
faze o que t’encomendou. Inês Mostrai cá, meu guarda-mor,
Moço Vós fartai-vos de lavrar, veremos o que i vem.
eu me vou desenfadar
com essas moças lá fora. Lê o sobrescrito.
870 Vós perdoai-me, senhora,
porque vos hei-de fechar. 905 «À mui prezada senhora
Inês Pereira da Grã,
Aqui fica Inês Pereira só, fechada, lavrando e can- a senhora minha irmã».
tando esta cantiga: De meu irmão... Venha embora!

Quem bem tem e mal escolhe Moço Vosso irmão está em Arzila?
por mal que lhe venha não s'anoje. 910 Apostarei que i vem
nova de meu senhor também.
Renego da discrição, Inês Já ele partio de Tavila?
875 comendo ò demo o aviso, Moço Há três meses que é passado.
que sempre cuidei que nisso Inês Aqui virá logo recado
estava a boa condição. 915 se lhe vai bem, ou que faz.
Cuidei que fossem cavaleiros, Moço Bem pequena é a carta assás!
fidalgos e escudeiros, Inês Carta de homem avisado…
880 não cheos de desvarios,
e em suas casas macios, Lê Inês Pereira a carta, a qual diz:
e na guerra lastimeiros7.
«Muito honrada irmã,
Vede que cavalarias, esforçai o coração8
vede que já mouros mata 920 e tomai por devação9
885 quem sua mulher mal trata de querer o que Deus quer.»
sem lhe dar de paz um dia! E isto que quer dizer?
E sempre ouvi dizer «E não vos maravilheis
que homem que isto fizer de cousa que o mundo faça,
nunca mata drago em vale, 925 que sempre nos embaraça
890 nem mouro que chamem Ale: com cousas. Sabei que indo
e assi deve de ser. vosso marido fugindo
da batalha pera a vila,
a mea légua de Arzila,
6
os rendimentos (em sentido irónico); 7 cruel, desapiedado; 930 o matou um mouro pastor».
8
sede forte; 9 devoção. Moço Oh meu amo e meu senhor!

116
Farsa de Inês Pereira

Inês Dai-me vós cá essa chave, Guardar de cavaleirão,


e i buscar vossa vida. barbudo, repetenado10,
Moço Oh que triste despedida! que em figura de avisado
935 Inês Mas que nova tão suave! é malino e sotrancão11.
Desatado é o nó. 945 Agora quero tomar,
Se eu por ele ponho dó, pera boa vida gozar,
o diabo me arrebente! um muito manso marido.
Pera mim era valente, Não no quero já sabido,
940 e matou-o um mouro só! pois tão caro há-de custar.

10
manhoso; 11 hipócrita.

1. Complete o esquema seguinte, considerando o excerto lido.

Comportamento do Escudeiro e de Inês durante o casamento:

A. O Escudeiro mostra-se B. Inês não percebe a razão


do “encarceramento”, mas

Após a partida do Escudeiro para o Norte de África,

PROFESSOR

Educação Literária
C. Inês é vigiada pelo . Inês cumpre as indicações do
14.2; 14.3; 14.4; 14.7
seu marido. Contudo,
. 1.
A. arrogante e mesquinho,
desprezando o papel de Inês
enquanto mulher; tranca as
janelas e impõe-lhe regras
de comportamento. Manifesta
a intenção de se fazer cavaleiro
D. A chegada de uma carta anuncia a morte do Escudeiro, quando no Norte de África.
B. aceita as regras impostas
. e não manifesta intenções
de se livrar do casamento.
C. Moço. […] escrupulosamente
[…] mostra-se agastada com a
situação e tece considerações
sobre o modelo de marido que
agora deseja.
D. fugia cobardemente
E. A morte do Escudeiro origina . do campo de batalha.
E. a libertação de Inês.

117
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a

LEITURA

Se no passado o papel da mulher no casamento era sobretudo passivo, nos tempos


mais recentes, a situação alterou-se, uma vez que o sexo feminino tem também outras
prioridades, nomeadamente a carreira profissional.

Leia atentamente o texto, no qual se problematiza a temática do casamento, e res-


ponda às questões apresentadas.

A verdade das relações


Por Júlia Serrão

Nada ficou como antes depois de as


mulheres terem conquistado o mercado
de trabalho, da invenção do casamen-
to por amor e de o universo feminino ter
5 passado a reivindicar o desejo e o prazer
sexual. A partir destes acontecimentos,
a dinâmica das relações amorosas mudou
e o tipo de relacionamento entre homem
e mulher, no casamento, ficou mais equi-
10 librado – extingue-se a fórmula que fun-
cionou durante séculos, onde eles tinham
o poder, mandavam, e elas obedeciam. […]
Casal de velhos, estátua exposta em Vigeland Park
A dinâmica de relacionamento está in- and Museum, Oslo, Noruega.
timamente ligada às motivações do amor
15 e estas continuam a ser múltiplas e complexas, apesar de o casamento assentar no novo
paradigma do respeito mútuo entre as duas pessoas. […].
“O amor é muita coisa diferente para pessoas diferentes”, observa Rita Duarte, psicote-
rapeuta e mediadora familiar. […]
Para a psicoterapeuta, a grande diferença entre as uniões atuais e as de há 30 ou 40
20 anos “tem a ver essencialmente com a capacidade com que uma pessoa se desliga da outra.
[…]” Não existem os constrangimentos que existiam antigamente, pelo que o fim de uma
relação passou por vezes a ser muito banal. “As pessoas não aceitam numa relação as suas
divergências nem o facto de, em alguns momentos, a mesma pessoa que desencadeia nelas
os sentimentos mais intensos e positivos as levar também a sentir emoções muito contrárias
25 ao amor, como a repulsa. Ficam muito aflitas com isto que sentem e começam a criar ava-
liações negativas do outro, quando o problema é apenas de comunicação entre os dois”, diz.
Antigamente também não havia negociação possível. Mas o fim das relações era menos
precipitado, independentemente de ser desejável. Alguns terapeutas dizem que se passou
mesmo de um extremo ao outro: de aguentar tudo, até que a morte nos separe, ao pôr fim
30 à relação ao primeiro conflito. E explicam, como Augusto Cury, em Mulheres Inteligentes
Relações Saudáveis (Pergaminho): “Não há casais perfeitos, a não ser que estejam separados
ou a morar em continentes diferentes, portanto, se duas pessoas moram debaixo do mes-
mo teto, é impossível não terem áreas de atrito.”

118
Farsa de Inês Pereira

PROFESSOR

Leitura
Noutros tempos, casava-se por conveniência e para não se ficar sozinho. Hoje, regra 7.2; 7.4; 8.1; 9.1
35 geral, casa-se por amor, escolhe-se o parceiro. […] O lado biológico, a forma como nos da-
mos com o outro neste aspeto, é muito importante. 1. A mudança de atitude
Mas, segundo a psicoterapeuta, o mais importante numa relação de hoje é as pessoas perante o casamento,
nomeadamente no que
sentirem que o outro está lá para elas, ao nível da compreensão emocional. Os homens já não se refere ao prazer;
representam “a segurança, nomeadamente material. Já não são a coluna vertebral de apoio”. a independência económica
e o casamento por amor.
40 Elas já não os querem com estes atributos, nem precisam. Emanciparam-se! […] De qualquer 2. As relações mais distantes
forma, a gestão desta economia no passado nunca passava pela mulher, era o homem que temporalmente aconteciam
por conveniência, duravam
a fazia, que ditava as regras também neste campo. E delas não se esperava que dessem opi- mais, uma vez que a relutância
nião, nem que manifestassem qualquer necessidade. em pôr fim ao relacionamento
era maior, em virtude da falta
Nas últimas décadas, as mulheres portuguesas ganharam independência económica de independência económica
45 e o direito de se expressar. E, com estas conquistas, o casamento nunca mais foi o que era. da mulher e da submissão
à vontade do homem, o que
E alguns homens têm medo disso, assegura Rita Duarte. “Sentem-se mesmo ameaçados não acontece no presente.
com o poder que elas têm.” No entanto, atualmente,
o fim das relações também é
Máxima, edição online (consultado em fevereiro de 2017). mais rápido do que o desejável
(apesar do casamento por
amor), em virtude da falta de
paciência e de comunicação.
3. A afirmação evidencia
1. Indique as causas das mudanças comportamentais patentes nos relacionamentos a autoridade e a supremacia
amorosos contemporâneos. do homem na relação
matrimonial, remetendo
2. Caracterize, comparando, as uniões mais recentes e as que “funcionaram” durante também para uma sociedade
predominantemente
séculos. patriarcal.
4.
3. Explique o sentido da afirmação “Antigamente também não havia negociação pos- a. A arrogância do Escudeiro
sível” (l. 27). e o modo como “aniquila” a
vontade de Inês.
4. Associe as seguintes afirmações do texto a factos do casamento de Inês Pereira b. Inês casa com o Escudeiro,
procurando obter assim
com o Escudeiro. a emancipação e a ascensão
social.
a. “Antigamente também não havia negociação possível.” (l. 27) c. e d. Novamente a atitude
do Escudeiro, nomeadamente
b. “Noutros tempos, casava-se por conveniência e para não se ficar sozinho.” (l. 34) na seguinte réplica “Vós não
haveis de mandar / em casa
c. “De qualquer forma, a gestão desta economia no passado nunca passava pela mu- somente um pelo. / Se eu
lher, era o homem que a fazia, que ditava as regras também neste campo.” (ll. 40-42) disser: – isto é novelo – / havei-
-lo de confirmar.” (vv. 826-829)
d. “E delas não se esperava que dessem opinião, nem que manifestassem qualquer
necessidade.” (ll. 42-43) Gramática
18.1; 18.4

GRAMÁTICA
1.1
a. Oração subordinada
1. Atente nos seguintes excertos. (adverbial) temporal
b. Oração subordinada
a. “Nada ficou como antes depois de as mulheres terem conquistado o mercado (adjetiva) relativa (restritiva)
de trabalho”. (ll. 1-3) c. Oração subordinada
(adverbial) condicional
b. “… extingue-se a fórmula que funcionou durante séculos”. (ll. 10-11) 1.2 Caso duas pessoas morem
c. “se duas pessoas moram debaixo do mesmo teto, é impossível não terem áreas debaixo do mesmo teto, …
1.3 Sujeito (simples)
de atrito.” (ll. 32-33)
1.1 Classifique a oração subordinada presente em cada uma das frases.
1.2 Substitua o conector “se” na frase c. por “caso” e reescreva a frase, procedendo
às alterações necessárias.
BLOCO INFORMATIVO –
1.3 Identifique a função sintática desempenhada pelo constituinte “Nada” na frase a. pp. 277, 271-273

119
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a

E S C R I TA

APRECIAÇÃO CRÍTICA
Um texto de apreciação crítica centra-se na apreciação de um filme, de um livro,
de uma peça de teatro, de uma obra de arte, etc. Para tal, expõe informação significa-
tiva, encadeada logicamente, sobre o objeto visado e associa-lhe um comentário críti-
co, orientado numa perspetiva positiva ou negativa. Apresenta, ainda, uma descrição
sucinta e um comentário crítico sobre o tema/objeto em causa.

Leia atentamente o texto e atente na sua estrutura destacada na margem.

TÍTULO
com recurso
à adjetivação para
Um jantar envenenado
captar a atenção.

Um romance que veio


INTRODUÇÃO
sucinta e clara, mas
da Holanda e que enerva
que desafia o leitor. o leitor até ao desespero.
O Jantar é um dos livros mais bem su-
5 cedidos da literatura holandesa recente.
Trezentas páginas sobre um encontro entre
dois casais para mascararem as más ações
dos filhos. Baseado num facto verídico,
DESENVOLVIMENTO o assassinato de uma sem-abrigo em
onde se faz a descrição
resumida do objeto 10 Barcelona, o autor decide escalpelizar1
(a obra literária) e se as relações conjugais, familiares, sociais
apresenta o conteúdo
como argumento para e fazer uma avaliação psiquiátrica do
valorizar o romance em estado da civilização em que vivemos. Vai
apreciação, recorrendo
a um vocabulário daí, Herman Koch expõe todos os podres
valorativo, como se 15 dos casais, as verdadeiras personalidades
percebe pelo verbo
“escalpelizar” ou pela do quarteto; a manipulação dos filhos,
expressão “Tudo sem bem como dos empregados e clientes do
grandes contemplações”,
no qual é visível o juízo restaurante. Tudo sem grandes contem-
de valor do autor plações. Conforme os casais vão sendo expostos, o leitor vai-se vendo ao espelho,
do artigo.
20 reconhece-se, revê amigos e conhecidos, pensa no modo como educa os filhos e, lá
para o final, já admite que gostaria de aplicar um bom golpe de judo e deixar atordoado
quem o irrita.
Este é um livro em que os sentimentos dos leitores são manipulados tal é o modo
como Herman Koch utiliza as personagens e, sem o poder evitar, cria uma interação
25 com os leitores. Tanto que a dado momento o leitor tem todo o direito a sentir-se
ultrajado e irritado por causa daquilo que vai acontecendo no romance. Pode sentir
vontade de rasgar as páginas, mas não o pode fazer porque ficaria sem saber o final.
CONCLUSÃO Herman Koch nem sempre foi escritor. Antes, representou vários papéis em séries
que confirma o sucesso de televisão e escreveu contos, até que o sucesso deste romance o tornou famoso
do romance, como é
comprovado pela sua 30 e foi traduzido em mais de duas dezenas de línguas.
tradução em várias
línguas. João Céu e Silva, in DN (Artes), edição online de 21 de julho de 2015
1
aprofundar. (consultado em fevereiro de 2017).

120
Farsa de Inês Pereira

COMO ESCREVER UMA APRECIAÇÃO CRÍTICA


• Apresentar um conteúdo informativo, mas incluir apreciações pessoais.
• Recorrer à argumentação e respetiva exemplificação para fundamentar a perspetiva
e persuadir o público leitor.
• Utilizar uma linguagem valorativa (negativa ou positiva), mas clara.
• Organizar o texto numa estrutura tripartida.

Introdução:
• apresentação sucinta e valorativa do objeto, com recurso a linguagem expressiva de-
nunciadora da posição pessoal.

Desenvolvimento:
• informações sobre o objeto, seu conteúdo, características (físicas ou outras);
• comentário crítico valorativo;
• apresentação dos argumentos que sustentam a opinião crítica.

Conclusão:
• síntese da informação mais importante.
PROFESSOR

ESCREVER UMA APRECIAÇÃO CRÍTICA Escrita


11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4;
1. Observe atentamente o se- 13.1
guinte quadro de um pintor
francês, representante do 1.
O quadro O Almoço no Barco,
movimento impressionista. de Pierre-Auguste Renoir, é
um belo exemplo da pintura
impressionista.
Este quadro apresenta-nos,
em pinceladas ricas em cores
vivas, um almoço alegre,
sugerido também pelas
expressões das personagens.
É um ambiente burguês,
característico do século
XIX, como se confirma pelo
vestuário e pela presença de
um mimoso cãozinho.
Pierre-Auguste Renoir, O Almoço no Barco, óleo sobre tela, Os alimentos dispersos, entre
1881, the Phillips collection, Washington, USA. os quais se destacam, no
centro da tela, quatro garrafas
de um bom vinho, certamente
Elabore um texto de apreciação crítica, com 100 a 140 palavras, baseando-se na ima- francês, contribuem também
gem e nos tópicos abaixo elencados: para a criação desse ambiente
descontraído. É, talvez,
a. Estrutura tripartida do texto: domingo, daí o passeio
de barco e a presença
• Introdução: descrição sucinta do objeto (autor, obra, movimento estético). de uma paisagem natural,
em harmonia com o elemento
• Desenvolvimento: humano. É de realçar
– ambiente retratado e sua relação com a época de produção da obra; a descontração dos dois jovens
de braços nus, traduzida
– adequação do título ao conteúdo representado; também na sua postura.
– cores e elementos dominantes; Efetivamente, Renoir soube
captar, com brancos e ocres
– aspetos que suscitaram o seu interesse e respetiva justificação. consistentes, os joviais
• Conclusão: retoma e reforço da posição pessoal, assumida na introdução. momentos de convívio
da pequena burguesia
b. Redação clara e objetiva, respeitando os mecanismos de coesão e coerência textual. de oitocentos.
(138 palavras)
c. Utilização de vocabulário adequado e diversificado.

121
v Processos irregulares de formação de palavras
N DE
RE R
APRENDER
AP

ICA
G RA M Á T O léxico de uma língua refere-se ao conjunto de palavras, ou unidades de sentido, que dela
R
APL ICA fazem parte. Por vezes, torna-se necessário criar novas palavras, o que pode ser alcançado
através de processos regulares (derivação e composição) ou através de processos irregulares,
como os que a seguir se apresentam.

Designação Definição Exemplo

Criação de um vocábulo através • A FENPROF é uma entidade


da junção de letras ou de sílabas sindical que representa
Acrónimo de um grupo de palavras, relativas os professores.
à mesma realidade. Pronuncia-se • Sabes elucidar-me sobre o que
como uma só palavra. são os PALOP?

• O meu irmão é mais novo


Criação de uma palavra a partir da do que eu; ainda estuda na EB1
redução de um grupo de palavras da minha rua.
Sigla
às suas iniciais. Cada letra
pronuncia-se separadamente. • A GNR tomou conta da
ocorrência.

Processo de transferência • Se retirarmos os lobos do seu


de uma palavra de uma língua habitat, podem tornar-se
Empréstimo para outra, com ou sem violentos.
adaptações às características • Ouvi dizer que o chocolate é um
formais da língua recetora. inibidor do stresse.

• Julgo que o meu computador


Criação de novos sentidos para
tem uma avaria, uma vez que
Extensão uma palavra já existente na língua
se abrem diversas janelas
semântica que, contudo, não perde o(s)
sempre que tento navegar.
significado(s) anterior(es).
Será um problema do rato?

Criação de um termo que • A Joana colocou uma foto nova


se caracteriza pela eliminação no Facebook.
Truncação
de parte da palavra de que
deriva. • Nunca tive nega a Português.

• Muitos internautas comunicam


exclusivamente através das
Criação de uma palavra a partir redes sociais.
Amálgama da junção de partes de duas
ou mais palavras. • A informática continua a ser
uma área na qual abundam
as possibilidades de emprego.

122
APLICAR

1. Leia os seguintes trechos.

A.

Samuel Silva, 26 de março de 2014

Na maioria dos Estados-membros na UE, há mais jovens a viverem com os pais agora do
que em 2007, ano a que se reportava a anterior publicação da European Foundation for the
Improvement of Living and Working Conditions [...].
Visão, edição online, 3 de junho de 2014 (consultado em junho de 2014).

B.

As línguas mais faladas na rede


No início do século, metade dos utilizadores da Internet comunicavam em Inglês. Agora,
a rede é cada vez mais poliglota […].
Visão, edição n.o 1126, 2 de outubro de 2014, p. 20.

C.
PROFESSOR
Os problemas que, no último mês, têm afetado os tribunais, por via das falhas na plata-
forma informática Citius, vão agravar a falta de confiança na Justiça, prevê o presidente do Gramática
Supremo Tribunal de Justiça. 19.6; 19.7

Público, edição online, 3 de outubro de 2014 (consultado em outubro de 2014).


1.1 e 1.2

D. Processo
Palavra
de formação
A Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN (que, em inglês, é NATO: North
Atlantic Treaty Organization), é uma instituição militar criada durante o contexto inicial da UE Sigla
Guerra Fria […]. Internet Empréstimo
mundoeducacao.com/geografia/otan.htm (consultado em fevereiro de 2017, adaptado). Extensão
Rede
semântica
Extensão
1.1 Retire, dos textos, os vocábulos que configuram processos irregulares de formação de Plataforma
semântica
palavras. Informática Amálgama
1.2 Associe cada um dos vocábulos ao respetivo processo de formação. OTAN/NATO Acrónimo

2. Atente nas seguintes frases 2.1 Todas se formaram por


extensão semântica.
a. O pai abriu o Portal do Cidadão e acedeu à informação que pretendia. 2.2
b. A mãe comprou uma máscara hidratante para as extensões da minha irmã. a. O pai fechou o portal que dá
para o quintal.
c. A bateria do portátil acabou, mas ainda consegui salvar o documento. b. Em minha casa há várias
extensões telefónicas;
2.1 Identifique o processo de formação das palavras sublinhadas. A extensão deste campo de
jogos é invulgar.
2.2 Construa uma frase para cada palavra sublinhada, exemplificativa do seu signifi- c. O médico salvou a jovem de
morte certa.
cado de base.

123
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a
Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Dimensão satírica

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Morto o Escudeiro, Inês está livre para novos amores.

Leia a passagem textual em que Lianor Vaz propõe novamente a Inês o casamento
com Pero Marques e tome conhecimento do que sucede de seguida.

Aqui vem Lianor Vaz, e finge Inês Pereira estar Vem Lianor Vaz com Pero Marques e diz Lianor Vaz:
chorando, e diz Lianor Vaz:
No mais cerimónias agora;
950 Lia. Como estais, Inês Pereira? abraçai Inês Pereira
Inês Muito triste, Lianor Vaz. por mulher e por parceira.
Lia. Que fareis ao que Deos faz? Pero Há homem empacho, má ora,4
Inês Casei por minha canseira. 990 quant’a dizer abraçar…
Lia. Se ficastes prenhe basta. Depois que a eu usar
955 Inês Bem quisera eu dele casta, entonces poderá ser.
mas não quis minha ventura. Inês (Não lhe quero mais saber,
Lia. Filha, não tomeis tristura, já me quero contentar...)
que a morte a todos gasta. 995 Lia. Ora dai-me essa mão cá.
O que havedes de fazer?... Sabeis as palavras, si?
960 Casade-vos, filha minha. Pero Ensinaram-mas a mi,
Inês Jesu, Jesu! Tão asinha? perém esquecem-me já...
Isso me haveis de dizer? Lia. Ora dizei como digo.
Quem perdeo um tal marido, 1000 Pero E tendes vós aqui trigo
tão discreto e tão sabido, pera nos jeitar por cima?5
965 e tão amigo de minha vida? Lia. Inda é cedo... Como rima!6
Lia. Dai isso por esquecido, Pero Soma, vós casais comigo,
e buscai outra guarida.
e eu com vosco, pardelhas!7
Pero Marques tem, que herdou, 1005 Não compre aqui mais falar.
fazenda de mil cruzados. E quando vos eu negar
970 Mas vós quereis avisados... que me cortem as orelhas.
Inês Não! Já esse tempo passou. Lia. Vou-me, ficai-vos embora.
Sobre quantos mestres são Inês Marido, sairei eu agora,
experiência dá lição. 1010 que há muito que não saí?
Lia. Pois tendes esse saber, Pero Si, mulher, saí-vos i,
975 querei ora a quem vos quer, qu’eu me irei pera fora.
dai ò demo a opinião. Inês Marido, não digo isso.
Vai Lianor Vaz por Pero Marques, e fica Inês Pereira
Pero Pois que dizeis vós mulher?
só, dizendo:
1015 Inês Ir folgar onde eu quiser.
Andar1! Pero Marques seja. Pero I onde quiserdes ir,
Quero tomar por esposo vinde quando quiserdes vir
quem se tenha por ditoso estai quando quiserdes estar.
980 de cada vez que me veja. Com que podeis vós folgar
Por usar de siso mero2, 1020 qu’eu não deva consentir?
asno que me leve quero,
1
e não cavalo folão3. adiante; 2 para proceder com todo o juízo; 3 fogoso; 4 sente-se um
homem atrapalhado, que diabo!; 5 alusão a um antigo costume de
Antes lebre que leão,
lançar grãos de trigo sobre os noivos; 6 que disparate; 7 (o mesmo
985 antes lavrador que Nero. que pardeos) interjeição “por Deus!”.

124
Farsa de Inês Pereira

Vem um Ermitão a pedir esmola, que em moço lhe Inês Olhai cá, marido amigo,
quis bem, e diz: 1065 eu tenho por devação
dar esmola a um ermitão.
Señores, por caridad E não vades vós comigo.
dad limosna8 al dolorido, Pero I-vos embora9, mulher,
ermitaño de Cupido não tenho lá que fazer.
para siempre en soledad.
1025 Pues su siervo soy nacido, [Inês fala a sós com o Ermitão]
por exemplo,
me meti en su santo templo 1070 Inês Tomai a esmola, padre, lá,
ermitaño en pobre ermita, pois que Deos vos trouxe aqui.
fabricada de infinita Erm. Sea por amor de mi
1030 tristeza en que contemplo, vuesa buena caridad.

adonde rezo mis horas Deo gratias, mi señora!


y mis dias, y mis años, 1075 La limosna mata el pecado,
mis servicios y mis daños, pero vos tenéis cuidado
donde tu, mi alma, lloras, de matarme cada hora.
1035 el fin de tantos engaños. Deveis saber,
Y acabando para merced me hazer
las horas, todas llorando, 1080 que por vos soy ermitaño.
tomo las cuentas una y una, Y aun más os desengaño:
con que tomó a la Fortuna que esperanças de os ver
1040 cuenta del mal en que ando, me hizieron vestir tal paño.
sin esperar paga alguna.
8
esmola; 9 em boa hora.
Y ansi sin esperanza
de cobrar lo merecido,
sirvo alli mis dias Cupido
1045 con tanto amor sin mudanza,
que soy su santo escogido.
Ó señores,
los que bien os va d'amores,
dad limosna al sin holgura,
1050 que habita en sierra escura,
uno de los amadores
que tuvo menos ventura.

Y rogaré al Dios de mi,


en quien mis sentidos traigo,
1055 que recibais mejor pago
de lo que yo recebi
en esta vida que hago.
Y rezaré
con gran devoción y fe,
1060 que Dios os libre d’engaño,
que esso me hizo hermitaño,
y pera siempre seré,
pues para siempre es mi daño.

125
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a
Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Dimensão satírica

Inês Jesu, Jesu! Manas minhas! Pero Que quereis, minha mulher?
1085 Sois vós aquele que um dia Inês Que houvésseis por prazer
em casa de minha tia de irmos lá em romaria.
me mandastes camarinhas,
e quando aprendia a lavrar 1115 Pero Seja logo, sem deter.
mandáveis-me tanta cousinha? Inês Este caminho é comprido...
1090 Eu era ainda Inesinha, Contai ũa estória, marido.
não vos queria falar. Pero Bofá12 que me praz, mulher.
Inês Passemos primeiro o rio.
Erm. Señora, tengoos servido, 1120 Descalçai-vos.
y vos a mi despreciado; Pero E pois como?
hazed que el tiempo pasado Inês E levar-me-eis no ombro,
1095 no se cuente por perdido. não me corte a madre13 o frio.
Inês Padre, mui bem vos entendo…
Ò demo vos encomendo, Põe-se Inês Pereira às costas
que bem sabeis vós pedir! do marido, e diz:
Eu determino lá d'ir
Marido, assi me levade.
1100 à ermida, Deos querendo.
1125 Pero Ides à vossa vontade?
Inês Como estar no paraíso!
Erm. E quando?
Pero Muito folgo eu com isso.
Inês I-vos, meu santo,
Inês Esperade, ora esperade!
que eu irei um dia destes
Olhai que lousas aquelas,
muito cedo, muito prestes.
1130 pera poer14 as talhas nelas!
1105 Erm. Señora yo me voy en tanto.
Pero Quereis que as leve?
Inês Si.
[Inês torna para Pero Marques]
Ua aqui e outra aqui.
Oh como folgo com elas!
Inês Em tudo é boa a concrusão.
Marido, aquele ermitão
1135 Cantemos, marido, quereis?
é um anjinho de Deos...
Pero Eu não saberei entoar…
Pero Corregê-vos esses véos,10
Inês Pois eu hei só de cantar
1110 e ponde-vos em feição.11
E vós me respondereis
Inês Sabeis vós o que eu queria?
cada vez que eu acabar:
1140 «pois assi se fazem as cousas».

10
componde esses véus; 11 para parecer bonita; 12 interjeição (na verdade); 13 útero; 14 pôr.

126
Farsa de Inês Pereira

PROFESSOR
Canta Inês Pereira: Inês Bem sabedes vós marido
quanto vos quero. Educação Literária
14.5; 14.7; 14.11; 15.1
Marido cuco me levades. Sempre fostes percebido 1.
E mais duas lousas. pera cervo. a. vv. 950-976
b. Preparada para casar
Pero Pois assi se fazem as cousas. 1155 Agora vos tomou o demo novamente, seja com quem for,
com duas lousas. pois aprendeu a lição.
c. vv. 977-985
Inês Bem sabedes vós, marido, Pero Pois assi se fazem as cousas. d. Astuta, reconhecendo no
1145 quanto vos amo: Ermitão um antigo namorado
e vendo nele a possibilidade de
sempre fostes percebido15 E assi se vão, e se acaba o dito Auto. gozar a liberdade de que havia
pera gamo.16 estado privada durante
o casamento com o Escudeiro.
Carregado ides, noss'amo, e. Lisonjeiro, mas mantendo o
com duas lousas. 15 caráter rude que o caracteriza.
sempre tivestes inclinação; 16 o cervo, ou gamo, f. vv. 986-1008
1150 Pero Pois assi se fazem as cousas. é como o cuco: um símbolo do marido traído. g. Imbecil, tonto, carrega a
mulher às costas sem perceber
que esta está a pensar traí-lo.
1. Complete o seguinte quadro procedendo à caracterização das personagens Inês 2.
a. satírica (crítica)
Pereira e Pero Marques. b. cerimónia
c. questionar
d. linguagem (caráter)
Momento presente Versos e. Inês
Personagem Caracterização
no excerto exemplificativos f. significado
Dissimulada, falsamente g. cómica
No diálogo com 3. O argumento ilustra,
Inês pesarosa com a morte a.
Lianor Vaz metaforicamente, o percurso de
do escudeiro. Inês Pereira, que compreendeu
No monólogo Inês b. c. que o marido que mais favorece
os seus intentos será o boçal,
No diálogo com que não impede a satisfação
Inês d. vv. 1070-1105 dos seus desejos (o asno), e
o ermitão
não o cortês, que se tornou
Durante a cerimónia um obstáculo à sua forma de
Pero Marques e. f. ser (o cavalo). Perversa, Inês
de casamento
acaba por tornar o argumento
Imbecil, disposto literalmente real, obrigando
Quando fica a sós a satisfazer todos o marido a assumir o papel de
Pero Marques vv. 1009-1121 asno, carregando-a.
com Inês os desejos de Inês, sem
perceber a astúcia dela.
Quando cumpre
Pero Marques g. vv. 1122-1157
o desejo de Inês

2. Um dos artifícios a que Gil Vicente recorre para a caracterização das personagens,
nomeadamente, Pero Marques, é o cómico.
Preencha o texto seguinte, selecionando, entre as palavras abaixo propostas, as ade-
quadas, de modo a confirmar o recurso a este artifício e a(s) sua(s) intencionalida-
de(s).
• cómica • cerimónia • significado • questionar
• afirmar • Inês • satírica • linguagem • noivo

O cómico está ao serviço de uma intenção a. e moralizadora. Pero Marques


comporta-se de modo cómico durante a b. do casamento, demonstrando a
sua preocupação em seguir todos os rituais, ao c. se não há trigo para festejar
o casamento; o cómico de d. aparece nas suas réplicas e nas de e. ,
uma vez que Pero não percebe o f. das palavras ditas pela esposa (vv. 1009-
-1013). Por outro lado, a visão do lavrador carregando Inês às costas, para atravessar o rio,
é também uma situação g. .

3. Relacione o final da farsa com o argumento “mais quero asno que me leve que
cavalo que me derrube”, explorando os seus significados.
127
GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a
Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Dimensão satírica

EXPRESSÃO ORAL
PROFESSOR
Observe atentamente a página de banda desenhada que se segue, retirada de uma
Oralidade edição da Farsa de Inês Pereira, ilustrada por Artur Correia.
5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 15.7

1. A banda desenhada
representa o momento
do diálogo entre mãe e filha,
após esta ter rejeitado Pero
Marques.
2. O ilustrador consegue
destacar a preguiça e o
caráter sonhador de Inês
associando-a sempre à
cama. O olhar da jovem nas
primeira e terceira vinhetas é
também revelador desse lado
fantasioso.

Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira, ilustrada por Artur Correia, Lisboa, Bertrand Editora, 2006, p. 34.

1. Contextualize o conteúdo desta prancha de BD relativamente à progressão da nar-


rativa e à estrutura da obra.

2. Demonstre como, ao longo da prancha, o ilustrador realça o caráter indolente


e fantasioso de Inês.

128
Farsa de Inês Pereira

LEITURA
PROFESSOR
Leia atentamente o seguinte texto de apreciação crítica.
Leitura
7.1; 7.4; 7.6
1.
Um homem, uma mulher e um tribunal O filme israelita Gett:
O Processo de Viviane Amsalem
que trata de um divórcio difícil
para a mulher envolvida.
2. “Um espantoso retrato
Depois da sua apresentação na Mostra de Cinema e Cultura Ju- íntimo de um divórcio que
acabou por se transformar no
daica, Gett: O Processo de Viviane Amsalem chega às salas… Um centro de um debate
espantoso retrato íntimo de um divórcio que acabou por se na sociedade israelita.”
(ll. 2-4); “Há qualquer coisa de
transformar no centro de um debate na sociedade israelita. simultaneamente enigmático e
deslumbrante quando um filme
Há qualquer coisa de simultaneamente consegue colocar em cena uma
5
particularíssima situação (…)
enigmático e deslumbrante quando um fil- gerando um efeito universal e
me consegue colocar em cena uma particu- universalista”. (ll. 5-11)

laríssima situação, enraizada num universo


cultural específico, simbolicamente muito
10 distante do nosso, gerando um efeito univer-
sal e universalista. Gett: O Processo de Vivia-
ne Amsalem é um desses filmes — o relato
minucioso, minuciosamente obsessivo, de
um caso de divórcio em Israel, capaz de desencadear ondas de choque em qualquer espe-
15 tador de sensibilidade realmente disponível […].
A situação envolve um invulgar dramatismo. Tudo se passa em torno de Viviane
Amsalem e do marido Elisha. De facto, eles já não vivem juntos há três anos — e durante
esse período, a mulher tem insistido para que o marido lhe conceda o divórcio. E é disso
mesmo que se trata: sem a concessão do homem, o divórcio não pode ser decretado, uma
20 vez que a tradição (legislativa e religiosa) confere ao marido o poder único de aceitar ou
não a consumação do divórcio.
Há outra maneira de descrever esta dinâmica: tudo se concentra no espaço do Tribunal
Rabínico, a ponto de Gett ser um filme que vive a partir de uma radical teatralidade. […]
A realização dos irmãos Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz — sendo também Ronit
25 Elkabetz a notável intérprete de Viviane — sabe estar atenta às mais delicadas manifesta-
ções das emoções humanas, ao mesmo tempo expondo o modo como um "banal" divór-
cio pode envolver o peso de toda uma imensa herança histórica. Por alguma razão, Gett:
O Processo de Viviane Amsalem se transformou num verdadeiro fenómeno de debate
no interior da sociedade israelita.

in http://www.rtp.pt/cinemax/?t=um-homem-uma-mulher-e-um-tribunal.rtp&article=12041&vi-
sual=2&layout=35&tm=52 (adaptado, consultado em maio de 2017).

1. Identifique o objeto comentado e apreciado.

2. Destaque duas expressões reveladoras da subjetividade (opinião) do autor do ar-


tigo sobre o filme que funcionem como argumentos.

129
PA R A S A B E R Farsa de Inês Pereira

RELAÇÕES ENTRE AS PERSONAGENS E SUA IMPORTÂNCIA


EM CADA FASE DA VIDA DE INÊS

3.
1. 2.
Inês viúva e casada
Inês Solteira Inês casada com o Escudeiro
com Pero Marques
Apresentação
“Farsa de Inês Preguiçosa;
Pereira: Fases As suas intenções são goradas;
voluntariosa; anseia Maliciosa e adúltera;
da vida de Inês” é oprimida pelo Escudeiro;
pela libertação através desrespeita o marido ingénuo.
sofredora.
do casamento.

Amiga e conselheira;
Desaprova o casamento com
alerta a filha para os
o Escudeiro, mas aceita-o;
Mãe problemas que terá se
desaparece de cena no final
casar com um homem
da cerimónia do casamento.
“discreto”.

Apresenta a Inês um Reapresenta Pero Marques a Inês,


Lianor Vaz bom marido, que esta, e esta aceita-o, em virtude do fracasso
contudo, rejeita. do seu casamento anterior.

Honesto, mas rude.


Mantém a simplicidade; meio tonto,
Embora puro de
acede a cumprir todos os desejos
Pero Marques sentimentos, é tosco,
da esposa, incluindo carregá-la até
rústico; é rejeitado
junto do Ermitão.
por Inês.

Apresentam a Inês um
homem, Brás da Mata,
Judeus
que corresponde
ao perfil desejado.

Homem de duplo
Intolerante e repressor; vai combater
caráter; antes de
Escudeiro no Norte de África, onde morre
casar, mostra-se
cobardemente.
adulador e simpático.

É sinal exterior de
aparente bem-
-estar financeiro
Fiel mandatário do amo, mantém Inês
do Escudeiro;
Moço presa, enquanto este combate
desempenha uma
no Norte de África.
função crítica e
irónica relativamente
ao seu amo.

Representa os falsos religiosos;


Ermitão
será o objeto do adultério de Inês.

130
REPRESENTAÇÃO DO QUOTIDIANO E DIMENSÃO SATÍRICA

Quem é criticado e porquê? PROFESSOR

Tratando-se de um retrato da sociedade do século XVI, que aparece ilustrada através


de personagens que representam tipos (estratos) sociais, surgem:
Apresentação
• as moças que, cansadas da vida rotineira e vazia, ansiavam a libertação através do casamento; Galeria de imagens
• a mãe que aconselha a filha a casar com um homem de posses; Apresentação
• os escudeiros fanfarrões e pobretanas, mas com atributos de homem da corte; Síntese da Unidade
• os lavradores e pastores com a sua ingenuidade e a sua simplicidade;
• as alcoviteiras no seu "ofício" de arranjar casamentos;
• os judeus gananciosos e falsos;
• o clero (através do padre que “atacou” Lianor Vaz e do Ermitão com quem Inês se vai
encontrar no final).

Quem é Inês Pereira?

Inês representa o tipo de moça solteira que pretende ascender socialmente através do casamento.
Para além disso, recusa o perfil de mulher doméstica da época, representado pela sua mãe. Mas…
• ao contrário das restantes personagens, cujo comportamento corresponde, de forma geral,
ao das classes sociais ou tipos que representam, Inês apresenta alguma evolução;
• persegue os seus ideais de libertação da monótona vida doméstica através do casamento,
casando com o escudeiro Brás da Mata, o que veio a revelar-se desastroso para si e para a sua
ambição;
• morto o Escudeiro, Inês aprende a lição e, mudando a opinião e a postura iniciais, aceita
o casamento com Pero Marques;
• no fim da ação, é esta personagem feminina quem “toma as rédeas” da vida conjugal;
• torna-se adúltera, sob o olhar ingénuo do marido, que não se apercebe da traição.

SÁTIRA ATRAVÉS DO CÓMICO

Como “a rir se castigam os costumes”, Gil Vicente recorre a artifícios, tais como a ironia
e o cómico, que contribuem para acentuar alguns traços das personagens a criticar.

Tipos de cómico

De caráter Aparece sobretudo nas personagens Pero Marques e Escudeiro.

Verifica-se, entre outros momentos, quando Pero Marques;


• se apresenta a Inês e não sabe para que serve uma cadeira;
De situação
• tenta encontrar no barrete as peras que trazia de presente a Inês;
• transporta às costas a mulher e duas lousas, na cena final.

Visível na linguagem dos judeus casamenteiros ou na linguagem


De linguagem
de Pero Marques.

131
PA R A V E R I F I C A R Farsa de Inês Pereira

Após a leitura da Farsa de Inês Pereira, verifique o grau de conhecimento que


possui sobre a obra.

1. Selecione a opção mais correta ou mais completa.


1.1 No primeiro quadro, surge Inês Pereira que, enquanto a Mãe está na missa,
[A] se encontra secretamente com um aldeão, seu namorado.
[B] se lamenta de forma agastada da sua sorte e da sua vida de solteira.
[C] recebe Lianor Vaz, rogando-lhe que lhe arranje um marido.
[D] sai de casa para bailar com as amigas numa romaria.
1.2 Quando a Mãe chega da missa, esta
[A] lisonjeia Inês ao ver o bordado que ela terminou.
[B] recrimina a filha, por ela ter saído com as amigas.
[C] aconselha Inês a ser mais diligente, se quer arranjar marido.
[D] zanga-se por a jovem ter recebido em casa um pretendente.
1.3 Lianor Vaz, a alcoviteira, entra em casa de Inês,
[A] assegurando que um clérigo se tentou aproveitar dela.
[B] bendizendo os frades por serem bons conselheiros e muito humanos.
[C] lamentando-se do caminho percorrido para dar notícias de um pretendente
a Inês.
[D] apresentando-se muito cansada, uma vez que acabara de lavrar a sua vinha.
1.4 O motivo da visita de Lianor Vaz é
[A] trazer informações sobre um escudeiro que quer encontrar-se com Inês.
[B] trazer uma carta de Pero Marques, que pretende casar-se com a jovem.
[C] saber a opinião de Inês sobre o Escudeiro seu pretendente.
[D] concertar com a mãe da jovem os pormenores sobre o casamento da filha.
1.5 Após a leitura da carta de Pero Marques, Inês
[A] decide aceitar a proposta de casamento.
[B] recusa a proposta de casamento do pretendente.
[C] interroga Lianor Vaz sobre os bens e a fortuna do aldeão.
[D] aceita encontrar-se com o aldeão, mesmo não gostando do teor da carta.
1.6 A visita e o comportamento do filho do lavrador provocam em Inês
[A] agrado e simpatia, uma vez que se tratava de um jovem bem parecido.
[B] troça e desconsideração, já que o lavrador era desajeitado e bastante saloio.
[C] pena e amizade, pois, embora sem modos, o jovem era muito discreto.
[D] alegria e afeição, dado tratar-se de um jovem rico e bonito, ideal para marido.
1.7 O marido ideal, para Inês, deve
[A] ter educação e finura, saber tanger viola, ainda que seja pobre.
[B] possuir as qualidades de um homem da corte e ser rico.
[C] possuir bens e ser um bom cavaleiro.
[D] ser pobre, mas honrado.

132
PROFESSOR
1.8 O homem que a jovem pretende e aceita para marido
[A] é galego, chama-se Brás da Mata e foi-lhe apresentado por duas amigas.
Teste interativo
[B] foi-lhe apresentado por dois judeus casamenteiros e chama-se Vilhacastim. “Gil Vicente”
[C] foi encontrado pelos judeus casamenteiros e é o escudeiro Brás da Mata.
Educação Literária
[D] é o fidalgo e músico de nome Badajoz. 14.3; 14.4 ; 14.7

1.1 [B]
2. Complete o texto, selecionando a opção que lhe permite recuperar o conteúdo
1.2 [C]
informativo da vida de Inês durante o casamento com Brás da Mata. 1.3 [A]
1.4 [B]
Antes do casamento, o Escudeiro fanfarrão, que tinha a. (muitos/poucos) ha- 1.5 [D]
veres, tece inúmeros b. (reparos/elogios) à donzela. A mãe de Inês, perspicaz, faz 1.6 [B]
considerações c. (agradáveis/negativas) sobre o pretendente. A boda acaba por se 1.7 [A]
1.8 [C]
realizar na presença de alguns amigos.
Após o casamento, o d. (rude/simpático) marido encerra Inês em casa, fechan- 2.
do todas as e. (janelas/arcas), antes de partir para o Norte de f. (África/ a. poucos
b. elogios
Portugal), para onde vai combater. c. negativas
Certo dia, a jovem recebe uma carta de seu g. (irmão/pai), anunciando d. rude
e. janelas
a morte do h. (esforçado/cobarde) escudeiro. A notícia deixa Inês muito
f. África
i. (entristecida/aliviada) com o desfecho do seu casamento. g. irmão
h. cobarde
3. Após a morte do Escudeiro, segue-se uma nova fase na vida de Inês. i. aliviada
Assinale as afirmações como verdadeiras ou falsas e corrija as falsas. 3.
a. F –Recebe a visita
a. Inês Pereira recebe a visita da Mãe e finge-se pesarosa com a morte de Brás da de Lianor Vaz.
Mata. b. V
c. F – Na presença de Lianor
b. Lianor Vaz propõe novamente a Inês o casamento com Pero Marques. Vaz somente.
d. F – Rude e pacóvio.
c. O casamento realiza-se sem demoras perante a Mãe, Lianor Vaz, Fernando e Luzia. e. F – Pero Marques incentiva
d. Ao longo de toda a cerimónia, são feitas várias sugestões sobre o caráter delicado Inês Pereira a sair e a divertir-se.
f. F – Sugere um encontro
e culto do abastado aldeão. amoroso entre ambos.
e. Após a boda, a jovem confessa a Pero Marques que gostava de sair e folgar, o que g. V
h. V
não é bem aceite pelo novo marido.
4.
f. Entretanto, um ermitão, antigo pretendente de Inês, visita-a e pede-lhe uma es- a. Antes de casar, Inês
mola. mostra-se muito exigente
em relação aos pretendentes,
g. Perante o desejo da mulher, de ir em romaria à ermida onde está o santo ermitão, não aceitando Pero Marques
que, embora seja um lavrador
Pero Marques, marido dedicado, prontifica-se a levá-la, para que possa cumprir abastado, não tem maneiras.
a sua devoção. b. Durante o casamento com
o Escudeiro, em virtude
h. Ao longo do percurso entoam uma cantiga onde se refere a traição de que o lavra- do comportamento arrogante
e castrador deste, vê-se
dor está a ser alvo. obrigada a permanecer
trancada em casa, sem poder
4. Avalie o comportamento de Inês em cada uma das três fases da sua vida. ter contacto com o exterior.
c. Casada com Pero Marques,
a. Antes de casar. Inês mostra-se altiva e traidora
e, de certa forma, vinga-se
b. Durante o casamento com o Escudeiro. do sofrimento que lhe fora
causado pelo primeiro marido,
c. Casada com Pero Marques. traindo o atual.

133
PA
C ORNAS OR LE ICDUAPRE R A RTítulo
Farsa de Inês Pereira
PROFESSOR EXPRESSÃO ORAL

1. Exponha, em dois minutos, a relação entre o provérbio “Mais quero asno que me
Apresentação leve que cavalo que me derrube” e o assunto da Farsa de Inês Pereira.
Galeria de imagens
Apresentação
Síntese da Unidade EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Teste interativo
Farsa de Inês Pereira 1. Tendo em consideração o estudo de Gil Vicente e da Farsa de Inês Pereira, indique
se as afirmações que se seguem são verdadeiras ou falsas. Corrija as falsas sem
Expressão oral
recorrer à negativa.
1. Itens a considerar
na resposta: a. Gil vicente situa-se num período de transição entre a Idade Média e o Renasci-
– primeiro casamento de
Inês Pereira com o escudeiro mento.
(“cavalo” que a derruba);
– vida de casada b. O dramaturgo adquiriu na corte uma situação de prestígio que lhe permitiu to-
enclausurada; das as liberdades de escrita.
– segundo casamento, após
morte do escudeiro, com Pero c. As peças de Gil Vicente criticam exclusivamente as classes sociais mais baixas.
Marques (“o asno” que a leva),
domínio de Inês Pereira; d. A Farsa de Inês Pereira baseia-se num episódio religioso.
– perversidade da personagem
que obriga o marido a carregá- e. A jovem, pertencente à nobreza, idealiza um casamento que lhe permite emanci-
-la às costas, quando se dirige par-se.
para o encontro adúltero com
o ermitão. f. Pero Marques é subserviente, simplório e deselegante.
g. O escudeiro é leal, valente e generoso.
Educação literária
1. h. Todas as personagens da farsa são estáticas e, por isso, personagens-tipo.
a. V
b. F – Muitas liberdades de i. Os apartes proferidos pelos judeus casamenteiros e pelo Moço ajudam a carac-
escrita. terizar o Escudeiro.
c. F – Todas as classes sociais.
d. F – Num episódio profano/ j. A Farsa de Inês Pereira é um texto dramático que está dividido em atos e cenas.
do quotidiano.
e. F – Pertencente ao povo.
f. V 2. Associe cada uma das afirmações que se seguem a uma personagem da obra.
g. F – Desleal, cobarde
e egoísta. a. Representante dos fidalgos pelintras que pretende obter vantagens económicas
h. F – Inês é também
personagem modelada, através do casamento com Inês.
que apresenta evolução.
i. V b. Homem rude, simples, disposto a satisfazer todos os caprichos de Inês.
j. F – Que está dividido em
quadros.
c. Jovem que pretende, através do casamento, libertar-se da vida rotineira das mulhe-
2. res do seu tempo.
a. Escudeiro, Brás da Mata
b. Pero Marques
d. Mulher do povo, sensata, que aconselha Inês, mas, abdicando da sua autoridade,
c. Inês Pereira deixa-a fazer as suas próprias escolhas.
d. Mãe
e. Lianor Vaz e. Mulher do povo que desempenha uma função vulgar na época: a de arranjar marido
f. Judeus casamenteiros para as raparigas casadoiras.
g. Ermitão
h. Moço f. Personagens estereotipadas, interesseiras e astutas, que desempenham a função
de medianeiros entre o Escudeiro e Inês.
g. Personagem que simboliza a liberdade conquistada por Inês com o seu casamento
com Pero Marques.
h. Personagem secundária que ajuda a caracterizar o Escudeiro e provoca o cómico
na peça.

134
Almeida Garrett
PA R A AVA L I A R Farsa de Inês Pereira
PROFESSOR

GRUPO I

Leia o seguinte excerto, transcrito da Farsa de Inês Pereira. Em caso de necessidade, Apresentação
Soluções Ficha de
consulte as notas apresentadas. avaliação

GRUPO I
Vem a Mãe, e, não na achando lavrando, Mãe Ora espera, assi vejamos.
diz: 20 Inês Quem já visse esse prazer! Educação Literária
Mãe Cal'te, que poderá ser, 14.2; 14.3; 14.7; 14.9; 15.1;
15.2
Logo eu adevinhei que «ante a Páscoa vem os Ramos.» 1. No monólogo que inicia a
lá na missa onde eu estava, Não te apresses tu, Inês. farsa, Inês lamenta-se pelo
facto de estar fechada em
como a minha Inês lavrava «Maior é o ano que o mês»: casa a costurar e afirma que
a tarefa que lhe eu dei... 25 quando te não precatares, terá de arranjar solução para
sair daquela vida de cativeiro.
5 Acaba esse travesseiro! virão maridos a pares, Abandona, então, o trabalho
Hui! naceo-te algum unheiro? e filhos de três em três. que a Mãe lhe ordenara para
fazer. Por isso, quando esta
Ou cuidas que é dia santo? volta da missa, vê que Inês não
Inês Praza a Deos que algum quebranto Inês Quero-m'ora alevantar. cumprira a tarefa que lhe dera
Folgo mais de falar nisso e repreende-a de forma irónica.
me tire de cativeiro. 2. A Mãe adota, neste excerto,
30 − assim Deos me dê o paraíso, − uma atitude severa em relação
10 Mãe Toda tu estás aquela…1 mil vezes que não lavrar. à filha, devido à sua preguiça
(“Acaba esse travesseiro!”,
Choram-te os filhos por pão? Isto não sei que o faz... v. 5), demonstrando uma grande
Inês Prouvesse a Deos! Que já é rezão Mãe Aqui vem Lianor Vaz. sensatez, que advém da sua
experiência (“Não te apresses tu
de eu não estar tão singela2. Inês E ela vem-se benzendo... Inês, / ‘Maior é o ano que
o mês’”, vv. 23-24), servindo-se
Mãe Olhade lá o mao pesar…3 também da ironia para
Como queres tu casar 1 aconselhar a filha (“Olhade ali o
15 Hoje dir-se-ia “lá estás tu…”; 2 sozinha,
mau pesar…”, v. 14).
com fama de preguiçosa? solteira; 3 “vejam que desgraça…”(ironia); 3. Logo no início do excerto,
Inês Mas eu, mãe, são aguçosa4 4
diligente; a Mãe revela-se irónica ao dizer
e vós dais-vos de vagar. “Logo eu adivinhei / lá na missa
onde eu estava, / como a minha
Inês lavrava / a tarefa que eu
lhe dei…” (vv. 1-4). Nesta fala, a
mãe quer mostrar à filha que a
conhece muito bem e que sabe
perfeitamente que ela não iria
cumprir a tarefa. Diz,
Apresente, de forma estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem. no entanto, o contrário, de
forma irónica, para mostrar
1. Justifique a primeira fala da Mãe, tendo em conta o monólogo de Inês que antece- a sua experiência e a sua
de este diálogo. autoridade. (Há também ironia
na estrofe seguinte).
2. Apresente três traços caracterizadores da Mãe, fundamentando a resposta com 4. A penúltima fala reforça a
elementos textuais. caracterização de Inês como
insensata e leviana, acentuando
3. Transcreva do texto um exemplo da ironia empregue pela Mãe e explique-o. o seu objetivo de casar para
poder mudar de vida (“assi
4. Explicite o sentido da penúltima fala de Inês. Deos me dê o paraíso”, v. 30),
achando que essa situação
seria bem melhor que ficar em
5. Apresente uma razão para o facto de Gil Vicente não ter atribuído à personagem da
casa a “lavrar”, tarefa que lhe
Mãe um nome próprio, justificando a sua resposta com base na sua atuação neste desagrada.
excerto. 5. Esta personagem não
tem nome próprio, pois é
uma personagem-tipo que
representa todas as mães.
É a voz da experiência, da razão,
aconselhando a filha a seguir
o caminho que lhe parece o
mais correto. Neste excerto, a
Mãe pretende chamar a atenção
de Inês para a sua preguiça
e refrear a sua ânsia em casar.

135
Almeida Garrett
PA R A AVA L I A R Farsa de Inês Pereira
PROFESSOR GRUPO II
GRUPO II
1. Atente nas seguintes frases.
Gramática a. A protagonista Inês Pereira surge, num monólogo inicial, a maldizer a sua vida.
18.1; 18.4; 17.5
b. A jovem, pertencente ao povo, idealiza um casamento que lhe permita emancipar-se.
1. 1
a. Modificador c. Inês revolta-se com a vida que leva e sonha que só o marido ideal a libertará.
b. Modificador do nome
apositivo; complemento d. O primeiro pretendente de Inês é-lhe apresentado por Lianor Vaz.
indireto
c. Complemento oblíquo e. Pero Marques, o aldeão, propõe casamento a Inês, mas esta recusa.
d. Complemento agente
da passiva f. Lianor Vaz é uma alcoviteira, que fora vítima das investidas de um padre, quando se
e. Complemento indireto dirigia para casa de Inês.
f. Predicativo do sujeito;
complemento oblíquo g. Inês Pereira acaba por casar com o escudeiro Brás da Mata, que lhe vai proporcionar
g. Modificador de nome
restritivo
uma vida muito infeliz.
h. Predicado h. Embora recuse inicialmente a proposta de casamento com Pero Marques, Inês aca-
1.2
[A] – [2]; [B] – [4]; [C] – [3]; ba por casar com ele.
[D] – [1]; [E] – [5]; [F] – [3]
2. Campo lexical
1.1 Identifique as funções sintáticas desempenhadas pelos constituintes sublinha-
3. proposta (casamento); dos.
inicialmente, embora
1.2 Classifique as orações presentes na coluna A, retiradas das frases acima, assina-
GRUPO III lando o número que lhes corresponde na coluna B.

Escrita
10.2; 11.2; 12.1; 12.2; 12.3; Coluna A Coluna B
12.4; 13.1
[A] “que lhe permita emancipar-se.” [1] Oração subordinada adverbial temporal
Proposta de escrita:
A Farsa de Inês Pereira retrata [B] “que só o marido ideal a libertará.”
o quotidiano de uma jovem [2] Oração subordinada adjetiva relativa
do povo, mas remediada, [C] “que fora vítima das investidas restritiva
que pretende ascender de um padre.”
socialmente. De um forma [3] Oração subordinada adjetiva relativa
divertida, mas com objetivo [D] “quando se dirigia para casa de Inês.” explicativa
moral, Gil Vicente relata-
nos os dois casamentos de [E] “Embora recuse inicialmente a proposta [4] Oração subordinada substantiva
Inês, que vê no matrimónio a completiva
possibilidade de se libertar
de casamento com Pero Marques”
da vida rotineira de solteira, [F] “que lhe vai proporcionar uma vida [5] Oração subordinada adverbial
típica das mulheres do seu muito infeliz.” concessiva
tempo.
Presa em casa pelo primeiro
marido, acaba por se vingar
no segundo casamento,
cometendo adultério, com 2. Indique a relação semântica que se estabelece entre as palavras “casamento”,
um ermitão, o que também “noivo”, “noiva”, “cerimónia” e “alianças”.
constitui crítica social aos
membros do clero, que não 3. Retire da frase h. um nome comum, um advérbio e uma conjunção.
levavam a vida regrada que a
sua vocação exigia.
Com Lianor Vaz e os dois GRUPO III
judeus, Gil Vicente expõe
uma situação social bastante
frequente na época: muitos A FARSA é um género do modo dramático com características satíricas que, retratando
casamentos eram arranjados o quotidiano, pretende pôr em relevo problemas sociais.
por terceiros, profissionais
casamenteiros, daí a presença Num texto expositivo, entre 120 a 150 palavras, comprove a veracidade da afirmação
da alcoviteira e dos dois anterior, relacionando-a:
judeus que desempenham
essa função. • com episódios do quotidiano da vida de Inês;
Verificamos, assim, como
esta farsa é um excelente • com a função de Lianor Vaz e dos Judeus.
testemunho duma época, em
certos aspetos, distante da Dê uma estrutura tripartida ao seu texto (introdução, desenvolvimento, conclusão).
nossa.
(149 palavras)

136
MÓDULO

2
2. Luís de Camões, Rimas
PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR

PARA DESENVOLVER
Educação Literária
Rimas
· A representação da amada
· A experiência amorosa e reflexão sobre o amor
· A representação da Natureza
· A reflexão sobre a vida pessoal
· O tema da mudança e do desconcerto
Leitura
Apreciação crítica
Exposição sobre um tema
Escrita
Exposição sobre um tema
Oralidade [Compreensão/Expressão Oral]
Documentário [Compreensão do Oral]
Apreciação crítica [Compreensão/Expressão Oral]
Anúncio publicitário [Compreensão do Oral]
Gramática
· Subordinação
· Classes de palavras
· Funções sintáticas
· Referente
PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR
Gil Vicente PARA CONTEXTUALIZAR

1304 1374 1521 1524/25 1536 1547 1553 1580 1595


Nascimento Data da morte Aclamação Data provável Publicação da Partida Embarque Data provável Publicação
de Francesco de Francesco do D. João III do nascimento Grammatica de Luís de de Luís de da morte de póstuma de
Petrarca Petrarca como rei de Luís Vaz da Lingoagem Camões para Camões Luís Vaz de Rimas, de Luís
(Arezzo, Itália) (Arquà, Itália) de Portugal de Camões Portuguesa, por Ceuta para Goa Camões Vaz de Camões
Fernão de Oliveira (10 de junho)

Atente nos seguintes aspetos, para melhor compreender as transformações que ocor-
rem nesta época, bem como o autor que irá ser objeto de estudo.

Humanismo, Classicismo e Renascimento

Humanismo Classicismo e Renascimento


• Dá-se o nome de Humanismo ao conjunto de conceções • O Classicismo é o conjunto de princípios ou de regras
próprias dos humanistas, ou seja, daqueles intelectuais e ar- desenvolvido pelos artistas renascentistas que procuram imi-
tistas que tar os modelos da Antiguidade Clássica (greco-latinos) e os
– exaltavam o Homem como ser pensante, dotado italianos quatrocentistas herdeiros das conceções estéticas
5 de livre-arbítrio; 5 de Petrarca.
– fomentavam a investigação livre nos vários domí- • Esses princípios são os seguintes:
nios da ciência; – mimese: a necessidade de imitação de modelos,
– criticavam as tradições e as instituições, como a neste caso greco-latinos e italianos;
Igreja, combatendo a Escolástica, que consideravam – intemporalidade do belo;
10 atrofiadora do desenvolvimento do espírito; 10 – obediência às regras próprias de cada género literá-
– preconizavam uma educação integral, do corpo, rio ou de cada modalidade;
da mente, do espírito – Mens sana in corpore sano. – gosto pela perfeição;
• Os humanistas e os homens do Renascimento desenvol- – gosto pela clareza e simplicidade;
veram a medicina e a anatomia e aprenderam a conhecer – ideia de equilíbrio;
15 melhor o Universo. 15 – finalidade moral da literatura, devendo a poesia simul-
• Os artistas criaram um corpo teórico relativo às conce- taneamente provocar prazer espiritual no leitor e ser-lhe útil.
ções artísticas, designado de Classicismo. • O Renascimento, porque decorrente do Humanismo, foi
Elaborado a partir de Amélia Pinto Pais, História da Literatura uma época “antropocêntrica”, afastando-se das conceções
em Portugal, uma perspetiva didática. Época Medieval e época teocêntricas medievais, tornando-se o ser humano a “medida
clássica, vol. 1, Porto, Areal Editores, 2004, p. 111. 20 de todas as coisas”.
Elaborado a partir de Amélia Pinto Pais, História da Literatura
em Portugal, uma perspetiva didática. Época Medieval e época
clássica, vol. 1, Porto, Areal Editores, 2004, pp. 112-113.

138
PARA INICIAR

COMPREENSÃO DO ORAL PROFESSOR

Visualize e escute atentamente o excerto fílmico relativo à vida e obra de Luís Vaz de
Camões. Link
"Quem és tu,
Luís Vaz?"
1. Complete cada alínea da coluna A com a opção correta da coluna B.
Oralidade
1.1; 1.4
Coluna A Coluna B
1.
[A] As visitas de estado a Portugal [1] porque é do protocolo prestar homenagem [A] – [1]
começam todas no Mosteiro dos a Camões. [B] – [2]
[C] – [1]
Jerónimos, [2] porque o primeiro-ministro valoriza este [D] – [1]
monumento nacional. [E] – [2]
[F] – [2]
[B] Há poucos dados sobre a vida [G] – [1]
[H] – [1]
do poeta nacional, [1] porque muitos documentos desapareceram [I] – [1]
no mar. [J] – [2]
[2] logo, é necessário viajar no tempo até à
sociedade quinhentista.
[C] Na época em que o poeta nasceu,

[1] a maior parte do planeta era português.


[2] o Brasil ainda não tinha sido descoberto.
[D] É provável que Luís de Camões tenha
nascido em Lisboa [1] e tenha conhecido bem os bairros da cidade.
[2] mas tenha abandonado imediatamente a
capital.
[E] O pai do poeta, Simão Vaz de Camões,
possível parente de Vasco da Gama, [1] casou com Ana de Sá, em Santarém.
[2] morreu ao serviço do rei de Portugal.
[F] Pela leitura parcial do soneto “O dia
[1] terá sido repleta de oportunidades e alegrias.
em que nasci moura e pereça”, pode
[2] terá sido extremamente conturbada.
concluir-se que a vida de Camões
[1] cidade de origem romana.
[G] Há a possibilidade de Camões ter [2] cidade de origem galega.
tido ascendentes de origem galega
em Chaves, [1] que o poeta tenha estado alojado.
[2] que o poeta tenha nascido.

[H] São muitos os lugares em Portugal [1] ser um homem instruído e muito culto.
em que se assume [2] escrever sobre o rio Mondego, quando
visitava o tio.
[I] A possibilidade de Camões ter vivido
em Coimbra justifica-se pelo facto [1] que tinha uma profunda erudição, sendo
de o poeta principalmente conhecido nas casas nobres
da Europa.
[2] que revelava um conhecimento profundo
[J] Não há dúvida de que o príncipe dos da literatura clássica e dos homens
poetas portugueses era um homem de letras italianos.

139
LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a
PARA DESENVOLVER

INFORMAR
PROFESSOR
Leia os seguintes tópicos e resolva a atividade proposta abaixo.
Leitura
7.1; 7.4; 8.1
Educação Literária
Lírica tradicional e renascentista
14.8; 14.10; 16.1
Medida velha Medida nova
[A] – [2]
• Poesia lírica tradicional ou poesia em • Sá de Miranda introduz em Portugal a medida
[B] – [4]
redondilha, existente nos cancioneiros nova, ou seja, o decassílabo, formas fixas,
[C] – [1]
[D] – [3]
peninsulares ao longo do século XV e grande como o soneto, e uma série de subgéneros
[E] – [6] parte do século XVI. líricos, como a elegia ou a écloga.
• Medida que se mantém, continuando • A introdução destas novidades “representava
a ser usada pelos poetas do século XVI, o abraçar dos ideais do humanismo,
em alternância com o verso decassilábico. a redescoberta dos Antigos, a cultura
Construído a partir de José Augusto Cardoso do Renascimento, em suma”.
Bernardes, "Medida velha", in Vítor Aguiar e Construído a partir de Maria Vitalina Leal de
Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Matos, "Sá de Miranda", in Vítor Aguiar e Silva
Alfragide, Editorial Caminho, 2011, p. 579. (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide,
• As composições poéticas denominadas Editorial Caminho, 2011, pp. 887-888.
redondilhas apresentam versos de cinco • Soneto: forma fixa constituída por catorze
sílabas métricas (redondilha menor ou versos decassilábicos, distribuídos em
pentassílabo) ou sete sílabas métricas duas quadras e dois tercetos. As duas
(redondilha maior ou heptassílabo) e podem primeiras apresentam rimas emparelhadas e
ter as seguintes denominações: interpoladas, segundo o esquema abba/abba;
– vilancete: com mote1 de dois ou três versos os segundos apresentam maiores
(geralmente heptassílabos) e uma glosa2 possibilidades combinatórias, destacando-se
de uma ou duas estrofes (normalmente os esquemas do tipo cde/cde e cdc/dcd.
sétimas); • No soneto privilegia-se a expressão lírica da
– cantiga: com mote de quatro versos e uma experiência vivencial de um emissor.
glosa de uma ou mais estrofes (de 8, 9 ou • Na produção sonetista camoniana
10 versos); toma-se como tema principal o Amor,
1
estrofe curta introdutora – esparsa: composta por uma única estrofe representado nas suas mais diversas formas
do assunto do poema (de 8 a 10 versos); e manifestações.
2
estrofe que se segue ao mote – trovas ou endechas: sem mote, com uma
Elaborado a partir de Micaela Ramon,
e que desenvolve o tema ou mais estrofes (quadras ou oitavas). "Sonetos", in vítor Aguiar e Silva (coord.),
neste apresentado
Dicionário de Luís de Camões, Alfragide,
Caminho, 2011, p. 905.

1. Associe os elementos da coluna A aos elementos da coluna B, de forma a comple-


tar as afirmações de acordo com as informações fornecidas pelos textos.

Coluna A Coluna B
[A] As formas poéticas da medida velha [1] por Sá de Miranda.
apresentam
[2] versos em redondilha maior e menor.
[B] Apesar da introdução do verso
decassilábico, os poetas de Quinhentos [3] por duas quadras e dois tercetos,
continuaram compostos por versos decassilábicos.
[C] O soneto petrarquista foi introduzido em
[4] a usar o verso tradicional.
Portugal
[5] por um mote e glosas.
[D] O soneto é uma forma fixa constituída
[6] esquemas rimáticos variáveis.
[E] No soneto, os tercetos apresentam [7] sempre o mesmo esquema rimático.

140
Rimas
A representação da amada

INFORMAR PROFESSOR

Leitura
Leia os tópicos relativos à temática "a representação da amada" e resolva a atividade 7.1; 7.4; 8.1
proposta. Educação Literária
14.3; 14.4; 14.7; 15.1; 16.1

Petrarquismo em Camões: influência e originalidade a. F – A construção do retrato


feminino na lírica camoniana
baseia-se também na tradição
literária.
Influência de Petrarca Originalidade de Camões b. V
c. V
• Na lírica camoniana, a construção do retrato • Contrariamente às amadas metafísicas, d. F – Nos poemas de índole
da mulher está associada à ausência desse Camões pinta a jovem da lírica tradicional, petrarquista, Camões
evidencia o retrato físico
mesmo objeto amado, ou seja, o sujeito inserida num ambiente concreto, referindo e psicológico da mulher.
poético descreve o que imagina e não o que o vestuário (tipo e cores), o brilho e cores e. V
f. F – Camões viajou por vários
vê (amadas metafísicas). do cabelo, a fita do cabelo, formando um continentes, onde conheceu
• Como o desejo não se realiza, porque desenho gracioso, com cor, luz e movimento, diferentes tipos de beleza
como se confirma em “Descalça vai para a feminina, que retrata na sua
o objeto está ausente, a figura da amada fica poesia.
“pintada” no sofrimento do sujeito poético, fonte” (ver página 144). g. V
sendo a causa desse mesmo sofrimento. • Quebrando os códigos do petrarquismo,
• O retrato feminino idealizado (física e Camões pinta também a beleza da mulher
psicologicamente) é feito com cores suaves: de tez (pele) negra, que terá conhecido nas
a pele muito clara, os olhos claros, o cabelo suas viagens intercontinentais – “Aquela
louro, o “honesto riso” num rosto suavemente cativa” (ver página 146).
iluminado, breve luz que dá cor ao amor.

Elaborado a partir de Helena Langrouva, “Camões e as artes”, in Vítor Aguiar e Silva (coord.),
Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, p. 113.

1. Indique se as afirmações são verdadeiras ou falsas, procedendo à correção das falsas.


a. A construção do retrato feminino na lírica camoniana baseia-se apenas em pa-
drões de beleza de influência petrarquista.
b. O retrato idealizado da mulher leva ao sofrimento do sujeito poético por não
poder alcançar o objeto do seu amor.
c. A mulher petrarquista é um ser belo e inatingível.
d. Nos poemas de índole petrarquista, Camões evidencia apenas o retrato físico
da mulher.
e. Em “Descalça vai para a fonte”, Camões afasta-se do modelo petrarquista, pelo
visualismo do retrato presente nas cores do vestuário da jovem.
f. Camões viajou por vários continentes, mas essas viagens não influenciaram
a representação da mulher na sua poesia.
g. A originalidade da poesia de Camões revela-se na sua capacidade de cantar
diferentes tipos de beleza feminina.

141
LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a
A representação da amada

EDUCAÇÃO LITERÁRIA
PROFESSOR
Propõe-se o estudo das Rimas, de Luís de Camões, de acordo com as linhas temáticas.
Educação Literária O primeiro tema em análise é a representação da amada.
14.2; 14.3; 14.4; 14.8;
14.9; 14.10; 15.1; 16.1
Ondados fios d’ ouro reluzente
1.1
a. “sobre as rosas estendidos” Ondados fios d’ouro reluzente,
b. Olhos
c. Brilho do olhar que agora da mão bela recolhidos,
d. “perlas” agora sobre as rosas estendidos,
e. Lábios
f. Cor viva dos lábios fazeis que sua beleza s’ acrecente;
1.2 Metáfora.
2.1 O sujeito poético evidencia 5 olhos, que vos moveis tão docemente,
a serenidade, a honestidade,
a delicadeza e a timidez em mil divinos raios encendidos,
da mulher amada. se de cá me levais alma e sentidos,
3. A composição tem duas que fôra, se de vós não fôra ausente?
quadras e dois tercetos, com
versos decassilábicos (“On/da/
dos/fi/os/d’ou/ro/re/lu/ Honesto riso, que entre a mor fineza
zen/[te]”).
10 de perlas e corais nasce e parece,
se n’ alma em doces ecos não o ouvisse!

S’ imaginando só tanta beleza


de si, em nova glória, a alma s’ esquece,
que fará quando a vir? Ah! quem a visse!
Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido
e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão,
Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 164.

1. Na descrição da mulher apresentada no poema, o sujeito poético associa a sua


beleza a elementos naturais.
1.1 Preencha o quadro, de forma a completar o retrato.

Significado da associação
Partes do corpo Elementos naturais entre as partes do corpo
e os elementos naturais
Cabelos Ouro (“fios d'ouro reluzente”) O louro e o brilho dos cabelos
Faces a. Tom rosado das faces
b. “mil divinos raios encendidos” c.
Dentes d. Dentes brancos/perfeitos
e. "corais" f.

1.2 Identifique o recurso expressivo que permite estabelecer a relação entre a beleza
da mulher e os elementos naturais.

2. Além das características físicas realçadas no texto, o sujeito poético salienta tam-
bém traços psicológicos da mulher amada.
2.1 Refira dois desses traços, fundamentando a sua resposta com versos do poema.

3. Comprove que esta composição poética é formalmente um soneto.

142
Rimas

EDUCAÇÃO LITERÁRIA PROFESSOR

Um mover d’olhos, brando e piadoso Áudio


“Um mover d’olhos,
Um mover d’olhos, brando e piadoso, brando e piadoso”
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Educação Literária
quási forçado; um doce e humilde gesto1, 14.2; 14.3; 14.4; 14.6;
de qualquer alegria duvidoso; 14.7; 14.9; 16.2

5 um despejo2 quieto e vergonhoso; 1. Trata-se de uma mulher


discreta, humilde, doce, pura
um repouso3 gravíssimo e modesto; e calma.
ũa pura bondade, manifesto 2.
a. psicológica
indício da alma, limpo e gracioso; b. qualidades
c. celeste
d. indefinido
um encolhido ousar; ũa brandura; e. retrato
10 um medo sem ter culpa; um ar sereno; 3. Trata-se de uma antítese.
um longo e obediente sofrimento; 4. O soneto pode dividir-se em
dois momentos: um primeiro,
dos versos 1 ao 11, no qual se
esta foi a celeste fermosura apresenta uma enumeração
da minha Circe4, e o mágico veneno das características
psicológicas da mulher; um
que pôde transformar meu pensamento. segundo, dos versos 12 ao 14,
que se centra nos efeitos da
Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro beleza feminina no sujeito
J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 161. lírico.