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Universidade Brasil

Graduação de Psicologia

Julia Caroline da Silva Pereira

Relatório da Visita Técnica do Estágio Supervisionado


Psicologia e Infância

Descalvado – SP
2019
Julia Caroline da Silva Pereira

Relatório da Visita Técnica do Estágio Supervisionado


Psicologia e Infância

Relatório individual de estágio


supervisionado básico em Psicologia e
Infância da Universidade Brasil,
campus Descalvado, como parte das
exigências de estágio.

Orientador: Me. Renan Soares Mendes


Teixeira da Cunha.

Descalvado – SP
2019
Introdução

O desenvolvimento humano é uma extensa linha de pesquisa que tem


como objetivo estudar sistematicamente as mudanças e estabilidade do ser
humano levando em conta o ambiente em que ele vive, sua epigênese,
desenvolvimento comportamental e social, dentre outros (Papalia e Feldman,
2013).
Com isso, é possível afirmar que o desenvolvimento é contínuo, de
acordo com a grande possibilidade de mutações devido o indivíduo ser
apresentado a várias situações que influenciam tanto seus componentes
orgânicos quanto sociais (Sifuentes, Dessen e Oliveira, 2007).
A partir dessa afirmação, vários estudiosos procuraram explicar como a
psique se desenvolve aplicando metodologias que identifiquem esses estágios
de desenvolvimento. Neste trabalho serão apresentadas as abordagens do
desenvolvimento psicossexual de Sigmund Freud e o desenvolvimento
cognitivo por Jean Piaget.
De acordo com Freud, os humanos nascem com impulsos biológicos
que devem ser saciados e redirecionados para que seja possível a convivência
em sociedade, se não, haverá conflitos inconscientes entre os impulsos inatos
e as exigências sociais. Esses conflitos apresentam-se invariavelmente nos
cinco estágios de desenvolvimento psicossexual referentes ao deslocamento
de prazer de uma zona corporal à outra (Papalia e Feldman, 2013). Mesmo que
seu trabalho não foi realizado diretamente com crianças, é possível afirmar que
seja quase inteiramente uma discussão referente á primeira infância. (Feist,
Feist e Roberts, 2015).
O período infantil, referente às três primeiras fases – fase oral, fase anal
e fase fálica – ou os cinco primeiros anos de vida, é importante para o
desenvolvimento da personalidade onde, se a gratificação for recebida em
pouca ou demasia, irá gerar a fixação que possivelmente se apresentará na
fase adulta (Papalia e Feldman, 2013).
A primeira fase dessa percepção autoerótica é a fase oral que se
relaciona com a boca, a primeira zona para obter gratificação pelo ato de sugar
e por ser o ponto de nutrição da criança. Se essa fase não for bem
desenvolvida, a criança poderá obter o hábito de mascar chicletes, fumar ou
fazer comentários sarcásticos, por exemplo (Feist, Feist e Roberts, 2015).
Em seguida, a fase anal é caracterizada pelo prazer em expelir ou reter
as fezes, sendo o ânus a zona erógena. A criança inicialmente pode apresentar
caráter agressivo e destrutivo para, em seguida, encarar as fezes como algo
valioso, apresentando o objeto aos pais. Se os progenitores receberem esse
objeto de bom grado, a criança pode vir a desenvolver uma personalidade
generosa e bondosa, do contrário, se o objeto for rejeitado, podem
desencadear atitudes narcisistas e masoquistas e a fixação se daria à
obsessão por limpeza e nitidamente presa a horários e rotina. (Feist, Feist e
Roberts, 2015).
A fase fálica, terceira e última fase do período infantil, a zona erógena se
concentra nas genitais. O pueril perceberá a distinção anatômica dos sexos
masculino e feminino. Também é possível visualizar o Complexo de Édipo
(masculino) ou de Electra (feminino). Este se refere, resumidamente, ao apego
da criança ao progenitor do sexo oposto e impulsos agressivos ao progenitor
do mesmo sexo (Feist, Feist e Roberts, 2015).
O período (ou fase) de latência ligado aos seis, sete anos até a
puberdade, ocorre pouco ou nenhum desenvolvimento sexual. Isso acontece,
pois os pais procuram encorajar a inatividade sexual, suprindo esses desejos
de satisfação, investindo sua energia psíquica em outras atividades. A
supressão pode ser dada tanto pelos pais quanto pelos professores (Feist,
Feist e Roberts, 2015).
Fechando a teoria de desenvolvimento psicossexual de Freud, temos o
período (ou fase) genital que começa na puberdade e segue por toda a
extensão da vida adulta. Há então o renascimento da vida sexual; o
autoerostimo é abolido e a energia sexual é direcionada à outra pessoa, a
reprodução é possível e os impulsos sexuais são encorporados de maneira
mais completa (Feist, Feist e Roberts, 2015).
Deste modo, a percepção freudiana conseguiu ressaltar a relevância de
prestarmos atenção quanto ás motivações inconscientes, sentimentos, desejos
e a importância do reflexo infantil no desenvolvimento da personalidade
(Papalia e Feldman, 2013).
Por outro lado, a teoria dos estágios cognitivos apresentada por Jean
Piaget prevalece à noção de que as crianças desencadeiam ativamente o
processo de desenvolvimento, tendo mudanças qualitativas no pensamento
desde a infância até a adolescência. Além disso, a criança não funciona como
um “mini-adulto”, uma vez que (Papalia e Feldman, 2013). Para ele, o
desenvolvimento da inteligência é o fator preponderante que leva as pessoas a
conhecerem o meio e sobreviver nele (Pádua, 2009).
Sua proposta interacionista se dá devido à capacidade inata do sujeito
em adaptar-se no ambiente, ocorrendo por três processos inter-relacionados: a
organização – é a criação de categorias (esquemas) que cada pessoa possui
para poder organizar as informações adquiridas do mundo, das mais simples
às complexas, controlando as formas de comportamento e pensamento; a
adaptação – como a criança lida com as informações, assimilando essas novas
ideias as incorporando em estruturas cognitivas já existentes e acomodando as
estruturas cognitivas para encaixar esse novo conhecimento; e, por fim, a
equilibração – que é o encaixe da organização e aceitação do desconhecido,
que acaba gerando um desiquilíbrio, para assim integrar a nova experiência e
restaurar o equilíbrio cognitivo (Papalia e Feldman, 2013).
A partir desses princípios, Piaget observou que a inteligência dá “saltos”,
dividindo a alteração dessa qualidade em quatro estágios, por ser necessário
que a criança passe por cada um até alcançar sua maturação desenvolvendo-
se gradualmente para que assim siga ao próximo estágio (Pádua, 2009). “O
primeiro destes estágios transcorre no âmbito da motricidade; o segundo, na
atividade representativa e o terceiro e o quarto no pensamento operatório
(Pádua, 2009 pg. 28)”.
O primeiro deles é o período Sensório-Motor (do nascimento aos 02
anos). A criança parte de princípios relacionados à inteligência-prática, sem
uso de lógica ou linguagem. Suas ações derivam de suas percepções sendo
ambas estimulantes para o desenvolvimento de estruturas mentais adquirindo
a ideia de causalidade – faz parte do mundo e pode interagir com ele – e a
ideia de diferenciação de meio e fim – a natureza dos objetos e possibilidades
de agir sobre eles (Pádua, 2009).
Segundo a tabela do livro Desenvolvimento Humano de Papalia e
Feldman (2013), o desenvolvimento Sensório-Motor é divido por seis
subestágios sendo eles:
a) Uso de reflexos (nascimento até 01 mês) – exercitam os
reflexos inatos obtendo certo controle sobre eles, sem
coordenação de informações dos sentidos.
b) Reações circulares primárias (01 a 04 meses) – acontece a
repetição de comportamentos agradáveis focadas para si
mesmos, não para o mundo em que vivem.
c) Reações circulares secundárias (04 a 08 meses) – o ambiente
passa a ser manipulado de forma intencional, sem metas.
Repetem ações de resultados interessantes.
d) Coordenação de esquemas secundários (08 a 12 meses) –
adquire comportamento proposital e usa conhecimentos
prévios para atingir a um objetivo.
e) Reações circulares terciárias (12 a 18 meses) – possui
variabilidade em suas ações para um resultado, explorando
ativamente o meio. Experimentam novas atividades que
despertem sua curiosidade e experimentação e fazem uso de
tentativa e erro para a resolução de seus problemas.
f) Combinações mentais (18 a 24 meses) – desenvolvem a
capacidade de representar os eventos mentalmente sem a
limitação da tentativa e erro. Sabem utilizar símbolos (gestos e
palavras) assim como sabem fingir.
No segundo estágio da teoria piagetiana denominado como Pré-
operatório (02 aos 07 anos), há a separação de eu e mundo, capacidade
simbólica (desenvolvimento da linguagem), de representação (habilidade de
pensar sobre um objeto através de outro, o interiorizando) e introdução ao
mundo da moralidade (começa a lidar com o mundo dos valores, morais,
aprende o certo e o errado, etc.). A inteligência continua a ser prática, mas é
uma inteligência de representação, tendo toda a preocupação de assimilar,
acomodar e equilibrar esses estímulos em um todo, sem capacidade de
reversibilidade (Pádua, 2009).
Com essa fase, Piaget formulou vários testes para interpretar a criança
pré-operatória e, devido o experimento das três montanhas, foi possível
visualizar o egocentrismo, onde o sujeito não consegue aplicar lógica para se
colocar no lugar dos outros (Papalia e Feldman, 2013).
Os primórdios da lógica (levar em conta vários aspectos de uma única
situação) só aparecem aos 7-8 anos no período das Operações-Concretas,
onde a criança adquire a habilidade de analisar uma ação e reverter esse
pensamento, operando mentalmente para a solução de problemas reais.
Porém, a capacidade de operações reversíveis é limitada podendo ser
aplicadas apenas sobre objetos que possam ser manipulados, situações já
vividas ou que tenha lembrança de vivência. Ademais, possuem uma noção
mais clara sobre espaço, podendo medir distâncias, quanto tempo demora de
um ponto ao outro, pontos de referência, dentre outros. A abstração ainda é
inexistente (Pádua, 2009), (Papalia e Feldman, 2013).
O nível mais alto do desenvolvimento cognitivo surge com os
adolescentes (11-12 anos de idade) que possuem a habilidade de pensar em
termos abstratos, oferecendo maneiras mais flexíveis de manipular
informações, e o raciocínio hipotético-dedutivo. A abstração possui ligação com
conceitos como o entendimento de tempo histórico, espaço extraterreste,
interpretação de metáforas, imaginar possibilidades, dentre outras coisas
(Papalia e Feldman, 2013).
Assim, é correto afirmar que Piaget buscou aplicar sua teoria,
especificamente, na área cognitiva, sendo visível em seus primeiros trabalhos
pouca ênfase nas variações individuais como influências sociais e culturais, por
exemplo, considerando tardiamente que não era possível captar o papel
essencial da situação (Papalia e Feldman, 2013). Independente de debates,
sua teoria gerou grande avanço para a compreensão da psique humana.
Por conseguinte, compreender os princípios do desenvolvimento em
diferentes perspectivas é importante para perceber a amplitude de estudiosos e
teorias da psicologia que trabalham com essa maturação humana, uma vez
que é necessário adquirir conhecimento por várias visões para que sejamos
capazes, como profissionais, distinguir diversos comportamentos enquanto
avaliamos um paciente para melhor planejamento de tratamentos, sendo ainda
mais sensíveis às crianças.
Referências

Feist, J., Feist, G. J., & Roberts, T.A. (2015). Teorias da Personalidade -
8ª edição. Porto Alegre: Artmed.
Pádua, G. L. (Janeiro-Junho de 2009). A epistemologia genética de
Piaget. Revista FACEVV, pp. 22-35.
Papalia, D. E., & Feldman, R. D. (2013). Desenvolvimento Humano - 12ª
edição. Porto Alegre: Artmed.
Sifuentes, T. R., Dessen, M. A., & Oliveira, M. C. (Outubro-Dezembro de
2007). Desenvolvimento Humano: Desafios para a Compreensão das
Trajetórias Probabilísticas. Psicologia: Teoria e Pesquisa, pp. 379-386.