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SINOPSE DO CASE: De acordo com o procedimento de validação de

decisão estrangeira no Brasil, a decisão arbitral deve ser homologada?1

Bruno Vitor de Alencar Serejo2


Prof. Me. Roberto de Oliveira Almeida 3

1. DESCRIÇÃO DO CASO:

De acordo com Daniel Neves em seu livro Curso de Direito Processual Civil
(2018), arbitragem é uma forma de solução de conflitos majoritariamente privada na qual
as partes envolvidas escolhem um terceiro que será responsável pela resolução do
conflito, possuindo a garantia de que a decisão final proferida pelo árbitro não poderá ser
contestada.
A arbitragem foi o meio de resolução de conflitos escolhido no contrato de
aquisição da empresa Axe Capital sobre a Wendy e Chuck caso ocorresse algum litígio.
Foi o que aconteceu, após a empresa comprada ter omitido informações financeiras
durante a transação, levando a Axe Capital a representar o caso no Tribunal Internacional
de Arbitragem, em Nova Iorque. A decisão final expressa pelo árbitro foi que a Wendy e
Chuck pagasse uma multa. Entretanto, ocorreram dois impasses, o primeiro foi que após
a decisão arbitral a Axe Capital teve vontade de que a decisão fosse cumprida em território
nacional brasileiro, já que a empresa comprada só possuía patrimônio no Brasil. A
segunda foi que a Wendy e Chuck que o árbitro que resolveu o caso tinha relação com a
outra parte, podendo haver parcialidade em sua sentença.
Portanto, baseando-se nos critérios de validação da arbitragem, a decisão
arbitral deve ser homologada?

1 Case apresentado à disciplina Teoria do Processo, da Unidade de Ensino Superior Dom Bosco – UNDB
2 Aluno do 2º Período, do Curso de Direito, da UNDB.
3 Professor, Mestre, Orientador.
2. IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DO CASO
2.1. DESCRIÇÃO DAS DECISÕES POSSÍVEIS
2.1.1. Sim, a decisão arbitral deve ser homologada.
2.1.2. Não, a decisão arbitral não deve ser homologada.

2.2 ARGUMENTOS CAPAZES DE FUNDAMENTAR CADA DECISÃO


2.2.1. Sim, a decisão arbitral deve ser homologada.
A decisão final escolhida pelo árbitro não pode ser contestada, baseando-se
em dois argumentos principais usados por Daniel Neves:

(i) a decisão que resolve a arbitragem é atualmente uma sentença arbitral,


não mais necessitando de homologação pelo juiz para ser um título
executivo judicial (art. 515, VII, do Novo CPC), o que significa a sua
equiparação com a sentença judicial;
(ii) a sentença arbitral torna-se imutável e indiscutível, fazendo coisa
julgada material, considerando-se a possibilidade de o Poder
Judiciário reavaliar seu conteúdo, ficando tal revisão jurisdicional
limitada a vícios formais da arbitragem e/ou da sentença arbitral, por
meio da ação anulatória prevista pelos arts. 32 e 33 da Lei 9.307/1996.

Logo, a decisão arbitral tem caráter jurisdicional (não equivale à jurisdição,


mas é legitimada no ordenamento jurídico brasileiro), não sendo uma sentença proferida
por meios informais.
Consoante o artigo 961 do novo CPC, a decisão estrangeira somente terá
eficácia no Brasil após a sua homologação, porém, não é qualquer tribunal brasileiro que
pode tratar sobre o assunto, o art. 105, i, da CRFB/88 cita que é competência exclusiva
do STJ a homologação de sentenças estrangeiras. O motivo da empresa Axe Capital
querer que a decisão arbitral fosse realizada no Brasil se dá pelo fato de que a Wendy e
Chuck possuir somente patrimônio no Brasil, logo, a sentença tomada pelo árbitro só terá
validade no Brasil após homologação do STJ.
Contudo, o art. 9º, da Resolução STJ n. 9 de 4/5/2005 aponta: “na
homologação de sentença estrangeira e na carta rogatória, a defesa somente poderá versar
sobre autenticidade dos documentos, inteligência da decisão e observância dos requisitos
desta Resolução.” Isto é, a deliberação do STJ é limitada, não podendo entrar no mérito
da causa, sendo viável apenas a análise dos aspectos formais da arbitrariedade.
Portanto, a decisão arbitral tomada pela Corte do Tribunal Internacional de
Arbitragem, em Nova Iorque, deve ser homologada no Brasil. Haja vista que a arbitragem,
método acordado entre as partes para resolução de litígios, foi executada formalmente, e
além disso, o STJ deve analisar apenas os aspectos formais da sentença, não podendo
adentrar no mérito da causa, baseando-se nos arts. 15 e 17 da LINDB: “sentença arbitral
estrangeira que não viola a soberania nacional, os bons costumes e a ordem pública e
que observa os pressupostos legais indispensáveis ao deferimento do pleito deve ser
homologada.

2.2.2. Não, a decisão arbitral não deve ser homologada.


A Wendy e Chuck constatou que o árbitro escolhido para resolver o caso
possui relação (mesmo que não direta) com a empresa Axe Capital, logo, houve um
rompimento no princípio da imparcialidade arbitral, expressa no art. 13, § 6º , da Lei nº
9.307, de 23 de setembro de1996: “No desempenho de sua função, o árbitro deverá
proceder com imparcialidade, independência, competência, diligência e discrição”. Por
conseguinte, as condições para a sua homologação não estão totalmente validadas.
Segundo o art. 5 do Decreto nº 4.311, de 23 de julho de 2002 (o qual versa
acerca do reconhecimento e execução de sentenças arbitrais estrangeiras):

1. O reconhecimento e a execução de uma sentença poderão ser indeferidos,


a pedido da parte contra a qual ela é invocada, unicamente se esta parte
fornecer, à autoridade competente onde se tenciona o reconhecimento e a
execução, prova de que:
d) a composição da autoridade arbitral ou o procedimento arbitral não se
deu em conformidade com o acordado pelas partes, ou, na ausência de tal
acordo, não se deu em conformidade com a lei do país em que a arbitragem
ocorreu.

Portanto, a empresa Wendy e Chuck pode entrar com um recurso contra a decisão
arbitral alegando vínculo do árbitro com a outra parte, tudo devidamente comprovado,
apresentando uma quebra no aspecto formal da causa, consequentemente, o STJ poderá
analisar o argumento, já que este não pode interferir na decisão final mas pode intervir na
formalidade do processo. Além disso, a empresa pode se fundamentar no art. 15,
parágrafo único, da Lei nº 9.307, de 23 de setembro de1996:
A parte interessada em arguir a recusa do árbitro apresentará, nos termos do
art. 20, a respectiva exceção, diretamente ao árbitro ou ao presidente do
tribunal arbitral, deduzindo suas razões e apresentando as provas pertinentes.

Parágrafo único: Acolhida a exceção, será afastado o árbitro suspeito ou


impedido, que será substituído, na forma do art. 16 desta Lei.

Com base nos fatos mencionados, há de ser levado em conta a contestação


proferida pela empresa comprada, caso não seja levado em conta ocorrerá uma quebra do
art. 15 da Lei nº 9.307, de 23 de setembro de1996, além de princípios legais nos quais a
justiça brasileira tanto preza. Destarte, a decisão arbitral não deve ser homologada, uma
vez que esta foi incumbida de parcialidade, afetando a sentença final.

2.3. DESCRIÇÃO DOS CRITÉRIOS E VALORES (EXPLÍCITOS E/OU IMPLÍ-


CITOS) CONTIDOS EM CADA DECISÃO POSSÍVEL
2.3.1 Arbitragem (ou heterocomposição): método de solução de conflito no
qual as partes escolhem um terceiro que será responsável por resolvê-lo sem a
participação do judiciário (Estado). A decisão final tem força de sentença judicial, isto é,
não pode ser contestada. Sua maior vantagem é a rapidez, haja visto que a jurisdição tem
um tempo maior para a sua efetuação.

2.3.2 Homologação de sentença estrangeira: de acordo com os arts. 105, i,


da Constituição Federal (1988) e 961 do novo CPC, para que uma sentença proferida no
exterior possa reproduzir efeitos no Brasil, esta deverá ser homologada pelo Superior
Tribunal de Justiça (STJ).

REFERÊNCIAS
BRASIL. Código Civil: Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002 / supervisão editorial
Jair Lot Vieira. 2. Ed. São Paulo: EDIPRO, 2018. (Série legislação).

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.


Organização de Alexandre de Moraes. 16.ed. São Paulo: Atlas, 2000.

NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de Direito Processual Civil. 10. ed.
Salvador: JusPodivm, 2018.

REQUE, Taísa Silva. Homologação de Sentença Estrangeira e Carta Rogatória: uma


análise sobre a jurisprudência do STJ. 2015. Disponível em:
<https://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI215203,71043-
Homologacao+de+Sentenca+Estrangeira+e+Carta+Rogatoria+uma+analise>. Acesso
em: 25 set. 2018.

PARADA, André Luís Nascimento. Análise Crítica das Decisões do Tribunal de


Contas da União Acerca da Utilização da Arbitragem em Contratos
Administrativos. Evolução Interpretativa. Juris Plenum, Brasília/DF, p.1-19, jun.
2017. Disponível em:
<https://www.plenum.com.br/plenum_cp/lpext.dll?f=templates&fn=hitlist-
frame.htm&2.0>. Acesso em: 25 set. 2018.