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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO


TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SAO PAULO
b ACÓRDÃO/DECISÃO MONOCRATICA
REGISTRADO(A) SOB N°

ACÓRDÃO
*03322770*

Vistos, relatados e discutidos estes autos de


Apelação n° 991.09.049659-1, da Comarca de
Araraquara, em que é apelante FELICIO TREVISAN sendo
apelado SUCOCITRICO CUTRALE LTDA.

ACORDAM, em 22 a Câmara de Direito Privado do


Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte
decisão: "DERAM PROVIMENTO EM PARTE AO RECURSO. V.
U.", de conformidade com o voto do Relator (a), que
integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos


Desembargadores ROBERTO BEDAQUE (Presidente), CAMPOS
MELLO E MATHEUS FONTES,

São Paulo, 25 de novembro de 2010.

ROBERTO BEDAQUE
PRESIDENTE E RELATOR
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

VOTO N°: 17.844


APEL. N°: 991.09.049659-1 (7.408.897-0)
COMARCA: ARARAQUARA
APTE. : FELÍCIO TREV1SAN
APDO. : SUCOCÍTRICO CUTRALE LTDA.

EMBARGOS À EXECUÇÃO - EVENTUAL NÃO


CARACTERIZAÇÃO DE TÍTULO EXECUTIVO EXTRAJUDICIAL -
PECULIARIDADE DO CASO - EXISTÊNCIA DE JUÍZO DE
MÉRITO - APURAÇÃO DO VALOR DEVIDO MEDIANTE
ATIVIDADE COGNITIVA DESENVOLVIDA NOS EMBARGOS -
EXIGÊNCIA DE SENTENÇA CONDENATÓRIA - FORMALISMO
DESNECESSÁRIO - INSTRUMENTALIDADE DO PROCESSO -
ADMISSIBILIDADE DA EXECUÇÃO - CONTRATO BILATERAL,
ADEMAIS, QUE PODE CARACTERIZAR TÍTULO EXECUTIVO
EXTRAJUDICIAL - ARTIGOS 582, 615, IV E 743, IV, DO CÓDIGO
DE PROCESSO CIVIL - CUMPRIMENTO DO CONTRATO PELO
VENDEDOR IMPOSSÍVEL - PERDA PARCIAL DAS SAFRAS -
PERDAS E DANOS ESTIMADAS EM CLÁUSULA PENAL -
ALTERNATIVA EM FAVOR DO CREDOR

EXECUÇÃO - CLÁUSULA PENAL - VALOR SUPERIOR AO DA


OBRIGAÇÃO PRINCIPAL - TETO LEGAL - CÓDIGO CIVIL, ART.
412 - REDUÇÃO DA INDENIZAÇÃO DETERMINADA - CULPA DO
APELANTE VERIFICADA - NEGLIGÊNCIA POR PERDA PARCIAL
DA SAFRA DE 2001/2002 - ADUBAÇÃO INADEQUADA - RECURSO
PROVIDO EM PARTE

ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA - ART. 21 DO CÓDIGO DE PROCESSO


CIVIL - SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA

1. Embargos à execução, versando sobre entrega de safra de


laranja em quantidade inferior à contratada e cláusula penal compensatória por
inadimplemento da obrigação, foram acolhidos em parte pela r. sentença de fls.
765/768, cujo relatório se adota.
O embargante apelou. Reitera agravos retidos, pois a obrigação
é de entregar coisa e a apelada não observou o disposto no art. 621 do Código de
Processo Civil. Além disso, acrescenta, contrato bilateral, com obrigações
recíprocas, não é título executivo e a cláusula penal em que a pretensão está
fundada é nula, porque leonina. Invoca doutrina e jurisprudência. Nega a
existência do débito, visto que, como a frustração das safras deveu-se a fatores
climáticos, involuntário o inadimplemento. Entende deva ser desconsiderada a
cláusula sobre responsabilidade do produtor por caso fortuito e força maior,

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41.0035
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porque excessivamente onerosa para uma das partes. Invoca os artigos 865, 392,
422 e 423 do Código Civil.
Recurso tempestivo, preparado, respondido e regularmente
processado.
É o relatório.

2. Na execução fundada em título extrajudicial, os embargos


abrangem toda a matéria de defesa dedutível em contestação (CPC, art. 745,
inciso V).
Nessa medida, submetida ao contraditório toda a matéria de
mérito, não tem mais sentido eventual reconhecimento de inadequação da tutela
satisfativa.
De fato. Como já existe juízo de mérito sobre a existência e
exigibilidade do direito, seria puro formalismo exigir-se sentença condenatória
para possibilitar a execução. Parece que, nesse caso, impor ao credor a propositura
de ação cognitiva não condiz com a instrumentalidade do processo. Tudo o que o
réu poderia alegar quanto à relação de direito material já foi deduzido nos
embargos. Verificada a certeza e a exigibilidade do crédito, admissível a tutela
executiva.
O reconhecimento da carência de ação não parece razoável, pois
obrigaria o credor a pleitear outra tutela jurisdicional, de natureza condenatória,
em cujo processo será novamente discutida toda a matéria concernente à
existência do direito. A ausência de título extrajudicial não mais pode impedir a
tutela executiva, pois a cognição plena realizou-se no processo de embargos.
Justifica-se tal conclusão pelo fato de que não se pode, a esta
altura, desperdiçar todo o procedimento. Se o exeqüente errou ao formular pedido
de tutela inadequada, o juiz também deixou de aplicar corretamente a lei
processual. Do equívoco de ambos não deve resultar dano ao sistema. É o
princípio da economia processual tutelando o interesse público.
Se, apesar de inadequado, o processo reuniu elementos que
permitem solução no plano material, não há por que extingui-lo por carência.
Apurado o valor devido mediante a atividade cognitiva já desenvolvida nos
embargos, o crédito passa a ser líquido e certo, comportando execução (cfr. Apel.
n. 7.104.268-7, Santos, TJSP, 22a Câm. Dir. Priv., j . 19.6.07, v.u.; Apel. n.
7.048.834-7, Santos, TJSP, 22a Câm. Dir. Priv., j . 28.3.06; Apel. n. 959.527-5,
Assis, TJSP, 22a Câm. Dir. Priv., j . 13.12.05).
Além do mais, a impossibilidade de cumprimento do contrato
pelo vendedor, tendo em vista a perda parcial das safras, ocorrida antes mesmo do

APEL. N°: 991.09.049659-1 (7.408.897-0) - ARARAQUARA - VOTO N°: 17.844 (SB/RL)

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início de execução para entrega de coisa incerta, transformou o conteúdo dessa


obrigação para quantia correspondente às perdas e danos sofridos pelo comprador
(CPC, art. 627) e estimados na cláusula penal compensatória, cuja satisfação
constitui alternativa em favor do credor, que pode optar entre exigir a obrigação
original e o valor da penalidade (CC, art. 410; Caio Mário da Silva Pereira,
Instituições de direito civil, vol. II, p. 140; Orlando Gomes, Obrigações, p. 193).
A bilateralidade não obsta a executividade do contrato. Fosse
correta a conclusão contrária, não fariam sentido os artigos 582, 615, inciso IV e
743, inciso IV, todos destinados a regular a exigibilidade, em execução, de
obrigações decorrentes de contratos sinalagmáticos. A questão se resume na
verificação do inadimplemento, tendo em vista as especificidades dos contratos
com prestações sucessivas ou simultâneas (cfr. Cândido Rangel Dinamarco,
Instituições de direito processual civil, vol. IV, Malheiros, 2004, pp. 188 e ss.;
Humberto Theodoro Júnior, Comentários ao Código de Processo Civil, vol. IV,
Forense, 2003, p. 127; Teori Albino Zavascki, Título executivo e liquidação, RT,
1999, pp. 161 e ss; Araken de Assis, Manual da execução, RT, 12a ed., pp. 212 e
ss.).
Nada obsta, portanto, a executividade do contrato comutativo,
bastando seja líquida e exigível a obrigação do devedor, devendo o credor, se for
o caso, demonstrar desde logo o cumprimento daquela a ele imposta (cfr. REsp. n.
250.107-DF, STJ, 3 a T., Rei. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, j . 9.11.00, in
DJU de 12.2.01, p. 113; REsp. n. 252.013-RS, STJ, 4a T., Rei. Min. Sálvio de
Figueiredo Teixeira, j . 29.6.00, in DJU de 4.9.00, p. 163; REsp. n. 170.446-SP,
STJ, 4a T., Rei. Min. Ruy Rosado de Aguiar, j . 6.8.98, in DJU de 14.9.98, p. 82; v.
tb. Apel. n. 7.044.061-8, São Paulo, TJSP, 22a Câm. Dir. Priv., j . 17.6.09, v.u.;
Apel. n. 1.257.089-9, SP, TJSP, 22a Câm. Dir. Priv., j . 26.8.08, v.u).
A cláusula penal, por força da qual o vendedor se obrigou a
pagar importância correspondente a 100% do valor dos bens não entregues, mais
20% a título de lucros cessantes (fls. 42, cláusula 13) não é leonina, mas excede o
teto fixado em lei (CC, art. 412). As perdas e danos foram prefixadas em quantia
superior ao limite legal. Para dispensar a apuração efetiva do dano emergente e do
lucro cessante, o credor somente pode pleitear importância correspondente à da
obrigação principal, valor máximo da cláusula penal (Caio Mário, ob. cit, p. 138;
Orlando Gomes, ob. cit., p. 194).
Nessa medida, a indenização deve ser reduzida, excluindo-se o
excesso de 20%.
Por fim, a condenação do apelante ao pagamento de parte dos
bens não entregues está fundada em culpa. De fato, reconheceu-se a negligência
pela perda parcial da safra de 2001/2002 (fls. 767), porque agravada sobremaneira
pela adubação inadequada (fls. 467, 473 e 594). Essa conclusão, apesar dos

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argumentos apresentados pelo apelante, deve ser mantida. A aplicação de


produtos químicos em quantidade insuficiente certamente influiu na queda da
produção. Como o apelante não trouxe prova apta à rejeição desse fato, inexorável
o reconhecimento da negligência.

3. Assim, dá-se provimento em parte ao recurso. Em razão da


sucumbência recíproca, incide o disposto no art. 21 do Código de Processo Civil.

ROBEFÇrCTBEDAQUE
Relator

APEL. N°: 991.09.049659-1 (7.408.897-0) - ARARAQUARA - VOTO N°: 17.844 (SB/RL)

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