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TRABALHO ESCRITO N°2: O REALISMO.

LITERATURAS COMPARADAS ARGENTINA E BRASILEIRA

Professora Titular: Evelina Minucci

Aluna: Xiomara Chagalj

Professorado em Português

Facultad de Humanidades y Artes

Universidad Nacional de Rosario

Agosto, 2019
Introdução

O objetivo do trabalho é realizar uma análise comparativa contrastiva dos contos realistas
“O segredo do Bonzo” de Joaquim Machado de Assis e “El juez de paz” de Roberto Payró.
Consequentemente, serão analisadas as técnicas narrativas que geram o efeito de realidade
em ambas as obras levando em conta as categorias descrição e enredo.
O Realismo encontrou no Brasil uma realidade propícia para a ascensão da literatura: a
queda da escravidão e do Império criaram uma nova realidade no país; a vida social e
cultural tornaram-se mais ativas, ambas influenciadas por ideais europeus como o
liberalismo, o socialismo, o positivismo e o cientificismo. É nesse contexto que surgiram as
obras de Joaquim Maria Machado de Assis. Assis nasceu em 1 de junho de 1839 no Morro
do Livramento no Rio de Janeiro, era mestiço e de origem humilde. Filho de Francisco José
de Assis e D. Maria Leopoldina Machado, perdeu a mãe ainda novo, por isso a madrasta,
Maria Inês, foi uma das grandes responsáveis pela sua criação. Sua obra “Papéis avulsos”
foi publicada no ano 1882 no contexto em que a Lei dos Sexagenários foi promulgada
(1885), a Lei Áurea foi sancionada (1888), e o marechal Deodoro proclamou a República
em 15 de novembro de 1889 e tornou-se o primeiro presidente do Brasil.
Na Argentina, o Realismo surge como consequência das mudanças sociais da época: a
consolidação da burguesia como classe dominante, a industrialização, o crescimento urbano
e a aparição do proletariado. O movimento literário achou na Argentina um referente na
figura de Roberto Payró, jornalista e escritor, neto de imigrante catalã, nasceu no dia 19 de
abril de 1867 em Mercedes, Buenos Aires. Felipe Payró, pai de Roberto, foi um homem de
ideias liberais, aficionado aos livros que se dedicava aos negócios. Juana Losada, a mãe de
Roberto, morreu quando ele tinha cinco anos. A partir desse momento os tios cumpririam
um papel fundamental na formação dele já que Payró passou várias temporadas na casa
deles. O conto realista “Pago chico” publicado no ano 1938, descreve a sociedade de
província na época de Roca.
Segundo a proposta de periodização de Graciela Cariello, o Realismo pertence ao segundo
período denominado a formação das literaturas nacionais.
A construção do efeito de realidade

No conto “O Segredo do Bonzo”, as personagens representadas são Fernão Mendes Pinto,


Diogo Meireles, Patimau, Languru, Titané e Pomada. A história transcorre na cidade de
Fuchéu, capital do reino de Bungo e as descrições estão maiormente situadas nas esquinas
das ruas, nos alpendres e na casa de Pomada (criador da nova doutrina). Acho que o motivo
de situar às personagens nas ruas é porque esse é o âmbito onde os charlatões circulam. As
descrições das personagens são breves e estão limitadas a nomear as profissões como no
caso de Diogo Meireles “[...] agora ocupava-se no exercício da medicina [...]” (Machado de
Assis, 1882:73) e Titané (alparqueiro). A única descrição mais detalhada é a de Pomada:
“[...] um ancião de cento e oito anos, muito lido e sabido nas letras divinas e humanas, e
grandemente aceito a toda aquela gentilidade [...]” (Machado de Assis, 1882:74). O motivo
de Pomada ter uma descrição mais detalhada poderia ser para atribuir maior credibilidade a
sua doutrina já que é ele quem a inventou. O Pomada é chamado de Bonzo, termo que era
utilizado para referir-se a um sacerdote do oriente antigo, quem servia de conselheiro,
psicólogo e curandeiro de males físicos e espirituais.
Já no conto “El juez de paz”, as personagens representadas são D. Pedro Machado (o juiz),
Rufina e Eusebio, Clara, Ernesto Villar (o secretário) e Simón Bernárdez. As descrições
estão situadas no “Juzgado” do povoado Pago Chico, que é o lugar de trabalho do juiz D.
Pedro Machado. É o lugar ao qual comparecem os cidadãos de Pago Chico quando têm
conflitos vicinais que não podem resolver por si mesmos. Em geral as descrições são breves
e fazem alusão a profissão das personagens como no caso do secretário Ernesto Villar. No
caso da personagem de Clara a descrição inclui alguns traços da personalidade dela: “[...]
una vieja criolla de muy malas pulgas que consideraba a su hija como una máquina de
lavar, acomodar, coser, cocinar y cebar mate, puesta a sus órdenes por la divina
providencia”. (Payró, 1938: 25). A descrição mais detalhada é a do protagonista, o juiz D.
Pedro Machado porque o narrador não só nomeia a sua profissão, mas porque revela fatos
sobre como ele enriqueceu-se: “D. Pedro Machado, «pichuleador» enriquecido en el
comercio con los indios, y a quien la política había llamado tarde y mal...” – Payró, 1938:
25).
Em relação aos espaços geográficos, em “O segredo do Bonzo”, eles são as esquinas das
ruas, os alpendres e a casa de Pomada. Esses espaços são simplesmente nomeados. O
espaço social é a rua, onde os transeuntes param para apreciar os falsos conhecimentos dos
charlatões. A respeito da relação espaço-social/temporalidade histórica, evidenciam-se
traços da sociedade da época no agir das personagens, traços como a contradição entre ser e
parecer e a procura pela ascensão social se descrevem no conto quando os charlatões são
doutrinados para aprender a transmitir conhecimento falsos com o objetivo de serem
reconhecidos pela sociedade.
Em “O segredo do Bonzo” evidencia-se uma maior importância das ações das personagens
do que do espaço. A descrição do espaço não é funcional a narrativa, simplesmente
acompanha as personagens. Uma relação que poderia ser feita é a do espaço público –
espaço privado. O espaço público é o âmbito onde os charlatões expõem as suas teorias e
cativam o público, e o espaço privado é a casa de Pomada, quem é o criador da doutrina,
quem possui o verdadeiro conhecimento, a doutrina que transforma cidadãos comuns em
pessoas respeitáveis e reconhecidas pelos seus conhecimentos.
O espaço geográfico em “El juez de paz” é o povoado Pago Chico, um lugar onde abundam
os conflitos vizinhais, a corrupção e a violência. A diferença de “O segredo do Bonzo”, o
espaço social descrito na obra de Payró é o “juzgado” e a descrição desse espaço é
funcional já que é um reflexo da personalidade inoperante e ineficiente do juiz: “Un cuarto
de paredes blanqueadas, sin más adorno que el retrato del gobernador, el piso de ladrillos
cubierto de polvo, un armario atestado de papeles, una mesa llena de legajos [...]” (Payró,
1938: 26).
O conto de Payró é um reflexo da sociedade da época (geração do ´80) na qual governava a
oligarquia e consequentemente a fraude e a corrupção. O juiz D. Pedro Machado representa
a oligarquia, a corrupção e a inoperância perante os conflitos do povo. Essas caraterísticas
evidenciam-se no fragmento: “-Vaya tranquilo nomás, don Simón, que aquí las va a pagar
todas juntas. Se fue Bernárdez a anunciar a sus amigos que había sonado la hora de la
venganza; pero el secretario no extendió la orden de prisión.” (Payró, 1938: 28).
No que respeita à focalização, na obra de Machado de Assis a focalização é homodiegética,
o narrador situa-se no mesmo plano que as demais personagens. O conto é narrado em 1ª
pessoa pelo explorador Fernão Mendes Pinto. A presença de um narrador como uma das
personagens assim como também o fato de ele ser uma personagem histórica outorga
verossimilhança ao conto já que poderíamos relacionar essa personagem com Fernão
Mendes Pinto, explorador e aventureiro português quem narrava suas aventuras.
Pelo contrário, na obra de Payró a focalização é heterodiegética porque o narrador conta o
que passou com outros, não com ele mesmo. O conto é narrado em 3ª pessoa do singular.
Além de ser heterodiegética, a focalização também é interventiva porque o narrador
intervém na história com comentários e apreciações: “Ello es que un mozo del Pago,
corralero por más señas, tuvo amores con una chinita de las de enagua almidonada y
pañolón de seda, linda moza, pero menor y sujeta aún al dominio de la madre [...]” (Payró,
1938: 25, grifo nosso).

Os elementos do enredo
Os fatos que constituem as histórias dos contos “O segredo do Bonzo” e “El juez de paz”
são representados de forma linear. Respeita-se a cronologia, obedece-se à ordem do tipo
começo, meio e fim, e ao princípio da causalidade (os fatos são ligados pela relação de
causa e efeito) e verossimilhança (procura-se a aparência de verdade, respeita-se a
logicidade dos fatos). A história de “O segredo do Bonzo” começa com a intriga das
personagens principais pelos oradores de rua, no meio, eles visitam a Pomada quem ensina-
lhes a doutrina e no final eles se tornam reconhecidos pelos falsos conhecimentos que
promulgam, tal como os oradores de rua no começo do conto. Já em “El juez de paz”, o
conto começa com o problema de Clara (a filha fugiu com o namorado), no meio ela
solicita ajuda ao juiz D. Pedro Machado e no final o conflito não é resolvido pelo juiz.
Na obra de Machado de Assis não é possível identificar um clímax. O momento de maior
relevância no conto é quando Diogo Meireles, Titané e Fernao visitam o Pomada com o
objetivo de serem instruídos na nova doutrina.
Pelo contrário, na obra de Payró, o clímax é identificável e se produz quando Clara, nervosa
e furiosa, recorre ao juiz para que ele resolva o problema dela: “Por fin tocó el turno a misia
Clara, que entre gimoteos y suspiros contó como Eusebio le había robado la hija, y se
desató en improperios contra ambos, pidiendo al juez el más tremendo de los castigos […]”
(Payró, 1938: 28). O clímax situa-se no final do conto e a tensão se mantém até o final,
momento no qual o juiz decide não castigar Eusebio por fugir com Rufina.
O tipo de conflito que se representa em “O segredo do Bonzo” é social, a procura pelo
reconhecimento e pela fama, e a contradição entre ser e parecer. As personagens do conto
inventam conhecimentos e doutrinas falsas sem sustento teórico nenhum com o único
objetivo de serem reconhecidos pela sociedade. Eles parecem cidadãos sábios e superiores
quando na verdade são só farsantes. O conto expressa uma realidade social (ascensão social
e reconhecimento) através de uma somatória de experiências individuais (Patimau, Diogo
Meireles, Titané, Languru, etc.). O poder é concentrado naquele que tem o “conhecimento”
porque por meio dele obtém a admiração por parte da sociedade: “Se puserdes as mais
sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de
todo contacto com outros homens, é como se eles não existissem” (Machado de Assis,
1882: 75). Como consequência dessa nova doutrina ensinada por Pomada a Diogo
Meireles, Fernão Mendes Pinto e Titané, estes últimos conseguem se tornar reconhecidos
pela sociedade. Eles passaram de ser simples cidadãos a pessoas reconhecidas pela sua
“sabedoria”.
Em oposição ao conto de Machado de Assis, em “El juez de paz” o tipo de conflito que
apresenta-se é político, porque o conto descreve a sociedade da época onde prevaleciam a
fraude, a corrupção e a inoperância da oligarquia perante as necessidades do povo. Como já
foi dito anteriormente, o poder é representado na figura do juiz D. Pedro Machado, quem é
visitado pelos cidadãos de Pago Chico, que acatavam passivamente as suas ordens. Em
contraste com o conto de Machado de Assis, no final do conto de Payró não há uma
mudança nas relações de poder, D. Pedro Machado não dá importância ao reclamo de
Clara, não resolve o conflito e ele continua sendo quem tem o poder para decidir sobre a
vida dos habitantes de Pago Chico.

Considerações finais
Com base na análise dos contos, é possível afirmar que ambas as obras apresentam técnicas
narrativas que geram o efeito de realidade. No caso da obra de Machado de Assis “O
segredo do Bonzo”, o efeito de realidade é logrado principalmente através da focalização
homodiegética, a narração do conto na voz de uma personagem histórica, o explorador
português Fernão Mendes Pinto. Enquanto no conto “El juez de paz” de Payró, o efeito de
realidade é atingido além da focalização interventiva, mediante a escolha dos conflitos
políticos que retratavam a sociedade da época. Tanto na obra de Machado de Assis quanto
na obra de Payró, o eixo temático gira em torno ao conceito das aparências, isto é, a
aparência vale mais do que a essência, porque nem Pomada nem o juiz D. Pedro Machado
possuíam a sabedoria requerida para o lugar de prestígio que ocupavam.
Bibliografia

- AGUIAR E SILVA, Vítor. Teoria da Literatura. Coimbra, Almedina 1994.

- CARIELLO, Graciela. Historia comparada de las literaturas argentina y brasileña: una


propuesta para su abordaje. Comunicación presentada en VII Jornadas Nacionales de
Literatura Comparada. Universidad Nacional de Cuyo, 2007.

- MACHADO DE ASSIS, Joaquim. “O segredo do Bonzo”. Papéis Avulsos. Em: Rio de


Janeiro. W.M. Jackson Inc. Ed, 1952.

- MESQUITA, Samira Nahid. O Enredo. São Paulo, Ática, 1987.

- MONTES, Graciela. “El Proyecto Realista. Roberto Payró”, N°45. Em: La Historia de la
Literatura Argentina. Buenos Aires. CEDAL, 1980.

- PAYRÓ, Roberto J. “El juez de paz”. Pago Chico. Buenos Aires, Colihue, 2006.