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O Aquecimento Global

A Influência do Clima no Apogeu e Declínio das Civilizações

Brian Fagan

Para o Grande Gato de Ra e o Venerável Beda


extraordinários branco-e-pretos

"Está certo", disse o Cheshire Cat; e dessa vez desapareceu lentamente, começando
com a ponta do rabo, e terminando com o sorriso, que permaneceu por algum tempo
depois que o resto se foi.
- LEWIS CARROLL, Alice no País das Maravilhas (1865)

Sumário

Prefácio 9
Nota do Autor 19
1. Uma Época de Aquecimento 21
2. O Manto dos Pobres 43
3. O Mangual de Deus 70
4. O Comércio Dourado dos Mouros 92
5. Inuítes e Qadlunaat 115
6. A Época da Megasseca 137
7. Bolotas e Pueblos 153
8. Senhores das Montanhas de Água 173
9. Os Senhores de Chimor 191
10. Resistindo aos Alísios 212
11. O Oceano dos Peixes Voadores 233
12. A Tristeza da China253
13. O Elefante Silencioso 269
Agradecimentos 285

Prefácio

"Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis,


Contemplem as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!"
Nada mais resta. Além da decadência
Daquela ruína colossal, sem limites e vazia,
As areias solitárias e planas espalham-se na distância.

- PERCY BYSSHE SHELLEY, Ozymandias (1812)

A grande casa, Pueblo Bonito, descarnada e silenciosa, aninhada sob o precipício


íngreme, os cômodos apertados dando para o céu cinza. Um vento frio levanta as folhas
mortas e delicados flocos de neve pela plaza vazia nesse dia frio de inverno. As nuvens
baixas encobrem os penhascos de Chaco Canyon, Novo México, serpenteando com as
rajadas de vento da tempestade de janeiro. O silêncio é total.
Milhares de anos atrás, Pueblo Bonito era um lugar sagrado, onde ecoavam danças
espetaculares no solstício de verão. De lugares distantes, acorriam visitantes para este
que era o maior de todos os pueblos do sudoeste. Então, no ano de 1130, cinqüenta
anos de seca castigaram Chaco Canyon. As plantações de milho despencaram. Em
poucos anos, Pueblo Bonito ficou vazia. Meio século depois, Chaco Canyon ficou
virtualmente deserto. Depois de muitos séculos dentro dos muros do cânion, o Pueblo
Ancestral mudou-se e estabeleceu-se com os parentes em regiões mais irrigadas.
Nesse dia de inverno, nenhum fantasma aparece para assombrar minha imaginação e
estimular os meus sentidos. O passado está morto, há muito desfeito no esquecimento.
Lembro-me de Ozymandias, de Shelley, "o Rei dos Reis", seus feitos esquecidos, seus
palácios reduzidos a ruínas esfaceladas.
No ano de 1118, uma década antes da chegada da grande seca ao Chaco, Suryavarman
II, o rei-deus do Império Khmer, ascendeu ao trono de Angkor, junto ao lago Sap, no
Camboja, sudeste asiático. Quase que imediatamente, ele começou a construir sua obra-
prima, Angkor Wat. Milhares de súditos trabalharam em seu palácio e templo, imensa
réplica do universo hindu, incluindo montanhas sagradas. Nada mais importava além de
servir o rei-deus. Suryavarman e seus sucessores criaram uma utopia religiosa
centrípeta, erguida sobre uma base de cultivo intensivo de arroz, irrigado por canais,
reservatórios, e arrozais alagados mantidos pelas cheias de verão.
Angkor Wat não ostenta mais torres douradas e templos maravilhosamente pintados.
Mas ainda impressiona, com um labirinto de escadarias e longas galerias enfeitadas, em
todos os espaços possíveis, com procissões reais, exércitos em marcha, e dançarinas
sinuosas prometendo as delícias do paraíso. Então você percebe que o lugar está morto,
é um momento congelado no tempo, abandonado pelos que o construíram quando
estava no auge de seu esplendor, em parte porque a seca acabou com os arrozais e eles
ficaram com fome.
Mais uma vez, Ozymandias me vem à mente. Agkor Wat nos deixa com uma sensação
de futilidade e desespero.
Chaco Canyon e Angkor Wat são testemunhas silenciosas de como o poder do clima
pode afetar a sociedade humana, para o bem ou para o mal.
Não muito tempo depois de os súditos de Suryavarman terem trabalhado em Angkor
Wat, surgiu no nordeste da França a Catedral de Notre Dame de Chartres. Construída em
apenas 65 anos, e concluída no ano de 1195, essa catedral gótica foi a sexta igreja da
região. Como Angkor Wat, Chartres é uma obra-prima, mas até hoje ali são celebradas
missas e entoados salmos. Ali, o infinito se transforma em milagre de pedra e vidro.
Chartres é toda janelas, com magníficos vitrais entre arcos harmoniosos. Como pedras
preciosas, os raios de sol atravessam os vitrais, criando efeitos transcendentais. O
cenário ainda lembra o paraíso na Terra e liga o secular e o espiritual, como há milhares
de anos. Ali, o passado ainda está vivo.
Chartres foi construída em uma época em que a Europa era banhada por um clima mais
quente e favorecida por uma longa série de boas colheitas. Os beneficiados agradeciam
a Deus e às forças desconhecidas do Universo pela generosidade. Construíram uma
catedral em sinal de gratidão.
O mundo de milhares de anos atrás era um lugar vibrante, diversificado, tapeçaria de
civilizações voláteis, grandes senhores e combates endêmicos. Caravanas de camelos, a
Rota da Seda, e ventos de monções ligavam boa parte do Velho Mundo na primeira
interação de uma economia realmente global. Entretanto, a maioria dos seres humanos
ainda vivia em pequenos bandos de caçadores ou como agricultores de subsistência,
sobrevivendo de colheita em colheita, ganhando a vida com o solo. Há muito
conhecemos esse mundo graças à arqueologia, às escavações em grandes cidades,
cavernas e aterros marinhos, aos restos de ferro escandinavo no Ártico, documentos
históricos e tradições orais. Porém, só agora estamos descobrindo o quanto esse clima
mais quente afetou a humanidade. Este livro conta a história de cinco séculos de
mudanças climáticas - na verdade, de um aquecimento global - entre os anos 800 e
1300, e do impacto das mudanças no mundo de mil anos atrás. Como em nossa época, a
mudança climática não seguiu uma linha reta ano após ano e foi diferente de região para
região. Mas seus altos e baixos seguiram uma tendência que pode ser claramente
traçada em retrospecto. Temos muito a aprender com essa história das mudanças
climáticas e do seu poder de afetar nosso próprio futuro. O Período de Aquecimento
Medieval foi nomeado meio século atrás por um meteorologista britânico, Hubert Lamb.
Ele escreveu sobre o período de 800 a 1200, montando um quebra-cabeças com peças
históricas e climáticas: quatro ou cinco séculos de clima relativamente amistoso, que
propiciou boas colheitas para a Europa e permitiu que os escandinavos chegassem à
Groenlândia e à América do Norte. O Período de Aquecimento Medieval deu lugar a seis
séculos de clima altamente inconstante e condições mais frias: a Pequena Idade do Gelo.
Há muito conhecemos inúmeros detalhes dessa mais bem documentada Pequena Idade
do Gelo, em que ocorreu o famoso congelamento das águas do Rio Tâmisa. Houve
escassez e terríveis tempestades, assim como invernos com temperaturas
excepcionalmente frias. Mas o Período de Aquecimento Medieval era, até recentemente,
um mistério climático. Lamb escreveu em uma época em que a paleoclimatologia
(estudo dos climas de antigos períodos geológicos) estava em seus primórdios, e muito
antes de o aquecimento global provocado pelos homens estar no radar científico. Hoje
sabemos muito mais a respeito desse período. Graças às pesquisas da dendrocronologia,
hoje temos informações detalhadas sobre chuvas periódicas e temperaturas na Europa e
sudoeste da América do Norte de até mil anos atrás. Nos capítulos seguintes, artigos
paralelos discutirão alguns dos métodos que utilizamos para estudar o clima pré-
histórico. Testemunhos de gelo da Groenlândia, e também dos picos dos Andes e de
outros locais, fornecem dados importantes sobre ciclos mais frios e mais quentes nos
últimos dois mil anos. As camadas de corais tropicais nos atóis do Pacífico também
documentam mudanças climáticas ao longo de muitos séculos. E seqüências
dendrocronológicas em todo o mundo estão aos poucos recobrindo o esqueleto ainda
indefinido do Período de Aquecimento Medieval.
Os europeus construíram catedrais e os escandinavos navegaram até a América do
Norte durante o Período de Aquecimento Medieval, mas o cenário que estamos
descobrindo com as novas pesquisas revela tanto um vilão quanto um herói climático. É
certo que ocorreu o aquecimento, que se refletiu em muitos lugares com invernos mais
amenos e verões mais longos, mas as diferenças de temperatura nunca foram maiores
do que alguns poucos graus. Tampouco ocorreu o aquecimento em toda parte. No
Pacífico oriental, nos mesmos séculos, houve frio e seca. Foram tempos de mudanças
climáticas súbitas, imprevisíveis e, acima de tudo, áridas. Períodos de seca prolongada
ajudaram a destruir Chaco Canyon e Angkor Wat; contribuíram para o colapso parcial da
civilização maia; e arruinaram dezenas de milhares de lavradores chineses.
Boa parte dessa aridez pode ser atribuída às condições persistentes do La Niña no
Pacífico, especialmente por volta de 1100 a 1200, mas a mudança climática não é a
única vilã. (Veja a explicação paralela no Capítulo 9 sobre o La Niña.) Ninguém em seu
juízo perfeito pode alegar que o clima "provocou" todas as mudanças econômicas,
políticas e sociais descritas nestas páginas. Esse tipo de determinismo ambiental, a
noção de que o clima foi responsável pelos principais acontecimentos da história, foi
desacreditado há quase um século. Os efeitos das mudanças climáticas foram em geral
muito mais indiretos.
Enquanto estava escrevendo este prefácio, dei uma volta em torno de um atoleiro.
Peguei uma pedrinha e a atirei na água parada. Um "plop" e a pedra desapareceu, mas
as ondas concêntricas a partir do ponto de impacto se espalharam até a borda. Um
tempo surpreendentemente longo se passou até desaparecer a última onda. O mesmo
se deu com a mudança do clima. Não foi o impacto imediato de uma grande mudança,
como uma grande seca, ou um ciclo de inundações, ou um El Niño que provocou
mudanças políticas ou sociais. Mas as conseqüências sutis que se espalharam pela
sociedade fizeram a diferença: novas estratégias para o armazenamento da água;
plantio de cereais mais resistentes à seca; desenvolvimento de novas instituições, como
as sociedades secretas que recolhiam informações para prever as chuvas. Este livro fala
de como as sociedades humanas de milhares de anos atrás enfrentaram as mudanças
climáticas, bem como do aquecimento e dos fenômenos climáticos propriamente ditos.

Alguns dos Principais Eventos Históricos

570. Nascimento de Maomé


600. Civilização maia clássica a todo o vapor
618. Início da Dinastia T'ang no norte da China
710. Conquista islâmica da Espanha (al-Andalus)
750. Os abássidas assumem o poder em Bagdá, dando início a uma grande era de
conhecimento e domínio islâmico
793. Incursão escandinava em Lindisfarne, Inglaterra
802. Jayavarman II funda o estado de Angkor, Camboja
814. Morte do rei Carlos Magno da França (742-814)
874. Assentamento escandinavo na Islândia
900. Civilização sicán domina a Costa Norte do Peru; colapso da civilização maia nas
terras baixas do Sul
907. Queda da Dinastia T'ang no norte da China; início das conquistas do período Khitan
na Mandchúria e Mongólia
971. Mahmud, governante ghazi do Afeganistão, domina a Índia por 60 anos
980. Erik, "o Vermelho", coloniza a Groenlândia
990. Descoberta da América do Norte pelos escandinavos; comércio esporádico com
grupos de inuítes na Ilha Baffin
1000. Movimentação de populações thules do Estreito de Bering para leste, pelo Ártico,
em direção à Groenlândia
1066. Guilherme, "o Conquistador", invade a Inglaterra: a conquista da Normandia
1100. Abandono gradual de Chaco Canyon, Novo México
1113. Suryavarman II começa a construir Angkor Wat, Camboja
1181. Jayavarman VII constrói Angkor Thom, Camboja
1200. Cultura Chimu controla a costa norte do Peru; Primeiro assentamento de Rapa Nui
(Ilha de Páscoa); Primeiro assentamento na Nova Zelândia ocorreu em data
desconhecida, mais ou menos nessa época
1206. Gêngis Khan eleito o Grande Khan dos mongóis; dinastias muçulmanas assumem
o poder em Délhi, Índia
1207. Começam as campanhas mongóis contra os Chin do norte da China
1215. Gêngis Khan conquista Pequim
1220. Gêngis Khan destrói o império Khwarizmi
1227. Morte de Gêngis Khan
1230. Um grande fenômeno do El Niño provoca devastação na costa norte do Peru
1241. O general mongol Subutai derrota Henry, o Barbudo em Legnica, na Silésia, e
depois se retira para as estepes
1258. Os mongóis conquistam Bagdá
1276. Grande seca no sudoeste americano durante um quarto de século; Mesa Verde é
abandonada
1279. Kublai Khan torna-se imperador da China e governa até 1294
1315. Fome de sete anos tem início na Europa ocidental
1324. Mansa Musa de Mali visita o Cairo em sua peregrinação para Meca
1348. A Europa medieval é devastada pela Peste Negra
1398. Timur ataca e invade Nova Délhi, Índia
1431. Colapso do Estado de Angkor
1470. Chimu cai diante dos incas
1492. Monarquia espanhola conquista a Espanha islâmica; Cristóvão Colombo viaja para
as Índias
1519. Fernando Cortez desembarca no império asteca
1532. Francisco Pizarro avança sobre os incas

Os seres humanos sempre viveram em ambientes imprevisíveis, em um estado de


constantes mudanças que exigiam adaptações permanentes e oportunas para enfrentar
as mudanças climáticas a curto e a longo prazo. O que é fascinante em relação ao
mundo de milhares de anos atrás é que, hoje, dispomos de informações climáticas
suficientes para ver o que estava acontecendo; podemos examinar as influências ocultas
sobre o clima que ajudaram a levar Angkor ao colapso; ou as que forçaram os cavalos
dos nômades mongóis a procurar novos pastos. Hoje, essas influências ocultas são
brincadeiras de criança para a história. Há uma geração, elas teriam sido ignoradas.

O Grande Aquecimento examina sociedades historicamente indefinidas e outras muito


conhecidas. Não podemos entender o significado do Período de Aquecimento Medieval
sem ir muito além da Europa, onde os efeitos dos séculos mais quentes foram
extremamente positivos e o continente assistiu ao florescimento cultural que hoje
chamamos de Alta Idade Média. As temperaturas mais elevadas e as decorrentes
mudanças nos padrões das chuvas se espalharam pelo globo, trazendo oportunidades e
catástrofes.
Uma das conseqüências foi o aumento no intercâmbio entre sociedades radicalmente
diferentes, separadas por imensas distâncias. Os escandinavos aproveitaram as
condições favoráveis para viajar até a Islândia, Groenlândia e mais adiante, onde
entraram em contato com as tribos de caçadores inuítes na Ilha Baffin. A atividade do El
Niño no Pacífico acabou por reduzir a força dos ventos predominantes de nordeste.
Marinheiros polinésios viajaram para o norte e para o leste a fim de colonizar algumas
das ilhas mais remotas da Terra. Durante os séculos mais quentes, o ouro da Europa
cruzou o Saara em camelos da África Ocidental. Poderosas monções em direção ao
sudoeste impulsionaram viagens sem escalas pelo Oceano Índico, saindo do Mar
Vermelho, Arábia e África Oriental para a Índia e mais adiante. Todas essas ligações de
longa distância mudaram a história, bem como muitas interligações desapareceram e
floresceram com as mudanças no destino político das sociedades humanas e nas
alterações climáticas.
A oportunidade andava de mãos dadas com o infortúnio. Quando vamos além da Europa
e África do Norte para regiões mais secas com pancadas de chuvas aleatórias,
adentramos um mundo medieval em que ciclos de seca e chuvas eventuais podiam fazer
toda a diferença entre vida e morte. Enquanto a Europa se deleitava com verões quentes
e os escandinavos navegavam para o oeste, boa parte da humanidade sofria com o calor
e as secas prolongadas. Uma imensa área do mundo, da América do Norte, passando
pela América Central e do Sul, indo pelo Pacífico até o norte da China, viveu longos
períodos de aridez severa. Ciclos de seca tomaram o Sahel saariano, Vale do Nilo e África
ocidental, causando devastação. Lavradores passaram fome, civilizações desapareceram
e cidades implodiram. A arqueologia e a climatologia nos dizem que a seca foi a
assassina silenciosa do Período de Aquecimento Medieval, uma dura realidade que
desafiou o engenho humano até o limite.
A maioria das sociedades existentes na face da Terra foi afetada pelo aquecimento
medieval, muitas delas para pior.

Atualmente, talvez mais do que há um milênio, vivemos uma época climaticamente


dramática: testemunhamos um aumento constante nas temperaturas globais
acompanhado por desastres ligados a fatos meteorológicos como tsunamis e furacões.
Enquanto os cientistas trabalham silenciosamente nos bastidores, os fofoqueiros e
arautos do juízo final vociferam suas previsões a respeito do desastre provocado pelo
aquecimento global antropogênico. Porém, nenhum desses auto-proclamados profetas
se preocupa em voltar os olhos para as mudanças climáticas ocorridas nos primeiros
séculos e milênios, exceto por discussões de cunho político em que se discute se há mil
anos o mundo era mais quente do que é hoje. Não era; adentramos uma época de
aquecimento constante, desde pelo menos 1860, impulsionada em grande parte pela
atividade humana - pelos gases do efeito estufa provocado pelos combustíveis fósseis.
O debate prolongado sobre o aquecimento global antropogênico acabou, pois as
evidências científicas documentando nossa contribuição para um mundo muito mais
quente no futuro já ultrapassaram o estágio da controvérsia. Agora as discussões estão
mudando de foco, à medida que enfrentamos as grandes questões da redução de
poluentes e da vida em um mundo em que os lençóis de gelo estão derretendo e os
níveis dos oceanos subindo. O derretimento das calotas glaciais e o perigo cada vez
maior de inundações não são questões triviais. Porém, a experiência do Período de
Aquecimento Medieval nos diz que o assassino silencioso e sempre ignorado é a seca,
mesmo durante um período de aquecimento mediano. As projeções computadorizadas
sobre a seca em um mundo antropogenicamente aquecido, descritas no Capítulo 13, são
assustadoras. Nós já sabemos que algo entre 20 e 30 milhões de agricultores tropicais
pereceram como resultado das secas durante o século XIX, quando havia muito menos
gente na Terra.... Agora estamos entrando em um período de aquecimento prolongado,
com milhões de pessoas já correndo risco, vivendo da agricultura em regiões periféricas
ou, como no caso do Arizona e da Califórnia, em grandes cidades, onde pilham a água de
reservatórios e rios.
O Período de Aquecimento Medieval diz muito a respeito de como os seres humanos se
adaptam às crises climáticas, e fornece um alerta sobre secas prolongadas quando
ocorre o aquecimento. Estamos entrando em uma era em que a aridez extrema afetará
uma grande parte da agora muito maior população mundial, em que os desafios da
adaptação à escassez de água e do insucesso nas colheitas são infinitamente mais
complexos. Podemos apenas esperar que nossas qualidades singulares de adaptação,
inventividade e oportunismo nos conduzam por um futuro incerto e desafiador.

Nota do Autor

Os nomes de lugares estão grafados de acordo com o uso mais freqüente.


Os sítios arqueológicos e locais históricos estão grafados da forma que aparecem
comumente nas fontes que utilizei para escrever este livro. Alguns lugares indefinidos
foram omitidos dos mapas por uma questão de clareza; os leitores interessados devem
consultar a literatura especializada.
As notas tendem a dar relevo às fontes com bibliografia extensa a fim de permitir que o
leitor consulte literatura mais especializada, se desejar. Sendo esta uma narrativa
histórica, as explicações paralelas proporcionam informações adicionais a respeito de
fenômenos como a Zona de Convergência Intertropical e importantes métodos de estudo
do clima.
Todos os dados de radiocarbono foram calibrados e é utilizada a convenção a.C./d.C.
As curvas de temperatura foram amenizadas estatisticamente para maior clareza.

CAPÍTULO 1
Uma Época de Aquecimento

A ocorrência na York medieval do inseto Heterogaster urticae, cujo hábitat típico


atualmente são os pés de urtiga em localidades ensolaradas no sul da Inglaterra (...)
segundo pesquisas arqueológicas, ali esteve presente na Idade Média (...) o que
provavelmente indica temperaturas mais elevadas do que as de hoje.

- HUBERT LAMB, Climate History and the Modern World (1982)

Inglaterra Meridional, outono, ano de 1200. A névoa fria paira sobre as copas das
árvores. Um chuvisco insistente cai sobre as faixas de terra aradas, cobrindo os rostos
curtidos dos dois homens que semeiam o trigo contido nas bolsas de lona que levam
penduradas pelo pescoço. Com cabelos desgrenhados e nariz chato, vestidos com
túnicas sujas, presas com cintos, chapéus de palha, eles balançam sem esforço para a
frente e para trás, atirando sementes nos sulcos rasos. Atrás deles, um rastelo puxado
por um boi, uma armação quadrada de madeira com lanças apontando para a terra,
cobre as sementes que acabaram de ser plantadas. Quando uma faixa é semeada, os
homens vão para a próxima, pois o tempo é curto. Eles precisam plantar antes que as
fortes chuvas do outono levem embora as sementes jogadas na terra.
A rotina da semeadura, aprendida na infância, é imutável como a passagem das
estações. Os mais velhos se lembram dos dias frios e sombrios em que nem mesmo um
casaco de pele de carneiro conseguia repelir o frio penetrante. Eles também se lembram
dos anos em que o sol ardia em um céu sem nuvens, com o calor cintilando sobre os
campos. Eram tempos em que o vilarejo apostava que iria chover e plantava de qualquer
forma. Às vezes, a aposta compensava. Com muita freqüência, não. Quando não, havia
fome no ano seguinte.

Agricultores medievais ingleses semeiam os grãos, depois passam o arado para fixá-los
ao solo (acima). Na colheita, as mulheres cortam e amarram os grãos (abaixo).
(Reconstruções baseadas em escavações feitas em Wharram Percy, nordeste da
Inglaterra.)

Esvaziadas as bolsas de sementes, os dois homens se aprumam e penduram outras nos


ombros. Estão cansados após muitos dias de trabalho exaustivo, fazendo a colheita do
verão, depois arando e plantando o trigo do inverno. O trabalho não acaba nunca em um
mundo agrícola onde todos vivem no limite, onde está sempre presente a ameaça não
verbalizada da tome.
O vilarejo teve uma boa colheita de verão, depois de semanas de tempo bom, por isso
há bastante para comer. A boa sorte continua. O inverno é ameno e não muito úmido.
Janeiro e fevereiro trazem a geada, até mesmo um pouco de neve; mas não há nenhuma
queda abrupta de temperatura, e a primavera chega cedo, com temperaturas cálidas e
um pouco de chuva. Enquanto os dias ficam mais compridos, os aldeões removem as
ervas daninhas da colheita. No fim de julho, o grão está maduro e inicia-se a colheita. Os
campos estão banhados pelo sol quente; o céu, de um azul profundo, com nuvens
delicadas. Os homens se curvam para trabalhar, colhendo o trigo maduro com pequenas
foices de ferro, juntando os ramos em feixes nas mãos e cortando-os, parando apenas
para afiar as lâminas. Atrás deles, as mulheres prenderam as saias nos cintos para
liberar as pernas. Lenços coloridos adornando suas cabeças, elas prendem e empilham
os feixes de trigo no campo; logo o grão será levado para dentro, guardado no caule,
para depois ser debulhado e peneirado quando o tempo ficar ruim. As crianças brincam
em torno dos molhos e recolhem os grãos dos restolhos. Os trabalhadores param ao
meio-dia para alongar as costas enrijecidas e beber alguma coisa enquanto os pássaros
passam cruzando por cima de suas cabeças. Logo o trabalho recomeçará, prosseguindo
até a noite, enquanto o vilarejo corre contra o tempo para juntar toda a colheita antes
que chova.
Como os agricultores de subsistência atuais, os do ano de 1200 não deixavam que nada
se perdesse, mesmo em um ano bom como esse. Basta observar as rugas profundas que
marcam o rosto dos adultos para entender. Até os homens e mulheres na casa dos 20
anos parecem velhos, as fisionomias debilitadas pelo trabalho brutal e pela fome
ocasional ou pela má alimentação. Contudo, essas pessoas viviam em um mundo mais
quente do que fora por muitos séculos, que os climatologistas chamam de Período de
Aquecimento Medieval.
Mil anos atrás, tudo na Europa dependia da agricultura. Da Inglaterra e Irlanda até a
Europa Central, 80% a 90% da população lutava para ganhar a vida - e, com sorte,
comida extra do solo. A Europa era um continente de agricultores de subsistência, que
viviam de colheita em colheita, cujo destino dependia dos caprichos das chuvas e da
temperatura.
Havia muito menos gente, então. A população de Londres ultrapassou a casa dos 30 mil
habitantes pela primeira vez em 1170, sendo uma grande metrópole para os padrões da
época. Outros centros populacionais ingleses eram muito menores. Norwich, em East
Anglia, por exemplo, tinha algo entre 7 mil e 10 mil habitantes. As populações conjuntas
da França, Alemanha, Suíça, Áustria e Países Baixos somavam aproximadamente 36
milhões de pessoas em 1200, e hoje somam mais de 250 milhões. Quase todas essas
pessoas viviam em aldeias e vilarejos, ou talvez cidades pequenas, pois as grandes
cidades estavam apenas começando a ser um elemento significativo na vida européia. E
todos, até mesmo o "grande senhor", dependiam de uma zona rural cultivada sem
máquinas, sementes híbridas ou fertilizantes. Cavalos e bois, e até as esposas, puxavam
o arado e o rastelo. A colheita era reunida com as mãos, carregada nas costas das
pessoas, talvez transportada até o mercado por uma carroça puxada por bois ou por
barcaças.
A paisagem rural era um mosaico composto de florestas e bosques, vales de rios e
pântanos, modificados constantemente pela atividade humana. Muitas pessoas viviam
em assentamentos pequenos, dispersos, cercados por campos irregulares. Mas aos
poucos foram se transferindo para vilarejos maiores, mais centralizados, onde a terra
cultivável mais próxima era dividida em campos largos, abertos, que por sua vez eram
subdivididos em pequenas faixas de aproximadamente meio acre (0,2 hectare). Cada
arrendatário possuía várias faixas de terra, geralmente chamadas de furlongs, mas nem
toda essa terra era cultivada ao mesmo tempo. Cada agricultor sabia que a terra
cultivável precisava ser arada e fertilizada por animais, e depois descansar para
recuperar sua fertilidade e minimizar a ocorrência de pragas nas plantas. Os solos mais
leves, com melhor irrigação, recebiam as plantações de cereais. Os animais se
alimentavam não só do restolho, mas também nos bosques e em pasto aberto nos solos
mais pesados, argilosos. Como os agricultores de subsistência da África atual, os
camponeses medievais europeus conheciam as propriedades dos diferentes tipos de
grama, os indicadores sutis da fertilidade renovada do solo, as estações das plantas
selvagens comestíveis. Sua única proteção contra as secas, tempestades ou geadas
repentinas era uma plantação mais diversificada, baseada em muito mais variedades
além dos cereais.
Ganhar a vida com o solo medieval europeu nunca foi tarefa fácil, mas era o que se
fazia, e às vezes com sucesso considerável, especialmente durante os verões mais
quentes e secos. Os agricultores da Inglaterra e França cultivavam principalmente trigo,
cevada e aveia. Grosso modo, cerca de um terço da terra era plantada com trigo, meta -
de com cevada e o resto era ocupado com outros alimentos, incluindo ervilhas. Mesmo
nos bons anos, as colheitas eram pequenas em comparação com os padrões atuais. Uma
boa colheita de trigo rendia entre 8 e 12,5 fanegas (2.8 a 4 hectolitros) por acre (0,4
hectare). As cifras atuais são superiores a 47 fanegas (16,5 hectolitros) por acre. Quando
se sabe que 2,3 fanegas (0,8 hectolitro) colhidos voltavam para o solo como semente
para a próxima colheita, percebe-se como eram pequenas, deixando poucas
possibilidades para que houvesse um excedente de alimentos mesmo nos melhores
anos. Os números da cevada, usada para fazer cerveja, eram um pouco superiores (23,5
fanegas/8,3 hectolitros), mas a quantidade de sementes plantadas era maior. Em anos
bons, o rendimento dos grãos ligeiramente inferior a quatro vezes o das sementes era a
norma. Sobrevivia-se pela diversificação.
Todos plantavam vegetais. Ervilhas e feijões, ricos em vitaminas, eram plantados nos
campos no início da primavera e colhidos no outono; os legumes ficavam nas plantas até
secarem, e os caules eram plantados de volta como fertilizantes. Legumes e hortaliças
de todos os tipos completavam o que era basicamente uma dieta sem carne, à base de
pão e mingau.
A maioria dos agricultores tinha uma pequena criação de animais uma ou duas vacas
leiteiras, alguns porcos, ovelhas, cabras e galinhas e, os que tinham sorte, um cavalo ou
alguns bois, ou pelo menos acesso a eles para arar. Os animais forneciam carne e leite, e
também as peles e a lã. A tosa das ovelhas era um evento importante na primavera, re-
alizada em um dia cuidadosamente escolhido, quando um vento cálido do oeste trazia as
promessas do verão. A brisa espalhava a fumaça da madeira que saía pelas portas e
janelas, abertas pelas mulheres, para que entrasse o ar fresco. Do lado de fora, o
rebanho do vilarejo era reunido em um grande cercado, as ovelhas batendo-se umas nas
outras. O cheiro de lã enchia o ar. Os homens, vestindo coletes de couro, seguravam as
ovelhas e as tosavam, uma de cada vez, com tesouras de ferro, realizando movimentos
habilidosos em torno dos dóceis animais até concluir a tarefa. Os animais tosados e
atônitos sacudiam-se enquanto eram levados por jovens para um curral próximo.
Crianças recolhiam a lã e a colocavam em suportes de madeira para secar ao sol.
Durante a maior parte do ano, os animais pastavam por conta própria - especialmente os
porcos, que se refestelavam com castanhas e frutos dos carvalhos no outono. Mas a
alimentação no inverno era diferente, e o desafio era manter vivos os animais. Os
machos excedentes e vacas que já não davam mais leite eram vendidos ou sacrificados
no outono para que sobrasse mais feno para os animais mais valiosos. A colheita do feno
era muito importante. O corte começava em junho e prosseguia pelo mês de julho,
dependendo do tempo, pois o feno precisava estar absolutamente seco para que não
apodrecesse após a colheita, ficando tão quente que poderia pegar fogo. Em dias bons,
homens com gadanhas de ferro de lâminas afiadas abriam caminho pelo prado,
deixando a colheita secar em fileiras pelo campo. Retornavam posteriormente e a
revolviam algumas vezes para que secasse melhor antes de empilhá-la de tal forma que
a parte externa formasse uma camada de palha para protegê-la da chuva. A colheita do
feno era um acontecimento muito importante, porém tão dependente do tempo seco
que um ano com muitas chuvas podia levar a perdas de alguns animais - senão de todos
- no inverno seguinte. Mais uma vez, tudo dependia do clima.
Mesmo em um ano ruim, o lavrador ainda era obrigado a pagar impostos e dízimos à
igreja, o que reduzia o suprimento de alimentos. Um homem com mulher e dois filhos
poderia sobreviver em circunstâncias normais com 5 acres (2 hectares). Mas todos, até
mesmo as crianças pequenas, tinham que plantar legumes e cavar a terra em busca de
alimentos naturais como cogumelos, nozes e frutas vermelhas. Cinco acres deixavam
muito pouca margem para as colheitas mais pobres, causadas por geadas ou
tempestades. Por vários anos seguidos, isso era sinônimo de escassez e de doenças
relacionadas à má alimentação, e certamente de algumas mortes, especialmente nos
meses frios e miseráveis do fim do inverno, quando os suprimentos estavam sempre
baixos e a Quaresma com seu jejum ainda estava distante.
Todo ano, enquanto o verão amadurecia para dar lugar ao outono, cada comunidade
fazia sua colheita e agradecia a Deus pela generosidade, pois a vida não era fácil. O
interminável ciclo das estações definia a existência humana. Assim como a rotina da
semeadura, desenvolvimento da plantação e colheita; a realidade do nascimento, vida e
morte; e todos acreditavam que esses eram os desígnios arbitrários do Senhor.
Em uma era muito anterior à previsão do tempo, todos, fossem reis ou nobres, senhores
da guerra, mercadores ou lavradores, estavam à mercê dos ciclos em que se alternavam
chuvas pesadas e períodos de seca, tempestades violentas e dias perfeitos de verão.
Eram parceiros involuntários em uma dança climática intrincada conduzida pela
atmosfera e pelos oceanos. Mas, especialmente entre os anos 800 e 1300, a dança foi
lentamente adquirindo o ritmo mais lento de uma valsa, onde o calor do verão e
condições mais estáveis tendiam - ressalte-se: "tendiam" - a ser a norma. Os giros da
mudança climática desaceleraram momentaneamente. A Europa mudou profundamente
durante esses cinco séculos que vão de 800 a 1300, o Período de Aquecimento Medieval.

No grande esquema das coisas, as vinte gerações do aquecimento medieval são como
um piscar de olhos. As mudanças de temperatura relativamente pequenas desses
séculos são mínimas quando comparadas àquelas do fim da última Idade do Gelo. Cerca
de 12 mil anos atrás, o mundo entrou em um período de aquecimento global prolongado,
conhecido pelos geólogos como holoceno (das palavras gregas holos, "todo", e kainos,
"novo", significando "inteiramente novo"), que continua até hoje. Gerações de cientistas,
trabalhando com dados inadequados, criaram imagens de mais de dez milênios de clima
basicamente moderno, com mudanças relativamente pequenas desde o aquecimento
que se seguiu à era do gelo. Mas uma revolução na paleoclimatologia (estudo do clima
antigo) transformou nosso conhecimento do holoceno nos últimos anos.
Atualmente, os climatologistas perfuram os leitos de rios e mares, analisam pedaços dos
leitos de gelo mais profundos da Groenlândia e Antártica, aprofundam-se em estudos
das séries de anéis de troncos de árvores antigas. Suas pesquisas revelaram que o clima
do holoceno sofreu mudanças constantes. Podemos agora discernir não apenas
oscilações de inverno e verão de um milênio atrás, mas também ciclos muito mais
curtos, principalmente nos últimos dois mil anos. As mudanças de ligeiramente mais
úmido para ligeiramente mais seco, de mais quente para mais fresco e o contrário,
nunca acabam. Algumas duram um século ou uma década; outras, como os fenômenos
causados pelo El Niño, não duram mais do que aproximadamente um ano. Poucos
acontecimentos climáticos importantes permaneciam por períodos maiores do que uma
geração, e por isso eram rapidamente esquecidos em épocas em que a expectativa de
vida era de pouco mais de trinta anos. A nova climatologia nos mostrou que o relógio
climático pode acelerar ou diminuir a velocidade, recuar ou mudar de direção subita-
mente, e até mesmo permanecer estável por longos períodos de tempo, mas ele nunca
para.

Estudando a Mudança do Clima na Antiguidade


Arqueólogos, historiadores e paleoclimatologistas usam grande variedade de métodos
para estudar as mudanças do clima na Antiguidade. Aqui estão os principais:

Métodos Diretos

REGISTROS INSTRUMENTAIS
Registros instrumentais são a forma mais exata e direta de estudar as mudanças
climáticas. Infelizmente, tais arquivos vão apenas até 150 anos na Europa e América do
Norte, e períodos ainda muito mais curtos rias demais regiões.

DOCUMENTOS HISTÓRICOS
Os arquivos fornecem instantâneos valiosos do clima na Antiguidade, de documentos
como diários, agendas e relatórios oficiais que mencionam acontecimentos
contemporâneos como inundações ou secas. Os mais antigos são os relatos sobre o
florescimento das cerejeiras no Japão e Coréia, que datam de mil anos atrás. Na Europa
e na região do Mediterrâneo, os registros de muitas regiões vão até o ano de 1500
aproximadamente.

Métodos Indiretos (Análises de variáveis)

TESTEMUNHOS DE GELO
Testemunhos profundos coletados nos lençóis de gelo, como os da Groenlândia,
Antártica, Andes e Tibete, fornecem registros contínuos das mudanças de temperatura
provenientes das medições das relações isotópicas de oxigênio e hidrogênio nas
moléculas de água que compõem o gelo. Essas mudanças nas relações podem estar
ligadas a mudanças de temperatura. Um testemunho de gelo na Antártica fornece
registros de mais de 420 mil anos. Seqüências de alta resolução dos últimos dois mil
anos vêm da Groenlândia, dos Alpes e de outros lugares.

TESTEMUNHOS DE MAR PROFUNDO E DE LAGOS


Sedimentos marinhos recuperados em testemunhos de mar profundo contêm
foraminíferas e diatomáceas marinhas, sensíveis à temperatura que podem chegar a
dezenas de milhares de anos. Em alguns locais, como a Bacia de Cariaco, na costa da
Venezuela, e o Canal de Santa Barbara, na Califórnia, a acumulação rápida proporcionou
registros relativamente precisos do aquecimento medieval e do posterior resfriamento.
Testemunhos de lagos fornecem camadas sazonais que registram mudanças no
equilíbrio das águas e, com isso, informações sobre as secas da Antiguidade.

REGISTROS DE CORAIS
Os corais que vivem próximos à superfície do mar produzem estruturas calcárias a partir
do carbonato de cálcio. Medindo as mudanças na relação de 0-8 para 0-16, os
pesquisadores conseguem detectar mudanças de temperatura, pois a relação diminui
com o aumento do calor. Os registros de corais costumam ser incompletos. Poucos vão
além de dois ou três séculos.

ANÉIS DAS ÁRVORES (DENDROCRONOLOGIA)


A dendrocronologia baseia-se no estudo dos anéis das árvores, que indicam o seu
crescimento anual, e da espessura desses anéis, permitindo análises de variáveis das
mudanças das chuvas. Desenvolvidas originalmente no sudoeste americano, as
pesquisas dos anéis das árvores hoje fornecem dados importantes para a análise de
variáveis em muitas partes do mundo. Os registros da Europa são incrivelmente
abrangentes, assim como os de algumas partes da América do Norte. Em anos recentes,
empreenderam-se esforços para coletar mais amostras na Ásia e no hemisfério sul, que
prometem lançar novas luzes tanto sobre o Período de Aquecimento Medieval quando
sobre os eventos provocados pelo E Niño. Os registros dos anéis das árvores remontam
praticamente à idade do gelo na Europa, mas em geral são mais comuns nos últimos mil
ou dois mil anos.

Estes são os mais importantes métodos de análise paleoclimatológica. Existem ainda os


depósitos em cavernas, como as estalagmites, que registram mudanças na temperatura
e na composição isotópica do lençol freático através do tempo, além das informações
sobre temperatura fornecidas pelas perfurações.

Fatores de Precipitação Climática - Forcings

Os forcings são fatores poderosos e incomuns como erupções vulcânicas que podem
provocar mudanças climáticas. No contexto do Período de Aquecimento Medieval, são
mudanças naturais, como a irradiação solar causada por pequenas inclinações na órbita
da Terra e por grandes erupções vulcânicas que afetaram o equilíbrio de energia global.
Grandes eventos vulcânicos acrescentam grandes quantidades de cinza e gases
sulfúricos na atmosfera, diminuindo a quantidade de radiação solar que chega até a
Terra, resfriando-a; os efeitos se limitam a alguns anos. Desde 1860, o principal fator de
precipitação climática tem sido causado pelo homem, em grande parte pelo uso de
combustíveis fósseis.

Softwares
Softwares sofisticados simulam o comportamento do sistema climático mundial,
utilizando cada vez mais dados brutos retirados de balizas, registros instrumentais,
análises de variáveis e satélites. São utilizados tanto para entender a variabilidade
natural do clima global quanto para medir os efeitos de diferentes fatores de
precipitação climática. Eles fornecem a base para avaliar os efeitos do aquecimento
global antropogênico, bem como para as previsões meteorológicas a curto e longo prazo.

Ninguém sabe exatamente o que move o pêndulo climático. É bem provável que
pequenas mudanças na inclinação da Terra provoquem mudanças no clima, assim como
os ciclos de atividade solar: por exemplo, a ausência do sol durante a erupção de um
vulcão. Grandes nuvens de cinzas vulcânicas subiram para a atmosfera, encobrindo o sol
e provocando o célebre "ano sem verão" europeu em 1816. Nos últimos anos,
entretanto, a maioria dos climatologistas passou a acreditar que interações complexas,
embora ainda pouco compreendidas, entre a atmosfera e o oceano desempenham um
papel muito importante nas alterações climáticas. O climatologista George Philander
chama isso de dança entre parceiros muito diferentes, um que se movimenta
rapidamente e outro mais desajeitado. Ele escreve: "Enquanto a atmosfera é rápida e
ágil e responde rapidamente aos toques do oceano, o oceano é pesado e lerdo."
Dançamos convenientemente junto com esses parceiros, às vezes de maneira decidida,
e com freqüência relutantemente.
Aprendemos, também, que os giros da dança climática têm um efeito espantosamente
direto sobre as sociedades humanas, como as chuvas excepcionalmente fortes
provocadas por um El Niño maciço, que destruiu canais de irrigação construídos por
muitas gerações em leitos de rios ao longo da costa norte do Peru no século VI; ou os
grandes ciclos de seca no sudoeste americano, que provocaram deslocamentos
populacionais do Pueblo Ancestral por uma vasta área, mil anos atrás. Assim como os
pueblos do sudoeste abandonavam seus lares por causa da seca, os agricultores
medievais europeus aproveitavam as condições de tempo mais previsíveis e as chuvas
abundantes, mas geralmente não excessivas. Os efeitos das condições um pouco mais
quentes e secas mostravam-se de várias maneiras sutis - colheitas melhores,
crescimento populacional e desmatamento acelerado, explosão do comércio e da pesca
em águas profundas, e uma verdadeira orgia de construção de catedrais. Isso não quer
dizer, é claro, que o calor maior causou todas essas mudanças; longe disso. O que é
instigante é que, hoje, podemos começar a relacionar as mudanças climáticas
aparentemente menores com todos os tipos de acontecimentos históricos, de forma
inimaginável há apenas uma geração. Com poucas e notáveis exceções, como o
historiador suíço Karl Pfister, que passou anos estudando as datas das colheitas para a
fabricação do vinho, a maioria dos historiadores costumava ignorar as mudanças
climáticas principalmente porque, como não cientistas, desconheciam novos dados
climatológicos. Atualmente, podemos ver que as mudanças climáticas foram um dos
fatores que mais contribuíram para moldar a história medieval, principalmente a vida
das pessoas comuns vivendo em pequenas cidades, plantando ou pescando no Mar do
Norte.

Por volta de 1120, o monge e historiador William de Malmesbury viajou pelo Vale de
Gloucester, no oeste da Inglaterra, e admirou a fértil paisagem do verão. “Aqui se podem
contemplar estradas e caminhos públicos cheios de árvores frutíferas, não plantadas,
mas que cresceram naturalmente", ele escreveu. "Nenhum condado da Inglaterra tem
tantos e tão bons vinhedos como este, seja pela fertilidade, seja pela doçura da uva. O
vinho não tem uma aspereza desagradável ou acidez; e é pouco inferior ao francês em
doçura." William observou que as uvas eram plantadas em campo aberto, subindo por
traves, e não protegidas dos ventos frios com muros estrategicamente posicionados.
Naquela época, as condições climáticas eram ideais. As vinhas precisam ser poupadas
das geadas de primavera, especialmente durante ou após o florescimento; também
precisam de sol e calor suficientes no verão, e não muita chuva; e sol e calor de outono
suficientes para elevar o conteúdo de açúcar das uvas. Naquele período, numerosos
vinhedos floresceram na Inglaterra, consideravelmente mais ao norte do que o mais
setentrional dos vinhedos da França e da Alemanha nos anos de 1960. Durante os
séculos XII e XIII, o clima da Inglaterra era tão temperado que seus mercadores
exportavam grandes quantidades de vinho para a França, para desespero dos produtores
franceses, que reclamavam bastante. Não que a Inglaterra estivesse sozinha na pro-
dução de vinho. Entre 1128 e 1437, o vinho era produzido na Prússia Oriental, a 55 graus
de latitude norte, e também no sul da Noruega. A Floresta Negra tinha vinhedos a cerca
de 780 metros acima do nível do mar. Atualmente, os vinhedos mais altos na Alemanha
estão a 560 metros. Naquela época, as temperaturas no verão estavam 1,0°C a 1,4°C
acima da temperatura de meio século atrás na Europa Central, e algumas frações mais
baixas na Inglaterra.
Localidades mencionadas nos capítulos 1 e 2. Algumas regiões menores foram omitidas
para maior clareza.

As primeiras informações a respeito desses séculos de calor foram reunidas no trabalho


do meteorologista e historiador climático inglês Hubert Lamb, um dos heróis pouco
conhecidos da climatologia. Ele estudou as minúcias das mudanças climáticas ocorridas
nos últimos dois mil anos durante as décadas de 1950 e 1960, época em que a maioria
dos historiadores negava que temperaturas e chuvas tivessem algum papel no
desenrolar dos acontecimentos históricos. Lamb foi um detetive meteorológico brilhante,
que não dispunha de modernos métodos de registro para trabalhar, como os anéis das
árvores e testemunhos de gelo. Em vez disso, dependia de dados geológicos dispersos e
registros históricos muito amplos, que ele organizou em um complexo quebra-cabeças
enquanto trabalhava na análise de duzentos anos ou mais de observações feitas em
toda a Europa. Entre seus feitos mais impressionantes estão relatos detalhados de
grandes tempestades no Canal da Mancha e no Mar do Norte. Lamb reconstruiu, por
exemplo, quatro ciclones violentos por volta de 1200, 1200-19, 1287 e 1382, que
mataram pelo menos cem mil pessoas ao longo da costa holandesa e alemã. Seu relato
das gigantescas depressões atlânticas que subjugaram a Armada Espanhola em 1588, é
uma obra-prima de trabalho climatológico investigativo. Os climatologistas ainda citam
com respeito o trabalho de Lamb, assim como o do historiador francês Emmanuel Le Roy
Ladurie, que escreveu um dos primeiros relatos da história européia amparados no
clima, baseado em grande parte nos dados das colheitas de uva durante vários séculos -
precoces nos anos quentes, tardias nos anos frios e úmidos.
Boa parte dos primeiros trabalhos de Lamb são inferências bem fundamentadas. Por
exemplo, ele utilizou cinqüenta anos de médias de umidade no verão e índices de
quedas da temperatura no inverno, colhidas de registros datados até 1432, para
reconstruir o clima da época medieval e até anterior. Ele identificou quatro séculos de
clima significativamente mais quente depois do ano 800, que ele chamou de Período de
Aquecimento Medieval (chamado às vezes de Anomalia Climática Medieval). Ele jamais o
qualificou como um período em que a Europa se deleitou com o calor do sol. Foi mais um
tempo de flutuações cíclicas, com invernos muito frios ocasionalmente, como o de 1010-
11, que cobriu até o Mediterrâneo oriental com frio intenso.
Poucos invernos foram tão frios nos três séculos seguintes. Entretanto, as condições de
calor persistente derreteram calotas de gelo, elevaram as linhas de árvores nas
montanhas e provocaram elevação significativa do nível do mar, da ordem de 60 a 80
centímetros no Mar do Norte, suficiente para causar inundações catastróficas quando a
alta das marés coincidia com ciclones.
Mesmo sem tempestades, a elevação do nível do mar alterou a configuração das costas
baixas. Por exemplo, o Fenland inglês é uma paisagem glacial de pântanos, charcos e
córregos túrgidos. Região distante, inacessível, era ainda no início do século XX ocupada
por pescadores de enguias e moradores dos charcos, que viviam em um mundo à parte,
distantes dos agricultores que os cercavam. O Fenland era não só uma fonte rica de
alimentos quanto um ponto estratégico para aqueles que sabiam utilizá-lo. Como o líder
saxão Hereward, "o Proscrito", que na ilha de Ely, no coração dos Fens, enfrentou Gui -
lherme, "o Conquistador", durante cinco anos após a Conquista da Normandia em 1066:
ele e seus homens se esconderam em meio a um labirinto de ilhas; quando Guilherme
capturou Ely, em 1071, Hereward simplesmente desapareceu e sumiu da história.
O Mar do Norte continuou a subir depois do ano 1000. Na Grã-Bretanha, formou-se uma
barra de maré que chegou até Norwich. Na época de Guilherme, "o Conquistador", a
cidade de Beccles, atualmente muito distante do mar, era um próspero porto de
embarque de arenque. Antes da conquista, os pescadores locais forneciam anualmente
trinta mil arenques para a vizinha Abadia de St. Edmund. Guilherme dobrou a tributação.
Grandes tempestades em 1251 e 1287 inundaram amplas extensões de terra nos Países
Baixos e formaram um imenso golfo, o Zuiderzee, enquanto milhares de acres na costa
da Dinamarca e da Alemanha desapareceram sob o oceano.
Segundo Hubert Lamb, o apogeu do calor em áreas extensas ocorreu em momentos
diferentes. Houve um aquecimento significativo na Groenlândia, do ano 900 ao ano de
1200. A Europa experimentou as temperaturas mais elevadas entre os anos de 1100 e
1300, quando verões secos e invernos amenos eram a regra.

Como acontece com as idéias nos círculos acadêmicos, o Período de Aquecimento


Medieval tornou-se um conceito fixo na literatura erudita: cinco séculos em que a Europa
se deliciou com verões idílicos. O aquecimento medieval tornou-se um ruído de fundo
para os grandes acontecimentos da história, mas poucos historiadores pesquisaram o
fenômeno mais atentamente, pois as análises comparativas de múltiplas variáveis
estavam apenas começando. O próprio Hubert Lamb nunca pensou no Período de
Aquecimento Medieval como um segmento de tempo determinado, pois tinha muita
consciência da realidade do clima europeu. Meio século de investigações climáticas
desde as pesquisas de Lamb mostraram que ele estava certo. Houve o aquecimento,
especialmente entre 1100 e 1200, mas o clima era, como sempre, infinitamente
variável. O Período de Aquecimento Medieval não foi um episódio discreto, em que o
clima se mostrou distintamente diferente do anterior; como também não o foi a Pequena
Idade do Gelo que veio em seguida, por volta de 1300 (a data do início é incerta) até
1860. Entretanto, como atestam os elogios de William de Malmesbury ao vinho inglês,
uma elevação média, mesmo que de um grau ou dois, pode alterar uma paisagem ou
destruir uma civilização.
A reconstituição do clima do Período de Aquecimento Medieval adquiriu importância
premente para muitos acadêmicos devido ao debate de cunho político e já controvertido
a respeito da realidade do aquecimento global causado pelo ser humano. Aqueles que se
contrapõem ao conceito de aquecimento global antropogênico comparam as curvas de
temperatura dos séculos de calor ao aquecimento constante, quase que em linha reta,
desde o auge da Revolução Industrial em 1860.
A controvérsia explodiu quando três climatologistas, Michael Mann, Raymond Bradley e
Michael Hughes, publicaram uma reconstituição das temperaturas do hemisfério norte
nos últimos seiscentos anos, depois dos últimos mil anos, usando variáveis como anéis
de árvores, testemunhos de gelo e corais, assim como registros instrumentais dos
últimos 150 anos. O gráfico na forma de balanço, com seu registro claro da elevação das
temperaturas desde 1860, recebeu cobertura ampla quando foi publicado no relatório do
Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em 2001. A curva de Mann
é conhecida popularmente como "taco de hóquei", pois mostra uma linha longa, quase
reta, de aquecimento nos últimos 150 anos. Comparado ao aquecimento atual, as
temperaturas dos primeiros séculos são quase planas, o que enfureceu os que negam o
aquecimento global causado pelos humanos. Eles acreditavam que o Período de
Aquecimento Medieval tivera temperaturas mais elevadas do que o clima atual.
Quais as temperaturas desses primeiros séculos no hemisfério norte? Elas eram, de fato,
mais elevadas do que as de hoje? Sabemos por dados instrumentais, desde 1861, que as
temperaturas de inverno subiram cerca de 0,8°C; e as de verão, cerca de 0,4ºC. Para os
primeiros séculos precisamos confiar em análises comparativas de múltiplas variáveis e
registros históricos ocasionais, como aqueles utilizados por Hubert Lamb. Várias análises
nos levam até 1600, revelando que o século XVII foi frio, com temperaturas de verão de
aproximadamente 0,1°C acima da média do milênio. Antes do ano 1000, os registros se
transformam porque faltam boas seqüências de múltiplas variáveis. Parece que Hubert
Lamb estava certo, pelo menos no que diz respeito à Europa. Os séculos XI e XII, e talvez
os dois séculos anteriores, foram relativamente quentes e estáveis, mas com
temperaturas ligeiramente mais baixas do que as atuais. Poucos cientistas duvidam de
que o aquecimento constante atual é único e seja causado pelos seres humanos.
O Período de Aquecimento Medieval pode ser considerado um fenômeno global, marcado
por um aquecimento universal e condições climáticas benignas para todos? Ao contrário
da Pequena Idade do Gelo, que deixou uma marca climática significativa em terras tão
distantes quanto a Nova Zelândia, os Andes e a Groenlândia, os séculos medievais mais
quentes tiveram um impacto mais fugaz. Então, como hoje, todo o clima era local,
mesmo que tivesse origem em interações de grande escala entre a atmosfera e o
oceano. Ciclos prolongados de calor na Europa trouxeram estabilidade para o
fornecimento de alimentos e produziram condições favoráveis que impulsionaram o
desenvolvimento de reinos maiores, mais poderosos. Em compensação, os mesmos
séculos deram origem a episódios com chuvas às vezes catastróficas e secas intensas
em regiões áridas e semi-áridas: no oeste da América do Norte, na Índia, às margens de
desertos - o Saara, por exemplo - e nas estepes da Eurásia, onde os suprimentos de
água variavam enormemente. O Pacífico oriental ficou frio e seco; o Ártico viu muito
menos gelo de verão. O termo "Período de Aquecimento Medieval" é algo um tanto
impróprio, mas a maioria das pessoas continua a usá-lo porque todos sabem quais
séculos estão envolvidos e porque, como veremos, existem evidências mesmo que
superficiais da ocorrência de temperaturas mais quentes do Tibete até os Andes, Europa
Ocidental e América do Norte à África Tropical. O Período de Aquecimento Medieval é
uma espécie de fenômeno global, embora não exatamente o que Hubert Lamb imaginou
meio século atrás. Mas, sem dúvida alguma, esses séculos mais quentes trouxeram
enormes benefícios para a Europa, que se deliciou com o calor dos verões e as boas
colheitas, especialmente entre 1100 e 1300, durante a Alta Idade Média. Esse clima mais
quente, mais estável, durou não mais do que duzentos a trezentos anos, mas foi
suficiente para transformar a história.
Reconstituição das temperaturas no hemisfério norte, reunidas no trabalho de seis
diferentes equipes de pesquisa. Elas foram combinadas com o registro da temperatura
média global na superfície, obtida através de instrumentos (mostrados em escuro). Cada
curva tem poucas diferenças; cada uma delas está sujeita a determinadas incertezas e
limitações que aumentam à medida que recuamos no tempo. Mas as reconstituições são
geralmente consistentes ao longo dos últimos 1.100 anos, especialmente nos últimos
quatro séculos e nos últimos 150 anos, com seu aquecimento. As flutuações de
temperatura do Período de Aquecimento Medieval refletem as mudanças constantes nas
condições do clima. (Do relatório Surface Temperature Reconstructions of the Past 2.000
Years do National Research Council [Washington, D.C.: National Academies Press, 2006],
fig. S-1. Detalhes das diferentes curvas de temperatura, que são irrelevantes aqui,
podem ser encontrados nessa publicação.)

Uma cacofonia assalta o ouvido por todos os lados. As pessoas juntam-se ao redor das
barracas negociando, fuxicando e mexendo com os produtos. Legumes coloridos e
cenouras se amontoam nas barracas do mercado. As mulheres cheiram as maçãs
maduras com desconfiança. À sombra, lavradores de túnicas e meias bebem cerveja em
canecas de madeira. De repente, faz-se silêncio. A multidão se dispersa ante a
aproximação de um cortejo de homens em armas e roupas de gala escoltando o senhor
do castelo pelo mercado. Ele cavalga um belo cavalo branco, ricamente adornado;
usando uma armadura leve e capacete de aço, ele não olha para a direita nem para a
esquerda. Os aldeões silenciosos tocam a testa ou se apóiam em um dos joelhos no
chão. Sua Senhoria acena solenemente e segue, com seus escudeiros e criados
cavalgando logo atrás em ordem unida. Quando o cortejo se vai, recomeça o burburinho.
O senhor poderia surgir em todo o seu esplendor, escoltado por soldados e servos
uniformizados; as guerras endêmicas podiam consumir as energias de reis e barões. Mas
por trás da fachada do cortejo principesco e da exibição esplêndida havia um continente
sob a ameaça constante da fome. A fronteira entre fartura e fome era realmente
estreita, definida por inesperadas geadas de primavera, longas semanas de chuva
pesada ou meses de seca aparentemente interminável. Todos os que viviam no campo
sofriam com períodos de subnutrição. Sabemos disso pelas linhas reveladoras
encontradas em seus ossos, marcas de sofrimento levadas para o túmulo. Mesmo nos
anos bons, muitas comunidades rurais sobreviveram em condições de subsistência, ou
perto disso. Bastava um período de chuva pesada, inundações ou uma epidemia que
atacasse o gado para levar a fome à soleira da porta. Mesmo na melhor das épocas, a
agricultura era um trabalho duro e incansável. A expectativa de vida de um trabalhador
rural de Winchester, em 1245, era de aproximadamente 25 anos - caso sobrevivesse às
doenças infantis. (Se considerarmos a elevada taxa de mortalidade infantil, a
expectativa de vida era ainda menor.) Sequei as ocupacionais, como deformações na
coluna pelo transporte de sacolas pesadas ou pelo corte do feno, são comuns nos mortos
encontrados em cemitérios medievais. Os pescadores sofriam de osteoartrite na coluna
por viverem empurrando os barcos e puxando redes carregadas de arenques. O custo
humano devido ao trabalho duro e alimentação inadequada era enorme, mesmo nos
anos bons.
Tendências climáticas em todo o mundo durante os séculos de calor. Esta é uma tabela
bem generalizada para uma simples orientação
Os séculos mais quentes trouxeram alívio significativo para os agricultores de
subsistência da Europa. A estação de crescimento dos cereais durava três semanas.
Verão após verão, o tempo quente e estável começava em junho e estendia-se por julho
e agosto nos dias febris da colheita. Ainda mais importante, as geadas de maio que
haviam assombrado as plantações durante séculos tornaram-se virtualmente
desconhecidas entre 1100 e 1300. Os verões quentes e invernos amenos permitiram que
as pessoas se arriscassem plantando em terras marginais e em altitudes mais elevadas
onde, até então, as temperaturas mais frias impossibilitavam qualquer tipo de cultivo.
Uma população crescente de lavradores seguiu em direção ao norte e para regiões mais
altas.
Os números falam por si. Pequenas comunidades de agricultores floresceram 320 metros
acima do nível do mar em Dartmoor, sudoeste da Inglaterra, durante o século XII.
Ninguém plantou ali no século XX. Atualmente, não existem plantações nos Montes
Peninos, ao norte da Inglaterra; porém, em 1300, os pastores locais reclamavam dos
lavradores intrusos. A Abadia de Kelso, no sul da Escócia, tinha bem mais do que 250
acres (cerca de 100 hectares) cultivados em uma altitude de mais de 300 metros acima
do nível do mar, muito acima dos limites atuais. Mil e quatrocentas ovelhas e 16 famílias
de pastores viviam nas terras da abadia. Agricultores cultivavam trigo em Trondheim, no
norte da Noruega. Mais ao sul, nos Alpes suíços, pequenos proprietários tinham
plantações em vales profundos que dois séculos antes estavam cobertos por geleiras.
Em altitudes inferiores, épocas de cultivo mais longas reduziam significativamente os
riscos das colheitas, pois as longas semanas de verão aumentavam o período de
amadurecimento das plantações, permitindo um acúmulo maior de alimentos para suprir
vilarejos e cidades cada vez maiores. Os rebanhos cresceram; as populações rurais e
urbanas aumentaram. A demanda por terra cultivável disparou enquanto aumentavam
gradualmente as exigências da Igreja e da nobreza em relação aos plebeus por trabalho,
impostos e dízimos. Pela Europa ecoavam os sons dos machados de ferro derrubando
florestas de carvalho e abrindo novas terras.

CAPÍTULO 2
O Manto dos Pobres

Muitas fazendas agradáveis suprimiram todos os traços do que já foi desperdício


perigoso e sombrio; campos cultivados dominaram florestas; rebanhos e pássaros
expulsaram os animais selvagens; desertos arenosos são semeados (...) e onde antes
havia casinhas solitárias, agora há grandes cidades.

- TERTULIANO, De Anima (século II)

Na escuridão pré-alvorada, o garoto do arado chicoteia os flancos dos bois com o


aguilhão. Os animais abaixam a cabeça e sentem o puxão das cordas dos arreios, as
patas chafurdando no solo viscoso que brilha com a umidade. Atrás, o homem, com os
tornozelos enfiados na lama, segura as alças da roda do arado, fazendo força para baixo,
guiando a lâmina para que penetre no solo pesado. Ele respira com dificuldade devido ao
esforço e empurra novamente, enquanto a lâmina abre um sulco profundo. Devagar, o
arado segue em frente pela faixa estreita, seguindo paralelamente aos sulcos abertos no
dia anterior. A lâmina para e recomeça, empacando no torrão de terra. O menino treme
de frio, gritando e incitando os bois para que não parem de trabalhar.
No fim da tarde, o trabalho de arar a terra termina. O menino desmonta o arado e leva
os bois de volta para o vilarejo. Enche a manjedoura com feno e leva o esterco fresco
para usá-lo depois como fertilizante. Amanhã, o trabalho na lavoura será retomado, o
controle dos animais, a montagem do arado, o trabalho pelos campos.
Essa dura rotina prosseguiu durante séculos, da Inglaterra e Escandinávia ao sul da
França, da Espanha à Europa central. Há mil anos, a Europa era um continente rural, um
lugar com cidades cada vez maiores e vilarejos florescentes, porém um lugar onde a
maioria das pessoas vivia da agricultura de subsistência e a fronteira entre fome e
fartura era muito estreita. Boas colheitas significavam tudo para o campo, e foi no
campo que se sentiu o maior impacto cios séculos de calor. Cada vilarejo, cada
cidadezinha, vivia de estação a estação. O contraste entre verão e inverno era então
maior. Os preciosos meses de verão eram longos e cheios de luz, céus ensolarados,
época de calor, de plantar, depois colher. Esses eram dias de exuberância e de festivais,
de fartura. Os invernos eram frios e escuros, com dias curtos e cores sombrias, os
campos nus, as árvores sem folhagem verde. A estação da escuridão passava sem luz
elétrica ou chamas a gás, iluminada quando muito por velas tremeluzentes e aquecida
apenas pelo fogo fumacento e grandes lareiras nos palácios e castelos da nobreza. As
pessoas dormiam enroscadas umas nas outras para se aquecer. Um manto quente e
uma cama confortável eram luxos apreciados. Os séculos de calor trouxeram alívio
significativo para os duros contrastes entre as estações. Também estimularam o
crescimento da população e da violência.

A violência foi um fato na vida da Europa medieval e parte integral da política.


Assassinatos, traições, alianças transitórias e campanhas militares brutais faziam parte
da existência da elite e dos privilegiados. Os cavaleiros e os membros mais poderosos da
sociedade davam ênfase à exibição de coragem e força. Torneios testavam a bravura
individual e a habilidade com a lança. Confrontos entre proprietários rivais não
envolviam necessariamente uma longa lista de vítimas. Muitas vezes apresentavam-se
como forma de definir fronteiras territoriais e políticas, de avaliar limites da autoridade
estabelecida e definir quem poderia explorar quem. Algumas campanhas foram
realmente rituais de exibição. Em época de boas colheitas, os combates, mesmo que em
pequena escala, surgiam em algum lugar quase todos os verões.
Poderosas forças de desunião dificultavam o surgimento de grandes entidades políticas.
A França, o reino da França, era pouco mais do que um conceito abstrato no início do
século XI, uma série de entidades autogovernadas que estavam sempre se envolvendo
em disputas freqüentemente acirradas. Na França, a autoridade real se estendia apenas
às terras que o rei podia taxar e explorar. Os primeiros reis capetianos, cuja dinastia
começou em 987, governaram não pelo direito de nascimento, mas em virtude de suas
habilidades individuais. Criaram uma ideologia que os proclamava escolhidos por Deus e
passaram a maior parte dos séculos XI e XII forçando seus rivais - barões e ricos
proprietários de terra com seus castelos fortificados - a se submeterem. Fizeram isso, em
parte, pela Igreja, cujas paróquias e monastérios eram os alvos favoritos dos senhores
predadores.
O ponto e contraponto da violência fluiu e refluiu durante os séculos de calor. Os
senhores leigos, príncipes episcopais e comunidades religiosas que controlavam o campo
próspero, com seus vinhedos, plantações abundantes e grandes rebanhos eram alvos
atraentes para salteadores e senhores ambiciosos sedentos por anexações. Poucos
vilarejos e cidades pequenas tinham proteção contra os saqueadores em uma época em
que a atividade econômica e as populações rurais estavam se expandindo rapidamente.
Algumas partes da França, como a Bretanha, lembravam um campo de batalha devido
às disputas ferozes entre vizinhos gananciosos que lançavam olhos cheios de cobiça
sobre as terras mais produtivas. Somente as regiões mais ocidentais, de língua celta,
escaparam à invasão, pois estavam longe de ser férteis, com a maioria da população
concentrada em vilarejos de pescadores ao longo da costa.
A guerra se nutria dos excedentes - da capacidade dos senhores ambiciosos de
alimentar seus exércitos e financiar a construção de castelos de pedra que serviam
como postos avançados e bases para reprimir a rebelião. O controle sobre as terras ricas
e suas plantações era conseguido através de casamentos políticos e força bruta. No
entanto, algumas regiões, como a Normandia, ao norte, com suas fazendas de laticínios
e plantações abundantes, alcançaram estabilidade considerável. O ducado da Borgonha
se vangloriava de suas terras férteis, pequenas explorações agrícolas e propriedades
maiores; foi visivelmente próspero durante os séculos de calor, graças especialmente a
um comércio florescente de vinho que satisfazia a sede de lugares tão distantes quanto
a Espanha e a Inglaterra.
Com o rápido crescimento populacional e o aumento no volume do comércio de longa
distância, rivalidades e alianças inconstantes entre os grandes senhores marcaram a
paisagem política. A busca pelo poder girou basicamente em torno do rico potencial
agrícola do norte, onde hoje situa-se a França. Os séculos de calor trouxeram colheitas
abundantes para uma região conhecida por seus cereais, frutas e vinho. Pastos
abundantes e bem irrigados propiciaram grande aumento dos rebanhos e produção de lã
ainda maior. Plantações de produtos não-alimentícios, como a fibra do linho e as plantas
usadas para o tingimento, ocuparam ainda mais terras agrícolas. As extensas florestas
do norte ofereciam pasto para os porcos, mas também eram muito exploradas para a
obtenção de toras de madeira, lenha e carvão, utilizado na produção de ferro. A guerra
crônica da época estimulava a indústria de armas e armaduras, embora as mesmas
habilidades pudessem produzir machados, lâminas de arados e outros implementos para
a lavoura em tempos de paz. As rivalidades principescas, no entanto, impediram uma
transformação econômica espetacular.
A guerra foi endêmica durante os séculos de calor, mas os reis capetianos conseguiram
aos poucos impor sua autoridade e forjaram um reino de verdade em meio ao caos. O rei
Felipe II, "o Augusto", fez de Paris a capital da França, em 1194. A Normandia foi
anexada em 1204; em 1249, a maior parte do sul da França estava sob o controle real.
Graças a uma administração inteligente, as elites das terras conquistadas
desenvolveram um interesse documentado no sucesso do reino, sendo a coroa o ícone
da unidade francesa. Assim, os séculos de calor, com suas colheitas seguras, que
estimulavam tanto o comércio quanto a guerra, testemunharam o início da Europa
moderna.

A Europa transbordava energia durante os séculos de calor. O historiador da arte


Kenneth Clark define bem a situação: "Era como uma primavera russa. Em todos os
ramos da vida - ação, filosofia, organização, tecnologia - havia um transbordamento de
energia e intensificação da existência." Os feitos de monarcas e príncipes tinham pouco
significado para a maioria dos europeus, fossem livres ou escravos, estes últimos
representando cerca de 10% da população em algumas regiões. A Europa era um
continente rural no início dos séculos de calor: a vida da maioria das pessoas girava em
torno da aldeia, do vilarejo e da interminável rotina de plantar e colher. Apesar da alta
taxa de mortalidade entre crianças e bebês, grande número de natimortos, epidemias
freqüentes e penúria extrema, ocasionalmente a população cresceu. Entre o ano 1000 e
a eclosão da Peste Negra, em 1347, a população do continente subiu de
aproximadamente 35 milhões para cerca de 80 milhões de pessoas. Onde hoje é a
França, havia cerca de 5 milhões de habitantes no ano 1000, e algo em torno de 19
milhões em 1350. Os números da Itália subiram de 5 milhões para cerca de 10 milhões,
enquanto na Inglaterra foram de aproximadamente 2 milhões para cerca de 5 milhões.
Esse crescimento ocorreu em toda a Europa, embora com índices diferentes, chegando a
cerca de meio milhão de pessoas na Noruega, em 1300, onde era pequena a oferta de
terras aráveis devido a uma estação de cultivo relativamente curta. O rápido
crescimento populacional, durante séculos de condições climáticas relativamente
favoráveis, porém com limitada disponibilidade de terras agrícolas, formou uma lacuna
imperceptível, mas crescente entre a população cada vez mais numerosa para ser
alimentada e uma área cada vez menor para prover o alimento. Os números somente na
Inglaterra são desanimadores. No ano 1000, uma área de aproximadamente 8,5 milhões
de acres de terras aráveis (3,4 milhões de hectares), com cereais e outras plantações,
alimentava cerca de 2,5 milhões de pessoas. Mesmo após três séculos de crescimento
populacional, longos períodos de boas condições para a lavoura, o aumento para 11,5
milhões de acres (4,6 milhões de hectares), boa parte deles fincada em terras agrícolas
marginais, era difícil alimentar 5 milhões de pessoas. Essas estatísticas podem ser
enganosas, pois havia arrendamentos engajados na agricultura intensiva, especialmente
aquelas envolvidas com o fornecimento de cereais para as cidades. O rápido
crescimento populacional, entretanto, em parte estimulado pelas condições climáticas
favoráveis, criou problemas para os agricultores de subsistência.
As catedrais góticas, os manuscritos iluminados, os delicados trabalhos de madeira - as
conquistas materiais da Alta Idade Média dependiam de excedentes de alimentos
produzidos pelo trabalho anônimo dos agricultores de subsistência. Esses excedentes
alimentícios geravam riqueza e dinheiro para pagar os salários de artesãos e outros
trabalhadores, assim como os meios para honrar o senhor. Quando as colheitas eram
abundantes e a vida era boa, tanto os nobres quanto os comuns agradeciam a Deus e
faziam doações generosas para que ele não despejasse sua ira na forma de pragas,
guerras e fome. Nos anos menos prósperos, as doações escasseavam e o ritmo de
construção de catedrais diminuía. Apesar dos anos de boas colheitas, as realidades de
fartura e fome definem os séculos de calor, quando a Europa medieval prosperou e
tornou-se precursora de um continente de estados soberanos.

A chuva torrencial muda para chuva de granizo e castiga a vila, transformando caminhos
enlameados em pequenos rios. Violentas lufadas de vento arrancam os galhos das
árvores nuas. A ventania implacável passa assobiando pelas sebes e telhados de palha,
empurrando as nuvens cinzas pelo céu, cortando a fumaça de madeira que sobe das
chaminés e telhados. Não se vê viva alma. O conjunto de moradias parece abraçar a
terra, com medo das rajadas de vento. Dentro de casa, o ruído da tempestade é
abafado, porém mal se consegue enxergar por causa da fumaça asfixiante que se forma
acima dos feixes de madeira. Odores fortes atacam as narinas - esterco das vacas,
alimentos em decomposição, excrementos. Todos se encolhem silenciosamente, envoltos
em peles de carneiro e caneleiras. O gado se mexe inquieto no estábulo, em uma
extremidade da casa. Animais e seres humanos esperam por uma trégua do temporal.
Mesmo na década mais quente, o clima da Europa medieval foi de extremos. Semanas
de neve, temporais de inverno memoráveis, fortes vagas marítimas causadas por
tempestades no Mar do Norte, longas secas de verão: a agricultura de subsistência era
um empreendimento desafiador mesmo no ano mais quente. Com chuvas e
temperaturas imprevisíveis, os agricultores medievais eram conservadores mesmo nos
melhores momentos, assim como seus iguais dos dias de hoje nas regiões em
desenvolvimento. Quando se vive sob o espectro da fome, a tendência é proteger o que
se tem. As inovações de qualquer tipo podem definhar diante da oposição cautelosa da
opinião pública. Nas comunidades de subsistência - baseadas, freqüentemente, na
experiência coletiva adquirida ao longo de muitos anos - o consenso é o cerne da
sobrevivência. Isso fazia com que a escolha de datas para plantar e colher cereais, uvas
e outros vegetais fosse uma questão de deliberação cuidadosa, mesmo em épocas mais
quentes, quando o resultado das colheitas tendia a ser maior. A elevação das densidades
populacionais e as condições climáticas em geral favoráveis ameaçavam seriamente o
conservadorismo dos agricultores medievais. Importantes inovações nos métodos
agrícolas foram implantadas nos séculos de calor devido à escassez de terra e ao
número maior de bocas para alimentar.
Os invernos mais amenos, os verões mais quentes e estações de plantio mais longas no
Período de Aquecimento Medieval foram um poderoso catalisador para o crescimento
populacional constante, estimulado por boas colheitas. À medida que cresciam as
populações rurais, também a demanda por solos mais leves, com boa drenagem e de
cultivo fácil, excedia a oferta. A terra macia desse tipo de terreno podia ser revolvida
eficientemente com um arado leve, do tipo criado há mais de mil anos, da época anterior
aos romanos. Tratava-se basicamente de uma lâmina que fazia um sulco na terra, mas
não revirava o torrão. Os agricultores medievais usavam bois para puxar os arados, ou,
se não tivessem animais, a dupla composta por marido e mulher arava a terra, um
puxando o arado e o outro guiando. Desde que a terra fosse suficientemente leve, esse
tipo de arado representava uma forma simples de cortar o campo e foi amplamente
utilizado por pelo menos quatro mil anos.
Mas o arado romano tinha sérias limitações. Era muito menos eficiente nos solos mais
pesados, mais argilosos, onde a camada superior era mais dura, especialmente em
períodos mais secos. Épocas de seca prolongada, como as dos séculos mais quentes,
iam contra a aragem fácil. Com o aumento da demanda por terras cultiváveis, os
lavradores se transferiram para esses solos úmidos, potencialmente produtivos, em geral
com densas florestas, mas difíceis de cultivar. Felizmente, um novo conceito de arado
surgiu durante o século VII, ou mais ou menos nesse período, a tempo para os séculos
de calor e mais eficiente para solos mais pesados. A charrua tinha lâminas afiadas, que
cortavam o solo, revirado pela aiveca, que enterrava o mato e revolvia os nutrientes.
Parelhas de bois normalmente puxavam as charruas até que alguém do continente
desenvolveu uma nova técnica de atrelagem, o arnês, que substituiu o 'colar de pescoço.
Com a utilização de cavalos, a força dos bois foi superada em quatro ou cinco vezes. Os
cavalos também eram mais rápidos, mas o uso de quatro cavalos, ou oito bois, para um
único arado, embora viável em casas religiosas e terras arrendadas, era uma alternativa
muito dispendiosa. Os agricultores dos vilarejos resolveram o problema compartilhando
os animais na época de arar a terra. Mesmo com os bois, o trabalho era brutal, do nascer
ao pôr-do-sol.
Os arados com rodas e cavalos passaram a ser amplamente utilizados mais ou menos na
mesma época da adoção do sistema trienal de cultivo, que surgiu em terras monásticas
no nordeste da França durante o século IX e se espalhou gradualmente por toda a
Europa. No início, plantava-se metade dos campos de cada vez. Posteriormente, eram
cultivados dois terços, com o terceiro descansando. Com o sistema trienal produziram-se
mais grãos e forragem para os animais, alimentos mais nutritivos, famílias maiores e
mais animais de tração - desde que houvesse gente suficiente para realizar o trabalho
extra de plantar e colher; e também mais arados, arreios, cangas e outros equipamentos
que precisavam de carpinteiros, ferreiros e trabalhadores especializados.
O sistema de cultivo trienal envolvia o plantio de um campo com cereais de inverno -
trigo, cevada ou centeio. Um segundo campo era utilizado na primavera com aveia,
grão-de-bico, ervilha, lentilha ou favas. O terceiro campo ficava em repouso. O sistema
trienal estendeu as necessidades de mão-de-obra mais uniformemente ao longo do ano,
além de fornecer aveia para alimentar os cavalos. Legumes, como ervilhas e feijões,
fixavam nitrogênio no solo e mantinham sua fertilidade, de forma que era possível ter
mais animais. O risco de fome foi reduzido significativamente, ao mesmo tempo em que
havia mais estrume para fertilizar o solo. Com o aumento na ingestão de proteína, houve
uma melhora da nutrição e da saúde, e a população cresceu. E, o mais importante, os
excedentes alimentícios aumentaram consideravelmente, tanto pelo aumento do calor e
melhora das colheitas quanto pela agricultura intensiva.
As colheitas de cereais nos vilarejos medievais eram baixas. Ali, o ritmo das inovações
era mais lento. Mas em algumas regiões eram muito maiores, notadamente nos Países
Baixos e no norte da França, além de partes do sudeste e leste da Inglaterra, onde
arrendamentos e pequenas propriedades agrícolas supriam mercados urbanos
crescentes ou navios que transportavam grãos além-mar. A lavoura mista intensiva em
algumas propriedades de Norfolk no século XIV chegava a produzir de 15 a 25 bushels
(alqueires) por acre (5,28 a 8,8 hectolitros) ou mais, colheitas normalmente associadas
aos métodos de lavoura intensiva e altamente eficiente introduzidos na Inglaterra no
século XVIII. Esse tipo de propriedade mista combinava agricultura com criação de gado
e principalmente de ovelhas, produzindo dois terços mais do que as bem administradas
terras arrendadas em lugares como Winchester, no sul da Inglaterra. Não é difícil
descobrir a causa dessa produtividade: a necessidade de alimentar populações
crescentes nas pequenas e grandes cidades.
Um arado em sua forma mais sofisticada (acima) e uma charrua simples com aiveca
(abaixo).

O número de cidades aumentou exponencialmente entre os anos 1000 e 1400. Somente


na Europa Central, surgiram mil e quinhentas cidades do século XI até 1250, e mais
cinqüenta no meio século seguinte. As cidades variavam enormemente de tamanho,
sendo algumas pouco maiores do que grandes vilarejos e, outras, comunidades de duas
a três mil pessoas. A ocupação de todas as cidades medievais era mais densa do que a
dos vilarejos. Também havia mais artesãos, pessoas com ocupações mais especializadas:
ferreiros, oleiros, tecelões e muitos outros. Todas as cidades tinham um mercado regular;
nenhuma delas teria sobrevivido sem ele. Algumas tinham até uma casa da moeda, pois
a base dos mercados não era a troca, mas o direito de cunhar moedas. Às vezes eram
edifícios públicos imponentes, como grandes igrejas e saguões de mercados, além de
outras estruturas. Acima de tudo, as cidades eram locais fervilhantes, onde havia até
"congestionamentos". William Chester Jordan relaciona algumas causas na medieval
Southwark, perto de Londres. "A grande atividade dos carros de bois chocando-se contra
as carruagens, longas filas de charretes carregando frutas e vegetais, a aparentemente
interminável cavalgada de homens montados e mulheres levando mensagens, fazendo
compras, visitas ou comparecendo a reuniões e gritando para os outros abrirem
passagem nas ruas." Ele acrescenta: "Sem congestionamento, não é cidade".
No início, as cidades eram politicamente fracas em relação aos senhores do campo, que
normalmente as controlavam. Seus agentes disputavam o controle político com os
clérigos, mas os mercadores e o setor comercial acabaram por assumir um poder e
influência cada vez maiores graças a uma explosão de atividades comerciais de todos os
tipos. Na época anterior às boas estradas, a maioria dos produtos viajava para cima e
para baixo através de rios, canais e das costas marítimas. Esse comércio remontava a
uma época anterior aos romanos. No século IX, o rei Carlos Magno controlava
importantes rotas comerciais do Mar do Norte. O Mosa, o Escalda e o Reno penetravam
no coração da Europa e chegavam à costa baixa de Flandres, onde cidades de comércio
movimentado como Bruges, Gent e Ypres logo se tornaram cidades populosas e
prósperas. Além dos centros antigos, como Londres e Paris, desenvolveram-se outros
entrepostos importantes: Southampton, no sul da Inglaterra, protegida pela ilha de
Wight; Dieppe, centro de comércio vinícola e pesca de arenque; lugares como Bergen,
com seus armazéns de bacalhau; e Rostock, no mar Báltico, com suas ligações com o Rio
Vístula e a Eurásia.
O crescimento das cidades teve conseqüências políticas e econômicas duradouras. Só na
Inglaterra, por volta de 1300 havia pelo menos 16 cidades com dez mil habitantes ou
mais; esse número grande e cada vez maior de pessoas dependia de outras para
alimentá-las. As cidades medievais tornaram-se ímãs não só para artesãos e mercadores
bem relacionados, mas também para os pobres e aqueles que não possuíam terras, que
viviam em habitações coletivas e cabanas dentro ou fora dos muros da cidade. Como as
pequenas, as grandes cidades eram lugares populosos e movimentados, fervilhando de
desamparados e gente pobre, com todo o potencial explosivo pra a agitação social. Em
tempos de penúria, a fome alimentava a raiva em cortiços superlotados, onde a
violência estava à espreita, bem próxima à superfície. Nos séculos de calor, as colheitas
foram de modo geral muito fartas, mas as cidades que rapidamente se formaram em sua
esteira foram ficando cada vez mais vulneráveis às más colheitas. Em épocas mais
recentes, o maior temor dos monarcas da família Tudor, na Inglaterra, era a agitação
urbana provocada pela escassez de cereais.
A população mudou rapidamente durante o Período de Aquecimento Medieval. No final,
Londres talvez tivesse de 80 mil a 100 mil habitantes, população que só perdia em
número para Paris, entre as cidades ao norte dos Alpes. Grande porto marítimo e fluvial,
a cidade dependia de uma área irregular de aproximadamente 10,35 quilômetros
quadrados para seu suprimento de cereais, boa parte de propriedades a mais de 160
quilômetros de distância. As cidades cada vez maiores dependiam de fontes de
suprimento confiáveis. Quando uma grande penúria se abateu sobre a Inglaterra em
1315-17, o rei ordenou aos seus funcionários que fossem buscar provisões essenciais e
forragem para sua moradia em lugares tão distantes como Sussex, Cambridgeshire,
Norfolk e Gloucestershire, a cerca de 240 quilômetros de distância. Londres expandia-se
e contraía-se de acordo com as condições climáticas e as colheitas resultantes. Durante
as melhores décadas dos séculos de calor, a capital ocupou provavelmente um quinto do
total de terras cultiváveis da Inglaterra, das quais menos da metade fornecia cereais
regularmente. Cidades como Winchester ocupavam uma área muito menor, que se
estendia por não mais do que 19 quilômetros. Em um mundo em que provavelmente
10,5% da população da Inglaterra vivia em cidades grandes e pequenas - isto é, 420 mil
pessoas - as necessidades agrícolas dos mercados urbanos ainda eram restritas e
seletivas. Mas isso iria mudar no futuro, com o crescimento das cidades e com as
condições climáticas cada vez mais imprevisíveis.
O impacto real de condições agrícolas mais favoráveis e épocas de plantio mais longas
foi sentido no campo. E ali, com o crescimento dos vilarejos e a ocupação dos solos mais
leves, a falta de alimentos tornou-se realidade. A solução lógica foi ocupar mais terras,
áreas fora dos limites por causa dos solos mais pesados, dos pântanos, terrenos mais
elevados, alguns deles marginais porque sujeitos à erosão com chuvas pesadas. A maior
parte das novas terras aráveis, no entanto, surgiu com a abertura de uma paisagem
coberta por florestas desde a era do gelo.

A escala do desmatamento durante os séculos mais quentes é surpreendente. No ano


500, talvez quatro quintos da temperada Europa Central e Ocidental eram ocupados por
florestas e pântanos. Essa paisagem foi reduzida pela metade, ou ainda menos, por volta
de 1200, e a maior parte da ocupação ocorreu durante o Período de Aquecimento Medie -
val, com um ataque pesado ao meio ambiente. Nos Países Baixos, os agricultores
recuperaram terras do Mar do Norte no que foi chamado de "drenagem ofensiva", que
transformou ilhas pequenas dos arquipélagos costeiros em ilhas maiores. Grandes áreas
de turfas atrás da costa foram drenadas com fossos e depois laboriosamente
recuperadas em uma luta de gato-e-rato com a água enquanto a turfa permanecia. No
início, os lavradores dependiam de fossos cada vez mais profundos; depois, passaram a
contar com bombas e moinhos de ar ou de água. Foi necessário um trabalho imenso,
desenvolvido por várias gerações, mas, no final, as turfas se transformaram em pasto
para as ovelhas e gado e terras aráveis para as plantações.
Arrancar as florestas primordiais da Europa foi um ato de grandes implicações culturais,
econômicas e políticas. Os agricultores que abriram as florestas se privaram da rede
protetora que um provérbio escandinavo chamava de "o manto dos pobres". As florestas
forneciam materiais para a construção, madeira, lenha e jogos, plantas medicinais e
alimento, pasto e pastoreio para os animais. O agricultor medieval usava mais ferro do
que jamais usara antes, para os machados, arados e armas - o metal fundido com o
carvão da floresta. As árvores grandes forneciam madeira para catedrais e palácios, para
os navios e estruturas simples como os moinhos. Os moinhos de água eram o novo
maquinário da época e, como os moinhos de vento, eram feitos quase inteiramente de
madeira. Em 1322, a demanda por madeira para pás de moinhos de vento em
Northamptonshire, Inglaterra, era tão grande que surgiram reclamações contra o
desmatamento. No século XII, o uso das florestas foi submetido a regulamentos
intrincados que cobriam tudo, dos direitos de pastoreio à coleta de lenha. Todos os que
tinham interesse na floresta, incluindo a coroa e a nobreza, assim como o cidadão
comum, tinham também direitos, como o direito de caçar, de pastorear os animais e de
usar as clareiras. Por exemplo, muitos camponeses ingleses tinham o direito de adquirir
madeira para construção; e lenha, madeira morta que fora arrancada das árvores de
qualquer modo. As árvores densas e a vegetação rasteira eram meios para a
sobrevivência. Regulamentações cada vez mais complexas cercaram as florestas e o
direito de uso e desmatamento, exigindo um equilíbrio entre os privilégios reais e os
direitos de proprietários contra antigas necessidades econômicas dos camponeses.
As florestas negras eram uma presença complexa na vida medieval, com muitas
utilidades e importância simbólica destacada, lugares onde forças poderosas
espreitavam e onde viviam grandes animais, como o feroz bisão, boi selvagem com
longos dentes. A floresta era também o palco da nobre caçada real, atividade reservada
à aristocracia que significava muito mais do que a aquisição de carne. A caçada era uma
exibição de cerimônia elegante e poder, até mesmo uma encenação da conquista da
natureza através da dominação de animais selvagens. O Metropolitan Museum of Art de
Nova York possui sete tapeçarias do período medieval, "The Hunt of the Unicorn", tecidas
entre 1495 e 1505, que celebram séculos de ritual de caça. Elas mostram uma caça
medieval simbólica: os cães de caça sem coleira; a descoberta do unicórnio em seu
esconderijo; a perseguição; o animal mítico encurralado; e então a morte com a espada
do caçador. O unicórnio é uma criatura imaginária, e as tapeçarias mostram uma
imagem idealizada da caçada, mas transmitem sua natureza cerimonial, elaborada. A
ligação entre a presença real e o domínio da natureza era irresistível, por isso surgiram
conflitos inevitáveis entre a nobreza, que queria preservar as florestas para a caça, e o
resto da sociedade, que valorizava os produtos da terra florestada. No final, prevaleceu a
agricultura. As florestas primordiais encolheram rapidamente durante os séculos de
aquecimento, no fermento da mudança e da experimentação, e em virtude da
intensificação da agricultura provocada por centros urbanos cada vez maiores, den-
sidades populacionais mais elevadas e mais bocas para alimentar.
Depois do colapso do Império Romano do Ocidente no ano 476, tribos germânicas do
leste do Reno, como os borgonheses e os vândalos, ocuparam a maior parte do que
tinha sido a Gália. Os invasores chegaram, cerca de oito mil deles, numa época em que a
população da Europa Ocidental havia sofrido uma queda de aproximadamente 40% em
relação ao pico de 26 milhões no período romano, como resultado da praga e da fome no
século VI. Os recém-chegados simplesmente ocuparam a terra existente, boa parte da
qual havia sido abandonada.
Para as tribos germânicas, a floresta, entidade sagrada que deveria ser respeitada, era
inviolável e protegida. Por isso, o período de grande desmatamento não começou senão
após o século X, quando a migração da Escandinávia e da Europa Central somou-se à
expansão econômica e ao crescimento populacional na Europa Ocidental.
O aumento do desmatamento surgiu durante o Período de Aquecimento Medieval, numa
época em que a queda do nível das chuvas chegou a 10% e as temperaturas subiram de
0,5° a 1°C. Com o crescimento da população local, as pessoas ocuparam terras
abandonadas ou negligenciadas. É provável que a disponibilidade de áreas novas, que
exigiam apenas limpeza, tenha levado a casamentos precoces, ao aumento da
natalidade e talvez a famílias mais numerosas. As guerras constantes geravam exércitos
famintos, somando-se as demandas crescentes de uma igreja agora mais poderosa,
aumentando o problema do fornecimento de alimentos. Confrontadas com a questão da
escassez potencial, as famílias cada vez maiores tinham duas escolhas: poderiam
diminuir o número de anos em que deixavam parte do campo descansando (prática
perigosa a longo prazo, por causa da diminuição catastrófica na produção pelo cansaço
da terra), ou poderiam abrir novos campos. Felizmente, havia muita terra disponível, por
isso as pessoas começaram a ocupar as margens das florestas, processo conhecido
como arroteamento. Isso implicava também abater árvores e eliminar suas raízes, parte
essencial dessa ocupação.
Dia após dia, homens com machados subiam em árvores altas e derrubavam galhos que
eram então empilhados e queimados. Às vezes um jovem perdia o equilíbrio e
despencava, provocando um barulho surdo ao cair no chão duro. Talvez tivesse sorte e
escapasse com alguns ferimentos. Com freqüência, quebravam um braço ou uma perna,
e podiam ficar paralíticos para o resto da vida, ou na melhor das hipóteses podiam
tornar-se mais uma boca para alimentar até estarem em condições de manter-se
novamente. Depois de cortados todos os galhos, os troncos altos ficavam nus na
margem da floresta até serem derrubados por homens fortes que trabalhavam em
uníssono, parando de vez em quando para afiar os machados. No vilarejo, o ferreiro teria
muito trabalho pela frente, martelando as lâminas envergadas e forjando novos
machados para atender a demanda. Lentamente, um novo campo iria surgir na floresta,
tomado por imensas toras de madeira. Depois de derrubadas as árvores e queimados os
galhos para a fertilização da terra com as cinzas, os habitantes do vilarejo transferiam-se
para o local e punham-se a cortar e arrancar laboriosamente os troncos do chão, usando
bois ou cavalos para ajudá-los com cordas fortes e correntes de ferro.
O arroteamento era árduo e exigia trabalho intensivo, normalmente um processo
prolongado. Começava com a queima periódica para limpar o mato e os arbustos mais
pesados da floresta circunvizinha. Finalmente, a floresta se deteriorava, e nesse
momento os arroteadores se instalavam, limpavam as toras de madeira e fundavam
novos vilarejos. Assentamentos completamente novos surgiam em locais remotos da
floresta, especialmente os de casas monásticas que procuravam a reclusão em lugares
ermos.
Os séculos de aquecimento viram surgir milhares de novos assentamentos em toda a
Europa. No Vale Yonne, a sudeste de Paris, os senhores encorajavam os assentamentos
concedendo a autogestão para aqueles que desbravavam novas terras e reduzindo ou
abolindo impostos. Também renunciavam aos pagamentos: os camponeses tinham
permissão de seus senhores para casar fora de sua própria comunidade. Como observou
certa vez o historiador francês Marc Bloch, uma espécie de "intoxicação megalomaníaca"
tomou conta de muitos proprietários com visões grandiosas de novas paisagens, onde
terras improdutivas se tornavam áreas lucrativas que produziriam mais riqueza e
aliviariam a pressão sobre a população para arar a terra. No leste, senhores germânicos,
tanto leigos quanto eclesiásticos, encorajavam os colonizadores a se apoderarem de
terras pantanosas e florestais a leste de Berlim, onde viviam pequenos bandos de
caçadores esquivos. De acordo com uma dessas convocações: "Esses pagãos são os
piores homens, mas sua terra é a melhor, com carne, mel e farinha. Se for cultivada, a
produção da terra será incomparavelmente maior que todas as outras".
Pode-se argumentar que houve uma ligação direta entre o aquecimento medieval, o
crescimento populacional e as inovações agrícolas, mas também houve fatores sociais e
religiosos subjacentes. Nos primeiros tempos, proprietários tentaram manter os
camponeses arrendatários confinados às suas terras porque assim podiam controlá-los e
acumular mais riquezas. Com o aquecimento, os administradores locais e líderes
religiosos em uma era cada vez mais devota faziam esforços constantes para consolidar
seu controle com objetivos políticos e também para acumular riquezas. Foram
assumindo gradualmente o direito de dispor de terras não utilizadas de florestas, como
se fossem governantes, concedendo as terras virgens a grupos de colonos que as
limpavam e aravam, "trazendo-as para o reino dos negócios humanos". As pessoas e seu
trabalho tornaram-se fonte de riqueza para os senhores. Esses colonizadores logo se
tornaram agricultores livres, donos da terra, e podiam ganhar dinheiro com suas
colheitas. Com a emancipação dos plebeus e a ampla adoção da primogenitura, os filhos
mais jovens precisavam ter seu próprio negócio - terra nova. A ocupação das florestas foi
para eles o que as Cruzadas e as guerras de conquista foram para a nobreza.
Os religiosos desempenharam papel importante na ocupação das florestas e na
revolução agrícola. Os beneditinos, em especial, consideravam o trabalho manual tão
importante quanto a leitura ou as orações. O trabalho trazia recompensas espirituais.
São Bernardo escreveu: "Um lugar selvagem, que não foi consagrado pela oração e pelo
ascetismo, e que não é cenário de qualquer vida espiritual, está em estado de pecado
original. Mas ao se tornar fértil e adquirir um objetivo, adquire também grande
significado". As comunidades beneditinas fizeram muito para dissipar o antigo temor das
florestas primordiais entre os camponeses medievais. O historiador Michael Williams
chama as ordens religiosas de "tropas de choque" da ocupação das florestas. Os
números contam a história. Entre 1098 e 1675, os cistercianos fundaram, sozinhos, 742
comunidades, 95% das quais já existentes por volta de 1351. Cada casa se envolvia com
a agricultura intensiva e ocupação da floresta. Gerald de Barri escreveu: "Dê a esses
monges uma turfa nua ou uma floresta selvagem, espere passar alguns anos e
encontrará não só lindas igrejas, como residências humanas ao redor delas".
Qualquer que seja o padrão, o desmatamento na Europa durante os séculos de
aquecimento está entre os episódios mais significativos do gênero na história. As
florestas francesas tiveram sua área reduzida de 74 milhões para 32 milhões de acres
(de 30 milhões para 13 milhões de hectares) entre os anos de 800 e 1300, mas 1/4 do
país ainda era coberto por florestas. No geral, talvez mais de metade das florestas da
Europa foi derrubada entre 1100 e 1350. A ocupação da Bretanha foi mais fragmentada,
com desmatamento menos planejado. Mesmo assim, as estatísticas a respeito do
crescimento da população são impressionantes, superando todos os padrões. Em apenas
uma pequena paróquia inglesa, Hanbury, no nordeste de Worcestershire, a população
saltou de 266 pessoas em 1086 para 725, em 1299.

Junto com o desmatamento e a inovação agrícola houve um crescimento dramático da


pesca marítima, estimulada por condições climáticas mais favoráveis na costa, pela
doutrina cristã e pela demanda crescente por rações militares. Carlos Magno e seus
sucessores haviam criado rotas de comércio marítimas que ligavam as costas do Mar do
Norte e do Báltico, em parte porque o Mediterrâneo era um mar islâmico. A maior parte
da navegação ocorria nos meses de verão, porém, mesmo então, as águas rasas e as
marés represadas da Inglaterra Oriental e dos Países Baixos eram responsáveis por
embarcações mercantes muito lentas. O Período de Aquecimento Medieval trouxe
temperaturas ligeiramente mais elevadas e verões mais longos para as águas do norte
da Europa. A julgar pelas condições da época moderna, os meses de aquecimento teriam
testemunhado períodos de altas temperaturas e condições anticiclônicas prolongadas
quando os ventos estavam calmos e as águas do mar pareciam espelhos. Comparadas
com a Pequena Idade do Gelo dos últimos séculos, as condições foram em geral menos
propensas a tempestades durante o verão, embora os vendavais de inverno ainda
pudessem afluir para terra firme, provocando a inundação das terras baixas,
especialmente nos Países Baixos. Os séculos de aquecimento viram uma rápida
expansão do comércio marítimo, que foi em parte reflexo das melhores condições em
terra firme. Ao mesmo tempo, a pesca marítima adquiriu importância crescente,
especialmente o comércio de arenque salgado.
O Clupea harengus, o arenque do Atlântico, está entre os peixes mais prolíficos, tomando
conta do Atlântico Norte a cada primavera, indo posteriormente em direção ao sul, para
o Báltico, e para as costas do Mar do Norte ao longo da Escócia e da Inglaterra no verão
e início do outono. Ninguém sabe se os arenques são sensíveis às temperaturas da
superfície do mar, mas é bem provável que sejam, pois houve flutuações notáveis nos
cardumes de arenques ao longo dos séculos, que não se devem apenas à pesca
predatória. Qualquer que seja sua sensibilidade às condições do mar, os arenques foram
promiscuamente abundantes durante o Período de Aquecimento Medieval, enquanto
poucas pessoas haviam comido ou pescado esses peixes em épocas anteriores. Para
pescá-los, eram necessários barcos abertos e redes de arrasto, além de ventos calmos
nas águas rasas do Mar do Norte. Uma combinação de condições favoráveis,
especialmente no início do outono, e uma demanda inexorável por peixes do mar
transformaram o arenque em uma indústria internacional importante durante os séculos
de aquecimento.
O arenque é um peixe gordo. Quando pescado, se decompõe rapidamente a menos que
seja salgado. A salmoura é uma técnica muito antiga, mas as rudimentares, como a
colocação dos peixes em pilhas de sal, eram ineficazes com o Clupea. Em algum
momento durante os séculos IX ou X, quando houve um leve aquecimento da
temperatura do mar, os pescadores do Báltico desenvolveram um método para salgar o
arenque em barris lacrados, o que permitia transportá-los aos milhões. O novo método
logo se espalhou pelos portos do Mar do Norte. Pela primeira vez, era possível
transportar peixe salgado por longas distâncias em terra. Uma grande indústria surgiu
quase que da noite para o dia.
Desde os primeiros dias do cristianismo, o devoto jejuava e fazia refeições sem carne
nos dias santos e durante a Quaresma. A maioria das pessoas seguia uma dieta sem
carne, com leite e cereais, por isso a proibição afetava mais os nobres e os ricos, assim
como as casas religiosas. O número de dias sem carne crescia sem parar. Em 1200,
praticamente metade dos dias do ano eram classificados como dias santos. Os peixes,
ricos em proteína, eram considerados alimento aceitável nesses dias, mas não havia
peixe de água doce suficiente, apesar da explosão da piscicultura sob os auspícios dos
monastérios e propriedades senhoriais. Aqui, mais uma vez, o aquecimento ajudou. Os
verões mais quentes do Período de Aquecimento Medieval proporcionaram as
circunstâncias ideais para a piscicultura de peixes de águas rasas como a carpa. A
Cyprinus carpio viceja nas águas turvas do Danúbio e em outros rios do sudeste
europeu. Entre o ano 1000 e 1300, a carpa se expandiu rapidamente pela Europa
Continental, quando o aquecimento e os verões mais longos elevaram as temperaturas
da água dos lagos e rios. A Cyprinus era relativamente fácil de criar, a ponto de a
piscicultura da carpa ter se transformado em grande indústria na Europa medieval. Mas
o peixe era caro. Em 1356, uma centena de carpas servidas em um casamento em
Namur custou o dobro do preço de uma vaca. As casas religiosas e os nobres ricos eram
assíduos freqüentadores do mercado e monopolizavam o peixe cultivado, tornando-o
inacessível para as pessoas comuns.
Felizmente para os devotos e para aqueles preocupados em alimentar os pobres das
cidades, surgiu um substituto barato - o arenque. Houve uma revolução nos hábitos
alimentares em relação ao consumo de peixes do mar durante os séculos de
aquecimento. Entre os séculos VII e X, o peixe marítimo aparece apenas nos montes de
esterco (depósitos de lixo) dos portos e cidades de estuário. Fragmentos de ossos
encontrados nesses montes de resíduos são um verdadeiro tesouro, com informações
acerca da dieta na Antiguidade, fornecendo dados tão esotéricos quanto o peso do
bacalhau medieval e a idade dos bois que os açougueiros costumavam matar. Em 1030,
o arenque era abundante na cidade costeira de Hamwic (atual Southampton) e
comercializado em terra. Estima-se que perto do fim do século XI, cerca de 3.298.000
arenques tenham sido desembarcados somente em portos ingleses, fora o desembarque
no continente. No século XII, o arenque havia se tornado algo comum em lugares tão
distantes do mar quanto Viena. O peixe se tornou tão importante para os cristãos que
em 1170 o Papa Alexandre II permitiu a pescaria aos domingos na temporada do aren-
que. Todo outono, durantes seis semanas, uma grande feira do arenque em Yarmouth, no
leste da Inglaterra, fornecia milhões de peixes em barris para povos de ambos os lados
do Mar do Norte. As vendas eram enormes. Os reis alimentavam seus exércitos com o
arenque salgado. As cidades pagavam impostos com dezenas de milhares de Clupeas.
Em 1390, o esmoler do rei da França comprou 78 mil arenques no mercado de Paris para
distribuir entre os hospitais e asilos.
O arenque salgado era barato e onipresente, mas não era um alimento atraente,
desdenhado quando possível até pelos pobres, pois tinha o gosto de madeira a menos
que fosse preparado com temperos elaborados. Mas a demanda era insaciável. A época
de glória da pesca do arenque ocorreu no início do século XlV, nas últimas décadas do
período de aquecimento. Talvez não seja coincidência o fato de as escolas de arenque e
os descarregamentos de peixe em lugares como Yarmouth terem sofrido grande declínio
com o esfriamento e a queda das temperaturas na superfície da água do Mar do Norte
ocorridos a partir de 1300. A combinação da pesca excessiva em resposta à demanda
inesgotável com a melhoria dos métodos para salgar o peixe, e, talvez, a mudança no
clima fizeram com que a indústria medieval do arenque tenha passado de sustentável
para insustentável.
Os nórdicos introduziram uma alternativa muito mais palatável em seus navios de guerra
e embarcações mercantis: bacalhau seco e salgado, conhecido entre eles como
stockfish. Gadus morhua, o bacalhau do Atlântico, é um peixe branco de carne firme com
baixo teor de gordura. Nos meses de inverno, os pescadores das Ilhas Lofoten, no norte
da Noruega, pescavam e secavam o bacalhau, que os nórdicos usavam como gênero de
primeira necessidade em suas viagens. Pilhas firmemente embaladas de bacalhau
alimentavam as tripulações durante as grandes viagens no Período de Aquecimento
Medieval. Nesses mesmos séculos, a Liga Hanseática do Báltico, que já dominava boa
parte do comércio de cereais no norte da Europa, e a produção de suas abundantes co-
lheitas, descobriu que podia ter lucros enormes trocando os cereais dos climas mais
temperados pelo bacalhau carregado em Bergen, no sul da Noruega. A Hansa já
dominava o comércio do arenque. Agora acrescentava o bacalhau ao seu estoque, por
isso os pescadores ingleses começaram a se afastar da costa, indo em busca do
bacalhau até o sul da Islândia, onde poderiam levar vantagem sobre a Hansa. Ao mesmo
tempo, eles encontraram um substituto para o arenque numa época de temperaturas
mais frias. Seus barcos de pesca, sua tecnologia e sua experiência provinham de séculos
de pescaria nas águas do Mar do Norte durante os verões benevolentes e outonos
amenos dos séculos de aquecimento. Esse aprendizado foi bom para eles quando as
esquadras de bacalhau foram para a Irlanda e Islândia, e depois para o Novo Mundo, nos
séculos posteriores.

Na Europa, os séculos de aquecimento tiveram seu efeito mais profundo no homem


comum, nas pessoas anônimas que alimentavam a sociedade. Reis, príncipes e senhores
tinham propriedades e terras, envolviam-se em intrigas, guerras e às vezes em
cruzadas. Tinham uma vida de cerimonial elaborado, cavalheirismo, crueldade e
violência. Suas habilidades tinham pouca relevância para o conhecimento necessário
para trabalhar a terra, para lidar com os caprichos das mudanças climáticas repentinas.
A maioria dos homens comuns trabalhava na terra; grande porcentagem era de
trabalhadores livres, muitos com habilidades específicas. Boa parte deles cuidava das
plantações de cereais; essas pessoas conheciam a rotação de culturas, as doenças que
podiam atacar as plantas e como era feito o armazenamento. Havia pastores de ovelhas,
de vacas, de porcos; outros eram peritos em drenagem. Catadores de enguias
prosperavam nos rios, lagos e em pântanos distantes, pois a enguia defumada tinha se
tornado moeda-padrão para o aluguel. As mulheres criavam abelhas, produziam cerveja
e fiavam a lã. Cada geração aprendeu na prática com sua predecessora, ou na forma do
boca-a-boca, passando grande número de informações, muitas vezes secretas,
descobertas com o trabalho na terra em qualquer época, onde as alternâncias do clima,
de quente para frio, de úmido para seco, podiam ocorrer praticamente do dia para a
noite.
Para os senhores e príncipes, o campesinato era uma presença anônima que cultivava o
solo e proporcionava alimentos. Mas foram essas pessoas simples que mantiveram a
Europa alimentada e que ajustaram as lavouras ao aquecimento. Seus excedentes
alimentaram os exércitos e os trabalhadores que construíram não apenas palácios, mas
também a mais impressionante de todas as estruturas medievais: as catedrais góticas.
Seu trabalho derrubou árvores para fazer vigas, extraiu as pedras para as torres e naves
sublimes. As enormes igrejas, que podiam ser avistadas a grandes distâncias, uniam o
mundo vivo ao mundo divino, pois, naqueles dias de devoção, todas as coisas ema-
navam do reino de Deus. Grandes catedrais, como Sens e Chartres, construídas com
grandes somas, foram sacrifícios metafóricos de pedra e bens materiais oferecidos na
expectativa de favores divinos. O favor mais esperado era uma boa colheita, pois,
mesmo nessas épocas mais quentes, o lavrador não podia relaxar.

Quatro séculos de rápido crescimento populacional e oferta de alimentos geralmente


abundante, de ocupação desenfreada das florestas e crescimento acelerado de vilas e
cidades: a Europa era um continente muito diferente no final dos séculos de
aquecimento. Porém, no final do século XIII, a Europa enfrentava sérios problemas
econômicos, pois o crescimento populacional tinha ultrapassado os vários saltos de
crescimento da produção agrícola. Em 1300, boa parte da população vivia em condições
piores do que no século anterior porque a inflação corroía a riqueza e as classes
superiores exigiam cada vez mais dos comuns. Os lavradores responderam a isso
ocupando terras marginais e tomando outros atalhos, como a diminuição do período de
repouso do solo, o que, em época de verões relativamente previsíveis, podia parecer
uma maneira lógica de melhorar o resultado das colheitas. Fatalmente, aumentaram as
dívidas dos lavradores com os proprietários de terras, ao mesmo tempo em que a
incerteza econômica também se abateu sobre quem vivia nas cidades, onde os
caprichos do comércio de lã e outras indústrias podiam causar devastação, e os
bloqueios militares faziam parte da vida.
Todos esses problemas tinham potencial para transformar boa parte da Europa Ocidental
em um barril de pólvora, mas eventos climáticos interferiram dramaticamente em 1315.
"Durante essa estação [primavera de 1315] choveu maravilhosamente e durante muito
tempo", escreveu um cronista da época, Jean Desnouelles. A chuva começou sete
semanas depois da Páscoa, justamente quando as novas safras estavam no chão. Em
pouco tempo, campos que tinham acabado de ser lavrados se transformaram em
charcos, com as sementes sendo arrancadas da terra. O solo lamacento escorreu pelas
recém-abertas encostas de terras marginais, criando sulcos profundos em novos
campos. Culturas de milho e aveia, pesadas com a umidade, mal conseguiram
amadurecer. O dilúvio continuou no outono. Houve fome no Natal pelo "aumento
exorbitante da farinha". Até as campanhas militares, que normalmente prosseguiam
qualquer que fosse o tempo, interromperam seus movimentos. Quando as batalhas
foram retomadas, impediram a distribuição de cereais para comunidades famintas. As
chuvas continuaram em 1316, levando muita gente à penúria, pois as plantações
simplesmente não amadureceram. "Houve grande falta de vinho em todo o reino da
França" porque o míldio atacou as videiras. O sofrimento continuou por sete anos,
terminando em 1322, com um inverno rigoroso que imobilizou os navios em uma vasta
área.
Ao longo desses anos, a produção de cereais em boa parte do norte da Europa deve ter
caído cerca de um terço, embora, é claro, os efeitos fossem diferentes de um lugar para
outro. Os rebanhos foram reduzidos em até 90% por causa de doenças, como a peste
bovina e a fasciolíase, trazidas pelo tempo úmido. As frutas apodreciam nas árvores
saturadas; as costas e os lagos de peixes foram devastados, tudo isso fora o estrago
causado às culturas industriais, como o linho. Pelo menos 30 milhões de pessoas corriam
o risco de desnutrição. Ninguém sabe exatamente quantos europeus morreram de fome
e doenças relacionadas, mas houve pelo menos 1,5 milhões de mortos, pobres em sua
maioria.
Inevitavelmente, em uma época religiosa e supersticiosa, a fome foi atribuída à ira de
Deus. Procissões de penitentes fanáticos vagavam pelas ruas de vilas e cidades.
Quando terminaram os anos de fome, o clima mais estável dos séculos de aquecimento
era uma lembrança distante. Condições muito mais imprevisíveis, tempestades muito
mais fortes e ciclos de invernos muito frios ou verões quentes marcaram o início gradual
da Pequena Idade do Gelo. Mas o pior ainda estava por vir, em pouco mais de uma
geração. Em 1347, um navio do Mar Negro parece ter trazido a praga para a Itália. A
bactéria da praga, Yersinia pestis, vive nas pulgas, que habitam hospedeiros de sangue
quente, como ratos, gatos ou seres humanos. A Peste Negra, que deve esse nome às
descolorações escuras da pele resultantes da infecção do sangue, espalhou-se
rapidamente pelas rotas de comércio até a França. Em 1348, chegou à Inglaterra e
Espanha, depois à Escandinávia. Entre 1348 e 1485, houve 31 grandes surtos somente
na Inglaterra. Em 1346, oitenta milhões de pessoas viviam na Europa. Vinte e cinco
milhões morreram devido à pandemia entre 1347-51. Tendo atingido o nível mais baixo
em 1450, só em 1600 a população da Inglaterra conseguiu recuperar os níveis anteriores
à praga, e a da Noruega, apenas em 1750.
Não havia defesa contra a Peste Negra, que se espalhou como fogo entre as populações
urbanas. Nenhum remédio fitoterápico funcionava; sanguessugas e sangrias não
proporcionavam qualquer alívio. Como ninguém sabia como se espalhava a doença,
ninguém tomou providências para eliminar os ratos e outros animais que carregavam as
pulgas infectadas. Quando ficou claro que o risco de infecção era menor longe das
cidades populosas, a nobreza e a classe média mudaram-se para o campo. Algumas
comunidades religiosas, nas quais os monges viviam em lugares fechados, perderam
cerca de 60% de seus membros. A Igreja mergulhou na crise; a produção agrícola caiu
vertiginosamente; os proprietários tinham dificuldade para encontrar camponeses para
trabalhar em suas terras. Os soldos na agricultura subiram rapidamente, mas a situação
dos agricultores de subsistência talvez fosse ainda melhor, pois havia mais terras
disponíveis e menos bocas para alimentar, tanto no campo quanto nas cidades. As terras
marginais agora podiam descansar. Mas novas ondas de infecção na década de 1360
logo varreram todos os ganhos, para não falar do impacto emocional causado pela perda
de um terço (a porcentagem é controvertida) da população da Europa em poucos anos.
Somente as guerras constantes continuaram, mantidas pelos governantes na convicção
de que Deus havia trazido a fome e a praga para castigar as pessoas por seus pecados.
Aqueles que combatiam uns aos outros ou praticavam a opressão econômica
acreditavam que estavam cumprindo as ordens de Deus com atos virtuosos que
restaurariam a justiça no mundo. A violência rural e urbana atingiu níveis sem
precedentes em uma Europa que, depois da Peste Negra e dos séculos de aquecimento,
nunca mais seria a mesma.
Mas o Período de Aquecimento Medieval tinha ajudado a mudar a Europa de maneira a
deixá-la irreconhecível e havia ampliado os limites mentais e físicos da sociedade
européia. Durante esses séculos, os navegadores nórdicos aproveitaram as condições
favoráveis do gelo no Atlântico Norte para chegarem até a Islândia, Groenlândia e
Labrador - terras que antes estavam fora da consciência européia. Essas viagens serão
descritas no Capítulo 6.

CAPÍTULO 3
O Mangual de Deus

Agora que chegara ao acampamento do Kahn, no fim do terceiro mês, a grama era verde
e as árvores floresciam por toda a parte, e as ovelhas e os cavalos estavam bem
crescidos. Mas quando ele partiu, no fim do quarto mês, já não havia uma lâmina de
grama ou qualquer vegetação.

- CH’ANG CH'N, The Travels of an Alchemist (1228)


"A credita-se que a Europa represente um terço de todo o mundo", informa um
enciclopedista do século XIV. "A Europa começa no Rio Tanais [Don] e se estende pelo
Mar do Norte até o fim da Espanha. As partes leste e sul sobem do mar chamado Pontus
Euxinus [o Mar Negro] e todos se juntam ao Grande Mar [o Mediterrâneo], terminando
nas ilhas de Cadiz [Gibraltar]. Para os europeus medievais, as terras longínquas da
planície européia em direção ao oriente eram um reino virtualmente desconhecido, em
que um terreno que ondulava suavemente desaparecia na distância e a Europa acabava
se tornando a Ásia. A população era esparsa e, em sua maior parte, mudava-se
constantemente, com seus movimentos sendo ditados em grande medida pelos ciclos da
seca.
Ambientes desérticos e semi-áridos são extremamente sensíveis até a variações
mínimas de chuvas. Poucos milímetros a mais de chuva podem diminuir as fronteiras de
um deserto em centenas de metros quadrados. Água parada pode surgir onde nada
existiu durante várias gerações. Agora imagine se o volume de chuva continua
crescendo um pouquinho durante alguns anos. Os pastos surgem como que por mágica;
bandos de antílopes se alimentam do que era até recentemente terra árida. Os nômades
pastoreiam suas ovelhas e gado perto de poços de água e por onde quer que encontrem
pasto. Então falta água. Os leitos dos córregos secam; os poços de água desaparecem; a
grama resseca e morre. Com a experiência de gerações, os pastores levam seus animais
para as margens dos desertos, para terras abastecidas por água. Terras áridas como as
estepes e desertos funcionam como grandes bombas. Quando a chuva aumenta, mesmo
que ligeiramente, o deserto atrai os animais, plantas e pessoas com suas promessas de
água e terra para pastorear. Como um pulmão gigante, a bomba pode prender a
respiração por algum tempo, mas é inevitável que volte a expirar com o retorno das
secas, expulsando os nômades, seus rebanhos e antílopes para as suas margens.
A Europa foi bem abastecida de água durante o Período de Aquecimento Medieval, com
temperaturas ligeiramente mais elevadas e um pouco de seca, mas certamente
favoráveis para a agricultura de subsistência. Os europeus viviam em uma península
geográfica cercada por ambientes muito mais áridos, onde a bomba do deserto
determinava o ritmo da existência humana. A seca era a dura realidade de um mundo
mais quente nesses ambientes, com potencial para mudar a história.
Os gregos e romanos viam as tribos nômades da Eurásia como bárbaros que ficavam à
espreita junto aos portões, ameaçando-os com a destruição, saques e pilhagem. Não se
pode culpá-los inteiramente: os nômades citas ao norte do Mar Negro eram conhecidos
pelo fato de usarem as caveiras de suas vítimas para beber. Da mesma forma, a Europa
medieval imaginava-se cercada por um mundo hostil - pressionada pelo islamismo no
leste, cercada no oeste por um oceano que se estendia em direção a um horizonte
tempestuoso, e ameaçada pelas tribos nômades das planícies sem fim da Eurásia. A
ameaça dos nômades era real. No dia 9 de abril de 1241, um exército de mongóis
comandados por um general chamado Subutai derrotou os príncipes poloneses
comandados por Henrique II, "o Devoto", em Legnica, na Silésia, que agora faz parte da
Polônia. Os cavaleiros de armaduras pesadas de Henrique II não foram páreo para os
ágeis mongóis com suas flechas. Diz-se que os conquistadores juntaram nove sacos
cheios de orelhas direitas dos corpos de suas vítimas brutalmente assassinadas.
Somente a morte do Grande Khan Ogötai Khan em sua pátria no final daquele mesmo
ano impediu que o líder mongol Batu Khan continuasse sua investida para o Ocidente
até chegar à costa atlântica.
As estepes da Eurásia são um ambiente hostil, sujeitas à seca e a chuvas torrenciais,
castigadas por imenso calor e frio implacável. Foram elas o lar de um dos grandes
conquistadores da história: Ginghis (Gêngis) Khan, cujo império se expandiu
rapidamente durante o Período de Aquecimento Medieval.

Gêngis Khan se autoproclamava "o mangual de Deus". Guerreiro brutal, ele se atirou
sobre a China e a Ásia Central com sede de sangue, com a força de uma marreta. Em
1220, dirigiu-se aos cidadãos aterrorizados de Bukhara, do púlpito da mesquita central
da cidade: "Ó, povo, saibam que cometeram grandes pecados, e que os grandes entre
vocês cometeram esses pecados. Se me perguntarem que provas tenho dessas palavras,
digo que é porque sou eu a punição de Deus". Ele falou com astuto conhecimento dos
conquistados.
Como as secas e as pragas, Gêngis Khan parecia um instrumento de vingança divina.
Tanto cristãos quanto muçulmanos ficaram apavorados com sua aproximação. Os
compiladores anônimos das Crônicas de Novgorod, importante ponto das rotas de
comércio que ligavam Bizâncio ao Báltico, chamaram os mongóis de "ímpios e pagãos".
Eram implacáveis na vitória. "Deus enviou os pagãos para cima de nós por causa de
nossos pecados", lamentaram os cronistas em 1238. "O demônio se regozija com os
assassinatos brutais e o derramamento de sangue." Deus estava punindo a cidade com
"morte por causa da fome; ou através do castigo dos pagãos; ou com a seca; ou com a
chuva pesada; ou com outras punições... Mas nós sempre nos voltamos para o mal,
como suínos, sempre chafurdando na sujeira dos nossos pecados."
Gêngis Khan desempenhou o papel de conquistador com habilidade consumada. Ele era
"um homem de grande estatura, constituição física vigorosa, corpo robusto, pelos
escassos e esbranquiçados no rosto, com olhos de gato, possuidor de grande energia,
discernimento, gênio e entendimento, que despertava terror; um açougueiro, justo,
resoluto, destruidor de inimigos, intrépido, sanguinário e cruel". Embora preferisse que
seus inimigos se rendessem e se submetessem, recorria à carnificina se o desafiavam.
Quando a rica cidade chinesa de Chung-Tu, atual Pequim, se recusou à submissão,
Gêngis Khan atacou-a violentamente, colocando os prisioneiros como tropas de ataque
na linha de frente e depois arremessando as cabeças das vítimas para as linhas inimigas.
Alguns anos depois, um visitante muçulmano reparou em uma colina branca perto da
cidade reconstruída: ela era formada pelos ossos dos milhares de massacrados na queda
de Chung-Tu, e foi queimada. O maior de todos os conquistadores mongóis derramou rios
de sangue por onde quer que seus exércitos acampassem.
Gêngis Khan era de origem humilde, tendo alcançado proeminência graças à pura
habilidade e à crueldade. No início ele era um dos muitos líderes de uma colcha de
retalhos formada por tribos nômades, compreendendo cerca de dois milhões de pessoas
espalhadas pelas vastas estepes da Eurásia. A guerra era um meio de vida para os
nômades, que lutavam a cavalo. Eles eram lutadores experientes e combatentes
implacáveis, também encarniçadamente independentes, liderados por chefes tribais que
faziam alianças com o único objetivo de acumular riquezas com animais domésticos. Em
1206, Gêngis Khan foi eleito o Grande Khan dos mongóis. Ele era estrategista e
conquistador brilhante, era igualmente um talentoso administrador. Rompeu
rapidamente a antiga estrutura tribal, organizou seu exército em unidades-padrão
rigidamente estruturadas em múltiplos de dez, começando com o harban (dez homens)
e terminando com o tümen (dez mil soldados). As tropas lutavam como unidades; não
era preciso dar ordens a mais do que dez pessoas de cada vez. Os exércitos mongóis
eram famosos pela habilidade para disparar suas flechas em todas as direções a pleno
galope. Cada cavaleiro usava uma camisa de seda sob uma armadura ou roupa de couro,
que o protegia efetivamente das flechas. Usavam capacetes de metal ou couro e
carregavam dois arcos complicados, feitos de pedaços de madeira e chifre de iaque, e
pelo menos 60 flechas. Alguns carregavam lanças pesadas, clavas e cimitarras; outros,
espadas e dardos. Cada guerreiro carregava suas próprias provisões, utensílios para
cozinhar e outros equipamentos em um alforje inflável feito com o estômago de uma
vaca. Os exércitos mongóis conquistavam com mobilidade, estratagemas e táticas de
engodo, além de usarem fogos de artifício feitos com pólvora para aterrorizar o exército
que os esperava. Eles sabiam que deixavam os inimigos aterrorizados e tiravam proveito
disso.
No início, o reino de Gêngis Khan era pouco mais do que uma colcha de retalhos
composta por tribos e mantida pela força da sua personalidade, suas habilidades
militares e a perspectiva de um saque além da imaginação, adquirido com as conquistas
e ataques a terras ocupadas. Porém, em pouco mais de vinte anos, os exércitos de
Gêngis Khan varreram as estepes e o sul com rapidez de tirar o fôlego e eficiência
implacável. Os mongóis massacraram tantos seres humanos que o historiador persa
Juvaini afirmou que as faltas jamais se tornariam coisas boas no Dia do Juízo Final.
Cidades famosas foram reduzidas a escombros; o sistema de irrigação do Iraque,
desenvolvido durante muitos séculos, foi totalmente destruído. Milhares de habitantes de
Bagdá foram massacrados sem misericórdia, em 1258. Os reflexos dessas conquistas se
espalharam para longe. A cristandade ficou enfraquecida. O islamismo foi fortalecido,
mas a fé que emergiu a partir do calvário das conquistas era mais estreita, mais limitada
e fechada para novas idéias. As grandes tradições do conhecimento islâmico na
medicina, matemática, história, geografia e astronomia que haviam florescido do ano
800 até 1200 agora murchavam diante da ortodoxia religiosa. Gradualmente, a primazia
intelectual e científica passou do mundo islâmico para a Europa Ocidental. Enquanto
isso, as condições de paz na Ásia Central encorajaram alguns poucos viajantes europeus
a se aventurarem pelo intrincado traçado da antiga Rota da Seda até a China, entre eles
o veneziano Marco Polo (1254-1324), que foi contratado pelo imperador mongol Kublai
Khan. Em 1260, um frade franciscano era o arcebispo de Pequim.
Gêngis Khan não se destacou apenas nas conquistas, mas também em sua compreensão
de que um império - diferentemente de um reino - precisava ter como base um governo
estável, uma administração eficiente, comércio próspero entre as estepes e as terras
colonizadas, além de lei e ordem. Ele transformou os domínios mongóis em um imenso
império ligado por uma eficiente rede de comunicação e mantido em ordem por
ameaças militares veladas e a reputação selvagem de suas tropas. Foi Gêngis Khan
quem disse aos exércitos para conquistarem primeiro; depois, saquearem, e não as duas
ações ao mesmo tempo. Rebeldes e chefes condenados por traição recebiam punição
brutal. Às vezes, eram enrolados em tapetes e arrastados por cavalos. Ou, como
aconteceu com um chefe curdo, eram amarrados, cobertos com gordura de ovelha e
abandonados para morrer de inanição e consumidos por vermes.
O Grande Khan considerava a si mesmo um instrumento da punição divina, mas, na
realidade, suas conquistas vertiginosas deveram-se muito não só à sua liderança e
carisma, mas também à realidade do clima medieval nas estepes e a um estilo de vida
que dependia da mobilidade e anatomia única do cavalo. Os ritmos da vida nômade
acompanhavam as oscilações da bomba do deserto, que trazia seca, ondas de calor, frio
intenso e inundações. Esses ritmos se revelaram profundamente na história, muito antes
de os quatro séculos de aquecimento medieval terem descido sobre as estepes. Porém,
onde Gêngis Khan revelou sua genialidade foi na tentativa de levar seus domínios muito
além da tirania dos cavalos e da bomba do deserto. Nisso, tanto ele quanto seus
sucessores, pelo menos em parte, foram bem-sucedidos. O palco nômade cobria uma
área enorme de terreno variado, que ia do Danúbio, a oeste, até um cinturão cada vez
mais aberto que se tornava parte das estepes da Ásia Central, a leste do Rio Volga. O
país dos cavalos estendia-se até a Grande Muralha da China, mais de 7 mil quilômetros
para leste. Escritores populares normalmente pintam as estepes como um imenso
gramado que se estende por milhares de quilômetros sem qualquer alteração. Na
verdade, o termo "estepe" encerra uma impressionante variedade de ambientes - estepe
florestal, com árvores e irrigação relativamente melhor; pastos abertos; vales de rios;
áreas pantanosas e montanhosas. Os pântanos, florestas e tundra aberta marcavam os
limites setentrionais inóspitos da estepe. Para o sul, pastos e desertos iam das
montanhas Nan Shan e Tian Shan às "Montanhas do Paraíso", no leste, ao longo do Rio
Oxus (Amu Darya) e do platô iraquiano, depois pulavam contra os bastiões naturais do
Mar Negro, os Cárpatos e o Danúbio. Mas o coração da estepe sempre foram os pastos
ao longo da fronteira setentrional da cordilheira Tian Shan e da fronteira sul da
cordilheira de Altai. Desde a época dos citas, mais de mil e quinhentos anos atrás,
cavaleiros nômades galoparam pelos desfiladeiros baixos entre essas cadeias de
montanhas, da Ásia para a Europa.
As distâncias são enormes para qualquer padrão, abrindo-se para paisagens onde as
pessoas e seus animais parecem pontos diminutos em relação à terra e ao céu. O frei
medieval William de Rubreck, que se apresentou à corte mongol como enviado do papa
em 1253-55 e visitou um dos sucessores de Gêngis Khan, Möngke, disse que as estepes
eram "como o oceano", vastas, praticamente desabitadas e perigosas. Viajar através
desse país é estar perdido na imensidão da paisagem, ser reduzido à insignificância pela
pura escala do terreno. As estepes diminuem o indivíduo. Eu me lembro de uma vez ter
cruzado o vale do Rio Kafue, na África Central, uma várzea totalmente plana, inundada
sazonalmente. Vimos o que pareciam ser algumas árvores a distância; então elas
começaram a se mexer. Era uma manada composta por milhares de antílopes. Os
cavaleiros de Gêngis Khan deviam parecer árvores em movimento na imensidão das
estepes, que traziam perigo, ameaça e carnificina. Dizem que o Grande Khan falou para
William de Rubreck: “Assim como o sol estende seus raios, também meu poder... se
estende por toda parte".
Localidades mencionadas no texto. Algumas regiões menores foram omitidas.

O clima continental da Eurásia é sempre duro, com temperaturas médias caindo do


oeste para o leste. A topografia plana, baixos índices de chuva e ventos secos freqüentes
inibem o crescimento de árvores. Os invernos duram oito meses, são secos,
normalmente com frio intenso e muito vento. As ventanias intermináveis redistribuem a
cobertura de neve, tal como ela é. Os verões são tórridos; as ondas de calor e seca são
comuns. Seguindo em direção a leste, passando os Montes Urais, as temperaturas caem
ainda mais, a neve do inverno fica mais tempo no chão e o clima é consideravelmente
mais seco. Por toda a estepe, as plantas enraízam-se profundamente no chão em
resposta à aridez, enquanto que a maioria dos animais menores vive sob o solo. Nos
tempos antigos, cavalos selvagens e asnos, assim como antílopes saiga, atravessavam
as estepes em manadas de até mil cabeças. Eles não causavam qualquer dano à
vegetação, que vicejava com pastoreio moderado. Mas o pastoreio excessivo,
principalmente quando o solo está molhado na primavera e perde rapidamente a
umidade, destrói o pasto.
As estepes eram uma pátria exigente, até mesmo para os pastores mais experientes.
Gêngis Khan podia varrer exércitos e derrubar reis, mas não podia controlar a realidade
do ambiente da estepe ou as limitações dos cavalos que compunham seus exércitos.

Ano 1100. O vento norte extremamente frio açoita o rosto dos cavaleiros, encolhidos em
seus selins, inclinados na escuridão. Seus cavalos compactos trotam firmemente,
indiferentes ao frio, seguindo um caminho praticamente impossível de distinguir através
do vale estreito. Mais adiante estão os limites intermináveis de pastos áridos, onde um
homem pode se perder em questão de horas sem que encontre qualquer referência para
orientá-la. Mal começou o ano e já estão se mudando, sabendo que a sobrevivência
depende de sua jornada de reconhecimento. Eles seguiram para o Norte deixando o
refúgio do acampamento de inverno, viajando pelo vale onde eles e seus ancestrais
pastoreiam seus animais há mais tempo do que são capazes de lembrar. Enquanto
cavalgam, conservam o olhar atento, perscrutando o horizonte à procura de outros
cavaleiros, talvez hostis, buscando lugares de bom pasto e sinais de que a chuva caiu
enquanto a neve derretia. Em poucos dias, cavalgarão em direção ao Sul, com o vento
às suas costas, armados com a inteligência intuitiva a respeito dos elementos da vida
nas estepes - grama para o pastoreio e água. De volta ao acampamento de inverno, o
Khan e seus conselheiros ouvirão suas recomendações para programar a movimentação
do grupo em direção ao Norte, para as pastagens de verão.
Para os mongóis, o cavalo era tudo - comida, leite, queijo, iogurte e até mesmo fonte de
álcool na forma do leite fermentado das éguas, o cúmis. Os cavalos eram riqueza,
prestígio, potente arma militar e, acima de tudo, fonte de liberdade, e mobilidade. Na
época do Grande Khan, o corcel compacto e vigoroso dos mongóis era parte integrante
da vida nas estepes havia pelo menos 4.500 anos.
Os cavalos foram domesticados em torno de 3.500 a.C., muito depois dos bois, cabras e
ovelhas, às margens das estepes e provavelmente em vários locais: na região do Mar
Negro; provavelmente, também nas Montanhas Altai, que ainda são pouco conhecidas
arqueologicamente. Os cavalos se adaptavam muito melhor do que outros animais ao
frio intenso e à neve, e isso desde a idade do gelo, quando passaram a ser uma das
presas favoritas de um pequeno número de caçadores das planícies. Entre 3.300 e 3.100
a.C., um ciclo climático mais frio, mais seco (que coincidiu com uma seca rigorosa na
Mesopotâmia) levou à domesticação mais ampla de cavalos, que logo se tornaram
fundamentais para a vida humana na estepe e mudaram a história.
A equitação representou uma mudança revolucionária, apesar de lógica, no transporte
humano. Diminuía o tempo de viagem através da estepe, permitindo que as pessoas
explorassem recursos alimentares muito dispersos, aumentando os limites territoriais em
cinco vezes e zombando das limitações anteriores. Nas estepes, os recursos alimentícios
podiam ser ricos em algumas áreas, como nos vales de rios maiores, mas grandes
extensões de território pobre, às vezes hostil, separavam áreas de abundância. Quem
quer que conseguisse cobrir essas distâncias com relativa rapidez poderia sobreviver na
estepe, e o resultado foi a mudança de toda a forma da sociedade. Agora era possível
transportar grandes quantidades de comida e outros produtos com facilidade,
especialmente quando se combinavam os cavalos com os carros de bois. A riqueza seria
medida ao menos em parte pelos cavalos; a interdependência com os vizinhos e
fazendeiros estabelecidos aumentaria porque os cavalos eram uma mercadoria
desejável, que facilitara o comércio de longas distâncias. Acima de tudo, os cavaleiros
montados poderiam cruzar longas distâncias para atacar seus inimigos e depois recuar
em segurança para escapar de seus perseguidores a pé. Na época de Gêngis Khan, as
pilhagens, os ataques e a guerra eram parte integrante da vida nas campinas havia
milhares de anos. Seus precursores remotos, os citas, eram os "bárbaros" típicos,
rondando o norte do mundo clássico civilizado. O historiador grego Heródoto escreveu a
respeito de suas guerras selvagens descrevendo como eles escalpelavam seus inimigos,
transformando suas caveiras em canecas, que eles fixavam com ouro e carregavam em
seus cintos. Quando atacados, simplesmente desapareciam na vastidão da estepe.
Os citas são considerados a melhor cavalaria leve do mundo. Foram esses mestres
cavaleiros que introduziram os cavalos na Europa temperada. Acredita-se que seus
sucessores, os sármatas, que interromperam seu domínio no século IV a.C., inventaram
o estribo, o que permitiu que carregassem longas lanças enquanto se mantinham em
cima da sela e derrubassem seus inimigos dos cavalos.
Os nômades da estepe não se fixavam em um só lugar, pois isso seria um convite ao
desastre devido ao pastoreio excessivo. Eles viviam de suas manadas e seus cavalos; às
vezes plantavam cereais em locais convenientes, abandonavam as plantações sem
cuidados e voltavam meses depois para a colheita. Mas também se envolviam em uma
dança intrincada com o pêndulo climático por causa de suas vulneráveis montarias.
Os cavalos traziam mobilidade, mas também podiam ser uma grande desvantagem
devido à sua ineficiência digestiva. O gado se alimenta com eficiência no sentido de que
excreta apenas 25% da proteína que consome. Isso significa que pode comer grama
seca, com pouca proteína, e ainda assim sobreviver. Os cavalos digerem apenas 25% da
proteína que consomem; o resto é excretado. Ambos usam o que é chamado de câmara
de fermentação para transformar a proteína das plantas em energia. A câmara da vaca,
ou rúmen, fica em um ponto do corpo em que a comida ainda não foi digerida. Ali, a
ação das bactérias quebra a proteína da planta, boa parte dela presa nas paredes das
células das plantas. A proteína que acaba de ser quebrada para o duodeno, é quebrada
ainda mais em aminoácidos. A partir daí, a proteína passa para o intestino delgado; ali,
ela é absorvida pela corrente sanguínea e utilizada para objetivos importantes, como a
formação de músculos e alimentação dos fetos. O rúmen do cavalo fica no intestino
grosso, em uma posição onde o alimento já passou pelo duodeno e intestino delgado.
Por isso o cavalo produz pequenas quantidades de aminoácidos e não absorve grandes
quantidades de proteína pelas paredes do intestino. A proteína da planta é quebrada
pela ação de bactérias num ponto ineficaz e se transforma em proteína rica em
hidrogênio, que beneficia o solo, não o animal.
Normalmente, o pasto é tão abundante nas estepes que nem o gado nem os cavalos
precisam reter toda a proteína das plantas que comem. Mas, em épocas de seca, a
proteína se torna escassa. A grama viva tem cerca de 15% de proteína; morta, apenas
4%. Quando a seca mata a grama fresca, a retenção de proteína se torna extremamente
importante. O gado retém três vezes mais proteína do que os cavalos.
Os cavalos tinham mais utilidade em termos de estratégia militar e para levar cargas,
mas um único inverno frio ou um verão intenso poderiam matar dezenas de animais,
especialmente quando o chão ficava coberto por uma grande camada de neve ou
quando faltava alimentação no inverno. As fêmeas não conseguiam alimentar os filhotes;
animais famintos começariam a morrer alguns meses depois, com a seca destruindo não
só os filhotes mas também uma fonte vital de leite, queijo e iogurte. Os nômades eram
obrigados a comer seus cavalos mortos. Se o ciclo de seca durasse dois ou três anos, os
efeitos seriam ainda mais desastrosos. Incapazes de encontrar comida, sem os seus
cavalos, e incapazes de se defender ou atacar, eles não tinham escolha senão juntar-se
a outros grupos, morrer de fome, ou mudar-se. Em alguns anos, milhares de cavalos
iriam morrer. Só havia uma solução: procurar pastos melhores. Estes normalmente
ficavam ao sul, às margens das terras - e às vezes nas próprias - cultivadas por
lavradores.
A dança entre os nômades e a seca começou muito antes de Gêngis Khan e persiste até
nossos dias. Nela talvez esteja uma das razões por que as hordas do Grande Khan
irromperam oito séculos atrás sobre um mundo despreparado, que de nada suspeitava.
As estepes são um grande vazio no que diz respeito aos estudos climáticos: as
observações instrumentais, ainda hoje, são poucas e espaçadas. Por isso mesmo, os
registros históricos da época medieval são uma raridade preciosa, mesmo aqueles que
dizem muito pouco sobre os acontecimentos climáticos. Os climatologistas russos
catalogaram eventos climáticos extremos, como grandes secas na Eurásia desde o início
do século XI, registrando ciclos de calor excepcional e períodos de frio de mais de trinta
anos. Eles relacionaram esses ciclos aos registros de trinta anos de temperatura e
chuvas tirados de variáveis locais como anéis de árvores e informação hidrológica. As
curvas de temperatura resultantes falam de um ciclo de aquecimento de quatro séculos
começando por volta do ano 850, com invernos moderados e verões secos, o que
coincide com as condições de aquecimento na Europa Ocidental. Não que o clima tenha
sido sempre benigno. As Crônicas de Novgorod falam de chuvas de outono catastróficas
em 1143 e 1145, que destruíram colheitas e provocaram fome. Os cronistas também
falam a respeito de 17 anos de fome provocada pelo clima durante o início do século XIII,
culminando com um período de fome induzida pela seca em 1215, que forçou os
habitantes da cidade a comerem cascas de árvore e vender suas crianças para servirem
de escravos. Em 1230, outra seca trouxe mais sofrimento: “Algumas pessoas comuns
mataram os vivos e os comeram; outras cortaram a carne morta e os cadáveres e os
comeram; outras ainda comeram cães e gatos... Outras se alimentaram de musgo,
lesmas, cascas dos pinheiros, folhas de visgo e olmo, e o que quer que encontrassem".
Esses desastres ocorreram no auge de épocas de aquecimento bem-documentadas na
Europa Ocidental, quando navios nórdicos ainda viajavam para a Islândia e Groenlândia
e traziam madeira de Labrador. No mesmo período, os eslavos colonizaram a costa do
Ártico russo, em Novaya Zemlya, antes da chegada da Pequena Idade do Gelo.
Os cronistas de Novgorod dizem que o clima dos séculos de aquecimento da Eurásia
jamais foi estático; graves secas e invernos rigorosos se alternaram com períodos mais
tranqüilos, mais benignos, como os do início do século XlV. Desde a Idade do Gelo, a
Oscilação do Atlântico Norte e sua gangorra de pressão atmosférica entre os Açores e a
Islândia governaram o clima da Europa Ocidental. A alta pressão sobre os Açores e a
baixa pressão sobre a Islândia trazem sempre ventos de Oeste e invernos amenos. Mas
quando a alta pressão se forma sobre a Islândia e Escandinávia, as temperaturas de
inverno despencam tanto no Ocidente quanto nas estepes. A Ásia Central está longe das
influências moderadoras do Atlântico e do Pacífico; os sistemas do clima continental
causam mudanças dramáticas nas chuvas e temperaturas, alterando o ambiente das
planícies em poucos dias. Mesmo uma primavera ligeiramente tardia ou poucas semanas
de seca de verão podem devastar o pasto de um ano. Os registros dos cronistas de
Novgorod não se aplicam, é claro, às estepes, mas podemos ter certeza de que o padrão
de ciclos mais frios e mais úmidos, mais quentes e mais secos, aplicava-se a quase toda
a Eurásia.

A Oscilação do Atlântico Norte

A Oscilação do Atlântico Norte - North Atlantic Oscillation (NAO) é uma gangorra irregular
de mudanças na pressão atmosférica entre a alta contínua sobre as Ilhas dos Açores, no
Atlântico, e uma baixa que permanece sobre a Islândia. As mudanças da NAO fazem
parte da complexa dinâmica entre oceano e atmosfera no Atlântico Norte, que ainda
hoje é pouco compreendida. Mas a NAO tem importância crítica, pois afeta a posição e a
força de tormentas no Atlântico Norte, que levam chuva para a Europa e partes da
Eurásia. Quando a baixa pressão persiste sobre a Islândia e a alta pressão se forma
próximo a Portugal e os Açores, ventos de oeste persistem sobre o Atlântico Norte,
tempestades de inverno são fortes, chuvas na Europa Setentrional são abundantes e
temperaturas de inverno são amenas. Inverta-se o índice de "alto" para "baixo", quando
a pressão é alta no norte e baixa no sul, e a Europa sofre com temperaturas muito mais
frias de inverno enquanto os ventos de oeste ficam mais fracos. Um ar extremamente
frio sopra do sul e do oeste do Pólo Norte e da Sibéria. Ninguém conseguiu ainda prever
as alterações da NAO, que pode permanecer em "alta" ou em "baixa" por sete anos ou
mais, até mesmo por décadas, mas às vezes está sujeita a mudanças rápidas.
Há outro gradiente de pressão que também afeta os invernos da Europa. Durante
"baixas" extremas, formam-se sistemas de alta pressão constante entre a Groenlândia e
a Escandinávia. As temperaturas ficam então acima da média na Groenlândia e muito
mais baixas do que o normal tanto no norte da Europa quanto no leste da América do
Norte. Quando a pressão sobre a Groenlândia é mais baixa do que na Europa, invertem-
se as temperaturas, e os invernos europeus são mais amenos. Essa "baixa na
Groenlândia" deve ter persistido durante os séculos de aquecimento.
O comportamento da NAO depende de muitos fatores complexos, entre eles as
temperaturas da superfície da água no Atlântico, das águas mornas na Corrente do Golfo
e dos poderosos mergulhos perto do sul da Groenlândia, que fazem com que grandes
quantidades de água pesada, salgada, da Corrente do Golfo afundem bem abaixo da
superfície dos oceanos para abastecer a corrente transportadora do oceano que circula
água pelos mares do mundo. Existem ligações claras entre a NAO e as rotações
complexas da oscilação no Pacífico Sul (ver Capítulo 9), que geram os fenômenos El Niño
e La Niña, mas eles ainda não foram muito bem definidos.
As secas na estepe são causadas geralmente por sistemas persistentes de alta pressão
sobre o Ártico. Esses sistemas, que podem permanecer estacionários por longos
períodos, impedem a passagem dos sistemas frontais que normalmente levam as chuvas
e atraem um frio intenso e ar seco dos mares do Norte. O ar fresco do Ártico acentua as
condições de ar seco. Em 1972, por exemplo, um anticiclone centrado sobre Moscou
permaneceu durante todo o verão, bloqueando a passagem das depressões do Atlântico.
Condições extremamente quentes, quase desérticas, em regiões como o Volga e a
Ucrânia, cortaram as chuvas de verão em 20% a 30% em média e resultaram em
umidade relativa muito baixa. As temperaturas ficaram 3ºC a 7°C acima do padrão; o
calor sugou toda a umidade que vinha do solo. Sem dúvida, secas de intensidade
semelhante ocorreram nos séculos anteriores.
Os nômades medievais tinham consciência das variações climáticas de ano para ano.
Invernos longos, com muita neve, despojavam os pastos de sua grama. A preciosa
alimentação de inverno tinha que ser esticada por dois meses ou mais, sendo oferecida
em quantidades cada vez menores. Os bois e o gado subsistiam com as raízes da grama
e perdiam peso. Alguns ficavam tão fracos que precisavam de ajuda para se erguer. As
perdas nos partos aumentavam vertiginosamente. Animais emaciados pereciam com o
frio ou se perdiam na neve alta. Durante os invernos especialmente frios, tanto animais
quanto seres humanos morriam em números elevados.
O verão chegava de repente. A neve derretia rapidamente, transformando as planícies
em charcos, córregos transbordantes, o que atrapalhava os movimentos nas pastagens
de verão. Temperaturas crescentes significavam que havia pouca água penetrando o
solo, o crescimento da grama era fraco, e o pasto de verão era, na melhor das hipóteses,
pobre. A única proteção contra esses desastres era o movimento. Nas regiões centrais
da estepe, os nômades viajavam o máximo que podiam em direção ao sul durante os
meses frios para garantir que os pastos ficassem sem grama pelo menor tempo possível.
No verão, seguiam em direção ao norte, para vales de rios estratégicos, abrigados, áreas
onde as chuvas eram um pouco mais abundantes e a grama, de melhor qualidade.
A água e sua distribuição pela paisagem também eram variáveis críticas. Cada tribo
definia seu território ao redor de sistemas fluviais, principalmente dos vales de rios
incrustados na estepe, que eram a fonte de vida desse território. Os nômades passavam
o inverno em casas construídas em elevações no vale, abaixo do nível da planície; então,
migravam para o norte na primavera, às vezes já em fevereiro ou março nos anos mais
amenos, ou no fim de maio, naqueles mais frios. O movimento sazonal em direção ao
norte parava e continuava, dependendo do pasto que encontravam, e às vezes era
interrompido por rios mais largos. Eventualmente, deixavam os animais se alimentarem
em pastagens ricas, que podiam cobrir até 8.400 quilômetros quadrados. Em anos
amenos, semeavam cereais, negligenciados até quase a mudança para o sul. Nos anos
secos e frios, não conseguiam plantar, pois chegavam muito tarde às pastagens de
verão para semear, tendo pouco tempo até que o tempo frio do inverno destruísse a
plantação.
Cada mudança na temperatura e nas chuvas alterava a relação entre os nômades e o
meio ambiente. Os períodos mais secos, com ameaças à vida, traziam pastos mirrados,
dizimavam os rebanhos, ampliavam a busca por grama e água, e, inevitavelmente,
levavam a violentas invasões dos territórios vizinhos. Nos ciclos com mais água, os
rebanhos aumentavam, a capacidade de pastagem das terras melhorava muito, e os
territórios encolhiam, com uma redução nas guerras. Durante séculos, aqueles que
viviam às margens da estepe viveram com medo dos nômades violentos, que chegariam
sem aviso e causariam destruição em sua busca por melhores pastagens.

Infelizmente, as evidências de variáveis que nos permitiriam identificar as flutuações


climáticas da época de Gêngis Khan são escassas. Os registros que chegam até mil anos
são as pedras de Roseta da paleoclimatologia, crônicas raras tratadas com a reverência
científica que merecem, mesmo que sejam apenas variáveis, sinais indiretos de chuvas e
de temperaturas da Antiguidade. Essas seqüências são tesouros raros para arqueólogos
e historiadores que buscam flutuações climáticas de décadas e séculos atrás, como o
Período de Aquecimento Medieval. Como vimos, os mais corajosos entre os
climatologistas combinaram esses registros com reconstruções de temperatura em larga
escala, de até um milênio atrás. Esses retratos do clima do passado vieram, na maior
parte, de registros de anéis de árvores, documentos históricos e leituras instrumentais
do século passado ou mais. Mas com relação ao clima das estepes eurasianas, na época
em que Gêngis Khan embarcou em suas campanhas assassinas, os registros são quase
nulos, exceto por amplas generalizações e apenas uma ou duas seqüências de anéis de
árvores.
Uma equipe de pesquisas do Tree-Ring Laboratory do Observatório Lamont-Doherty, em
Palisades, Nova York, e da Universidade Nacional da Mongólia reuniram amostras de
pinheiros siberianos com 500 anos de idade, em Solongotyn (também conhecida como
Sol Dav), localizada no alto das Montanhas Tarvagatay, no centro-oeste da Mongólia.
As condições ecológicas nessa região são tais que o crescimento das árvores é
influenciado pelas mudanças na temperatura de um ano para outro. Depois de meses de
pesquisas, a equipe desenvolveu uma curva de temperatura das árvores vivas entre os
anos de 1465 e 1994. Depois eles voltaram para colher amostras adicionais de madeira
morta, mas bem preservada, ligando os anéis das árvores desses fragmentos com os dos
pinheiros vivos. A seqüência climática expandida se estende hoje até o ano 850 e,
menos confiavelmente, até o ano 256, época em que Roma era poderosa e os citas
floresceram nas estepes eurasianas.
Sol Dav não deixa dúvidas quanto à elevação das temperaturas atuais, com taxas mais
altas de crescimento das árvores aparecendo entre 1900 e 1999. Mas existem notáveis
períodos anteriores de aquecimento por volta do ano 800. O ano 816 foi o mais quente
de toda a seqüência, mais quente até do que hoje, embora 1999 tenha sido o ano mais
quente de todo o último milênio. O ciclo de aquecimento do século IX e outro do início da
década de 1400 encerram os séculos do Período de Aquecimento Medieval. Houve um
período de condições mais frias por volta do ano 1100, por isso o aquecimento não foi
monolítico. Posteriormente, veio o resfriamento da Pequena Idade do Gelo, cinco séculos
de resfriamento e aquecimento imprevisíveis que culminaram em condições muito frias
durante o século XIX.
A seqüência de Sol Dav não apenas fornece evidências do aquecimento medieval, como
suas flutuações também coincidem com as mudanças de temperatura ocorridas durante
pelo menos quatro séculos bem documentados pela seqüência de Mann para a Europa
setentrional e ocidental já descrita no Capítulo 1. Os antigos pinheiros preservados da
Mongólia colocam as conquistas de Gêngis Khan em um extenso período de
aquecimento, durante o qual secas freqüentes podem ter levado à destruição das
pastagens das estepes em um mundo onde as pessoas dependiam dos cavalos assim
como de animais de todos os tipos. Se a solitária seqüência dos anéis das árvores
mongóis é um barômetro confiável da temperatura e das chuvas cíclicas da época de
Gêngis Khan - e temos todos os motivos para acreditar que sejam -, então fica claro que
a bomba climática das estepes funcionou como faziam há milhares de anos, colocando
os nômades e seu movimento incansável em ação na estepe, e levando-os a entrar em
conflito com seus vizinhos no sul. A diferença estava em que Gêngis Khan subiu ao poder
numa época em que as condições mais secas encolheram as pastagens da estepe. Isso
não era novidade; mas agora um líder brilhante conseguia forjar grandes exércitos de
conquista a partir de um emaranhado de tribos rivais e chefes com idéias
independentes. O Mangual de Deus sacudiu a Ásia e a Europa em suas bases.

O prolongado período de aquecimento detectado nos anéis das árvores da Mongólia


coincide com as conquistas selvagens de Gêngis Khan: condições mais quentes e mais
secas teriam significado uma onda de guerras numa época de fome potencial e
inquietação crescente. As incursões de Gêngis Khan na China e o impiedoso massacre do
império Khwarizmi dos turcos seljúcidas na Ásia Central, em 1220 e 1221, trouxeram os
mongóis para terras organizadas.
Pouco antes de sua morte, em 1227, Gêngis Khan disse aos seus filhos: "Com a ajuda
das forças divinas eu conquistei para vocês um grande império. Mas a minha vida é
muito breve para conseguir conquistar o mundo. Deixo essa tarefa para vocês". As
conquistas continuaram após a morte de Gêngis Khan. Um de seus filhos, Ogodai Khan,
estendeu o império para o Ocidente, em 1236. Batu, neto de Gêngis Khan, logo
conquistou a Criméia, depois destruiu o que agora é a Bulgária, assim como catorze
cidades russas, transformando seus escombros em estados vassalos. Posteriormente,
voltou sua atenção para a Europa, com o objetivo de alcançar o "derradeiro oceano". Os
mongóis que estavam sob o comando do general Subutai dividiram-se em três grupos,
conquistaram a Polônia e a Hungria, e foram em direção à Áustria, onde pretendiam
fincar uma base no coração da Europa, em 1241. Nesse período, Ogodai Khan morreu.
Batu Khan era candidato potencial para ser o Grande Khan, por isso deslocou suas forças
para as estepes. Ocorre, porém, que ele não foi escolhido e dedicou seus esforços para
consolidar suas conquistas em torno dos Urais. Ele dominou as estepes cumans e vários
reinos russos, e nunca mais voltou para o cenário de suas conquistas anteriores.

O afastamento de Batu Khan coincidiu com a volta de condições mais frias e úmidas, o
que beneficiou as pastagens das estepes. Seu reino floresceu por gerações de boas
pastagens, quando a guerra cessou. Embora Batu mantivesse a ambição de voltar para o
Ocidente, as boas condições de pastagem em casa permitiam que seu povo ocupasse
um grande território desde o Volga-Don até a Bulgária. Não havia incentivos para
conquistas ambiciosas quando existiam pastagens abundantes e florescia o comércio
com terras mais ao sul.
Mas o que teria acontecido se o pêndulo climático não tivesse balançado, e se as secas
tivessem se intensificado na estepe? A julgar pelos séculos anteriores, as guerras e a
movimentação desassossegada teriam continuado e, quase certamente, Batu Khan e
seus generais teriam retornado para o Ocidente. Seus espiões já haviam fornecido um
quadro dos reinos beligerantes e de seus exércitos com guerreiros de armaduras, que já
haviam mostrado que não eram páreo para os cavaleiros e arqueiros mongóis. Eles
teriam seguido seus planos originais, elaborados com o general Subutai: invadir a
Áustria e destruir Viena primeiro; depois, avançar contra os principados germânicos
antes de voltar sua atenção para a Itália. Se tudo corresse bem, eles teriam então
marchado sobre a França e a Espanha. Em poucos anos, talvez já em 1250, a Europa
teria se tornado parte do império mongol ocidental.
Será que isso de fato iria ocorrer? Os mongóis já haviam derrotado formidáveis exércitos
europeus em batalhas decisivas nas planícies húngaras, onde milhares haviam perecido.
As histórias de conquistas implacáveis e carnificina indiscriminada que os precederam
teriam dado a eles uma grande vantagem psicológica em uma Europa dividida em
facções e rivalidades crônicas. Na época em que Batu dominou a Europa, os mongóis
haviam acumulado grande experiência não apenas nas conquistas, mas também na sua
assimilação e adaptação a outras culturas e religiões. Se a história da Ásia Central pode
servir de guia, a civilização européia teria continuado a florescer enquanto novos
conquistadores seriam absorvidos em seu tecido.
Mas existem questões fascinantes. A Europa teria se transformado em continente
muçulmano, ou teriam os mongóis, com sua tolerância religiosa, deixado em paz a igreja
católica? Se tivesse ocorrido a conquista, teriam existido incentivos para que os
exploradores e mercadores europeus encontrassem novos caminhos para alcançar as
riquezas da Ásia, abrindo novas rotas marítimas através do Atlântico e contornando o
Cabo da Boa Esperança até a índia, quando poderiam ter rotas por terra através de um
império unificado? E qual teria sido o impacto dos mongóis sobre a Espanha muçulmana?
Ali, poder-se-ia esperar o mesmo processo ocorrido na Ásia Central: um ambiente em
que floresceria o islamismo, e talvez até se expandisse para o Norte, passando os
Pireneus.
Haveria um ponto em que o ritmo da conquista desaceleraria - talvez quando os
conquistadores alcançassem o Atlântico, ou até antes. Se o pêndulo climático não
tivesse balançado de volta, não teria havido incentivo para voltar para casa, para
encontrar uma terra árida, devastada pela seca. E nem a paz teria descido sobre as
estepes, onde, sob condições benéficas e com amplas pastagens, a cada verão as tribos
deixavam seus acampamentos de inverno no sul, perto do Mar de Azov e de Astracã-
Sarai, e seguiam para as pastagens de verão às margens dos rios Don e Oka. Com todo o
poder de atração da estepe e da vida nômade, o centro de gravidade política e
econômica do império da Horda Dourada teria ido para o Oeste, para terras melhor
irrigadas e mais estáveis. Mas, mesmo assim, tal como acontecera com os domínios de
Gêngis Khan, a mera dimensão do império, a corrupção e a administração ineficiente
poderiam ter provocado a divisão da Europa em uma colcha de retalhos, composta por
estados muito diferentes daqueles que testemunharam a Renascença e a Era dos
Descobrimentos.
O fluxo e refluxo do poder mongol teria dependido em parte da realidade da vida
nômade, como havia acontecido durante milhares de anos. Quando as pastagens eram
boas, havia paz; quando o clima piorava e a seca devastava as estepes, a guerra
irrompia e os povos das terras assentadas tremiam de medo. O ritmo incessante de
quente e frio, de chuvas abundantes e períodos de seca, de grama mais do que
suficiente e nenhuma forragem, era um importante motor da história, a seu modo tão
poderoso quanto as mudanças econômicas, o fluxo e refluxo da intriga política, e as
habilidades de cada governante. Gêngis Khan e seus exércitos, assim como a menor das
tribos das grandes estepes, eram afetados pela mesma realidade. Quando a seca das
planícies coincidia com inquietações sociais e comandantes brilhantes, os alicerces da
história eram sacudidos. E, caso as secas tivessem continuado, a civilização européia
poderia ter atualmente uma fisionomia muito diferente.

CAPÍTULO 4
O Comércio Dourado dos Mouros

Eles começam a partir de uma cidade chamada Sijilmassa (...) e viajam pelo deserto
como se estivessem no mar, tendo guias para orientá-los pelas estrelas e pelas pedras
dos desertos.

- ANÔNIMO, Toffut-al-Alabi (século XII)

Em julho de 1324, o sultão do Egito recebeu um visitante realmente exótico. Mansa


Mussa, governante do reino de Mali, na África Ocidental, ia em peregrinação a Meca.
Centenas de camelos e escravos carregavam bastões de ouro e uma profusão de
presentes pelo deserto. Mansa Mussa estabeleceu sua corte no Cairo por três meses.
Para espanto dos egípcios, seus súditos se prostravam à sua frente e jogavam terra em
suas cabeças. Os malis injetaram tanto ouro na economia egípcia que o valor do mais
precioso dos metais caiu entre 10% e 25% durante alguns anos. Histórias sobre o reino
africano e suas riquezas fabulosas repercutiam nos mundos cristão e muçulmano. No
final do século XlV, dois terços do ouro da Europa eram provenientes do Mali,
transportados por camelos através do Saara. Esse "comércio dourado dos mouros" ligou
dois mundos muito diferentes, o do Mediterrâneo e o do Sudão, na África Ocidental -
Bilad es-Soudan, que os geógrafos islâmicos chamavam de "Terra dos Negros".
Localidades mencionadas neste capítulo e impressão geral das rotas das caravanas do
deserto

Como as estepes eurasianas, o deserto do Saara se expande e se contrai como uma


bomba ecológica natural. Essa margem sul do mundo medieval europeu é um dos
lugares mais quentes da terra. Predominam os ventos secos de nordeste, que elevam as
temperaturas acima de 37°C em um número de dias do ano maior do que em qualquer
outro lugar da Terra. Um ambiente morto, pode-se pensar, mas o Saara respira, não é
estático. Quando aumentam as chuvas, mesmo que por alguns milímetros, as margens
do deserto encolhem, às vezes em muitos quilômetros. Nos períodos mais quentes do
passado remoto, imensas lagoas rasas e prados semi-áridos, irrigados por rios sazonais
de cadeias de montanhas áridas, cobriam milhares de quilômetros quadrados do que
agora é deserto. Resta apenas um lago importante. Cento e vinte mil anos atrás, o Lago
Chade, na fronteira sul do deserto, cobria uma área muito maior do que o Mar Cáspio na
Eurásia. Atualmente, o Chade está secando rapidamente. Em anos com boas chuvas, o
deserto atrai animais e pessoas, em geral bem ao norte do Lago Chade. Quando o Saara
enfrenta anos de seca, as fontes de água e os pastos desaparecem, e as esparsas
populações do deserto saem à procura de áreas melhor irrigadas. A bomba saariana
nunca fica parada; às vezes permanece imóvel por alguns anos, depois gira
freneticamente durante períodos de chuvas altamente variáveis de um ano para outro.
Esta é a história do comércio de ouro de mil anos. atrás entre o mundo islâmico e a
África Ocidental. O comércio prosperou durante os séculos de aquecimento graças ao
camelo e sua grande capacidade de adaptação, e porque aqueles que lidavam com o
ouro na ponta africana organizaram sua sociedade para que se acomodasse aos
extremos climáticos súbitos que marcaram o Período de Aquecimento Medieval.

A história climática do Saara e do Sahel, região dominada por vegetação de savana que
ocupa a margem sul do deserto, é uma crônica implacável das alterações caóticas, bem
documentada tanto do ponto de vista dos registros instrumentais modernos quanto dos
estudos das variáveis de testemunhos do fundo do mar perto da costa da Mauritânia.
Podemos até ligar alguns desses registros a testemunhos de alto-mar da importante
Bacia de Cariaco, na costa da Venezuela, descrita no Capítulo 8.
Os testemunhos do mar da Mauritânia revelam mudanças abruptas, recentes, de até
2,16°C na temperatura da superfície do mar no Atlântico Norte Oriental. Ao mesmo
tempo, mudanças na salinidade do oceano em diferentes níveis podem afetar o
funcionamento da corrente transportadora oceânica, fundamental para o clima mundial,
por transferir o calor dos trópicos para latitudes setentrionais. A temperatura da
superfície do mar no Atlântico Norte Oriental tem grande efeito sobre os ventos secos
que sopram pelo Saara. Se as temperaturas da superfície do mar estiverem mais baixas
no Atlântico Oriental, entre 10° e 25º ao norte, e mais altas no Golfo da Guiné, os ventos
de monção são deslocados para o sul, provocando seca no Sahel e no Saara. Sabemos
disso porque, entre 1300 e 1900, um resfriamento documentado nos núcleos do mar da
Mauritânia provocou condições de estiagem no Sahel, incluindo secas que podem ter
sido piores do que a desastrosa megasseca da década de 1960. Os núcleos nos
permitem fazer uma tentativa de reconstrução das condições climáticas dos últimos dois
mil anos, e durante o Período de Aquecimento Medieval:

. Entre 300 a.C. e próximo ao ano 300, as condições na África Ocidental eram estáveis e
secas - como acontecia tanto no Sudeste Asiático quanto na Bacia Amazônica -, com
chuvas um pouco abaixo dos níveis atuais. As pessoas se deslocaram para regiões com
melhor abastecimento de água, como o Médio Níger, onde surgiram vilarejos.
. Depois do ano 300, os índices pluviométricos devem ter aumentado de 125% a 150%
em relação aos níveis atuais, até o ano 700, época em que o Lago Chade, antes
insignificante, expandiu-se dramaticamente. (Não há evidências de períodos de seca
intercalados, mas pode ser que não tenham sido detectados.) Então, entre os anos 900 e
1100, ocorreu uma transição abrupta para condições muito mais instáveis, refletidas
numa variabilidade crescente das monções na Bacia de Cariaco, no outro lado do
Atlântico. Às vezes, ocorriam precipitações de chuva estáveis, elevadas; em outras
vezes, seca. As margens do Saara estavam mudando constantemente.

Em uma tentativa para entender essas mudanças, a climatologista Sharon Nicholson


analisou registros meteorológicos coloniais de toda a África tropical e identificou seis
padrões diferentes de chuvas, ou modos climáticos, nos quais o clima africano foi se
alternando desde o século XIX. Esses modos se alternam aleatoriamente da aridez
extrema em uma ponta do espectro - característica do Sahel nos anos de 1890 e 1960,
passando por vários estágios intermediários e relacionados - até cenários de umidade
desastrosa, quando os rebanhos se multiplicaram e acabaram com a paisagem verde
que se havia formado às margens do deserto. Hoje, o clima no Sahel salta abruptamente
e sem aviso de um modo para outro, de maneira completamente imprevisível. Trata-se
provavelmente do mesmo tipo de alteração abrupta ocorrida durante o Período de
Aquecimento Medieval, criando desafios extraordinários para as pessoas envolvidas na
criação de gado, agricultura de subsistência e comércio de longa distância.
Olhando para essas mudanças a partir de uma escala mais global, verificamos que um
ano seco no Sahel coincide com alta pressão sobre os Açores e baixa pressão sobre a
Islândia. Os alísios de nordeste aceleram e a Zona de Convergência Intertropical
permanece bem ao sul. Ventos de sudoeste trazem menos umidade para a África
Ocidental. Quando a temperatura da superfície do mar, entre 10° e 25° ao norte, fica
entre 2°C e 4°C mais fria, e as águas do Golfo da Guiné estão extraordinariamente
quentes, o efeito da Zona de Convergência Intertropical enfraquece. Os núcleos do fundo
do mar também mostram que o início de muitas alterações dos modos climáticos é
marcado por transições muito violentas no interior, algumas delas precedidas por picos
extremamente frios. Um desses modos climáticos ocorreu por volta do ano 900, com
outro no início do Século XI. Essas fases instáveis, em geral com secas prolongadas - e
aqui enfatizamos a palavra "prolongadas" - teriam sido períodos de notável dificuldade e
mudança para os sahelianos que os vivenciaram.

Que efeitos, então, tiveram as temperaturas mais quentes e as secas do Período de


Aquecimento Medieval sobre o comércio do ouro do Saara e os povos do Sahel? No que
dizia respeito às caravanas saarianas, os efeitos foram notavelmente reduzidos por
causa dos camelos, ou, mais exatamente, por causa dos selins nos dorsos dos camelos.

A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT)

Os ventos alísios de nordeste e sudeste encontram-se perto do Equador, formando uma


área de baixa pressão. Esses ventos convergem e forçam a subida do ar mais úmido.
Quando o ar sobe e esfria, o vapor de água se condensa. Forma-se um agrupamento de
nuvens pesadas, que se move sazonalmente em direção a áreas em que o aquecimento
solar é mais intenso, lugares com temperaturas de superfície mais quentes. De setembro
a fevereiro, a ZCIT se movimenta na direção do hemisfério sul, invertendo depois a
direção para o verão, no norte. Enquanto a ZCIT se movimenta sobre a terra, suas
alterações são menores do que quando está sobre mar aberto, mantendo uma posição
quase estacionária pouco acima do Equador. Ali a chuva se intensifica à medida que
aumenta o aquecimento solar, e diminui quando o sol se afasta. Com a elevação das
temperaturas, aumentam as chuvas, que diminuem quando esfria. Os fenômenos El Niño
(ver informações adicionais no Capítulo 9) têm grande efeito sobre a ZCIT, desviando-a
em direção às temperaturas de superfície do mar extraordinariamente quentes no
Pacífico tropical, e levando menos chuvas para o Atlântico e para as margens do Deserto
do Saara.
A Zona de Convergência Intertropical e seu alcance.

Nas estepes eurasianas, a vida dependia do gado e dos cavalos, das boas pastagens.
Quando as temperaturas subiam e a seca se abatia sobre os pastos, os nômades saíam
em busca de água e novas pastagens. As planícies e planaltos desolados do Saara não
eram um lugar em que gado e cavalos poderiam prosperar mil anos atrás, mesmo que
houvesse um ligeiro aumento nas chuvas. Na era clássica, o deserto era um ermo
assustador. Heródoto afirmou que a Líbia, na costa mediterrânea, "estava infestada de
animais selvagens. Mais para o interior, longe da área cheia de animais, a Líbia é um
deserto arenoso, totalmente sem água, e completamente desabitada por alguém ou
alguma coisa". Somente alguns pastores nômades dispersos sobreviviam perto dos
oásis, e para eles a distância entre sobrevivência e inanição era tão fina quanto uma
lâmina. Quem quer que vivesse ali era forte, engenhoso, e estava sempre se deslocando.
Os romanos transformaram a África do Norte em um próspero celeiro, mas jamais
cruzaram o deserto em direção às terras tropicais do sul. Não tinham animais de carga
para poder viajar durante dias numa época sem água. Cruzar regularmente o Saara com
animais carregados significava combinar um comportamento altamente adaptável com
um animal capaz de ficar até dez dias sem água. Esse animal era o camelo. E seu pêlo
era extraordinariamente imune à seca.
O comércio do ouro jamais teria prosperado sem o camelo, mas foi o desenvolvimento
de uma sela capaz de transportar carga que o transformou em "barco do deserto". O
camelo armazena gordura na corcunda; o pescoço longo possibilita que se alimente de
árvores e arbustos; e a pata acolchoada permite que caminhe na areia macia. Os
camelos conservam a água através de um eficiente sistema renal e absorvem o calor
permitindo que a temperatura corporal suba significativamente sem transpirar. Os
romanos sabiam tudo sobre camelos. Usavam-nos na África do Norte para puxar
carroças, e até como barreiras defensivas para proteger os soldados. Eles sabiam que
esses animais irritadiços adaptavam-se muito bem nas condições do deserto. Mas suas
vantagens tinham valor limitado sem uma sela eficiente para transportar carga, que os
romanos desconheciam.
A sela do camelo saariano começou a ser usada no início da Era Cristã, provavelmente
em torno do Vale do Nilo, no que agora é conhecido como o moderno Sudão, não para
luta, mas para carga. A sela fica sobre os ombros do animal, à frente da corcunda, e
posicionada de forma a maximizar sua capacidade de carga, sua resistência e controle.
O responsável pela condução do camelo saariano dirigia o animal usando uma vara ou
os dedos dos pés. Pela primeira vez, caravanas de camelos podiam carregar água e
provisões suficientes (para os seres humanos do grupo) na travessia de longas distâncias
entre os oásis da África do Norte até o Sudão Ocidental.
Ninguém sabe quando foi que as primeiras caravanas de camelos atravessaram o Saara
Ocidental, mas isso ocorreu bem antes da conquista da África do Norte pelos exércitos
islâmicos no século VII. Eles seguiam por trilhas vagas que logo se transformaram em
rotas de comércio controladas pelos comerciantes muçulmanos que vinham de uma
cultura com visão muito mais ampla do mundo do que seus predecessores da África do
Norte.
As caravanas saarianas seguiam uma rotina bem definida. Camelos abarrotados de
carga arrastavam-se penosamente para o sul a partir de Sijilmassa, até Taghaza, onde
pegavam sal nas minas vizinhas. Na África, o sal é um bem precioso até hoje, pois faltam
fornecedores locais. De Taghaza eles seguiam até Walata, Gana e Jenne, no meio do Rio
Níger. A jornada era perigosa mesmo sob circunstâncias favoráveis. O deserto era
sempre hostil, mesmo em épocas de precipitações pluviométricas um pouco mais
elevadas. O calor e a desidratação eram lima ameaça constante. Assim como os
nômades do deserto, vestidos com albornozes azuis, armados com escudos bordados e
lanças, que atacavam impiedosamente sem qualquer aviso. A maioria dos organizadores
de caravanas negociava acordos com os chefes nômades para garantir uma passagem
segura pelos oásis que eles controlavam. Os nômades também forneciam guias, que
usavam formações rochosas e estrelas para se orientar. Forneciam camelos para os
mercadores, que os vendiam de volta no fim da jornada.
As caravanas eram comboios bem organizados. Os camelos carregados com mercadorias
eram acompanhados por muitos outros carregando água e provisões, ou servindo de
montaria. A segurança estava nos números - segurança em relação aos ataques de
nômades, com grande número de animais carregando água e alimento, e capacidade
para transportar grandes cargas e lucrar bastante. No século XII, algumas caravanas
chegaram a ter de mil e duzentos a dois mil animais.
A jornada em si durava entre seis semanas e dois meses, com a partida no outono. O
contemporâneo geógrafo muçulmano al-Idrisi escreve: "Os camelos são carregados
muito cedo e viaja-se até o sol aparecer no horizonte e o calor produzido na terra ficar
insuportável". As caravanas descansavam até o fim da tarde, depois prosseguiam
silenciosamente durante a noite, guiadas pelas estrelas, como acontece até hoje.
As caravanas de camelos empreenderam a longa jornada através do Saara mesmo nos
anos mais quentes do Período de Aquecimento Medieval. Aqueles que cruzavam o
deserto passavam boa parte do tempo adquirindo conhecimento a respeito do
suprimento de água, pois os poços e os oásis eram vitais para uma jornada segura. As
condições nunca eram as mesmas de um ano para outro. Os ciclos de seca e umidade
afetavam os padrões do comércio. Quando as condições eram de maior umidade,
perfurava-se um grande número de poços no cascalho aquoso do Saara Central, em
torno do Maciço de Hoggar e Adrar des Iforas. Muitas caravanas seguiam então rotas
diretas pelas dunas do Saara Central até Taghaza e a cidade de Awdaghust (na atual
Mauritânia), na fronteira do deserto, um importante centro do comércio de sal. Durante
os ciclos de seca, as caravanas seguiam por rotas mais sinuosas até o oeste, ou,
passando a leste ou ao norte de Bilad es-Soudan, viajavam até Adrar des Iforas, depois
para oeste, terminando em Sijilmassa. A versatilidade do camelo garantia flexibilidade
suficiente para seguir a rotação da bomba do deserto. O número de animais mortos ou
exaustos podia ser enorme; as perdas freqüentemente rondavam a casa das centenas,
somente em uma caravana. Os esqueletos gastos de camelos e de seus condutores
ficavam espalhados pelas rotas, mas o comércio do ouro nunca foi interrompido. O
camelo e sua sela de carga revelaram-se uma arma eficiente contra o calor e a seca
mesmo nos piores anos, quando a aridez extrema afetou o gado e as pessoas que viviam
ao sul do deserto.

Sabemos o suficiente a respeito da mudança climática durante os séculos de


aquecimento para ter certeza de que ocorreram mudanças súbitas e abruptas nas
chuvas. A bomba saariana teria entrado em atividade frenética enquanto as margens do
deserto às vezes avançavam e recuavam até anualmente. A descoberta islâmica do
comércio de ouro da África Ocidental parece ter coincidido com o fim de um período de
condições relativamente estáveis, com pelo menos um pouco mais de chuvas do que
atualmente. Teria havido mais poços de água, e as viagens pelo deserto com camelos,
apesar de perigosas, podiam ser organizadas em uma escala relativamente grande.
Felizmente, para o mundo exterior, a adaptabilidade do camelo e a habilidade daqueles
que viviam no deserto e em suas margens deram ao comércio de ouro do Saara um
considerável grau de imunidade em relação às alterações climáticas.
A ponte humana foi tão importante quanto o camelo. Boa parte do comércio dependia
dos berberes nômades, antigos habitantes do deserto, que criavam camelos e também
acompanhavam muitas caravanas. Eles viviam nas duas pontas das rotas de comércio e
serviam como ligação humana entre o norte e o sul. A outra conexão era feita pelo
islamismo, que acabou se tornando a religião comum dos mercadores da África do Norte,
dos nômades saarianos e de muitos governantes africanos e mercadores ao sul do
deserto.
O ouro era muito importante no mundo muçulmano, e um grande incentivo para que o
comércio superasse os riscos das viagens pelo deserto. Os dinares de ouro cunhados
pelo califa de Bagdá, e só por ele, circulavam por todo o Magrebe (noroeste da África) e
Espanha. No começo, o ouro vinha das pilhagens realizadas na Síria e no Egito, e
também de tesouros cristãos e do Alto Egito, e até mais distante do Nilo. Contudo, por
volta do século VIII, o ouro da África Ocidental já era muito conhecido. O metal em si
chegou como pó, comercializado por mineiros da região de Bambuk, às margens do Rio
Senegal, a vinte dias de viagem para o sul do reinado de Gana, no Sahel, então um dos
postos mais importantes de comércio do ouro. Mercadores corajosos tentaram, em vão,
obter o controle das fontes do ouro. Os mineiros mantiveram firmemente a sua
independência e pouco se sabe a respeito de suas operações. Eles extraíam o minério do
meio do cascalho de rios auríferos cavando inúmeros poços pequenos. O resultado desse
trabalho simples era enorme. Al-Fazari, astrônomo de Bagdá, escrevendo no final do
Século VIII, chamou Gana de "terra do ouro".
No ano 804, os governantes do Magrebe começaram a usar o ouro sudanês para cunhar
seus próprios dinares. O ouro sudanês financiou guerras de conquista e trouxe imensa
riqueza para o Islã. Até o século XII, a maior parte do ouro da África Ocidental
permaneceu no mundo muçulmano. A Europa Ocidental já não mais usava o ouro como
moeda corrente, em parte porque a balança comercial desfavorável com o leste havia
acabado com seus recursos, com poucas perspectivas de recuperação. Porém, com a
recuperação das economias européias e com as cidades italianas construindo frotas
poderosas para combater a pirataria árabe, um volume crescente de comércio de
vestuário e outros bens atraiu quantidades cada vez maiores de ouro. No final do Século
XIII, as casas da moeda européias estavam cunhando moedas de ouro. País após país,
foram todos retomando o padrão-ouro. A demanda pelo metal aumentou; os preços
subiram, depois se estabilizaram. A maior parte do ouro da Europa do final do século XIV
veio do Sudão Ocidental. A relativa imunidade do camelo à devastação causada pela
bomba do deserto garantiu que o comércio continuasse a contribuir para mudar a
história.
Ninguém sabe exatamente quanto ouro passou para o comércio transaariano a partir da
África Ocidental. Registros de taxas cobradas de caravanas em Sijilmassa durante o
século X, citados pelo autor- Ibn Haukal, mencionam importações de aproximadamente
9,4 toneladas de ouro anualmente, provavelmente a metade do total anual de cerca de
16,5 a 18,7 toneladas transportadas para o norte a partir da África Ocidental. Em 951,
Ibn Haukal viu uma nota promissória de 42 mil dinares emitida por um mercador no
norte, medida de riqueza espantosa no comércio da época.
De onde, então, vinha o ouro? Antes de viajar para o sul, as caravanas paravam em
Awdaghust, na margem do deserto, uma cidade berbere grande e populosa, com casas
de pedra e tijolos de barro com telhados retos, contemplada por um grande afloramento.
No mercado sempre lotado de Awdaghust, podia-se comprar sal, ovelhas, mel do Sahel e
alimentos de todos os tipos - desde que se pagasse em ouro. A próspera cidade-oásis
tinha água boa e abrigava mercadores com o monopólio do comércio transaariano. Eles
organizavam suas caravanas sob os auspícios dos nômades sanhajas do deserto. O
geógrafo muçulmano al-Bakri afirma que o domínio sanhaja sobre a cidade estendia-se
por uma distância percorrida em dois meses de viagem. Dizia-se que poderiam reunir
cem mil camelos. Ouro e sal fluíam pela cidade, cujos líderes tinham o cuidado de
manter um bom relacionamento com os poderosos chefes do sul, especialmente os que
governavam o reino rico em ouro chamado Gana.

O rei se enfeita tal qual uma mulher, usando colares em torno do pescoço e braceletes
nos antebraços; na cabeça, usa uma touca alta decorada com ouro e envolta por um
turbante de algodão fino. Ele mantém uma audiência em um pavilhão abobadado em
torno do qual ficam dez cavalos cobertos com materiais bordados a ouro; e à sua direita
estão os filhos dos reis-vassalos de seu país, usando vestimentas esplêndidas e com os
cabelos salpicados de ouro.
À porta do pavilhão estão cães de excelente linhagem. Em torno do pescoço eles usam
colares de ouro e prata, enfeitados com várias contas feitas com os mesmos metais.

A descrição que al-Bakhri faz de Gana é composta por material extraído de lendas. Ele
nunca visitou o Sahel, mas construiu seus relatos a partir de fontes dos arquivos de
Córdoba. Sua Gana era uma corte de estilo Mediterrâneo enterrada na África, uma
capital com duas cidades; uma com doze mesquitas, freqüentadas por mercadores
muçulmanos, e a outra, uma mistura de bosques sagrados e tumbas reais, a pratica-
mente dez quilômetros de distância. O tesouro real incluía um lingote de ouro que diziam
pesar cerca de 13,6 quilos, tão grande que ficou famoso tanto no mundo cristão quanto
no muçulmano.

Acredita-se que a capital de aparência imponente, Kumbi Saleh, ficasse a cerca de 480
quilômetros a sudoeste de Timbuktu e da curva do Rio Níger. Há realmente muitas ruínas
de pedra nessa área, e também inscrições em árabe, mas não há vestígios de qualquer
construção real ou dos túmulos descritos por mercadores muçulmanos. As ruínas ficam
nos limites mais setentrionais do Sahel, onde a agricultura teria sido praticamente
impossível mesmo em períodos de muita chuva. É bem provável que Kumbi não tenha
sido a capital de Gana, mas uma pequena comunidade comercial, parte de um reino
inteiramente diferente, mais descentralizado. Até o momento, o reino de Gana per-
manece indefinível, sua capital itinerante. Nossa única certeza é de que não era um
sistema islâmico, mas um império nativo africano, muito diferente daquilo descrito por
al-Bakri, com raízes profundas na África Ocidental, de onde vinha o ouro.
Durante muito tempo, as fontes do ouro permaneceram um mistério. Escrevendo no ano
872, o historiador al-Yaqubi repetiu uma história bastante difundida sobre o ouro
brotando da terra como se fosse cenoura. Como sempre acontece quando o assunto é
ouro, as histórias foram aumentando até produzirem uma "Ilha do Ouro", em que o metal
precioso seria de quem o encontrasse. Os mineiros tinham consciência do valor do ouro
e mantinham os locais de seus depósitos do minério em segredo para impedir que
forasteiros tentassem controlar o suprimento. Por esse motivo, recusavam-se a fazer
negócio cara a cara: os mercadores empilhavam as mercadorias às margens do rio, de
pedras de sal em sua maior parte, e passavam sem ser vistos enquanto a população
local amontoava o ouro junto de cada pilha. Se os visitantes estivessem satisfeitos,
levariam o ouro e partiriam batendo em tambores para sinalizar o fim da transação. Em
certa ocasião, eles capturaram um mineiro para tentar descobrir a fonte do ouro. Ele de-
finhou até morrer sem revelar qualquer coisa. O comércio cessou por três anos até ser
retomado.
Os mineiros de Bambuk e Buré, outra área a leste, eram tímidos, pessoas retiradas que
protegiam zelosamente suas atividades de mineração de ouro, motivo pelo qual se
organizaram no comércio silencioso. Nenhum mercador berbere do Saara jamais visitou
os campos de ouro, por isso, a Ilha de Ouro permaneceu um mistério. Continua a ser um
enigma geográfico até hoje. No século XII, al-Idrisi descreveu a ilha como uma área de
aproximadamente 500 quilômetros de comprimento por 300 de largura, que todos os
anos alagava, onde a população local "juntava ouro". A posição da ilha em seu mapa
coincide com a que era sazonalmente alagada no delta do Médio Niger, habitada por
pescadores e lavradores que falavam mande.

O Níger é um dos grandes rios da África, subindo pelas montanhas da Guiné, perto da
fronteira de Serra Leoa, e depois seguindo para o nordeste, desaguando em um grande
delta interior, uma colcha de retalhos composta por afluentes, canais, pântanos e lagos.
Essa planície interior é o que o arqueólogo Roderick McIntosh chama de "um vasto
jardim aluvial adjacente ao desolado Saara". Ali, as redes de caravanas do deserto
entraram em contato com rotas de comércio fluvial muito mais antigas. A várzea do
Médio Níger era rica em cereais e outras mercadorias básicas, incluindo argila para
cerâmica, mas, assim como a Mesopotâmia, carecia de pedra, minério e sal. Durante
muitos séculos, agricultores e pescadores mandes da região desenvolveram uma rede
de contatos com outros povos próximos e distantes para suprirem suas necessidades.
Eles também eram participantes ativos do comércio de ouro saariano.
Os povos mandes (o termo se refere à língua comum de muitos grupos) descendem de
povos saarianos, e se estabeleceram no Sahel durante uma série de secas que afetaram
a região, cerca de dois mil anos atrás. Atualmente, os que falam a língua mande ocupam
uma grande área da África Ocidental, que vai da Gâmbia à Costa do Marfim. Eram
lavradores de painço e pastoreavam gado, além de mercadores, que trocavam cobre, sal
e pedras semipreciosas com seus contatos no deserto. Em seu movimento para o sul,
muitos deles colonizaram as bacias férteis do Rio Níger.
Atualmente, as cheias anuais inundam cerca de 55 mil quilômetros quadrados de
charcos e lagos, mas cobriram uma área muito maior em épocas mais úmidas no
passado. O ambiente da várzea é diverso, imprevisível, e constituído por solos e
acidentes geográficos radicalmente diferentes. Ali vivem os bozos, que são pescadores,
e os markas, que cultivam muitas variedades de arroz africano (Oryza glaberrima). Os
bozos estão sempre se mudando, suas vidas são ditadas pelos ciclos de reprodução dos
peixes pequenos e da enorme perda do Nilo. Em algumas ocasiões, até 150 canoas se
reúnem em torno de barragens artificiais, para grandes pescarias. Os markas ajudam
com os peixes grandes. Em troca, os bozos ajudam os markas com a colheita do arroz
durante grandes enchentes, quando a pesca é ruim.
Os markas, agricultores, comerciantes, artistas e músicos trabalham em um ambiente
absolutamente estressante. Diante de uma enchente repentina e de chuvas torrenciais,
o trabalho duro de um ano inteiro pode ser destruído em uma semana. Enchentes tardias
ou prematuras podem deixar os vilarejos arrasados. As chuvas irregulares do início da
temporada de chuva, ou anos de aridez, acabam com os campos que acabaram de ser
preparados, sem contar a depredação causada por roedores e pássaros. Os markas
combatem essas incertezas cultivando inúmeras variedades de arroz. Porém, acima de
tudo, seu sucesso depende de uma reserva de conhecimento sobre previsão do tempo
adquirida através de muitas gerações. Enquanto as qualidades únicas do camelo
forneceram aos líderes das caravanas a possibilidade de driblar os golpes climáticos, os
povos da Bacia do Níger adaptaram sua sociedade ao ambiente hostil e imprevisível com
uma brilhante combinação de engenharia social e observação ritual.
As sociedades que floresceram no Médio Níger milhares de anos atrás prosperaram com
a mudança constante em um lugar onde culturas diferentes viviam em um ambiente
excepcionalmente heterogêneo. Elas prosperaram não apenas cultivando uma grande
variedade de plantações, mas também fazendo uso extensivo da memória social.
Roderick McIntosh chama a Bacia do Médio Níger de "reservatório simbólico", um lugar
em que um corpo compartilhado de valores sociais que se originaram num tempo
remoto sobreviveu por milhares de anos para definir a história e a sociedade. Esse não
era um mundo de reinos altamente centralizados e autoritários, com todo o poder fluindo
para o centro, como foi o caso da antiga Mesopotâmia com sua suas cidades-estado
concorrentes. Não havia hierarquia de poder, como entre os antigos maias ou na Europa
medieval. Poderosos grupos aparentados e povos engajados em atividades de todos os
tipos, vivendo juntos sob um sistema com separação de poderes, que dava a todos uma
autonomia considerável, apoio mútuo e mais chances de sobrevivência no clima
imprevisível das margens do deserto.

Um dos sítios arqueológicos africanos habitados há mais tempo fornece um retrato


revelador do mundo mande. O antigo monte conhecido como Jenne-Jeno se estende por
três quilômetros ao sul da moderna cidade de Jenne, no delta do Rio Níger. A localização
é estratégica, próxima a Bacias onde podia ser cultivado o climaticamente tolerante
Oryza glaberrima, perto de pastagens e planícies abertas, com acesso por barco para o
Niger. Jenne-Jeno provavelmente surgiu quando a secura do Saara expulsou os povos
para suas margens depois do ano 300 a.C. Eles continuaram a viver ali por cerca de mil
e seiscentos anos, em um lugar que permaneceu seco mesmo nos períodos das grandes
enchentes. Poucos lugares no mundo, para não falar da África Ocidental, têm história tão
longa. O assentamento expandiu-se vertical e horizontalmente, passando de cerca de 20
hectares no ano 300 para quase o dobro desse tamanho, três séculos depois. Os povos
de Jenne-Jeno viviam da agricultura, da caça, da coleta de plantas e da pesca; essa
economia de subsistência generalizada mudou pouco ao longo dos séculos apesar do
grande crescimento populacional e da rápida mudança das condições climáticas. Através
da longa história da cidade, seus habitantes mantiveram resolutamente uma economia
altamente diversificada, explorando numerosos microambientes em vez de procurar
aumentar o abastecimento de alimentos com trabalhos de irrigação ou campos
elevados, como foi o caso dos maias, por exemplo.
Em um momento da história posterior de Jenne-Jeno, havia nada menos do que 69
assentamentos na área de quatro quilômetros ocupada pelo assentamento principal. Mas
por que os povos dali e de outros lugares escolheram viver em um amontoado de
vilarejos, em vez de viver em cidades densamente povoadas como as do mundo
islâmico? A razão era o clima. Os mandes conviviam com um cenário de mudanças
climáticas súbitas, potencialmente desastrosas, e construíram sua sociedade em torno
dessa realidade.
Durante séculos, assim revelam as escavações, os povos de Jenne-Jeno mantiveram um
estilo de vida que envolvia agricultura, pesca, horticultura, e se movimentavam nesse
ambiente local quando necessário. Mas estavam longe de ser peões imóveis afetados
por ciclos climáticos de curto prazo. McIntosh acredita que os mandes eram muito mais
proativos, combatendo a imprevisibilidade com a articulação de agricultores e artesãos
especializados como ferreiros em uma economia generalizada. Eles viviam em locais
separados, amontoados, unidos por ligações de parentesco e também por lendas e mitos
poderosos, que forneciam a racionalização para a tomada de decisões. Não havia líderes
carismáticos, elites poderosas ou cidades, não havia exércitos para reforçar a lei e a
ordem e manter esse sistema unido. Em vez disso, uma "máquina do tempo" feita de
crenças e rituais compunha a estrutura que previa chuvas e secas. A memória social,
cuidadosamente preservada por pessoas selecionadas, é o núcleo da máquina do tempo
mande.

Como podemos saber de que maneira as comunidades antigas respondiam à mudança


climática, às mudanças perceptíveis em seu meio ambiente? Nós não podemos
reconstruir a mente dos povos antigos. Mas podemos examinar a memória social mande,
que liga sua existência ao mundo real por meio de mecanismos complexos. As pessoas
certamente tinham uma memória social das mudanças do clima, das secas catastróficas
e enchentes, talvez, como hoje, associadas em suas mentes aos nomes de indivíduos
vitimizados pelo desastre, e até batizados em homenagem a eles, ou a um grupo de
pessoas, como os ferreiros, a quem se atribuíam poderes ocultos. Elas preservam
gerações de conhecimento a respeito de alterações climáticas e condições ambientais,
prevendo geralmente mudanças iminentes e oferecendo estratégias para combatê-las.
Está em causa aqui a questão da autoridade para tomar decisões em relação ao futuro,
onde perigos climáticos e de outros tipos estão à espreita. Quem pode lidar com essas
questões? Em quem acreditar que não irá abusar do perigoso conhecimento a respeito
das mudanças climáticas e das respostas sociais apropriadas para obter ganho pessoal?
Na sociedade mande, o prognóstico climático não é a previsão científica, desinteressada,
de um climatologista. Quem faz as previsões também tem responsabilidades no domínio
da ação social, por isso, suas previsões são uma ligação crítica entre as mudanças do
clima no mundo objetivo e no mundo perceptível onde as pessoas irão agir.
A dinâmica por trás da máquina do tempo mande baseia-se em um conjunto de valores
culturais familiares reverenciados em muitas reproduções de lendas e símbolos.
Inúmeros grupos de interesse compõem a sociedade mande, todos constantemente
negociando a terra e os acontecimentos da história uns com os outros, como fizeram
durante séculos. O resultado é um panorama poderoso do que poderíamos chamar de
memória social, definida tanto pelas tradições orais quanto pelas lembranças de eventos
climáticos e outros. A adaptabilidade fluida de sua sociedade sempre dependeu desse
aspecto social familiar e em constante mudança. Os mandes tinham que ficar atentos e
ser flexíveis em suas respostas ao clima muito complexo, variável e imprevisível do
Sahel. Mudanças violentas, de chuvas abundantes para secas, faziam parte das crises
ecológicas e sociais que moldavam valores fundamentais e transformavam a autoridade.
É por isso que os povos de Jenne-Jeno e outras cidades mandes viviam em
aglomerações, em uma organização flexível que criava paisagens sociais cambiantes,
com maior capacidade para responder às mudanças climáticas do que sociedades
contemporâneas altamente centralizadas como as dos antigos maias ou dos chimus, na
costa norte do Peru.
Os homens e mulheres que tinham maior influência na sociedade mande eram membros
de sociedades secretas. O komo continua a ser uma forma de sociedade secreta,
liderada pelo komotigi, em geral um ferreiro. As sociedades secretas originais eram
formadas por caçadores, muito antes da chegada da metalurgia ao delta do Níger. Um
komotigi tinha a capacidade de ver o futuro; era curandeiro e protetor contra os feitiços
malignos. Astrólogo, podia prever o tempo, e estudava os céus a maior parte dos corpos
celestiais visíveis. Um komotigi entendia o comportamento dos animais e plantas, que
usava para prever se a chuva iria na época necessária para o plantio. O komo continua,
assim como s sociedades altamente secretas de caçadores. Atualmente, existem pelo
menos sete importantes sociedades secretas no Médio Níger.
Os primeiros especialistas da nação mande eram caçadores com aderes ocultos e
autoridade social. Desde épocas muito antigas, esses indivíduos viajavam para lugares
especiais onde eram imbuídos pelos espíritos, e por isso eram poderosos e perigosos. Ali
eles colhiam poder, capacidade de controlar o clima e outros aspectos da vida. Mais de
dois mil anos atrás, com a chegada da agricultura e do trabalho com ferro, os ferreiros se
tornaram importantes portadores de nyama. (Nyama pode ser traduzido livremente por
"força da terra".) Membros das primeiras sociedades secretas, os ferreiros foram atores
centrais durante séculos de resistência mande à hierarquia e à centralização, armados
com um repertório mítico e simbólico que enfrentou pressões sociais e ambientais.
Durante séculos, as sociedades secretas mandes espalharam conhecimento sobre a
paisagem.
Os grandes heróis do folclore mande colhiam o poder da nyama para navegar em
segurança por um mundo perigoso. O ferreiro-curandeiro Fakoli, por exemplo,
empreendeu jornadas para adquirir itens medicinais, como as cabeças de cobras e
pássaros pendurados em seu chapéu de feiticeiro. A busca de Fakoli também foi uma
jornada de conhecimento, que o levou em uma expedição por uma paisagem espiritual e
simbólica. Fanta Maa, herói mítico da cultura bozo, tornou-se um exímio caçador ainda
na infância. Ameaçados de extinção, os animais se reuniram e escolheram uma gazela
para assumir a forma de uma jovem e seduzir Fanta Maa, depois enganá-lo e levá-lo para
morrer no deserto. Mas Fanta Maa usou sua parafernália de caçador para escapar.
Nyama é a energia maligna, se controlada, que flui através de todos os seres animados e
inanimados. Aos olhos dos mandes, as mudanças climáticas ocorriam devido a
perturbações da nyama na paisagem. Gerações de compreensão sobre como a nyama
afetava o ambiente permitiram aos heróis e ao komotigi mandes prever as mudanças do
clima. O mais poderoso entre eles tinha a autoridade espiritual para manipular as forças
que trazem as chuvas ou as secas - ou para matar alguém a distância somente com a
força do pensamento. Assim, indivíduos carismáticos se movimentavam através de uma
paisagem simbólica em que colhiam poder, autoridade e conhecimento. Os caçadores
iam para o deserto em viagens para locais espiritualmente poderosos. Ali eles matavam
animais espirituais. A matança liberava grandes quantidades de nyama, que somente os
melhores caçadores poderiam controlar, e garantiam terras bem regadas para as
comunidades estressadas.
Choupanas usadas nas caçadas ainda são locais onde se venera a sabedoria climática
acumulada por gerações a respeito de recursos em determinadas áreas. Até mesmo
caçadores famosos ainda vão até essas choupanas para adquirir mais conhecimento.
Cursos de água subterrâneos também podem marcar antigas rotas da migração norte-
sul em épocas de mais chuva. Para os agricultores mandes, a paisagem era, e ainda é,
um catálogo de nomes e lugares, prenúncio das mudanças climáticas e das ocupações
humanas, que foram muito bem-sucedidas no combate à seca e às enchentes durante
muitos séculos.
A máquina do tempo mande funcionou bem. Entre os anos 800 e 900, Jenne-Jeno tinha
um quilômetro de comprimento, segundo uma estimativa conservadora, cerca de 27 mil
pessoas morando na cidade e nas 69 comunidades-satélite num raio de quatro
quilômetros. Entre 300 e 700, as precipitações pluviométricas foram cerca de 20% mais
elevadas do que entre 1930 e 1960. Depois do ano 1000, o clima se tornou muito mais
volátil e a cidade sofreu um declínio. As pessoas abandonaram antigas regiões de cultivo
de arroz, depois terrenos mais elevados, e mudaram do arroz para o painço, resistente à
seca; esses deslocamentos foram causados em parte pelas mudanças no regime das
cheias, em época de maior seca. Na vizinha Mema, grandes aglomerados próximos a
canais e depressões cheias de água deram lugar a assentamentos mais isolados,
menores, geralmente em dunas de areia. Por toda a parte do Médio Níger, comunidades
grandes e pequenas se adaptaram às novas circunstâncias, não necessariamente sem
sofrimento, mas tal qual seus antecessores.
Esse, então, foi o ambiente cultural do qual emergiu Gana em torno do ano 700, no fim
de um período de relativa estabilidade climática. As tradições orais mandes falam de um
grande herói, Dinga, avô dos chefes ganianos, brilhante caçador, extrator do nyama.
Histórias antigas descrevem seus movimentos pela paisagem, pelos lugares onde ele
triunfou sobre animais de guarda e conhecimento. Dinga estabeleceu-se em Jenne-Jeno
durante 27 anos, tomou uma esposa, mas não teve filhos. Talvez esse fosse o momento
de forjar sólidas alianças com Jenne, que não estava sob domínio ganiano, mas sempre
foi amigável com sua vizinha. Dinga estabeleceu-se no noroeste, subjugou um espírito
protetor feminino em Dalangoumbé e formou o reino de Gana, provavelmente através de
um longo processo de construção de alianças, de aglomerações de grupos sociais. O
mesmo aconteceu no Sahel, com a criação de grupos consolidados sem rigidez, que
pagariam tributos ao núcleo. Foi assim que o chefe de Gana conseguiu taxar o comércio
de ouro e de outras mercadorias do sul. Ao mesmo tempo, ele manteve uma cavalaria
sempre alerta para lidar com chefes que não queriam cooperar e com nômades hostis e
seus camelos.
Um caçador mande com seu avatar em forma de cobra.

As descrições de Gana feitas pelo geógrafo al-Bakri surgem durante os poucos séculos
de clima estável e relativamente favorável. A Gana que ele descreveu era um reino
fluido, marcado por sua organização heterogênea e flexível, forjada em parte pela
conquista, mas, o mais importante, por seus poderes independentes que sempre fizeram
parte da existência mande. Gana realmente possuía grande riqueza, porém seu maior
tesouro não vinha do ouro ou de coisas materiais, mas das ricas práticas e tradições de
sua cultura nativa, que permitia a seus membros prosperarem em um clima de extremos
impiedosos e violentos.
Diz a tradição que, no fim da vida, Dinga passou seu nyama acumulado para o filho, a
cobra-d'água Bida, gêmea do chefe fundador de Gana, Diabé Sissé. Bida concordou em
fornecer chuva e ouro suficientes de Bambuk, que ficava a vários dias de distância para
sudoeste, se lhe fosse entregue todos os anos a mais bela virgem do reino. Mas houve
um ano em que o pretendente da virgem matou a cobra. A cabeça decepada pulou sete
vezes e foi parar no rico Buré, muito mais perto de Mali. A produção de ouro transferiu-se
de Bambuk para Mali. Sete anos de fome e seca devastaram Gana. O reino desmoronou.
Quando o animal-espírito morreu, o nyama maligno interveio. O fato de Gana ter tido
problemas com seus vizinhos do deserto, assim que terminou o período de relativa
estabilidade climática, não foi uma coincidência.
As tradições orais são a história filtrada pela caprichosa memória humana. Talvez a
história do trágico fim de Bida e as secas que vieram em seguida constituam uma vaga
recordação das violentas oscilações climáticas; quem sabe uma seca memorável tenha
provocado o desaparecimento de um reino sempre flexível. Numa época de crescimento
das conquistas e da influência muçulmana, Gana permaneceu pagã até 1076, quando o
líder almorávida Abu Bakr capturou Koumbi e impôs o islamismo aos seus habitantes.
Um século e meio depois, no leste, o reino de Mali adquiriu proeminência, com o império
do ouro conquistando fama mundial através da peregrinação de Mansa Mussa, em 1324.

CAPÍTULO 5
Inuítes e Qadlunaat

Eles aprontaram o navio e o colocaram no mar. O primeiro lugar a aportar foi o país que
Bjarni vira por último. Eles se aproximaram da praia e lançaram âncora, depois
abaixaram um barco e desembarcaram. Não havia grama à vista, e o interior era coberto
por grandes geleiras, e, entre as geleiras e a praia, a terra era como uma grande laje de
pedra. Pareceu-lhes que aquele era um país imprestável.

- Saga Groenlandesa (século XII)

Ano 1000. O nevoeiro paira sobre as ondas do Estreito de Davis, a oeste da Groenlândia,
compondo um delicado traçado em meio às sombras circundantes. O barbudo capitão
nórdico observa atentamente a escuridão, indiferente ao frio penetrante. A tripulação se
encolhe nos capotes pesados, exceto pelo timoneiro, que comanda o leme de esparrela
na popa. Dois jovens preenchem o tempo afiando suas espadas de ferro, passando
gordura pela superfície brilhante para evitar que enferrujem. A vela quadrada range e
geme com o movimento do barco, subindo e descendo com a ondulação do mar, o casco
flexível contorcendo-se sem esforço com as ondas. O navio navega lentamente, uma
pequena ilha na imensidão indistinta de trevas e ondas capazes de virar um barco. Um
vento frio do norte sopra através da escuridão, permitindo o mínimo de velocidade
náutica, nada mais. Os jovens tripulantes já passaram por situações incertas – esperas
intermináveis no meio de um temporal, dias e dias indo à deriva numa calmaria distante
da terra.
As horas passam lentamente enquanto a neblina adensa, diminui momentaneamente e
depois volta. Por fim, o vento se desloca para leste e fica mais forte. O vento leve se
transforma em boa brisa para velejar. A névoa se dissipa, revelando um horizonte claro e
um profundo mar azul. O timoneiro grita e aponta para a frente. Montanhas irregulares,
cobertas de neve, postam-se corajosamente contra o céu agora brilhante, destacadas
pelo sol de fim de tarde. Um suspiro de alívio coletivo cruza o barco. Se o vento de popa
se mantiver, eles chegarão no dia seguinte a um ancoradouro protegido entre as ilhas a
oeste.
Quando alcançarem a terra, os nórdicos sabem que encontrarão caçadores inuítes, cuja
subsistência é garantida, como sempre foi, pela pesca e por mamíferos marinhos. Eles
vieram à procura do marfim das morsas, mas têm apenas uma coisa em comum com os
habitantes nativos - o ferro.
A Eurásia e o Saara podem ter sofrido com a seca, mas os séculos de aquecimento foram
benéficos para aqueles que viviam no Ártico. No extremo norte, as condições de gelo
foram menos severas, e houve uma onda de navegações nórdicas em direção ao
Ocidente, para a Islândia e mais além. Esta é a história de como as condições favoráveis
no Atlântico Norte e no Ártico Canadense colocaram em contato transitório, durante os
séculos de aquecimento, dois mundos completamente diferentes - o dos nórdicos e o dos
povos inuítes, cuja ascendência chegava até o Estreito de Bering.

Como na Europa, o Período de Aquecimento Medieval trouxe invernos mais amenos e


uma temporada de plantio mais longa em grande parte da Escandinávia. Aumentou a
densidade populacional, gerando escassez de terras e limitando as oportunidades para
os homens jovens. Eles viviam em uma sociedade volátil, dividida por disputas,
partidarismo e violência. A cada verão, "remadores" jovens partiam em grandes barcos
em busca de saques, comércio e aventura. Com a melhora das condições de gelo no
norte e o recuo do gelo do Ártico, os capitães noruegueses, navegadores com longa
experiência na costa, se aventuraram em mar aberto pelo Atlântico Norte.

Localidades mencionadas neste capítulo.

Ao contrário da crença popular, os nórdicos nunca navegaram para longe em seus navios
de guerra. Em vez disso, confiavam no knarr, um navio mercante robusto, capaz de
atravessar o oceano. Os knarrs eram leves, mas fortes, fáceis de consertar no mar ou em
praias remotas. As tripulações se mantinham com o peixe salgado, o bacalhau seco cura-
do nos ventos frios da primavera do Ártico, nas Ilhas Lofoten, junto à costa norte da
Noruega. Quando começou o aquecimento, capitães experientes navegaram para o
oeste por águas desconhecidas, exceto para um grupo de monges irlandeses que
haviam viajado até a Islândia em grandes umiaques algumas gerações antes. Poucas
tripulações aventureiras escreveram a respeito de suas experiências, que passaram para
as lendas celebradas pelas sagas nórdicas. Muitos navios jamais retornaram,
naufragando nas costas depois de ficarem retidos por causa das tempestades, ou
afundando sem deixar rastro devido a temporais em mar aberto. No entanto, colonos
nórdicos se estabeleceram nas Ilhas Orkney e Shetland, na costa norte da Escócia, no
início do ano 800, e nas Ilhas Faroe: pouco depois. No ano 874, o norueguês Ingólf
aportou na Islândia. No ano 900, os colonos tinham se estabelecido na ilha, levando sua
economia de laticínios. Nessa época, os invernos foram mais amenos do que haviam sido
durante séculos. Atualmente, os limites ao sul da massa de gelo do norte ficam a cerca
de 100 quilômetros da costa norte da Islândia; quando os primeiros colonos nórdicos
chegaram, o gelo tinha pelo menos o dobro dessa distância. Mesmo sob condições mais
amenas, a vida na Islândia era dura, especialmente depois de um inverno frio. Os
colonos combinaram os laticínios com a caça às focas e a pesca costeira do bacalhau. Os
verões mais amenos permitiram que cultivassem feno como forragem de inverno e
plantassem cevada até o século XII, quando condições mais frias tornaram novamente
impossível o cultivo de cereais até o início dos anos de 1900.
Por volta do ano 985, Erik, "o Vermelho", banido da Islândia por causa de brigas
familiares que resultaram em assassinato, navegou em direção ao Ocidente e aportou no
sul da Groenlândia. Ali ele encontrou pastagens melhores do que havia em casa. Em
pouco tempo, floresceram duas colônias, uma nas águas protegidas da costa sudoeste e
outra mais ao norte, no atual distrito de Godthab, na parte superior do Ameralik Fjord.
Os colonos viram-se em uma costa sem gelo durante quase todo o verão, naquela
época, aquecida pela corrente quente da Groenlândia que vinha do norte para abraçar a
praia. Essa corrente favorável levava os barcos de pesca dos colonos até os fiordes e
ilhas ao redor de Disko Bay, para um lugar em que abundava o bacalhau, as focas, as
narvais e as morsas. Ali, no que chamavam de Nordrsetur, juntaram marfim suficiente
para pagar, durante muitos anos, os dízimos às autoridades diocesanas na distante
Noruega.
A corrente da Groenlândia Ocidental caminha em direção ao centro do Nordrsetur e
Baffin Bay, onde dá lugar às correntes mais frias, que vêm do sul. Um simples passeio
pela costa teria mostrado aos nórdicos as montanhas cobertas de neve da Ilha de Baffin,
do outro lado do Estreito de Davis, que tem pouco mais de 325 quilômetros em seu
ponto mais estreito. As águas mais frias no lado oeste do estreito, ao longo da Ilha de
Baffin, Labrador e Terra Nova, são submetidas a uma estação fria mais longa, que forma
uma cobertura de gelo capaz de durar até o verão. Porém, durante os séculos mais
amenos do Período de Aquecimento Medieval, quando a camada de gelo se dispersava
relativamente cedo, a movimentação pelas margens orientais pode ter sido
consideravelmente mais fácil e menos perigosa.
Não sabemos quando os primeiros navios nórdicos chegaram à Ilha de Baffin, mas pode
ter sido antes da primeira vista documentada de Labrador, feita por Bjarni Herjólfsson
por volta do ano 985. Perdido no nevoeiro em meio aos ventos leves do norte, numa
passagem da Islândia para a Groenlândia, ele acabou avistando uma costa baixa coberta
por floresta muito diferente das montanhas geladas de seu destino pretendido. Voltou
sem ter desembarcado e foi criticado por isso. Posteriormente, seguiu-se a famosa
viagem de Leif Erikson, filho de Erik, "o Vermelho", que ancorou junto a uma costa
rochosa coberta de gelo; seguiu depois para o sul, com ventos de nordeste em
"Markland", na costa sul de Labrador, até chegar à boca do Rio St. Lawrence; depois,
mais para o sul em uma área ao sul do grande estuário, que ele chamou de Vinland, por
conta das uvas selvagens que encontrou ali. Fundou um pequeno assentamento em L'
Anse aux Meadows, na península setentrional do que hoje é a Terra Nova. O
assentamento continuou sendo utilizado durante anos.
Expedições posteriores, em busca da madeira de Labrador, entraram em contato com
numerosos nativos, o povo beothuk, que os combateram com tamanha ferocidade que
os nórdicos nunca se estabeleceram permanentemente na costa ocidental. "Quando eles
se aproximaram houve uma batalha feroz e uma chuva de projéteis veio voando", dizem
as Vinland Sagas. Durante dois séculos, navios da Groenlândia navegaram na direção
norte e oeste, utilizando posteriormente as correntes favoráveis para costear em direção
ao sul. Assim que construíam os barcos, ou simplesmente adquiriam a madeira, iam
direto para casa nas asas dos ventos de sudoeste. Os nativos e recém-chegados parece
que se evitavam.
Viajar pelas costas orientais do Estreito de Davis e pelo Labrador era perigoso, mesmo
nos séculos mais quentes. As tripulações enfrentavam nativos americanos hostis, ursos
polares, icebergs e tempestades repentinas junto à costa em águas reconhecidamente
castigadas pelo vento. A navegação nas águas geladas e próximas à costa era muito
mais perigosa para os nórdicos em seus barcos de madeira do que para os inuítes, com
seus umiaques e caiaques leves, que podiam ser retirados da água facilmente, eram
relativamente imunes a furos e fáceis de consertar. O gelo formado pela queda brusca
da temperatura poderia destruir um knarr em minutos, mesmo no verão. Tanto quanto
possível, os nórdicos mantinham-se longe das margens de gelo, que se desfazia durante
o verão. Contudo, apesar de todos os perigos, o bacalhau em abundância e as condições
mais amenas permitiam que os groenlandeses viajassem livremente pelo Estreito de
Davis e através dos canais estreitos do arquipélago canadense. Ali eles encontraram os
caçadores inuítes, que lhes deram as boas-vindas porque desejavam o que para eles era
uma substância exótica: o ferro. Ao contrário dos beothuks de Labrador, os inuítes
faziam parte de um mundo ártico muito maior, ligado por redes de comércio informal a
outros grupos de caçadores com ancestrais comuns que se estendiam até o Estreito de
Bering.
Podemos então examinar esse comércio voltado para o Ocidente e fazer uma conexão
com os séculos de aquecimento?

Ano 1000. O Estreito de Bering é uma vastidão sombria de ondas cobertas de gelo. O
vento está tranqüilo, a temperatura congelante e a superfície da água levemente
agitada. Acima pairam nuvens baixas. O caçador está sentado, absolutamente imóvel,
em seu caiaque de pele, os olhos examinando silenciosamente o oceano escuro. O
equipamento de caça está à mão, o remo mal toca a água. A vida na água é sua
segunda natureza, muitas vezes mais confortável do que na terra.
Uma cabeça preta aparece momentaneamente na superfície. Uma foca olha ao redor
inquisitivamente. O caçador espera. Sua presa desaparece sob a água, restando apenas
uma leve agitação. Começa a familiar vigília, o bote parado na água. Enquanto espera, o
caçador checa seu arpão e a bobina de linha ligada ao cabeçote afiado. A espera se
estende desde a manhã até a noite, Ele vê a foca novamente a alguma distância; ela
desaparece de novo. Ele rema suavemente até o centro da ondulação e volta a esperar.
De repente, a presa ressurge dentro dos limites do arpão. O esquimó atira. A ponta de
ferro penetra na foca, que afunda imediatamente. A linha flutua enquanto o eixo se
separa do cabeçote. Por algumas horas, o caçador segue o ondear agitado enquanto a
presa vai enfraquecendo até morrer. Quando a carcaça vem à tona, ele a puxa para seu
caiaque e vai para casa.
O Estreito de Bering é um lugar inóspito, implacável, onde os invernos podem durar nove
meses no ano, Uma neblina densa cobre o oceano de cor cinza durante dias a fio,
reduzindo a visibilidade para alguns poucos metros, Ventos uivantes sopram através da
neblina. A não ser pelo breve verão, massas de gelo partidas entopem os estreitos,
lançando-se ocasionalmente para a praia em tempestades violentas. A costa da Sibéria é
o lado mais acidentado, com escarpas íngremes e pontos de referência bastante nítidos.
Planícies costeiras baixas, inúmeros lagos e planícies baixas marcam o lado do Alasca. A
melhor caça a mamíferos marinhos está nas praias ocidentais, protegida por
promontórios estratégicos, Mil e duzentos anos atrás, quando os knarrs nórdicos
estavam cruzando o Atlântico Norte pela primeira vez, sociedades sofisticadas, baseadas
na caça de renas e de animais marinhos, prosperaram tanto na costa asiática quanto na
americana desse mundo duro e exigente.

Temos poucas informações a respeito das flutuações climáticas no Estreito de Bering


durante o Período de Aquecimento Medieval. Ventos de sul prevaleceram muitas vezes
por várias décadas, e até séculos, durante períodos de clima mais quente. No entanto,
invernos mais frios trouxeram ventos mais fortes do norte e tempestades violentas. Por
isso o padrão dos assentamentos mudava, favorecendo costas voltadas para leste ou
oeste de acordo com as mudanças nas condições climáticas. Com condições mais
quentes, entre o ano 1000 e 1200, a temporada de mar aberto foi maior, com mais
canais estreitos - "passagens" - através da massa de gelo onde os caçadores podiam
preparar emboscadas para os animais marinhos. O clima ainda era selvagem, mais frio
em alguns lugares, mais quente em outros, com mais tempestades em uma costa,
condições mais tranqüilas em outra. Uma temporada de gelo mais longa e de mais mar
aberto permitia que as pessoas se movimentassem livremente, caçassem animais
marinhos por extensões mais amplas e comercializassem com mais tranqüilidade. Ao
contrário da Europa medieval, não houve benefícios universais com as condições mais
quentes. Cada ano foi diferente, alguns com muito gelo, outros com mar aberto durante
meses. Para sobreviver nesse ambiente desafiador, era necessário um nível de
adaptabilidade e oportunismo quase incomparável no mundo antigo.
Em muitos aspectos, um grau ou dois de aquecimento climático era irrelevante para as
pessoas que viviam em um mundo onde o frio era a norma, onde o gelo e o inverno
incansável faziam parte da existência diária. Ao contrário dos nórdicos, os povos nativos
do Ártico haviam herdado a adaptação ao frio extremo de seus ancestrais remotos da
Idade da Pedra e passaram essas habilidades de uma geração a outra. Eles eram
adaptáveis o suficiente para serem imunes até mesmo às maiores flutuações climáticas.
Ao contrário dos inuítes, os nórdicos nada sabiam a respeito da vida no Ártico e estavam
à mercê do gelo no Atlântico Norte. Em suas viagens para o Ocidente, talvez nunca
tivessem chegado até a Groenlândia e o arquipélago do Canadá se não fosse pelos
séculos de aquecimento.
Os grupos de caça de Bering desenvolveram uma notável habilidade com os caiaques de
pele e os umiaques. Os esquimós, como os aleútes mais ao sul, começavam a remar
praticamente na infância. Eles se protegiam do frio usando seus caiaques como se
fossem roupas de pele, mas a eficiência desse artefato de guerra dependia do
desenvolvimento de armas de caça muito mais eficientes do que os simples arpões. Em
algum momento, durante o primeiro milênio a.C., os caçadores do Estreito de Bering
desenvolveram uma tecnologia revolucionária para a caça de animais marinhos baseada
nos arpões articulados. Assim como o arado de ferro revolucionou a agricultura na
Europa, o arpão articulado também mudou a vida no Ártico antigo. (As cabeças eram
originalmente feitas de marfim, é claro, e não de ferro.) No arpão convencional, a cabeça
se soltava do eixo quando atingia a presa. Mas freqüentemente saía da ferida quando a
caça mergulhava e lutava. Em contrapartida, o arpão articulado, que também se soltava
quando atingia sua presa, tinha uma ponta giratória que se fixava sob a pele e a camada
de gordura de forma que não podia ser solta com movimentos violentos ou no contato
com o gelo. Os novos arpões eram especialmente eficientes contra as baleias e os
grandes mamíferos aquáticos quando utilizados a partir dos umiaques e caiaques, barcos
de pele grandes e leves.
Com o passar dos anos, os arpões com ponta de marfim tornaram-se cada vez mais
elaborados, às vezes com rica decoração. O mesmo material era usado para fazer
boquilhas e plugues utilizados para retirar os animais mortos da água. O marfim era um
bom material para a cabeça do arpão, mas não se comparava ao ferro, exótico e caro,
que chegou da Ásia pela primeira vez à região do Estreito de Bering cerca de dois mil
anos atrás (a data precisa é incerta).
No ano 900, a caça às baleias se transformara em arte, executada por equipes de
barqueiros e caçadores especializados em umiaques. Eles perseguiam as baleias
migratórias por corredores estreitos de gelo na primavera e em mar aberto no outono.
Nos verões mais quentes, como os que se tornaram mais comuns perto do fim do
milênio, as condições em mar aberto eram tais que os capitães podiam acompanhar as
migrações das baleias por longas distâncias através do estreito e ao longo da costa do
Oceano Ártico para o leste. O contato entre o leste e o oeste parece ter se tornado mais
regular nos séculos de aquecimento, quando os nórdicos aportaram na Ilha de Baffin.
Erkven Village, East Cape, Sibéria, ano 1100. O fogo que arde enche a casa de fumaça
que paira sobre a barbatana de baleia acima dos dois capitães de baleeiros. Eles
conversam em voz baixa, um deles é local e o outro veio do outro lado do estreito, de
um vilarejo chamado de Ipiutak, perto do que é hoje o Point Hope, um lugar com
poderosas associações sobrenaturais. O visitante, tendo aproveitado o bom tempo do
final do verão para atravessar a água, chegou há algumas horas. Ele programou muito
bem sua visita, pois um forte vento de sul agora castiga o estreito. Terá que esperar
alguns dias antes de poder seguir para seu próximo destino no sul.

Um arpão articulado penetra na presa, soltando-se do eixo da ponta (uma ligação


intermediária com o eixo principal do arpão), e gira para o lado, provocando
sangramento interno e fazendo com que seja praticamente impossível para o animal
libertar-se do arpão. A cabeça fica ligada a uma linha e a uma bóia, de forma que o
caçador consegue localizar o animal ferido.

Os dois homens são parentes, ambos habilidosos caçadores de baleias, e o visitante é


também um venerado xamã, muito conhecido por seus poderes espirituais. Seus
homens descarregaram uma carga de peles de rena, agora empilhadas perto do fogo. O
anfitrião revira um saco de peles de foca e retira uma bela ponta de lança feita de ferro,
que brilha com a luz do fogo. O visitante a examina atentamente, passando o dedo pela
ponta afiada. Balança a cabeça e começa a barganha. No final, uma faca, algumas
outras pontas, e um monte de minério escuro estão no chão entre os dois capitães. Os
dois lados barganharam bastante, mas ambos estão satisfeitos, pois as peles de rena, e
especialmente o ferro, estão em falta.
O que resta de Erkven está na costa de Chukotka, no Estreito de Bering, ao sul do Cabo
Dezhnev (East Cape) no extremo leste da Sibéria, ponto mais próximo do Alasca,
prontamente avistado da praia em dia claro. Há um cemitério no alto de uma colina,
algumas centenas de metros atrás do assentamento. Os restos de mais de trezentas
pessoas foram trazidos do local do sepultamento. O conteúdo dos túmulos revela a
existência de diferenças sociais agudas em Erkven. Três tumbas continham dois terços
dos arpões dos cemitérios. Um dos esqueletos jazia com notável estoque de
equipamento de caça de focas e pássaros, incluindo dez arpões, pontas de lança,
quebradores de gelo e acessórios de chapéu de madeira. Também havia enterros
múltiplos, provavelmente de servos ou escravos, alguns deles talvez vítimas de
sacrifícios.
O arqueólogo Mikhail Bronshtein estudou os instrumentos de osso e marfim ricamente
decorados encontrados no cemitério e acredita que os motivos de animais fantásticos e
outros artifícios são sinais que distinguem diferentes comunidades e grupos familiares de
toda a região do Estreito de Bering. Alguns túmulos eram de moradores do vilarejo.
Talvez os outros fossem de visitantes, como mercadores, ou de esposas trazidas de
outras comunidades. Uma elaborada rede de interconexões políticas e sociais parece ter
ligado as comunidades do Mar de Bering à longa distância, todas vivendo dos recursos
marinhos dos oceanos do Ártico. Podemos imaginar as divisões e a violência esporádica
que marcaram essas sociedades, as lutas e disputas que assumiam proporções
ameaçadoras durante os longos meses de total escuridão do inverno. Elas competiam e
lutavam por rotas de comércio e territórios de caça, por causa de insultos que
envenenavam o espírito por muitas gerações.
Quando Bronshtein examinou os objetos, descobriu que as linhas e traçados feitos nos
ossos e no marfim eram tão finos e intrincados que só poderiam ter sido elaborados com
instrumentos de corte e entalhe com pontas de ferro. Ele acredita que a maioria dos
artefatos feitos de marfim, chifres e madeira das antigas culturas do Mar de Bering foi
criada com instrumentos de ferro, de forma que esse foi um material vital para os
artesãos de dois mil anos atrás e para os que vieram depois.
No início, o ferro do Estreito de Bering talvez viesse das feiras do interior, bem como das
rotas comerciais ao longo da costa. Vilarejos estrategicamente situados, como Erkven,
estavam em boa posição para controlar todos os tipos de comércio, especialmente
aqueles de mercadorias valiosas como o ferro. Não sabemos quanto ferro passou de mão
em mão pelo estreito, mas é bem provável que tenham sido grandes quantidades. Isso
poderia explicar a rapidez com que os grupos esquimós aceitaram a tecnologia do ferro
e os artefatos após o contato tardio com os europeus. O ferro já era um artigo conhecido,
extremamente útil e valorizado, muito antes de o explorador russo Vitus Bering ter
navegado pelo estreito que leva seu nome, em 1728.
Na época em que houve um ligeiro aquecimento no Ártico, as sociedades altamente
competitivas do Estreito de Bering haviam desenvolvido uma fome insaciável pelo ferro.
Quase tudo era proveniente de fontes asiáticas. Então, gradualmente, alguns objetos de
ferro podem ter vindo da direção oposta, de terras esparsamente habitadas a milhares
de quilômetros de distância, no arquipélago do Canadá e na Groenlândia.

Leste do Yukon, uma vasta área de terras baixas, território ondulante que se estende
para leste em direção ao distante Oceano Atlântico. Uma grossa camada de gelo cobria
essa terra rochosa, envolta por geleiras, há apenas quinze mil anos. A Baía de Hudson é
o marco dominante, pouco mais do que uma bacia rasa. Esse terreno improdutivo do
arquipélago canadense, obstruído pelo gelo, fica ao norte da região principal, separado
por uma pequena distância da Groenlândia, com sua vasta cobertura de gelo. Em todo
esse mundo impiedosamente frio, raramente há mais de três meses sem gelo por ano.
Mesmo nos séculos de aquecimento, o subsolo teria permanecido congelado, coberto por
pântanos e brejos nos meses de verão, de forma que a viagem por terra teria sido difícil
na melhor das hipóteses. Essas dificuldades teriam sido agravadas por enxames de
mosquitos. A cobertura vegetal é esparsa, mas era possível caçar renas e bois
almiscarados, assim como pequenos animais e pássaros. Porém, os ricos recursos do
Oceano Ártico garantiam uma fartura de alimentos para as pequenas populações tuniits
que foram para leste a partir do Alasca ao longo da costa e para o arquipélago há cerca
de cinco mil anos.
Os tuniits eram fortes, seres habilidosos que sobreviveram em alguns dos ambientes
mais hostis da terra com a mais simples das tecnologias. O arqueólogo canadense
Moreau Maxwell descreveu certa vez o que deveria ter sido a vida em suas pequenas
tendas de couro de boi almiscarado, equipados com pequenas fornalhas nas profundezas
do inverno, por volta de 1700 a.C. O cheiro forte das lamparinas de óleo de foca dentro
das tendas impregnava tudo. "Os duros meses de inverno deveriam ser passados em um
estado de semissonolência, com as pessoas deitadas debaixo de peles quentes e grossas
de boi, os corpos bem juntos uns dos outros, e com a comida e o combustível à mão."
Todos limitavam as saídas ao mínimo possível e basicamente hibernavam.
A cultura tuniit desenvolveu-se lentamente durante muitos séculos. Essa cultura Dorset,
como é chamada pelos arqueólogos, estava sempre se movimentando, indo para o norte
nos séculos mais quentes, recolhendo-se diante de condições mais frias. Acima de tudo,
eram caçadores de focas, que também pegavam renas. Durante os séculos de clima
mais frio, desenvolveram nova caça no gelo e métodos de pesca que lhes permitiram
adquirir alimentos no meio do inverno, em vez da semi-hibernação de seus
predecessores. Eles tinham apenas a lança mais básica, e nenhum arco-e-flecha, assim
como não tinham barcos sofisticados ou arpões articulados dos povos do Mar de Bering.
Sua caça dependia da vigília atenta e da infinita paciência que lhes permitia aproximar-
se da presa e matá-la com um simples arremesso da lança. Essas armas eram valiosas
para a caça através de furos na camada de gelo, especialmente depois do ano 1000 e
durante os séculos de aquecimento, quando os caçadores começaram a usar armas com
pontas feitas com o ferro forjado, puro, e extremamente raro da região do Cabo York,
obtido devido a uma chuva de meteoros que caiu sobre a Terra há pelo dez mil anos.
Outros grupos exploraram o cobre nativo proveniente da região do Rio Coppermine no
Ártico Central.
Tanto o ferro do meteorito quanto o nativo tinham grandes vantagens sobre o osso e o
marfim - as armas com ponta de metal eram mais fortes e letais - e por isso esse metal
era tão precioso. A julgar pelas medições das ranhuras em instrumentos de osso
abandonados, o precioso ferro era reciclado muitas vezes. Pelo menos um pouco desse
ferro estava nas mãos de capitães de pequenos barcos baleeiros. Mais de 46% dos ossos
encontrados em uma residência com instrumentos de caça à baleia, em um
assentamento dos thules em Qariaraqyuk, na Ilha de Somerset, haviam sido equipados
com lâminas de metal. Em uma casa menor das proximidades, 9,6% dos instrumentos
haviam tido lâminas de metal; todos esses artefatos eram usados para a caça em terra
firme. Pequenas quantidades de ferro foram passando lentamente de mão em mão por
distâncias enormes, chegando em alguns casos a 600 quilômetros de distância da sua
origem. Com o tempo, um pouco do minério, ou artefatos feitos com ele, pode ter
viajado para oeste e alcançado grupos famintos pelo metal no Estreito de Bering.
É provável que sempre tenha existido algum tipo de contato entre o Estreito de Bering e
pontos a leste, mas foi durante o Período de Aquecimento Medieval que essas ligações
aumentaram significativamente.

Como os nórdicos, capitães empreendedores que comandavam suas canoas pelo Estreito
de Bering eram dotados de curiosidade insaciável e estavam famintos por novas
oportunidades comerciais. O aquecimento posterior ao ano 1000 teria trazido mais
semanas livres de gelo, assim como corredores mais largos entre o gelo, ao longo dos
quais os barcos de pele poderiam passar em segurança em busca dos mamíferos mari-
nhos e baleias migratórias. Com maior abundância no suprimento de alimentos, as
populações locais devem ter aumentado, o que por sua vez deve ter levado os capitães
baleeiros a procurar novos locais para a caça. E com as condições mais favoráveis, os
umiaques podiam seguir as baleias da Groenlândia por mar aberto e por amplas
passagens sem gelo quando migravam para leste pelas costas do Ártico canadense e
para o arquipélago. As baleias da Groenlândia, Balaena mysticetus, são baleias-francas
do Ártico com cabeça em forma de arco que chega a 40% do comprimento do corpo.
Elas vivem perto da superfície e se movimentam em pequenos grupos, durante a
primavera e o verão, e em grandes grupos durante o outono.
Em 1921-24, Knud Rasmussen, um estudioso groenlandês, liderou uma expedição feita
com trenós puxados por cachorros, da Groenlândia até o Alasca, estudando grupos
inuítes e fazendo escavações em sítios arqueológicos ao longo do caminho. Para sua
surpresa, os arqueólogos, comandados por Therkel Mathiassen, desenterraram uma
cultura muito diferente daquela dos inuítes vivos. Eles identificaram uma sociedade até
então desconhecida, de mil anos atrás, em casas abandonadas perto de Thule, no
noroeste da Groenlândia. Logo depois, encontraram sítios semelhantes em uma enorme
faixa do Ártico que vai do Estreito de Davis até o norte do Alasca. Esses povos thules
foram os caçadores de baleias e mamíferos marinhos que atravessaram o Alto Ártico
durante o Período de Aquecimento Medieval; caçadores tão bem-sucedidos que
estabeleceram comunidades permanentes de inverno, com casas de pedra e turfa com
vigas de ossos de baleia no teto.
A migração thule do ano 1000 passou para a literatura acadêmica como um movimento
de caçadores de baleias que se deslocaram rapidamente para leste, ao longo da costa
do Ártico a partir do Estreito de Bering, perseguindo as baleias da Groenlândia que
prosperaram nas águas mais abertas durante os séculos mais quentes do Período de
Aquecimento Medieval. Na verdade, os eventos por trás da migração podem ter sido
muito mais complexos, envolvendo não apenas a caça às baleias, mas também a
procura do ferro.
Em que medida o aquecimento desempenhou um papel importante no movimento do
povo thule para leste, a partir do Alasca, é algo que não sabemos. Existem algumas
indicações de que os dois séculos mais quentes também trouxeram fortes ventos do
Norte e muitas tempestades. Porém, quaisquer que fossem as condições, os thules e
seus ancestrais do Estreito de Bering foram mais do que capazes de sobreviver
confortavelmente, de se adaptarem sem muito esforço ao frio e ao calor maior. Não
podemos ter certeza se foi o ferro ou as baleias o que motivou pequenos grupos desses
povos a navegar por milhares de quilômetros. As baleias com certeza foram um
elemento crítico, e continuaram assim. Mas o verdadeiro chamariz pode ter sido o ferro
do meteorito de Cape York, e também forasteiros do outro lado do oceano, que
aparentemente possuíam o precioso metal em abundância. No mundo ártico, onde as
pessoas cobriam longas distâncias e onde o conhecimento a respeito das condições do
gelo, da migração das baleias c das colônias de animais marinhos era extremamente
importante, podemos ter certeza de que os thules, como os tuniits, tinham ouvido
histórias a respeito dos misteriosos qadlunaats, estranhos de olhos azuis que vinham do
outro lado do mar, que usavam armas de ferro e tinham boa quantidade desse metal, e
às vezes se dispunham a fazer negócios com ele.
O enredo fica mais complicado quando percebemos que os primeiros sítios thules
encontram-se no extremo Alto Ártico e costas adjacentes presas pelo gelo aos depósitos
de ferro do meteorito de Cape York. Nesses primeiros assentamentos foram descobertos
não só o ferro do meteorito, mas também fragmentos de ferro e outros artefatos
nórdicos que só podem ter vindo da Groenlândia. Além disso, os artefatos desses
assentamentos thules são idênticos aos instrumentos utilizados pelas comunidades ao
redor do Estreito de Bering. O arqueólogo canadense Robert McGhee e outros acreditam
que isso pode ser um sinal de que os povos da região do Estreito de Bering seguiram
rapidamente pelo norte até a região de Cape York, num esforço para assumir o controle
sobre as fontes do ferro, em uma época de clima mais quente e condições de gelo talvez
mais favoráveis. A datação por radiocarbono dos primeiros sítios thules no leste indica
que os assentamentos começaram em algum momento entre o século XII ou XIII, numa
época em que os assentamentos nórdicos na Groenlândia gozavam de prosperidade
considerável, quando a fronteira do verão ia até o extremo norte da Islândia, e as
condições para viajar no Atlântico Norte eram relativamente tranqüilas durante o verão.
Uma vez estabelecidos no leste, os grupos thules espalharam-se gradualmente por todo
o leste do Ártico. Suas tradições orais falam sobre como eles mataram ou expulsaram os
tuniist quando assumiram o controle das fontes de ferro. Nos séculos XIII e XIV, os
últimos assentamentos tuniits foram abandonados. Também houve um momento em que
bandos de thules seguiram para o sul a partir do noroeste, entraram em contato com
comunidades nórdicas e coexistiram com elas. Nenhum dos lados se esforçou para
expulsar o outro, pois podiam oferecer um ao outro mercadorias que não poderiam ser
obtidas de outra maneira.

Podemos imaginar a cautela da tripulação ao aportar, alinhando o knarr na baía sem


gelo. Eles mantêm os arcos perto das mãos diante da aproximação de três caiaques. Os
remadores gesticulam na direção das águas mais rasas perto da costa, onde os nórdicos
podem ancorar com segurança. Assim que baixam a âncora, os três inuítes seguram na
beiradas e pulam a bordo. Eles não têm medo, pois já fizeram negócios com este barco
antes. Eles trocam presentes - alguns pedaços de lã muito colorida e um belo dente de
morsa. O mais novo dos inuítes aponta para os pregos de ferro que prendem a madeira e
admira as espadas de ferro nas bainhas. Ele nunca tinha visto tanta coisa com o precioso
metal.
O intercâmbio prossegue lentamente quando o capitão e alguns remadores atentos
chegam à praia em seus pequenos barcos. Os inuítes exibem os dentes de morsa diante
de suas casas de inverno. De sua parte, os nórdicos desamarram trouxas de lã e peças
de ferro. Não lanças ou armas novas, mas rebites de velhos barcos, fragmentos de
correntes, punhados de pregos, e fragmentos de tiras de metal usadas em barris,
material descartado em casa ou substituído durante a construção dos navios no último
verão no Labrador, mas de imenso valor nesse lado do Estreito de Davis. Após a partida
dos nórdicos, eles transformarão uma parte do ferro em lanças e pontas de arpão, mas a
maior parte é simplesmente guardada como material valioso e exótico.
Depois de vários dias, os nórdicos partem com uma carga de marfim, deixando para trás
alguns objetos de ferro, um velho capacete de aço e boa lã tecida durante o inverno na
Groenlândia. Pelo que todos lembram, os qadlunaats chegavam no verão, não todos os
anos, mas quando as condições do gelo permitiam, e sem aviso. Por muitas gerações, os
inuítes passaram a depender desse comércio para obter a mais preciosa de todas as
mercadorias: o ferro. É de se presumir que tenham estocado pilhas de dentes de marfim
de morsa enquanto aguardavam as raras visitas.
Alguns poucos artefatos nórdicos foram encontrados em assentamentos nativos na Ilha
de Ellesmere no Alto Ártico. Os artefatos de Ellesmere incluem cobre e ferro não nativos,
fragmentos de correntes e ferramentas de carpinteiros, além de pedaços de pregos
usados nos barcos, fragmentos de tecidos de lã, e algumas peças entalhadas com
imagens de nórdicos. Há até alguns pedaços de fundos de barris de madeira
reaproveitados.
As escavações em assentamentos inuítes em Nunguvik na Ilha de Baffin contam mais
coisas. Incluem fios de lã idênticos a alguns fragmentos de lã encontrados no
Assentamento Ocidental, a comunidade nórdica mais setentrional da Groenlândia. Há
fragmentos de pinho do final do século XIII ou início do XIV. Ali, o pinho não aparece na
praia como madeira flutuante. Dois pedaços têm furos com o que parecem ser marcas
de ferrugem de pregos de ferro. As descobertas feitas neste sítio são consideradas
evidências do contato direto entre os nórdicos e os povos nativos, em vez de objetos
passados de mão em mão por meio de longas distâncias. Cerca de mil quilômetros para
o sul, em dois sítios na Ilha de Baffin foram encontrados cordame nórdico e pedaços
pequenos de fios de lã.
A dispersão de artefatos por uma vasta área do esparsamente habitado Ártico
canadense comprova contatos mesmo que esporádicos entre os nórdicos e os inuítes. As
referências mais antigas a esses contatos aparecem em um texto do século XII, a
Historia Norgeviae: "Além da Groenlândia, ainda mais para o norte, os caçadores
encontraram pessoas de pequena estatura chamadas skraelings... Eles não sabem usar
o ferro, mas empregam dentes de morsa como mísseis e pedras pontudas no lugar de
facas" Não se sabe até onde eventualmente chegaram esses artefatos. Mas não há
motivo para que um punhado deles não tivesse chegado ao Estreito de Bering durante
os séculos de aquecimento.
Naquela época, os inuítes, que eram exímios caçadores de morsas, ocupavam as costas
e ilhas do Ártico canadense, até o canto noroeste da Groenlândia, ao norte da Baía de
Melville, Nessa região, chamada de Helluland por ninguém menos que Leif Erikson,
abundavam as morsas, cujo marfim era uma mercadoria preciosa para os colonos. A
Groenlândia era muito fria, mesmo nos séculos de aquecimento, para o cultivo de
cereais. Por isso, os colonos dependiam de uma economia baseada em laticínios, da
plantação de feno para forração no inverno, e também da pesca e caça aos mamíferos
marinhos, especialmente quando temperaturas mais frias desceram sobre o norte
durante o século XIII. Em 1262, a Groenlândia, como a Islândia, passou a pagar tributos
para a Noruega, mas o verdadeiro elo entre os groenlandeses e seu país de origem era a
Igreja. O primeiro bispo a viver na Groenlândia chegou por volta de 1210 e fixou
residência em Gondar, no sul. Durante gerações, os groenlandeses pagaram dízimos
para a Igreja norueguesa em mercadorias valiosas - panos tecidos com lã de ovelhas,
peles do Ártico, falcões vivos para os reis europeus e islâmicos praticarem seu esporte,
cordas para os barcos e acima de tudo marfim de morsa e narval. Só em 1327,
funcionários da Igreja relataram um imposto especial para as Cruzadas de
aproximadamente 650 quilos de marfim, que teriam exigido a morte de cerca de 200
morsas.
As obrigações para com o dízimo exigido pela Igreja fizeram com que os nórdicos
avançassem para o norte e entrassem em contato com os povos nativos do Ártico
canadense. Por muitas gerações, desenvolveram-se complexas relações comerciais entre
os nórdicos e seus vizinhos nativos, alimentadas por duas mercadorias - o marfim de
morsa e o ferro. Com um dízimo que exigia mais de quatrocentos dentes de marfim por
ano, os nórdicos precisavam de muito mais marfim do que podiam obter no entorno dos
assentamentos. Seus contatos com inuítes eram na melhor das hipóteses esporádicos,
mas eram vantajosos para ambas as partes, Os caçadores eram povos da costa, muito
mais interessados no comércio do que em expulsar os colonos. Somente depois de uma
série de invernos muito intensos e verões atipicarnente frios entre 1340 e 1360, bem
documentados em núcleos de gelo na Groenlândia, é que os colonos de assentamentos
do extremo norte abandonaram suas propriedades e se mudaram para o sul para se
juntarem a parentes no ambiente mais hospitaleiro do Assentamento Oriental. Com o
abandono dos assentamentos do norte devido ao frio crescente, o comércio de marfim
acabou. Como o marfim era a principal fonte de riqueza dos groenlandeses, eles devem
ter achado cada vez mais difícil manter qualquer relacionamento econômico com a Euro-
pa. Os pagamentos dos dízimos para a Igreja foram encerrados com a piora das
condições de gelo e rompidos os vínculos com a Noruega. Em 1370, terminou a prática
do envio anual de um barco da Noruega para a Groenlândia. O último bispo morreu em
Gondar, naquele mesmo ano, e não foi substituído.
Os inuítes também haviam se tornado cada vez mais dependentes do comércio de ferro
com seus vizinhos. À medida que a Groenlândia foi ficando mais isolada da Europa, a
demanda por marfim cessou completamente, forçando os inuítes a serem mais
agressivos em suas negociações com os nórdicos. Eles se mudaram para o sul, pilhando
os assentamentos abandonados à procura de metal. Além da relutância dos nórdicos em
adotar a tecnologia ou a prática de caça dos nativos, a presença de caçadores indígenas
impedia o acesso dos colonos aos locais críticos para a pesca e a caça das focas numa
época em que esses recursos eram cada vez mais importantes para a sua sobrevivência.
Em 1450, as colônias nórdicas na Groenlândia foram abandonadas e os contatos
fugazes, impulsionados pelas temperaturas mais quentes, entre dois mundos muito
diferentes deixaram de existir. Somente os épicos nórdicos e as tradições orais
preservaram as lembranças de uma era em que os nativos americanos e os europeus se
encontraram pela primeira vez.
Os nórdicos e os inuítes, como os habitantes da Europa setentrional, tiveram a vida
facilitada (embora nunca tenha sido fácil) pelo aquecimento do clima. A comida era mais
abundante, e novas tecnologias tornaram mais produtivo o trabalho dos lavradores e dos
caçadores. Do Ártico até a África do Norte, com a maior facilidade de transporte, os
contatos entre culturas permitiram que algumas dessas tecnologias fossem
compartilhadas por distâncias muito grandes. Em outras regiões do planeta, no entanto,
o aumento das temperaturas não foi benigno. O grande aquecimento trouxe fartura para
algumas áreas, porém, para outras, secas prolongadas sacudiram as bases de socieda-
des estabelecidas.

CAPÍTULO 6
A Época da Megasseca

No início não havia sol, não havia lua, nem estrelas. Tudo era escuro, e por toda a parte
só havia água.
- Lenda da Criação Maidu, Califórnia

Você transpira mesmo sentado sob a sombra profunda de um abrigo de pedra. Um vasto
panorama de paisagem desértica se estende à sua frente - picos áridos de montanhas,
um céu azul empoeirado, pálido. O calor cintila sobre o solo desértico, dunas e leitos de
rios, sobre a vegetação esparsa e rasteira. O sol está indo para oeste, mas o ar está
parado, o silêncio é total. Não há qualquer sinal de vento que levante algum grão de
areia pelas planícies escaldantes. Dia após dia, as pessoas se levantam com o nascer do
sol e buscam refúgio do calor implacável bem antes do meio-dia. E só estamos no início
de junho, com semanas ainda muito mais quentes pela frente.
Como acontece com freqüência, a mente volta para o passado distante, nesse caso para
gerações de forrageadores que visitaram esse lugar e encontraram a mesma vista árida.
Chegavam apenas alguns visitantes de cada vez, talvez uma dúzia de homens, mulheres
e crianças; os adultos muito magros, ágeis e enrugados, como que tostados pelo sol do
deserto. As mulheres acendiam o fogo quando o sol se aproximava do horizonte, no
oeste, enquanto os homens iam atrás dos coelhos selvagens que se alimentavam às
margens do aluvião nas proximidades. De volta ao abrigo, as mulheres iriam moer
alguns pinhões de um suprimento precioso trazido na pele de um cervo. O barulho suave
das pedras de moer compunham um som familiar, parte da busca interminável por
comida que mantinha o grupo em movimento durante quase todo o ano. A refeição é na
melhor das hipóteses frugal. Ninguém está com fome, mas não há muitas plantas
comestíveis. Mesmo os coelhos são difíceis de encontrar depois de um ano muito árido.
O oeste americano é a paisagem em grande escala, matéria de lendas, de John Wayne e
dos faroestes clássicos. De uma altura de 12 mil metros, você observa o terreno seco
hora após hora, em um mundo semi-árido maior do que a vida. Esse país brutal e
despovoado produz lendas e estereótipos de homens obstinados e mulheres
desembaraçadas, personagens amadas por Hollywood. A realidade, entretanto, era
muito mais complexa, porém só o tamanho da paisagem do oeste faz encolher a
humanidade e nos encher de espanto diante dos caçadores e horticultores que
conseguiram sobreviver nesse mundo inóspito, milhares de anos antes que o primeiro
cowboy resolvesse criar gado nessas paragens. A Europa pode ter se regalado com
fartas colheitas e os nórdicos podem ter viajado com mais liberdade pelo Atlântico Norte,
mas, como a Eurásia e o Sahel na África Ocidental, o oeste americano sofreu com
megassecas.

A luz acinzentada do céu claro que antecede a alvorada se espalha pelo leito de um lago
seco. Os homens se agacham entre os arbustos no chão seco de um lago enorme, que
está encolhendo rapidamente, no que hoje é a Califórnia. Esse é o ano mais seco de que
conseguem se lembrar. O lago foi secando diante de seus olhos durante meses de muito
calor, deixando camadas de areia em seu lugar. Eles e seus vizinhos tinham acampado
onde havia água. Os homens se posicionaram muito antes do nascer do sol, usando os
penhascos e leitos dos rios para ficar fora de vista. Cada caçador carrega um arco em
uma aljava com flechas, os olhos perscrutando à esquerda e à direita por um veado que
estivesse se alimentando no frescor da manhã. O mais provável é que os animais se
aproximem de um pequeno buraco de água próximo da beirada do lago. Dois homens
jovens trocam olhares ao verem um macho comendo.
Localidades mencionadas nos capítulos 6 e 7. Alguns locais menores foram omitidos para
maior clareza.

Eles se movimentam lentamente, cercando a presa, alertas ao mais leve som da brisa
matutina que possa carregar seu cheiro. Com cuidado infinito, eles se aproximam ainda
mais do veado. Depois de meia hora ele está ao seu alcance. De repente, a presa ergue
os olhos, farejando o ar. Talvez tenha sentido o cheiro humano. Os homens se
imobilizam, as armas paradas. Passam alguns minutos enquanto o macho olha ao redor.
Finalmente, recupera a confiança e volta a comer. Os homens erguem os arcos,
lentamente colocam as flechas com pontas de pedra no lugar. Eles se agacham para
atirar melhor, mas o pé de alguém bate em uma pedra do chão. O veado assustado sai
correndo. Duas flechas são disparadas, mas erram o alvo, deslizando inofensivamente
pelo leito do rio. Agora o sol já está alto, por isso a caça terá que esperar pelo entardecer
ou por um novo dia.
O Lago Owens, no flanco oriental das montanhas de Sierra Nevada, no leste da
Califórnia, fornece evidências das secas memoráveis que se abateram sobre o oeste
entre os anos 900 e 1250. O lago chegou a cobrir mais de 300 quilômetros quadrados na
foz do Rio Owens e durante pelo menos 800 mil anos foi coberto por água. (O Lago
Owens tinha mais de 75 metros de profundidade até o Departamento de Águas e Energia
Elétrica de Los Angeles ter desviado os afluentes que o alimentavam, em 1913, e ele se
transformou em um grande depósito de sal.) As águas que escoavam da montanha
sofreram variações dramáticas de ano para ano ao longo de séculos, de décadas, e até
mesmo de ciclos anuais, oscilando entre muita chuva e grandes secas. Nos períodos de
maior seca, choupos-do-canadá e pinheiros cresciam nos solos úmidos do leito vazante
do lago. Quando os anos de maior precipitação elevavam os níveis da água, as árvores
eram encobertas. Em muitos anos, os troncos e galhos mortos ficaram acima da água,
mas acabavam por se desintegrar, ficando apenas as cepas enraizadas no leito do rio
coberto pela água.
O geógrafo Scott Stine dedicou boa parte de sua carreira ao estudo desses tocos de
árvore, expostos quando os níveis da água baixavam nos anos de seca. Com a datação
radiocarbônica das camadas mais exteriores das árvores, e a contagem dos anéis das
árvores nos tocos, ele reconstruiu uma cronologia precisa dos períodos de secas e cheias
durante o Período de Aquecimento Medieval, que são espantosamente consistentes em
uma grande área do oeste americano.
A pesquisa de Stine começou durante uma grande seca na década de 1980, quando a
seca e uma grande demanda por água em Los Angeles provocaram uma queda de mais
de 15 metros na barragem do Lago Mono, que fica no extremo norte da Califórnia. Ele
recolheu amostras de inúmeros tocos, fez a datação radiocarbônica e descobriu que
havia duas gerações de árvores e arbustos que cresceram no lago durante o Período de
Aquecimento Medieval. A primeira geração desapareceu quando o lago subiu cerca de
19 metros, por volta do ano 1100. Essa elevação ocorreu durante um breve ciclo de
grandes precipitações pluviométricas, quando as chuvas foram mais fortes do que em
qualquer outro ano da era moderna, ficando em quarto lugar nos últimos quatro mil
anos. Mas a abundância de chuvas deu lugar a uma fase de seca intensa por volta de
1250, que durou mais de um século. O nível do lago caiu acentuadamente e uma
segunda geração de árvores cresceu no leito do rio.
Os tocos de árvore do Lago Mono registram um Período de Aquecimento Medieval
marcado por alterações extremas nas precipitações pluviométricas em períodos de um
século ou até menos. Intrigado, Stine voltou então sua atenção para o Lago Walker, no
nordeste, um corpo de água alimentado por dois rios da Sierra Nevada. O mais ocidental
dos dois rios corre através de um cânion estreito coberto por grandes tocos de pinho
submersos. Como o cânion é muito estreito e o movimento lateral do rio é restrito,
parece certo que essas árvores floresceram em uma época onde o fluxo da água foi
bastante reduzido, pois as raízes dos pinheiros não conseguem suportar mais do que
breves períodos de inundação. Os tocos de árvores serviram como documentação de um
nível muito baixo, por volta do ano 1025, quando as águas estavam mais de 40 metros
abaixo do nível atual; a isso seguiu-se um breve ciclo de maior umidade, posteriormente
outra seca, sendo a cronologia idêntica à do Lago Mono.
O Lago Owens também forneceu evidências de secas medievais severas na mesma
época. Caçadores que vagaram pelo leito do lago seco entre 650 e 1350 deixaram para
trás pontas de projéteis numa época em que o lago ficou muito seco. A datação
radiocarbônica das raízes de um arbusto das proximidades, que deve ter florescido nessa
época, limitou a ocupação à época da primeira grande seca registrada no Lago Walker.
Os lagos Mono, Walker e Owens registram os mesmos ciclos de seca da era medieval. O
primeiro começou antes do ano 910 e durou até aproximadamente 1100. O segundo
começou antes de 1210 e terminou por volta de 1350. Qual a intensidade dessas secas?
Stine utilizou uma linha de verificação moderna, a da seca de seis anos na Califórnia,
que começou em 1987, quando o escoamento proveniente de Sierra Nevada ficou em
apenas 65% do normal. Apesar da seca prolongada, o nível dos lagos nunca ficou tão
baixo quanto em épocas anteriores. Para explicar o ressecamento do Lago Owens, por
exemplo, o fluxo de água para o lago deve ter caído para algo entre 45% e 50% da
quantidade de água atual.
As secas de Stine foram tão severas que é possível identificá-las em grandes áreas do
oeste. Elas aparecem em anéis das árvores das White Mountains no leste da Califórnia,
onde os pinheiros encrespados (Pinus aristata) são sensíveis a mudanças de temperatura
e das chuvas. Um dos registros ofereceu evidências de que o período de 1089 a 1129 foi
o ciclo de maior umidade dos últimos mil anos. No sul da Sierra, um registro de mil anos
de pinhos e zimbros revelou as mesmas duas secas rigorosas, com os quatro períodos
mais quentes do último milênio ocorrendo entre os séculos X e XlV. O período mais
quente de todos ocorreu entre os anos de 1118 e 1167.
Evidências dessas secas se estendem até o extremo norte, no Oregon, nas Montanhas
Rochosas e nas Grandes Planícies. Troncos de árvores na vertical chegam em torno de 24
metros a 30 metros de água no Jenny Lake, no Parque Nacional Grand Teton. Os
mergulhadores que as examinaram encontraram até um ninho de ave de rapina nos
galhos de uma das árvores submersas. A madeira do exterior de um toco foi situada
próximo ao ano 1350 pela datação radiocarbônica, virtualmente contemporânea dos
tocos mortos dos lagos da Sierra, como se os níveis das águas também tivessem
diminuído nessas vizinhanças. O tamanho dos goffers no Parque Nacional de Yellowstone
foi o menor em três mil anos, pois a população de pequenos roedores caía rapidamente
diante da aridez.
Essas grandes secas ocorreram porque a corrente de jato de ar polar sobre o nordeste do
Pacífico, com as depressões a ela associadas, instalou-se bem ao norte da Califórnia e da
Grande Bacia. Um exemplo clássico do mesmo fenômeno ocorreu durante a temporada
de chuvas do inverno de 1976-77, que foi o mais seco em quase toda a Califórnia desde
que começaram os registros. O Alasca, por outro lado, teve o inverno mais úmido da
história. O mesmo padrão de correntes persistiu sobre o oeste americano durante boa
parte da época medieval, enquanto que no Alasca houve uma umidade excepcional.
Sabemos disso porque os geólogos recuperaram tocos de árvores recentemente
expostos sob geleiras derretidas no Prince William Sound e os dataram entre os anos 900
e 1300 - período do Aquecimento Medieval. Os lençóis de gelo tinham avançado durante
o ciclo de anos com alto nível de umidade, como acontece atualmente durante os
invernos úmidos.
As observações de Stine, e as de outros, receberam forte validação de uma grade de não
menos que 602 seqüências de anéis de árvores, que datam de dois mil anos atrás. Pela
primeira vez, os climatologistas conseguiram compilar uma grade com dados sobre a
seca em toda a região, usando dois índices, o Palmer Drought Severity Index, método
reconhecido para medir flutuações de umidade e aridez, e o Drought Area Index, que
conta o número de locais em uma grade que ultrapassam um limite estabelecido
arbitrariamente no Drought Severity Index. Esses cálculos permitiram que os
pesquisadores colocassem as atuais secas do século XXI no oeste americano em
perspectiva de longo prazo. Os quatro períodos mais secos ocorreram em 935, 1034,
1150 e 1253, todos eles dentro de um intervalo de quatrocentos anos de aridez ge ral,
que coincide com o Período de Aquecimento Medieval. Depois de 1300, houve uma
mudança abrupta para condições persistentemente mais úmidas, que duraram
seiscentos anos e que depois deram lugar às condições de seca atual no oeste
americano. Nenhuma das secas atuais, que chegam a durar quatro anos, alcançam a
intensidade e a duração das secas do Período de Aquecimento Medieval. Essas últimas
foram tão severas que se fala de uma "época de megasseca" ocorrida mil anos atrás.
É a natureza prolongada desses períodos de seca, o que distingue a aridez do Período de
Aquecimento Medieval dos dias de hoje. Como ocorrem essas secas, e, acima de tudo,
como persistiram por tanto tempo? Os pesquisadores acreditam que condições
excepcionalmente quentes contribuíram para a ocorrência de secas mais persistentes,
mais freqüentes, causadas em parte pelo aumento da evaporação e níveis de umidade
reduzida no solo. As flutuações climáticas no Pacífico têm um efeito considerável sobre a
queda de chuvas no oeste americano, especialmente os efeitos de El Niño e seus
opostos frios e secos, La Niña (a Oscilação Sul-El Niño [ENSO-El Niño-Southern
Oscillation]), e um fenômeno conhecido como Oscilação entre Décadas do Pacífico (PDO -
Pacific Decadal Oscillation), que pode provocar seca no oeste americano. Além disso,
temperaturas mais elevadas no hemisfério norte durante o século XX e o aquecimento
incomum dos oceanos Índico e Pacífico Ocidental contribuíram para a formação de seca
em latitudes médias no hemisfério norte. Os mesmos efeitos ocorreram provavelmente
durante o Período de Aquecimento Medieval. Em outras palavras, o aquecimento em
larga escala em um nível mais global contribuiu para a época de megasseca.
Mas existem outros fatores. O aumento da ressurgência de águas frias no Pacífico
Oriental está aparentemente ligado ao aquecimento da atmosfera tropical, o que, por
sua vez, promove o desenvolvimento do La Niña - como temperaturas de superfície
secas, frias, sobre o Pacífico Oriental - e a seca no oeste da América do Norte. Como
veremos no Capítulo 10, essas condições foram realmente persistentes durante os
séculos de aquecimento. No período de 1150 a 1200, o nível de atividade vulcânica caiu
em todo o mundo e a atividade das manchas solares foi elevada; isso contribuiu para um
esfriamento semelhante ao La Niña no Pacífico tropical oriental, condição que trouxe
seca para vastas áreas dos Estados Unidos.

A Oscilação entre Décadas do Pacífico

A Oscilação entre Décadas do Pacífico (PDO) é um padrão de temperatura da superfície


do mar no Pacífico com variabilidade mais longa. Nas fases frias, uma área com
superfícies e temperaturas mais baixas do que o normal está presente no Pacífico
equatorial oriental. (Com o aquecimento do oceano, ela se expande e a superfície se
torna mais alta.) Uma força equivalente de temperaturas e superfícies mais quentes e
mais elevadas que o normal, ligam o Pacífico do norte, sul e oeste. Nas fases quentes, o
Pacífico Oriental esquenta, e as partes ocidentais do oceano esfriam. Essas mudanças
nas águas frias e quentes alteram o caminho da corrente de jato, que flui para o extremo
norte durante as fases frias, reduzindo assim as precipitações de chuva no oeste. As
fases PDO aumentam e diminuem marcando tendências do Pacífico a cada 20, 30 anos.
Os fenômenos El Niño e La Niña sobrepõem-se a essas flutuações de longo prazo. Parece
que atualmente estamos entrando em uma fase fria, o que significa menos chuvas em
boa parte do oeste da América do Norte por duas ou três décadas.

Ver http://sealevel.jpl.nasa.gov/science/pdo.html

As secas medievais da Sierra Nevada estão entre as mais severas dos últimos quatro mil
a sete mil anos, muito mais rigorosas do que aquelas das quais nos queixamos hoje.
Qual foi, então, o impacto sobre a população humana da época, quando algumas
centenas de milhares de pessoas viviam na Grande Bacia e ao longo das costas do
Oregon e da Califórnia? As piores condições ocorreram no interior árido, especialmente
na Grande Bacia e no Deserto de Mojave, onde as populações humanas eram sempre
pequenas, mesmo perto de pântanos e lagos que suportavam mais gente.
A Grande Bacia cobre cerca de 1 milhão de quilômetros quadrados do oeste desértico,
entre as Montanhas Rochosas e a Sierra Nevada - parte da Califórnia, Oregon, Utah,
Idaho e quase todo o estado de Nevada. Esse é um mundo de grande diversidade
ambiental, com montanhas altas e vales interpostos, onde a topografia varia drama-
ticamente e zonas ambientais se justapõem verticalmente. As partes áridas do sudoeste
da Bacia têm a vegetação mais esparsa, enquanto as montanhas são um pouco mais
úmidas e têm regimes climáticos mais complexos. Felizmente, para caçadores e
horticultores, existe terra úmida e alguns lagos significativos nos fundos de vales, que
eram antes um chamariz para o pequeno número de pessoas que viviam na Bacia. A
maior parte dessa vasta área quase não recebe chuva, e a quantidade varia
enormemente de ano para ano. Em épocas remotas, isso significava que o fornecimento
de alimentos poderia ser seis vezes maior em um ano com altos índices pluviométricos,
embora o termo "índice pluviométrico" possa ser um exagero em um mundo tão árido. A
sobrevivência exigia senso de oportunidade e paciência ilimitados, e uma dieta bem
variada. Comer um alimento à custa de todos os outros era um convite ao desastre. O
segredo da sobrevivência estava na mobilidade constante e no conhecimento íntimo de
dezenas de plantas comestíveis.
As condições climáticas não eram particularmente estáveis na Grande Bacia, pois
grandes mudanças no ambiente local podiam ocorrer até no breve espaço de um ano. O
suprimento de alimentos era irregular, normalmente limitado a locais relativamente
produtivos, como pequenas áreas de terra úmida, separadas de outras áreas do mesmo
tipo por paisagens estéreis. Enquanto alguns poucos agrupamentos viviam em
ambientes pantanosos e margens de lagos excepcionalmente ricas, as pessoas que
estavam em áreas mais secas viviam em pequenos núcleos familiares. Estavam sempre
de mudança, subsistindo com alimentos sazonais em locais muito distantes uns dos
outros. Sua vida social girava em torno de reuniões para compartilhar conhecimento em
torno do "mapeamento" da disponibilidade dos diferentes alimentos ao longo do ano. Os
agrupamentos de caçadores do oeste americano passavam boa parte do tempo
adquirindo informações junto a amigos de outros agrupamentos, através de visitantes e
de pessoas que vinham de longe para fazer trocas.
As pessoas que viviam nesses ambientes áridos tinham poucas opções, de forma que
seu estilo de vida básico sobreviveu virtualmente inalterado por milhares de anos. Na
Hogup Cave, região central de Utah, pouco mais de 4 metros de ocupações esporádicas
revelam mais de 8 mil anos de visitas ocasionais a um estilo de vida conservador que
pouco mudou ao longo de séculos. Sempre que ficavam na caverna, agrupamentos
locais se alimentavam com as bataceae, plantas suculentas que se dão muito bem às
margens de bacias salinas e leitos de rios secos. Eles juntavam todos os tipos de plantas
comestíveis em cestos feitos de fibra (que eram preservados em depósitos na caverna),
depois secavam ou tostavam as sementes misturando-as com brasas muito quentes em
bandejas feitas com cestaria firmemente tecida. Então eles descascavam e moíam as
sementes com pedras e tábuas de moer. Os moradores de Hogup também caçaram 32
espécies de pequenos animais e 34 de pássaros, com laços, redes e lanças. Consumindo
grande variedade de alimentos, eles minimizavam o risco de fome, sendo a caverna a
parada de uma ronda sazonal que cobria um vasto território.
Outro local sazonal permaneceu em uso por milhares de anos, um abrigo de pedra perto
do antigo Lago Bonneville (conhecido pelos arqueólogos como Estamento Bonneville) no
deserto de Nevada, um mar interior durante a Idade do Gelo, há 18 mil anos, que secou
há muito tempo. Bandos locais visitaram o abrigo de pedra em intervalos de mais de
12.500 anos. Em 6.000 a.C., os visitantes comeram grande variedade de sementes,
como trigo sarraceno e vários tipos de gramíneas, além de pinhões. Essa dieta básica
permaneceu em uso por milhares de anos.
A sobrevivência nesse tipo de paisagem dependia da diversificação, da mobilidade e do
conhecimento a respeito de comida e água, uma estratégia que funcionou bem em ciclos
mais secos e mais úmidos e durante o Período de Aquecimento Medieval. Os povos da
Grande Bacia, como os paiutes e os shoshones, dependiam bastante dos pinhões,
importante alimento de inverno, colhido no fim do verão e início do outono. Relatos do
século XIX indicam o uso de longas varetas para tirar as pinhas verdes das árvores; eles
tostavam as pinhas para soltar as sementes antes de tirar as cascas e moê-las. Os
pinhões guardados em sacos de pele ou grama trançada dariam para quatro ou cinco
anos. Como ocorriam colheitas abundantes em ciclos de três a sete anos, as provisões
ajudavam a manter as pessoas unidas de uma estação para outra.
Os pinhões eram uma importante matéria-prima na vida da Grande Bacia, porém as
árvores são vulneráveis às secas, que provocam o surgimento do besouro da ambrosia.
Os insetos fazem furos nas árvores para depositar seus ovos. Logo surgem as larvas e
matam os pinhos. O Serviço Americano de Florestas avalia que as secas de 2001 a 2005
foram responsáveis pela morte de aproximadamente 80 milhões de pinheiros só no
Arizona e no Novo México, deixando grandes faixas de floresta marrom na paisagem.
Não temos meios de saber qual foi o dano sofrido pelas florestas de pinheiros devido às
secas muito mais severas de milhares de anos atrás, mas a colheita dos pinhões caiu
vertiginosamente por várias gerações durante a época medieval. A única forma de
sobreviver à seca nessas circunstâncias era consumindo grande variedade de plantas,
que serviam de alternativa quando faltava o produto mais importante.
Mesmo em épocas de maior umidade, as densidades populacionais nunca foram
elevadas. Como os povos do Sahel africano, agrupamentos de famílias se espalhavam
pelo deserto nos anos mais úmidos, quando era possível encontrar plantas e água para
beber. Em épocas de seca, quando a bomba do deserto empurrava-os para fora, eles
buscavam refúgio nos poucos locais em que havia suprimentos de água confiáveis. A
alimentação variava enormemente de lugar para lugar. Alguns grupos que viviam em
terras úmidas, como certos grupos de Nevada, talvez tivessem cerca de 50% da sua
alimentação composta por peixes.
Em contrapartida, aqueles que viviam em torno do lago Owens, na Califórnia, subsistiam
praticamente apenas de plantas. Mobilidade e variedade alimentar funcionavam mesmo
nos piores tempos. Acredita-se que o povo shoshone, do deserto californiano, que se
deslocava constantemente, viveu em sua terra natal por cinco a seis mil anos, um
exemplo notável de como podia ser flexível a vida dos caçadores-horticultores.

As condições eram ainda mais severas no Deserto de Mojave, no sul, que é famoso por
suas altas temperaturas no verão, e era um ambiente ainda mais exigente e seco para
os humanos antigos do que o resto da Grande Bacia. Durante os anos de 1890, o
antropólogo David Prescott Barrows estudou as práticas de forrageamento dos índios
cahuillas, que viveram no deserto do Mojave por milhares de anos. Ele descobriu as
mesmas estratégias de outros locais do desértico oeste americano para lidar com as
condições de seca. Mesmo em épocas mais úmidas, todos viviam em lugares com
temperaturas mais frias e onde a disponibilidade de água fosse maior. A alimentação dos
cahuillas era bem variada. Cada bando explorava várias centenas de plantas para obter
alimentação, remédios ou produtos manufaturados; os cahuillas colhiam seis variedades
de bolotas no outono e de árvores mesquite, sendo que 1/2 hectare poderia ser semeado
com feijões. Cactos comestíveis, pinhões de árvores de terrenos mais altos, palmeiras-
de-saia - a lista de plantas continua. Oitenta por cento de todos os seus alimentos eram
provenientes de uma área de até oito quilômetros ao redor do assentamento. Contudo,
apesar de toda a variedade de plantas, a imprevisibilidade do ambiente deixava as
pessoas em contínuo estado de incerteza, como deixara seus ancestrais durante
milhares de anos. Felizmente, a grande variedade de plantas comestíveis e a mobilidade
constante tornavam possível a sobrevivência mesmo com as secas mais severas.
A mesma estratégia de dieta diversificada e mobilidade funcionou durante milhares de
anos de mudanças climáticas, mas qual foi a severidade das condições no deserto de
Mojave mil anos atrás? Também aqui os climatologistas baseiam-se em uma fonte de
dados esotéricos, os minúsculos monturos acumulados pelo Neotoma cinérea, pequeno
roedor que junta coisas. Entre 600 a.C. e pelo menos até o ano 120, os monturos
continham vegetação de cercanias áridas, com poucos sinais, e plantas que adoravam
água. Além disso, entre 900 e 1300, não houve virtualmente nenhum registro de
aumento na atividade de primavera ou de aumento nos níveis dos lagos, características
da Pequena Idade do Gelo que veio em seguida. Certamente houve menos precipitações
pluviais de inverno do que nos anos anteriores e posteriores.
Secas prolongadas no Mojave depois do ano 800 teriam reduzido as fontes de água de
todos os tipos e diminuído as precipitações de primavera. As praias rasas das margens
dos lagos do deserto, normalmente um ímã para aves aquáticas e animais de caça,
teriam secado. Os suprimentos de água teriam sido escassos e muito dispersos, e os
riscos da viagem para localizá-los, em uma paisagem árida, proporcionalmente maiores.
Os poucos sítios arqueológicos que datam de 800 a 1300 encontram-se perto de grandes
mananciais e em oásis perenes ao longo do Rio Mojave, onde as águas subterrâneas
ficavam próximas da superfície mesmo durante secas prolongadas. Em outros locais, o
deserto era efetivamente inabitável, exceto, talvez, durante algumas semanas após
raras tempestades fortes. A vida durante o Período de Aquecimento Medieval era difícil,
a existência freqüentemente marginal, mas para aqueles adaptados ao ambiente era
possível sobreviver à seca.
Nada ilustra melhor a volatilidade da vida no deserto do que a vida e a morte do Lago
Cahuilla. Todos os anos, na primavera, o nível do Rio Colorado, a leste do Mojave, subia
com as cheias, alternando-as pelos canais de seu enorme delta. Em algum momento, por
volta do ano 700, uma alteração prolongada do rio fez com que a água fluísse para a
Bacia de Salton, que ficou cheia como uma banheira até a altura de aproximadamente
13 metros. No auge, esse mar interior se estendia por 185 quilômetros, com 56
quilômetros de largura e 96 metros de profundidade, um dos maiores lagos da América
do Norte. Esse grande lago sobreviveu por mais de seis séculos como um
transbordamento para o Colorado, até que os níveis crescentes de areia depositada
bloquearam a entrada do canal. O lago se transformou em uma bacia fechada e secou
em mais ou menos meio século.
Graças às cheias do Colorado, o Lago Cahuilla permaneceu relativamente estável por
centenas de anos, com seu nível de água variando cerca de um metro. Pesquisas
geológicas mostraram que o lago permaneceu cheio durante a maior parte dos séculos
de aquecimento. O surgimento súbito de um grande lago em meio a uma paisagem
extremamente árida foi uma verdadeira bênção para os grupos de caçadores e
horticultores durante um período de seca persistente, mas, infelizmente, a água era
salgada demais para beber. Surgiram inúmeros acampamentos breves ao longo das
margens do lago, ocupados quando as pessoas pescavam ou faziam armadilhas e
caçavam as aves aquáticas que ali eram abundantes.
Os séculos mais quentes tornaram inabitável boa parte da paisagem do Mojave e da
Grande Bacia. Era mais difícil obter alimento; os grupos procuravam-no em áreas muito
menores, a poucos metros da água. A disputa por comida aumentou, e os
relacionamentos sociais sofreram grande tensão. Pequenos bandos tiveram que
enfrentar a redução das colheitas, com famílias se chocando com os vizinhos nos lugares
onde havia gramíneas na primavera. Deve ter havido troca de acusações, com palavrões
levando a golpes e talvez até a ataques-surpresa com tacos e lanças. Ao fim da disputa,
havia uma divisão no grupo e uma parte ia embora para acampar com parentes ou para
encontrar um novo assentamento. O ambiente social era volátil, cheio de ansiedade e
aceitação estóica da fome e da sede.
A sobrevivência no árido oeste americano dependia da cooperação e, acima de tudo, do
conhecimento sobre o abastecimento de água e recursos alimentícios espalhados por
vastas, áridas paisagens. Essas paisagens formavam ambientes em que se podia
encontrar alimento quando havia água, mas onde não havia comida quando chegava a
seca, e a bomba do deserto expulsava animais, pessoas e plantas para as margens. O
que foi para a Europa e o Ártico uma época de relativa benevolência climática, para
vastas áreas do oeste americano foi uma
época de privação e sofrimento, mesmo entre povos sabedores de que a flexibilidade e a
mobilidade eram o elixir da vida. Entretanto, seu conhecimento ambiental e senso de
oportunidade os ajudaram a sobreviver, perpetuando um modo de vida que sobreviveu a
extremos causados por inundações e secas durante milhares de anos em alguns dos
ambientes mais severos da Terra.

CAPÍTULO 7
Bolotas e Pueblos

Se a seca fizesse murchar os brotos de milho, se o búfalo se deslocasse


inexplicavelmente ou se o salmão deixasse de nadar, a própria existência de pessoas de
outras regiões seria abalada em seus alicerces. Mas a distribuição diversificada dos
alimentos disponíveis na Califórnia e a elaboração dos meios correspondentes para
reclamá-los evitaram que uma falha na produção de bolotas produzisse efeitos
semelhantes. Poderia produzir racionamento das porções e fome torturante, mas
dificilmente inanição.

- ALFRED KROEBER, Handbook if the Indians of California (1925)

O canal é liso como o gelo, o cume das montanhas nevadas é como uma lâmina afiada
contra o céu azul do dia de inverno. As tripulações remam no mais leve ar de sudeste,
saboreando acalmaria depois dos fortes ventos de noroeste do dia anterior, que se
seguiram à chuva e neve de uma forte tempestade de inverno. O oceano adquire um
belo tom rosado com o sol a oeste, cor que permanece muito tempo após o pôr-do-sol.
Os tubarões aquecem-se, movendo-se lentamente perto da superfície, com suas
barbatanas e caudas movimentando-se imperceptivelmente em meio à calmaria. As
canoas gastas feitas de tábuas deslizam rapidamente pela água, aproveitando a
calmaria em vez das "ondas muito altas do Oceano Pacífico que, às vezes, parecem
erguê-las até as nuvens e outras vezes parecem afundá-las até o fundo do mar". Os
remadores agacham-se, remando firmemente, hora após hora, repetindo a mesma
cantiga indefinidamente, enquanto um menino permanece agachado no fundo do barco
retirando a água com uma concha de abalone. Os ecos da canção pairam no ar enquanto
a luz do pôr-do-sol vai desaparecendo e os homens chegam à terra.
As grandes secas do Período de Aquecimento Medieval no oeste americano testaram as
antigas estratégias de movimento até o limite. Pessoas morreram; certamente houve
fome; em algumas regiões, como no sul da Califórnia, ocorreram mudanças
impressionantes na própria natureza da sociedade, que se tornou mais hierárquica, até
mesmo despótica. Mas os habitantes do oeste sobreviveram silenciosamente a tudo.
Teriam continuado indefinidamente com seu modo de vida tradicional se os exploradores
europeus, então missionários e colonos, não tivessem introduzido fatores novos,
totalmente estranhos à equação cultural que sobrevivera por séculos, até mesmo
milênios.
Nem todas as sociedades ocidentais viviam em uma paisagem desértica. Seguindo para
oeste em direção ao Pacífico, o terreno variado do que é hoje a Califórnia tinha um dos
ambientes mais diversificados da Terra - pequenos vales de montanhas, terras úmidas
locais e vales magníficos com lagos rasos. Em algumas áreas - a Baía de São Francisco e
o Canal de Santa Barbara, por exemplo - a pesca marítima abundante, leitos de mariscos
e colônias de mamíferos marítimos proporcionavam tanto alimento que muitos grupos
podiam permanecer no mesmo lugar durante quase todo o ano, se não o ano inteiro.
Longe do oceano ou de rios e lagos permanentes, as pessoas dependiam muito de
gramíneas, de alimentos amplamente dispersos, que floresciam em diferentes épocas do
ano. Todos, jovens ou velhos, homens ou mulheres, possuíam um conhecimento
enciclopédico do que era comestível, mas as pessoas eram obrigadas a se deslocar
constantemente para explorá-lo. Essa mobilidade reduzia sua vulnerabilidade aos ciclos
das secas, porém, com a notável exceção do pinhão, muito suscetível à seca, poucas
plantas podiam ser armazenadas por longo período. Os grupos que viviam em algumas
regiões da Grande Bacia e em boa parte da Califórnia acabaram por depender de uma
matéria-prima surpreendentemente nutritiva: as bolotas, ricas em carboidratos.
As bolotas começaram a ser usadas onde quer que crescessem carvalhos na Califórnia
depois de 2.000 a.C., a princípio como suplemento alimentar. Naquela época, o clima era
mais frio e mais úmido do que hoje, e a população da Califórnia crescia firmemente.
Tanto as sementes de gramíneas quanto outras plantas há muito tempo cultivadas
tornaram-se mais escassas. Sabemos que houve fome porque esqueletos humanos
anteriores a 1000 a.C., antes que o uso das bolotas se difundisse amplamente, mostram
muito mais sinais de desnutrição, como as linhas de Harris (linhas de crescimento -
linhas que aparecem nos ossos dos membros como resultado do retardo temporário do
crescimento) e a hiperplasia dentária (camadas de esmalte dentário deficiente em
crianças), do que os sepultamentos posteriores. A passagem para o consumo intensivo
de bolotas pode muito bem ter sido resultado da superpopulação, da escassez mais
constante de alimentos e de episódios de desnutrição. O interessante é que, depois que
a bolota se transformou em matéria-prima, a incidência de cáries dentárias aumentou
dramaticamente devido à dieta rica em carboidrato.
Depois de ocorrida essa passagem, cada grupo aceitou prontamente o trabalho extra
envolvido no processamento e armazenamento de bolotas, que proporcionavam
alimento muito mais nutritivo e abundante. A bolota podia ser armazenada em
quantidades tão grandes que muitos colhiam suprimento para um ano inteiro em poucas
semanas. A única alternativa possível para a fome recorrente teria sido começar a
plantar milho e feijão, como estavam fazendo as pessoas no sudoeste. Os forrageiros de
bolotas conheciam muito bem a agricultura, mas por que ter o trabalho de abrir campos
e plantar quando as bolotas estavam à mão? Já na época de Cristo, a bolota fazia parte
da vida na Califórnia, do Oregon até os desertos do sul.
A bolota não revolucionou a vida na Califórnia entre quinhentos e mil anos atrás. Esse
humilde fruto simplesmente tornou o suprimento alimentar mais previsível para as
pessoas que viviam em um mundo mais superlotado e circunscrito territorialmente. Mas,
durante as prolongadas secas do Período de Aquecimento Medieval, a grande
dependência das bolotas aumentou o risco de fome, pois a colheita da bolota foi
seriamente ameaçada.

Ano 1100. Um bosque de carvalhos da Califórnia em um dia quente de outono. A luz


brilhante do sol lança sombras agitadas no chão durante as semanas tumultuadas da
antiga colheita de bolotas. De manhã bem cedinho, o grupo carregou pilhas de cestas
vazias até as árvores. Enquanto os homens mais velhos caçam veados que se alimentam
das ricas castanhas nos bosques de carvalhos, os meninos pulam nos galhos, sacudindo-
os levemente. Bolotas maduras caem sobre as mulheres e os velhos. Eles riem enquanto
recolhem os frutos nos cestos, mantendo apenas aqueles que poderão ser armazenados.
Enquanto os jovens continuam a subir nas árvores, as mulheres carregam os cestos
cheios de volta ao acampamento, onde atiram as bolotas em peles secas. A colheita vai
do amanhecer até a noite, pois são poucos os dias do ano em que podem ser colhidas
com facilidade.
Os antigos californianos não foram os primeiros a consumir as bolotas. Vilarejos inteiros
na Síria sobreviveram graças às bolotas, há 14 mil anos. Lavradores medievais europeus
consumiam alqueires de bolotas, assim como os americanos nativos no meio-oeste. Até
o século XIX, as bolotas ainda respondiam por cerca de 20% da dieta rural na Itália e
Espanha. Mas em nenhum outro lugar as bolotas foram tão importantes como na
Califórnia, com seu ambiente muito variado e secas endêmicas. Elas também têm
excelente valor nutricional, além de suportarem muito bem a armazenagem. Sob
circunstâncias favoráveis, elas se mantêm por até dois anos em grandes cestos ou
armazéns especialmente construídos, qualidade inestimável para pessoas que viviam
em ambientes imprevisíveis. No ano 500, milhares de índios californianos dependiam da
imensa colheita de bolotas.
Ao chegarem os espanhóis no século XVI, os californianos nativos colhiam mais de 66 mil
toneladas de bolotas por ano - mais do que a produção atual de milho industrializado no
estado. Para muitos grupos, as bolotas constituíam mais de metade da dieta. A antiga
preocupação de manter uma dieta variada se desfez diante da abundância.
Dispomos de muitas informações sobre o consumo de bolotas graças a descobertas de
seus fragmentos em inúmeros sítios arqueológicos, além de moedores e pilões usados
para processá-las. Felizmente, também, temos um arquivo com informações sobre a
colheita, processamento e armazenamento de bolotas oriundas tanto da observação de
sociedades tradicionais como das práticas de consumo atuais. A balanofagia - o consumo
de bolotas - prospera, pois muitas pessoas prestam juramento sobre uma fatia do
delicioso pão de bolota. O resultado de tudo isso é que passamos a ter muitas
informações sobre esse alimento tão importante para os antigos (e modernos).
Há quinze espécies de carvalho entre o Oregon e a Califórnia. Nos anos bons, os
carvalhos da Califórnia poderiam produzir até 784 quilos/ hectare, produção capaz de
rivalizar com a da agricultura medieval na Europa e suficiente para sustentar um número
de pessoas cinqüenta a sessenta vezes maior do que a população da Califórnia quando
chegaram os espanhóis. Infelizmente, contudo, o resultado da colheita oscilava de
bosque para bosque, e até mesmo de árvore para árvore; além disso, a maioria das
espécies de carvalho produzia uma boa colheita somente a cada dois ou três anos. Os
antigos forrageadores, tendo consciência disso, reagiram por meio da colheita de bolotas
em áreas diferentes. A longa vida útil das bolotas armazenadas ajudava a compensar a
irregularidade das colheitas; porém, havia outros inconvenientes, como a necessidade
de trabalho intensivo, não apenas para colher, mas também para processar as bolotas. A
derrubada das árvores e a moagem são apenas o começo, pois, devido ao gosto amargo
do ácido tânico, elas não são comestíveis a menos que fiquem de molho na água. O
processamento das bolotas demorava muito mais do que a moagem das sementes; de
acordo com uma estimativa, são necessárias cerca de quatro horas para produzir um
quilo de alimento a partir de 2,7 quilos de bolotas moídas. O esforço, no entanto, vale a
pena, pois os frutos ou a farinha processada poderiam ser transportados em longas
jornadas ou em canoas, além da utilização em pães e mingaus nutritivos.
Quando teve início o Período de Aquecimento Medieval, por volta do ano 900, estava
ficando cada vez maior o tempo de permanência da maioria dos grupos forrageiros em
acampamentos estáveis dentro de limites estreitos de território, e em muitos casos
passavam a vida sem ir além de 8 quilômetros de distância do seu local de origem. O
pequeno tamanho dos territórios tribais também fez com que cada grupo ficasse
dependente dos outros. Quando as secas reduziram a produtividade do meio ambiente,
os laços de parentesco com outros grupos adquiriram grande importância como forma
de obter alimento. Cada grupo tinha controle sobre o suprimento de alimento local, como
os bosques de bolotas, por exemplo, além dos locais de pesca ou de sementes comes-
tíveis. Eles os exploravam mais do que o necessário para suas próprias necessidades e
passavam alimentos para comunidades muito variadas, que faziam parte de uma
complexa rede de interconexão ligando dezenas de pequenos vilarejos e indivíduos que
os presidiam.
Não seria possível sobreviver aos ambientes altamente variados e localizados da
Califórnia sem a ajuda dos outros. A variedade de artefatos e mercadorias trocadas entre
as comunidades é surpreendente - todos os tipos de produtos alimentícios, desde
bolotas e carne de caça até polpa de molusco, além de outros artigos essenciais, como
sal e plantas medicinais. O betume passava de mão em mão para tornar as cestas à
prova de água, bem como os materiais para a confecção da cestaria e a madeira para
confeccionar arcos. A obsidiana, um tipo de vidro vulcânico, era muito valorizada e
encontrada somente em alguns poucos locais, como na região da Medicine Lake
Highlands, ao norte da Califórnia. Felizmente, a obsidiana de locais diferentes possui
elementos característicos distintos que podem ser identificados através de uma análise
espectrográfica, de forma que temos condições de saber que a obsidiana do Medicine
Lake viajou por uma distância de 80 quilômetros a partir do seu local de origem. Milhões
de contas de conchas de abalones e Olivella circularam pela Califórnia durante os
séculos de aquecimento, enquanto as populações aumentavam e os territórios ficavam
menores. A antiga trilha do Mojave levava as contas até as comunidades agrícolas do
sudoeste. Outros colares de contas passaram de mão em mão pela Grande Bacia. Porém,
a maior parte do comércio era totalmente local, entre pessoas que dependiam umas das
outras para obter mercadorias essenciais em ambientes cada vez mais circunscritos.
As secas prolongadas do Período de Aquecimento Medieval semearam a confusão em
arranjos comerciais estabelecidos há muito tempo. Carvalhos vivos são suscetíveis às
secas, que reduziram as colheitas de bolotas muito acima das flutuações normais
ocorridas de ano para ano. Sabemos pouca coisa a respeito dos efeitos a longo prazo da
seca sobre essas árvores, que se adaptam muito bem a longas estações secas; porém,
aridez sazonal e ciclos de seca de muitos anos são coisas diferentes. Por exemplo, entre
1986 e 1992, uma seca de seis anos matou milhares de carvalhos na costa central da
Califórnia, especialmente aquelas de encostas voltadas para o sul, que tendem a ser
mais secas e com solos menos férteis. Cerca de 10% de todas as árvores,
independentemente da espécie de carvalho a que pertenciam, haviam perecido em
1992. Se o ano de 1993 e todos os que vieram em seguida não tivessem sido mais
úmidos, a mortalidade teria aumentado dramaticamente, bem acima dos índices
normais, devido a incêndios, insetos e outras causas. Se fizermos uma projeção dessa
porcentagem sobre mil anos atrás e a fatorarmos em secas repetidas, prolongadas,
iremos observar que os efeitos sobre a colheita de bolotas devem ter sido brutais.
Infelizmente, a arqueologia é um registro anônimo da história, por isso as vozes
daqueles que viveram nos séculos de seca são silenciosas. Somente alguns traços de
evidências chegaram até nós, incluindo alguns esqueletos de dois cemitérios dos índios
Yokut de San Joaquin Valley, descobertos durante a construção da rodovia Interstate 5.
Os locais de sepultamento enfeixam as secas medievais e foram utilizados por pessoas
que dependiam muito das bolotas. Com o uso de tomografias computadorizadas, a
antropóloga biológica Elizabeth Weiss mediu a espessura cortical de fêmures, uma
dimensão cumulativa que reflete as mudanças na dieta e nutrição durante a vida de uma
pessoa. Ela descobriu que os indivíduos enterrados no cemitério mais antigo, há cerca de
dois mil anos, tinham espessura cortical mais compacta e menos patologias ou
ferimentos traumáticos do que aquelas do local de sepultamento datado entre 1.100 e
1.200 anos atrás, época da seca prolongada. Essas pessoas tinham o osso cortical mais
fino, vidas mais curtas e manifestaram mais ferimentos, além de evidenciarem sinais de
desnutrição.
As bolotas eram certamente uma proteção inadequada contra a seca prolongada para
pessoas que não tinham uma dieta variada, mas precisamos de outra geração de
pesquisas para preencher as lacunas.

A situação era um pouco diferente em áreas ao redor da Baía de San Francisco e na


região do Canal de Santa Barbara, onde um ambiente marinho muito rico permitia que
as pessoas mantivessem os mesmos assentamentos por longos períodos de tempo. No
caso do Canal de Santa Barbara, a ressurgência natural perto da praia proporcionava
uma grande oferta de anchovas, exceto nos anos do El Niño, quando a elevação das
temperaturas da superfície do mar afetava a reprodução marinha. Porém, mesmo nessas
áreas favorecidas, a vida era incerta, especialmente quando a seca afetava os
suprimentos de água potável.
O Canal de Santa Barbara, ao sul do Ponto Conceição, é outra pedra de roseta climática,
onde está situado um núcleo de alto-mar de 200 metros absolutamente preciso, que se
estende por 160 mil anos no passado. Os 17 metros da parte mais elevada representam
os últimos 11 mil anos, e as rápidas taxas de sedimentação no fundo do mar nos
proporcionam informações climáticas detalhadas. Com efeito, nós temos o registro de
mudanças de temperatura em intervalos de 25 metros ao longo dos últimos três
milênios. O núcleo é rico em duas espécies de foraminíferos planctônicos. Um deles se
desenvolveu próximo da superfície, o outro habita uma profundidade de
aproximadamente 60 metros. Analisando o conteúdo dos isótopos de oxigênio desses
organismos e fazendo a datação radiocarbônica de vinte amostras de pequenas conchas,
o oceanógrafo James Kennett conseguiu reconstruir ciclos de mudanças nas
temperaturas da superfície do mar dentro de um regime que era em geral
razoavelmente quente, com médias de 12,5ºC.
A partir da curva de temperatura de Kennett, descobrimos que houve aumento da
temperatura do mar entre 1.500 e 2.900 anos atrás, seguindo-se um ciclo mais frio,
entre 500 e 1.500 anos atrás, depois do qual a temperatura subiu até os tempos
modernos. As temperaturas mais frias na superfície do mar desde a Idade do Gelo
ocorreram nesse período de 500 a 1500 anos atrás, séculos que incluíram o Período de
Aquecimento Medieval.
A produtividade marinha no Canal de Santa Barbara subia e descia de acordo com
intervalos mais frios ou quentes. Durante os períodos frios, os foraminíferos mostraram
que houve apenas um ligeiro gradiente de temperatura entre 60 metros e a superfície,
como se a ressurgência natural no canal fosse muito forte e houvesse uma mistura
vertical constante de água do mar. Esse processo foi especialmente intenso entre 500 e
1.000 anos atrás. Ressurgência e produtividade marinha sofreram redução dramática
durante o ciclo mais quente, entre 1.500 e 2.900 anos atrás. Além disso, as
temperaturas do oceano mostraram marcante instabilidade entre 800 e 1.500 anos
atrás.
As alterações climáticas no Canal de Santa Barbara são condizentes com as que foram
registradas em terra. Temperaturas de superfície do mar especialmente baixas parecem
coincidir com os prolongados ciclos de seca em boa parte do oeste americano,
especialmente com aqueles registrados nos anéis de árvores dos pinheiros Bristlecone,
nas White Mountains do leste da Califórnia.
O Canal de Santa Barbara foi o lar de muitos grupos de índios chumash, cuja
ancestralidade remonta a um passado distante. Segundo relatos dos primeiros
exploradores europeus que ancoraram nessa costa, no século XVI, eles encontraram
grandes vilarejos e densa concentração populacional, tanto nas ilhas do Canal, perto da
costa, como nas terras do continente. Nós sabemos que, durante muitos séculos, a
população costeira continuou relativamente esparsa. Então, por volta de três mil anos
atrás, a atividade comercial entre comunidades vizinhas e a costa, as ilhas próximas a
ela e o interior subiu rapidamente. A julgar pelo número de sítios arqueológicos na costa
do Pacífico, a população aumentou com a intensificação da pesca. As densidades
populacionais aumentaram ainda mais há cerca de 1.300 anos, quando a produtividade
marítima subiu com a ressurgência ativa.
As mudanças são particularmente notáveis nas ilhas do canal, onde as fontes de
alimento eram muito irregulares, mas havia grande abundância de mariscos e viveiros
de peixes. Depois do ano 450, as temperaturas do mar esfriaram por cerca de 10
séculos, o que resultou em forte ressurgência e em abundância de peixes de todos os
tipos. Esse foi um período em que as populações costeiras explodiram e os
assentamentos permanentes ao longo do Pacífico se tornaram algo comum. Nas ilhas do
canal, os grandes assentamentos se desenvolveram de maneira mais ou menos
eqüidistante, como se houvessem territórios forrageiros distintos, muito bem-
delimitados. Muitos desses assentamentos continuaram a ser utilizados ao longo da
história, de forma que seus habitantes aparecem em registros das missões e também
fazem parte da tradição oral registrada no final do século XIX e início do século XX.
Sabemos disso porque, em 20 de novembro de 1884, Juan Estevan Pico, um índio
chumasch que vivia na comunidade indígena de San Buenaventura, ao sul do Canal de
Santa Barbara, compilou nada menos do que 21 vilarejos nas ilhas. Os nomes de pelo
menos 11 chefes aparecem em registros de batismo, a maioria com datas entre 1814 e
1822. O rápido despovoamento das ilhas foi resultado dos efeitos de doenças européias,
do colapso do comércio através do canal e da seca prolongada.
Na Ilha de Santa Cruz, a maior do arquipélago, a maioria dos assentamentos ficava em
baías protegidas, onde os habitantes poderiam ter uma boa visão das linhas costeiras ou
avistar vilarejos vizinhos situados em cabos estratégicos que serviam de postos de
vigilância. Cada assentamento ocupava uma posição estratégica perto de fontes
confiáveis de água potável. Com o passar do tempo, os limites territoriais parecem ter se
tornado mais rígidos e muitas vezes eram marcados por cemitérios. A maioria dos
cemitérios da vizinha Ilha de Santa Rosa, por exemplo, está ligada a grandes vilarejos,
tanto na costa quanto no interior, sendo que alguns deles provavelmente serviam de
demarcadores territoriais.
Com o crescimento das populações e a superlotação das ilhas, as lutas aumentaram. A
onda de violência surgiu num momento em que os sinais da tensão que envolveu a
questão da alimentação se tornaram mais comuns nos ossos dos mortos. Os
antropólogos biológicos Patrícia Lambert e Phillip Walker registraram numerosos
exemplos de fraturas em antebraços sofridas ao aparar golpes, fraturas de nariz,
ferimentos em crânios e feridas causadas por lanças ou flechas. Muitos dos ferimentos
na cabeça tinham sido curados, tendo sido infligidos por instrumentos relativamente
finos e cegos, sem corte.
Tanto a desnutrição quanto o aumento da violência vigoraram num momento de
instabilidade climática e mudanças sociais marcantes. As águas do Canal de Santa
Barbara normalmente eram frias e produtivas, mas em terra as condições normalmente
eram de secas severas muito bem registradas em anéis de árvores e núcleos de fundo
do mar por volta de 950 e 1250. As secas resultaram em uma consolidação dos
assentamentos menores em outros maiores e no abandono de áreas com suprimentos
de água insignificantes em torno das ilhas e também em terra firme.
A violência e o aumento da competição por alimento foram conseqüências insidiosas dos
grandes ciclos de seca. Os assentamentos das ilhas eram matrilocais, ou seja, as
mulheres permaneciam nos assentamentos de origem e os homens que se casavam com
elas mudavam-se. Isso tinha uma vantagem estratégica, pois estimulava as aianças
entre vilarejos vizinhos, onde viviam os homens aparentados por sangue. Pesquisas
lingüísticas sobre as populações históricas mostram que os moradores das ilhas e de
terra firme falavam línguas diferentes, como se houvesse dois grupos distintos. A
instituição da residência matrilocal deve ter se desenvolvido diante das repetidas
ameaças de ataque partidas de terra firme, onde os suprimentos de alimentos eram
escassos e os territórios superlotados.
Com o aumento da população nas ilhas, cresceu também a pressão sobre alimentos
muito valorizados, como o abalone vermelho. Esses moluscos carnudos prosperavam em
águas rasas e podiam atingir tamanho considerável. Pequenos grupos de mulheres
entravam na água das piscinas formadas pela maré, mergulhando em águas rasas para
tirar os abalones das pedras. Colocavam o que pegavam em cestos rasos, nadando pelo
fundo rochoso pouco abaixo do nível da maré, programando suas visitas para as marés
mais baixas do mês. De volta ao acampamento, elas abriam os abalones com habilidade,
usando alavancas feitas com ossos, e amassavam a carne delicada antes de tostá-la. Na
época dos séculos de aquecimento, os abalones eram muito menores, mas a redução
nos alimentos foi compensada com a instauração de uma dieta mais variada, que incluía
muito mais espécies de peixes, além das algas marinhas apreciadas em tempos
anteriores. Como os forrageiros da Grande Bacia, os chumash descobriram as vantagens
de uma dieta variada. Em 1100, os pescadores já estavam se aventurando em águas
mais profundas, a bordo de barcos feitos com pranchas de madeira conhecidos como to-
mols, pegando espécies de águas profundas como tubarões e atuns com linha e anzol.
Eles também utilizavam arpões articulados contra os mamíferos marinhos, tecnologia há
muito utilizada no extremo norte. Essa intensificação da pesca foi um esforço deliberado
para ampliar a dieta durante um ciclo de seca muito severo.
As ilhas do canal tinham relativamente poucas plantas comestíveis; além disso, não
possuíam as opulentas bolotas, tão importantes em terra firme. Durante séculos, os
moradores das ilhas obtiveram as bolotas trocando-as por milhares de contas retiradas
de conchas e furadas com sílex córneo, encontrado na ilha de Santa Cruz. Em alguns
sítios localizados nas ilhas, os restos de plantas nativas fornecem evidências claras
desse comércio realizado depois de 1200 apenas no continente. O interessante é que o
comércio de contas aumentou drasticamente no final do primeiro milênio, justamente na
época em que as secas se aprofundaram e se intensificou a concorrência pelas plantas
comestíveis. Nessa mesma época, as pessoas já haviam se tornado muito dependentes
do peixe e acabaram por transferir-se para vilarejos mais permanentes, ficando presas
aos locais de pesca e às praias, onde podiam deixar suas canoas.
As circunstâncias políticas e sociais tornaram-se muito voláteis nas ilhas durante os
séculos de aquecimento. Com o aumento da população em uma época de pescarias
fartas, também teria se intensificado a disputa por melhores locais de pesca e leitos
mais ricos em mariscos. Como vimos, explodiu a violência, pessoas foram mortas, limites
territoriais foram fortalecidos e defendidos mais agressivamente. Inevitavelmente,
alguns indivíduos ou grupos aparentados assumiram o controle sobre áreas específicas
de pesca ou onde havia plantas comestíveis. Esse poder deu a eles mais autoridade e,
provavelmente, uma posição mais elevada nas novas hierarquias sociais que foram se
desenvolvendo por várias gerações. A sociedade local tornou-se mais hierarquizada,
governada por chefes que formavam alianças uns com os outros e às vezes controlavam
vários vilarejos. Alguns deles eram também capitães de barcos, especialização tão
valorizada que em épocas posteriores eles se tornaram membros de uma fraternidade
constituída formalmente.
Nas ilhas, as pessoas reagiram à seca vivendo em vilarejos densamente povoados. Seus
líderes controlavam um comércio com o continente em franca expansão, que parece ter
resultado no declínio brusco da violência. Em muitas ocasiões, as pessoas sofreram por
desnutrição, mas o sofrimento deve ter sido menor do que aquele do continente, onde a
seca no interior dizimou as plantações de bolotas e reduziu drasticamente o suprimento
de plantas comestíveis. No continente, assim como nas ilhas, cada comunidade adotou a
resposta clássica à seca severa: montaram seus assentamentos perto de fontes
permanentes de água. A julgar pelos resultados do excesso de população em favelas às
margens das modernas cidades industrializadas, podemos imaginar que deve ter havido
sérios problemas de saneamento e de poluição da água nos assentamentos, agora
superlotados, ocasionando as inevitáveis epidemias de diarréia e outras doenças, muito
menos comuns nos vilarejos pequenos.
Enfim, parece que os chefes, tanto das ilhas quanto do continente, desenvolveram
mecanismos sociais para diminuir a concorrência e a violência causadas pela escassez
de alimentos. Por volta de 1300, encontramos alianças complexas e outros mecanismos
para reduzir as disputas, que estavam intimamente ligados à explosão no comércio entre
as ilhas e o continente e à troca com grupos que viviam em regiões distantes do interior,
chegando até o sudoeste. Por muito tempo ainda, esses mecanismos continuaram a
existir, mesmo depois que as grandes secas dos séculos de aquecimento foram
esquecidas, em uma região onde as chuvas imprevisíveis e as constantes mudanças na
temperatura do mar faziam com que todos fossem vulneráveis às mudanças climáticas,
e onde o conhecimento das gerações anteriores servia de exemplo para as pessoas
presas à pesca costeira ou à colheita de bolotas.
Os chumash mantiveram contatos não apenas com grupos vizinhos, mas também com
pessoas que viviam muito longe, no interior. Sua rede de comércio se estendia até o
sudoeste, onde lavradores de pueblos ancestrais reagiram às mesmas secas
catastróficas com estratégias diferentes.

Uma tarde quente e abafada caiu sobre o chão do Parque Nacional Histórico da Cultura
Chaco, em Chaco Canyon, no Novo México. O ar denso, parado, pesa sobre os visitantes
que passam pelos espaços vazios de Pueblo Bonito. Um grande bloco formado por
nuvens pretas carregadas surge a oeste no horizonte, zombando do reflexo do sol
brilhante nas paredes do cânion. As nuvens ficam cada vez mais altas. O tremeluzir de
relâmpagos distantes aparece em meio à cobertura de nuvens ameaçadoras; trovões
rugem perigosamente. O vento sopra violentamente pelo cânion; algumas gotas pesadas
de chuva marcam a areia do caminho. Os visitantes correm em busca de abrigo. Uma
parede cinza se aproxima, mas evapora quando a tempestade muda de curso e
descarrega sua carga a rio abaixo. O sol volta a brilhar, banhando o cânion com sua luz.
Quem vive em ambientes semi-áridos tem que estar preparado para rolar com os golpes
climáticos. Os Pueblos antigos do sudoeste eram mestres na flexibilidade e oportunismo
exigidos pela vida em paisagens onde o movimento significava sobrevivência. Uma
tradição oral dos índios tewas do sudoeste proclama: "Movimento, nuvens, vento e
chuva são uma só coisa. O movimento deve ser imitado pelas pessoas."
Os grupos da Grande Bacia sobreviveram graças à mobilidade. Os pescadores costeiros
mudaram-se para vilarejos com maior densidade populacional. Esses povos eram
caçadores e forrageiros; outros, cultivavam milho e feijão e viviam da lavoura da terra. A
lavoura não era uma opção viável em áreas desérticas; os índios californianos com suas
colheitas de bolotas não tinham qualquer incentivo para plantar. Porém, no sudoeste,
lavradores conservadores, especializados na administração da água, prosperaram em
ambientes normalmente marginais por mais de trezentos anos.
O Chaco Canyon fica no coração da Bacia de San Juan, paisagem aparentemente vazia
que parece estender-se até o infinito. O acúmulo de água na bacia é coisa rara; as
chuvas de verão surgem na forma de temporais com relâmpagos e trovões; mais
moderadas, apesar de esporádicas, as chuvas de inverno na forma de neve acontecem
entre dezembro e março. Mas a quantidade de chuva é muito pequena, invariavelmente
localizada e absolutamente imprevisível. Alterações climáticas de curto prazo, como os
fenômenos El Niño, ou secas prolongadas como as do Período de Aquecimento Medieval,
poderiam ter um efeito profundo sobre a agricultura ano após ano. O Chaco Canyon tem
aproximadamente 30 quilômetros de comprimento e cerca de 0,5 a 1,5 quilômetro de
largura. Depois das tempestades, o cânion é inundado pelo Chaco Wash e também por
afluentes e córregos naturais ao pé dos despenhadeiros das imediações. Mas nas épocas
de seca o solo do cânion fica completamente desértico.
Certamente não parece um local promissor para qualquer forma de agricultura, podemos
pensar, mas entre os séculos IX e XII pelo menos 2.200 pessoas viviam no cânion, e sua
população aumentava consideravelmente em épocas de grandes cerimônias. Inúmeras
aldeias pequenas formadas por poucas casas de pedra se desenvolveram no Chaco, e
também nove grandes pueblos, grandes estruturas conhecidas como casas-grandes. Os
residentes permanentes do Chaco lavravam faixas de solo fértil com varas e enxadas
simples. Não se sabe quantos viviam nas casas-grandes em vez das aldeias, mas lugares
como Pueblo Bonito podiam abrigar centenas de pessoas - desde que os visitantes
trouxessem sua própria comida. A capacidade de transporte do cânion em si era
minúscula em relação ao tamanho das grandes estruturas. No lado sul do cânion, os
lavradores dependiam das chuvas, enquanto no lado norte eles cultivavam milho e feijão
em campos densamente ocupados e recortados. Usando canais com cerca de 1,2 metro
de largura, eles canalizavam a água armazenada em barragens de terra com simples
portões de alvenaria que depois corria de um campo para outro. O resultado foi que
esses lavradores aumentaram a produção agrícola enormemente, mas às custas de
maior vulnerabilidade às secas severas, pois seu sistema agrícola tornou-se menos
diversificado. Rígidos sistemas de controle de água nesta escala tão pequena só
funcionariam se houvesse chuva suficiente para encher os canais e irrigar os campos
recortados, algo que não aconteceu por muitos anos. A solução foi a diversificação, com
cada residência se dedicando à lavoura de inúmeros microambientes, diversificando os
riscos como o faria um investidor de fundos mútuos. Mas eles nunca produziram o
suficiente para alimentar todos os que visitavam o cânion.
A expansão das casas-grandes do Chaco, entre 1050 e 1100, dependeu em grande parte
de um sistema agrícola altamente vulnerável, que funcionava muito bem durante os
ciclos de muita chuva, mas que se tornava desastroso quando ela rareava. Porém,
apesar dessa vulnerabilidade intrínseca, o povo chaco construiu uma série de casas-
grandes, uma arquitetura em grande escala, muito maior do que qualquer coisa de que
necessitassem para 2.200 pessoas. A maioria dos pueblos do Chaco era semicircular,
normalmente com vários andares e muitos espaços ligados a grandes e pequenas kivas,
câmaras subterrâneas utilizadas para rituais de todos os tipos. As casas-grandes são tão
surpreendentes e espetaculares que algumas pessoas chamam o Chaco de Stonehenge
da América.
Ninguém sabe por que essas estruturas tão imponentes surgiram nesse cânion árido e
remoto, mas há um entendimento geral de que o Chaco tornou-se um local de enorme
importância ritual entre os séculos IX e XII. Pessoas de lugares muito distantes
chegavam trazendo grãos, vigas de madeira, turquesas para ornamentos e mercadorias
exóticas, como penas de pássaros tropicais, provavelmente em épocas de grandes
cerimônias como as que marcavam a passagem dos solstícios. Pueblo Bonito, a mais
imponente dessas casas-grandes, foi iniciada por volta do ano 860 e desfrutou de uma
história arquitetônica complexa até aproximadamente o ano 1115. Naquela época, o
Chaco exercia uma influência cultural e espiritual profunda sobre uma área enorme da
Bacia de San Juan. Uma série de "estradas" simbólicas e irregulares se irradiavam a
partir do cânion, mas desconhecemos seu significado simbólico e funcional.
Especialistas vêm debatendo o significado do Chaco há muitas gerações. É provável que
os indivíduos mais poderosos do cânion fossem líderes religiosos. Eles eram os guardiões
do conhecimento espiritual que governava uma sociedade em que a religião e a
agricultura andavam de mãos dadas. Combinando agricultura e administração
inteligente da água com um ritual de crenças complexas, esse povo floresceu numa
época em que as chuvas eram relativamente abundantes. Ali, a existência humana
dependia não apenas da administração da água, mas, acreditavam eles, da realização
meticulosa de danças e rituais elaborados, da habilidade do povo que era o guardião do
conhecimento sagrado. Foi por esse motivo que grandes estruturas tão estupendas
surgiram no árido cânion, em um cenário tão espetacular. As pessoas vinham de muito
longe, atraídas pelas poderosas associações espirituais do lugar.
O Chaco havia se desenvolvido rapidamente durante um longo período de chuvas
relativamente abundantes pelos padrões de San Juan. Os anéis de árvores nos dizem
que as secas persistentes e cada vez mais severas que afetaram o oeste americano
ocuparam o cânion depois de 1100, época em que a necessidade de madeira e de mão-
de-obra para construção estava no auge. A produtividade agrícola definhou; os
suprimentos de água evaporaram lentamente. Para as pessoas que viveram
estoicamente durante a seca talvez parecesse que tinham sido abandonadas pelas
forças sobrenaturais, que seus líderes haviam perdido a capacidade de se comunicar
com os deuses. Em questão de meio século, as casas-grandes foram abandonadas. O
povo do Chaco mudou-se dali.
Precipitações julho-agosto no Chaco Canyon Reconstruído a partir do Parque Nacional
Histórico da Cultura Chaco e Bloomfield
Representação gráfica das chuvas em julho-agosto no Chaco Canyon, Novo México, entre
os anos 600 e 1300. Reconstruído a partir da seqüência de anéis de árvores do cânion
usando o método Bloomfield para análise de séries de tempo. A linha escura mostra
tendências gerais, enquanto as linhas pontudas mostram anos excepcionalmente
chuvosos. A seca dos anos de 1140 e a grande seca do século XIII podem ser claramente
discernidas.

Esse padrão de movimento sinalizava uma estratégia familiar em uma região onde era
grande a flutuação pluviométrica e nenhuma comunidade era inteiramente
autossuficiente. No Chaco, ou em qualquer outro lugar do sudoeste, ninguém tinha
ilusões a respeito das quebras das colheitas e da fome. Todas as famílias mantinham
laços de parentesco com outras comunidades, mantinham comércio com elas, e
respondiam com alimentos quando necessário. Da mesma forma, as pessoas que viviam
em regiões menos desérticas sabiam que seus parentes viriam morar com elas se as
condições para a lavoura fossem melhores. O próprio Chaco exerceu grande influência
sobre uma área ampla, especialmente no norte e no oeste, para onde as pessoas se
mudaram depois do ano 1100. Outros pueblos adquiriram proeminência, entre eles os
astecas, acima do Animas River; então, ainda mais ao norte, grandes comunidades
floresceram no Vale Montezuma e na Mesa Verde, lugares onde assentamentos
densamente povoados estão perto de suprimentos de água mais confiáveis. Porém, mais
uma vez, uma grande seca, de 1276 a 1299, provocou a dispersão desses grandes
pueblos, com as pessoas fugindo dos conflitos, pois as casas-grandes estavam
superlotadas e os suprimentos de alimento cada vez mais escassos. As altas taxas de
mortalidade infantil e a redução dos índices de natalidade devido a problemas de saúde
podem ter levado a uma queda na densidade populacional, mas os recursos sociais e
tecnológicos para lidar com a crise mostraram-se inadequados. Por isso o povo decidiu
confiar na antiga estratégia do movimento, indo viver em terras melhor irrigadas no
leste, sul e oeste, onde já havia comunidades com parentes amigáveis capazes de
receber um grande número de pessoas.
Para o Pueblo, o movimento foi a única solução lógica para as secas dos séculos de
aquecimento. Sabemos que houve fome e luta por comida e água. Existem até
evidências de canibalismo. Felizmente, as antigas tradições falaram mais alto e as
pessoas se ajustaram afastando-se, família por família. Em alguns pueblos, inúmeros
potes de argila e instrumentos de pedra, como também pesadas pedras utilizadas para
triturar o alimento, ainda se encontram onde seus donos as deixaram. A estratégia do
movimento foi bem-sucedida. Séculos depois, o legado dos pueblos antigos permanece
nos rituais e tradições orais vibrantes, na arquitetura e nas práticas agrícolas que ainda
hoje repercutem no sudoeste. Apesar de todo o trauma da entrada espanhola e das
convulsões forjadas pela sociedade industrializada, as comunidades de pueblos são
praticamente autônomas hoje em dia, compartilhando antigos rituais para promover a
harmonia e a identidade comum. O Chaco Canyon e outros pueblos permanecem como
parte da memória ancestral dessas sociedades na modernidade, e os visitantes ainda
aparecem para respirar a força dos lugares antigos e seus habitantes.
Não houve migração em massa para fora do Chaco, nenhum momento em que os mais
velhos abandonaram as casas-grandes, que eram o centro da vida no cânion. As
deliberações ocorreram nas kivas subterrâneas ao redor de fogueiras no inverno, e
também entre maridos e esposas enquanto suas crianças famintas dormiam. É possível
que muitos maridos tenham saído do cânion para visitar parentes, para preparar o
caminho para irem a algum lugar onde seriam bem-recebidos e onde haveria alimento
suficiente para mantê-los até o próximo ciclo de plantio e colheita. Então, duas ou três
famílias empacotavam suas coisas, abandonando a pequena propriedade onde viveram
seus ancestrais. Partiam com pesar, provavelmente, mas satisfeitos com sua decisão,
pois sabiam que seus ancestrais teriam aprovado.
As grandes secas do oeste americano tiveram origem em complexas e ainda pouco
conhecidas interações entre o oceano e a atmosfera no Pacífico. Essas mesmas
interações, refletidas no ciclo de esfriamento da Oscilação entre Décadas do Pacífico e
nas mudanças continuas, imprevisíveis, dos fenômenos El Niño e La Nina, trouxeram
também destruição e escassez de alimentos para civilizações avançadas da América
Central e dos Andes.

CAPÍTULO 8
Senhores das Montanhas de Água

Ali mais uma vez vem a humilhação, a destruição e a demolição. Os bonecos, entalhados
na madeira, morreram quando o Coração do Céu elaborou uma inundação para eles. Fez-
se uma grande inundação: caiu sobre as cabeças dos bonecos, dos entalhes.

- Popol Vuh, livro maia do fim da vida

Grupos de caçadores da Grande Bacia da América do Norte mantiveram-se próximos das


fontes de água e mudaram-se para lugares mais altos. Os pueblos ancestrais
abandonaram Pueblo Bonito e as outras casas-grandes do Chaco Canyon, centro sagrado
de seu mundo durante séculos, diante da seca intensa. Grupos de índios chumash ao
longo da costa sul da Califórnia lutaram uns com os outros por causa da água e das
preciosas bolotas, devastadas pelas secas persistentes. Todos esses povos viveram em
paisagens semi-áridas, onde a flexibilidade e o movimento eram reações automáticas à
seca. Tradições arraigadas de obrigações mútuas, de reciprocidade, eram parte
fundamental da vida no oeste americano, onde as bombas cíclicas intermináveis dos
desertos sugavam e expulsavam as pessoas enquanto as chuvas iam e vinham. Mais ao
sul, na América Central, a antiga civilização maia estava no seu apogeu quando as secas
dos séculos de aquecimento chegaram, trazendo rupturas catastróficas que mataram
milhares de pessoas e despovoaram boa parte das terras baixas dos maias.
Nosso conhecimento à respeito dos antigos maias sofreu uma revolução quando foram
decifrados seus manuscritos, na década de 1970. O mesmo ocorreu com as perfurações
nos lagos e mares, realizadas nas últimas décadas, que forneceram informações sobre
mudanças climáticas que varreram a floresta tropical onde viviam há mil anos. As
evidências das secas constantes, e freqüentemente severas, refletem as secas ocorridas
no oeste norte-americano.
Mapa das planícies dos maias mostrando as localidades mencionadas no texto.

A Bacia de Cariaco, na costa da Venezuela, no sudeste caribenho, é a fonte do mais


influente de todos os testemunhos de gelo porque registra alterações climáticas
resultantes do movimento para o norte e para o sul da Zona de Convergência
Intertropical (ver quadro no Capítulo 4). A ZCI teve um efeito profundo sobre as chuvas
nas terras baixas dos maias e, do outro lado do oceano, no Sahel saariano. Em termos
gerais, podemos fazer uma ligação entre as mudanças climáticas em ambos os lados do
Atlântico. Como veremos no Capítulo 11, é possível ainda que haja ligações até a Ásia,
através do Pacífico. O testemunho de Cariaco é notável por suas camadas de sedimentos
finos depositados anualmente pelos rios que corriam para o oceano. Os depósitos são
incomuns pelo fato de serem excepcionalmente bem definidos, com cerca de 30
centímetros representando cada milênio. Os sedimentos laminados refletem flutuações
na produção dos rios provocada pela mudança na quantidade de chuvas. Essas
mudanças foram resultado de alterações sazonais na Zona de Convergência
Intertropical, com as lâminas escuras refletindo as chuvas de verão e do outono chuvoso,
e as claras indicando o inverno e primavera secos, quando a Zona de Convergência está
em sua posição mais setentrional e os ventos alísios sopram com força ao longo da costa
venezuelana. O grande teor de titânio nas lâminas registra a quantidade de sedimentos
trazidos da terra pelas bacias hidrográficas vizinhas. Quanto mais alto o teor de titânio,
maior o índice pluviométrico.
Entre os sedimentos depositados nos últimos dois mil anos, a concentração de titânio foi
mais baixa entre cerca de 200 e 500 anos atrás, durante os séculos de seca da Pequena
Idade do Gelo. As maiores concentrações de titânio chegaram à Bacia entre 880 e 1100,
auge do Período de Aquecimento Medieval. Mas os níveis de titânio estavam longe de
serem constantes. Foram considerados mínimos nos períodos por volta dos anos 200,
300 e 750. Felizmente para os climatologistas, a Bacia de Cariaco segue o mesmo
regime climático das terras baixas dos maias, onde a maior parte das chuvas cai no
verão, quando a Zona de Convergência Intertropical está no norte, sobre o Yucatán. Se a
Zona de Convergência permanecer em sua posição mais setentrional por qualquer
período de tempo, a seca atinge tanto a região de Cariaco quanto a terra natal dos
maias.
A civilização maia floresceu por volta do ano 150, quando cidades como El Mirador se
tornaram enormes. El Mirador foi abandonada rapidamente no início do primeiro milênio
da Era Cristã, numa época em que os testemunhos marinhos de Cariaco falam de seca
na região. Mas os maias se recuperaram, surgiram novas cidades, e novas estratégias
para a administração da água passaram a ser utilizadas. Tempos relativamente úmidos
entre os anos 550 e 750 assistiram ao crescimento da população. Muitas comunidades
maias logo estariam operando no limite da capacidade de suas terras. Naquele período,
grandes e pequenos assentamentos maias estavam muito mais vulneráveis às secas de
anos seguidos, que chegavam sem aviso, mas de forma tão irregular que não faziam
parte da memória recente daquela geração.
Os testemunhos coletados na Bacia de Cariaco documentam um intervalo de baixo nível
de titânio centrado no século IX, no início do Período de Aquecimento Medieval, quando
uma forte seca também foi encontrada em testemunho coletado no Lago Chichancanab,
no próprio Yucatán. Os dois registros revelam secas de anos seguidos que começaram já
no ano 760 e que voltaram a ocorrer em intervalos de aproximadamente 50 anos: 760,
820, 860 e 910. A primeira seca foi na verdade uma leve tendência de seca de longo
prazo, seguida por uma seca severa de aproximadamente três anos, começando em
810, e outra seca começando por volta de 910, que durou cerca de seis anos. Durante
esse período ocorreu o colapso da civilização maia das terras baixas do sul e do centro
do Yucatán.
O testemunho coletado no Lago Chichancanab não apenas espelha o de Cariaco, apesar
de datado com menor exatidão (de mais ou menos vinte anos), como também
documenta condições de seca duradouras que persistiram até o ano 1075. Os registros
climáticos hoje são inequívocos. No início do Período de Aquecimento Medieval
ocorreram ciclos de seca nas terras baixas dos maias, com intervalos de
aproximadamente cinqüenta anos, ao mesmo tempo em que uma profunda aridez afetou
o oeste norte-americano.

Os maias eram obcecados por água, e por um bom motivo, pois viviam em um ambiente
de chuvas incertas. Eles acreditavam que a civilização havia começado nas águas
escuras primordiais de Xibalba, "o Inframundo". As águas eram calmas e escuras; o
mundo, nada mais além de água. "Não existe uma única pessoa, um animal, pássaro,
peixe, caranguejo, árvore, pedra, cânion vazio, prado, floresta. Somente o céu, sozinho;
o rosto da terra não está claro. Somente o oceano, sozinho, está agrupado sob o céu;
não há nada reunido. Tudo descansa." Xibalba era uma piscina escura, calma. Mas havia
sinais de movimento na água, "sussurros, ondulações, no escuro, na noite". Os criadores
estavam nas águas, "uma luz brilhante. Eles estão lá, fechados nas penas de quetzais,
em verde-azulado". Ali os deuses criaram a humanidade. Ao fazer isso, provocaram o
vazamento da água para a entrada das regiões mais baixas, os lugares mais sagrados da
paisagem maia, para sustentar as plantações e nutrir a vida humana. De forma sutil, a
água definiu esta que foi a mais extravagante das civilizações nativas americanas, e se
tornou um instrumento de poder político e controle social. O ciclo de vida maia acabou
quando grandes senhores desceram da morte para as águas tingidas de Xibalba. E
quando as chuvas faltaram e as secas desceram sobre o mundo maia, as bases da
civilização tremeram.
Como os antigos egípcios, os maias foram lavradores por muitos séculos antes de
transformarem sua terra natal em uma paisagem de grandes cidades governadas por
senhores poderosos. Aí termina a semelhança. Nenhuma inundação anual ou várzea de
rio fértil para proporcionar alguma segurança para a civilização maia. Também não havia
um grande rio ligando cidades, aldeias e vilarejos em um grande estado unificado como
o dos faraós. Os maias cultivaram a Península Petén-Yucatán, que se projeta no Golfo do
México; é uma grande prateleira de pedra calcária erguida das profundezas do oceano
durante um imenso período de tempo. Eles viviam em um mundo densamente
arborizado, onde as grandes árvores de mogno chegavam a atingir 45 metros de altura,
onde abundavam o sapotizeiro e a fruta-pão. A floresta deu lugar a pedaços abertos de
savana cobertos por grama grosseira e árvores raquíticas. Quentes, úmidas e
normalmente mal drenadas, as planícies maias eram um ambiente frágil, com falta de
água mesmo nas melhores épocas. O poroso leito de rocha calcária absorvia tanta água
que tornava imprevisíveis as flutuações do lençol freático. É difícil imaginar um lugar
mais improvável para uma grande civilização.
Sobrevoando a terra natal da civilização maia clássica (entre os anos 250-900) no baixo
Yucatán vemos um irretocável tapete verde. Mas a aparente uniformidade é ilusória. A
densa cobertura de árvores encobre uma impressionante diversidade de habitats, que
apresentaram desafios especiais para os antigos lavradores maias. A cada ano, chovia
entre 1.350 e 2.000 milímetros, mas as precipitações eram menos abundantes e
previsíveis do que se poderia esperar. A maior parte da chuva chegava entre maio e
outubro, depois de um período de seca que durava entre quatro e seis meses. Lagos,
fontes e córregos perenes eram raridades inestimáveis. Até mesmo os vilarejos com
lavoura em menor escala exigiam criatividade no recolhimento, armazenamento e
administração da água para os longos meses de seca.
Para entender por que, precisamos voltar ao início da civilização maia. Por volta do ano
1000 a.C., somente a planície costeira e algumas poucas áreas drenadas, perenes,
estavam em condições de agüentar comunidades agrícolas permanentes por um longo
período. Muitas dessas comunidades também estavam envolvidas com a pesca. Com o
aumento das populações locais, pequenos grupos foram se deslocando mais para o
interior, ao longo dos córregos e dos pântanos às suas margens. Em seis séculos, um
amontoado de pequenas aldeias havia se transformado em uma civilização de rápido
crescimento.
No século III a.C., milhares de pessoas viviam em comunidades espalhadas pelas
planícies. Eram lavradores pacientes, competentes, que desenvolveram várias formas de
administrar a água e modificar o ambiente para obter o máximo de produtividade. Por
muitas gerações, seguiram-se tentativas e erros, situações de penúria e de fartura, o
que acabou levando as pessoas a procurar locais estratégicos para seus assentamentos -
elas podiam, por exemplo, viver perto da base de depressões rasas naturais beneficiadas
com o escoamento durante a temporada de chuvas. Ali elas construíam reservatórios
para armazenar a água da chuva, perto de lugares onde os primeiros grandes centros
cerimoniais cresceram com notável rapidez. Eram estruturas imponentes para quaisquer
padrões. Por exemplo, entre 150 a.C. e o ano 50, período de apenas dois séculos, El
Mirador, na província de Petén, ao norte da Guatemala, cresceu até cobrir uma área de
16 quilômetros quadrados, dominada pela pirâmide de La Danta, construída em uma
colina natural com mais de 70 metros de altura. A cidade está localizada em uma
paisagem ondulante, com a água sendo coletada em uma grande bacia hidrográfica,
basicamente natural, durante a temporada de chuvas. Passadiços atravessavam os
pântanos baixos ou lagos rasos perto da área central. El Mirador prosperou graças a uma
forma simples de administração da água, através da qual depressões naturais,
transformadas em reservatórios, serviam de instalações para armazenamento de água.
O mesmo sistema de reservatórios foi também parte integrante de uma extensa
paisagem agrícola.
Alguns desses sistemas alcançaram tamanho considerável. O povo de Edzná, em
Campeche, ocupada entre 400 a.C. e o ano 150, escavou uma vasta bacia de canais e
removeu quase 1,75 milhão de metros cúbicos de terra para construí-los - mais do que o
volume da vasta Pirâmide do Sol de Teotihuacán, em terras distantes do México. Então,
subitamente, durante o primeiro e o segundo séculos, El Mirador, Edzná e outros centros
desapareceram. Suas pirâmides e templos foram abandonados e entregues à floresta; as
pessoas se dispersaram para pequenos vilarejos espalhados pela paisagem. Muitos
especialistas acreditam que isso ocorreu devido a uma forte seca que tornou seus
reservatórios e sistemas de água absolutamente inúteis.
Depois do ano 250, início do período clássico da civilização maia, modificaram-se as
estratégias para a administração da água. Pela primeira vez, os senhores maias
construíram palácios, pirâmides e templos em morros e cumes elevados. Eles
transferiram seus centros para longe das fontes naturais de água e preferiram construir
grandes reservatórios próximos ao perímetro reservado para as cerimônias. As maiores
cidades, entre elas Calkmul, Copán e Tikal, desenvolveram sistemas de administração de
água elaborados, erguidos no processo de construção das plazas e pirâmides, réplicas
simbólicas do mundo maia, As pirâmides se tornaram "montanhas de água". Milhares de
aldeões trabalharam nos grandes centros. A primeira tarefa na ordem do trabalho era
extrair a pedra, criar depressões artificiais que se tornariam reservatórios e tanques.
Sem um sistema de água viável, os construtores não tinham suprimento de água para os
grupos de trabalho ou para misturar a argamassa de calcário usada para os pisos e
paredes. A quantidade de trabalho investida era enorme, mas nenhum centro urbano
poderia sobreviver sem suprimentos de água muito maiores do que aqueles exigidos por
um pequeno vilarejo agrícola.
Cada um dos senhores maias construiu seus grandes reservatórios e tanques perto das
construções de arquitetura cívica mais imponentes. Ali ele aparecia diante do povo
reunido em cerimônias públicas elaboradas. Dançarinos se apresentavam nas praças
abertas, apequenados por templos enormes. Cantos ecoavam das escadas das
pirâmides, tochas tremiam e ardiam na brisa noturna enquanto o incenso flutuava em
torno da multidão. O próprio governante surgia de uma abertura escura no templo,
entrada simbólica de Xibalba, e aparecia diante do povo em estado de transe induzido
por drogas alucinógenas. Realizava um ritual de sangria em si mesmo, depois
desaparecia repentinamente, embarcando em uma jornada em direção ao mundo
sobrenatural. Os grandes rituais giravam em torno de relacionamentos complexos entre
os vivos, as divindades e os ancestrais, entre os governantes e os governados. As
mesmas cerimônias reconheciam a importância da água na vida dos maias - e nas
equações complexas do poder político. Desde os tempos mais remotos, a sociedade
maia se desenvolveu baseada em laços de parentesco que uniam uma comunidade a
outra através de laços vitais de reciprocidade - a obrigação de fornecer alimento, ajuda
ou trabalho para os parentes em épocas de necessidade. À medida que a civilização
maia emergiu de suas raízes em vilarejos e novos líderes adquiriram proeminência,
antigos laços de família ainda proporcionavam pelo menos um laço hipotético entre os
senhores e as pessoas comuns. Mas a natureza desses laços mudou e passou de simples
reciprocidade para um contrato social mais elaborado. Os governantes maias se pro-
clamaram senhores divinos, com poderes sobrenaturais excepcionais. Eles se tornaram
uma espécie de xamã, capazes de passar livremente para o mundo sobrenatural, onde
serviam como intermediários entre os maias vivos, seus ancestrais, e as forças do
mundo espiritual. Os senhores forneciam proteção sobrenatural, favorecendo a chuva e
as boas colheitas. Em troca, as pessoas pagavam tributos e impostos em alimentos e
trabalho. Trabalhavam quando convocados pela nobreza, para o bem público, numa
aliança não escrita que justificava a injustiça social. Enquanto houve chuvas abundantes,
o contrato tácito sobreviveu. Porém, quando a falibilidade dos senhores se tornou
aparente, segui-se a desordem social.

Tikal, a maior das cidades maias, era dominada pela mais imponente de todas as
montanhas de água, fundada no século I. Trinta e um governantes, sendo os primeiros
do ano 292 e os últimos do ano 869, deixaram ali praticamente 600 anos de história
registrada. Através de uma combinação de guerra e casamentos políticos judiciosos, os
senhores de Tikal estenderam sua influência aos centros vizinhos, chegando a governar
em determinado momento algo entre 200 mil e 300 mil pessoas. Ninguém sabe quantas
pessoas viviam no centro, cercado por inúmeros vilarejos e grandes comunidades. Mas
nós sabemos que a cidade dependia inteiramente das chuvas sazonais para seus
suprimentos de água.
A quantidade de água coletada em Tikal era realmente assombrosa. Seis áreas de coleta
cercavam o morro mais importante, onde ficava a cidade. Uma das áreas de
represamento dentro do perímetro central cobria sozinha 63 hectares e podia armazenar
mais de 900 mil metros cúbicos de água em um ano com 1500 milímetros de chuva -
quantidade típica do período em que não havia secas. Pavimentos ligeiramente
chanfrados e açudes sutilmente desviados dirigiam as águas da chuva para reservatórios
dentro do perímetro central, que eram fechados com pedras e argila importada. Os
reservatórios combinados tinham capacidade para algo entre 100 mil e 200 mil metros
cúbicos de água, suficientes para permitir a liberação controlada da água durante as
temporadas de seca, usando eclusas cuidadosamente colocadas sob os passadiços da
cidade. Pequenos tanques domésticos para as casas imediatamente abaixo do topo eram
provavelmente recarregados pelo sistema central. Quatro grandes reservatórios ficavam
perto da base do morro central e em torno das margens pantanosas de Tikal, projetados
para recuperar a água cinza e reutilizada das áreas residenciais encosta acima. Os 50
mil a 175 mil metros cúbicos do escoamento serviam para irrigar cerca de 85 hectares
às margens dos pântanos. Com água disponível para o ano todo, os lavradores locais
tinham condições de fazer duas plantações por ano.
O sistema de água de Tikal era grande e complexo, contrastando enormemente com
sistemas de água muito menos elaborados que sustentavam pequenas comunidades. A
maioria dos aldeões sobrevivia à seca usando tanques de água rasos próximos ao
assentamento e que mantinham água suficiente para sustentar os lavradores por uma
estação de seca, talvez alguns meses mais. Mas os enormes reservatórios de Tikal
tinham água suficiente para reduzir dramaticamente a vulnerabilidade dos seus
moradores. Dois ou três anos de pouca ou nenhuma chuva não causariam problemas
para os administradores da água de Tikal, apesar de que uma seca tão longa teria
conseqüências drásticas para os pequenos vilarejos por onde se espalhava a maioria da
população maia. Mas até mesmo o sistema de água de Tikal seria inadequado para as
secas longas, que se estendiam por vários anos.

A multidão silenciosa amontoa-se na Plaza olhando para o templo no alto da pirâmide.


As tochas de luz bruxuleante desenham sombras profundas na escuridão do amanhecer.
A fumaça de incenso vai ondulando pelas encostas da montanha sagrada. Bem acima da
multidão, nobres vestidos de branco se apertam em fileiras que circundam a entrada
escura do templo. De repente, surge o grande senhor, o cabelo comprido, amarrado
acima da cabeça com penas muito coloridas que caem em cascata por suas costas. Está
com o peito nu, usando uma tanga branca brilhante, as pernas e pulsos adornados com
contas de jade azul-esverdeadas. Um nobre vestido com uma capa branca coloca uma
grande tigela de argila com papel em branco e uma espinha de raia diante dele. O
senhor se agacha, corta a carne solta de seu pênis três vezes, e passa tiras de papel
através das feridas. O papel manchado adquire um tom vermelho vivo enquanto o
senhor dança num transe frenético, segurando um símbolo da serpente de duas cabeças
que representa o caminho da comunicação com os deuses. Soam trombetas feitas de
conchas; acaba de ser convocado um deus do Inframundo. A multidão, movimentando-
se confusamente pela plaza, agitava-se em êxtase enquanto soavam os tambores.
Nobres ricamente vestidos dançavam em um terraço abaixo do senhor. Os devotos se
cortam e espalham o sangue em faixas de pano dos seus braços e pernas.
Os grandes senhores maias se autoproclamavam governantes divinos, ligados por
genealogias cuidadosamente elaboradas a ancestrais proeminentes e aos próprios
deuses. A realeza e o mundo que definiu a civilização maia estavam intimamente ligados
à experiência dos humildes aldeões. Os governantes moldaram seu poder, e os símbolos
desse poder, a partir das plantas e animais da floresta, dos ritmos ancestrais do plantio e
da colheita, das alternâncias de estações de seca e de chuva. Como seus súditos, viam o
mundo no contexto das coisas tanto espirituais quanto humanas, ancestrais e
contemporâneas, e nos reinos dos senhores ou dos homens comuns. As sangrias, os
transes, as cerimônias elaboradas que cercavam a ascensão e morte dos reis, faziam
parte de uma sociedade que dava aos senhores o direito de controlar os suprimentos de
água que vinham do céu. E as montanhas de água eram os reservatórios que traziam a
água do reino espiritual para a Terra.
A montanha de água de Tikal, com seus reservatórios e tanques, permitia que seus
governantes controlassem os suprimentos de água para um grande número de pessoas
das elevações mais baixas. Os senhores maias se promoviam como líderes divinos com
capacidades sobrenaturais poderosas. Mas seu verdadeiro poder vinha do controle sobre
os recursos mais importantes, como a água, e da realidade compartilhada pela maioria
de seus súditos, que viviam em paisagens planejadas. A vida dos maias girava em torno
das estações de plantio, crescimento e colheita, cada uma com suas associações
cerimoniais, de forma que os rituais ligados à água eram parte essencial do tecido que
compunha a existência do dia-a-dia maia. Em Tikal e outras cidades, os senhores
manipulavam a água não através do autoritarismo, mas com o uso de rituais para dirigir
e se apropriar do trabalho necessário para cavar e operar o sistema. O fato de suas
montanhas de água serem palco de cerimônias públicas elaboradas não era simples
coincidência.
Pouco se sabe a respeito desses rituais, mas sabemos que duas metáforas definiam a
morte para a nobreza maia. Uma delas era a queda em um submundo banhado por
água, freqüentemente na boca aberta de um monstro da terra - uma brecha em sua
superfície. A outra, uma jornada por canoa pelas águas infinitas abaixo da terra. Ambas
as metáforas ligavam os senhores à água, às superfícies espelhadas dos reservatórios
cheios que ficavam perto dos locais de sepultamento nas pirâmides. Quer vivesse perto
de um grande centro ou em um vilarejo remoto com seus próprios tanques de água, a
sobrevivência dependia em última instância da sustentabilidade das grandes cidades -
as montanhas de água. Durante períodos de secas prolongadas, os lavradores de áreas
afastadas migravam para perto das grandes cidades, ficando aos pés das montanhas
artificiais que eram a âncora dos suprimentos de água dos maias.

À medida que os senhores maias desenvolviam seus enormes reservatórios, também


aumentava a previsibilidade dos suprimentos de água - até certo ponto. Mas a única
fonte de água continuava sendo a chuva. Ao contrário de sociedades que conseguiam
obter um suprimento considerável de água de rios e galerias subterrâneas, os maias,
apesar de todas as suas proezas de engenharia, eram altamente vulneráveis às
alterações climáticas de curto prazo.
Eles viviam em um ambiente de rupturas constantes - anos de seca e perdas de
colheitas, chuvas torrenciais e erosão do solo, tempestades inesperadas que alagavam
as plantações. Sua agricultura utilizava os métodos mais simples, mas eles detinham
grande conhecimento de seu ambiente florestal. Como outros agricultores tropicais,
utilizavam métodos como derruba-e-queima, cortando um pedaço da floresta,
queimando a madeira, depois trabalhando as cinzas e o carvão como fertilizantes
naturais no solo. Plantavam com as primeiras chuvas, usavam a área por dois anos e
depois a abandonavam, pois o solo perdia sua fertilidade rapidamente. Esse tipo de
agricultura milpa (originária de Milpa Alta, no sul do México) formava uma colcha de
retalhos com clareiras e terras se regenerando, cercada por uma densa floresta que foi
desaparecendo progressivamente ante o crescimento das populações ao longo dos
séculos. O cultivo dessas terras exigia grande experiência e paciência infinita, pois as
chuvas rápidas e o intenso sol tropical logo endureciam o solo. Mas as planícies estão
longe de ser uniformes. Felizmente, os maias viviam em um ambiente diversificado,
onde também podiam praticar outras formas de agricultura. Em áreas pantanosas, eles
construíram sistemas de campos elevados, com faixas estreitas acima dos pântanos ou
de terras às margens de rios, que alagavam sazonalmente. Esses campos produtivos
podiam render várias colheitas de milho e feijão a cada ano. Os agricultores também
plantavam em terraços que criavam nas encostas íngremes, faixas esculpidas na pedra
por onde cairia a água em cascata durante as chuvas torrenciais.
Quaisquer que fossem os métodos agrícolas utilizados, os maias eram grandes
agrônomos. Dedicavam-se a uma grande variedade de culturas, adequadas a inúmeros
microambientes, e selecionavam as terras cultiváveis com extremo cuidado.
Transformavam tudo em um mosaico, formado por pântanos altamente produtivos e
campos elevados, milpas e terraços. Os maias administraram e manipularam seu meio
ambiente durante séculos, vivendo sempre em comunidades dispersas, mesmo que
próximas de grandes centros, pois a realidade de sua terra natal não suportaria grandes
concentrações de pessoas vivendo em um único local. Mas a população era mais densa
do que parecia. Em algumas partes das planícies do sul, a densidade populacional
chegou a 600 habitantes para cada 2,6 quilômetros quadrados, sobre uma área tão
grande que as pessoas não teriam como escapar do próprio ambiente caso houvesse
uma seca ou outros desastres naturais. A paisagem se encheu. Com o crescimento das
populações urbanas, os maias engoliram sua terra em uma época em que os agricultores
sustentavam uma nobreza cada vez maior e uma população crescente de pessoas que
nada tinham a ver com a agricultura.
A civilização maia nunca foi um estado centralizado como o dos faraós ou dos babilônios.
Ao serem decifrados nos anos de 1970, um dos grandes triunfos científicos do século XX,
os hieróglifos maias revelaram uma paisagem de cidades-estado que competiam freneti-
camente, governadas por senhores ambiciosos e vorazes obcecados por genealogia,
guerra e avanço pessoal. Tikal, por exemplo, adquiriu proeminência no século I. No ano
219, Xac-Moch-Xoc havia fundado uma brilhante dinastia que conquistara sua vizinha
mais próxima, Uaxactún. Três séculos depois, a dinastia dominava um território de 2.500
quilômetros quadrados. A cidade foi um dos muitos centros de luta pelo poder em um
mundo volátil, em constante transformação.
Alianças eram forjadas e depois desfeitas com a morte de um dos senhores. Os
governantes conquistavam seus vizinhos, sacrificavam seus líderes e sacramentavam
uma nova relação com um casamento diplomático oportuno. Mas todo esse cenário de
idas e vindas políticas, de guerras, de rituais elaborados e de realeza dependia em
última instância da água que vinha do céu. Quando se abateram sobre as planícies as
hoje bem documentadas secas do Período de Aquecimento Medieval, desgastaram-se as
bases de sustentação da civilização maia.

Teriam sido as secas suficientes para causar o colapso da civilização maia? A cada
estação de plantio, os agricultores jogavam com suas culturas, colocando os grãos no
solo com as primeiras chuvas, esperando então pelas tempestades que viriam para
umedecer o solo seco. Havia anos em que a chuva caía. Havia anos em que durante
semanas as nuvens iam se acumulando no horizonte, mas as chuvas não vinham exceto
por algumas gotas pesadas. A chuva poderia cair a alguns quilômetros de distância, mas
as nuvens negras simplesmente passavam pelos outros vilarejos. Em centenas de
pequenas aldeias e minúsculas comunidades agrícolas, as pessoas viviam de colheita a
colheita, como na distante Europa medieval. Todos vivenciaram situações de fome ao
longo da vida. Não se sabe em que medida os senhores redistribuíam o alimento para as
comunidades famintas como parte de seus rituais.
Nos primeiros séculos da civilização maia, existiam alimentos naturais com os quais eles
podiam contar nos anos de seca. Mas as populações rurais cresceram inexoravelmente e
em muitos lugares esgotaram a capacidade de suprimento da floresta; agora as pessoas
estavam engolindo a terra, derrubando árvores e arbustos e abrindo mais clareiras,
expondo solos frágeis à dureza do sol. A floresta primordial desapareceu, substituída
pelo crescimento regenerado. Eram cada vez menores os recursos naturais passíveis de
serem usados como alimento nos anos de seca. A fronteira entre fartura e fome, entre
boa e má colheita, tornou-se significativamente pequena entre os séculos VII e IX.
O crescimento populacional ocorreu quando o número de não-lavradores aumentou,
quando mais e mais pessoas aspiravam à nobreza. Um número cada vez maior de altos
funcionários, comerciantes e sacerdotes agora reivindicava uma ancestralidade de
linhagens nobres. A civilização maia começou a sentir o peso da nobreza, da falta de
produtores de alimentos, de pessoas conscientes dos privilégios que vinham com a
posição que ocupavam. As exigências sobre as pessoas comuns, sobre os agricultores
rurais, em termos de alimentos e tributos, foram aumentando gradativamente de
geração para geração. Enquanto a população rural engolia a terra e acelerava o
desmatamento, a produção agrícola atingia seu limite. Enquanto isso, a elite ficava cada
vez mais distante da dura realidade da aridez e da fome que se iriam abater sobre sua
terra-natal durante as secas que se prolongaram por muitos anos.
Mesmo com a distância de mais de um milênio, podemos ver o desaparecimento da
civilização maia se desenrolando nas planícies do sul como se fosse uma tragédia grega.
As secas começam nos primórdios do século IX, quando tem início o Período de
Aquecimento Medieval. Depois de um ou dois anos, os aldeões estão famintos, mas
ainda sujeitos às exigências inexoráveis por alimento e tributos. As montanhas de água,
como Tikal e Copán, outra grande cidade às margens de um rio, ainda têm reservas
adequadas de água, mas que estão diminuindo. As cerimônias públicas ligando os
grandes governantes ao espelho suave das águas primordiais continuam a ser
realizadas. Nesse sentido, os senhores são participantes ativos nos rumos que vão
moldando a história, pois levam sua própria consciência histórica a suportar e responder
à seca da mesma maneira de sempre, distribuindo alimentos e apaziguando as forças do
mal através de rituais, de alianças estratégicas com antigos inimigos e de guerras. Mas a
seca continua: os reservatórios começam a secar.
Por muitas gerações, o povo viu seus senhores, os descendentes de ancestrais divinos,
como guardiões infalíveis da colheita, da vida maia. Mas agora eles tinham pés de barro,
eram impotentes diante dos céus sem nuvens, zombeteiros, e do calor impiedoso. Tikal,
Copán e as outras cidades como elas desmoronam. Irrompe a desordem social diante da
fome persistente e da escassez de água. As pessoas comuns se erguem para protestar
contra a nobreza cheia de si mesma; abandonam seus líderes e se espalham pelo
interior, deixando para trás poucos sobreviventes, sendo alguns descendentes dos
grandes senhores, ainda se agachando entre as ruínas.
Um cenário apocalíptico, talvez, mas inteiramente plausível, dada a vulnerabilidade da
civilização maia às secas de anos, do tipo agora conhecido a partir dos registros
climatológicos. As secas em si não destruíram a civilização maia, porém as
conseqüências econômicas, políticas c sociais dos anos de aridez, certamente. No final
do século X, as grandes cidades de Petén e do sul do Yucatán haviam implodido
enquanto seus habitantes se dispersavam diante da fome e da falta crônica de água.
Como acontecera milhares de anos antes na Mesopotâmia e ao longo do Nilo, a seca e a
fome trouxeram instabilidade social, rebeliões e o colapso de uma ordem social rígida
baseada em doutrinas de infalibilidade senhorial.
É claro que a queda da civilização maia foi mais complicada do que isso, pois fatores
sociais e políticos intricados entraram em cena. Em alguns lugares, a elite prosseguiu
com a guerra como sempre fizera, mesmo com a civilização desabando ao redor. O
arqueólogo Arthur Demarest passou cinco anos escavando seis sítios da civilização maia,
entre eles um centro fortemente fortificado, Dos Pilas, na região de Petexbatun, no norte
da Guatemala. Ele acredita que a forma de guerra praticada pelos senhores maias nos
primeiros tempos, que se baseava em ataques inesperados, deu lugar a uma guerra civil
generalizada nessa área durante o século VIII. Os governantes do centro se tornaram
ainda mais agressivos e conquistaram seus vizinhos. O reino acabou ficando tão grande
que se fragmentou em reinos menores, cada um com seu próprio centro fortificado. Era
inevitável que essa atividade de guerra endêmica tivesse efeitos adversos sobre a
delicada ecologia da selva. Dos Pilas tem quilômetros de trincheiras e fossos. As
escavações de Demarest encontraram inúmeras pontas de lança ao pé das paredes,
esconderijos com crânios separados dos corpos e buracos que marcam as torres e
paliçadas de outros tempos. Ele acredita que os efeitos da guerra generalizada foram
desastrosos, pois a violência forçou mudanças nos métodos agrícolas, causando o
desgaste do solo e a perda da colheita. A concentração da agricultura em locais
estratégicos simplesmente não funcionou no meio ambiente maia, especialmente numa
época em que as secas de vários anos pressionavam os sistemas de água já sobrecar-
regados. Por fim, uma nobreza obcecada pela guerra acelerou o fim de uma das
civilizações mais dinâmicas e inovadoras da América.
Depois de 1100, as condições climáticas se tornaram mais úmidas, mas a civilização
maia nas planícies do sul jamais se recuperou. Ao norte, no Yucatán, grandes cidades e
centros continuaram a florescer graças, em grande medida, às dolinas, conhecidas como
cenotes nessa região, formadas na pedra calcária, que davam acesso aos lençóis de
água. A civilização maia resistiu, embora em escala reduzida, até surgirem no horizonte
Hernan Cortés e seus conquistadores espanhóis, em 1519. Mas o que teria ocorrido caso
houvesse mais secas cíclicas, daquelas que se estendiam por vários anos, nas planícies
dos maias? E se o aquecimento tivesse continuado e o lençol de água caísse até o ponto
em que as cenotes
desaparecessem? Seria inevitável a ocorrência de outra implosão, dessa vez de cidades
e reinos do mundo maia ao norte, onde, mais uma vez, o povo teria adotado a única
defesa possível: a dispersão em comunidades pequenas e autossuficientes. Teriam então
Cortés e seu bando de aventureiros marchado até o coração da civilização asteca no
planalto? Em um meio ambiente diferente, semi-árido, teria existido a civilização asteca,
fundada como foi na conquista, no respeito e sobre uma base agrícola erguida em
terrenos pantanosos que dependiam das terras alagadiças da Bacia do México? As
possibilidades históricas são intrigantes.
A implosão da civilização maia nos obriga a pensar a respeito do que pode acontecer
quando as sociedades humanas subsistem com fontes de água imprevisíveis e, através
de suas ações, exigem mais de seus suprimentos de água do que eles podem garantir.
Eles podem construir montanhas de água ou centenas de hectares de canais de
irrigação, mas, no final das contas, ficarão impotentes diante das forças das secas,
inundações e fenômenos como o El Niño, especialmente quando seus governantes
ignorarem ou forem indiferentes ao sofrimento daqueles que os alimentam. A analogia
com a moderna Califórnia, com seus reservatórios para abastecer a sedenta Los Angeles,
ou com cidades como Tucson, no Arizona, com suas galerias e lençóis de água cada vez
mais encolhidos, é irresistível.
Abaixo do Equador, os séculos de aquecimento e suas grandes secas também
provocaram severos choques climáticos.

CAPÍTULO 9
Os Senhores de Chimor

Os corpos dos reis e senhores eram venerados por todo o povo, e não apenas por seus
descendentes, porque estavam convencidos... de que no paraíso suas almas
desempenhavam papel importante para ajudar as pessoas e atender suas necessidades.
- PADRE BERNABÉ COBO,
Historia General de las Índias (1653)

Vale Moche, costa do Peru, ano 1200. A escuridão paira sobre os penhascos, a calmaria
suave e oleosa do Pacífico no início da manhã. O nevoeiro se instalou há semanas, indo e
vindo com a luz do dia. Somente a batida regular da arrebentação do oceano ressoa
sobre a praia rasa, onde as redes dos pescadores se enredam perto da areia. A luz das
fogueiras brilha no escuro; figuras encapotadas surgem e desaparecem nas sombras.
Dezenas de canoas feitas de junco se estendem pela praia, longe da maré alta, secando
depois de alguns dias de uso. Na ponta da arrebentação, homens jovens lançam uma
das canoas em meio à espuma da água, pulando para bordo enquanto o barco sobe com
uma onda gigante. Eles riem e remam perto da praia, observando as aves marinhas
voando e se entrelaçando acima de suas cabeças. Rumam para a esquerda, em direção
a um ponto onde as gaivotas mergulham em águas ondulantes carregadas de pequenos
peixes. Os pássaros guincham e vão para outro lugar enquanto os homens jogam suas
redes e cestos sobre os cardumes de anchovas. Rapidamente, eles trazem os peixes a
bordo até a canoa carregada começar a afundar na água. Então remam na direção da
praia, cortando as ondas sem esforço, parando suavemente na areia. Homens e
mulheres à espera erguem a canoa de junco e a carregam acima da linha da maré cheia.
Rapidamente, descarregam a carga preciosa. Os jovens saem imediatamente em busca
de outro carregamento, enquanto as pessoas que estão na praia começam o processo de
secagem e trituração das anchovas em farinha.
A 100 quilômetros da costa, a farinha de peixe segue pelo interior, embrulhada em sacos
de pano cuidadosamente equilibrados no lombo de lhamas em caravana. Os animais
seguem por uma estrada bem conservada ao longo do fértil vale do rio, onde faixas de
milho verde em campos cuidadosamente tratados se destacam contra a cor amarelada
do deserto. As lhamas viajaram durante muitos dias, desde os Andes até a costa,
trazendo tubérculos de oca, de ullucu, batatas e outros alimentos das montanhas ricos
em carboidratos. Agora fazem sua viagem de volta com farinha de peixe e algas
marinhas secas, estas últimas usadas para combater o bócio que judia dos agricultores
das montanhas, sem fontes de iodo para sua alimentação. Farinha de peixe, algodão e
algas marinhas são mercadorias de um comércio existente até onde a memória pode
alcançar.
A árida costa do norte do que é hoje o Peru foi um pólo de conexão entre as montanhas
e as planícies do mundo andino, onde secas de longo prazo e fenômenos El Niño eram
uma ameaça constante à civilização.

Teleconexões, ligações entre eventos climáticos contemporâneos em diferentes partes


do mundo, são fundamentais para entender o Período de Aquecimento Medieval. Os
climatologistas unem eventos, como secas ou fenômenos El Nino importantes, usando
testemunhos de gelo, anéis de árvores, testemunhos marinhos, e outras variáveis bem
datadas, porém até mesmo as ligações melhor documentadas continuam a ser meras
tentativas. Contudo, pela primeira vez, estamos começando a descobrir a extensão das
secas durante os séculos de aquecimento. Um gráfico com seqüências de anéis de
árvores mostra ciclos de seca prolongada no oeste e sudoeste norte-americano, entre os
séculos X e XIII, que parecem estar ligados à Oscilação entre Décadas do Pacífico c ao
esfriamento do Pacífico Oriental. Os testemunhos da Bacia de Cariaco no Caribe e as
perfurações nos lagos de Yucatán documentam grandes secas nas planícies ocupadas
pelos maias na América Central entre os séculos VIII e IX, que podem estar ligadas à
Zona de Convergência Intertropical, que permaneceu por um período prolongado em
uma posição mais ao sul. Podemos então acrescentar as secas andinas a esse padrão de
ciclos de seca? Em caso positivo, poderemos reconstruir o modo como as ricas
civilizações da costa do deserto peruano se adaptaram às secas prolongadas?
Localidades mencionadas neste capítulo. Algumas regiões indefinidas foram omitidas.
Alexander von Humboldt, naturalista alemão do século XVIII, foi o primeiro cientista
europeu a explorar os Andes. Ficou maravilhado com a grande variedade de animais e
plantas que sobreviviam na paisagem áspera e diversificada dos altos cumes. Humboldt
observou o assalto constante a altitudes cada vez mais elevadas travado pelos
agricultores das montanhas, que viviam entre campos nos terraços das encostas de
vales profundos. As montanhas caem em contrafortes íngremes até a planície costeira
peruana, uma prateleira aos pés da Cordilheira dos Andes atravessada por rios que
descem das montanhas para o Pacífico. Na desoladora planície costeira não costuma
chover. Ela é cortada por cerca de quarenta rios e córregos alimentados pelas cheias das
montanhas, mas boa parte do terreno da planície é ondulado demais para permitir a
irrigação. Duas grandes áreas na costa norte ostentavam a topografia que permitiu aos
agricultores ligar seus sistemas de campos aos canais: os vales de Chicama-Moche e a
região de Motupe-Lambayeque-Jaquetepeque.
Poucas comunidades humanas, muito menos civilizações, tiveram que enfrentar um
meio ambiente tão desafiador - não apenas um dos mais secos da terra, mas no qual os
eventos climáticos de curto e de longo prazo poderiam alterar drasticamente a
paisagem, praticamente do dia para a noite. Nos anos bons, havia água suficiente para
que os agricultores cultivassem milho, feijão, algodão, e outros produtos, desde que
administrassem o transbordamento cuidadosamente e irrigassem seus campos. Para a
agricultura, tudo dependia de canais, reservatórios e estratégias especializadas para a
conservação da água. Felizmente para os agricultores, o povo da costa não vivia apenas
dos produtos da agricultura. O Pacífico era uma fonte generosa de mariscos e, acima de
tudo, de anchovas, que abundavam aos milhões perto da costa graças à ressurgência
natural dos nutrientes estimulada pela corrente fria do Norte (agora batizada com o
nome de Von Humboldt). Antes que a exploração industrial acabasse com os peixes, os
bandos de anchovas eram quase inacreditáveis. Em 1865, o diplomata e arqueólogo
americano Ephraim Squier relatou que estava remando um pequeno barco por uma lenta
elevação, atravessando "uma massa quase sólida de peixinhos que aparentemente eram
levados para a praia para fugir de grandes e vorazes inimigos no mar". Uma cinta de
peixes com dois quilômetros de comprimento estendia-se tão perto da praia que as
mulheres e crianças os pegavam "com seus chapéus, bacias, cestos e com a frente das
saias".
Aparentemente, contra todas as possibilidades, uma série de estados riquíssimos
floresceu ao longo da costa norte do Peru durante muitos séculos. Uma combinação de
agricultura, pescaria e comércio de longa distância proporcionou um anteparo eficaz,
pelo menos parcialmente, contra um ambiente árido e exigente.

Nos anos de boas precipitações pluviométricas, a agricultura em vales fluviais costeiros


podia ser altamente produtiva, desde que a água fosse bem administrada. Até mesmo
em épocas boas, os moradores de cada cidade e vilarejo conservavam cada gota que
pudessem, pois sabiam muito bem que uma seca, mesmo que de um ou dois anos,
poderia trazer fome. Mas testemunhos de gelo nos dizem que os povos andinos
enfrentaram ciclos de seca muito mais longos. Lonnie Thompson, da Ohio State
University, trabalha há muito tempo com testemunhos da calota de gelo de Quelccaya,
no sul dos Andes peruanos. Suas seqüências revelam quatro secas regionais
generalizadas entre o século VI e o início do século XIV; culminando com uma grande
seca entre 1245 e 1310. A seca catastrófica do século XIII teve efeitos drásticos sobre as
sociedades do planalto, principalmente sobre o estado pré-inca de Tiahuanaco, situado
nas margens ao sul do Lago Titicaca. Testemunhos recolhidos do próprio lago datam do
início da seca, por volta de 1150, pouco antes do que em qualquer outro lugar. O nível
do lago caiu entre 12 e 17 metros durante cinco décadas no final do século XII, refletindo
uma queda estimada entre 10% e 12% nos índices pluviométricos em relação às médias
atuais. Como já descrevi, Tiahuanaco era muito dependente da agricultura de campos
elevados alimentados por córregos e lençóis freáticos. Numa época de seca persistente,
a agricultura de Tiahuanaco tornou-se insustentável. A cidade caiu em ruínas e sua
população se dispersou em comunidades muito menores, voltando-se para a criação de
alpacas e lhamas, animais nativos adaptados a ambientes áridos, e para a agricultura
oportunista adaptada à seca.
Os mesmos ciclos de seca afetaram uma área muito mais ampla. O Lago Argentino, no
extremo sul da Patagônia, fica no cinturão de ventos de oeste do hemisfério sul, levando
chuvas para a região. Como os lagos da Sierra, o Lago Argentino sobe e desce como um
barômetro de chuvas. Quando a água sobe, enterra as bétulas que cresceram na bacia
exposta. As bétulas haviam crescido entre 50 anos e um século inteiro antes de
morrerem por volta do ano 1051. Duzentos quilômetros ao norte, o Lago Cardiel se
recuperou de um de seus níveis mais baixos, mais ou menos na mesma época,
encobrindo arbustos enraizados nas margens. A datação radiocarbônica nos diz que
morreram entre 1021 e 1228, muito perto dos dados relativos ao fim das secas na
Califórnia. Como vimos no Capítulo 7, a trajetória das tempestades no hemisfério norte
permaneceu sobre o norte da Califórnia durante esses séculos, seja por causa da
circulação polar contraída (circulação da corrente de ar na alta troposfera), que trouxe
condições mais quentes ao norte e ao sul, ou por conta da persistência dos centros de
alta pressão. Essas duas condições ocorreram na época moderna. A contração da circu-
lação polar também é responsável pelas secas na Patagônia, mas por motivos diferentes.
Os lagos da Patagônia estão a sotavento dos Andes e na zona em que os ventos de oeste
são mais fortes. Isso teria tido o efeito de intensificar a sombra orográfica dos Andes
(área a sotavento de uma montanha, onde cai muito menos chuva) e causar mais secas.
A circulação atmosférica anômala da época medieval causou mudanças muito maiores
nas chuvas do que nas temperaturas. Isso certamente é verdadeiro em relação aos
Andes, onde testemunhos de gelo proporcionam variáveis bastante completas das
alterações nas chuvas que afetaram não apenas Tiahuanaco, mas também Chimor, o
estado chimu da árida costa norte. No entanto, ao contrário de Tiahuanaco, Chimor
sobreviveu ao mesmo ciclo de seca e até prosperou, o que é surpreendente,
considerando-se o outro vilão climático em cena: o El Niño.

O El Niño apareceu como uma das personagens do drama climático em algumas páginas
anteriores, mas desempenha um papel importante no drama histórico andino. Ao
contrário das secas, os fenômenos El Niño são eventos climáticos de curta duração, que
trazem chuvas torrenciais para a normalmente árida costa peruana. Um El Niño é capaz
de varrer anos de trabalho de irrigação em horas e reduzir a produção das colheitas
dramaticamente por meses, se não anos. Os fenômenos El Niño também trazem
correntes marítimas tropicais que substituem a fria Corrente de Humboldt, que flui para
o Norte. A ressurgência perto da praia diminui e as anchovas se afastam para ir em
busca de águas mais frias. No curto espaço de alguns meses, os dois sustentáculos da
vida costeira desaparecem sem aviso, deixando milhares de pessoas sem sustento.
Em 1892, um capitão naval peruano, Camilo Garrillo, publicou um trabalho no Bulletin da
Sociedade Geográfica de Lima, no qual descrevia uma contracorrente tropical conhecida
pelos pescadores locais como El Niño - O Menino (referência ao "menino Jesus"), "porque
observaram que aparecia imediatamente após o Natal". Logo depois, uma chuva de
trabalhos científicos chamou a atenção para o que parecia ser um fenômeno local, que
acabava temporariamente com a pesca da anchova e trazia muita chuva para as
montanhas e para a costa. O El Niño continuou a ser uma curiosidade meteorológica
local até 1969, quando Jacob Bjerknes, oceanógrafo da UCLA, fez a ligação da circulação
atmosférica no Pacífico com variações na temperatura da água no oceano tropical. Ele
vinculou os fenômenos El Niño às idas e vindas da Oscilação do Sul e identificou-as como
um fenômeno não apenas local, mas como uma força climática global que, hoje é sabido,
só perde em importância para as estações em sua influência sobre o clima global.

El Niño, La Niña e a Oscilação do Sul

A Oscilação do Sul é um padrão irregular de idas e vindas, invertendo a pressão de ar na


superfície entre o Pacífico Ocidental e Oriental. Quando a pressão da superfície está alta
no Oriente, está baixa no Pacífico Ocidental, e vice-versa. O aquecimento do oceano e a
inversão da pressão são normalmente simultâneos. O meteorologista britânico Sir Gilbert
Walker descobriu a Oscilação do Sul nos anos de 1920. Ele percebeu que quando a
pressão atmosférica estava alta no Pacífico, costumava estar baixa no Oceano Índico. O
vaivém errático da Oscilação do Sul modificava os padrões de chuva e a direção dos
ventos em ambas as regiões. No início dos anos de 1960, outro meteorologista, Jacob
Bjerknes, fez a ligação entre a Oscilação do Sul e os fenômenos El Niño, por isso, o termo
"El Niño/Oscilação do Sul" - ENSO - El Niño Southern Oscillation, em inglês, que aparece
normalmente na literatura científica.
Quando ocorre o aquecimento no Pacífico Oriental, o gradiente da temperatura da
superfície do mar entre o Oriente e o Ocidente diminui. O fluxo dos ventos alísios
diminui, mas o gradiente mais fraco da pressão Oriente-Ocidente tem que acompanhar
os alísios reduzidos. Essas mudanças exigem o mesmo na pressão entre o Pacífico
tropical Oriental e Ocidental - o efeito gangorra da Oscilação do Sul.
El Niño. Em intervalos de alguns anos, os ventos alísios de nordeste no Pacífico
diminuem a velocidade e as forças inexoráveis da gravidade se fazem sentir. Os ventos
oestes aumentam sobre o Pacífico Oriental na Nova Guiné, gerando ondas Kelvin sob a
superfície, que empurram a água da superfície para o Oriente. Os ventos alísios
provocam um aumento de água quente no Ocidente. Com a diminuição da velocidade
dos ventos, essa água segue para o Oriente. Mais de 200 metros abaixo da superfície do
Pacífico, a temperatura da água fica muito mais fria. Essa termóclina é muito mais
próxima da superfície no Pacífico Oriental. Quando as ondas Kelvin empurram para o
Oriente, a termóclina afunda e a água quente cai em cascata por cima dela em direção à
costa americana. A Oscilação do Sul muda de direção e nasce um El Niño. Então a água
mais fria encontra-se no Ocidente. Secas fortíssimas afetam a Austrália e a Indonésia,
enquanto nuvens de chuva se formam sobre as áridas Ilhas Galápagos e a costa
peruana. O ar quente e úmido sobre a América do Sul faz com que as correntes de ar
dêem uma guinada para o norte, trazendo tempestades para o Golfo do México e chuva
pesada para a Califórnia. Os efeitos de um grande El Niño podem ser sentidos em todo o
mundo, como mostra o mapa.

Efeitos mundiais de um grande El Niño; compilação feita a partir de várias fontes.

La Niña. Uma vez espalhadas as águas quentes pelo Pacífico Central e Oriental, algumas
ondas Kelvin rebatem ao largo da costa sul-americana. As ondas refletidas acabam
batendo na Ásia e rebatem novamente. Então a termóclina aprofunda-se no Ocidente e
fica mais rasa no Oriente. Os ventos alísios do Oriente se fortalecem e a água quente no
Pacífico Ocidental fica mais densa. As ressurgências se renovam, esfriando a superfície
das águas no Oriente. O El Niño dá lugar a condições mais frias, que em suas
manifestações extremas e irregulares se transformam em La Niña, "a menina", o oposto
frio e seco do menino do Natal. La Niña ainda é um grande mistério, mas parece durar
mais tempo e ter efeitos tão importantes sobre as sociedades humanas quanto seu
gêmeo oposto, especialmente aqueles sujeitos à seca causada por um Pacífico Oriental
mais frio.
O ciclo ENSO é, e sempre foi, um potente motor de mudanças climáticas, oscilando
constantemente, totalmente imprevisível, e quase tão poderoso em seu impacto mundial
quanto as estações do ano.

Apesar dos modelos de computador cada vez mais sofisticados, várias gerações de
climatologistas não conseguiram estabelecer qualquer padrão previsível para os
fenômenos ENSO. Registros históricos do período de 270 anos, entre 1690 e 1987,
relatam 87 desses eventos no Peru, com intervalos entre dois e dez anos; mas, antes
disso, os registros climáticos são ainda incertos, em parte porque os fenômenos El Niño
raramente duram mais do que alguns anos e também porque deixam traços
imperceptíveis nos registros geológicos, normalmente depósitos de inundações em sítios
arqueológicos.
É unânime a opinião de que Chimor sofreu numerosos El Niños. Os sítios michus nos
vales Moche e Jequetepeque documentaram grandes inundações. Dezenas de
escavações no Vale de Jequetepeque documentaram quatro grandes inundações,
seguidas por extensa reconstrução, entre 2.150 a.C. e o ano de 1770. Um testemunho
marinho recolhido de uma Bacia protegida numa saliência no Pacífico, 80 quilômetros a
oeste de Lima, mostra uma concentração notavelmente baixa de fenômenos El Niño
entre 800 e 1250, embora alguns tenham sido comprovados em um lago nas montanhas
equatorianas. Do ponto de vista atual, o mais significativo ocorreu em 1230, quando um
grande El Niño atingiu a costa, causando muitos danos e uma grande inundação. Esses
grandes eventos são apenas alguns dos muitos ENSOs que afetaram o litoral do Peru ao
longo dos séculos, cada um deles marcado por grandes depósitos de pedra e cascalho
levados pelas águas das inundações e preservados nas encostas dos vales dos rios.
Também há muitas evidências das atividades das dunas durante os ciclos de seca,
quando a areia fina soprava sobre os assentamentos humanos, marcando-os com
camadas espessas dos mesmos tipos de depósitos. Embora as secas e os El Niños
ocorressem em regiões muito amplas, os efeitos eram localizados, com mais danos em
um lugar do que em outro, dependendo da topografia local e de outros fatores.
As secas e os El Niños eram realidades gravadas nas mentes de todos os membros da
família de cada agricultor ou pescador. Ambos chegavam sem aviso e com intervalos
irregulares. O mesmo ocorria com os terremotos e outras atividades tectônicas, que
erguiam a costa subitamente, causando grandes deslizamentos, alguns dos quais
enterravam os sistemas de campos nos vales. Ventos fortes contribuíam para a
desertificação e provocavam mudanças nas dunas de areia, que acabavam encobrindo
terra fértil. A lista de danos potenciais era desanimadora. Como, então, Chimor se
adaptou a essas catástrofes potenciais?

Fim de tarde no ano 400. O sol lança grandes sombras sobre as plazas e pirâmides de
Cerro Blanco, perto da moderna cidade de Trujillo, no Vale Moche. Uma multidão de
artesãos, agricultores e funcionários de baixo escalão ocupam a grande área à sombra
da Pirâmide do Sol. Um pequeno templo sobressai na plaza, com sua entrada aberta e
escura na sombra. Soam os tambores; a fumaça do fogo sagrado rodopia pela encosta
da montanha artificial. De repente, a multidão fica em silêncio, todos os olhares se
erguem na direção ao topo da pirâmide. Os raios do sol poente banham um homem
vestido de ouro e prata que saiu do templo. Ele fica parado, em pé, com um cetro na
mão, olhando fixamente para o horizonte a oeste. O metal polido reflete um brilho
alaranjado ao captar a luz oblíqua; o deus vivo do sol apareceu diante de seus súditos.
Não é possível entender os chimus sem voltar consideravelmente na história, pois
muitas de suas instituições remontavam aos mochicas, que governaram boa parte da
costa norte durante quase todo o primeiro milênio. O reino mochica ocupava o
Lambayeque e vários outros vales, provavelmente como uma série de comunidades
chefiadas por um pequeno número de famílias nobres com laços de parentesco muito
próximos. O poder político e econômico estava nas mãos de poucos, aparentemente de
homens considerados possuidores de poderes sobrenaturais. Na época em que os
chimus adquiriram notoriedade ao longo da costa, depois do ano 1100, a civilização
mochica era apenas uma lembrança distante. Os feitos de seus senhores míticos devem
ter sido muito enfeitados pela tradição oral.
O estado mochica desapareceu por volta do ano 650, em parte devido às mudanças nas
condições políticas e à disputa com vizinhos ambiciosos, mas também devido aos efeitos
de uma série de grandes ciclos de seca e El Niños muito fortes. Mas suas instituições
políticas e crenças religiosas parecem ter sobrevivido, ainda que de maneira li-
geiramente alterada. Depois do ano 900, o centro de gravidade política foi transferido
para outra dinastia senhoril, a dos sicáns. Segundo a lenda, o último senhor sicán,
Fempellec, transferiu um antigo ídolo de pedra trazido de longe por um ancestral real,
Naymlap, do vale Lambayeque para sua capital em Batán Grande, no Vale La Leche.
Logo vieram chuvas, inundações e doenças. Os súditos irados de Fempellec o atiraram
no Pacífico, e os exércitos chimus do vizinho Vale do Moche conquistaram o reino.
Os chimus haviam se transformado em importante força política no Vale do Moche,
depois do ano 800. Sua civilização tinha profundas raízes no passado, e entre suas
origens estavam os então quase esquecidos mochicas. É provável que os primeiros
governantes chimus fossem descendentes dos outrora poderosos nobres mochicas, cujos
centros abandonados estavam espalhados pela planície costeira. Durante os quatro
séculos seguintes, os senhores de Chimor foram expandindo o domínio de sua
autoridade política. Em 1200, dominavam um amplo pedaço da costa peruana do norte e
do centro-norte. Muitas das instituições políticas e culturais forjadas por esse povo e
seus poderosos senhores, como o trabalho compulsório para o estado e um elaborado
sistema de estradas, tornaram-se parte do tecido que compôs a civilização inca, que
dominava os Andes quando chegaram os espanhóis.
Os senhores mochicas e seus sucessores sicáns tinham investido em centros cerimoniais
elaborados, dominados por montanhas artificiais formadas por tijolos de adobe. A última
dessas cidades-pirâmides foi Batán Grande, que caiu diante de um imenso El Niño
quando os chimus conquistaram os sicáns. Os senhores de Chimor aparentemente
aprenderam a lição. Construíram uma capital de forma totalmente diferente. Em vez de
investir em pirâmides, canalizaram seus recursos para garantir fontes de abastecimento
de alimentos confiáveis, Em vez de montanhas de adobe, construíram para si mesmos
áreas muradas onde viviam em esplêndido isolamento em sua capital, Chan-Chan, perto
do delta do Vale do Moche.
Chan-Chan era uma cidade enorme, uma das maiores do mundo na época do seu
apogeu, rivalizando com Londres, Paris e Teotihuacán, do altiplano mexicano de séculos
anteriores. Em 1200, a área urbana de Chan-Chan se estendia por 20 quilômetros
quadrados, sendo que apenas os nobres, artesãos e outros trabalhadores especializados
viviam no centro da cidade. Ninguém sabe qual era o tamanho da população de Chan-
Chan, mas um número impressionante de artesãos vivia em humildes cabanas de barro
e cana ao longo das margens setentrional e ocidental do perímetro central -
aproximadamente 26 mil, incluindo metalúrgicos, tecelões e outros trabalhadores
especializados. Outros 3.000 viviam perto do complexo real; cerca de 6 mil nobres e
altos funcionários ocupavam recintos de adobe separados nas cercanias. A cidade
aparentemente estava planejando expandir-se ainda mais, pois boa parte da terra que
separava Chan-Chan do Pacífico permanecia aberta. O número exato de pessoas que
viviam no interior do reino chimu é desconhecido, mas uma cifra na casa dos 250 mil
talvez seja uma estimativa plausível.
Da área isolada que ocupavam no coração da cidade, os senhores de Chimor
comandavam um estado em expansão, mas extremamente estruturado. Egiptólogos por
vezes se referem ao Vale do Nilo como um "oásis organizado". O mesmo termo pode ser
aplicado aos domínios de Chimor, cujo centro ocupava os vales dos rios costeiros.
Sabemos pouca coisa a respeito dos governantes ou sobre seu sistema de governo, mas
relatos feitos pelos espanhóis sugerem que eles governavam delegando considerável
autoridade aos nobres locais, ainda que sob cuidadosa supervisão. Se os incas podem
servir de base para qualquer análise, então os senhores de Chimor enviavam
funcionários graduados a todas as partes dos seus domínios para fazer levantamentos e
supervisionar as atividades de todas as moradias, especialmente sua produção agrícola
e pesqueira. Os senhores mantinham seu estado em constante crescimento através de
uma combinação de força militar e tributos, ajudados por um eficiente sistema de
comunicação. Tudo fluía para os grandes centros como Chan-Chan, onde os artesãos tra-
balhavam com ornamentos de ouro e prata, enfeites para cabeça feitos de penas, e
outros artefatos que denotavam o prestígio e o poder de quem os possuía. Como em
qualquer outra civilização pré-industrial, os senhores tinham o cuidado de recompensar a
lealdade e a bravura nas batalhas com insígnias e presentes de prestígio. Eles também
tinham consciência de que todo o seu estado repousava sobre o suprimento de
alimentos que não podiam ser adquiridos pela força ou através de tributos. Sem uma
base agrícola estável, Chimor era realmente muito vulnerável.
A capital chimu vivia sob risco constante de sofrer inundações causadas pelo El Niño e
especialmente pelas secas prolongadas. Para complicar a situação, havia dentro da
cidade uma enorme população que não estava ligada à agricultura. Além de uma
pequena nobreza e numerosos artesãos, eram necessários inúmeros funcionários
graduados para administrar a cidade, seus mercados e os suprimentos de alimento
numa sociedade em que a autoridade era altamente centralizada. Felizmente, seus
governantes podiam se valer de séculos de experiência com irrigação, conservação do
solo e administração da água. Suas estratégias pragmáticas para a sobrevivência eram
muito eficientes.

Vale do Jequetepeque, ano 1200. Uma colcha de retalhos formada por campos verdes
em um extenso leito de rio seco: a rotina tem variado muito pouco por várias gerações.
Mais ou menos a cada dez dias, os agricultores se reúnem nos açudes que controlam o
fluxo de água do canal ao lado do vale. Sob o olhar atento de um alto funcionário, os
portões de pedra são abertos. A água preciosa transborda do canal e corre pelos canais
estreitos na direção dos campos. O trabalho meticuloso de irrigação toma o dia todo,
com passagens estreitas sendo abertas e fechadas até que a plantação tenha sido
irrigada totalmente, e cada agricultor tenha recebido a mesma quantidade de água.
Poucas palavras são trocadas enquanto as horas passam, pois todos conhecem muito
bem a rotina. Eles sabem se há água disponível, mesmo que não tenha chovido durante
meses.
Como fez Chimor para sobreviver às secas irregulares que se abateram sobre a região
entre 1245 e 1310, numa época em que os fenômenos El Niño chegavam com ondas
inesperadas? O destino de Batán Grande deve ter dado aos líderes de Chimor motivos
para grandes preocupações em relação ao fornecimento de alimentos para sua cidade
em constante expansão. Durante séculos, agricultores costeiros como os mochicas
utilizaram sistemas agrícolas muito flexíveis, cultivando locais férteis em pequena
escala, espalhando-os ao longo da costa, onde poderiam tirar o máximo proveito das
cheias da primavera e das tempestades ocasionais. Esses sistemas de agricultura em
pequena escala, que utilizavam o máximo de terra possível de acordo com os
suprimentos de água disponíveis, funcionaram muito bem quando as densidades
populacionais eram consideravelmente menores. A estratégia mochica tinha a vantagem
de exigir um investimento de mão-de-obra em escala relativamente pequena e
tecnologias de irrigação não muito elaboradas, mas agora havia gente demais,
especialmente não-agricultores, para que a agricultura em pequena escala pudesse dar
conta. Em gritante contraste, e confrontados com cidades que cresciam rapidamente e
com uma população florescente, os senhores de Chimor investiram maciçamente em
uma agricultura altamente diversificada e muito organizada. Para isso, apelaram para
um antigo sistema de tributação por trabalho, conhecido por mi'ta, que exigia o trabalho
anual de todos para construir grandes edifícios e outras obras públicas.
Chan-Chan dependia de poços grandes e profundos para seu suprimento doméstico de
água. As primeiras estruturas públicas foram construídas perto do oceano, onde o lençol
freático estava próximo da superfície. À leste da cidade, terrenos baixos com um lençol
freático elevado possibilitaram a formação de um elaborado complexo de jardins
alagados que se estendiam por cinco quilômetros rio acima a partir do Pacífico. Por volta
de 1100, os trabalhadores do mi’ta de Chimor também haviam cavado uma enorme rede
de canais que irrigavam as terras planas ao norte e a oeste da cidade. Ali a água da
irrigação também alimentava o reservatório urbano. Naquele ano, quando um El Niño
fortíssimo devastou o sistema de irrigação de Chan-Chan, e alterou o curso do Rio
Moche, os sempre persistentes governantes comissionaram trabalhadores para cavar um
canal de 70 quilômetros entre os vales para irrigar a terra que estava acima da cidade
com a água do vizinho Rio Chicama, que corria ao Norte. Esse caríssimo projeto nunca
foi concluído, e a manutenção dos suprimentos de água exigia ainda mais mão-de-obra à
medida que a cidade crescia rio acima para áreas onde os poços precisavam ser muito
mais profundos. A cidade acabou se voltando em direção ao Pacífico, onde o lençol
freático era mais raso.
Os chimus criaram canais de irrigação elaborados, excessivos, por toda a extensão de
seus domínios, que forneciam água para diferentes partes dos vales fluviais. Alguns
desses canais chegavam a ter entre 30 e 40 quilômetros de comprimento. Só o lado
norte do Vale do Jequetepeque ainda possui pelo menos 400 quilômetros desses canais
construídos ao longo de vários séculos. Esse vasto sistema de canais nunca era utilizado
simultaneamente, pois não havia água suficiente para encher toda a sua extensão. As
comunidades que deles dependiam devem ter desenvolvido um cronograma
cuidadosamente administrado para o fornecimento de água para todos em épocas
diferentes. Atualmente, os agricultores locais irrigam suas plantações a cada dez dias, e
essa provavelmente era a prática adotada também na época dos chimus. Aqueles que
dependiam da rede poderiam acionar diferentes partes do sistema se outras fossem
destruídas por inundações, ou se houvesse falta de chuva durante a primavera nos ciclos
de seca. Os sistemas de canais dos chimus proporcionavam uma forma prática de
diminuir a extrema incerteza climática.
Os chimus também desenvolveram tecnologias que visavam lidar com o excesso de
chuvas. Os governantes de Farfán Sur, Cañoncillo e outros centros importantes de seus
domínios construíram açudes elaborados como parte dos seus sistemas de canais de
irrigação, especialmente para os aquedutos que ligavam grandes cânions. Quando
ocorria uma grande inundação, essas cheias podiam diminuir a velocidade da água
turbulenta e evitar a erosão. Os mesmos aquedutos também propiciaram a construção
de canais revestidos de pedra que permitiam o fluxo da água através da base da
estrutura sem danificá-la. Essas medidas não foram totalmente bem-sucedidas, pois
existem muitos sinais de reconstrução, mas isso certamente proporcionou alguma
proteção contra uma catastrófica invasão do mar.
Os agricultores também construíram barreiras contra a areia com pedras no formato de
lua crescente em áreas próximas da costa. Elas tinham o efeito de diminuir o fluxo das
dunas de areia para os campos e canais de irrigação. A julgar pelas barreiras
abandonadas, essa estratégia defensiva aparentemente foi menos efetiva do que as
medidas de controle das enchentes.
Nos séculos anteriores, os mochicas haviam se defendido das secas e das inundações
apoiando-se em extensos sistemas de campos em locais diferentes que podiam ser
mantidos com mão-de-obra relativamente pequena. Quando os El Niños traziam
enchentes, ou durante os ciclos de seca, comunidades inteiras se deslocavam para
outros locais; os sistemas de campos eram refeitos em cada vilarejo. Havia muita
competição pela terra fértil de um vale para outro, sem que houvesse grandes tentativas
no sentido de centralizar a administração da agricultura. Os chimus reagiram de modo
muito diferente, pois viviam em um mundo de densidade populacional muito maior.
Enquanto seus predecessores tinham vivido em assentamentos dispersos pelos vales,
eles desenvolveram grandes cidades e vilarejos e praticaram a agricultura em escala
regional. Ao contrário dos mochicas, que desenvolveram uma agricultura flexível usando
pouca mão-de-obra, os chimus investiram em paisagens agrícolas inteiras criadas com
muito trabalho. Por exemplo, os senhores chimus construíram grandes reservatórios para
armazenamento e terraços em colinas íngremes para controlar o fluxo da água que
descia pelas encostas. Mesmo com secas muito fortes, seus canais transportavam a
água desde os leitos de rios profundos até os terraços distantes. Com essa infra-
estrutura, os chimus criaram milhares de hectares de novos campos; eles traziam água
de muito longe para irrigar duas ou três colheitas por ano, onde antes só era possível
uma, e isso numa época de enchentes anuais.
Quando a recuperação tornou-se antieconômica, os senhores de Chimor adquiriram
terras através da conquista. Como sempre fazem os governantes, eles racionalizaram
essa conquista, nesse caso, desenvolvendo uma instituição conhecida pelos
antropólogos como herança dividida. Quando um senhor morria, era enterrado no
complexo em que vivia. Seu corpo mumificado continuava a presidir seu povo como se
continuasse vivo. Os cortesãos se apresentavam a ele, falavam com ele como se
estivesse vivo, exibiam seu corpo em cerimônias públicas. Enquanto isso, seu sucessor
assumia o poder sem posses de qualquer tipo e sem uma base de tributos para
sustentá-lo. Sua única alternativa era conquistar novas terras e seus habitantes. As
constantes campanhas militares levaram à expansão de Chimor desde o Rio Santa até o
Rio Jequetepeque, depois até o Lambayeque e além, até que os senhores de Chan-Chan
se apoderaram de mais de 1.126 quilômetros de costa. Em termos agrícolas, a estratégia
funcionou. No auge do poder, os chimus controlaram mais de 12 vales fluviais com pelo
menos 50.590 hectares, todos lavrados com enxadas ou paus de cavar.
A base da sociedade chimu eram as grandes cidades, situadas em deltas de rios, com
habitantes nas ladeiras adjacentes e um império ligado por uma sofisticada rede de
estradas. Os governantes chimus eram implacáveis na sua administração. E não poderia
ter sido de outra maneira, dado o vasto investimento na administração do fornecimento
de água. Eles forçavam seus súditos a irem para as grandes cidades e restringiam
severamente a mobilidade individual. Com esse controle tão centralizado, os
governantes chimus podiam responder às incertezas ambientais e eventos como os do El
Niño em escala regional, transferindo as plantações de uma região para outra, mantendo
incólumes os canais de irrigação, e preparando grande número de trabalhadores mi'ta
para consertar os aquedutos e canais.
Menos de 10% do deserto costeiro tem condições de ser cultivado, por isso Chimor
também dependia muito da pesca. Sabemos pelos relatos históricos que os pescadores
de Chimor falavam seus próprios dialetos, casavam-se entre eles e viviam em
comunidades separadas com seus próprios líderes. Eram especializados, assim como os
agricultores do interior, e praticamente autos suficientes, cultivando inclusive o junco
que depois era utilizado para fazer suas canoas - além do algodão para redes e linhas, e
cabaças para bóias. Os pescadores e os agricultores negociavam suas mercadorias. Com
um lugar para pescar bem diante de sua porta, e acessível durante pelo menos 280 dias
por ano, os moradores da costa eram, em grande medida, imunes às secas. Mesmo
quando ocorriam os El Niños, podiam pegar peixe suficiente para seu próprio consumo,
embora a ressurgência diminuísse, chegando às vezes a cessar completamente nessas
ocasiões, a tal ponto que a pesca da anchova caía drasticamente. O comércio de farinha
de peixe era muito afetado quando isso acontecia. Numa sociedade composta por
trabalhadores especializados, cada comunidade era obrigada a enfrentar seus próprios
riscos e a desenvolver estratégias para lidar com essas situações.
Ao contrário da civilização maia, cujo desaparecimento deveu-se em grande parte aos
persistentes ciclos de aridez, Chimor, com sua organização implacável na paisagem dos
vales, parece ter sobrevivido a secas ainda mais prolongadas e a El Niños
excepcionalmente intensos. Com suas cidades e vilarejos em constante crescimento, os
chimus não tinham outra opção diante da necessidade de produzir enormes excedentes
alimentícios. Os senhores maias colocaram os cidadãos comuns em uma situação difícil;
uma população crescente, a pressão constante por mais alimentos, além da pressão
sobre a floresta tropical, foram fatores importantes do colapso político e social. As
cidades de Chimor sobreviveram às secas do Período de Aquecimento Medieval porque
seus senhores supervisionaram atentamente a cultura de subsistência em torno da qual
girava a segurança contra a seca, as enchentes e a privação. Para isso, criaram um oásis
extremamente elaborado baseado em maciça utilização da mão-de-obra e controle
draconiano. Eles prosperaram graças ao cultivo de diferentes microambientes, da
mesma forma que os maias. Tanto os chimus quanto os maias tiveram que administrar
suprimentos de água escassos com tecnologia simples, mas com pesado investimento
no trabalho humano. Ambos dependiam de uma rígida ordem social e de rituais que
envolviam a mediação entre o mundo dos vivos e o mundo sobrenatural. No caso dos
maias, uma ideologia inflexível e as exigências da nobreza, com sua constante
preocupação com a guerra, serviram para acelerar a implosão de cidades estruturadas e
de toda uma sociedade diante da seca constante. Os chimus enfrentaram secas ainda
mais persistentes do que as da planície maia. Mas havia uma profunda diferença. Como
os maias, os senhores de Chimor presidiam uma sociedade hierárquica e rígida. No
entanto, eles viviam em um dos ambientes mais secos da terra, onde as chuvas eram
raras e a água vinha de longe. Essas realidades fizeram com que governantes e
agricultores se adaptassem a longos períodos de seca, como se isso fizesse parte da
vida, como se não tivessem outra alternativa a não ser diversificar suas fontes de
alimentos e usar cada gota de água com extremo cuidado. E, ao contrário dos maias,
eles tinham à sua porta uma das costas mais ricas em peixes do mundo, o que lhes
permitia diversificar os suprimentos de alimentos através de elaborado trabalho de
irrigação e da pesca de anchova. Os chimus foram bem-sucedidos onde os maias
falharam simplesmente porque conviveram com a seca todos os dias de suas vidas e
tiveram a possibilidade de aproveitar a experiência duramente conquistada por seus
ancestrais remotos.
Chimor se tornou uma força poderosa na paisagem política instável dos Andes. Como era
de se esperar, surgiram rivais terríveis nas montanhas, lançando olhares cobiçosos sobre
o rico estado costeiro. Os senhores de Chimor controlavam cada aspecto de seu reino,
exceto um: as bacias hidrográficas que proporcionavam as cheias para seus vales. Por
volta de 1470, ambiciosos conquistadores incas das montanhas assumiram o controle
dessas estratégicas fontes de água e conquistaram Chimor. O reino tornou-se parte de
Tawantinsuyu, "Terra das Quatro Divisões", e seus artesãos foram alocados em massa
para a capital inca de Cuzco.
As grandes secas que devastaram as sociedades humanas da Grande Bacia até a
América do Sul foram resultado de interações, ainda pouco conhecidas, entre a
atmosfera e o oceano no Pacífico tropical. Precisamos agora viajar para lá para examinar
o pouco que sabemos sobre os séculos de aquecimento nas águas em que a ENSO
afetou o clima de modo colossal.

CAPÍTULO 10
Resistindo aos Alísios
Ouvi de várias fontes que o equilíbrio mais sensível era o dos testículos do homem, e
que à noite ou quando o horizonte está escuro, ou dentro da cabine, esse era o método
utilizado para encontrar o foco nas ondas próximas de uma ilha.

- THOMAS GLADWIN, East is a Big Bird (1970)

Ano de 1200. Alvorada no Pacífico Sul. As tripulações dos grandes barcos de casco duplo
estão cansadas. Eles estão navegando há 17 dias com um vento de oeste indeciso, as
velas enchendo para a frente e para trás, formando bolsões. Enquanto a escuridão dá
lugar ao amanhecer cinza, as estrelas desaparecem no céu. O navegador, o rosto
castigado pelo tempo, perscruta o horizonte distante, nada vê, e então repara no bando
de aves marinhas fazendo manobras no céu. Parado, as pernas separadas, os olhos
fechados, ele sente com os pés as vibrações sutis das ondas batendo em uma ilha
invisível além do horizonte. Os minutos passam; a meditação imóvel continua. Então o
piloto olha para o horizonte e aponta na direção da proa, levemente à direita. Seu
timoneiro altera o curso trazendo o vento para seu ombro direito; o outro barco o
acompanha.
O sol vai subindo; diminuem as sombras no convés. Ao meio-dia, o vento fica uma pouco
mais forte. Os barcos ganham velocidade, mas os timoneiros mantêm o mesmo ângulo
da vela. Agora, o navegador já comeu um pouco de peixe seco e bebeu frugalmente.
Fica em pé na proa, olhando para longe. Passam-se horas sem que nada aconteça; o sol
vai se pondo a oeste, lançando a sombra do piloto sobre a água na proa. Então, quando
se aproxima o pôr-do-sol, ele ergue o braço silenciosamente a aponta diretamente para a
frente. À distância, um amontoado de árvores se destaca na linha do horizonte, visível
apenas quando os barcos sobem com o vaivém das ondas.
Os barcos velejam silenciosamente pela noite, em direção ao lado oeste da ilha, as
tripulações prontas para virá-los contra o vento e pará-los caso se aproximem demais da
terra. Ao romper do dia, imensas palmeiras surgem nas colinas da ilha. Todos buscam
sinais de vida, fogo feito por aldeões ou sinais de inimigos. Mas a terra está aparen -
temente desabitada. O piloto vira o barco para leste, mantendo uma distância segura da
costa, procurando um lugar para arribar. Ele vê uma passagem nas pedras, e depois uma
praia de areia. As velas são arriadas e os barcos são levados a remo para um
ancoradouro seguro, junto a um aglomerado de árvores muito altas.
Sem saber, as tripulações dos dois barcos tinham acabado de completar uma das mais
arrojadas viagens de exploração da história. Eles haviam feito uma aposta, viajando em
direção a leste desde a Ilha Mangareva, na Polinésia Oriental, e acabaram descobrindo
Rapa Nui (Ilha de Páscoa), em uma direção normalmente fechada por ventos
predominantes de nordeste. Algumas semanas antes, os ventos alísios haviam diminuído
gradualmente. Seguiu-se um clima calmo e úmido. Então surgiram ventos leves do
Ocidente, permanecendo por muito mais tempo do que os poucos dias habituais. Por
isso, o navegador havia seguido em frente sem saber o que encontraria. Alguns dias
depois de os barcos aportarem na nova terra, os alísios de nordeste voltaram.
Vemos a Polinésia como um mundo paradisíaco, uma vasta área do Pacífico Sul e Central
que engloba um triângulo cujas pontas ficam no Havaí, Nova Zelândia e Rapa N ui, e
onde a vida é pouco afetada por extremos climáticos e ciclos de seca e inundações. Na
verdade, o Pacífico
Sul foi pelo menos tão imprevisível climaticamente quanto outras partes do mundo,
especialmente para navegadores e colonizadores de terras distantes.
Rapa Nui é a mais remota de todas as ilhas desabitadas do Pacífico. Isso a transforma
em um caso especial tanto em termos de navegação quanto em sua história
subseqüente. Para chegar até a ilha eram necessárias condições climáticas incomuns,
pois ela está localizada numa área onde predominam os ventos alísios. Tradições orais
da ilha falam de um líder chamado Hotu Matu'a, "o Grande Pai", que colonizou a ilha com
sua família. Ele chegou sem artigos básicos, como porcos ou cachorros, que eram
elementos importantes para a subsistência polinésia, embora eles possam ter morrido
após desembarcarem. Também não sabemos se houve outras viagens até a ilha. As
probabilidades indicam que não, em parte porque os longos períodos de ventos de oeste
eram muito incomuns. Além disso, até onde pudemos observar, não houve viagens de
volta para Mangareva ou outro lugar, provavelmente porque os colonos devem ter
desmatado rapidamente sua nova pátria, impossibilitando a construção de novos barcos
para viagens oceânicas.

O Pacífico, exibindo as regiões mencionadas neste capítulo.

Os colonizadores enfrentaram um desafio e tanto. Rapa Nui é subtropical, o que significa


que as águas circundantes não favorecem a formação de corais. Os peixes são mais
raros do que em qualquer outro lugar da Polinésia; chove menos e a água é logo
absorvida pelo solo vulcânico poroso. A água fresca era difícil de ser obtida, mas os
ilhéus davam um jeito, plantando batata-doce, taro, inhame e cana-de-açúcar. Trouxeram
galinhas com eles e as criavam em grandes galinheiros de pedra, mas sua alimentação
era rica em carboidratos. Apesar dos desafios de um ambiente isolado, é provável que
cerca de 15 mil pessoas vivessem em Rapa Nui por volta de 1600, dependendo da
agricultura intensiva e da cuidadosa administração da água.
Como todas as sociedades polinésias, a de Rapa Nui tinha nobres e cidadãos comuns.
Tradições orais sugerem que eles dividiram a ilha em cerca de uma dúzia de territórios
baseados no parentesco, cada um deles com uma faixa costeira. Os clãs rivalizavam uns
com os outros na construção de plataformas e colossais moiaes, estátuas de pedra de
seus maiores ancestrais que observavam o mar. A arqueóloga Jo Anne Van Tilburg contou
pelo menos 887 moiaes na ilha, algumas delas ainda nas minas. Em um período de
quatro séculos, os habitantes da ilha erigiram moiaes e construíram plataformas para
elas, tarefa que pode ter acrescido em cerca de 25% as necessidades alimentares da
população. O custo ecológico foi devastador. Entre o primeiro assentamento e por volta
do ano de 1600, os descendentes dos primeiros colonizadores desmataram toda a ilha e
acabaram com suas palmeiras magníficas. A população da ilha diminuiu em mais de 70%
durante os anos de 1700.
O assentamento de Rapa Nui marcou o auge de séculos de viagens de barco pela
Polinésia. Os antigos viajantes iam do Ocidente para o Oriente através do Pacífico em
estágios, de uma ilha para outra. Muitas das etapas não tinham mais do que 480
quilômetros, mas a viagem de Mangareva até Rapa Nui tinha cerca de 2.500
quilômetros, uma proposta muito mais arrojada, com um destino pequeno e
desconhecido. Alguns quilômetros fora do curso e eles teriam perdido a ilha e caído no
oceano desértico. Também viajavam para leste, contra os ventos alísios predominantes,
em barcos com limitações para viagens a barlavento. Os polinésios construíam seus
barcos com lâminas de conchas e navegavam confiantes para bem longe da terra
seguindo as estrelas, os ventos e as ondas do mar. Para o explorador português Fernão
de Magalhães e seus sucessores, o Pacífico era um vazio aterrador, cuja travessia
demorava muitos meses, quase 13 mil quilômetros apenas no trecho entre o Estreito de
Magalhães e a Nova Guiné. O oceano aparentemente sem fim era "um mar tão vasto
que a mente humana mal pode imaginar". Porém, para os polinésios, o mesmo oceano
era um mundo vivificante, abençoado com ilhas grandes e pequenas onde podiam
aportar, cultivar a terra e manter suas famílias. Eles viviam perto de suas águas,
conheciam seus humores, e cruzavam os caminhos marítimos com paciência e
habilidade consumada. No entanto, como todos nós, eles viviam e velejavam, à mercê
de poderosas forças climáticas.
Rapa Nui, Havaí e Nova Zelândia foram colonizadas durante os séculos de aquecimento,
pouco depois do que se pensava até alguns anos atrás, o que levanta uma questão
interessante. Quais os efeitos das condições climáticas do Período de Aquecimento
Medieval - época de calor e seca em boa parte da margem do Pacífico Oriental – sobre os
polinésios? Existiu, de fato, tal evento climático no Pacífico? Teria algum significado na
aparente colonização de porções de terra isoladas da Polinésia durante esses séculos,
especialmente porque boa parte das longas viagens de navio haviam se encerrado após
1500?

O Período de Aquecimento Medieval é mal documentado em todo o Pacífico; não


podemos dizer com certeza que foi um fenômeno universal. Poucos registros de
variáveis cobrem os últimos mil anos, a maioria de anéis de árvores ou de anéis que
cresceram nos corais tropicais. Até 2002, havia apenas três reconstruções das
temperaturas dos últimos mil anos no hemisfério sul: uma na Argentina, outra no Chile e
uma terceira na Nova Zelândia. São suficientes para mostrar uma grande variação nas
temperaturas e condições climáticas de uma região para outra. Como sempre, as
condições climáticas são locais, mesmo que causadas por interações atmosféricas
globais de grande escala.
A seqüência da Nova Zelândia vem da região de Oroko Swamp, na costa ocidental da
Ilha do Sul, onde florescem as coníferas Manoao e outras espécies de vida longa. A
madeira das coníferas é virtualmente imune ao tempo, por isso, numerosas toras
parcialmente fossilizadas sobreviveram para a análise dos anéis de árvores. Edwin Cook
e sua equipe de pesquisadores desenvolveram uma seqüência de anéis cobrindo o
período de 700 a 1999, com elevado grau de confiabilidade até o ano 900. Esse registro,
cuja exatidão foi meticulosamente verificada, documenta dois períodos com
temperaturas em geral acima da média, em 1137 a.C. e o ano 77 e também em 1210
a.C. e o ano 60. Houve um período de muito frio que persistiu entre os anos 993 e 1091,
as temperaturas mais baixas nos últimos 1100 anos. Houve um rápido resfriamento
depois de 1500, seguido pelo aquecimento moderno.
A seqüência de Oroko documenta temperaturas que ficaram entre 0,3ºC e 0,5°C mais
quentes do que a média para a região do século XX, e de 1210 a 1260, comparáveis ao
aquecimento desde 1950.
O clima da Nova Zelândia é temperado, muito diferente do da Polinésia. O geógrafo
Patrick Nunn registrou grande número de variáveis climáticas, incluindo análises de
isótopos de oxigênio de uma estalagmite da Nova Zelândia e estudos dos níveis do mar
de várias ilhas do Pacífico, para argumentar que o Período de Aquecimento Medieval foi
quente e seco, com persistência de ventos alísios. Mas ele utiliza um fluxo de dados do
Rio Nilo, do outro lado do mundo, como indicador das mudanças na freqüência dos
fenômenos El Niño para argumentar a respeito de um aumento em sua freqüência por
volta de 1300. Depois de 1250, diz Nunn, houve uma mudança abrupta para um período
frio, seco, com aumento das tempestades, que atravessou a pequena Idade do Gelo, de
1350 a 1850. Nunn chama essa mudança abrupta de Evento 1300, um acontecimento
rápido que precipitou uma série de catástrofes culturais e ambientais. De acordo com
Nunn, o Evento 1300 testemunhou rupturas significativas na subsistência e
assentamentos humanos, uma diminuição das viagens e maior concorrência, até mesmo
guerras endêmicas em todo o Pacífico.
A maior parte das evidências climáticas de Nunn vem de observações sobre as
mudanças nos níveis do mar e sedimentos geológicos que documentam erosões e
inundações. Essas variáveis climáticas não são tão exatas quanto os anéis de árvores ou
dados do crescimento de corais de alta resolução. Os corais, em especial, têm sido
objeto de intensas pesquisas nos últimos anos e proporcionam um quadro bastante
diferente dos séculos de aquecimento. Eles oferecem pouco suporte à idéia de um
evento climático catastrófico em toda a região em 1300.
A paleoclimatologista Kim Cobb foi para o atol de Palmyra pela primeira vez em 1998.
Ficou encantada ao localizar no lado ocidental do atol dezenas de antigos corais que não
haviam sofrido erosão. Desde então, Cobb e seus pesquisadores recolheram mais
amostras de 80 corais e revelaram padrões de temperaturas marítimas e fenômenos
ENSO relativos a mais de mil anos. Seus arquivos agora incluem amostras do Período de
Aquecimento Medieval, entre 961 a.C. e o ano 928; entre 1149 e 1220; entre 1317 e
1464, além de 1635 e 1703, auge da Pequena Idade do Gelo na Europa. Uma seqüência
moderna se estende de 1886 a 1998. A variação nos níveis de O-18 é relativamente
pequena, exceto no século X e meados do século XX. O período de frio do século X teve
alguma importância e surgiu de maneira relativamente abrupta, o mais frio e
provavelmente o mais seco intervalo dos últimos mil e cem anos.
O período que vai de meados até o fim do século XX foi o mais quente e úmido do último
milênio. Se os corais de Palmyra são um indicador confiável, então o fenômeno La Niña
frio e seco prevaleceu sobre boa parte do Pacífico Oriental em uma parcela significativa
do Período de Aquecimento Medieval.

Corais e Mudança Climática

O crescimento anual dos anéis de amostras recentes de corais do Pacífico Central


tropical remonta a vários séculos, e sabemos como interpretar esses registros com
tamanha exatidão que eles rivalizam com registros de instrumentos dos tempos
modernos. Eles nos proporcionam dados tão valiosos sobre os fenômenos El Niño que os
climatologistas voltaram sua atenção para fósseis de corais muito mais antigos para
obter dados de um passado mais remoto. Infelizmente, esses corais são extremamente
raros, e a maioria das amostras é composta por fragmentos levados para a praia por
tempestades, que acabaram escapando de ventanias. Dada sua tumultuada história
após a morte, é uma sorte que tenham sobrevivido, mas a maioria não tem mais do que
algumas décadas. Lembram amostras de anéis de árvores, e, como elas, têm que ser
inseridas em seqüências muito mais longas baseadas em dezenas de partes pequenas.
Por que os corais são indicadores climáticos tão úteis? Eles são formados por colônias de
pequenos invertebrados marinhos chamados pólipos, que secretam carbonato de cálcio.
Milhões de pólipos juntam-se em estruturas elaboradas, normalmente com numerosas
ramificações. Os pólipos recebem seus nutrientes das algas que vivem nessas
estruturas. A luz do sol penetra nas águas rasas, brilha sobre as algas, e cria seus
nutrientes através da fotossíntese. Os corais não conseguem crescer em águas mais
escuras e profundas e exigem uma variação muito pequena de temperatura na água,
entre 25°C e 28,8°C. Eles também são frágeis, sobrevivendo normalmente por não mais
do que algumas décadas antes de serem arrancados por tempestades, que os jogam nas
praias, onde são pulverizados. Intacto, um coral com séculos de idade é encontrado
apenas em ilhas do Pacífico Oriental de águas quentes e menos assombrado por
tempestades; corais exuberantes crescem, surgem ventanias fortes o bastante para
soltá-los, levando-os para a praia, mas não tão freqüentes para deixá-los intactos, sem
que sejam danificados pelo tempo ruim. Poucas ilhas apresentaram boas amostras de
velhos corais, exceto a remota e pouco visitada Palmyra.*

* Palmyra é um pequeno atol do Pacífico a uma distância de 1.500 quilômetros a


sudoeste do Havaí. Cinqüenta ilhotas com uma área total de 100 hectares formam uma
ferradura em torno de três lagoas. Ficam cerca de dois metros acima do nível do mar,
mas as árvores altas fazem com que as ilhas fiquem visíveis a uma distância de 24
quilômetros em dias claros. Uma plataforma de corais e areia cerca Palmyra, batizada
com o nome do navio americano que ali buscou refúgio em 7 de novembro de 1802. Em
2000, a The Nature Conservancy comprou esta ilha quase imaculada para fins de
preservação e estudo.

Os materiais recolhidos em Palmyra registram um crescimento dos anéis nos corais, e,


através de seu conteúdo isotópico, variações nas temperaturas da superfície da água
enquanto os corais cresciam lentamente. Em águas mais frias, o coral incorpora mais do
isótopo de oxigênio O-18, mais pesado, enquanto que em águas mais quentes é maior a
contagem do O-16, mais leve. Utilizando espectrometria de massa de grande precisão, a
paleoclimatologista Kim Cobb conseguiu medir pequenas diferenças no nível relativo dos
dois isótopos com notável exatidão. A diferença de 0,02% no nível relativo dos dois
isótopos significa uma mudança de temperatura de aproximadamente 0,6°C.
As técnicas de datação urânio-tório forneceram a idade de dezenas de seqüências de
pequenos corais de Palmyra que se sobrepõem umas às outras. A datação urânio-tório,
chamada às vezes de datação tório-230, é uma técnica de datação radiométrica que
mede a idade de materiais carbonatados como os corais. O urânio é solúvel até certo
grau em todas as águas naturais, por isso, qualquer coral precipita vestígios mínimos de
urânio. Em contrapartida, o tório é insolúvel e por isso não aparece no coral até que o
urânio-234 comece a se decompor em tório-230. A datação urânio-tório calcula a idade
de uma amostra de coral medindo o grau de restauração do equilíbrio entre o isótopo
radioativo do tório-230 e seu parente radioativo, o urânio-234. Graças à datação urânio-
tório, Cobb conseguiu juntar as peças do início de um importante arquivo climatológico.
Os materiais de Palmyra mostram como os fenômenos El Niño exercem poderosa
influência sobre o clima de Palmyra, com condições de maior calor e umidade durante os
El Niños e condições mais frias e secas durante os Las Niñas. Durante os El Niños, caem
os níveis de O.18 dos corais, que voltam a subir durante os fenômenos Las Niñas,
proporcionando um barômetro surpreendentemente confiável dos eventos climáticos
que podem ser datados com exatidão com os dados de urânio-tório de dezenas de
pequenas seqüências que se sobrepõem. A atividade ENSO, por exemplo, diminuiu
durante os Séculos XII e XIV se comparada com a atual.

A seqüência de coral de Palmyra é única até o presente, exceto por alguns registros de
corais mais recentes. Uma dessas amostras, da Grande Barreira de Corais da Austrália,
cobrindo de 1565 a 1985, confirma um ligeiro aumento da temperatura entre 1635 e
1703, durante a Pequena Idade do Gelo na Europa. A seqüência da Grande Barreira de
Corais também mostra que o Pacífico tropical esfriou justamente quando o hemisfério
norte esquentou no final do século XIX. Assim, existem boas razões para acreditar que o
Período de Aquecimento Medieval foi uma época de condições frias e relativamente
secas em boa parte do Pacífico.
Palmyra é apenas uma pequena mancha em um vasto oceano, com temperaturas
relativamente estáveis se comparadas com as mudanças mais marcantes observadas
em outros lugares, como a Nova Zelândia. Porém, sua história climática pode ter um
significado muito mais amplo. Cobb e seus colegas acreditam que diferenças na
mudança da temperatura da superfície das águas do Pacífico Oriental e Ocidental são
peças-chave para os padrões de temperatura global. Nesse cenário, o gradiente pode ter
sido maior durante os séculos X e XII, provocando circunstâncias relativamente frias e
secas para essa parte do Pacífico durante o Período de Aquecimento Medieval. Essas
condições no Pacífico Central tropical fazem parte do padrão La Niña, o oposto do El Nino
na gangorra, e a mesma combinação de fatores levou grandes secas e queda nos níveis
dos lagos para o oeste americano e a América Central, até mesmo para o Sahel da África
Ocidental, no outro lado do mundo. Além disso, programas atuais de computador,
apoiados em experiências numéricas e modelos bem estabelecidos da atmosfera do
oceano, replicaram um período de ENSOs mais freqüentes no Pacífico Oriental durante a
Pequena Idade de Gelo (que ali foi mais quente), enquanto o Período de Aquecimento
Medieval assistiu à redução da atividade dos El Niños e condições mais frias na mesma
região.
À milhares de quilômetros de distância, próximo à costa de Lima, no Pacífico, um
material mostra a diminuição da atividade ENSO durante o período que vai do ano 800 a
1250, enquanto nos Andes equatorianos um sítio nas grandes altitudes de Laguna
Pallcacocha forneceu um registro de doze mil anos de sedimentos de um lago em uma
área fora do Pacífico, mas que é influenciada enormemente pelo mesmo conjunto de
condições climáticas. Esses sedimentos fornecem evidências dos El Niños na forma de
camadas de escombros com marcas causadas por muitas chuvas, de forma que a
incidência real talvez tenha sido muito maior. Os El Niños podem ser detectados há pelo
menos sete mil anos, mas a pulsação dos eventos atingiu seu ponto culminante por volta
do período que vai de 1200 a 1400, mais ou menos na mesma época da última série de
viagens na Polinésia Oriental.
As pesquisas de Palmyra subverteram uma crença antiga de que a mudança do clima no
Pacífico tropical tinha se seguido à de outros lugares, com um Período de Aquecimento
Medieval bem definido seguido por uma Pequena Idade do Gelo. O oposto pode ter
acontecido em muitas regiões. É praticamente certo que houve variações significativas
entre diferentes áreas do Pacífico, provavelmente medidas pela latitude. A chamada
Zona de Convergência do Pacífico Sul, uma faixa de ventos baixos, nuvens e chuvas que
se estendem pelo Pacífico Central de Vanuatu, no Ocidente, às ilhas austrais, no Oriente,
foi crítica para o assentamento humano. A zona se move e se modifica em resposta à
gangorra da ENSO. Durante os El Niños, ela se move para nordeste, enquanto a
atividade ciclônica muda em direção a leste e é mais freqüente. A zona muda para
sudoeste durante os fenômenos La Niña, além de responder à Oscilação entre Décadas
do Pacífico, uma flutuação na temperatura da superfície do mar e nas chuvas que
costuma durar de quinze a vinte anos, e cujas fases mais quentes estão associadas com
eventos ENSO mais fortes e mais freqüentes.
Com apenas algumas seqüências climáticas significativas, ainda sabemos pouca coisa
sobre os efeitos do Período de Aquecimento Medieval na vasta extensão do Pacífico.
Enquanto nas latitudes setentrionais as condições do gelo ou mesmo um aquecimento
de poucos graus podiam ter efeitos significativos, no Pacífico, tanto as alterações
climáticas quanto os assentamentos humanos foram afetados mais fortemente pelos
movimentos norte-sul da Zona de Convergência Intertropical, e especialmente pela
rotação da Oscilação Sul e pelos eventos El Niño e La Niña a ela associados. Essas
alterações afetaram as sociedades humanas em todas as regiões do Pacífico e muito
além. Em todos os cantos do Pacífico, os efeitos globais das condições prolongadas de La
Nina, que trouxeram secas para muitas áreas e mais chuvas para outras, marcaram os
séculos de aquecimento. E quando os eventos do La Niña davam lugar ao El Niño, como
ocorreu algumas vezes, especialmente no século XIII, os ventos alísios hesitaram e os
navegadores polinésios navegaram em direção a leste, para terras remotas e distantes.

No dia 13 de abril de 1769, o capitão James Cook ancorou seu navio, o Endeavour, em
Matavi Bay. A viagem de Cook, desde Plymouth, na Inglaterra, até o coração da Polinésia,
levou oito meses, a maior parte do tempo sem avistar terra. A chegada foi um tributo às
suas notáveis habilidades como navegador em uma era em que a observação da
longitude era uma novidade, mas relegada à insignificância junto com a dos barcos
polinésios que haviam atravessado o Pacífico antes dele. Muitos séculos antes de o
explorador espanhol Vasco Nuñez de Balboa olhar para o Pacífico de um "sólido pico" no
Istmo do Panamá, em 1513, navegadores da ilha tinham atravessado milhares de
quilômetros de mar aberto para realizar o assentamento mais remoto da terra.
Homem do mar, Cook admirava os barcos taitianos, utilizados no comércio, na guerra e
nas viagens de longa distância. Ele escreveu: "Nessas Proes, como eles os chamam em
todos os relatos que encontramos, esse povo viaja nessas águas de ilha para ilha por
várias centenas de léguas, com o sol lhes servindo de bússola durante o dia, e a lua e as
estrelas, à noite. Quando isso for provado nós não ficaremos sem saber como as ilhas
destes mares foram povoadas." Ele ficou amigo de Tupaia, um navegador experiente,
que carregava com ele um mapa mental de uma área do Pacífico tão grande quanto a
Austrália ou os Estados Unidos.
Cinco anos depois, em sua terceira viagem, Cook ancorou na Ilha de Páscoa, o pedaço de
terra mais remoto da Polinésia. Nessa época, ele já conhecia mais o Pacífico e seus
habitantes nativos do que qualquer outro explorador europeu. Aonde quer que fosse,
testemunhou semelhanças notáveis entre as sociedades de ilhas dispersas por milhares
de quilômetros. Cook ficou maravilhado com suas habilidades para a navegação. "É
extraordinário que a mesma nação tenha se espalhado por todas essas ilhas neste vasto
oceano, desde a Nova Zelândia até a Ilha de Páscoa, o que é quase a quarta parte da
circunferência do globo." Tendo falado com Tupaia e outros pilotos locais, ele não tinha
dúvida de que a origem dos polinésios estava no sudeste asiático, e de que seus
ancestrais tinham navegado de ilha em ilha, do Ocidente para Oriente. Somente nos
últimos anos é que através de experiências com réplicas de barcos e métodos de
navegação nativos foram reconstruídas antigas estratégias de navegação.

Navegação dos polinésios nativos


Quando o explorador britânico capitão James Cook visitou o Taiti em 1769, levantou uma
questão que até hoje fascina os estudiosos: como os taitianos haviam colonizado sua
pátria tão remota? Como era possível que seres humanos, com alguns barcos apenas e
nenhum instrumento de navegação como os utilizados pelos europeus, haviam se
instalado nas ilhas mais remotas do Pacífico? Cook conheceu um navegador taitiano,
Tupaia, e lhe perguntou como os capitães dos barcos haviam ido de ilha para ilha sem
avistar terra alguma. Tupaia explicou como eles usavam o sol como bússola durante o
dia e a lua e as estrelas à noite.
Tupaia carregava um arquivo mental da Polinésia com ele. Fez uma lista das ilhas, o
número de dias necessários para chegar até elas, e sua direção, que Cook colocou em
um mapa rudimentar. Estudiosos modernos acreditam que Tupaia era capaz de
descrever uma área limitada pelas Marquesas a nordeste, o arquipélago de Tuamotu no
leste, as Austrais no sul, e as Ilhas Cook a sudoeste, uma área de 2,5 milhões de
quilômetros quadrados. Até mesmo Fiji e Samoa, no oeste, estavam em sua consciência.
Nenhum outro explorador conversou com os navegadores taitianos. Muitos estudiosos
concluíram que as ilhas do Pacífico haviam sido colonizadas por barcos acidentados
longe de suas costas. Mas, em 1965, o marinheiro inglês David Lewis encontrou velhos
navegadores nas Ilhas Carolinas, na Micronésia. Descobriu como, longe da terra, eles
usavam passagens zênites de estrelas-chave, bem como a direção das ondas, refletidas
em terras distantes e até mesmo o vôo de aves marinhas e terrestres para atracar em
ilhas de arquipélagos distantes do ponto de partida. Esses navegadores também
conseguiam voltar para casa em segurança, usando os mesmos sinais do mar e do céu.
Determinado a preservar uma arte que estava desaparecendo rapidamente, Lewis viajou
com seu catamarã de estilo europeu desde Rarotonga, nas ilhas Cook, até a Nova
Zelândia, usando apenas um mapa de estrelas e um navegador polinésio para ajudá-lo.
Nos anos de 1970, Lewis decidiu estudar com os pilotos das Ilhas Carolinas e aprendeu
como eles atravessavam passagens com a ajuda do sol, lua, estrelas, nuvens e formação
das ondas, e até das aves no céu.
No fim dos anos de 1960, o antropólogo Ben Finney iniciou experiências de longo prazo
com réplicas de antigos barcos polinésios. A primeira réplica de Finney foi o Nalehia,
cópia de um barco real havaiano de 12 metros. Testes realizados nas tempestuosas
águas havaianas mostraram que a embarcação poderia navegar com o vento, por isso,
Finney organizou uma viagem de ida e volta entre o Havaí e o Taiti usando uma réplica
construída a partir de uma composição de projetos de barcos conhecidos em todas as
ilhas do Pacífico. O Hokule'a, projetado pelo havaiano Herb Kawainui Kane, tem 19
metros de comprimento, com casco duplo e duas velas em forma de garras de
caranguejo. Finney, o navegador da Micronésia Mau Piailug, e uma tripulação majoritaria-
mente havaiana navegaram no Hokule'a do Havaí até o Taiti e retornando em 1976. Essa
viagem foi seguida por outra de dois anos ao redor do Pacífico utilizando apenas técnicas
de navegação nativas. Graças às bem sucedidas experiências do Hokule'a, as antigas
práticas de navegação polinésias, bem como a tradição oral, foram registradas por
escrito para a posteridade.
Cada viajante levava amplo suprimento de alimentos, normalmente raízes secas, às
vezes até galinhas e porcos. Peixe seco era alimento básico, assim como os que eram
pescados no caminho. A água fresca era carregada em cabaças e utilizada com
parcimônia, sendo completada durante as grandes tempestades. A maioria dos barcos
era preparada para ter o máximo de autossuficiência, mas as tripulações provavelmente
comiam e bebiam com muita parcimônia para que os alimentos e a água durassem o
máximo possível. Na verdade, poucas passagens duravam mais do que algumas
semanas, exceto quando navegavam ao largo, longe da costa do Havaí e da Polinésia
Oriental.

Como, então, ocorreu o assentamento no Pacífico e como ele foi afetado pelas mudanças
climáticas? Graças a uma explosão de pesquisas arqueológicas ocorridas nos últimos
cinqüenta anos, hoje sabemos que a colonização das ilhas do Pacífico começou nas
águas do Estreito de Bismarck e nas Ilhas Solomon, no distante sudoeste, onde uma
forte tradição marítima floresceu já em 1500 a.C. Esse povo "Lapita" comercializava fina
obsidiana e outras mercadorias por enormes distâncias, entre ilhas separadas por
centenas de quilômetros. Eram agricultores, mas acima de tudo marinheiros, que
desenvolveram barcos à vela com outrigger (nome genérico da embarcação de origem
polinésia que tem como peculiaridade um segundo casco que serve de estabilizador) - e
usavam técnicas de navegação que lhes permitiam navegar para bem longe da terra,
algo muito diferente da simples pilotagem, linha de vista que havia trazido barcos para
as Ilhas Salomon da Nova Guiné e do Sudeste asiático muito antes de trinta mil anos
atrás.
Por volta de 1200 a.C., viagens de longa distância levaram barcos Lapita muito além das
Salomon, que haviam sido até então o limite para assentamentos humanos durante
milênios. De 1100 a 900 a.C., famílias Lapita construíram assentamentos em Fiji e na
Nova Caledônia, e também em Samoa. No breve espaço de dois a três séculos, apenas
quinze a vinte e cinco gerações, os marinheiros Lapita haviam colonizado ilhas até 4.500
quilômetros em mar aberto no Pacífico. Ninguém sabe exatamente por que eles teriam
empreendido essas viagens de exploração e colonização. Como os nórdicos, que
sofreram com a escassez em terra e a superpopulação, muitos polinésios talvez tenham
ido para o mar porque tinham que ir. Eles viviam em sociedades onde a propriedade, os
locais de moradia, os privilégios rituais e até o conhecimento esotérico eram passados
para o filho mais velho. Os filhos mais novos ficavam com a ponta do bastão econômico.
Muitos deles saíam pelo oceano à procura de novas terras para montar um
assentamento, onde suas famílias poderiam encontrar bastante comida.
Além de Fiji e Tonga, as distâncias se abriam para as Ilhas Cook e as Ilhas da Sociedade.
Aparentemente, houve uma pausa antes que viagens posteriores levassem as pessoas
mais para o leste da Polinésia Ocidental, mais ou menos por volta da época de Cristo - a
data exata é incerta - e então para as ilhas mais remotas do Pacífico central e sudeste
durante o final do primeiro milênio. O Havaí foi colonizado por volta do ano 800, a Nova
Zelândia por volta do ano 1000, talvez antes, e Rapa Nui por volta do ano de 1200,
durante o Período de Aquecimento Medieval.

Se os dados mais recentes de radiocarbono estão corretos, os capítulos de encerramento


das viagens polinésias se desenrolaram durante os anos do Período de Aquecimento
Medieval. Havia, então, algo incomum nas condições que criaram as passagens durante
o final do primeiro milênio?
Na maior parte do tempo, os ventos alísios de nordeste e de sudeste sopram em ambos
os lados da Zona de Convergência Intertropical e são alimentados pela circulação
Walker, poderoso motor dos eventos El Niño. Como qualquer marinheiro de um barco
pequeno poderá dizer, velejar a favor do vento com os alísios é uma experiência
paradisíaca. Você veleja a toda velocidade por dias a fio, duas velas expandidas diante
do mastro, uma pequena parte da vela mestra bem amarrada para refrear sua
ondulação. Dia e noite, o barco veleja sem esforço. Você senta de bermuda e sem
camisa à meia-noite para observar a lua cheia no céu. Isso é o máximo na vela oceânica.
Mas pobre de você se houver uma inversão do vento e ele soprar de frente. Você irá
lutar arduamente contra um mar grumoso e um vento de oeste desagradável, que o
deixará de estômago virado e ansioso para que o transtorno passe logo.
Como os iates modernos, os barcos do Pacífico andam bem com o vento, e através dele.
As réplicas modernas dos barcos podem velejar a um ângulo de aproximadamente 75
graus do vento (90 graus, é claro, perpendicular ao vento). Mesmo velejando com todas
as "velas contra o vento" em um ângulo mais fechado, o avanço é lento. Quando
forçado, o barco diminui e escapa do vento afastando-se do percurso programado. Como
os capitães de pequenos barcos em qualquer parte do mundo antes dos motores à
combustão, os navegadores polinésios esperavam o enfraquecimento dos alísios e o
surgimento dos ventos de oeste para levá-los na direção em que normalmente sopram
os ventos. O capitão Cook, homem do mar experiente, se é que já houve um, entendeu
muito bem as táticas dos polinésios para navegar a barlavento, pois ele mesmo estava
habituado a esperar por ventos favoráveis. Tupaia disse a ele que "durante os meses de
novembro, dezembro de janeiro prevaleciam os ventos de oeste com chuva e vento; e,
como os habitantes das ilhas sabem muito bem como usar os ventos adequadamente,
não haverá dificuldade para o comércio ou as viagens de ilha para ilha mesmo que eles
estejam num sentido leste-oeste".
Atualmente, temos montanhas de dados a respeito dos alísios do Pacífico, que
confirmam o que Tupaia disse ao capitão Cook. Há períodos durante o verão no
hemisfério sul em que os ventos alísios desaparecem e prevalecem os ventos de oeste.
Na verdade, os ventos sopram do sudoeste ou sudeste; isso é o ideal para os barcos que
velejam para leste, pois o desempenho melhora quando o vento está em ângulo com a
popa. As reais estratégias para a navegação em direção a leste devem ter variado
enormemente, pois muitas viagens teriam começado com condições favoráveis de
oeste, tendo depois enfrentado alterações dos ventos à medida que os sistemas de
pressão atravessavam seu caminho. Numa notável série de viagens experimentais,
marinheiros modernos mostraram que as viagens rumo ao leste eram perfeitamente
possíveis, desde que os marinheiros tivessem paciência e conhecimento de navegação,
e desde que usassem rotas indiretas, pensando sempre à frente da posição em que
realmente estavam.
Os ventos de oeste costumam prevalecer durante os fenômenos El Niño. Quando o
gradiente da pressão atmosférica sobre o Pacífico inverte, os alísios enfraquecem e os
ventos de oeste podem soprar por longos períodos, especialmente durante o verão.
Esses ventos normalmente são mais fortes no Pacífico Central e Ocidental, mas podem
chegar até Rapa Nui e mais adiante. Durante grandes El Niños, os barcos de Tonga
poderiam até ter seguido direto até as Marquesas, onde foram encontrados fragmentos
de cerâmica feitos de argila com minerais provenientes de Fiji.
Por muito tempo, os cientistas acreditaram que o Período de Aquecimento Medieval
trouxera temperaturas mais elevadas e condições de maior calor para o Pacífico tropical,
como parte de uma tendência de aquecimento global. Essas condições teriam significado
uma incidência mais elevada de fenômenos El Niño, que se acreditava ser um acessório
do aquecimento. Estudos recentes dos alísios do Pacífico observaram um
enfraquecimento da circulação Walker em resposta ao aquecimento. O Período de
Aquecimento Medieval teria de fato proporcionado condições mais favoráveis para as
viagens no Pacífico? Esse é um ponto de interesse especial uma vez que a ocupação
mais antiga de que se tem notícia a respeito de Rapa Nui, a mais remota de todas as
ilhas da Polinésia, é agora datada do ano de 1200.

A subtropical Rapa Nui é o pedaço habitado mais remoto da Terra, a 3.700 quilômetros
de distância do Chile, a leste; e a 2.100 quilômetros das Ilhas Pitcairn, a oeste. A ilha
cobre 171 quilômetros quadrados e encontra-se a apenas 510 metros acima do nível do
mar em seu ponto mais elevado, muito abaixo da maioria das ilhas polinésias. Parece
incrível que os polinésios tenham localizado esse pequeno ponto no Pacífico, que tem
apenas 14 quilômetros de norte a sul. A navegação já é um desafio suficiente com os
cronômetros e sextantes modernos, mesmo com um GPS. Mas os capitães dos barcos
antigos localizaram a ilha muito antes de a terem visto, provavelmente devido aos
enormes bandos de aves marinhas que ali viviam, e que podiam ser vistas por um arguto
navegador até 300 quilômetros antes que qualquer pedaço de terra aparecesse no
horizonte.
Jacob Roggeveen, explorador holandês, avistou Rapa Nui em 5 de abril de 1722, depois
de uma viagem de 17 dias a partir do Chile. Ficou atônito ao ser recebido por polinésios
que viviam em uma ilha onde as únicas embarcações eram canoas pequenas, inclinadas,
feitas de pequenos pedaços de madeira amarrados com fios de folhas de palmeiras. Sua
pátria não tinha árvores e era pobre e carente, mas os habitantes haviam conseguido
extrair pedras e com elas erguer dezenas de figuras gigantescas (moiaes) que olhavam
silenciosamente para o mar. De onde teria vindo a madeira para fazer as canoas e para
erguer as estátuas? Meio século depois, James Cook ancorou em Rapa Nui. Descreveu os
ilhéus como "pequenos, magros, tímidos e miseráveis" e ficou igualmente intrigado com
a falta de madeira e de barcos para atravessar o oceano.
Quando teria ocorrido o primeiro assentamento? Os arqueólogos Terry Hunt e Carl Lipo
escavaram recentemente a única duna de areia da ilha, em Anakena. Cavaram por
camadas arqueológicas soberbamente preservadas até uma profundidade de quase 350
centímetros. Ali encontraram argila estéril e um solo primordial que continha artefatos e
moldes de raiz tubular característica da gigantesca e extinta palmeira de Rapa Nui. A
mesma camada revelou ossos de inúmeros golfinhos, que só poderiam ter sido obtidos
em águas profundas com barcos oceânicos. Oito dados de radiocarbono desse nível
colocam os primeiros assentamentos na ilha em 1200, auge do Período de Aquecimento
Medieval. Os habitantes certamente conseguiam pescar com seus barcos em alto-mar e
viviam em um ambiente de floresta.
Quando os primeiros barcos chegaram, densas florestas com imensas palmeiras da Ilha
de Páscoa, algumas com troncos cujo diâmetro media mais de dois metros, cobriam a
ilha. No período de três séculos, as palmeiras foram extintas, assim como outras vinte
espécies de árvores que floresceram em Rapa Nui. Duas das árvores mais altas, a toi
(Alphitonia zizyphoides) e a sempre-viva (Elaeo-carpus rarotongensis), chegavam a
alturas de 30 e 15 metros, respectivamente, e eram amplamente utilizadas na Polinésia
para fazer os cascos dos barcos. Todas essas árvores se tornaram extintas antes de
1500, como conseqüência da exploração humana intensiva em busca de madeira grossa
para os barcos, casas e toras para erigir os moiae, além de madeira para o fogo; e
também pela depredação causada por ratos importados. Sem árvores para construir os
barcos, os sobreviventes não tinham como viajar pelo Pacífico para ilhas distantes como
Pitcairn ou Mangareva, onde o desflorestamento também teve conseqüências
desastrosas. O castigo pelo desflorestamento foi o isolamento completo, pois acabou o
comércio entre Pitcairn e Mangareva por volta de 1500, quando mercadorias como
pedras para os machados desapareceram.
Mas como os barcos colonizaram Rapa Nui? A Hokule'a moderna fez a viagem de
Mangareva para Rapa Nui em 17 dias em 1999, mas ela é um apanhado de vários
projetos de barcos polinésios, com extensão de velas relativamente grande, e
capacidade para enfrentar o lado de onde soprava o vento, que pode ter sido superior ao
dos primeiros outriggers. Nós não sabemos como eram as primeiras embarcações, mas
certamente tinham casco duplo e boa mastreação para ventos a favor e ventos con-
trários. Sua capacidade para ir a barlavento em relação à Hokule'a era provavelmente
limitada, embora tenhamos que nos lembrar de que os knarrs nórdicos navegam com
muito mais facilidade a barlavento do que se acreditava possível. Com alguma certeza,
as viagens de colonização foram realizadas em condições não muito usuais de ventos de
oeste.
Se os antigos navegantes podiam navegar em qualquer direção, teriam saído a qualquer
momento. Mas com os ventos de leste prevalecendo, e barcos que não viajavam muito
bem na direção contrária ao vento, as passagens teriam ocorrido esporadicamente.
Durante os El Niños, os alísios de leste perdem a força, e os ventos de oeste são comuns
em janeiro e fevereiro com uma média de 5,5 a 9,26 quilômetros por hora. Nessas
condições, os barcos que viajassem a uma velocidade média de 2,7 quilômetros por hora
levariam 22 dias no mar para ir da Polinésia Ocidental para a Oriental, se não entrassem
em alguma calmaria ou ventos contrários. Dados modernos sugerem que os ventos de
oeste normalmente não se estendiam o bastante para leste durante os grandes El Niños,
mas não significa que isso não tivesse ocorrido no passado. Se não conseguissem
descobrir terra firme, sempre podiam dar a volta e chegar antes dos alísios. Contudo,
não sabemos se as grandes viagens de descoberta eram empreendimentos de mão
única ou se levavam o retorno em consideração. Muitos aspectos deviam depender das
condições políticas e sociais em casa, o que pode ter tornado o retorno algo impossível.
Os El Niños mais fortes ocorrem durante os períodos em que são mais freqüentes, por
isso o arqueólogo Atholl Anderson e outros acreditam que as viagens a favor do vento
para leste ocorriam quando predominavam os ventos de oeste. Os navegadores
polinésios não tinham o computador para ajudá-los, mas deviam estar familiarizados
com as condições dos ventos prolongados de oeste e com o alto índice de umidade
sobre as ilhas em intervalos irregulares. Uma viagem para qualquer distância rumo ao
leste e ao desconhecido teria exigido várias semanas de ventos de oeste, um período
muito maior do que o necessário para uma curta passagem entre ilhas. Como vimos,
existem sinais de que os El Niños prevaleceram do século XII ao XV; quando o Período de
Aquecimento Medieval terminou e ocorreu o primeiro assentamento de Rapa Nui.
Barco a remo taitiano de casco duplo conduzido por homens mascarados, em ilustração
de Philip de Bay, c. 1723. Essa é uma pequena versão dos barcos de casco duplo muito
maiores que atravessavam longas distâncias. Não existem imagens desses barcos, mas
esta ilustração nos dá uma idéia do tipo de casco e de vela.

Todos concordam que os eventos ENSO tiveram um papel muito importante no antigo
clima do Pacífico. Ainda se discute muito até que ponto afetaram as viagens no Pacífico,
e não podemos ter certeza se os grandes EI Ninos realmente foram um fator significativo
para a colonização. No entanto, podemos ter certeza de que os ilhéus polinésios, como
outros povos cuja vida gira em torno do mar, dependiam de um conhecimento íntimo
tanto do ambiente marítimo quanto terrestre. Se o Período de Aquecimento Medieval
trouxe condições climáticas extraordinariamente favoráveis para a navegação de longa
distância, esses marinheiros talentosos estavam preparados para aproveitá-las.

CAPÍTULO 11
O Oceano dos Peixes Voadores

O calor era intenso, o termômetro indicava 42°. Uma tempestade de areia nos cegava,
enchendo nossos olhos e narinas com poeira carregada de micróbios, e o mau cheiro de
corpos em putrefação impregnava as roupas, o cabelo e a pele.
- LOUIS KLOPSCH, The Christian Herald (1900)

“A fome é a especialidade da Índia. Em outros lugares a fome é um incidente sem


conseqüências; na Índia, é um cataclismo devastador", escreveu um viajante vitoriano
que testemunhou os horrores da grande fome indiana nos anos 1896-99. Ninguém sabe
quantas pessoas morreram devido a doenças ligadas à fome e à inanição. Uma
estatística conservadora estima em 1,9 milhão. O sofrimento supera qualquer descrição.
O jornalista Julian Hawthorne era correspondente especial da revista Cosmopolitan na
Índia. Ele chegou de trem ao epicentro da fome e ficou chocado ao ver cadáveres de
famílias sentados sob as árvores junto aos trilhos. “Ali estavam agachados, todos mortos,
a roupa fina esvoaçando ao seu redor, exceto quando os chacais haviam separado os
esqueletos, numa busca inútil para encontrar tutano." Em Jubbulport (Jabalpur), no
centro da Índia, missionários americanos o levaram ao mercado, onde ele ficou
horrorizado pelo contraste entre os roliços mercadores e os "remanescentes esquálidos
de seres humanos" pedindo grãos. Visitou outras vítimas da fome no albergue para
pobres: “As juntas dos joelhos sobressaíam entre as coxas e as canelas, como em
qualquer outro esqueleto, assim como os cotovelos; as mandíbulas e faces descarnadas
se apoiavam nos pescoços como no das galinhas depenadas. Os corpos - eles não os
tinham, só restava a moldura". Como observou o historiador Mike Davis, o Jubileu da
Rainha Vitória em 1887 foi "celebrado com um amontoado de cadáveres". A imensa
inadequação dos esforços humanitários da Índia britânica contribuiu para o desastre.
As grandes fomes indianas do final do século XIX foram resultado direto de uma série de
falhas nas monções que, agora se sabe, estão ligadas a grandes eventos do El Niño.
Essas falhas não eram novidade. Mil anos atrás, milhões de pessoas do sul e sudeste
asiático e ao longo das costas do Oceano Índico, desde o Nilo até a China, viviam à
mercê das monções e de suas complexas relações com o El Niño e com La Niña.

Locais mencionados neste capítulo e rotas gerais dos ventos de monções.

Como vimos, ocorreram fenômenos La Niña bastante prolongados em boa parte do


Pacífico durante o Período de Aquecimento Medieval, que tiveram efeito em regiões tão
distantes como o nordeste da África, na costa ocidental do Oceano Índico. As chuvas de
monções que caem nas montanhas da Etiópia proporcionam cerca de 90% de toda a
água que flui pelos rios durante sua elevação anual. Ao contrário do que diz a crença
popular, a inundação de verão do Rio Nilo é imprevisível e varia de ano para ano,
dependendo das chuvas ou das secas que afetam a Etiópia. Em épocas anteriores à
construção da Represa de Assuã, os agricultores egípcios passavam fome quando
diminuía o nível das cheias que cobriam as planícies. Cheias com dois metros abaixo da
média poderiam deixar até três quartos de algumas províncias do Alto Egito sem água
para a irrigação. No outro extremo, cheias excepcionalmente elevadas subiriam
precipitadamente, varrendo tudo o que estivesse à sua frente, até mesmo vilarejos
inteiros. Com boas razões, várias gerações de antigos faraós lamentaram os níveis das
cheias e tentaram prevê-las com poços cuidadosamente planejados, hoje chamados de
nilômetros. O mesmo fizeram seus sucessores.
No ano 715, um califa omíada, Sulayman Abd al-Malek, atormentado com os baixos
níveis do rio e com a desordem social resultante, ordenou a construção de um nilômetro
na parte sul da Ilha de Rhoda, perto do Cairo. Um século e meio depois, um califa
abássida, al-Mutawakkil, ordenou uma grande reconstrução sob a supervisão de um
astrônomo persa, Abu'l 'Abbas Ahmad ibn Mohammad ibn Kathir al-Farghani, conhecido
no Ocidente como Alfragano. O grande astrônomo construiu uma coluna octogonal
dentro de um poço com paredes de pedra, que era ligado ao Nilo por três túneis. Uma
escala de 19 cúbitos egípcios (um cúbito equivale a 0,54 metro) gravada na coluna
registrava os níveis máximo e mínimo do rio, possibilitando que se medisse uma cheia
de 9,2 metros. As paredes do nilômetro têm textos do Alcorão que fazem referência à
água, à vegetação e à prosperidade. Uma inundação ideal atingia 16 cúbitos. Menos que
isso significava seca e fome. Uma medida superior a 19 cúbitos (10,2 metros) era um
prenúncio de inundações catastróficas.
A coluna de Rhoda pode parecer uma fonte improvável de informação climática, mas seu
registro remonta a mil e quinhentos anos. O arqueólogo e demógrafo Fekri Hassan aferiu
dados de inundações de Rhoda para analisar o assoreamento e outros fatores. Ele
registrou um grande episódio com baixos índices de cheias entre o ano 930 e o de 1070,
seguido por um índice elevado de 1070 a 1180, depois do qual o nível do Nilo caiu de
novo, com baixas inundações durante 170 anos. Com a diminuição das cheias, as
colheitas foram pobres, houve fome e o preço dos grãos subiu. Os califas tinham grandes
motivos para se preocupar e boas razões para investir em seus nilômetros. Entre os anos
622 e 999, houve 102 anos de cheias muito fracas, ou seja, 28% desse período. No ano
967, 600 mil pessoas morreram de doenças ligadas à fome e à inanição, um quarto da
população do Egito. Durante outro período de fome, em 1220-21, só no Cairo morreram
entre 100 e 500 pessoas por dia.
As secas prolongadas dos séculos X e XIII, conhecidas por causa do nilômetro de Rhoda,
também afetaram a África Oriental. O Lago Naivasha, no centro do Quênia, sofreu um
longo período de intensa aridez entre os anos 1000 e 1270, com apenas breve período
de grandes chuvas de 1200 a 1240. Em contrapartida, o período de 1770 a 1850, auge
da Pequena Idade do Gelo, foi em geral mais úmido. Os registros de Naivasha estão
longe de ser únicos. Os lagos Victoria, Tanganika e Malawi passaram todos por períodos
prolongados de seca e baixo nível das águas depois de 1040. O Monte Kilimanjaro sofreu
uma aridez incomum durante o mesmo século. Os lagos se encontram fora da área de
montanhas da África Oriental, onde povos de pastores prosperaram por pelo menos dois
mil anos. Nada sabemos a respeito desses grupos, que tinham poucas posses e eram
nômades, porém, quando as secas prolongadas chegaram, eles permaneceram próximos
de permanentes fontes de água. A julgar pelas secas históricas, eles provavelmente
perderam milhares de cabeças de gado, pois a área de pasto diminuía a cada ano. No
entanto, como outros pastores, eles aumentaram o tamanho de seus rebanhos durante
os anos de boas chuvas para se precaverem contra possíveis perdas futuras. Como os
pastores do Sahel saariano, o destino de seus rebanhos dependia de forças climáticas
geradas no outro lado do mundo.
Cerca de mil anos antes, quando as secas africanas estavam no auge, os comerciantes
muçulmanos se estabeleceram em pequenas comunidades ao longo da atual costa do
Quênia e da Tanzânia. Durante séculos, eles haviam ido à procura de marfim, madeira e
produtos tropicais, mas agora assentavam acampamento permanente na costa africana.
O que os atraiu deve ter sido uma questão puramente comercial, pois o ambiente
costeiro é quente e seco. Um interior árido e pouco hospitaleiro separava essas cidades
dos pastores do interior distante, mas as "cidades de pedra" (assim chamadas por causa
de suas casas de corais), pequenas e poliglotas, em parte africanas e em parte
islâmicas, prosperaram com o comércio de ouro, marfim e madeira africanos. Eram o
posto avançado do vasto mundo comercial de um milênio atrás, que dependia das
monções e de um barco a vela tradicional entre os árabes, o dhow, com vela triangular.

Para o marinheiro, o Oceano Índico setentrional é o mais gentil de todos os grandes


mares do mundo. Antigas canções árabes chamavam-no de Oceano dos Peixes Voadores.
Muito menor do que o Pacífico e com ventos mais confiáveis, o Índico forma uma baía,
limitado pela Ásia e dividido no norte pela Índia, formando o Golfo da Arábia e a Baía de
Bengala, esta última fazendo a ligação com os mares orientais do sudeste asiático. A
Ásia confina o oceano e impede a passagem normal dos ventos oceânicos. Ao norte do
Equador, o marinheiro navega pelo cinturão das monções. No lado ocidental do Oceano
Índico, no canal de Moçambique, entre África e Madagascar, até norte e leste pelo Golfo
da Arábia e até a Baía de Bengala e águas adjacentes, o ritmo das monções de nordeste
e sudoeste governou a viagem oceânica durante milhares de anos.
No século I, um anônimo mercador ou marinheiro greco-alexandrino compilou o Periplus
Maris Erythraei, o Périplo do Mar Eritreu. A palavra grega periplus significa
"circunavegação", que é justamente o que registrou o navegador desconhecido, quase
certamente com conhecimento em primeira mão de um oceano que muitos capitães
navegaram com todas as condições meteorológicas e em todas as épocas do ano. Ele
havia velejado de porto em porto da África para a Índia, e também em linha reta longe
da costa, nas asas dos ventos de monções: "Toda esta viagem, como descrita acima, de
Canaã e Eudaemon, na Arábia, eles costumavam fazer em pequenos barcos, viajando
próximos da costa dos golfos; e Hippalus foi o piloto que, observando a localização dos
portos e as condições do mar, descobriu primeiro como manter seu curso em linha reta
através do oceano". O Apocalipse de João descreve um Mar Vermelho e o comércio das
monções em termos líricos: "Ouro, e prata, e pedras preciosas, e pérolas, e fino linho, e
púrpura e seda, e uma lã macia, e todos os tipos de barcos de marfim". Esse foi o
comércio que levou à descoberta de cidades comerciais estratégicas na costa africana
oriental, que chegou até Kilwa, na Tanzânia, ao sul.
Cada vento de monção sopra durante aproximadamente metade do ano, mas a mudança
nunca é abrupta. A monção de sudoeste traz chuva para a costa ocidental da Índia no
fim de maio, alcança força total em julho e vai diminuindo até outubro, quando se
dispersa. Chuvas pesadas e ventos fortes fecham efetivamente os portos expostos da
costa indiana, mesmo para grandes navios, durante os anos de monções muito fortes,
normalmente associadas com as condições do tipo La Niña no Pacífico. As chuvas podem
cair por 40 ou 50 dias só com curtos períodos de tempo bom. Essas não são as
condições mais favoráveis para a navegação oceânica, especialmente para as
embarcações costeiras com porões de carga abertos.
A extensão das monções.

A monção de nordeste é benigna e confiável, nunca fica muito forte e sopra dia e noite
com uma rotina previsível que é um bálsamo para a alma de um capitão. Entre
novembro e maio, essa brisa notável carregava os dhows do Golfo Pérsico para a Índia;
navios dos portos indianos para a Mesopotâmia; e, mais para oeste, ao longo das praias
da Arábia meridional até a distante ilha de Socotra, rica em especiarias, na foz do
segundo grande braço do Oceano Índico, o Mar Vermelho. Enquanto os navios mercantes
chegavam até a Índia vindos do Oriente, juncos chineses e outros navios com destino à
Península Malaia e pontos a leste já haviam deixado o porto na monção de sudoeste que
soprava pela Baía de Bengala de abril a julho. Os mesmos ventos poderiam levar barcos
a vela até a costa do Vietnã e ao Mar da China até setembro, quando os ventos de sul
enfraqueciam e davam lugar às monções de nordeste. Estas, por sua vez, ficavam até
abril, quando o ciclo se renovava. Os ventos de monção permitiram que a Índia e a China
estabelecessem contato com os mundos romano e islâmico pelo mar.
Como os alísios do Oceano Pacífico, os padrões dos ventos de monções estavam longe
de serem constantes. Um ciclo irregular e ainda pouco conhecido alterava os ventos de
monções ao norte e ao sul sobre o Oceano índico. Quando os ventos iam para o sul, as
montanhas da Etiópia recebiam amplas chuvas, mas, quando eles iam em direção ao
norte, a chuva diminuía, culminando com secas fortes que duravam um década ou mais.
As secas dos séculos de aquecimento foram especialmente duradouras, aparentemente
durante períodos ainda pouco documentados de condições La Niña no Pacífico. Durante
os ciclos de aridez dos séculos X e XIII, os ventos de monção estavam no norte. Como
vimos, houve uma diminuição das chuvas na região dos lagos da Etiópia e África
Oriental. Por isso, enquanto a Índia recebia chuva pesada e as monções de sudoeste
sopravam com força, a seca castigou a África. De acordo com o historiador Ian
Blanchard, o ciclo norte-sul teve uma periodicidade de aproximadamente 100 a 120
anos, funcionando como um pêndulo de movimento lento.
As condições de navegação no Oceano Índico foram desafiadoras durante os séculos de
aquecimento, quando fortes monções de sudoeste, associadas à persistência do
fenômeno La Niña no Pacífico, fizeram com que a aproximação da costa ocidental da
Índia se transformasse em proposição perigosa. Os capitães poliglotas que navegavam
pelo Mar Vermelho, Golfo Pérsico e Oceano Índico ajustavam suas rotas à mudança dos
ventos predominantes. O mesmo faziam os mercadores, que conseguiam ganhar vários
dias viajando por terra de portos do Mar Vermelho até o Nilo, em vez de lutar contra os
ventos contrários. A viagem por terra ou por mar nunca era fácil. "De dia muitos [na vios]
se perdem porque os estreitos ficam agitados devido aos ventos da terra", escreveu o
viajante português Thomé Pires, em 1513. As fortes monções de sudoeste do Período de
Aquecimento Medieval provocavam passagens oceânicas rápidas em direção a leste, o
que deve ter tornado a costa africana oriental, com sua grande oferta de marfim de
elefante, especialmente atraente para marinheiros de longa distância. Disso devem ter
resultado assentamentos permanentes de mercadores com conexões em outros lugares.
(O marfim dos elefantes africanos é mais macio e mais fácil de ser entalhado do que o
da Índia, fato que gerou uma demanda insaciável pelo marfim africano na Índia, onde
era apreciado, entre outras coisas, como ornamento para noivas.)
As condições de navegação durante boa parte do ano podem ter sido mais arriscadas,
porém, da perspectiva do capitão do dhow, a situação no Oceano Índico durante os
séculos de aquecimento era algo muito parecido com o que enfrentavam os camelos nas
caravanas pelo Saara.
Quando aumentava um pouco a chuva no deserto, as caravanas utilizavam rotas no
coração do Saara onde fosse possível encontrar água. Durante as épocas de seca, eles
iam para oeste, perto do Atlântico. Os camelos permitiam que seus donos se
adaptassem sem grande esforço às alterações climáticas, assim como o dhow, que
navegava muito bem a favor do vento; os marinheiros aguardavam pacientemente pelas
mudanças nos ventos e ouviam cuidadosamente o que se dizia a respeito do movimento
norte-sul das melhores rotas para a navegação. Sua habilidade para se adaptar
rapidamente a diferentes condições de vento revela que o comércio do Oceano Índico
nunca cessou completamente durante os anos de aquecimento. Na época que
antecedeu os automóveis, as estradas de ferro e os barcos a vapor, os tentáculos do
comércio de longa distância por terra e por mar eram infinitamente adaptáveis e
mudavam constantemente. Nas praias do Oceano Índico, os portos onde os navios
atracavam poderiam ficar entupidos; os piratas poderiam infestar um estuário que já
fora seguro; o padrão dos ventos de monção poderia falhar. Os navios visitantes
poderiam agora comerciar em qualquer lugar.
Níveis baixos das cheias do Nilo, seca na África Ocidental, fortes ventos de monção de
sudoeste, e rotas de navegação pelo Oceano Índico sendo constantemente alteradas:
todos estes fenômenos foram em última análise fruto das alterações climáticas que
varreram uma enorme faixa do globo e uma área do Pacífico a sudoeste conhecida como
Hot Pool.
Nos capítulos anteriores, examinamos muitas mudanças relativas às chuvas e às
temperaturas. Bem longe do Oceano Índico, um testemunho marinho recolhido do Canal
de Santa Bárbara, na Califórnia, revela um longo período de temperaturas mais frias da
superfície do mar e fortes ressurgências, entre o ano 500 e o de 1300 aproximadamente,
algo típico dos fenômenos La Niña, contraponto do El Niño (como descrito no Capítulo 7).
Os antigos corais da Ilha de Palmyra no Pacífico Central também sugerem
eventualmente condições relativamente frias e secas, talvez devidas aos fenômenos La
Niña, durante o século XII. (ver Capítulo 10) Um testemunho marinho da costa do Peru
documenta um longo período de clima parecido com o do La Niña entre os anos 800 e
1250. Lagos dos Andes equatorianos e terras planas do Chile também registram uma
baixa incidência de inundações e chuvas torrenciais típicas dos fenômenos El Niño
severos entre os anos 900 e 1200. (como vimos no Capítulo 9)
A trajetória da seca do século X ao XIII levou junto o então frio e seco Pacífico para a
região de Hot Pool, que é a encruzilhada do clima de monções da Ásia e do Oceano
Índico. Esse reservatório de água quente se movimenta em uma área com cerca de
14.500 quilômetros de leste a oeste ao longo do Equador, e de 2.400 quilômetros no
sentido norte-sul - uma enorme banheira cobrindo uma área que é quatro vezes a dos
Estados Unidos. O Hot Pool engloba as águas do Pacífico Ocidental equatoriano, entre a
Nova Guiné e Samoa, com uma longa cauda que se estende pelo arquipélago indonésio
e vai até o Oceano índico. São as águas mais quentes da Terra, o suficiente para fazer
chegar calor e umidade em grandes alturas da atmosfera e para afetar o clima de terras
vizinhas - China e Índia. As flutuações cíclicas e lentas do tamanho e da temperatura do
Hot Pool podem estar intimamente ligadas à intensidade dos fenômenos El Niño, mas
ninguém sabe ainda como são provocadas.
Quando os fenômenos El Niño se formam, o Hot Pool se move para leste, perto da linha
equinocial internacional. Um forte sistema de alta pressão se forma sobre a Indonésia. O
centro de alta pressão retarda as monções, seguem-se as secas, e incêndios florestais se
estendem por vastas áreas, como ocorreu durante o grande fenômeno El Niño de 1997-
98. Fortes fenômenos ENSO reduzem a quantidade de chuva sobre a maior parte do
sudeste asiático e também sobre a Austrália e Nova Zelândia. Durante os intensos ciclos
do El Niño de 1870 a 1900, as regiões de New South Wales e Victoria, na Austrália, se
transformaram em zonas áridas, com grandes incêndios florestais e tempestades de
areia que duraram dias. Milhões de ovelhas morreram; colheitas de uma vasta área
foram perdidas. Mas cada fenômeno El Niño é diferente do outro, de forma que os efeitos
são variados, modificados ainda pelas pouco conhecidas e mais longas alterações em
décadas de fenômenos como a cobertura de neve da Eurásia.
O clima do Oceano Índico interage com a sempre diferente Oscilação Sul do Pacífico,
mas outras variáveis bastante independentes fazem uma diferença significativa. Não se
pode dizer que haja uma ligação direta e invariável entre um severo fenômeno El Niño e
falhas das monções sobre o sul e sudeste da Ásia. Mas as ligações entre os fenômenos
ENSO e as secas indianas são reais. Por vinte anos de El Niño, entre 1870 e 1991,
ocorreram secas ou chuvas abaixo da média. Não há razão para acreditar que essas
ligações não tenham ocorrido no passado.
Qual foi, então, o resultado da persistência de condições mais frias sobre o Pacífico
durante a maior parte do período entre os séculos X e XIII, não de forma contínua, mas
certamente como padrão climático dominante? Durante os períodos mais frios dos
fenômenos La Niña, o Hot Pool se move para oeste, para longe da linha equinocial inter-
nacional. Monções desimpedidas se espalham pelo sudeste e leste da Ásia, trazendo
muita chuva, às vezes até demais.
Ainda sabemos pouco a respeito do funcionamento do Hot Pool, mas está claro que até
mesmo as menores alterações na superfície da água podem ter efeito significativo sobre
o clima das áreas circunvizinhas. Em termos gerais, parece haver pouca dúvida quanto
ao fato de que condições frias e áridas do tipo La Niña significam monções de verão mais
fortes e maior índice de chuvas no sul e sudeste da Ásia, mesmo que a correlação não
seja exata ou invariável. Algumas variáveis climáticas espalhadas por uma vasta área
indicam um período mais úmido com monções de verão mais fortes, do ano 1000 ao de
1350. Entre elas estão estalagmites de uma caverna rasa em Omã, um testemunho
marinho recolhido no Paquistão, e uma seqüência de pólen fóssil de Maili, no nordeste da
China.
Esses três séculos e meio foram uma época de turbulência considerável na Índia,
marcada por incursões islâmicas de nômades do norte, pela fundação de uma dinastia
muçulmana em Délhi e pela expulsão do budismo. Porém, aparentemente, as condições
de modo geral predominantes, do tipo La Niña no Pacífico, garantiram boas chuvas de
monções na maior parte do tempo.
Na Índia, as monções são muito mais do que uma questão de meteorologia. Por todo o
subcontinente, a existência humana, o tecido mesmo da vida diária, se desdobra ao
redor de duas estações, a úmida e a seca. A estação úmida é caracterizada por calor e
umidade de muitas chuvas levadas pelos ventos de monção que sopram do oceano para
a terra. Na outra metade do ano, a estação árida experimenta o ar frio e seco que vem
do norte. A chegada das monções de verão é um momento importante do ano para
aqueles que sofreram durante a acumulação, depois dos meses agradáveis de inverno -
semanas de tórrido calor. O coronel Edward Tennant, da Companhia das Índias Orientais,
escreveu em 1886: "Em vez de seu azul brilhante, o céu adquire o tom sombrio de
chumbo... Os dias ficam nublados e quentes, formações de nuvens sobem sobre o
oceano no oeste... Finalmente, os raios brilham subitamente entre as colinas, disparando
entre as nuvens que encobrem o mar, e, como um estouro de trovões, as monções
explodem sobre a terra faminta". O dia da chegada das monções foi sempre algo me-
morável. Subandhu, escritor do século VI, escreveu: "Pavões dançaram ao entardecer".
As monções de verão indianas chegam em junho, quando a terra absorve o calor do sol
num ritmo mais rápido do que o oceano. Massas de ar que estão sobre a terra ficam
mais quentes, se expandem e sobem. Com essa subida, são substituídas pelo ar mais
pesado, mais úmido e mais frio do oceano. Os ventos mudam para sudoeste, soprando
em direção à terra, trazendo chuvas pesadas. A Índia central e ocidental e o Paquistão
recebem mais de 90% de suas chuvas durante os três meses das monções de verão. O
sul e o noroeste recebem de 50% a 75% do total anual de monções. Nas regiões semi-
áridas do sul da Ásia, as flutuações das chuvas das monções podem fazer a diferença
entre a vida e a morte. No entanto, com muita freqüência, o problema não é a falta de
chuva, mas o seu ritmo. Uma temporada de monções pode começar com um dilúvio;
depois, pode não haver mais chuva alguma pelo resto do ano. A Índia é um ambiente
muito arriscado para os agricultores, assim como o norte da China (descrito no Capítulo
12).
Mil anos atrás, a índia era uma colcha de retalhos composta por florestas e terra
desmatada irregularmente. Eventos políticos ou guerras poderiam resultar no completo
abandono de grandes áreas que haviam sido cultivadas, e que depois se transformaram
em descampados cobertos de grama. Milhares de anos de interferência humana
devastaram a vegetação natural. Por exemplo, se os agricultores não tivessem
derrubado arbustos e ateado fogo, boa parte da região costeira estaria coberta por
florestas tropicais perenifólias, por florestas tropicais caducifólias ou pela caatinga. Em
1837, o pesquisador britânico W. H. Sykes escreveu a respeito da região campestre em
torno de Mumbai (Bombaim) informando que durante os meses secos de abril e maio "o
país parece um deserto árido. Mas depois das monções... o país se parece com um
grande campo de grãos". Para sobreviver como agricultor em um ambiente de tamanhos
contrastes, onde o calor intenso devastava a terra por meses a fio, e a maior parte da
chuva caía no espaço de poucos meses, era preciso paciência e adaptabilidade, e
também mobilidade.
Como acontece com muita freqüência, nada sabemos sobre o destino de milhões de
agricultores que trabalharam, durante os anos de aquecimento, à sombra dos ataques
de nômades e pilhagens indiscriminadas. Seus assentamentos desapareceram há muito
tempo, muitos deles enterrados debaixo de profundos depósitos de sedimentos de rios.
Como acontece em todos os lugares, as secas e inundações foram ignoradas nas
crônicas da época. Isso não é de se surpreender, pois os séculos de aquecimento foram
uma época de mudanças consideráveis. Enquanto a Europa estava entrando na Alta
Idade Média e os maias lutavam contra a seca, a índia estava descobrindo o Islã. O
comandante do primeiro exército muçulmano a chegar ao semi-árido da região Sind,
hoje Paquistão, não ficou impressionado. Informou que "a água é escassa, há poucas
frutas e muitos ladrões; se forem enviadas apenas algumas tropas, serão trucidadas; se
forem muitas, morrerão de fome". Durante séculos, incursões em busca de saques,
especialmente do reino Ghazni do Afeganistão, sacudiram a Índia. A riqueza obtida com
essas incursões transformou Ghazni em um grande centro de aprendizado islâmico
durante o século XI. Como era de se esperar, os ataques acabaram levando à conquista.
Depois de 1206, as dinastias muçulmanas governaram Délhi por 320 anos. O sultão
Shams-ud-din, que governou de 1211 a 1236, conseguiu manter Gêngis Khan à distância
através da diplomacia.
Esses eventos ocorreram numa época de frio prolongado e condições do tipo La Niña no
sudoeste do Pacífico, que teriam levado a boas chuvas de monções na maior parte dos
anos. Entretanto, nenhum agricultor podia relaxar, pois as secas poderiam chegar e ficar
durante muitos anos sem avisar, como resultado das alterações causadas pelos
fenômenos ENSO no sudoeste do Pacífico, antes que condições mais frias trouxessem de
volta as chuvas abundantes de monções. Por essa razão, deve ter havido períodos
ocasionais muito graves, e há muito esquecidos, de fome causada pela seca. Temos
somente o testemunho dos séculos posteriores para comprovar.
Mesmo depois dos séculos de aquecimento, a quebra das colheitas continuou a ser uma
praga na Índia. Antes que as estradas de ferro e a melhoria das comunicações tornassem
possível o rápido envio de grãos, a fome era endêmica. Em 1344-45, uma grande fome
assolou a Índia de tal forma que até os membros da realeza foram afetados. Escrevendo
a respeito da situação no norte da Índia, Babur, imperador mongol do século XVI,
observou que os vilarejos e até mesmo as cidades tornavam-se "desertas ou ocupadas
num minuto! Se as pessoas de uma grande cidade, até mesmo de uma habitada há
anos, a abandonam, o fazem de tal maneira que seus sinais ou vestígios não duram um
dia ou um dia e meio. Por outro lado, se deitam os olhos sobre um lugar onde possam se
instalar, não precisam cavar para obter cursos d'água ou construir barragens porque
suas plantações já cresceram com a chuva". A ausência de chuvas de monções em
1629, e novamente em 1630, causou o despovoamento de distritos rurais inteiros.
Milhões de pessoas pereceram junto com o gado. Epidemias de cólera destruíram
vilarejos. Outra grande seca ocorreu em 1685-88. Um século depois, a grande fome de
1770 despovoou e assolou um terço de Bengala. As monções do sul asiático também não
apareceram em 1789, e sua ausência foi seguida de grandes fomes que se abateram
sobre a Austrália, o México e o sul da África em 1790. Seiscentas mil pessoas morreram
de fome na região setentrional de Madras, em 1792. Os mortos e os que estavam
morrendo bloqueavam a passagem nas ruas de Calcutá. Um dos motivos para o grande
número de mortos: até o século XVIII, a maior parte da Índia confiava na arriscada
agricultura "seca". Até então, os trabalhos de irrigação não eram algo comum exceto nas
proximidades de rios permanentes.

As monções também desempenharam papel importante entre a vistosa civilização


Khmer do sudeste asiático. Fudan era o nome chinês medieval do baixo Rio Mekong. Seu
delta era uma terra de reinos ricos e assentamentos cercados por aterros onde os
chineses obtinham bronze, ouro e especiarias. No início dos séculos de aquecimento, o
centro do poder político e econômico havia sido transferido para a região do Tonle Sap,
bacia situada na planície central do Camboja. O Tonle Sap (Grande Lago de Água Fresca)
é um grande lago de águas rasas durante a estação das secas, cobrindo cerca de 3 mil
quilômetros quadrados e cerca de 66 quilômetros de comprimento. Um rio com o mesmo
nome faz a ligação do lago com o Mekong. Durante as chuvas de monções, entre agosto
e outubro, cai tanta água sobre o Mekong que o rio inverte seu curso e enche o Tonle
Sapo O nível da água do lago sobe rapidamente, inundando campos e florestas vizinhos,
cobrindo eventualmente algo como 16 mil quilômetros quadrados com profundidades
que chegam a nove metros. O Tonle Sap tem atualmente entre 133 e 167 quilômetros de
comprimento e até 50 quilômetros de largura. Os peixes do Tonle Sap procriam na
floresta alagada ao redor do lago. Muitos deles nadam contra a corrente até chegar ao
Mekong. No fim de outubro, as águas recuam lentamente, aprisionando milhões de
peixes em baías barrentas. O ambiente generoso do Tonle Sap era um paraíso para os
plantadores de arroz e gerava comida suficiente para alimentar uma civilização rica e
resplandecente - desde que os governantes locais construíssem sistemas para controlar
a água e depois administrassem seus suprimentos.
O Tonle Sap foi motivo de disputa entre senhores e de guerras ferrenhas durante muitos
séculos. Contudo, no ano 802, um dinâmico monarca khmer, Jayavarman II, derrotou
seus oponentes e construiu o estado Angkor, unido por crenças hindus, além da força e
do pagamento de tributos. Jayavarman consolidou seu reino proclamando-se rei-deus;
seus súditos o veneravam como a uma divindade. A totalidade de recursos de um
governo cada vez mais centralizado foi dedicada ao culto do divino monarca. Todos,
fossem generais, nobres, sacerdotes ou pessoas comuns tinham que subordinar suas
ambições à necessidade de perpetuar a existência do rei na Terra e sua identidade como
deus naquela e em outra vida. Jayavarman II governou durante 45 anos, sendo o
primeiro de pelo menos três dinastias de reis khmers que comandaram um estado que
atingiu o auge da prosperidade durante as grandes monções de 900 a 1200, o Período
de Aquecimento Medieval.
Jayavarman II e seus sucessores se apresentavam como reencarnações do deus-criador
hindu Shiva: o varman, ou protetor. Sob eles, uma burocracia estritamente controlada
por famílias de condição social elevada supervisionava todos os aspectos da vida khmer
e detinha a propriedade de terras lavradas por outros. A agricultura local produzia
excedentes suficientes para o abastecimento durante um imenso e longo processo de
construção do templo. Durante os meses de seca, todo o reino se dedicava à construção
de palácios e templos cada vez mais esplêndidos, construídos sobre montes artificiais no
centro do universo khmer, área conhecida atualmente como Angkor.
Os templos dos governantes khmers parecem gigantescos diante dos templos
construídos pelos faraós egípcios e pelos senhores maias. Quatro anos após sua
ascensão, em 1113, o rei Suryavarman II iniciou a construção de Angkor Wat, uma obra-
prima de beleza, prodígio e esplendor. Cada detalhe dessa estrutura extraordinária
reproduz parte do mundo celeste de uma maneira terrestre - um continente central
conhecido como Jambudvipa, com Meru, a montanha cósmica, erguendo-se no centro - a
torre mais alta de Angkor Wat. Quatro torres menores representam os picos menores de
Meru, com a parede circundante representando a montanha na beira do mundo; o fosso
exterior, o oceano mais adiante. Alguns metros de baixos-relevos soberbos retratam
Suryavarman recebendo funcionários graduados, atravessando uma floresta sobre um
elefante acompanhado por muitos soldados armados. Criadas celestiais, esguias e
sensuais, dançam sugerindo prazeres do paraíso.
Outro monarca, Jayavarman VII, construiu uma nova capital gigantesca na vizinha
Angkor Thom, em 1181. Tanto ele quanto seus sucessores imediatos continuaram a
gastar sem limites. Ele dedicou o templo Ta Proehm à sua mãe. Uma inscrição registrou
que cerca de 12 mil pessoas trabalharam no templo, vivendo do arroz plantado por 66
mil agricultores, uma indicação do tamanho do esforço para manter o que só pode ser
descrito como um reino estranhamente centrípeta. Em todas as civilizações pré-
industriais, como, por exemplo, as dos egípcios e maias, tudo fluía para o centro, pois os
governantes controlavam o trabalho de seus governados. O império khmer foi um
exemplo extremo dessa centralização, pois tudo e todos eram devotados ao rei divino e
sua imortalidade celestial. Os governantes khmers recolhiam impostos em trabalho e em
grãos, impunham tributos e incorporavam o trabalho de seus súditos para a construção
de seus templos, quaisquer que fossem os custos. O resultado disso foi que seus
domínios centrípetas viviam sobre o fio da navalha da sustentabilidade.
O reino se equilibrava sobre um sistema de águas cuidadosamente planejado,
alimentado pelas chuvas anuais das monções. As águas das cheias ajudavam a produção
de arroz à margem do lago, mas a rede de administração de água controlava a água que
vinha das colinas, assim como a dos céus. Angkor Wat e outros templos khmers fascinam
igualmente arqueólogos e turistas, mas somente em anos recentes é que os cientistas
conseguiram um retrato extenso e detalhado do estupendo trabalho com a água que
sustentou a civilização khmer. Os reis de Angkor e suas obras extensas dependiam de
grandes colheitas ao longo de todo o ano; estas, por sua vez, precisavam de enormes
quantidades de água e extensos sistemas de irrigação. Uma imagem feita com radar
pelo ônibus espacial Endeavor, em 1994, revelaram segmentos do chamado Grande
Canal do Norte, que transferia a água das colinas ao norte para dois reservatórios (ver
boxe). Atualmente, uma equipe internacional de pesquisadores comandada por Roland
Fletcher, Christophe Pottier e outros está utilizando mais imagens de radar da NASA,
tecnologia GPS de ponta, e até mesmo aeronaves ultraleves para mapear a imensa
paisagem artificial de moradias e reservatórios de água de Angkor, antes ligados por
pequenas estradas e canais, estendendo-se por cerca de mil quilômetros quadrados. Três
grandes reservatórios, ou barays, acalmavam e armazenavam as águas de três rios, e
depois as distribuíam de acordo com a necessidade para as piscinas cerimoniais e locais
de armazenagem dos grandes templos; faziam-no também através de canais para
campos irrigados na metade sul de Angkor; e como forma de deter a água das
inundações. Os reservatórios teriam fornecido água suficiente para algo entre cem e
duzentas mil pessoas, de uma população estimada em 750 mil. Muitos viviam em
arrozais independentes que captavam a água durante as monções, mas os barays
tinham uma função importante: armazenavam a água que poderia ser utilizada em anos
de colheitas pobres.
O império de Angkor estava em declínio no século XV, e a Angkor urbana foi abandonada
no final do século XVI. O motivo continua a ser tema de vigorosa controvérsia. Teriam as
rotas de comércio se afastado de Angkor? Teriam os monarcas que construíam templos
levado à falência um reino exaurido? Teria a crescente influência do budismo eclipsado a
influência dos reis-deuses hindus? É provável que uma queda abrupta nas colheitas
tenha sido um fator decisivo. O entupimento dos canais durante a época das secas pode
ter bloqueado o fornecimento de água, resultado da erosão do solo provocada pelo
amplo desmatamento. Atualmente, e como resultado disso, o rio principal está mais de
cinco metros abaixo da antiga superfície do solo. O Grande Projeto Angkor, conduzido
por Roland Fletcher, está estudando os canais e barragens. Fletcher argumenta que o
sistema de administração de água de Angkor tornou-se ainda mais complexo com o
aumento da população. Ao cabo de muitas gerações, ele estava tão elaborado, tão
gigantesco, que não havia como vistoriá-lo para compensar os extremos de inundações
e secas inevitáveis numa zona de monções. O Khmer criou um ambiente frágil,
totalmente artificial, que era em última instância tão insustentável quanto magnífico.
Enquanto prevaleceram as condições de frio e do tipo La Nina, as monções de verão
trouxeram boas chuvas; porém, quando o Período de Aquecimento Medieval deu lugar à
Pequena Idade do Gelo, as condições climáticas devem ter se tornado mais voláteis, com
maior incidência de fenômenos El Niño e secas. E o sistema supertaxado de
administração de água de Angkor teria sido incapaz de atender à insaciável demanda
dos reis-deuses. O colapso não teria vindo de uma vez, mas como uma morte lenta,
quando as pessoas se dispersaram gradualmente para assentamentos menores. A
arquitetônica obra-prima de Angkor foi abandonada, tais como as montanhas maias de
água do Yucatán.

Arqueologia do espaço
Fotografias de satélite e imagens relacionadas proporcionam perspectivas fascinantes do
passado a partir do espaço. Essas tecnologias são especialmente úteis para o estudo da
utilização de terras antigas e para localizar características específicas como fortificações,
canais de irrigação abandonados há muito tempo, e reservatórios. Grande número de
instrumentos diferentes pode escanear o espectro eletromagnético emitido pela
superfície da terra. O scanner termal infravermelho multiespectral - TIMS (Thermal
Infrared Multispectral Scanner) usa um scanner de seis canais para medir a radiação
termal do solo com grande exatidão. A temperatura do solo e de outros sedimentos é
invisível aos olhos humanos, mas foram registradas com tanta facilidade pelo TIMS que
diferenças mínimas na textura e umidade do solo revelaram sistemas de campos antigos
e estradas encobertos pela vegetação nas planícies maias. A vista aérea das imagens
forneceu informações cruciais sobre a agricultura intensiva do ambiente de floresta
tropical realizada pelos agricultores maias, que jamais poderiam ter sido detectadas no
chão.
Um radar de abertura sintética (SAR - Synthetic Aperture Radar) emite ondas de energia
para a superfície da terra, que fornece sinais de volta refletindo características do solo
há muito esquecidas. O SAR é especialmente útil para detectar características lineares e
geométricas, como os canais, reservatórios e estradas que circundam Angkor Wat,
detectados pelo ônibus espacial Columbia, em 1981. Os instrumentos de satélite podem
também ser programados para detectar tipos específicos de funcionalidade, como os
canais. No Deserto do Saara, o Columbia foi capaz de traçar cursos d'água escondidos há
muito tempo e vales enterrados no coração do deserto. Ao investigar o solo e cavar em
desfiladeiros escondidos, os geólogos ficaram atônitos ao recuperar machados de pedra
de duzentos mil anos de idade, de uma época em que o Saara era mais bem irrigado do
que hoje em dia.
As imagens por satélite são caras, mas fornecem perspectivas únicas, e às vezes
inesperadas, da exploração humana da paisagem em uma escala muito maior do que se
poderia esperar. O povo ancestral de Chaco Canyon, no Novo México, construiu uma
elaborada rede de estradas que convergiam para o cânion. Ninguém percebeu o quanto
era extenso o sistema de estradas até que fotografias feitas por satélite revelaram mais
de 600 quilômetros de segmentos incompletos, em grande parte invisíveis, exceto do
espaço. O propósito dessa rede de estradas permanece um grande mistério, pois as
estradas não eram "estradas" no sentido ocidental, com destinos claros. Provavelmente
desempenhavam um papel na definição de uma paisagem simbólica agora esquecida.

CAPÍTULO 12
A Tristeza da China

A desordem, como uma grande inundação, se espalha por todo o império, e quem vai
mudar essa situação para você?
- CONFÚCIO, Analectos

Bacia de Huang-ho, norte da China, final de inverno do ano 950. O vento atravessa a
roupa das pessoas, congelando-as até os ossos e colando-lhes os olhos. Indiferentes ao
frio e à poeira fina, os agricultores trabalham seus áridos pedaços de terra, com tecidos
grossos protegendo os rostos. Eles reviram o solo, quebrando torrões de terra hora após
hora sem descanso. Os homens trabalham lentamente, deliberadamente, estoicamente,
como se soubessem que seus esforços são vãos. A colheita do ano anterior havia sido
muito mais fraca do que o habitual, depois de um verão quente, incomumente árido. Há
meses as pessoas estão morrendo de fome e disenteria, mas os ventos não dão trégua,
o céu cinza, a poeira se acumulando sem piedade no árido solo que acabou de ser
revolvido. Um dos agricultores, cansado, olha para a escuridão acima de sua cabeça,
procurando em vão por um sinal de chuva de primavera. Há mais fome pela frente.
Eles chamam o Huang-ho (Rio Amarelo) de "Tristeza da China" ou "Rio das Lamentações"
porque matou milhões de pessoas com suas inundações repentinas e secas duradouras.
Poucos rios são mais propensos ao desastre do que o Rio Amarello, segundo maior rio da
China, com 5.464 km, atrás apenas do Yang-tse. O Huang-ho nasce nas montanhas
Kunlun, ao sul do deserto de Gobi; corre através de desfiladeiros profundos, atravessa o
deserto de Ordos antes de surgir em uma imensa bacia de drenagem esculpida em
extensas planícies cobertas com a poeira fina, soprada pelo vento, conhecida pelos
geólogos como loess. Ali o grande rio fica coberto por uma grossa camada de
sedimentos finos que o deixam com uma cor amarelada. A cerca de 150 km dos canais
labirínticos de sua foz, a quantidade de sedimentos excede a de todos os rios do mundo,
exceto a do Ganges-Brahmaputra e a do Amazonas. Com chuvas de monções irregulares
e grandes secas, os 865 mil quilômetros quadrados da Bacia do Huang-ho têm sido um
teste para a miséria humana há mais de sete mil anos. Ali, as forças climáticas globais
ajudaram a decidir o destino das sociedades chinesas medievais.

Mapa mostrando as localidades e os povos mencionados neste capítulo. Algumas regiões


menores foram omitidas para maior clareza.

No norte da China, as monções e as forças que as conduzem moldaram o clima dos


séculos de aquecimento. Como sempre, o registro climático desse período nos chega, na
maior parte, através de variáveis. O registro documental é longo. Por mais de mil anos,
funcionários japoneses e core anos registraram dados sobre o florescimento das
cerejeiras na primavera, registro histórico cuja duração rivaliza com as mais longas da
Europa. Combinando arquivos desse tipo com variáveis, os climatologistas chineses
desenharam uma curva com as temperaturas de inverno da China oriental, que mostra
uma elevação acima da média entre o ano 950 e o de 1300. O Período de Aquecimento
Medieval foi uma realidade nessa parte do mundo. Contudo, como sempre acontece na
Ásia oriental, o papel determinante no jogo climático desses quatro séculos foi
desempenhado pelas monções, alimentadas pelo Hot Pool do Pacífico.

Temperaturas de inverno da China Oriental, 1 - 1995 d.C.

A linha escura corresponde à estimativa, com um desvio-padrão mostrado de cada lado.


O gráfico baseia-se principalmente em registros históricos.

As monções da Ásia oriental têm laços estreitos com a Oscilação do Sul, os fenômenos El
Niño e La Niña. Um programa de pesquisa de longo prazo liderado por Wang Shao-wu, da
Universidade de Pequim, mostrou que quando o El Niño aquece o Pacífico tropical
oriental no inverno, a crista subtropical fica mais forte e muda em direção ao ocidente no
verão seguinte. Esse movimento bloqueia as monções de verão, impedindo que se
aproximem até onde chegariam normalmente no norte, por isso, a Bacia do Huang-ho
sofre com chuvas esparsas e secas. Desde 1870, observações meteorológicas de
estações do norte da China mostraram uma ligação entre os fenômenos El Niño e a seca
generalizada. As monções da Ásia oriental ficam paradas sobre o médio e o baixo Yang-
tse. Ali caem chuvas pesadas em junho e julho, enquanto o norte sofre com uma seca
intensa. Com a movimentação da Oscilação do Sul e a chegada do fenômeno La Niña,
frio e seco, sobre o Pacífico, a crista subtropical não bloqueia mais o movimento das
monções em direção ao norte, de forma que as chuvas de verão caem no norte
causando amplas inundações, com condições mais secas no sul. Os contrastes climáticos
provocados pelas monções ligadas ao fenômeno ENSO são tão marcantes que existiram
na verdade duas Chinas durante mais de três mil anos, anteriores ao ano 1000 a.C. No
sul, o visitante ficava impressionado com o movimentado comércio do vale do Rio Yang-
tse. No norte, agricultores de subsistência paupérrimos lutavam com as chuvas incertas.
(É necessário advertir que as ligações entre os fenômenos ENSO e as monções; entre os
El Niños, Las Niñas e as condições climáticas na China são, para dizer o mínimo,
complexas e ainda pouco compreendidas.)
Quarenta e cinco por cento da população da China vive nas províncias ao norte do Yang-
tse, em regiões onde as chuvas podem sofrer uma variação de 30% de ano para ano. O
Vale do Huang-ho recebe 70% dos 500 milímetros de chuvas anuais entre os meses de
maio e setembro, durante o calor do verão. Invernos fortes e secos com a neve soprando
somam mais um desafio para os agricultores do norte. Há milhares de anos, eles colhem
trigo em junho, depois painço e sorgo, em setembro. Se a chuva irregular da primavera
não aparece, a colheita de trigo é pobre. Se as monções de verão não vêm, então não há
colheita alguma pelo ano todo. O mês crítico é junho, com poucas chuvas sendo a
grande probabilidade. Por exemplo: na época moderna, Pequim recebeu poucas chuvas
no mês de junho em vinte e um dos vinte e cinco anos. Em cinco desses anos não houve
uma gota sequer de chuva. A incerteza em relação à chuva e extremos climáticos
violentos tornaram o Huang-ho um ambiente arriscado para os agricultores de cereais,
mesmo em anos bons. Todos vivem à mercê das monções.
Mil anos atrás, as temperaturas eram um pouco mais elevadas no norte, onde o Período
de Aquecimento Medieval estava em pleno andamento. O geógrafo americano George
Cressey escreveu em 1934: "Com chuvas mais adequadas, [a região de solo loess]
poderia se constituir em um dos solos mais produtivos do mundo". Para maiores
detalhes, precisamos confiar nas variáveis climáticas, que ainda são poucas e esparsas.
Uma dessas variáveis vem do outro lado da China, do lago Huguangyan, na Península
Leizhou, no sul tropical. O lago fechado fica em uma região onde 90% das chuvas anuais
caem entre os meses de abril e outubro, sendo a quantidade determinada pela posição
de intensidade da crista subtropical no Pacífico ocidental. As concentrações de car-
bonatos nos sedimentos do lago variam consideravelmente ao longo do tempo,
provavelmente como conseqüência da mudança nos índices de evaporação e flutuações
das chuvas. Altos níveis de carbonatos significando condições de seca ocorrem em
Huguangyan entre os anos 880 e 1260, o que coincide com um amplo índice de baixa
umidade registrada na China oriental e grandes mudanças no nível dos lagos em todo o
país.
As secas chinesas têm até uma ligação global. À milhares de quilômetros para o
nordeste, o climatologista Lonnie Thompson, da Ohio State University, conhecido por seu
trabalho com as geleiras andinas (Capítulo 9), recolheu uma série de testemunhos da
calota glacial de Guliya no Planalto de Qinghai- Tibete, onde as geleiras cobrem uma
área de 57 mil quilômetros quadrados. Guliya fica nas Montanhas Kunlun ocidentais. Os
132 metros de um testemunho cobrem os últimos dois mil anos e revelam um longo
período de seca entre os anos 1075 e 1375, seguidos por um intervalo de quase quatro
séculos de tempo mais úmido. Thompson ficou fascinado ao descobrir que a seca de
Guliya coincidia quase exatamente com uma grande seca ocorrida nos séculos XII e XIII,
a 20 mil quilômetros de distância, nas geleiras de Quelccaya, nos Andes da América do
Sul.
Enquanto Guliya liga a América do Sul e a Ásia, testemunhos retirados do lago
Huguangyan, na zona costeira do sudeste da China, proporcionam um registro de alta
resolução da mudança climática no sul e outra conexão global. A seqüência recua mais
de 16 mil anos, medidos pelo estudo da mudança das propriedades magnéticas e do
conteúdo de titânio, este último um registro de deposição de sedimentos nos depósitos
do lago, como variáveis que medem a força dos secos ventos de inverno. Durante os
períodos de aquecimento no hemisfério norte, as monções de verão eram mais fortes e
as monções de inverno eram fracas. Quando a ITCZ ia para o sul, como ocorre durante
os anos do El Niño, as monções de verão eram fracas e havia menos chuva. Os materiais
de Huguangyan mostram uma mudança geral para um clima mais seco e mais frio, entre
os anos 750 e 900, com uma série de três secas plurianuais dentro daquele período
geralmente seco.
É notável que essas secas coincidam com os ciclos de seca registrados nos materiais
marítimos da Bacia de Cariaco, na costa venezuelana, descrita no Capítulo 8. Os
registros de Cariaco relatam secas plurianuais que começaram já no ano 760 e
retornaram em intervalos de aproximadamente cinqüenta anos: 760, 820, 860 e 910. As
secas em Cariaco ocorreram quando a ITCZ caminhou em direção ao sul, como na China,
em uma época de condições duradouras do La Nina no século X, que conhecemos com
corais das Ilhas Palmyra. As condições mais frias no Pacífico tropical normalmente
significam que pesadas chuvas de monções estão caindo no norte da China, enquanto o
sul está seco, exatamente de acordo com o padrão observado nas poucas variáveis ali
encontradas.
Para os chineses do norte, o Período de Aquecimento Medieval pode ter sido mais
quente, mas foi uma época de violentas mudanças climáticas alimentadas a milhares de
quilômetros de distância, que trouxeram ciclos de seca prolongados ou chuvas
torrenciais e que inundaram milhares de hectares da Bacia do Huang-ho.

A agricultura medieval na Bacia do Huang-ho convivia com alterações climáticas súbitas


e com os pecados dos agricultores anteriores. A loess forma uma camada de terra fina e
macia, homogênea e porosa, que é fácil de cultivar com bastões de cavar e pás feitas
com osso do quarto dianteiro do boi. Ali, a cultura de cereais teve início há pelo menos
7.500 anos, em meio a uma paisagem verdejante, coberta por florestas, onde as chuvas
de monções do verão e o inverno seco alimentavam os pequenos assentamentos
agrícolas. As chuvas eram mais abundantes do que hoje; as secas foram um problema
apenas esporádico por mais de três mil anos. Pesquisas arqueológicas localizaram
dezenas de vilarejos prósperos em uma paisagem densamente povoada datando de
anos anteriores a 2000 a.C. Então, subitamente, o número de sítios arqueológicos
encolheu dramaticamente entre 2060 e 1600 a.C., quando condições de maior aridez
tomaram conta da região. A densidade populacional caiu rapidamente, as áreas menos
férteis foram abandonadas, e as pessoas deixaram as regiões mais altas. Pólen de
árvores e plantas da extensa camada de argila dos vales mostra que as florestas deram
lugar a gramíneas e arbustos como conseqüência da seca prolongada e provavelmente
devido às clareiras abertas pelos homens. Durante os dois mil anos seguintes, a seca
persistiu, fazendo da agricultura uma atividade marginal, quando muito. Os
sobreviventes do que deve ter sido uma grande catástrofe se voltaram para a criação de
rebanhos na paisagem agora árida. Somente dois mil anos atrás é que condições de
maior umidade voltaram a prevalecer e a atividade agrícola foi retomada.
A alteração climática de quatro mil anos atrás foi um acontecimento em escala milenar,
mas o norte da China nunca foi muito úmido, por isso o que poderia ter sido o paraíso
para os agricultores de cereais nunca realizou todo o seu potencial. Eles estavam à
mercê das imprevisíveis chuvas de monções de verão e de um ambiente caprichoso que
a seca, o desmatamento e a criação de ovelhas modificaram fundamentalmente. Como a
população de agricultores aumentou durante o segundo milênio, e a primordial
civilização Shang floresceu ao longo do Huang-ho e de seu afluente, o Rio Wei, boa parte
do que restava da floresta desapareceu, com conseqüências desastrosas. Pesadas
chuvas de verão lavaram terrenos cultivados nas encostas dos morros, descendo para o
rio, deixando atrás de si uma paisagem adulterada pela erosão. Ao longo dos séculos, os
sedimentos foram se acumulando no rio, contribuindo para o aumento das inundações
de verão na planície. O canal do rio em si nunca ficou estacionário, mudando súbita e
arbitrariamente. Mesmo quando as chuvas eram abundantes, essa era uma região de
alto risco para os agricultores, apesar dos canais de irrigação de pequena escala e dos
numerosos poços construídos e mantidos pelos vilarejos e pelas famílias. As colheitas
eram fracas, refletidas em milhares de anos de uma economia política baseada na
agricultura de pequena escala, de aldeões que moravam em assentamentos compactos
localizados em áreas mais elevadas.
As loess das montanhas e do delta do Rio Amarelo são únicas, não pela fertilidade do
solo, mas devido à freqüência das inundações desastrosas e especialmente das secas.
As secas e inundações históricas fazem a diferença, pois as condições pouco mudaram
mil anos depois, no final do século XIX e início do século XX. No ano 595, o imperador
Yang-Kien foi forçado a mudar sua corte de Xi'an para Henan porque não havia alimento
suficiente para todos. As secas do século XIX tiveram proporções memoráveis e foram
acentuadas pela inquietação política. Entre 1877-79, um terço da população da Província
de Shaanxi morreu de doenças ligadas à fome e à desnutrição.
Entre os anos 1897-1901 ocorreu o ciclo de seca selvagem. Morreram mais de dois
milhões de pessoas, de uma população total de aproximadamente 8,5 milhões. Um
jornalista americano, Francis Nichols, viajou até Xi'an, a antiga capital da China, como
"delegado da fome" do Christian Herald de Nova York, em 1901. Uma seca que se
prolongou por três anos, combinada com o isolamento de Shaanxi da costa, e com o fato
de a região ser cercada por montanhas, tornou virtualmente impossível o transporte de
comida de outras regiões. Os solos de loesse haviam se transformado "em um pó
branco, seco, onde as plantações secam, definham e morrem". Não choveu uma única
vez entre o verão de 1898 e maio de 1901. As pequenas reservas de alimento dos
agricultores logo se esgotaram. Os poços e rios secaram. O país tornou-se um grande
deserto. O preço de um saco de trigo subiu quinze vezes em uma semana.
Com os campos ressecados, milhares de agricultores foram para Xi'an - 300 mil deles só
em 1900-01. O governo proibiu que adentrassem os muros da cidade, por isso eles
acamparam em cavernas feitas nos bancos dos rios e nos campos. Comiam grama e
ervas. Nichols visitou "cavernas escuras, horrorosas" em torno de Xi'an, quase todas
vazias, seus moradores mortos há muito tempo. Disenteria e cólera seguiram-se à fome.
No auge do desastre, funcionários do governo estavam enterrando mais de 600 corpos
por dia. Nichols relata que o canibalismo tornou-se inevitável. "Um tipo horroroso de
almôndega, feita com os corpos de seres humanos que haviam morrido de fome, tornou-
se alimento básico, vendido pelo equivalente a quatro centavos de dólar americano"
As autoridades receberam dinheiro de Pequim e montaram cozinhas de sopa, mas o
principal problema era a falta de comida local para alimentar os que estavam morrendo.
Famílias inteiras sobreviviam comendo carne de gatos e cachorros, e também de
cavalos, e depois começavam a morrer lentamente. Nichols também viajou pelo interior.
''A cada 500 metros, um vilarejo surgia no meio do deserto branco, sem árvores, que se
estendia para o norte, leste e oeste como um oceano sem árvores. A imensa planície
estava em silêncio... Não havia agricultores nos campos... A planície estava em silêncio
porque seus habitantes estavam mortos.
As inundações também tiveram sua parte. Fortes chuvas de monções castigaram a Bacia
de Huang-ho no início do verão de 1898. O nível do rio subiu e a água extravasou em
Shouzhang, e depois rio abaixo. Mais de dois mil vilarejos e 7.700 km2 de terra arável
desapareceram debaixo d'água. Milhões de pessoas foram embora, muitas pararam em
diques, onde viveram de folhas de salgueiro, sobras de trigo e sementes de algodão.
Dezenas de milhares morreram. Outra inundação catastrófica, em agosto de 1931,
matou cerca de 3,7 milhões de pessoas.
Essas secas e inundações ocorreram quando o Huang-ho ainda era uma região agrícola
pré-industrial. Boa parte da destruição pode ser creditada a um trabalho de irrigação
malfeito, à péssima administração da água e à corrupção, mas o potencial para o
desastre sempre esteve presente. É ainda maior atualmente, pois o Huang-ho é um
exemplo extremo de crise hidrológica. O rio está prestes a atingir um ponto em que não
irá mais suportar qualquer exploração da água. No início da década de 1900, o período
de baixa das águas era de aproximadamente 40 dias. Atualmente, esse período dura 200
dias, o que coloca muita tensão sobre os mais de 100 milhões de pessoas que vivem na
Bacia de Huang-ho, e em sua capacidade de manter plantações, para não falar da
redução das espécies e habitats de água doce.

Ano 850 na corte chinesa. A longa linhagem de membros das tribos do norte, chefiados
por um khan mongol ricamente vestido, desfila por uma estrada de terra batida até o
palácio do imperador. Altos funcionários chineses cercam solenemente o líder visitante.
Eles foram ao encontro dos enviados na fronteira e os acompanharam até a capital. A
pesada coluna desmonta. As mercadorias são descarregadas e guardadas, enquanto os
funcionários da corte acompanham os visitantes segundo as normas de etiqueta
apropriadas para sua aparência. Quando chega o dia da audiência, o khan e seus
principais acólitos são levados à presença do imperador. Com cuidado displicente, eles
executam os rituais esperados e se ajoelham diante do imperador num gesto simbólico
de submissão. Os visitantes recebem permissão para conversar brevemente com o
imperador; couros, cavalos e alguns falcões são oferecidos como presentes. Em troca,
recebem ricos presentes do anfitrião real. A audiência logo termina. Os enviados
supervisionados de perto recebem permissão para fazer negócios com os mercadores
chineses durante três a cinco dias.
O imperador chinês, que tinha um Mandato do Céu para governar seus domínios,
estabeleceu um exemplo de sociedade e governo ordeiro que encorajaria os estrangeiros
a serem "transformados". Acreditava-se que suas ações virtuosas exerciam uma atração
irresistível sobre os "bárbaros", que viviam fora do âmbito da civilização chinesa.
Essa era a visão chinesa idealizada de um império autossuficiente, indiferente às terras
estrangeiras. A realidade, entretanto, era muito mais complexa e enraizada em séculos
de interação complicada e freqüentemente violenta entre os chineses e os povos
nômades das planícies do norte.
Quando os ciclos de seca irregulares registrados em amostras retiradas de lagos e de
gelo se abateram sobre o leste da Ásia durante o século IX, a China era governada pelos
imperadores da dinastia T'ang. Essa dinastia, que permaneceu no poder durante três
séculos (618-907), representou o ponto alto da civilização chinesa. Os primeiros
senhores T'ang, estabelecidos na cidade de Ch'ang-an (atual Xi'an), conseguiram seu
império através da conquista e mantiveram contatos comerciais por terra e por mar com
a índia e o sudoeste da Ásia. A Rota da Seda através da Eurásia gozava de grande
prosperidade. Milhares de estrangeiros viviam em Ch'ang-an, que na época era uma das
grandes cidades cosmopolitas do mundo. A Caxemira e o Nepal, o Vietnã, Japão e Coréia
pagavam tributos aos T'ang, enquanto as tribos nômades da Eurásia chamavam o
imperador de Tian Kehan ("Khan Celestial"). Os imperadores T'ang; foram notáveis por
sua tolerância religiosa durante três séculos, período em que o budismo tornou-se parte
da cultura chinesa, foi inventada a impressão, a literatura e a arte gozaram uma idade
de ouro. O domínio T'ang prosperou por causa de um sistema de governo que se apoiava
em funcionários de carreira treinados, que não tinham base territorial ou lealdades
locais. Muitos deles eram burocratas-estudiosos, que agiam como intermediários entre o
governo e os cidadãos comuns.
Em meados do século XVIII os T'ang estavam perdendo o poder, depois de uma derrota
para os califas abássidas em Talas, no Cazaquistão. Eles estavam lutando pelo controle
de rotas importantes para o comércio na Ásia central. Os T'ang acabaram sendo
expulsos da Ásia central e a China não conseguiu recuperar seu poder na região até a
época dos mongóis. No final do século IX, uma série de rebeliões chefiadas por senhores
das províncias enfraqueceu a autoridade central do governo. O último imperador foi
deposto no ano 907.
Mas o inimigo mais poderoso da dinastia T'ang talvez tenha sido o frio e a seca e as
fortes monções de inverno com menos chuvas no verão. Se a história posterior pode
servir de guia, a quebra das colheitas e a fome contribuíram para as rebeliões e a
desordem social. Os T'ang talvez tivessem ficado em uma situação de impotência para
manter o controle central em uma condição de seca persistente e amplamente
disseminada pelas terras de loess ao redor de Ch'ang-an, da mesma forma que a
civilização maia do outro lado do mundo desabou em uma grande área em uma época
de secas voláteis. A tarefa de fornecer alimento para milhões de pessoas talvez
estivesse além da capacidade do governo da época. Como observou Francis Nicholson, o
mesmo tipo de crise colocou de joelhos essa parte da China já na virada do século XX.
Depois do ano 900, a China fragmentou-se em cinco dinastias setentrionais e dez reinos
meridionais. Com rapidez espantosa, senhores ambiciosos assumiram o poder e com a
mesma rapidez foram destronados. Diante do vácuo político, a situação ficaria difícil
mesmo numa época muito boa. Mas, se acreditarmos nas seqüências climáticas, a China
setentrional também foi assolada por condições muito secas e incomuns, e por secas
prolongadas, freqüentemente muito sérias. As perdas agrícolas e a fome resultante
devem ter acrescentado variáveis complexas a uma fronteira já volátil entre terras
habitadas por agricultores assentados e pastores nômades.
Costumamos pensar nas fronteiras do norte da China como uma entidade rígida, definida
pela Grande Muralha. A realidade era muito diferente. Os T'ang nunca se impuseram
sobre uma fronteira setentrional claramente demarcada, mas sobre um mero
agrupamento de fortalezas e colônias militares e alguns postos de fronteira fortificados
(A Grande Muralha atual foi construída durante a dinastia Ming, depois de 1449.). Eles
haviam acreditado na defesa em profundidade, apoiada por exércitos poderosos nas
províncias distantes da fronteira. Também mantiveram um complexo conjunto de
acordos com as tribos dos distritos fronteiriços, onde os líderes tribais mantinham sua
independência mas recebiam títulos e condecorações chinesas. Um grande número de
pessoas proeminentes dessas tribos freqüentava a corte T'ang, mas o contato constante
não os transformou em chineses Han. Em vez disso, eles adquiriram um conhecimento
em primeira mão da corte e das instituições chinesas e dos métodos administrativos, o
que lhes seria muito útil em épocas posteriores. Durante séculos, a fronteira foi em parte
um limite ecológico entre a paisagem de agricultores assentados e o ambiente onde
apenas os pastores conseguiam prosperar. Mas a fronteira era também uma região
multifacetada, em que os chineses Han e os nômades viviam amigavelmente, enquanto
as identidades culturais e étnicas permaneciam distintas. Quando a dinastia T'ang
vacilou, a fronteira continuou permeável, mas passou a ser uma região dominada por
líderes militares.
As secas dos séculos mais quentes permaneceram por longos períodos de tempo na
América do Norte e nos Andes e, se as amostras de Guliya e Huguangyan servem de
alguma orientação, o mesmo aconteceu na Ásia. As secas não foram contínuas, mas
cíclicas, o que resultou em efeitos perigosos sobre as terras de loesse das fronteiras do
norte. Quando um ano mais úmido substituía subitamente um longo ciclo de seca, as
cheias inundavam os campos áridos e em pouco tempo colocavam em desuso o trabalho
de irrigação. Nessa região de mudanças dramáticas das chuvas, os séculos do Período de
Aquecimento Medieval foram extremamente voláteis climaticamente, talvez muito mais
do que em qualquer outro lugar da Terra. Os meandros das secas e das inundações
devem ter reverberado pelos reinos da política e da guerra, pois tanto os agricultores
quanto os nômades viviam em condições de subsistência e à mercê do clima, quaisquer
que fossem as proezas dos grandes senhores e exércitos combatentes.
Os ciclos extremos do clima medieval também afetaram os relacionamentos complexos
entre os povos nômades da Eurásia oriental, e entre aqueles que viviam nos
assentamentos. O mais poderoso desses grupos tribais era o khitan, pastores e
cavaleiros cujas origens eram muito remotas. Como ocorria com outros povos nômades,
suas vidas eram governadas em parte pelas chuvas da estepe, pela rotação da bomba
do deserto. Em períodos de seca, eles seguiam para o sul em busca de terras mais bem
irrigadas e terras ocupadas por assentamentos. Após o ano 840, e diante do
enfraquecimento dos T'ang durante os ciclos de seca, os khitans derrotaram seus
vizinhos tribais e então voltaram sua atenção para os poderosos estados do sul. No
início, os khitans se contentaram com saques e incursões temporárias sobre as terras
ocupadas; e, depois disso, recuavam para o norte novamente. Em que medida esses
movimentos foram conseqüência das secas na estepe, nós não sabemos; porém, a julgar
por séculos de história dos nômades, muitas das incursões mais sérias certamente
ocorreram durante os anos de seca, quando havia pouca oferta de pastos.
O colapso do poder dos T'ang e a crescente rivalidade entre diferentes líderes militares
na fronteira levaram o Khitan a se unir. Com a ascensão de A-pao-chi como Grande Khan,
em 906-7, os khitans embarcaram em ambiciosas campanhas de conquista. Em vinte
anos, haviam se tornado senhores dos povos nômades da Mongólia e da Manchúria. Seu
reino era muito bem organizado, com cidades para os chineses das regiões de fronteira,
inúmeras indústrias e áreas para assentamentos agrícolas, e uma forma de organização
dupla, que acomodava os estilos de vida chinês e nômade. O padrão da vida nômade
estava mudando, pois os agricultores e os pastores estavam se tornando cada vez mais
interdependentes, uma boa forma de segurança em tempos climaticamente voláteis.
A-pao-chi morreu em 926, e seria seguido pelos Liao, Hsia e Chin durante um período de
guerras constantes e rivalidades efervescentes. Mas por trás de todos esses
acontecimentos políticos e militares, e de um pastiche de governantes, estava a dura
realidade econômica da agricultura de subsistência nas terras ocupadas por
assentamentos. Sabemos através dos registros Chin que o estado produziu cerca de 90
milhões de shih (um shih tem cerca de 59,4 litros) de painço e arroz anualmente. Um
décimo disso ia para o governo como imposto sobre a terra. O consumo médio de grãos
por pessoa era de aproximadamente 6 shih anuais, de forma que um ano com boas
chuvas produzia o suficiente para alimentar adequadamente a população. Porém, em um
ano médio não sobravam excedentes para montar reservas para a distribuição durante
as secas. No norte, o suprimento de comida nunca era um negócio seguro, como ocorria
no reino Sung, do sul, no rico ambiente do Vale do Yang-tse, que produzia até duas
colheitas de arroz por ano.
Os governantes Chin tinham consciência da precária situação dos alimentos e tentaram
aumentar a quantidade de terra cultivada estimulando trabalhos de irrigação. Também
tentaram aumentar a colheita com terraços agrícolas nas encostas. Mas essas medidas
tiveram conseqüências imprevistas, especialmente os terraços, que levaram ao
inexorável desmatamento e à rápida erosão do solo. Este último acontecimento teve
efeito particularmente grave sobre a Bacia do Huang-ho.
A produção agrícola era precária, mesmo nos anos bons; por isso, os ciclos de seca dos
anos de aquecimento devem ter tido um impacto muito sério nos acontecimentos
políticos do norte. Registros contemporâneos não falam de secas e outros desastres
naturais, o que não é de se surpreender, pois o campesinato era composto de
analfabetos, anônimos, praticamente "um barulho de fundo" para os objetivos dos
senhores guerreiros, imperadores e funcionários ambiciosos. Porém, os caprichos das
monções de verão tornavam imperativo que os estados do norte importassem arroz dos
seus vizinhos do sul, os Sung. A necessidade estivera lá durante séculos. O transporte
por terra era lento e não muito confiável, portanto, o lógico seria transportar os grãos
por água. As rotas costeiras também não eram confiáveis, além de serem perigosas, por
causa dos piratas e das tempestades; canais pelo interior, ligando o Yang-tse à Bacia de
Huang-ho, eram a melhor solução, apesar de extremamente cara.
Os esforços para construir um canal haviam sido iniciados já em 4086 a.C. Os
governantes Sui do final do século VI e início do século VII ligaram segmentos anteriores,
juntando as ricas regiões agrícolas do baixo Yang-tse à sua capital ocidental em Luayang.
Uma colcha de retalhos formada por lagos e canais acabou se transformando no Grande
Canal, Da Yun He, o canal artificial mais longo do mundo, muito maior do que o de Suez
ou o do Panamá. No século X, o sistema tinha comportas, lagos de alimentação e canais
laterais. Quando estava no auge, durante os séculos XV e XVI, o sistema de canais
estendia-se por mais de 2.500 km, corria por 240 comportas e por baixo de apro-
ximadamente 60 pontes, transportando cerca de 4000 mil toneladas de grãos por ano.
Durante séculos, o norte da China e suas terras de loesse foi dependente de suprimentos
alimentares críticos vindos do sul. Nem mesmo o mais organizado estado pré-industrial,
nem uma administração eficiente poderiam superar as secas prolongadas e as
inundações repentinas que regularmente devastavam os suprimentos alimentares e
aqueles que os haviam produzido. O norte era profundamente vulnerável havia milhares
de anos. A Bacia do Huang-ho é atualmente ainda mais vulnerável às catástrofes.
CAPÍTULO 13
O Elefante Silencioso

Vi um bando de elefantes viajando pela densa floresta nativa, seguindo como se


tivessem um compromisso no fim do mundo!
- ISAK DINESEN, A Fazenda Africana

Uma paisagem árida fica gravada na mente. Eu me lembro como se fossem os dias de
novembro de 400 anos atrás na África central. Todas as manhãs, depois de semanas de
intenso calor, um sol impudente surgia no horizonte poeirento, e o céu sem uma nuvem
sequer. A temperatura aumentava enquanto as sombras diminuíam. Uma parábola azul
empoeirada de céu sem nuvens refletia o calor que irradiava da terra ressecada. Rajadas
de vento ocasionais sopravam pela pradaria. Seres humanos e animais buscavam a
ilusão de sombra fresca embaixo das árvores ou dos beirais dos telhados. O gado ficava
imóvel, as cabeças caídas, esperando pacientemente pelo frescor do fim da tarde. Eu via
os agricultores olhando estoicamente para o milho que definhava nos campos
ressecados, apenas um mês após o plantio, quando uma chuva forte havia trazido a
promessa de mais chuvas. À medida que o sol descia, você tentava se convencer de que
a temperatura estava caindo. Mas ainda fazia 30,5°C à meia-noite. A fome não estava
muito além do horizonte.
De acordo com todos os relatos disponíveis, as secas do próximo século serão
infinitamente piores que esta.
Quando comecei a fazer as pesquisas para este livro, esperava encontrar evidências
amplamente disseminadas do aumento das temperaturas há mil anos, de mudanças
impressionantes nas práticas agrícolas, e de viagens oceânicas e de prosperidade em
ambientes que aproveitaram o calor incomum. Nos capítulos iniciais eu realmente
explorei uma Europa agitada com colheitas fartas. Segui os viajantes nórdicos pelo
Atlântico Norte enquanto eles desenvolviam contatos com os inuítes do extremo norte.
Até aí tudo bem - mas quando viajei para as estepes da Eurásia, para o Sahel africano e
para as Américas encontrei grandes e prolongadas secas que mudaram a história.
Enfatizo o termo "prolongadas". Os períodos de seca de milhares de anos atrás
abarcaram não apenas anos, mas gerações. As secas medievais em Sierra Nevada, na
Califórnia, duraram décadas, muito mais do que as dos tempos modernos. Como vimos,
um longo ciclo de seca que durou meio século desencadeou grandes ajustes na vida dos
Pueblos Ancestrais no sudoeste americano. A seca instalou-se também sobre o Nebraska
e as Planícies.
O sudoeste sempre foi árido, mas não é a única parte da América do Norte a sofrer com
as secas. Amostras de pólen do pântano de Piemonte, no Vale do Rio Hudson, na costa
leste, mostram a existência de condições de seca entre o ano 800 e o de 1300, época
em que o estuário ficou mais salgado. Se condições de seca semelhantes a essa
ocorressem na mesma área atualmente, os suprimentos de água de milhões de pessoas
estariam em perigo, entre elas os cidadãos da vizinha Poughkeepsie, em Nova York, que
retira sua água do Rio Hudson, como outras cidades do subúrbio nessa região.
No extremo sul, na América Central, grandes cidades maias cambalearam sob a seca
medieval enquanto as civilizações andinas murcharam diante da evaporação do Lago
Titicaca e de cheias intermitentes nos vales dos rios costeiros. Olhando para o quadro
global, é grande a tentação de mudar o nome do Período de Aquecimento Medieval para
Período de Seca Medieval.

A revolução na climatologia começou para valer há cerca de trinta anos, quando as


técnicas para obter registros climáticos mais precisos a partir de registros indiretos,
como os de materiais do fundo do mar, da perfuração do gelo, dos corais e de anéis de
árvores foram adotadas pela comunidade científica. Observações feitas através de
satélites e de softwares juntaram-se ao arsenal meteorológico durante uma explosão de
pesquisas a respeito dos fenômenos El Niño e da Oscilação do Sul. Desde os anos de
1980, o aquecimento global causado pelo homem tem atraído a atenção de
climatologistas devido ao bem documentado e virtualmente contínuo aquecimento
desde 1860. Subitamente, as mudanças climáticas dos últimos dois mil anos assumiram
grande importância na arena pública, pois o aquecimento antropogênico tornou-se uma
realidade científica e também uma questão política da maior importância. Por isso,
precisamos agradecer não apenas a AI Gore e seu documentário sobre o aquecimento
global, mas também a uma consciência pública cada vez maior de que a elevação das
temperaturas, a maior incidência de eventos climáticos extremos e a elevação do nível
dos mares são fatos da vida para o futuro imediato da humanidade.
Quase que imediatamente, o Período de Aquecimento Medieval adquiriu grande
importância para a discussão do aquecimento na mente de muita gente.
"Já passamos por isso", gritaram os que combatem e os que defendem o aquecimento
global. Afirmações e negações pipocaram em auditórios, do Japão à Escandinávia, com
cientistas, jornalistas e ativistas discutindo se o Período de Aquecimento Medieval foi
mais quente do que o mundo cada vez mais quente de hoje. Com o surgimento de novas
seqüências de anéis de árvores e outras evidências, o debate sobre as temperaturas do
Período de Aquecimento se intensificou, sem que haja um fim à vista.
O Período de Aquecimento Medieval ainda é uma entidade sombria, mas sabemos muito
mais a respeito dele do que na época de Hubert Lamb. Um número crescente de fontes
nos diz que nunca houve um aquecimento medieval duradouro, mas que, entre os anos
1000 e 1200, as temperaturas subiram alguns graus em algumas partes do mundo, es-
pecialmente em algumas regiões da China, Europa e oeste da América do Norte.
A preocupação atual com o aquecimento medieval é inteiramente compreensível numa
época de aquecimento antropogênico descontrolado, com todas as ameaças de
derretimento dos mantos de gelo da Groenlândia, elevação dos níveis do mar e aumento
das tempestades.
O que aconteceria se o manto de gelo da Groenlândia derretesse e bloqueasse
parcialmente a Corrente do Golfo? A Europa seria lançada em uma quase Idade do Gelo,
como de fato aconteceu cerca de doze mil anos atrás durante o episódio climático
conhecido como Dryas Recente?
O que aconteceria aos Países Baixos e a alguns atóis do Pacífico se o nível das águas dos
oceanos subisse por volta de 0,3 m ou mais até o final "do século em conseqüência do
derretimento parcial dos mantos de gelo?
Estas são preocupações absolutamente legítimas, que exigem vontade política planejada
para que sejam encontradas soluções nas próximas gerações. Porém, a nossa
preocupação com o calor e com a elevação do nível dos oceanos ignora uma ameaça
ainda maior: a seca. Por que essa negligência surpreendente? Sem dúvida, a devastação
causada pelo tsunami de 2004 no sudeste asiático e pelo furacão Katrina no ano
seguinte reforçou o receio em relação a acontecimentos climáticos extremos e
inundações em particular. Mas esses dois eventos, ocorridos em dois dos anos mais
quentes desde a Idade do Gelo, parecem ter trazido uma mensagem de que séculos
mais quentes significam mais chuva, não menos. Então, existe outra realidade: a maioria
dos povos - não todos - com maior probabilidade de ser afetada por secas severas no
futuro vive no mundo em desenvolvimento e, nos Estados Unidos, a grande preocupação
ainda gira em torno da inundação trazida pelo Katrina.

Era possível ouvir o barulho das corredeiras do Rio Zambeze batendo nas pedras, e ao
fundo o rugir incessante do Mosi-oa-Tunya (A Fumaça que Ruge), as cataratas Vitória.
Arbustos densos, árvores dobrando-se por cima, folhas secas farfalhando com o calor da
tarde. Eu estava completamente sozinho - ou assim acreditava. Então ouvi o barulho de
galhos quebrando: percebi com horror que havia entrado no meio de um pequeno bando
de elefantes. Os grandes animais estavam invisíveis, mas próximos, aparentemente sem
saber da minha presença. Voltei na ponta dos pés pelo mesmo caminho até sair do meio
das árvores. Quando cheguei ao Zambeze, olhei para trás. Um elefante enorme bateu as
orelhas para mim, os pés firmemente fincados no raso. Ele me olhava atentamente,
imóvel, enquanto eu batia em retirada.
Os elefantes podem pisar delicadamente quando desejam e ficar invisíveis até que seja
tarde demais para evitá-los.
Quando era funcionário do governo inglês, em Burma, nos anos de 1930, o romancista
George Orwell, famoso por seu livro 1984, teve de enfrentar um elefante furioso em um
bazar. De longe, "comendo calmamente, o elefante não parecia mais perigoso do que
uma vaca". Mas o animal havia matado um homem, e "um elefante louco tinha que ser
morto como um cachorro louco"." Orwell ficou chocado com o violento contraste na
agora aparentemente dócil presa. O mesmo acontece com a seca. Enquanto avançava
para longe da Europa em minhas pesquisas, percebi que a seca era o vilão oculto do
Período de Aquecimento Medieval. A aridez prolongada foi o elefante silencioso na sala
climática, e as alterações imprevisíveis da Oscilação do Sul foram o que fez o animal
atravessar a porta.
O aumento das pesquisas a respeito dos fenômenos ENSO nos últimos vinte anos
revelou que os fenômenos El Niño, e sua irmã, La Niña, não são fenômenos localizados,
mas depois da mudança das estações, são o fator mais poderoso na mudança do clima
global. Os grandes eventos ENSO trazem grandes chuvas e inundações para a costa
peruana e precipitações torrenciais para a Califórnia; reduzem a freqüência das
tempestades tropicais e furacões no Atlântico. Também trazem grandes secas para o
sudeste asiático e Austrália, para a América Central, nordeste do Brasil e partes da África
tropical. Menos evidente, mas freqüentemente mais duradouro, o fenômeno La Niña
pode ser igualmente destrutivo, especialmente em sua capacidade de alimentar a seca
em grandes áreas do mundo - como aconteceu durante o Período de Aquecimento
Medieval quando a irmã fria e seca do El Niño persistiu durante anos.

Se o Período de Aquecimento Medieval foi mais quente e por que, ainda é tema de muita
discussão. Nosso aquecimento atual ainda não alcançou o período de tempo estudado
neste livro. No entanto, é uma tendência estável e bem documentada, sem queda de
curva à vista. E, ao contrário da situação de um milênio atrás, os seres humanos são
suficientemente numerosos, e sua produção profusa o suficiente para fazer avançar e
acelerar essa tendência. O que não se pode discutir é que se nós reencenarmos a
história climática de um milênio atrás - para não falar em ver a Terra ficar ainda mais
quente - veremos quão vulneráveis são os seres humanos diante da força do meio
ambiente.
Mas se olharmos para os séculos de aquecimento com uma perspectiva global, a grande
incidência de seca é realmente surpreendente e oferece uma mensagem sensata a
respeito do futuro deste mundo. A aridez prolongada espalhou-se na época medieval e
matou muita gente. Surgem cada vez mais evidências de que a seca é o assassino
quieto e insidioso associado ao aquecimento global. O número de vítimas é assustador.
Cerca de 11 milhões de pessoas entre o Quênia, Somália, Etiópia e Eritréia corriam sério
risco de morrer de fome como conseqüência de secas plurianuais em 2006. O Instituto
Internacional de Agricultura da Nigéria avalia que até 2010 cerca de 300 milhões de
pessoas na África subsaariana, perto de um terço da população, sofrerá de desnutrição
devido à intensificação das secas. (O número de mortes por fome durante a seca é
relativamente pequeno. As pessoas morrem por causa das epidemias de diarréia e
outras doenças que se espalham devido às precárias condições de vida. Por exemplo, 1,6
milhão de crianças morrem atualmente a cada ano por falta de acesso a condições
sanitárias e água limpa para beber.)
O futuro a longo prazo é ainda mais alarmante. Um estudo realizado pelo respeitado
instituto britânico Hadley Centre for Climatic Change documenta um aumento de 25% na
seca global durante os anos de 1990, produzindo perdas populacionais muito bem docu-
mentadas. Os softwares de Hadley sobre a futura aridez resultante do impacto da
emissão de gases-estufa são realmente assustadores. Atualmente, a seca extrema afeta
3% da superfície da Terra. Esse número poderá subir até 30% se o aquecimento
continuar, com 40% sofrendo com fortes secas, muito acima da cifra atual de 8%.
Cinqüenta por cento da terra no mundo sofrerá com seca moderada, acima dos 25%
atuais. Então, o instituto gerou um software sem fatorar o impacto dos gases do efeito
estufa, que eles imaginaram como vilões da mudança na temperatura. Os resultados
mostraram que sem o aquecimento antropogênico as mudanças das secas no futuro
seriam realmente muito pequenas.
Em termos humanos, 450 milhões de pessoas em 29 países sofrem atualmente com a
falta de água, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
Em 2025, estima-se que 2,8 bilhões de pessoas viverão em áreas com acesso cada vez
mais limitado à água. Atualmente, 20% da população mundial não tem acesso à água
limpa e segura para beber. Água contaminada mata mais do que a AIDS na África
tropical. Se as projeções das condições de seca se realizarem, o número de vítimas
aumentará dramaticamente. O maior impacto da intensificação da seca cairá sobre as
pessoas que já vivem em terras áridas e semi-áridas - cerca de um bilhão de pessoas em
mais de 110 países em todo o mundo. E os mais atingidos serão os agricultores de
subsistência, especialmente na África tropical. Setenta por cento de toda a mão-de-obra
empregada na África está na agricultura de pequena escala, e é completamente
dependente das chuvas.
O número de emergências alimentares na África a cada ano já quase triplicou desde a
década de 1980, com uma em cada três pessoas da África subsaariana sendo mal
nutrida. A projeção do instituto nigeriano para 2010 é apenas o começo. Futuras
catástrofes ligadas à seca farão com que essas preliminares pareçam triviais e poderão
afetar mais da metade da população da África tropical.
O Peru nos oferece outro exemplo assustador. A Cordillera Blanca é a maior cadeia
glacial dos trópicos e está derretendo rapidamente devido à elevação das temperaturas,
A calota de gelo de Quelccaya, no sul do Peru, jóia da coroa dos dados climáticos, está
encolhendo cerca de 60 metros por ano, três vezes mais depressa do que nos anos de
1960. Tomados como um todo, os Andes peruanos perderam pelo menos 22% de suas
geleiras desde 1970. Dois terços dos 27 milhões de habitantes do Peru vivem na costa,
onde estão apenas 2% dos suprimentos de água do país. Mil anos atrás, com muito
menos gente para alimentar, os senhores de Chimor podiam adaptar suas estratégias de
irrigação às secas prolongadas, ao contrário de seus sucessores modernos, vivendo em
cidades superpovoadas, cheias de favelas, e com uma paisagem rural congestionada e
cercada pelo deserto.
As secas são caras em termos humanos e também têm um custo econômico muito alto.
As famosas secas Dust Bowl de 1934-40 nas Grandes Planícies assustaram uma geração
inteira. Três milhões e meio de pessoas abandonaram suas terras. Muitos foram atacados
pela febre tifóide e por outras doenças, além de sofrerem na saúde os efeitos de longo
prazo de doenças como câncer e ataque cardíaco, mas não há registro do número exato
de vítimas. A seca do meio-oeste de 1950 a 1956 trouxe muito calor, arruinou inúmeros
agricultores, e reduziu as plantações de algumas áreas em até 50%. A seca de 1987-89
cobriu 36% dos Estados Unidos, menos de 70% da área afetada pela Dust Bowl, mas
com um custo estimado em 39 bilhões de dólares, o que a torna um dos desastres
naturais mais caros da história americana. As condições de seca provocaram grandes
incêndios no oeste e também grandes problemas de navegação no alto da Bacia do
Mississipi. Para comparar, e para proporcionar algum insight sobre o custo potencial de
desastres climáticos, o furacão Katrina, de 2005, custou até agora 81 bilhões de dólares,
e essa cifra ainda está subindo.
Regiões áridas e semi-áridas do mundo atual.

A história nos revela que as secas causaram grandes devastações, principalmente nos
trópicos. Nas margens desertas e nos ambientes semi-áridos, o efeito de bombeamento
entra em funcionamento quando a falta de chuvas empurra os animais e as pessoas
para áreas mais bem irrigadas. Segundo cálculos conservadores do historiador Mike
Davis, em uma análise narrativa das secas do século XIX, cerca de 20 a 30 milhões de
pessoas, talvez muito mais, a maioria composta de lavradores, pereceu como
conseqüência das grandes secas provocadas pelos fenômenos El Niño e falhas das
monções durante o século XIX, um número de mortos muito maior do que em todas as
guerras do século. As fomes da época vitoriana estão relativamente bem documentadas,
apesar de que, como observa Davis, seus colegas historiadores costumam ignorá-las,
pois a maioria das vítimas era analfabeta e sem qualquer registro. Os dados acerca da
mortalidade nos primeiros episódios de fome, como os do Período de Aquecimento
Medieval, se perderam na história. Estima-se que 1,5 milhão de pessoas tenha perecido
em conseqüência da fome ou de doenças ligadas a ela durante as grandes chuvas de
1315-21, que anteciparam a Pequena Idade do Gelo. As baixas entre camponeses
chineses do Vale do Huang-ho, entre agricultores dos vales costeiros dos rios dos Andes
e no sudoeste americano devem ter sido significativas, especialmente se considerarmos
que muitas pessoas viviam em vilarejos, cidades e pueblos superlotados, com condições
sanitárias muito precárias. A experiência do século XX fornece um ponto de comparação.
A fome chinesa de 1907 matou cerca de 24 milhões de pessoas. Mais de 3 milhões
pereceram na seca de 1941-42. Um milhão e meio de indianos morreram na fome de
1965-67, em conseqüência da ausência de monções. Entre um quarto de milhão e cinco
milhões de russos foram vítimas de uma seca nas regiões da Ucrânia e do Volga em
1921-22. Todos esses desastres ocorreram quando a população global era muito menor
do que a atual. Quando nos damos conta de que as secas no Sahel saariano, habitado
esparsamente, ceifaram mais de 600 mil vidas nas secas de 1972-75, e novamente em
1984-85, podemos imaginar a magnitude desses desastres se a população agrícola
estivesse nos níveis atuais.
Até fazer a pesquisa para este livro, eu não havia percebido o quanto eram flexíveis as
sociedades humanas em boa parte do mundo mil anos atrás. Durante o Período de
Aquecimento Medieval, boa parte da população da Terra vivia em ambientes mais secos
como os que abrigaram as primeiras civilizações cerca de cinco mil anos atrás. As
cidades eram muito menores, com populações chegando na casa de dezenas de
milhares, e não milhões, o que facilitava a adoção de estratégias para driblar as
alterações climáticas. Todas as sociedades que viviam em ambientes marginais de
agricultura desenvolveram mecanismos de adaptação. O Pueblo Ancestral do sudoeste
americano mantinha laços de parentesco com comunidades distantes e estava
preparado para mudar quando chegassem as secas. Os maias armazenavam a água no
nível do vilarejo e da cidade. Os senhores chimus da costa peruana construíram canais
elaborados e distribuíram a água para irrigação com cuidado diligente. Os agricultores
mandes da Bacia do Rio Níger, na África Ocidental, desenvolveram complexos
mecanismos sociais para lidar com a realidade das súbitas mudanças climáticas,
enquanto os índios da Califórnia armazenavam bolotas e dependiam de seus vizinhos
para enfrentar a escassez de alimentos.
Todas essas sociedades, e outras que descrevemos nestas páginas, eram vulneráveis à
seca. Na maior parte do tempo, com a notável exceção das monções na Índia e China,
elas caíam diante das pancadas climáticas como árvores atingidas por ventos muito
fortes. Alguns ambientes, como as terras de loesse no norte da China, eram tão im-
previsíveis que a fome se tornava crônica mesmo em anos de boas chuvas, quando
havia inundações que saturavam milhares de hectares de terras cultiváveis. Mas no
geral as sociedades humanas do último milênio eram menos vulneráveis do que nós.
Houve um ponto, no entanto, em que a sociedade atingiu uma massa crítica, uma
densidade de população urbana e não-agricultora que se tornou insustentável nos ciclos
de seca, ou uma economia agrícola que exauriu a terra e todas as possibilidades de
diversificação. Os maias das planícies do sul do México e da Guatemala são um exemplo
dramático, em que uma combinação de guerra endêmica, rígida governança,
degradação ambiental e seca representaram um duro golpe para dezenas de cidades e
grandes centros. Os grandes senhores e os mecanismos de estado se desintegraram, e o
povo se dispersou em vilarejos de agricultura de subsistência de mil anos antes. Ficamos
deslumbrados com o esplendor de Angkor Wat e Angkor Thom no Camboja, mas, como
os maias, o Khmer vivia à beira da ladeira escorregadia que o levava para longe da
autossustentabilidade.
Avançamos para o século XIX, auge do poder imperial vitoriano, onde as ameaças de
envio de canhoneiras eram um poderoso instrumento diplomático e as tecnologias de
comunicação e transporte - telégrafo, vapor, trem - eram infinitamente mais eficientes
do que aqueles da época medieval. Estava emergindo uma economia global, fundada em
grande parte nos preços dos grãos. Ainda assim, a nascente vulnerabilidade do Período
de Aquecimento Medieval aumentou mil vezes. A conservadora estimativa feita por Mike
Davis, de 20 a 30 milhões de vítimas, manteve na escuridão boa parte do lado não
escrito da história, mendigos da imaginação. Seus números são de uma época em que a
proporção da população mundial vivendo em terras semi-áridas e de monções era de
uma fração da atual.
No início do século XXI, cerca de 250 milhões de pessoas viviam em terras agrícolas
marginais, sob o risco direto das secas causadas pelos fenômenos ENSO, pelas
mudanças arbitrárias da Oscilação do Sul. Há muito mais exemplos do que os
mencionados nos capítulos anteriores. O nordeste brasileiro sofre repetidamente com as
secas, muitas delas provocadas por fenômenos El Niño; a Indonésia e a Austrália estão à
mercê das secas causadas por fenômenos ENSO, para mencionar apenas três exemplos.
Atualmente, o número de pessoas extremamente vulneráveis à seca é enorme e
continua crescendo rapidamente, não só nos países em desenvolvimento, mas também
em áreas densamente povoadas como o Arizona, a Califórnia e o sudoeste da Ásia. A
julgar pelos ciclos de aridez de mil anos atrás, as secas de um futuro ainda mais quente
se tornarão mais prolongadas e mais agressivas. Mesmo sem os gases do efeito estufa,
as conseqüências das secas prolongadas serão muito mais catastróficas do que foram há
cem anos.
As secas induzem à quebra das colheitas e permitem que as pastagens sequem. Essas
mesmas secas acabam com a água dos rios e transformam pequenos cursos d'água em
canais. A água é o sangue que dá vida à humanidade - para a agricultura, para os
rebanhos, para os animais que antes eram caçados, e para beber. Os índios chumash, do
sul da Califórnia, sofreram muito durante os períodos de seca, não por falta de comida,
pois tinham bastante peixe, mas por falta de água limpa. Aglomerando-se em áreas de
pesca e vilarejos densamente povoados próximos de suprimentos de água cada vez mais
escassos, eles acabaram dependendo de águas poluídas, com as inevitáveis ondas de
doenças causadas pelas más condições de saneamento. O mesmo vale para os campos
de fome da Índia do Império britânico, no final do século XIX, e também para as antigas
cidades do Mediterrâneo oriental.

Hoje, com a aceleração do aquecimento, os desafios que se colocam para a humanidade


são muito maiores. Atualmente, coletamos água em escala industrial - das chuvas, de
rios e lagos, e de lençóis freáticos cada vez mais escassos. Muitos de nós vivemos com
fornecimento saqueado, trazido por aquedutos de bacias hidrográficas, do Rio Colorado e
de poços artesianos, reservatórios que um dia irão secar. No que diz respeito à
Califórnia, devemos lembrar que os últimos 700 anos foram os mais úmidos desde a
Pequena Idade do Gelo. Nós já vivenciamos períodos de seca, mas nenhum deles durou
tanto quanto aqueles que tomaram conta de Sierra Neva um milênio atrás.
Atualmente, estamos vivendo um aquecimento permanente de um tipo desconhecido
desde a Idade do Gelo. E esse aquecimento certamente trará seca - seca permanente e
escassez de água em uma escala que irá desafiar até mesmo cidades pequenas, para
não falar de metrópoles sedentas como Los Angeles, Phoenix e Tucson. O reservatório
Ogallala, enorme reserva de água subterrânea responsável pelo abastecimento de oito
estados dos Estados Unidos, de Nebraska até o Texas, está se exaurindo a um índice de
159 bilhões de litros por ano. Quando corre a notícia de que Las Vegas está se
expandindo e tentando adquirir água dos ranchos do Estado de Nevada, dá para pensar
no que o futuro nos reserva. Chegará o dia em que os hotéis dos cassinos ficarão sem
água porque os reservatórios secaram? No que diz respeito à água, se as secas
duradouras de um milênio atrás voltarem, boa parte do oeste dos Estados Unidos está
vivendo um tempo emprestado.
Segundo a Unesco, o mundo tem bastante água fresca, apesar de mal distribuída.
Contudo, se você olhar mais atentamente, verá que, devido à má administração, aos
recursos limitados e a mudanças no meio ambiente, quase um quinto da população
mundial ainda não tem acesso à água boa para beber. Quarenta por cento não têm
saneamento básico. Em valores brutos, a Unesco avalia que 1,1 bilhão de pessoas não
tenham acesso à água potável, e cerca de 2,6 bilhões não disponham de saneamento
básico. Mais de metade dessas pessoas vive na China e na Índia, outros milhões, na
África tropical. Esses números nos chegam em um momento em que os desastres
naturais envolvendo a água, ou a sua falta, estão aumentando. A Unesco também avalia
que, até 2030, o mundo irá precisar de mais 55% de alimentos, que se traduz em maior
demanda por irrigação, o que já exige 70% de toda a água fresca consumida pelos seres
humanos. Também é preciso considerar o grande aumento da população urbana.
Pesquisadores da Unesco avaliam que dois terços da humanidade será composta de
moradores urbanos em 2030, estimativa que prevê dois bilhões vivendo em favelas e
aglomerações na periferia. Os pobres urbanos sofrem mais com a falta de água limpa e
de saneamento.
A lição do Período de Aquecimento Medieval para a nossa época é sutil, mas alarmante.
Nossa jornada pelo mundo quente e assolado pelas secas de mil anos atrás revelou
grande diversidade de sociedades humanas, muitas das quais interligadas por laços
sociopolíticos e econômicos em constante mutação.
Nossas viagens nos levaram por caminhos terrestres e marítimos de uma nascente
economia global, através de um mundo em que a interconexão e a interdependência
estavam começando a se transformar em realidades políticas duradouras. Viajamos por
uma época em que, no conjunto, as pessoas viviam de maneira conservadora, com uma
boa visão meteorológica para o risco. Agora nos deparamos com um futuro em que a
maioria de nós vive em cidades grandes e de crescimento rápido, muitas delas próximas
a oceanos e águas onde furacões de categoria 5, ou grandes fenômenos El Niño, podem
causar prejuízos de bilhões de dólares em poucas horas. Chegamos a um ponto em que
há pessoas demais para evacuar, onde os custos da vulnerabilidade estão quase além
da capacidade até mesmo de governos ricos. A mera escala de sociedades
industrializadas faz com que sejam muito mais vulneráveis a mudanças de longo prazo,
como a elevação das temperaturas e do nível das águas dos oceanos.
Essa é a crise imediata do aquecimento global em termos humanos e exige não apenas
uma resposta a curto prazo, mas também intervenções maciças a longo prazo, e em
verdadeira escala internacional.
Não somos bons para planejar as coisas para os nossos bisnetos, mas isso é o que nossa
geração, e as outras que virão, precisam fazer. Existe uma tentação política de anunciar
medidas paliativas de curto prazo e então alegar que contribuímos enormemente para a
batalha contra o aquecimento global. Infelizmente, já passamos do momento em que
poderíamos confiar no pensamento de curto prazo. Seca e água certamente são temas
muito importantes para este e para os séculos futuros, época em que teremos nos
acostumado a tomar decisões altruístas que beneficiarão não necessariamente nós
mesmos, mas gerações que estão por nascer. Isso exige um pensamento político e social
de um tipo que quase não existe atualmente, onde a gratificação instantânea e a
próxima eleição parecem mais importantes do que agir pensando no futuro a longo
prazo. E boa parte do pensamento a longo prazo terá que envolver grandes
investimentos no mundo em desenvolvimento, naqueles que correm maior risco.
Não podemos nos permitir pensar em termos provincianos, somente nos problemas da
seca em nosso quintal. Os séculos de aquecimento de mil anos atrás nos mostram que a
seca é um problema global. Atualmente, estamos todos interligados. A experiência do
Período de Aquecimento Medieval mostra como a seca pode desestabilizar uma
sociedade e levá-la ao colapso. Atualmente, forças desestabilizadoras podem atravessar
fronteiras locais. Se observarmos como a chance de ter uma vida melhor levou milhões
de pessoas da América Latina a atravessar a fronteira dos Estados Unidos, imagine
quantas abandonariam suas raízes se a escolha fosse entre a fome e o alimento. Muitos
futuristas acreditam que as guerras dos próximos séculos não serão travadas por causa
de mesquinharias nacionalistas, religião ou princípios democráticos, mas por causa da
água, pois a mais preciosa de todas as mercadorias pode se tornar ainda mais valiosa do
que o petróleo. Talvez estejam certos.
Por quanto tempo mais poderemos permanecer indiferentes? Qual será o número de
vítimas da nossa época se as secas previstas pelos meteorologistas de Hadley realmente
ocorrerem? Será catastrófico, muito mais do que as mortes reveladas por Mike Davis, e
poderia produzir cenários assustadores. Estaremos vendo, por exemplo, uma época em
que migrações em massa gigantescas, incontroláveis, de pessoas fugindo da fome e da
seca, irão romper as fronteiras territoriais? Esses movimentos populacionais não estão
fora do reino das possibilidades.
Tem sido fácil esquecer que milhões de pessoas ainda vivem no nível da subsistência e
utilizam basicamente tecnologias medievais para tirar vida do solo. Não podemos mais
nos permitir a ignorância benigna, pois os perigos de secas crônicas a longo prazo ligam
toda a humanidade de maneiras que estamos apenas começando a compreender. Em
um livro anterior, descrevi a sociedade industrial com um imenso supertanque que leva
muitos metros para parar e manobrar lentamente. Acusei nossa sociedade, chamei-a de
cega e desatenta por ignorar os sinais do perigo climático que temos pela frente.
Graças a uma nova geração de cientistas, e graças a ativistas que vão de Al Gore a
estudantes universitários, o aquecimento global transformou-se em uma questão política
e em um tópico fascinante para os que gostam de tagarelar. Ainda assim, é
surpreendente e muito assustador que o elefante da seca ainda seja amplamente
ignorado.
A história está sempre ao nosso redor, ameaçando, oferecendo encorajamento, às vezes
nos mostrando precedentes. Os séculos de aquecimento de mil anos atrás nos lembram
que nunca fomos senhores do mundo natural; na melhor das hipóteses, nos
acomodamos às suas realidades caprichosas. Como mostraram o khmer e os maias,
quanto mais tentamos domá-lo, maior o risco de escorregarmos pela perigosa ladeira da
insustentabilidade. Devemos aceitar essa realidade e não nos assustarmos com um
futuro do qual não somos senhores; precisamos parar de tentar assumir esse papel. Os
povos de mil anos atrás nos lembram que nosso maior recurso é o oportunismo e a
infinita capacidade de nos adaptarmos a novas circunstâncias. Vamos pensar em nós
mesmos como parceiros em vez de mestres potenciais do mundo natural que nos rodeia.

Agradecimentos

O Grande Aquecimento é o resultado de mais de uma década de reflexão e escritos a


respeito das mudanças no clima da Antiguidade. Trata de um assunto ainda pouco
conhecido, sobre o qual existem apenas informações espalhadas em literatura
acadêmica obscura em dezenas de línguas. Tentei produzir uma síntese que na verdade
é a minha forma de montar um quebra-cabeças confuso de arquitetura, história e
paleoclimatologia. Sou, é claro, responsável pelas conclusões e pela exatidão deste livro
e, sem dúvida, logo terei que ouvir aqueles indivíduos gentis, normalmente anônimos,
que adoram apontar erros grandes e pequenos. Agradeço a eles de antemão.
A pesquisa para este livro envolveu a consulta a um grande número de especialistas
extremamente ocupados, que se mostraram atenciosos e com freqüência,
surpreendentemente rápidos em suas respostas. Sou profundamente grato a eles por
levarem o incômodo a sério. É impossível citar todo mundo, mas a minha longa relação
de débitos inclui Reid Bryson, Roseanne D'Arrigo, Carole Crumley, Ronald Fletcher,
Michael Glantz, Michael Glassow, John Johnson, Doug Kennet, Ian Lindsay, Roderick
McIntosh, George Michaels, Dan Penny, Mark Rose, Vernon Scarborough, Chris Scarre,
Scott Stine e Stan Wolpert.
Em Santa Bárbara, Shelly Lowenkopf mostrou-se uma pesquisadora apaixonada e a
melhor das leitoras. Ela presenciou momentos complicados e demonstrou, sempre, apoio
e entusiasmo. Steve Brown fez os mapas e ilustrações com sua habilidade habitual. Bill
Frucht foi extremamente útil nos estágios iniciais do livro. Minha dívida com ele é
enorme. Minha agente, Susan Rabiner, foi um exemplo de força e inspiração.
Peter Ginna e Katie Henderson deram-me orientação editorial quando os originais
estavam no estágio mais crítico. Na verdade, este livro é tanto deles quanto meu. Sua
crítica impiedosa e incisiva tornou muito mais fáceis os estágios finais de redação. Sou
profundamente grato.
Por fim, e como sempre, meus agradecimentos para Lesley, para Ana e para nossos
bichos, que sofreram com a dor da escrita mostrando uma tolerância divertida. Na
verdade, acabo de demorar mais cinco minutos por causa de um gato que sentou no
teclado exigindo atenção. A vida é sempre interessante por aqui.

Brian Fagan
Santa Bárbara, Califórnia