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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

A
REGISTRADOS) SOB N' /
ACÓRDÃO
00705497*

PRESCRIÇÃO - Período não exaurido, mesmo


adotado o qüinqüênio do artigo 27, da lei 8.078/90 -
Primeiro atendimento, do autor, em 19 de fevereiro
de 1.991, com diagnóstico, permitindo exato
conhecimento do dano a partir de declarações
médicas datado de 24 de abril de 1.991 e 21 de
maio do mesmo ano - Ação proposta em face do
hospital em 16 de fevereiro de 1.996 e com relação
à co-ré, médica, em 08 de abril, também de 1.996 -
Ajuizamento a tempo suficiente para interromper o
prazo prescricional - Artigo 219, do Código de
Processo Civil -

PROVA - Inversão de seu ônus - Artigo 6o, inciso


VIII, do Código de Defesa do Consumidor, aplicável
à espécie - Encargo dos réus em demonstrarem que
atuaram corretamente e que o resultado mórbido
decorreu de modo inevitável - Vulnerabilidade do
consumidor acrescida, no caso, de sua
hipossuficiência -

ERRO MÉDICO - Autor que, em virtude de


diagnóstico errôneo, perdeu a visão, praticamente,
dos dois olhos - Diagnóstico inicial de varicela,
submetido, em conseqüência, a tratamento
incompatível - Verificação posterior do quadro de
Síndrome Steven-Johnson - Diagnóstico formulado
sem o devido cuidado e cautela, a acarretar o
agravamento da moléstia - Responsabilidade
objetiva do hospital, além de caracterizada a culpa
da co-ré, médica - Indenizatória julgada procedente-

Recursos improvidos.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de

CÍVEL n° 146.090.4/0-00, da Comarca de SÃO VICENTE,

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em que são apelantes ANGÉLICA PERISSINOTI RIBEIRO DE SOUZA

e outra e é apelado OLAVO DE BARROS MARCOLINO.

Acordam em Quinta Câmara de Direito Privado do

Tribunal de Justiça, por votação unânime, negar provimento às

apelações.

Açáo ajuizada por paciente em face de entidade

hospitalar e uma médica (aditamento, fl.39), que em razão de

diagnóstico e tratamento errôneos, acarretaram-lhe cegueira. Pleiteia

danos emergentes, estimados em R$ 10.000,00 e lucros cessantes,

apuráveis em liquidação de sentença, além da colocação de prótese e

indenização por danos psicológicos, tudo acrescido de "pensão

vitalícia de R$ 700,00 até que complete 65 anos" (sic fl. 6),

considerada sua incapacidade laborativa. A r. sentença, de relatório

adotado (fls. 414/429), julgou a ação procedente, condenando os réus

ao pagamento da pensão alimentar de NCz$ 81,40, devidamente

atualizados e correspondentes ao salário mínimo. Impôs-lhes,

também, o pagamento de dano moral, da ordem de 800 salários

mínimos, de danos emergentes, a serem liquidados por artigos e das

despesas decorrentes da colocação de prótese, que venha a minorar

ou sanar a deficiência visual. Apelou a ré Angélica Perissinoti Ribeiro

de Souza, propugnando pela reforma na íntegra. Também recorreu a

Irmandade do Hospital São José - Santa Casa de São Vicente,

o, além da improcedência, a extinção do processo em virtude

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da prescrição ou a nulidade da sentença por inversão do ônus da

prova, ou, ainda, pelo julgamento "ultra petita". Recurso respondido.

Preparo anotado.

É o relatório.

Ação ajuizada por Olavo de Barros Marcolino em

face da Irmandade do Hospital de São José, Santa Casa de São

Vicente. O autor pleiteia danos emergentes, do valor estimado em

R$10.000,00 e lucros cessantes, apuráveis em liquidação de

sentença, além da colocação de prótese custeada pelo Hospital, bem

como a indenização por danos psicológicos, estimados em 1 (um) ano

de rendimentos, mais "pensão vitalícia de R$ 700,00, até que o autor

complete 65 anos" (sic fl.6), considerada sua incapacidade para o

trabalho. Atendimento médico, ao qual se imputa o agravamento do

mal, de que acometido o autor, ocorrido no dia 19 de fevereiro de

1.991. Com a inicial vieram os documentos de fls. 10/30. Aditando a

petição inicial (fl.38) o autor esclarece que a ação é movida contra

Hospital São José e contra a médica Angélica Perissinoti Ribeiro de

Souza.

Em razões de apelação, tanto o co-réu Hospital São

José, instituição pertencente à Irmandade Hospital São José, Santa

Casa de São Vicente, como a co-ré Angélica Perissinoti Ribeiro de

Souza, argüiram a prescrição, invocando o artigo 27, do Código de

Consumidor, de redação seguinte: "Prescreve em cinco

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anos a pretensão à reparação pelos danos, causados por fato do

produto ou serviço, prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a

contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua

autoria".

A precisa ciência da lesão só pôde ser detectada

através de declarações médicas, datadas de 24 de abril de 1.991 e 21

de maio, também desse ano, nas quais diagnosticado o quadro de

Síndrome de Steven-Johnson (fls. 22/27). A primeira data fixa o início

da contagem do prazo, porque, inequivocamente de conhecimento do

autor o dano sofrido. Havendo a ação sido proposta em 16 de

fevereiro de 1.996 e com o aditamento, pleiteada a citação da co-ré

em 10 de abril de 1.996, de se considerar que o lapso prescricional

não se completou. Com o ajuizamento, conforme o artigo 219,

parágrafo 1 o , do Código de Processo Civil, já ocorre a interrupção do

prazo prescricional, por conseguinte, como a propositura, quer no

tocante ao hospital, quer no referente à médica, se deu antes de 5

anos da data do diagnóstico noticiado, ou seja, 24 de abril de 1.991,

não é de se pronunciar a prescrição qüinqüenal.

A co-ré, Dra. Angélica Perissinoti Ribeiro de Souza,

atendeu o autor no Hospital São José, co-réu, em 19 de fevereiro de

1.991. Diagnosticou varicela e prescreveu-lhe magnopyrol (fls.18/19).

Conforme o prontuário, o autor retornou, em condições físicas

precáTigs, no dia 21 de fevereiro de 1.991, quando determinada sua


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internação (fls.191v° e 192 v°; fls. 83 e 84 do apenso). Em 04 de

março de 1.991, outra médica, Dra. Jordelina M. Lott Lage

diagnosticou streptococcia (fls. 20/21), ratificada pelo "resumo clínico"

(fls. 23/23 verso). O diagnóstico de Síndrome de Steven-Johnson,

somente, aparece nas declarações médicas datadas de 24 de abril, 21

de maio e 27 de julho, todas de 1.991 (fls.22, 26 e 27).

O perito anota que os médicos, que examinaram o

paciente em 19 de fevereiro de 1.991, diagnosticaram "varicela".

Realça que poderia "ser a referida moléstia ou ainda uma dermatite

bolhosa em instalação (Steven-Johnson) que depois se agravou"

(fl.294). Consta do laudo: "Há urnia nítida controvérsia entre o

diagnóstico presuntivo inicial (fl.84), descritas como hipóteses

diagnosticadas: conjuntivite purulenta bacteriana, abscesso

amigdaliano, gengivite, broncopneumonia, septicemia, com os

achados do próprio exame físico, relatados na mesma página 84.

Presença de bolhas na região de face, tronco, edema de região

peniana que poderia caracterizar a Síndrome de Steven-Johnson ou

ainda varicela bolhosa, não mencionadas nas hipóteses

diagnosticadas acima relatadas e extraídas da mesma fl. 84 e não

mencionada também a 'posteriori'" (fl. 295). Com outra possibilidade,

aponta a reação à droga pirazolona (rnagnopyrol, novalgina), também

prescrita em 19 de fevereiro de 1.991, continuada no hospital e

feusaaorandé reação (fls. 294).


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A conjuntivite foi um dado permanente e o quadro

ocular pode ter piorado pelo seu tratamento tardio, que apesar de

relatado na internação, não vem anotado no prontuário desde o início,

somente aparecendo em 13 de março de 1.991, em consulta com

oftalmologista (também fl.294). Informa, ainda, o perito que, apesar de

alegada a "posteriori", a "Síndrome de Steven-Johnson não foi

diagnosticada na internação" (fl. 84 do apenso, autos suplementares, e

191v°, do 1 o volume). Alude como mais uma hipótese, a possibilidade

de infecçao hospitalar, desencadeando a Síndrome de Steven-

Johnson (fl.295).

De importância o afirmado pela primeira testemunha

da co-ré (fl. 331): "O exame negativo para germes da excreção

extraída da bolsa conjuntival significa que o paciente não era portador

da Síndrome de 'Steven-Johnson'" (fl.371) e que esse mal o acometeu

em razão de um germe hospitalar. O perito ouvido na audiência, logo

em seguida, "esclarece que inobstante o exame da secreçao ocular

realizado no dia 24 ter tido resultado negativo, é possível que o autor

já apresentasse uma infecçao ocular" (fl. 373). A observação não

discrepa do que consta do laudo (fl.295, letra "g"). Em seu depoimento,

o perito também assevera "que por meio de um exame físico

cuidadoso é possível que o médico vislumbre lesões que sirvam para

a varicela da Síndrome de Steven-Johnson", não afastando

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ser possível que o uso de penicilina e rocefin provoquem esse

fenômeno (fl. 373). A terceira testemunha, Francisco C. M. de

Carvalho, noticia que atendeu o autor em seu consultório em 03 de

abril de 1.991 o qual já "apresentava perfuração ocular bilateral que,

em razão da situação do paciente, teria sido provocada por úlcera de

córnea bilateral" (fl.374), existente, aproximadamente, um mês antes.

Presumiu que as lesões decorreram de uma síndrome, mas não

saberia distingui-la (fls.374/375). Entretanto, na declaração que firmou

em 24 de abril de 1.991 (fl. 22) aponta a Síndrome de Steven-Johnson.

E essa testemunha finaliza: "Varicela não levaria à perfuração ocular

bilateral, tal como constatado no autor" e "o motivo ensejador da

ulceração teria por causa primária, uma síndrome preexistente no

paciente".

Esses os elementos coletados e que conduzem à

responsabilidade dos réus em indenizar. A co-ré, Dra. Angélica

Perissinoti Ribeiro de Souza, defendendo o diagnóstico de varicela,

argüiu que as lesões de Síndrome de Steven-Johnson são localizadas

nas extremidades e nas mucosas, características, então, não

verificadas. Porém, registre-se, que a conjuntivite existe e que a

própria ré reconhece em suas razões recursais, textualmente:

"Conclui-se que apenas o recorrido estava com uma conjuntivite, em

decorrência da varicela". O perito respondendo aos quesitos 17 e 19

doèutoX exatamente, "quais as manifestações clínicas quanto ao olho,


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na ocorrência de 'eritema multiforme'?" e "quais os sintomas da

chamada Síndrome de Steven-Johnson e como pode ser detectada"

(fl. 154), respondeu: "17) Lesões em mucosas periorificiais como

olhos, ânus, boca etc, são freqüentes e inflamatórias; no caso de

olhos, conjuntivite inflamatória"; "19) Lesões evolutivas generalizadas

de pele e mucosas, atingindo regiões periorificiais (vide quesito 17)

com formação de bolhas, sendo o diagnóstico habitual o clínico, que

pode ser corroborado por biópsia das lesões" (fls.315/316). Ressalte-

se que, ao responder ao quesito 16, também do autor, o perito

respondeu que com certeza a Síndrome de Steven-Johnson é

considerada um "eritema multiforme" (fls. 154 e 315).

Verifica-se, portanto, que o diagnóstico formulado

pela co-ré foi incompleto e produto de um exame clínico superficial ou

destituído da necessária capacidade de percepção do estado do

paciente. Ele apresentava um dos sintomas da Síndrome de Steven-

Johnson, que o exame físico revelaria, permitindo separar este

fenômeno mórbido, da varicela. Ainda que a negligência ou imperícia

da co-ré tenha se apresentado em proporção mínima ou inexpressiva,

tal se afigura por completo indiferente, pois é sabido que a mais leve

culpa já é bastante para fixar a indenização. Cumpria-lhe intensificar e

aprofundar o exame clínico, providenciar outro de laboratório, no

mínimo, fazer com que o autor permanecesse em observação no

recinto aVhospital ou, o que seria adequado, determinar sua imediata


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internação, anotando as possibilidades de varicela, mas também a

suspeita da Síndrome de Steven-Johnson. Contudo, jamais devolvê-lo

a sua casa para que tomasse um simples anti-térmico. É do senso

comum que a moléstia evoluiu, levando ao mau resultado da cegueira

de um olho e em grande parte do outro, em virtude da perfuração

ocular bilateral.

Quanto a responsabilidade do hospital, é ela

objetiva conforme o artigo 14, do Código de Defesa do Consumidor,

legislação com plena incidência na espécie, conforme se apreende

pela leitura do artigo 3o e seu parágrafo 2°, da lei 8.078, de 11 de

setembro de 1.990. Diz, expressamente, o mencionado artigo: "O

fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de

culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por

defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações

insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos". De acentuar,

que o fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando

provar, que, tendo prestado serviço, o defeito inexistiu ou, então, a

culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro (parágrafo 3o, do artigo

14, já mencionado). Estes dois tipos de isenção, no caso, não

ocorreram. Houve falha de conduta, não só da médica co-ré, mas,

provavelmente, dos outros facultativos que atenderam o paciente,

havendo nos autos, inclusive, afirmativas da possibilidade de infecção

V\ hosrjitala/Porém, tudo isso se afigura secundário, ante o fato de que


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o tratamento foi realizado no hospital e teve um resultado altamente

prejudicial ao autor, causando-lhe lesões graves e irreversíveis. Nem

adianta lembrar que o autor, posteriormente, foi submetido a

tratamento em outras instituições, porque o mal já estava

diagnosticado quando do tratamento no hospital co-réu. E no caso,

embora até mesmo se possa dispensar essa diretriz, justifica-se a

inversão do ônus da prova. O autor, além da vulnerabilidade própria do

consumidor, é hipossufíciente e suas afirmativas na inicial apresentam-

se verossímeis, presentes, destarte, os pressupostos do inciso VIII, do

artigo 6o, da lei 8.078/90. Competiria ao hospital provar que prestou

serviços médicos sem defeitos ou que a culpa foi exclusiva do

consumidor, do que, entretanto, não se desincumbiu. Basta considerar

que o diagnóstico errado, porque o autor não portava varicela,

formulado na primeira oportunidade pela co-ré, médica, já traduziu,

não só a responsabilidade subjetiva desta última pela negligência ou

imperícia, mas também, a objetiva do hospital. A este cabia

demonstrar que o atendimento foi adequado, mas a ficha médica não

veio aos autos. O interesse pela juntada desse documento era do

hospital e a sua falta, de modo algum, pode prejudicar o autor. Nem

vale o argumento da instituição hospitalar de que poderia incinerar a

ficha médica passados cinco anos. Porém, o descarte dessa ficha,

logo após cinco anos, quando esse documento, somente, poderia

.militar epn seu favor, é uma atitude descabida e mesmo imprudente,


V/fr T
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ainda mais que o prazo prescricional se interrompe na data da

propositura da ação e não da citação. Assimr deveria ter tido o cuidado

de reter essa ficha algum tempo depois do vencimento do lapso de

prescrição e como o ajuizamento se deu em 16 de fevereiro de 1.996 e

a citação se concretizou em 11 de julho de 1.996, de convir que a

destruição do documento, consistente na ficha médica, ocorreu sem a

devida cautela. De qualquer forma, quando determinada a busca e

apreensão do prontuário do dia 19 de fevereiro de 1.991, conforme

certidão do oficial de justiça, o diretor clínico, simplesmente, confirmou

não possuir o solicitado (fl. 318 verso). Apenas foi noticiada a não

localização da ficha, mas não sua destruição. O essencial é que esse

documento, unicamente, poderia servir ao hospital e, eventualmente, à

co-ré e sua ausência não pode redundar em prejuízo ao autor, repita-

se.

Firmadas as responsabilidades, cabe analisar a

indenização priorizada na sentença. O pagamento da pensão mensal

se justifica pela incapacidade (cegueira total de um olho e parcial de

outro) sofrida pelo autor, que, assim, deve receber pensão vitalícia dos

réus, como bem assinalado pelo juiz. O pensionamento corresponde

ao seu último salário, da ordem de NCz$ 81,40, atualizado e

convertido em salário mínimo. A pensão tem origem diversa de

benefício previdenciário e com ele não se confunde. Os réus devem

pagar essa prestação ao autor, em virtude dos danos que lhe

o. 146.090.4/0-00 - SAO VICENTE - Voto n° 21.087 - relator - d. 59

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causaram. Já o benefício previdenciário pago pelo INSS decorre do

liame jurídico entre o autor e a referida autarquia, como trabalhador,

sujeito à contribuição específica. Também certa a sentença ao

estabelecer a pensão vitalícia. A inicial, aliás, fixou a idade média, à

época, prevista em nosso país, ou seja, 65 anos, não como um limite

máximo, mas como mero indicativo, de que a tutela indenizatória

assistiria ao autor enquanto vivesse, tanto que requereu,

expressamente, e, na mesma frase "mais pensão vitalícia de R$

700,00 ..." (fl. 6). Afronta ao sistema, limitá-la e privar o autor do

recebimento, quando, exatamente, atingisse uma faixa etária em que

mais tivesse necessidade de amparo material. O direito não admite a

ilogicidade.

Também a fixação em 800 salários mínimos, a título

de dano moral, está certa. Pouco importa que a inicial tenha tratado de

outros números ou se referido a outras situações. O arbitramento

desse tipo de dano é prerrogativa do juiz, em seu prudente arbítrio,

desempenhado, na espécie, sem qualquer exagero. A indenização

servirá para minorar o enorme sofrimento que o autor atravessou e,

certamente, atravessa, com a cegueira, ainda que parcial em uma das

vistas, porém extensa. Aliás, quanto ao dano, que experimentou,

impõe-se efetivamente a prótese, que venha minorar a insuficiência

visual e, obviamente, os gastos, a respeito, devem ser suportados

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A r. sentença, por seguinte, fica mantida por seus

próprios e jurídicos fundamentos.

Negam provimento.

Participaram do julgamento os Desembargadores

RODRIGUES DE CARVALHO e CARLOS RENATO, com votos

vencedores.

São Paulo, 14 £e abril de 2.004.

MARCüSf ANDRADE
Presidente e relator

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