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Hedge com Contratos Futuros?

Neste artigo vou explicar como fazer um Hedge com contratos futuros.

 Quando montar um hedge?


 Quais contratos utilizar para hedge?
 Quantos contratos?

Antes de responder a essas perguntas relembremos para que serve o Hedge com contratos futuros.

O Hedge serve para proteger o investidor contra riscos indesejados. No contexto do mercado de ações
serve para proteger contra quedas nos preços das ações. Para fazer o Hedge, o investidor comprado em
ações deve vender contratos futuros do Índice Futuro Cheio ou Mini.

Caso o mercado concretize a expectativa de queda, o investidor perderá dinheiro na sua posição com
ações, mas ganhará em sua posição vendida no Índice Futuro.

Se o mercado subir ele lucrará com as ações e terá prejuízo no Índice Futuro. Em ambas as situações a
perda em uma posição é compensada pelo ganho em outra posição. Objetivo do Hedge não é ganhar
dinheiro, mas sim proteger o investidor do risco.

Quando utilizar o Hedge?


O investidor deve montar o Hedge quando as perspectivas futuras são mais baixistas que altistas. Por
exemplo, veja abaixo o gráfico da PETR4 entre os meses de junho e setembro de 2012.

Nesse período o preço de PETR4 caminhou dentro de um canal de alta respeitando o limite superior e
inferior. Observando o último candle desse gráfico, no dia 14/set, é possível ver que o preço atingiu uma
nova máxima nesse dia, mas o fechamento do pregão foi próximo da mínima.

Tecnicamente esse candle é chamado de Shooting Star e é um indicativo de exaustão do movimento prévio
de alta. Além disso, esse candle foi formado totalmente acima da linha superior do canal de alta, fora do
padrão do mercado, o que aumenta a probabilidade de queda no curto prazo.

Um investidor comprado em ações da PETR4 pode muito bem pensar em fazer um Hedge de sua posição
ao fim do dia 14/set com o objetivo de proteger seu investimento caso a queda se concretize.
Como utilizar o Hedge?
O investidor deve montar o Hedge utilizando o contrato com vencimento mais próximo, pois é o contrato
com maior liquidez. Considerando a data do gráfico da PETR4, o contrato V12 com vencimento em 17/out
é que deve ser utilizado na operação.

Caso o investidor deseje ficar “Hedgeado” por um período longo ele deverá realizar a rolagem da posição
nos vencimentos dos contratos.

Quantos contratos utilizar no Hedge?


A quantidade de contratos depende do valor da carteira de ações e do Beta da carteira.

“Beta, o que é isso?”

Beta é um fator que mensura a variação da cotação da ação em relação à oscilação do Ibovespa. Seu
cálculo é baseado em cotações históricas e sua interpretação segue abaixo:

 Ação com Beta = 1 → Ibovespa sobe/cai 2% a ação tende a subir/cair por volta de 2%
 Ação com Beta > 1 → Ibovespa sobe/cai 2% a ação tende subir/cair mais de 2%
 Ação com Beta < 1 → Ibovespa sobe/cai 2% a ação tende subir/cair menos de 2%

O Beta é um conceito importantíssimo para o mercado, mas deve ser interpretado com algumas
considerações. Uma delas é que apesar de ser um valor numérico, ele não é um valor exato, ele varia ao
longo do tempo.

O valor do Beta de uma ação calculado com base nas cotações do último mês provavelmente será
diferente do Beta dessa ação calculado utilizando dados dos últimos dois anos. Geralmente a diferença é
pequena, mas eventualmente pode ser grande em virtude de condições especiais de mercado que só
atinge a ação e não todo o mercado.

Outra consideração importante é que o Beta não deve ser levado “a ferro e fogo”. Se o Beta de uma ação
for calculado como sendo 0,70 isso não implica que quando o Ibovespa subir 1% a ação obrigatoriamente
subirá 0,70%. A ação tem “vida própria” e pode subir mais de 1% ou até mesmo cair.

Cálculo do Beta
A fórmula do Beta é simples e utiliza os conceitos de estatística de Covariância e Variância:

 ra → retorno da ação
 rp → retorno do Ibovespa

No exemplo com a PETR4, o Beta calculado com base nas cotações da ação e do Ibovespa entre 17/ago e
14/set é de 0,86.

Se o cálculo do Beta varia conforme o período analisado, qual período é mais adequado utilizar? Um mês?
Seis meses? Um ano? Três anos? O mais adequado é aquele que se aproxima do horizonte de análise do
investidor.

Em outras palavras se o investidor imagina que manterá o Hedge por pouco tempo, no máximo um mês,
ele pode considerar o último mês ou dois meses no cálculo do Beta da ação. Se o investidor imagina que
manterá o Hedge por um ano, ele pode considerar as cotações dos últimos doze meses para o cálculo do
Beta.
Quantidade de Contratos Futuros para Hedge
A fórmula básica para o cálculo da quantidade de contratos é:

(Valor da Carteira ÷ Valor do Índice Futuro) x Beta

Utilizando os dados do dia 14/set temos as seguintes informações.

Valor da carteira:

 1.000 ações PETR4 x R$ 23,17 = R$ 23.170 → R$ 23,17 era a cotação da ação em 14/set

Valor do Índice Futuro:

 INDV12 em 14/set = 62.480 → no dia 14/set o contrato mais líquido era o INDV12

Beta de PETR4:

 0,86 → calculado com base nas cotações de PETR4 e do Ibovespa de 17/ago em diante

Agora que o investidor tem todas as informações basta inserir os valores na fórmula para calcular a
quantidade de contratos futuros.

 (R$ 23.170 ÷ 62.480) x 0,86 = 0,32 contratos do Índice Futuro Cheio (INDV12)

É impossível vender 0,31 contratos do INDV12. O investidor tem que utilizar os Mini-Contratos (WINV12).
Para se chegar à quantidade de Minis, multiplique a quantidade de contratos do INDV12 por cinco. Cinco é
o fator de equivalência entre o contrato cheio e o mini, pois cinco minis equivalem a um contrato cheio.

Quantidade de Minis:

 0,32 x 5 = 1,6 mini contratos (WINV12) → 1 mini contrato

Como a quantidade calculada não é um número inteiro há a dúvida se arredonda o número para cima ou
para baixo. Vende apenas um mini-contrato ou dois mini-contratos?

O raciocínio mais utilizado é considerar 1,6 como o valor máximo de mini-contratos que devem ser
vendidos. Nesse caso o investidor venderia apenas um mini-contrato. Caso a quantidade calculada tivesse
sido 1,9 minis, faz mais sentido o investidor vender dois minis ao invés de apenas um.

Como regra geral o arredondamento deve ser para baixo quando o valor for menor que 0,5, mas quando o
valor for maior que 0,5, arredonda-se para cima.
Resultado Financeiro do Hedge
No dia 04/out o investidor desmontou o Hedge, pois o preço voltou para dentro do canal de alta atingindo
inclusive a linha central do canal (veja gráfico abaixo). No dia 14/out a cotação da PETR4 estava em R$
22,40 e a do WINV12 estava em 58.410.

PETR4 formou um Candle de Estrela Cadente (ou Shooting Star, no inglês). Vamos ver se o Hedge protegeu
a carteira de ações composta por PETR4.

 PETR4 (comprado)
 Queda de R$ 23,17 para R$ 22,40 → PREJUÍZO
 R$ 22.400 – R$ 23.170 = R$ 770
 WINV12 (vendido)
 Queda de 62.480 para 58.410 → LUCRO
 {(62.480 – 58.410) / 5} x 1 Mini = R$ 814
 Resultado Final
 R$ 814 – R$ 770 = R$ 44

O resultado final foi um pequeno lucro de R$ 44. O prejuízo da queda do preço da PETR4 foi compensado
pelo ganho na posição vendida no mercado futuro. Resumindo, o Hedge fez o seu trabalho. Se o investidor
não tivesse montado o Hedge a sua carteira teria desvalorizado em R$ 770.

Hedge em carteira com diversas ações


Vejamos um exemplo para facilitar o entendimento. Um investidor tem sua carteira de ações compostas
pelas seguintes empresas no dia 14/set:

o 500 ações de PETR4 cotadas a R$ 23,17


o 500 ações de ITUB4 cotadas a R$ 34,90
o 500 ações de CYRE3 cotadas a R$ 17,17
o 500 ações de BTOW3 cotadas a R$ 9,51

Nesse dia o investidor decidiu montar o Hedge da sua carteira de ações, pois o Ibovespa atingiu um
patamar de resistência em 62.600 pontos. Esse patamar foi uma zona de congestão em abril/12 que
antecedeu ao movimento de queda forte.

Além disso, esse valor coincidiu com a projeção do preço-alvo baseado na reversão do fundo triplo
registrado em junho e julho.
1º Passo – Encontrando o Valor da Carteira
O primeiro passo é calcular o valor da carteira e a participação relativa de cada empresa na carteira do
investidor. É só multiplicar a quantidade de ações pelo valor atual de mercado:

Ação Valor da Carteira Participação Relativa

PETR4 R$ 11.585 28%

ITUB4 R$ 17.450 41%

CYRE3 R$ 8.585 20%

BTOW3 R$ 4.755 11%

Total R$ 42.375 100%

2º Passo – Beta da Carteira


O segundo passo é calcular o valor do Beta da carteira. Para isso basta multiplicar o Beta individual de cada
ação pela sua respectiva participação relativa na carteira e somar os resultados dessa multiplicação.

Ação Valor do Beta da Ação Valor Relativo do Beta na Carteira

PETR4 0,86 0,24 (0,86 x 28%)

ITUB4 0,86 0,35 (0,86 x 41%)

CYRE3 0,68 0,14 (0,68 x 20%)

BTOW3 1,05 0,12 (1,05 x 11%)

BETA DA CARTEIRA (soma dos valores relativos) 0,85


3º Passo – Quantidade de Contratos
Relembrando a fórmula para calcular a quantidade de contratos futuros vendidos temos:

(Valor da Carteira ÷ Valor do Índice Futuro) x Beta da Carteira

Já temos o valor e o beta da carteira, a única informação faltante para o cálculo é o valor do Índice Futuro
em 14/set, que estava cotado em 62.480 (INDV12).

Com todas as informações postas, basta inserir os valores na fórmula:

(R$ 42.375 ÷ 62.480) x 0,85 = 0,58 contratos do Índice Futuro Cheio (INDV12)

Transformando para mini-contratos já que não é possível vender 0,58 contratos cheios temos:

0,58 x 5 = 2,9 mini-contratos (WINV12) → 3 mini contratos

A solução final é que o investidor deve vender 3 mini-contratos (WINV12) para proteger sua carteira
composta por PETR4, ITUB4, CYRE3 e BTOW3.

Cada carteira com seu Beta


Cada carteira de cada investidor tem seu próprio beta. Por isso cada investidor deve calcular o beta de sua
carteira e não tomar o exemplo dado neste artigo como o Beta de sua carteira.

Mesmo que a carteira tenha as mesmas ações do exemplo apresentado, o Beta será diferente devido a
diferentes quantidades e às cotações atualizadas das ações.

Resultado financeiro do Hedge


No dia 04/out o investidor desmontou o Hedge e calculou se a venda dos mini-contratos protegeu sua
carteira de ações. Vejamos o resultado de cada posição:

 PETR4 (comprado)
o Queda de R$ 23,17 para R$ 22,40 → PREJUÍZO
o R$ 11.200 – R$ 11.585 = - R$ 385
 ITUB4 (comprado)
o Queda de R$ 34,90 para R$ 30,55 → PREJUÍZO
o R$ 15.275 – R$ 17.450 = - R$ 2.175
 CYRE3 (comprado)
o Subiu de R$ 17,17 para R$ 17,35 → LUCRO
o R$ 8.675 – R$ 8.585 = + R$ 90
 BTOW3 (comprado)
o Subiu de R$ 9,51 para R$ 11,76 → LUCRO
o R$ 5.880 – R$ 4.755 = + R$ 1.125
 WINV12 (vendido)
o Queda de 62.480 para 58.410 → LUCRO
o {(62.480 – 58.410) / 5} x 3 Minis = + R$ 2.442
 Resultado Final
o Prejuízo com Ações = – R$ 1.345
o Lucro com Mini = + R$ 2.442
o Lucro Final = + R$ 1.097

O resultado foi que o Hedge protegeu a carteira de ações do investidor que desvalorizou R$ 1.345. O saldo
final acabou sendo um lucro de R$ 1.097.

Apesar do objetivo do Hedge não ser de dar lucro ou prejuízo, às vezes ocorre tal situação. No exemplo o
lucro ocorreu devido ao descasamento das ações da CYRE3 e BTOW3 em relação ao Ibovespa e o Índice
Futuro. Enquanto que o WINV12 caiu 6,5% entre 14/set e 04/out, a CYRE3 ficou praticamente estável e a
BTOW3 subiu 23,6% nesse mesmo período.

Não existe Hedge Perfeito


Esse exemplo mostra que o Hedge é uma ótima ferramenta para o investidor proteger seus investimentos
em ações. Mas vale ressaltar que é difícil montar um Hedge “perfeito”, onde o prejuízo com ações seja o
mesmo valor que o lucro no mercado futuro.

Há diversos motivos para isso ocorrer e o principal deles é que a ação tem vida própria, ou seja, seu preço
não é obrigado a seguir a tendência do mercado. Há momentos em que a movimentação de preço da ação
pode ser diferente da média do mercado.

Isso ocorre devido a circunstâncias específicas da empresa ou do setor em que a empresa atua levando ao
aumento ou diminuição do apetite dos investidores pela ação da empresa.