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Universidade Federal de Santa Catarina

Publicação do Departamento de Geociências – CFH / UFSC


Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de Geociências
CADERNOS GEOGRÁFICOS

ISSN 1519 - 4639

Teorias sobre a
Industrialização Brasileira

Armen Mamigonian

Florianópolis, Ano II N. 2 – Maio de 2000


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

Cadernos Geográficos

GCN / CFH / UFSC

ISSN
Cadernos Geográficos Florianópolis Nº 2 49p. Maio 2000

1
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

Reitor: Rodolfo Joaquim Pinto da Luz


Vice-Reitor: Lúcio José Botelho

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

Diretora: Joana Maria Pedro


Vice-Diretor: João Eduardo Pinto Basto Lupi

DEPARTAMENTO DE GEOCIÊNCIAS

Chefe: Edison Ramos Tomazolli


Sub-Chefe: Nazareno José de Campos

2
Cadernos Geográficos é uma publicação editada pelo Departamento
de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina.

Comissão Editorial / Editorial Comission:

 Ivo Sostisso
 José Messias Bastos
 Maria Lúcia de Paula Herrmann

Capa: Marcelo Perez Ramos


Diagramação: Valmir Volpato

(Catalogação na fonte por Daurecy Camilo – CRB 14/416)

Cadernos Geográficos / Universidade Federal de Santa Catarina. Centro


de Filosofia e Ciências Humanas. Departamento de Geociências. – n.1
(maio 1999)- . –Florianópolis: Imprensa Universitária, 1999 – v.; 23
cm

Irregular
ISSN

1. Geografia 2. Periódico I. Universidade Federal de Santa Catarina.

Endereço para correspondência e assinatura


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Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de Geociências
Campus Universitário – Trindade
88.040-900 – Florianopolis – SC

E-Mail: cadgeogr@cfh.ufsc.br

3
Nota Editorial

Este segundo número de CADERNOS GEOGRÁFICOS está sendo


lançado, assim como foi o primeiro, durante as atividades da Semana de
Geografia da UFSC, que neste ano de encerramento do milênio, corresponde
a XXI SEMAGeo.
Apesar de parecer que esta publicação seja anual, não é a nossa
pretensão. Gostaríamos de poder oferecer de maneira sistemática dois
números por ano, mas até o presente momento não foi possível; contudo o
propósito de manter a qualidade de trabalhos na área de conhecimento
geográfico, estamos conseguindo, como se confirma com o presente artigo
do professor Dr. Armen Mamigonian, intitulado “Teorias sobre a
Industrialização Brasileira”, abordando aspectos teóricos da indústria
nacional e uma reflexão crítica sobre a inserção da nossa industrialização na
economia mundial.
Prof. Dr. Armen Mamigonian, natural de São Paulo, após licenciar-
se em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da
USP e cursar especialização em Geografia, iniciou em 1957 sua carreira
acadêmica em Florianópolis, na antiga Faculdade Catarinense de Filosofia,
onde colaborou com o Prof. Dr. Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro na
preparação do primeiro Atlas Geográfico de Santa Catarina. Na volta da
França, em 1962, onde obteve o grau de Doutor com a tese “Estudos
Geográficos das Indústrias de Blumenau”, transferiu-se, em 1965, para a
Faculdade de Filosofia de Presidente Prudente – UNESP, atuando como
professor do curso de Geografia e atualmente, aposentado pela UFSC,
leciona no Departamento de Geografia da USP.
Ao longo desses anos vem contribuindo para a compreensão do
processo da industrialização brasileira (interpretação singular à partir da
pequena produção mercantil), baseando-se no modelo histórico-econômico
de Ignácio Rangel: dualidades básicas, ciclos médios e longos.
Prof. Armen revela-se um estudioso teórico das relações entre
Geografia e Marxismo, sem aceitar a divisão intelectual do trabalho vigente,
que segmenta todas as ciências e que contribui para a alienação da teoria e
da prática.

4
Cadernos Geográficos - Nº 2 - Maio 2000

Sum ári o

I – Teorias sobre a Industrialização Brasileira e Latino-Americana 6

1 – Idéias da CEPAL ................................................................. 8

2 – A Teoria da Dependência ..................................................... 12

3 – Os Ciclos de Acumulação .................................................... 16

II – Ciclos Longos e a Inserção do Brasil na Economia Mundial:


Transição para a Economia Industrial .................................... 20

1 – Os ciclos longos e as relações centro-periferia capitalistas ............. 20

Os ciclos longos na história do capitalismo central ...................... 20

Comércio internacional e modos de produção no Brasil ............... 24

Ciclos longos e reações econômicas no Brasil ............................. 26

2 – Ciclos longos, substituição de importações e industrialização


brasileira .................................................................................. 32

Da substituição natural à substituição industrial .......................... 32

Os principais ramos industriais no início do século XX ............... 39

Localização industrial inicial e gênese dos capitais ...................... 41

3 – A revolução de 1930 e a industrialização brasileira ....................... 45

5
I - Teorias sobre a setores ligados à divisão
industrialização brasileira e internacional do trabalho, interna
latino-americana e externamente. Assim,
precocemente as esquerdas
brasileiras tornaram-se, junto com
A industrialização
a burguesia industrial, defensoras
brasileira é tema de debate da
do processo de industrialização.
nossa intelectualidade desde as
décadas de 20 e 30. O. Brandão A industrialização
publicou Agrarismo e brasileira recebeu um capítulo na
Industrialismo em 19261 e R. História Econômica do Brasil, de
Simonsen divulgou em 1939 a C. Prado Jr., publicado em 19453
primeira história da e mais tarde mereceu
industrialização brasileira 2 . Nos interpretações mais aprofundadas
dois casos trataram-se de nos escritos de dois economistas
intelectuais engajados, o primeiro, ligados aos órgãos de
dirigente comunista e o segundo, planejamento governamentais. I.
líder industrial, ambos defensores Rangel e C. Furtado4 , publicados
da industrialização, numa época na década de 50. Paradoxalmente,
em que se considerava o Brasil o tema da industrialização só
como “país essencialmente despertou o interesse dos
agrícola” e cuja industrialização professores universitários após a
sofria grandes resistências dos publicação de Formação
Econômica do Brasil, de C.
1
M ayer, F. (1926) Agrarismo e Furtado, quando o Departamento
industrialismo. Buenos Aires. Fritz de Sociologia da USP entrou no
M ayer foi o pseudônimo de Octávio
Brandão, de tradição anarquista, que debate, sobretudo F.H. Cardoso e
contribuiu desde 1922 para a
3
implantação e crescimento do PCB e Prado Jr., C. (1945) História do Brasil.
apontava a presença esmagadora de São Paulo: Brasiliense, escrita
latifundiários no aparelho de Estado originalmente para o Fondo de Cultura
brasileiro na década de 20 e a Económica (M éxico).
4
necessidade de reforma agrária para a Rangel, I. (1957) Dualidade Básica da
industrialização. Economia Brasileira. Rio de Janeiro:
2
Simonsen R. (1973) Evolução industrial ISEB, cujas idéias foram aplicadas por
do Brasil e outros estudos. São Paulo: G. Paim (1957) Industrialização e
Cia. Ed. Nacional., EDUSP, edição Economia Natural. Rio de Janeiro:
organizada por E. Carone. Simonsen foi ISEB. Furtado, C. (1959) Formação
fundador da CIESP (1928) e da FIESP Econômica do Brasil. Rio de Janeiro:
e o líder industrial de maior prestígio no Ed. Fundo Cultura. Rangel e Furtado
Brasil nas décadas de 30 e 40. publicaram vários outros textos.

6
O. Ianni5 . No fundo, até então, a com Volta Redonda ou com a
universidade não julgava a implantação das usinas
temática relevante, pois não hidrelétrica da Light? A indústria
percebia as dimensões brasileira era multinacional? Etc.
econômico-sociais e políticas que Desde então o avanço industrial
o processo de industrialização já brasileiro foi considerável, assim
alcançava. O debate que se como se fez um longo percurso
seguiu, com a participação de intelectual, que provocou alguns
numerosos pesquisadores esclarecimentos, mais ainda hoje
universitários brasileiros e as interpretações continuam
estrangeiros, iria demonstrar o contrastantes, pois refletem as
caráter controvertido das vinculações entre elas e as classes
interpretações, tais como: 1) as sociais interessadas no processo.
conjunturas de crise das
Nas esquerdas brasileiras
exportações (guerras mundiais,
três teorias referentes à economia
crise de 1929 etc.) tinham sido
brasileira em geral e à
favoráveis ou desfavoráveis ao
industrialização em particular,
avanço industrial?, 2) a condição
tiveram papel hegemônico na luta
de periferia do sistema mundial
intelectual, sucessivamente: 1) a
capitalista bloqueava ou não a
teoria da CEPAL, que
industrialização?, 3) a que classes
popularizou a expressão
sociais couberam as primeiras
“industrialização por substituição
iniciativas industriais: aos
de importação”, dominou o
fazendeiros, aos comerciantes de
ambiente cultural de 1955 a 1964,
export-import, à pequena
2) a teoria da dependência, que
burguesia e outros setores
teve grande aceitação no período
populares? Etc. Paralelamente, a
seguinte ao golpe militar,
questão da industrialização havia
enfatizou a subordinação da
chegado na época ao próprio
industrialização aos interesses do
âmbito popular, onde também se
centro do sistema capitalista, 3) a
veiculavam opiniões divergentes:
teoria dos ciclos econômicos, com
a industrialização havia começado
grande aceitação recente,
reconhece o enorme dinamismo
5
Cardoso. F.H. (1960) “Condições do processo de acumulação
sociais da industrialização de São
Paulo”. Ver. Brasiliense nº 28, e Ianni. capitalista brasileiro.
O. (1960) “Fatores humanos da
industrialização no Brasil”. Ver.
Brasiliense nº 30, procuraram apontar 1. As idéias da Cepal
os fatores sociais da emersão do
mercado interno e dos capitais para a As idéias da Cepal
industrialização, pouco abordados por (Comissão Econômica para a
C. Furtado.

7
América Latina – ONU) foram as concepções
fortemente hegemônicas nas antiintervencionistas de E. Gudin,
esquerdas brasileiras, e mesmo para quem as vantagens
latino-americanas, dos fins da comparativas internacionais
década de 50 até meados de 60. ligadas às exportações agrícolas
Elas surgiram fortemente ligadas eram as que mais interessavam ao
ao processos de industrialização e Brasil, nos moldes da política
aos problemas decorrentes, pois econômica da Velha República7 .
desde fins do século XIX grandes
Independentemente de R.
indústrias foram se instalando em
Simonsen, na Argentina R.
todas as cidades portuárias
Prebisch analisou as relações
brasileiras, desde Belém do Pará e
comerciais entre América Latina e
São Luís do Maranhão até o porto
os países do centro do sistema
do Rio Grande, criando uma nova
capitalista desde o século XIX até
realidade no interior da economia
após a Segunda Guerra Mundial,
agroexportadora, sendo que o
concluindo que os preços dos
mesmo acontecia em quase toda a
produtos primários exportados
América Latina, como na
tinham a tendência a sofrer uma
Argentina, no México, na
queda em relação aos produtos
Colômbia etc.
industriais importados, que
No Brasil, R. Simonsen significava uma tendência ao
destacou a conjuntura da Primeira empobrecimento. A correção das
Guerra Mundial e da crise de tendências dependia da ruptura da
1929 como favorável à divisão internacional do trabalho,
industrialização, em vista da via industrialização dirigida pelo
incapacidade de importação do
Brasil, inaugurando entre nós a
visão de uma industrialização que
7
se impulsionava nos momentos de Gudin, E. & Simonsen, R.C. (1978) A
controvérsia do planejamento da
crise das relações centro/periferia, economia brasileira. Rio de Janeiro:
substituindo importações tornadas IPEA, 2ª ed., introdução de C. Von
problemáticas pela queda das Doellinger. O pensamento de Gudin
nossas exportações6 . R. Simonsen representava os interesses dos
foi também o primeiro a chamar a comerciantes de exportação e
importação, das oligarquias
atenção para a necessidade do agroexportadoras e do capital industrial
planejamento governamental da Inglaterra, todos derrotados pela
como instrumento de aceleração revolução de 30, que discordavam que
da industrialização, combatendo se transferissem, via Estado, recursos
para as atividades industriais nascentes
no Brasil, enquanto R. Simonsen
6
Simonsen, R. Evolução Industrial do defendia os interesses dos industriais
Brasil. Op. cit., p. 49. brasileiros.

8
Estado8 . A deterioração dos conta o imenso avanço industrial
termos de intercâmbio entre a que já estava em processo na
América Latina e os centros América Latina, pois na
dinâmicos capitalistas, segundo Argentina já em 1929 o setor
Prebisch, resultava da diferença industrial alcançava 22,8% do
de comportamento da demanda de PIB e atingia 14,2% no México e
produtos primários em relação à 11,7% no Brasil9 .
demanda de manufaturados, pois
A industrialização como
Substituição Necessidades Capacidade Desequilíbrio
de  em > de  externo processo de substituição é a tese
importações importações importação central da Cepal, que parte dos
obstáculos externos ao
1) a elevação da renda popular no
desenvolvimento. Como R.
centro não podia significar
Simonsen e R. Prebisch haviam
aumento proporcional de
assinalado, a queda na capacidade
consumo de alimentos importados
de importação da economia,
e 2) as matérias-primas
decorrente da permanente
compunham em menor proporção
dificuldade cambial e das crises
os produtos industrializados em
do comércio internacional
vista do avanço tecnológico e do
estimulava a produção industrial
uso de sintéticos. Além disso, a
interna, que punha em ação um
abundância de mão-de-obra na
mecanismo circular, pelo qual
periferia levava a tendência à
toda nova etapa na substituição de
queda dos salários e assim dos
importações implicava aumento
preços dos produtos primários,
das necessidades de novas
diferentemente da escassez da
importações superior ao
mão-de-obra no centro, que
crescimento da capacidade de
provoca aumento dos custos e
importação, levando a um
elevação dos preços dos
dispêndio de divisas superior à
manufaturados. Assim, o fosso
economia realizada, agravando o
entre centro e periferia tendia a
déficit externo, o que
aumentar e sem intervenção
reincentivava o processo de
estatal o processo era irreversível.
substituição, conforme o esquema
Mas Prebisch, como os cepalinos
de G. Mathias10 :
em geral, não levava na devida
9
Furtado, C. (1976) A economia latino-
8
Prebisch, R. (1950) El desarrollo americana. São Paulo: Nacional, 2ª ed.,
económico de América Latina y p. 124.
10
algunos de sus principales problemas. M athias, G. (1983) O Estado
Nova York: Cepal-ONU. Prebisch, alto Superdesenvolvido. São Paulo:
funcionário do Banco Central da Brasiliense, p. 139. M athias faz a crítica
Argentina, desenvolveu suas idéias nas da distinção entre fatores externos e
décadas de 30 e 40. internos das industrializações dos

9
Agravando o raciocínio cepalino
estagnacionista, havia também
Tais obstáculos externos obstáculos internos, como 1) a
constituem também estímulos ao concentração de rendas muito
desenvolvimento industrial, como grande, e assim o mercado
já foi assinalado, e além disso o consumidor era limitado para
avanço industrial era visível desde absorver a produção industrial, 2)
antes de 1930. Ainda assim, a a tecnologia importada, dado o
queda dos termos de intercâmbio avanço do centro, era de
entre centro e periferia significava dimensões superiores às
empobrecimento crescente, pois o possibilidades do mercado,
excedente econômico criado na gerando unidades de grande porte,
periferia acabava sendo com capacidade ociosa,
transferido, na sua maior parte, provocando custos elevados, além
para o centro pelos mecanismos de que não absorvia mão-de-obra,
de troca internacional, e o que restringindo ainda mais o
restava na periferia, segundo a mercado consumidor e exigindo,
Cepal, absorvido assim, correções no sentido de
improdutivamente pelas classes tecnologias mais modestas,
compatíveis com as necessidades
de industrialização periférica, 3)
tendências à importação de
dominantes e médias perdulárias, modelos de consumo em
conseqüência da concentração de
em gastos ostentatórios. Percebe-
se, assim, o caráter rendas, provocando a produção
estagnacionista do raciocínio precoce de artigos de luxo e o
cepalino: 1) o comércio desperdício do excedente
internacional era desfavorável, 2) econômico, 4) o excedente sendo
o excedente econômico era, insuficiente, pela sua absorção
assim, absorvido em maior parte externa e desperdício interno,
havia necessidade de apelar para
pelo exterior, 3) o excedente
econômico que permanecia na as poupanças externas, sob forma
periferia era desperdiçado11 . de empréstimos bancários ou
inversões diretas.
A Cepal apontava como
países latino-americanos, considerando medidas corretivas dos bloqueios
que ambos participam de movimento a adoção de reformas estruturais
único que compõe a economia mundial levadas a efeito pelo Estado,
capitalista.
11
Oliveira, F. (1981) A economia
brasileira: crítica à razão dualista. O autor faz perigosa crítica às teorias
Petrópolis: Vozes-Cebrap, 4ª ed., p. 13. cepalinas e dependentistas.

10
principalmente a reforma agrária, vagas pela cultura de exportação,
pois a concentração de terra ou pelas importações, que
provocava restrições insuperáveis abasteciam o consumo dos
ao mercado interno, impedindo o fazendeiros. A mão-de-obra livre
avanço industrial, além de que a foi usada para atender
agricultura latifundiária exclusivamente à lavoura de café
trabalhava com técnicas e era remunerada com dinheiro, o
primitivas, gerando baixa que permitia adquirir alimentos e
produtividade e insuficiência de produtos industriais. Os lucros da
alimentos e matérias-primas nas produção cafeeira se transferiam
cidades, e assim elevação dos para as atividades industriais por
custos industriais. A transferência intermédio do sistema bancário.
de mão-de-obra da agricultura Com o tempo as atividades
para a indústria provocaria industriais acabaram gestando um
automaticamente, na visão da centro dinâmico na economia
Cepal, distribuição de renda, brasileira.
decorrente do aumento de
produtividade, e a reforma agrária
ampliaria o mercado interno, 2. A teoria da dependência
atendendo às necessidades do No tempo em que a teoria
avanço da industrialização. da Cepal foi hegemônica nas
Os estudos empíricos de esquerdas brasileiras (1955-64),
R. Simonsen e C. Furtado12 houve bom entrosamento entre
enfatizaram a importância da suas idéias e as do PCB. Formou-
introdução do trabalho livre na se uma verdadeira frente única
economia cafeeira, com a entre as interpretações dos
abolição da escravatura. Enquanto industriais e dos comunistas,
prevaleceu o trabalho escravo, as como precocemente O. Brandão e
necessidades de consumo das R. Simonsen demonstraram, ao
fazendas de café foram atendidas combater a idéia do Brasil “país
pelas atividades de subsistência essencialmente agrícola”, que
realizadas nas horas deixadas servia aos interesses
agroexportadores13 . Segundo o
12
PCB o latifúndio feudal
Simonsen, R. Op. cit. e Furtado, C. Op.
cit. Furtado apresentou vários capítulos
dominante produzia gêneros de
sobre a economia cafeeira, no interior
13
da qual se dá a gênese da M antega, G. (1984) A economia
industrialização, mas não tem um política brasileira. São Paulo: Polis-
capítulo específico sobre essa gênese, Vozes, 2ª ed., cap. IV e Breares Pereira,
conforme lembrou M artins, J.S. (1979) L.C. (1982) Seis interpretações sobre o
O cativeiro da terra. São Paulo: C. Brasil. Rio de Janeiro: Dados, nº 3, p.
Humanas, p. 98. 173 ss.

11
exportação, que interessavam aos atenção ao processo no conjunto
países centrais, responsáveis pelo brasileiro.
abastecimento do país em
A ausência de referência à
produtos industrializados,
origem dos empresários nas
prejudicando a incipiente
análises de R. Simonsen e C.
industrialização, que também era
Furtado na verdade estava
bloqueada pela pobreza da
vinculada à necessidade de não
população rural, sem poder
ofender a poderosa oligarquia
aquisitivo. O imperialismo
agrária, que divulgava a idéia de
controlava as finanças e o
seu próprio papel diretor na
comércio de exportação,
implantação da atividade
funcionando como uma bomba da
industrial. No entanto, autores
sucção, carreando as riquezas
marxistas como C. Prado Jr. e L.
nacionais para o exterior. O PCB
Basbaum14 , entre outros, já
se aproximava da Cepal pela
haviam assinalado o papel
visão estagnacionista, por admitir
fundamental dos imigrantes como
inversões industriais estrangeiras,
os principais responsáveis pela
desde que não norte-americanas e
gênese da industrialização
pela defesa das reformas de base,
brasileira. Por outro lado, F.H.
no início da década de 60, como
Cardoso e O. Ianni15 vincularam a
indispensáveis à continuidade da
criação do mercado interno aos
industrialização.
estímulos da especialização
Se as colocações de C. provocados nas fazendas durante
Furtado e da Cepal conseguiram as conjunturas de valorização dos
aliados, sobretudo nas idéias do gêneros de exportação, que
PCB sobre a industrialização permitiam a produção por
brasileira, criaram também terceiros dos alimentos e produtos
adversários. C. Furtado foi industriais. E nessas ocasiões,
criticado por não ter desenvolvido quando as atividades das fazendas
empiricamente seu modelo de café tornavam-se muito
explicativo, deixando de se referir lucrativas, geravam excedentes
mais explicitamente aos fatores aplicáveis em outras atividades
sociais responsáveis pela criação (estradas de ferro, indústrias,
do mercado interno e pela gênese
dos capitais invertidos na 14
Prado Jr., C. Op. cit., cap.
industrialização, além de ter se Industrialização e Basbaum, L. (1957)
restringido basicamente à análise História Sincera da República. Rio de
da industrialização no interior da Janeiro: Livraria São José, cap.
Desenvolvimento Industrial e
economia cafeeira, não dando Capitalização.
15
Cardoso, F.H. Op. cit. e Ianni, O. Op.
cit.

12
etc.), tese que posteriormente foi esquerdas durante a segunda
defendida por vários metade dos anos 60 e primeira
pesquisadores. dos anos 70. Logo após o golpe,
C. Furtado via o Brasil como um
Estas formulações
“país sem futuro” e estagnado,
visavam diminuir as
pela paralisação dos
interpretações que enfatizavam a
investimentos industriais, pela
importância dos imigrantes e
pecuarização do campo etc. 17 . Os
assim combater a idéia do self-
dependentistas reinterpretavam a
made-man, tão antipática à
história e analisavam a conjuntura
esquerda. Nesta direção W. Dean
econômico-política de uma nova
foi mais longe, insistindo no papel
maneira. Assim, os arcaísmos
dirigente dos fazendeiros de café,
feudais apontados pela Cepal
que teriam conduzido a economia
nada mais eram do que
brasileira da agroexportação ao
manifestações do
sistema industrial existente em
subdesenvolvimento capitalista,
meados do século XX, além de
pois o Brasil, como toda a
relacionar os avanços da
América Latina, era visto como
industrialização com as épocas de
fruto da expansão capitalista da
prosperidade da economia
Europa, tendo sido capitalista
cafeeira, criticando R. Simonsen e
desde seus inícios18 . Em 1966-67
C. Furtado, que vinculavam a
para C. Furtado o Brasil não tinha
industrialização às crises do
futuro, enquanto para os
comércio exterior. Assim, já que o
dependentistas não tinha passado.
país não era mais “essencialmente
agrícola”, os ideólogos da Os dependentistas
agroexportação trataram de se reconheciam que havia ocorrido
apropriar da industrialização16 , na década de 50 um grande
como após 1964 iriam se avanço na industrialização
apropriar da idéia da necessidade brasileira, diferenciando-se da
de intervencionismo estatal. análise Cepal-PCB, mas que isto
se devia à maior dependência e
Com o golpe militar de
1964, as divergências no interior 17
Furtado, C. (1979) “Brasil: da república
do bloco Cepal-PCB acabaram ao estado militar”. In: Brasil tempos
aflorando, dando origem à teoria modernos. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
da dependência, hegemônica nas 3ª ed.: o texto original foi publicado na
França em 1967.
18
Frank, A.G. “Desenvolvimento e
16
Dean, W. (1971) A industrialização de subdesenvolvimento latino-americano”.
São Paulo. Difel, p. 41 e 108 e Peláez, In: Pereira, L. Urbanização e
C.M . (1972) História da desenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar,
industrialização brasileira. Rio de 3ª ed.; publicado originalmente nos
Janeiro: APEC. EUA em 1966.

13
atrelamento à economia mundial empréstimos externos etc., não
capitalista, sobretudo pela dando margem à apropriação
presença maciça das interna do excedente econômico.
multinacionais no setor industrial. Além disso, com a contração do
A burguesia nacional abdicara de mercado interno a economia
sua independência, a entrava em profunda crise,
industrialização tinha deixado de caracterizada como crise no
ser um processo autônomo para processo de substituição de
ser associado, num tripé importações, pois as substituições
constituído pelas multinacionais, “fáceis” já haviam sido realizadas.
estatais e privadas nacionais, A solução encontrada havia sido a
como no caso da indústria exportação de produtos
automobilística, onde as estatais industriais, passando o Brasil a
se encarregavam das chapas de ser um país sul-imperialista na
aço, as privadas nacionais eram América Latina 20 .
fornecedoras das autopeças e as
Estabelecia-se uma nova
multinacionais eram montadoras e
divisão internacional do trabalho,
detinham a liderança19 .
não mais de oposição nações
Mas a industrialização periféricas (produtos primários) –
havia criado mais problemas do nações centrais (produtos
que os existentes anteriormente, industrializados). Países como o
pois com um exército industrial Brasil eram chamados a exportar
de reserva numeroso e o uso de bens de consumo industriais
tecnologia sofisticada importada, (têxteis, calçados etc.) aos países
a criação de empregos tinha sido centrais, numa aliança de classe
pequena, a produtividade havia dominantes do centro e da
aumentado e os salários haviam periferia, pois essas exportações
caído, ocorrendo uma contribuíam para baratear a
superexploração do trabalho e reprodução da força de trabalho
lucros extraordinários, situação no centro e, por outro lado,
que exigia a presença de ditaduras mantinha-se intacto o monopólio
militares colonial-facistas. A de centro na produção de bens de
dependência, que se tornou equipamento, que exigia grandes
crescentemente interna à inversões em pesquisas,
economia brasileira, se inalcançável na periferia. Assim,
manifestava agora pelo
20
crescimento das remessas de M antega, G. Op. cit., cap. 5, sobretudo
lucros e royalties, pagamento dos as idéias de R.M . M arini, próximas da
4ª Internacional e dos geopolíticos
argentinos, como Guglialmelli, J.E.
19
Evans, P. (1980) A tríplice aliança. Rio (1979) Geopolítica del Como Sur. El
de Janeiro: Zahar. Cid Editor, p. 142.

14
a dependência se manifestava Brasil tivesse passado de uma
também por uma estrutura situação estática (país agrícola),
econômica de desequilíbrios por processos não muito claros,
setoriais, faltando o departamento para uma nova situação estática
de bens de equipamento, situado (país semi-industrializado), da
no exterior. O crescimento da qual não tinha como sair.
economia brasileira só ocorreria
Os dependentistas foram
quando a divisão internacional do
uma dissidência no seio da
trabalho favorecesse sua
intelectualidade de esquerda antes
articulação no interior do sistema
ligada ao modelo Cepal-PCB.
capitalista mundial21 .
Essa dissidência ocorreu em toda
Apesar das aparentes a América Latina, como também
diferenças, a teoria da entre os intelectuais de esquerda
dependência era uma extensão da do centro do sistema, entre
visão cepalina à nova realidade da economistas (A.G. Frank),
industrialização brasileira e do sociólogos (I. Wallerstein),
regime militar de 1964. Na sua geólogos (Y. Lacoste) etc. Na
análise, o excedente econômico América Latina essa dissidência
era transferido para o exterior não era sobretudo política nas suas
apenas pelos mecanismos motivações e visava
comerciais, mas pela remessa de refuncionalizar os PC. Partindo da
lucros e royalties, pagamento dos idéia de que não havia condições
empréstimos etc.; o acesso à de crescimento econômico sob o
tecnologia de ponta era capitalismo, apontava somente
impossível e o mercado interno duas perspectivas possíveis:
estava comprimido, e assim o fascismo ou socialismo, e, assim
avanço a novos níveis estava sendo, a teoria da dependência
bloqueado. A teoria da funcionou como justificativa às
dependência permanecia guerrilhas, já que o capitalismo na
estagnacionista, num novo periferia, como para a Cepal, não
patamar, o do modelo “semi- tinha futuro23 .
industrializado” e articulado
mundialmente como
subimperialismo22 . Era como se o “semi-industrializados"” Note-se que,
desde 1973, M . Santos refere-se
`economia brasileira como
21
Oliveira, F. Op. cit., p. 12-3, onde as industrializada subdesenvolvida.
colocações dependendistas de F.H. Espaço e Sociedade. Petrópolis: Vozes,
Cardoso e E. Faletto são distintas das 1979.
23
de A.G. Frank e R.M . M arini. Roxborough, P. (1981) Teorias do
22
Salama, P. (1976) O processo de subdesenvolvimento. Rio de Janeiro,
subdesenvolvimento. Petrópolis: Vozes, cap. 9, foi o primeiro a indicar as
entre outros autores adota a categoria relações entre a teoria da dependência e

15
Suécia, Espanha, Austrália e
Índia25 .
3. Os ciclos de acumulação
Nestas circunstâncias
Assim como a teoria da
foram sendo retomadas as idéias
Cepal entrou em crise com o
de I. Rangel, lançadas na década
golpe militar de 1964, que
de 50, que constituíram a primeira
desvendou as fraquezas desse
visão teórica crítica ao modelo
modelo interpretativo, a teoria da
cepalino e por isso mesmo tinham
dependência começou a entrar em
que ser ocultadas pela maciça
crise em meados de década de 70,
propaganda das idéias da aliança
quando a contestação armada ao
Cepal-PCB, dominantes na
regime militar foi minguando e o
época26 . Rangel destoava ao
“milagre” econômico comprovou
duvidar que o imperialismo fosse
a força do dinamismo industrial
intrínseca e universalmente hostil
brasileiro e o governo Geisel pôs
ao desenvolvimento das forças
a economia em marcha forçada
produtivas nos países dependentes
para a nova substituição de
e que o capitalismo nacional fosse
importações, dos insumos básicos
necessariamente favorável e
e dos bens de equipamentos
apresentava uma teoria do
pesados24 . Os dados econômicos
capitalismo contemporâneo e suas
mundiais, diferentemente das
especificidades no Brasil,
visões estagnacionistas, indicaram
inclusive as articulações de
o extremo dinamismo da
modos de produção a nível
economia brasileira: de 14º PIB
nacional e internacional27 , ausente
do mundo capitalista em 1965
nas formulações cepalinas e
(US$ 19 bilhões), ela ascendeu à
empobrecidas nos dependentistas.
condição de oitavo em 1984 (US$
187 bilhões), registrando um 25
Banco M undial. Relatório anual –
crescimento de dez vezes, 1986. Rio de Janeiro: F.G. Vargas.
somente inferior ao do Japão 26
Rangel, I. (1957) Introdução ao estudo
(treze vezes) no centro do do desenvolvimento econômico
sistema, tendo nesse período brasileiro. Salvador: Univ. da Bahia,
apresentou as primeiras críticas à Cepal,
ultrapassando Holanda, México, expostas em debate em Santiago do
Chile, 1954, com J. Ahumada, cujas
idéias foram publicadas depois. Teorías
y programación del desarrollo
as tentativas de guerra de guerrilhas na económico. Santiago: ILPES, 1967;
América Latina, igualmente apontadas M antega, G. Op. cit. classifica,
recentemente por F. Oliveira. Folha de erroneamente Rangel como cepalino.
27
São Paulo. 22/09/87. Rangel, I. (1968) Dualidade básica... e
24
Castro, A.B. & Souza, F.E.P. (1985) A o prefácio a R. Losada Aldana.
economia brasileira em marcha Dialética do subdesenvolvimento. Rio
forçada. Rio de Janeiro: Paz e Terra. de Janeiro: Paz e Terra.

16
Assim, para os cepalinos e relações externas, como ficou
dependentistas a crise econômica evidente na década de 30.
de 1962-67 constituía um
O ponto de partida do
“fechamento” do mercado interno
esquema explicativo de Rangel
e uma crise definitiva do modelo
foi a constatação de que o sistema
de substituição de importações,
mundial capitalista vive fases de
quando não passava de uma crise
expansão e fases de depressão,
cíclica. Rangel partia da questão
isto é, cresce em ciclos de longa
capital: por que se desenvolve no
duração (ou Kondratieff de
Brasil enquanto os cepalinos
cinqüenta anos) e os médios
preferiam se perguntar por que o
(juglarianos de dez anos). Nas
Brasil estava tão atrasado em
fases de expansão dos ciclos
relação ao centro do sistema.
longos o centro do sistema tem
Rangel foi o primeiro a necessidade de mais matérias-
assinalar, seguido mais de perto primas, alimentos e mercados
por P. Singer e F. Oliveira 28 , que a consumidores da periferia, tendo
industrialização deu origem a um interesse em aprofundar a divisão
vigoroso modo de produção internacional do trabalho,
capitalista no interior da incorporando novos territórios e
economia agroexportadora com realizando mais investimentos,
forte setor natural, que desde a tanto no centro como na periferia.
década de 20 gerava seus próprios Nas fases de depressão dos ciclos
ciclos médios, com fase expansiva longos, diminuindo o ritmo
seguida de fase recessiva. Tais econômico do centro do sistema,
ciclos levavam à expansão vai ocorrendo contração das
industrial dos investimentos, que quantidades e dos preços das
se tornam ociosos nos momentos matérias-primas e alimentos
de insuficiência do consumo. A produzidos na periferia. Como os
capacidade ociosa recém- recursos em uso na periferia
instalada constituía poupança estavam voltados em parte ao
potencial, que podia dispensar a atendimento do comércio
poupança externa para a retomada internacional, sob formas de
do desenvolvimento econômico terras, trabalhadores e capitais,
no ciclo seguinte. O capitalismo eles entravam em ociosidade
brasileiro estava em condições de parcial nessas fases depressivas,
se expandir internamente mesmo forçando a procura de utilizações
quando eram desfavoráveis as rentáveis, elevando a economia de
alguns países periféricos a se
28
Singer, P. (1982) Desenvolvimento e
concentrarem na produção de
crise. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 3ª ed.
E Oliveira, F. Op. cit.

17
artigos tradicionalmente duas conjunturas o processo
importados29 . industrial avançou30 .
Na fase depressiva do À medida que avançava, a
primeiro Kondratieff (1815-48), industrialização ia gerando um
diante da contração do comércio centro dinâmico interno, que na
internacional, os fazendeiros década de 20 já era considerável,
passavam a usar parte de suas pois a indústria, principalmente o
terras e escravos na produção de ramo têxtil, era o setor mais
subsistência, como no caso dos importante da economia brasileira
tecidos grosseiros para uso após o café. Criava-se um setor
interno dos latifúndios, assim industrial, que passava a ter seu
como na fase depressiva seguinte próprio dinamismo, que se
(1873-96), a substituição de manifestava nos ciclos juglarianos
importações adquiriu o caráter de brasileiros. Cada ciclo médio
pequena produção mercantil nas correspondeu a um degrau na
oficinas de reparos trabalhadas escada da substituição de
por “negros de ganho”, que se importações: indústria de bens de
multiplicaram nas cidades consumo simples, indústrias de
brasileiras e de algumas grandes materiais de construção, indústria
fábricas de tecidos. Esta de bens de consumo duráveis e
industrialização nascente desde indústrias químicas e mecânicas
1880 continuou a crescer nas pesadas. Isto explica por que a
fases de expansão do comércio limitação do mercado
internacional (1896-1921), pois o determinado pela concentração de
Brasil reagia positivamente aos renda não foi um empecilho, mas
estímulos do centro e também já até um estímulo à
contava desde os fins do século industrialização, tornando
XIX com tarifas destinadas a desnecessária a reforma agrária,
atender às necessidades fiscais do pois os lucros obtidos no setor de
Estado brasileiro, que bens de consumo simples (têxtil
funcionavam como barreiras etc.) iam sendo aplicados nas
protecionistas. Assim, é indústrias de materiais de
irrelevante, até certo ponto, a construção, como no caso dos
discussão acadêmica sobre se a grupos Votorantim, Matarazzo,
industrialização foi mais rápida Jafet, etc., substituindo as novas
com a expansão ou contração do importações que se faziam. Além
comércio internacional, já que nas disso, a partir da implantação do
setor de materiais de construção
29
Rangel, I. (1981) “História da
dualidade brasileira”. São Paulo: Ver. 30
Rangel, I. (1985) Economia: milagre e
Econ. Nº 4. antimilagre. Rio de Janeiro: Zahar.

18
(cimento, ferro, azulejo etc.), os
grupos que se estabeleceram
primeiro conseguiram
oligopolizar o mercado, dispondo
de superlucros crescentemente
aplicáveis em novas substituições
de importações.
Na passagem de um ciclo
juglariano a outro foram
necessárias medidas institucionais
que facilitassem as substituições
de importações, como o controle
do câmbio, o confisco cambial do
café, as reservas de mercado, as
prioridades às importações de
equipamentos não produzidos
internamente, os incentivos fiscais
e creditícios etc. Evidentemente, o
Estado que chegou ao poder em
1930, no qual os industriais foram
sócios minoritários, foi
indispensável ao bom sucesso
deste percurso, e a concentração
de rendas, fortemente ligada à
ausência de reforma agrária, só
passou a ser empecilho
atualmente, à medida que o
edifício industrial se completou,
alcançando o limite final da
substituição de importações com a
recém-implantada indústria
mecânica pesada, tornando
necessário um novo pacto de
poder e um novo modelo de
crescimento econômico-social.

19
II - Ciclos Longos e Inserção do existência de um setor interno
Brasil na Economia Mundial: industrial, com dinamismo
Transição para a Economia próprio como ficara demonstrado
Industrial na década de 3031 .
Para um conhecimento
mais correto das relações centro-
periferia é necessário considerar
Combatendo a teoria das
os processos de funcionamento do
vantagens comparativas do
sistema capitalista mundial, em
comércio internacional, que
particular os mecanismos de
apontava os benefícios para a
gênese e ação dos ciclos longos
periferia da sua inserção como
(Kondratieff) no interior das
produtora de bens primários, a
economias centrais capitalistas,
CEPAL, na sua análise das
nas relações centro-periferia em
relações centro-periferia, insistia
geral, bem como em particular
na degradação das relações de
suas conseqüências no comércio
troca e assim na oposição entre
internacional e nas possibilidades
nações periféricas frente às
de reação ativa ou passiva dos
nações do centro do sistema
diferentes segmentos geográficos
capitalista em conseqüência do
e setoriais da periferia às
bloqueio imposto ao
conjunturas internacionais
desenvolvimento da periferia. Por
desfavoráveis.
sua vez, a teoria da dependência,
constatando o avanço da
industrialização na periferia,
apontava para a existência de uma 1. Os ciclos longos e as relações centro-
periferia capitalistas
aliança de interesses das classes
dominantes centrais e periféricas
e para as oportunidades de avanço Os ciclos longos na história do
da industrialização dependente, capitalismo central
capturada pelas multinacionais, O sistema capitalista teve
nas conjunturas favoráveis da origem na Inglaterra no século
divisão internacional do trabalho XVI, com a implantação das
(DIT). A teoria dos ciclos manufaturas têxteis de lá e dos
econômicos capitalistas (I. arrendamentos capitalistas na
Rangel) apontava a possibilidade agricultura, destinados a criação
de expansão capitalista nos países de carneiros, etc. Antes disso, e
como o Brasil, tanto nas fases de
expansão do sistema capitalista
31RANGEL, I. Introdução... Cap.3 e
mundial e da DIT, como nas fases
de contração, tendo em vista a OLIVEIRA, F. op. cit., p. 12 e
seguintes.

20
paralelamente, os capitais manufatureira 33 . Não há dúvida,
comerciais portuguesas e entretanto, que a expansão das
espanhóis haviam lançado as manufaturas, nascentes na
bases das trocas comerciais e das Inglaterra acopladas ao mercado
pilhagens coloniais, seguidos interno, exigiam a conquista de
velos capitais comerciais ingleses, novos mercados e assim expansão
holandeses e franceses. Onde a comercial, conquistada de novas
economia capitalista colônias. Os séculos XVI e XVII
manufatureira e agrícola pouco foram por excelência o período
avançava, como em Portugal e áureo do capital comercial
Espanha, os impérios coloniais europeu, responsável pela
reforçaram o feudalismo interno e nascente "Economia-mundo
barraram a transição ao européia"34 , na qual ocorreram
capitalismo: o ouro da América diferentes graus de integração
deu mais vida ao feudalismo, do com a periferia em formação: as
que acumulação primitiva ao áreas de "plantations" escravistas
capitalismo ibérico32 . Naqueles no Brasil, Antilhas e Sul dos EUA
países nos quais a economia foram as mais integradas,
manufatureira já havia avançado, seguidas da Europa Oriental
como na Holanda e na Inglaterra, (Prússia, Polônia, Hungria etc.) e
ocorreram revoluções burguesas América Espanhola, onde
precoces, nos séculos XVI e XVII dominou o trabalho servil,
respectivamente, tornando os reforçada no primeiro caso, a
impérios coloniais bases da chamada segunda servidão, ou por
acumulação primitiva capitalista, substituição dos modos de
onde as trocas e pilhagens produção asiáticos existentes
favoreciam a expansão da anteriormente entre os astecas,
manufatura e não a sobrevivência incas e maias. As economias
do feudalismo nas metrópoles. tribais africanas, que forneciam os
Assim, não se deve tomar ao pé escravos para a América, as
da letra a afirmação de que era a
supremacia comercial que dava 33 Formulação clássica de Marx sobre
margem, na época, à supremacia o período mercantilista.
34 WALLERSTEIN, I. The modern

world-system. N. York: Academic


32 VILAR, P. Ouro e moeda na Press, 1974. Poderíamos dizer,
História: 1450-1920. Rio de apoiados em P. Vilar, discordando
Janeiro: Paz e Terra, 1981, Cap. de I. Wallerstein e A.G. Frank, que
XVI e XVII discute as os impérios coloniais ibéricos
conseqüências negativas do ouro foram feudais, enquanto o Império
colonial no desenvolvimento Inglês já nasceu capitalista no
capitalista da Espanha. século XVII.

21
economias asiáticas auto- como a escravidão no Brasil, que
suficientes da Índia e da China, consistiu numa articulação que
abastecedora, de artigos de luxo e abrangia a produção de
as áreas de pequena produção mercadorias e subsistências no
mercantil da Nova Inglaterra e do Brasil, a reprodução da força de
Canadá mantiveram relações trabalho na África e a acumulação
menos intensas com o capital de capital principalmente na
comercial europeu. Europa ocidental35 .
A articulação entre o A economia-mundo
centro e a periferia era realizada européia foi sujeita às oscilações
pelo capital comercial europeu e cíclicas de longa duração, que
assim as formações sócio- consistiram num movimento
espaciais periféricas eram secular, com uma fase de grande
compostas de dois setores: o expansão no século XVI e outra
capital mercantil europeu presente fase depressiva no século XVII. A
na colônia e na metrópole e as fase expansiva correspondeu à
estruturas produtivas internas que implantação das manufaturas na
sozinhas não conseguiam definir Inglaterra e Holanda e às
um modo de produção. Na descobertas marítimas e coloniais
verdade, a escravidão brasileira sobretudo portuguesas e
ou a servidão na América espanholas. A manufatura
espanhola eram mais complexas consistia num sistema avançado
do que a escravidão romana de organização do trabalho, com
antiga ou o feudalismo europeu, sua divisão interna, mas era
pois não eram puras e sim tecnicamente conservadora, na
criações simultâneas do capital medida em que era artesanal36 .
comercial europeu, que obtinha Uma vez implantado, o sistema se
super-lucros exportando aos expandia horizontalmente, sem
preços mais altos e importando os maiores renovações técnicas de
preços mais baixos e para isto capital intensivo. Provavelmente
impunha na periferia relações de por esta razão o século XVII foi
trabalho compulsórias. No marcado pela baixa conjuntura,
processo de emersão do
capitalismo foram nascendo
35 RANGEL, I. Dualidade básica...
formações sociais duais na
Cap. 1 e 2 e Prefácio...; NOVAIS,
periferia (capital comercial mais
F. Estrutura e Dinâmica do Antigo
trabalho compulsório), na Sistema Colonial. São Paulo:
expressão de I. Rangel, que não Cadernos CEBRAP 17, 1974.
podiam ser entendidas na estrita 36 SWEEZY, P. Capitalismo
extensão do território colonial, moderno. Rio de Janeiro: Graal,
1977, p. 131 e seguintes.

22
pois o sistema manufatureiro não abastecimento interno e nas
podia sofrer alterações verticais, cidades do México, Peru, Chile,
além de que os territórios etc. desenvolveram-se
coloniais conquistados no século manufaturas de tecidos de
XVI não foram ampliados e as algodão e lã, grandes (obrajes) e
guerras comerciais se restringiram pequenas (trapiches), manufaturas
mais a disputá-los37 . reais de cigarros e pólvoras,
fábricas de louças e chapéus, etc.
Durante o século XVII a
que floresceram exatamente nas
depressão econômica que se
conjunturas de depressão do
manifestou na Europa, exceção da
comércio colonial nos séculos
Holanda, provocou grande
XVII e XVIII38 . A mesma relação
diminuição do comércio colonial
entre depressões comerciais e
e assim queda da produção dos
arranques industriais ocorreu em
gêneros coloniais, principalmente
Portugal, onde a queda dos preços
no período 1620-1670. A
do açúcar, tabaco, cravo, etc.
periferia, aparentemente,
acabou provocando no período
permaneceria deprimida, mas os
1670-1690 o primeiro impulso
acontecimentos históricos
industrialista, de tipo colbertiano,
mostraram que na Índia, no
interrompido com a elevação dos
Brasil, nas colônias americanas da
Espanha e mesmo num país então
38
semi-periférico como Portugal, FRANK, A.G. Acumulação
haviam potenciais disponíveis à mundial - 1492-1789. Rio de
expansão de produções destinadas Janeiro: Zahar, 1977, p. 122 e
aos mercados internos, até então seguintes; HUMBOLD, A. Essai
abastecidos pelo capital mercantil politique sur le royanme de la
Nouvelle Espagne. Paris: Lib. J.
europeu. Renouard, 2.ed. 1827. Humbold
Na Índia houve forte visitou em 1803 a cidade de
crescimento das manufaturas Queretaro, no México, onde
têxteis, que provocou conjuntura assinalou a existência de 20 grandes
econômica favorável ao comércio, manufaturas têxteis e 300 pequenas,
que transformaram naquele ano 970
à agricultura, etc. No Brasil e na toneladas de lã bruta, além da
América espanhola gigantesca manufatura real de
desenvolveram-se a pecuária e a cigarros, que empregava 3.000
agricultura destinadas ao pessoas, das quais 900 mulheres,
conforme Cap. XII do livro V.
Deve-se lembrar que na Espanha a
37 HOBSBAWN, E. As origens da manufatura real de cigarros
Revolução Industrial. São Paulo: localizava-se, na mesma época, em
Global, 1979. A crise geral de Sevilha, num prédio tão grande, que
economia européia no século XVII. abriga hoje a Universidade.

23
preços dos gêneros coloniais nos relações de produção que se
fins do século XVII. Nos séculos subordinavam ao capital
seguintes, depressões comerciais comercial europeu e 2) o
continuaram a estimular reações desenvolvimento das forças
industrializantes em Portugal39 . produtivas mesmo nas fases de
depressões comerciais, inclusive
O período mercantilista e
na semiperiferia ibérica. O que se
manufatureiro do capitalismo
passou no período industrial do
apresentou fases de expansões e
capitalismo?
depressões comerciais, além de
ter estimulado na periferia 1)
39
Comércio internacional e modos
MAGALHÃES GODINHO, V. Le
Portugal, les flottes du surce et les
de produção no Brasil
flottes de l’or. In: SERRÃO, J e Os contemporâneos da
MARTINS, G. Da indústria grande depressão da segunda
portuguesa. Lisboa: Horizonte, metade do século XIX (1873-
1978, p. 223 e seguintes, onde
1896), como F. Engels, haviam
aponta as depressões comerciais de
1670-1690, 1716 e anos seguintes,
percebido a existência de um
1769-1778, 1808-1826, 1834-1850 período prolongado de contração
etc., as duas últimas ligadas aos econômica, mas somente os
ciclos longos industriais ingleses; estudos de estatística econômica
VICENS-VIVES, J. Manual de de N. Kondratieff, publicados em
história econômica de España. 1926, demonstraram a evidência
Barcelona: Ed. Vicens-Vives, empírica dos ciclos longos, nos
5.reed., 1979, Cap. 30 aponta, quais se alternavam fases de
igualmente, reações manufatureiras expansão e fases de depressão
na Catalunha no final do século
econômicas40 . Assim, desde a
XVII, na mesma linha de VILAR,
P. La Catalogne dans l’Espagne
Moderne, tome I, Paris: Le 40 F. ENGELS em 1892 foi o
Sycomore, 1982, p. 638 e primeiro a chamar a atenção para a
seguintes; MARTINS, R.B. A grande depressão da segunda
indústria têxtil doméstica de Minas metade do século XIX no prefácio à
Gerais no século XIX. In: 2º segunda edição alemã de La
Seminário sobre a economia situacion des classes laborieuses en
mineira. Diamantina: DEDEPLAR- Angleterre. Paris: Costes, 1933. M.
UFMG, 1983, enfatiza a tendência DOBB analisou a referida
a auto-suficiência artesanal na depressão em A evolução do
economia mineira da segunda capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar,
metade do século XVIII, 1973 (primeira edição inglesa de
discordando das colocações de C. 1945), pp. 366-391, assim como
Furtado (Formação...), que negou a outros economistas marxistas, mas
reação endógena. foi N. KONDRATIEFF em 1926 o

24
primeira revolução industrial monopolista tem correspondido
sucederam-se quatro ciclos ao terceiro e quarto ciclos e
longos, com um primeiro período mesmo o planejamento
expansivo (a) e um segundo keinesiano, vigente desde a
depressivo (b), totalizando década de 30 no centro do
cinqüenta anos cada um, sistema, não impediu a eclosão de
aproximadamente, como se segue: nova fase depressiva, iniciada em
(a) (b)
1973, durante a qual parecem
1° ciclo longo de Kondratieff 1790-1815 1815-1848 estar em gestação as inovações
2º ciclo longo ou Kondratieff 1848-1873 1873-1896 técnicas e outras mudanças que
3º ciclo longo ou Kondratieff l896-1920 1920-1948 permitem pensar numa terceira
4º ciclo longo ou Kondratieff 1948-1973 1973-1996(?)
revolução industrial, que deverá
Os ciclos longos se abrir na década de 90 (Japão?).
desempenharam e continuam Estas rápidas observações levam a
desempenhando papel concluir que os ciclos longos
fundamental no funcionamento do fazem parte do cerne do
sistema capitalista. A fase capitalismo e de sua
expansiva do primeiro ciclo longo periodização41 .
(1790-1815) correspondeu ao
O capitalismo tem
auge da primeira revolução
funcionado à base de longas fases
industrial (Inglaterra), ponto de
partida dos ciclos industriais de investimentos crescentes,
longos (Kondratieff) e médios expansão e euforia, como no após
(Juglar) e do capitalismo segunda-guerra mundial e de
fases de queda do nível dos
concorrencial, que se estendeu
investimentos, depressão e
historicamente pelos dois
pessimismo, como está
primeiros ciclos longos (1790-
acontecendo desde 1973. Como
1896). Na fase depressiva do
segundo ciclo longo (1873-1896) explicar esta alternância sucessiva
aceleraram-se as mutações que de expansão-depressão? Ao
transformaram o capitalismo introduzir a máquina-a-vapor, a
revolução industrial inglesa
concorrencial em monopolista e
permitiu a elevação da taxa de
imperialista, bem como foram
lançadas as bases da segunda
revolução industrial (EUA e 41RANGEL, I. O Brasil na fase “b”
Alemanha), O capitalismo do 4º Kondratieff. In: Ciclo,
Tecnologia e crescimento. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira,
primeiro a sistematizar e explicar os 1982, lembra a referência de
ciclos longos em Las ondas largas Schumpeter aos ciclos como não
de la coyntura. Madrid: Revista de sendo simples amígdalas no corpo
Occidente, 1946. do capitalismo.

25
lucro e provocou o rápido navios-a-vapor em todos os
desaparecimento das manufaturas quadrantes do mundo42 .
e artesanatos na Inglaterra. Mas à
Passada a grande fase de
medida em que esta inovação foi
investimentos na modernização
entrando em todos os ramos
dos transportes, que permitindo
industriais, ela foi esgotando
baratear seus custos deu novo
paulatinamente as áreas carentes
impulso à divisão internacional do
de investimentos e baixando a
trabalho patrocinada pela
taxa média do lucro, criando uma
indústria inglesa, os negócios
situação desinteressante ao capital
voltaram a se contrair no período
e abrindo, assim, um período
1873-1896, fase depressiva do 2°
depressivo (1815-1848). Ao se
Kondratieff. Nesta fase as fusões
esgotarem as possibilidades de
industriais se aceleraram na
avanço da máquina-a-vapor no
Inglaterra e o capital industrial foi
setor industrial, o capitalismo
penetrando no setor bancário,
inglês adotou duas alternativas: 1)
resultando no capitalismo
expansão do comércio
monopolista e financeiro. Diante
internacional, com a crescente
da queda do comércio
penetração de seus tecidos em
internacional, o poder militar
novos mercados, sucessivamente
inglês se encarregou de abrir
Índia colonial, América recém-
novos mercados na África e na
independente e China após a
Ásia, lançando as bases da etapa
guerra do Ópio (1842), cujos
imperialista do capitalismo, como
artesanatos e manufaturas foram
parte do processo de acumulação
sendo destruídos e 2) estímulos às
extensiva e horizontal. A
invenções que permitissem a
Inglaterra não reagiu à depressão
aplicação da máquina-a-vapor aos
de 1873-1896 de maneira
meios de transporte continentais e
dinâmica, diferentemente dos
oceânicos, que haviam se mantido
EUA e Alemanha, até então
"manufatureiros". Enquanto a
atrasados, que foram os lugares
primeira opção correspondia a
onde ocorreram as invenções que
uma acumulação extensiva,
permitiram a eclosão da segunda
horizontal e geográfica, a segunda
revolução industrial (linha de
era uma opção que provocou logo
montagem, eletricidade, química
depois acumulação intensiva e
vertical, rejuvenescendo e
dinamizando a Inglaterra quando
42 NINEAU, M. História dos fatos
foi posta em pratica maciçamente,
abrindo nova fase expansiva do econômicos contemporâneos. São
capitalismo (1848-1873), baseada Paulo: Difel, 1969; MAURO, F.
na utilização crescente dos trens e História econômica mundial. Rio de
Janeiro: Zahar, 1973.

26
etc.), no final do século XIX e 1873-1896), as compras de
inícios do século XX43 . matérias-primas e alimentos da
periferia decresciam bem como os
preços, ocorrendo contração da
Ciclos longos e reações DIT mais do que proporcional à
econômicas no Brasil economia, grande ociosidade de
As relações centro- capital-dinheiro, terras e força de
periferia criadas pelo capital trabalho voltados à produção
exportadora, provocando
comercial no século XVI e
reforçadas pela manufatura tendências desiguais à estagnação
capitalista que sustentaram uma ou ao crescimento para dentro,
grande variedade de trabalhos pela via de substituição de
compulsórios na periferia, importações45 . O comércio
intensificaram-se no século XIX internacional acompanhou
com o crescimento do capitalismo rigorosamente os ciclos longos
industrial inglês, responsável pela como se pode perceber nos dados
de W.W. Rostow46 , que calculou
passagem dos modos de produção
escravistas e asiáticos periféricos suas taxas anuais médias de
aos modos de produção feudais crescimento por, períodos: 1860-
periféricos44 . 70 (5,5%), 1870-1900 (3,2%),
1900-13 (3,7%), 1913-29 (0,7%),
Nas fases expansivas dos 1929-38 (-1,15%) 1938-48
ciclos longos (1790-1815 e 1848- (0,0%), 1948-71 (7,3%), com
1873), os investimentos no centro avanço ou recuo da DIT nas fases
como na periferia cresciam. A expansivas e depressivas da
expansão da Inglaterra economia mundial
determinava maiores aquisições respectivamente.
de matérias-primas e alimentos da
periferia, que sofria extroversão Os dados organizados por
em decorrência de um H. Bruit47 , referentes ao comercio
crescimento proporcionalmente 45
maior do comércio internacional RANGEL, I. A história da
dualidade brasileira. Rev. Econ.
em relação à economia. Nas fases
Pol., nº 4, 1981, p. 17 e seguintes.
depressivas dos ciclos longos 46 ROSTOW, W.W. The world
emanados do centro (1815-1848 e economy, history and prospect.
Univ. Texas Press, 1978, citado por
43 NIVEAU, M. op. cit.; MAURO, F. BEAUD, M. op. cit., p. 312.
op. cit.; BEAND, M. História do 47 BRUIT, H. Acumulação capitalista

capitalismo. São Paulo: Brasiliense, na América Latina. São Paulo:


1987. Brasiliense, 1982, gráfico 2, p. 50 e
44 RANGEL, I. Dualidade básica... e RANGEL, I. A história da
Prefácio a R. Losada Aldana... dualidade... quadros I e II, p. 34.

27
exterior de cinco países latino- I. Rangel48 foi o primeiro
americanos no período 1850- a relacionar a estrutura e evolução
1914, confirmam as tendências de da formação social brasileira aos
abertura e fechamento das modos de produção dominantes
economias nacionais ao comércio no centro do sistema. O
internacional, mas servem para escravismo como criação do
distinguir dois tipos de reações capital comercial europeu, nas
diferentes. Brasil, México e condições específicas das forças
Colômbia caracterizavam-se por existentes em certas áreas da
uma inserção moderada na DIT periferia, estava maduro para
durante o período: o comércio assumir o poder no Brasil durante
exterior por habitante, apesar de o período depressivo do 1°
variar conforme os estímulos Kondratieff (1922), em sociedade
emanados do centro do sistema, com o capital comercial
não se ampliou nitidamente. brasileiro, que se havia formado
Assim, o Brasil partiu de menos nas principais praças portuárias.
de £4 (1850-54), tendo atingido (Rio, Recife, Salvador, etc.), ao
pouco mais de £6 em 1870-74 e longo do período colonial, como
1880-84, caindo para £3 em 1900- dissidência do capital comercial
04 e não alcançando £5 em 1910- português. Esta aliança de classes
14. Já a Argentina e Chile dominantes brasileiras havia
apresentaram crescente inserção rompido sua subordinação ao
na DIT: a Argentina partiu de capital comercial da metrópole
£5,5 em 1860-64 e apesar das portuguesa e passava a se
leves oscilações cíclicas, relacionar com o capital industrial
ultrapassou £20 em 1910-14. A inglês, ao redor do qual passou a
Argentina e o Chile, em girar de 1808 a 1930. No período
decorrência da crescente demanda depressivo de 2° Kondratieff
internacional de trigo, carnes e lã (1876-96) ocorreu outro reajuste
no primeiro caso e de nitratos no de classes dominantes e do pacto
segundo caso, se abriram de poder interno: os senhores de
fortemente à DIT no século XIX, escravos cederam a hegemonia e
enquanto Brasil, México e se transformaram em senhores de
Colômbia continuavam a terras, como dirigentes
desenvolver na mesma época subalternos. No período
economias voltadas ao mercado depressivo do 3° Kondratieff
interno nos períodos de depressão (1930), os senhores de terras
externa (Gráfico 1). assumiram a hegemonia, aliados

48 RANGEL, I. Dualidade básica... e


a Hist. dualidade...

28
aos industriais dissidentes do exportadores, que na Argentina,
capital comercial interno e na mesma época, tiveram seu
substituíram a dependência ao poder reforçado, com
capital industrial inglês pela conseqüências desiguais no
subordinação ao capital financeiro processo de substituição de
norte-americano, mais dinâmico. importações50 .
As relações sociais no Os pactos de poder se
interior da formação social fizeram acompanhar da luta pela
brasileira alcançaram graus de hegemonia das idéias econômicas.
maior tensão nos períodos A política inglesa de ampliação
depressivos dos ciclos longos, do comércio internacional
como as lutas regionalistas que encontrou defensores na América
sacudiram o Brasil durante o Latina de após-independência: os
período regencial (Balaiada, chamados "liberais", como o
Cabanada, Farrapos, etc.), as visconde de Cairu e Jovellanos,
rebeliões que antecederam a mas a conjuntura depressivo de
Abolição – República, o 1815-1848 favoreceu a defesa das
Tenentismo das décadas de 1920- idéias chamadas "conservadoras",
30, que conduziram à de intervenção do Estado,
reformulação dos pactos de poder protecionismo e defesa da
dominantes49 . Por outro lado, tais mercando interno. Com o avanço
pactos, envolvendo igualmente as da DIT após 1848, os "liberais",
forças sociais dominantes no apoiados pela Inglaterra tornaram-
centro do sistema, apesar de se vitoriosos e tornaram medidas
vigentes em toda a periferia, de abertura, em prol do livre-
tiveram suas especificidades em comércio51 .
cada formação social nacional: a
revolução de 1930 no Brasil
apeou do poder os setores agro- 50 MURMIS, M. e PORTANTIERO,
J.C. Estudo sobre as origens do
49 Deve-se notar que as fases peronismo. Cap. 1. São Paulo;
depressivas dos ciclos longos foram Brasiliense, 1973;
não só no Brasil como também na MAMIGONIAN, Armen. O
península ibérica, América processo de industrialização da
espanhola e outras regiões períodos América Latina: o caso brasileiro.
de lutas sociais intensas, como a São Paulo: Orientação USP nº 8,
combinação entre lutas de classes e 1988.
lutas entre dissidências regionais e 51 Jovellanos e Visconde de Cairu

o poder central em toda a América foram exemplos de “liberais”.


Latina de 1820 a 1850, conforme JOVELLANOS, G.M. (1744-
indicou para o Brasil I. RANGEL, 1811), político e economista
I. A hist. dualidade... espanhol, defendia o livre-comércio

29
O século XIX apresentou estas taxas diferentes
duas fases depressivas relacionavam-se com a falta de
prolongadas (1815-48 e 1873-96), autonomia política da Índia
durante as quais as reações à Colonial, a independência
penetração das mercadorias brasileira realizada sob proteção
inglesas variaram conforme os inglesa e o processo de lutas
pactos de poder existentes na intensas que provocaram a
periferia. Assim, comparando os independência do México. Assim,
exemplos da Índia Britânica, nesse período, teve seqüência a
Brasil e México, percebemos que invasão de tecidos ingleses na
por volta de 1820-30 as tarifas de Índia Colonial, no Brasil e no
importações mais baixas eram México, mas na periferia latino-
cobradas na Índia (3% ad- americana houve uso das
valorem), seguidas pelas capacidades ociosas criadas na
brasileiras (15%) e as mais altas depressão de 1815-48. No
eram as do México, que México, por exemplo, o governo
alcançavam 40% 52 . Certamente independente tornou-se
protecionista e industrialista. Sob
a liderança do ministro L. Alamán
não só manteve altas as tarifas de
e exerceu grande influência da importação, como criou o Banco
América espanhola. Cf. SILVA
HERZOG, J. Antologia del
de Avio, responsável pelo
pensamiento economico-social I, financiamento de várias fábricas
México: Fondo de Cultura têxteis modernas implantadas
Económica, 1963, pp. 280-290. L. neste período53 . A reação
Alamán e Alves Branco foram
exemplos de ministros 1875. México: El Colegio de
protecionistas no México e no México, 1977.
Brasil da primeira metade do século 53 O Banco de Avio funcionou de

XIX. Deve-se notar que as idéias 1830 a 1842, tendo se constituído


protecionistas apareciam em todos num banco estatal de
os quadrantes em que se combatiam desenvolvimento econômico. O
o domínio inglês, como mostra a período 1837-1846 foi radicalmente
publicação em 1841 de “Sistema protecionista, visando proteger as
nacional de economia política”, de quatro fábricas de tecidos de
F. LIST. algodão já em funcionamento em
52 PANIKKAR, K.M. A dominação 1837 e financiadas pelo referido
ocidental na Ásia. 3.ed. Rio de banco, além de outras quatro em
Janeiro: Paz e Terra, 1977; PRADO implantação. O número de teares
JR., C. História econômica do mecânicos que em Puebla era de 60
Brasil. São Paulo: Brasiliense, em 1838, alcançou (540 em 1843)
1945; HERRERA CANALES, I. El 1889 em todo o país. POTASH,
comercio exterior de México: 1821- R.A. El Banco de Avio de México.

30
brasileira foi mais modesta, em dos setores ligados à substituição
vista dos compromissos de importações realizadas
assumidos pelo Estado no anteriormente: no México as
processo de independência, mas tarifas foram afrouxadas a partir
eficiente. A ociosidade de terras e de 1856 e no Brasil a partir de
braços antes voltados à 1857, provocando
exportação foi canalizada à desindustrialização entre nós, que
produção de alimentos e matérias- se manifestou, por exemplo, no
primas e à produção de tecidos, fechamento do estaleiro naval do
móveis, roupas, etc. que Barão de Mauá 55 . Na verdade, ao
realizavam uma substituição de longo de todo o século XIX as
importações no interior das tarifas de importação variaram na
fazendas escravistas. O capital Europa Continental como também
comercial brasileiro, que também na periferia em vista das
se tornou ocioso, deu origem aos expansões e depressões da
primeiros bancos comerciais economia industrial inglesa,
privados de 1838 a 1847 no Rio, baixando e subindo
Salvador, São Luiz, Belém e respectivamente, num movimento
Recife, além de que o inverso56 .
enfraquecimento das finanças
públicas em conseqüência da
queda das receitas cambiais, levou
o Estado brasileiro a baixar em
1844 as primeiras tarifas fiscais e
protecionistas de nossa história54 .
O avanço da DIT nos
anos 1848-73 provocou nova 55 HERRERA CANALES, I. op. cit.,
extroversão nas economias p. 119; Exposição do Visconde de
periféricas e o enfraquecimento Mauá aos credores da Mauá & C. e
ao público. Rio de Janeiro, 1878, p.
México: Fundo de Cultura 8 e seguintes; a Real Fábrica de
Econômica, 1959, cap. XI e XII. Ferro São João do Ipanema foi
54 SOUZA FRANCO, B. Os Bancos fechada em 1860, recuperou-se
do Brasil. Brasília: Ed. UnB, 1984, durante a guerra do Paraguai para
apontava em 1848 as “instituições decair em seguida.
de crédito como o mais poderoso 56 BAIROCH, P. Commerce extérieur

meio de aproveitar os capitais et développment économique de


desempregados” visando fomentar l’Europe au XIX’siécle. Paris:
as atividades econômicas. A tarifa Mouton, 1976; VILELA LUZ, N. A
Alves Branco elevou os impostos luta pela industrialização do Brasil.
sobre importações de 15% a 30%, São Paulo: Alfa Ômega, 1978, cap.
cf. PRADO JR., C. op. cit. 1 e 2.

31
tornava ociosa. Benci em 1700 e
2. Ciclos longos, substituição de Antonil em 1711 constataram que
importações e industrialização brasileira
os senhores de engenho do
Nordeste para fazer face à crise,
A industrialização punham a disposição de seus
brasileira nasceu sob o signo das escravos pequenos lotes de terras
relações mundiais de nossa e um dia da semana destinados
economia, ao influxo dos ciclos aos cultivas de subsistência,
emanados do centro do sistema dando origem ao que se pode
capitalista, tendo adquirido um chamar de "brecha camponesa" no
impulso extraordinário desde a escravismo colonial58 .
revolução de 1930, em conjuntura Igualmente, quando se
de forte contração do comércio iniciou a partir de meados do
internacional, continuando seu século XVIII a fase de decadência
avanço rápido no após-guerra, da extração do ouro em Minas
mesmo com a recuperação do Gerais, ocorreu um sólido
sistema mundial capitalista. processo de substituição de
importações, que foi dando
origem à "fazenda mineira",
Da substituição natural à caracterizada por uma policultura
substituição industrial agrária extremamente variada,
Assinalamos, além de forte auto-suficiência
anteriormente, que a relação entre artesanal. Por isto mesmo o
conjunturas mundiais favoráveis e
desfavoráveis à DIT e atividades 58 CARDOSO, C.F.S. Agricultura,
econômicas no Brasil escravidão e capitalismo.
constituíram um dado básico de Petrópolis: Vozes, 1979, cap. IV;
nossa história 57 . Assim, quando a BENCI, J. Economia cristã dos
produção açucareira no Brasil nos senhores no governo dos escravos.
fins do século XVII e inícios do São Paulo: Grijalbo, 1977 refere-se
XVIII sofreu forte contração ao “costume que praticam alguns
causada pela concorrência das senhores neste Brasil, os quais
achando dificuldade em dar o
Antilhas, houve uma reação
sustento aos escravos, que os
dinâmica no interior dos servem das portas a fora nas
engenhos, visando manter elevado lavouras dos engenhos, lhes dão em
o nível das atividades, usando a cada semana um dia, em que
capacidade instalada que se possam plantar e fazer seus
mantimentos”, p. 58. ANTONIL,
A.J. Cultura e opulência do Brasil.
57RANGEL, I. Dualidade básica... e Bahia: Livr. Progresso, 1955, faz
A história dualidade... referências semelhantes, p. 52.

32
Marquês do Lavradio, em 1779, periferia. Se a conjuntura
salientava "a independência com ascendente de 1790-1815 havia
que os povos de Minas se tinham contribuído à diversificação e
posto dos gêneros da Europa, ampliação das exportações
estabelecendo a maior parte dos brasileiras (algodão e couros
particulares, nas suas próprias sobretudo), o período de baixa
fazendas, fábricas e teares, com conjuntura internacional que vai
que se vestiam a si e à sua família de 1815 a 1848 provocou no
e escravatura, fazendo panos e Brasil uma generalizada
estopa e diferentes outras drogas substituição de importações, que
de linho e algodão, e ainda de se repetiu, ainda no século XIX,
lã"59 . Este mesmo processo na baixa conjuntura de l873-1896,
ocorreu em menores proporções como já se assinalou61 .
nas áreas de mineração de Mato
No processo que deu
Grosso e Goiás, como assinalaram
origem à independência brasileira
os viajantes estrangeiros,
manifestaram-se duas tendências
permitindo o aparecimento de um
econômicas contraditórias
setor de subsistência muito
referentes à industrialização: a
diversificado, em diferentes
intenção industrializante da coroa
regiões brasileiras, que está na
portuguesa, baseada na
raiz do que M. Santos chama de
experiência pombalina e
"circuito inferior da economia"60 .
consubstanciada no alvará de 28
Mas foi somente com o de abril de 1809 e a subordinação
capitalismo industrial dominante do comércio importador aos
no centro do sistema capitalista, interesses do capital industrial
que os ciclos longos se inglês, conforme o tratado de 19
manifestaram e de maneira muito de fevereiro de 1810, que conferiu
vigorosa nas relações centro- às manufaturas inglesas tarifa
preferencial de 15% 62 . Da
59 MARTINS, R.B. A indústria têxtil coexistência destas duas linhas
doméstica de Minas Gerais no resultaram algumas, iniciativas
século XIX. In: 2º Seminário sobre estatais e privadas, que deram
a economia mineira. Diamantina: origem à implantação de algumas
DEDEPLA R, 1983, p. 81. indústrias e manufaturas, nos
60 MAMIGONIAN, Armen. Inserção
ramos siderúrgico, têxtil etc., que
de Mato Grosso ao mercado
nacional e gênese de Corumbá. In:
GEOSUL, nº 1. Florianópolis: Ed. 61 RANGEL, I. Dualidade básica... e
UFSC, 1986, p. 41 e seguintes; PAIM, G. Industrialização e
SANTOS, M. O Espaço dividido. economia natural. Rio de Janeiro:
Rio de Janeiro: Livr. F. Alves, ISEB, 1957.
1979. 62 VILELA LUZ, N. op. cit., cap. 1.

33
tiveram poucos anos de vida, pois nascida em 1840. Até 1857-60,
não suportaram a concorrência quando a política tarifária
dos produtos ingleses63 . brasileira sofreu liberação,
surgiram mais sete, sendo três na
A queda do comércio
Bahia e as demais em Alagoas,
exterior brasileiro no período
Minas, Rio e São Paulo66 .
1821-30 a 1841-50 de
£1,95/habitante/ano a £1,6464 , foi A contração do comércio
provocando séria crise nas mundial no primeiro ciclo
finanças do Estado, além de Kondratieff permitiu aplicação de
sentimentos nacionalistas e capital-dinheiro dos comerciantes
protecionistas. Assim, com o das praças portuárias brasileiras
encerramento da vigência do em atividades bancárias67 e em
tratado de 1810, acabou sendo algumas indústrias de tecidos de
decretada em 1844 a tarifa Alves algodão, as quais, entretanto, não
Branco que visava "não só podiam realizar uma significativa
preencher o déficit do Estado, substituição de importações diante
como também proteger os capitais da vigorosa concorrência inglesa.
nacionais já empregados dentro O principal esforço de
do país em alguma indústria substituição de importações
fabril, e animar outros a naquela conjuntura foi a
procurarem igual destino", diversificação das atividades
elevando as taxas sobre os tecidos produtivas no interior da fazenda
importados a 30%. Além disto, as de escravos, numa "economia
fábricas de tecidos foram
beneficiadas em 1846-47 por 66
vantagens fiscais65 . Em 1844 SUZIGAN, W. Indústria brasileira:
origem e desenvolvimento. São
existiam no Brasil quatro fábricas Paulo: Brasiliense, 1986, tabela 20,
de tecidos de algodão, três p. 384 e seguintes; PAULA, J.A.
nascidas na Bahia em 1834, 1835 Dois ensaios sobre a gênese da
e 1844 e uma no Rio de Janeiro, industrialização em Minas Gerais: a
siderurgia e a indústria têxtil. In: 2º
63 VON ESCHWEGE, W.L. Pluto Seminário... e CANABRAVA, A.
Brasiliensis. Vol. II. São Paulo: Cia O desenvolvimento da cultura do
Ed. Nacional, p. 346 e seguintes; algodão da província de São Paulo
NIZZA DA SILVA, M.B. A (1861-1975). São Paulo, p. 275 e
primeira gazeta da Bahia: Idade seguintes, assinalam o
d’ouro do Brasil. São Paulo: aparecimento e fracasso do
Cultrix, 1978, p. 81 e seguintes. primeiro estabelecimento industrial
64 RANGEL, I. A história dualidade... têxtil em Minas Gerais e São Paulo
quadro I, p. 34. respectivamente.
65 VILELA LUZ, N. op. cit., p. 23 e 67 SOUZA FRANCO, B. op. cit., cf.

seguintes. nota 24.

34
natural onde o poder de território brasileiro durante o
competição da indústria período colonial, conforme
capitalista do centro dinâmico assinalou S. Buarque de Holanda
chegava mais enfraquecido do e observaram os viajantes
que se limitado por uma forte estrangeiros que percorreram o
tarifa aduaneira68 . Brasil no início do século XIX,
em pontos tão distantes como o
A queda do comércio
interior de São Paulo, a ilha de
exterior no período 1821-1850,
Santa Catarina ou os arredores de
acima assinalada, evidenciou-se
Cuiabá70 . Entretanto, Minas
nos seguintes dados: para uma
Gerais foi, provavelmente, a área
população de quatro milhões de
na qual os artesanatos mais se
habitantes em 1821, o Brasil
estenderam e se aprofundaram,
importava £4,57 milhões,
desde a produção das
enquanto em 1848-50 quando a
necessidades de consumo comuns
população havia alcançado sete e
e de luxo, até a produção de
meio milhões importávamos £
utensílios para o trabalho
6,38 milhões, o que obrigava a
agrícola71 .
ampliar a economia natural para
atender a queda das importações. Em Minas Gerais desde o
Na verdade, esta economia natural século XVIII até as primeiras
no interior das fazendas já vinha décadas do XX "foi tão
do período colonial, incluindo os generalizada a plantação de
tecidos grossos destinados ao algodoeiro, que em cada fazenda
vestuário dos negros e a enfardar havia teares para o fabrica de
gêneros agrícolas69 e foi ampliada tecidos grosseiros". A maior parte
neste período, visando substituir da produção de tecidos de algodão
as importações em declínio. era constituída de panos
grosseiros para escravos e pobres,
O artesanato doméstico
mas também se produziam tecidos
rural esteve difundido por todo o
finos usados na "Confecção de
roupas masculinas e roupas de
68 RANGEL, I. A hist. dualidade..., p. baixo, além das conhecidas
21. toalhas de mesa, lençóis e
69 PAIM, G. op. cit., p. 27 e
colchas, que rivalizavam com as
seguintes, onde se lembra que no mais finas importações". Em
Brasil durante o período pombalino
“esses tecidos grosseiros eram por
demais baratos para suportar 70 BUARQUE DE HOLANDA, S.
despesas de comercialização, muito Caminhos e fronteiras. Op. cit.;
altas, e não interessava a Portugal, HILAIRE, A.S. Viagens...
por conseguinte, exportá-los para a 71 PAIM, G. op. cit.; MARTINS,

colônia”. R.B. op. cit. e PAULA, J.A. op. cit.

35
1827-28 produziam-se em Minas Estado financiou a implantação de
7,4 milhões de metros de tecidos altos fornos no início do século
de algodão, que representavam XIX, em São Paulo e Minas, mas
quase 20% das importações que não tiveram sucesso. Como
brasileiras de tecidos de algodão assinalou Eschwege, além de
inglês, sendo que 30% da outras dificuldades, o mercado
produção mineira era exportada, consumidor, pelo menos no caso
principalmente ao Rio de Janeiro. de Minas Gerais, estava atendido
O avanço do DIT após 1850 pelas inúmeras forjas existentes
estimulou as fazendas a se na zona central da província, em
especializarem na produção para todas as grandes fazendas,
exportação, absorvendo mão-de- produzindo ferro em cadinhos,
obra da produção natural e transformado em ferraduras de
criando mercado para os tecidos animais, peças de engenho,
industriais, importados ou ferramentas agrícolas etc. Em
produzidos internamente. Assim, 1853, segundo J. Monlerade,
em 1869 o presidente da província existiam 84 forja naquela zona,
lamentava que "a indústria em 1883 foram relacionadas 75 e
manufatureira já prosperou na em 1894 haviam 55, das quais 6
Província mais do que hoje, e pequenas usinas fundadas após
tende a decair cada vez mais, com 1888. Como o artesanato têxtil
a concorrência dos produtos doméstico, a sobrevivência foi
estrangeiros mais perfeitos e prolongada, mas com as novas
menos custosos, que a facilidade condições do comércio mundial
das vias de comunicação vai as forjas primitivas foram
introduzindo na província". Em cedendo lugar às usinas, a
1872 Minas Gerais reunia 55% primeira das quais, a usina
dos 139 mil trabalhadores em Esperança, foi implantada em
tecidos recenseados no Brasil, 188873 .
mas as exportações dos "panos de
Minas", tão fortes durante a
primeira metade do século XIX,
declinaram a partir de 1875 e 73 VON ESCHWEGE, W.L. Pluto
desapareceram nos últimas anos Brasiliensis. 2º vol. São Paulo:
do século72 . Nacional, p. 436 e seguintes;
PAIM, G. op. cit., p. 35 e seguintes;
Quanto à siderurgia,
PAULA, J.A. op. cit., p. 21 e
mesmo antes da independência o seguintes. O projeto do intendente
Câmara abrangia duas grandes
72 PAULA, J.A. op. cit., p. 54; unidades siderúrgicas (São Paulo e
Martins, R.B. op. cit., p. 83 e Minas Gerais), que abasteciam o
seguintes. Brasil e exportariam para a Prata.

36
A contração da economia propiciando recursos monetários
mundial capitalista, que estimulou aos fazendeiros, levou-os a
a auto-suficiência da fazenda abandonar suas casas-grandes,
escravista no Brasil, teve fim em onde se realizavam os artesanatos
1848-50, e a partir daí a utilização de auto-consumo, e a se
maciça de transporte ferroviário e instalarem nas cidades, dando
da navegação a vapor em todo o impulso à urbanização brasileira
planeta garantiu grandes após 185075 .
investimentos e incentivou a
Esta urbanização de após
periferia a produzir mais gêneros
1850 acentuou uma das
de exportação. A economia
características das cidades
brasileira voltou a se inserir na
brasileiras, a de cidades de
DIT, desestimulando a produção
fazendeiros, que aliás nelas se
natural nas fazendas, que passou a
instalaram com sua numerosa
declinar. O comércio exterior
criadagem escrava liberada das
brasileiro, que havia sido de £
casas-grandes. A partir de 1873,
1,64/habitante/ano no período
excetuando o café, cujo preço
1841-50, o mais baixo do século
caiu mais tarde, os produtos de
XIX, alcançou £3,40 no período
exportação brasileiros acusavam
1871-80, garantindo lucratividade
queda no preço obtido no
às atividades de exportação e
mercado, provocando o declínio
estimulando as importações
da renda monetária e
inglesa74 . Como já apontamos
empobrecimento da aristocracia
anteriormente, se a conjuntura de
rural recém urbanizada. Assim,
contração do comércio mundial
essa população escrava foi sendo
havia favorecido o
lançada ao mercado urbano de
estabelecimento de tarifas
trabalho, alugados ou como
protecionistas em 1844, a sua
"negros de ganho"76 , em
expansão a partir de 1848-50
profissões que freqüentemente
contribuiu para a redução das
contribuíam para substituir
tarifas aduaneiras em 1857 e 1860
importações, como carpinteiros,
e reintrodução de nova fase de
livre-comércio, dificultando a
existência das poucas "fábricas 75 VILELA LUZ, N. op. cit., p. 27 e
nacionais", surgidas na conjuntura seguintes; e p. 35 sobre as “fábricas
anterior. Por outro lado, a nacionais”, a maioria das quais
reinserção do Brasil na DIT, eram na verdade grandes
manufaturas; RANGEL, I. A
história dualidade... p. 24 e 25.
74RANGEL, I. A história dualidade... 76 RANGEL, I. A história
quadro I, p. 34; PAIM, G. op. cit., dualidade..., p. 24 e 25; PAIM, G.
cap. 2. op. cit., cap. 2.

37
pedreiros, gráficos mecânicos e importações no setor têxtil, desde
muitas vezes agrupados o Maranhão até o Rio Grande do
espacialmente como rua Sul, beneficiada pelas tarifas
Ferradores (atual rua da ascendentes de 1879. Note-se que
Alfândega) ou a Praia dos esta substituição industrial,
Sapateiros (Praia do Flamengo), modesta inicialmente, passou a
além de constituírem parte desempenhar papel central na
significativa da mão-de-obra economia brasileira após 193078 .
especializada das manufaturas de
chapéus e outras do Rio de
Janeiro. Assim como a "brecha Os principais ramos industriais
camponesa" das primeiras crises no início do século XX
da economia exportadora Quais os ramos industriais
escravista, o "negro de ganho" foi que se desenvolveram no Brasil
também uma brecha, inserido na até as primeiras décadas do século
pequena produção mercantil XX? As produções industriais
urbana nas últimas décadas de
mais avançadas eram as de
escravidão77 . alimentos, têxteis e vestuário.
Além da substituição de Alguns destes setores já eram
importações urbanas artesanais e claramente industriais: tecidos de
manufatureiras usando mão-de- algodão, lã e juta, além da
obra escrava e livre, ocorreu produção de açúcar, fósforos e
também uma substituição natural cerveja, enquanto outros
no interior das fazendas, mais permaneciam ainda com
modesta que anteriormente, e características manufatureiras e
começou a se generalizar, mesmo artesanais, como as
principalmente pela aplicação dos produções de calçados, chapéus,
capitais comerciais, que cigarros e charutos, móveis,
cresceram rigorosamente de 1850 banhas, charque, além dos
a 1873, mas que se tornavam curtumes e oficinas mecânicas e
ociosos desde então, uma fundições. A produção de tecidos
substituição industrial de de algodão, entretanto, ara de
longe a mais importante.
77 RANGEL, I. A história
dualidade..., p. 25; NOGUEIRA 78SUZIGAN, W. op. cit., tabela 20;
DA SILVA, M.R. Negro na rua. VERSIANI, F.R. Industrialização e
São Paulo: Hucitec, 1988, p. 34; economia de exportação: a
SOARES, L.C. A manufatura na experiência brasileira antes de
formação econômica e social 1914. Rev. Bras. Econ. Vol. 34, nº
escravista no Sudeste. Niterói: 1, 1980, anexo 1; VILELA LUZ, N.
UFF, 1988. Mimeo. op. cit., cap. 2.

38
Assim como na Inglaterra Tendo começado com
do século XVIII, o ramo têxtil foi estabelecimentos de pequeno
o primeiro a se tornar industrial, porte no período 1840-1870,
mas sem passar pela longa fase substituindo a produção artesanal
manufatureira, saltando das fazendas reinseridas na DIT, a
rapidamente da fase artesanal à produção industrial de tecidos de
industrial. Esta passagem ganhou algodão iniciava sua concorrência
impulso a partir de 1865-70, aos produtos importados nas duas
visando atender às necessidades últimas décadas do século XIX.
das fazendas, que se Deste modo, em 1907 já
especializavam nos gêneros de controlava 67% do mercado
exportação e abandonavam a interno e atingia 81% em 1913,
produção artesanal de auto- acelerando o processo. Assim
consumo. Assim, por exemplo, sendo, na última data não só era
em Minas Gerais (Sete Lagoas), nitidamente o mais importante
na fazenda de A.G. Mascarenhas, segmento industrial brasileiro,
em meados do século XIX, havia como era o 10º parque têxtil no
12 teares manuais operados por mundo, ocupando 50 mil teares 80 .
escravos, produzindo tecidos de
Além da indústria têxtil,
algodão para ensacar gêneros
onde predominava a produção de
agrícolas e vestir os escravos,
tecido de algodão, o ramo
além de alguma sobra para
alimentar teve grande significação
vender. Seus filhos, que haviam
no início do século XX.
exercido atividades comerciais
Apresentava-se também bastante
lucrativas (Sal=) instalaram 18
disperso geograficamente e muito
teares mecânicos importados dos
diversificado quanto aos sub-
Estados-Unidos, acionados por
ramos. Certos segmentos ainda
força hidráulica, supervisionados
mantinham características
por técnico americano, e com
fortemente manufatureiras, como
forra de trabalho, matérias-primas
os estabelecimentos produtores de
e mercado consumidor das
banha de porco e sobretudo as
redondezas, que começaram a
charqueadas, muito numerosas no
produzir em 1872. O mesmo
Rio Grande do Sul, onde as
processo acima referido, iniciado
na Bahia, começava a se
generalizar por todo o território 1979, p. 35 e seguintes;
brasileiro79 . CANABRAVA, A.P. O
desenvolvimento da cultura do
algodão na província de São Paulo
79STEIN, S.J. Origens e evolução da (1861-1875). São Paulo, p. 175 e
indústria têxtil no Brasil - 1880- seguintes.
1950. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 80 SUZIGAN, W. op. cit., p. 148.

39
maiores unidades empregavam Igualmente dispersos nas
centenas de trabalhadores. maiores cidades brasileiras
Durante a primeira guerra apareciam outros setores
mundial, a partir de incentivos "industriais", que aparecem eram
governamentais, implantavam-se muito precocemente no processo
matadouros-frigoríficos, de substituição de importações da
principalmente em São Paulo, primeira metade do século XIX,
usando técnicas modernas e como artesanatos que se tornaram
voltados conjunturalmente às manufaturas e que cresceram
exportações (33 mil toneladas em durante o período de substituição
1918), que acabaram sendo de importações do 2° Kondratieff
controlados por capitais norte- (1873-1896), usando parcela
americanos e ingleses. No ramo considerável de mão-de-obra
alimentar houve avanço das escrava especializada (negros de
usinas de açúcar, no Nordeste e aluguel), além de trabalhadores
no Estado do Rio de Janeiro, que urbanos livres, muito dos quais
acabaram absorvendo grande imigrantes estrangeiros recém-
número de engenhos, numa chegados. Em 1907, estes setores,
modernização sem mudanças já em parte transformados em
sociais81 . Também no final do industriais, controlavam o
século XIX e início do XX, mercado interno em altas
também cresceram produções proporções: charutos e cigarros
tipicamente artesanatos- (100%), calçados (95%), chapéus
manufatureiras de substituição de (90%), móveis (90%), etc. 82 .
importações, que aliás já se
Se as indústrias das
haviam completado, em setores
primeiras décadas do século XX
como cervejas, chocolates, massas
eram claramente ramos de
alimentícias, etc., sendo que o
consumo popular, como fica claro
primeiro dos citados se tornava
na relação do Censo Industrial –
rapidamente industrial (Brahma –
1907, é importante chamar a
Rio de Janeiro e Antártica – São
atenção para o caráter precoce de
Paulo, que tinham 700 e 362
algumas produções industriais de
empregados, respectivamente, em
equipamento. Já assinalamos que
1907).
elas existiam durante o século
XIX no interior do complexo rural
81
brasileiro. Mas nas grandes
MAMIGONIAN, A. Notas sobre
os frigoríficos do Brasil Central
cidades elas apareceram muito
Pecuário. São Paulo: EPG nº 51,
1976; EISENBERG, P. 82SUZIGAN, W. op. cit., p. 122 e
Modernização sem mudança. Rio seguintes; Censo Industrial, 1907,
de Janeiro: Paz e Terra, 1972. p. 261.

40
cedo, como oficinas mecânicas e As primeiras iniciativas
fundições para atender as industriais na Bahia foram
necessidades de conserto das tomadas pelos grandes
máquinas das usinas-de-açúcar comerciantes portugueses85 , antes
(Recife), das fazendas de café mesmo de 1850 e estiveram
(São Paulo e Campinas), dos ligadas à grande contração das
navios a vapor (Rio de Janeiro), atividades agrícolas de exportação
etc.83 da primeira metade do século
XIX, que atingiu mais
agudamente esta antiga região
Localização industrial inicial e açucareira, provocando grande
gênese dos capitais ociosidade de terras e braços, que
O primeiro grande explica o surgimento precoce no
segmento industrial brasileiro foi Recôncavo de um campesinato
constituído pelas fábricas de recém-liberto (policultura e fumo
tecidos de algodão, que surgiram no século XIX) e
consequentemente grande
inicialmente na Bahia, onde
funcionaram 11 dos 30 ociosidade do capital comercial,
estabelecimentos existentes no que procurou caminho nas
Brasil em 187584 . Em fins do indústrias de substituição de
século XIX a cidade do Rio de importações de tecidos populares
Janeiro ocupava a primeiro lugar e sacos de algodão de uso
não só no ramo têxtil, mas em regional. No caso do Rio de
Janeiro, a indústria têxtil também
geral: em 1907 contribuiu com
33,1% da produção industrial surgiu cedo, mas seu grande
brasileira, quando todo o Estado impulso data da década de 1870-
de São Paulo participou com 80, com transferência de capitais
apenas 16,5%. Entretanto, durante do comércio importador. Aqui,
a primeira guerra mundial, São novamente, os capitais comerciais
Paulo assumiu a liderança, que foi foram se tornando ociosos com a
contração do centro do sistema
sendo cada vez mais ampliada.
Como explicar estas mudanças? capitalista após 1873 e como eles
eram os maiores importadores e
atacadistas de tecidos do Brasil
83 SUZIGAN, W. op. cit., p. 232 e (A. Vizeu, Sotto Maior, D.
seguintes; Censo Industrial, 1907, Bebiano, etc.), acabaram dando
mapas estatísticos da indústria origem às maiores fábricas de
fabril; CORREA DO LAGO, L.A. tecidos nacionais da época, como
et alii. A indústria brasileira de bens a América Fabril, metropolitana,
de capital. Rio de Janeiro: FGV,
1979, cap. 2.
84 STEIN, S.J. op. cit., p. 36. 85 STEIN, S.J. op. cit., p. 41.

41
etc.86 . O mesmo processo ocorreu trabalhadores escravos das
nas praças comerciais do fazendas de café 88
Nordeste, como assinalaram M.
Entretanto, a medida em
C. Pereira de Melo e D.M. Passos
que as fazendas de café paulistas
Sobrinho, estudando o Maranhão
se expandiam, eram forçadas a
e Sergipe, respectivamente87 .
absorver, sobretudo nas frentes
As primeiras iniciativas pioneiras, colonos imigrantes
industriais em São Paulo foram estrangeiros, que tendo em conta
tomadas pela aristocracia rural. a escassez de força de trabalho
As seis primeiras tecelagens nessas regiões, obtinham o direito
paulistas começaram a funcionar de realizar cultivos intercalares de
entre 1870 e 1876, não longe das cereais (arroz, feijão, milho, etc.),
áreas algodoeiras. A expansão da como pequenos produtores
lavoura de café ia absorvendo independentes, além dos salários
mão-de-obra escrava dos setores referentes aos cafezais. Estas
de auto-consumo das fazendas, relações de trabalho permitiram
dispensando a produção no uma distribuição de rendas tal que
complexo rural dos tecidos dava margem a uma pequena
artesanatos destinados a vestir acumulação por parte desses
seus escravos. Assim, foram colonos e o surgimento nas
frutificando as iniciativas cidades vizinhas de uma pequena
industriais dos fazendeiros de produção mercantil destinada a
algodão (A. Paes de Barros, D.P. atender suas necessidades, que
Souza Arouca, etc.) ou de café constituiu o ponto de partida de
(Souza Queiroz, etc.) que numerosas pequenas indústrias
importavam equipamentos e paulistas em Limeira (máquinas
técnicos europeus ou norte- agrícolas), Franca (calçados) e
americanos e tinham como muitas outras cidades.
mercado consumidor os
A primeira guerra
mundial marcou em São Paulo
86
uma grande virada econômico-
STEIN, S.J. op. cit., cap. 6.
87 PEREIRA DE MELO, M.C.
social: as exportações de café
Máquina e trabalho: um estudo das caíram de £ 46,4 milhões em 1912
relações de trabalho na indústria para £ 19,0 milhões em 1918,
têxtil do Maranhão (1940-60). arrastando muito grandes
Pernambuco: UFPB, 1983. Mimeo,
p. 41 e seguintes; PASSOS 88 CANABRAVA, A.P. op. cit., p.
SOBRINHO, J.M. História 275; PAIM, G. op. cit., p. 46;
econômica de Sergipe (1850-1930). MAMIGONIAN, A. O processo de
Campinas, IFCH-UNICAMP, 1983. industrialização em São Paulo.
Mimeo, p. 119 e seguintes. BPG, nº 50, 1976 e seguintes.

42
fazendeiros à crise. Paralelamente elétrica industrial em 1907,
cresceram as exportações de distanciando-se tecnicamente dos
feijão (55 mil toneladas em 1918), demais produtores, inclusive do
de arroz (22 mil toneladas em Rio de Janeiro. Este processo
1917), etc., produzidos correspondeu à ascensão de parte
principalmente pelos colonos de dos colonos de café à condição de
café89 e assim "durante a pequenos proprietários rurais e
conflagração européia de 1914-18 dos empresários industriais
as velhas regiões do Estado, imigrantes (comerciantes de
impossibilitadas de vender as importação, numerosos pequenos
colheitas cafeeiras a preços capitalistas, etc.) à hegemonia da
remuneradores, apresentavam a transição ao capitalismo moderno,
extravagante anomalia paralelamente à decadência da
econômico-financeira de aristocracia tradicional paulista da
fazendeiros empobrecidos e condição de empresários
colonos enriquecidos; a alta dos industriais e grandes proprietários
preços dos cereais favoreceu rurais até então dominantes. Em
sobremaneira aquela situação"90 . 1935, num levantamento oficial
que abrangeu 714 empresas
Assim sendo, as duas
industriais paulistas, 72,9%
primeiras décadas do século XX
detinham origem não luso-
marcaram em São Paulo a
brasileira91 .
aceleração do crescimento
industrial, pela multiplicação As colocações que
gigantesca das iniciativas acabamos de fazer entram em
empresariais, graças à dinâmica e choque com as teses muito
numerosa pequena produção freqüentes segundo as quais a
mercantil, e assim da industrialização paulista esteve
concorrência, que explica porque ligada basicamente à transferência
representando 16,5% do parque de capitais da cafeicultura à
industrial brasileiro, São Paulo indústria92 . Mesmo analistas de
dispunha de 72,2% da potência
91 Anuário industrial 1970, p. 148,
onde se vê que 18,6% do parque
89 DENIS, P. Amérique du Sud. Vol. industrial paulista era eletrificado,
I. Paris: A. Colin, 1927, p. 199; contra apenas 5,4% na Guanabara;
MANGONION, A. O WILLENS, E. Brasil. In: The
desenvolvimento econômico do positive contribution by inmigrants.
Estado de São Paulo. Rio de Paris: UNESCO, 1955, p. 129 e
Janeiro: IBGE-BG nº 42, 1946. seguintes.
90 GIOVANETTI, B. Esboço 92 FURTADO, C. op. cit.; DEAN, W.

histórico da Alta Sorocabana. São A industrialização de São Paulo.


Paulo: Rev. Trib., 1943, p. 75. São Paulo: Difel, 1971, p. 41 e

43
esquerda confundiram a questão viva e intacta sua imagem de
das relações sociais ligadas à dinamismo e sua presença no
industrialização, quando se campo político e das idéias
negaram a encarar de frente o (Semana de Arte Moderna,
papel da imigração no processo, passado bandeirante, PD, USP,
com receio de resvalarem na etc.).
ideologia do "self made mal"93 .
Na verdade, a nível de
Entretanto os levantamentos
regionalização do processo de
estatísticos de E. Willems datados
industrialização, poderemos nos
de 1950 e de L.C. Bresser Pereira
perguntar se não há, à maneira da
datados de 1962, ambos referentes
divisão norte-sul na Itália, outra
a metrópole paulistana, mostram a
semelhante no Brasil, que englobe
insignificância da contribuição
na região industrial dinâmica a
dos fazendeiros de café ao
maior parte do Brasil meridional?
processo de industrialização94 .
Como explicar a ênfase, sempre
reiterada no papel dos
fazendeiros, visivelmente
pequena? A medida em que esta
classe social entrou em
decadência econômica no início
do século XX e sobretudo durante
a primeira guerra mundial, para
preservar sua posição política
hegemônica até 1930, e mesmo
depois seus interesses
crescentemente contestados, ela
precisava compensar, mantendo

seguintes; CARDOSO DE
MELLO, Z.M. Metamorfose da
riqueza: São Paulo 1845-1895. São
Paulo: Hucitec, 1986.
93 IANNI, O. Fatores da
Industrialização no Brasil. São
Paulo: Rev. Brasiliense, nº 30,
1960.
94 WILLENS, E. op. cit., p. 133;

BRESSER PEREIRA, L.C. Origens


étnicas e sociais do empresariado
paulista. São Paulo: Rev. Adm.
Empr., junho 1964

44
manutenção a partir de 1879 de
tarifas altas sobre produtos
3. A revolução de 1930 e a
importados, com finalidade
industrialização brasileira
basicamente fiscal, havia
garantido o início da substituição
A revolução de 1930 teve industrial de importações
relação direta com o período (tecidos), mesmo com o
depressivo do 3º Kondratieff restabelecimento do comércio
exportador após 1885. Assim, a
(1920-1948) e com o fim da
hegemonia industrial britânica e economia brasileira crescia tanto
da economia agro-exportadora, nas fases de expansão, como de
inaugurando o período de contração da DIT96 . Com o grande
expansão da economia nacional crescimento das nossas produções
sob dinamismo próprio, que para exportarão nos fins do século
interessava tanto às oligarquias XIX e inícios do XX e
rurais regionais voltadas ao concomitante inelasticidade dos
mercados das economias centrais,
mercado interno, como aos
industriais que puderam acelerar o começaram a ocorrer as primeiras
processo de substituição de superproduções, que deprimiam
importações95 . os preços, como no exemplo da
safra de café, que saltou dos 2,6
A era de progresso que a milhões de sacas em 1888 para os
reinserção na DIT em meados do 8,0 milhões em 1902, já em grave
século XIX havia proporcionado à crise que levou ao acordo de
economia brasileira, com a Taubaté (1906), visando a
expansão do setor agro- sustentação dos preços
exportador, parecia se esgotar na internacionais97 .
década de 1920-30. A queda do
nosso comércio exterior durante a
grande depressão mundial
96 Esta constatação fundamental para
iniciada em 1873, havia
estimulado e tinha sido a análise da história econômica
brasileira é devida a I. RANGEL -
compensada pela substituição
A história dualidade... e supera a
artesanal e manufatureira urbana discussão sobre crescimento maior
de importações (calçados, ou menor da industrialização nos
chapéus, charutos-cigarros, períodos de maior ou menor
móveis, instrumentos de trabalho, inserção na DIT, travada por C.M.
etc.). Por outro lado, a Paláez - História da Industrialização
brasileira. Rio de Janeiro: APEC,
1972, ao criticar C. Furtado - op.
95FAUSTO. B. A revolução de 1930. cit.
São Paulo: Brasiliense, 1970. 97 SIMONSEN, R. op. cit., p. 213.

45
A política de sustentação São Paulo99 . Sob o estímulo do
dos preços do café, inaugurada aumento da produção de 1922-23,
pelo acordo de Taubaté, acabou os industriais de tecidos de
tendo conseqüências no conjunto algodão ampliaram suas
da economia brasileira, pois à instalações e enveredaram nas
medida que os preços eram últimas substituições de
sustentados: 1) tornavam-se importações possíveis no ramo, os
empréstimos no exterior, têxteis de luxo (felpudos,
Inglaterra sobretudo, que o gobelins, etc.), mas foram
conjunto da economia brasileira surpreendidos em 1925-26 com as
tinha que pagar, 2) estimulava-se, exigências dos financiadores
involuntariamente, o aumento da ingleses da política de sustentação
produção e assim novas super- do café de abertura do mercado
produções. Esta política, brasileiro às importações
conjuntural inicialmente, passou a industriais, que acabaram
ser permanente a partir de 1926, provocando queda da produção
com o governo Washington Luís, interna100 .
criando crescente oposição dos
Em São Paulo, durante a
setores econômicos e regiões
década de 1920-30, processaram-
prejudicados98 .
se as maiores rupturas políticas,
A substituição de com o aparecimento do Partido
importações, que havia vencido o Democrático (1926) e da FIESP
grande desafio da primeira guerra (1928), o primeiro rompendo com
mundial, continuava avançando o PRP, que tinha a hegemonia
tanto no setor têxtil, como em política nacional e o segundo com
novas áreas. A Cia. Siderúrgica a Associação Comercial e
Mineira, logo adquirida pela Industrial de São Paulo. O PD
ARBED, iniciava em 1921 a refletia descontentamento dos
produção de aço, que havia sido grandes cafeicultores que
estimulado pelo grande aumento sofreram perdas durante as crises
da produção de ferro gusa durante
a guerra, assim como a Cia.
99 PELÁEZ, C.M. op. cit., p. 141 e
Brasileira de Cimento Portland,
com 70% de capitais canadenses, seguintes.
100 Em 1922 produziram-se no Brasil
começava a produzir em 1926 em
628,6 milhões de tecidos de
algodão, que subiram a 939,8 em
1923 e caíram para 582,0 (1928) e
478,0 (1929), conforme Repertório
98 FAUSTO, B. op. cit., p. 19 e Estatístico do Brasil, quadros
seguintes, baseado em A. Delfim retrospectivos nº 1, IBGE, 1941, p.
Netto. 39.

46
do início do século e da primeira interno, a indústria brasileira e os
guerra mundial e adotava uma bancos americanos, que foram
postura anti-industrialista, tendo solidificando sua aliança nas
dado origem à UDN (1945), que décadas de 1930 e 40102 .
reuniu setores agrários decadentes
A oligarquia gaúcha, que
da economia cafeeira (São Paulo e
liderava a aliança vitoriosa, era
Rio de Janeiro) e do açúcar
autoritária-reformista, de
(Nordeste). A FIESP surgiu da
formação ideológica positivista,
necessidade dos industriais se
conduziu um processo de
desvencilharem do grande
modernização pelo alto, a
comércio importador paulista, do
chamada via prussiana, como já
qual tinham sido uma dissidência,
havia acontecido na segunda
pois se viam prejudicados pela
metade do século XIX na
política de importações
Alemanha, Itália e Japão. Do
patrocinada pelo governo central,
ponto de vista econômico, em
decorrência da sustentação do
primeiro lugar, o poder vitorioso
café. Enquanto a frente paulista ia
retomou a política de sustentação
se rompendo, o Rio Grande do
do café, já que a superprodução
Sul se unia em torno da política
caracterizou o mercado até 1943-
de valorização do mercado
44, garantindo a manutenção da
interno. Com a crise mundial de
renda da cafeicultura. Mas no
1929, o governo Washington Luís
lugar da sustentação beneficiar
abandonou a política de
basicamente o setor, ela teve em
sustentação de preços do café,
vista os interesses globais da
para poder aumentar as
economia, pelo caminho do
exportações e assim acabou
controle, o que passou a permitir
perdendo o apoio dos
o uso seletivo das divisas, em
cafeicultores101 . Em 1930
direção às importações
perderam o poder o grande
"essenciais" e em detrimento das
comércio importador, a
importações "supérfluas". O uso
cafeicultura paulista e a indústria
dos recursos nacionais e
inglesa, que estavam em coalizão
governamentais, visando acelerar
desde 1888-89, tendo ascendido o
a substituição de importações,
latifúndio ligado ao mercado
passou a ser submetido a um
101
mínimo de planejamento, por
FAUSTO, B. op. cit., p. 32 e
órgãos criados após 30 como o
seguintes; TRINDADE, H.
Aspectos políticos do sistema
Conselho Nacional de Política
partidário, riograndense (1882- Industrial e Comercial, Conselho
1937). In: Economia & Política.
Porto Alegre: Mercado Aberto, 102 RANGEL, I. A história
1979, p. 166 e seguintes. dualidade... op. cit.

47
Federal do Comércio Exterior e Unidos não eram nossos grandes
Comissão de Planejamento fornecedores de produtos
Econômico, nos quais industrializados, mas sim de
participaram industriais corno B. derivados de petróleo, e com isto
Simonsen, tomando posições a revolução de 1930 não afetou
contrárias ao livre-comércio, a nitidamente seus interesses
105
favor do protecionismo e do industriais . Já na Argentina a
planejamento103 situação se colocou de outra
maneira: o peso do setor agro-
Por outro lado, a
exportador frente ao setor de
substituição da Inglaterra pelos
mercado interno era muito maior
Estados-Unidos como poder
do que no Brasil e se voltava para
hegemônico externo não criou
o mercado consumidor inglês.
empecilhos insuperáveis à
Acabou reagindo defensivamente
industrialização, pois o poder no
na década de 30, prendendo-se
capitalismo americano era
numa DIT em processo de
mantido pelo setor bancário, mais
superação e assim sua
do que pelo industrial ao contrário
substituição de importações
da Inglaterra onde os bancos
tornou-se mais lenta do que a
subordinavam-se às indústrias104 ,
brasileira.
o que garantiu financiamentos
durante a segunda guerra mundial Com a crise mundial de
às companhias estatais nascentes 1929 a contração do comércio
(VRD e CSN). Deve-se notar que internacional brasileiro foi
antes de 1930, o Brasil mantinha enorme: de £4,4B/ano/habitante
relações internacionais no período 1921-30, caiu para £
triangulares, obtendo a maior arte 1,76 na década 1931-40106 . O
das divisas dos Estados-Unidos novo pacto de poder criado em
(café) e gastando-as com 1930 tratou de acelerar o processo
importações de produtos de substituição de importações: 1)
industriais e financiamentos (café) usando seletivamente os recursos
ingleses. Assim, os Estados- cambiais, como já se sublinhou,
2) retirando as barreiras fiscais
internas entre as unidades
103 DINIZ, E. Empresário, Estado e estaduais, 3) financiando a
Capitalismo no Brasil: 1930-1945. produção por intermédio do
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978;
Banco do Brasil, colocado sob a
GUDIN, E. e SIMONSEN, R. A
controvérsia do planejamento na
economia brasileira. Rio de Janeiro: 105 RANGEL, I. Dualidade básica...
IPEA, 2.ed. 1978. op. cit., cap. 4 e 5.
104 RANGEL, I. A história 106 RANGEL, I. A história
dualidade... op. cit. dualidade... op. cit., quadro I.

48
direção dos industriais, como na da nova legislação trabalhista 109 .
ampliação das empresas Klabin Note-se que enquanto na
(papel), Pignatari (cobre) etc., 4) Argentina, mesmo após a crise
instituindo reservas de mercado, mundial, a industrialização sofreu
como no exemplo do carvão, pressões pelo lado "direito" (agro-
obrigando o uso obrigatório de exportadores), como pelo lado
10% (1931) e depois de 20% "esquerdo" (organizações
(1937) do produto nacional sobre operarias combativas), no Brasil a
o total consumido por cada revolução de 1930 conseguiu
usuário brasileiro, etc. A reação superar estas duas pressões
da industria à crise mundial, dada limitantes à acumulação
a capacidade ociosa existente em industrial.
alguns ramos, foi imediata, assim
Com o avanço da
como se consolidou nos anos
industrialização se acelerou a
seguintes aos estímulos da
integração das economias até
conjuntura e governamentais. A
então fortemente regionais em
produção de carvão mineral
torno de São Paulo. Na
aumentou de 27% de 1930 a
Amazônia, por exemplo, em
1931, a de tecidos de algodão
contração enorme desde a crise da
aumentou de 30% e a de cimento
borracha da segunda década do
aumentou de 95% 107 .
século, ao lado da agricultura de
Como uma das medidas subsistência que se estendeu no
mais eficazes de apoio à interior dos seringais substituindo
industrialização não se deve importações pela via da economia
esquecer a política trabalhista, que natural, a parte da produção
foi capaz de enfraquecer as comercial da borracha que
organizações operárias sobreviveu à crise, passou a ser
combativas e instituir sindicatos destinada às indústrias de
atrelados ao Estado autoritário pneumáticos que surgiam no Rio
paternalista. A experiência em de Janeiro e São Paulo, e além
curso nas indústrias "alemães" do disto desenvolveram-se plantios
Rio Grande do Sul (Renner, por
exemplo, onde havia trabalhado
Lindolfo Collor), seguindo o ROSAVALLON, P. La crise de
modelo iniciado na Europa por l’Éfat-providence. Paris: Ed. Seuil,
1981.
Bismarck108 , foi a base empírica 109 MUNAKATA, K. A legislação

trabalhista no Brasil. São Paulo:


107 Repertório Estatístico do Brasil, Brasiliense, 1981; FAUSTO. B.
op. cit., p. 20, 39 e 43. Estado, trabalhadores e burguesia
108 Kent, G.O. Bismark e seu tempo. (1920-1945). São Paulo: Novos
Brasília: Ed. UnB, 1976; Estudos CEBRAP, nº 20, 1988.

49
de juta e de guaraná destinados às
fábricas de sacos de juta e de
refrigerantes localizadas
igualmente no Sudeste110 .

110 LOBATO CORRÊA, R. A


periodização da rede da Amazônia.
Rio de Janeiro: IBGE-RBG nº 3,
1987.

50