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Anais do IV Simpósio Lutas Sociais na América Latina ISSN: 2177-9503

Imperialismo, nacionalismo e militarismo no Século XXI


14 a 17 de setembro de 2010, Londrina, UEL

GT 7. Feminismo e Marxismo na América Latina

A influência marxista no
desenvolimento
desenvolimento do feminismo
brasileiro

Elaine Bezerra∗

Introdução
Para falar em opressão da mulher é preciso remontar os primórdios
da história das sociedades, mais precisamente, no momento em que estas
passam da fase nômade para a sedentária. Com esta transição, houve uma
mudança na função social da mulher a partir da divisão do trabalho, ou seja,
a elas couberam as tarefas com o lar, cuidando da reprodução, enquanto os
homens saiam para caçar e pescar1.
Porém, foi com a constituição da propriedade privada que se deu a
subordinação da mulher ao homem isto porque houve um controle da força
de trabalho das mulheres, da reprodução e a perpetuação da propriedade
privada que pressupunha a monogamia heteronormatividade. Às mulheres
era delegado o mundo privado, do lar, enquanto que os homens eram os
sujeitos da vida pública2.


Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Campina Grande. End. eletrônico:
nanibezerra2002@yahoo.com.br
1 Nesse momento é que as mulheres descobrem a agricultura com a observação da germinação das

sementes em volta da casa.


2 Uma categoria que nos ajuda a entender esta situação é a da Divisão Sexual do Trabalho. “A divisão

sexual do trabalho é parte integrante da divisão do social do trabalho. Do ponto de vista histórico, a
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Ao longo da história muitas mulheres se colocaram frente a esta
situação, mas foram acusadas de bruxas, perseguidas e mortas. As primeiras
manifestações organizadas ocorreram no início do século XIX, com
destaque para a participação na Revolução Francesa e para a organização das
mulheres operárias já nos fins do século. A partir daí, pode-se falar de um
feminismo como movimento político organizado com teoria e práxis
próprias. A aproximação das mulheres aos movimentos operários e as
correntes de pensamento anarquista e socialista trouxe tensões que até hoje
é perceptível na ação do feminismo em todo o mundo.
O presente trabalho tem como objetivo trazer alguns elementos de
reflexão sobre a luta das mulheres no Brasil no século XX. Para o debate
utilizo basicamente o livro da Celi Regina Jardim Pinto: Uma história do
Feminismo no Brasil, por considerar que faz uma boa contextualização
histórica e pontua matizes essenciais do feminismo brasileiro, mas também
uso alguns mímeos meus construídos para fazer formação política com as
mulheres.

Feminismo no Brasil
Formalmente o feminismo é datado no Brasil a partir da virada do
século XIX para o século XX. Ele não surge como um movimento massivo,
mas parte de grupos isolados e tem um forte personalismo, muitas vezes
cristalizado nas lideranças. Alguns estudos o periodizam em três grandes
“ondas”, são elas: as sufragistas no início do século, o período da ditadura
(pós-68) e a fase da “redemocratização”.
Diferentemente do que é propagado pelo senso comum e por
algumas literaturas sobre o assunto, apesar de sua origem ter uma forte
influência da Europa e dos Estados Unidos, o feminismo brasileiro tem suas
particularidades: “... O feminismo no Brasil não foi uma importação que
pairou acima das contradições e lutas que constituem as terras brasileiras, foi
um movimento que desde suas primeiras manifestações encontrou um
campo de lutas...” (PINTO, 2003, p.10).
Utilizarei essa classificação para apoiar o desenvolvimento deste
artigo, por considerar pertinente e apontar algumas tendências que
marcaram e marcam o movimento feminista brasileiro até hoje.

estruturação atual da divisão sexual do trabalho (...) apareceu simultaneamente com o capitalismo (...)”.
(KERGOAT, 1998, P.8)
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“Primeira onda” do feminismo
Temos três principais expressões do feminismo situado na primeira
“onda”, são elas: o sufragismo de Bertha Lutz, o jornalismo feminista e as
feministas anarquistas. Passaremos a resgatar alguns elementos de cada
expressão.

 O Sufragismo de Bertha Lutz


De acordo com Céli Regina Pinto, o período marcado pela luta pelo
direito das mulheres votarem vai do início do século até 1922 e influenciado
por duas tendências: o feminismo “bem-comportado” e o “mal-
comportado” 3. Esse era o momento em que o Brasil tinha se tornado
república e havia aprovada a sua constituição em 1891, mas as mulheres
foram excluídas como “cidadãs”. As representantes que se colocavam
frente a essa situação vinham basicamente de duas realidades: as de classe
abastada com influência econômica e cultural, mas também das fábricas
como operárias das indústrias existentes na época.
Uma das primeiras organizações que surgiu no seio do feminismo
“bem-comportado” foi o Partido Republicano Feminino (1910) criado pela
feminista Bertha Lutz, que gozava de prestígio econômico, cultural e
profissional. Ainda Segundo Celi Pinto, o Partido tinha o objetivo de fazer a
representação política das mulheres e lutar pelo direito ao voto, a
emancipação, independência e cidadania. A mesma Bertha Lutz fundou
anos mais tarde a Federação para o Progresso Feminino (1918).
O traço característico dessa tendência do feminismo é a luta apenas
intraclasse, que procura manter o status quo não questionando o
patriarcado: “um feminismo bem-comportado, na medida em que agia no
limite da pressão intraclasse, não buscando agregar nenhum tipo de tema
que pudesse pôr em xeque as bases da organização das relações patriarcais”
(PINTO, 2003, p.26).

 O Jornalismo Feminista
Neste período (início do século XX) havia uma intensa luta pela
liberdade de informação, onde o Rui Barbosa aparecia como ícone da defesa
de uma imprensa livre. As mulheres também utilizaram a imprensa como
forma de propagar idéias e conquistar adeptas, escrevendo artigos
radicalizando a denúncia sobre a condição da mulher na sociedade.

3 A autora ao utilizar esta expressão sempre coloca entre aspas.


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Esse feminismo mantinha algumas diferenças em relação ao
praticado por Bertha Lutz (que também escrevia e tinha grande inserção na
imprensa), pois trazia elementos de contestação dos direitos políticos e civis,
como o matrimônio. Mas havia uma “diferença de postura entre uma
mulher que escrevia na grande imprensa e as feministas que sustentavam
pequenos jornais, muitas vezes, artesanais, em que eram publicados artigos e
opiniões mais radicais sobre a condição da mulher” (PINTO, 2003, p. 30).
Destaca-se nesta época o jornal O Sexo Feminino que depois se
tornou 15 de Novembro do Sexo Feminino editado por Francisca
Senhorinha Motta Diniz. Francisca Diniz escrevia artigos chamando a
atenção para a ignorância das mulheres em relação ao casamento,
principalmente as que estavam expostas com maridos que faziam do
matrimônio uma forma de enriquecer.
Estudiosas da imprensa feminina demonstram que desde o século
XIX há registros de periódicos editados por mulheres que abordavam temas
como a moda, mas que esses conteúdos vão transformando-se ao longo do
tempo e chegar ao século seguinte com questões mais radicalizadas. E,
apesar do alto índice dos de analfabetismo entre as mulheres, tinha uma boa
propagação, além de ser notável o senso de estratégia e forma de buscar
brechas para fazer propaganda das causas das mulheres.

 Feministas Anarquistas /Operárias


Nesta primeira onda houve uma forte presença de mulheres na
imprensa anarquista que imprimiam lutas totalmente diferentes do “grupo
da Bertha Lutz”. Elas tinham uma ação mais radicalizada, identificando a
exploração da mulher como decorrência das relações de gênero, da opressão
masculina.
O anarquismo chegava com força no seio da classe operária do Brasil,
presente nas primeiras greves e mais tarde vem também as idéias socialistas
e comunistas. Porém, ação destas mulheres enfrentava uma questão que
ainda hoje gera polêmica nas organizações de esquerda no Brasil e no
mundo: a necessidade da incorporação de lutas específicas dentro da luta
pela emancipação da classe trabalhadora.
Esses movimentos libertários tinham em seu seio uma contradição:
Por um lado, diferentemente do pensamento dominante na época,
incorporava a mulher no espaço público como companheira
revolucionária. Por outro lado, entretanto, tinha muita dificuldade em
aceitar a questão da dominação da mulher como um problema diferente do
da dominação de classe (PINTO, 2003, p. 34).

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Essa era uma postura muito comum entre os revolucionários,
inclusive as lideranças mulheres como é o caso da Luci Fabbri, uma
importante intelectual anarquista, que mantinha uma resistência em relação
ao feminismo.
As mulheres anteciparam, aqui no Brasil, (pois já havia toda uma
discussão feita pelas socialistas como Clara Zetkin e Alexandra Kolontai na
Europa) o debate da especificidade das mulheres na exploração do
capitalismo, trazendo a centralidade do trabalho e tendo como principal
bandeira de luta a questão do tempo, denunciando a dupla jornada a que
estão submetida as mulheres operárias.
Podemos ver claramente a posição destas mulheres nos trechos do
manifesto distribuído pela União das Costureiras, Chapeleiras e Classe
Anexas do Rio de Janeiro:
“Vós que sois precursores de uma era onde posso reinar a igualdade para
todos, escutai: tudo que fazeis em prol do progresso, militando no seio das
nossas associações de classe, não basta! Falta ainda uma coisa,
absolutamente necessária e que ocorrerá mais eficazmente para o fim
desejado por todos os sofredores. É a Emancipação da Mulher (...).
(UNIÃO DAS COSTUREIRAS, CHAPELEIRAS E CLASSE ANEXAS
DO RIO DE JANEIRO, 1920. Apud PINTO, 2003, p.35).
Com isto, elas denunciam que os oprimidos não são oprimidos da
mesma forma e denunciam as diferenças dentro da classe trabalhadora. Uma
liderança expressiva desta vertente foi Maria Lacerda de Moura que era a
favor do amor livre e a educação sexual, se opondo à idéia de existência de
Deus e do amor a pátria. Segundo Celi Pinto, Maria Moura ela foi uma das
feministas mais importantes do início do século, defendo o estudo da causas
sociais da condição da mulher, apontando o capitalismo como grande
responsável. Para a feminista anarquista o homem é o opressor identificado
no capitalista, no patrão que explorava as mulheres.
Esse era o feminismo “mal-comportado” e entrou em vários embates
com o movimento das “bem-comportadas” através de artigos escritos em
seus respectivos periódicos. As anarquistas questionavam basicamente a
centralidade que as sufragistas tinham na luta eleitoral, mantendo as
tradições conservadoras da família e da propriedade.
Como pudemos ver várias das questões trazidas pela vertente das
feministas anarquistas e sufragistas ainda são atuais nas várias organizações
que luta pela emancipação das mulheres.

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“Segunda onda” do feminismo ou o “novo feminismo”
Após as intensas mobilizações nas três primeiras décadas do século
XX, o feminismo no Brasil perdeu sua radicalidade e, se não caiu no total
imobilismo, tornou-se quase inexpressivo. Esta derrocada é atribuída em
parte à conquista das mulheres pelo direito a votar em 1932 (metassíntese
do período anterior), mas também a ditadura do governo Vargas que fez
uma verdadeira perseguição e desmontou várias organizações sociais.
Em meados da década de 70 ressurge um feminismo com
características diferentes do início do século, mas que ainda mantém alguns
elementos das vertentes anteriores.
O Brasil vivia a Ditadura Militar marcada por uma bipolaridade
política entre os grupos que mantinham a base do regime ditatorial e os
movimentos de esquerda (PTB, PCB, movimentos de igreja, camponeses, de
bairros, entre outros).
Nessa conjuntura começaram a surgir movimentos de mulheres
ligadas a classe média e as classes populares que lutavam contra a carestia e
pela anistia. Um traço característico dessas movimentações é que os grupos
não se organizavam para questionar a opressão da mulher na sociedade, mas
para reivindicar coisas mais imediatas no campo, principalmente, da luta
econômica e da liberdade política. Algumas estudiosas ponderam que estes
movimentos não podem ser considerados feministas, uma vez que não
lutavam pela mudança de papéis atribuídos as mulheres pela sociedade.
No entanto, o movimento feminista que ressurge nesta época
apresentava dois cenários:
... o primeiro, muito presente nos partidos de esquerda, que tendem a
minimizar estas questões específicas, incluindo-as como parte da
problemática maior da desigualdade. O segundo, cenário é o da presença
da questão da desigualdade no interior dos movimentos, reconhecendo as
diferenças que essa desigualdade toma quando se trata de mulheres pobres,
negras, sem-terra ou, de outro lado, de mulheres ricas ou intelectualizadas
(PINTO, 2003, p. 46).
O ano de 1975 foi declarado pela ONU como o Ano da Mulher e é
considerado o momento inaugural do feminismo brasileiro, pois é quando o
movimento se torna público e busca sua institucionalização. Sofre uma forte
influência de duas linhas políticas principais que começaram a se constituir
ainda na década de 60: uma delas é a do debate praticado pelo grupo de
mulheres exiladas principalmente na França e no Chile e o outro dos grupos
de reflexões que despontavam nos Estados Unidos.
Pós-64, vários brasileiros perseguidos tiveram que se exilar fora no
país e as mulheres que iam exiladas sozinhas ou com seus companheiros

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entraram em contato com a efervescência política e cultural dos países do
norte. Essas mulheres começaram a se organizar em Círculos de Mulheres
Brasileiras para debater e sofreram uma forte influência marxista. Elas viam
a luta de classes e a libertação das mulheres como duas questões que não
podiam ser subsumidas uma a outra.
Mas este feminismo não era bem visto pelos homens exilados,
ocasionando uma tensão entre os militantes que acusavam as mulheres de
divisionistas, pois essa movimentação representava uma dupla ameaça: à
unidade da classe trabalhadora contra o capitalismo e ao poder dos homens
nas relações de gênero dentro e fora de casa.
O Círculo de Mulheres Brasileira em Paris enfrentava um debate
interno polarizado pela vertente mais marxista e aquelas que defendiam um
movimento libertário com ênfase no corpo, na sexualidade e no prazer. Esta
última era fortemente influenciada pelos grupos de reflexão norte americano
e que tiveram grande inserção no Brasil4.
Em resumo, esta tensão estará presente na mais expressiva
organização de mulheres deste período, o Centro de Desenvolvimento da
Mulher Brasileira, fundado no ano de 1975. O Centro existiu até 1979 e
abrigou três grandes tendências: a marxista, a liberal e a radical. A primeira
tendência associava a luta pela emancipação das mulheres à luta de classe, as
liberais reduziam a luta aos direitos individuais e as radicais não
apresentavam uma plataforma coletiva e colocavam sua própria condição na
discussão.
No geral, nesta década a questão da mulher foi pautada fortemente,
mas enfrentando um paradoxo constante: não bem visto pela ditadura
militar, pois ameaçava a tradição e a família, nas também encontravam
resistência nos movimentos que lutavam contra a ditadura.
Contudo, pode-se dizer que a partir de então feminismo existe como
movimento político emancipatório reconhecido e se afirma no Brasil.

“Terceira onda” do feminismo – a redemocratização


Uma das primeiras ações da “abertura política” foi a extinção do
bipartidarismo em 1979 com a reforma partidária. Neste mesmo ano os
presos políticos e os exilados foram anistiados e o feminismo toma novo
rumo.

4 Os grupos de reflexão surgiram no Brasil na década de 70, se espalharam por vários estados e tinham

um caráter privado por conta do regime militar que impedia as manifestações públicas. Devido a sua
informalidade e o alto sigilo é difícil precisar a quantidade deles.
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Com o fim do bipartidarismo as feminista que estavam num mesmo
“campo” dividem-se e vão compor o PT (Partido dos Trabalhadores) e o
PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Esse
reagrupamento causa uma cisão no movimento feminista entre a parte que
defendia a institucionalização e a aproximação com o Estado e as feministas
autonomistas que consideravam essa atitude como cooptação. (PINTO,
2003, p.68).
Neste período se espalham grupos de mulheres que passam a apostar
cada vez mais nos espaços institucionais do Estado, participando dos
conselhos de direitos como forma de organizar e pautar as questões das
mulheres. Estas mulheres atuaram ativamente da mobilização durante a
Constituinte e esta ação ficou conhecida como o Lobby do Batom. Muitas
foram as conquistas no campo das políticas públicas, são exemplos, o
Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), o Conselho
Nacional dos Direitos da Mulher, entre outros.
Nos fins dos anos 80 e início da década de 90 vivenciamos o
processo de afirmação e consolidação do neoliberalismo como doutrina
política e econômica que aumentou o desemprego, impôs a reestruturação
produtiva, desvalorizando o trabalho, arrochando salários e felxibilizando
direitos. É este o momento em que o feminismo experimenta uma forte
institucionalização com a difusão das ONGs (Organização Não-
Governamental) e passa se profissionalizar. Tornaram-se grupos que passam
a fazer assistência temática: violência contra a mulher, saúde, aborto, etc.
A vertente da institucionalização foi a que mais cresceu, chegando ao
século XXI (com o aumento de governos que se auto-proclamam
democráticos populares) sob a hegemonia de um feminismo inserido nos
cargos públicos. Uma espécie de Feminismo de Estado5, que discute o poder
das mulheres nos pilares da democracia burguesa representativa.
Esta situação não se dá de forma hegemônica, pois presenciamos no
início dos anos 2000 surgimento de movimento que tem pautado a questão
da opressão de forma mais ampla, propondo inclusive a contribuição na
organização de projeto alternativo para a transformação da sociedade. São
exemplo as mulheres a Via Campesina e a marcha Mundial de Mulheres que
recolocaram o mercado e a exploração capitalista no centro da luta.

Considerações finais
O Feminismo é tido como um dos movimentos emancipatórios mais
significativos do século passado XX e que ainda hoje é vivenciado com

5 Expressão própria.
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muita força. Coloca um duplo desafio: ao mesmo tempo em que questiona a
ordem conservadora e patriarcal, também põe em xeque os movimentos da
esquerda revolucionária mundial.
Como movimento social, não fica imune as contradições na sua ação
política, contradições estas, existentes no seio da própria sociedade. Mas
também é inegável que o avanço do capitalismo tem feito uso das lutas e se
apropriado das conquistas das mulheres, esvaziando seu conteúdo.
No geral, o feminismo brasileiro possui matizes de pensamento, que
vem desde a sua gênese e, em certo sentido, disputam entre si a hegemonia
do pensamento. No meu entendimento as principais vertentes são duas:
uma que associa a luta da mulher à emancipação da classe trabalhadora
como um todo e a outra (mais fortemente influenciada pela pós-
modernidade) que defende a institucionalização e o trabalho por dentro do
estado através das políticas públicas. Uma tem como centralidade a
compreensão que a opressão da mulher está no bojo da contradição Capital
x Trabalho e da luta de classe, a outra fica mais na análise mais das relações
Homem x Mulher e não questionam a base estrutural da sociedade.
Com isso não quero ser reducionista, pois há variações dentro de
cada modo pensar deste, como, por exemplo, na vertente com ideologia
marxista existem compreensões que apontam a questão da mulher como
específica e, portanto atrapalha a luta geral. Também temos em algumas
pensadoras ligadas a pós-modernidade que até compreendem que a
dominação capitalista traz especificidades para a opressão das mulheres, mas
não acredita que é possível mudar o sistema e apostam no trabalho temático
como violência, saúde, sexualidade, etc. O que é importante ressaltar é que
dependendo de como se compreende a questão da opressão, vai-se adotar
um tipo ou outro de estratégia de ação.
Na experiência brasileira há uma grande dívida histórica com a
memória das feministas socialistas, das anarquistas e das mulheres que
atuaram na guerrilha urbana. Essas mulheres, além da luta de enfrentamento
com a sociedade machista e patriarcal, também tiveram grandes embates no
interior de suas organizações para serem reconhecidas como sujeitos
políticos.
O feminismo hegemônico no Brasil declara o fim da perspectiva de
classe para pensar a situação da mulher e sua ação política, assim como
também declara o fim da possibilidade do socialismo com a desintegração
da União Soviética e inaugura o século XXI apostando em uma estratégia de
luta ligada mais a vertente entitulada de “pós-moderna”, voltando seus
esforços para as lutas temáticas.

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Mesmo assim é possível perceber, já no início deste século o
surgimento de movimentos de mulheres contestatórios como a Marcha
Mundial das Mulheres e o Movimento de Mulheres Camponesas que
recolocaram a questão da luta de classe no debate feminista, reavivando
assim, a tensão existente entre estes dois campos de luta. Seria imaturo tirar
alguma conclusão neste momento, mas percebemos a possibilidade de uma
mudança de correlação de força dentro do feminismo brasileiro que pode
(re)direcionar sua ação articulando com um projeto de transformação mais
geral.
Enfim, libertação da mulher precisa passar pela emancipação da
sociedade do jugo do capitalismo, pois a nossa opressão tem base fundante
na organização da exploração capitalista. Com isso é necessário não apenas
derrubar a propriedade privada e toda a determinação econômica, mas
também os pilares que sustentam o machismo e o patriarcado, ou como nas
palavras de Frei Betto:
É preciso mudar também a superestrutura cultural e psicológica da
sociedade e, sobretudo, reinventar formas de produção e de exercício de
poder que tenham as mulheres como sujeito. Enquanto o masculino for o
paradigma do feminino, este ideal não será alcançado, a menos que as
mulheres descubram que elas próprias são o paradigma de si mesmas
(BETTO, 2008)
Mesmo com suas debilidades o feminismo segue sendo contestador
por sua própria natureza, mas inaugura o novo século com o desafio de
retomar a sua radicalidade e de levar o debate do (re) surgimento de velhas e
novas formas de opressão articulado ao projeto mais amplo de
transformação social.

Bibliografia
ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. São
Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
BETTO, Frei. A Marca do batom: Como o movimento feminista evoluiu no
Brasil e no mundo. In: América latina em Movimento, 2008. Disponível em:
http://alainet.org/active/1375&lang=es.
BEZERRA, Elaine Maurício. Lutas e Conquistas das Mulheres. João Pessoa,
2008, mimeo.
_____. Participação e cidadania das mulheres. João Pessoa, 2009, mimeo.
PINTO, Celi Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo:
Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.

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PIVA, Márcia Cruz; PIVA, Antônio. Nicarágua: Um Povo e Sua História
(1552-1984). São Paulo: Edições Paulinas, 1986.
RANDALL, Margaret. Estamos todas despertas. São Paulo: Global, 1982.

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