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Processo de regeneração na lesão muscular: uma revisão

PROCESSO DE REGENERAÇÃO NA LESÃO MUSCULAR:


UMA REVISÃO

Regeneration process in the muscle injury: a review

Ricardo José Ferrari1


Leonardo Duarte Picchi1
Ana Paula Botelho1
Viviane Minamoto2

Resumo
Embora seja muito comum a lesão do sistema musculoesquelético nas clínicas de Fisioterapia, o músculo
responde a essas lesões, na maioria das vezes, com a regeneração completa. Assim, o objetivo desta revisão
é detalhar a seqüência dos eventos e os indicadores musculares que caracterizam a lesão, as fases da
subseqüente regeneração e os recursos fisioterapêuticos utilizados durante a reabilitação muscular.
Observam-se divergências na literatura em relação à eficácia dos recursos, devido, provavelmente, a
diferentes métodos utilizados, o que dificulta a compreensão dos efeitos destes na regeneração muscular. 1
Palavras-chave: Lesão; Regeneração; Recursos Fisioterapêuticos.

Abstract
Although the muscle injuries are very common in the physiotherapy clinic, in most of the time, the muscle
responds with a complete regeneration. The aim of this work is to present with details the sequence of muscle
damages, as well the signals that are responsible to characterize these lesions. It will also present the
subsequent regeneration that takes place and the physiotherapeutic treatment used for muscular rehabilitation.
There are controversial results in the literature related to the efficiency of these treatments, probably due to
the different way that they are used, which make difficult the understanding of their real effect in muscle
regeneration.
Keywords: Lesion; Regeneration; Physiotherapeutic treatment.

1
Mestrandos do PPG-Fisioterapia da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP).
2
Fisioterapeuta. Doutora pela UFSCar. Docente do PPG-Fisioterapia da UNIMEP. Endereço: Rodovia do Açúcar, km 156, CEP
13400-911, Piracicaba/SP.
E-mail: vbminamo@unimep.br

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Ricardo José Ferrari et al.

Introdução transaminase oxalacética glutâmica (CHEN; HSIEH,


2001). Os níveis sangüíneos destas citocinas estão
As lesões musculares são muito comuns elevados quando há lesão muscular aguda, porém
na prática esportiva, afastando atletas dos treina- não existe uma relação quantitativa entre esses
mentos e competições, sendo estas causadas, prin- marcadores e a lesão.
cipalmente, por contusões e excessivas forças Pesquisadores relatam que há baixa rela-
musculares (JARVINEN et al., 2000). Por outro lado, ção entre a atividade da CK plasmática e a quanti-
a grande incidência de lesões musculares tem re- dade correspondente de lesão, analisada através
sultado em aumento proporcional de estudos re- de alterações ultra-estruturais (MANFREDI et al.,
lacionados não somente com o processo de rege- 1991) e função muscular (FRIDÉN; LIEBER, 2001),
neração muscular, mas também com os tratamen- sugerindo que a atividade desta citocina possa ser
tos das diversas lesões que acometem o sistema um mau indicador tanto da morfologia quanto fisi-
musculoesquelético. ologia muscular.
O objetivo desta revisão é apresentar es- Os indicadores de performance muscu-
tudos recentes sobre lesão muscular (suas causas, lar adotados nos estudos sobre lesão muscular são:
mecanismos, classificação e análise da lesão), re- sensibilidade dolorosa (CLEARY et al., 2002), cir-
generação (fases e estruturas envolvidas neste pro- cunferência do membro (PADDON-JONES;
cesso) e alguns recursos utilizados com o intuito ABERNETHY, 2001), amplitude de movimento e
de melhorar o processo de regeneração muscular. força isométrica máxima (SACCO; JONES, 1992;
Para isso, foi realizada uma busca na base LAPOINTE; FRÉMONT; CÔTÉ, 2003).
de dados MEDLINE (palavras-chaves utilizadas: Chen e Hsieh (2001) relataram que a força
muscle regeneration, muscle damage, therapeutic isométrica máxima e a amplitude de movimento de
ultrasound, laser radiation, mobilization) e livros- sujeitos cujo músculo bíceps braquial foi submeti-
texto no período de 1990 a 2004, complementada do a exercícios excêntricos máximos diminuíram
com a busca de estudos citados nessas referências consideravelmente e que a circunferência do mem-
bibliográficas. bro e a atividade da CK plasmática aumentaram
devido aos mesmos exercícios excêntricos.
Em relação à sensibilidade muscular, o
Lesão Muscular pico de dor é freqüentemente observado entre o
2o e 3o dia pós-lesão (CHEN; HSIEH, 2001), conhe-
Para se estudar as fases da degeneração cida, então, como dor de início retardado
das fibras musculares, muitos pesquisadores vêm (LAPOINTE; FRÉMONT; CÔTÉ, 2003). Este tipo de
utilizando métodos de indução de lesão através da dor está associado à lesão estrutural do músculo,
contusão (MINAMOTO; BUNHO; SALVINI, 2001), com perda da integridade dos elementos contráteis
eletroestimulação (HILL; WERNIG; GOLDSPINK, e ocorre principalmente após lesão causada pela
2003), exercícios físicos (SERRÃO et al., 2003), in- contração excêntrica. Embora as causas da dor não
jeções de miotoxinas (HILL;WERNIG; GOLDSPINK, estejam bem esclarecidas, acredita-se que envolve
2003) e desnervação (JAKUBIEC-PUKA et al., 1999), reação inflamatória devido à lesão (MILES;
entre outros. CLARKSON, 1994).
Existem vários métodos utilizados para Assim, a manifestação clínica, indicativa
determinar a lesão de um músculo, sendo eles di- indireta da lesão, irá depender da severidade e da
retos ou indiretos. As lesões que acometem os natureza dela, podendo ser classificada em três
humanos são, na maioria, analisadas de forma in- categorias: a) leve (grau I): apresenta poucas fi-
direta, através de indicadores sangüíneos de lesão bras lesadas, pequeno edema e desconforto, além
muscular e da performance muscular (NOSAKA; de mínima perda de força e movimento; b) mode-
NEWTON; SACCO, 2002; CLEARY et al., 2002). rada (grau II): apresenta grande lesão muscular
Dentre os indicadores sangüíneos de le- com perda de força; c) severa (grau III): apresenta
são muscular mais descritos na literatura estão a extensa lesão muscular, resultando em perda total
creatina quinase plasmática (CK) (FOLEY et al., da função do músculo (JARVINEN et al., 2000).
1999; LAPOINTE; FRÉMONT; CÔTÉ, 2003), as Diferente da análise da lesão em huma-
interleucinas beta 1 e 6, dehidrogenase lactato e nos, onde na maioria das vezes resulta de méto-

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dos indiretos, a análise em animais experimentais Mauro (1961) relatou a existência da célula satélite
envolve o método direto, onde o músculo é retira- na periferia das miofibras de sapos e desde então
do e analisado histologicamente. se sabe que a fibra muscular certamente regenera-
Ultra-estruturalmente, a lesão muscular é se (CHARGÉ; RUDNICKI, 2004). Assim sendo, a
caracterizada por rompimento dos miofilamentos, fibra muscular pode responder à lesão tanto com
anor malidade mitocondrial e do retículo a regeneração (JARVINEN et al., 2000), quanto com
sarcoplasmático, descontinuidade do sarcolema, a formação de fibrose na área lesada (KAARIAINEN
desequilíbrio hidro-eletrolítico e necrose celular et al., 2000). No entanto, esta última pode levar à
(TIDBALL, 1995; SVERZUT; CHIMELLI, 1999). inibição completa da regeneração (LEHTO;
O principal mecanismo desencadeador da JARVINEN; NELIMARKKA, 1986; KAARIAINEN et
lesão é a entrada excessiva de cálcio gerada pelos al., 2000).
danos ocorridos no sarcoplasma ou no retículo O sucesso da regeneração depende da
sarcoplásmatico da fibra. Isto leva à perda da extensão e da natureza da lesão (ENGEL;
homeostase e estímulo para a proteólise cálcio- ARMSTRONG, 1994), mas em todas as situações o
dependente, provocando uma degeneração processo envolve revascularização, infiltração ce-
tecidual (CHARGÉ; RUDNICKI, 2004). lular, fagocitose das células ou fragmentos danifi-
Os sinais histológicos englobam sinais de cados, proliferação e fusão das células precurso-
fibras lesadas e/ou em regeneração e de fibras já ras do músculo, que representam as células satéli-
regeneradas. As fibras lesadas e/ou em regenera- tes, e finalmente a reinervação (para revisão ver
ção são identificadas pela presença de: a) infiltrado CARLSON; FAULKNER, 1983).
celular, que é a presença de células inflamatórias A integridade da lâmina basal, que é um
e/ou células satélites; b) basofilia, onde há aumento componente do endomísio intimamente relacio-
da atividade ribossômica; c) núcleos centralizados nado com a superfície da fibra muscular (ENGEL;
com nucléolos proeminentes, caracterizando sín- ARMSTRONG, 1994), também é importante no
tese protéica e d) hipercontração dos sucesso da regeneração, para a formação e orien-
miofilamentos, que indica acúmulo de Ca ++ tação espacial dos novos miotubos e desenvolvi-
(CARPENTER; KARPATI, 1984). Já os sinais de fi- mento mínimo de fibrose (ENGEL; ARMSTRONG,
bras regeneradas são caracterizados pela presença 1994). No entanto, apesar de verificar-se processo
de fibras fragmentadas e fibras com núcleos cen- de regeneração em situações em que a lâmina basal
tralizados (ENGEL; ARMOSTRONG, 1994). está severamente rompida (GROUNDS, 1991;
LEECH, 1997), o tempo de regeneração é diferen-
ciado, sendo que quando ela se mantém intacta, a
Regeneração Muscular regeneração completa pode ocorrer em 7 dias, e
quando destruída extensamente, o processo pode
Todo organismo vivo possui capacidade alcançar até 21 dias (SVERZUT; CHIMELLI, 1999).
de alterar suas propriedades estruturais e funcio- A revascularização é outro fator impor-
nais de acordo com as condições ambientais im- tante para o sucesso e formação de nova fibra
postas em um determinado sistema. Esta habilida- muscular (LEFAUCHEUR; SÉBILLE, 1995) após uma
de em determinar mudanças estruturais e funcio- severa lesão, levando nutrientes e oxigenação atra-
nais é observada no músculo esquelético, onde vés dos vasos nos tecidos adjacentes para o repa-
ocorre alteração da expressão da quantidade e tipo ro do tecido (KAUHANEN et al., 2003). Essa
de proteínas, a fim de que o tecido se adapte a revascularização ocorre através da proliferação da
estímulos que desequilibrem sua homeostasia célula endotelial estimulada por fatores de cresci-
(BALDWIN; HADDAD, 2002). mento, incluindo o fator de crescimento
A regeneração muscular é um dos exem- fibroblástico básico (bFGF) e fator de crescimento
plos que demonstram a plasticidade do sistema endotelial vascular (MENETREY et al., 2000).
musculoesquelético, ou seja, a capacidade Embora a literatura mostre uma determi-
adaptativa do músculo frente a um estímulo exter- nada semelhança no processo de regeneração
no. muscular, independente da causa da lesão, o tem-
Por muitos anos, acreditou-se que a re- po e a eficácia desse processo pode variar de acor-
generação muscular não era possível, entretanto, do com determinados fatores. Alguns deles são: a)

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vascularização tecidual: havendo comprometimento As células inflamatórias são predominan-


vascular local, observa-se retardo no processo de temente neutrófilos e macrófagos, envolvidas na
regeneração (BODINE-FOWLER, 1994; remoção do material debridado. Após a lesão, a
LEFAUCHEUR; SÉBILLE, 1995); b) idade: animais área acometida é invadida por essas células, que
idosos têm processo de regeneração mais lento normalmente estão presentes no músculo normal
que jovens (HARRIDGE, 2003); c) sexo: a fagocitose em estado quiescente, e também por células oriun-
celular é mais lenta em machos que em fêmeas, das do sistema circulatório (TIDBALL, 1995).
pela presença do hormônio testosterona Os neutrófilos são as primeiras células
(GROUNDS, 1991); d) espécie: em algumas espé- inflamatórias a invadir o músculo lesado, com
cies animais a regeneração ocorre de forma mais significante acréscimo observado no período de
rápida (GROUNDS, 1991); e) tipo de músculo sub- uma a seis horas após lesão. Estas células liberam
metido ao trauma: Bassaglia e Gautron (1995) ob- bradicinina, prostaglandina e histamina, causando
servaram que um músculo glicolítico é mais resis- vasodilatação e aumentando a permeabilidade dos
tente à lesão mecânica que um músculo oxidativo; pequenos vasos (LEECH, 1997). Os leucócitos
f) reincidência de lesão: músculos submetidos a polimorfonucleares são rapidamente acumulados
contusões periódicas possuem processo de rege- na área lesada, permanecendo no local poucas
neração mais lento que músculos lesados uma única horas após a lesão (CANTINI et al, 1994).
vez (MINAMOTO; GRAZZIANO; SALVINI, 1999). Aproximadamente após seis horas de le-
O processo de regeneração após a lesão são os macrófagos já podem ser vistos (PIZZA et
pode ser dividida em três fases: al, 2002), aumentando proporcionalmente até que,
1) Fase inflamatória aguda ou de destrui- após vinte e quatro horas, constituem o tipo celu-
ção (0-7 dias): consiste de tecido edemaciado, for- lar predominante no foco da lesão, sendo os
mação de hematoma, exudato de fibrina e infiltrado polimorfonucleares raramente identificados
de células inflamatórias. Primeiro os neutrófilos (GROUNDS, 1991). O acúmulo de macrófagos no
invadem rapidamente o local da lesão e promo- local do tecido lesado contribui na regulação da
vem a inflamação pela liberação de citocinas que atividade mitótica das células satélites (CANTINI
podem atrair e ativar células inflamatórias adicio- et al, 1994), além de ser extremamente importante
nais. Após a invasão dos neutrófilos, ocorre um para a realização da fagocitose e liberação dos fa-
aumento no número de macrófagos que invadem tores de crescimento após a lesão (GROUNDS,
a fibra muscular lesada e realizam fagocitose; 2) 1991; ROBERTSON et al, 1993).
Fase proliferativa (7-21 dias): ocorre a fagocitose Estes fatores de crescimento são peque-
do tecido necrosado, coagulação de fibrina, proli- nos peptídeos que regulam a população de célu-
feração de fibroblastos e miofibroblastos, além de las satélites, proliferação, diferenciação e motilidade
crescimento sinovial e capilar. As células inflama- delas e são responsáveis por moverem as células
tórias eliminam os fragmentos de tecido lesado pela do estado quiescente G0 para a fase G1 do ciclo
fagocitose e produzem fibronectina, além de celular (GROUNDS, 1991). Há um número exten-
colágeno e outros componentes da matriz so de fatores tróficos sendo estudados na tentativa
extracelular. Finalmente, ocorre o aumento de uma de conhecer a influência e regulação deles na re-
segunda subpopulação de macrófagos que está generação, incluindo: a) fator de crescimento
associado com a regeneração muscular; 3) Fase de insulínico (IGF), os quais são importantes na
maturação e remodelamento (21 dias ou mais): regulação do metabolismo insulínico e regenerati-
consiste de maturação das miofibras, o volume de vo, na proliferação e diferenciação da célula saté-
capilares diminui gradualmente, as fibras de lite; b) fator de crescimento hepatócito (HGF) é
colágeno tipo I começam a se organizar e final- considerado um importante fator, estando envol-
mente ocorre a restauração da capacidade funcio- vido durante toda a regeneração muscular através
nal do músculo reparado (TIDBALL, 1995; de sua propriedade mitogênica, regulando e ati-
JARVINEN et al., 2000; KANNUS et al., 2003). vando as células satélites; c) fator de crescimento
Assim, durante todo esse processo de re- fibroblástico (b-FGF), tem sido descrito como um
generação ocorre a ativação de pelo menos duas potente ativador da proliferação e inibição da di-
populações de células: células inflamatórias e cé- ferenciação das células satélites; d) fator de cresci-
lulas miogênicas. mento de transformação (TGF): é responsável pela

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reorganização da membrana basal e durante a re- ocorre através da fibra nervosa regenerada ou
generação da matriz extracelular, promovendo a brotamento nervoso de fibras adjacentes e b) as
deposição e produção dos componentes da ma- fibras nervosas fazem contato com a lâmina basal,
triz extracelular (MENETREY et al., 2000). tendo predileção pelos locais onde anteriormente
A outra população de células indispensá- era uma junção neuromuscular (LEECH, 1997;
veis para a regeneração são células quiescentes ENGEL; ARMSTRONG, 1994).
miogênicas, ativadas após lesão muscular ou ner-
vosa (ENGEL; ARMSTRONG, 1994) e também após
estímulo de hipertrofia (VIERCK et al., 2000). São Recursos Fisioterapêuticos na
conhecidas como células satélites e estão presen- Regeneração
tes entre a lâmina basal e a membrana plasmática
da fibra muscular (ENGEL; ARMSTRONG, 1994). Alguns recursos utilizados na regenera-
Essas células são moduladas por fatores ção muscular são: crioterapia (SALVINI et al., 1997),
de crescimento específico e hormônios durante o ultra-som (RANTANEN et al., 1999; WILKIN et al.,
crescimento normal do músculo, mas como con- 2004), laser (OLIVEIRA; PARIZZOTO; SALVINI,
seqüência de exercícios de resistência, estes 1999), antiinflamatórios (LAPOINTE; FRÉMONT;
hormônios podem estimular as células satélites a CÔTÉ, 2003), mobilização e imobilização
contribuir no aumento do tamanho e número das (JARVINEN et al., 2000; VENOJARVI et al., 2004).
miofibras (VIERCK et al.,, 2000; MINAMOTO; Salvini et al. (1997) observaram diminui-
SALVINI, 2001). ção da incidência de lesão em animais submetidos
Alguns componentes importantes da ma- ao exercício e posteriormente à crioterapia, quan-
triz extracelular, como a laminina, a fibronectina e do comparado com grupo submetido somente ao
o próprio colágeno, desempenham importante exercício. Além da influência do resfriamento na
papel na manutenção dessas células satélites no incidência de lesão, o efeito do gelo na
estado quiescente, na regulação da proliferação e microcirculação também tem sido estudado. Rela-
fusão delas (CHARGÉ; RUDNICKI, 2004). to mostra que o uso da crioterapia no músculo
Após a ruptura do sarcolema e conseqüen- esquelético previamente contundido não promo-
te necrose da fibra muscular, as células satélites ve alteração do diâmetro ou perfusão vascular
são ativadas, ocorrendo a proliferação e transfor- (CURL et al.,1997).
mação delas em mioblastos, fusão em miotubos, Já o uso do ultra-som terapêutico após
produção de proteínas musculares específicas e lesão muscular, embora tenha mostrado maior pro-
finalmente diferenciação da fibra muscular, com liferação de células satélites na fase de regenera-
núcleos localizados na periferia. Sendo assim, a ção, não apresentou melhora do padrão
regeneração do músculo esquelético é comparada morfológico muscular (WILKIN et al., 2004). En-
estrutural e funcionalmente com seu desenvolvi- tretanto, estudos prévios relatam que o uso deste
mento embriônico ou miogênese (CARLSON; recurso melhorou a angiogênese (YOUNG;
FAULKNER, 1983). DYSON, 1990) e acelerou a produção de força após
Por fim, o processo final de regeneração lesão muscular induzida pela contração (KARNES;
envolve a reinervação, pois estudos mostram que BURTON, 2002).
a regeneração da fibra muscular pode ocorrer in- O uso de antiinflamatórios também é
dependente da integridade nervosa (LEECH, 1997; um método muito utilizado nos tratamentos das
JARVINEN et al., 2000), desde que a lâmina basal lesões musculares, muitas vezes associado ao uso
esteja intacta (ENGEL; ARMSTRONG, 1994). Uma do ultra-som. No entanto, estudos mostram que
vez regenerada, há a necessidade da presença da embora seu uso seja benéfico a curto prazo no
junção neuromuscular para manter a integridade controle da dor, ocorrem efeitos adversos a lon-
da fibra, evitando, assim, sua atrofia e degenera- go prazo na regeneração e nas propriedades
ção, o que resulta na sua maturação funcional e tênsil e contrátil do músculo lesado (JARVINEN
histoquímica. et al., 2000). Outros autores relatam que o uso
Podem-se fazer duas considerações em de antiinflamatório não esteróide não teve influ-
relação ao restabelecimento da nova junção ência na proliferação de células satélites no
neuromuscular: a) contato do nervo com a fibra gastrocnêmio de rato previamente contundido,

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o que sinaliza o não comprometimento da rege- direcionamento e crescimento das miofibras


neração muscular (THORSSON et al., 1998). (LEECH, 1997). Após uma lesão, o alongamento
O laser também é um tratamento utili- muscular controlado e movimentos articulares
zado nas clínicas fisioterapêuticas, o qual vem melhoram, respectivamente, a orientação das fi-
sendo cada vez mais estudado na tentativa de bras de colágeno e a atrofia causada com a imo-
observar seu efeito no processo de regeneração bilização (KANNUS et al., 1992).
na lesão muscular. Porém, estudo realizado com Deste modo, a reabilitação por meio da
laser de As-Ga com doses de 3 e 10 J/cm2 não mobilização, além de acelerar o processo rege-
foram eficientes para melhorar a regeneração do nerativo, direciona a um rápido e completo re-
tibial anterior através da análise morfológica torno aos exercícios e ao esporte (KANNUS et
(OLIVEIRA; PARIZZOTO; SALVINI, 1999). Já o al., 2003).
uso de laser He-Ne resultou em aumento da área No entanto, embora o tratamento por
e densidade mitocondrial da fibra do tibial ante- meio da mobilização venha se mostrando um
rior, sendo esses resultados dose-dependentes método muito favorável e eficaz, ele é alvo de
(AMARAL; PARIZZOTO; SALVINI, 2001). Estudo alguns estudos e discussões em relação ao tem-
prévio, também utilizando o laser He-Ne em po de início da mobilização.
gastrocnêmio de rato, relata melhora da regene- Estudos mostram que a mobilização ime-
ração, evidenciada através da maior incidência diatamente após a lesão pode causar novas rup-
de miotubos no grupo radiado quando compa- turas e fraqueza do tecido na área lesada, de-
rado ao controle (WEISS; ORON, 1992). vendo ser evitada nos primeiros dias após a le-
A imobilização é um método de trata- são (LEHTO; JARVINEN, 1991; JARVINEN;
mento ainda muito usado após lesões muscula- LEHTO, 1993).
res, levando a várias complicações depois de pro- Por outro lado, Gregory; Heckmann e
longado período, causando atrofia, perda da Francis (1995) realizaram estudo para analisar o
extensibilidade e força, além de novas recidivas efeito da natação e da corrida imediatamente e
de lesão muscular (LEHTO; JARVINEN, 1991; após 72 horas da lesão e observaram diminui-
VENOJARVI et al., 2004). Este recurso também ção do número de leucócitos, eritrócitos e fibras
provoca aumento do tecido conjuntivo colágenas nos grupos mobilizados imediatamente
intramuscular (endomísio e perimísio) e decrés- após a lesão, o que indica melhor resposta à
cimo simultâneo da área muscular e densidade lesão com o exercício imediato.
capilar (KANNUS et al., 1998).
No entanto, a imobilização temporária
por curto período permite a formação do tecido Considerações Finais
de granulação, o que propicia ao músculo
esquelético força tênsil apropriada e resistência A utilização dos recursos citados acima
às forças criadas pela contração muscular nas clínicas de fisioterapia tem como objetivo a
(JARVINEN et al., 2000). Portanto a imobilização diminuição de sinais e sintomas do quadro in-
é benéfica na fase precoce da regeneração mus- flamatório, como dor e edema, melhora ou ace-
cular, devendo permanecer apenas nos primei- leração da regeneração. Embora muito comum
ros dias após a lesão (JARVINEN; LEHTO, 1993). o uso desses recursos, os estudos relacionados
A influência do exercício na regenera- a eles são bastante controversos, devido, prova-
ção muscular vem sendo amplamente estudada. velmente, às diferentes variáveis utilizadas, as-
Sabe-se que a mobilização provoca aumento no sim como diferente tempo de início do tratamen-
número de miotubos, rápido e intenso cresci- to, músculo utilizado ou maneiras distintas de
mento dos capilares, formação e orientação do produzir a lesão muscular.
tecido de cicatrização e ganho da força tênsil Com base no exposto, é interessante en-
(LEHTO; JARVINEN, 1991; LEECH, 1997). Além fatizar que independente do uso de alguns re-
disso, a força tênsil provida do exercício leva ao cursos fisioterapêuticos, a regeneração muscu-
alinhamento dos miotubos, contração dos lar, quando as condições são propícias para ela,
miofibroblastos no tecido de cicatrização e irá ocorrer.

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Recebido em: 20/08/2004
Aprovado em: 29/11/2004

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