Você está na página 1de 9

Oo

(Para)Textos, Português, 7.º ano Outros textos

PT7CDR © Porto Editora


(Manual, p. 171)

Teolinda Gersão
“Tenho uma imensa curiosidade pela vida”
22 novembro, 2012
por Marta Vaz

Se as personagens criadas por um escritor lhe podem


fazer perguntas, propor reflexões? Claro que sim! Que o
Teolinda Gersão
diga Teolinda Gersão que, sem hesitar, aceitou o nosso Escritora
convite e se sentou connosco, atenta às nossas questões e às
À margem…
do Senhor Matos, um bancário reformado, com quem não
tem afinidade nenhuma, e ainda às da avó, que pode ser • Um livro que aconselhe
O Animal Moribundo, de Philip Roth.
qualquer avó do mundo que “não se canse de olhar os
netos”. • Um pintor que a inspire
O fio condutor desta entrevista com a escritora Teolinda Vieira da Silva. Gosto muito, acho-a
Gersão, 72 anos no BI, 30 em muitas manhãs de sol, assenta fascinante. Aliás, tenho uma história
com ela: Um dia escrevi-lhe a pedir
em dois contos de “A mulher que prendeu a chuva” [Sextante
autorização para utilizar a reprodução
Editora]: “As tardes de um viúvo aposentado” e “Avó e neto
de um pormenor de um quadro seu na
contra vento e areia”.
capa de um livro, Os Guarda-Chuvas
Cintilantes. Pensei que nem me
“A idade é sobretudo um estado de espírito. Muitas
respondesse. Mas tentei e fiz bem,
vezes me esqueço da minha, talvez por gostar tanto do que
porque me respondeu e autorizou. É
faço, por ter tanto para fazer. Aos 66 anos tive um enfarte sempre assim. As pessoas mais geniais e
do miocárdio, pensei que morria. brilhantes acabam por ser sempre as
Agora sinto-me muito bem, nem sequer penso nisso”. A mais acessíveis.
escritora é frequentemente convidada para palestras,
• Um cientista que admire
conferências, tertúlias. “Gosto muito de dialogar com as Stephen Hawking. Não só pelo seu valor
gerações mais novas. Aprendo muito com as suas perguntas como cientista, mas também pela
e inquietações e a sua energia é contagiante”. enorme coragem com que enfrenta a
Não acredita no dolce far niente e sempre achou que a doença degenerativa que o diminui,
vida das princesas deve ser um tédio. sem deixar de produzir e de trabalhar,
Atentíssima ao ritmo do mundo, foi acompanhando o isto é, de ser útil aos outros. Agradeço-
mote proposto pelas suas personagens e pelo narrador -lhe tudo isso, e também a generosidade
com que escreveu, com a filha, Lucy,
omnisciente.
dois livros interessantíssimos para ado-
Falamos de envelhecimento, solidão, família, sonhos,
lescentes, que lhes despertam a atenção
Deus, eutanásia, vida e política. “Espero mais da sociedade para a ciência, sem deixar de serem apai-
civil do que dos governos. A única coisa boa desta crise é que xonantes livros de aventuras: O segredo
nos fez acordar. Sair da ficção em que vivíamos”, afirma do universo e George e o caçador de
Teolinda Gersão, que publicou o seu primeiro livro aos 14 tesouros cósmicos.
anos, pois sempre quis ser escritora. “Chamava-se Liliana.
Depois de o publicar é que vi que tinha feito mal. Mas era um sonho e os meus pais
fizeram-me a vontade. Nunca parei de escrever. Mas, para se escrever, tem de se
viver. E ler muito, até se encontrar uma voz própria”.

1
Oo
(Para)Textos, Português, 7.º ano Transcrição de registos áudio

PT7CDR © Porto Editora


Autêntica, jovial, irónica às vezes e sempre bem-humorada, entre sorrisos e
pausas serenas, ficou quase uma tarde inteira à conversa com a FOCUSSOCIAL.
Encontrámos uma mulher sem medos, cheia de memórias e que gosta de recordar.

“No entanto a sua morte [da mulher] deixara nele um grande vazio e além
disso aposentara-se. A aposentação é ter diante de si todo o vagar do mundo”. É
assim?
As pessoas lidam com as etapas da vida de formas muito • Um blog que leia
diferentes e, em todas elas, se tem um olhar diverso sobre o Não tenho muito tempo para blogs e,
mundo. Creio que para a maioria é difícil encarar o agora, mais recentemente, tenho conta
no Facebook,o que também me rouba
envelhecimento, sobretudo se existem problemas de saúde,
alguma disponibilidade. De qualquer
mais ou menos graves, que a idade vai trazendo. E isto é um
forma há um blog que li e de que gostei,
ponto fundamental, pois a forma de enfrentar a idade
quando foi publicado sob a forma de
depende, essencialmente, da saúde física, psíquica e livro. É do Pedro Mexia e chama-se
emocional. Enquanto há saúde e projetos, penso que as Prova de Vida. Reúne textos publicados
pessoas se sentem jovens. Eu, por exemplo, nasci em 1940, no blog coletivo Fora do Mundo e
tenho 72 anos e sinto-me ótima. Tenho uma imensa depois no blog individual Estado.
curiosidade pela vida. • Uma música que lhe traga recordações
Tango. Gosto muito de tangos. Os de
Qual é o seu segredo?
Gardel, em especial.
[Risos] Tenho saúde, força, otimismo – pelo menos tento
ver sempre o lado bom das coisas – e sou lutadora. Como me • Um filme que não esquece
sinto bem, não dou pelo passar dos anos e continuo a fazer o Tantos! Por exemplo “O Leopardo” de
Visconti...
que sempre fiz. Mantenho-me interessadíssima no mundo à
minha volta, continuo a participar e a escrever. Para mim, a • Um local que a convide
aposentação foi a libertação de algo que fiz com muito gosto Lisboa. Gosto muito de Lisboa,
e dedicação durante várias décadas. Durante esse tempo em convida-me sempre a grandes passeios…

que exerci a minha profissão de professora universitária


(catedrática, no fim da carreira), fui muito feliz. No entanto, reformei-me mais cedo
do que poderia, para ter tempo de escrever.

Adiou a escrita?
Sim, percebi que era fundamental gerir o tempo. Embora nunca parasse de
escrever, só comecei a publicar ficção aos 41 anos, depois de fazer o doutoramento
e de as minhas filhas estarem mais crescidas. Tentei encontrar um tempo para cada
coisa, pois, se fazemos tudo ao mesmo tempo, não dá. E o mundo hoje tem tantas
solicitações que é difícil gerir seja o que for. Por isso, quando deixei a Faculdade,
senti-me muito bem por ter mais tempo para escrever, fazer outras coisas e
dedicar-me a outras causas. Mas a escrita é a minha causa maior. Leva-me a estar
com os outros e a estar atenta ao outro. Leva-me a escolas, a tertúlias e a conversas
com os leitores e a dar ao mundo uma atenção especial. No entanto, sei bem que a
aposentação é um problema para a maioria das pessoas, principalmente para os
homens. As mulheres, geralmente, têm os filhos e os netos, que as ocupam muito
(os avôs, muitas vezes, dão menos atenção aos netos do que as avós). Além de que
as mulheres têm em geral um círculo de amigas que foram envelhecendo com elas.

2
Oo
(Para)Textos, Português, 7.º ano Transcrição de registos áudio

PT7CDR © Porto Editora


Os homens têm menos isso, provavelmente por se terem dedicado ao
trabalho de um modo quase exclusivo. Quando o perdem, ficam
muito no vazio. Por outro lado, noto que têm mais dificuldade de
adaptação do que as mulheres, porque não têm a mesma humildade
ou simplicidade. As mulheres são mais flexíveis, estão mais habituadas

Fotografias: Sonja Valentina


a trabalhos diferentes, aderem muito mais aos voluntariados e às
universidades da terceira idade, não se sentem “despromovidas” por
fazerem coisas dessas.

Isso é mesmo a antítese do Senhor Matos, personagem do seu conto…


Exato. O Senhor Matos, reformado bancário, é o tipo de homem que sempre
trabalhou e não sabe fazer mais nada. Depois de aposentado, continua a fingir que
trabalha, para sentir que existe. Chega a fechar-se no escritório tardes inteiras, diz
à empregada para não o incomodar, porque está a trabalhar, e dorme na sua
poltrona. As mulheres são menos assim. Pegam em qualquer coisa que lhes interesse,
arriscam mais, motivam-se, metem-se em novos projetos e preenchem mais
facilmente a vida com sentido e utilidade. Embora, naturalmente, também haja
muitas mulheres para quem envelhecer é o maior drama do mundo…

Mas não vão para uma sala de espera, fingir que aguardam por uma vez
fictícia, como o Senhor Matos…
[Risos] Pois é! Escrevi este conto a pensar na situação terrível de não saber
como preencher o tempo. A personagem é masculina, mas é verdade que a
desistência de viver, a dificuldade em envelhecer, a ausência de sentido e objetivos,
atinge homens e mulheres. E a vida de cada pessoa condiciona tudo isto. A minha
mãe, por exemplo, esteve num lar, que é um ambiente muito triste. Mas faleceu
com cem anos e, quando morreu, já estava há uns anos sem lucidez nem mobilidade.
Não foi mais possível mantê-la na sua casa, como chegou a estar, com enfermeira
de dia e de noite. Ficou num lar, muito perto de mim, para que eu a pudesse visitar
todos os dias. Essa experiência fez-me perceber a solidão de algumas pessoas no
fim da vida, a tristeza de já não poderem estar nas suas casas, a falta de
acompanhamento da família. Verifiquei que muitas pessoas, no lar da minha mãe,
nunca tinham visitas. Mas não culpo as famílias. Compreendo a incompatibilidade
dos horários, o peso do trabalho, dos filhos, por vezes também dos netos, as mil e
uma dificuldades da vida. Atualmente, estes problemas acentuam-se cada vez mais.
É preciso arranjar respostas sociais, que não existem. As famílias estão desprotegidas
e sobrecarregadas, o que é doloroso, quer para uma quer para outra geração. Os
idosos sentem-se por vezes abandonados, os filhos, que também envelheceram,
sentem-se culpados, com uma carga excessiva de responsabilidade e de trabalho.
Agora imagine-se esta situação agravada com problemas de Alzheimer, de
imobilidade ou de outras doenças que exigem acompanhamento permanente.
Sentimo-nos desamparados. Os lares, além de serem um último recurso, têm preços
elevadíssimos, incomportáveis para as famílias. No meu caso, pagava bastante mais
de dois mil euros mensais, um valor bem superior à minha reforma. Sem luxos

3
Oo
(Para)Textos, Português, 7.º ano Transcrição de registos áudio

PT7CDR © Porto Editora


nenhuns. Mas podia visitar a minha mãe diariamente e ver como estava a ser
cuidada, fundamental para mim. Mas sinto que a sociedade continua sem
dar resposta. Assim como não está a dar resposta suficiente ao outro lado da
vida, o início. A falta de infantários e outros equipamentos, a ausência de
suporte social para quem está a iniciar uma família, também é grave.
Portanto, a vida não está nada fácil. Para ninguém.

Nem mesmo para os Senhores Matos desta vida, que têm algum
dinheiro, tempo disponível e saúde…
O conto é obviamente ficção, mas baseou-se na realidade de pessoas
que conheço, em situações parecidas. Normalmente, vou buscar à realidade
grande parte do que escrevo. Um gerente de banco aposentado, viúvo, que
tem todo o vagar do mundo e, a maior parte do tempo, finge que vive. Para
pessoas com um perfil psicológico como o do Senhor Matos isto é terrível. Como
têm todo o tempo disponível, ficam perdidos num deserto, sem direção, e não
conseguem fazer nada. Há pessoas que nem sequer tinham um hobby quando
trabalhavam, nem que fosse fazer uma caminhada. Quando se reformam ficam
completamente desorientadas.

“Demorava-se no cemitério cinquenta minutos aproximadamente. (…)


Sentava-se depois na beira da campa e olhava o céu e as árvores. Os cemitérios
eram lugares pacíficos”. Envelhecer também é pensar mais na morte?
Quando somos muito jovens, sentimo-nos imortais. Só depois, à medida que o
tempo passa, é que vamos percebendo que, de facto, o tempo é um bem escasso,
que temos de gerir o melhor que soubermos. Mas penso pouco na morte, e com
serenidade. Já decidi que vou ser cremada. Não vou ficar em campa nenhuma,
regresso aos elementos, ao vento, à terra, à água.

É crente?
Essa é uma pergunta difícil. Não me sinto a pertencer a igreja nenhuma, mas
acredito em Deus. Acho que Deus está muito para além das religiões e é, se calhar,
algo que temos no nosso ADN. A nossa espécie foi evoluindo e tem necessidade de
perceber que existe muita coisa para além da nossa capacidade de compreensão.
Acredito numa transcendência, tenho essa noção, que é obviamente mais da ordem
do sentimento do que do racional. Acredito que existirá uma dimensão qualquer
para além do tempo e do espaço, a que chamamos Deus. Mas não me sinto
amargurada com esta questão, até porque, se Deus existir, não poderá ser mau
nem estúpido, e por isso não terei de me confrontar com uma entidade malévola, o
que me deixa tranquila. Mas claro que não sei definir Deus, está para lá de tudo o
que possamos imaginar.

“Quando filhos e netos moram noutras cidades mas se juntam todos no Natal,
é suficiente?”
É muito pouco. E há famílias que, mesmo assim, se juntam nessa altura por
“obrigação”. Infelizmente, muitas vezes não têm grande prazer em estar juntas, o

4
Oo
(Para)Textos, Português, 7.º ano Transcrição de registos áudio

PT7CDR © Porto Editora


que é triste. Porque se perdeu um pouco a noção de família alargada, de família
com quem efetivamente se partilham as coisas. É uma consequência do tipo de vida
que levamos, muito mais isolada.

“Ela [a empregada do Senhor Matos] tinha um marido jovem, com trinta anos
como ela, onde é que ele tinha a cabeça. A cabeça e o resto, meu Deus…” O desejo
não envelhece?
Nem o desejo, nem o amor, nem o sexo. Por momentos, no conto, o Senhor
Matos olha para a empregada com desejo, sim, mas sabe que não tem qualquer
hipótese. O desejo está vivo e o sexo é de todas as idades. Depende da forma como
as pessoas o encaram e da forma como se sentem, física e emocionalmente. Mais
uma vez, isso é sobretudo uma questão individual. O envelhecimento está em
grande parte na cabeça das pessoas. Também está no corpo, claro, mas está mais na
mente. O envelhecimento não tem de ser necessariamente uma desgraça que nos
cai em cima. Ouvi de uma mulher que conheço o quanto se sente angustiada
quando se olha ao espelho, não aceita de modo nenhum envelhecer. Deve ser
terrível viver assim. Quando se recusa o que o espelho nos devolve, é terrível. A
maior sabedoria que podemos alcançar é a de que somos mortais, e viver
tranquilamente com isso.

“Pois a velhice não trazia nada de bom, nem sequer trazia nada. Só levava”.
Então não é assim?
Não. Também traz. Mas quando, por exemplo, se perdem capacidades mentais
e se tem consciência disso, acredito que possa ser dramático. A minha avó lia sempre
o mesmo livro, chegava ao fim e recomeçava, porque já não se lembrava do que
tinha lido. Quando se perdem as qualidades mentais, a velhice é um roubo, sim. De
outro modo, ganha-se maturidade, serenidade, sabedoria. Temos é de nos manter
ativos e não esquecer que o cérebro também se treina. Paracelso dizia que enquanto
uma obra nos ocupa inteiramente, não envelhecemos. Dizia que queria entrar na
eternidade com a caneta na mão. E Schiller morreu a escrever. Faz-nos bem olhar
esses exemplos. O importante é sentir que fizemos tudo o que nos foi possível, e
demos o nosso melhor.

“Claro que podia tirá-lo da máquina (ao dinheiro), mas entrava em vez disso
no Banco, desculpava-se com a vista fraca”. A solidão é que dói…
Sim, os mais velhos sofrem muito com a solidão. Há tantas pessoas a procurar
companhia… Trabalhei bastantes anos num voluntariado, com vista a atenuar a
solidão dos outros. E foi algo que me fez sentir útil. Sou aquele tipo de pessoa com
quem os outros gostam de meter conversa. Há dias, no metro, uma senhora tirou
de um saco uma blusa que tinha comprado e perguntou-me se a achava bonita,
para uma neta de vinte anos. E outra, em frente a uma vitrina, perguntou-me: De
qual dos tecidos gosta mais? Normalmente, são senhoras velhinhas que – imagino
– vivem sós e não têm com quem conversar. E eu respondo sempre e converso.
Lisboa ainda vai tendo destes episódios. Fazem parte do quotidiano do bairro,
dessa vida em comunidade que está a desaparecer. Estamos a construir uma

5
Oo
(Para)Textos, Português, 7.º ano Transcrição de registos áudio

PT7CDR © Porto Editora


sociedade cada vez mais desencontrada de si mesma. Cheia de pessoas que não
falam com ninguém, morrem em casa sozinhas e só anos depois são encontradas.

“Olhava com estranheza os homens apressados, na rua, a caminho do trabalho.


Como se nunca os tivesse visto, e ele próprio nunca tivesse sido um deles”.
Pessoas como esta personagem vivem o drama de não saberem
ocupar o tempo, ou, pior, de não terem vontade de o fazer. E sentem-se
excluídas. Mas, confesso-lhe que, atualmente, com a elevada taxa de
desemprego, me preocupa sobretudo o quanto angustiante deve ser o
sentimento daqueles que, vendo os outros irem trabalhar, estão privados
de o fazer. Isso dói-me muito, ver tantas pessoas jovens excluídas da vida
ativa. Não há perdão para a situação a que chegamos na Europa e em
Portugal. Há responsabilidades a pedir a quem nos conduziu a esta
situação. Temos de exigir que as coisas mudem. Vivíamos numa ficção e
não sabíamos. Agora, temos de agir. Acredito mais na sociedade civil dos
que nos políticos.

“Porra, mas havia de certeza alguma coisa que ele podia fazer para ocupar a
tarde. A sociedade, os governos ou o raio que os partisse até tinham inventado
uns quantos programas a pensar nos velhos. Centros de dia por exemplo…”.
Lares, centros de dia, são uma realidade que não me é estranha. Mas é preciso
fazer mais. Como as respostas não são suficientes, a sociedade civil tem de se
organizar. Formar clubes, associações e grupos, organizar passeios, workshops,
viagens, atividades. E exigir que os lares não sejam sobretudo um negócio. Não nos
podemos acomodar. Estou confiante que este Ano Europeu do Envelhecimento
Ativo e Solidariedade entre Gerações possa gerar atividades e espaços de encontro
que vão para além do ano em si. Mas o mais importante é sempre a vontade e o
empenho de cada um.

“Universidades para eles? Não valia a pena fingir. Para eles o que havia eram
lares, infantários da terceira idade, com fraldas, babetes. E açoites no rabo,
segundo alguns.”
A violência contra os idosos é uma realidade preocupante. Os telejornais vão
mostrando isso: lares que fecham por falta de condições, pessoas que são
maltratadas. Os velhos, como as crianças, estão muito fragilizados. Relativamente
às universidades, não estou de acordo com a personagem. Entendo que as
universidades da terceira idade são ótimas e até conheço pessoas que, nesse âmbito,
fazem investigações muito interessantes, históricas, patrimoniais ou outras. Estar
sempre a aprender é uma atitude imensamente construtiva.

“Atravessou o jardim público, aquela hora já cheio de velhos ociosos, sentados


nos bancos”.
Impressionam-me os velhos, parados no jardim a olhar o vazio. Também eles,
como a personagem, “esperadores”. Parece que o ofício deles é esperar, numa
passividade aflitiva. Quando as pessoas desistem de viver, uma das coisas graves

6
Oo
(Para)Textos, Português, 7.º ano Transcrição de registos áudio

PT7CDR © Porto Editora


que acontecem é entrarem em depressão. E isso é também um grave problema
social.

“A Izilda é que gostava de viajar, de conhecer outras coisas, sonhava visitar


outros países. Não tinha passado de Espanha e de uma ida a Paris…”. Tem sonhos
por realizar?
Tenho ainda alguns que espero concretizar. Por exemplo, nunca fui a Veneza e
quero ir. É uma das cidades que não conheço e quero muito ver. E tenho outros
pequenos sonhos por realizar. De resto, tenho muito trabalho, que é o que quero
ter sempre, e faço-o com imenso prazer. E isso é um privilégio.

“Ter-lhe-ia sido, alguma vez, infiel?” Pensava o Senhor Matos…


Essa é a parte mais irónica e ao mesmo tempo mais cruel do conto. O vazio da
sua vida é tão grande que ele deseja encontrar provas da suspeita que construiu, de
que a mulher lhe foi infiel com o seu melhor amigo. A fidelidade assume importância
maior ou menor conforme as pessoas, para o senhor Matos seria um imenso
terramoto emocional. Mas, apesar de extremamente doloroso, ele deseja-o, para
sentir que está vivo.

“As mulheres nunca deitam fora essas coisas”. Também guarda cartas?
Das que o senhor Matos procurava? Dessas não tenho!...[risos] Os escritores,
talvez até ao século passado, juntavam montanhas de cartas. Agora mudámos para
os emails, que são efémeros … Algumas cartas que guardei ficarão no meu espólio,
e, se alguém lhes encontrar utilidade, poderá publicá-las. Mas não sou muito de
guardar, deito fora muita coisa. O meu marido, nesse aspeto, é muito mais
conservador do que eu.

“Viu as fotografias do álbum de retratos (…) e outras que tinham ficado de


fora, dentro de envelopes”. Que fotografias guarda?
Fotografias, guardo todas. Tenho muitos retratos da família. O meu pai fazia
filmes em Super 8 e um tio, irmão do meu pai, fazia belíssimas fotografias. Minhas,
tenho poucas. Não gosto muito de tirar fotografias.
[mudança de conto]

“Ir à praia com a avó era das melhores coisas que lhe podiam acontecer, nos
dias livres”.
Gosto muito de ser avó, é uma segunda oportunidade de conhecer e lidar com
as crianças, já com uma certa bagagem que, com os filhos ainda não tínhamos. É
um reviver desses tempos, mas de outra maneira, com mais sabedoria e tranquilidade.
É menos pesado do que ser mãe e é uma situação de grande prazer para avós e
netos. Estabelece-se uma relação muito importante e até equilibradora, entre as
gerações. Agora que são adolescentes (dois rapazes de 12 e 14 anos) o meu papel
de avó adaptou-se às circunstâncias. Sou exigente, há sempre regras e horários,
mesmo quando vão de férias connosco. Todos trabalhamos e temos as nossas
tarefas. E vamos à praia, fazemos passeios, levo-os ao teatro e à ópera. Já os trouxe
aqui, a esta sala, que é muito bonita. Gosto de lhes mostrar Lisboa. Levei-os à
7
Oo
(Para)Textos, Português, 7.º ano Transcrição de registos áudio

PT7CDR © Porto Editora


ourivesaria Aliança, antes de ela desaparecer. O meu marido também adora estes
programas com os netos. Como não tivemos rapazes, ele é muito feliz por ter tido
agora esta oportunidade.

“A mãe do neto confiava nela. A avó sentia-se orgulhosa. Ainda era


suficientemente forte por ter alguém por quem olhar”. Quer comentar?
Pois é, quando podemos ajudar e somos úteis sentimo-nos muito melhor. O
problema surge quando começamos a notar que já não confiam em nós e que já
não estamos integrados nos afazeres familiares. A intergeracionalidade também é
isso, participar nas tarefas diárias, quando estamos juntos.

“Ainda era uma avó útil, antes que viesse o tempo que mais temia, tornar-se
um encargo”. É um temor?
É horrível perceber que somos um encargo para os outros. Vou dizer-lhe: sou a
favor da eutanásia. E deu-me uma imensa tranquilidade a notícia, que vi algures,
de que na Suíça há uma clínica para pessoas que queiram utilizar os seus serviços.
Pessoas com doenças graves, sem cura, em profundo sofrimento. Eu tenciono fazer
isso, se alguma vez me vir nessa situação. Inclusivamente, combinei com algumas
pessoas amigas que, se estivesse incapacitada, elas me levariam. Não quero passar
por essa fase que vi a minha mãe passar, da degradação da saúde física, de grande
sofrimento.

“Quando saía com o neto, a avó tinha a sensação de entrar para dentro das
fotografias, tiradas nos mesmos lugares, muitos anos antes”. Devemos ou não
voltar aos lugares onde fomos felizes?
É uma boa pergunta. Eu volto sempre. Ainda está na família a casa dos trisavós
e bisavós, onde nos encontramos espaçadamente. E eu gosto muito. De cada vez é
diferente. Há pessoas que vão faltando, que já cá não estão. Mas a vida é assim.
Olho para isso tudo com tranquilidade. E gosto de lá voltar. Mas, não sou pessoa de
ir, por exemplo, ao cemitério, não cultivo esse saudosismo.

“Outras vezes a avó pensava que a vida era como uma lição já tão sabida, tão
aprendida de cor e salteada, que ela se sentia verdadeiramente mestra”. Sente-se
mestra?
Oh, não, mestra, não. Mas tenho a sensação de ter uma experiência, que
acumulamos com o tempo e nos traz uma certa paz e talvez alguma sabedoria.
Sabemos mais ou menos como as coisas acontecem porque já as vimos acontecer, a
nós ou a outros. Em muitos aspetos, a vida é uma espécie de eterno retorno. As
coisas vão voltando, não em círculo mas em espiral, porque é sempre diferente.

Tem “a sensação de entender o mundo”, como esta avó, que inventou?


Às vezes sim, outras não. Na escrita, procuro isso, entender o ser humano e o
mundo. Quem somos, o que andamos aqui a fazer, como é a nossa sociedade, o
que podemos mudar em nós e no mundo à nossa volta. Essa é uma das motivações
para a escrita. Um trabalho de atenção. E de escuta.

8
Oo
(Para)Textos, Português, 7.º ano Transcrição de registos áudio

PT7CDR © Porto Editora


Onde “vê o mundo mais desfocado”, mesmo com óculos?
[Risos]. Essa pergunta tem sentido de humor, como a avó do conto… O mais
difícil de entender é a vida, claro. É muito complexa, estranha e difícil, para toda a
gente. E tem lados dolorosos. É uma tarefa que exige força e coragem. Não há
receitas que possam ajudar. Mas esse também é o seu lado fascinante. É-nos dada a
possibilidade de escolher, embora às vezes seja tão difícil.

“Muitos anos atrás a avó perdera uma criança. A lembrança veio subitamente
e ela não conseguia afastá-la. Sempre quisera esquecê-la”. Qual a sua memória
mais antiga?
Ah! Não sei… Tenho muitas memórias. Mas não consigo situar a mais antiga.

E há algo de que não queira lembrar?


Também não. Gosto de me lembrar de tudo. Gosto de recordar. Lembro-me de
que o Eduardo Prado Coelho dizia que nunca seria romancista porque esquecia
tudo. Eu sou o contrário, não esqueço nada. As memórias em mim são muito
intensas, e a cores. Os sonhos também, são muito fortes e sonho muito. A memória
é fundamental para um escritor. Nesta passagem do conto, refiro-me à perda de
um filho. Essa deve ser a experiência mais aterradora e dolorosa. Felizmente nunca
passei por ela, mas tenho amigas que passaram, e que admiro muito. Uma dessas
amigas é a Manuela Carneiro Pinto, fundadora da Associação Portuguesa de Spina
Bífida e Hidrocefalia. Teve um caso desses na família e, em vez de se fechar no
problema, criou uma associação para ajudar outras famílias. Com uma enorme
generosidade e uma enorme coragem. Sem perder a capacidade de sorrir.
in http://www.focussocial.eu/entrevista.php?id=74 (consult. em 02-05-2013)