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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA-UESB

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO-PPG


ÓRGÃO DE EDUCAÇÃO E RELAÇÕES ÉTNICAS- ODEERE

PROJETO DE PESQUISA

ANDRESSA RAYANA ROCHA NEVES

TÍTULO: BRANCAS DEMAIS PARA SER NEGRAS, NEGRAS DEMAIS PARA SER
BRANCAS: Impactos Psicológicos da Miscigenação no Brasil nas Mulheres Negras de
Pele Clara

Vinculado á Linha 2: Etnias, gênero e diversidade sexual

Jequié - BA
2019
INTRODUÇÃO/ JUSTIFICATIVA

Essa pesquisa tem o intuito de inserir a respeito da mestiçagem como o processo que
se deu no país de forma drástica, onde suas consequências e impactos se reverberam na
população negra, representadas aqui nas mulheres negras de pele clara. Tem seu inicio no
encontro truculento de dominação que se instaurou entre os europeus, índios e negros tragos
em situação de escravidão para América. A princípio a escravidão e exploração de seus
corpos, e mais tarde a força da teoria da Eugênia presente na tese de embranquecimento faz
com que no Brasil o processo de mestiçagem se dê de modo intenso e vil, com peculiaridades
socioculturais que diferenciam esse processo de outros países.

A história de invasão, exploração e escravidão do Brasil trás a uma parcela do seu


povo uma lista de extensos e já conhecidos prejuízos, abordaremos aqui brevemente alguns
dos aspectos psicológicos que tem suas raízes nos mesmos.

A mestiçagem no Brasil é produto direto da colonização produzida pelos europeus,


apesar do mito da democracia racial em que somos levamos a crer que a mistura entre as
descendências Africanas, Indígenas e Europeias ocorreram de modo amistoso e intuídos a
romantizar uma história que na realidade se fez através de força e violência de tantas formas
sutis e brutais que faz com que sua descendência ainda colha os maus frutos, como forma de
ancorar esse mito cria-se uma consciência coletiva em sua volta de que a miscigenação, esse
processo bárbaro é motivo de orgulho nacional.

Segundo Munanga (2008) no Brasil a localização racial é sim feita a partir de uma
analise biológica e genética, porém seu foco é estético. É possível que a questão cerne desse
trabalho nem existisse se essa analise fosse feita também de um ponto de vista sócio-político,
onde a aparência não fosse o ponto principal, pois assim teríamos a identificação racial de
forma precisa, entendendo-se todos negros, tendo pele clara ou retinta, salientando ainda que
as características que identificamos como a estética de traços negroides só corresponde a uma
parte do povo Africano.

O racismo se dá de forma estrutural em nossa sociedade, isso é um fato concreto e


indiscutível, traz consigo o processo de branqueamento que produz a miscigenação, como
resultados disso temos uma variedade de fenótipos como a curvatura de cabelo, traços do
rosto e do corpo, mas principalmente as tonalidades de pele negra, o que começa a causar um
tratamento social diferenciado.
Os privilégios sociais em nosso país obedecem a uma paleta de cores, esse fenômeno
é chamado de colorismo, não pode ser igualado ao racismo ao ponto que o mesmo se trata de
um tipo de discriminação a um grupo étnico dominante sobre outros grupos étnicos que se
encontram sócio politicamente nesse lugar de dominação, enquanto que o colorismo se trata
de uma discriminação ligada à cor da pele, onde quanto mais escura o tom da pele mais
preconceitos e formas de exclusão sofrerá o individuo.

No fim do século XVIII, os governantes começam a tomar consciência da ameaça contra a colônia que poderia
ser provocada pelo descompasso entre a ordem social e a ordem racial. Propuseram
então que se considerasse como escravos somente os que fossem negros e como
brancos todos os que fossem livres, assim ligando o preconceito contra os mestiços
não mais à cor da pele, mas ao "status", à condição jurídica. Proposta que não
agradou aos colonos brancos e foi substituída por um sistema no qual as pessoas de
cor são classificadas em um certo número de castas, de acordo com as nuanças.
(MUNANGA, p.19. 2008).

Provem do racismo no ponto em que se estabelece – no Brasil – como um resultado


de falsos privilégios concedidos pelos brancos para pessoas negras de pele mais clara, fruto da
miscigenação, chamados de mulatos. Os mulatos eram filhos de relações inter-raciais entre
negros e brancos, “O termo "mulato", do espanhol mulo, tem nitidamente uma conotação mais
pejorativa do que o termo "mestiço". (MUNANGA, p.10, 2008) que na época era designado
para nomear filhos de brancos com índios. Posteriormente cria-se a ideia de pardo, não
deixando por completo o uso do termo mulato, mas vista como o termo correto para definir
pessoas miscigenadas, aceito e difundida socialmente.
A proposta desse projeto é de conceituar impacto como uma simbiose de dois de seus
significados mais usados: consequências e abalos, é pensar esse tipo de impacto na formação
psíquica dessas sujeitas.
A primeira motivação para construção desse projeto se dá a nível pessoal, advinda de
um insight onde começo a pensar sobre a miscigenação e posteriormente o colorismo e os
relacionar com minha área de interesse e afeto que é a Psicologia, a partir também da
consciência da minha autodeclaração como uma mulher negra de pele clara, por isso
entendendo que o interesse dessa pesquisa é também de cunho pessoal.
Para além disso, não há pesquisas a cerca da temática, que compreendo ter relevância,
pois se trata de uma produção original, bem como para a construção de conhecimento
específicos desse grupo étnico racial nas particularidades de seu povo. Para mais saliento a
importância de estreitar a relação da psicologia com os estudos étnicos raciais, tanto para
diversidade de produção, afinal no Brasil, negros são maioria, nada mais lógico que de que
haja crescimento nos estudos psicológicos a cerca dessa população, quanto para promover
uma colaboração pessoal para uma espécie de reparação histórica da área para com o grupo
étnico negro, entendendo que a Psicologia tem uma divida histórica, afinal esteve associada
ao movimento higienista, além de seu conteúdo muitas vezes racista e elitista.

HIPOTESE

O processo de miscigenação no Brasil trás aos seus descendentes uma gama de


impactos, existem alguns impactos a nível psicológico que afetam especificamente mulheres
negras de pele clara, dentre eles acredito ter um central, que é o fato que não conseguir se
reconhecer e passar pelo processo de identificação de forma integral com nenhum dos grupos
étnicos.

PROBLEMA

O processo de miscigenação no Brasil provoca impactos psicológicos nas mulheres


negras de pele clara?

OBJETIVOS

GERAL

● Investigar se/como o processo de miscigenação no Brasil trazem ás mulheres negras


de pele clara consequências e impactos a nível psíquico.
ESPECÍFICOS

● Investigar entre mulheres negras de pele clara autodeclaradas como se deu o processo
de formação de identidade étnica;
● Averiguar quais são os impactos psicológicos vivenciados nesse processo de formação
da identidade étnica.

REFERENCIAL TEÓRICO

A história de forma universal possibilita várias formas de se discutir cronologicamente


a questão central desse projeto, no entanto a discussão proposta trará a filosofia de Platão
como o nascimento da problemática racista.
Quando Platão inaugura seu pensamento dicotômico - corpo e alma separados - em
que o corpo é o aprisionamento da alma, que por sua vez é superior, pois se faz morada da
sabedoria, também faz do mundo um espaço dual, há separação entre mundo sensível e
inteligível onde o primeiro é apenas uma copia mal feita do segundo, que é inatingível,
intransponível, é onde se localiza tudo que é real, demarcando assim o nascimento de um
pensamento que sustenta o racismo.
O racismo não existia como conceito, toda via a escravidão era pratica comum. Platão
acreditava na predestinação á escravidão, e que o cultivo e existência da escravatura era um
dos meios de manutenção dos bens de seus senhores, assim como nutrir sentimentos por
escravos era sinal de imprudência e falta de sanidade. A escravidão como predestinação é um
pensamento associado a Aristóteles, no entanto alguns autores afirmam que nascerá de Platão
e foi agregada a Aristóteles devido a influencia mutua, falando disso temos o artigo ​“​Slavery
in Plato’s”.
A primeira vista o pensamento em nada se aproxima da ideia de racismo que temos
hoje, de fato não se pensava em distinção de pessoas por meio racial, porém essa divisão entre
alma e corpo serve de aporte para a maior prática racista que conhecemos que é a escravidão,
o racismo surge com a escravidão de pessoas negras por pessoas brancas, tendo a questão
racial como foco e argumento para tal ação, é um fenômeno histórico, uma ideologia criada a
serviço de justificar a escravização dos povos africanos.
A dicotomia Platônica vem como amparo filosófico - religioso, ​afinal se corpo e alma
são coisas distintas em nada garante que todos os corpos possuem alma e um corpo sem alma
se assemelha mais a um animal do que a pessoas, não merece nem mesmo a culpa e
compaixão cristã, além disso, há no mundo sensível o modelo real de homem e quando mais
se distancia desse modelo pior é a qualidade de ser humano que se é ao passo que a
aproximação da perfeição do real conota superioridade ao ser, a cópia bem feita desse modelo
de homem existente no mundo inteligível por óbvio era o cidadão grego, entendendo por
cidadão, homens, nascidos na Grécia, de pais Gregos que possuíam bens, excluindo todo o
resto da população, mulheres, escravos, crianças e estrangeiros.
Se apropriando da ideia inicial sobre a escravidão da Grécia Antiga os europeus
iniciam por volta do século XVI o mais longo e cruel processo de escravidão de um povo
conhecido pela história, oriundo a ele se instaura e se estrutura o racismo no Brasil.

O racismo é definido como ideologia que confere significado e valor social negativo ao grupo racial detentor
fenótipo e ou genético que se desviam do perfil adotado como padrão, justificam
desigualdades e dominações politicas, e geram ou multiplicam condições e
exposição a prejuízos sociais na saúde entre outros. (PRESTES, p. 41, 2013).

Mais tarde no século XX, a teoria da Eugenia nascida na Europa proveniente de


interpretações da teoria da evolução de Darwin, chega ao Brasil atrelada a uma ideia de
saneamento, portanto o sentimento instaurado com a eugenia era o de cuidado, limpeza e
saúde. A Eugenia é um termo de Francis Galton que significa “bem nascido”, se trata de uma
teoria pseudocientífica que a principio pretendia estudar características fisiológicas de animais
e posteriormente trouxe essa perspectiva para o estudo com seres humanos.
Em suas palavras Galton (1906) define: “A eugenia pode ser definida como a ciência
que trata daquelas agências sociais que influenciam, mental ou fisicamente, as qualidades
raciais das futuras gerações” (p. 3 ​apud CONT, p.4, 2008). Em síntese a tese defendia que há
um padrão de “raça” a ser seguido e ele é o homem branco, mais saudável, belo, civilizado
dentre tantos outros atributos, por tais motivos era necessário assegurar que a descendência de
todo o mundo seguisse o padrão.
O ideal Eugênico quando chega ao Brasil, se incorpora a outros conceitos e torna-se
uma tese de branqueamento defendida por muitos intelectuais da época, em geral, com
algumas exceções acreditava-se que dentro de um século conseguiríamos embranquecer a
população Brasileira, entre eles se destaca João Baptista de Lacerda antropólogo e médico que
em uma de suas falas em eventos trouxe o icônico quadro a ​Redenção de Cam como
representação do futuro nacional, o quadro se configura em uma senhora negra agradecendo
aos céus, pois sua filha mestiça segura seu neto branco, enquanto seu genro um imigrante
europeu admira a cena, era esse o processo que a tese de branqueamento esperava, que ao
decorrer das gerações a cor, os traços e a cultura negra desaparecesse por completo do povo
Brasileiro, para isso era necessário incentivar a migração de Europeus – em principal -
Italianos e Alemães - para o Brasil, o que foi feito através de politicas publicas, mas também
foi realizado um incentivo aos relacionamentos inter-raciais, usando novamente da ideia de
democracia racial.
A pluralidade racial nascida do processo colonial representava, na cabeça dessa elite, uma ameaça e um grande
obstáculo no caminho da construção de uma nação que se pensava branca, daí por
que a raça tornou-se o eixo do grande debate nacional que se travava a partir do fim
do século XIX e que repercutiu até meados do século XX. Elaborações especulativas
e ideológicas vestidas de cientificismo dos intelectuais e pensadores dessa época
ajudariam hoje, se bem reinterpretadas, a compreender as dificuldades que os negros
e seus descendentes mestiços encontram para construir uma identidade coletiva,
politicamente mobilizadora. (MUNANGA, p. 25, 2008).

Em suma, a escravidão assim como a eugenia apesar de terem sido difundidas por toda
a América, no Brasil se fez de forma massacrante, fomos o ultimo lugar a abolir a escravatura
e em sua duração se desenvolveu em maior numero e em piores condições, assim como o
planejamento de embranquecimento da população, executado e incentivado, pela elite
intelectual e politica da época. Esse foi cenário em que se forja a miscigenação brasileira e
esses são os principais motivos de sua estruturação perversa, onde se projeta uma trajetória de
sufocamento de um povo em detrimento de outro, também é neste contexto em que seus
descendentes buscam sua construção enquanto sujeitos.
É preciso conceituar miscigenação/ mestiçagem, a nível biológico entende-se
miscigenação como uma mistura entre grupos étnicos, gera-se um individuo que carregará a
carga genética desses dois ou mais grupos, formando assim uma maior diversidade fenotípica
e genotípica. Porém há que se analisar a miscigenação como um fenômeno multifacetário,
estando presente em outros âmbitos como o social, politico e pessoal.

Temos alguns exemplos históricos e até literários de como a miscigenação foi e ainda
é vista como degradação da raça humana a níveis de saúde e doença, morais, estéticos, de
personalidade dentre outros, - a exemplo disso o reconhecido autor Nina Rodrigues inicia um
de seus escritos com a seguinte frase: ​“​A mestiçagem humana é um problema biológico dos
mais apaixonantes intelectualmente e que tem o dom especial de suscitar sempre as
discussões mais ardentes”​ ​. Ou como trás Munanga (2008) sobre o pensamento de Euclides da
Cunha “​Para ele, o mestiço, traço de união entre raças, é quase sempre um desequilibrado,
um decaído, sem a energia física dos ascendentes selvagens e sem a atitude intelectual dos
ancestrais superiores”​. (​ p.28).
Como uma das ações de promover a segregação da população negra cria-se
posteriormente o pardo, não só como um grupo formado pela miscigenação, mas como
conceito. O pardo torna-se então o não lugar, o sujeito não faz mais parte do grupo étnico
racial ao qual pertence negros, tão pouco chegam a estar socialmente na posição de sujeitos
brancos, o que resta então ao pardo é configurar sua existência em um espaço de transição
para o alcance de algo, que é a branquitude.
No inicio de uma elaboração que pretende relacionar a questão racial com o impacto
psicológico no individuo, já é muito simbólico que o grupo ao qual o mesmo é colocado seja
esse lugar que nem mesmo chega a ser. Afinal, pardo é uma cor, não se trata de etnia, não tem
passado, raízes, ancestralidade, é por fim uma criação. É a partir dessa condição que penso
estar localizada a dificuldade da construção de uma identidade. ​Da mesma forma que Gomes
(2009) pretendo que seja vista identidade nesse projeto [...] como um processo que não se dá
apenas a começar do olhar de dentro, do próprio negro sobre si mesmo e seu corpo, mas
também na relação com o olhar do outro, do que está fora.” [...] “construído historicamente
em uma sociedade que padece de um racismo ambíguo e do mito da democracia racial.”
(p.2-3).
Até aqui, por motivos didáticas de exposição dos argumentos que tecem as hipóteses
desse projeto, as questões foram colocadas a respeito da miscigenação formando um grupo,
entendendo que as dificuldades vivenciadas são a todos os indivíduos marcados por esses
processos, no entanto esse projeto tem um recorte étnico e de gênero. Disponho-me a analisar
os resultados desses eventos em mulheres, sendo ainda mais especifica, a explorar o cenário
de vida das mulheres negras de pele clara.
Primeiro quero salientar porque o recorte de gênero, além da escolha obvia do
atravessamento de minha própria existência ou do fato de estarmos em uma sociedade de
modelo patriarcal, dominada pelo machismo. Para além desses fatores entendo que há sobre
as mulheres negras um fardo mais pesado, seja em qual ponto de vista se deseja olhar, devido
a isso é possível pensar que esse é o grupo que se encontra num processo continuo de
adoecimento psíquico. O recorte étnico por sua vez se faz por entender que existem lugares do
qual não posso falar, compreensões que não poderiam nascer de forma processual da minha
visão de mundo, decidi pesquisar, portanto do que me cabe como mulher negra.
O processo de formação de identidade é subjetivo e pessoal, se constrói baseado nas
vivencias, relações e experiências e é inegável que todas essas bases são incessantemente
atravessadas pelo lugar em que essas sujeitas ocupam socialmente, portanto a formação de
identidade é antes de tudo social, perpassa pelas questões históricas, politicas, comunitárias,
familiares, financeiras, afetivas e étnicas. Quando se pensa em um grupo especifico como as
mulheres negras que são desde o inicio da história de nosso país preteridas de tantas maneiras,
imagina-se a dificuldade de efetuar essa construção de forma saudável, já que há prejuízos
para esse grupo em todos os âmbitos citados a cima. Segundo Costa (1984) “Para que o
sujeito construa enunciados sobre identidade, de modo a criar uma estrutura psíquica
harmoniosa, é necessário que o corpo seja predominantemente vivido e pensado como local e
fonte de vida e prazer.” (p. 6).
“(...) Nascer com a pele preta e/ou outros caracteres do tipo negroide e compartilhar de
uma mesma história de desenraizamento, escravidão e discriminação racial, não organiza, por
si só, uma identidade negra.” (SOUZA, p.77, 1990). Partindo dessa afirmação em que Souza
defende a ideia de que no Brasil é necessário “tornar-se negro”, é possível refletir sobre a
condição das mulheres negras de pele clara e seus processos de identificação étnica. Até
pouco tempo não se discutia questões de colorismo, sendo assim essa possibilidade de
identificar-se com seu grupo étnico em nosso país é extremamente recente. Segundo o IBGE
(2018) ocorreu o aumento de 32,2% de autodeclarados pretos em relação a ultima pesquisa
feita em 2012, foram pelo menos três séculos de negação ao pertencimento, ao
reconhecimento de semelhanças como descoberta de si.
É preciso salientar que esse projeto não pretende encobrir os impactos positivos dos
quais desfrutam mulheres negras de pele clara, ao oposto disso deseja expor a conjuntura em
que se encontram essas mulheres, e para isso é preciso pensar em todos os elementos. Sabe-se
que há privilégios e que assim como a ascensão social, a tonalidade da pele clara facilita
inclusão social em vários âmbitos, no entanto é preciso sair da superfície da questão e atingir
os pontos de compreensão em que demonstram que os privilégios vêm sempre carregados de
violência, a exemplo disso uma das pautas mais marcantes do movimento negro no Brasil a
respeito da temática é a de que negros de pele clara tem a opção de “escolher” em qual grupo
étnico desenvolve um processo de identificação, além de transitar por eles, e por isso não há
como comparar os processos racistas em sociedade, o que acaba sendo uma das causas de
uma não homogeneização do grupo.
Apesar da validade do discurso, o mesmo perde o ponto de vista do outro lado, na qual
existe uma enorme represaria e que está é dual, antes da escolha, o sujeito se vê fadado a
construir o principio de sua identidade num lugar sem passado. No entanto, segundo Munanga
(2008) “Essa identidade, que é sempre um processo e nunca um produto acabado, não será
construída no vazio, pois seus constitutivos são escolhidos entre os elementos comuns aos
membros do grupo: língua, história, território, cultura, religião, situação social, etc.” (p.14).
Por isso esses sujeitos que são vistos como pardos procuram aproximar a construção da sua
identidade com o grupo étnico ao qual pertence os negros ou com o grupo étnico ao qual
pertence os brancos.
Se for negado pelo individuo fazer parte da engrenagem de embranquecimento há uma
necessidade de uma incessante repetição da autoafirmação, pois esse pertencimento negro é
questionado o tempo inteiro. Por outro lado se a “escolha” de identificação é feita a favor do
embranquecimento, há negação de si mesmo, o que desencadeia dois processos psicológicos,
um a nível individual da dor e angustia de uma autonegação, promoção de auto-ódio, e o
outro a nível social, pois não é possível sair ileso de discriminação e racismo em um país
como o Brasil quando se é marcado racialmente. “Ser negro é ser violentado constante,
continua e cruel, por dois motivos o primeiro é absorver os ideais dos brancos e o segundo é
negar o corpo negro.” (COSTA, p.2, 1984).
Falando em privilégios, o maior deles talvez seja o fato de não lidar tão comumente
com o racismo exposto, no entanto esse ato de torna-se negra também elucidam situações de
sofrimento provocadas pelo racismo que até então eram entendidas como falhas pessoais, o
que por si só já é enorme impacto psíquico, entendendo que promove a não valoração pessoal,
o sentimento de rejeição e de incapacidade.

A rejeição causa feridas e pode ser internalizada, chegando a um ponto da própria mulher negra não se aceitar.
Como resultado, comprometimentos de ordem psíquica, que podem culminar em
baixa autoestima, prejuízo na formação da identidade, depressão e transtornos
psiquiátricos diversos. (PRESTES, p.51, 2013).
Outro tocante cruel é o estereótipo social que perpassam ás mulheres negras, se as
retintas sofrem com o essa imposição da força, de serem reconhecidas como mulheres
guerreiras, como trás Prestes (2013) falando de como os danos Psicológicos que envolvem
esse estereótipo e a resiliência fundamentada nas mulheres negras é devastador, e não
isentando as mulheres negras de pele clara da vivencia desses danos psíquicos, a elas é dado
com mais potência o estereótipo da “mulata exportação”, a erotização exacerbada sobre seus
corpos é a prova que a ideia colonial da mulata de vida fácil, sedutora e imoral ainda persiste
no imaginário social Brasileiro. Sobre isso tão bem ilustra Elisa Lucinda (2009) com seu
poema ​Mulata Exportação:​

“ Mas que nega linda


E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!
Vem nega, vem ser minha desculpa.
Vem que aqui dentro ainda te cabe
Vem ser meu álibi, minha bela conduta.
Vem nega exportação, vem meu pão de açúcar!”.

O processo de torna-se negra no Brasil é ainda mais árduo para as que possuem pele
clara, pois ainda que não se reconheçam negras, a negritude nelas ora ou outra será
reconhecida. Em uma sociedade que está numa busca constante pelo embranquecimento de
seus corpos, a autodeclaração é antes de tudo um reconhecimento político-social, é
resistência, é o firmamento de uma postura que normalmente lhes tira a pouca tolerância nos
espaços majoritariamente brancos e a não inserção total em espaços majoritariamente negros,
trazendo-lhes o constante peso psicológico que é ter que provar sua própria existência.
METODOLOGIA

Este projeto pretende responder com a pesquisa, se o processo de miscigenação, da


forma como ocorreu no Brasil trás á mulheres negras de pele clara impactos psíquicos,
também pretende compreender quais são, bem como as mesmas passam por um processo de
identificação, pensando nisso utilizará de metodologia qualitativa, compreendendo que a
mesma possibilita uma aproximação maior com os dados subjetivos tragos pelas pesquisadas.

A abordagem qualitativa realiza uma aproximação fundamental e de intimidade entre sujeito e objeto, uma vez
que ambos são da mesma natureza: ela se volve com empatia aos motivos, às
intenções, aos projetos dos atores, a partir dos quais as ações, as estruturas e as
relações tornam-se significativas (MINAYO; SANCHES, 1993. p. 244).

Para além disso a pesquisa qualitativa tem uma concepção de profundidade dos
conteúdos obtidos, o que nesse projeto se faz essencial devido ao seu caráter de investigação
psicológica, entendendo que os dados a serem coletados não são objetivos ou de fácil acesso.
Segundo Creswell (2010):
A pesquisa qualitativa é um meio para explorar e para entender o significado que os indivíduos ou os grupos
atribuem a um problema social ou humano. O processo de pesquisa envolve as
questões e os procedimentos que emergem, os dados épicamente coletados no
ambiente do participante, a análise dos dados indutivamente construída a partir das
particularidades para os temas gerais e as interpretações feitas pelo pesquisador
acerca do significado dos dados. (p.15).

Pensando nisso a estratégia de pesquisa será etnográfica, de acordo com Creswell


(2010) “é uma estratégia de investigação em que o pesquisador estuda um grupo cultural
intacto em um cenário natural durante um período de tempo prolongado, coletando
principalmente dados observacionais e de entrevistas”. (p.20).
A pesquisa será operacionada a partir da formação de grupos focais, já que a mesma
trabalha com questões caras e delicadas aos participantes é necessária a escolha de
instrumento mais dinâmico do que entrevistas individuais, além do mais os grupos focais
proporcionam ricas trocas de experiências, debates e discussões que se tornaram dados ​para a
pesquisa, também podem ser terapêuticos ao ponto em que se faz de elo compartilhamento de
vivencias agradáveis e desagradáveis.

O grupo focal representa uma fonte que intensifica o acesso às informações acerca de um fenômeno, seja pela
possibilidade de gerar novas concepções ou pela análise e problematização de uma
ideia em profundidade. Desenvolve-se a partir de uma perspectiva dialética, na qual
o grupo possui objetivos comuns e seus participantes procuram abordá-los
trabalhando como uma equipe. Nessa concepção, há uma intencionalidade de
sensibilizar os participantes para operar na transformação da realidade de modo
crítico e criativo. (BACKES ​et al, ​p. 2, 2011).

A pesquisa pretende se realizar com cinco sujeitas, tendo em vista que irá se investigar
suas trajetórias de vida, e como elas enxergam esses processos históricos de sua formação
identitária é preciso que elas sejam mulheres autodeclaradas negras, não retintas.

CRONOGRAMA

ETAPAS – 2020 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º 11º 12º


Levantamento X X X
bibliográfico
Revisão de projeto X X X
Envio para X
avaliação do comitê
de ética
Leitura e X X X
Fichamento do
material
Bibliográfico
Coleta de dados X X X X X X
Revisão Literária X X
ETAPAS - 2021
Análise dos dados/ X X X
descrição dos
Grupos Focais
Revisão Literária X X
Redação preliminar X X X X
Revisão e redação X X
final
Entrega X
Defesa X

REFERÊNCIAS

BACKES. D.S; et al​. ​Grupo focal como técnica de coleta e análise de dados em pesquisas
qualitativas. ​São Paulo: Mundo da Saúde, 2011. Disponível em:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/artigos/grupo_focal_como_tecnica_coleta_analise_dados_pesq
uisa_qualitativa.pdf​. Acesso em: 05 set, 2019.
CONT. V. D. ​Francis Galton: eugenia e hereditariedade.​ São Paulo: UNICAMP, 2008.

COSTA, J. F. ​Violência e Psicanálise​. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984. (texto


inicialmente publicado como prefácio ao livro "Tornar-se negro", de Neusa Souza.

GOMES, N. L. ​Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra​.
Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATISTICA. ​ ​Pesquisa


Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), ​2018. Rio de Janeiro: IBGE,
2018.
MINAYO, M. C. D. S.; SANCHES, O. Quantitativo-Qualitativo: Oposição ou
Complementaridade? ​Cadernos de Saúde Pública​, Rio de Janeiro, Julho/Setembro 1993. 239
– 248.

MUNANGA, K. ​Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus


identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

PRESTES, C. R. S​. Feridas até o coração, erguem-se negras guerreiras. Resiliência em


mulheres negras: transmissão psíquica e pertencimentos. 2013. 175f. Dissertação (Mestrado)
Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em:
http://www.ammapsique.org.br/baixe/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20Cl%C3%A9lia%20Pr
estes%20-%20Feridas%20at%C3%A9%20o%20cora%C3%A7%C3%A3o,%20erguem-se%2
0negras%20guerreiras.pdf​. Acesso em: 30 ago, 2019.