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Prova de História da África

Matheus Vilela Freitas

Ao pensarmos sobre o continente africano, muitas dúvidas vêm à tona, isto pois
passamos toda uma vida escolar aprendendo que a África não tem uma história própria.
Sempre ao nos depararmos com tal temática dentro de sala de aula, aprendemos sobre a
África através da visão de seus colonizadores, onde sua história se confunde com o inicio
da colonização ou da relação comercial que parte da África fazia com o continente
europeu. Isto não é por acaso, a história do continente africano vem a séculos sendo
subestimada, e sendo considerada inferior e primitiva.
Para que possamos compreender como tal deslegitimação da cultura e da história
africana. Hambapê nos apresenta que desde do inicio do processo de colonização do
continente africano o mesmo passou por um processo de divisão de seu povo, sendo a
este continente divido em duas partes, de um lado estava a África branca, que devido a
sua proximidade com o continente europeu e devido também a anos de comércio já trazia
consigo algumas características europeias. Já do outro lado do continente se encontrava
a África profunda, ou como era nomeada a África Negra, que trazia características tribais
e até então pouco conhecida e de poucas semelhanças com o próprio continente europeu.
Dividas pelo deserto do Saara, os europeus acreditavam que as duas partes de um
continente não mantinham ligações entre si, tais características tribais e a falta de um
regime centralizado, o continente africano foi tratado pelos europeus como incivilizados,
e por consequência diversas expedições foram promovidas ao continente africano. Com
a descoberta do continente americano os povos da África foram transformados em
escravos e obrigados abandonar sua terra e migrar de África para América. Com a
escravização em massa dos povos de África, logo o próprio termo África foi ligado a
africano e africano a negro que por sua vez era diretamente associada a escravos que já
trazia consigo uma sério de estereótipos. Por consequência todo o continente foi
associado tais estereótipos.
A escravidão sempre esteve presente entre os povos do continente africano,
conforme nos mostra Leila Leite Hernadez, porém conforme afirma a autora a escravidão
na África nunca teve como característica a questão étnica, ela era sim decorrente de
guerras e fome, sendo possível até ser escravizado como forma de se pagar uma divida
com a sociedade, devido ao um crime cometido. A autora também mostra diferenças entre
o trato dos escravos do continente africano para com os escravos do continente
Americano.
Autora também apresenta evidencias que deslegitima o argumento que a séculos
era utilizado e que até hoje ainda faz parte do senso comum, de que as duas áfricas não
mantinham contatos entre si. Hernandez mostra diversos estudos que mostram as rotas
comerciais entre diferentes regiões do continente africano, sendo o tráfico de escravos um
desses “produtos” comercializado. Mas então o por quê da construção desta crença da
existência de duas áfricas cujo a ligação entre inexistente? É necessário termos em mente
que ao construir tal perspectiva o europeu encontrava aí uma justificativa de levar a parte
mais afastada da África a civilidade da Europa.
A colonização da África veio com a intenção de trazer a civilização ao continente,
foram criadas em diversas regiões da África, regiões de colonização, tais regiões
dominadas por homens brancos. Era necessário nestes casos de colonização, a importação
de tradições do continente Europeu para que houve a legitimação da sua presença nestes
lugares. Conforme mostra Terence Ranger, era necessário também a invenção de novas
tradições africanos para os próprios africanos, isto para mostrar a eles a sua inferioridade
perante os Europeus e com isso legitimasse seu próprio poder.
Tal perspectiva era necessária para que fosse possível manter o controle da
população, que por sua vez também eram excluídos das tradições importadas da Europa,
uma vez mais evidenciando sua inferioridade. Uma outra justificativa desta dita
inferioridade era as próprias tradições africanas de perpetuação de sua história, conforme
analisa Hernandez, um dos maiores pensadores do período colonial, Hegel, afirmava que
a África, por consequência os africanos, não possuíam autonomia suficiente para a
construção de sua própria história. Muito desta forma de pensar vem da concepção muito
presente na época (podemos dizer que em parte até hoje) de que a História deveria ser
domínio do Velho Mundo, por consequência os europeus.
Tal forma de pensar, justificou o silenciamento da cultura africana que havia sim
sua forma de contar sobre seu passado e sobre a história, utilizando métodos e concepções
diferentes das utilizadas pelos europeus, que possivelmente sabiam destas formas de
perpetuação da história africana, porém não as considerava como uma verdadeira forma
de se fazer história. Os responsáveis pela construção e manutenção da história africana
era nomeado de Tradicionalista, estes detinham o poder da palavra e o rigor com a
verdade e com seu método na construção de sua história do povo africano. Também havia
o os Griots, esses também responsáveis pela perpetuação da história africana, porém sem
a presença do rigor dos tradicionalistas, os Griot utilizavam poemas e trovas como forma
de passar as gerações posteriores sua própria história.
Hambapê Bâ, nos mostra que este modelo hoje não deve ser visto de forma inferior
conforme ela era vista nos tempos da colonização, isto pois ambas as formas, a escrita e
a oral, trazem consigo formas subjetivas de verem o mundo, cada uma com sua
particularidade. Enfatizar a importância destas formas de ver e descrever o mundo é de
fundamental importância na busca da construção de um mundo multicultural e
multiepistêmico.
Um outro fator que colaborou para a perpetuação dos estereótipos sobre a
população africana e o desmerecimento de sua cultura, está intimamente ligado a questão
social e economia do continente africano nos dias atuais. Após a queda do sistema
colonial e o fim da bipolarização politica mundial, muitos destes jovens Estados-Nação,
passaram por severas crises econômicas, derivadas dos intensos conflitos étnicos
presentes no continente africano, muito desses conflitos tiveram origem nas politicas
coloniais, como também na constante exploração sofrida por estes estados nações.
Endividados os governantes foram obrigados a cederem a pressões do mundo
globalizado, entregando a iniciativa privadas partes fundamentais da estrutura pública,
tais como áreas ligadas a saúde e educação o que dificultou ainda mais o acesso da
população mais pobre a estes serviços, conforme afirma Ki-Zerbo. O alargamento entro
as classes sociais se mostrou também presente nestes novos países africanos, onde cada
vez mais a riqueza produzida fica nas mãos dos mais ricos o que dissemina pobreza e
miséria por todo o continente.
Mas o que prega todos estes autores e que devemos levar em consideração na
educação sobre a África para as futuras gerações, e para as atuais também, é que a História
e cultura africana tem suas particularidades, e que tais particularidades não à torna inferior
a nenhuma outra e sim esta é a essência e sua legitimidade. Um forte movimento vem se
criando na busca da construção de uma história do continente africano a partir de seus
próprios métodos e forma de pensar o mundo e sua história. Este movimento tem como
intenção pensar a África de dentro para fora, e não mais importar convicções acerca de
sua história vindas de fora conforme foi imposto por muitos séculos. Isto estas visões de
África vindas, principalmente do continente europeu, traziam consigo demasiados
preconceitos sobre a sua própria cultura.
Referências:
HAMPATÉ BÂ, Hamadou. História Geral da África I. Metodologia e pré-história da
África. Organizado por Joseph Ki-Zerbo. São Paulo, Ed. Ática/UNESCO, 1980.
RANGER, Terence IN: HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence. A invenção das
tradições. São Paulo, Paz e Terra, 2008.
HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula-visita á história contemporânea. SP:
Selo Negro, 2008.

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