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Neuroética: uma disciplina em construção

Délio José Kipper

Resumo Estamos vivendo um momento de grandes esperanças advindas das inovações


tecnológicas na neurociência, que levaram a uma profusão de estudos na neurociência cognitiva,
afetiva e social. A meta de diagnosticar, tratar e prevenir doenças com origem no cérebro é
louvável e relativamente protegida pelas normas éticas estabelecidas ao longo do tempo. Mas
este notável progresso trouxe em seu bojo enormes desafios éticos, legais e sociais, principalmente
pelas possibilidades, não almejadas, da aplicação dessas tecnologias. Algumas, de natureza
prática, referentes às aplicações das neurociências e suas implicações para os indivíduos e a
sociedade. Outras, mais filosóficas, relativas à maneira como nos pensamos como pessoas,
agentes morais e seres espirituais. É de alguns desses desafios que nos ocuparemos neste artigo,
trazendo algumas recomendações, cuidados e questionamentos éticos peculiares à neurociência,
dando continuidade a trabalho anterior.

Palavras-chave: Neurociências. Neuroética. Desafios. Recomendações.

But in fact morals is the most humane of all subjects. It


is that which is closest to human nature; it is ineradicably
empirical, not theological nor metaphysical nor mathema-
tical. Since it directly concerns human nature, everything
that can be know of the human mind and body in phy-
siology, medicine, anthropology, and psychology is perti-
Délio José Kipper nent to moral inquiry (...). Moral science is not something
Pediatra, doutor em Pediatria/ with a separate province. It is physical, biological and
Saúde da Criança pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio historic knowlege placed in a human context where it will
Grande do Sul (PUCRS), professor illuminate and guide the activities of men.
da Faculdade de Medicina da
PUCRS e pesquisador do Instituto Dewey, 1922
de Bioética da PUCRS, Porto
Alegre, Brasil

Estudos recentes começaram a elucidar a neurociência do


complexo comportamento social humano, como o amor, a
confiança, a extroversão, a neurose, a empatia, a mentira, as
preferências de consumo e até os mecanismos cerebrais utili-
zados na tomada de decisões morais, por alguns chamados de

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neurociência da ética. Outros estudos se dedi- simples de tecido, embora muito bem organiza-
cam a pesquisar o que é a consciência e o que é da de componentes físicos, tornar possível a ex-
estar consciente. A maioria dessas colocações periência de dor, de uma tonalidade particular
não é especulativa. Muitos desses conhecimen- de vermelho ou do aroma de uma flor? Nossa
tos estão saindo dos laboratórios para a socieda- inabilidade em responder essas questões a partir
de. Trabalha-se, com base nesses conhecimen- da atividade cerebral é para alguns um argumen-
tos, no neuromarketing, nos tribunais, na dro- to contra o materialismo; para outros, sugere
gadição, na neuroeconomia, na neurocosméti- que se deve à nossa falta de conhecimento.
ca, na detecção de mentiras, na autonomia para Ambos, a ciência e a filosofia, foram desafiadas
a tomada de decisões e na segurança nacional, por essas perguntas e Roskies 2 sugere que a
para citar apenas alguns. À medida que os neurociência está no caminho de respondê-las.
conhecimentos gerados vão sendo utilizados,
surgem novos desafios éticos, legais e sociais. A questão da consciência foi e continua sendo
primariamente uma questão filosófica, mas
Corpo e alma hoje é também questão científica. Para
Roskies 2, se existe uma ciência capaz de res-
Muitas pessoas acreditam que mente e corpo ponder a questão o que é consciência e como a
são entes diferentes. À proporção que a neu- consciência é possível, esta é a neurociência.
rociência evolui, mais e mais dos pensamen- Grande número de questões éticas acompa-
tos humanos, sentimentos e ações são expli- nha as questões científicas, porque a desmisti-
cados em termos de funcionamento do cére- ficação da consciência, se ocorrer, certamente
bro, um órgão físico do corpo humano. Até a afetará como nos pensamos, poderá ter impac-
relação entre experiências religiosas e o cére- to nas convicções religiosas e provavelmente
bro foi percebida em pacientes com epilepsia terá ramificações sobre como entendemos
do lobo temporal, cujas convulsões eram nosso lugar no mundo natural, bem como o
acompanhadas por fortes sentimentos espiri- dos outros organismos.
tuais. Recente pesquisa mostrou imagens
características de ativação cerebral associadas Embora a possibilidade de determinar o que
a estados de transcendência espiritual, comuns seja consciência e o que é estar consciente
na meditação budista e nas preces cristãs 1. ainda esteja longe (se um dia for possível atin-
gi-la), isto não quer dizer que não nos deve-
Consciência mos preocupar, haja vista o surgimento de
questões éticas a ela relacionadas 2.
A consciência talvez seja um dos maiores misté-
rios da ciência. Como pode uma massa emara- Estados de consciência
nhada de tecido dar origem ao advento da cons-
ciência, da percepção ou da experiência subjeti- Quando o paciente sofre grave lesão cerebral,
va? Como pode uma coleção relativamente por trauma ou por acidente vascular cerebral,

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pode perder completamente a consciência e nos traumas, passava a ser denominado de EV
entrar em coma, um estado de total irrespon- permanente, indicando que o paciente não
sividade, com os olhos fechados. Este estado tinha mais chance nenhuma de recuperação.
costuma ser autolimitado, evoluindo por pe- Essa distinção temporal era baseada nas dife-
ríodo variável de aproximadamente duas renças dos mecanismos causais da morte neu-
semanas. Após o mesmo, o paciente pode ronal por anoxia e por trauma.
recuperar a consciência, entrar no denomina-
do estado vegetativo ou ter sua avaliação clíni- Questão particularmente preocupante em
ca e exames complementares caracterizando a relação à caracterização dos estados de cons-
morte encefálica 3. ciência é a recente descoberta de um estado de
comprometimento da consciência denomina-
Em 1972, Jennet e Plum 4 identificaram o do como estado de consciência mínima
estado vegetativo (EV) e o descreveram como (ECM) 3. Nessa condição clínica o paciente
uma síndrome. Trata-se basicamente de um está em estado vegetativo, independente do
estado cerebral no qual o paciente não está tempo (mais que 3 ou 12 meses), mas as neu-
consciente, mas seu cérebro continua exercen- roimagens conseguem mostrar ilhas cerebrais
do as funções automáticas do corpo, realizadas em atividade. Dessa condição pode evoluir
pelo tronco cerebral intacto, que controlava a para uma emergência do estado de consciên-
respiração, a frequência cardíaca, os ciclos de cia mínima e, finalmente, à recuperação da
acordar e dormir e os reflexos. Os pesquisado- consciência. A descoberta do ECM deveu-se
res caracterizaram tal estado como acordado ao desenvolvimento da tecnologia para o
irresponsivo, isto é, os olhos poderiam estar mapeamento cerebral, pois as imagens abri-
abertos, mas sem que tivessem consciência de ram uma janela para estabelecer o estado de
si, dos outros e do meio. Esse estado cerebral consciência de pacientes, que de outra forma
reflete de modo simples a recuperação do tron- não seriam capazes de se manifestar.
co cerebral, responsável pela atividade autonô-
mica, na ausência de função cortical. Os termos estado vegetativo persistente, estado
vegetativo permanente (EVP) e estado de cons-
Dois consensos sobre o estado vegetativo eram ciência mínima têm sido mal interpretados até
claros 5: do EV os pacientes poderiam evoluir por alguns médicos; geraram e geram muitas
para a morte encefálica, que por definição é a confusões, como ocorreu com a paciente Terry
morte de todo o cérebro, incluindo o tronco Schiavo, que contemplava os critérios de esta-
cerebral (critério para doação de órgãos e sinô- do vegetativo permanente (portanto, irreversí-
nimo de morte do indivíduo); podiam recupe- vel, sem recuperação ou evolução clínica), mas
rar a consciência; ou se manterem em EV. Se que eventualmente abria os olhos – que para
o EV durasse um mês, era denominado persis- muitos são a “janela para a alma”. Fins escre-
tente e se permanecesse por três meses nos veu que naquela época imaginava a parte supe-
acidentes vasculares cerebrais e por doze meses rior do cérebro como uma massa gelatinosa flu-

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tuando acima do tronco cerebral e que com uma vendo impedimentos ao processo inevitável de
lesão tão importante, que levasse ao EVP, este morrer. Mas alguns fatos incomodavam: rela-
só poderia ser um estado de perda de consciência tos de pacientes que, após muito tempo em
permanente, instável, para sempre 3. O caso de estado vegetativo, de repente mostravam
Schiavo deve ser tomado em consideração e algum sinal de consciência, seja mediante
contrastado com os de outros pacientes que uma palavra ou movimento aparentemente
estão em ECM, com a possibilidade de alcan- voluntário – estavam em ECM, como hoje
çar um estado de consciência mínima para recu- sabemos.
perar a cognição.
O ECM é uma desordem da consciência que
Antes da descrição deste ECM e da possibili- entrou no léxico médico a partir de formula-
dade de exames pela Functional Magnetic Reso- ção nos Apsen Criteria em 2002 6. Os pacien-
nance Imaging (fMRI), que pode mostrar ilhas tes em ECM apresentam evidência de cons-
cerebrais em atividade, muitos pensavam 6 ciência demonstrando intenção, atenção,
como Fins e isto era um axioma simples e memória, percepção de si mesmos, de outros
conveniente. Conveniente porque, graças aos e do meio. O desafio é que esses comporta-
avanços da medicina, muitos pacientes nas mentos são episódicos, intermitentes, não
três últimas décadas do século passado, que reproduzíveis, o que torna muitas vezes a con-
antes morriam, agora eram mantidos vivos dição desses pacientes indistinguível daquela
mais tempo (embora nem sempre em condi- dos que permanecem em estado vegetativo,
ções melhores). O caso de Karen Ann Quin- especialmente para olhos não treinados ou em
lan foi paradigmático por indicar o rumo para exames isolados.
o caminho de uma morte digna. Envolvendo
muitos cientistas e bioeticistas o episódio O ECM é um diagnóstico crítico, pois confi-
gerou intensa discussão e surgiram apologias gura condição passível de evoluir para a recu-
a favor da limitação de tratamentos fúteis por peração, para o estado de emergência do ECM
ordens de não reanimação piedosas em todo o e, finalmente, para o restabelecimento. Porém,
mundo, inclusive no Brasil. é difícil predizer a possibilidade de emergir da
ECM, prever quando e se vai ocorrer, haja
Por um processo louvável, voltado a garantir a vista que o tempo que um paciente pode man-
dignidade do paciente em situação de termi- ter-se nessa condição costuma ser medido em
nalidade, muitos deles tiveram uma morte meses, anos e, às vezes, décadas. No caso de
mais confortável e humana, algumas vezes Terry Wallis, ocorreu 19 anos após o trauma
fora das unidades de terapia intensiva (UTI), cerebral 7.
em casa ou em hospices, ajudados por ordens
de não reanimação (ONR), testamentos vitais Essa variação no tempo e quantidade de recu-
e outras inovações. Os apelos de pacientes ou peração se deve à heterogeneidade desses esta-
familiares várias vezes foram atendidos, remo- dos cerebrais e à dificuldade de fazer prognós-

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ticos. É ao encontro dessas questões que sur- dencialidade. Em relação ao até agora existen-
gem vários artigos dedicados ao tema. A reali- te, o pressuposto quanto à privacidade é que
dade, hoje, é que com tecnologias avançadas outros não podem e não devem coletar ou ter
de neuroimagem torna-se possível identificar acesso às nossas informações sem nosso efetivo
os pacientes em ECM, embora isto não dê conhecimento e consentimento livre e esclare-
segurança quanto à evolução do quadro. Fins cido.
adota as palavras de Richard Rorty, pronun-
ciadas numa disputa com o filósofo francês Em relação aos pensamentos, o pressuposto é
Pascal Engel sobre a verdade: nossas responsa- que, independente das intenções, outros não
bilidades são exclusivamente para com outros devem ler nossos pensamentos e, assim, inva-
seres humanos, não para com a realidade 8. O dir nossa privacidade 10. Não é incomum em
diagnóstico de ECM ainda não é realidade debates sobre privacidade nos referirmos à pri-
prática. Mas devemos ter atendido aos apelos vacidade de pensamentos como um paradigma
dos familiares de alguns pacientes em ECM, fundamental: a única coisa que ninguém pode
para a não oferta de medidas consideradas controlar são meus pensamentos. O cerne desta
fúteis, no passado. questão está em que nossos pensamentos – isto
é, argumentos, motivações, atitudes, desejos e
No futuro, talvez o paciente nos consiga dar valores – são nossos, integrando a noção de si
uma resposta tipo sim ou não sobre ONR, mesmo (self), que constitui nossa identidade
sobre a dor ou desconforto que sente, uma vez pessoal. Nossos cérebros somos nós, o que
que os trabalhos de Monti, Vanhaudenhuyse, nossos genes nunca conseguiram ser.
Coleman e colaboradores 9 mostraram que
mesmo pacientes incapazes de responder fisi- Existe significativa diferença entre os dados
camente são capazes de compreender instru- genéticos (em cuja área de pesquisa esses desa-
ções verbais e replicar de forma diferenciada. fios foram colocados) e os processos de pensa-
Esses estudos sugerem que alguns pacientes mento, ambos importantes para a formação
estavam conscientes e retinham o poder de da identidade. Certamente, os genes têm in-
responder com volição ou intenção – o que fluência sobre quem somos, mas nossos pen-
pode aumentar sua autonomia, permitindo samentos são significativamente mais centrais
fazer escolhas. à consciência de si. Nossos genes, herdados
dos pais biológicos, são de modo significativo
Privacidade não nossos: mistura da herança genética de
nossos antepassados; assim, são um pouco
O que é particularmente desafiante nas novas nossos parentes (pais, avós, irmãos, descen-
tecnologias de estudo do cérebro é o previsível dentes), bem como são nós. Tal fato ocorre
e sem precedente acesso ao pensamento huma- porque nosso genoma não é uma informação
no, bem como a necessidade de manter o exclusivamente pessoal. Nosso genoma e
paradigmático respeito à privacidade e confi- informações genéticas constituem uma iden-

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tidade familiar, que inclusive pode ser a causa Um aspecto crucial no desenvolvimento des-
de doenças específicas. sas narrativas pessoais é seu papel na comu-
nicação: este processo envolve pensamentos,
Em forte contraste à transmissão consan- mais ou menos trabalhados internamente e
guínea dos genes, nossos pensamentos, testados contra as respostas dos outros, que
mesmo sujeitos a influências familiares, podem aceitá-los, rejeitá-los, confirmá-los
resultam da influência de muitas outras fon- ou se manterem neutros às nossas histórias.
tes, incluindo (centralmente) nós mesmos. Registramos essas respostas e respondemos
Nossos pensamentos são a base de todas as às mesmas. A fase privada desse processo é,
nossas histórias adquiridas, refinadas, revi- sem dúvida, fundamental para a formação
sadas, esquecidas ou recontadas pela intros- de nossa identidade, como argumenta Sisse-
pecção decorrente do tempo e contínua ex- la Bok, citada por Reid e Baylis 10. A possi-
periência de vida. bilidade de que uma ou mais neurotecnolo-
gias venha ultrapassar essa comunicação e,
Nossas histórias (produtos de nossos pensa- um dia, expor esses momentos privados no
mentos e experiências) são construídas e man- processo de formação da personalidade é o
tidas em relações pessoais íntimas, bem como que pode ser caracterizado como invasão
em relações sociais mais distantes de reconhe- crucial em nossa identidade, que poderá
cimento mútuo. Expressas de modo crucial reconfigurar o processo de construção da
em nossos pensamentos nos dizem quem mesma 10.
somos, de onde viemos e para onde vamos, de
modo bem diverso do que nossos genes podem Tomada de decisões morais
dizer.
A decisão baseada em valores é disseminada
Os pensamentos são o material de nossas na natureza. Ela ocorre quando um animal
vidas e a linguagem com que constituímos e opta entre várias opções, baseando-se num
contamos para nós mesmos nossas histórias, e valor subjetivo que atribui a cada possibilida-
também a maneira como as preparamos para de. Muitas pesquisas estão estudando os pro-
contá-las a outros. Construímos nossa identi- cessos que o cérebro realiza com o objetivo
dade, a narrativa de nossa vida pessoal, arran- de tomar decisões, principalmente as basea-
jando e ordenando experiência e ideia, dando das em valores, procurando construir uma
maior peso para alguns pensamentos e descar- teoria biologicamente aceitável sobre como
tando outros. A narrativa de vida de cada um os seres humanos tomam decisões, que possa
pode ir a muitas direções, em parte sujeita a ser aplicada nas ciências naturais e sociais.
escolhas nossas, em parte sujeita às circuns- Várias áreas do conhecimento contribuem
tâncias, em parte sujeita aos nossos desejos ou com esses estudos, como a psicologia, a neu-
necessidades e, em grande parte, sujeita às res- rociência e a ciência da computação, entre
postas dos outros. outras.

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Até recentemente, a única maneira de estudar o ponto de vista da neurociência cognitiva,
a cognição moral era deduzi-la do comporta- Rangel, Camerer e Montague 13 fazem a pro-
mento, observando as ações das pessoas ou posta de como o conhecimento cultural con-
verificando suas respostas a situações que exi- texto-dependente, o conhecimento semântico
giam um julgamento moral. Entretanto, a e social, bem como o estado motivacional,
evolução da neurociência e sua aplicação em podem ser integrados para esclarecer os com-
domínios cada vez mais abstratos da cognição plexos aspectos da cognição moral humana.
delinearam nova metodologia para investigar Referem que três modelos de estruturas de
o raciocínio moral. tomada de decisões estão sendo estudados e que
compreendem cinco fases: 1) a representação
Tudo indica que na evolução da espécie huma- do cenário; 2) a valoração dos diferentes cursos
na alguns dos nossos valores morais vieram de ação em consideração (qual é o valor de cada
das emoções e não do raciocínio, e consti- ação?); 3) a seleção da ação (escolha baseada
tuíam a força que dirigia a ação moral. O em valores); 4) o resultado da ação escolhida
sucesso desses hominídeos primitivos estava (premiação ou condenação); e 5) o aprendizado
baseado no altruísmo recíproco no comparti- para a tomada de decisões futuras.
lhamento social dos recursos. Em paralelo, na
evolução deve ter havido a tendência ao Um dado comum no comportamento antisso-
egoísmo (pegar os recursos e não compartilhá- cial é a quebra de regras, central nos indiví-
los) como estratégia de sobrevivência da espé- duos criminosos, violentos ou psicopatas,
cie. Nesse nível de desenvolvimento, a mora- expressando sua incapacidade de seguir nor-
lidade é fortemente guiada pelas emoções, mas morais. Raine e Yang 11 resumem os prin-
relativamente automática, e não havia ou cipais achados das pesquisas com neuroima-
havia pouco controle cognitivo. Quando as gem no comportamento antissocial e no
sociedades tornaram-se mais complexas, o raciocínio moral. Citam as principais áreas
raciocínio moral passou a ser mais importante cerebrais comprometidas funcional ou estru-
para resolver os dilemas morais e regular a turalmente nas pessoas com esse tipo de com-
expressão das emoções. Em tal contexto, a portamento, bem como as regiões mais comu-
psicopatia tem sido vista como a expressão mente ativadas em testes que exigem julga-
completa da estratégia de tirar vantagem 11. mento moral. Mesmo que essa predisposição
neurobiológica seja apenas uma dentre vários
A neurociência da cognição moral pode aumen- processos biossociais na etiologia do compor-
tar a avaliação, a previsão e o tratamento de tamento antissocial, levanta questionamentos
desordens comportamentais. Entender a base morais significativos para o sistema legal e
neurológica da cognição moral ajudará a esco- para a neuroética.
lher as intervenções ambientais, psicológicas e
médicas necessárias para promover comporta- As pesquisas até agora realizadas sugerem que
mentos pró-sociais e bem-estar coletivo 12. Sob o emocional está mais comprometido do que

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o cognitivo nos indivíduos antissociais. Apa- nhado por outros distúrbios do comportamen-
rentemente, os psicopatas que adquiriram essa to emocional, que incluem diminuição das
condição quando adultos têm excelente habi- reações emocionais em geral e, especificamen-
lidade de raciocínio ao discutirem a tomada de te, comprometem as emoções sociais como
decisões morais hipotéticas, mas falham em compaixão e vergonha; 2) o comportamento
seguir essas regras em situações reais apre- que pode ser classificado como moralmente
sentadas. Os estudos também indicam que inadequado vem acompanhado de outras per-
quanto mais cedo na infância o comprometi- das nas tomadas de decisão, como o escasso
mento antissocial aparece, menos competên- planejamento de várias atividades diárias e um
cia os indivíduos têm para o raciocínio moral, manejo medíocre das relações humanas; 3)
aparentemente porque não houve esse apren- esse mau comportamento não é acompanhado
dizado. Esses trabalhos mostram que a sensi- por déficits na percepção, movimentos, memó-
bilidade sobre o certo ou o errado é a deficiên- ria convencional, linguagem e habilidade geral
cia predominantemente no grupo antissocial, de raciocínio 14.
mais do que o conhecimento do que seja errado
ou correto. O fato de o indivíduo ter um comportamento
moral adequado e após uma lesão em determi-
Apesar das grandes dificuldades ainda existen- nada área do cérebro mudar de comportamen-
tes sobre o entendimento da tomada de deci- to mostra que alguns atributos cognitivos
sões morais, neurocientistas e legisladores estão relacionados a áreas cerebrais. Damásio
estão atentos às implicações que poderá ter considera a ética como uma das primeiras e
para a sociedade, a lei e a liberdade civil. Os mais gloriosas criações da mente humana, que
psicopatas podem não ser moralmente insa- se manifesta nos comportamentos humanos
nos, num sentido legal estrito, uma vez que simples: nas convenções sociais, regras morais,
são cognitivamente capazes de distinguir o no senso de justiça e nas leis básicas 14. Para o
certo do errado. Mas, se são inaptos para sen- autor, por trás da gênese da ética, na história
tir o que é moralmente correto devido à inca- da humanidade, estão os fenômenos genetica-
pacidade neurobiológica por trás de seu con- mente herdados e automatizados, que chama-
trole, são eles totalmente responsáveis por mos emoções e seus respectivos sentimentos.
seus comportamentos criminais? Se não, Ele acredita, portanto, que a ética é um pro-
quais são as implicações para a punição, bem jeto em construção, motivado pelas emoções
como para nosso conceito de justiça? Este é o que se combinam ao raciocínio para modelar
desafio contido na interface entre a neuro- aquilo que conhecemos como bom senso, o
ciência, a lei e a neuroética 11. qual opera a partir da cultura.

Os achados dos estudos disponíveis sugerem Várias aplicações práticas desses conhecimen-
que: 1) o mau comportamento causado por tos estão em andamento. Na psiquiatria, por
danos pré-frontais é invariavelmente acompa- exemplo, porque doenças psiquiátricas envol-

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vem falhas em um ou mais processos de toma- Os modernos avanços na tecnologia da fRMI
da de decisão, como a representação das alter- deu aos neurocientistas a oportunidade de
nativas, a valorização de cada uma delas, a apreciar mais profundamente a contribuição
comparação entre as ações, a recompensa ou do cérebro no comportamento humano e na
punição da escolha e o aprendizado com cada tomada de decisões. Esses novos conhecimen-
escolha feita. O melhor entendimento desses tos ainda são pouco familiares à comunidade
processos poderá levar ao melhor diagnóstico forense de psicologistas, apesar de oferecerem
e tratamento. melhor entendimento para a decisão judicial a
partir de uma perspectiva biológica, que pode
Reaparece, assim, velha questão clínica, ética ter impacto importante na intenção (do crime)
e legal que se refere à responsabilidade de in- e na culpabilidade, resultando numa visão
divíduos com doenças cerebrais. Se aceitar- mais determinística do comportamento antis-
mos que a esquizofrenia é uma doença cere- social 15-21. Para Aharoni, Funk, Sinnott-Ar-
bral, como deveremos lidar com os comporta- mstrong e Gazzaniga 17 a neurociência pode
mentos violentos ou criminosos que indiví- oferecer apenas modelos descritivos da organi-
duos com essa patologia possam apresentar? zação e função cerebral. A atribuição de res-
O mesmo se pode dizer de drogaditos, consi- ponsabilidade, por outro lado, é inequivoca-
derando-os como portadores de uma doença mente prescritiva. Assim, a neurociência seria
cerebral. Se cometerem crimes levados pela bem mais limitada nas conclusões que pode
compulsão à procura de drogas, como respon- sustentar do que os sistemas públicos e legais
sabilizá-los ou lidar com eles? Essas conside- – sendo vulnerável ao abuso, como qualquer
rações exemplificam o rol de novas questões ciência nova.
éticas e legais que podem se descortinar a par-
tir dos estudos em neuroética. A respeito do ainda controvertido uso da neu-
rociência, Martell 18 conclui o artigo com esta
Na área judicial, a questão central em mui- frase: Aí esta o bebê (neurociência) e aqui está a
tos procedimentos legais é definir e medir se água do banho. A corte pode querer notícias do
o indivíduo estava no pleno comando de primeiro, mas não deve se banhar demais do
suas faculdades de tomada de decisão. Por último 22. Afirma que em um nível filosófico
mais de 200 anos os tribunais ocidentais fundamental existem diferenças profundas
consideravam os apelos de “não culpado por entre as visões de como a lei e a neurociência
razões de insanidade” para réus portadores veem as questões da responsabilidade criminal
de problema mental, que os tornava incapa- ao longo de um continuum, do livre arbítrio ao
zes de entender o quanto seus atos foram determinismo, e que ainda existem limitações
errados. Até recentemente, essa era árdua significativas no estado atual das pesquisas em
tarefa para os psicólogos e psiquiatras foren- neurociência, considerando sua habilidade
ses. Hoje, as novas técnicas da neurociência para informar à esfera legal sobre a tomada de
podem ajudá-los. decisões morais dos sujeitos sob avaliação.

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Buller 23 defende haver uma diferença funda- os correlatos neurológicos do processo psico-
mental entre fatos e valores, isto é, entre o lógico envolvido em noções éticas relevantes
que as coisas são e o que deveriam ser. Com como o CLE 24? A neurociência da tomada de
base nessa distinção sugere que não podemos decisão pode ser capaz de contribuir para uma
tirar conclusões normativas de premissas des- ética do CLE, provendo critérios empíricos e,
critivas. Mas admite que se considerarmos a em consequência, critérios descritivos. Como,
consciência como condição necessária da per- entretanto, os critérios descritivos devem ser
sonalidade ou, mais controverso, que a racio- distinguidos dos critérios normativos, a neu-
nalidade é condição necessária para a respon- rociência da tomada de decisão não pode subs-
sabilidade – e a neurociência identifica como tituir a ética do CLE.
essas capacidades estão ligadas –, torna-se
difícil resistir à noção de que o nível de função O fato de os indivíduos com desordens cere-
cerebral é relevante para determinar nossas brais serem particularmente vulneráveis colo-
obrigações morais em relação aos outros ou ca outra questão especial: o consentimento
para a missão da responsabilidade. Entretan- informado, por exemplo, muitas vezes é com-
to, não aceita que a neurociência possa subs- plicado por deficiências cognitivas, por susce-
tituir questões normativas por questões cien- tibilidade à coerção ou a incentivos. Muitas
tíficas, advertindo que não se pode permitir doenças neurológicas que levam a distúrbios
que o faça. emocionais e/ou cognitivos associados a modi-
ficações específicas na função cerebral podem
Está cada vez mais claro que os julgamentos contribuir na inabilidade desses pacientes
morais não são somente produtos de pensa- darem um CLE válido. Situação particular-
mentos introspectivos, conduzidos isolados mente interessante e que está sendo estudada
das emoções. Pelo contrário, as pesquisas com trata do consentimento antecipado por pes-
imagens têm sugerido que os sistemas afetivos soas que apresentam os primeiros sinais de
e os processos cognitivos por trás das decisões demência 24.
morais estão ativos quando o indivíduo pesa
suas ações num contexto moral. Existe com- A neuroética do CLE levanta questões empí-
plexa interação entre a cognição e a emoção ricas e conceituais. As questões empíricas se
durante a formulação de uma decisão moral, relacionam a processos psicológicos e neurais
pelo menos no homem moderno. envolvidos em tipos particulares de tomada de
decisão que caracterizam o CLE. A investiga-
Consentimento livre e esclarecido ção desse processo neurológico e psicológico
pode contribuir para estabelecer critérios
O aprendizado sobre a tomada de decisões empíricos para o CLE válido. Northoff 25 pro-
deve ser também aplicado no consentimento põe um CLE que envolve processos psicofisio-
livre e esclarecido (CLE), haja vista que o pro- lógicos complexos na tomada de decisões e
gresso na neurociência nos permitirá revelar valores normativos, refletindo o respectivo

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contexto sociocultural. Defende a ideia de que masculino), o que foi usado para justificar as
a neurociência da tomada de decisão pode iniquidades da época 26.
contribuir para o desenvolvimento de critérios
empíricos para o CLE e não acredita que a Detecção de mentira
neuroética da tomada de decisão possa ser
substituída pela neurociência da tomada de Duas companhias americanas estão prestes a
decisão. Para o autor, a neuroética seria como lançar detectores de mentira, por intermédio da
um amálgama da ética e neurociência, na qual fRMI, baseados no fato de que áreas particula-
os níveis descritivos e normativos são comple- res do córtex pré-frontal ficam mais ativas
mentares uns aos outros sem que nenhum quando a pessoa mente. Algumas dessas áreas
seja diminuído ou eliminado. estão envolvidas na detecção de erros e inibição
de respostas, sugerindo que mentir envolve um
Que funções neurofisiológicas são necessárias trabalho cerebral maior do que falar a verdade.
para a tomada de decisão envolvida no CLE?
Predominam as habilidades cognitivas como Os detectores de mentira são eticamente
entender, apreciar, expressão da escolha e ruins, não porque as tecnologias podem dar
defesa argumentada. As habilidades emocio- resultados errados ou duvidosos, mas porque
nais foram muito negligenciadas. Entretanto, são abusivos aos direitos humanos individuais,
considerando estudos empíricos recentes, a violando a privacidade, a propriedade do pró-
inclusão de habilidades emocionais é urgente. prio corpo e mente, bem como a garantia civil
Damásio 14 demonstrou que a tomada de deci- contra a autodiscriminação. A fRMI age sem
são é guiada e modulada emocionalmente. a participação voluntária do sujeito e o livre
Isto requer não só função cognitiva, mas tam- arbítrio desaparece. O indivíduo pode querer
bém função emocional. A tomada de decisão mentir, mas o fluxo cerebral o desmente. É
no CLE pode, subsequentemente, ser descrita então compelido, contra a sua vontade, a ates-
pela interface entre as funções cognitivas e tar contra si mesmo, seus amigos ou familia-
emocionais. res. Isto pode ser pior que a tortura, situação
na qual se pode ficar quieto ou inventar uma
Sexo história falsa ou até perder a consciência pela
intensidade da dor – e nunca se saberá exata-
Um tema especialmente desafiante diz respei- mente o que o indivíduo pensa 27.
to a como se preparar para estudar as diferen-
ças cerebrais entre sexos e gêneros, sem criar Justo e Erazun 28 argumentam que os detecto-
vieses para discriminações, como nos traba- res de mentira podem ter várias consequên-
lhos de Francis Galton e Paul Brocca. Esses cias, dentre as quais destacam duas: a primei-
autores, há 100 anos, usaram o tamanho do ra refere-se à possibilidade de que meras fan-
cérebro para medir a inteligência humana (em tasias, ilusões, falsas intenções ou memórias
média, o cérebro feminino é menor que o (não acompanhadas de atos) possam ser toma-

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das como evidências contra normas éticas e modelo moral. O reconhecimento de que o
teorias jurídicas secularizadas no Ocidente, uso de drogas não é apenas questão de escolha
baseadas em noções de ações associadas com individual permite uma mudança nas respos-
intencionalidade. Um palestino, por exemplo, tas ao vício, centrando mais atenção no trata-
pode ter o desejo de que Israel desapareça, mas mento e menos na punição, o que pode con-
isto não quer dizer que planeja uma ação para tribuir para a redução do estigma dos viciados
realizar seu desejo. A segunda diz respeito à como moralmente degradados. De fato, exis-
perda da autonomia individual, no sentido de tem evidências substanciais para o modelo de
ter a possibilidade de eleger as próprias nor- doença (inclusive catalogada na Classificação
mas, que tem como corolário a perda da dig- Internacional de Doenças – CID 10), embora
nidade humana e está diretamente vinculada este modelo não resolva a questão do controle
aos direitos humanos. voluntário.

Perda de autocontrole Recentes pesquisas na intersecção da neuro-


ciência com a psicologia sugerem que os indi-
Continua o debate sobre se a adicção pode ser víduos adictos têm significativos déficits no
mais bem entendida como doença ou condi- controle cognitivo do comportamento, mas
ção moral. Esse debate, que envolve o estigma que essa perda de controle não é completa e
associado à drogadição e o acesso ao tratamen- simples. Possíveis mecanismos e implicações
to, é, muitas vezes, motivado pelo seguinte ainda estão sendo estudados 28. Os avanços da
questionamento: em que extensão podemos neurociência e da genética prometem aumen-
responsabilizar os indivíduos pela manuten- tar a compreensão das razões da perda do
ção de sua drogadição? autocontrole e ajudar as pessoas com essas
dependências, desde bulêmicos até viciados
A visão moral mostra o uso de drogas como em drogas ilícitas. Essa perspectiva, no entan-
comportamento voluntário que as pessoas to, levanta questões éticas e sociais, relaciona-
decidem adotar e o vício como desculpa para das com a pesquisa em si e com o uso poten-
o mau comportamento, uma forma de os cial das descobertas, bem como em relação a
viciados não assumirem suas responsabilida- seu impacto na sociedade: serão os viciados
des. O modelo médico, ao contrário, reconhe- capazes de entender racionalmente todas as
ce que muitas pessoas consomem drogas sem questões envolvidas na pesquisa e, portanto,
se tornarem dependentes e com perda do estarão aptos a decidirem sobre sua participa-
autocontrole, enquanto pequena minoria per- ção no estudo?
derá o controle sobre o uso, necessitando de
tratamento para as crises de abstinência. Até recentemente considerava-se que, não
estando sob efeito da droga ou sofrendo sin-
O modelo médico, como perspectiva mais tomas de abstinência, os dependentes eram
atual, possui muitas vantagens em relação ao capazes de decidir por conta própria. Esta

408 Neuroética: uma disciplina em construção


visão, contudo, está sendo contestada por sem o controle do futuro comprador. Recentes
alguns pesquisadores, que alegam a impossi- estudos sobre a tomada de decisões podem
bilidade de um dependente não tratado se explicar como agem as propagandas e como
recusar a participar de um estudo no qual podem ser reguladas 1.
receberá a droga de graça, sugerindo que o
termo de consentimento livre e esclarecido Neurociência cosmética
deva ser dado apenas por parente ou respon-
sável legal 29. Os estudos em neuroética Os avanços na neurociência da cognição e
apontam uma alternativa para tal impasse ao neurofarmacologia estão fornecendo excitan-
considerar os dependentes químicos como tes tratamentos para as doenças neurológicas.
doentes cerebrais, portanto, sem autonomia e Muitos desses tratamentos também podem ser
com prejuízo na capacidade de consentir em usados em pessoas sem doenças, melhorando
seu próprio tratamento. Ante essa perspecti- suas funções do corpo e cérebro, modulando
va, surgiu a ideia de que fossem tratados obri- os sistemas motor, cognitivo e afetivo. Essas
gatoriamente, para o próprio bem. No caso intervenções podem aumentar a qualidade de
dos crimes, em parte motivados pelas drogas, vida e envolvem questionamentos éticos rela-
o tratamento seria uma alternativa mais bara- tivos aos indivíduos ou à sociedade. A despeito
ta do que a prisão e, talvez, mais eficaz. desses questionamentos, com certeza os médi-
Recente consenso da Organização Mundial cos facilmente encontrarão pacientes consu-
da Saúde (OMS) recomenda que o tratamen- midores procurando felicidade.
to obrigatório seja instituído somente se os
direitos do indivíduo forem preservados e se Sendo o propósito da medicina reconhecer os
for eficaz e humano 30. limites de índices clínicos e patológicos, a
avaliação da qualidade de vida tem sido um
Neuromarketing dos principais parâmetros para a avaliação
das terapêuticas instituídas. Essas avaliações
O neuromarketing pretende medir a resposta parecem razoáveis, pois o que se almeja ao
de determinada área do cérebro (sistema lím- tratar uma doença, especialmente se crônica,
bico) a um produto, demonstrando desejo do é melhorar a qualidade de vida dos pacientes,
consumidor em comprá-lo. Como a neuro- pois dada a característica da enfermidade não
imagem pode mensurar a motivação incons- se pode almejar a cura. Entretanto, se melho-
ciente para comprar, tal dado pode ser de rar a qualidade de vida é o objetivo dos médi-
grande valor para as indústrias da propaganda cos e a qualidade de vida nem sempre é dire-
e publicidade, bem como para as empresas tamente proporcional aos índices clínico-
produtoras que operam no mercado. Embora patológicos, então porque não considerar
as questões relativas ao neuromarketing ainda intervenções biológicas para a qualidade de
permaneçam controvertidas, especula-se que vida dos indivíduos, tendo eles uma doença
haverá uma invasão a dados inconscientes, ou não 31?

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A distinção entre tratar uma doença e aumen- situações não são novos e nossas respostas a
tar a qualidade de vida se repete na diferença essas outras situações podem prever como nos
entre terapia e realce. Terapia é tratar doenças, conduziremos com a neurologia cognitiva
enquanto realçar é melhorar as habilidades cosmética.
normais. Muitos certamente concordam que a
terapia é desejável. Em contraste, outros tan- O primeiro deles, relativo ao indivíduo, refe-
tos terão dúvidas sobre melhorar os normais. re-se à segurança: virtualmente todos os
Chattergie cita Fukuyama 32, que opina que o medicamentos têm potenciais efeitos adver-
propósito original da medicina é curar, não sos, variando de simples inconveniências a
transformar pessoas sadias em Deus, e sugere severas complicações e mesmo a morte. Nas
que a política pública deveria restringir as pes- doenças, sempre avaliamos os riscos contra
quisas para a melhoria da qualidade de vida potenciais benefícios. Nos estados de saúde,
em pessoas normais por intervenções no siste- os riscos são mais difíceis de aceitar porque a
ma nervoso central. Seja como for, constata- alternativa é a saúde normal. Em nossa cul-
se ser difícil separar as pesquisas para tratar ou tura, onde as informações sobre os riscos são
para realçar, até porque, muitas vezes, elas se amplamente conhecidas, as pessoas são livres
confundem, da mesma forma que também é para fazer as próprias opções (tabaco, p. ex.).
difícil definir claramente as fronteiras do que Para complicar, parecem não se preocupar
seja doença. muito com os riscos nas tomadas de decisão
e várias até aceitam correr riscos considerá-
As possibilidades para melhorar corpos e cére- veis, ao ponto de incorrer em uma exuberân-
bros caem em três categorias gerais: melhora cia irracional frente ao desejo de aumentar a
do sistema motor; da atenção, memória e qualidade de vida.
aprendizado; humor e emoções. Algumas
intervenções com algum desses objetivos estão O segundo questionamento reporta ao caráter
disponíveis há muito, como o álcool, o tabaco e à individualidade, referindo-se a duas possi-
e a cafeína, que acompanham a humanidade bilidades: a erosão do caráter e a alteração do
ao longo da história. Existem aquelas conhe- indivíduo. A erosão do caráter diz respeito ao
cidas há menos tempo, mesmo que extensa- fato de que a dor constrói o caráter e, portanto,
mente utilizadas no curto período posterior a aliviar a dor [pode] diminuir o caráter. Esse
sua descoberta, como o metilfenidato (ritali- processo opera do mesmo modo que aquele
na). Muitas outras estão no horizonte e pode- relacionado a ganhar algo sem trabalhar, que
rão ser relativamente eficazes e seguras. pode ser considerado como trapacear, a menos
que se trate de um presente. No caso em que
A neurologia cosmética levanta questões em o ganho estiver relacionado a qualquer forma
quatro campos, dois focados nos indivíduos e de apropriação indébita, pode ser considerado
dois na sociedade. Mesmo que neste contexto fraude, comportamento que diminui nosso
sejam novas, os questionamentos em outras caráter.

410 Neuroética: uma disciplina em construção


A questão da relação entre a dor e a formação da explícita da sociedade e suas instituições
do caráter nos marca profundamente. Entre- por performance superior. Pode o piloto ser
tanto, vivemos com ar condicionado, nos ali- obrigado a tomar medicamentos para ter
mentamos com comida preparada por outros, melhor desempenho em emergências? Pode o
andamos de avião, tomamos paracetamol para hospital sugerir que os residentes tomem
dor de cabeça e bloqueadores de acidez para a modafinil para melhorar seu desempenho em
azia. Embora essas conveniências possam ter situações de privação do sono? Parece inevi-
delido nosso caráter coletivo pela supressão da tável o uso extensivo dessas medicações.
dor ou aumento do conforto, poucos abrem Embora possam existir restrições à pesquisa
mão delas. Sob tal constatação, impõe-se a e à utilização dessas intervenções, pela regu-
questão: em que medida as alterações quími- lamentação governamental, consternação
cas em nosso cérebro modificam nossa perso- jornalística ou admoestação religiosa, é pro-
nalidade e de que forma tais alterações trans- vável que as restrições não funcionem por
formam as características essenciais do que causa do marketing.
consideramos ser humano. Por exemplo, o fato
de não sentirmos dor e não termos memória A felicidade é um direito inalienável 31. Suge-
dela muda o que somos? Se somos, de certo re-se que as discussões sobre o tema devem se
modo, a soma de nossas experiências seremos concentrar em duas questões, uma vez que a
outros por deixarmos de sentir dor? neurologia cosmética é inevitável: 1) precisa-
mos uma noção explícita do que significa ser
O terceiro aspecto que se precisa questionar, humano. E em que podemos motivar nossas
de cunho coletivo, diz respeito à justiça distri- escolhas para melhorar nossos movimentos,
butiva: se pudermos fazer melhores corpos e aumentar nosso raciocínio e humor? 2) temos
melhores cérebros, quem a eles terá acesso? O que ter clara noção do envolvimento dos médi-
processo é caro e as seguradoras certamente cos. Este senso será particularmente impor-
não pagarão por isso. Haverá iniquidade, tante se abandonarmos nossa origem (de
como ocorre em relação à comida, escola e médicos) de tratar ou prevenir doenças. Chat-
moradia. terjee 31 coloca algumas perguntas para mos-
trar que não é fácil evitar a neurocosmética,
A quarta e última questão refere-se à coerção, desafiando o leitor:
que pode ser exercida de duas maneiras: uma,
relaciona-se à busca individual por ser 1. Tomaria uma medicação, com mínimos
“melhor”, respondendo ao que a sociedade efeitos colaterais, se ela apressasse seu
exige. Como exemplos, os estudantes que aprendizado de chinês, urgentemente
tomam metilfenidato de forma epidêmica necessário para você?
para produzir mais e muitos profissionais, 2. Daria uma medicação para seu filho, meia
que trabalham mais de 100 horas por sema- hora antes de sua aula de piano, se isto o
na para serem mais ricos. Outra, é a deman- fizesse um expertise?

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3. Pagaria mais para viajar com um piloto em segurança nacional, com as consequências
que tomasse medicação para ser mais hábil éticas, legais e sociais envolvidas. Segundo os
em emergências? autores, dentre as tecnologias disponíveis para
4. Gostaria que os residentes tomassem a segurança nacional estão a obtenção de ima-
medicações após uma noite de plantão gens e métodos de estimulação cerebral para
para não cometerem erros com os pacien- detectar mentiras e enganar pessoas. Poten-
tes por privação de sono? ciais sujeitos seriam pessoas de confiança no
5. Tomaria uma medicação que seletivamen- governo, soldados inimigos e suspeitos de ter-
te apagasse memórias ruins que o pertur- rorismo. Serviria também para o aumento da
bassem? capacidade de raciocínio em pessoas-chave ou
para alterar o comportamento social (de ami-
Além desses questionamentos relacionados ao gos ou inimigos).
uso farmacológico da neurocosmética, deve-se
considerar que os métodos não farmacológi- Mas, segundo os autores, ainda existem desa-
cos para alterar as funções cerebrais também fios científicos, pela relevância de seu uso e
evoluíram rapidamente na década passada e, aplicabilidade, ambos ainda inexistentes ou
em futuro próximo, poderão complementar as difíceis. Desafios éticos, relacionados à priva-
técnicas de aumento das funções cerebrais. A cidade, à autenticidade, ao livre arbítrio e ao
estimulação magnética transcraniana, recém- autocontrole. Desafios legais, porque as leis e
saída dos laboratórios para as clínicas com o mesmo as questões morais relacionadas à
objetivo de tratar a depressão, também está guerra teriam que ser modificadas. Fazem
sendo explorada em pacientes sadios para alte- também referência a desafios públicos, uma
rar o humor e o estilo cognitivo. Métodos vez que após os ataques de 11 de Setembro os
mais invasivos como neurocirurgia, estimula- americanos aceitam inconveniências e o
ção vagal e cerebral, bem como as interfaces aumento da intromissão do governo, embora
entre o cérebro e as máquinas, eventualmente já se observe reação às iniciativas governa-
poderão ser utilizados para expandir nosso mentais de intromissão na privacidade e nas
conceito de melhora do cérebro humano e escolhas individuais.
possivelmente nossa concepção da natureza
humana 2. Recomendam, finalmente, no estudo, que
haja uma parceria urgente entre os cientistas
Segurança nacional e os mentores da segurança nacional, para a
aplicação apropriada ou a apropriada resistên-
Conhecimento é poder – Ipsa scientia potestas cia à sua aplicação, que requer o engajamento
est. Baseado nisso, Canli, Brandon, Casebeer, de uma expertise que unicamente existe na
Crowley, DuRousseau, Greely e colaborado- comunidade científica, sendo muito impor-
res 33 se ocupam em analisar os potenciais tante que essas questões sejam discutidas com
usos das pesquisas e métodos da neurociência a sociedade 34.

412 Neuroética: uma disciplina em construção


Comunicação possam expor suas angústias, desejos, valores
– o que não atrasará a ciência, ao contrário,
David Friedman 35 conclama os cientistas a poderá legitimá-la como instrumento a servi-
serem cientistas cívicos, que devem deixar algu- ço dos seres humanos. Ao não fazê-lo, poderá
mas vezes seus laboratórios e manter um diá- ser posta sob suspeita.
logo com os cidadãos. Conclui que o engaja-
mento com o público é responsabilidade que Fins também fez observações sobre os jorna-
todos devem aceitar. Argumenta que se trata listas, referindo-se ao artigo do The Economist
de imperativo moral. Os cientistas precisam ir divulgado em maio de 2002, no qual se lê que
à rua, mostrar quem são e o que fazem. Tal as novas neurotecnologias agridem mais a dig-
invectiva leva a considerar que à medida que o nidade humana e sua autonomia do que a clo-
campo da neuroética emerge faz-se funda- nagem 36. O autor diz que a resposta da socie-
mental envolver a sociedade nas discussões, dade ao desenvolvimento da neurociência tem
tão logo quanto possível, para que as futuras sido de fascinação acoplada à repugnância.
pesquisas sejam sensíveis aos desejos e coloca- Segundo ele, em 1939, ao amanhecer das
ções do público. terapias somáticas na psiquiatria, o psiquiatra
Oskar Diethem preveniu sobre a crendice
Agora que o cérebro está sendo aceito como o popular e sobre a vulnerabilidade dos pacien-
reservatório da mente, adquire qualidade adi- tes a terapias novas: é importante em medicina
cional como o lugar do self, onde a personali- reconhecer em relação a terapias novas a respon-
dade individual reside. Examinar e monitorar sabilidade daqueles que as seguem voluntaria-
o cérebro em ação equivale, para muitos, a mente, isto é, os médicos; daqueles que as
abrir uma janela para dentro da mente, reve- seguem cegamente, isto é, o público leigo, e
lando os pensamentos privados. Modificar o daqueles que são obrigados a segui-las, isto é, os
cérebro em qualquer aspecto tem o potencial pacientes 36.
de modificar a essência do ser. Não é de se
admirar o interesse nas pesquisas nessa área. Os editores do The Economist, que estimulam
Mas o público nem sempre fica confortável o debate sobre os limites éticos da neurociên-
com o que os estudos estão mostrando. Alguns cia, devem avaliar o poder do seu meio de
não gostariam de saber as respostas. Outros comunicação. Com a autoridade vem também
pensam que o conhecimento é poder. Este a responsabilidade dos jornalistas. A opinião
desconforto é mais uma razão para incluir a pública sobre a ciência, para melhor ou para
sociedade na discussão: preparar o mundo pior, pode ser informada por reportagens da
para o que poderemos aprender e para tornar mídia. No citado artigo, o autor lembra ainda
as pessoas comuns capazes de ajudar a discer- que as publicações na imprensa leiga, sugerin-
nir como esse conhecimento poderá ser utili- do bases empíricas favoráveis para as primei-
zado. Não basta informar o público, faz-se ras intervenções com lobotomia, entre 1935
necessário um diálogo genuíno em que todos e 1960, tiveram importante papel na lamen-

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tável disseminação desse procedimento. Con- tendência da academia em transferi-las; esta-
clui afirmando que a hiperbólica visão dos rem sensibilizados e sugerirem diretrizes para
jornalistas pode ser positiva ou negativa, com manejar as anormalidades, acidentalmente
consequências calamitosas, e que o The Eco- identificadas e não objetos das pesquisas, mas
nomist dá a falsa impressão de que os neuro- que têm significado clínico; fazerem uma ava-
cientistas e eticistas têm sido cegos à signifi- liação crítica das promessas, riscos e implica-
cância moral de seu trabalho. ções da medicina molecular e das imagens
funcionais para a medicina regenerativa; se
Recomendações e síntese conscientizarem de que cuidados apropriados
devem ser tomados quando das predições.
Os pesquisadores, ao proporem pesquisas
envolvendo seres humanos, devem ter as São necessários mais estudos de casos para
seguintes preocupações em relação a seus tra- comparação e os pesquisadores precisam trocar
balhos: informações, especialmente sobre casos excep-
cionais. É absolutamente necessário acompa-
UÊ Que tenham valor, isto é, que a pesquisa nhar longitudinalmente os pacientes, bem
possa levar à melhoria da saúde e do bem- como observar mais pacientes para apreciar a
estar ou ao aumento do conhecimento; história natural dos estados cerebrais e propi-
UÊ Que tenham validade científica, isto é, que ciar avaliações prognósticas. Os investigadores
sejam conduzidas de maneira metodologi- precisam estabelecer padrões de interpretação e
camente rigorosa, para serem confiáveis ou trabalhar em pesquisas que possam fazer parte
válidas; de metanálises. Deve haver investigadores edu-
UÊ Que haja justa seleção dos participantes; cadores para estabelecer diretrizes de investiga-
UÊ Que haja rigorosa análise dos riscos/bene- ção, educação e avaliação dos profissionais.
fícios; Estudantes de neurociências precisam receber
UÊ Que seja obtido um consentimento livre e educação formal em neuroética aplicada.
esclarecido;
UÊ Que sejam submetidas à aprovação de Os neurocientistas precisam também se preo-
comitê de ética em pesquisa independente; cupar com as novas tecnologias cuja efetivida-
UÊ Que haja respeito à dignidade dos partici- de ainda não foi provada e explorar as conse-
pantes. quências sociais das novas tecnologias efetivas.
Muitos investigadores estão intoxicados pelo
Dado o rápido desenvolvimento, os pesquisa- progresso, mas devem se lembrar de quão pri-
dores precisam estar em contato estreito com mitivo realmente é nosso conhecimento e
outros investigadores em muitas instâncias de entendimento.
importância imediata para manterem a trans-
parência da tecnologia, preocupando-se com a Como a neurociência está numa fase de pré-
ansiedade do público por novas tecnologias e a descoberta dos agentes infecciosos – haja vista

414 Neuroética: uma disciplina em construção


que apenas sabemos que o paciente está com estar absolutamente seguros quanto à validade
febre – devem também lembrar de que a con- e confiabilidade das tecnologias de avaliação
fusão é o preço do progresso e que cada enig- cerebral, quer seja para acessar atividade/fun-
ma resolvido é o prelúdio de novo mistério. ção ou intervenção cerebral, antes de permitir
Por isso, nunca devem trazer mais confusão que sejam livremente utilizadas em questões
na mídia e muito menos se autopromoverem legais ou judiciárias. As avaliações do estado
com notícias fantasiosas, mas sim adotar uma de consciência pelas imagens ainda estão no
conduta ética prudente e não utilizar tecnolo- estágio descritivo e não no de diagnóstico.
gias novas na prática clínica antes de conhecer
bem as características operacionais, isto é, sua Deve haver uma abordagem multidisciplinar
sensibilidade e especificidade na pesquisa e sua para avaliar o uso exagerado de psicotrópicos,
efetividade na prática clínica. ansiolíticos e da farmacoterapia cosmética. A
frequente solicitação dessas medicações causa
Adicionalmente, é imprescindível não con- desconforto para os médicos. O uso de medi-
fundir indicadores comportamentais usuais camentos e outras técnicas para aumentar a
com aqueles derivados de imagens até que sai- performance são ainda de alto risco clínico,
bamos mais sobre como podem ser utilizados entre outras considerações.
juntos e resistir aos tremendos estímulos para
seu uso clínico enquanto ainda forem ferra- A mídia deve avaliar seu poder. Com a autori-
mentas investigativas. Devem reconhecer, em dade vem também a responsabilidade. As
relação a terapias novas, a responsabilidade notícias baseadas apenas em abstracts não
daqueles que as indicam voluntariamente, isto refletem toda a verdade e não permitem uma
é, os médicos, daqueles que as seguem cega- análise crítica.
mente, isto é, o público leigo e aqueles obriga-
dos a segui-las: os pacientes. Os médicos, Devemos usar sempre o princípio da dúvida:
quando pragmáticos, devem evitar ideias ao receber uma proposta de exame, de medi-
monolíticas, reconhecer o pluralismo e valori- cação, de participação na pesquisa, refletir
zar as outras áreas da saúde, bem como a muito, valorizando as opções, decidir pela
abordagem multidisciplinar. escolha de maior valor. Aprender com o resul-
tado da escolha e usá-lo numa próxima deci-
A neurociência pode oferecer apenas modelos são. Não esquecer as emoções e circunstân-
descritivos da organização e função cerebral. cias, que sempre participam na tomada de
A atribuição de responsabilidade, em paralelo, decisão.
é inequivocamente prescritiva. Por enquanto,
a neurociência é mais limitada nas conclusões Cuidados
que pode sustentar do que os sistemas públi-
cos e legais, e como qualquer ciência nova é Faz-se necessário ter cuidado com o risco de
vulnerável ao abuso. Os tribunais precisam exagero que os cientistas podem nos sugerir

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sobre o que procuram, acham e fazem. Um usuários, analisem a credibilidade das fontes
exemplo disso foi o que aconteceu com a de informação.
genética, o que pode afetar os cientistas, a
mídia, os bioeticistas e a sociedade. Como as Desafios éticos
estruturas cerebrais se interconectam e são
capazes de exercer várias tarefas ao mesmo A seguir, é listada uma série de desafios éticos
tempo, nenhuma intervenção terá uma única que decorrem da aplicação das descobertas das
consequência. Qualquer intervenção terá neurociências e constituem o cerne das novas
grandes interrogações riscos/benefícios. discussões em neuroética. Tais desafios, sinte-
tizados em formulações diretas, remetem a
Cuidado com as propagandas. Elas podem ter questões da ética clássica, consideradas agora
sido preparadas para você não resistir a fazer sob essa nova roupagem, que decorre da pers-
compras. Use o princípio da dúvida. No que pectiva biotecnocientífica, mesclando-se, con-
tange à comunicação, os cientistas e todos os tudo, a considerações inéditas, oriundas dos
formadores de opinião precisam ter claro a aperfeiçoamentos obtidos na área:
importância do diálogo genuíno com a socie-
dade sobre o que fazem e pensam, sabedores UÊ Qual o limite da invasão de nossa privaci-
que tal atitude é determinantemente crítica dade?
para a promoção de uma sociedade justa e par- UÊ O que poderá justificar a detecção de men-
ticipativa, na qual não se repitam tragédias tira?
históricas. Cuidado com o impacto das ima- UÊ Como obter o consentimento livre e escla-
gens coloridas da ressonância magnética nas recido de pessoas com déficits neurológicos
emoções e julgamentos nos tribunais. As pro- (recém-descobertos)?
messas das neurociências para informar a psi- UÊ Como evitar a obtenção de informações
cologia e a lei são promissoras, mas ainda não sub-reptícias?
estão prontas. UÊ Podem as pessoas com pródromos de
demência fazer um consentimento anteci-
Acerca da transparência da tecnologia deve pado?
haver um balanço entre riscos/benefícios, UÊ Como respeitar a autonomia de sujeitos de
preocupando-se com a ânsia do público por pesquisa quando precisam ser enganados?
novas tecnologias e a tendência da academia UÊ Como manejar o achado de anormalidades
em transferir tecnologia. E, por fim, cuidado com significado clínico que são detectados
com os modismos. A saúde também é susce- e não objeto das pesquisas?
tível a modismos. Quantas vezes a dieta ideal UÊ Será aceitável sermos induzidos a comprar
já mudou? Quantas pessoas são bipolares hoje contra a nossa vontade pelo marketing?
em dia? Quantas crianças têm transtorno de UÊ Será necessária uma mente criminosa além
déficit de atenção e hiperatividade? Recomen- de um ato criminoso (crianças, doentes
da-se que todos os envolvidos, profissionais e mentais, drogaditos)?

416 Neuroética: uma disciplina em construção


UÊ Será melhor corrigir o cérebro em vez de moral, emoções na tomada de decisões, refe-
prender (ou matar)? rência a mentes imateriais.
UÊ Como neutralizar o impacto das imagens
coloridas da fRMI nos jurados e juízes Considerações finais
durante julgamentos?
UÊ Como resolver a difícil questão de con- Obviamente, a sociedade está ansiosa por pes-
ceitualizar e identificar o que é normal quisas que possam ajudar a atenuar padeci-
ou patológico? E as variantes da nor- mentos provenientes de doenças degenerati-
malidade? vas, alterações do humor, esquizofrenia e
UÊ Com que diretrizes poderemos aceitar as melhores soluções para drogadição e violência,
pesquisas de funções cerebrais superiores entre outros problemas sociais largamente dis-
que só podem ser realizadas em seres seminados, relacionados com a melhora da
humanos? qualidade de vida e segurança. Por isso, é
UÊ Devem ser procuradas doenças sem trata- dever cívico dos pesquisadores nas áreas da
mento disponível? saúde e afins desenvolverem conhecimento
UÊ Como manejar as consequências sociais e generalizável que leve a uma melhora da saúde
culturais advindas do progresso? ou que aumente o entendimento da biologia
UÊ Quem terá acesso aos benefícios dos humana, tendo como propósito o entendi-
avanços tecnológicos (pelo custo e dispo- mento da etiologia e patogênese das doenças e
nibilidade)? o aperfeiçoamento de procedimentos profiláti-
UÊ Como normatizar a neurociência cos- cos, diagnósticos e terapêuticos.
mética?
UÊ Podem-se esconder descobertas de pesqui- Não podemos olvidar que quando os cientistas
sas feitas em seres humanos por questões pensam sobre valores éticos, normalmente
de segurança nacional? assumem que são óbvios, implícitos no que
UÊ Qual será o status do ser humano atual no fazem, mas nem sempre foi assim e provavel-
mundo pós-humano? mente nem sempre o é ou será. Existe a neces-
sidade de um diálogo aberto com a sociedade,
Desafios filosóficos: mente/cérebro, conceito no qual possam dizer quem são, o que pensam,
de consciência, controle da tomada de decisão fazem e como fazem. Não basta aos cientistas
e livre arbítrio, entendimento do raciocínio serem éticos. É preciso que pareçam ser.

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Resumen

Neuroética: una disciplina en construcción

Estamos viviendo un momento de grandes esperanzas derivadas de las innovaciones tecnológicas


en neurociencia. Estos avances han conducido a una explosión de estudios en neurociencia
cognitiva, afectiva y social. El objetivo de diagnosticar, tratar y prevenir enfermedades que se
originan en el cerebro es loable y está relativamente protegido por las normas éticas establecidas
a lo largo del tiempo. Pero este notable progreso ha traído consigo enormes desafíos éticos,
legales y sociales, principalmente por las posibilidades, no deseadas, de la aplicación de estas
tecnologías. Algunas de naturaleza práctica, en relación con las aplicaciones de la neurociencia y
sus implicaciones para los individuos y para la sociedad. Otras más filosóficas, sobre la manera
en que pensamos de nosotros mismos como personas, como agentes morales y seres espirituales.
Es de algunos de estos desafíos de los cuales nos ocuparemos en este artículo, trayendo algunas
recomendaciones, cuidados y cuestionamientos éticos relacionados con la neurociencia, a
continuación de trabajo publicado.

Palabras-clave: Neurociências. Neuroetica. Desafios. Recomendaciones.

Abstract

Neuroethics: a discipline in construction

We are living a moment of great hope stemming from technological (technological) innovations
in neuroscience. These advances have led to an explosion of studies in cognitive, affective and
social neuroscience. The goal of diagnosing, treating and preventing diseases that originate in
the brain is laudable and relatively protected by the ethical guidelines established over time. But
this remarkable progress has brought with it enormous ethical, legal and social challenges,
especially because of the possibilities, not desired, of the application of these Technologies. Some
are of practical nature, related to neuroscience applications and their implications for individuals
and the society. Others more philosophical, concerning the way we think of ourselves as persons,
moral agents and spiritual beings. It is some of this challenges that will occupy us in this article,
bringing a number of recommendations, care and ethical questions unique to neuroscience
continuing work published.

Key words: Neuroscience. Neuroethics. Challenges. Recommendations.

418 Neuroética: uma disciplina em construção


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Recebido 21.4.10 Aprovado 10.3.11 Aprovação final 18.3.11

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