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Sobre o estudo da maritimidade: uma nova experiência académica

Pedro Velez, Professor Universitário

Escritas em homenagem e reconhecimento ao Jornal da Economia do Mar e ao seu


Director, pelo pioneirismo vanguardista na identificação de uma dimensão de economia
– política – do mar em Portugal, e de um ethos marítimo português, as linhas que se
seguem procuram surpreender os contornos gerais de uma nova experiência académica
no âmbito dos “estudos da maritimidade”.
O que é a uma identidade marítima? Ou que se entende por maritimidade? Será que
Portugal tem ou mantem uma identidade marítima? Eis questões correntes no espaço
público. Os conceitos identidade marítima ou maritimidade não se afiguram de fácil
circunscrição. Numa primeira aproximação, talvez possamos assinalar que eles são
susceptíveis de nos remeter para distintas “regiões” da existência humana. Para uma
dimensão geo-espacial de uma certa comunidade humana, designadamente para uma
certa determinação de um dos três elementos do Estado – o território. Para um plano de
forma de vida ou de modo de vida, de “espírito objectivo”, de cultura ou de configuração
cultural (ou de culturas ou configurações culturais), em termos de manifestações materiais
ou imateriais. Para um plano de autorepresentação comunitária (eminentemente ou
superlativamente) consciente-reflexiva.
Foi precisamente tendo em vista o estudo destas temáticas que em 2015 foi “desenhada”,
pelo Professor Armando Marques Guedes, com a colaboração do autor destas linhas, a
disciplina o Mar e a Identidade Marítima, do novo Mestrado em Direito e Economia do
Mar: A governação do Mar, ministrado na e pela Faculdade de Direito da Universidade
Nova de Lisboa, desde há três anos. [Trata-se de uma cadeira semestral, ocupando duas
horas semanais, e valendo, na “moeda académica”, 4 ects. No seu primeiro ano de
existência, a disciplina foi regida pelo Professor Armando Marques Guedes; nos dois anos
seguintes pelo autor destas linhas]. Como referido na sua oficial definição programática,
tal disciplina pretende encaminhar os estudantes na direcção de reflexões críticas e
teóricas sólidas e bem fundamentadas sobre o mar enquanto ingrediente de
construção/cristalização das comunidades humanas e da sua identidade. Quere-se que os
mestrandos aprendam a problematizar o papel da maritimidade enquanto dimensão
constitutiva das – e construída pelas – comunidades políticas. Daí que a economia da
disciplina tivesse sido pensada como desdobrável nas seguintes grandes partes: uma parte
introdutória destinada a um esboço de uma “teoria geral” da identidade marítima e da
maritimidade; devendo fornecer aos estudantes um quadro conceptual abrangente que
lhes possibilite um começo de reflexão informada sobre o lugar do mar na construção das
comunidades humanas – na definição de comunidades políticas, sobretudo. Depois
prevêem-se partes mais aplicadas e ilustrativas. Tendo em conta o contexto social-político
concreto em que a maioria dos estudantes se inscreve, uma parte da leccionação –
centralíssima no curso – toma o caso português e o “super-caso” lusófono como núcleos
centrais, aí se tematizando a maritimidade como dimensão constitutiva da (e constituída
pela…) identidade comunitária portuguesa e da “super-identidade” lusófona. Mas uma
parte do curso será sempre reservada a um estudo de outros relacionamentos com o mar,
e da identidade marítima que daí pode decorrer; a grande Bacia do Atlântico tem aqui
sido “cartografada” como “espaço-exemplar” (mas sendo outros casos – do Mediterrâneo,
do Mar das Caraíbas; no quadro do Oceano Índico e da orla da bacia do Pacífico –
passíveis de ser chamados à colação). Tudo visando levar os estudantes a percorrer
autonoma e “experimentalmente” – em apresentações e discussões orais e apresentações
escritas de trabalhos individuais – “casos de maritimidade” por si selecionados em
qualquer espaço marítimo e em qualquer processo histórico-cultural de construção
comunitária/identitária.
Esta nova experiência académica foi pensada e tem sido actuada como lugar de unidade
e horizontalidade epistemológicas – desde logo, ao nível do “objecto formal” da disciplina
O Mar e a Identidade Marítima, o qual convoca contributos da antropologia filosófica,
da antropologia cultural, da filosofia política e da teoria geral do Estado. A ela presidiu e
preside outrossim uma ideia de cruzamento dialógico com distintos saberes de
reconhecidas autoridades académicas que se têm podido debruçar sobre realidades
relacionadas com o “objecto material” da disciplina. Daí uma opção por uma política de
aulas abertas, como as seguintes, que já tiverem lugar: de Armando Marques Guedes,
sobre dinâmicas políticas do/no Atlântico; de Annabela Rita (Doutora em Literatura
Portuguesa Moderna e Contemporânea, Professora na FLUL) sobre a dimensão marítima
do/no imaginário português; de Renato Epifânio (Doutorado em Filosofia e Presidente
do MIL- Movimento Internacional Lusófono) sobre lusofonia e maritimidade; de Miguel
Mattos Chaves (Doutor em Estudos Europeus) sobre Portugal enquanto nação-marítima;
de Madalena Larcher (Historiadora do Direito Canónico e das Instituições Eclesiásticas)
sobre o Padroado e o Império no domínio dos mares; de Ana Cristina Nogueira da Silva
(Historiadora do Direito) sobre cidadania num império transoceânico; de Sofia Antunes
(Mestre em Museologia) sobre Museologia e identidade marítima.
O Jornal da Economia do Mar e o seu Director não têm sido estranhos à maturação e
consolidação da experiência académica O Mar e a Identidade Marítima, nestes três anos
lectivos de existência. Em todos estes anos, foram sempre tidas como essenciais e
indispensáveis a presença e a palavra do director do Jornal da Economia do Mar, que
felizmente nunca se não negou a partilhar a sua hermenêutica da identidade marítima de
Portugal, mas também o sentido do próprio projecto Jornal da Economia do Mar. Dir-se-
ia mesmo que talvez possa estar in fieri um feliz processo de “fertilização cruzada”: na
sequência da vinda de Gonçalo Magalhães Collaço à FDUNL, por exemplo, uma antiga
estudante de o Mar e a Identidade Marítima tornou-se parte integrante do pioneiro
projecto que o Jornal da Economia do Mar tem sido…e se espera continue a ser!