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História da Língua Portuguesa

Índice
Semana 1 Introdução Geral. Geografia da língua; línguas românicas. Linguística: conceitos. * 2
Semana 2 Conceitos gerais: fonética. Dialectos do PE e dialectos insulares. 6
Semana 3 Línguas românicas: do latim clássico ao século VII * 15
Semana 4 Formação do galego-português: português antigo 23
Semana 5 Exercícios de transcrição fonética e estudo de texto medieval 1 32
Semana 6 Estudo de texto medieval 2 e Português médio 43
Semana 7 Estudo de texto de português médio 56
Semana 8 Exame parcial 1 64
Semana 9 Português clássico e moderno 65
Semana 10 Primeiras gramáticas portuguesas. Fenómenos mais recentes 71
Semana 11 Variação dialectal do português europeu. Fonologia, morfologia e sintaxe 81
Semana 12 Variação dialectal do português no Brasil 86
Semana 13 Expansão do português em África e crioulos de base portuguesa 97
Semana 14 Exame parcial 2 104
Semana 15 Exame final 104

* Apresentações.
As páginas deste documento são uma adaptação (apenas com finalidade pedagógica) das
seguintes obras:

ANDRÉS DÍAZ, Ramón. 2013. Gramática Comparada de las Lenguas Ibéricas. Gijón: Ediciones
Trea.
BADIA MARGARIT. 1962. Gramática Catalana. Madrid: Editorial Gredos.
CASTRO, Ivo. 1991. Curso de História da Língua Portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta.
CASTRO, Ivo. 2005. Introdução à História do Português. Lisboa: Colibri.
FARIA, Isabel Hub et al. (Orgs.). 1996. Introdução à Linguística Geral e Portuguesa. Lisboa:
Caminho.
ILARI, RODOLFO. 1999. Linguística Românica. 3ª edição. São Paulo: Editora Ática.
LÔPEZ, MAURÍCIO CASTRO. 2006. Manual de Iniciaçom à Língua Galega. 1ª ediçom digital.
Ferrol (Galiza): AGAL / Artábria Fundaçom. Este livro encontra-se disponível online na seguinte
página da Asociaçom Galega da Língua: (http://www.agal-gz.org/corporativo/):
http://agal-gz.org/faq/lib/exe/fetch.php?media=contributos-pgl:manual-iniciacom-lingua.pdf
MATEUS, M. H. M. et al. 2003. Gramática da Língua Portuguesa. 5ª ed. Lisboa: Caminho.
MAURO, Tullio De. 2000. Linguística Elementar. Lisboa: Editorial Estampa.
NUNES, José J. 1918. Textos Antigos Portugueses in Revista Lusitana. nº 21. dirigida por J. Leite de
Vasconcelos. Lisboa: Livraria Clássica Editora
RIBEIRO, Gulherme. Apontamentos sobre a História da Evolução da Língua.
SPINA, Segismundo. 2008. História da Língua Portuguesa. Atelie Editorial.
TEYSSIER, Paul. 1993. História da Língua Portuguesa. [tradução de Celso Cunha]. 5ª edição
portuguesa. Lisboa: Livraria Sá da Costa.
http://esjmlima.prof2000.pt/hist_evol_lingua/R_GRU-N.HTML

Outro manual de galego onde se pode aprender a ortografia oficial está disponível em:
http://www.edu.xunta.es/ftpserver/portal/DXPL/herdada/herdada/lingua.pdf

1
Semana 1: Presentación general del curso y de sus criterios de
evaluación; introducción general; nociones generales de geografía:
familias linguísticas; geografía lingüística: lenguas románicas. (4
págs.)
1. Introdução Geral

O estudo da história da língua portuguesa reflecte a evolução dos estudos linguísticos desde o século
dezoito até ao século XX e XXI, combinando diversas das áreas de estudo da linguística (a fonologia –
que estuda os sons como abstracções pertencentes ao sistema de uma dada língua humana; a fonética –
que estuda os sons concretos, na sua componente articulatória, acústica e perceptiva – a morfologia –
que tem como objecto a palavra e os seus constituintes – a sintaxe – que estuda a combinação de
palavras em em frases e os sintagmas que as constituem).
A forma particular, contextual, em que os sons são produzidos, articulados e recebidos, é o que um
dos mais importantes linguistas, Ferdinand de Saussure, designou por fala (em francês, parole). A
forma abstracta, que reconhecemos por trás de cada uma das diferentes formas de dizer uma palavra,
é estudada pela fonologia. A essa forma abstracta de cada som chamamos um fonema. As línguas
orais como o português, espanhol, francês, são compostas por um conjunto finito de fonemas (aos
quais alguns chamaremos vocálicos, outros consonânticos, e outros semi-vocálicos). Este conjunto
finito de fonemas compõe um sistema abstracto que Saussure designou como língua.
É no contexto da combinação de fonemas (sons abstractos) em palavras que percebemos que a a
diferença entre o fonema A e o fonema O permitem diferenciar as palavras FACA e FOCA. O
mesmo se pode dizer quanto às palavras PATO e RATO. A única diferença, nas duas palavras, ao
nível do seu aspecto sonoro (fonológico) está nos fonemas P / R. Observe-se como a substituição de
um fonema por um outro (P por R) permite, nestes dois casos, mudar simultaneamente o significado.
Assim, no contexto de uma língua, os sons que permitem combinar-se em palavras, são entidades
abstractas, que permitem distinguir significados, designadas por fonemas.
Para além deste estudo da língua em que se estudam fonemas em relação e diferenciação uns com os
outros, num sistema de relações num momento histórico e estado específico da língua – a esta
perspectiva se designa como perspectiva sincrónica – também se estuda a língua do ponto de vista da
sua transformação através de diferentes estados da língua, através da sua história – esta é a
perspectiva diacrónica.
Para além do estudo da língua portuguesa através da sua história (na sua diacronia), e do estudo de
cada um dos estados históricos da língua enquanto sistema (na sua sincronia), também se pode estar a
variação e mudança da língua do ponto de vista geográfico (a que se dedica a dialectologia).

1.1. História da Língua e Mudança Linguística

Os fenómenos de mudança e variação numa língua manifestam-se em quatro dimensões:


a) variação social (ou diastrática);
b) variação geográfica (ou diatópica);
c) variação cronológica (ou diacrónica);
d) variação de contexto comunicativo (ou diafásica).

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A variação social do uso da língua que desencadeia o surgimento de sociolectos e de gírias
profissionais é estudada pela sociolinguística, à variação geográfica dedica-se a dialectologia, e a
variação cronológica é o campo de estudo da linguística histórica.

1.2. Unidade da Língua Portuguesa

A língua portuguesa nasceu num pequeno território do canto noroeste da Península Ibérica, a Galécia
Magna – que inclui a Galiza actual, parte do norte de Portugal e o ocidente das Astúrias, num
território que vai continuamente desde a Corunha, no extremo setentrional da Galiza, até à ria de
Aveiro e ao vale do rio Vouga.

Monolinguismo quase absoluto em território português com a excepção do mirandês que é uma
língua oficial regional.

Recorrendo aos conceitos coserianos de sistema e de norma podemos dizer que todas as normas
(sociais, regionais e individuais) do português partilham as seguintes características:

a) a síncope das consoantes N e L quando estão em posição intervocálica;


b) a não transformação em ditongo crescente das vogais tónicas E e A em terra e cova ao
contrário do que acontece em castelhano;
c) a manutenção do F inicial latino ao contrário do que sucede em castelhano.

1.3. Diversidade da Língua Portuguesa

Em 1983, Lindley Cintra identificava a existência de três normas nacionais dentro do sistema
linguístico unitário do português:
1) a norma do português europeu, igualmente adoptada pelos cinco países africanos;
2) a norma do português brasileiro;
3) a norma galega.

Ivo Castro propõe uma revisão desta proposta, considerando a existência de:
1) duas variantes nacionais plenamente desenvolvidas: variante portuguesa e brasileira;
2) duas variantes em formação: variante moçambicana e angolana.

O galego, não tendo vingado a proposta reintegracionista, é considerado como uma língua românica
autónoma.

Para além das variantes desenvolvidas em Portugal e Brasil e das variantes em formação em
Moçambique e Angola, há no espaço dos países que têm o português como língua oficial, outros
aspectos a considerar:
1) a existência do mirandês, como língua oficial regional de Miranda do Douro, em Portugal;
2) a existência de línguas das nações índias no Brasil;
3) a existência de línguas indígenas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau;
4) a existência do crioulo em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

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1.4. Famílias linguísticas: Indo-Europeu, Latim, Línguas Românicas, Línguas Ibéricas e Português

Desde o século XVI que se observavam as semelhanças entre traços das línguas europeias, antigas e
modernas, e o Sânscrito, língua da Antiguidade indiana. A partir dessa época foram sendo reunidos
dados sobre o que de comum havia entre tais línguas, ao mesmo temo que se ia compreendendo que
a única resposta possível para o enigma das suas parecenças era a de ter havido um antepassado
comum a todas elas. Com a percepção de uma família de línguas que se convencionou chamar de
indo-europeia, foi-se desenvolvendo um método de selecção de traços baseado na comparação das
respectivas gramáticas e léxicos na reconstrução da língua antepassada, o Proto-Indo-Europeu.
Pelas continuação das investigações que se prolongaram pelo século XX, sabemos hoje que as
línguas vivas indo-europeias se distribuem pelos seguintes ramos:
- Báltico – Letão e Lituano.
- Celta – Bretão, Gaélico Escocês, Gaélico Irlandês, Galês e o Manx (falado na ilha de Man). Estas
línguas sofrem a vizinhança do Francês e Inglês pelo que têm um reduzido número de falantes.
- Eslavo – Bielo-Russo, Búlgaro, Checo, Eslovaco, Esloveno, Macedónio, Polaco, Russo, Servo-
Croata e Ucraniano.
- Germânico – Alemão, Inglês, Dinamarquês, Escocês, Feróico, Frísio, Islandês, Neerlandês,
Norueguês e Sueco.
- Helénico – Grego.
- Indo-iraniano – Cengalês, Guzarate, Hindu-Urdu, Marata, Penjabe, entre as línguas Indianas, e
Curdo, ‘Pashto’ e Persa entre as Iranianas.
- Românico – Castelhano, Catalão, Francês, Franco-Provençal, Galego, Italiano, Português,
Provençal, Reto-Romance, Romeno e Sardo.
- Albanês e Arménio.

Elenco das línguas românicas:

1) Ibero-românica
2) Galo-românica
3) Reto-românica
4) Italo-românica
5) Sardo
6) Balcano-românica

1) Área ibero-românica:
- Galego
- Português
- Castelhano: variante peninsular; principais dialectos: dialecto asturiano, dialecto leonês, dialecto
navarro e aragonês, dialecto extremenho, dialecto andaluz e murciano, dialecto canário. Variante
americana.

2) Área galo-românica:
- francês: descende da langue d’oil medieval
- provençal: provençal antigo ou langue d’oc. Os principais dialectos modernos são o
mistralien e o occitano.
- franco-provençal: dialectos do sudeste da França, da Suíça ocidental e do norte de

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Itália

3) Área reto-românica:
- Divide-se em três variantes: romansh (na Suíça), ladino (no Tirol do Sul), friulano (noroeste
de Itália).

4) Área italo-românica:
- Toscano: dialecto, oriundo da região de Florença, foi adoptado como língua padrão no
século XIX e a ele se associa a designação moderna de italiano.
Reconhecem-se três grupos de dialectos muito diferenciados do italiano:
- Setentrional: piemontês, lombardo, lígure, veneziano, emiliano;
- Central: marchigiano, toscano, corso, úmbrico, romano;
- Meridional: abruzzese, campaniano, apuliano, lucaniano, calabrês.

5) Área sarda:
A variedade mais conservadora, conhecida como logudorese, é falada na região central da Sardenha,
o Logudoro.

6) Área balcano-românica:
O romeno, língua oficial da Roménia, baseia-se na língua da região de Bucareste. Outras variedades
são o moldavo e o daco-romeno.

Línguas orais da Península Ibérica

Catalão – também chamado valenciano em Valencia e balear nas Baleares.


Aragonês – também designado ‘fabla’, assim como navarro-aragonês se nos referimos ao seu
desenvolvimento nos séculos medievais.
Castelhano-aragonês – falado na maior parte de Aragão.
Basco – também conhecido como euskera ou euskara.
Castelhano – chamado também espanhol, cuja extensão geográfica é a maior da Península.
Asturiano-leonês – conhecido também asturiano, leonês ou mirandês, além de ‘bable’.
Galego e português – pode ser entendido como o de duas línguas distintas ou como um único domínio
românico.
Aranês – subdialeto do dialeto gascão da língua occitânica na metade sul de França.

5
Semana 2: Nociones elementares de fonética. Portugués
Continental y Dialectos de Açores e Madeira; símbolos del AFI
utilizados en la transcripción fonética (TF) del portugués; (7 págs.)

2. Fonética

É a disciplina científica que


se ocupa dos sons da fala
humana, do modo como
esses sons são produzidos
pelos locutores e como são
percebidos pelos ouvintes.
As propriedades físicas dos
sons da fala, a sua produção
e percepção, definem as três
grandes áreas em que a
fonética tradicionalmente se
subdivide: fonética acústica,
fonética articulatória e
fonética perceptiva.
A fonética é uma área de
conhecimento interdiscipli-
nar que faz apelo a áreas
científicas tão diversas como
a linguística, a anatomia, a
fisiologia, a neurologia, a
aerodinâmica, a acústica, a
psicologia, o processamento
de sinais.
No estudo da fala humana
há que fazer a distinção
entre os segmentos
fonéticos entendidos como
realizações fonéticas, que (ou fonemas) que são unidades linguísticas abstractas. De forma a distinguir-
são factos concretos se claramente estes dois níveis de análise, convencionou-se representar os
fisicamente mensuráveis, e segmentos fonológicos entre barras oblíquas (/a/, /o/) e os segmentos
os segmentos fonológicos fonéticos entre parênteses rectos ([a], [o]).

1 – lábio inferior 5 – alvéolos 9 – passagem oral 13 – faringe 17 – esófago


2 – lábio superior 6 – palato 10 – ápice da língua 14 – epiglote 18 – coluna cervical
3 – dentes incisivos 7 – véu palatino 11 – dorso da língua 15 – glote 19 – cavidade nasal
inferiores
4 – dentes incisivos 8 – úvula 12 – raiz da língua 16 - traqueia
superiores

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2. Alfabeto Fonético Internacional:

Fonemas da língua portuguesa:

Vogais orais: i, ɨ, u, e, ɐ, o, ɛ, ɔ, a
Vogais nasais: ɐ̃, ẽ, ĩ, õ, ũ

Semi-vogais: j, w

Consoantes: p, b, t, d, k, g, m, n, ɲ, r, ɾ, R, f, v, s, z, ʃ, ʒ, l, ʎ

Ditongos:
Orais - ɛj (papéis), ɐj / ej (lei), aj (pai) , ɔj (rói), oj (noite), uj (cuida), iw (riu), ew (meu),
ɛw (véu), ɐw (saudade), aw (pau).
ow / o (pouco).
Nasais - ɐ̃j (mãe), õj (põe), ũj (muito), ãw (mão)

Diacríticos:
ˈ - [ˈkazɐ] ̊ - [ɐ̥ ] ; [ȷ] ̬ - [k̬] ̪ - [d̪]/ ̚ - [t̚]

ʰ - [pʰ]; [tʰ] ʲ - [pʲ] ʷ - [rʷ] ͡ - [e͡ ɐ]

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3. Tipos de transcrição fonética

Quando uma análise tem prioritariamente em conta a representação dos contrastes que asseguram a
distinção entre diferentes palavras, opta-se por uma transcrição que anota apenas os segmentos
sonoros que podem comutar com outros num determinado contexto, desde que daí resulte uma
mudança de significado como em [ˈɛɾvɐ] e [ˈɛlvɐʃ]. Este tipo de transcrição designa-se, em geral, por
transcrição fonética larga.
A expressão transcrição fonética estreita emprega-se para designar transcrições que especificam
maior detalhe fonético. Por exemplo, na maioria das variedades do Português Europeu a consoante
/l/ é geralmente realizada de modo diferente, conforme se encontra em início ou em fim de sílaba
(levas / Elvas). Essa modificação do /l/ em fim de sílaba – em que o corpo da língua tende a recuar
e a elevar-se – designa-se por velarização e é anotada mediante o diacrítico [~]: [ˈɛɫvɐʃ ], [mɛɫ]. As
duas realizações de /l/ [l] e [ɫ] são percebíveis como distintas mas a sua alternância não altera o
significado das palavras.

4. Fonemas, fones e alofones

O objectivo da fonologia como estudo dos sistemas de sons das línguas é o de explicar o
funcionamento desses sistemas, enquadrando a explicação numa teoria da linguagem e
desenvolvendo métodos e técnicas que permitam determinar os sistemas fonológicos das línguas
particulares. Por outro lado, cada língua possui também a sua fonologia, ou seja, a organização
específica do seu sistema de sons. Ao estudarmos a fonologia de uma língua com base numa teoria
da gramática comum ao estudo de outras línguas estamos, ao mesmo tempo, a contribuir para o
estabelecimento de princípios universais que organizam o funcionamento de todos os sistemas
fonológicos.
É o conhecimento fonológico de um falante que lhe permite associar determinados sons a um único
fonema, e que permite distinguir a sucessão de sons que formam uma palavra em línguas que
desconhecemos.
Em todas as línguas existem palavras que têm significados diferentes e se distinguem apenas por um
som. Em Português, por exemplo, as palavras bala e pala, com significados diversos, só se
diferenciam nas consoantes iniciais que são, respectivamente, [b]e [p]. Estes sons que distinguem
palavras são unidades distintivas e correspondem a fonemas do Português; os pares de palavras
como bala e pala que servem para os determinar são pares mínimos porque só se distinguem numa

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unidade. O método de substituição (ou de comutação) de um som por outro mantendo a mesma
sequência foi aplicado pela escola estruturalista. Utilizando este método de comutação, se formos
verificando alterações de significado das palavras poderemos determinar todos os fonemas do
Português.
As realizações fonéticas dos fonemas são os fones. Nas palavras calo e caldo, que se pronunciam
[ˈkalu], [ˈkaɫdu], temos duas pronúncias do /l/. No entanto essas duas pronúncias não
correspondem a dois fonemas distintos porque nunca podemos opor esses dois sons num par
mínimo. Na realidade, os sons correspondentes ao /l/ em início de palavra ou entre vogais e em fim
de palavra ou antes de uma consoante são dois fones do mesmo fonema que se denominam alofones
(ou variantes) contextuais. Neste caso, os alofones dependem da posição do fonema na palavra;
como os dois sons nunca ocorrem na mesma posição – estão distribuídos em diferentes contextos –
diz-se que se encontram em distribuição complementar.
Existem ainda alofones que distinguem socioletos ou dialectos: por exemplo, o /s/ pronuncia-se em
certas regiões de Portugal com o ápice da língua junto dos alvéolos (é o s ‘beirão’) e em outras
regiões, como Lisboa, a sua pronúncia é dental. No primeiro caso representa-se como [ʂ] e no
segundo como [s]. Mas como nunca se podem opor um ao outro no mesmo dialecto correspondem
ao mesmo fonema /s/. As diferentes pronúncias que decorrem da diversidade dialectal ou sociolectal
designam-se como alofones (ou variantes) livres por não dependerem de um contexto fonético.
A aplicação do método dos pares mínimos a partir de palavras do Português Europeu (dialecto de
Lisboa) permite-nos identificar as consoantes e vogais que fazem parte do sistema fonológico.

As consoantes em língua portuguesa podem distinguir-se quanto à posição que podem ocupar na
palavra.

Consoantes iniciais:
Os seguintes fonemas consonânticos nunca se encontram em início de
palavra: ʎ, ɲ, ɾ.
Exemplos: pala, bala, tom, dom, calo, galo, fala, vala, selo, zelo, chá, já,
mata, nata, lato, rato.
Consoantes mediais Todos os fonemas consonânticos da língua portuguesa.
(entre vogais): Exemplos: ripa, riba, lato, dado, rasca, rasga, estafa, estava, caça, casa, acha,
haja, mala, malha, cama, cana, senha, caro, carro.
Consoantes finais: Apenas os fonemas consonânticos /l/ – que foneticamente é um l velarizado
[ɫ] – , /ɾ/ e /ʃ/ e /n/ (em casos raros como hímen ou hífen) se encontram
em fim de palavra. O m em fim de palavra não corresponde a um fonema
para indica a nasalidade da vogal anterior que o antecede como em sim =
/sĩ/ ou fim = /fĩ/.
Exemplos: mal, mar, más

A pronúncia de /s/ em posição final decorre do contexto em que se encontra:


- se a palavra anteceder uma pausa, o fonema realiza-se como [ʃ]
- se for seguida de outra palavra, a sua realização será [z] se anteceder uma vogal (más aves –
[ˈmazˈavɨʃ] e [ʒ] ou [ʃ] conforme a consoante que se seguir for vozeada (más bolas –
[ˈmazˈbɔlɐʃ]) ou não vozeada (más passas – [ˈmazˈpasɐʃ]).

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5. As sílabas: o ataque, a rima, o núcleo e a coda

Numa palavra não encontramos apenas os fonemas, mas estes agrupam-se numa unidade que é a
sílaba e que são constituídas maioritariamente por uma consoante e uma vogal. Nesta forma
canónica da sílaba (CV), a consoante constitui o ataque a vogal a rima. Mas como uma sílaba pode ser
constituída apenas por uma vogal, esta é o elemento mais importante da sílaba, é o seu centro que se
denomina núcleo. Em Português, diferentemente de outras línguas, os núcleos silábicos são sempre
vogais.
As glides (ou semi-vogais) nunca podem funcionar sozinhas como núcleos de sílaba (e isso as
distingue das vogais) mas podem, ao formarem ditongos, integrar-se no núcleo da sílaba como nos
exemplos judeu [ʒudɛw] ou faliu [fɐˈliw].
A consoante (ou consoantes) que termina(m) a sílaba constitui(em) a coda. Em Português, em posição
final de sílaba e de palavra, só ocorrem /l/, /r/, /s/ e muito raramente /n/ (em casos como hímen
ou hífen).
Uma tendência observada por diversos linguistas é a de abrir as sílabas e evitar a coda (evitando a
consoante em final de sílaba ou de palavra).

1.5. Área linguística galego-portuguesa: diversidade dialectal

O espaço linguístico galego-português tem a configuração de um rectângulo que corresponde à faixa


ocidental da Península Ibérica delimitado em três lados pelo mar e a oriente por uma linha que corre
de norte a sul, desde as Astúrias até à foz do Guadiana. Esta linha foi definida por Menéndez Pidal
como sendo a fronteira linguística que, desde a Idade Média, separa o leonês das línguas que lhe
ficam a ocidente: os dialectos galegos a norte e os dialectos portugueses mais a sul.
Para Lindley Cintra há três grandes grupos dialectais:
1) dialectos galegos;
2) dialectos portugueses setentrionais;
3) dialectos centro-meridionais.

Dialectos galegos:

- Não existem as sibilantes sonoras /z/ nem /ʐ/ próprias do português (a sibilante de rosa articula-se
como a de passo) [ʂ] apical ou [s] predorsal;
- A sibilante de fazer como a de caça, [s] predorsal ou [θ] interdental, consoante que corresponde à
grafia th inglesa.
- A palatal sonora /ʒ/ (j e g antes de e, i) não existe, mas apenas a sua correspondente surda /ʃ/ .

Dialectos portugueses setentrionais:

- Existem sibilantes surdas e sonoras, ao contrário de em galego, predominando nos meios rurais as
sibilantes ápico-alveolares, surda [ʂ] (idêntica à do castelhano setentrional e padrão) e sonora [ʐ], às
quais se reduziram as predorsodentais. Nos dialectos mais conservadores, as ápico-alveolares
coexistem com as predorsais.
- A pronúncia com oclusiva bilabial [b] ou fricativa bilabial [β] da letra v nos dilectos setentrionais.
- A conservação dos ditongos /ow/ e /ej/ nos dialectos setentrionais.
- A pronúncia como africada palatal [tʃ] da grafia ch (tchave, atchar).

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- Vocábulo de origem latina ou germânica no norte.

Dialectos portugueses centro-meridionais:

- Não há sibilantes apicais mas apenas as sibilantes predorsodentais, que também são características
da língua padrão (s) e (z): seis, passo = caça (s); rosa = fazer (z).
- A pronúncia como fricativa labiodental [v] nos dialectos do sul e no português padrão.
- A monotongação para [o] e [e] nos dialectos centro-meridionais (ouro, ferreiro, para ôro, ferrêro).
- A pronúncia como fricativa [ʃ] da grafia ch (chave, achar).
- Vocábulos de origem árabe no sul.

A fronteira entre os dialectos galegos e os dialectos setentrionais portugueses corresponde à fronteira


política entre Portugal e Galiza.

A fronteira entre os dialectos portugueses setentrionais e os centro-meridionais corresponde a uma


linha que atravessa obliquamente o centro de Portugal, partindo da costa ao norte de Aveiro e
encontrando a fronteira com Espanha na região de Castelo Branco.

Para Luísa Segura e João Saramago há os seguintes dialectos que se agrupam em duas regiões, uma
constituída pelo noroeste e o centro atlântico do país, prolongando-se geralmente pela Galiza, e a
outra ocupando o sul e leste de Portugal.

1. Dialectos portugueses setentrionais:


1.1. dialectos transmontanos e alto-minhotos
1.2. dialectos baixo-minhotos-durienses-beirões

2. Dialectos portugueses centro-meridionais:


2.1. dialectos do centro litoral
2.2. dialectos do centro interior e do sul

3. Falares fronteiriços:
A fronteira linguística que separa as zonas de ditongação e não ditongação das vogais breves tónicas
latinas O e E, não coincidem exactamente com a fronteira política que separa Portugal e Espanha,
pelo que existem territórios muito pequenos que são politicamente portugueses, mas que
linguisticamente se integram na área linguística do leonês.
Situados ao longo da fronteira de Trás-os-Montes, os principais são os falares de Rio-de-Onor, de
Guadramil, o mirandês rural em torno de Miranda do Douro e o sendinês. A este conjunto de
falares, que têm características próprias muito vincadas, pode dar-se a designação geral de mirandês.
Todos eles têm em comum serem variedades dialectais leonesas e, portanto, não integradas na área
linguística galego-portuguesa.
Encontramos, para sul, ao longo da fronteira portuguesa, em território politicamente espanhol,
aldeias fronteiriças que conservam variedades dialectais do português. São, de norte para sul, as
aldeias de Ermesinde, Alamedilla, San Martín de Trevejo, Eljas, Valverde del Fresno, Jerez de
Alcántara, Cedillo, esta já situada nas margens do rio Tejo. A sul do Tejo, na fronteira do Alentejo,
encontra-se ainda Olivença e mais a sul, a região de Barrancos.

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Isoglosa – linha imaginária que circunscreve num mapa a área geográfica onde se apresenta um
determinado fenómeno linguístico. Geralmente as isoglosas não aparecem em separado mas antes
formando um conjunto de isoglosas que marcam limites ou fronteiras entre dialectos.
Isófona – fronteira linguística que separa duas regiões em que comportamentos fonológicos diversos
podem ser observados. A fronteira que separa a área linguística galego-portuguesa das áreas que lhe
ficam imediatamente a oriente pode considerar-se uma isófona, pois separa uma região em que os
dois fonemas latinos breves e tónicos (E e O) são conservados a seu ocidente, enquanto são objecto
de ditongação a seu oriente (IE, UE).

Os cinco traços fonéticos diferenciadores de Lindley Cintra:

1. /b/ e /v/ : região setentrional (Minho, norte de Trás-os-Montes, Douro e Beira Litoral) onde os
fonemas /b/ e /v/ dificilmente se distinguem um do outro, fundindo-se normalmente num único
/b/, oclusiva com articulação fricatizada, por oposição a uma região constituída pelo sul de Trás-os-
Montes, as duas Beiras interiores, a Estremadura, o Ribatejo, o Alentejo e o Algarve, onde os
fonemas labiais /b/ e /v/ são claramente distinguidos.

2. s = x/j : é o grande traço diferenciador dos dialectos do Norte contra os dialectos do Centro e
do Sul. O S latino, consoante que era apenas surda, na evolução do latim falado, se desdobrou numa
correspondente sonora, igualmente grafada com S, mas que corresponde ao /z/ intervocálico.
Em português medieval, a consoante C, quando seguida de vogal palatal E ou I, transformara-se
numa africada palatal /tʃ/, a qual despalatizou para uma africada predorso-dental /ts/, desdobrada
numa correspondente sonora /tz/.
No português medieval, este par /ts/, /tz/, que correspondia às grafias C e Z, com a variante Ç para
as surdas, sofreu um desafricamento (com perda do elemento oclusivo), e fixou-se no par de
fricativativas predorso-dentais /s/ e /z/, fonologicamente distintas das ápico-alveolares /ʂ/ e /ʐ/.
Assim, era muito fácil distinguir pela pronúncia e pela escrita as palavras servo, coser de cervo e cozer.
Enquanto as primeiras tinham pronúncia apicalm as sibilantes de cervo e cozer eram predorsais.
Nos dialectos do sul de Portugal ocorreu o sesseio que consiste na confusão entre as sibilantes
apicais e predorsais, seguida da transformação das apicais em predorsais, com o consequente
desaparecimento das apicais. O sesseio generalizou-se no sul de Portugal e foi acolhido no português
padrão.
A norte da isófona – que atravessa de Aveiro a Castelo Branco – assiste-se à conservação da sibilante
apical, em duas formas:
a) no Minho litoral, na Beira Alta e na parte ocidental de Trás-os-Montes são as sibilantes
predorsais que se fundem nas sibilantes apicais.
b) No norte e nordeste de Trás-os-Montes, conserva-se o sistema medieval quase intacto com
as quatro sibilantes: duas apicais e duas predorsais.

3. pronúncia do ch = tx ou tch : A única africada /tʃ/ que subsiste no território português ocupa
uma área muito semelhante à da conservação das apicais, com uma significativa exclusão de toda a
faixa litoral do Minho e do Douro, que, conserva a fricativa apical mas não a africada /tʃ/,
aproximando-se dos dialectos do centro e sul, onde a africada desapareceu e o grupo CH
corresponde à pronúncia da palatal /ʃ/.
No português medieval havia uma oposição entre dois fonemas: a africada palatal surda ch = /tʃ/ e a
fricativa palatal surda x = /ʃ/. Enquanto a fricativa palatal surda /ʃ/ era pouco comum, a africada

12
palatal surda /tʃ/ encontra-se em galego e em português como evolução de grupos consonânticos
iniciais com L (PL – pluvia; CL – clave; FL – flamma). Estes três grupos evoluíram para /tʃ/.
A distinção entre /tʃ/ e /x/ existiu durante toda a Idade Média e até ao século XVIII. Foi no
português do sul do país que teve início o desaparecimento da africada e a sua substituição por /ʃ/
que depois progrediu para o norte.

4. pronúncia do ditongo OU: no norte (Minho, Trás-os-Montes e Douro Litoral) este ditongo
realiza-se como /ow/ ou como /aw/. A sul o ditongo sofreu uma monotongação, característica do
português padrão.

5. pronúncia do ditongo EI: este ditongo é conservado no Minho, Trás-os-Montes, Beira Litoral e
Beira Alta, por grande parte da Estremadura e ao norte de Lisboa. O padrão, tendo acompanhado os
dialectos do sul na monotongação de OU, não fez o mesmo na monotongação de EI, preferindo
manter o ditongo diferenciado como /ɐj/.

1. Dialectos insulares:

1. Madeira:
- a vogal tónica /i/ ditonga para /ɐj/ ou /ɨj/: assim navio tanto pode soar [nɐvɐju] como [nɐvɨju].
- /l/ precedido de /i/ palatiza: vila soa [viʎa] ou, com a ditongação, /vɐjʎɐ/.

2. Açores:
- na ilha de São Miguel: o vocalismo tónico sofre uma mudança geral, que tem afinidades com os
dialectos do Algarve ocidental e da região de Portalegre – Castelo Branco. São mais destacáveis a
palatalização de /u/ em /y/, semelhante ao /u/ francês, e a velarização de /a/ aberto.
- na Terceira: está generalizado um traço que aparece noutras ilhas e na Madeira: harmonização
vocálica que transforma a vogal tónica em ditongo crescente, quando na sílaba anterior se encontra
um /i/ ou um /u/. A semivogal coincide em timbre com a vogal precedente: carro soará [u’kwaRu],
mas mil carros será [mil’kjaRuʃ].

13
14
Semana 3: la formación de las lenguas románicas. Romanización
de Europa y de la Península Ibérica. Latin clásico y latin vulgar; la
formación de las lenguas iberorrománicas (antes do século VIII (7
págs.)
1. A romanização da Península Ibérica

A ocupação da Hispânia foi uma empresa difícil, que durou 200 anos. Pimeiro foi ocupada a costa
catalã: Ampúrias (218 a.c.) e Tarragona. Seguiu-se a ocupação de Sagunto (215) e de Cartagena (208),
mais para sul. Em 206 a.c. foi fundada Itálica (perto de Sevilha), o que culminou a ocupação da parte
meridional da Península, concluída em apenas doze anos. Nas terras do centro, a conquista demorou
muito mais: foram precisos dois séculos para pacificar o NW (campanha de Júlio César em 61 a.c.,
campanha de Augusto em 27 d.c.).
Um facto surpreendente é o intervalo muito longo que medeia entre a pacificação do NW (noroeste),
sob o imperador Augusto, e a sua ascensão ao estatuto de província autónoma, que só ocorreu no
tempo do imperador Caracalla (216 d.c.). Então, a região recebeu o nome de Gallaecia et Asturica,
por ser povoada antes da romanização por galécios e ástures. Até à sua declaração como província, o
NW dependia administrativamente da província Tarraconense, mas é de supor que o seu isolamento
tenha sido responsável pela tardia chegada das instituições civilizacionais.
A sobrevivência, na Gallaecia, e em todo o norte peninsular, das línguas pré-romanas até pouco antes
de ter início a desagregação do império criou condições para que o latim local fosse submetido a
fortes pressões inovadoras de substrato, sem ter tido tempo de sedimentar.

2. Evolução do Latim clássico ao Latim vulgar

Informações sistemáticas e relativamente numerosas sobre o latim vulgar só começam no século I da


nossa era. É de admitir que com a quebra do sistema educativo romano acelarada a partir do século
V e coincidindo com as invasões bárbaras, se tenha aberto uma brecha difícil de colmatar entre a
língua falada e o latim escrito.
Com o concílio de Tours (813), o latim fica relegado quase definitivamente para a posição de língua
escrita, deixando o plano da oralidade à ‘rustica romana lingua’.
Não existe propriamente uma literatura em latim vulgar, mas sim textos muito influenciados por ele.
A esses textos dá-se o nome de fontes do latim vulgar.
O latim vulgar não só evoluiu no tempo, como possuía importantes variações regionais, assim como
diferentes estilos e níveis de linguagem.

A romanização da Península Ibérica definiu duas grandes regiões:


- a Hispânia Ulterior (Bética e Lusitânia) – centro e sul da Península
- a Hispânia Citerior (Tarraconense) – norte e sudeste da Península

Na Bética, isolada e culta, falava-se um latim mais conservador, mais purista. Pelo contrário, a
Tarraconense oriental era obrigatória de legionários, colonos e mercadores: é natural que a língua
fosse menos cuidada, com maior número de neologismos e estrangeirismos. Com o avanço da
romanização, os centros urbanos do ocidente da Península – Mérida, Évora, Braga e Astorga –
receberam com muita probabilidade o latim culto da Bética, enquanto na Tarraconense se difundiam

15
alguns traços inovadores que não são encontrados no sul nem no oeste: reduções do tipo AI > E,
AU > O, MB > M, ND > N, que marcam as línguas depois desenvolvidas na Catalunha, em Aragão
e em Castela-a-Velha (Burgos).
A partir do século III d.c., o Império entrou numa fase de instabilidade política e social que se
traduziu em progressiva perda de influência de Roma. Instituições fundamentais para a unidade
linguística, como o ensino oficial, entraram em crise, acabando por desaparecer na Gália no século
IV (na Hispânia, o ensino oficial manteve-se até aos século VIII, o que significa que resistiu a todo o
período germânico).

2.1. Substrato Basco no Castelhano

Um caso que ilustra bem o modo como uma língua de substrato pode contribuir para a definição dos
vários romances encontra-se no comportamento do F inicial latino em castelhano: FARINA >
HARINA, FILIU > HIJO. No basco actual não existe a fricatividade como traço distintivo, não
ocorrendo as labiodentais /f/ nem /v/. Nos empréstimos latinos do basco, o /F-/ passa sempre
para /b/, /p/, /h/ ou desaparece. Nas áreas mais romanizadas do antigo território ocupado por este
povo, que se estendia mais a sul, pela bacia do Ebro, este som de difícil articulação pronunciar-se-ia
como uma aspirada, tal como hoje acontece em gascão. Assim, a fricativa labial surda /f/ evoluiu
para a labial surda /ph/, ainda como oclusiva aspirada. Mais tarde, /ph/ perde o traço oclusivo,
ficando como aspirada /h/, para acabar por perder totalmente a articulação: F- > Ph > H > 0.

2.2. Substrato germânico

O superstrato da România ocidental é fornecido exclusivamente pelas línguas germânicas. Na


Península Ibérica, os godos e os suevos apenas influenciaram o onomástico. Na România oriental, o
superstrato foi o eslavo, que em algumas zonas se impôs como língua principal, reduzindo o latim a
substrato.

Na Península Ibérica, os únicos povos germânicos que, pela duração e relativa estabilidade da sua
permanência, mantiveram com a população hispano-romana contactos linguísticos que poderiam
enquadrar-se no tipo de superstrato, foram os suevos e os visigodos.
Baldinger admite que se devam à língua dos suevos algumas palavras galegas e portuguesas como:
laverca (alondra), broa (cast. Borona), britar (verbo muito frequente na Idade Média, depois substituído
por quebrar e presente residualmente em brita ‘cascalho’, britadeira e azeitona britada), trigar (português
antigo, ‘enfurecer’), ou o galego lobio (‘folha de parra’).
Os suevos tiveram um papel decisivo na diferenciação das línguas ibero-românicas ocidentais
assegurando o relativo isolamento do ângulo NW (noroeste) da Península durante século e meio (ou
mesmo durante os três séculos de ocupação germânica) e forneceram um quadro social propício ao
desenvolvimento de tendências evolutivas particulares que já se manifestavam no período romano e
que tinam a ver, muito provavelmente, com efeitos de substrato.

Se as quedas de –L– e –N– intervocálicos e a convergência dos grupos iniciais PL–, CL–, FL– para a
africada palatal são caracterizadoras do romance galego-português, isso deve-se ao facto de terem
surgido num território politicamente isolado durante um período crucial – os dois ou três séculos
imediatos ao desmembrar do Império Romano.

É igualmente no léxico que se sente algum efeito de superstrato visigodo. Os empréstimos


vocabulares pertencem a duas categorias: nomes próprios de pessoas (antropónimos) e de lugar

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(topónimos), e nomes comuns pertencentes a alguns campos semânticos (guerra, administração,
etc.).
Germânico Latim Português
SAIPO SAPONE SABÃO
BURGS BURGUS BURGO
WERRA GUERRA GUERRA
(por BELLUM)

Vamos encontrar grande quantidade de germanismos na antroponímia peninsular: Álvaro, Fernando,


Afonso, Rodrigo (> Rui), Elvira, Gonçalo, Raul.
A maior concentração de toponímia germânica encontra-se no norte da Península. Pode assim dizer-
se que a camada toponímica germânica do norte de Portugal, Galiza e Espanha foi aí instalada no
século IX. Guimarães (<VIMARANIS) deriva do nome do conde portucalense Vimara Peres,
Gondomar de GUNDEMARI, Sendim de SENDINI.

2.3. Línguas Ibero-românicas: sistemas vocálicos continuadores e sistemas vocálicos simplificadores:

A partir do sistema vocálico do latim imperial (ou latino vulgar) com quatro graus de abertura,
podemos distinguir sistemas continuadores e sistemas simplificadores:
1) sistemas vocálicos continuadores: o galego-português, o catalão e o occitânico pertencem a este grupo
porque mantêm os quatro graus de abertura do vocalismo latino vulgar. Em cada uma destas línguas
experimentaram-se transformações ulteriores: o português introduz um fonema /ɐ/ e o
desdobramento num sistema oral e nasal; o sistema catalão balear e catalão oriental introduz
modificações quanto à evolução das vogais /e/ e /ɛ/; o sistema occitânico (aranês) altera os
resultados do /o/ e do /u/.

2) sistemas vocálicos simplificadores: o aragonês, o castelhano e o asturo-leonês são os que reduzem os


graus de abertura de quatro a três. Tal simplificação tem relação directa com o facto de que estes
sistemas eliminaram o grau de abertura representado por /ɛ/ e /ɔ/ e transformaram estas vogais em
ditongos /i+e/ e u+e/~/u+o/, respectivamente. O mirandês enquadra-se em princípio nos sistemas
vocálicos simplificadores, já que – de acordo com o domínio a que pertence – o E breve e O breve
latinos ditongaram, respectivamente, em IE, UO. Contudo, ambos os ditongos se simplificaram
normalmente em [e] e [o], e as antigas fechadas provenientes de E-I (longa-breve), O-U (longa-
breve) puderam abrir para /ɛ/ e /ɔ/, razão pela qual o sistema do mirandês desemboca num sistema
de quatro graus de abertura.

3. Evolução do Latim Clássico à formação do Galego-Português

1ª Parte – Do Latim Clássico ao século VIII

a) Evolução do sistema vocálico: do latim clássico ao latim vulgar e línguas ibero-românicas


b) Vocalismo tónico do latim clássico ao latim imperal
c) Palatização dos grupos de consoantes CI, CE e GI e GE
d) Evolução do grupo consonantal CL intervocálico
e) Evolução do grupo consonantal CT
f) Evolução das vogais abertas E e O nas línguas ibero-românicas

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2ª Parte – Do século VIII ao galego-português

a) Evolução dos grupos iniciais PL, CL e FL


b) Evolução dos grupos PL, CL e FL iniciais para PR. CR, FR
c) Queda do L intervocálico
d) Queda do N intervocálico
e) Evolução da morfologia e da sintaxe

1ª Parte – Do Latim Clássico ao século VIII

a) Evolução do sistema vocálico: do latim clássico ao latim vulgar e línguas ibero-românicas

a.1) Desaparecimento da diferença entre vogais longas e vogais breves:

Tinha dez unidades, estrutura em três graus de abertura e divididas num subsistema de vogais longas
e breves e por três ditongos (ae, oe, au).

O latim vulgar ocidental, incluindo o peninsular ibérico, simplificou esse sistema, dando lugar a um
sistema de sete unidades, com quatro graus de abertura e total desaparecimento do traço longo /
breve:

i u

e o

ɛ ɔ

a.2) Generalização do acento de intensidade (vogais tónicas e átonas)

No latim imperial a sílaba que leva o acento é definida pelas seguintes regras:
a) palavras de duas sílabas: o acento recai na primeira. Exemplo: séptem > sete; dátum > dado
b) palavras de três sílabas ou mais: (1) o acento recai na penúltima sílaba se esta for longa
(amicum > amigo; capillum > cabelo; (2) o acento recai na antepenúltima se a penúltima for
breve (árborem > árvore; hóminem > homem; quíndecim > quinze)

Esta alteração parece ter-se dado por volta do século I d.c.

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b) Vocalismo tónico do latim clássico ao latim imperial

i longo [i] ficum > figo


i breve [i] sitim > sede
e longo [e] rete > rede
e breve [ɛ] aberto terra > terra
a breve [a] latus > lado
a longo [a] amatum > amado
o breve [ɔ] aberto porta > porta
o longo [o] fechado amorem > amor
u breve [u] bucca > boca
u longo [u] purum > puro
au [o] semi-fechado
oe [e] semi-fechado foedum > feo > feio
ae [ɛ] semi-aberto caecum > cego
ou [e] semi-fechado

c) Palatização dos grupos de consoantes CI, CE e GI e GE.

Em latim clássico estes grupos de consoantes pronunciavam-se como /ki/, /ke/, /gi/ e /ge/.

Do latim clássico ao latim gal.port. Contexto de palavra latim português actual


vulgar medieval
Ci /ki/ > /kyi/ > tši > /tsi/ civitatem cidade /s/
Ce /ke/>/kye/> tše > /tse/ centum cem /s/
Ge /ge/> /ye/ Ø entre vogais o /y/ desaparece regina rainha
Gi /ge/ >/ye/ frigidum Frio
Ge /ge/ > /dž/ /dž/ em posição inicial o /y/ evolui gentem gente /ʒ/
i /y/ > /dž/ /dž/ iulium julho /ʒ/
I ou E pronuncia-se em latim seguido de uma vogal: iu/ie/ia pretium,pretiare,hodie preço, prezar, hoje
como /y/ medium meio
Gi + Vogal /ky/ > /džy/ spongia esponja
Ki + Vogal /gy/ > /tšy/ facio faço
L + Y > /ʎ/ /ʎ/ filium Filho /ʎ/
N + Y > /ɲ/ /ɲ/ seniorem Senhor /ɲ/

d) Evolução do grupo consonantal CL intervocálico:

É provavelmente nos três séculos entre a chegada dos povos germânicos à Península e a chegada dos
muçulmanos em 711, que se desencadeia a evolução do grupo consonantal CL. Nesta posição C,
pronunciado como /k/, passa a yod [y]: oculum > oc’lu > oylo. Esta evolução é comum a todos os
falares hispânicos, mas as consequências não serão as mesmas segundo as regiões:
- em galego-português CL > [yl] > [ʎ] l palatal
- em castelhano: CL > [dʒ]

Latim clássico oculum auricula vetulum


Latim vulgar oc’lu orc’la vec’lu
Português olho orelha velho
Galego ollo orella vello
Castelhano ojo oreja viejo
Catalão ull orella vell

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e) Evolução do grupo consonantal CT:

O grupo CT passa a YT. Debilita-se e vocaliza-se o /k/ em [y].


Divide-se a evolução nas línguas ibéricas numa bifurcação. Em galego-português, catalão mantém-se
o T sem palatalizar. Em castelhano há primeira uma palatalização em [ts] e finalmente em [tʃ]. A
língua portuguesa mantém ainda a pronúncia noite, enquanto o castelhano, continuando a evolução,
apresenta hoje a africada [tʃ], escrita CH.

Latim clássico nocte lectu lacte factu octo


Português noite leito leite feito oito
Galego noite leito leite feito oito
Castelhano noche lecho leche hecho ocho
Catalão nit llit llet fet vuit

f) Evolução das vogais abertas E e O nas línguas ibero-românicas:

Latim cl pedem decem lectum novem fortem noctem


Latim imp pede dece lectu nove forte nocte
Portug pé dez leito nove forte noite
Galego pé dez leito nove forte noite
Castelhano pie diez lecho nueve fuerte noche
Catalão peu deu llit nou fort nit

A palavra latina nocte ou lecho não evolui (em castelhano) para *nueche como seria de esperar, de acordo
com os restantes exemplos, devido a um caso de metafonia.

Conclusão

Ao começar o século VIII a Península estava dividida em dois romances – um sententrional e um


meridional – mesmo que no plano político o estado visigodo fosse um único.
No norte, caminhando de ocidente para oriente, já se podia reconhecer um romance que viria a ser o
galego-português, separado de um outro romance na futura região asturo-leonesa, que não se confundiria com
aquele que nascia dos contactos entre o latim e o basco nos Cantábricos e nos Pirinéus ocidentais (ou
seja, o futuro castelhano). Mais a norte, o aragonês e o catalão despontavam como entidades
linguisticamente autónomas.

No centro e sul à faixa de pequenas nacionalidades setentrionais contrapõe-se um vasto território


unificado pelo domínio muçulmano, o Andaluz. Aí convivem diversos grupos sociais muito
diferenciados entre si:
Baladiyym – árabes provenientes da Arábia e instalados na Península e no norte de África.
Mouros ou bereberes – habitantes antigos da Mauritânia, parcialmente islamizados.
Muwalladim – hispano-godos convertidos ao islamismo.
Moçárabes – hispano-godos ou hispano-romanos submetidos ao domínio muçulmano, mas não
assimilados.
Judeus – dispunham de direitos iguais aos moçárabes.

Os romances centrais e meridionais, que vislumbramos através de pequenos textos poéticos


tardiamente escritos (as hardjas), pouco futuro tiveram e nenhum deles chegou até nós.

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1.7. Romance Moçárabe:

O moçárabe, ao contrário do castelhano, não perdeu o F inicial latino (filyo), nem o G inicial latino
antes de vogal palatal (germanella). Ao contrário do galego-português, não perdeu N e L intervocálicos
(alyenu, contenir, doler).
O moçárabe é mais conservador que qualquer dos romances do norte.
a) preservação do PL inicial em catalão (plantage) e aragonês (plataina), mas não como os
romances ocidentais e centrais, português (chantagem), castelhano (llantén).
b) preservação do T final latino (sonorizado em D) nas formas verbais da terceira pessoa.
c) preservação de E final depois de consoante líquida (MALE, AMORE, DORMIRE,
VELARE).
d) a não sonorização de surdas intervocálicas (lupayra, boyata).

Também no plano lexical o moçárabe se revela descendente directo do latim arcaizante da Bética,
conservando palavras como madrana (madrugada) ou garrir (dizer).
Pode concluir-se que o romance moçárabe era a língua peninsular menos evoluída em relação ao
latim, por aí se aproximando mais do português que do castelhano. Isto explica-se em parte pelo tipo
de latim que lhe serviu de base e em parte pelas condições em que sobreviveu sob o domínio
muçulmano, estancado na sua evolução, coibido pelo árabe, relegado à intimidade doméstica.

A fonte escrita mais importante para o conhecimento do moçárabe é constituída pelas hardjas,
fragmentos poéticos de dois a quatro versos, pertencentes a uma lírica oral tradicional decerto muito
antiga na Península (e de que uma outra manifestação se encontra nas cantigas de amigo galego-
portuguesas). Esses fragmentos românicos foram utilizados por poetas árabes e judeus dos séculos
XI a XIII para remate do muwashshah, longo poema narrativo de origem peninsular.

Palavras de origem árabe:

O número de palavras portuguesas de origem árabe andaria por volta de mil (954 segundo José
Pedro Machado, em Influência Arábica no Vocabulário Português). Porém, nem todas estas palavras foram
tomadas aos ‘mouros’ da Península Ibérica, tendo sido introduzidas em diferentes momentos.
Substantivos:
- arroz, azeite, azeitona, bolota, açucena, alface, alfarroba, javali.
- alfinete, alicate, albarda, alicerce, azulejo, almofada.
- alfaiate, almocreve, arrais.
- alcaide, almoxarife, alfândega.
- acepipe, açúcar.
- alferes, refém.
- arrabalde, aldeia.
- Alcântara (‘a ponte’), Almada (‘a mina’), Algarve (‘o ocidente’).
Nestes casos, o artigo árabe AL aglutinou-se com frequência aos substantivos, quer na sua forma
pura (al-godão), quer na forma que toma em árabe antes de palavras iniciadas por uma consoante
dental, caso em que o L final do artigo se assimila a esta consoante. Este fenómeno produziu-se
diante de R- (arroz), diante de Ç- (açúcar), diante de Z- (azeite), diante de D- (adufe).
A preposição até, em português antigo atá, vem de hatta.
A fórmula oxalá provém da locução wa sa ‘ llah (e queira Deus).

21
22
Semana 4: la formación del gallego-portugués; principales marcas
fonéticas del gallego-portugués. (7 págs.)

2ª Parte – Do século VIII ao galego-português

É no período que medeia entre o século VIII e o século XII, posterior à invasão muçulmana de 711,
que Paul Teyssier situa outras evoluções neste espaço Nordeste da Península onde se irá formar o
galego-português entre os séculos IX e XII.
São várias as evoluções que Teyssier localiza neste período:

a) Evolução dos grupos iniciais PL, CL e FL:

Estes grupos sofreram, num primeiro momento, uma palatalização do L, fenómeno que se produziu
numa vasta zona que compreendia o galego-português, o leonês e o castelhano, e ainda um pesqueno
território situado entre a Catalunha e Aragão:
Em castelhano a consoante inicial caiu, tendo restado o L palatal, transcrito LL. O mesmo
aconteceu na parte oriental do leonês.
Todavia, em galego-português e em leonês ocidental, a evolução foi mais profunda: a consoante
incial seguida de L palatal deu origem à africada [tʃ], que foi transcrita em galego-português por CH.
Esta evolução não se produziu na zona moçárabe, pelo que o galego-português e o leonês
ocidental isolam-se não apenas dos vizinhos do Leste, mas também dos vizinhos do Sul.

Latim plenu planu plicare clamare flagrare


Português cheo > cheio chão chegar chamar cheirar
Castelhano lleno llano llegar llamar (não atestada)
Catalão ple pla arribar

b) Evolução dos grupos PL, CL e FL iniciais para PR. CR, FR:

Noutra série de palavras de uso menos comum foi esta a evolução:

Latim placere clavu flaccu


Português prazer cravo fraco
Castelhano placer clavel flaco
Catalão plaer clavell feble

Manutenção dos grupos PL, CL, FL e BL:

Um outro conjunto de palavras eruditas conservou os grupos iniciais:

Português pleno clima flauta bloco

23
c) Queda do L intervocálico:

Este fenómeno, possível resultado de uma pronúncia velar do L intervocálico, ocorreu possivelmente
em fins do século X, incidiu sobre um grande número de palavras e contribuiu para criar em galego-
português vários grupos de vogais em hiato.
A queda do L intervocálico produziu-se apenas em galego-português, não aparece nem a leste nem a
sul – nem no leonês, nem no castelhano, nem nos falares moçárabes.
É a queda do L intervocálico que explica a forma que possuem no plural as palavras terminadas em L
no singular: sol > so(l)es > soes > sóis.

Latim salire palatiu calente Dolore Colore colubra Voluntade filu candela populu periculu

Gal.- sair paaço caente Door Coor coobra voontade fio candea poboo perigoo
Port
Portg. sair paço quente dor Cor cobra vontade fio candeia povo perigo
Cast. salir caliente dolor Color culebra voluntad hilo candela pueblo peligro
Catal. Surtir calent dolor Color culebra voluntat fil candela poble Perill

d) Queda do N intervocálico:

Este fenómeno produziu-se depois da queda do L intervocálico, no século XI, e provavelmente


ainda estava em curso no século XII. É mais complexo do que o anterior porque envolve uma
nasalização da vogal que o procede. Em todas estas palavras a vogal nasal e a que veio a segui-la
directamente depois da queda do N pertenciam a duas sílabas diferentes.
É um fenómeno que, tal como a da queda do N intervocálico, se dá unicamente em galego-português
- com excepção do basco - não se verificando nem em castelhano, nem em leonês, nem nos falares
moçárabes. Nas regiões centrais e meridionais de Portugal, a toponímia oferece muitos exemplos de
N intervocálicos que se mantiveram até aos nossos dias.

Latim vinu manu panatariu minutu genesta seminare arena


Gal-port. vio mã-o paadeiro meudo gẽ-eesta seme-ar arẽ-a
Port. mão padeiro semear areia
Castelhano mano panadero menudo sembrar arena
_____________________________________________________________________________

Latim luna vicinu lana homines bonu


Gal.-port. lũ-a vezĩ-o lãa homees bõo
Port. lua lã homem bom
Castelhano luna lana hombre bueno

O basco medieval experimentou um processo muito semellhante ao do galego-português, com perda


do N intervocálico e subsequente nasalização fonológica das vogais em contacto que posteriormente
se perdeu, apenas subsistindo no dialecto do País Basco francês (ARENA > harea; CATENA >
katea; CORONA > koroa, ou em palavras auctótones como *ARDANO > ardao > ardo (vinho).

24
e) Evolução da morfologia e da sintaxe

A evolução que se processa do latim ao galego-português é semelhante à que leva às outras línguas
românicas, em particular ao castelhano:
- A declinação nominal simplifica-se e acaba por desaparecer; sobrevivem apenas duas formas
oriundas do acusativo latino, uma para o singular, outra para o plural.
- As relações que o latim exprimia pelas desinências de caso são agora expressas por
preposições ou pela colocação da palavra na frase: o sujeito à esquerda do verbo, os
complementos verbais à direita do verbo.
- Os géneros reduzem-se a dois (é suprimido o género neutro).
- O futuro simples é substituído por uma perífrase construída com o verbo habere.
- O artigo definido forma-se a partir do demonstrativo ille: illum > lo > o; illam > la > a; illos
> las > as; illas > las > as. Como estes artigos vinham frequentemente precedidos de
palavras terminadas por vogal (vejo lo cavalo; vende la casa) o L desapareceu à semelhança de
todos os L da língua que se achavam em posição intervocálica, razão pela qual se chegou às
formas o, a, os, as.

Periodização da língua portuguesa:

Época Leite SerafimSilva Neto Pilar Vquez Cuesta Lindley Cintra


Vasconcelos
Até 882 (sec. IX) Pré-histórico Pré-histórico Pré- Pré-
Até 1214-16 Proto-histórico Proto-histórico -literário -literário
Até 1385-1420 Português- Trovadoresco Gal.-português Português antigo
Até 1536-1550 -arcaico Português comum Port.pré-clássico Português médio
Até séc. XVIII Português Português clássico Português clássico
Até séc. XIX-XX moderno Port. moderno Port. moderno

português pré-literário (até 1200-14-16); português antigo (até 1385-1420); português médio (até 1536-50);
português clássico (até ao século XVIII); português moderno (até século XIX-XX).

2. Área inicial do galego-português – Origens do Português no Quadro Românico

A área inicial do galego-português é a Galécia Magna, no noroeste da Península Ibérica.


A componente principal do português é o latim.
Outras componentes são as línguas de substrato, já faladas no noroeste da Península antes da chegada
dos romanos, e as línguas de superstrato faladas pelos povos que, entre a queda do Império Romano
(século V) e o aparecimento dos estados cristãos (século X), passaram por esta região da Península.

Para J. M. Piel, o território em que nasceu e se desenvolveu o romance galego-português é a


Gallaecia Magna, ou Maior, cujos dialectos, no plano fonético e no lexical, apresentam de modo
praticamente exclusivo as características que ainda hoje individualizam o português e o galego no
conjunto das línguas românicas. Constituem-na as actuais províncias portuguesas do Douro Litoral,
Minho e ocidente de Trás-os-Montes, quase toda a Galiza (com excepção do oriente da província de
Orense) e a parte ocidental da província de Oviedo. De fora fica parte de Trás-os-Montes, a oriente
de Vila Real, onde, segundo Pidal, houve povoamento moçárabe até Miranda do Douro.

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Se as cinco unidades originárias da Reconquista (galego-portuguesa, leonesa, castelhana, aragonesa e
catalã) se tivessem limitado a ocupar os territórios árabes que lhes ficavam directamente a sul o mapa
político peninsular teria hoje um aspecto zebrado, com cinco estados longos e estreitos, dispostos
paralelamente de norte a sul (à semelhança de Portugal).

Se é verdade que a sorte das armas e da política condicionou o desenho do espaço que albergaria a
língua portuguesa, só com os movimentos de populações deslocadas para os territórios
reconquistados dão vida e língua à ocupação. Três tipos de repovoamento se reconhece em todo o
ocidente da Península no período da Reconquista:
1) povoamento particular e monacal – segue-se à reconquista asturiana e leonesa que vem co o
imperador Fernando Magno, até ao Mondego e a Salamanca, em meados do século XI.
Trata-se do povoamento da Galécia Magna, que fora percorrida e repetidamente devastada
pelos invasores muçulmanos, mas nunca por eles ocupada.
2) povoamento municipal – corresponde ao reinado de Afonso VI de Leão e à época de
instalação do condado portucalense.
3) povoamento das ordens militares – na fase final da Reconquista (século XII-XIII) os reis
portugueses repousaram no apoio das ordens militares (Templo, Santiago...), que assumiram
a guerra entre o vale do Tejo e o Guadiana.

2. Português Antigo:

- Em 882 foi escrito, em latim, o mais antigo documento original do futuro território português, a
Escritura da Igreja de Lardosa.
- A Notícia de Fiadores, descoberta no fim da década de noventa, na Torre do Tombo, por Ana
Maria Martins, data de 1175, do reinado de D. Afonso Henriques, é o documento mais antigo
conhecido escrito em português.
- Durante décadas pensava-se que a Notícia do Torto – que Lindley Cintra pensava ter sido
escrito em 1211 – e o Testamento de D. Afonso II – datado de 1214, e estudado por Avelino
Jesus da Costa – eram os textos mais antigos escritos em português.
- As datas seguintes (1385-1420) denotam as grandes transformações que se deram em Portugal
entre o final da primeira dinastia e a consolidação da dinastia de Avis: as guerras, as passagens da
peste negra, a alteração do quadro político, a deslocação para sul dos centros de influência e a
entrada em contacto com a cultura do renascimento, factores que não actuaram apenas na esfera
social, mas marcaram claramente a língua.

3. Século XIV e transformações da língua portuguesa

Em meados do século XIV: duas passagens gravíssimas da peste negra que dizimara parte da
população. Logo a seguir, uma época de guerras com Castela: as de D. Fernando e as de D. João I,
em consequência das quais se dá uma inversão nos equilíbrios políticos no nosso país. A nobreza da
primeira dinastia toma o partido da rainha de Castela. Contudo, com a perda da guerra por esta
nobreza e Castela, surge uma nova nobreza constituída por burgueses nobilitados ou por filhos
segundos das casas nobres, que recebem terras e poder económico situado no centro e no sul do
país. Enquanto o centro-sul se torna cada vez mais influente, o norte de Portugal perde o estatuto de
berço do reino e passa a ser visto como uma província distante. E a Galiza, com a qual tem as
maiores afinidades, torna-se ainda mais distante.

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O português sofre então transformações que o afastam da matriz medieval galego-portuguesa: a
relatinização do léxico ou a adopção do castelhano como segunda língua literária.

- 1536 é a data em que foi publicada a primeira gramática portuguesa de Fernão de Oliveira.

Grafia:

É na segunda metade do século XIII que se estabelecem certas tradições gráficas. O testamento de
Afonso II (1214) já utiliza CH para a africada [tʃ], consoante diferente do [ʃ], ao qual se aplica a grafia
X.
Para N palatal e L palatal é somente após 1250 que começam a ser usadas as grafias de origem
provençal NH e LH. O til (~), sinal de abreviação, serve frequentemente para indicar a nasalidade
das vogais, que pode vir também representada por uma consoante nasal.
Apesar de suas imprecisões e incoerências, a grafia do galego-português medieval aparece como mais
regular e ‘fonética’ do que aquela que prevalecerá em português alguns séculos mais tarde.

Fonética e Fonologia

Vogais:

Em galego-português, o acento tónico podia recair na última sílaba, na penúltima e, muito raramente,
na antepenúltima.

a) Os fonemas vocálicos eram mais numerosos quando tónicos:


i u
e o
ɛ ɔ
a

Exemplos: /i/ aqui, amigo; /e/ verde, vez; /ɛ/ perde, dez; /a/ mar, levado; /ɔ/ pós, porta; /o/ pôs,
boca; /u/ tu, alhur. Pode-se perguntar se, desde essa época, o fonema /a/ não se realizaria como /ɐ/
diante de consonantes nasais (ama, ano, banho).

b) Em posição átona final o sistema reduzia-se a:

(i)
e o
a

A existência, nos textos mais antigos, de um fonema /i/ átono final pode ser verificada nos
imperativos do tipo vendi, parti, nas primeiras pessoas do singular do perfeito de verbos como estivi,
pudi, nas segundas pessoas do singular do perfeito, cantasti, partisti, e em certas palavras como longi,
viinti, eiri (ontem). Mas, no início do século XIV, todas essas formas apresentam um E final: vende,
parte, estive, pude, cantaste, partiste. O sistema reduz-se, então, aos três fonemas representados pelas
letras E, A, O.

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Encontram-se grafias em – u (em vez de – o) nos textos mais antigos o que tem sido interpretado de
duas formas: (1) como prova de desde essa época o galego-português pronunciaria o O átono final
como [u] em palavras como havemos ou campo; (2) como latinismos ou como formas de traduzir
um timbre muito fechado de – O final. Na opinião de Teyssier, as três átonas finais do galego-
português medieval deviam ter uma pronúncia breve, e /e/ e /o/ seriam muito fechados.

c) Em posição átona não final (em posição pretónica) as oposições entre /e/ e /ɛ/, de um lado, e
entre /o/ e /ɔ/, de outro, desapareciam. O sistema reduzia-se então aos cinco fonemas:

i u
e o
a

Ditongos:

Timbre final – i Timbre final – u

ui iu
ei oi eu ou
ai au

Exemplos: primeiro, mais, coita, fruito, partiu, vendeu, cautivo, cousa. O timbre inicial era, para ei e
eu um [e] fechado, e para oi e ou um [o] fechado.

Sistema de consoantes

Labiais Dentais Alveolares Palatais Velares Uvular


Oclusivas
Surdas /p/ /t/ /k/
Sonoras /b/ /d/ /g/
Africadas
Surdas /ts/ /tʃ/
Sonoras /dz/ /tʒ/
Fricativas
Surdas /f/ /ʂ/ /ʃ/
Sonoras /v/ /ʐ/ /ʒ/
Nasais /m/ /n/ /ɲ/
Laterais /l/ /ʎ/
Vibrantes /r-R/
Semivogais /w/ /j/

É com relação às fricativas dentais-alveolares (as ‘sibilantes’) e as palatais (as ‘chiantes’) que o sistema
consonântico do galego-português medieval certamente mais se afastava do de hoje. Havia um par de
africadas (surda e sonora) /ts/ e /dz/, bem diferentes de /s/ e /z/.

O sistema fonológico do galego-português medieval constituído por seis fonemas novos:

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/ts/ > /s/: cidade, cem /dz/> /z/: prezar /dʒ />/ʒ/: gente, vejo
/ʃ/ roxo /ʎ/ filho /ɲ/ senhor, tenho

Vogais nasais:

As vogais /i/, /e/, /a/, /o/ e /u/ são nasalizadas por uma consoante nasal implosiva, isto é, seguida
de outra consoante – pinto, sente, campo, longo, mundo –, ou final de palavra – exemplo, fin, quen, pan,
acaron, comun. Em posição átona final pode-se ter -en, -an e –on (senten, venderan, venderon).
Quando a consoante nasal termina a palavra, a grafia mais comum foi por muito tempo –n. Porém,
desde o período do galego-português medieval, começam a aparecer nesta posição grafias em –m:
quen passa a quem, cantan a cantam, grafia que se vai generalizar posteriormente.

4. Ciclo de Formação e Ciclo de Expansão da Língua

4.1. Ciclo da Formação – transplantação inicial da língua, que parte da sua área inicial na Galécia Magna
para se derramar pelo resto do território europeu, onde se sobrepõe ao árabe que as populações
reconquistadas falavam.
A partir da introdução de algumas mudanças muito extensas na língua falada no território inicial da
Galécia Magna, língua que, entre os séculos V e VII, era ainda uma variedade de latim oral, o ciclo de
formação da língua decorre entre os séculos IX e XV, na esteira da reconquista do território dos
árabes.
- É neste período que L e N intervocálicos começam um processo de apagamento. Estes dois
fenómenos produziram-se apenas na Galécia Magna e afectaram o latim aí falado, que passou a
distinguir-se do latim falado ao centro da ilha (que daria origem ao castelhano e leonês) e do latim
falado a sul, na Lusitânia.
- Outra mudança de natureza fonética contemporânea das anteriores, afecta as palavras latinas
começadas pelo par de consoantes PL, CL, FL. Estes três grupos consonânticos iniciais evoluem
para o som africado palatal /tʃ/.
O galego-português primitivo, entre os séculos VI e XI, era uma língua que de facto ninguém
escrevia.
Os trovadores – galegos, portugueses e castelhanos – escreviam todos na mesma língua, mas era uma
língua artificial e nao necessariamente a língua em que cada um falava.

4.2. Ciclo da Expansão – o segundo período, do século XV a inícios do XVI, dá-se igualmente para sul
e consiste em um salto para fora da Europa (para a África, Ásia e América). É o período em que a
língua mais radicalmente se transfigura.

O léxico enriquece-se por vários motivos: contacto com línguas exóticas, importação de cultismos
latinos e gregos, adopção do castelhano como segunda língua literária.
Afirma-se um padrão nacional, descrito pelos gramáticos do século XVI e seguintes.
Os dialectos distribuem-se segundo um mapa muito semelhante ao moderno, com um norte
conservador e um centro-sul. Correspondente às terras conquistadas, mais nivelado e modernizado.

4.3. Português extra-europeu:

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1) transportou dialectos de Portugal para territórios como o Brasil, a África e a Ásia e aí teve
desenvolvimentos próprios.
2) ao longo do litoral dos três continentes que visitou, o português associou-se a línguas locais
para produzir pidgins e crioulos, talvez segundo uma matriz única (proto-crioulo português),
o que explicaria semelhanças entre línguas que nunca estiveram em contacto. Esse processo
deu, como resultados modernos, a situação linguística de Cabo Verde, Guiné-Bissau, São
Tomé e certas áreas do Índico e Oceania, onde predominam crioulos de base portuguesa.

4.4. Fontes escritas:

O estudo dos estados passados de uma língua conta com dois métodos clássicos conjeturais:
a) a reconstrução dos estados passados baseada na comparação entre variedades modernas,
deles geneticamente derivadas.
b) A exploração de fontes escritas produzidas na época que é objecto de atenção (textos escritos
por uma variedade de motivos, pragmáticos, espirituais ou artísticos). A partir do século XVI,
com a publicação de gramáticas e outros escritos metalinguísticos em português, a essas
fontes adicionam-se outras que não só descrevem um estado da língua, como são dele
exemplo: funcionam, ao mesmo tempo, como fontes primárias e secundárias.

Desde a formação do galego-português e até ao século XVI apenas fontes escritas primárias
podem documentar o percurso seguido pela língua.

A documentação produzida no território galego-português após a formação do romance, que


pode ser usada como fonte para estudo dos sucessivos períodos da língua medieval, pode ser
dividida em dois grupos:
a) textos não-literários, que são geralmente explícitos quanto ao local e data em que foram escritos
e quanto aos participantes nos diversos locais da sua produção.
b) textos literários.

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Semana 5: Estudio de textos medievales:
“Testamento de D. Afonso II” in Ivo Castro, Introdução à
História do Português (116-128) y ejercicios de Transcripción
Fonética
Testamento de D. Afonso II - Versão em português moderno dos seis parágrafos iniciais:

Em nome de Deus. Eu rei Dom Afonso, pela graça de Deus rei de Portugal, sendo são e salvo,
temendo dia da minha morte, a saúde da minha alma e a prol (= em proveito) de minha mulher
rainha Dona Urraca e de meus filhos e de meus vassalos e de todo o meu diz minha manda (=
mandado, testamento) para que depois da minha morte minha mulher e meus filhos e todas aquelas
coisas que Deus me deu estejam em paz e em folgança (= descanso, tranquilidade). Primeiramente
mando que meu filho infante Dom Sancho que (hei = verbo haver) tenho da rainha Dona Urraca
tenha (agia, haja = verbo haver) meu reino inteiramente e em paz. E se for morto sem semmel (=
sémen, descendência) o maior (= mais velho) filho que houver da rainha Dona Urraca haja o reino
inteiramente e em paz. E se filho varão não houvermos (= tivermos), a maior (= mais velha) filha
que tivermos haja-o. E se no tempo (= momento) da minha morte meu filho ou minha fiha que
dever reinar não houver révora (= não tiver alcançado a puberdade), seja em poder da rainha sua
mãe, e meu reino seja em poder da rainha e de meus vassalos até quando haja révora. E se eu for
morto, rogo ao apostólico (= papa) como padre e senhor e beijo a terra ante seus pés que ele receba
en sua comenda e defendimento (= confiança, proteção, defesa) e seu ... a rainha e meus filhos e o
reino. E se eu e a rainha formos mortos, rogo-lhe e prego-lhe que os meus filhos e o reino sejam em
sua comenda. E mando a dízima dos moravidis (= moeda antiga) e dos dinheiros que me restaram de
parte do meu pai que são (= estão) em Alcobaça ... que seja partido (= repartido) pelas mãos do
arcebispo de Braga e do arcebispo de Santiago e do bispo do Porto e de Lisboa e de Coimbra e de
Viseu e de Lamego e de Idanha e de Évora e de Tui e do tesoureiro de Braga.

(consultado: Danielle da Silva Araújo, “Uma leitura lexico-semântica do Testamento de D. Afonso


II”)

EN’LO - En’o: contracção da preposição latina IN com o artigo O. /no/ < eno < eno < enno >
en’lo < en (e)lo < in illo < in illu: Vejo lo cavalo. (Vogal + L + Vogal).

DEUS: E era aberto por derivar de E breve tónico latino, e as duas sílabas converteram-se numa
através da ditongação do hiato. E + U > E + W.
O vocabulário românico descende normalmente do Acusativo, mas há casos em que estes vocábulos
vêm do Nominativo, do Ablativo e do Genitivo.

EU: /ego/ > /eyɔ/ > /ɛo/ > /ɛ-u/ > /ɛw/. O O /ɔ/ aberto final fechou para /o/ e depois para
/u/, e o hiato evoluiu para um ditongo.

DON: Surge de Dominus, I (senhor). Dominum > domnu > donno > dõno > dõ(no) > dõ.
De Dominum surgiu Dom e Dono / Dona. Ao lado da forma pleno dono (proprietário)
desenvolveu-se com o valor de título de nobreza ou cortesia, sempre antecedendo um nome próprio
a forma /dõ/, obtida por apócope da sílaba final –no.

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GRACIA: /gratia/ > /gratʃa/ > gratsa/ > /grasa/. A grafia <ci> pode ser considerada uma
hipercorrecção, porquanto representa uma consoante cujo étimo é TI, que se confundia com CI.

SEENDO: O verbo SER, em português antigo SEER provem do verbo latino sedere – ser, estar
sentado, estar assente, encontrar-se.

SANO: A grafia <n> não representa uma consoante, mas a nasalidade da vogal anterior,
correspondendo a sua posição a um hiato [sã-u, reĩ-a, dĩ-eiros, mã-us, lisbõ-a, comemoratsõ-es, ũ-a].
Os hiatos nasais entre os séculos XIII e XV foram sendo eliminados assim:
- transformando o hiato em ditongo (uma das vogais transforma-se em semivogal): mã-us > mãos.
- Desenvolvimento epentético de uma consoante entre as vogais em hiato: /ɲ/ após /ĩ/: raĩ-a >
rai-ɲ-a, dĩ-eiros > di-ɲ-eiros, /m/ após [ũ], como ũ-a > u-ma.
- A epêntese de [ɲ] pode ter começado no século XIII. A epêntese de [m] será mais tardia porque a
grafia uma só se generaliza a partir do século XVI e a pronúncia [ũa] continua a ter vida dialectal
hoje em dia.
- A epêntese também pode ser de uma semivogal [j], em casos como CENA > cẽ-a > ce-a > ce-j-a
(CEIA), ou ARENA > arẽ-a > are-a > are-j-a (AREIA).
- Outra modalidade de eliminação do hiato é a crase de duas vogais iguais (DOLORE > door >
dor).

DIA: Diem > diam > dia. No latim vulgar algumas palavras mudaram da 5ª declinação para a 1ª
declinação. Em francês e italiano vingou um outro étimo mais recente: DIURNUM > jour / giorno.

MIA:/mia/ > mɛa > mea > mja > ma. A forma moderna minha supõe /mĩa/, derivada de /mia/
por nasalação progressiva.

meum > mɛ
meam > mĩa > minha
tuum > tɛu > [tɛw]
tuam > > tua
suum > sɛu > [sɛw]
suam > > sua
nostrum > > nosso
vestrum > > vosso
suum > sɛu > [sew]

FILIO: A grafia <li> para a palatal [ʎ], como antes em molier (mulher).

EI: HABEO > abjo > ajo > aj > ej. O verbo haver funcionava ainda como forma plena e com o
significado etimológico de ‘possuir’.

HABEO > ajo > aj > ej


HABES > *has > as
HABET > *hat > a
HABEMUS > avemos (mas também HEMUS > emos)
HABETIS > avedes > aveis (século XVI), mas também HETIS > edes > eis

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HABENT > * HANT – ã > ão (século XVI)

AGIA / AIA: HABEAT > abja > aja > adʒa [haja – presente conjuntivo do verbo haver]

INTEG(RA)M(EN)TE / ENTEIRAM(EN)TE: INTEGRUM > entegro > enteiro. /gr/ >


/jr/. FRAGRARE > flagrar > tʃajrar > tʃejrar [cheirar].

SEGIA / SEIA: SEDEAT > sɛdja > sɛdʒa > sedʒa [seja]

ATA: < árabe HATTA (até que, a fim de que) / > *AD TENUS > *AD TENES > atẽes > atem >
até

BEIGIO / BEIO: BASIUM > bazio > bazjo > bajzo > beijzo > bejʒo [beijo]

IDANIA / TENIO: - IGAEDITANIA > Igetanja > Idanha; - TENEO > tenjo > tenho. Ambos
os escribas representam com a grafia <ni> a palatal nasal [ɲ]. Tal como vimos com a grafia <li>
(filio) ainda não ocorrem no Testamento as modernas grafias para as consoantes palatais.

REGNO / REINO: Embora em castelhano a evolução normal deste grupo fosse igual à
portuguesa (LIGNA > leña e lenha), no caso particular de reino a sílaba inicial manteve-se intacta,
com a semivogal, por causa da associação com rey.

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Semana 6 – Febrero, 26:
Estudio de textos medievales:
“Notícia do Torto” in Ivo Castro, IHP, (130-146)
El portugués médio. (6 págs.)
Notícia do Torto – Tradução de Ivo Castro em Introdução à História do Português e de
Correia de Oliveira e Saavedra Machado, Textos Portugueses Medievais

De notícia do torto (= dano, prejuízo) que fizeram (= fecerũ) a Lourenço Fernandes pelo pacto (ou
contrato – plazo) que fez Gonçalo Ramires entre seus filhos e Lourenço Fernandes pelo qual podeis
(= podedes) saber: teve (ou havia de haver – oue auer) de herança e de bens (erdade e d auer), tanto
como (cada) um dos seus filhos de quanto pudessem ter por bens (= de bona) de seu pai e foram-lhe
fiadores (fiou-lhes, confiou-lhes, entregou-lhes – fio-li-os) seu pai e sua mãe. E depois fizeram contrato (=
plazo) novo e convém saber qual: nele estão (= seem) tais disposições (= firmamentos). Ramiro
Gonçalves e Gonçalo Gonçalves, Elvira Gonçalves foram fiadores de sua irmã para que outorgasse
aquele pacto como eles. Sobre este pacto fizeram seu preito (acordo, contrato = plecto).

Notícia do Torto – Anotações de Ivo Castro

Um inventário exaustivo de grafias revela a existência de cinco ditongos, todos decrescentes: [ew]
[ow] [ej] [oj] [uj].

- O ditongo [ew] tem sempre a grafia <eu>


- O ditongo [ow] tem quatro grafias: <ou> (Lourẽzo), <ov> (custov), <oc> (octra, mãdoc),
<o> (fio, otra, troserũ)
- O ditongo [ej] é representado por quatro grafias: <ei> (beiso), <ec> (plecto, rec), <ee>
(Figeerecdo), <e> (lexare)
- O ditongo [oj] tem três grafias: <oi>, (pois), <o> (pos), <ui> (fui)
- O ditongo [uj] tem duas grafias: <ui> (muita), <uc> (fructu)

A forma depos pode ser interpretada de duas formas: ou como correspondendo a uma pronúncia não-
ditongada [pɔs], etimologicamente justificada (<POST), ou corresponde a ditongo, sem amrcação de
semivogal.

Não há, na Notícia do Torto, representantes dos restantes ditongos decrescentes do português antigo
[aj] [aw] [iw].

[w] <u>, <c>, <Ø>, <v>


[j] <i>, <c>, <Ø>, <e>

Há uma oscilação quanto aos som no par f/v que denota a dificuldade em distinguir dois fonemas
que são separados apenas pelo traço de sonoridade (ambas são fricativas labio-dentais, F não-
vozeada, V vozeada).

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O escriba mostra ainda mais dificuldades em representar a africada [tʃ]. Produto exclusivamente
galego-português representante de PL, CL, FL, não dispunha esta africada palatal surda de qualquer
grafia latina ou tradicional e o escriba não conhecia as soluções que, na mesma época, eram ensaiadas
pelos copistas do Testamento de Afonso II (CH e CI). Por isso, limitou-se a tomar emprestadas as
grafias que conhecia para a africada sonora correspondente [dʒ], ou seja <g> e <i>.
<g> agudas, getarũ
<i> iuizo, aiuda, ueriar (horto, pomar)

Consonantismo:

O Português Antigo possuía quatro consoantes africadas que desapareceram pouco depois, com
excepção de uma, a africada palatal surda [tʃ] que permaneceu na língua da capital até ao século
XVIII e ainda hoje tem expressiva existência no Nordeste continental, pela sua grafia <ch> da
fricativa palatal correspondente [ʃ], grafada <x>. Possuía também duas fricativas ápico-alveolares,
grafadas <s> ou <ss>, que sobrevivem nos dialectos da mesma região, mas desapareceram no sul do
país pelo século XVI; em compensação, não havia ainda as duas fricativas predorsi-dentais que
resultariam da simplificação das africadas correspondentes, a que pertenciam as grafias <c>, <ç>,
<z>. A vibrante múltipla [R] tinha uma articulação ápico-alveolar que durou muito tempo na língua,
mas hoje se encontra no grupo etário mais elevado da pronúncia padrão.

44
Vocalismo:

- Vogais Tónicas:

O sistema do vocalismo tónico português do século XIII era exactamente igual ao do baixo latim,
constituído pelas sete vogais resultantes da perda da distinção de quantidade, e da sua compensação
com dois graus de abertura para os timbres [e] e [o]. Todas essas vogais sobrevivem em português
moderno, acrescentadas por um [ɐ] fechado, de fraca produtividade (alternâncias vocálicas cantamos
/ cantámos) e não reconhecido por alguns dialectos continentais, nem pelo português brasileiro.
Certas vogais tinham uma distribuição diferente da moderna. Assim, palavras como maior ou fremosa
não continham [ɔ] como hoje, mas antes a vogal fechada correspondente [o]. E palavras como eu,
Deus, judeu tinham uma vogal aberta [ɛ].

- Vogais Átonas (não finais):

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O sistema medieval assemelha-se muito ao brasileiro, conservando os cinco timbres básicos [i], [e],
[a], [o], [u]. O português europeu moderno contraste em não possuir as três vogais [a] aberto, [e] e [o]
fechados, e em possuir a mesma vogal fechadas [ɐ], que figura no sistema tónico, e ainda uma vogal
muito elevada [ɨ] e que por razões de prosódia é omitido frequentemente: [ʃpiritu] em vez de
[ɨʃpiritu] ou [pdidu] em vez de [pɨdidu]. Esta vogal é o resultado europeu da elevação e centralização
do desaparecido [e], enquanto [u] ocupa hoje a distribuição que tinha na Idade Média, acrescida da
que pertencia ao desaparecido [o].

- Vogais Átonas (finais):

No português antigo o sistema das vogais átonas era idêntico, quer em posição final, quer em
posição não final – sempre [i], [e], [a], [o], [u] – verifica-se que em português moderno apenas três
vogais podem encerrar vocábulo – [ɨ], [ɐ], [u], com exclusão de [i].

- Vogais Nasais (não finais):

Se as vogais nasais são as mesmas das do português moderno – ɐ̃, ẽ, ĩ, õ, ũ – a sua distribuição é
diferente. As vogais [õ] e [ĩ] podiam ocorrer em hiato, o que hoje é impossível: bõa, lĩo, vĩo. Além
disso, devia haver muito mais vogais nasais antes de consoante nasal (dõna).

- Vogais Nasais (finais):

Os actuais [ã] e [õ] ainda não eram finais, pois encontravam-se em hiato (lã-a, bõ-o); em
compensação, eram finais em palavras de que hoje estão ausentes (pã, cã, leõ, coraçõ, fezerõ), por
terem sido substituídos pelo ditongo [ɐ̃w]. Também o [ẽ] final do português antigo desapareceu,
sendo substituído pelo ditongo [ẽj] (ou [ɐ̃j] na pronúncia padrão).

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Os seguintes textos são extraídos de: Amini Boainain Hauy, História da Língua Portuguesa – I - Século
XII, XIII e XIV.

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1. Português Médio (do século XIV ao século XV)

O português médio tem sido encarado como um período, que não excede a primeira metade do
século XV, que faz a transição entre o português antigo e o clássico, uma longa transição da língua
medieval durante a qual coexistem as formas e os tratamentos próprios da etapa anterior com formas
e tratamentos que já anunciam o português do período clássico.
Este período corresponde à época em que os filhos de D. João I já eram adultos, tinham uma
influência decisiva em vários aspectos da vida do país e, sendo vários deles homens de letras,
ajudaram a criar uma nova língua literária, libertada do tecto galego-português e emancipada da antiga
língua dos Cancioneiros.

Com o advento da dinastia de Avis, que afastou do poder a antiga nobreza de base setentrional,
Lisboa (ou melhor: o eixo Coimbra-Lisboa-Évora) ganha verdadeiramente estatuto de capital da
nação. Em Lisboa está o Rei, a Corte, o poder e o comércio; para Lisboa convergem as populações,
os interesses; de Lisboa sairá o movimento expansionista dos Descobrimentos.

Norte e Sul opunham-se, em consequência das estratégias da Reconquista e do Repovoamento: um


Centro-Sul moçárabe, reconquistado e colonizado, de população rarefeita, demarcava-se de um
Norte-Noroeste estável e densamente povoado, românico, de organização antiga.

A língua dos reconquistadores, com formas típicas do norte, impôs-se a sul do Tejo mas a
colonização de uma região cuja configuração geográfica, menos montanhosa que a norte, tornava
fáceis as comunicações, estabeleceu entre populações de origens e falares variados uma íntima
convivência que conduziu a um nivelamento dialectal que se pode aproximar dos fenómenos de
koinê (primeiro dialecto supra-regional do grego antigo).

2. Mudanças linguísticas:

O fenómeno balizador é – para Bechara – a síncope do D intervocálico na desinência da 2ª pessoa


plural dos verbos (estades > esta-es, vendedes > vende-es) seguida da resolução do encontro vocálico assim
criado, geralmente por meio de uma ditongação (estais, vendeis), embora uma outra solução (vendês),
resultante da crase das duas vogais, tenha sido experimentada durante algum tempo e pareça subsistir
a nível dialectal.
Esta síncope não é um fenómeno geral, mas condicionado morfologicamente, pois não ocorre em
outros contextos (como, por exemplo, substantivos como vontade ou os particípios passados
terminados em ado, ido, udo).

Havia um T intervocálico na terminação da segunda pessoa do plural de todos os tempos do latim


clássico na voz activa, salvo no pretérito perfeito. Esse T se tornou e permaneceu D por vários
séculos no português arcaico (amabatis > amavades). No futuro do conjuntivo e no infinitivo pessoal,
deixou de ser intervocálico, pela queda da vogal postónica da penúltima sílaba, e continua
sobrevivendo (feceritis > fizerdes). Nos outros oito tempos, caiu (amavedes > amáveis).

Uma manifestação muito interessante desta substituição das formas plenas pelas formas sincopadas
foi descortinada por Leite de Vasconcelos no Leal Conselheiro, composto, como se sabe, entre 1428 e
1438: D. Duarte usa geralmente as formas sincopadas (filhay, dizee, fazees, queiraes), excepto quando
transcreve com escrúpulos de fidelidade textos mais antigos, onde mantém verbos como fazede,
convertede, arredade.

52
Quando Gil Vicente colocou na boca de comadres e de velhos formas como estade, embarcade,
amanhade, a par de outros tipos de arcaísmos, estava certamente a identificar e a caracterizar, por via
linguística, uma realidade humana cada vez mais afastada dos usos linguísticos da capital. Arcaísmo
em relação a alguns dialectos, mas não a todos: um jovem estudante de Moimenta da Beira, no norte
de Portugal, foi ouvido há pouco tempo a usar a forma verbal passaides. Esta forma é uma
contaminação de passais (2ª pessoa plural) com o antigo passades, que a alguém terá ouvido no
ambiente muito conservador em que vive.

2.1. Eliminação de hiatos:

Outra mudança é a eliminação de grande parte dos encontros vocálicos (hiatos) surgidos no período
formativo da língua devido à síncope de L e N intervocálicos, fenómeno privativo do português
antigo, a que se somam outras síncopes anteriores, de carácter pan-românico, como as de D e G
latinos (lampada > lampaa > lampa; legale > leal), além dos novos hiatos criados precisamente nessa
altura pela evolução do D da 2ª pessoa plural.
A eliminação dos hiatos foi sendo feita ao longo de todo o século XIV por três processos:
1) monotongação – crase das duas vogais numa única (dolore > do-or > dor);
2) ditongação – quando uma das vogais era susceptível de se converter em semivogal (malu > ma-o >
mau; salit > sa-e > sai; gelulla > go-ela > goela; volare > vo-ar > voar; venatu > ve-ado > veado; peduc’lu > pe-
olho > piolho);
3) epêntese – de uma consoante intervocálica (vinu > vi-u > vinho, una > u-a > uma; gallina > gali-a >
galinha; nidu > ni-o > ninho) ou de uma semivogal (ceia; tela > te-a > teia; sinu > se~-o > se-o > seio; frenu
> fre~-o > fre-o > freio).

2.2. Unificação de terminações nasais:

Um dos novos ditongos mais interessantes foi aquele que resultou de hiatos como mã-o (<manu). Ele
viria a ter um papel decisivo em outra das transformações deste período: a unificação, precisamente
em –ão, de diversas terminações nasais de substantivos singulares e de verbos, que provinham de
uma grande quantidade de sufixos desinenciais latinos e que, devido a um processo de condensação
que decorrera durante o português antigo, se achavam reduzidas a apenas duas: ã e õ. É assim que
palavras como leõ ( leão) e cã (cão) acabam a rimar com mão, apesar da flutuação gráfica que durante
algum tempo ostentaram.
É de finais do século XV que se uniformiza por completo no ditongo ão as formas terminadas nas
vogais nasais ã e õ ou no hiato ã-o. Este processo começou no século XIII e terá começado pela
ditongação de ã final, que aparece já nos cancioneiros trovadorescos a rimar com ão: foã (do árabe
folan, que também deu fulano) e em vão podem rimar.

latim port. antigo port. médio


AM -ã - ão
ANT -ã - ão
ANE -ã - ão

UM -õ - ão
UNT -õ - ão
ONE -õ - ão
UDINE -õ - ão

53
ANU - ã-u - ão
ADUNT - ã-u - ão

2.3. Sibilantes:

Em todo o país, no século XV, prevalecia o sistema de quatro sibilantes (duas predorso-dentais,
representadas na escrita por <c>, <ç> e <z>, e duas ápico-alveolares, representadas por <s> e
<ss> que ainda hoje encontramos nos dialectos do Nordeste.

2.4. Género:

O desaparecimento do género neutro latino no romance implicou a absorção das formas terminadas
em –o (ou –u) no género masculino e das formas terminadas em –a no feminino. Mas os substantivos
que terminavam em outra vogal ou em consoante, ou tinham mais de um género em latim,
originaram oscilação na escolha do género. Essa hesitação reflecte-se não só na diferente escolha de
género em romances diversos (leite), mas também dentro de cada romance. Nomes como fim, mar,
planeta, aleijão, eram femininos no português arcaico; linhagem era masculino. Os quatro primeiros são
agora masculinos e o último feminino.

Dos biformes, alguns vieram a tornar-se uniformes (firme < fermo < firmu; contente < contento < contentu).
Alguns substantivos e adjectivos invariáveis tornaram-se biformes: é o caso dos terminados em –or, -
ol, -nte e –ês. A formação destes femininos começou muito cedo mas não se terá generalizado até ao
século XVI.

Quanto aos nomes terminados em –agem, deduz-se da descrição da gramática de Fernão Oliveira que
o género feminino era já regra no século XVI.
Nomes como amor, dor, louvor, suor, planeta, chave, apresentam já o género que têm actualmente.

Da análise de documentos pode concluir-se que durante a primeira metade do século XV, e ainda
depois, o género de alguns destes nomes não estava ainda definido. Sirvam de exemplo as variações
contente / contento / cõtenta e a fim / o fim, registadas nessa época.
No que diz respeito aos nomes terminados em –or, a forma senhora parece ter sido determinante,
como precursora, da evolução que consistiu na adjunção de –a para marcar o feminino. Pode pensar-
se na hipótese de a adjunção de –a ter-se iniciado em forma tão frequente na língua como senhor /
senhora e que essa forma, precisamente pela sua frequência, possa ter contribuído para a expansão do
fenómeno a nomes do mesmo tipo. Um caso de analogia, portanto.
E um caso de analogia poderá ser, também, a influência analógica exercida pelas raras formas
portuguesas, femininas, em –agem (< latim. – aginem) sobre as formas masculinas em –age (importadas
do francês ou provençal, e representantes do sufixo latino -aticum) que terá mudado o género destas
palavras.

2.5. Léxico:

O século XV assistiu à chegada do Renascimento, enquanto tomada de contacto com a literatura


clássica, lida directamente e servindo de inspiração cultural e também linguística.
Um resultado quase imediato foi a entrada maciça de empréstimos lexicais tomados ao latim literário
(e através dele ao grego) e injectados no léxico português.

54
Detecta-se algum contraste entre a atitude dos renascentistas do século XV, preocupados em
explorar as possibilidades de adaptação da língua portuguesa a novas realidades conceptuais e
expressivas, e a dos autores do século XVI, que não hesitavam em importar latinismos intactos.

2.6. Conclusão:

O número de formas verbais contendo –d- na 2ª pessoa plural passou a ser inferior ao das formas
com essa consoante intervocálica sincopada, e nunca mais parou de diminuir
Os particípios passados terminados em –udo, típicos do português antigo, coabitam durante a
segunda metade do século XIV com particípios terminados em ido, que são em número muito
inferior (temudo / temido). No século XV, estas formas em ido, começam a aumentar de número,
enquanto as formas em udo se tornam cada vez mais raras; as formas em ido passam de minoritárias a
maioritárias no segundo quartel do século XV, ou seja, em simultâneo com o predomínio da síncope
de d.

É a elaboração do português do século XV que permitirá a sua gramaticalização a partir do século


seguinte. Assim, o português médio, mais do que ‘período de transição’, pode definir-se como um
‘período de transição’, pode definir-se como um ‘período crítico’, crucial na história da língua
portuguesa.

55
Semana 7: Estudio de textos de portugués medio
Textos de: Dulce de Faria Paiva, História da Língua Portuguesa, II - sec. XV e meados dos século XVI.

56
57
58
59
60
J. J. Nunes “Textos Antigos Portugueses” in Revista Lusitana. 1918, nº 21, dirigida por J. Leite de
Vasconcelos. Lisboa: Livraria Clássica Editora

Regra de S. Bento: é um texto normativo que rege a vida nas comunidades monásticas tanto da
ordem de São Bento, como de Cister. Foi escrita pelo fundador no monaquismo ocidental, São
Bento de Núrsia (480-543), e teve numerosas cópias durante a Idade Média, algumas das quais
chegaram a Portugal. (Ivo Castro)
O seguinte excerto é o da edição de meados do século XV (BN, Alc. 44) publicada na Revista
Lusitana.
Em seguida apresentam-se as variantes da BN, Alc. 14, do século XIII-XIV (representante do
‘português antigo’), da BN, Alc. 231 (1414-1427, representante do português médio) e da IAN/TT
(1565, representante do português clássico) assim como os comentários de Ivo Castro às três
versões.

61
Português Antigo

Do seenço

Façamos o que diz o propheta: (1) Dixi: guardarey as mhas carreyras, que (3) nõ peque na (2) mha
ligua; (1) pugi a mha boca guarda; amudici e sõo homildado e caley-me das bõas cousas. Aqui
demostra o propheta: se das bõas falas aas uezes espões o ceẽço deue calar, quãto mays das (4)
paravras maas espões a pẽa do pecado deue cessar? Ergo, pero que das bõas cousas e santas e dos
eyuigamẽtos das falas, ous dicipulos perffeytos, espões a grauidade do ceẽço, rara lecẽça seia
outorgada de falar, (5) ca escrito he: In muyta fala nõ seerá fugido o pecado. De mays: A morte e
vida nas mãos da lingua. A certas falar e ĩsinar cõuẽ ao maestre, calar e oouir conuẽ ao dicipolo. E
(7) porẽ, se algũas cousas son a demãdar do priol, cũ toda homildade e sugeyçõ de reuerẽça seiã
demãdadas.

Português Médio

Do silencio

Façamos aquello que diz o propheta: (1) Disse: eu guardarei as (2) minhas carreyras que (3) nõ
peque na minha lingua; (1) puse guarda aa minha boca, fize-me mudo e humildey-me e caley-me de
falar as boas cousas. En estas (4) palauras nos demostra o propheta que, se algũas uezes por amor e
guarda do silençio nõ deuemos de falar nẽ dizer as boas cousas, quanto mays deuemos de cessar e
calar-nos das maas palauras porla pena do peccado? E por esto aos discipulos perfeytos por graueza
e peso, por guarda do calar poucas uezes lhes seja outorgada lecença de falar, ajnda que queyram falar
de boas cousas e santas e de edificaçõ, (5) por que scripto he: En no myto falar nõ poderás fugir nẽ
scapar de peccado. E en outro logar diz a escriptura: A morte e a uida (6) sta nas mãaos da lingua,
conuẽ a ssaber, no calar e falar das maas cousas e das boas. Caa ao meestre soo conuen e perteece
falar e ensinar e ao discipulo ouuir e calar. E (7) porẽde, se o discipulo quiser demandar e preguntar
algũas cousas, pregunte-as e demande-as ao prior cõ toda humildade e sugeyçõ de reuerença.

Português Clássico

Do silencyo

Façamos aquillo que diz o propheta. (1) Dysse. Eu guardarei as (2) minhas careiras, que (3) não
peque na minha lingoa. (1) Pus guarda aa minha boca. Fizme mudo e humildeime, e caleime de falar
as boõas cousas. Em estas (4) pallavras nos demostra o propheta. Que se algũas vezes por amor e
guarda do silençio. Não devemos de falar nẽ dizer as boõas cousas quãto mais devemos de çessar e
calarnos, das máas pallavras polla penna do peccado? E por ysto aos disçipolos perfeitos. Por graveza
e peso e por guarda do calar. Poucas vezes lhes seja outorgada licença de falar, ainda que queirã falar
de boõas cousas e sanctas e de e[di]ficação. (5) Por que scripto he. Que em o muyto falar. Não
poderas fugir nẽ escapar de peccado. E em outro luguar diz a escriptura. A morte e a vida. (6) Estáá
nas maãos da linguoa. Ss. No calar e falar. Das máas cousas e das boõas. Por que ao mestre soo cõvẽ
e pertençe falar, e ensinar. E ao disçipolo. Ouvyr e calar. E (7) porẽ se o disçipolo quiser demãdar e
preguntar algũas cousas, pregunteas e demandeas ao prior. Com toda humildade e sugeyção de
rreverẽçia.

62
(1) Dixi / Disse / Dysse e Pugi / Puse / Pus

É a partir do século XV que as flexões verbais se regularizam e ganham a forma moderna.


O grafema <x> que correspondia em latim ao som [ks] que evoluiu para a sibilitante apical surda [ʂ]
– dixit > disse, como para a palatal [ʃ] grafada <x>, convivendo as formas disse e dixi até ao século
XVI.
Pugi: parece ser uma forma irregular, explicável por analogia. A evolução normal foi POSUI > posi >
puse > pus.

(2) Mha / minha: mea > mɛa > mea > mia. A evolução deste possessivo tomou no português
antigo duas direcções divergentes, condicionadas pela posição ocupada. Em próclise, mia passou de
dissílabo a monossílabo com semivocalização da vogal palatal [i > j], que depois sofre síncope: mia >
mja > ma. Esta forma extinguiu-se no século XV. Em outras posições, o [i] de mia tornou-se tónico
e nasalou por assimilação progressiva, como aconteceu com mãe e com muito; em seguida, o hiato foi
resolvido por epêntese da consoante nasal palatal [ɲ]: mi-a > mĩ-a > miɲa. Assim se obteve a forma
moderna do possessivo. Segundo Houaiss a forma minha surge no século XIV.

(3) Nõ / não

É de finais do século XV que se uniformiza por completo no ditongo ão as formas terminadas nas
vogais nasais ã e õ ou no hiato ã-o.

(4) Paravras / Palavras

Segundo Ramón Lorenzo, o latim PARABOLA teve duas evoluções em galego e português:
PARAVOA > PARABLA > PARAVLA > PALAVRA. A etapa PARAVLA teve uma variante
PARAVRA devido à fáci permuta de articulação das líquidas L / R.

(5) Ca / por que

No português antigo há dois ca: o causal (= QUIA > qua > ca – porque) e o comparativo (QUAM <
qua < ca – do que). A conjunção causal porque, formada a partir de por + que substituiu ca.

(6) Sta / Estáá

A forma está exibe o protético E que foi adquirido pelos vocábulos portugueses cujos étimos latinos
eram iniciados por S + consoante como scriptu (escrito), studiu (estudo), sperare (esperar). A
duplicação de A é a indicação de que a vogal é tónica e aberta.

(7) Porẽ / Porẽde

Trata-se da conjunção consecutiva, do latim PRO INDE, que significava ‘por isso, por esse motivo’ .
A forma plena porende era substituída, em substituição de próclise, pela forma apocopada poren.
Ambas são contemporâneas e perduraram em toda a Idade Média. Modernamente, existe apenas
porém com conjunção adversativa, ‘contudo, todavia’, tendo adquirido esse valor no século XIII.

63
Semana 8: Examen parcial 1

64
Semana 9: El portugués clásico y moderno
1. Português Clássico (século XVI)

A inauguração do português clássico pode ser assinalada pela publicação da primeira gramática da
língua, escrita em português.
A representação do último auto de Gil Vicente (Floresta de Enganos) e a morte de Garcia de Resende,
tudo em 1536, são acontecimentos que marcam a retirada de duas das mais importantes personagens
vinculadas à língua literária de época pré-clássica.
O funcionamento do último ano lectivo da universidade em Lisboa (1536-37) e a sua instalação
definitiva em Coimbra (1537) significam ter sido encerrado um ‘baluarte de escolasticismo e de
preconceito medieval’.
A universidade de Coimbra será, até ao final da monarquia, em 1910, a única universidade
funcionando em Portugal e formando as elites não só da metrópole, como também das colónias. Ao
contrário, Espanha criou niversidades em Lima e no México logo em 1551.

1.1. Eliminação de D intervocálico

Para efeitos de periodização, podemos assumir que o português clássico começou quando começou
quando morreram os últimos falantes que diziam olhade, queredes ou cobride. E estes morreram com Gil
Vicente. (Ivo Castro)

1.2. Verbo ser

Um outro traço que caracteriza o estado da língua em Portugal no início do século XVI é a variação
entre formas antigas e modernas para a 1ª pessoa singular do presente do indicativo do verbo ser:
- a forma latina sum, o qual foi afectado pela concentração das terminações nasais em ão e passou a
ser grafado como são e como sam, ambas as grafias correspondendo ao ditongo nasal. Todas estas
formas enfermavam de um problema, que não existira na flexão latina: colidiam homonimicamente
com a 3ª pessoa plural, derivada de sunt. Daí a necessidade de encontrar alternativas, através de
formas analógicas: sou (por influência de estou) e sejo (de seja). Finalmente, temos uma forma grafada so
ou soo, resultante da desnasalação de som ou, mais provavelmente, representando a pronúncia
meridional, monotongada, de sou. Assiste-se, de uma forma generalizada, ao declínio da forma antiga
(som) e ao predomínio da forma média (são), em disputa com a forma moderna (sou).
Ainda sobre o verbo ser, a meados do século XVI – diz Rosa Virgínia Mattos e Silva – o verbo ser
deixa de ter o traço semântico de transitoriedade. A variação ser / estar, expressando a
transitoriedade, pode ser vista já documentada no Testamento de Afonso II onde surgem: “Eu rei don
Afonso (...) sendo sano e saluo” e “e todas aquelas cousas que Deus mi deu em poder sten em paz”.

1.3. Verbo ter e haver

A exclusão de ser, na expressão da transitoriedade, e o de haver, na de posse, podem ser indicadores


linguísticos que marcam 1540 como um forte candidato para, juntamente com outros indicadores
intralinguísticos e extralinguísticos, delimitar os finais do período arcaico da língua portuguesa.
Dividindo as possibilidades de objeto possuído em propriedades inerentes (PI), ceguidade, cinquenta
anos, em propriedades adquiríveis imateriais (PAI), graça, poderio, fé, ira, e em propriedades adquiríveis
materiais (PAM), remédio, mezinhas, carneiros, ovelhas, Virgínia Mattos e Silva chega às seguintes

65
percentagem de utilização dos verbos ter e haver. Enquanto no caso das PAM a utilização
maioritária do verbo ter dá-se no século XIV, no caso das PAI em 1500 o verbo ter ainda só tem
uma percentagem de 55% e só em 1540 sobe para 95%.

Para a mesma autora, Virgínia Mattos e Silva, há uma evolução ao nível dos verbos existenciais. No
período arcaico (ou antigo) do português mostra que concorriam nesse contexto os verbos ser e
haver. Ser, existencial, continua o uso latino do verbo esse. Contudo, já no chamado latim vulgar
habere, verbo de posse no latim padrão, está documentado nos séculos IV e V como existencial.
No século XIII esta autora encontrou a predominância de ser como existencial (ser, 56%, haver,
44%), ser em textos legais, haver em textos literários (Cantigas de Santa Maria).
Ao findar o século XV, na Carta de Caminha encontrou apenas haver como existencial e uma
ocorrência em que já o verbo ter pode ser interpretado como existencial e que a autora encontra
mais abundantemente em João de Barros. Na análise do conjunto da obra pedagógica e da Primeira
Década de João de Barros, Mattos e Silva verifica que nas 89 ocorrências de contextos ‘existenciais’
predomina, tal como no período arcaico, o verbo haver, verbos existencial preferencial; o
etimológico, provindo do latim padrão, ser, ainda ocorre com baixa frequência de uso, 6 vezes. O
inovador ter aponta em quatro ocorrências que a autora interpreta como existencial.

2. Fonética do português do século XVI

2.1. Simplificação das sibilantes

A principal mudança de natureza fonológica que marca o português do século XVI é a simplificação
do sistema de sibilantes. A este respeito Teyssier afirma que o português clássico ainda encontra um
sistema de quatro sibilantes (ts, dz, ʂ , ʐ ).
Só por volta de 1550, os textos começam a revelar com frequência hesitação na representação gráfica
do ponto de articulação: a apical e a predorsal sonora permutam entre si as grafias <s> e <z>,
enquanto as suas correspondentes surdas compartilham as grafias <ss> e <c> ou <ç>.

2.2. Distinção entre /b/ e /v/

A confusão entre b e v tem um território limitado aos dialectos do norte e centro de Portugal e uma
cronologia que, na escrita, apenas se começa a manifestar no final da Idade Média, o que sugere um
fenómeno de desenvolvimento tardio. Enquanto nos dialectos portugueses do sul, e talvez no
romance moçárabe que lhes serviu de substracto, havia desde o latim vulgar uma clara distinção entre
dois fonemas, a oclusiva bilabial sonora <b> e a fricativa labiodental igualmente sonora <v>,
distinção consagrada na escrita, onde <v> e <b> nunca se confundem, no norte de Portugal, e no
resto de Espanha setentrional, a posição de <v> era ocupada por uma bilabial fricatizada <b’>, que
facilmente se confundia com a oclusiva <b>, especialmente em posição intervocálica, e que está na
origem da confusão fonética e gráfica.

66
2.3. Vogais no português quinhentista

O sistema de vocalismo tónico do português quinhentista incluía ainda as sete unidades distintivas
que conhecem dos períodos anteriores: < i, e, ɛ, a, ɔ, o, u>. A vogal central <ɐ> ainda não adquirira
pertinência distintiva.
O vocalismo átono não final apresentava um conjunto de fonemas superior ao do português antigo.
A par das vogais antigas, havia novas vogais resultantes das crases anti-hiáticas, bem como o
desdobramento em duas da vogal <a>. E ainda não tinha ocorrido a elevação de e e de o.
Merecem particular atenção os casos de pregar e morar, cujas vogais pré-tónicas sofreram uma
elevação para /ɨ/ e /u/ respectivamente, elevação que se deu na totalidade do território português.
- a conservação das átonas não elevadas no português do Brasil e nos crioulos de base portuguesa
parece sugerir que, pelo contrário, as duas vogais não sofreram alteração até muito tarde,
possivelmente até das maciças deslocações de colonos portugueses para o Brasil, ordenadas pelo
marquês de Pombal. É convicção de Teyssier que a elevação das vogais pré-tónicas mediais se
generalizou no português europeu durante a segunda metade do século XVIII, mas diversos casos
mostram de a elevação de e e o já na primeira metade do século XVII.

3. As conjunções no século XVI - Therezinha Mello Barreto

4. Clíticos:

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- no português antigo: na oração principal o clítico é adjacente ao verbo e tanto pode estar em próclise
como em ênclise, mas a ênclise é mais frequente; na oração subordinada o clítico está sempre em próclise.
- no português médio: na oração principal a próclise torna-se mais frequente; na oração subordinada verifica-se
sempre a próclise.
- no português clássico: na oração principal a próclise é a posição quase única; na oração subordinada,
mantém-se a situação dos períodos anteriores (próclise).
- no português moderno: na oração principal não havendo proclisadores torna-se obrigatória a ênclise; na
oração subordinada, mantém-se a situação do período anterior (próclise).
A inversão da tendência dominante a favor da próclise ocorre durante a primeira metade do século XV
e coincide com todas as importantes mudanças linguísticas que levaram Esperança Cardeira a falar de
‘crise’.

Estudo de Textos:

Notas de Ivo Castro à carta do Duque de Bragança

Todas as sibilantes são etimológicas, não se mostrando ainda a forte variação gráfica que
caracterizará tempos futuros. O grafema <s> simples pode servir à representação da sibilante surda,
mesmo em posição intervocálica: vosa, pesoa. O grupo SC constituído por uma apical seguida de uma
predorsal, sofreu assimilação do primeiro grupo consonântico ao segundo em acrecente (< acrescente);
dito de outra maneira, devido á proximidade, a apical igualou-se à predorsal e fundiu-se com ela. Em
posição inicial (SCIENTIA > ciência), as coisas ficaram assim. Masem posição medial, o S havia de
ser restaurado no quadro da relatinização ortográfica sdvogada pelos gramáticos quinhentistas; esta
restauração que se pretendia meramente gráfica, convivendo as grafias cultas (acrescente, digno) com as
pronúncias tradicionais correspondentes (acrecente, dino) fez reaparecer a pronúncia moderna de digno e
se tornou a ouvir um S antes do C, um S predorsal como a sibilante seguinte e não mais apical. O
regresso de certas cultismos gráficos à esfera do oral, acrescenta Ivo Castro, não foi instantâneo, e na

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primeira metade do século XVIII ainda e encontra variação. Na 1ª edição da Fénix Renascida (vol. II,
1717), encontramos crecido e decera, enquanto na 2ª edição (1746) está crescido e descera. Mas no vol. III
da mesma colectânea poética é a 1ª edição qu tem desça, enquanto a 2ª tem deça. Nada garante que o S
restaurado já fosse lido, pois os dados da Fénix mostram claramente qu o G restaurado não era lido.
No vol. III, 2ª edição, aparecem estes versos:

Juntou em digno corpo alma mais dina,


Como em fino metal pedra mais fina,

Em que a rima final dina / fina responde à questão, ao mesmo tempo que a associação digno / dina
não é prejudicada pelo G. A Féneix oferece ainda outras rimas análogas: dino, palestino; benigno, Trino.
E jaço, 1ª pessoa do presente indicativo de jazer, temos a forma medieval derivada regularmente de
IACEO, que já teria então sabor de arcaísmo, sendo substituída por jazo, em consonância analógica
com o radical da restante flexão (jazes, jaz, jazemos, jazeis, jazem).

Um duelo na praia e notas de Ivo Castro a um fragmento

O seguinte texto é retirado do livro de Ivo Castro, Introdução à História do Português (204-208) e é uma
narrativa publicada por Christopher L. Lund em Anedotas Portuguesas e memórias biográficas da Corte
Quinhentista. Ela figura numa miscelânea manuscrita de memórias e anedotas que, segundo o editor,
deve ser uma cópia feita nas primeiras décadas do séculoXVII.

A escrita é relativamente sistemática: taes, queiraes, iguaes são a representação geral do ditongo [aj],
enquanto o ditongo final [ɐ̃w] é sempre grafado <aõ>, independentemente do étimo ou da
tonicidade: pode ser tónico, como em Pantaleaõ, puxaõ, mas também átono, como em meteraõ, levaraõ,
podiaõ. Estão, pois, regularizadas mudanças que vinham do português médio. Em compensação, o

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artigo indefinido feminino huã não apresenta a forma moderna uma, pelo que poderá corresponder
ainda a uma pronúncia em hiato, que aliás não desapareceu em certas variedades do português.
Quanto à elevação do vocalismo pré-tónico, as formas jugador (de jogo), jugando, descuberto, Juzue
parecem demonstrar que este já estava a ocorrer neste momento.
A língua falada nos ambientes mais cultos e citadinos perdera completamente a distinção entre
apicais e predorsais, de modo que as grafias dos dois tipos de sibilante se confundem com grande
facilidade. As trocas mais frequentes dão-se dentro do mesmo grau de sonoridade; assim:
a) a apical sonora é representada pelo grafema predorsal sonoro: dezafio (desafio), dezejozo (desejoso),
quizece (quisesse), caza (casa);
b) a apical surda é representada pelo grafema predorsal surdo: calouce (calou-se), detendoce (detendo-
se), dice (disse), descançareis (descansareis) paçar (passar), preça (pressa).
O movimento mais frequentemente observado é o de grafias predorsais ocuparem o lugar das apicais
etimológicas, mas há também sinais do movimento inverso em posição final: jas (por jaz), tres (por
trez), rapas (por rapaz), ves (por vez, grafia que também ocorre). Aqui, é um grafema <s>, apical de
origem, que substitui a predorsal etimológica. Trata-se do fonema que, no século seguinte, sofreria
palatalização em posição final de sílaba, mas aqui o caso é outro. A troca Z > S não ocorre em todas
as posições implosivas, mas apenas em final de vocábulo e é indiferente ao contexto proporcionado
pelo som seguinte.

Semana 10: Primeras descripciones gramaticales del portugués:

70
Mattos e Silva, Notas sobre avaliações linguísticas nos gramáticos Fernão de
Oliveira e João de Barros (44-60) Fenómenos más recientes.

1. Primeiras reflexões linguísticas da língua portuguesa: Fernão de Oliveira e João de Barros

Fernão de Oliveira, prioritariamente descritivista, no sentido que lhe dá a chamada Linguística


Moderna, como demonstra Eugenio Coseriu no seu estudo já clássico sobre esse gramático (…).60).
João de Barros, decididamente “preceitivo”, ou prescritivo, como se pode ver no prólogo de sua
Gramática.
Fernão de Oliveira nasce em 1507 e morre em 1580 ou 1581.
, vivendo ambos a sua maturidade no reinado de D. João III
Fernão de Oliveira: nasce em Aveiro (no limite norte dos ‘dialectos meridionais) em 1507, mudando-
se depois para o Alentejo, para a corte lisboeta e para Palmela, além de ter viajado por outras terras,
morrendo em 1580 ou 1581.
João de Barros: nasce em 1496 e falece em 1570 ou 1571. Nasce em Viseu (na Beira Alta), em área
dos ‘dialectos setentrionais’ de Portugal, e vive posteriormente em Lisboa.
Fernão de Oliveira e de João de Barros adquiriram o seu vernáculo ou “dialeto de casa”, o primeiro
no limite norte dos “dialetos meridionais” de Portugal e o segundo, em área dos “dialetos
setentrionais”, deslocando-se depois ambos para áreas dos “dialetos meridionais” – para Évora
(Fernão de Oliveira) e para Lisboa (João de Barros).

A Anotação de Fernão de Oliveira se centra, fundamentalmente, na análise do que hoje designamos de


fonética articulatória, descrevendo as “vozes” do português e dando indicações para a sua
representação gráfica (as “lêteras”). É considerado o primeiro foneticista, avant la lettre, do
português, com intuições fonológicas, como destaca Eugenio Coseriu, no estudo antes referido.
João de Barros se centra nas “lêteras” e não nas “vozes”. Inicia sua Gramatica com uma curta
apresentação histórica da representação gráfica, com base, explícita, nos gregos e latinos, a que se
segue um breve capítulo sobre a sílaba. Segue-se à Gramatica, no final, a sua Ortografia, primeira
proposta ortográfica para o português, com regras sucessivas e sistemáticas para o uso de cada
“lêtera”, finalizando com observações sobre os sinais de pontuação.

1.1. Avaliações coincidentes em Fernão de Oliveira e João de Barros

a) Sobre a convergência das nasais finais [ã] e [õ] no ditongo nasal [ãw]:
Fernão de Oliveira, no capítulo XLV: “…estes nomes todos, os que se acabam em ão ditongo,
acabavam-se em om, como liçom, podom, melon, e acrescentando e e s formavam o plural lições,
podões, melões, como ainda agora fazem.”
João de Barros, ao tratar da “Formaçám dos nomes em o plurár”, diz: “Os mais dos nomes que
deviám acabár em –am, se escrevém a este modo: razão, razões. E se o uso não fosse contrairo, que
tem gram força àçerca das cousas, não me pareceria mal desterrármos de nós esta prolaçam e
ortografia galega.
b) A outra avaliação coincidente se refere ao léxico, ao neologismo bombarda. Ambos, contudo,
estão de acordo com o fato de bombarda ser uma “dição” nova, um neologismo.

1.2. Avaliações divergentes em Fernão de Oliveira e João de Barros

71
a) Trata-se da morfologia da 1ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo ser.

No capítulo XLVII, ao tratar dos verbos, diz Fernão de Oliveira: o verbo sustantivo, o qual
pronunçiam em om, como som e outros que eu mais favoreço, em o pequeno, como so. No pareçer da
primeira pronunciação com o e m, que diz som, é o mui nobre João de Barros; e a razão que dá por
si é esta: que de som mais perto vem a formação de seu plural somos.
Nessa passagem, Fernão de Oliveira apresenta a variação então existente – som, sou e so,
mencionando o seu favorecimento por so, pronúncia destacada como beirã e a preferência do “mui
nobre” João de Barros por som.

b) A outra divergência se refere à forma da preposição até.


Fernão de Oliveira, no capítulo XXXV, ao tratar das “dicções juntas ou compostas”, diz: “Quero
dizer deste avérbio até, o qual antre nós responde ao que os latinos dizem usque, este avérbio, digo,
alghuus o pronunciam conforme o costume da nossa língua que é amiga d’abri-la boca; e dão-lhe
aquella letra a que digo no começo. Mas outros lhe tiram esse a e não dizem até mas té, não mais,
começando em t…”
João de Barros admite a variação até/té, como Fernão de Oliveira, e considera a primeira variante
um “viçio”.

1.3. Avaliações depreendidas em Fernão de Oliveira

a) Avaliações fónicas

Nesses capítulos, entre muitos outros fatos, se refere, por exemplo, que em 1536 persistia o sistema,
próprio ao período arcaico, de quatro sibilantes (duas fricativas ápico-alveolares e duas africadas ou
fricativas predorsodentais).

- A perda da africada [dž] apresentada pelo <g> em proveito da fricativa [ž].


- Infere-se igualmente que a africada [ts] se transforma na fricativa surda predorsodental [s].
- Variação das consoantes líquidas <l> e <r> em grupos consonantais como gloria (grorea) e flores
(froles).

b) Avaliações mórficas

- Nas segundas pessoas do plural que acabavam em –des, com a síncope do –d- intervocálico o hiato
evolui para o ditongo: fazedes > fazeis, amades > amais.
- Variação na formação do plural das palavras terminadas em OL, algumas vezes em ÓIS outras
vezes em OLES.

1.4. Avaliações depreendidas em João de Barros

Contrastando com Fernão de Oliveira, João de Barros tem por objectivo estabelecer ‘regras’ para a
escrita. Assim, na sua Da Ortografia encontra-se, a cada passo, o como ‘devemos escrever’ ou o ‘não
podemos escrever’.

72
a) Avaliações mórficas

- Ao tratar “Da formaçám dos nomes em o plurár”, diz sobre o plural de palavras em <ál>:
“mál e cál de moinho, pareçe que os [h]ouvemos de Castela, porque ôs formamos acrescendo-lhe es
e dizemos: máles, cáles” .“Ôs que se acábam em ál, él, ól, ul, formam-se perdendo a lêtera l e
tomando esta silaba es, e dizemos: cardéal, cardeaes; papél, papées; faról, faróes; taful, tafues. En esta
regra não entram os nomes de "!a silába como: sál, mél, sól, sul, porque são irregulares e não tem
plurár.”
- para o normativista João de Barros de 1540 o particípio passado dos verbos da “segunda
conjugaçám” não fazem mais o particípio em <udo>, fazendo em –ido.
- Na Ortografia, ao tratar da “lêtera u”, apresenta uma informação diacrônica precisa: O
segundo u sérve na composiçám das dições e antigamente servia per si de avérbio local, como
quando se dizia: U vás? U moras? A qual já não usamos.

1.5. Conclusão

Reunindo avaliações dos dois pioneiros na gramatização da língua portuguesa, podem ser
confirmados factos que a tradição filológica considera como definidores do período arcaico e o seu
desaparecimento podem ser delimitadores – por factos intralinguísticos – como indicadores de um
novo período, moderno ou clássico, na história da língua portuguesa. Assim há indicações explícitas
de hiatos arcaicos desfeitos; da convergência das nasais finais no ditongo nasal <ão>, pelo menos
nos nomes (cf. 3.1a); da mudança morfofônica no morfema de 2ª pessoa do plural dos verbos (cf.
3.3.2a); da substituição do morfema <u> por <i>, nos particípios passados dos verbos da 2ª
Conjugação.

2. Ortografia

Ao longo do período clássico e moderno da língua não há uma uniformidade da língua e mesmo no
século dezanove autores como Camilo Castelo Branco não apresentam uma regularidade ortográfica.
Acabam, como diz Ivo Castro, por ser os revisores da Imprensa Nacional quem, após a implantação
da República em 1910, obriga o governo a criar uma ortografia oficial.

3. Fenómenos mais recentes:

É no século XVIII que se consolida uma mudança relativamente à derradeira africada do português
europeu – desafricamento de /tʃ/ graficamente representada por ch. Esta africada que teve uso geral
na língua medieval e renascentista sobrevive a nível dialectal no nordeste peninsular e no interior de
Mato Grosso.
As duas grafias ch e x que se distinguiam perfeitamente em português antigo e médio, passa a
corresponder a um único fonema, o que engendra problemas de distribuição gráfica.
É só no século XIX que a pronúncia da africada /tʃ/ começa a ser considerada como dialectal.

A palatização das fricativas /s/ e /z/ em posição implosiva, isto é, em final de sílaba, é mais uma
inovação portuguesa de origem meridional que foi documentada pela primeira vez em 1746, por
Verney, no Verdadeiro Método de Estudar.

73
A época tardia desta mudança das fricativas não justificaria a sua ocorrência no português do Brasil, e
na verdade, a maioria dos dialectos brasileiros não a conhecem, à excepção do carioca, em torno do
Rio de Janeiro, e para a qual John Lipski dá a explicação referente à transferência da corte portuguesa
para o Brasil entre 1808 e 1820.

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Semana 11: Variación dialectal: portugués europeo. Fonología,
Morfología y Sintaxis.

1. Português Europeu

1. Tipologias de línguas

Baseando-se na morfologia distinguiram-se três tipo principais de línguas:


- isolantes, cujas unidades morfológicas são invariantes e não-analisáveis (como o Mandarim
ou o Vietnamita);
- flexionais, de morfologia complexa, que são caracterizadas pela combinação de radicais e de
afixos, distintos entre si e com informação própria (morfemas de modo, tempo e pessoa
[verbos] e morfemas de género e número [nomes e adjectivos] (como em Português,
Castelhano ou Latim);
- aglutinantes, caracterizadas pelo facto de radicais e afixos se sucederem sem que a sua
justaposição implique alteração dos morfemas (como o Filandês e o Turco).

Em Português Europeu encontram-se muitas sequências de consoantes em ataque de sílaba,


formando grupos inesperados quer no início quer no interior da palavra. Neste aspecto a variedade
brasileira distingue-se claramente da variedade portuguesa, dado que na generalidade dos dialectos,
em palavras como – afta, pacto, absurdo – os grupos de consoantes são desfeitos pela introdução da
vogal [i]: [ˈa-fi-tɐ], [ˈpa-ki-tu], [a-bi-ˈsur-du]. Em consequência, a primeira consoante do grupo passa
a ser o ataque da nova sílaba criada na palavra.

2. Regras fonológicas

2.1. S e contexto fonético

Assim como /s/ em fim de palavra pode ser pronunciado de distintas formas consoante o contexto
fonético, também no interior de palavra, quando se segue uma consoante, o /s/ se vai realizar como:
- /ʒ/ antes de consoante vozeada (b, d, g, v, z, ʒ, m, n, ɲ, l, ʎ, r, R) = mesmo /meʒmu/
- /ʃ/ antes de consoante não vozeada (p, t, k, f, s, ʃ) = pasta /paʃtɐ/

Também a consoante /l/ pode ser pronunciada de duas formas se em início de sílaba /l/ e no final
de sílaba /ɫ/.

2.2. Regra do vocalismo átono:

As vogais [ɛ] e [e] acentuadas estão em distribuição complementar com [ɨ] em sílaba não acentuada,
isto é, a diferença entre [ɛ] e [e] é neutralizada em sílaba átona:
Tónicas Átonas
festa [ɛ] festejo [ɨ]
dedo [e] dedada [ɨ]
milho [i] milheiral [i]
porta [ɔ] porteiro [u]

81
sopa [o] sopeira [u]
furo [u] furar [u]

Esta característica mediante a qual, na realização das vogais átonas, se dá uma elevação e um recuo
em relação aos segmentos fonológicos de base, é uma característica do Português Europeu
conhecida como regra do vocalismo átono.

3. Sujeito nulo lexical e flexão verbal

Noam Chomsky distinguiu entre as línguas humanas aquelas que como o português, o castelhano, o
italiano, o galego, entre muitas outras, que se caracterizam como línguas de sujeito nulo, de outras
como o francês, o inglês que exigem que o sujeito esteja sempre explicitado.
O Português como língua de sujeito nulo permite a não realização lexical do sujeito, seja ele
referencial ou não.
1) Estou muito cansado.
2) Chove muito durante o inverno.

Já o Francês consitui uma excepção no quadro das línguas Românicas, pois nessa língua a realização
lexical do sujeito é obrigatória:
1) Je suis très fatigué.
2) Il pleut beaucoup pendant l’hiver.

A correlação entre a riqueza dos paradigmas flexionais do verbo e a ocorrência do sujeito nulo tem
sido um dos aspectos mais enfatizados na tentativa de caracterizar a natureza das chamadas línguas
de sujeito nulo (prop-drop).

4. Morfologia

É uma disciplina linguística que tem a palavra por objecto, e que estuda, por um lado, o modo como
essa estrutura reflecte a relação com outras palavras, que parecem estar associadas a ela de maneira
especial. Nesse estudo inclui-se a análise das unidades que são usadas nas alterações sofridas, como,
por exemplo, afixos flexionais e derivacionais, bem como as regras que são postuladas para dar conta
dessas alterações.
O morfema é a unidade mínima de significado que tem uma forma física (fonológica e fonética) e um
sentido, ou função, no sistema gramatical.
Os morfemas podem ser divididos de acordo com a sua possibilidade de constituir, por si só, uma
palavra independente, ou de terem necessariamente de acompanhar outros morfemas. Assim, os
primeiros são denominados morfemas livres (como as palavras mãe e lápis) e os segundos são
designados morfemas presos (como –mos em bebemos ou –aria em pastelaria).

Já bebemos um café naquela pastelaria da esquina.

Os morfemas livres podem ser de duas categorias:


(1) lexicais – café, esquina;
(2) gramaticais /funcionais – um, de.

Os morfemas presos podem ser de duas categorias:


(1) derivacionais - -aria (em pastelaria)

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(2) flexionais – -mos (em bebemos)

Os morfemas são derivacionais quando ajudam a formar uma nova palavra e são flexionais
quando permitem formar formas diferentes de uma mesma palavra.

Em Português, as palavras simples, podem consistir num único constituinte não flexional, o radical,
como por exemplo, pai, mãe, ou por um radical e um sufixo (/-a, /-o ou /-e): poema, bolo, mestre.

Os morfes afixos podem ser divididos em duas grandes categorias funcionais: os morfemas flexionais
e os morfemas derivacionais. Esta classificação reflecte o reconhecimento da existência de dois
grandes processos de construção de estrutura interna das palavras, a flexão e a derivação.

4.1. Processos de construção de palavras:

4.1. Flexão

Sabemos que há palavras como ler que podem assumir várias formas (leio, lemos, li, leu, etc...),
continuando essas diferentes formas a ser consideradas a mesma palavra. Dizemos então que lemos é
uma forma da palavra ler e que li também é a mesma palavra. Assim, define-se flexão como uma
operação que não obriga a palavra a alterar a sua categoria sintáctica.
No Português é necessário distinguir a flexão nominal (de nomes e de adjectivos, assim como de
determinantes ou pronomes) da flexão verbal (de verbos).
Outras categorias morfológicas como os advérbios e as preposições não têm flexão.
A flexão nominal inclui as flexões de caso, género e número, sendo que nos pronomes pessoais há
igualmente flexões de pessoa.

a) Nomes

Os nomes são obrigatoriamente integrados num de dois grupos – masculino e feminino – por que
se distribui a categoria gramatical de género. A marca do género é atribuída basicamente pelo
especificador (o artista, aquela artista, um palco, este fantasma).
Quando se trata de nomes em que a distinção de género corresponde a uma distinção entre os sexos
podem encontrar-se em Português diferentes itens lexicais, como pai / mãe, carneiro / ovelha.

b) Pronomes Pessoais

A alternância singular / plural nos possessivos, demonstrativos, indefinidos, e nos pronomes


pessoais de 3ª pessoa é marcada pelos morfemas mais frequentes que ocorrem nos nomes e
adjectivos ( Ø / s; l / is).
Os pronomes pessoais têm em Português uma flexão de caso pela qual as funções sintácticas de
sujeito (= caso nominativo), complemento directo (= caso acusativo), complemento indirecto = caso
dativo), estão marcadas na própria unidade lexical.

c) Verbos

A estrutura interna das formas verbais integra o radical, a vogal temática, e os morfema de tempo
e morfema de pessoa.
A vogal temática marca a conjugação do verbo (A, E, I, nos verbos falar, comer, partir).

83
Morfemas Temporais Morfemas de Pessoa

Tempo Morfema Pessoa Tempo Morfema

Presente Ind. Ø 1ª Singular Presente Indicativo o


Perfeito Ind. Ø Perfeito Indicativo i
Imperfeito Ind. va (1ª conj.) a (2ª e 3ª conj.) Futuro Indicativo i
Futuro Ind. r+e, r+a Outros Tempos Ø
Mais q Perf. Ind. ra
Presente Conj. e (1ªa conj.) a (2ª e 3ª conj.) 2ª Singular Perfeito Indicativo ste
Imperfeito Conj. sse Imperativo Ø
Futuro Conj. re Outros Tempos s
Condicional r+ia
Infinitivo re 3ª Singular Perfeito Indicativo u
Particípio Passado do Outros Tempos Ø
Gerúndio ndo
1ª Plural Todos os Tempos mos

2ª Plural Perfeito Indicativo stes


Outros Tempos (d)es

3ª Plural Perfeito Indicativo ram


Outros Tempos m

4.2. Derivação

As regras de flexão, as regras de derivação por prefixação e as regras de sufixação avaliativa


mantêm a categoria sintáctica da palavra sobre a qual operam

aluno [N] aluna [N]


escritor [N] escritores [N]
disse [V] disseram [V]
humano [ADJ] desumano [ADJ]
fazer [V] refazer [V]
dedo [N] dedão [N]
pequeno [N] pequenino [N]

As regras de derivação e as regras de composição determinam a categoria sintáctica das palavras


geradas:
forma [N] formal [ADJ]
formal [ADJ] formaliza [Tema Verbal]
formaliza [Tema Verbal] formalização [N]
mesa redonda [Sintagma Nominal] mesa-redonda [N]
quebra nozes [Sintagma Verbal] quebra-nozes [N]

4.3. Composição

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A composição requer a utilização de mais do que uma unidade lexical plena (isto é, mais do que
um morfema livre) e distingue-se em processos de justaposição e processos de aglutinação.

5. Sintaxe

Uma frase básica em Português – como a frase “O jornalista contou a novidade aos amigos” – pode
caracterizar-se sintacticamente, numa primeira abordagem, como uma sequência em que:
1) cada constituinte tem uma dada relação gramatical;
2) os constituintes ocorrem segundo uma dada ordem linear.

Uma oração contém dois termos fundamentais: o predicado, o constituinte ou sequência de


constituintes formado pelo predicador e pelo(s) argumento(s) interno(s), e o sujeito que é o
argumento externo do predicador.

Na oração ‘O miúdo comeu um gelado’, o predicado é constituído pelo predicador verbal (= comeu) e
pelo seu argumento interno (= um gelado).

85
Semana 12: El portugués en Brasil; variedades brasileñas del
portugués y variaciones dialectales (6 págs.)

1. História da língua portuguesa no Brasil:


(Rosa Virgínia Mattos e Silva, Português Brasileiro: raízes e trajetórias)

“a trajetória dizimada dos indios brasileiros e de suas linguas, percurso etnocida e glotocida
conhecido, conduzido primeiro pelos colonizadores portugueses e prosseguido peias chamadas
frentes pioneiras que hoje aicançam os limites últimos da Amazonia brasileira. Apesar desses
quinhentos anos de destruição ininterrupta so brevivem cerca de 180 línguas indigenas e cerca de 220
000 indios - seriam o dobro as línguas do seculo XVI (Rodrigues, 1986: 19) ou, muito mais, cerca de
1500, como admite verosímil A. Houaiss (1985: 100) - o que impede dizer (mas é o que se teima em
afirmar!) que o Brasil e unilíngue.”

O processo de colonização e evangelização dos séculos XVI e XVII teve de utilizar línguas indígenas
brasileiras para a qual se criou o ‘tupi jesuítico’.
A língua geral costa era de base tupi que chegou a ser um risco para a hegemonia do português no
Brasil.
No nordeste a língua geral era de base cariri, e na Amazônia a língua geral era de base tupinambá,
antepassado do nheengatu, que persiste hoje em área do complexo multilinguismo no rio Negro. De
acordo com Houaiss, “pelo tipo de escolha a que eram submetidos desde os portos negros até sua
localização como mão-de-obra no Brasil, os negros foram selecionados negativamente, a fim de que
não se adensassem em um ponto qualquer, étnica, cultural e linguisticamente.”
No século XIX a importação massificou-se a tal ponto que deixou de haver seleção negativa, não só
na origem como no seu destino, principalmente para Salvador.
Enquanto os índios ou foram dizimados ou fugiram para as margens geográficas do país, a grande
maioria dos negros integrou-se nas cidades e nos campos, à sociedade multiétnica brasileira em
formação.

Em 1757, com o Marquês de Pombal, se define explicitamente para o Brasil uma política linguística e
cultural que fez mudar de rumo a trajetória que poderia ter levado o Brasil a ser uma nação de língua
maioritariamente indígena, já que, diz Virgínia Mattos e Silva, os dados históricos infomam que uma
língua geral de base indígena ultrapassara de muito as reduções jesuíticas e se estabelecia como língua
familiar no Brasil eminentemente rural de então. O Marquês define o português como língua de
colónia, consequentemente obriga o seu uso na documentação oficial e implementa o ensino leigo no
Brasil, antes restrito à Companhia de Jesus, que foi expulsa do Brasil.

Em rápido olhar à Tabela 1, ressalta, a partir do século XVIII, o descenso dos africanos, incrementa-
se o descenso indígena, também o de portugueses, o crescimento dos mulatos e dos brancos
brasileiros. A miscigenação e a presença não maciça de portugueses certamente são indicadores
favoráveis à formação de uma ‘língua geral brasileira’, que não seria africana, mas sim continuadora
do português, já que o terceiro actante nesse drama, os índios, os que não morreram, ou já estavam
integrados ou acoitados nos confins protegidos. Certamente, então, sobretudo nas concentrações
urbanas que já existiam, o embate se dava entre duas possibilidades: um português africanizado ou
um português europeizado. Por outro lado, a depender de configurações históricas locais, a

86
predominância indígena ou negra ou ambas em convívio com o português resultou em perfis
diferenciados se se considerar o conjunto brasileiro. Pode-se então dizer, como A. Houaiss, que ‘o
português brasileiro nasce com diversidade’ e, digo eu, vive e convive com ela, tanto regional como
social.
Aos factores apontados, acresçam-se outros que marcam todo o século passado:
Uns favoreceram a diversificação regional, como é o caso da chegada dos imigrantes, vindos de
vários pontos e com várias línguas, localizando-se sobretudo do sudeste para o sul, também
imigrantes portugueses, não mais colonizadores, que se espalham pelo Brasil ou se localizam em
determinadas áreas, como os açorianos que se concentração no litoral catarinense.
Outros factores favoreceram a implementação de um ideal linguístico homogeneizador, tendente
para o português europeu. Não se pode deixar de destacar a presença da corte portugues no Rio (a
partir de 1808) e dos muitos portugueses que com ela abandonaram Portugal e a independência
subsequente que teve a boa intenção de tornar o ensino universal e obrigatório, já na primeira
Constituição brasileira, a de 1823, que, apontou para uma tentativa política de literatar e culturalizar o
país. Se se comparam os letrados brasileiros dos séculos XVI aos inícios do século XIX, que não
ultrapassariam 0,1% cresceram no último século e já alcançavam 20 ou 30 % em 1920.
A partir da análise de dezasseis processos fonético-fonológicos do português brasileiro, confrontados
com os mesmos factos nas línguas africanas que aqui chegaram e no português europeu, Alberto
Mussa desenvolve o raciocínio de que há uma consistência no português brasileiro que, entre as
possibilidades de escolha disponíveis na diversidade provável de então, selecciona o menos marcado,
linguisticamente, isto é, o estruturalmente mais simples e o socialmente menos estigmatizado. Por
exemplo:
1. O PE do século XVI mantinha ainda a palatal arcaica [tš]; as línguas africanas chegadas ao
Brasil possuíam [tš] e [š]; o PB escolhe [š], portanto, a articulação mais simples.
2. No PE [s] não passa a Ø em sílaba final átona; as línguas africanas em causa não têm sílabas
travadas; no PB a queda do [s] é estigmatizada, sobretudo se implica em problemas de
concordância.

2. Diferenças entre Português falado em Portugal e Português falado no Brasil:

Está generalizada a convicção de que o caso brasileiro continua uma fonologia que era a portuguesa
quinhentista, até porque os crioulos africanos de base portuguesa vêm arrumar-se ao lado do
português do Brasil na manifestação do fenómeno da harmonização vocálica e na insubmissão à
regra geral da redução.

O panorama linguístico no Brasil não é homogéneo: outras línguas europeias são faladas por
imigrantes, sobretudo italianos, espanhóis e alemães, as línguas índias têm estatuto oficial e ainda se
encontram vestígios de antigos crioulos de escravos (em Minas Gerais e no sul da Bahia).
Os mais de dois milhões de índios do século XVI acham-se hoje reduzidos a menos de um quarto:
entre 300 e 500 mil. São faladas 180 línguas índias, com a média de 200 falantes por língua. As mais
importantes pertencem à família tupi-guarani, concentradas principalmente na Amazónia e no Brasil
norte-central, mas calcula-se que representem apenas 15% das línguas vivas no início da colonização
do Brasil.

87
2.1. Nível Fonético

As vogais átonas do PB são menos reduzidas que em PE, tal como sucede no português falado
em África. No nordeste e norte do Brasil, as vogais átonas pretónicas são abertas.

PB PE

partir [a] [ɐ]


levar [e] [ɨ]
morar [o] [u]
leve [i] [ɨ]
more [i] [ɨ]

Antes de /i/ tónico e átono, e antes de /e/ pós-tónico, o /t/ e o /d/ palatalizam e realizam-se
como africadas no PB, pronunciando-se respectivamente como [tʃ] e [dʒ], enquanto em PE se
mantêm como oclusivas.

PB PE

tio [tʃ] [t]


director [dʒ] [d]
bate [tʃ] [t]
pede [dʒ] [d]

Em final de sílaba e de palavra, o /l/ pronuncia-se como a semivogal /w/ no PB, e velariza-se em
PE /ɫ/.

PB PE

animal [w] animal [ɫ]


Brasil [w] Brasil [ɫ]
saltar [w] saltar [ɫ]

A vibrante final de palavra admite variação de pronúncia no PB, podendo ocorrer como vibrante
simples [r], fricativa [x], aspirada [h], ou ainda ser suprimida, enquanto em PE ocorre sempre como
vibrante tap, [ɾ], embora no estilo coloquial possa também ser suprimida.

PB PE
senhor amar senhor amar
senho[r] ama[r] senho[ɾ] ama[ɾ]
senho[x] ama[x]
senho[h] ama[h]
senho[ó] ama[á]

As sibilantes em final de sílaba e de palavra mantêm-se como [s] e [z] no PB] e pronunciam-se como
palatais [ʃ] e [ʒ] em PE.

88
PB PE
mesmo [z] mesmo [ʒ]
peste [s] peste [ʃ]
meninos [s] meninos [ʃ]

No PB verifica-se a introdução de um [i] epentético entre duas consoantes que, em Português, não
formam habitualmente grupo, enquanto em PE as duas consoantes se mantêm em sequência.

PB PE
captura – cap[i]tura captura [pt]
absurdo – ab[i]surdo absurdo [bs]
pneu – p[i]neu pneu [pn]

Construções com gerúndio:

O PB apresenta construções com gerúndio ao passo que o PE apresenta quase sempre construções
com infinitivo:

Progressivo:

PB PE
estava brincando estava a brincar
vinha correndo vinha a correr
estado namorando estava a namorar

Predicado secundário:

PB PE
passou um ano ouvindo passou um ano a ouvir
você vê duas crianças brincando você vê duas crianças a brincar

Em construções que exprimem a distância temporal, o PB utiliza os verbos fazer e ter quando o PE
usa o verbo haver. Além desta diferença de nível lexical, nota-se também uma distinção léxico-
semântica, utilizando o PB estruturas inexistentes em PE.

PB PE

Ele está em Paris faz três anos. Ele está em Paris há três anos.
Ele se licenciou tem dois meses. Ele se licenciou há dois meses.
Ele casou. Não levou dois anos e teve um filho. Ele casou e dois anos depois teve logo um filho.
O Paulo parte para Roma em quinze dias. O Paulo parte para Roma dentro de quinze dias.

O verbo ter e haver têm uso diferente em PB e PE com o significado de existir:

PB PE

Tem fogo naquela casa. Há fogo naquela casa.


No baile tinha muitos homens bonitos. No baile havia muitos homens bonitos.

89
Em PB é habitual, antes de possessivo pré-nominal, a ausência de artigo, enquanto em PE está
sempre presente.

PB PE

Vou comprar meu vestido. Vou comprar o meu vestido.

Certas construções com predicados como (ser) bom, (ser) natural implicam a utilização do modo
indicativo em PB e conjuntivo em PE. Pelo contrário, em construções com verbos como supor,
imaginar, o PB pode usar o conjuntivo e o PE o indicativo.

PB PE

Pena que ele não chegou a tempo. É pena que ele não tenha chegado a tempo.
Bom que já está durando há dois anos. É bom que já dure há dois anos.
Imaginemos que hoje seja domingo. Imaginemos que hoje é domingo.

3. Evoluções específicas do Português falado no Brasil:

3.1. Sujeito Nulo e Flexão Verbal

Dentro do conjunto de mudanças sintácticas por que estaria a passar o Português Brasileiro (PB),
refere-se como sendo das mais importantes a evolução de uma ‘marcação positiva para uma
marcação negativa dentro do parâmetro prop-drop, [coincidindo] com uma significativa redução ou
simplificação nos paradigmas flexionais’.
O Português Brasileiro, a partir do paradigma flexional de 6 formas previsto pela norma padrão,
apresenta hoje, na sua realidade oral, 3 paradigmas distintos, resultantes de crescentes processos de
simplificação.
A distribuição desses três paradigmas por entre os falantes pode ser caracterizada como
correspondendo:
A – gerações mais velhas ou mais novas em contexto formal.
B – fala das gerações mais jovens e mais velhas em contexto informal.
C – entre falantes analfabetos ou com baixo nível de escolarização.

Português padrão Português Brasileiro


A B C
Eu amo Eu amo Eu amo Eu amo
Tu amas Você ama Você ama Você amam
Você / ele /ela ama Ele / ela ama Ele / ela ama Ele /ela amam
Nós amamos Nós amamos A gente ama A gente amam
Vós amais Vocês amam Vocês amam Vocês amam
Vocês / eles / elas amam Eles / elas amam Eles / elas amam Eles/elas amam

Neste sistema como o crescente no Português Brasileiro preserva-se ainda a ocorrência categórica do
sujeito nulo não referencial, isto é, como no exemplo 2 (Chove muito durante o inverno).

90
3.2. Realização variável do Objecto Directo: clítico acusativo, pronome nominativo e objecto nulo

No Português Brasileiro verifica-se um processo de perda do clítico acusativo de 3ª pessoa – o(s),


a(s) – dando margem a duas estratégias de preenchimento da posição do objecto directo:

1) objecto nulo [e] quando o antecedente é um SN ou uma oração.


Conte aquela piada nova para o João. Você já a contou para ele?
Conte aquela piada nova para o João. Você já contou [e] para ele?

2) a utilização da forma nominativa (ele(s), elas(s)) em função de acusativo.


A Paula está vindo; eu já a chamei.
A Paula está vindo; eu já chamei ela.

A opção pelo objecto nulo [e] é maioritária quando o antecedente é marcado pelo traço semântico [-
animado]:

Eu comprei o dicionário e emprestei [e] ao João.

A opção pelo uso da forma ele / ela como acusativo é mais frequente em estruturas sintácticas em
que o antecedente é marcado pelo traço semântico [+ animado]:

Eu não tenho nenhuma queixa contra o professor. Eu acho ele maravilhoso.

3.3. Colocação dos clíticos

A generalização do uso da colocação pré-verbal do clítico é uma das especificidades do Português


Brasileiro. A ocorrência do clítico em posição inicial absoluta é o exemplo mais significativo das
mudanças ocorridas no PB:

Me empreste o seu livro.


Eu estava lhe contando a história.
Vamos nos encontrar amanhã à tarde.

A colocação pós-verbal do clítico, não tendo sido de todo banida do PB tem o seu uso definido
sobretudo por factores de natureza extra-linguística como falantes com um nível mais elevado de
escolaridade ou de faixa estária mais elevada, e também a registos mais formais de comunicação.

3.4. Estratégias de relativização

1) relativa com lacuna


Eu tenho uma amiga que [e] é óptima.
2) relativa com pronome lembrete
Eu tenho uma amiga que ela é óptima.
O vestido que eu saí com ele ontem está sujo.
3) relativa cortadora
O vestido que eu saí [e] ontem está sujo.

91
Em termos sociolinguísticos pode-se dizer que a variante cortadora tende a ser implementada, já que
a variante com pronome lembrete ainda é em certa medida estigmatizada.

Na Gramática do Português Brasileiro nota-se um enrijecimento da ordem sujeito-verbo-objecto


SV(O) que se manifesta tanto nas orações declarativas quanto nas interrogativas. A frequência de
ocorrência de frases declarativas com a ordem VS cai no Português Brasileiro de 42% no século
XVIII para 21% na actualidade.
A mudança mais significativa observa-se nas orações interrogativas. Nestas, o padrão VS, categórico
no século XVIII, é amplamente subvertido no Português Brasileiro, de modo que actualmente a
frequência do padrão SV é de mais de 90%.

Onde o Pedro estuda? (SV) Onde estuda o Pedro? (VS)


O que esta cooperativa produz? (SV) Que produz esta cooperativa? (VS)

4. História dos estudos dialectais no Brasil

(Suzana Alice Marcelino Cardoso e Jacyra Andrade Mota, ‘Percursos da Geolinguística no


Brasil’)

A primeira fase (Cardoso e Ferreira 1994) vai de 1826 – quando Domingos Borges de Barros,
Visconde da Pedra Branca, faz um breve estudo no qual compara o português do Brasil com o de
Portugal, estudo para o Atlas Ethnographique du Globe de Adrien Balbi – a 1920, data da publicação de
O dialeto caipira de Amadeu Amaral. Os trabalhos produzidos estão voltados para o estudo do léxico e
para suas particularidades no português do Brasil. Como se vê dos títulos que, a seguir, como
ilustração, são citados, são dicionários, vocabulários e léxicos regionais.
O segundo momento compreende o período que vai de 1920 a 1952 (Cardoso e Ferreira 1994).
Tendo como marco inicial a publicação por Amadeu Amaral de O dialeto caipira, estende-se essa
segunda fase até 1952, momento em que se dão os primeiros passos para o sistemático
desenvolvimento da Geolinguística em território brasileiro. Caracteriza-se pela produção de estudos
voltados para a observação de uma área determinada, com uma metodologia de abordagem dos
fenômenos orientada para o exame da realidade observada in loco. Surgem os primeiros trabalhos de
caráter monográfico, dos quais se distinguem os produzidos por Amaral, Nascentes e Marroquim,
obras que imprimem uma nova ótica ao exame da realidade linguística brasileira.
O segundo estudo, O linguajar carioca em 1922, que compõe essa significativa trilogia que marca a
segunda fase, é publicado por Antenor Nascentes em 1922. O autor preocupa-se, inicialmente, em
definir o que entende por falar brasileiro e em procurar situar o linguajar carioca no conjunto desses
falares. Discute o processo de dialetação do português do Brasil e apresenta uma divisão dos falares
brasileiros a que declara ter chegado depois de haver realizado “o ardente desejo de percorrer todo o
Brasil, do Oiapoque ao Chuí, de Recife a Cuiabá” (Nascentes 1953: 24). Essa divisão, primeira a ser
proposta em base estritamente linguística, é a única de que, até o presente, dispõe a Dialetologia
brasileira. A terceira obra que completa esse tripé é A língua do Nordeste de Mário Marroquim,
publicada em 1934.
A terceira fase tem como marco um ato do Governo brasileiro, a publicação do Decreto n.° 30.643,
de 20 de março de 1952, que, ao definir as finalidades da Comissão de Filologia da Casa de Rui
Barbosa, que vinha de ser criada, assentava como a principal delas a elaboração do atlas linguístico do
Brasil. Antenor Nascentes publica as Bases para a elaboração do atlas lingüístico do Brasil, obra em dois
volumes saídos o primeiro em 1958 e o segundo em 1961. A terceira fase da história dos estudos

92
dialetais tem, assim, como marca identificadora, o começo dos estudos sistemáticos no campo da
Geografia Linguística.
A delimitação de uma nova fase, um quarto período, proposto por Mota e Cardoso (2006), que se
inicia a partir da implantação do Projeto Atlas Linguístico do Brasil, em 1996, e estende-se até a presente
data, fundamenta-se no fato de que “do ponto de vista metodológico, essa nova fase coincide com a
incorporação dos princípios implementados pela Sociolinguística a partir da década de 60 do século
passado, abandonando-se a visão monodimensional – monoestrática, monogeracional,
monogenérica, monofásica, etc. – que predominou na geolinguística hoje rotulada de “tradicional”
(Mota e Cardoso 2005: 6).

Como diz Mário Marroquim em A língua do Nordeste, para que se determine a existência de um
dialecto não é necessário que a variação dialectal esteja autorizada por uma literatura própria, nem
que a divergência chegue até uma incompreensão recíproca. Neste sentido, existe no Brasil não um
dialecto, mas vários dialectos, através da imensa extensão do seu território. Antenor Nascente opina
que ‘a enorme extensão territorial sem fáceis comunicações interiores quebrou a unidade do dialeto,
fragmentando-o em subdialetos.’.

Antenor Nascentes viu uma isófona estende-se a toda a largura do território brasileiro.

Norte Sul

c[ɔ]rrer, m[ɛ]ter, gat[u], mol[i], m[ẽ]neira, c[o]rrer, m[e]ter, gat[o], mol[e], m[a]neira,
m[ɐ̃]mar m[a]mar

vogais átonas finais elevadas para /i/ e /u/ Vogais átonas finais /e/ e /o/.

um conjunto de dialectos com abaixamento das dialectos com conservação do timbre fechado
vogais pré-tónicas e entoação cantada das vogais pré-tónicas e uma entoação
descansada
no norte e nordeste há uma nasalização, e
fechamento, das vogais antes de consoante nasal
heterossilábica, vogais essas que se conservam
orais e abertas no sul e sudeste

93
4. Projeto do Atlas Linguístico do Brasil

Mapa linguístico desenhado por Antenor Nascentes:

Atlas Linguístico do Brasil

Divisão entre Norte e Sul do Brasil nas vogais /ɛ/ e /e/:

94
E final como /i/ ou /e/ e O final como /u/ ou /o/.
Expansão do R retroflexo:

A pronúncia do I quando está junto com outra vogal. /ej/ > /e/.
Bahia - /arojs/ /os/ > /ojs/

/ʃ/ - Rio do Janeiro e Belém, Manau, Macapá, Florianópolis.

Fim de palavra cortado – Minas Gerais

Pronome Tu:

Matogrosso [tʃ]

95
tangerina [de (laranja) tangerina (v. tangerino2).] - o fruto da tangerineira. [Sin., em regiões diversas do
Brasil: bergamota ou vergamota, laranja-cravo, laranja-mimosa, mandarina, mexerica e mimosa.]

bala - Caramelo, drope, rebuçado: BA [queimado].

Figura 1 - /S/ em coda silábica. Distribuição diatópica nas capitais do Projeto AliB:

96
Semana 13: Expansión de la lengua portuguesa en África y criollos
de base portuguesa (4 págs.)

1. Português em Angola, Moçambique e Crioulos de base portuguesa

1.2. Português em Angola:

Uma das consequências da guerra civil foi o esvaziamento de grande parte do território, tendo as
populações fugido para a zona circundante de Luanda, onde estariam concentrados quase um quarto
dos angolanos.
Adoptado como veicular pelos adultos, é aprendido como primeira língua pelas crianças, o que a
médio prazo poderá alterar bastante a distribuição das línguas no país e conferir ao português um
papel mais central.

1.3. Português em Moçambique:

Também em Moçambique se observa uma enorme concentração populacional em torno da capital,


com as mesmas consequências sobre o recurso ao português como língua veicular para os adultos e,
logo depois, como primeira língua para os nascidos nessa situação de deslocação.
Apenas no norte, no distrito de Cabo Delgado, uma língua importada, o kiswahili, serve de veicular
para cerca de um milhão de moçambicanos.

1.4. Crioulos de base portuguesa:

Nas colónias africanas foi factor primordial, para a formação de crioulos de base portuguesa, a
chegada do português europeu e o desenraizamento étnico, provocado pela escravização de grupos
mistos de africanos, deslocados para plantações coloniais. Estas condições favoreceram o
desenvolvimento do tipo clássico do crioulo de plantação e o quase desaparecimento das línguas
maternas dos escravos.
Em contraste, nas colónias portuguesas da Ásia, as colónias portuguesas constituíam ambientes
multilíngues, nos quais as línguas nacionais continuaram a ser faladas, influenciando por isso a
formação dos crioulos. Durante o século XVI, foi seguida no Oriente uma política oficial de
casamentos entre portugueses e mulheres locais, convertidas ao cristianismo. Estes casamentos
tiveram por efeito desenvolver rapidamente uma população mestiça, que constituía o suporte ideal
para o crioulo.

1.4.1. Crioulo:

A formação e desenvolvimento do pidgin e crioulo é determinado principalmente por três forças:


universais de desenvolvimento, influências do substrato, e influências do superstrato.
Pidgins e crioulos combinam o léxico de uma língua – o superstrato que é a língua socialmente
dominante – com a gramática de outra – o substrato ou língua socialmente inferior.
O crioulo, enquanto língua materna de uma comunidade, obtida através de processos de
simplificação, é uma língua autónoma e separada do português. Ao mesmo tempo, o português
desempenhou o papel de superstrato, não só no período da génese, mas também durante séculos de
contacto com o crioulo.

97
Em 1981, Celso Cunha dá como substistindo no Oriente seis crioulos:
- na Malásia (o de Malaca)
- o de Macau
- o de Sri-Lanka
- na Índia (os de Chaúl e Korlai)
- na Índia (os de Tellicherry, Cananor e Fort Cochim)
- na Indonésia, na ilha de Java (o de Tugu)

1.4.2. Crioulos em África:

Em Cabo Verde há dois grupos de crioulos:


- o crioulo de Barlavento (nas ilhas de S. Vicente e Santo Antão)
- o crioulo de Sotavento (nas ilhas de Santiago, Fogo e Brava)

1.4.3. Em São Tomé e Príncipe há diversos crioulos, além do português:


- forro
- moncó
- angolar

1.4.4. Na Guiné-Bissau:
- o português não é língua veicular, como também não o é em Cabo Verde.
não é segunda língua (como em Cabo Verde).

1.5. Crioulo e pidgin:

O crioulo é uma língua que teve por base o português europeu, em dado momento da sua evolução,
mas depois se afastou dele profundamente.
Falam-se crioulos de base portuguesa em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, numa pequena zona do
Senegal (Casamance), e nas ilhas de São Tomé e Príncipe e Ano Bom (antiga Guiné Equatorial).
Na Ásia, nas costas da Índia e no Sri-Lanka, em Malaca, e entre alguns habitantes de Macau.
Na Oceania, existe o crioulo de Tugu, na ilha de Java.
Na América Central, além do crioulos de base portuguesa como o ‘papiamento’ de Curaçau, Aruba e
Bonaire, e o dialecto de Surinam, na Guiana holandesa, existem os crioulos brasileiros, que ainda
sobrevivem em alguns pontos isolados do território do Brasil.

a) Descrioulização: o processo de descrioulização em Macau, Timor-Leste, Goa, Damão e Diu ocorreu


a partir do início do século XX quando a melhoria dos meios de comunicação rompeu o isolamento
em que estas áreas se encontravam em relação a Portugal, submergindo os crioulos locais sob uma
camada de português europeu moderno. Idêntico processo terá acontecido em Angola e
Moçambique.

b) Pidgin: língua mista formada no contacto pouco demorado de adultos em locais de trânsito.
Quando o contacto dura o suficiente para surgir uma segunda geração de falantes, é natural que estes
tenham como língua materna (logo, crioulo) o que era um código de recurso para os pais.

98
O proto-crioulo que deu origem as diferentes crioulos portugueses espalhados pela costa de África e
Ásia e que, segundo alguns autores, também deu seu contributo à formação de crioulos de outros
países (nas Caraíbas, Filipinas ou do afrikaans, crioulo holandês da África do Sul) foi um pidgin.

1.6. Crioulo

Os crioulos distinguem-se das outras línguas pela rapidez da sua formação, em condições históricas
fora do comum: por necessidade social, falantes de diferentes línguas maternas procuram a todo
custo comunicar entre si usando uma língua que, sendo mais funcional, no entanto não dominam,
nem lhes é de fácil acesso.
Os crioulos de base portuguesa nasceram num contexto de relações comerciais e de escravatura em
que o português era a língua dominante. Uma vez formados, mantiveram-se, durante séculos, à
sombra de línguas de maior prestígio. Uns mais falados do que outros, mas sempre marcados pelas
origens, foram remetidos para um estatuto subalterno de que ainda hoje alguns se estão a libertar,
procurando criar condições para a sua oficialização (através, nomeadamente, da definição de formas
normalizadas de escrita).
Crioulo é uma palavra derivada de cria (significando ‘pequena cria’, ‘pequeno animal de mama’) e foi,
segundo alguns autores, usada originalmente para designar os animais domésticos nascidos na casa
dos seus donos. Só posteriormente o termo passou a aplicar-se também aos indivíduos que, de algum
modo, estavam ligados às terras descobertas ou colonizadas pelos europeus, embora o seu
significado fosse muito variável, referindo-se tanto à mistura de sangue como à naturalidade.
O termo crioulo era assim usado para designar os escravos que, desde os finais do século XV, se
criavam nas terras descobertas e ocupadas pelos portugueses (Cabo Verde foi o primeiro arquipélago
africano a ser descoberto, em 1460), tendo-se estendido a todos os naturais dessas terras, nelas
nascidos.
Durante muito tempo a língua crioula não era reconhecida nem designada como tal, mas antes como
língua portuguesa ou ainda como ‘rudimentos da língua portuguesa’. A primeira atestação que se
conhece do uso do termo crioulo para referir uma língua data apenas de 1684, numa descrição da
Guiné feita pelo viajante Francisco Lemos Coelho.

Por razões históricas, as comunidades crioulas são quase sempre multilingues. Ora, em comunidades
de múltiplas línguas, quando a necessidade de comunicar é premente, a língua socialmente dominante
acaba por ser a mais funcional. Sobretudo se os falantes das outras línguas se encontram dispersos e
têm poucas oportunidades de comunicar entre si.

Era o que acontecia com os escravos domésticos, em particular nas zonas urbanas, que, no contacto
com os senhores, naturalmente iam adquirindo uma variedade básica da língua portuguesa, até
atingirem um domínio razoável da língua.

Nas fazendas do interior, a situação era outra, em finais do século XV, início do século XVI. Havia
alguma preocupação em separar os escravos provenientes da mesma origem social e linguística, para
evitar que estes constituíssem um grupo de força, capaz de se revoltar. Afastados das suas terras,
misturados com os outros escravos e isolados do resto da população, de pouco lhes serviam as suas
línguas maternas.
Estamos aqui perante uma situação típia de formação de um crioulo. Uma situação extrema, de crise
linguística, em que as línguas maternas, embora acessíveis, não são acessíveis, não são funcionais e a
língua que é mais funcional, pelo contrário, porque pouco acessível, não pode ser plenamente
adquirida.

99
Neste tipo de circunstâncias, em geral os falantes têm um vocabulário muito reduzido, aprendendo
as palavras que servem para designar indivíduos, objectos e situações importantes para o seu
quotidiano e para emitirem alguns juízso de valor sobre eles. Para como eu (ou mim), senhor, pão,
água, casa, trabalhar, estar, dar, bom, mau, não, sim, etc.
Pelo contrário, as palavras com função meramente gramatical, com pouco peso semântico e também
com pouco peso fonético (pouco audíveis), como os artigos e grande parte das preposições, são
difícil e raramente adquiridas nesta fase.
Faltam-lhes meios linguísticos para estruturar a expressão, de modo a transmitirem o seu
pensamento com exactidão e de forma diversificada e fluente, coisa que fariam espontaneamente se
estivessem a falar a sua língua materna.
Este tipo de linguagem, característico das primeiras fases de aquisição de uma língua segunda em
contextos informais, e que, quando usado por um grupo, também se designa como pidgin instável,
só é sustentável em situações de comunicação pontuais e para fins muito restritos, como as relações
de trabalho ou de escravatura acima referidas, quando os adultos que o falam têm à sua disposição
outras línguas maternas. Se, pelo contrário, as situações de comunicação se intensificarem e
diversificarem e não houver outra língua funcional acessível, esta linguagem insuficiente terá
necessariamente de se transformar de modo a cumprir todas as funções de uma língua natural
exigidas pela mente humana.
Então, sob pressão do uso, para além de criarem as suas próprias inovações lexicais e gramaticais, os
falantes recorrem frequentemente às línguas maternas para colmatarem algumas falhas da língua
veicular e tornarem o seu discurso mais fluente. É essa nova língua, ainda muito variável mas mais
estruturada e dotada de mais léxico, que cabe em herança às gerações seguintes. Para a sua
complexificação e, ao mesmo tempo, para um certo nivelamento, isto é, para a adopção sistemática
de algumas das variantes em detrimento de outras, têm um papel crucial as crianças que nascem
nessas comunidades mistas.
Em Cabo Verde, foram as crianças que, adoptando como língua materna as variedades básicas da
língua segunda falada pelos adultos, no seu processo de aquisição, acelararam as mudanças,
contribuindo para a criação de uma nova língua – um crioulo. Este não resultou de uma evolução
nem do português, nem das línguas africanas: foi antes resultado da reestruturação (de uma nova
‘leitura’ e reelaboração) de um material linguístico novo e diferenciado: aquele que os primeiros
escravos africanos puderam adquirir e que produziam mais frequentemente, no seu contacto limitado
com a língua portuguesa e os seus falantes.
Esse material, de base portuguesa, continha também formas de expressão e de conteúdo das línguas
africanas faladas na comunidade. No entanto, isso não nos permite dizer que os crioulos são línguas
mistas (com o léxico de uma língua e a sintaxe de outra, por exemplo). São, antes, línguas novas que
emergiram, com uma estrutura própria, em condições tais que determinaram que as mudanças
linguísticas, que normalmente levariam muitas décadas, se tivessem processado em muito pouco
tempo.

Os crioulos caracterizam-se pela qual ausência de flexões e a preferência pela codificação analítica
(através de unidades isoladas) das informações gramaticais.

1.7. Triplo paradoxo crioulo:

a) todas as línguas crioulas, seja qual for a sua base lexical, aparentam ser mais parecidas entre si
que cada uma delas com a língua de que herdou o léxico. Dito doutro modo, um crioulo

100
francês e um crioulo português assemelham-se mais entre si que o primeiro à língua francesa
e o segundo à língua portuguesa;
b) as línguas crioulas são mais parecidas entre si que as línguas de que provêm os seus léxicos,
isto é, um crioulo francês e um crioulo português estão mais próximos um do outro, que o
francês do português;
c) os crioulos da mesma origem lexical não são, por esse facto, especialmente mais parecidos
entre si que os crioulos de origens lexicais diferentes: por exemplo, podem existir
relativamente mais diferenças entre dois crioulos portugueses que entre eles e um crioulo
francês.

2. Processo de Formação dos Crioulos

Teoria dos substratos – No processo de formação dos crioulos, a língua socialmente dominante
(de superstrato) é a língua que dá o léxico. Diz-se, então, que um crioulo é ‘de base portuguesa’
quando as unidades lexicais são, na sua maioria, reconhecidamente de origem portuguesa, embora, na
sua estrutura, se rejam por regras fonológicas e morfológicas próprias, possam ter significados
diferentes e impliquem construções sintácticas também diferentes.

A teoria dos substratos é uma das teorias existentes quanto ao processo de formação dos crioulos.
Outras teorias existentes são as seguintes:

Teoria dos universais linguísticos – segundo esta teoria os princípios universais que subjazem a
todas as línguas explicariam por que pidgins e crioulos geograficamente muito afastados, formados
em épocas e em situações muito diferenciadas, partilham características linguísticas que aproximam
espantosamente as sua gramáticas.

Teoria da monogénese (proto-pidgin) – para esta perspectiva existiu um proto-pidgin de origem


portuguesa (no século XV) herdeiro do sabir ou língua franca da época das Cruzadas que se teria
expandido pelas costas de África, pela Índia e pelo Extremo Oriente e posteriormente sofrera
relexificações de forma a dar origem aos diferentes pidgins de base francesa, inglesa ou portuguesa.

Teoria da Poligénese (desenvolvimentos paralelos) – esta teoria baseia-se no pressuposto de que


condições idênticas conduzem a resultados idênticos: embora surgindo independentemente, todos os
pidgins e crioulos acabariam por partilhar características semelhantes visto terem na sua origem
línguas em grande parte europeias e da África Ocidental, ou seja, um material linguísticos comum,
para além de circunstâncias históricas e sociais muito semelhantes entre si.

2.1. Algumas tendências estruturais das línguas pidgin

a) Há uma propensão para o estabelecimento do padrão SVO como ordem básica dos constituintes
da oração.
b) A mesma ordem básica de constituintes para declaração, pergunta e ordem.
c) A expressão temporal e aspectual pode ser indicada pelo contexto ou por advérbios que geralmente
aparece em posição externa à oração ou antes do sintagma verbal.
d) É comum a ausência de morfologia flexional e de regras de concordância.
e) Sintaxe mínima e ausência de estruturas complexas (pouco frequentes orações subordinadas),
geralmente optando-se pela simples justaposição de orações.

101
f) Um léxico relativamente reduzido e lexemas com um domínio semântico mais amplo, que podem
corresponder a vários significados relacionados. Multifuncionalidade gramatical dos lexemas que
podem desempenhar funções de adjectivo, verbo de estado, substantivo.

2.2. Algumas tendências estruturais dos crioulos

a) Sistema de artigos compreende artigos definidos derivados de demonstrativos ou de outros


pronomes e artigos indefinidos derivados do numeral ‘um’.
b) O tempo, o modo e o aspecto são traduzidos por um sistema de partículas pré-verbais bem
definidas.
c) Existência de orações relativas sem relativizador.
d) A partícula de negação ocupa a posição pré-verbal.
e) Ausência de verbo copulativo (ser, estar).
f) A ‘existência’ e a ‘posse’ são expressas por um mesmo lexema verbal.
g) As orações interrogativas e declarativas têm a mesma estrutura.
h) Inexistência da passiva.

2.3. Classificação dos Crioulos de Base Portuguesa

Os crioulos de base portuguesa são habitualmente classificados de acordo com um critério de ordem
predominantemente geográfica embora, em muitos casos, exista também uma correlação geográfica e
o tipo de línguas de substrato em presença no momento de formação.
Em África formaram-se os Crioulos da Alta Guiné (em Cabo Verde, Guiné-Bissau e Casamansa) e
os do Golfo da Guiné (em São Tomé, Príncipe e Ano Bom).
Classificam-se como Crioulos Indo-portugueses os da Índia (de Diu, Damão, Bombaim, Korlai,
Quilom, Cananor, Tellicherry, Cochim e Vaipin e da Costa de Coromandel e de Bengala) e os
crioulos de Sri-Lanka, antigo Ceilão (Trincomalee e Batticaloa, Mannar e zonda de Puttalam).
Na Ásia surgiram ainda os Crioulos Malaio-Portugueses na Malásia (Malaca, Kuala Lumpur e
Singapura) e em algumas ilhas da Indonésia (Java, Flores, Ternate, Ambon, Macassar e Timor).
Os Crioulos Sino-Portugueses são os de Macau e Hong-Kong.
Na América encontramos ainda um crioulo que se poderá considerar de base ibérica, já que o
português partilha com o castelhano a origem de uma grande parte do léxico (o Papiamento de
Curaçau, Aruba e Bonaire, nas Antilhas) e um outro crioulo no Suriname, o Saramacano, que,
sendo de base inglesa, manifesta no seu léxico uma forte influência portuguesa.

2.4. Crioulo Caboverdiano na variedade falada na ilha de Santiago

Do seguinte diálogo, retirado do livro de Nicolas Quint, Vamos Falar Caboverdiano, o seu autor faz o
seguinte comentário:
O caboverdiano não possui artigo (definido ou indefinido).
Tchoma significa chamar-se. Muitos verbos do caboverdiano com origem em verbos reflexivos do
português não têm marca morfológica de reflexividade.
Em caboverdiano a interrogativa não obriga à inversão de posições entre o sujeito e o verbo.
Contrariamente ao que acontece em português, o pronome pessoal de sujeito (quando não existe um
sujeito expresso) é obrigatório, salvo quando o sujeito é neutro (isro, isso) e/ou subentendido: támbi
sta dretu, [também (eles) estão bem]. Na linha 5, a Ana pergunta ao João pela sua família. O João, ao
responder-lhe de imediato, não precisa de usar um pronome pessoal antes do verbo sta, pois nesse
contexto é claro para ambos os locutores que se está a falar dos familiares do João.

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Em caboverdiano os verbos não mudam de forma em função do sujeito: m-tchoma, bu tchoma, eu
chamo-me, tu chamas-te.
Qualquer forma verbal do caboverdiano é portadora de três noções: o aspecto (A), a voz (V) e o
tempo (T). Do ponto de vista morfológico, as marcas de aspecto precedem o verbo, as marcas de
voz e o tempo seguem-no, ou seja A + verbo + V + T.
As formas verbais mora, sta, tchoma não são portadoras de nenhuma marca, nem antes nem depois
do verbo. A esta ausência de marca, chama-se marca zero, ou seja, não dizer nada é já dizer alguma
coisa:
Aspecto = zero: o verbo encontra-se no aspecto perfectivo (designação do aspecto), que expressa a
noção de acção terminada, cumprida.
Voz = zero: o verbo está na voz activa.
Tempo = zero: o verbo está no presente.
Assim, em módi bu tchoma? O verbo encontra-se conjugado no aspecto perfectivo, na voz activa e
no tempo presente.

Crioulo Caboverdiano Tradução Literal


Djom é berdiánu di Santiágu. Ana é minina di João ser caboverdiano. Ana ser rapariga de Portugal.
Portugal.
Djom: Es korpu? João: Esse corpo?
Ana: Alê-m li, es bida? Ana: Aqui eu aqui (= eu estou bem), esse vida?

Djom: Alê-m li dretu, gentis módi ki sta? João: Aqui eu aqui bem, família como que estar?
Ana: Tudu sta dretu? Di bo? Ana: Tudo estar direito. De ti (= a tua)?

Djom: Támbi sta dretu, grásas-a Diós! João: Também estar direito, graças a Deus.
Ana: Módi bu tchoma? Ana: Como tu chamar-se?

Djom: M-tchoma Djom. Di bo, é módi? João: Eu chamar-se João. De ti (= o teu [nome]) ser
Ana: M-tchoma Ana. como?
Ana: Eu chamar-se Ana.

Djom: Undi bu mora? João: Onde tu morar?


Ana: M-mora na Práia. A-bo undi bu mora? Ana: Eu morar em Praia. [Tu-reforço] onde tu
morar?

Djom: A-mi m-mora na Somáda. Djom: [Eu-reforço] eu morar em Assomada.


João é caboverdiano, natural da ilha de Santiago. A Ana é uma jovem portuguesa.
João: Olá, como estás?
Ana: Estou bem, e tu?
João: Estou bem, e a tua família?
Ana: Estão todos bem, obrigada. E a tua?
João: Também estão bem, graças a Deus.
Ana: Como te chamas?
João: Chamo-me João. E tu, como te chamas?
Ana: Eu chamo-me Ana.
João: Onde moras?
Ana: Moro na Praia. E tu?
João: Eu moro na Assomada.

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Semana 14: examen parcial - 2

Semana 15: examen final

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