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Cinara dos Santos Santana

1º período – Licenciatura em Dança

História da Pedagogia
Cambi , Franco; tradução de Álvaro Lorencini. – São Paulo : Fundação Editora da UNESP (FEU) , 1999
Capítulo II – A ALTA IDADE MÉDIA E A EDUCAÇÃO FEUDAL

1.A EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE FEUDAL (pag.155,156,157)

A Idade Média tem como característica uma nova organização da sociedade que se estrutura
em torno do feudo , que é uma unidade territorial governada por um senhor , que domina e
controla todos os âmbitos. A economia dentro dele é no geral de subsistência e
predominantemente agrícola. A cultura , desenvolve-se apenas no castelo ou nas igrejas e
sobretudo nos mosteiros , caracteriza-se também por poucos intercâmbios e é toda
devotada á fé cristã , seus dogmas e mitos. A sociedade feudal é fixa , com escassa
mobilidade social e pouca reciprocidade ; uma sociedade de ordens em que cada um tem
direitos e deveres precisos.
Foram as invasões que determinaram o nascimento da economia feudal , pois o
Mediterrâneo se tornou cheio de riscos. Também foi decisiva a queda do Império que fez
sumir qualquer autoridade central. Outro fator importante foi o despovoamento das cidades
e o deslocamento para o campo.
O homem e a sociedade medieval são frutos do pensamento cristão que coloca como
importante a vida além-túmulo , que desvaloriza a vida mundana e a enche de pecados.
Essa nova sociedade tem na sua base novos vínculos entre homem e homem ligados não
mais a pólis , mas a elos de sangue , e consolidam relações de parentesco como primárias e
exclusivas.
Nesse tipo de sociedade o problema educativo coloca-se de forma dualista , como uma
nítida distinção de modelos e processos de formação , de locais e práticas de formação ,
entre as classes mais baixas e a nobreza. A educação é portanto dividida entre nobreza e
povo , entre “escola” e “aprendizagem” , mas se alimenta da paideia cristã , e também nos
exemplos de Bizâncio e do Islã. Sendo assim acaba sendo permeável pelo deslocamento de
peregrinos , feiras e alguns intercâmbios culturais.
2.ESCOLAS ABACIAIS , CATEDRAIS , PALACIANAS.(pag. 158,159,160)

Na formação das elites que se desenvolve nas escolas organizadas pela Igreja , que
substituiu o Estado neste papel , utilizando um novo modelo de escola , ligado á vida
monástica , que organiza ensinos de alcance religioso , ligados á textos canônicos , que não
“descobre a verdade , mas a mostra” , um saber fixado e que se trata apenas de esclarecer e
de glosar.
As escolas monásticas acompanharam as escolas estatais romanas de gramática e de
retórica , substituindo-as aos poucos e propondo uma formação não literária , mas sim
religiosa. No curso do século VII que vem se formando a educação medieval , dirigida para o
menino-monge , tendo como centro a leitura e a memorização , o cálculo e o canto.
Era difundida na Europa a idéia de renovatio imperii de Carlos Magno que potencializava a
instrução. Foram fundadas então escolas catedrais onde se cultivava o estudo do trívio ,
quadrívio e se difundia um saber enciclopédico , caracterizado pela “tradição e submissão” á
Igreja ou elementos dela. Assim nessas escolas prevaleceram até o século X um modelo de
cultura “didática e conservadora”.
Desde a época carolíngia , porém , tinha tomado corpo outro tipo de escola – ligada ao
poder laico e destinada a formar a nobreza de corte e os administradores do Império ,
colocado no palácio do soberano. O ideal político de Carlos Magno era unificar Igreja e
Estado e colocar a ‘’palavra de Deus’’ como fermento da vida social para os “conselheiros”
do rei. É fundada então a escola palaciana que ensina sobretudo gramática e retórica , mas
ocupando-se também do método de ensino. Fixa-se então um modelo formativo novo ,
ligado a uma elite de clérigos , monges e príncipes , tendo como centro a retórica e sua
teorização elaborada por Cícero.

3.CAVALARIA E FORMAÇÃO DA ELITE (pag.160,161,162)

As classes nobres queriam um novo ideal formativo , com uma formação ao mesmo tempo
religiosa e militar , inspirado nos valores cristãos de defesa dos fracos , exaltação da justiça ,
idealização da mulher e do amor , mas também com princípios da aventura , honra e
coragem , que se organizou dentro da Cavalaria. Nasce a partir do século IV reunindo grupos
armados irregulares , fora da lei que agem com violência e crueldade , perturbando a vida da
sociedade. Surge a necessidade de educar tais cavaleiros para valores de gentileza e
dedicação , para torná-los socialmente úteis. A igreja então a cristianiza e a organiza como
instituição de iniciação , colocando-lhe um valor moral e um identidade espiritual. Penetrou
profundamente no ordenamento da Cavalaria , indicando um conjunto de deveres que a
beneficiavam.
O processo de formação do cavaleiro foi reorganizado. Aos 7 anos o filho caçula do senhor
era enviado para formar-se em outro castelo , onde se exercitava na montaria , torneio e
combate , e também aprendia uma educação cortês (boas maneiras , código de honra e de
amor , estes últimos ligados á idealização da mulher). Por volta dos 20 anos ele concluía a
formação de cavaleiro em um cerimônia complexa. Ele se tornava um “crente” , começava a
fazer parte de uma “sociedade de iniciados”, dedicada a viver valores ideais comuns
baseados no cristianismo.
A Cavalaria foi uma agência de formação de nobres pois havia o pensamento de que eram
superiores ao restante da população , faziam atos rituais que mantinham ainda mais essa
distância.

4.METAMORFOSE NA PAIDÉIA CRISTÃ (pag.163,164,165)

A reflexão pedagógica medieval permanece inserida dentro da paidéia cristã , que deve
tornar-se “imitação de Cristo” e tem como valores centrais , o desprezo do mundo , a
humildade , a solidão e o silêncio , o amor de Deus e a consciência do pecado. É um modelo
de formação que desenvolve os aspectos de interioridade e sublimação , com a presença do
divino e marcada por um conflito constantemente aberto (entre Deus e o mundo , entre
pecado e salvação etc.) no interior do sujeito.
Um primeiro modelo de paidéia cristã medieval está presente no Pseudo- Dionísio que
sublinha a estrutura hierárquica do mundo , que ascende para formas mais espiritualizadas
ultrapassando o mundo para aproximar-se de Deus.
Algumas figuras surgem inserindo outros conhecimentos nessa educação religiosa como
Rábano Mauro que conecta Escritura e artes liberais e atribui papel importante ás disciplinas
do quadrívio. Boécio , Isidoro e Rábano reintroduzem na paidéia cristã elementos da cultura
e do racionalismo antigo sem diluir a formação numa direção exclusiva , teológica e mística.
Será porém Escoto Erígena que irá sublinhar esse aspecto através do pensamento inspirado
no neoplatismo que fixa uma escala descendente/ascendente na ordem dos seres , que
parte de Deus e retorna a Deus , através da mediação do homem que – enquanto corpo e
alma – é o ponto de fusão dos dois movimentos. Nesse pensamento místico a paidéia cristã
se reafirma na sua aspiração mais estritamente espiritual , de formação interior de caráter
religioso.
A paidéia cristã vive a profunda tensão , entre razão e fé , exalta a formação religiosa ,
espiritual e mística , no exemplo da vida monástica , como o modelo mais alto e mais
próprio da identidade humana e , portanto , como o objetivo mais específico e máximo da
sua educação.

5.A EDUCAÇÃO DO POVO (pag.166,167)

A educação do povo se cumpria essencialmente pelo trabalho. Era o aprendizado , na oficina


ou nos campos , que desde a infância , dava uma formação técnico-profissional e ético-civil
ao filho do povo.
Na sociedade feudal o trabalho era determinado pela família e pela tradição familiar , além
da condição social. A educação que acontecia no local de trabalho era uma educação da
reprodução , das capacidade técnicas , das classes e das relações sociais , sem valorizar a
inovação.
Havia um tempo de não trabalho (domingos e festas religiosas) administrado diretamente
pela Igreja através dos ritos e festas.Os cânticos que acompanham as cerimônias e exaltam a
oração , como ocorre no canto gregoriano , vem interpretar e valorizar (também promover e
educar) a Idade Média. Eram importantes também os manuais de formação espiritual que
mesmo voltados para o clero , penetravam também no mundo popular através das
narrativas , nos cânticos , nas lendas e educavam o povo.

6.EDUCAÇÃO EM BIZÂNCIO E NO ISLÃ (pag. 167,168,169,170)

Ao lado do Ocidente cristão e feudal existem outros dois espaços geopolíticos e culturais
diferentes entre si e em relação ao Ocidente que influenciam o seu imaginário , a sua cultura
e até a sua politica , que se colocam num nível de desenvolvimento social e cultural muito
maior em relação ao Ocidente.
Ao Oriente , Bizâncio com sua cultura predominantemente grega , com sua sutil cultura
teológica e sua complexa tradição filosófica tem um papel marginal no desenvolvimento do
Ocidente.
Ao sul , encontra-se a dominação do Islã com uma civilização florentíssima nos aspectos
técnicos , científicos e filosóficos , mais evoluída em relação ao Ocidente , que sofre seu
fascínio e sua influencia.
Do ponto de vista educativo , Bizâncio , tem uma cultura formativa de tipo gramatical-
retórico , nutrida de ética grega e de fé cristã , mas pouco a pouco se dá espaço também
para as ciências , lógica , música , filosofia. A educação bizantina oferecia o contato com uma
tradição intelectual e moral surgida na Antiguidade.
O Islã teve um cuidado com a educação e instrução , já a partir de Maomé e do papel
assumido pelo livro sagrado , na formação do homem do islâmico. É o imã quem deve
conduzir o processo de formação , com seu saber sobrenatural , por meio de um ensino
iniciático que versa sobre a leitura da Alcorão. Nessas escolas são ensina-se a recitar de cor o
texto , para que se possa usá-lo como guia em qualquer ocasião. Também a educação ética ,
orientada para o belo e para o bem , produza a formação do caráter , é marcada no sentido
predominantemente religioso.
Existem também ao lado das escolas alconistas os preceptores particulares e depois os
círculos que ensinam a tradição e o direito. Mais tarde , no século X , a cultura islâmica se
abre para a ciência e é criada em Bagdá a Casa das Ciências , uma rica biblioteca que vira um
centro de estudos. No século seguinte nasce a madrasa , escola criada pelo poder político
para formar os técnicos do Estado , segundo , uma cultura tradicional.
Para a cultura do Ocidente , o Islã contribuiu com o despertar das ciências , a retomada do
racionalismo filosófico , com lendas e narrativas que alimentaram o imaginário medieval.
Entre Bizâncio e Islã , o Ocidente alto-medieval vai amadurecendo sua própria retomada ,
realizando sobretudo com as universidades , um novo modelo educativo.