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A IGREJA ANGLICANA E AS CONTROVÉRSIAS PURITANAS 1

RESUMO

Marcos Conceição Gonçalves 2

O presente trabalho tem como objetivo chamar a atenção para os aspectos históricos da

influência da Reforma Protestante sobre Inglaterra, buscando percorrer o período anterior

da formação da Igreja Anglicana até a sua consolidação como Igreja Estatal da Inglaterra,

bem como do surgimento e crescimento dos movimentos dos puritanos, trazendo controvérsias no âmbito teológico, prático e político. Sendo utilizadas como fonte de

pesquisa material bibliográfico do campo histórico, artigos e livros, destacando a importância dos movimentos ingleses pós reforma para o surgimento do denominacionalismo.

Palavras-chave: Artigo Científico. Normatização. NBR 6022.

1. INTRODUÇÃO

Um aspecto interessante das reformas ocorridas por diversos países da Europa, é

notar que mesmo diante do rompimento com a Igreja Católica Romana, as igrejas deixaram

de ser imperiais para tornarem-se estatais. Nesse sentido, a Inglaterra traz um forte exemplo

disso. A Igreja Anglicana, de forma peculiar, surge de movimentos reformarcionistas de

mais de 200 anos, ao mesmo tempo da insatisfação do povo e do rei e, por fim pela influência

de Lutero e Calvino. Quando a Igreja Inglesa se consolida, apesar de buscar a proximidade

das Escrituras e de ser uma igreja que acolhe a diversidade de pensamentos teológicos,

enfrenta as manifestações dos cristãos puritanos, muitos deles separatistas, desejavam

separar Igreja e Estado. Este trabalho busca chamar a atenção para tais movimentos e sua

influência sobre a Igreja da Inglaterra.

2.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.

1. A REFORMA NA EUROPA E A REFORMA NA INGLATERRA

No início do século XVI, a sociedade medieval já demonstrava sinais de ruína. O

surgimento das grandes navegações coopera para o florescer de uma sociedade com maior

interação geográfica (CAIRNS, 1995, p.221). A política muda, o que antes era de um

1 Trabalho apresentado em cumprimento à disciplina: Metodologia da Pesquisa II, ministrada pelo Prof. Ms. Eron Xabregas, como requisito para obtenção de nota para o Curso de Bacharelado em Teologia.

2 Estudante no sexto semestre do curso: Bacharelado em Teologia, da Faculdade Teológica Batista Equatorial. Turma: 2017.01. Mat.: 2017.004. E-mail: marcoscgo@hotmail.com.

governo universal, dá lugar as nações-estados, que se opunham poderosamente ao governo universalista religioso. A nova classe média não tinha interesse algum em enviar seus ganhos para a Igreja Romana (CAIRNS, 1995, p.221). O intelectualismo, influenciado pelo Renascimento, levou muitos pensadores cristãos a se aplicarem no estudo das Escrituras, nas línguas originais. O ser humano, como indivíduo, passa a receber mais ênfase, pois, a salvação é pessoal e sua relação com Deus, já não precisa de um sacerdote (CAIRNS, 1995, p.222). A religião, que antes era unicista, ficou diversificada. Ainda, outros povos em viagens marítimas, traziam e levavam suas religiões pelo mundo novo. A sociedade estática, verticalizada e medieval, tornou-se dinâmica, horizontal e moderna (CAIRNS, 1995, p.222).

No meio de todas essas transformações, em 31 de outubro do ano 1517, na Alemanha, um ousado monge agostiniano, crava nas portas da igreja de Wittenberg, um manuscrito contendo suas noventa e cinco teses contra as indulgências, esse monge chamava-se Martinho Lutero (BERNAL, 2017). De fato, o sistema de indulgências é considerado o estopim que estimulou a Reforma. Elas faziam parte do sacramento da penitência. Após a confissão e arrependimento, o fiel obtinha sua absolvição somente se pagasse algum valor ao sacerdote (CAIRNS, 1995, p.229).

Não obstante, a fé de Lutero influenciou nações por toda Europa (FERREIRA, 2017, p.26-27). Contudo, não foi somente um protesto a sociedade de sua época, mas sim é marcada pelo retorno aos princípios bíblicos (FERREIRA, 2017, p.30). O pensamento de Lutero, trouxe o retorno à real concepção da relação do ser humano para com Deus. A saber, pela graça, o homem tem livre acesso a Deus e alcança perdão dos seus pecados sem a mediação de um sacerdote. Igreja Romana perdeu seu poder, “suas hierarquias começavam a ruir” (KRÄMER, 2016). Igrejas protestantes surgiam separando-se da Igreja Medieval, de forma diversificada. Entretanto, na Inglaterra, surge uma igreja que se diferencia tanto dos pressupostos luteranos quanto da Igreja Católica, mas, ainda tendo a Bíblia como autoridade final e contrária ao “sistema sacramental hierárquico da Igreja Romana” (CAIRNS, 1995, p.230). Ficou conhecida como Igreja Anglicana.

2.2. A REFORMA ANGLICANA

A reforma protestante na Inglaterra ocorreu de forma peculiar aos outros países. Não dispondo de um líder religioso forte, a reforma anglicana foi liderada pelo rei, um movimento político que se tornou religioso (CAIRNS, 1995, p.266). Nos idos do século XV,

os ensinos John Wycliffe 3 , ainda eram propagados secretamente pelos lolardos 4 , o retorno as Escrituras, era ensinado nos lares. Junto a isso, domínio da Igreja Romano sobre terras inglesas e o os impostos papais, estavam servindo de estorvo para a nova nobreza pós- medieval (CAIRNS, 1995, p.266-267). Na universidade de Oxford, os Humanistas Bíblicos passaram a estudar a bíblia na língua original e a ensiná-la ao povo. Em 1525, Wyliam Tyndale e Miles Covardale, que também queriam reformar a igreja, publicaram três mil edições do Novo Testamento e da Bíblia completa em inglês, tendo sido distribuídos por comerciantes (CAIRNS, 1995, p.267).

Não obstante, os escritos de Lutero se propagaram pelo Reino Unido. Mas o rei Henrique VIII, os rejeitou e ordenou sua queima em praça pública, por isso ficou conhecido como “o defensor da fé. Todavia, tal feito aproximou Tyndale e Thomas Cranmer, ainda mais, dos pressupostos reformistas (CAIRNS, 1995, p.267). Entretanto, o rompimento com

a Igreja Romana, ocorre a partir do desejo de Henrique VIII de separar-se de sua esposa

Catarina de Aragão, por não poder dar-lhe um filho herdeiro, e casar-se com Ana Bolena, com quem já tinha um caso (CAIRNS, 1995, p.267). O Papa Clemente II, que tinha mais afinidade com o primo de Catarina, Carlos V, rei da Espanha e Imperador da Alemanha, não foi propício às intenções de Henrique VIII, que, por sua vez, acusou o seu Cardeal, Wosley, de falhar em sua petição ao Papa, o condenou a morte e nomeou Thomas Cromwell, como primeiro ministro e arcebispo de Canterberry (CAIRNS, 1995, p.267).

O novo Arcebispo, concedeu o divórcio ao rei, que se casou com sua amante. O

Parlamento Inglês declarou Henrique “o chefe Supremo da Igreja da Inglaterra” (CURTIS; LANG & PETERSEN. 1991, p. 99), por conseguinte, foi determinado que os impostos pagos

a Roma deveriam ser pagos ao monarca (NOLL, 2000, p.184). Pode-se dizer que Henrique

não tinha o desejo de instaurar mudanças teológicas, mas, sim uma igreja nacional. Contudo,

buscou a uniformidade da Igreja, por meio do Estatuto dos Seis Artigos, mesmo, ainda mantendo certas tradições católicas (CURTIS; LANG & PETERSEN. 1991, p. 99). Ele fechou mosteiros, que haviam se tornado antros de imoralidade, cativou as terras da Igreja

3 Pré reformador inglês, martirizado no ano de 1384, em Lutterworth, Reino Unido. FERREIRA, Franklin. John

Disponível em:

<http://www.monergismo.com/textos/biografias/wycliffe_franklin.htm>. Acesso em: 05 de abril 2019.

discípulos [de Wycliffe que] se dedicaram a divulgar suas doutrinas entre o povo, ainda durante a vida do

mestre de Oxford. As doutrinas dos “lolardos” eram claras: A Bíblia deveria ser colocada à disposição do povo

em seu próprio idioma. As distinções entre o clero e os leigos, com base no rito de ordenação eram contrárias às Escrituras. Clérigos injustos deveriam ser desobedecidos. A principal função dos ministros de Deus deveria ser

pregar, e eles deveriam ser proibidos de ocupar cargos públicos [

Wycliffe - O amor de Cristo nos

4

[

]

]”. Ibid. Id.

Romana e entregou à nobres leais a corte, ordenou que a Bíblia, na língua inglesa, fosse padrão nas igrejas, com tudo isso ele deu início a uma igreja que não podia ser considerada romana, tornou-se uma igreja nacionalista inglesa, Igreja Anglicana (CURTIS; LANG & PETERSEN. 1991, p. 99).

A Igreja Anglicana rompeu todos os laços com a Igreja Romana. Todavia,

reformadores ingleses, como Robert Barnes e John Frith, ainda, buscavam uma reforma ainda mais completa. (NOLL, 2000, p.185). É importante destacar, que o separatismo reformista de Henrique VIII, por mais que não tenha um peso teológico, caracteriza-se de modo peculiar e inaugura uma nova forma de viver o cristianismo na Europa (NOLL, 2000, p.185). Nos anos seguintes, uma diversidade de igrejas surge nas pequenas cidades europeias, cada uma apresentando sua forma de vida cristã como alternativa ao catolicismo, o que “alterou para sempre a face do cristianismo no ocidente” (NOLL, 2000, p.186).

Na Inglaterra, o país se dividiu entre católicos e protestantes. Maria Tudor, filha de

Henrique VIII com Catarina, se alinhou aos movimentos de contra reforma. E, proclamou o retorno de práticas católicas na Inglaterra, aqueles que se rebelavam fugiram para Genebra ou Frankfurt, outros sucumbiam ante a perseguição, isso fortaleceu o sentimento protestante

(CAIRNS, 1995, p.270). Após a morte de Maria Tudor, a nova rainha, Elizabeth, também filha de Henrique VIII e Ana Bolena, era protestante e havia sido reconhecida pelo parlamento como “o único governo supremo” do reino, religioso e político. Ela buscava ser moderada, promulgando uniformidade, para tanto, instituiu o Livro Comum de Orações e os 39 Artigos da Religião, revisados e aprovados pelo parlamento (CAIRNS, 1995, p.271).

2.3. OS MOVIMENTOS PURITANOS NA INGLATERRA

Elizabeth obteve grande vitória sobre o catolicismo e os espanhóis, e ainda, colaborou com vitória dos calvinistas holandeses e franceses sobre o poder católico (CAIRNS, 1995, p.261, 263). As vitórias da Rainha, não lhe trouxeram paz total, pois apesar de ter acabado com as esperanças da Igreja Católica Romana, teve que lidar com os levantes puritanos contra a igreja episcopal oficial, queriam torná-la presbiteriana ou congregacional (CAIRNS, 1995, p.261, 273). Eles pretendiam purificá-la, completamente, dos rastros católicos que ainda permaneciam, por isso, eram chamados Puritanos (CAIRNS, 1995, p.273). O movimento puritano, surge de um “profundo apreço pelas Escrituras”, e tem suas origens em John Wycliffe e seus discípulos, os lolardos (MATOS, 2014). Os puritanos na

Inglaterra, protestavam, principalmente, contra a liturgia, rituais, vestes, a guarda de dias santos, sinal da cruz, dentre outras coisas, seguiam os ensinos de Calvino, propagados por William Ames e William Perkins (CAIRNS, 1995, p.273). Por isso, também ficaram conhecidos pela “Controvérsia das Vestimentas” e almejavam o uso de “togas genebrianas” (MATOS, 2014).

Todavia o “Anglicanismo Clássico” se fortaleceu e as medidas contra os puritanos se intensificaram. Os puritanos, por sua vez, eram divididos, principalmente na forma de governo (MATOS, 2014). Haviam, os não conformistas, que não se submetiam a Igreja Anglicana oficial; os separatistas, que não se submetiam a igreja e desejavam a separação total entre Igreja e Estado, mas tarde esse termo foi atribuído aos congregacionais ingleses e outras igreja próprias que iam surgindo; os não separatistas, desejavam reformar a igreja sem abandoná-la; os independentes, conhecidos como congregacionais moderados, se assemelhavam mais aos presbiterianos e; os dissidentes, que deixa a Igreja da Inglaterra por motivo de consciência, deram origem aos presbiterianos ingleses, batistas e congregacionais (MATOS, 2014).

3. MÉTODOS E MATERIAIS

O presente texto foi elaborado, a partir de pesquisa técnico científica em livros e artigos de historiadores de diferentes vertentes. Nesse sentido, foi necessário analisar cada texto com vistas colher o que fosse relevante para reforçar a ideia de que a Reforma Anglicana foi um movimento genuíno histórico, político e principalmente teológico prático. Diante disso, buscou-se a história do surgimento dos movimentos puritanos e sua influência sobre a Inglaterra.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com base no material pesquisado, podemos constatar que o movimento surge na Inglaterra, a partir dos movimentos puritanos, que são aos poucos reconhecidos pela Igreja Anglicana. Pois a partir do desejo separatista ou mesmo de controvérsias de vestimenta, os movimentos puritanos trazem questionamentos salutares sobre o significado do que significa ser igreja no âmbito da Reforma.

5.

CONCLUSÃO

A luta puritana persistiu por vários anos, passando por reis e regentes, que hora

favoreciam o movimento puritano e hora se opunham. Mas, em 1689, após a Revolução

Gloriosa, “a tolerância foi assegurada aos não conformistas ingleses”, havendo uma Igreja

Estatal que tolerava tantos outros grupos dissidentes (CAIRNS, 1995, p.274-279). Diante

dessas coisas, nota-se que a estatização da igreja a submete aos interesses dos seus

governantes, deixando a sã doutrina e a teologia bíblica em segundo plano. Nesse contexto,

o movimento puritano, trouxe aspectos muito importantes a se meditar na vida cristã, indo

além da liberdade política. Conforme Leland Ryken, destacou muito bem, valorizavam: “a

vida teocêntrica”, “toda a vida pertence a Deus”, “vendo Deus nos lugares comuns”, “a

importância da vida”, ”vivendo num espírito de expectativa”, “o impulso prático do

puritanismo”, “a vida cristã equilibrada” e “a simplicidade que dignifica” (MATOS, 2014).

6. REFERÊNCIAS

Disponível

em: <http://vienadirecto.com/2017/08/08/la-reforma-protestante-en-austria-1/>. Acesso em:

02 de abril de 2019.

CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos Uma História da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1995.

CURTIS, A. Kenneth; LANG, J. Stephen & PETERSEN, Randy. Os 100 acontecimentos mais importantes da história do cristianismo - do incêndio de Roma ao crescimento da igreja na China. São Paulo: Vida, 2003.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2013.

FERREIRA, Franklin. Pilares da Fé. São Paulo: Vida Nova, 2017.

BERNAL, Paco. La Reforma Protestante en

John Wycliffe - O amor de Cristo nos constrange. Disponível em:

<http://www.monergismo.com/textos/biografias/wycliffe_franklin.htm>. Acesso em: 05 de abril 2019.

KRÄMER, Klaus. Martinho Lutero, o monge que revolucionou o Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/martinho-lutero-o-monge-que-revolucionou-o- mundo/a-36213487>. Acesso em: 02 de abril de 2019.

MATOS, Alderi Souza de. Os Puritanos - Sua Origem e Sua Disponível em: <https://cpaj.mackenzie.br/historiadaigreja/pagina.php?id=188>. Acesso em: 02 de abril 2019.

NOLL, Mark A. Momentos Decisivos na História do Cristianismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2000.