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DOSSIÊ

Psicanálise GI L S O N I A N N I N I E C A R L A R O D R I GU E S

entre “Q
uero fazer xixi”, diz a filha de
cinco anos, para o embaraço do

feminismos
pai, que almoça com ela num
restaurante tradicional, desses que só têm dois
banheiros, o masculino e o feminino. “Então

e femininos
vamos no feminino”, diz o pai, torcendo para
não ter ninguém lá. “Não! No feminino não
pode!”, responde ela, para espanto do pai. Di-
dática, ela explica: “Paiêêê, quero ir no femini-
na! O feminino é só para os meninos!” – retru-
ca a filha, para o deleite do pai, lacaniano. Ela
descobriu que a segregação urinária (não exa-
tamente sexual), embora apoiada em diferen-
ças corporais, se inscreve na língua. Sim, toda
norma é construção social. Aliás, Roland Bar-
thes nos ensinou, há meio século, que a língua
tem algo de fascista: não por aquilo que ela nos
interdita, mas por aquilo que nos obriga a falar.
Contudo, não podemos prever como normas
sociais, que são sempre contingentes, vão ecoar
em cada ser falante. As ressonâncias subjetivas
dos corpos recortados pela língua são infinitas.
O fe-menino é pouco para ela, que quer ha-
20_ bitar o fe-menina. O contingente da norma – e
Um panorama suas cicatrizes necessárias – se reduplica no
histórico infinito de suas ressonâncias.

ARTE ANDREIA FREIRE / ARQUIVO SANATÓRIO BELLEVUE, ALEMANHA


23_ Psicanálise e feminismo são discursos
Freud e a mais ou menos contemporâneos um do outro,
emancipação correm como ondas paralelas: às vezes se cru-
das mulheres zam, às vezes se distanciam, se confundem, se
interpenetram, se separam, se chocam. Como
26_ duas línguas diferentes, há aquilo que se tra-
O feminino duz, mas há também os intraduzíveis. Numa
de ninguém tradução, há restos e excessos, ganhos e per-
das. Traduzir é também renunciar à tradução,
29_ como nos ensinou Walter Benjamin. O dossiê
Corpos que segue pretende oferecer uma espécie de
e sujeitos mapa dessas convergências e divergências,
concordâncias e discordâncias.
33_ Um dos objetivos deste dossiê é aproximar
Lacan não sem duas teorias – psicanalítica e feminista – que
o feminismo parecem ter mais em comum do que alguns e
algumas gostariam de admitir, e que se desen-
36_ volveram ao longo do século 20 entre diálo-
Nós, o falo gos e tensões que buscamos exemplificar nos
Bertha Pappenheim, 1882. O caso
princeps da psicanálise: Anna O. e a escuta textos aqui reunidos. A questão das diferenças

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sexuais e suas implicações ético-políticas é um dos temas centrais no mulher, independentemente do corpo biológico,
debate sobre subjetividades masculinas e femininas, no qual reivindi- deve encontrar seu jeito próprio e único de se
cações de igualdade de direitos se encontram com a demanda por ex- virar com o sexo, sendo impossível coletivizar
pressão de sujeitos e sujeitas singulares. Aqui, não ceder sobre o seu o gozo. Há algo do feminino irredutível ao fe-
desejo, máxima da ética na psicanálise, se encontra com não ceder às minismo. O problema do corpo continua em
estruturas de opressão, máxima das políticas feministas. debate no texto de Suely Aires. Desde os corpos
Ainda em 1926, a psicanalista Karen Horney foi provavelmente a paralisados das histéricas do século 19 até hoje,
primeira a sugerir – no mesmo periódico em que Freud havia acabado ela discute como os corpos femininos se perfa-
de publicar seu artigo Algumas consequências psíquicas da distinção zem em relação à cultura, à linguagem e às nor-
anatômica entre os sexos (1925) – que o fato de a psicanálise ser um mas sociais. Interroga, assim, os enquadramen-
produto da especulação masculina implicaria impasses incontornáveis: tos que permitem um corpo ser reconhecido
a teoria freudiana da feminilidade seria um prolongamento de teorias como feminino, o que implica discutir a defi-
sexuais infantis masculinas. Assim, haveria uma posição política – ou nição de corpo e de feminino, assim como o que
pré-teórica – subjacente, que contaminaria inapelavelmente a perspec- pode haver de normatizador nesses conceitos.
tiva masculina. Essa crítica, com suas variantes, constituiu um dos tro- Rafael Cossi retoma tensões e debates entre
pos fundamentais da crítica feminista a Freud, não deixando de ecoar, a psicanálise de Lacan e as feministas france-
modernamente, na ideia de lugar de fala. Contudo, paradoxalmente, sas do século 20, muitas das quais frequenta-
Horney acabou endossando a ideia de um princípio biológico de atração vam seus seminários e exerceram influência
heterossexual, inexistente em Freud. O acalorado debate acerca da di- nem sempre explicitada ou reconhecida pela
ferença sexual e da feminilidade ocorrido nos anos 1920 foi reaberto história da teoria psicanalítica. Resultado de
nas décadas de 1960-1970, no que se convencionou chamar de “segunda uma pesquisa de doutorado defendida na USP
onda feminista”, quando a discussão acerca das compatibilidades e in- e ora publicada em livro, seu artigo elucida a
compatibilidades entre psicanálise e feminismo passou para o primeiro proximidade das transformações teóricas de
plano. Por um lado, diversas feministas criticaram aspectos centrais da Lacan em relação aos movimentos de mulhe-
psicanálise – muitas delas condenando-a inapelavelmente –, mas, por res de seu tempo. Por fim, o artigo de Carla
outro lado, muitas outras se valeram de conceitos psicanalíticos como Rodrigues toma como caminho alguns sintag-
instrumentos de crítica feminista à sociedade. Suas ressalvas girariam mas e significantes que produziram ruídos
em torno da centralidade da inveja do pênis na constituição da subjeti- entre o dizer psicanalítico e o escutado pelas
vidade da mulher: o argumento da inveja estaria carregado de uma feministas, onde ainda ecoam desentendimen-
suposição de superioridade masculina. No que se convencionou chamar tos. Tomando como ponto de partida que as
de “terceira onda feminista”, a psicanálise esteve igualmente presente, duas teorias – psicanalítica e feministas – es-
como uma espécie de inimiga íntima, gerando efeitos cujas ressonâncias tão engajadas em práticas, seu artigo percorre
é cedo para medir, por estarmos ainda embarcados nela. significantes e sintagmas que já produziram
Desde bastante cedo, aliás, os caminhos da psicanálise e do feminis- ruídos a fim de atualizar as possibilidades
mo se cruzaram, como mostra com precisão o artigo de Pedro Ambra, transgressoras que ambas as abordagens po-
que apresenta um panorama imprescindível para entendermos o desen- dem compartilhar.
volvimento histórico ondular da psicanálise e dos feminismos, con-
cluindo com a proposição de um elemento queer na disposição perversa
e poliforma das pulsões. Em seguida, Gilson Iannini aborda algumas
questões historiográficas, ressaltando como o singular modelo de for-
mação profissional da psicanálise impactou na emancipação de mulheres,
realizando bastante precocemente – na prática – alguns ideais feministas
que, naquela altura, pareciam longínquos. Conclui propondo que, se há
uma teoria do falo em psicanálise, isso não implica uma espécie qualquer
de falocentrismo, mas, no máximo, uma espécie de falo-excentrismo.
Por sua vez, Ana Lucia Lutterbach enfatiza que o ser falante, homem ou

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

Um panorama histórico
N O E N CO N TR O DA S LÍ N GUA S E N A PE RVE R SÃO DA TEO R I A
TA LV E Z E S T E J A M O S M E L H O R E S S A L D O S D E P R A Z E R - S A B E R
E A S M A I O R E S C H A N C E S D E E M A N C I PA Ç Ã O

PED R O A M B R A

LÍNGUAS E Tal qual no encontro de duas tradução do manifesto Uma reivindicação dos
LUTAS línguas, podemos pensar as re- direitos das mulheres (1792), de Mary Wolls-
lações entre psicanálise e femi- tonecraft, mas igualmente o pioneirismo de
nismo a partir de suas origens, diversos projetos sociais e associações que
semelhanças, sotaques, falsos cognatos e de lutavam pelos direitos das mulheres.
suas possibilidades de tradução. Tradução Poucos anos mais tarde, tais ímpetos en-
que, aliás, marca dois episódios frequente- contrariam ecos políticos mais contundentes
mente esquecidos dos trânsitos entre esses nas manifestações que marcaram a chamada
campos. Em 1880, com apenas 24 anos e mui- primeira onda do feminismo. A título de
to antes de conceber a teoria psicanalítica, exemplo, lembremos que, em 8 de março de
Freud traduz para o alemão o ensaio A sujei- 1908, milhares de mulheres protestavam em
ção das mulheres de John Stuart Mill. Nesse Nova York não só contra suas terríveis condi-
mesmo ano, Bertha Pappenheim começa seu ções de trabalho, mas igualmente pelo fim do
tratamento com Josef Breuer dando início trabalho infantil e pelo sufrágio universal.
àquele que pode ser considerado o caso princeps Meses mais tarde, um contingente ainda
da psicanálise: Anna O. Mas se a invenção da maior marchava pelo direito ao voto em Lon-
psicanálise pode ser creditada às reflexões dres e, no Peru, as portas da Universidade
advindas desse tratamento, o feminismo ale- eram pela primeira vez abertas às mulheres. É
mão deve a Bertha Pappenheim não apenas a nesse efervescente ano que Freud publica seu
DIVULGAÇÃO

FOTO ROXANE ROSELL / RADIO FRANCE

Representantes do
feminismo psicanalítico
francês, Julia Kristeva,
Hélène Cixous e Luce
Irigaray defenderam
um tipo de escrita não
orientada pela ordem
falocrática

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polêmico ensaio Moral sexual “civilizada” e e mais contundentemente embasou tais ques-
doença nervosa moderna, no qual criticava as tionamentos foi, sem dúvida, O segundo sexo
exigências matrimoniais e a opressão sofrida (1949), de Simone de Beauvoir.
pelas mulheres no tocante à sua sexualidade. A obra dá novo fôlego à ambiguidade e à
Para o pai da psicanálise, tal repressão sexual tensão que marcam a relação da psicanálise com
precipitava sobremaneira o desencadeamento o feminismo: se por um lado a autora elogia os
das neuroses e, em especial, da histeria. esforços freudianos na concepção de sua teoria
Mas, diferentemente do que podem fazer do psiquismo, por outro o critica pelas premis-
crer discursos mais progressistas no interior do sas sexológicas e sexistas de seu falocentrismo.
campo psicanalítico, é fato que Freud partilhou Mais ainda, se Freud afirmara, em 1933, que
dos preconceitos e das concepções sobre femi- seria impossível à psicanálise descrever o que é
nilidade de sua época, ainda que tenha o mérito uma mulher, cabendo àquela a tarefa de pensar
de ter insistido na participação das mulheres na como um ser bissexual se torna uma mulher,
comunidade analítica. Assim, a centralidade do Beauvoir leva essa ideia muito mais longe ao
falo, o destino necessariamente maternal da negritar a situação de opressão da mulher e
mulher saudável e a sexualidade feminina fo- submetê-la não a disposições pulsionais, mas a
ram alvo de intenso debate ainda nos anos de concepções sociais do lugar da mulher na cul-
1920 por psicanalistas como Melanie Klein, tura, o que vem a desembocar em seu aforisma
Helene Deutsch, Karen Horney e Marie Bona- “não se nasce mulher, torna-se mulher”. O que
parte. Freud não fica alheio a tais inquietações quer a mulher, para a autora francesa, é um de-
e percebemos que a feminilidade se torna em vir de liberdade, no qual ela seja mais do que o
sua obra cada vez mais obscura e inquietante, Outro do homem, que goza da possibilidade de
daí sua famosa indagação “O que quer a Mu- uma plena realização e autonomia não facultada
lher?”. Pergunta essa que diz respeito não só a às mulheres. Essa reflexão se embasa fortemente
um limite da psicanálise, como também a um no projeto da psicanálise existencial de Jean-
espírito do tempo no qual o sufrágio e outros -Paul Sartre que é, por sua vez, também uma
direitos das mulheres mostravam-se conquistas resposta filosófica à psicanálise.
importantes, porém cada vez mais parciais. Como sabemos, contudo, o estruturalismo
Junto ao relativo ocaso da primeira vaga femi- acabou por sair vitorioso da disputa epistêmica
nista no final da primeira metade do século 20, com o existencialismo, o que nos leva invaria-
o silenciamento de tais questões pelo familia- velmente aos desenvolvimentos de Jacques
rismo patriarcal do pós-guerra encontraria seu Lacan, que, por sua vez, influenciará toda uma
fim na eclosão daquilo que veio a consolidar-se tradição do feminismo francês como Julia
como a segunda onda do feminismo. Kristeva, Hélène Cixous e Luce Irigaray. Para
A crítica da conjugalidade e da o psicanalista, homens, mulheres e a própria
FOTO FRANCESCA MOORE / UNIVERSIDADE DE SUSSEX

TORNAR-SE sexualidade reprodutiva – que noção de falo seriam significantes, ou seja, es-
MULHER faz eco a muitos pontos da teo- truturas vazias de sentido em si e cuja signifi-
ria freudiana –, associada à de- cação adviria apenas do sistema de oposições
manda pelo fim da violência a partir do qual cada um deles se encontrava.
contra a mulher e o direito real de ocupar os Lacan distanciava-se assim do risco de um des-
espaços públicos e postos de trabalho, passou vio biologicista em Freud, ao mesmo tempo
a configurar a gramática das reivindicações que criticava, ao seu modo, o essencialismo e
feministas a partir dos anos de 1960. Ao recu- uma metafísica da substância que ainda pode-
sar a narrativa da mulher tomada apenas na riam marcar certas leituras de Beauvoir.
qualidade de mãe e esposa dedicada, abriu-se Mas, enquanto isso, a revolução sexual e
um campo de discussão sobre os processos so- os resultados dos novos desdobramentos do
ciais e psíquicos que determinariam o que é ser feminismo começam a produzir não só expe-
mulher nesse contexto. A reflexão que primeiro rimentos de sociabilidade e novas formas

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

de vida, mas reflexões teóricas que escapavam segundo a qual “A mulher não existe”. De toda
dos sistemas filosóficos tradicionais. Um forma, temos aí, novamente, a psicanálise sen-
exemplo desse tipo de saber é o ensaio Tráfico do criticada, dessa vez pela irrefletida matriz
de mulheres (1975) de Gayle Rubin, no qual a heterossexual do sistema simbólico, mas, tam-
autora critica a psicanálise de Freud e a pre- bém, completamente subvertida e repensada a
tensa neutralidade do sistema estruturalista partir de noções como a melancolia de gênero
de Lévi-Strauss e Lacan, denunciando que e o mecanismo foraclusivo de gêneros abjetos.
ambos tomariam a circulação mercadológica Butler chega mesmo a fazer seu próprio retor-
de mulheres e o universalismo fálico-patriar- no a Freud, afirmando que haveria um traço
cal como as bases de seus sistemas de pensa- queer na pulsão, já que ela desconhece objetos
mento. Não obstante, Rubin reconhece que a fixos e só pode ser pensada a partir de seu po-
psicanálise é uma grande e importante teoria limorfismo constitutivo.
da sexualidade humana precisamente porque Polimorfismo esse que, por fim, talvez
toma o gênero não como um dado natural, possa se aplicar ao próprio intercurso do fe-
mas como um processo de identificação. “A minismo com a psicanálise: para além de
psicanálise é uma teoria feminista manquée”, qualquer posição missionária, é no encontro
dirá a autora, evocando manquée [do francês das línguas e na perversão da teoria que tal-
mal-acabada, defeituosa, faltosa] e dando a ver vez estejam os melhores saldos de prazer-
outro indício da estrangeiridade que marca a -saber e nossas maiores chances de emanci-
relação entre esses dois universos e que ga- pação tanto das opressões conceituais quanto
nhará um novo capítulo com a introdução do das epistemologias autoeróticas.
conceito de gênero.
Rubin tem o mérito de ter politi-

REPRODUÇÃO
A SUBVERSÃO zado e introduzido de maneira
DO GÊNERO mais direta a noção de gênero no
interior do pensamento feminista.
Mas sua gênese não é sociológica,
nem política, mas psicanalítica: Robert Stoller
é quem, em 1964, introduz a noção de identi-
dade de gênero, a partir da clínica de pacientes
trangêneros e intersexuais. O psiquiatra de
inspiração psicanalítica contrapõe-se à tese
freudiana segundo a qual o gênero é exclusiva-
mente fruto da interpretação sobre a diferença
anatômica e, com isso, inaugura uma nova
forma de se conceber as noções de “homem” e
“mulher”, que se emancipam agora de seus
contornos corporais ou de orientação sexual.
As teorias de gênero compõem, assim, uma
terceira fase do feminismo, preocupada igual-
mente em questionar os essencialismos e na-
turalizações presentes num certo ideal de mu- A antropóloga Gayle Rubin, que contribui para a
introdução do pensamento de Lacan nos EUA
lher, supostamente branca, cisgênero e
heterossexual. A publicação de Problemas de
gênero (1990), de Judith Butler, marca essa crí-
tica radical à própria possibilidade de se pensar
“A Mulher” como sujeito do feminismo, o que,
para muitos, coaduna-se à máxima lacaniana

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Freud e a emancipação
das mulheres
A P R ÁT I C A D O P S I C A N A L I S TA E S U A V I D A FA M I L I A R E
P R O F I S S I O N A L F O R A M AT R AV E S S A D A S D E P O N TA A P O N TA
PEL A INFLUÊNCIA E PRESENÇA FEMININA

GI L S O N I A N N I N I

Para Gabi, femenina

M
ichel Foucault, que não poupou crí- “Ciente de que sua doutrina, não obstante afas-
ticas à psicanálise, reconheceu de tada das lutas feministas, participava ampla-
bom grado a ruptura em jogo na mente da emancipação das mulheres, Freud
posição singular da psicanálise em relação ao via-se como um homem do passado, não tendo
sistema da degenerescência e sua “oposição ele mesmo desfrutado da revolução sexual que
teórica e prática ao fascismo”. Tal oposição dá- impusera à sociedade ocidental. De certa for-
-se em diversos níveis e em diferentes âmbitos. ma, continua Roudinesco, o século 20 era mais
Gostaria de explorar aqui um aspecto pouco freudiano do que Freud”. Em outras palavras:
considerado dessa oposição teórica e prática ao se como homem Freud muitas vezes foi con-
fascismo, que está intrinsecamente ligado ao servador, sua prática como psicanalista foi cer-
papel das mulheres na história da psicanálise. tamente revolucionária.
Sem dúvida, Freud é um autor no qual se Com efeito, a prática de Freud e sua vida
cruzam conflitos e contradições. Não obstante familiar e profissional foram atravessadas de
o aparente conservadorismo de sua vida do- ponta a ponta pela influência e presença de
méstica, nem todo mundo se lembra de que nas mulheres. Quando, em 1910, a Sociedade Psi-
campanhas de seu tempo relacionadas a assun- canalítica de Viena revia seus estatutos inter-
tos sexuais, Freud era um liberal sem qualquer nos, houve oposição de alguns membros à
ambiguidade, tendo apoiado, há cerca de um admissão de mulheres. Diga-se de passagem,
século, causas políticas tais como a reforma da naquela altura, o acesso de mulheres a carrei-
lei do divórcio, a legalização da homossexua- ras profissionais era, para dizer o mínimo,
lidade e a descriminalização do aborto. Freud, incipiente, sendo bastante raras mulheres com
que em sua vida familiar não deixava de obser- formação médica. Freud posicionou-se firme-
var um certo estilo vitoriano, ainda que indi- mente a favor da admissão de mulheres. Com
retamente e quase sem querer, teria um papel efeito, Margarete Hilferding – que desmistifi-
inestimável na consolidação de algumas ban- caria a pureza e a naturalidade do amor ma-
deiras das lutas das mulheres. Conforme nota terno – foi a primeira representante feminina
uma biógrafa recente, Elisabeth Roudinesco: a fazer parte do círculo, tendo sido eleita

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

Da esquerda para a direita, no sentido horário: Marie


REPRODUÇÃO

Bonaparte, Lou Andreas-Salomé, Anaïs Nin e Hilda


Doolittle. Todas estabeleceram laços de intimidade e
de colaboração intelectual com Freud

ano em que seria publicada A interpretação


dos sonhos, de Freud. Na complexa e contra-
ditória Viena fin-de-siècle, parte do movimen-
to feminista atuaria principalmente em sua
vertente utópica, apostando mais na emanci-
pação individual e moral das mulheres do que
em transformações sociais mais profundas.
Outras pioneiras, como Auguste Fickert, que-
riam ir mais longe. Líder do movimento visto
como o mais “radical” da Viena daquela épo-
ca, Associação Geral de Mulheres, defendeu
não apenas o sufrágio universal, mas também
a proteção legal das mulheres da classe traba-
lhadora. A associação, fundada em 1893, foi
ativa até 1919. Durante algum tempo, junto
com outras pioneiras como Marie Lang e Rosa
Mayreder, publicou o periódico Documentos
das Mulheres, no qual se discutia política,
direito, medicina e, desde bastante cedo, psi-
canálise. Emma Eckstein, a ex-paciente de
Freud retratada no famoso sonho da injeção
de Irma, escreveu para o periódico, por volta
do período em que exerceu a psicanálise.
Para situar as coisas no tempo, é preciso
lembrar que o longevo Código Civil austríaco,
em vigor desde 1811, assegurava ao homem o
posto de chefe de família e de representante
em abril de 1910, apesar de alguns votos des- legal da esposa e dos filhos, reservando à mu-
favoráveis. Visto com lentes de hoje, talvez lher o âmbito doméstico e concedendo-lhe
pareça um gesto insignificante. Mas se lem- não mais do que o direito à subsistência. Não
brarmos que, apenas dez anos antes, a Univer- custa lembrar que, naquela altura, um livro
sidade de Viena ainda não admitia mulheres, como Sobre a debilidade mental fisiológica das
a perspectiva se inverte. Aliás, pouco antes da mulheres (1903), um best-seller da misoginia,
virada do século, eminentes professores da escrito pelo renomado neurologista Paul Julius
Faculdade de Medicina se opunham até mes- Möbius, não apenas circulava nos meios cien-
mo à melhoria do ensino médio para mulhe- tíficos, mas justificava fisiologicamente práti-
res, temendo que pudessem em seguida rei- cas de dominação social. Freud, bastante cedo,
vindicar o acesso à universidade! reagiria veementemente contra tais ideias.
Marianne Hainisch, pioneira do feminis- Ainda por volta de 1920, o movimento psi-
mo austríaco, foi uma das que levantaram canalítico seria fortemente marcado pela pre-
justamente essas bandeiras. Antes da virada sença de mulheres psicanalistas, fato bastante
do século, o movimento feminista já tinha incomum em outras profissões liberais àquela
obtido vitórias significativas, como a criação, altura. Conforme notam Lisa Appignanesi
em 1892, da Escola Ginasial para Garotas de e John Forrester em As mulheres de Freud
Viena e, cinco anos mais tarde, a admissão (2001), o percentual de mulheres na profissão
irrestrita de mulheres na Universidade de de psicanalista supera inequivocamente o de
Viena, direito que se estenderia, em 1900, in- qualquer outra. Na década de 1940, cerca de
clusive à Faculdade de Medicina, no mesmo 40% dos analistas ingleses eram mulheres; o

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restante do movimento psicanalítico internacional alcançou 30% na quiser) com uma profissão. Esse aspecto in-
década de 1930. Na Europa, uma média de 27% dos analistas eram trinsecamente emancipatório não pode ser
mulheres, ao passo que nos Estados Unidos, onde um diploma de me- negligenciado e está intimamente relacionado
dicina era necessário, ainda assim o percentual médio era de expressi- àquela oposição teórica e prática ao fascismo
vos 17%. Pode parecer pouco. Mas esses dados brutos precisam ser ou qualquer outra forma de opressão. Afinal,
colocados em perspectiva: comparativamente, o percentual de mulheres independentemente de origem étnica, classe
na medicina variava entre 4% e 7%, e no direito, entre 1% e 5%, no ou gênero, “o objetivo do tratamento nunca
mesmo período. Esses números, por si sós, deveriam nos fazer ques- será algo diferente do que a cura prática do
tionar o tratamento historiográfico dado à psicanálise, tanto pelos doente, o estabelecimento de sua capacidade
historiadores homens, quanto por feministas. de realizar e de gozar”, conforme definiu Freud
Em grande parte, isso se devia não apenas à crescente modernização no início do século.
da cultura e do mundo do trabalho nas grandes cidades, mas também No final de sua carreira, Freud reconhece
ao incentivo de Freud à atividade profissional e à independência social o papel que as analistas mulheres tiveram no
das mulheres. Mais do que isso: isso se deve a um aspecto intrínseco debate que se travou em torno da sexualidade
ao modelo de formação profissional da psicanálise. Não apenas Anna feminina. A tal ponto que uma das premissas
Freud e Melanie Klein, mas também Sabina Spielrein, Helene Deutsch, fundamentais acerca da natureza da libido,
Jeanne Lampl-de Groot, Karen Horney, Ruth Mack Brunswick e Joan qual seja, sua natureza masculina, premissa
Riviere fizeram contribuições decisivas e tiveram papel ativo na cons- sustentada com uma teimosia inabalável du-
trução da psicanálise. Outras mulheres marcantes e independentes, rante três décadas, parece finalmente vacilar,
como a princesa Marie Bonaparte ou Lou Andreas-Salomé, estabele- logo após o intenso debate da comunidade psi-
ceriam laços de intimidade e de intensa colaboração intelectual e mes- canalítica. Com efeito, na Conferência de 1933,
mo vital com Freud. A lista poderia se alongar, incluindo nomes como “Feminilidade”, lemos: “Só existe uma libido,
Anaïs Nin e Hilda Doolittle. que está a serviço tanto da função sexual mas-
Isso sem falar no papel inestimável que tinham tido mulheres como culina quanto da feminina. A ela própria não
Bertha Pappenheim (Anna O., paciente de Breuer), Anna von Lieben podemos atribuir nenhum sexo”.
(Cäcilie M.), Fanny Moser (Emmy von N.), Ida Bauer (Dora) ou Marga- Um dos aforismos mais conhecidos do sé-
rethe Csonka (conhecida na literatura psicanalítica como “a jovem ho- culo 20 foi formulado por Simone de Beauvoir.
mossexual”) na descoberta e nos destinos da psicanálise, não apenas Sua fórmula contundente e concisa transfor-
como pacientes com ricas histórias clínicas capazes de induzir novos mou-se numa das bandeiras mais importantes
conceitos e de exigir a reformulação de práticas (fazendo o médico se das lutas pela emancipação da mulher: “Não se
calar e o analista rever sua teoria e sua técnica), mas como sujeitos cujos nasce mulher, torna-se mulher”. É inegável que,
sintomas exibiam uma trama complexa de determinações intra e extrap- quase duas décadas antes, Freud tenha contri-
síquicas. Com efeito, na passagem do século, a histeria, com sua sinto- buído a aplainar o terreno: “Corresponde à
matologia que se localiza na fina fronteira que separa e une o subjetivo singularidade da Psicanálise não querer des-
e o social, nessa encruzilhada entre um vetor clínico e um vetor político, crever o que a mulher é, isto seria para ela uma
manifesta uma outra maneira de construir e de habitar o feminino. tarefa quase impossível de resolver – mas sim,
Algumas daquelas mulheres psicanalistas, aliás, encarnavam não pesquisar como ela se torna mulher”.
apenas teoricamente, mas em suas vidas práticas, aspirações feministas Parte desse texto foi publicada recentemente como prefácio
nem sempre fáceis de se concretizarem naquela época. Esse é o ponto do volume Amor, sexualidade, feminilidade, da coleção Obras
incompletas de Sigmund Freud (Autêntica), no qual o leitor pode
fundamental, nem sempre considerado adequadamente. Talvez isso ter acesso às referências bibliográficas mais detalhadas.
tudo esteja relacionado a uma característica exclusiva do modelo de
formação profissional da psicanálise, ausente nas demais profissões: a
passagem de paciente a praticante, ou, em termos mais precisos, a pas-
sagem de analisante a analista. Tal dispositivo, que psicanalistas la-
canianos costumam chamar de passe, implicaria uma ultrapassagem
da lógica fálica, tanto para sujeitos nascidos machos quanto fêmeas.
Não existe nenhuma outra profissão em que o sujeito entra oprimido
por um sintoma ou por uma queixa e sai (ou pelo menos pode sair, se

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

O feminino de ninguém
A A N AT O M I A N Ã O D I Z , A B I O L O G I A TA M B É M N Ã O S A B E D I Z E R
O QUE É A MULHER , NEM A PSICOLOGIA . E A PSIC ANÁLISE?

A N A LU C I A LU T T ER BAC H

P
ara alguns, a humanidade se divide e parir, essa é uma função biológica. Ser mãe
entre machos e fêmeas de acordo com é uma função que através do cuidado, do afa-
a anatomia e formam pares heterosse- go, da alimentação, dá o banho de linguagem
xuais para a reprodução da espécie. Qualquer e erotismo que permitirá ao pequeno ser falar,
coisa além disso é desvio. Para outros, exis- isto é, tratar as coisas do mundo e de si pelas
tem inúmeras possibilidades de gênero e cada palavras. Qualquer pessoa que se dispuser po-
um vai construir sua identidade servindo-se de fazê-lo, independentemente de seu sexo.
dos artifícios oferecidos pela cultura. A psi- Um homem pode e já exerce a função mater-
canálise, desde Freud, não se inclui em ne- na, como prova o cuidado partilhado nas re-
nhuma das opções acima. lações heterossexuais ou nos casais de ho-
“Como se constitui, então, a diferença entre mens. São funções imprescindíveis, mas não
masculinidade e feminilidade?”, pergunta-se dizem, necessariamente, o que é próprio da
Freud em seu último texto sobre a feminilidade, mulher. Diante disso, Freud se interroga como
que hoje podemos ler na recente e magnífica uma criança, que para ele tem sempre uma
edição de Amor, sexualidade e feminilidade disposição bissexual, pode se “tornar” uma
(2018), traduzida diretamente do alemão e pu- mulher (quando se torna). E é a essa indagação
blicada pela editora Autêntica. Para ele, a bio- que ele pretende responder.
logia só define o produto sexual, espermato- Ele não parte de nenhum pressuposto te-
zoide ou óvulo, e as características sexuais ditas órico, mas apenas de sua experiência, isto é,
secundárias. Não há nada nisso que permita do material escrito em análise por seus anali-
definir o que caracteriza cada um dos sexos. santes e deste extrai os conceitos, e não o con-
Quanto à psicologia, fazer a distinção basean- trário. A diferença entre os sexos começa a se
do-se no comportamento, por exemplo ativo e esboçar na chamada fase fálica, até lá, segundo
passivo, seria ceder às convenções, e Freud nos Freud, não há nada que possa marcar a dife-
adverte, nesse ponto, para “não subestimar a rença além da anatomia, que como vimos,
influência dos costumes sociais que compelem nada diz sobre o gênero.
as mulheres a uma situação passiva”. Servindo-se da tragédia de Sófocles, Édipo,
A anatomia não diz, a biologia também ele encontra uma maneira de dizer como cada
não sabe dizer o que é a mulher, nem a psico- um vai se posicionar na partilha sexual. E é aí
logia. E a psicanálise? Para Freud, a psicanálise também que se torna mais difícil acompanhar
também não saberia descrever o que é a mu- o sofisticado percurso freudiano, sem cair na
lher. Ninguém sabe. Como mãe, esposa ou na armadilha de identificar o pênis com o falo, o
profissão, ela está em pleno exercício de fun- órgão com uma insígnia de poder. Depois de
ções que poderiam ser exercidas por outros e Freud e da diáspora decorrente da segunda
nada disso diz da mulher. Ser mãe não é gestar grande guerra, muitos psicanalistas se exilaram

26 Nº238
FOTO DOUGLAS GLASS
nos Estados Unidos e, para honrar a hospitalidade que os acolhia, ten-
deram a ceder ao estilo americano avesso à audácia freudiana. Nessa
perspectiva foi enfatizado o aspecto imaginário da diferença: para o
masculino, a insígnia do poder; para o feminino, a falta, incompletude,
marcado por um menos.
Será o psicanalista francês Jacques Lacan quem irá retornar ao texto
freudiano para reencontrar a originalidade perdida da psicanálise,
salientar seu aspecto subversivo e a novidade daí decorrente. Lacan,
com Freud, demonstrou a dissimetria e a disparidade entre os sexos:
homem e mulher não estão no registro animal do macho e da fêmea;
para os seres falantes, a sexualidade está disjunta da reprodução. Não
há um instinto que possa determinar “naturalmente” o acasalamento:
no plano da teoria freudiana da pulsão, não há relação articulável no
plano sexual, o objeto não está determinado biologicamente. Melanie Klein, 1957. Ainda nos anos 1920,
psicanalista debateu a centralidade do falo
Lacan em seus primeiros anos de ensino retorna ao Complexo de e a sexualidade feminina
Édipo, e depois de trabalhar exaustivamente os textos freudianos, extrai
a lógica em jogo na sexuação. Ele formalizou dois polos sexuais separa-
dos, diferenciados. O ser falante pode se situar do lado homem com a
condição de reconhecer a exceção paterna: é este reconhecimento da
exceção que permite fazer o “Todo”, tomado como Um, o conjunto dos se deslocou para a questão da identidade de
homens, orientados pela lei fálica, e o gozo do Um sem o outro, que gênero, apontando uma disjunção entre ana-
Lacan chama de gozo fálico, autista, masturbatório. Do outro lado, não tomia e gênero, ou a disjunção entre o senti-
se reconhece a exceção, e sem exceção não há o limite que permite o mento do eu e o sexo biológico que aparece
conjunto que permanece aberto de acordo com a estrutura da infiniti- para o sujeito como sendo o seu. Atualmente,
zação, do sem limite. Um gozo suplementar e não complementar, não- o feminismo foi pulverizado em vários movi-
todo fálico, chamado gozo feminino ou Outro gozo. mentos: mulheres, mulheres hétero, Femen,
Aqui não caberia um desenvolvimento desta teoria, mas é importante lésbicas, mulheres negras, lésbicas que não se
ressaltar dois pontos: o primeiro é que o “gozo” não se confunde com o consideram mulheres etc. Não se trata mais da
orgasmo, mas trata-se de um efeito da linguagem no corpo, pois a palavra questão homem e/ou mulher. Não há dois se-
ao marcar o corpo cria ilhas de erotismo. O segundo ponto é que a es- xos, mas uma multiplicidade. Torna-se uma
colha de um lado ou outro é disjunto da anatomia, portanto, por exemplo, questão da escolha da identidade e constitui-
uma mulher pode se orientar só pelo falo e não experimentar o dito gozo ção de grupos minoritários que reivindicam
feminino, assim como um homem pode experimentar o gozo feminino seus direitos civis: gays, transexuais, lésbicas,
e ter uma identificação viril. O feminino não é da mulher: um “feminino sadomasoquistas etc. Estas identidades comu-
de ninguém”, como se expressa a escritora portuguesa Gabriela Llansol nitárias estão em sintonia com a civilização
no livro Lisboaleipzig 2 (1994). hoje, isto é, se todo mundo tem o direito de
Posicionar-se de um lado ou de outro, ou em qualquer ponto deste escolher, portanto, por que não escolher seu
continuum, implica combinações distintas entre estes dois gozos, e em sexo entre aqueles disponíveis no mercado?
nenhum dos casos há uma relação direta do gozo de um com o do outro, A resposta de Lacan, na década de 1970,
o gozo é solitário. Para realizar a interseção entre os dois, para que haja permite-nos interpretar nossa contempora-
uma parceria sexual, de um lado Um não faz sexo com o Outro, mas neidade do ponto de vista da lógica. Para ele,
dirige-se ao objeto da fantasia. Do outro lado a parceria sexual, a inter- o ser falante, independentemente do corpo
seção é feita pela via do amor, pela invenção de um amor que possa re- biológico, deve encontrar seu jeito próprio e
cobrir o impossível da complementaridade. Qualquer que seja a escolha, único de se virar com o sexo de acordo com o
é preciso reconhecer o Outro sexo fazendo-se objeto ou fazendo-se amar. trilhamento que a linguagem e o gozo, daí
Nos anos 1970, o movimento feminista reivindicava a igualdade e decorrente, marcaram seu corpo. Seria im-
a liberdade da mulher, um debate circunscrito à condição da mulher possível coletivizar estes trilhamentos, não há
na ordem econômica, política e social. Alguns anos mais tarde, o debate uma identidade sexual real, não há um

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

significante que permita dizer “eu sou isto ou sentido onde não havia: eles teriam cinco anos,
aquilo”, mas sim uma identificação absoluta- mas a consulta produz uma redução drástica do
mente singular ao modo de gozo, isto é, um tempo: apenas uma hora. Um último encontro
“eu sou como eu gozo”. acontece quando, depois de muitos pares e peri-
Lacan afirma que heterossexual é aquele pécias, eles têm o direito de escolher uma única
que ama o Outro sexo, ressaltando a (não) re- e última vez alguém, antes que o aplicativo de-
lação entre o Um e o Outro (hetero, em grego), cida com quem ficarão definitivamente. Juntos,
independentemente do pertencimento ao gê- decidem romper com o sistema.
nero masculino ou feminino. Mudar de sexo, Toda a cena se petrifica, tudo vai se desfa-
se afirmar homem ou mulher em desacordo zendo, toda a ilusão do que eles tinham sido
com a anatomia, nos mostra a radicalidade a também desaparece, só há um registro do nú-
que esta disjunção pode chegar. E essas mu- mero de simulações realizadas (mil) e, surpre-
danças são também singulares, em alguns sa, o número de rebeliões (998). Descobrimos,
casos trata-se de extirpar algo do corpo para então, que o Outro não sabia, ele era apenas
sentir-se homem ou mulher, em outros casos um operador na busca de simulações. Quem
é o implante, é acrescentar algo no corpo que faz o ponto de basta é a escolha, que põe um
vai fazer a diferença. As maneiras de fazer su- fim às infinitas possibilidades e permite res-
plência à inexistência da relação sexual são significar como necessário o que aconteceu
inúmeras, portanto, só no caso a caso pode se antes como contingência.
dizer o que está em jogo para cada um. O es- Nesse caminho, desdobra-se uma lógica
sencial será a escolha. cujo efeito é a constatação da inconsistência do
Na última temporada da série Black Mirror, Outro. Não há um saber no real que possa dizer
o episódio “Hang the DJ” é sobre a escolha de sobre a relação sexual. Jacques-Alain Miller, a
parceiros. Cada um tem um dispositivo com partir do ensino de Lacan, propõe que a escolha
um aplicativo que irá indicar um parceiro e se articula ao que chama “parceiro-sintoma”. A
depois de alguns encontros o sistema reúne tendência geral é considerar o sintoma como
informações para formar o par perfeito defi- uma disfunção, mas só é disfunção em relação
nitivo. No primeiro encontro de Amy e de a um ideal, se não o localizamos aí, o sintoma
Frank, o toque simultâneo de ambos faz sur- é um funcionamento, é um recurso para saber
gir o tempo que deverão ficar juntos e inicia- o que fazer com o sexo, já que não há fórmula
-se uma contagem regressiva. Neste encontro, programada. Miller estabelece uma conexão
o aplicativo indica 12 horas, o tempo passa entre o sintoma e a não relação sexual, o sinto-
rápido e divertido, mas se separam sem tran- ma como aquilo que vem no lugar da relação
sar. Não deu tempo. Passado um ano e outros que não existe. O sintoma se inscreve no lugar
encontros, o sistema promove um novo en- onde falha um parceiro sexual “natural” e a
contro entre os dois. O desejo de ficar junto relação sempre vai se estabelecer de forma dita
tem como efeito uma primeira vacilação na então sintomática. O que a prática nos ensina
crença do sistema: Vamos levar adiante só em cada caso que se submete à experiência ana-
porque ‘dizem’ que o sistema é inteligente? lítica é a função determinante de um encontro,
Como sabemos se os pares formados são mes- um aleatório, um certo “não estava escrito”.
mo perfeitos? Se o programa inclui tudo de Não há um saber pré-escrito no real.
nossa mente, ele pensa? Dessa forma, como escreve a psicanalista
Felizes, ela propõe que não verifiquem qual Clotilde Leguil em O ser e o gênero (2016), um
será o tempo previsto pelo sistema, mas Frank sujeito apreende seu ser sexuado a partir de
rompe o pacto e consulta sozinho o aplicativo. uma janela dando acesso a um país próprio a
Antes, estavam entregues à contingência, ao per- cada um, e é através dessa janela que um su-
guntar e, portanto, supor no Outro um saber jeito interpreta o gênero que ele é, o gênero
sobre eles, define-se o cronômetro, dando um que ele tem.

28 Nº238
Corpos e sujeitos
O COR PO FEMININO NÃO PODE MAIS SER PENSADO COMO
M AT E R I A L I D A D E B I O L Ó G I C A , D E A L G U M M O D O , P R E D E F I N I D A

SU ELY A I R E S

O
s corpos femininos apresentam-se ou neurológicas e, de outro, os corpos que fin-
como questão para a psicanálise des- giam, enganavam a razão, simulavam e oculta-
de seu início: as contraturas e parali- vam sua verdade. As justificativas apresentadas
sias histéricas, a convocação do olhar no teatro para a histeria, embora revestidas de uma lin-
da histeria, as fotografias dos êxtases e a de- guagem científica, reproduziam e atualizavam
monstração da produção de sintomas fascina- as crenças religiosas e morais: há aí algo demo-
ram o jovem Sigmund Freud ainda em 1885. As níaco e sedutor, sexual e feminino. A relação
apresentações do neurologista francês Jean- entre corpo e desejo, bem como entre corpo e
-Martin Charcot impressionaram Freud a tal prazer, era propagada e, ao mesmo tempo, re-
ponto que ele comparou essa experiência à vi- cusada, devendo ser submetida à regulação e
sita à Catedral de Notre Dame, da qual se sai aos ditames de uma razão disciplinadora. O
com “uma nova percepção da perfeição”. Em corpo histérico se mostra, então, como um de-
suas cartas à noiva, Martha Bernays, Freud bus- safio, pois não apenas manifesta, mas ostenta,
cou descrever seu prazer: cada caso apresentado em sua exuberância, os sinais da sexualidade.
era reconhecido como “uma pequena obra de Tomados como objetos de investigação, os
arte de construção e composição”, um mosaico corpos das histéricas eram, ao mesmo tempo,
que combinava o talento de Charcot, os corpos internos e externos, próprios e alheios: conti-
em cena e o olhar. No Hospital de Salpêtrière, nham os traços das experiências subjetivas, vi-
Charcot reinava como mestre absoluto. Os cor- venciadas por aquele sujeito singular, e portavam
pos das histéricas eram finamente observados, em si as marcas do Outro social. A medicina
descritos, narrados e expostos ao olhar da pla- buscava um objeto de investigação, em sua plas-
teia, composta exclusivamente de homens. ticidade e figurabilidade, que servisse de evidên-
No dispositivo de saber-poder instituído cia das novas descobertas da ciência, e alguns
pela psiquiatria e pela neurologia do século corpos eram ofertados aí, em um jogo de revela-
19, os corpos femininos eram escrutinados e ção e ocultamento ao olhar: fotografias e pintu-
submetidos à ânsia regulatória da razão. Os ras buscavam reproduzir a expressão fisionômi-
sintomas eram identificados a partir de uma ca, os êxtases, e denunciavam o fascínio diante
racionalidade que buscava diferenciar e dis- das histéricas. Cada corpo ali contava como
tinguir, de um lado, os corpos verdadeiramen- exemplar de uma subjetividade feminina que
te acometidos por enfermidades orgânicas e/ escapava aos padrões e subvertia a moral.

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

Poderíamos dizer que, como jovem estu- estrutura e significado mudam ao longo do
dante e pesquisador, Freud ficou fascinado tempo, parecia não mais se representar diante
com o mestre Charcot e sua estética, com a do olhar. Há algo que é sussurrado para al-
precisão visual e descritiva demonstrada. De guns, dito entre quatro paredes e, por vezes,
algum modo, ele reconheceu uma cena em denunciado em espaços sociais, de tal modo
que diferentes personagens exerciam papéis que uma porosidade entre privado e público
diversos; um teatro regido por Charcot e no se constitui, mas sob o signo do segredo.
qual ele, Freud, não queria estar apenas na Talvez alguns estudiosos digam que a deli-
condição de plateia, tendo buscado se destacar cadeza ou sensibilidade de Freud permitiu que
no campo da neurologia clínica do século 19. as histéricas projetassem sua voz, exercessem
Seu retorno a Viena implicou o projeto de tra- seu direito à fala, e que ele, um homem à frente
dução de textos sobre hipnose, em especial de seu tempo, escutou as dores histéricas. Mas
Leçons du Mardi à Salpêtrière (1887), estudos podemos também contar uma outra história,
de Charcot nos anos 1887-1888, tendo influen- na qual uma mulher, Anna O. – cujo nome ver-
ciado a escrita do texto Estudos sobre a histeria dadeiro era Bertha Pappenheim, feminista e
(1895), em parceria com Joseph Breuer. Mas a pioneira no campo do Serviço Social –, teve a
experiência freudiana em Viena não acontecia desfaçatez de dizer a um homem de ciência que
nas grandes instituições clínicas e psiquiátri- ele devia ficar em silêncio para que ela pudesse,
cas; os corpos histéricos se apresentavam em então, falar. E que, surpreendentemente, esse
espaços privados, pequenos, diante do olhar homem tenha se calado e, mais espantosamente
dos familiares que, sem saber como proceder, ainda, a tenha escutado. Em parte, ao menos.
convocavam o saber médico e pediam segre- Nesse sentido, os corpos histéricos em sua
do. A histeria, como formação histórica, cuja pluralidade, expostos ao olhar no teatro de

UNIVERSIDADE PARIS DESCARTES, PARIS

30 Nº238
FOTO FREDY CREVANNA / CORTESIA DE RENATE HORNEY PATTERSON
Charcot, deram lugar à fala de cada histérica
no consultório de Freud. Fala que, endereçada
a um outro, dava a esse corpo um lugar singu-
lar no mundo. Em sua fala, o corpo testemunha
– encena, conta e vive, sob transferência – uma
produção linguageira que permite que este cor-
po seja apresentado de diferentes modos, suces-
sivos, contraditórios e simultâneos: como lugar
de sofrimento e adoecimento, lugar de resistên-
cia e de criação, lugar de expressão. Para além
das histéricas adoecidas e paralisadas do século
19, encontra-se, no início do século 20, a explo-
são de diferentes modos de inscrição artística
e subjetiva do corpo feminino no espaço públi-
co, cujos modelos, retratados por Gustav Klimt,
encantam e fascinam em seu erotismo. Como
explorado por Célia Bertin no livro A mulher
em Viena nos tempos de Freud (1990), destaca-
-se a presença feminina na cultura: os salões de
festas e suas grandes recepções, as roupas flui-
das, o travestismo, as amizades românticas
eram modos de afirmar o feminino em sua
particularidade e, ao mesmo tempo, de buscar
a igualdade entre gêneros. Em busca de liber-
dade, os corpos femininos ganham as ruas em
Karen Horney, 1938. Críticas da psicanalista alemã a Freud participaram manifestações políticas e trabalhistas que per-
do florescimento da teorização feminista moderna
mitiram discussões sobre o lugar da mulher na
sociedade, em especial sobre os direitos repro-
dutivos e a contracepção.
Há, sob certo ângulo, uma coincidência
temporal entre o movimento feminista e os des-
dobramentos da psicanálise: Freud coexistiu
com as demandas por igualdade, políticas de
contracepção e acesso ao mundo da arte, criti-
cando em alguns textos o lugar atribuído à mu-
lher na sociedade; Jacques Lacan, em 1973, no
Seminário “Encore” – cujo título faz assonância
a corpo – conviveu com o movimento feminista
francês dos anos 1970. Diferentes mulheres fi-
zeram história, ainda que sejam, por vezes,
esquecidas: Lou Salomé, Marie Bonaparte, Sa-
bina Spielrein, Helen Deutsch, Karen Horney e
tantas outras psicanalistas evitaram ou tangen-
ciaram o diálogo entre psicanálise e feminismo
em um período nada afeito a tais aproximações.
E, posteriormente, na França, Luce Irigaray,
Une leçon clinique à la Salpêtrière, de André Brouillet, 1887.
Os corpos das histéricas eram finamente observados, descritos,
Julia Kristeva, Hélène Cixous e Michèle Mon-
narrados e expostos ao olhar da plateia trelay tensionaram a teoria psicanalítica,

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

produzindo dissonâncias teoricamente interes- subjetivas. Mas, se faz necessário também


santes. O encontro entre a psicanálise de Freud considerar como este corpo se relaciona com
e o feminismo gerou frutos diversos daquele o regime de normas sociais ao qual está refe-
que foi o encontro entre a teorização de Lacan rido e, por vezes, submetido. Os corpos femi-
e o movimento feminista francês: entre o falo ninos, portanto, devem ser pensados em sua
e o domínio do simbólico na cultura, muitos relação à cultura, à linguagem e às normas
caminhos foram trilhados. A relação entre psi- sociais. Desse modo, torna-se fundamental
canálise e feminismos, no plural, seguiu e ainda questionar como, por quais meios, em quais
segue uma trilha acidentada e provocativa, ten- enquadramentos, um corpo é reconhecido
do cruzado o Atlântico e produzido novas in- como feminino; o que implica discutir tanto
flexões discursivas. a conceituação de corpo quanto a definição de
Mas como nosso texto pretende deixar-se feminino, bem como o caráter normatizante
guiar pelos questionamentos sobre os corpos, dessas definições. Não podemos deixar reviver
cabe retomar a questão inicial e indicar que, a ânsia regulatória da razão do século 19, que
desde o encontro de Freud com as histéricas, buscaria diferenciar e distinguir o verdadeiro
o corpo feminino não pode mais ser pensado corpo feminino, aquele cuja racionalidade se-
como materialidade biológica, de algum mo- ria dada pela ciência, do corpo que suposta-
do, predefinida. O corpo mostra-se como uma mente engana. Os corpos podem ser cis ou
construção singular articulada ao inconscien- trans e aí se fazerem femininos.
te; um testemunho subjetivo da apropriação Nesse sentido, penso que devemos insistir
de um corpo, cujo uso aponta para um modo em certa lógica interpretativa que se mostra
de inscrição do feminino na cultura. Nesse devedora, de um lado, da psicanálise e das
sentido, ainda que os corpos sejam designados teorizações de Freud e de Lacan, em suas di-
a partir dos referentes biológicos – ou seja, que ferenças, e, de outro, da crítica filosófica de
uma criança ganhe seu nome a partir da apa- Foucault. A articulação entre corpo, sexo e
rência de seu órgão sexual, por exemplo, e seja linguagem – isso que talvez nos permita no-
denominado como menino ou menina –, há mear alguns corpos como femininos – colo-
uma permeabilidade dos corpos à nomeação ca-se como ponto de tensionamento entre o
que permitirá modos de subjetivação que po- que é percebido como interno e subjetivo e o
dem vir a confirmar ou desviar-se do que foi que é externo e publicamente indicado ou
inicialmente afirmado. Dito de outro modo, observado, em que a normatização incide de
um corpo feminino se faz para além da pre- forma mais clara. Uma discussão sobre os
sença de um dado órgão sexual ou da ausência modos e os déficits de reconhecimento se
do referente anatômico masculino, embora torna, portanto, urgente nos espaços cotidia-
necessariamente deva se haver com a materia- nos. Nesse sentido, a psicanálise, em especial
lidade corporal. Um corpo se faz feminino. em sua clínica, pode se configurar como uma
Torna-se necessário, portanto, considerar, forma política de reconhecimento da diver-
de um lado, as experiências fantasmáticas da sidade, tanto no que se refere ao feminino,
sexuação, aquilo que faz com que nos pensemos em suas diferentes nomeações, quanto aos
como homem ou mulher, ou não binário; e, de sujeitos, tomados aí em sua condição dese-
outro, o impacto sobre o aparelho psíquico – jante e pulsional. E nesse contexto, um corpo
em linguajar freudiano – do que é vivido co- pode se afirmar como feminino e pedir pas-
mo sensação corporal. O prazer continua sagem – ou, mais propriamente, abrir cami-
sendo, na teorização psicanalítica, um ponto nho – como modo de articulação entre su-
fundamental para constituir as experiências jeito e cultura.

32 Nº238
Lacan não sem
o feminismo
O P S I C A N A L I S TA E S C U TAVA S U A S C O L E G A S F E M I N I S TA S
E O C U PAVA - S E D E L A S À M E D I D A Q U E A C L A R AVA O
LUGA R DA P SI C A N ÁLISE

R A FA EL K A L A F COS SI

P
sicanálise e feminismo avançam em traduzir, interpretar a história da sexualidade
debate. Se nos anos 1920-30, as críticas das mulheres a contar de uma escrita marcada
a Freud difundidas por Karen Horney, pelo selo da diferença sexual. Uma abundância
Ernest Jones e Helene Deutsch participaram de reuniões e publicações é encetada e, em
do florescimento da teorização feminista mo- 1974, Fouque e seu círculo criam a editora fe-
derna, nos anos 1970 são as proposições de minista Éditions des Femmes.
Lacan que se veem afetadas pelo movimento Essa vertente do feminismo francês man-
das mulheres. A crítica ao falo é reincendiada – tém uma relação ambígua com a psicanálise:
da censura a um presumido vínculo insuperá- se, por um lado, preza-se a reconquista em-
vel ao pênis, vamos ao embate contra um sig- preendida por Lacan via instrumentos da
nificante privilegiado de um registro simbólico linguagem, e se muitas dessas feministas são
alegadamente formatado pelo masculino, co- vinculadas a escolas, são psicanalistas, psica-
adjuvante de uma modalidade de gozo impe- nalisandas ou participantes de seus seminá-
riosa. Não à toa, Lacan toma no seminário 20 rios; por outro, contesta-se a implicação no
o Movimento de Libertação das Mulheres plano social de alguns de seus pilares concei-
(MLF) como interlocutor privilegiado ao dis- tuais que contribuiriam para o cenário de
correr sobre um gozo para além do falo – “isso desfavorecimento da mulher. Segundo a his-
daria outra consistência ao MLF!”. toriadora da psicanálise Elisabeth Roudines-
Este movimento, sustentado por Antoinette co, Lacan “entendeu a mensagem de Antoi-
Fouque, figura central da profusão dos ideais nette (...), sensível à nova retórica da escrita
feministas, conquista espaço, promove locais feminina”. Seu tom passa a ser outro.
de discussão onde as mulheres poderiam falar Cruzando o Atlântico, a porta de entrada
e ser escutadas, da vida política à sexualidade. foi distinta – a antropóloga Gayle Rubin con-
Pregam-se a reparação e a valorização da rela- corre para a introdução do pensamento de
ção mãe-filha, um erotismo entre-mulheres a Lacan em solo norte-americano. Em Tráfico
ser explorado, algo além do falicismo para o de mulheres (1975), discute-se a versão do Édi-
feminino – metas a serem elaboradas a partir po em suas depurações simbólicas desde as
da reformulação do lacanismo e da descons- estruturas elementares de parentesco: se em
trução derridiana. Além das reivindicações Lévi-Strauss, a troca de mulheres se filia à fun-
de ordem social, esse grupo propõe descrever, dação a sociedade, sob a égide do tabu do

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

incesto, o simbólico lacaniano subsidiaria tal Escrever mulher e escrever como mulher,
cenário de submissão da mulher, agora recor- autoafetar-se, lançando mão de um regime de
rendo ao Édipo estrutural e à circulação fálica. diferença não previsto pela binaridade implícita
A lei simbólica seria então uma lei tingida pela à mobilidade da linguagem – uma diferença
regência das relações de parentesco heteros- que não se sustente na oposição entre dois ter-
sexuais tidas como ideal, ao passo que coibiria mos substancializados, um a submeter o outro,
a multiplicidade – interpretação esta que deixa tal como o pensamento ocidental se orientaria,
profundas marcas nos gender studies de Judith a se dar a ver em pares de opostos como natu-
Butler. Já o feminismo psicanalítico francês reza/cultura e céu/inferno, e que se expande à
pretendia abalar o poder patriarcal atuando relação hierárquica intrínseca ao dipolo ho-
notadamente na linguagem, e assim alterar o mem/mulher. Se só há A e não A – a mulher
lugar da mulher no discurso; convulsionar o como o negativo do homem, sua exclusão cons-
sistema simbólico que não admitiria outros titutiva –, Irigaray elucubra outra lógica a ser
espaços de representação da mulher senão acionada por uma escrita que deturpe os códi-
aqueles que o homem determinaria – mãe ou gos linguísticos, as regras sintáticas e a gramá-
mascarada, enquanto objeto do desejo na fan- tica da cultura que silencia o feminino.
tasia dele. É neste contexto que nasce o movi- Hélène Cixous é filósofa, professora uni-
mento da escrita feminina – que defendia um versitária, poeta, dramaturga e crítica literária,
tipo transgressor de escrita não orientada pela tida como a grande entusiasta daquele movi-
ordem falocrática a inscrever o mais próprio mento – forja o neologismo sext junção de
do feminino no tocante a seu corpo. Aqui se sexo (sex) e texto (text). Sua escrita é um com-
destacam figuras como Luce Irigaray, Hélène plexo de teoria e ficção, dedicada à desmonta-
Cixous, Michèle Montrelay e Julia Kristeva. gem de poderosas narrativas, mitos e lendas
Em 24 de março de 1965, a filósofa, linguis- presentes na literatura ocidental que acabam
ta e psicanalista Luce Irigaray tem participação por balizar nosso imaginário. Le rire de la mé-
marcante no debate fechado intitulado “A pro- duse (1975) (O riso da medusa, sem tradução
pósito da comunicação de Serge Leclaire: sobre no Brasil), seu célebre trabalho de contestação
o nome próprio”, do seminário 12 de Lacan. No à psicanálise, funciona como uma convocação
seminário 14, na lição de 1 de fevereiro de 1966, às mulheres para que impulsionem seus cor-
discute com o linguista Roman Jakobson e o pos como forma de expressão, a inscrever seu
próprio Lacan a respeito das diferenças entre gozo, o mais próprio de si. Clarice Lispector
sujeito do enunciado, sujeito da enunciação e seria uma autêntica representante desta pro-
shifter (indicativos). Mas este clima colaborati- posta, ao explorar o fluxo da linguagem e tra-
vo e cordial se encerra quase dez anos depois. tar da relação entre viver e escrever. Cixous
Com a publicação de seu primeiro livro, Spe- também recorre ao teatro como uma forma de
culum de l’autre femme (1974), Irigaray foi ex- “espacializar” esta escrita disruptiva, o que
pulsa da École Freudienne de Paris, fundada não passa despercebido a Lacan – ele a apre-
por Lacan, e impedida de dar continuidade ao senta ao seu público no seminário 23, elogian-
ensino universitário que empreendia em Vin- do sua peça, O retrato de Dora.
cennes – a objeção a um Freud supostamente Em outro cenário, Michèle Montrelay, essa
patriarcalista que fazia da mulher uma versão “figura magnífica da grande aventura lacania-
menor do homem, para sempre refém da inveja na”, nas palavras de Roudinesco, introduz a
do pênis, a ser revigorado no domínio simbó- Lacan “O arrebatamento de Lol V. Stein”. No
lico por um Lacan tido como falogocêntrico, debate fechado de 23 de junho de 1965, a cons-
lhe custou caro. De toda forma, é imensa a in- tar no seminário 12, Montrelay é convocada a
fluência que seu trabalho exerceu dentro e fora discorrer longamente sobre a obra da escritora
da França, como se vê em expoentes como Ju- Marguerite Duras – o entusiasmo de Lacan é
dith Butler, Rosi Braidotti e Paul B. Preciado. tamanho que o leva a redigir neste mesmo ano

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DIVULGAÇÃO
Segundo a psicanalista
e historiadora da
psicanálise Elisabeth
Roudinesco (à esquerda),
Lacan muda o tom a
partir da mensagem de
Antoinette Fouque (à
direita), co-fundadora do
Movimento de Libertação
das Mulheres (MLF)

o texto “Homenagem a Marguerite Duras pelo de Polylogue, chegando a lhe propor uma mi-
arrebatamento de Lol V. Stein”. xagem entre “polylogue” e seu neologismo
No romance, a feminilidade é remetida ao “linguisteria”: “polilinguisteria”.
negativo imprevisível, implosivo e que leva a Um curioso incidente histórico entre Kris-
um êxtase mudo – ao presenciar a longa cena teva e Lacan é o da viagem que fariam juntos.
da dança de seu noivo com outra mulher, Lol Em 1974, os dois comporiam a delegação da
permanece impassível, presa em um plano que revista Tel Quel, organizada por Philippe Sol-
a despossui de seu corpo, absorta em uma fas- lers, para visitar o território chinês. Lacan
cinante experiência de gozo – sombra, lugar em estaria animado em explorar o inconsciente
que Montrelay assenta o gozo feminino em seu dos chineses, já que, segundo Kristeva, seria
trabalho L’ombre et le nom (1977) (“A sombra e uma instância não estruturada como uma lin-
o nome”, sem edição brasileira). Se, com Simone guagem, mas como uma escrita.
de Beauvoir, tratava-se de uma mulher que bus- A escrita transgressora regida pela dinâmica
cava se libertar, exigia direitos, questionava a intempestiva própria ao período semiótico, sob
ordem cultural; com Duras, o feminino se des- o caráter não formatável da pulsão parcial e num
vela numa idiossincrasia até então não descrita, estado pré-edípico em que a diferença ainda não
ao flertar com o vazio – mas sem aludir ao pa- se implantou, servem de embasamento para o
tológico –, para o encantamento de Lacan. Tex- programa não identitário de Kristeva, contem-
to como plataforma de gozo não coberto pela porâneo à celebração que tece ao aforismo “A
engrenagem significante – nonsense. mulher não existe” – a sentença lacaniana per-
Por uma revolução na linguagem! Julia mitiria assentir às mulheres a liberdade de se
Kristeva é filóloga, psicanalista, crítica literá- livrarem de imagens encarceradoras.
ria, romancista e professora emérita da Uni- Em mais um momento, agora em “O Atur-
versidade Paris 7. Sua atividade, aliada ao pós- dito” (1972/2003), Lacan toma o MLF como
-estruturalismo, percorre os campos da interlocutor ao apontar um universo para além
linguagem e da arte, tangenciada pela análise do significante. Neste panorama, imiscui sua
cultural e política, assim como estabelece uma não relação sexual, aquela cuja formalização
interface entre semiótica e psicanálise: sema- propõe como alvo grandioso do discurso psi-
nálise. Lacan demonstra interesse pela sua canalítico. Respeitadas personagens de seu
obra. Em 17 de maio de 1977, com a própria convívio, Lacan escutava suas colegas feminis-
autora presente à transmissão de seu seminá- tas, ocupava-se delas à medida que nos acla-
rio 24, anuncia elogiosamente o lançamento rava o lugar da psicanálise.

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

Nós, o falo e a escuta


É P R E C I S O P E N S A R O D E S L O C A M E N T O D O S U J E I T O A B S T R AT O
PA R A S U J E I T O S E S U J E I TA S M A R C A D O S ( A S ) N Ã O A P E N A S P O R U M
C O R P O , M A S TA M B É M P O R G Ê N E R O , R A Ç A , C L A S S E , R E L I G I Ã O

C A R L A R O D R I GU E S

S
ão muitos os pontos de contato e de parece terem acontecido no percurso entre o
tensão entre as teorias feminista e psi- dizer e o dito. Longe de esgotar todas as pos-
canalítica. De uma e de outra pode-se sibilidades de contato entre psicanálises e fe-
dizer que há pluralidades de pensamentos, minismos, a intenção é mais buscar aproxi-
escolas e autores(as) que impedem a estabili- mações do que fomentar velhas discórdias.
zação de ambas num conjunto único de pos-
tulados cientificamente aceitos. Teoria psica- O QUE QUER UMA MULHER?
nalítica e teoria feminista compartilham como A pergunta endereçada por Freud a uma ana-
problema comum estarem ligadas a uma prá- lisanda, Marie Bonaparte, fez ecoar da psica-
tica – clínica e política – e a centralidade das nálise diferentes tipos de mal-entendido. Vou
diferenças sexuais que produziu, e em alguns me ater a um dos problemas produzidos pela
casos ainda produz, dificuldades de escuta de indagação freudiana: “A grande pergunta que
parte a parte. É verdade que muitas dessas in- não foi nunca respondida e que eu não fui ca-
disposições podem ser identificadas como má paz ainda de responder, apesar de meus 30 anos
vontade, equívocos de leitura e mesmo cir- de pesquisa sobre a alma feminina, é – O que
cunstâncias políticas desfavoráveis. Há mo- quer uma mulher?”. A ideia que prevaleceu a
mentos distintos de recepção das teorias em partir daí foi da compreensão do feminino co-
cada período histórico e em contextos locais mo enigma, que talvez esteja menos ligado ao
mais ou menos conflagrados. Basta lembrar, que incomodava Freud e mais articulado ao
por exemplo, as consequências, no movimento modo como seu enunciado foi sendo escutado
de mulheres da segunda onda feminista no ao longo do tempo. A filósofa francesa Sara
Brasil dos anos 1970, da denúncia de que o Kofman, por exemplo, publica na França em
psicanalista Amílcar Lobo atuava nos porões 1980 o livro L’enigme de la femme (O enigma
da tortura do regime militar. Como aborda- da mulher, não traduzido no Brasil), no qual
gens teóricas relativamente jovens, psicanáli- sustenta a ideia de que há no sistema freudiano
ses e feminismos têm se modificado, tanto a necessidade de constituir a sexualidade femi-
com o impacto das suas práticas, quanto com nina como o “grande enigma da vida”, que,
a abertura de novas questões, a entrada em segundo ela, faz com que Freud reduza a mu-
cena de pensadores e pensadoras em diferentes lher à sua sexualidade, mais complexa do que
lugares – geográficos ou simbólicos – e revi- a do homem, porém inacessível.
sões e transformações em curso. Aqui vale a pena observar que as inúmeras
A análise se dá muitas vezes entre aquilo contestações feitas por Kofman estão ligadas
que se diz e aquilo que se escuta, por isso es- a um momento muito específico dos feminis-
colhi discutir alguns dos significantes e sin- mos, qual seja, o de retirar as mulheres do
tagmas em que identifiquei ruídos que me mero campo da imanência, da vida biológica

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Simone de Beauvoir, 1983. Filósofa dedicou
FOTO MICHELE BANCILHON / DIVULGAÇÃO

um capítulo do primeiro volume de O segundo


sexo para discutir com Freud a concepção de
feminilidade da mulher

cuja sexualidade é voltada à reprodução, da as mulheres? – foi se tornando palavra de or-


impossibilidade de reconhecimento no campo dem para os retrocessos identificados por Susan
social e cultural. Vale a pena ainda considerar Faludi em Backlash – o contra-ataque na guerra
que, com o tempo, a pergunta original foi se não declarada contra as mulheres (1991). Era o
transformando e, como num ato falho, passou final dos anos 1980 e, no rasto dos discursos do
do singular (o que quer uma mulher) para o fim da história, vinha também a proposição de
plural (o que querem as mulheres). Lembro fim dos feminismos, já que as mulheres teriam
que há menos de dez anos o Departamento de chegado ao final do século 20 tendo conquista-
Psicologia da PUC-Rio organizou um encon- do tudo o que precisavam. A maneira engenho-
tro com o enunciado modificado: “Afinal, o sa como algumas teóricas feministas vão res-
que querem as mulheres?”. A propósito do ponder a esse retrocesso passará por uma
debate, recomendo o ótimo artigo da psicana- crítica à psicanálise como uma teoria que con-
lista Silvia Alexim Nunes, “Afinal, o que que- ceberia a mulher destinada ao modelo heteros-
rem as mulheres? Maternidade e mal-estar”, sexual, consequência do entendimento da cen-
com o qual se pode inclusive pensar o que tralidade do Complexo de Édipo na teoria
significa o acréscimo do “afinal” como signo psicanalítica (a este respeito, considero funda-
de certa impaciência da impossibilidade de, mental a leitura de “Psicanálise sem Édipo?:
cem anos depois, vir a oferecer uma resposta. Uma antropologia clínica da histeria em Freud
A passagem da pergunta freudiana para o plu- e Lacan”, de Philippe Van Haute e Tomas
ral vai se dando à revelia da teoria psicanalíti- Geyskens. Nesse debate, é importante reconhe-
ca e, de certa forma, distorcendo o problema cer o pioneirismo do trabalho de Juliet Mi-
original. Quase que ao mesmo tempo, as teo- tchell, autora de Psicanálise e feminismo (1974).
rias feministas estão fazendo um movimento
contrário, deixando de pensar a mulher como INVEJA DO PÊNIS, COMPLEXO
uma categoria universal para pensá-la no sin- DE ÉDIPO, COMPLEXO DE CASTR AÇÃO
gular, movimento de ampliação das exigên- Era o começo do século 20 e Freud estava às
cias de direitos e de reconhecimento que os voltas com a tentativa de entender os sintomas
postulados feministas de uma mulher não de histeria das mulheres. Nesse momento, ele
abarcam as reivindicações de todas as mulhe- pensa que, na sexualidade infantil, o pênis con-
res. A pauta que anima uma feminista branca centra todas as atenções, o que faz com que a
norte-americana é muito distinta daquela que, menina seja prejudicada por não ter um órgão
por exemplo, é importante para mulheres ne- igual ao do menino. Por isso, ela deseja o pênis
gras cariocas moradoras de favelas. que sabe que não tem. O sintagma inveja do
Também gostaria de lembrar que a per- pênis talvez seja o que mais provocou equí-
gunta que Freud não fez – afinal, o que querem vocos entre o dito e o escutado. Produziu

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DOSSIÊ PSIC ANÁLISE ENTRE FEMINISMOS E FEMININOS

intenso debate entre Lacan e as feministas “desconstrucionista” do livro de Beauvoir, a


francesas nos anos 1970, entre as quais se des- filósofa Judith Butler promove novas perturba-
taca Luce Iragaray, conforme artigo de Rafael ções em relação ao que constitui a mulher como
neste dossiê. Na mesma França, em 1949, Si- sujeito. Ela observa que, além de haver em Be-
mone de Beauvoir havia dedicado um capítulo auvoir uma crítica ao sujeito universal abstra-
do primeiro volume de O segundo sexo (“O to – categoria que condena a mulher a ficar de
ponto de vista psicanalítico”) para discutir fora das normas que constituem a condição
com Freud a concepção de feminilidade da de pessoa –, há também uma crítica à descor-
mulher. Começa com um elogio às contribui- porificação desse sujeito masculino, que nega
ções da psicanálise ao identificar a existência sua marcação corporal e a projeta exclusiva-
concreta do “corpo vivido pelo sujeito”. Depois mente para a esfera feminina. Só a mulher tem
de descrever seu entendimento do funciona- um corpo, fundamento de suas restrições, en-
mento do Complexo de Electra experimentado quanto o corpo masculino é instrumento de
pela mulher, faz duas críticas principais: a pri- uma liberdade ostensivamente radical, como
meira, que será seguida por Kofman nos anos Butler dirá em Problemas de gênero. Ser apenas
1980, de que Freud concebe o masculino como um corpo é não ter possibilidade de tornar-se
modelo principal e o feminino como secundá- sujeito, é estar sujeita – aqui no sentido de de-
rio; a segunda, ligada à anterior, de que Freud pendente, obediente, dócil, submetida – à ima-
supõe, com o complexo de castração, que a nência sem chance de transcendência. Desta
“mulher se sente um homem mutilado”. Para distinção entre corpos marcados por opressão
ela, a inveja do pênis só pode existir a partir de ou por liberdade vem a proposição feminista de
um pressuposto de valorização da virilidade que nem biologia nem anatomia são destino.
que estaria implícita no pensamento freudiano. Outro aspecto importante da crítica de Butler
Vai importar a ela quais são as condições de diz respeito ao fato de que as saídas para o
possibilidade de a mulher se tornar sujeito. Até Complexo de Édipo estariam comprometidas
que Beauvoir publique O segundo sexo, mesmo com a construção de um modelo heterossexual
os filósofos que pensavam a constituição do para as constituições subjetivas, tornando ab-
sujeito a partir de sua relação com a alteridade jetos os sujeitos homossexuais.
ofereciam apenas duas possibilidades: as mu-
lheres estavam impedidas de se tornar sujeitos; SER O FALO/ TER O FALO
ou as mulheres deveriam seguir o único roteiro O termo “falo” no pensamento do psicanalista
disponível, aquele que formava sujeitos ho- Jacques Lacan não chega a resolver os proble-
mens e as relegava ao lugar secundário, as con- mas criados pelo sintagma “inveja do pênis” e
finava como o outro do homem. Na aguda haverá inúmeras críticas – muitas infundadas,
percepção da ausência de roteiros de subjeti- outras nem tanto – à sobreposição entre falo
vação para mulheres está a imensa contribui- e pênis. Embora inúmeras vezes Lacan afirme
ção da filosofia existencialista em Beauvoir. que o falo não está ligado aos órgãos genitais,
Arrisco dizer, por exemplo, que “não se nasce mas seria um significante da ordem do sim-
mulher, torna-se mulher” pode ser a tradução bólico e da linguagem, a escolha de um quase
feminista de “a existência precede a essência”, sinônimo para o órgão sexual masculino ge-
máxima da liberdade do existencialismo fran- rou muitas tensões entre a teoria psicanalítica
cês dos anos 1940-50. e a teoria feminista. Mesmo que Lacan propo-
Reconhecer os entraves não me impedirá, nha pensar o falo como um significante que
no entanto, de lembrar que Beauvoir entra teria como função “designar no seu conjunto
para a história da filosofia como a primeira os efeitos de significado”, como ele diz no fa-
pensadora a indicar não haver roteiros de sub- moso “O significado do falo”, parte dos Es-
jetivação para contemplar a constituição da critos (1966), para muitas feministas é impos-
mulher como sujeita. Valendo-se de uma leitura sível aceitar que a psicanálise esteja de fato

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Judith Butler, 2015. Filósofa chega a fazer o seu
FOTO FANCA CORTEZ

próprio retorno a Freud, afirmando que haveria


um traço queer na pulsão

é o falo. De forma geral, os psicanalistas que


não menosprezam as críticas feministas têm
recorrido ao último Lacan para encontrar nas
tábuas da sexuação e nos seminários finais
maneiras menos binárias e mais inventivas de
abordar o problema das diferenças sexuais.

“A” MULHER NÃO EXISTE


O aforismo lacaniano foi mal recebido na te-
oria feminista num primeiro momento em
operando com uma separação entre falo e grande parte porque mal compreendido, é
pênis. Aqui, vale a pena ler as ressalvas feitas verdade. E também por parecer ecoar, de mo-
pela feminista Jane Gallop em seu Lendo La- do distorcido, a pergunta “o que quer uma
can (1992), para quem, embora o significante mulher”, como se estivéssemos de novo diante
falo funcione de maneira diferente do signifi- de um feminino inefável, intangível, misterio-
cante pênis, com som e aparência diferentes e so, como se as mulheres estivessem condena-
produzindo diferentes associações, ainda as- das a não existir como sujeito, tal qual identi-
sim o significante falo sempre se refere ao pê- ficado por Beauvoir. Na prática, “a” mulher
nis. Para Gallop, enquanto o atributo de poder não existe talvez seja um dos postulados mais
for um falo, cujo significado é dado por refe- feministas de Lacan, que eu poderia aproxi-
rência ao pênis, ou mesmo muitas vezes con- mar, por exemplo, da reivindicação de Butler
fundindo ou tratado como sinônimo, “parece de não fazer mais do feminismo uma política
razoável que os homens tenham poder e as de defesa dos direitos das mulheres, já que,
mulheres não o tenham”. Ela sustenta ainda como ela escreve em Problemas de gênero, não
que, se o falo fosse distinto do pênis, o embate se pode mais compreender o sujeito das mu-
feminista contra o falocentrismo não seria di- lheres “em termos estáveis ou permanentes”.
rigido aos homens, mas ao poder, argumento A tarefa de Butler no início dos anos 1990 é
interessante para pensar como algumas cor- apontar os limites de uma teoria feminista que
rentes dos feminismos contemporâneos, espe- então considerava suficiente trocar a univer-
cificamente aqueles que articulam materialis- salidade da categoria mulher para a pluralida-
mo e pós-estruturalismo, privilegiam como de das mulheres. Quando Lacan diz que “a”
alvo a crítica às estruturas de poder – como mulher não existe, está propondo contar as
acontece no movimento de mulheres negras, mulheres uma a uma, de um modo muito pró-
por exemplo – do que os homens. Gallop in- ximo do que alguns dos feminismos contem-
siste em haver uma impossibilidade, a esta porâneos estão buscando fazer a partir de uma
altura da história, de pensar o masculino dis- perspectiva que considere todos os marcadores
sociado da posição fálica. Na mesma direção de discriminação. Por isso, gostaria de pensar
está a leitura da feminista Drucilla Cornell, que no deslocamento do sujeito abstrato para
cujo alvo são as duas proposições no que hoje sujeitos e sujeitas marcados(as) não apenas por
chamamos de “primeiro Lacan”: a de quem um corpo, como tão bem discutiu Suely Aires
tem o falo e a de quem é o falo. Para ela, ainda em seu artigo para este dossiê, mas também
que nessas posições não haja determinação por gênero, raça, classe, lugar de moradia, re-
biológica, elas permanecem assimétricas e as- ligião, local de nascimento etc. – sobretudo
sociadas ao masculino como o que tem o falo etc. –, podemos pensar numa psicanálise in-
e, consequentemente, entre o feminino e o que terseccional porvir.

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