Você está na página 1de 69

Giovana

Castro
PSICOPATAS DO CINEMA
Uma análise da mais perversa patologia na sétima arte

1ª Edição

Salto
FoxTablet
©2013
Psicopatas do Cinema: Uma análise da mais perversa patologia na sétima arte
Giovana Castro
Copyright © 2013 FoxTablet Ltda. - ME

Direitos autorais
Todos os direitos sobre esta obra estão reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser
reproduzida e disseminada, por quaisquer meios, sejam eles impressos, eletrônicos,
mecânicos, fotocópias e outros, sem que haja prévia permissão por escrito do autor e
editora.
Normas para uso de conteúdo
A informação contida neste livro somente poderá ser utilizada para fins terceiros com a
devida autorização por escrito do autor e editora. Apesar de todas as precauções terem
sido tomadas no preparo deste material, o autor e a presente editora não se
responsabilizam por danos, perdas ou procedimentos que possam ser causados direta ou
indiretamente pela informação contida nesta obra.
Propriedade de marcas
Violência Gratuita; Seven, os Sete Crimes Capitais; Psicopata Americano; Closer, Perto
Demais; A Mão que Balança o Berço; Jogos Mortais; O Silêncio dos Inocentes; Harry Potter;
O Desinformante; O Anjo Malvado; Instinto Selvagem; O Talentoso Ripley e O Cabo do
Medo são produções cinematográficas protegidas por leis de direito autoral. Sendo assim,
essas obras são analisadas no conteúdo deste livro para finalidade acadêmica, não sendo
intenção infringir ou transgredir qualquer norma de direito autoral, e sem efetuar a
reprodução ilegal dessas obras.
Ilustração da capa: Getulino Pacheco Diagramação: Jean-Frédéric Pluvinage ISBN: 978-
85-66799-02-6
FoxTablet
A sua editora de publicações impressas e digitais
Rua Sorocaba, 1228, sala 4,
Bairro Vila Santa Terezinha, Itu - SP
CEP 13310-335
Fone: +55 11 3413-3998
E-mail: contato@foxtablet.com.br
Website: www.foxtablet.com.br
Facebook: www.facebook.com/foxtablet
Agradecimentos:
Aos meus pais.
Sobre o autor
Giovana Castro é psicóloga graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e,
atualmente, é pós-graduanda em Gerontologia pelo Instituto de Ensino do Hospital
Israelita Albert Einstein.
Como profissional de psicologia, atende adolescentes, adultos, casais e idosos em seu
consultório situado na Clínica Aba, em Alphaville (SP). Desenvolve atendimentos
terapêuticos, em diversas modalidades, tais como: psicoterapia individual, de casal,
familiar ou em grupo, psicoterapia lúdica, terapia psicomotora, arteterapia, orientação de
pais e outros. Também escreve sobre psicologia em seu blog Psicotidiano.
Prólogo
Monstros é um dos termos mais comuns para se referir a criminosos. Nos textos e
discursos que narram histórias de crimes hediondos, lá estão as manchetes: monstros,
assassinos, psicopatas. São discursos em que a perversidade humana só está presente em
crimes violentos e bárbaros. Psicopatas são rotulados e vistos como serial killers, assassinos
em série, mas isso é um conceito incorreto: os verdadeiros psicopatas podem cometer
crimes sem derramar uma gota de sangue.
Vocês já se perguntaram qual o maior ícone da psicopatia que já viram no cinema? Com
certeza Hannibal Lecter, personagem do filme O Silêncio dos Inocentes (1991), ou Norman
Bates, do filme Psicose (1960), estará entre as respostas mais comuns, afinal, a imagem do
psicopata é o de um assassino frio e cruel. Mas nem todos os psicopatas são assassinos, e
um deles poderia estar não apenas na rua ao lado, mas dentro da sua própria casa. Há uma
estimativa de que 6% da população mundial nasce psicopata. Uma parcela da população
que, obviamente, não são assassinos em série. Então qual o motivo desse imaginário
distorcido sobre psicopatas?
O cinema é o maior veículo mundial de representação da realidade. Quando pensamos em
estereótipos, logo pensamos em um personagem famoso, e isso não é diferente na
representação das patologias!
Este livro tem como objetivo realizar uma análise psicanalítica de alguns psicopatas
representados no cinema e suas interferências na conscientização desta patologia pela
sociedade pós-moderna, ou seja, entender Hannibal Lecter, Lord Voldemort, Jigsaw, entre
outros, em suas essências, e entender qual é o significado dado a eles pelos espectadores. O
percurso deste livro foi elaborado a partir de uma pesquisa qualitativa, exploratória,
mediante bibliografia, videografia e documentos.
Os filmes selecionados expressam a veiculação da patologia no cinema, transmitindo a
ideia de que os comportamentos psicopatas são mais comuns no cotidiano das pessoas do
que se imagina. Os resultados obtidos evidenciaram que o cinema exerce muita influência
no cotidiano das pessoas, uma vez que apresentam, muitas vezes, versões romantizadas
dos psicopatas, levando o público a crer que esses indivíduos não pertencem ao convívio
comum da sociedade, pois, nos filmes, tais personagens são encarados como monstros,
marginais assassinos ou bruxos. Mas, na vida real, eles estão em todos os lugares, podem
ser pessoas amáveis e dóceis e podem perfeitamente conviver conosco em nossos
ambientes de trabalho, sociais e até mesmo, familiares.
Quando ouvimos na televisão, pelos programas policiais, a declaração de delegados e
jornalistas indignados com a frieza dos criminosos, os comparando a monstros, não é
estranho a falta de preparo desses profissionais em identificar um psicopata. Não há como
psicopatas expressarem sentimentos genuínos pois eles simplesmente são desprovidos de
tais. Tudo o que eles apresentam, seu choro, sua rendição, faz parte de um grande teatro,
desde que essa representação seja favorável a eles. Representando os psicopatas como
monstros, a sociedade os “desumaniza”, ou seja, pessoas tão cruéis não são “humanas”
como nós, são monstros! Um monstro cometer crueldades é mais aceitável do que um ser
semelhante a nós. É muito difícil uma pessoa entrar em contato com seu lado perverso e
perceber que, se não fosse provido de convenções sociais e sentimentos, seria capaz de
praticar os mesmos atos daquele que chama de monstro.
Pensemos em nossos presídios. Todos sabem que existem lideranças lá dentro, facções. Os
prisioneiros sabem identificar quem devem obedecer e é este o lugar que o psicopata
preenche lá dentro. Um líder que todos temem, pois sabem que podem perder suas vidas a
troco de nada e serão mortos com a frieza de uma pessoa matando uma barata. Não temos
divisão no nosso sistema penitenciário. Não temos profissionais nos presídios que
identifiquem esse tipo de personalidade e separe os psicopatas do grupo, formando assim
uma grande escola do crime, e não um centro de reabilitação social.
Psicopatas matam, mas não apenas tirando a vida do outro. Eles matam muitas vezes
acabando com os sonhos e esperanças dos outros, através da política, mercado financeiro,
igrejas, televisão e muitos outros meios. Os lobos em pele de cordeiro estão ao seu lado!
Introdução
Como contemporâneos, cinema e psicanálise, revelam, em sua própria maneira, a
personalidade da humanidade. Os dramas interiores que o ser humano vivencia e que a
Psicanálise traz à luz, podem ser experimentados também dentro de uma cena da ficção
cinematográfica.
A semelhança de certos termos e as pontuações aparentes entre as duas técnicas permitem
a comparação espontânea. Nas produções do cinema americano, bem como na análise
crítica desses filmes, verifica-se que tem ocorrido uma naturalização de comportamentos
psicopatas, ou seja, atitudes de pessoas com traços de psicopatia são apresentados ao
público como sendo normais. Mas ocorre que, na vida real, esses personagens deveriam ser
encaminhados para um tratamento psicanalítico ou psiquiátrico.
Este livro não pretende esgotar este tema, pelo contrário, quer abrir novos
questionamentos e indagações e ser o início de um caminho que possa ser trilhado por
quem tem interesse na área de psicologia, cinema ou outras áreas afins.
O objetivo é realizar uma análise psicanalítica dos psicopatas do cinema e suas
interferências na conscientização desta patologia pela sociedade pós-moderna. Inicio esta
análise conceituando a psicanálise, para que os leitores consigam compreender o
embasamento das análises, demonstrando as características e influências do cinema na
sociedade pós-moderna que, nada mais é do que a sociedade que vivemos na atualidade;
para estabelecer também a relação entre cinema e psicanálise que, afinal, são
contemporâneos e, por fim, levantar o perfil de personagens psicopatas existentes em
filmes de grande bilheteria mundial. Esses personagens são analisados, assim como são
debatidos os efeitos da naturalização de comportamentos perversos que são apresentados
nestes filmes e sua capacidade de formação de opinião enquanto mídia de massa no
cotidiano dos indivíduos.
Os filmes se constituem como material rico para análise em diversas áreas do
conhecimento, dentre elas, a psicologia. Lançar um olhar crítico e psicanalítico sobre a
produção cinematográfica levará a compreender também como a influência do cinema,
enquanto cultura de massa, consegue influenciar o cotidiano dos sujeitos a ponto de
naturalizar comportamentos psicopatas.
1. Psicanálise
1.1 Conceito e história
A psicanálise é um campo clínico de atuação da psicologia, desenvolvido por Sigmund
Freud. Ela nasceu num contexto de priorização do mundo interno e de suas manifestações
e interferências na realidade externa.
A psicanálise originou-se na prática clínica do médico e fisiologista austríaco Josef Breuer,
devendo-se a Sigmund Freud a valorização e aperfeiçoamento da técnica e os conceitos
criados nos desdobramentos posteriores do método e da doutrina, o que ele fez valendo-se
do pensamento de alguns filósofos e de sua própria experiência profissional. Este campo
clínico nasceu em Viena, numa atmosfera cultural que estimulava o fascínio por doenças
mentais e problemas sexuais, sendo que o sexo e a morte partilhavam estranha
coexistência na cultura vienense.
Assim, a psicanálise surge em um contexto de ambivalência, para compreender forças
tácitas e ocultas que regem o sujeito, argumentando que este estudo está inteiramente
voltado para o entendimento e funcionamento do sujeito, entendendo o sujeito como
razão e emoção, consciente e inconsciente e, sobretudo, responsável por ele mesmo, por
suas conquistas e fracassos, por suas alegrias e tristezas, por seus contentamentos e
descontentamentos, por seus amores e desamores, por suas paixões e sofrimentos, por suas
construções e desconstruções, enfim, por suas escolhas e suas subjetividades.
É possível, dessa forma, observar que a psicanálise é fruto e matriz do pensamento
moderno, fruto de ideias de intelectuais e artistas do século XIX e matriz de ideias do
século XX.
Raízes iluministas - Fortes mudanças de pensamento ocorreram significativamente após a
Revolução Francesa, quando as ideias iluministas passaram a ser consideradas e
influenciaram outros pensadores, entre eles Cesare Lombroso. Lombroso foi o responsável
pela difusão da imagem do criminoso nato por todo o mundo, influenciando o meio
literário e, posteriormente, o cinematográfico, ao apontar, na Itália, tais características em
personagens como o Drácula, de Bram Stoker e Frankenstein, de Mary Shelley.
Sigmund Freud, nascido na Áustria, é também influenciado pelas mudanças de
pensamento da pós-revolução, uma vez que foi em Viena, capital do Império Austríaco,
que o mapa político da Europa foi redesenhado após a derrota final de Napoleão
(Congresso de Viena 1814-1815). É também na primeira metade do século XIX que a
Áustria conhece a industrialização, adquirindo grandes ferrovias. É nesta atmosfera que
temos os primeiros estudos de Freud sobre a psicanálise, como o famoso mal-estar na
civilização.
Descoberta da psicanálise - Alguns estudos argumentam que Freud descobriu a
psicanálise quando tratava de pacientes com problemas psíquicos que a psiquiatria não
conseguia reverter. Foi ele quem descobriu um método para penetrar no inconsciente do
indivíduo, a fim de liberar a mente de descargas negativas, pois estas provocavam neurose
ou histeria.
Num estágio ainda pré-psicanalítico, Freud ouvia suas pacientes histéricas e acreditava que
havia algo além da medicina, além de um processo puramente biológico. Ele as escutava de
uma maneira diferenciada em relação ao padrão médico da época. De seus estágios na
clínica do médico e cientista francês Jean-Martin Charcot, em Paris, Freud aprendeu o
método hipnótico, visto como eficaz para fazer as histéricas se recordarem do passado. Um
passado que estava recalcado e permanecia vivo no inconsciente. A ideia do inconsciente,
como uma realidade que estava além do orgânico, já estava presente em Jean-Martin
Charcot, em Josef Breuer, em Sigmund Freud.
No período em que atendia estas pacientes, Freud aperfeiçoou o método catártico de
Breuer, fazendo com que suas pacientes trouxessem o máximo de informações, e passou a
investigar os sintomas, isoladamente, até chegar a uma conclusão do estado em que a
paciente se encontrava, como também a um conhecimento do seu quadro neurótico. Seu
intento era de criar uma “teoria psicológica dos nervos”.
Sua paciente, Fanny Mozer, certa vez que lhe disse: “Você não devia ficar me perguntando
o tempo todo sobre a origem das coisas que evoco. Você devia me deixar falar sem me
interromper”.
A partir disto ele constrói um saber sobre a associação livre e, no efeito do constante
movimento retroativo do tempo a posteriori, formaliza a regra fundamental da psicanálise.
Importância decisiva é conferida à fala do paciente e à escuta do analista.
Definições - De acordo com Freud, a psicanálise é o nome de um procedimento para a
investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por outros modos, porque
tem como objeto de investigação o inconsciente.
Pode ainda ser entendida como uma teoria da estrutura e funcionamento da mente
humana e uma metodologia que visa compreender os motivos do comportamento
humano.
O propósito da psicanálise é ser um instrumento, uma possibilidade através da qual o
sujeito possa “sair da caverna, ver o sol, enfim, ver os objetos”. Em outras palavras, que os
sujeitos possam se conhecer, se reorganizar internamente, deixar de ser uma imagem fora
de foco para si mesmo e para o mundo, fazer escolhas conscientes, enfim ser o senhor da
sua própria existência e gozar da liberdade de ser o que é.
A psicanálise é um conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da
vida psíquica e que consiste num método terapêutico interpretativo que busca
compreender o significado oculto daquilo que é manifestado por ações, palavras, produções
imaginárias através de sonhos, associações livres e atos falhos. De acordo com esse estudo,
existe a realidade psíquica, ou seja, as cenas relatadas podem ser reais ou imaginárias, mas,
para o paciente, tem valor real.

1.2. Inconsciente , Pré-Consciente e Consciente


No final do século XIX, a ideia de inconsciente era comum aos cientistas, filósofos e
literatos, em uma corrente teórica que remonta a Rousseau, até Goethe, Fichte e Nietzsche.
Freud considerou isto, relatando que: “os poetas e filósofos antes de mim descobriram o
inconsciente. O que eu descobri foi o método científico pelo qual o inconsciente pode ser
estudado”.
Freud introduziu os conceitos de inconsciente, pré-consciente e consciente. Para Freud, o
processo de percepção inconsciente e pré-consciente podem ser rastreados por meio da
interpretação dos sonhos e dos atos falhos.
Ao tratar do inconsciente, Freud, expressa que “são atos psíquicos e surgem de mútua
interferência entre duas intenções”, que se manifestam através dos seguintes sintomas:
lapsos de língua, escrita, escuta, sonhos, chistes, atos falhos e esquecimentos.
Ainda sobre o inconsciente, Freud explica: aprendemos pela experiência que os processos
mentais inconscientes são em si mesmos atemporais. Isso significa, em primeiro lugar, que
não são ordenados temporalmente, que o tempo de modo algum os altera, e que a ideia de
tempo não lhes pode ser aplicada. É o caso dos sonhos, que contêm narrativas sem
linearidade temporal definida.
Em última análise, o inconsciente é uma forma, um modus operandi distinto da
consciência. O que distingue a percepção pré-consciente ou inconsciente da percepção
consciente é a focalização da atenção. O estímulo é inicialmente percebido de forma pré-
consciente e só será conscientizado pela cooptação da atenção, de forma voluntária ou
involuntária, como no caso da dor.
A mente consciente é meramente a ponta do iceberg, e a predominância dos nossos
pensamentos e sentimentos e, acima de tudo, da nossa motivação não nos é conhecida e,
algumas vezes, não é benigna nem inocente.
Freud também apresenta a existência pré-consciente, que é uma parte do inconsciente, que
pode tornar-se consciente com facilidade. As porções da memória que são acessíveis
constituem o pré-consciente. Elas incluem lembranças de ontem, datas comemorativas,
alimentos prediletos, cheiro de perfumes e outras experiências passadas. Ele é como uma
vasta área de posse das lembranças de que a consciência precisa para desempenhar suas
funções.
Para Freud, o consciente é somente uma pequena parte da mente, incluindo tudo que o
indivíduo tem ciência num determinado momento, e o pré-consciente é uma parte do
inconsciente, uma parte que pode tornar-se consciente com facilidade.
O pensamento consciente é mais seletivo, mais focalizado, mais dirigido. É preciso um
mecanismo de atenção, que Freud descreve como um novo superinvestimento (ou
hipercatexia), para tornar consciente uma representação pré-consciente.
As representações pré-conscientes são formações duráveis e até seus investimentos são
relativamente estáveis (embora também haja processos, ou seja, séries de transformações
sucessivas, no pensamento pré-consciente). A consciência, ao contrário, se caracteriza por
seu caráter transitório, fugitivo.
A consciência, no entanto, não é só percepção consciente, ela compreende também as
lembranças conscientes, as fantasias conscientes, os desejos conscientes, o pensamento
consciente, entre outros elementos.
2. O Cinema e Pós-Modernidade
2.1. Contextualização
A modernidade trouxe consigo inexorável avanço da economia mundial e apresentou
como principal consequência o avanço do processo de globalização, que tem provocado
intensos debates nas diversas esferas da sociedade. Este avanço traz no bojo de seu
processo o inevitável determinismo tecnológico, que se torna dia após dia um poderoso
instrumento, que visa à normatização do processo de globalização. Nesse contexto, pode-
se visualizar o intenso crescimento e desenvolvimento da indústria cinematográfica que
surge nos Estados Unidos, no período após a Primeira Guerra Mundial. Os estúdios de
Hollywood sofreram grandes transformações.
O desenvolvimento da indústria cinematográfica hollywoodiana eclodiu após a Primeira
Guerra Mundial, com produções de filmes em sistemas de fábricas, com a abertura das
filiais de grandes produtoras em vários lugares do mundo e um grande investimento de
capital numa política de expansão e dominação do mercado cinematográfico mundial.
Dessa forma, surgiu em torno do cinema um novo mercado gerador de uma economia da
qual os filmes eram produzidos em grande escala e eram comercializados em todo o
mundo, apresentando inovações tecnológicas, com novas técnicas no processo de
filmagem, de linguagem e de figurino.
Entretanto, quando surgiu em 1885, o cinema apresentava outras características, sendo
que ainda era disseminado junto ao teatro, revistas ilustradas e cartões-postais, ou seja, o
cinema ainda não possuía uma linguagem própria.
Surgimento do cinema - O cinema é uma continuação da tradição das projeções da
lanterna mágica, no início do século XVII, quando apresentador mostrava ao público
imagens coloridas mostradas numa tela. O cinema origina-se também na práticas de
representação visual pictórica, tais como panoramas e dioramas, bem como brinquedos
ópticos do século XIX.
Logo no final do século XIX, surge a máquina de projetar filmes, que era utilizada em
palestras, exposições e que estavam misturadas a outras formas de cultura como circos,
parques de diversões e diversos espetáculos públicos. Cabe ressaltar que, desde sua criação
até os dias atuais, o cinema vem passando por várias transformações e adquirindo um
código de linguagem próprio, estabelecendo, especificamente a linguagem
cinematográfica.
Os irmãos Lumière, na França foram os principais responsáveis pelo desenvolvimento do
aparato técnico das projeções, assim como foi Thomas Edison nos EUA.
Dessa forma, entende-se também que estas transformações estão intimamente
relacionadas ao processo histórico de evolução da sociedade, pois à medida que ocorreram
avanços tecnológicos, foi possível o aperfeiçoamento dos instrumentos ópticos e o
incremento das imagens fotográficas, com mais recursos de edição de imagens e sons.
Outro aspecto relevante, na história do cinema, é que ele não foi inventado por uma única
pessoa, tendo em vista que a sofisticação que decorreu desde o seu surgimento, ocorreu em
função de circunstâncias diversas em várias partes do mundo. A cada momento eram
criadas novas técnicas de projeção de imagens em movimento, como a invenção do
celuloide e implementação de aparatos de projeção.
Entre 1894 até 1907, ocorreu a expansão da exibição de nickelodeons (pequenas salas de
cinema) e muitos filmes de ficção científica. A partir de 1903, os filmes passam a
desenvolver uma narrativa com cortes cinematográficos, elaborando a narrativa. Este
momento coincide com o desenvolvimento industrial da sociedade moderna e o cinema
procura se corresponder aos moldes desse período.
Assim, as produções cinematográficas vão se especializando e construindo um código
próprio de comunicação com o grande público. A partir desse momento surge a indústria
cinematográfica mundial, pois as empresas de cinema se expandiram internacionalmente.
Com o aumento da produção cinematográfica, as empresas produtoras de filmes passam a
distribuir filmes em outros países, levando à especialização de funções. Para atender à
demanda comercial, exigia-se uma racionalização do processo. Nesse período, surgem os
roteiristas, cenógrafos, maquiadores, figurinistas e diretores, dentre outros.
Dessa forma, constata-se a expansão da indústria cinematográfica, com a sofisticação dos
estúdios e com o aumento do tempo de exibição dos filmes, caracterizando, assim, o
cinema como uma mídia independente e a mais importante do século XX. Ao adentrar
nesse período, a produção cinematográfica passa a se integrar ao movimento de arte e atrai
o público intelectual.
É possível exemplificar essa mudança ao afirmar que o filme O Gabinete do Dr. Cagliari, ao
se relacionar com um dos movimentos de arte mais importantes da época, o
Expressionismo, indicou novas relações entre filme e artes gráficas, ator, representação,
imagem e narrativa. Seu conceito revolucionário surpreendeu e atraiu o público intelectual
que até então raramente havia dado atenção ao cinema. A curiosidade gerada em torno do
cinema ajudou a reabrir o mercado externo cinematográfico que estava fechado para a
Alemanha.
O movimento do Expressionismo alemão, com elementos dramáticos e poéticos,
influenciou fortemente os rumos do cinema, que contribui com o desenvolvimento
estético e industrial do pós-guerra. O cinema alemão também foi o responsável pelo
destaque às mulheres em suas produções, visando também uma produção esteticamente
qualificada, com alto nível artístico. Dessa forma, o cinema alemão, com raízes do
Expressionismo, influenciou a produção cinematográfica mundial com inovações técnicas
e estéticas que mobilizaram críticos ao redor do mundo.
Até mesmo Adolf Hitler, que contratou a cineasta Leni Riefesnstahl para produzir os
filmes de divulgação do nazismo, percebeu a importância e o alcance provocados pela
indústria cinematográfica no mundo. Os vídeos produzidos por Riefesnstahl foram
difundidos não só na Alemanha nazista, gerando cada vez mais adeptos ao regime
totalitário de Hitler, como também circularam por todo o mundo, podendo ser vistos até
hoje, e são ainda elogiados pela plasticidade alcançada nas imagens da cineasta alemã.
Cinema e sociedade - O objetivo do cinema, ao longo do século XX, é trazer o espectador
para dentro das telas, além de narrar uma história, levando o espectador a acreditar que o
que está sendo exibido é “real”, segundo a versão criada pelo diretor. Nesse quadro, o
cinema é considerado um veículo de comunicação de massa que exerce influência
sociocultural, tendo em vista que os comportamentos, valores e linguagens vigentes na
sociedade são refletidos na ideologia transmitida pelas produções cinematográficas.
Face ao exposto, cabe ressaltar que, ao entrarmos no campo das reflexões sobre cinema e
sociedade, deparamos com um razoável número de conceitos, tais como arte, indústria
cultural, história, política, dentre outros, que são importantes para nossa análise. De todos
esses pontos de vista, uma questão se coloca como absoluta: a ideologia representante que
detém o poder.
As instituições cinematográficas têm interesses políticos que, em última
análise,determinam quais os filmes que serão feitos, para não dizer quais os filmes que
serão vistos. Ao examinarmos a atuação dessas instituições, vemos a natureza dos
interesses a que servem, os objetivos que perseguem e qual o significado de sua função
para o público, a indústria cinematográfica e a cultura como um todo.
Outra questão muito importante, no plano da ideologia, diz respeito ao cinema como
representante de identidade nacional, ou seja, a indústria cinematográfica participa da
construção da nação.
A ideologia de um filme não assume a forma de declarações ou reflexões diretas sobre a
cultura. Ela se encontra na estrutura narrativa e nos discursos usados, nas imagens, nos
mitos, convenções e estilos visuais.
Ao dizer que o cinema expressa realidade, o grupo social que encampou o cinema coloca-
se como inquestionável. Trata-se de um problema complexo, mas é fundamental tentar
equacioná-lo para que se tenha ideia de como se processa, no campo da estética, um dos
aspectos da dominação ideológica. O cinema, como toda área cultural, é um campo de
luta. E a história do cinema é também um esforço constante para denunciar esse
ocultamento e fazer aparecer quem fala.
Nesse campo complexo, um dos pontos cruciais da discussão sobre cinema e sociedade diz
respeito a sua veracidade do que conserva do concreto, da realidade, pois, embora exita até
mesmo uma categoria denominada cinema histórico, o cinema de ficção é a arte de
representar, é simulacro. Assim, representa o poder dominante.

2.2. Influência sociocultural do cinema


Os personagens do cinema causam fascínio nos espectadores e acabam influenciando os
seus comportamentos.
A disseminação do cinema, enquanto novo aparato de lazer urbano, possibilitou uma
relação mais direta entre o público e o discurso imagético. O sucesso da sétima arte nasceu
como uma diversão ligada às massas empobrecidas.
Nesse sentido, observa-se que o cinema se torna uma mídia de massa, que visa atingir o
grande público, tornando-se a forma mais popular de diversão de todo o século XX, e, ao
mesmo tempo, uma das mais lucrativas indústrias do capitalismo moderno.
Desde seus primeiros momentos do cinema, tornou-se e clara a duplicidade de seu caráter:
arte e indústria. Com a Primeira Grande Guerra e a Revolução Russa, o cinema ganha
potencial como instrumento político de convencimento das grandes massas na sociedade
industrial moderna. Entre arte e indústria, o cinema surgiu como a mais poderosa diversão
de massas do século, movimentando milhões e milhões de dólares, criando plateias e salas
específicas, gerando uma imprensa própria e um circuito de astros como nunca existira
antes.
Da mesma forma, o cinema produziu grandes mudanças comportamentais, criando e
influenciando modas, formas de agir, modos de falar, além de ambientes, pontos de
socialização básicos do século XX, como a sala de cinema, os drive-ins e as praças dos
grandes shopping centers.
Cabe ressaltar que o período do Pós-Guerra trouxe inúmeras condições de
desenvolvimento para a sociedade. Muitos hábitos foram modificados a partir do intenso
processo de industrialização e do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa.
Nesse contexto, o cinema é considerado um produto da cultura de massa que visa atingir o
maior público possível, indo contra a “necessidade humana do consumo cultural
individualizado”. O público que vai ao cinema se torna um público consumidor, que
irrefutavelmente se deixa influenciar pelas ideias e comportamentos que são transmitidos
nas cenas dos filmes.
Adota-se, nessa discussão, o pensamento de Hannah Arendt, expoente da teoria política
alemã, no século XX, sobre o conceito de cultura. Em sua obra, A Crise da Cultura, ela
critica a sociedade de massa que produz a cultura de massa, pois a cultura deve ser um
fenômeno do mundo porque relaciona-se a objetos e um fenômeno da vida porque se
relaciona com o homem.
Para Arendt, a sociedade manipula a cultura de acordo com seus interesses. Sobre o
significado etimológico da palavra cultura, ela diz que a cultura - palavra e conceito - é de
origem romana. A palavra cultura origina-se de colere - cultivar, habitar, tomar conta, criar
e preservar - e relaciona-se essencialmente com o trato do homem com a natureza, no
sentido da preservação da natureza até que ela se torne adequada à habitação humana.
Como tal, a palavra indica uma atitude de cuidado carinhoso e está em forte oposição a
todo esforço de sujeitar a natureza à dominação do homem.
A partir dessa afirmativa, compreende-se que não há como separar os processos sociais da
história. Compreende-se que o ser humano é um ser simbólico cultural, diferencia-se de
outros seres porque pensa e constrói estruturas mentais cada vez mais complexas. Esse
movimento faz parte da natureza humana, que vive modificando o mundo. Como não
poderia deixar de ser, o homem desenvolveu a linguagem oral e, posteriormente, a escrita,
uma forma sofisticada de comunicação.
É possível, assim, compreender a cultura como “o padrão de significados que inclui ações,
manifestações verbais e objetos significativos de vários tipos, em virtude dos quais, os
indivíduos comunicam-se e partilham suas experiências, concepções e crenças”.
Dessa forma, como não há o que aconteça fora do espaço e do tempo, a cultura faz parte
dos acontecimentos diários, está presente nos mínimos gestos e, também, em fenômenos
mais complexos como os rituais, as obras de arte e as tradições. Um conjunto de práticas,
planos e regras da vida social nos permite compreender o comportamento social do
indivíduo e de uma comunidade. Assim, através dos atos sociais, símbolos e práticas
religiosas de determinada cultura, podemos compreender e delinear a identidade cultural.
Nesse sentido, cabe ressaltar que a identidade cultural, tanto no âmbito individual quanto
social, sempre esteve presente nas sociedades humanas, e é discutida sob vários pontos de
vista científicos.
Ela é constituída a partir de elementos históricos e culturais, uma vez que a cultura revela
os valores, significados, normas, símbolos e os mitos que são reproduzidos na experiência
e vivência do ser humano em determinado grupo social. Assim, não se pode analisar a
identidade de um grupo social sem abordarmos os aspectos culturais em que estes estão
inseridos.
Compreende-se, portanto, que a construção da identidade do sujeito moderno está
vinculada às regras a ele impostas pelo seu meio social e cultural. O filme é uma obra a ser
criada e distribuída, e sua efetivação se coloca no cruzamento das ambições artísticas e de
obrigações financeiras rígidas. Nesse sentido, o cinema é um processo que inclui os fatores
artísticos, sociais e econômicos.
O objetivo de apresentar as atrizes de Hollywood associadas ao uso de algum produto
(roupa, sapato, perfume etc) era ampliar o consumo de um determinado produto e
perpetuar um padrão da moda. A linguagem utilizada pelo cinema através de sons, cores e
gestos passava a seguinte mensagem para as mulheres: elas devem estar atentas aos
cuidados do “lar” (lavar, passar, cozinhar, costurar etc), mas é também imprescindível que
estejam sempre belas, como as personagens femininas principais das telas.
Na América, o cinema tornou-se, desde cedo, um ramo da indústria, a chamada indústria
do entretenimento, o que acabaria por se tornar paradigma da indústria cultural, ao lado
do rádio e da indústria fonográfica. O seu caráter industrial impõe uma forma única e
tradicional.
Assim, a maneira como cada um enxerga o mundo é uma questão transposta para o plano
da ideologia. No plano das percepções, a captação de informações dá-se pelo interesse
criado pela pessoa, em função das práticas sociais institucionalizadas pelo poder
hegemônico e dominante. A ideologia não é algo fixo ou imutável. Renova-se e nega-se
diariamente.
No cinema, como o objetivo é trazer o espectador para dentro das telas, além de narrar
uma história, a narrativa leva o expectador a acreditar que o que está sendo exibido é real,
segundo a versão de mundo criada pelo cineasta.
Nesse quadro, o cinema, considerado um veículo de comunicação de massa, exerce
influência sociocultural, tendo em vista que os comportamentos, valores e linguagens da
sociedade refletem as ideologias transmitidas pelas produções cinematográficas.
3. Psicopata vs. Psicótico: Qual é a diferença afinal?
Hannibal Lecter, personagem do filme O Silêncio dos Inocentes (1991), ou Norman Bates,
do filme Psicose (1960) são, respectivamente, um psicopata e um psicótico. Mas qual é a
diferença, afinal, entre essas duas patologias? Por que o Norman Bates não pode ser
considerado um psicopata se ele matava mulheres a sangue frio?
Segue então o segredo de Psicose para continuar a análise: não era Norman Bates que
cometia os assassinatos no famoso Motel Bates, mas sim sua mãe. “Mas a mãe estava
morta!” dirá o expectador. Exatamente! A mãe de Norman estava morta e empalhada em
seu quarto, como ele tinha o hábito de fazer com os animais de seu escritório. Norman era
um homem com personalidade psicótica, emocional, fragilizado, covarde e que convivia
desde a sua infância com um Complexo de Édipo tão latente que chegou a causar a morte
do amante de sua mãe e dela mesma. Norman tinha dupla personalidade, na qual seus
instintos mais ferozes e ativos só conseguiam ser liberados quando ele tomava o papel de
sua mãe. Ele se transvestia com as roupas dela, colocava peruca e falava consigo mesmo
com a voz de uma senhora autoritária, que sentia repulsa de qualquer mulher que se
aproximasse de seu filho e que pudesse despertar seu desejo sexual.
Na famosa cena do banheiro fica claro que o vulto assassino era de uma senhora, porém,
no decorrer do filme, fica claro que o transtornado Norman era o pivô daquele ato.
Norman era um rapaz tranquilo, solícito, um filho carinhoso, obediente, passivo, porém
seu lado oculto representado pela figura materna, na que ele se transformava, mostrava o
ódio, a raiva, o desejo de aniquilação e seus instintos mais primitivos e violentos.
Psicopatas - O senso comum constata que existe uma grande confusão no conceito da
psicopatia, os condenando apenas à criminalidade ou atos violentos, porém isso é um
grande equívoco, pois eles se destacam em muitas profissões idôneas.
Apesar de serem mais propensos à violência e terem dificuldades de se relacionar, eles se
diferem nas suas habilidades, impulsos e desejos devido ao seu grau elevado de narcisismo
e, dentro dessa patologia, eles são devidamente equipados para atingir o sucesso, pois suas
mentes frias e calculistas conseguem visualizar as situações de forma organizada e sem que
as emoções dos “simples mortais” os atrapalhem na busca de seus objetivos. Porém, isso
não lhes garante o sucesso, pois justamente as suas dificuldades em se relacionar podem se
tornar uma pedra em seus sapatos, ainda mais em um mundo cada vez mais talhado em
relações e networking.
Claro que não se pode rotular a patologia através apenas de algumas características, e essas
devem ser muito bem avaliadas, para poder identificar um psicopata.
A lista a seguir não é uma lista no estilo “teste de revista adolescente”, na qual a análise
superficial e leiga pode diagnosticar alguém, portanto, cuidado ao considerar esses fatores
para não julgar alguém sem que tenha um embasamento clínico.
Alguns fatores para a identificação das pessoas que sofrem de psicopatia são os seguintes:
Fator 1: Narcisismo Agressivo
1. Charme superficial
2. Grandioso sentimento de autoestima 3. Mentiras patológicas
4. Ardilosos / Manipuladores
5. Falta de remorso ou culpa
6. Superficial
7. Falta de empatia
8. A incapacidade de aceitar sua responsabilidade por suas ações 9. Comportamento sexual
promíscuo
Fator 2: Socialmente desviantes no estilo de vida
1. Necessidade de estimulação / Sensibilidade ao tédio 2. Estilo de vida parasitário
3. Pobre controle comportamental 4. Falta de realismo e de metas de longo prazo 5.
Impulsividade
6. Irresponsabilidade
7. Delinquência juvenil
8. Problemas comportamentais precoces 9. Revogação da liberdade condicional Psicose -
Já a psicose é um quadro psicopatológico clássico completamente diferente. Enquanto o
psicopata, apesar de sua ausência total de emoções, tem total controle de suas faculdades
mentais, a psicose é reconhecida pela psiquiatria e pela psicologia como um estado
psíquico no qual se verifica uma perda de contato com a realidade.
Nos períodos de crises mais agudas, podem ocorrer alucinações ou delírios,
desorganização psíquica, pensamento desorganizado e/ou paranoide, acentuada
inquietude psicomotora, sensações de angústia intensa, opressão e insônia severa.
Estas crises são frequentemente acompanhadas por uma falta de autocrítica, que se traduz
na incapacidade de reconhecer o caráter estranho ou bizarro do comportamento. Também
nos momentos de crise, são claras as dificuldades de interação social e em cumprir
normalmente as atividades da vida cotidiana, além de serem psicologicamente
incompreensíveis.
Os psicóticos apresentam delírios, alucinações, alterações da consciência do eu. Porém,
não existem alterações primárias na esfera cognitiva: sua memória e nível de consciência
não são prejudicados. Caso isso ocorra, é por causa de outras alterações psíquicas, bem
como devido a substâncias psicoativas, como remédios, álcool e drogas.
Historicamente, psicóticos eram vistos como endemoniados, pois agiam de maneira
bizarra para os padrões da sociedade: falavam sozinhos ou em outras línguas
desconhecidas, tinham alucinações, e isso os levavam à morte pelos religiosos da época
que, com medo do desconhecido, preferiam se livrar do “problema”.
4. Definições do CID-10
O CID-10, Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados
com a Saúde, descreve os seguintes tipos de transtornos específicos de personalidade:
Transtorno paranoide: predomina a desconfiança, sensibilidade excessiva a
contrariedades e o sentimento de estar sempre sendo prejudicado pelos outros; atitudes de
autoreferência.
Transtorno esquizoide: predomina o desapego, ocorre desinteresse pelo contato social,
retraimento afetivo, dificuldade em experimentar prazer; tendência à introspecção.
Transtorno antissocial: prevalece a indiferença pelos sentimentos alheios, podendo
adotar comportamento cruel; desprezo por normas e obrigações; baixa tolerância a
frustração e baixo limiar para descarga de atos violentos.
Transtorno emocionalmente instável: marcado por manifestações impulsivas e
imprevisíveis. Apresenta dois subtipos: impulsivo e borderline. O impulsivo é
caracterizado pela instabilidade emocional e falta de controle dos impulsos. O borderline,
por sua vez, além da instabilidade emocional, revela perturbações da autoimagem, com
dificuldade em definir suas preferências pessoais, com consequente sentimento de vazio.
Transtorno histriônico: prevalece egocentrismo, a baixa tolerância a frustrações, a
teatralidade e a superficialidade. Impera a necessidade de fazer com que todos dirijam a
atenção para eles próprios.
Transtorno anancástico: prevalece preocupação com detalhes, a rigidez e a teimosia.
Existem pensamentos repetitivos e intrusivos que não alcançam, no entanto, a gravidade
de um transtorno obsessivo-compulsivo.
Transtorno ansioso (ou esquivo): prevalece sensibilidade excessiva a críticas; sentimentos
persistentes de tensão e apreensão, com tendência a retraimento social por insegurança de
sua capacidade social e/ou profissional.
Transtorno dependente: prevalece astenia do comportamento, carência de determinação
e iniciativa, bem como instabilidade de propósitos.
5. Psicanálise e Cinema: um estudo prático das representações
da psicopatia
O material utilizado para constituir o corpus das análises foram 13 obras cinematográficas
internacionais de grande bilheteria: 1. Jogos Mortais 2. O Desinformante 3. Closer
4. Cabo Do Medo
5. Seven, Os Sete Crimes Capitais 6. O Silêncio Dos Inocentes 7. Violência Gratuita 8. A
Mão Que Balança O Berço 9. O Anjo Malvado 10. Instinto Selvagem 11. Harry Potter 12.
Psicopata Americano 13. O Talentoso Ripley Critério de seleção - O principal critério de
seleção dessas obras cinematográficas é, primeiro, que façam referências a personagens
com comportamentos psicopatas, os quais são naturalizados durante a trama apresentada;
segundo, que tenham alcance mundial de bilheteria, pois quanto maior o público atingido,
maior é a fatia da população que terá um determinado personagem como referência; e
terceiro, que tenham personagens diversificados como mulheres, crianças, serial killers,
estelionatários, fantasiosos, violentos, argiloso etc.
A metodologia utilizada para o cumprimento dos objetivos propostos foi baseada em uma
pesquisa bibliográfica e exploratória qualitativa, na qual foi buscada uma revisão de
literatura a partir da leitura de fontes científicas em filmes, livros, artigos online, artigos
impressos, textos, sites da Internet, bibliotecas, entrevistas com roteiristas, entre outros.
6. Análise dos filmes
6.1 Peter e Paul (Violência Gratuita)
“Por que está fazendo isso com a gente?”
“Por que não?!”

Peter e Paul - imagem do filme Violência Gratuita (Funny Games, 2007, Direção de Michael
Haneke)
A violência é um tema que está em ebulição na sociedade contemporânea e traz a
necessidade de reflexão de como extinguir tal comportamento da raça humana. Ao mesmo
tempo, nas telas do cinema, a violência, que é um mau social na vida real, é banalizada em
personagens que são tratados como indivíduos comuns tanto física, quanto
psicologicamente.
Em contrapartida, o cinema como arte é um reflexo da realidade, que apresenta o retrato
da sociedade contemporânea, que convive diariamente com a morte sem glamour, com a
insanidade humana e com a impreterível necessidade de “acabar com o outro”.
Quem é mais sádico: Jigsaw, de Jogos Mortais, ou o espectador que acompanha todos os
filmes da série apenas se preocupando em aumentar seu repertório de torturas?
É sobre isso que nos fala Violência Gratuita. O filme mostra uma família indo passar o fim
de semana em uma tranquila casa de campo, à beira de um lago. Mal chegam, pai, mãe e
filho são visitados por dois jovens, Peter e Paul. Em síntese, pode-se dizer que os dois
jovens psicopatas são uma fatia da vida real de cada um de nós, e são um exemplo de
centenas de outros que convivem na sociedade: nos bares, nas ruas, nos parques, nas
escolas, nos shoppings etc.
Sob o pretexto de pedir alguns ovos emprestados para um vizinho, a dupla arma uma
pequena confusão cuja progressão termina em sequestro. A família é, então, mantida
como refém, enquanto os dois rapazes resolvem “brincar” com eles.
A dúvida que paira é se o espectador é mais sádico que todos os roteiristas, diretores e suas
respectivas crias para o cinema de horror. Dúvida que cai por terra quando Haneke faz um
filme que toca na ferida do público. O próprio diretor dá pistas, ao mostrar a interação dos
assassinos com quem está assistindo o filme, na cena em que um “controle remoto
mágico” é usado e impede a chance de um final feliz. Sim, o espectador é sem dúvidas,
sádico.
Os diálogos entre os dois assassinos são bizarros, suas origens são secretas, em momento
algum é explicado de onde eles vieram, seus motivos e suas histórias são mentirosas. A
verdadeira natureza dos dois jovens é confundir e atropelar a essência do que é concreto e
tangível. Os personagens Peter e Paul apresentam personalidades psicopáticas,
apresentando distúrbio mental grave, o que caracteriza o desvio de caráter, a ausência de
sentimentos, a frieza, a insensibilidade aos sentimentos das vítimas, a manipulação no
“jogo”, o egocentrismo, a falta de remorso, além de serem calculistas em perceber o
ambiente e fazer das pessoas que encontram pelo caminho suas próximas vítimas,
eximindo-se de serem delatados.
A personagem Anne é afetada de forma assustadora pela situação e, mesmo que consiga
sobreviver, os traumas deixados por toda aquela brutalidade que presencia jamais serão
esquecidos. Seu cansaço ao perceber que nada pode fazer é arrasador. George, o pai de
família, ao ficar desde o começo impossibilitado de ajudar sua família, não consegue
esconder a culpa e a vergonha diante da sua esposa.
Paul e Peter são assassinos frios, a ponto de quase parecerem indefesos, como se realmente
não estivessem fazendo essas ações para deleite próprio, e como se não fossem eles os
maiores beneficiados por tudo isso.
Em resumo, o diretor criou um filme cruel tanto para os seus personagens quanto para a
realidade da sociedade pós-moderna. Sociedade que está presa em seus próprios filmes
sem fim, em que a morte não é encarada como algo estranho e distante, mas sim, cada vez
mais próxima, cada vez mais perto. É só uma questão de tempo até ficarmos no caminho
de gente como Peter e Paul.
A ausência de uma trilha sonora também tem o papel de fixar o espectador na poltrona,
diante do suspense, aguardando o momento do próximo susto.
Violência Gratuita é um daqueles títulos que atiça os ânimos de quem assiste, e provoca
reações extremadas de amor e ódio. O filme choca pela abordagem irônica, quase cínica,
da violência. O verdadeiro alvo do cineasta austríaco, contudo, não está na violência em si,
mas na representação cinematográfica dela, cuja escalada parece não ter fim,
especialmente nos filmes de Hollywood.
O diretor não comenta ou critica essa escalada da violência na sociedade. A tarefa a que o
diretor se propõe é mais sutil do que isso. O filme força o espectador a contemplar sua
própria condição de consumidor passivo e, como tal, é incentivador de verdadeiros
espetáculos de sangue.
Os “jogos divertidos” são iniciados de forma sutil: Peter, o líder da dupla de psicopatas,
fala com a câmera e dá piscadas ao espectador, lembrando-o, de vez em quando, de que
está vendo um filme e, pior do que isso, colocando-o na inusitada posição de cúmplice
passivo do ato de violência. As brincadeiras de Peter com a câmera faz cada espectador se
identificar, inconscientemente, como uma espécie de terceiro agressor.
No fundo, o desconforto é causado pela posição que a plateia ocupa na narrativa: está mais
próxima dos agressores, a quem condenam, do que das vítimas. Além disso, os
sequestradores estão convenientemente vestidos de branco, talvez uma referência aos
delinquentes juvenis de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick; a cor simboliza um ideal de
pureza e paz, divergente das personalidades psicopatas aqui analisadas. E eles encenam
uma peça macabra, na qual o espectador comprou um ingresso.
Os jogos de morte e assassinato propostos por Peter e Paul servem para provocar a
reflexão sobre porque o ser humano se satisfaz diante de cenas de terror como essas que
são assistidas nesse filme. Em uma análise crítica, é possível notar que os atos praticados
pelos jovens evidenciam um comportamento psicopata, que é levado ao extremo de
provocar sofrimento e angústia em suas vítimas. No entanto, a apologia do filme se
restringe a demonstrar a violência pela violência.
Outra manobra usada no filme é a de jamais mostrar atos violentos em si. Toda vez que
sangue é derramado, a câmera desvia o olhar, deixando a cargo de cada espectador
imaginar o que está acontecendo. A intensidade da violência, portanto, depende da carga
de imagens violentas presentes na memória de cada membro da plateia. Em outras
palavras: quanto mais filmes de violência e assassinatos o espectador já viu, mais brutal
parecerá o ataque contra aqueles personagens inocentes.
Como se não fosse suficiente, o diretor prepara uma brincadeira metalinguística que tem
por fim irritar moralmente ainda mais o espectador, derrubando radical e propositalmente
mais regras da narrativa clássica cinematográfica, como a regra da cronologia: mesmo
quando a narrativa é cronologicamente embaralhada, a lógica temporal é semelhante à
realidade, o que significa que não se pode mudar o passado. Essa regra é quebrada de
forma “mágica”, quando um controle remoto é usado por Peter para voltar alguns
segundos para que ele consiga tirar a arma das mãos de Anne, impedindo que ela mate
Paul. Outra regra quebrada é a da punição; quem comete atos de violência terá uma
punição, pode até demorar, mas quase nunca falha, e é geralmente violenta, numa
tradução visual do ditado “olho por olho, dente por dente”. Nesse caso, os psicopatas saem
impunes.
Violência Gratuita pode ser considerado um filme extremamente perturbador e tenso que
não convoca os telespectadores à reflexão de que os jovens com comportamentos
antissociais representam alto risco social, pois representam uma ameaça para a sociedade.
Acima de tudo, a reprodução técnica modifica a relação do público com a arte
cinematográfica, induzindo à manipulação sobre a ideia de psicopatia enquanto uma
doença, na qual o indivíduo pode ser qualquer pessoa do convívio do cotidiano.
Prova disso são os noticiários que constantemente derramam uma avalanche de fatos reais
de casos de mortes e de assassinatos consumados por pessoas tidas como normais. O caso
mais recente que ocorreu no Brasil foi de um rapaz que, no dia do casamento, após o
cerimonial, pôs fim a sua própria vida, de sua companheira e de um amigo. Em rede
nacional, tanto os familiares quanto amigos estavam chocados e perplexos diante tamanha
brutalidade sem uma explicação coerente.
A proposta do filme pode ser traduzida de duas formas: como perversa, na medida em que
obriga o espectador a contemplar sua própria cumplicidade no espetáculo de violência
promovido pelos heróis anabolizados de Hollywood, que matam e mutilam dezenas de
pessoas anônimas, sem mostrar que por trás de cada uma daquelas faces ensanguentadas
existe um passado, um código moral, uma vida; ou ousada, pois obriga à reflexão uma
plateia acostumada a assimilar os filmes – e sua lógica, muitas vezes desprovida de
qualquer senso de humanidade – como sorvete, sem jamais questionar o que existe de
ideologicamente repulsivo, ou pelo menos discutível, na carga de imagens que se consome
diariamente.
O filme em análise causa sentimento de repúdio, mas deixa clara a influência do cinema na
sociedade enquanto um instrumento de cultura de massa.
6.2 John Doe (Seven: os sete crimes capitais)
“Nós vemos um pecado capital em cada esquina… Em cada lar… E o toleramos. Porque é
algo comum. É trivial.”

John Doe - imagem do filme Seven: os sete crimes capitais (Seven, 1995, Direção de David
Fincher)
O filme Seven: os sete crimes capitais, demonstra que o cinema é uma poderosa indústria
de entretenimento, pois mesmo sendo um filme com cenas desagradáveis, opressivas e
angustiantes, conseguiu arrastar multidões às salas de cinemas em todo o mundo.
O filme tem como cenário uma metrópole violenta e caótica, em que dois policiais
investigam assassinatos cometidos por um serial killer inspirado nos sete pecados capitais:
gula, cobiça, preguiça, vaidade, luxúria, inveja e ira. O criminoso desafia a inteligência e
perspicácia dos policiais.
As cenas do filme não poupam os telespectadores da crueldade dos atos do assassino com
suas vítimas. O impacto dessa obra cinematográfica culmina com o questionamento do
criminoso: seriam as vítimas realmente inocentes? Elas não merecem a morte que tiveram?
Considerado como uma obra–prima cinematográfica, o filme Seven foca na banalização do
comportamento psicopata. A construção meticulosa de cada personagem retrata a
realidade de violência da sociedade pós-moderna. Contudo, dá eloquência e voz ao
assassino, fazendo prevalecer a ideia de que o comportamento antissocial pode ser
combatido com repressão policial.
Outro aspecto relevante que surge nas lentes da crítica é que o assassino serial killer John
Doe (nome usado na cultura norte-americana quando não se sabe a identidade de alguém,
semelhante a Fulano de Tal) aparece como um indivíduo aparentemente normal, dotado
de extrema inteligência, características que o fazem suprimir o respeito às normas sociais
e, principalmente, os direitos humanos.
Tais características o coloca próximo aos heróis do filme, que são os policiais e, de certa
forma, absolvem o assassino de seus crimes perante a sociedade.
Seven, embora apresente a imagem de uma típica sociedade violenta, por outro lado, reduz
o telespectador à impotência. O filme corrobora com a ideia de que o cinema é uma
indústria cultural, em que o telespectador é um mero objeto manipulado e ideologizado.
Nesse contexto o telespectador não é induzido à reflexão e nem a pensar, pois essa mesma
indústria cultural se encarrega de obscurecer sua percepção sobre os fatos reais.
No dia a dia, no convívio social permeado pela violência e pela insegurança generalizada,
as pessoas podem ser vítimas de serial killers como esse apresentado no filme em análise.
No entanto, o indivíduo é influenciado e condicionado pela cultura exposta nas telas do
cinema, como se esse tipo de serial killer, que planeja atrocidades com alto grau de
complexidade, fosse comum, e como se esses assassinos fossem exemplos reais da
psicopatia.
O filme mostra até que ponto o homem pode chegar quando cede completamente ao
pecado, sem a orientação de Deus em sua vida. É exatamente esse o foco central das ideias
do psicopata John Doe, fazendo a polícia investigar e pensar muito para tentar desvendar
seus crimes. Ele não deixa rastros, mas deixa pistas intencionais que somente um
investigador bastante perspicaz poderia decifrar.
John Doe escolhe a dedo alguém cujo estilo de vida seja regido por um pecado em especial,
e usa o tema desse pecado na própria execução do crime. Meticuloso, só deixa a polícia
saber o que ele quer que ela saiba. David Fincher, na direção do filme, mostra justamente o
lado obscuro da mente de um assassino serial que, do seu jeito estranho e mórbido, critica
as pessoas que se rendem ao pecado. Psicopata que é, John Doe mata uma pessoa por dia.
Nada em Seven é bonito ou agradável. O grotesco está em tudo: nos cenários gastos e sujos,
na iluminação insuficiente, na trilha sonora, no figurino, até a própria Los Angeles do
filme está longe do estereótipo de cidade ensolarada de outras produções, mais parecida
com os becos de alguns bairros de Nova York nos dias chuvosos. Tudo isso cria uma
atmosfera cáustica que incomoda, levando o espectador a entrar no “clima” mórbido ao
mesmo tempo em que tenta desvendar os crimes com a dupla de investigadores.
A psicopatia consiste na ausência de empatia para com as outras pessoas, chegando a
violar até mesmo as normas sociais, pois psicopatas não se importam com o próximo e o
que ele sente. Um psicopata, incapaz de sentir emoções, usa as pessoas para satisfazer suas
necessidades sem o menor arrependimento. Geralmente mostram-se charmosos e
carismáticos, até sedutores, mas é tudo puro fingimento para atrair as vítimas para as suas
armadilhas. E isso requer tempo, planejamento e competência para seguir os planos
traçados.
Nesse clima profundamente incômodo, a equipe do filme leva o público a pensar no lado
desagradável do pecado (no qual quase ninguém pensa antes de cometê-lo, só vendo a
parte que parece boa) e vão acontecendo, um a um, os crimes. John Doe deixa claro que
pesquisou muito e acompanhou os passos das vítimas em minúcias, para então perpetrar
seus assassinatos e, através de seu contexto, a sensação de que existe nessa ação uma certa
dose de racionalidade é incontestável no desdobramento da compreensão do filme.
Há uma sensação permeada no filme que causa estranheza: a de que, no meio do bizarro,
possa existir racionalidade. A sociedade pós-moderna não está acostumada a trabalhar
com um processo de racionalidade negativa em que a polarização da inversão da mesma
gera um processo de hipertrofia da razão, que ocorre em um quadro no qual a
racionalidade atingiu o seu ápice dentro do projeto iluminista do século XVIII.
O projeto da razão iluminista nasceu em um momento em que a sociedade estruturava-se
fora das imposições da Igreja durante a Idade Média. Esse projeto era associado à luz, e
seria contraposto às trevas; seria a tentativa da instauração de uma nova moralidade
humana, a expressão do processo de superação do estado primitivo do nosso
conhecimento e, por consequência, das superstições e mitos, com a instauração de uma
lógica na qual a teologia cederia espaço às novas ciências que despontavam no século
XVIII.
Essas novas ciências teriam, dentro do projeto iluminista, as condições para a expansão do
conhecimento do homem e de todas as suas potencialidades, e Seven vem ofuscar esse
processo, utilizando-se de mitos religiosos que perpassam o inconsciente coletivo da
sociedade pós-moderna.
Nesse contexto, é possível relacionar a relação psicótica do personagem John Doe à
própria hipertrofia da racionalidade, gerando uma situação de anomia, marcada pelo
resgate de uma racionalidade ética cristã através da punição dos sete pecados capitais em
uma mórbida sequência dos crimes cometidos, o que leva o público a refletir por onde
anda a razão.
Daí o surgimento das teorias de “culpas coletivas”, teorias que culpam todos os alemães
pelo Holocausto, ou mesmo toda a humanidade, teorias que querem, de certa forma, que
todos nós nos sintamos culpados até hoje, por tudo o que os nossos antepassados fizeram
de errado no passado.
O ponto focal de Seven não é exatamente o da culpa coletiva, mas o da possibilidade de
redenção. Novamente a crítica à pós-modernidade é feita através do prisma da religião,
que perpassa todo o filme. A analogia ao processo salvacionista ocorre via remissão pela
superação dos sete pecados capitais.
Quando os policiais têm acesso ao apartamento de John Doe e começam a desvendar seu
mundo, encontram uma série de cadernos nos quais o psicopata busca apreender todo o
conteúdo do mundo, descrevendo com detalhes o seu dia a dia. Essa compreensão da ação
individual do assassino se complementa na sua concepção de ação social, na qual ele se
autodenomina como um cumpridor das ordens de Deus para purificar o mundo através
do mito da Fênix (animal mitológico que renasce das cinzas), como diz a citação de Milton
encontrada em um dos cadernos: “o caminho do Paraíso é longo e doloroso”.
Em uma síntese psicótica, John Doe acredita libertar da condição do pecado os
emblemáticos protagonistas de sua racionalidade macabra, e usa o referencial teórico do
próprio século XX para situar esses protagonistas e, com a sua própria morte, transformá-
los.
6.3 Patrick Bateman (Psicopata Americano)
“Acho que minha máscara de sanidade está prestes a cair”

Patrick Bateman - imagem do filme Psicopata Americano (American Psycho, 2000, Direção
de Mary Harron)
O filme em análise, baseado no controverso romance de Bret Easton Ellis, considerado um
dos livros mais polêmicos dos EUA, explora a trajetória de um psicopata corporativo, que
é um jovem com estilo de vida yuppie da década de 80 nos EUA. O enredo revela a história
de um jovem, bonito e bem educado, que faz fortuna em Wall Street, e que também é um
serial killer.
O protagonista é obcecado com as coisas boas da vida. É extremamente invejoso quando
ele vê os outros com mais bens materiais do que ele. Sem remorso e sem culpa, ele mata
pessoas de maneiras inventivas e repugnantes. Ele odeia tudo e todos, independentemente
de credo, raça, religião etc, é vazio, competitivo e dependente das aparências, tão separado
dos outros quanto de si mesmo. É superficial e egocêntrico, que só tiraria alguma
existência real do ato de assassinar alguém. Esse é o perfil social e psicológico de Patrick
Bateman.
Patrick Bateman cativa o público por sua beleza física, sedução e astúcia ao manipular as
pessoas. Ele possui uma dupla personalidade. Em público, ele é charmoso, bonito e
misterioso. Em sua vida privada, ele apresenta comportamentos lunáticos. Sua dupla
personalidade se manifesta quando age insanamente ao se sentir ameaçado por amigos.
Morando sozinho em um apartamento de luxo e vestindo as melhores roupas, Bateman é
vaidoso ao extremo, e esse é o estilo de vida do seu círculo de amizades, sendo todos
formados nas melhores universidades e de respeitadas famílias. Sem esperar muitas
novidades em suas vidas, eles competem entre si de maneira infantilizada através de
pequenos luxos. Nessa competição acirrada, Bateman é um dos mais ativos, mentindo para
se sair melhor do que os outros.
Suas manias ficam evidentes quando o personagem é apresentado dentro do seu íntimo:
dentro de casa ele despreza a vida dos outros e se satisfaz com prazeres bizarros,
machucando garotas de programa durante festas particulares e praticando voyeurismo
com a vida alheia, até chegar ao ponto de descarregar sua fúria após uma humilhação,
assassinando um morador de rua. Após quebrar a barreira do homicídio, Bateman começa
a elaborar planos de assassinatos e tortura. Quando sai da vida pública e entra na vida
privada, começa a ter delírios, lembrando tudo o que aconteceu, inclusive seu desejo de
matar as pessoas com quem esteve naquele dia. Em uma boate ele diz alegremente para a
atendente que quer matá-la, mas pode ser que tenha dito apenas em seus pensamentos.
O próprio nome do filme, Psicopata Americano, anuncia que o enredo trata da questão de
uma patologia. No início do filme, Bateman fala sobre sua doença, e diz que não existe um
eu, somente um ente humano que ele mantém através de sua aparência. O personagem
também não tem sentimentos nem vínculos afetivos. Sua vida é uma mentira e ele sustenta
seu status com uma farsa teatral através de um falso self. O filme retrata a reafirmação do
indivíduo esvaziado. Reafirmação que é feita pelo crime, pela destruição dos outros, pela
crueldade sem sentido na qual a confissão final do protagonista não leva a uma catarse,
não há alívio e nem sinal de redenção pessoal.
Em seu local de trabalho, ele também representa o tempo todo uma das faces de sua dupla
personalidade. Como a empresa é de sua família, ele não trabalha e fica o tempo todo
ouvindo walkman, deixando claro o seu status de liderança.
O filme mostra os comportamentos psicopatas de um indivíduo aparentemente normal.
Podemos observar que todos nós temos os comportamentos e sentimentos de Bateman,
mas que esses sentimentos diferem em intensidade, pois, de uma forma ou de outra,
muitas pessoas pensam em ”acabar” com outra, em um momento de raiva ou inveja. Além
disso, o filme caracteriza o psicopata de uma forma diferente dos filmes padrões de serial
killers, apresentando um personagem comum, no cotidiano das grandes cidades e do
mundo corporativo, muitas vezes caracterizado apenas como um “executivo sem
escrúpulos”.
Esse perfil é muito comum na política, nas igrejas, no mercado financeiro. São charmosos,
eloquentes, contagiantes e seduzem seus clientes e seguidores, conseguindo atingir seus
objetivos de poder. Para uma pessoa se caracterizar como psicopata, não é necessária nem
uma gota de sangue, mas causar sofrimento físico, emocional, psicológico e/ou prejuízo
financeiro alheio também são passos comuns na obtenção desse poder.
O psicopata é narcisista, exagera sua importância e espera ser reconhecido à altura. Ele
vive fantasias de sucesso, poder e inteligência sem limite, ou amor ideal. Ele acha que é
especial e único, e que só pode se associar a pessoas tão ou mais especiais. Exige que o
admirem e espera irracionalmente ser tratado de forma favorável ou obedecido
automaticamente. Tira vantagem dos outros para atingir seus objetivos, reluta em se
identificar com sentimentos e necessidades alheios, vive com inveja dos outros ou acredita
ser alvo da inveja alheia, além de ter comportamentos e atitudes arrogantes e insolentes. O
que ele pensa? Eu sou especial.
6.4 Alice (Closer – Perto Demais)
“Olá estranho!”

Alice - imagem do filme Closer - Perto Demais (Closer, 2004, Direção de Mike Nichols)
A temática do filme Closer é a naturalização da psicopatia em relacionamentos amorosos.
O filme, baseado em uma peça teatral homônima escrita por Patrick Marber (que também
assina o roteiro da versão para o cinema) e dirigido por Mike Nichols, nos traz a história
de quatro pessoas e as relações que estabelecem entre si, ora como casais, ora como rivais.
E, tanto em papéis de casais como em papéis de rivais, as relações não deixam de serem
próximas, mas sem intimidade. Alice conhece Dan, que conhece Anna, que conhece Larry,
que conhece Alice. Ninguém está com ninguém, o que se tem são situações nas quais a
intimidade é colocada de lado.
Dan é um escritor em Londres, que quer terminar um romance, mas ao mesmo tempo se
sustenta escrevendo obituários. Um dia, ele conhece Alice, uma bela e jovem americana,
que trabalha como uma stripper. O encontro ocorre quando ela é atropelada por um carro.
Alice imediatamente se apaixona por Dan, e dá-lhe o seu amor sem reservas. Dan,
inicialmente, fica encantado com Alice, e retribui seu afeto, mas, enquanto ela o inspira a
escrever seu romance (baseado em sua vida), sua carência afetiva começa a aumentar.
Anna é uma fotógrafa contratada para tirar um retrato de Dan para a sobrecapa de seu
livro. Ele sente-se atraído e seduzido por ela. Alice é fotografada por Anna no dia em que
percebeu estar sendo deixada por Daniel. Ela decide abrir espaço para que ele busque
Anna. Mas Anna, através de maquinações de Dan, encontra-se com Larry, um
dermatologista, e se casa com ele.
Contudo, Dan não consegue esquecer Anna, e os dois tornam-se amantes. Porém, Dan se
frustra pelo fato de Anna estar relutante em deixar Larry para ficar com ele. Mas Larry usa
Alice como musa inspiradora para ganhar confiança em si mesmo quando vai atrás dela
em um clube de strip-tease e, assim, tenta reconquistar o amor de Anna.
Ao final, Alice está com Dan em um quarto de hotel e, de forma não verbal, deixa claro
que sua história juntos acabou ali. Desesperado e por dependência, ele tenta resgatar uma
paixão não alimentada, mas acaba sendo surpreendido com a decisão de Alice em ir
embora do país, voltando para os Estados Unidos e para a sua vida com mais uma história
para nutrir suas necessidades de autoafirmação e autoestima.
Essa é uma pequena sinopse de um enredo sobre a obsessão nos relacionamentos
amorosos como sendo normais. As personalidades dos personagens revelam sentimentos
maternais, de independência, de dependência, de paixão e conflito.
Muitas pessoas só conseguem entrar na intimidade da relação com o outro no que diz
respeito a sua parte boa, prazerosa. O gostar, nesses casos, só está presente enquanto é algo
novo e inusitado, enquanto representa algum desafio. A arte da conquista se tornou mais
importante do que o objeto conquistado.
Torna-se difícil estar com o outro, pois a consequência desse estar junto é a inevitável
intimidade em relação a si mesmo. Inevitável uma vez que o outro se torna também um
espelho, um reflexo nosso, de aspectos ordinários (comuns) e imperfeitos e, no mundo em
que a valorização está naquilo que é o mais bonito, o mais novo, o de última geração, as
partes que nos fazem seres humanos, as partes imperfeitas, não têm lugar.
Em todas as relações que se apresentam nos personagens do filme, pode-se observar que
existe a nítida intenção de dominação do outro, seja pela força, beleza, fragilidade ou ar
angelical. Essa produção cinematográfica coaduna com os objetivos da indústria cultural
de massa, ou seja, levar os telespectadores à crença de que, nos relacionamentos amorosos
da atualidade, as traições, incertezas e dúvidas são comuns e, como tais, devem ser tratados
com naturalidade.
No entanto, a narrativa do filme contradiz a realidade, pois, os personagens apresentam
comportamentos de pessoas com obsessões amorosas, com comportamentos compulsivos.
As compulsões são sinais de comprometimento psicológico e, sendo assim, é preciso
esclarecer que o compulsivo amoroso não se apaixona pelo outro, mas sim, pelo
significado que ele próprio dá ao outro. Dessa forma, cria-se uma imagem perfeita do ser
amado, na qual são suprimidos e desprezados os traços reais e negativos da personalidade
do outro.
Para a autora, o amor obsessivo é cultivado no campo da fantasia, na qual o obsessivo
passa a acreditar que, sem o outro, é impossível viver, tratando-se, portanto, de ideias fixas,
persecutórias, que atormentam a mente e dominam o amante de forma cruel, conforme se
observa no filme.
Quando vencemos nossos medos de contato interior e vínculo e, de forma mais ousada,
lançamos um olhar “perto demais”, dirigido ao nosso mundo subjetivo, o que se avizinha
pode chocar o observador mais incauto. Nessa trama, saltam aos olhos os mecanismos de
fuga quando os personagens fazem contato consigo mesmo e com o outro.
Consequentemente os danos aos vínculos consigo mesmo e com os vínculos interpessoais
são os mais dramáticos. Os quatro personagens, dois homens e duas mulheres, sofrem da
pior solidão possível, a ausência de si mesmo em suas próprias vidas. No lugar do self (eu
interior), cada um incorpora uma máscara, ou persona, com a qual passa a jogar o jogo da
vida. Nesse jogo, cada persona assume seus papel dentro do triângulo dramático.
Ao interpretarem papéis dentro de suas próprias vidas, os personagens recriam situações
dramáticas de dor e solidão. Assim perpetuam seus papeis de vítimas de si mesmos e dos
outros. O fato de recriarem situações conhecidas de dor e solidão os remetem a uma
tentativa atual de solução dos problemas recorrentes. Porém, o que ocorre no decorrer da
trama, é que cada um mergulha fundo em cada papel, indo às últimas consequências em
cada um deles. Terminam sendo tragados pelas personas que se fortalecem, matando em
golpes fatais o eu interior de cada um. A solidão a dois e a solidão pessoal dos personagens,
tendo como vitoriosas suas personas, é escancarada num final dramático e sem saída para
todos.
Alice é uma jovem dramática, que tem no sexo e na sedução sua arma defensiva e seu
pretenso controle contra o abandono e rejeição. Não aceita a fragilidade de suas defesas e,
para isso, adota a fuga. Ela “desaparece” quando se vê sem saída. Escolhe aleatoriamente o
personagem que irá substituir seu eu interior, num jogo sucessivo e sem saída. Em seu
papel de vítima, veste uma couraça de pessoa firme e direta, quando de fato sua expressão
e olhar denotam dor e angústia. Ao final, perpetua seu jogo de solidão, voltando para seu
país, recomeçando um novo jogo.
Os quatro personagens migram para seus papeis secundários em vários momentos. Porém,
acabam nos papeis de sua preferência. Todos perdem nesse jogo dramático, pois nenhum
logrou entrar em conexão com seu self. Esse salto qualitativo na vida de cada um foi
impossível, pois não conseguiram abandonar o conhecido. Agarraram-se dramaticamente
nos seus condicionamentos e vícios internos. Assim, a libertação interior passou bem ao
largo para cada um dos personagens.
Atendimento e recuperação - Atendimento a obsessivos amorosos tem se tornado cada
vez mais comum nos consultórios, e tal sentimento merece toda a atenção ao primeiro
sinal. O obsessivo amoroso “destrói” a pessoa real, mesmo sendo em aspecto simbólico,
pois o obsessivo desconsidera a vontade própria do amado, e muitas vezes chega a pensar:
“ou ela é minha (meu), ou não é de ninguém”. Assim, é totalmente desconsidera a
individualidade do outro, os desejos do outro e passa-se a constituir, em seguida, uma
linha de raciocínio bastante perigosa.
Essa linha de raciocínio está à margem da patologia. É nesse momento que se instaura
pensamentos doentios que podem levar a atitudes extremas como, por exemplo, os crimes
passionais.
No entanto, é possível sim se recuperar de uma paixão obsessiva. Com frequência é
possível se deparar com pessoas que buscam atendimento psicológico por já terem sofrido
desse mal. O processo terapêutico possibilita aos obsessivos a elaboração desses
sentimentos tão agressivos e, depois de um tempo, aqueles que sofreram desse sentimento
podem se perguntar: “meu Deus, como eu pude amar tanto esta pessoa?”.
Quando isso acontece, há o questionamento: “de fato, quantas pessoas você amou assim?”.
O que se percebe é que tal resposta é surpreendente, na qual os obsessivos passam a
enxergar relacionamentos anteriores que já anunciavam tal obsessão.
Quando se percebe isso em análise, é hora de afirmar ao obsessivo que esse é um problema
dele, uma tendência dele ao se relacionar, relacionamento em que age como egoísta, em
que ele não se importa com a outra pessoa, mas sim, com a satisfação dos seus desejos.
6.5 Peyton Flanders (A mão que Balança o Berço)
“As mãos que balançam o berço são aquelas que governam o mundo”

Peyton Flanders - imagem do filme A mão que Balança o Berço (The Hand That Rocks the
Cradle, 1992, Direção de Curtis Hanson)
A Mão que Balança o Berço é uma produção cinematográfica americana de 1992 que tem
como protagonista uma babá, Peyton Flanders.
Claire e Michael formam um casal com um bebê recém-nascido e procuram uma babá
para ficar o dia todo com a criança. Depois de procurarem muito, encontram Peyton, que
parece ter o perfil ideal, pois é uma mulher elegante e muito educada. Quando começa a
cuidar do bebê, Peyton toma conta dele como se fosse seu e, aos poucos, cativa a filha mais
velha do casal.
Depois, a babá começa a apresentar comportamentos patológicos, parece querer assumir o
lugar da mãe das crianças. Claire fica assustada e resolve investigar a vida da babá. Ao
investigar, descobre que Peyton é uma pessoa perigosa, pois se ofereceu para trabalhar
como babá para se vingar da morte de seu marido.
A babá, cujo nome é falso, era mulher de um médico ginecologista que, no passado, após
ter sido denunciado por Claire e mais quatro mulheres por molestá-las, foi condenado e se
suicidou. Peyton, que estava grávida, perdeu seu bebê.
A viúva passa então a aterrorizar a família, tentando seduzir Michael e provocando a
destruição de Claire, para que Claire passe pela experiência que Peyton sentiu quando ela
perdeu seu marido e seu tão sonhado bebê. A Mão que Balança o Berço é considerado um
filme com grande conteúdo psicológico, pois lança o olhar para o ódio e a vingança
obsessiva de uma mulher.
O senso primitivo do justo - notadamente constante desde as diversas culturas antigas até
as instituições modernas - começa com a noção de que a vida humana é vulnerável, que
pode ser invadida, ferida, violada de diversas maneiras pelas ações de outros. Para evitar
essa penetração, a única cura que parece apropriada é a contrainvasão, igualmente
deliberada, igualmente grave. E para equilibrar a balança, verdadeiramente, a retribuição
deve ser exatamente, estritamente proporcional à violação original. Ela difere da ação
original apenas na sequência temporal e no fato de que é a sua resposta em vez da ação
original - um fato frequentemente obscurecido se há uma longa sequência de ações e
contra-ações.
O que mobilizou a inserção de Peyton naquela família foi uma perda, uma frustração.
Então, sucessivamente, Peyton separou Claire do marido e do filho, dois objetos capazes
de preencher sua falta.
A personagem é caracterizada pela inteligência, utilizando algumas artimanhas. Ela era
agradável, apesar de aterrorizar quem pudesse entrar no seu caminho. Aproveitou a fase de
amamentação do bebê de Claire para cortar a ligação dele com a sua verdadeira mãe,
oferecendo seu próprio peito para o bebê, não elaborando o luto pela perda de seu próprio
filho, mas sim vivenciando uma fantasia. Agindo de forma doce, atraiu Michael e a filha
mais velha do casal, tudo com o objetivo de manter Claire sozinha, pois ninguém
acreditava na hipótese de que Peyton estava agindo de forma dissimulada, mas sim, que
existia ciúmes em relação à babá que, obcecada pela vingança, estava disposta a tudo para
ocupar o lugar da matriarca na família. Além disso, era muito bela, o que ajudou a se
aproximar de Michael.
A vingança pode ser desaprovada, vista como uma ação moralmente pobre, coberta por
superficialidades sobre o ato de viver bem. Mas a necessidade de se vingar é algo que a
humanidade conhece desde seus primórdios. Seja pela ciência ou pela religião, a vingança
é um sentimento historicamente reconhecido na sociedade.
Atos de vingança pessoal refletem um senso biológico de justiça, orgânico como o apetite.
Alternadamente voraz e administrável, a vingança pode inspirar atos socialmente
benéficos de retaliação e punição, bem como atos negativos.
A melhor forma de entender a vingança não é como uma doença, falha moral ou crime,
mas como um comportamento profundamente humano e, algumas vezes, muito
funcional. A vingança pode ser um bom impedimento para o comportamento ruim, e traz
sentimentos de totalidade e preenchimento.
Atos de retaliação ajudam a manter as pessoas nos eixos quando não há leis formais ou
imposições. Segundo Joseph Henrich, um antropólogo da Universidade de Emory, em
Atlanta, pesquisas recentes mostram que comunidades estáveis dependem de pessoas que
têm “um gosto intrínseco por punir outros que violam as normas da comunidade”.
Apesar da vingança ser considerada um sentimento comum e presente em todos os seres
humanos, a obsessão pela vingança representa um transtorno e, em uma psicopata que
tem como objetivo construir a família ideal e é impedida, a vingança se torna a motivação
necessária para buscar suprir esse desejo, mesmo que passe por cima da felicidade de
outras famílias.
“Balançar o berço” pressupõe uma função de poder. O que não está explícito no filme é a
sua condição faltante: a inveja do falo do outro. Nesse contexto, o falo representa, para
Peyton, o que era faltante em si, falta que lhe causava angústia. Assim, buscava no outro o
que fosse capaz de suprir o desejo negado, e Claire possuía família, marido, crianças, o que
era faltante em Peyton.
Para a babá, o balançar a retiraria de uma condição faltante para outra na qual seria
possível governar e manipular o desejo do outro, um lugar de domínio. Balançar o berço
era o meio de possuir um objeto faltante. Era proporcionar, por meio da linguagem,
conflitos naquela família - conflitos criados para retirar o falo de Claire. Uma mera
inserção levaria aqueles sujeitos a um questionamento de seus papéis, quanto a quem
eram, ao valor relativo ao outro e ao deslocamento e desconhecimento das verdades de si,
que conduzem a psicanálise a desvendar ao sujeito a verdade de seu desejo, desconhecida
de si.
O intuito de Peyton não era transgredir as normas sociais, mas essas normas seriam
burladas conforme a necessidade, justamente devido a sua personalidade psicopata. O
objetivo era obter o falo, conquistar uma posição de poder que, ao seu ver, foi tirada por
Claire. O que esse filme aconselha é: cuidado com o desconhecido, pois aquele que entra
em sua casa poderá vir a governá-la.
6.6 John Kramer/Jigsaw (Jogos Mortais)
“Muitas pessoas são ingratas por estarem vivas… mas você não… não mais… Game Over”

John Kramer/Jigsaw - imagem da série Jogos Mortais (Primeira aparição: Saw, 2004,
Direção de James Wan)
Jogos Mortais é classificado popularmente como uma série de filmes de terror, com sete
produções, tendo sua primeira versão lançada em 2004 nos EUA. As séries do filme
narram as ações brutais de John Kramer, um serial killer conhecido como Jigsaw que cria
armadilhas mortais para as suas vítimas. Há um critério para a seleção das vítimas: sempre
são pessoas que cometeram algum crime, que fazem, ou fizeram alguma coisa de ruim a
alguém.
O filme, com cenas de horror, mostra as vítimas em situações de pânico, lutando para
sobreviver. A ideia central do filme é que essas pessoas são colocadas em um jogo mortal
em que as vítimas podem escolher se querem viver ou morrer. Caso escolham viver, terão
que sofrer e, com isso, pagarão por seus erros e darão valor as suas próprias vidas.
Jigsaw não aceita ser intitulado como assassino: ele não consegue ver nada de errado em
seu próprio comportamento, justamente por jamais ter diretamente matado alguém.
Porém, arquiteta armadilhas nas quais suas vítimas são incapazes de fugir antes de
cumprirem o objetivo do jogo. Ele recebeu o apelido de Jigsaw por deixar uma marca em
suas vítimas: ele retirava um pedaço de pele no formato de uma peça de quebra cabeças
(jigsaw, em inglês), o que indicaria que faltava algo naquela pessoa. Ele explica seus jogos
como um tipo de reabilitação, na qual força suas vítimas a encarar a morte fazendo-as
valorizar suas próprias vidas.
As vítimas, quando conscientes de que suas próprias vidas estão em suas mãos, e não na de
outras, como geralmente é acreditado, precisam se sacrificar para sobreviver. Isso nos leva
a considerar que o filme mostra o homem em seu estado natural, de sobrevivência, no qual
para sobreviver esquece a moral e a ética e não pensa duas vezes antes de agredir o outro.
John é um engenheiro tranquilo, metódico e organizado, casado com Jill. Foi capaz de
calcular com exatidão a data ideal para que seu filho nascesse, porém, sua esposa foi vítima
de um assalto no centro de reabilitação para drogados onde trabalhava e acabou abortando
o esperado bebê. Diante desse trauma e da notícia de que estava com câncer, John tentou o
suicídio e, sem sucesso, percebeu que sua missão era a de ensinar às pessoas a darem valor
as suas próprias vidas. Iniciou então seus jogos com o próprio viciado que causou a morte
de seu filho, indicando a sua baixa tolerância à frustração.
Ele antagoniza a figura do Messias: John não salva as pessoas, mas mostra o caminho da
salvação, porém não o faz através do distante caminho da idealização do homem perfeito,
mas por meio do medo real e da sobrevivência.
O engenheiro tornou seus jogos uma obsessão narcísica na qual buscava ensinar e
modificar “pecadores”, sendo eles drogados, obesos, prostitutas, arrogantes, mentirosos,
adúlteras, racistas, entre outros. Através do seu alto poder de persuasão e da fragilidade de
suas vítimas após o trauma de conseguirem sobreviver aos jogos, ele conseguia atrair
discípulos que pudessem continuar o seu legado. Porém, apesar de sua grande capacidade
em reconhecer um pupilo em potencial, também dava margem a psicopatas que podiam
agir sob sua tutela, assassinando pessoas por meio de armadilhas sem saída, algo que
Jigsaw abominava, pois não era o objetivo de seus jogos. Armadilhas sem escapatória não
dariam a chance das pessoas aprenderem a valorizar a vida com aquela experiência.
Os próprios sociopatas se descrevem como “predadores” e sentem orgulho disso. O
psicopata é incapaz de aprender com a punição ou de modificar seu comportamento.
Quando descobre que seu comportamento foi identificado, o psicopata reage, escondendo
muito bem esse seu “lado negro”, mas nunca muda sua índole, disfarça de forma
inteligente as suas características de personalidade, e isso ocorreu com dois de seus
discípulos, Amanda e Hoffman. Porém, antes de morrer, Jigsaw percebeu o erro cometido
ao confiar neles e acabou organizando jogos para ambos, com a ajuda do seu mais fiel
comparsa, o médico Lawrence Gordon.
Existe também uma relação especial entre os personagens Jigsaw e Amanda. Amanda,
discípula de Jigsaw, era uma jovem ex-drogada, que após ter conseguido concluir as provas
do psicopata, conquistou sua admiração por lutar por sua vida e passou a trabalhar como
sua cúmplice, dando continuidade a sua série de matanças. Ela se torna uma sobrevivente
assassina, assim como o detetive Hoffman e o médico Lawrence, revelado no final da saga
como primeiro sobrevivente e discípulo de Jigsaw. Lawrence fecha o ciclo de provações
bizarras iniciado pelo psicopata John, obcecado em ensinar o valor da vida às pessoas.
Essa relação entre Jigsaw e Amanda é baseada na Síndrome de Estocolmo. Essa síndrome é
um estado psicológico particular desenvolvido por algumas pessoas que são vítimas de
sequestro. A síndrome se desenvolve a partir de tentativas da vítima de se identificar com
seu captor ou de conquistar a simpatia do sequestrador. Pode ser também chamado assim
uma série de doenças psicológicas aleatórias.
Por meio da Síndrome de Estocolmo, as vítimas identificam-se emocionalmente com os
sequestradores, a princípio como mecanismo de defesa, por medo de retaliação ou
violência. Pequenos atos gentis por parte dos captores são frequentemente amplificados
porque, do ponto de vista do refém, é muito difícil, senão impossível, ter uma visão clara
da realidade nessas circunstâncias e conseguir mensurar o perigo real. As tentativas de
libertação, são, por esse motivo, vistas como uma ameaça, porque o refém pode correr o
risco de ser magoado. É importante notar que os sintomas são consequência de um stress
físico e emocional extremo. O complexo e dúbio comportamento de afetividade e ódio
simultâneo junto aos captores é considerado uma estratégia de sobrevivência por parte das
vítimas.
É importante observar que o processo da síndrome ocorre sem que a vítima tenha
consciência disso. A mente fabrica uma estratégia ilusória para proteger a psique da
vítima.
A identificação afetiva e emocional com o sequestrador acontece para proporcionar
afastamento emocional da realidade perigosa e violenta na qual a pessoa está sendo
submetida. Entretanto, a vítima não se torna totalmente alheia a sua própria situação,
parte de sua mente conserva-se alerta ao perigo, e é isso que faz com que a maioria das
vítimas tente escapar do sequestrador em algum momento, mesmo em casos de cativeiro
prolongado.
Não são todas as vítimas que desenvolvem traumas após o término da situação, e a
síndrome pode se desenvolver em vítimas de sequestro, em cenários de guerra,
sobreviventes de campos de concentração, pessoas que são submetidas à prisão domiciliar
por familiares e também em vítimas de abusos pessoais, como mulheres e crianças
submetidas a violência doméstica e familiar. É comum também no caso de violência
doméstica e familiar em que a mulher é agredida pelo marido e continua a amá-lo e
defendê-lo como se as agressões fossem normais.
Mesmo sendo uma obra cinematográfica que apela para o suspense com altas doses de
ansiedade, numa narrativa que culmina em cenas de violência explícita e na morte de seres
humanos, Jogos Mortais influencia a formação cultural da sociedade.
As mortes, que são orquestradas por um psicopata, contêm um forte apelo: a de que o ser
humano deve pagar pelos erros que comete. Isso leva o expectador a criar uma identidade
cultural de que o ser humano é responsável por seus atos.
O que se vê na tela é o reflexo da realidade, pois todo ser humano é passível de cometer
erros. No entanto, o cinema enquanto cultura de massa pode provocar mudanças na
percepção das pessoas sobre comportamentos psicopatas, uma vez que, neste filme, as
armadilhas mortais criadas pelo serial killer e o sofrimento das vítimas anulam na mente
dos expectadores o fato de que promover a morte de seres semelhantes, além de ser uma
brutalidade com muitos requintes de crueldade, é uma afronta aos direitos humanos.
Além disso, o filme em análise distorce o verdadeiro sentido do que é um serial killer e dos
riscos que ele oferece para a sociedade. A banalização da morte, assim como do
comportamento psicopata, apresentam uma ideologia que ajuda na propagação de uma
perspectiva cultural errônea sobre o real impacto de psicopatia para a sociedade.
A representação cinematográfica da psicopatia, por meio do filme Jogos Mortais, acaba
influenciando o cotidiano das pessoas porque introduz uma ideia de que o
comportamento de perseguição e morte só existe no imaginário, nas telas do cinema.
Pelo contrário, pessoas com comportamentos psicopatas muitas vezes podem conviver em
locais familiares, nas ruas das cidades, nos ambientes de trabalhos, nos shopping centers.
Cinema e cultura de massa andam de mãos dadas para promover a alienação das pessoas,
pois os filmes não apresentam uma visão crítica sobre a realidade. O medo e o suspense
que aterrorizam os expectadores deveriam ter como único objetivo alertar as pessoas de
que um serial killer como o protagonista de Jogos Mortais pode estar próximo ao convívio
de cada um de nós, além de apresentar um outro lado da existência humana, seus conflitos
externos e internos e a questão da brevidade existencial e da importância dos nossos atos
do dia a dia, que mostram como todos estão interligados e necessitam uns dos outros para
sobreviver.
Todas essas “lições” são apresentadas por Jigsaw nos filmes da série, seja a necessidade do
outro, o perdão, a atenção dada a um ente querido, a redenção dos pecadores. Enquanto
vários espectadores assistem pela violência dos litros de sangue derramados,
descarregando assim a violência contida em si como ser humano, o filme traz uma razão
maior a ser compreendida, abordando o tema da vida e da morte como algo além da
simples existência ou extinção da vida, nos levando a questionar o valor real da vida, o
sentido real da morte e acima de tudo a responsabilidade por nossas escolhas.
Jigsaw é um dos maiores ícones da psicopatia no cinema, porém, também um dos maiores
representantes da distorção dessa patologia para o senso comum, pois quando a sociedade
pós-moderna é questionada sobre o que acredita ser um psicopata, logo são apontadas as
características de Jigsaw, um serial killer extremamente inteligente. Isso nos deixa passíveis
dos golpes mais comuns, como de estelionatários que ligam para nossas casas fingindo
serem seus filhos acidentados, e presentes ao nosso redor, como o vizinho que tortura seu
próprio cachorro. Estas pessoas sim, são os verdadeiros psicopatas do cotidiano pós-
moderno.
Jigsaw é também paranoide. Ele acha que é enganado, mesmo sem provas, e está sempre
preocupado com a lealdade de seus comparsas, tanto que os coloca em seus jogos para que
provem essa lealdade.
Guarda rancores persistentes, o que resulta também em seus jogos macabros, nos quais vê
suas vítimas como algozes e, ao mesmo tempo, libertadores de si mesmos e das pessoas
que devem assassinar durante suas provas fatais.
O que ele pensa: as pessoas são perigosas, principalmente para elas mesmas.
6.7 Hannibal Lecter (O Silêncio dos Inocentes)
“As cicatrizes nos ajudam a lembrar que o passado foi real”

Hannibal Lecter - imagem do filme O Silêncio dos Inocentes (Silence of the Lambs, 1991,
Direção de Jonathan Demme)
O Silêncio dos Inocentes apresenta ao público Hannibal Lecter, um dos mais vangloriados
serial killers de todos os tempos da indústria cinematográfica. A história é inspirada em
fatos reais de psicopatia como os de Albert Fish e Ed Gein. A produção do filme ganhou o
Oscar em 1992.
Para retratar Hannibal, apenas esse filme não seria o bastante, por isso, foram analisados
todos os filmes relacionados ao personagem, assim como os livros e artigos, e, a partir
dessa compilação, seu perfil foi traçado. O Silêncio dos Inocentes está aqui apenas para
retratar o personagem em uma trama específica.
O enredo narra a história de uma jovem estagiária do FBI que tem como missão desvendar
assassinatos em série. Para desvendar os crimes e compreender a mente do assassino, ela
vai até o manicômio onde Lecter, um psiquiatra extremamente inteligente, está em cárcere
isolado, pois é um maníaco que pratica canibalismo com suas vítimas.
A visita a Lecter significava a busca de respostas para ajudar a traçar o perfil psicológico de
outro psicopata. Dessa forma, o filme apresenta o psicopata Lecter como um ser dotado de
altas habilidades, com inteligência brilhante, capaz de manipular a mente das pessoas.
Starling se sente seduzida por tal habilidade e busca ganhar sua confiança para obter
informações.
Ele respeita a inteligência de Clarice Starling, e se intriga com a sua ambição e
feminilidade. Ele aceita ajudá-la em troca de suas memórias. Sua relação se torna
distorcida e complexa,com sentimentos de estudante e mentor, pai e filha, marido e
mulher. Até o final de O Silêncio dos Inocentes, os dois personagens tiveram um profundo
impacto um sobre o outro.
A teatralidade das cenas de canibalismo não impedem que o psicopata Lecter seja
admirado pelos telespectadores. O sentimento de repulsa nasce diante das cenas de horror,
que são realizadas com grandes recursos técnicos.
Numa perspectiva crítica, observa-se que o psicopata Lecter é um mal social, pois, é
tratado como um animal, e que deve ser evitado qualquer contato humano com ele.
Enquanto psicopata, não tem capacidade biopsicológica para ter empatia pelo sofrimento
alheio. Mesmo assim, ele encanta os espectadores por possuir talento para manipular a
mente humana.
Assim Lecter é visto como herói, o psiquiatra brilhante, e também como anti-herói, o
serial killer monstruoso. A empatia dos telespectadores por ele pode ser justificada pela
metáfora da doença mental associada à genialidade. O ator dá vida a esse personagem com
o fascínio e a complexidade que exige a trama. Para atrair suas vítimas, ele precisa ser
sedutor e charmoso.
Dr. Shilton, que é um psiquiatra, se apresenta como um profissional frio, que trata Lecter
como um animal. Na trama, ele é visto como alguém de inteligência medíocre. Isso faz o
público ter maior identificação com as características sedutoras de Lecter.
Em O Silêncio do Inocentes, verifica-se que a psicopatia é retratada de modo estereotipado,
como algo aterrorizante, uma condição terrível que o próprio Lecter chega a confessar ao
se referir ao assassino que Starling procura. No filme, essa doença mental é ampliada e
distorcida, pois, em determinado momento, Starling indaga se Lecter se considera um
vampiro.
Pode-se dizer que os serial killers existem no inconsciente coletivo, pois, segundo Freud, o
primeiro herói foi um assassino como consequência do assassinato do pai em uma tribo
primitiva. Segundo um dos mitos fundadores da teoria psicanalítica, nos primórdios da
humanidade, os agrupamentos humanos eram dominados por um pai que detinha o poder
de vida e de morte, excluindo seus filhos das possibilidades de gozo da tribo, como
mulheres e alimento. Assim, os filhos se uniram para matá-lo, e o comeram. Mas o pai,
uma vez morto, e através da culpa, tomou uma envergadura na lembrança dos filhos que o
tornou mais poderoso do que poderia ter sido quando vivo.
No filme Hannibal: A Origem do mal, é possível ver a infância do mais consagrado
psicopata da história do cinema e “humanizá-lo”, ao permitir a compreensão de sua mente
através do seu trauma ao ver a irmã sendo morta por um grupo de homens para, depois,
ser usada como alimento para que não morressem no inverno russo em plena Segunda
Guerra Mundial.
É na primeira infância que é estruturado todo o corpo psíquico do sujeito. Dali que
surgem os autistas, psicóticos, perversos, neuróticos etc. A origem de Hannibal não é má,
mas o acontecimento que lhe traumatizou, sim. Ele vem de uma família bem composta,
amorosa, porém entre seus 8 anos, é raptado junto com sua irmã e presencia o
canibalismo. Tendo ele mais de 7 anos, todo o arsenal psíquico já se encontra formado ou
está quase formado, e mesmo que o trauma seja um motivo muito forte, ele já apresentava
uma predisposição ao transtorno de conduta, mais tarde recebendo o diagnóstico de
psicopata.
Hannibal se tornou um justiceiro, tal como Batman, que presenciou a morte de seus pais e
declarou guerra aos inimigos de Gotham City. Mas, diante do que é visto em O Silêncio dos
Inocentes e em O Dragão Vermelho, sua imagem de justiceiro não condiz com sua
verdadeira origem, pois ele não é um herói. Mas, a indústria hollywoodiana se apegou na
ideia de Guerra nas Estrelas, que humanizou o maior vilão do cinema, Darth Vader, ao
colocá-lo como uma criança que amava sua mãe e, assim, traz a ideia de que, independente
da atrocidade que um ser humano é capaz de cometer, devemos analisar seu passado, pois
não é possível que a maldade seja feita apenas por prazer. Essa não é a realidade da
patologia, pois a maior característica do psicopata é justamente a falta de sentimentos.
6.8 Lord Voldemort (Harry Potter)
“Não existe o bem e o mal. Somente o poder, e aqueles que são muito fracos para possuí-
lo”

Lord Voldemort - imagem da série Harry Potter (Primeira aparição: Harry Potter and the
Philosopher’s Stone, 2001, Direção de Chris Columbus)
Lord Voldemort é o foco da análise dos filmes de Harry Potter, em todas as histórias de
Harry, um garoto feiticeiro, criado por seus tios, pois seus pais foram assassinados pelo
vilão quando ele ainda era bebê.
A saga de Lord Voldemort, nas narrativas dos filmes, chama a atenção para a
representação da psicopatia num ambiente envolto de magia e feitiçaria. Lord Voldemort é
o principal antagonista da série Harry Potter, livros escritos pela autora britânica JK
Rowling. Nessa série, ele aparece como o Lorde das Trevas, que assassinou os pais de
Harry, James e Lily. Mas, como resultado do amor da mãe de Harry e a disposição de
sacrificar-se por ele, o bebê Harry sobrevive quando Voldemort tenta assassiná-lo com
uma Maldição da Morte. A tentativa fracassada de assassinato torna Voldemort em um
desencarnado, e Harry leva uma cicatriz na testa misteriosa como resultado.
Voldemort tenta sem sucesso recuperar seu corpo dissolvido através de uma magia negra
presente em sete horcruxes criadas por si próprio quando vivo, e através do seu
renascimento na metade da saga, ele se fortalece e se protege até o confronto final com
Harry Potter.
Voldemort é o arqui-inimigo de Harry Potter, que segundo uma profecia, só ele tem o
poder de vencer o Lorde das Trevas. Voldemort também é obcecado com a pureza de
sangue, uma característica dos bruxos, e isso significa que seu objetivo é livrar o mundo
bruxo de trouxas (pessoas que não são seres mágicos) e conquistar ambos os mundos,
bruxo e trouxa, para alcançar a sua dominância puro-sangue.
Ele apresenta comportamentos psicopáticos, pois apresenta desvios de caráter, desvios que
desencadeiam comportamentos antissociais. Esses desvios de caráter se estruturam desde a
infância, como foi o caso de Voldemort, de acordo com a narrativa da história.
A psicopatia é um transtorno que tende a se tornar crônico e causar prejuízos na vida do
próprio indivíduo e de quem convive com ele e, até mesmo, na sociedade. Por fazer parte
dos transtornos de personalidade, a psicopatia só pode ser diagnosticada a partir dos
dezoito anos de idade. É importante ressaltar que os transtornos de personalidade não são
propriamente doenças, mas anormalidades do desenvolvimento psicológico que
perturbam a integração psíquica de forma persistente e ocasionam no indivíduo padrões
profundamente entranhados, inflexíveis e mal ajustados, tanto em relação a seus
relacionamentos, quanto à percepção do ambiente e de si mesmos. Como um psicopata
fictício, Lord Voldemort leva ao público a ideia que de que a psicopatia é um
comportamento que está fora do círculo de convivência comum das pessoas.
Através da família de sua mãe, Voldemort é o último descendente de Salazar Slytherin, um
dos quatro fundadores da Escola Hogwarts de Magia e Bruxaria. Historicamente, o vilão
nasceu em um orfanato, em meados da Segunda Guerra Mundial. Sua mãe logo o
abandonou e ela acabou falecendo na miséria, enlouquecida pelo abandono de seu grande
amor, um trouxa (não-bruxo) que seu irmão e seu pai não aceitavam e que só ficou com
ela depois de um encantamento da poção do amor. O rapaz ficou anos sob o efeito do
encantamento. Mas quando a mãe de Voldemort resolveu parar de produzir a poção, pois
achava que com um filho, seu amado ficaria com ela por livre vontade, o rapaz fugiu e a
abandonou.
Algumas semelhanças entre Voldemort e Adolf Hitler também chamam a atenção, pois
ambos criaram suas marcas, uma conhecida como marca–negra no mundo da magia e a
outra como suástica na realidade. Ambos buscavam o genocídio para realizar seus
massacres, justificados pela pureza do sangue, porém, um era descendente de sangue-ruim
e o outro de judeus, ou seja, das próprias vítimas que perseguiam; ambos também
formaram sua guarda pessoal, sendo de um lado os comensais da morte e, do outro, as
tropas nazistas.
Voldemort é considerado um dos vilões mais macabros do cinema na atualidade. Isso faz
com que a representação da sociopatia, ou psicopatia, seja entendida nas telas do cinema
como algo sobrenatural.
A psicopatia é um transtorno mental e de comportamento, de acordo com o CID-10, no
qual os indivíduos apresentam uma perturbação grave da constituição caracterológica e
das tendências comportamentais antissociais.
Os comportamentos de Lord Valdemort nos filmes de Harry Potter podem ser mais
associados às pessoas maldosas do que a pessoas psicopatas propriamente ditas. Nesse
sentido, observa-se a influência cultural do cinema no cotidiano das pessoas.
A lendária história do menino feiticeiro, que arrastou multidões ao cinema, imputa ao
bruxo Lord Voldemort a ideia de mal. Mas mesmo que os comportamentos e ações de
Voldemort sejam assustadores, não se atribui a ele as anomalias de desenvolvimento
psíquico, ou como sendo uma pessoa com doença mental, com transtornos específicos de
personalidade.
Como a psicopatia é um estado mental patológico no qual o indivíduo apresenta
comportamentos agressivos, Lord Voldemort pode ser considerado um psicopata. No
entanto, na versão cinematográfica, o que se vê é a imagem de um vilão poderoso que quer
dominar a todos.
Em suas aparições, o bruxo pratica inúmeros atos que em nossa sociedade são
considerados antissociais. A impulsividade, o egocentrismo patológico ou ainda a
incapacidade de sentir amor ou afeição tornam Lord Voldemort não apenas o maior vilão
dos cinemas, mas um representante genuíno da psicopatia, uma vez que na vida real ela
pode assumir proporções tão poderosas e devastadoras quanto as que são testemunhadas
nos filmes de Harry Potter.
6.9 Mark Whitecre (O desinformante)
“Alguém sempre aparece com um casaco quente… para os velhos, e uma carne assada
caseira.”

Mark Whitacre - imagem do filme O Desinformante (The Informant!, 2009, Direção de


Steven Soderbergh)
O filme O Desinformante é uma narrativa cômica e, ao mesmo tempo, dramática, sobre a
corrupção no mundo corporativo, adaptado do livro do jornalista Kurt Eichwlad. É
baseado em fatos reais.
O dinheiro faz o mundo girar na trama dos personagens, assim como ocorre na vida real.
As notas são os mestres do nosso universo, ou seja, a minoria que detém o poder
econômico controla e distorce os mercados mundiais. Corrupção e ganância na sociedade
capitalista dão o tom à narrativa.
A insistência em apresentar a corrupção como uma tragédia coletiva, e não como outro
crime de colarinho branco, é que dá força, ressonância e sentimento ao filme. Em face de
tal corrupção, talvez o riso poderá amenizar tal situação, da qual, na verdade, todos fazem
parte na vida real.
Com poucas exceções, as histórias sobre corporações em filmes têm de ser comédias, tendo
uma história fora da vida rotineira, às vezes com uma farsa exagerada ou conspiração.
O Desinformante é um filme que não tem personagens simpáticos para vibrar por eles.
Cada organização e personagem agem com cinismo, tanto os funcionários do
Departamento de Justiça para o FBI quanto os executivos da empresa. A história deixa o
público sem um herói e uma visão negativa da América corporativa que compromete a
natureza da justiça.
O protagonista do filme é Mark Whitacre, gerente em uma grande corporação da
agroindústria nos EUA. Ele é informante do FBI, numa ampla investigação sobre fixação
de preços no mercado internacional. Os comportamentos de Mark durante o filme
demonstram que ele quer subir na empresa, que ele mesmo está ajudando a destruir.
A estratégia que Mark Whitacre utiliza dentro da empresa é a mentira e, com sua astúcia e
perspicácia, conseguiu formular uma denúncia de formação de cartel dentro da Archer
Daniels Midland (AMD), empresa produtora de derivados do milho, da qual era gerente
executivo.
Visando obter ascensão profissional, Mark Whitacre se torna um mentiroso contumaz.
Começa a colocar em prática seu plano, usando sua lábia e sua fama de jovem agradável
para atingir seu objetivo. No decorrer do filme, monólogos internos do protagonista são
constantes e baseados em temas paranoicos, em que analisa detalhadamente objetos e
pessoas.
As histórias de Whitacre são fantasiosas, por exemplo: ele inventou que a empresa
telefônica ligou para informar que as linhas de telefone estavam bloqueadas. Essas histórias
são ouvidas pelas pessoas com um tom de desconfiança e insanidade. Mesmo
desconfiando de sua veracidade, as pessoas não o questionam, nem perguntam por que
Whitacre agiu daquela forma. Esse comportamento é evidenciado pela sua mulher, que
muitas vezes não entende o que ele diz ou não concorda, mas não o questiona nem reflete
mais profundamente sobre suas atitudes.
Outra cena em que fica claro que Mark mente apenas para atingir seu objetivo de ascensão
profissional é quando é acuado pela equipe do FBI, e ele diz que “quando tudo acabar eu
vou ficar bem, não vou?”
O desejo dele é de colocar seu plano em prática para destruir seus companheiros de
trabalho, conseguindo, assim, obter um cargo mais elevado, pois se considera o mais
qualificado para dirigir a empresa. Ao ser questionado por sua esposa: “como vai dirigir a
companhia se você a destruiu?”, ele responde bradando que a companhia precisava dele.
A vida familiar de Mark, os diálogos dele com os filhos e as cenas dos funcionários da
empresa demonstram que os indivíduos com comportamentos antissociais, podem estar
em qualquer lugar sem que possamos perceber.
Na sessão de Whitacre com um psicanalista, é questionado se alguém na família já foi
diagnosticado com distúrbio bipolar ou como depressivo, e ele confessa que sim. Em seu
julgamento, pede desculpas e assume seus erros e o juiz declara que ele não pode ser
comparado a um ladrão comum, devido a sua polidez. Whitacre ficou preso durante 9
anos, mas não conseguiram provar que foi ele quem criou todas as situações de traição e
suborno dentro da empresa.
6.10 Henry Evans (O Anjo Malvado)
“Às vezes durante a noite eu fico pensando, não em Henry, mas em Susan. Se ela tivesse
que fazer de novo. Será que faria a mesma escolha? Acho que eu sempre vou querer saber.
Mas sei que nunca vou perguntar.”

Henry Evans - imagem do filme O Anjo Malvado (The Good Son, 1993, Direção de Joseph
Ruben)
A produção cinematográfica O Anjo Malvado apresenta como protagonista o menino
Henry Evans, vivido pelo ator Macaulay Culkin, e conta também a história de Mark, que
com a morte de sua mãe, é consumido pela tristeza e culpa. Após o falecimento da mãe, o
pai de Mark é designado para uma viagem de negócios para Tóquio e, devido a isso, Mark
é levado a morar com seus tios Wallace e Susan e com seus primos Connie e Henry.
Os dois primos, Mark e Henry, parecem se dar bem inicialmente, e Henry parece ser
agradável e bem-educado. No entanto, ao discutir a morte da mãe de Mark, Henry parece
fascinado com a morte, fazendo com que Mark se sinta desconfortável.
A partir de então, Henry progressivamente apresenta comportamentos psicóticos. Ele usa
uma besta caseira para matar o cão de um vizinho. Ele também solta alegremente um
manequim em uma estrada local, causando um engavetamento que não é totalmente
investigado pela polícia. Mark fica horrorizado com as ações de Henry e tenta dizer o que
pensa a seu tio, mas ninguém acredita nele.
O filme apresenta, a cada cena, um indivíduo com transtorno de conduta na infância. Uma
criança com uma estrutura mental perversa.
A trama do filme procura mostrar o fantasma da criança perversa, por meio das ações
sádicas de um garoto possuidor de um senso de humor mortífero, que o leva a tentar
eliminar todos aqueles que ousem se colocar como obstáculo a sua exclusividade aos olhos
da mãe.
No filme, o comportamento psicótico de Henry se revela na agressividade e no controle
que quer exercer sobre as pessoas para que estas realizem seus desejos. Além disso, ele não
sente culpa ou remorso em suas brincadeiras que causam mal-estar e sofrimento para os
outros. Essa tendência do cinema americano de enfatizar a maldade da criança se distancia
da inocência do imaginário infantil.
A psicanálise não compartilha nem da visão popular da candura dos pensamentos infantis,
nem daquela visão estereotipada da maldade da criança dada pelo cinema americano - pois
sabe muito bem que a infância é marcada tanto pela ingenuidade quanto pela presença de
fantasias sádicas.
No cotidiano, existem muitas crianças que praticaram atos deliberados para se beneficiar,
sabendo claramente que traria um prejuízo ao próximo. As ações praticadas por crianças
podem ir desde rifa de uma televisão que não existe, passando por atos delinquentes, como
furtos e quebradeiras, chegando a acusações levianas a terceiros de abuso sexual.
A partir da análise deste filme, é preciso lançar um olhar crítico sobre os comportamentos
infantis, visando identificar desvios perversos na infância, por meio de ações maldosas,
que podem ter manifestações claramente psicóticas. Porém, uma criança não pode ser
considerada psicopata com base no critério do DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico
de Doenças Mentais - 5ª Edição), que deixa claro que o diagnóstico de Transtorno da
Personalidade Antissocial só pode ser aplicado em indivíduos de, no mínimo, dezoito
anos. Antes disso, a criança pode receber o diagnóstico apenas de Transtornos de
Conduta. Com esse cuidado, não é aplicado um estigma que pode ter influência na
formação do indivíduo.
Através da psicanálise, é possível identificar em Henry um diagnóstico de Transtorno de
Conduta e o filme pode ser um exemplo dos atos perversos e agressivos de uma criança
que apresenta tal transtorno. Esses atos perversos revelam ao mesmo tempo a negação do
suporte afetivo e a busca do suposto objeto de amor perdido na infância por uma via curta
e, portanto, perversa, pois cria a ilusão do reencontro narcísico do Eu e o mantém num
equilíbrio mental possível.
Henry é dissimulado, manipulador e transtornado, tendo um sadismo e uma inteligência
acima da média entre garotos passionais de sua idade, e é mais esperto do que muitos
adultos, manifestando a sua psicopatia logo na infância, por trás de sua aparente
fragilidade, comportamento cortês e extrema educação, o que ajuda a esconder sua
personalidade obscura.
A psicopatia é uma patologia que atinge uma boa parcela de crianças e é um processo
gradual, que se inicia na infância e, através da percepção do caráter duvidoso ou mesmo de
deslizes comportamentais, serve de alerta para a reflexão de como surge um psicopata.
Os atos de perversão de Henry revelam a busca de um suposto objeto de amor perdido na
infância além da negação do suporte afetivo, através da perversidade e do desequilíbrio.
O transtorno de personalidade vivido por Henry traz um excesso de razão e ausência total
de emoção, além de saber exatamente o que faz, com quem faz e como o faz, porém com a
incapacidade de se colocar no lugar do outro. Ele não tem escrúpulos e apesar de ser uma
criança, já apresenta características da psicopatia, apesar de não ser simples reconhecê-lo
como tal, pois apesar de falar muito sobre si mesmo, ele mente todo o tempo e não se
constrange quando é descoberto, ficando ainda mais arrogante e irônico, intimidando os
demais com a sua dissimulação. Sua malícia faz parte de sua sedução, característica
comum da psicopatia.
Segundo o DSM-IV, uma criança não pode ser considerada psicopata, pois esse
diagnóstico só pode ser aplicado em indivíduos com mais de dezoito anos, tendo em vista
o efeito estigmatizante que pode gerar no indivíduo. Porém, o Transtorno de Conduta
visto em Henry é tido, atualmente, como indicativo de uma alta possibilidade do indivíduo
desenvolver o Transtorno da Personalidade antissocial.
Certos fatores emocionais se fazem presentes na etiologia da psicopatia, quando
relacionados com certas personalidades maternas específicas, que tornam a identificação
possível por seus afetos contraditórios e inconsistentes que mudam muito rapidamente. Se
esta for a personalidade da mãe da criança, a criança por sua vez desenvolverá a psicopatia
mesmo que o lar não seja desfeito e nem existam longas separações maternas, o que explica
a presença de psicopatas em famílias bem situadas economicamente. Uma outra
possibilidade é que o ambiente da criança consista de uma série de figuras substitutas da
mãe que se alternam rapidamente, e cujas personalidades variadas e contrastantes sejam
para a criança algo imprevisível.
O psicopata possui uma anomalia pela sua incapacidade de formar relações sociais,
apresentando também pouca motivação e disciplina para tarefas que demandam esforço
contínuo; em segundo lugar, o efeito da personalidade materna em seus aspectos
imprevisíveis e contraditórios faz com que o estabelecimento de relações objetais
permaneça retardada em um estágio narcísico, sendo direcionada para um objeto
narcísico. Assim sendo, o investimento libidinal objetal e seu desenvolvimento seriam
prejudicados.
6.11 Catherine Tramell (Instinto Selvagem)
“Há dores impossíveis de ignorar”

Catherine Tramell - imagem do filme Instinto Selvagem (Basic Instinct, 1992, Direção de
Paul Verhoeven)
O filme Instinto Selvagem coloca em cena como protagonista da trama a bela atriz norte-
americana Sharon Stone. Além da beleza física, a personagem cativa o público por seu
status social e profissional, pois além de psicóloga é uma escritora.
O policial Nick Curran é responsável por desvendar o brutal assassinato de um astro de
rock, que foi morto com um picador de gelo. Toda a evidência aponta para uma bela
mulher, Catherine, como a principal suspeita do crime. Catherine é uma psicóloga que
escreveu um romance policial, no qual descreve um crime similar. Curran vai até a casa de
Catherine para interrogá-la sobre a vítima e sobre o que aconteceu naquela noite.
Aparentemente, Catherine era um amante formal do músico e ela ainda passou aquela
noite com ele, mas ela alega não tê-lo matado. Nick se sente atraído, mas ela é uma mulher
muito inteligente, que consegue evitar suas perguntas habilmente, usando seus atributos
físicos e personalidade sedutora. Catherine tem um relacionamento amoroso com outra
mulher, mas isso não será um obstáculo para Nick, que está muito mais interessado nela.
Nick tem sido acompanhado por uma psicóloga, Beth, que foi sua namorada no passado, e
ele precisa de sua companhia porque o detetive tinha um problema com álcool. Mas a
atração sexual que sente por Catherine faz esse problema emergir novamente. Nick se
torna amante de Catherine. A partir de então, ela começa a ameaçá-lo, prejudica a
investigação e coloca em perigo a sua vida. Num relacionamento de sexualidade selvagem,
Nick se convence de que Catherine é inocente, pois, o amor e o sexo foram capazes de
cegá-lo.
A personagem Catherine apresenta comportamento patológico, sendo que fazia de seus
parceiros sexuais suas vítimas fatais. Ela usava a sedução e a beleza para disfarçar o perigo
que representava para a sociedade. A cena mais lembrada do filme é durante o
interrogatório policial em que ela abre as pernas e, depois, as cruza num tom provocativo e
sensual para se esquivar do interrogatório.
O cinema apresenta a bela e atraente psicóloga Catherine como uma pessoa com instinto
selvagem e ímpeto assassino. Verifica-se que a personagem, em suas atitudes no decorrer
do filme, não encontrou plena realização sexual e carnal, os quais dependem do
desenvolvimento do superego, pois, segundo Freud, para conter os ímpetos de assassinos
latentes, é preciso que o superego censure o ego e isso não acontece com a personagem, que
acaba dirigindo sua cobiça sexual de forma estereotipada para seus parceiros sexuais.
A narrativa do filme, que envolve crime, sexo, amor e controle social (policial), serve para
demonstrar que as condutas patológicas podem conduzir à prática de delitos. Não é
possível abordar a ideia de desvio sem passar pelos seus correlatos: loucura e crime. Em
última instância, se todo desvio acontece na forma de um crime (no sentido de não
corresponder às normas vigentes), todo crime representará, ao menos em potencial, os
indícios de um ser desviante.
A psicóloga Catherine, no filme Instinto Selvagem, desmitifica a ideia de que psicopatas
são pessoas violentas, com aparência de assassinas e que, por esses atributos, podem ser
identificadas de modo fácil.
Psicopatas possuem raciocínio frio e calculista. São pessoas comuns, que trabalham,
estudam e andam nas ruas. Às vezes são pessoas que frequentam os mesmos locais sociais
(escola, igrejas, bares) e até compartilham a mesma cama.
A cada 25 pessoas, uma é psicopata. Somente em situações extremas são capazes de matar,
com requintes de crueldade, sem sentimento de arrependimento.
Fica claro, no filme, o poder destrutivo dos psicopatas, pelo domínio sexual e mental que
Catherine exerce sobre o detetive Curran. Ela é perversa e desprovida de culpa, e se mostra
capaz de passar por cima de qualquer pessoa para satisfazer seus instintos. A produção da
psicopatia na esfera cinematográfica induz o público a se sentir atraído e comovido com os
personagens.
A riqueza de recursos técnicos e a atuação teatral dos atores contribuem para romantizar a
ideia de psicopatia. No entanto, na vida real, suas ações são muito mais perigosas e
devastadoras.
O cinema apresenta a mulher psicopata, que consegue dominar o homem com charme,
beleza e poder de sedução. Essas características conquistam a atenção e admiração do
público. Prova disso, é que este filme promoveu a carreira da atriz Sharon Stone. Os
telespectadores se identificam com a inteligência e perspicácia que esses personagens
demonstram, pois mesmo sendo usadas de formas cruéis, demonstram capacidade de
planejamento superior à maioria das pessoas comuns.
Catherine esforça-se freneticamente para não ser abandonada, ora idealiza as pessoas, ora
as desvaloriza e tem uma imagem de si muito instável. Comporta-se impulsivamente: gasta
sem parar, abusa de substâncias, dirige imprudentemente. Faz ameaças, gestos suicidas ou
se mutila e é afetivamente instável, além de sentir-se sempre vazia, pois não consegue
controlar a raiva e tem ideias paranoicas.
6.12 Tom Ripley (O Talentoso Ripley)
“Por um momento preferi ser um alguém irreal a um verdadeiro ninguém.”

Tom Ripley - imagem do filme O Talentoso Ripley (The Talented Mr. Ripley, 1999, Direção
de Anthony Minghella)
Tom Ripley é um jovem que luta para ganhar a vida em Nova Iorque por todos os meios
necessários, incluindo uma série de golpes. Um dia, por ser confundido com outra pessoa,
ele é convidado por um homem rico para ir para à Europa e tentar convencer seu filho
rebelde a voltar para casa e se juntar ao negócio da família. Ripley aceita, exagerando sua
amizade com Dickie, a fim de ganhar a confiança do pai.
Ao chegar na Itália, começa a conviver com o jovem milionário. Ripley sente como se
estivesse em um paraíso e logo se identifica com os prazeres e facilidades que esta vida
pode lhe proporcionar . Ripley, de fato, se torna obcecado por Dickie, e esta obsessão é
reforçada pelo seu desejo de imitar e manter o rico estilo de vida do jovem.
O filme demonstra que, após o encontro com Dickie, Ripley passa a desejar, não só sua
vida, mas também a ser o próprio Dickie. O próprio nome do filme anuncia que Ripley
tem um talento, que é o de enganar e de ser um farsante. Esse comportamento chega ao
extremo de ser tão bem representado que pode ser considerado uma sociopatia. Ele diz em
um ponto: “Eu sempre pensei que seria melhor ser um alguém falso do que um ninguém
de verdade.”
Os comportamentos de Dickie e de sua noiva a cada dia confirmam que não irão ceder aos
apelos do pai de Dickie e que não retornarão para os EUA. Diante disso, e percebendo que
sua vida maravilhosa está terminando antes mesmo de começar, Ripley reage rapidamente,
com habilidade sociopata. Ele planeja a morte de Dickie, e assume sua identidade. No
passeio de barco Ripley golpeia com remo Dickie levando-o à morte. Após matá-lo e
assumir a identidade de Dickie, Ripley tenta convencer a noiva de Dickie que ele a
abandonou.
A história termina com Ripley indo para a Grécia e resignando-se para, eventualmente, ser
pego. Na chegada na Grécia, no entanto, ele descobre que a família Greenleaf aceitou que
Dickie está morto e que Ripley herdará sua fortuna de acordo com uma vontade forjada
por Ripley escrito em máquina de escrever de Dickie.
No filme, Ripley termina feliz e rico, sugerindo que ele pode sempre ser perseguido pela
paranoia. O filme apresenta o transtorno de personalidade antissocial, demonstrando que
o psicopata é uma pessoa infeliz. Ele é cercado por crises recorrentes de depressão. Ele vive
entediado com sua própria vida que é permeada por uma inveja patológica e utiliza de
qualquer meio para atingir seus objetivos.
No filme, Ripley tem consciência da realidade e de quem ele é. Depois que ele mata Dickie
e assume sua personalidade, ele tenta ou comete assassinatos contra aqueles que suspeitam
da verdade. Esses comportamentos de autopreservação provam que ele sabe quem ele é e
que compreende a ilegalidade de seus atos.
Essa perturbação da identidade, que está na raiz de ambas as psicodinâmicas, narcisismo
patológico e psicopatia voraz, é onipresente em Ripley. Até mesmo sua identidade sexual
não está totalmente formada.
O filme apresenta uma caricatura do sonho americano: ambicioso e cativante, de uma
pessoa que tem domínio sobre os padrões da burguesia. Mas, sob essa aparência de
civilidade, esconde-se um monstro, que pode ser bem caracterizado e diagnosticado pelo
DSM V-TR (Diagnostic and Statistical Manual).
Para o DSM V-TR, os critérios do Transtorno da Personalidade Antissocial apresentam
como sintomas a não conformidade às normas sociais com relação ao comportamento
lícito: pessoas com esse transtorno são sedutores, mentirosos, usam de pseudônimos para
enganar e obter vantagens ou prazer, são impulsivos e não sentem remorso por seus atos.
Assim, em última análise, o filme é um estudo das formas intrincadas e perniciosas da
psicopatologia, demonstrando que o transtorno mental é um veneno que não se limita a
sua fonte, ele se espalha e afeta seu ambiente.
Ripley é um psicopata histriônico, fica incomodado quando não é o centro das atenções,
interage com os outros de forma sedutora e expressa mudanças rápidas e superficiais nas
emoções.
Ele usa o tempo todo a aparência física para chamar a atenção, fala de forma muito
impressionante e carente de detalhes, é teatral demais. É facilmente influenciado pelos
outros ou pelas circunstâncias e acha que seus relacionamentos são mais íntimos do que de
fato são.
6.13 Max Cady (O Cabo do Medo)
“Todo homem precisa de algum vício para se lembrar que é humano.”

Max Cady - imagem do filme O Cabo do Medo(Cape Fear, 1991, Direção de Martin
Scorsese)
Cabo do Medo narra a história de Max Cady, que foi preso e condenado por estupro.
Quando volta à liberdade, ele começa uma perseguição implacável a seu ex-advogado. O
filme é uma refilmagem do clássico Círculo do Medo, de 1962.
No filme, Max Cady é anunciado como um psicopata e, portanto, o público já espera dele
comportamentos sintomáticos da psicopatia. A partir de então, tudo o que esse
protagonista faz com Sam Bowden e sua família são naturalmente aceitos pelo público. Ou
seja, quando um indivíduo é diagnosticado como psicopata, todos os seus
comportamentos de terror e violência são justificados. A imagem de Max Cady no filme é
a de um assassino. Seus atos brutais e violentos são a de um assassino. Ele se torna o algoz
de Sam Bowden e, como estratégia, também seduz sua filha.
No entanto, o que os estudiosos dizem sobre os psicopatas é que nem sempre eles têm a
aparência de assassinos. Pelo contrário, vivem na sociedade como pessoas comuns. Esse
perfil assombroso é absolutamente realista: os psicopatas são o extremo mais grave dos que
apresentam “distúrbio de personalidade antissocial” (DPA). A possibilidade de você já ter
encontrado um em seu caminho é grande, pois pelas estatísticas da Organização Mundial
da Saúde, para cada 100 pessoas, quatro são sociopatas em maior ou menor grau, ou seja,
eles são de 1% a 6% da população mundial.
O sentimento de vingança de Max Cady adquire uma dimensão anormal, e ele age para
atingir seu objetivo, não se importando com nada, pois o que move um psicopata é razão e
vontade, ou seja, o que o move é satisfazer plenamente seus desejos, mesmo que isso
envolva crimes.
Ele tem características muito comuns aos psicopatas hollywoodianos, pois é charmoso,
sedutor, inteligente, além de possuir um grande poder de persuasão. Porém, traz consigo a
transgressão da moralidade, a megalomania, a violência e visa apenas seu interesse
próprio, fazendo com que o filme seja um clássico da representação da psicopatia severa
no cinema e, mesmo assim, o público não o rejeita, pois compreende sua revolta ao invés
de enxergar a patologia da fixação na vingança.
Esse thriller, dirigido por Scorsese, mostra durante uma revista policial o enorme desejo de
vingança de Max, através de diversos closes nas tatuagens espalhadas pelo seu corpo de
versículos bíblicos como “A vingança será minha” e “O tempo nos vingará”.
A ameaça provocada pela presença de Max causa um conflito na relação entre Sam e Leigh,
expondo problemas do passado e criando dúvida sobre o presente do casal. Um erro
cometido há muito tempo prejudica a vida de Same e também evita que o filme caracterize
Sam como herói, fugindo do maniqueísmo. Sam não é uma pessoa naturalmente boa ou
má. E nem mesmo os outros personagens podem ser rotulados dessa forma, já que até
mesmo Max tem suas qualidades como ser humano.
Max parece uma sombra na vida de Sam, um verdadeiro pesadelo. Ciente de seus direitos,
ele jamais cruza a linha permitida pela lei, mas consegue infernizar a vida de Sam ao ponto
de fazê-lo chegar (e ultrapassar) seu limite. Seja no restaurante, seja no cinema, seja na
porta da sua própria casa, a imagem de Max dentro de seu conversível persegue Sam. A
tensa cena em que Max se rebela contra os agressores contratados por Sam e sai à procura
dele simboliza também uma inversão de valores na cabeça do espectador (e dentro própria
da narrativa). A partir de agora, Max é a vítima.
Robert de Niro tem outra atuação de alto nível como o determinado e psicopata Max
Cady, criando através da fala e dos gestos um vilão aterrorizante. Extremamente
inteligente (estudou na prisão livros de direito e filosofia, além de ler a Bíblia), Max é
temível até por saber utilizar muito bem a lei a seu favor, o que o transforma num
personagem assustador, mas que, ao mesmo tempo, consegue ser fascinante. Suas ações
são calculadas para atingir Sam de uma forma que ele não possa se defender, como quando
ataca sua colega de trabalho sabendo que ela jamais iria testemunhar contra ele para não
expor sua relação com Sam. Cady quer provar que Sam também pode se transformar num
criminoso, e alcança seu objetivo.
No filme, a lei é ineficaz na defesa de pessoas em constante ameaça. Desde que se conheça
a lei (como era o caso de Max) é possível atormentar a vida de alguém e, dependendo da
reação do perseguido, ainda sair como vítima do caso.
Max não consegue seguir normas sociais e acaba cometendo crimes. Como todo psicopata,
engana os outros para tirar vantagem pessoal ou prazer, não consegue trabalhar com
planos de longo prazo, é estourado e parte facilmente para a agressão física. Ele despreza a
sua segurança e a das outras pessoas e não tem responsabilidade para manter um emprego
nem honrar pagamentos, não sente remorso, mesmo quando fere, maltrata ou rouba
alguém.
Considerações Finais
A realização deste livro possibilitou apresentar aspectos sobre a influência social e cultural
que o cinema exerce sobre os indivíduos, em relação ao conceito de psicopatia. Constata-se
que o cinema, considerado um veículo de comunicação de massa, exerce influência
sociocultural, tendo em vista os comportamentos, valores e linguagens que a sociedade
reflete sobre a ideologia transmitidas pelas produções cinematográficas.
Na análise dos filmes, verifica-se que a representação da psicopatia no cinema se faz por
meio de diversos personagens: homens, mulheres e crianças. Na maioria dos filmes
analisados, os personagens psicopatas são apresentados como pessoas comuns, que se
aproximam dos outros para dominá-las, utilizando sua sedução, inteligência, status
profissional e beleza.
Em todos os filmes analisados, os personagens apresentam comportamento antissocial,
manifestando sentimentos extremos de vingança, amor, ódio, repulsa, dominação, paixão,
inveja. Todos os personagens legitimaram suas ações como o modo de agir de um
psicopata após ter um objetivo traçado e um plano estabelecido.
Nos filmes O Silêncio dos Inocentes, Jogos Mortais, Harry Potter, Psicopata Americano, e
Cabo do Medo, verifica-se que os psicopatas são anunciados e que o público espera deles
nada mais do que comportamentos violentos, agressivos, dentre outros. Nos demais
filmes, entretanto, verificou-se que os comportamentos psicopatas são naturalizados,
como o caso do filme Closer, em que as relações amorosas obsessivas são apresentadas
como sendo normais nos relacionamentos atuais.
Observa-se, na conclusão deste estudo, que o cinema exerce influência no cotidiano das
pessoas, uma vez que apresentam versões romantizadas dos psicopatas, levando o público
a crer que esses indivíduos não pertencem ao convívio comum da sociedade, pois, nos
filmes, os psicopatas anunciados são encarados como verdadeiros monstros, marginais
assassinos ou bruxos. Mas, na vida real, eles convivem em todos os lugares: podem parecer
pessoas amáveis, dóceis e podem estar exatamente ao seu lado neste momento.
Referências Bibliográficas
ARAUJO, José Antônio. Beleza americana: o mito do sonho americano. Cogito,
Salvador, 2011. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&
ARENDT, Hannah. A crise na cultura: sua importância social e política. In: Entre o
passado e o futuro. 4.ed. São Paulo: Editora perspectiva, 1997 (Coleção Debates).
BELUCHE, Renato. A gênese dos anormais. Revista Eletrônica de Jornalismo Científico,
2007. Disponível em : http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&id=337
BELLUZZO, Luiz Gonzaga de Mello. Dinheiro e a transfiguração da riqueza. In:
TAVARES, Maria Conceição, FIORI, José Luis. (Orgs.) Poder e dinheiro: uma economia
política da globalização. Petrópolis, Rio de Janeiro, Vozes, 1997.
BERNARDET, Jean-Claude. O que é Cinema. São Paulo, Brasiliense: 1981.
BEUREN, Ilse Maria (org. e colab.). Como Elaborar Trabalhos Monográficos em
Contabilidade. 3.ed. São Paulo: Atlas, 2006.
CÁNEPA, Laura. Em torno das definições do Expressionismo: o gênero fantástico em
filmes da República de Weimar. In Revista Galáxia n.19. São Paulo, 2010.
CELES, Luiz Augusto M; GUIMARÃES, Veridiana Canezin. O psíquico e o social numa
perspectiva metapsicológica: o conceito de identificação em Freud. Psicologia: Teoria e
Pesquisa. Jul-Set 2007, Vol. 23 n. 3, pp. 341-346.
CHAVES, Messias Eustáquio. Cortes e efeitos: a psicanálise é o efeito de um corte.
Reverso. Jun. 2008, vol. 30, n. 55, p.65-72. Disponível em: http://pepsic.bvs-
psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
73952008000100007&lng=es&nrm=iso COBRA, Rubem Queiroz. A Psicanálise, 2003.
Disponível em: http://www.cobra.pages.nom.br/ecp-psicanalise.html
ELIA, Luciano. Uma ciência sem coração. In: Revista Ágora: estudos em teoria
psicanalítica/UFRJ, vol. 2, n. 1, Rio de Janeiro, 1999.
DUTRA, Fernanda. Cultura de massas e outras culturas:as concepções contemporâneas
de Edgar Morin e Néstor García Canclini sobre a cultura de massas. Crátilo: Revista de
Estudos Lingüísticos e Literários. Patos de Minas: UNIPAM, (1): 79-86, ano 1, 2008.
FERLA, Luis. Feios, Sujos e Malvados sob medida. São Paulo: Alameda, 2009.
FERRARESI, Carla Miucci. Papéis normativos e práticas sociais: o cinema e a
modernidade no processo de elaboração das sociabilidades paulistanas (São Paulo na
década de 1920). Tese de Doutorado defendida em 03/09/2007 na FFLCH/USP. Professor
orientador: Profa. Dra. Maria Inez Machado Borges Pinto.
FERREIRA, Virgínia; MIRAS, Teresa. A psicanálise na contemporaneidade – presa do
lado de fora ou sem lugar do lado de dentro, 2008. Disponível em:
www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0399.pdf. Acesso em 22 de abril de 2011.
FILHO, Ciro Marcondes. Televisão: a vida pelo vídeo. São Paulo: Moderna, 1992.
FRANCA, Cassandra Pereira. Pai fouveiro: o pacto perverso. Psychê, São Paulo, vol. 9, n.
15, jun, 2005.
FREUD, Sigmund. Dois verbetes para enciclopédia.Rio de Janeiro: Imago, 1923.
________. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. vol. XIV, p. 83-119.
_______. O mal estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, Edições Standard, Tomo XXI,
1969.
_________. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund
Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1974.
_________. O Mal-Estar na Civilização (1930[1929]) Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4.ed. São Paulo: Atlas S.A.,
2002.
GOMES; Cema Cardona; ALMEIDA, Rosa Maria Martins de. Psicopatia em homens e
mulheres. Arquivos Brasileiros de Psicologia, vol. 62, n. 1, 2010.
GUNNING, Tom. Cinema e história. In: XAVIER, Ismail. (Org.). O cinema no século.
Rio de Janeiro: Imago, 1996.
HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções. São Paulo: Paz e Terra, 2009.
KAHN, Michael. Freud básico: pensamentos psicanalíticos para o século XXI. Trad.
Luiz Paulo Guanabara. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
LUCHESI, Flávia.Obsessão amorosa, 2008.Disponível em :
http://www.webartigos.com/articles/8868/1/Obsessao-Amorosa/pagina1.html
MACHADO, Gustavo. Quando muito perto se torna perto demais. Ribeirão Capital,
edição nº 34, setembro/outubro de 2006.
MASCARELLI, Fernando. História Mundial do Cinema. São Paulo: Papirus, 2008.
McGOWAN, T. The real gaze: film theory after Lacan. New York: State University of
New York Press, 2007.
MENDONÇA, Leandro José Luz Riodades de. Cinema e indústria: o conceito de modo
de produção cinematográfico e o cinema brasileiro. Unidade Escola de Comunicações e
Artes (ECA), 2007.
MORANA, Hilda C P et al. Identificação e culpa: questões éticas contemporâneas. Rev.
Bras. Psiquiatr. 2006; 28 (Supl II): S74-9.
MOSCOVO, Margarete Bueno. A Psicanálise nos dias de hoje, 2007. Disponível em:
http://www.psicologia.spo.com.br/Textos_terapia_psicanal%C3%ADtica.htm SILVA,
Francisco Carlos Teixeira da. Cinema. In: Enciclopédia de guerras e revoluções do
século XX. Rio de Janeiro: Campus-Elsevier, 2004. p. 137-138.