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Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

O presente material constitui resumo elaborado por equipe de monitores a partir da aula ministrada
pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

Sumário
1. Bibliografia indicada: ..................................................................................................... 2
2. Comunidades tradicionais .............................................................................................. 2
2.1 Proteção Constitucional ................................................................................................................ 3
2.2 Proteção Internacional: Convenção nº 169 da OIT e Declaração da ONU sobre Povos Indígenas
e Tribais ............................................................................................................................................... 4
2.2.1 Concepção de interculturalismo ............................................................................................ 5
2.2.2 Algumas premissas ................................................................................................................. 5
3. Convenção nº 169 da OIT ............................................................................................... 6
3.1 Antecedentes históricos e importância ........................................................................................ 6
3.2 Pilares da Convenção nº 169 da OIT ............................................................................................. 9
3.2.1 Critério da autodeterminação ou autoafirmação .................................................................. 9
3.2.2 A consulta prévia, livre e informada .................................................................................... 10
4. Índios .......................................................................................................................... 13
4.1 Saúde indígena ............................................................................................................................ 14
4.2 Educação indígena....................................................................................................................... 16
4.3 Regime de Terras......................................................................................................................... 17
4.3.1 Revisão de demarcação........................................................................................................ 18
4.3.2 Teoria do Fato Indígena x Teoria do Indigenato .................................................................. 19
4.3.3 Situações de Dupla Afetação ................................................................................................ 19
5. Quilombolas ................................................................................................................ 20
Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

O presente material constitui resumo elaborado por equipe de monitores a partir da aula ministrada
pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

Professora: Nathalia Mariel

Email: nathaliamariel@hotmail.com

1. Bibliografia indicada:

- Direito Constitucional - Teoria, História e Métodos de Trabalho - 2ª Ed. 2014 – Daniel


Sarmento

- Estatuto do Índio – Edilson Vitorelli

- Estatuto da Igualdade Racial e Comunidade Quilombola - Edilson Vitorelli

- Página da 6ª Câmara – Enunciados

-> Legislação:

- Proteção Constitucional: Artigo 5º, 231 da Constituição Federal e artigo 68 da ADCT.

- Proteção Internacional: Convenção nº 169 da OIT e Declaração da ONU sobre Povos


Indígenas e Tribais

2. Comunidades tradicionais

As comunidades tradicionais não são limitadas aos índios e quilombolas. Povos


tradicionais são todos aqueles que possuem um traço diferenciado de cultura e vivência, seja
um traço hereditário ou cultural. Envolvem toda comunidade que denote elementos
características de uma unidade.

Ex.: ribeirinhos e pantaneiros.

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Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

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2.1 Proteção Constitucional

Esses povos são protegidos pela Constituição (artigo 5º, 231 da Constituição Federal
e artigo 68 da ADCT).

CAPÍTULO VIII
DOS ÍNDIOS
Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças
e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam,
competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
§ 1º São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter
permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à
preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua
reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
§ 2º As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse
permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos
nelas existentes.
§ 3º O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a
pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados
com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes
assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei.
§ 4º As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre
elas, imprescritíveis.
§ 5º É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, "ad referendum" do
Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua
população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso
Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
§ 6º São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por
objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a
exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes,
ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei
complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a indenização ou a ações
contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de
boa fé.
§ 7º Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, § 3º e § 4º.
Art. 232. Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar
em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos
os atos do processo.

Art. 68 do ADCT. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam
ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-
lhes os títulos respectivos.

O artigo 5º demonstra o espírito que a CRFB de 1988 traz de Brasil como um país
multicultural.
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É importante destacar que não é porque a Constituição contém duas Seções


específicas sobre os povos indígenas e quilombolas que os demais povos e comunidades de
traços característicos estão desprotegidos. As disposições constitucionais devem ser
interpretadas como um complexo legislativo amplo que possibilita a defesa e a proteção
dessas comunidades.

2.2 Proteção Internacional: Convenção nº 169 da OIT e Declaração da ONU sobre Povos
Indígenas e Tribais

Há também farta proteção internacional sobre o tema. A Convenção nº 169 da OIT é


importantíssima porque dela é possível extrair a intenção internacional sobre a proteção de
comunidades tradicionais.

O Brasil é seu signatário e a internalizou por Decreto, vinculando a legislação


brasileira. A Organização Internacional do Trabalho foi a primeira a preocupar-se com os
povos tradicionais porque, por muito tempo, tais povos eram vistos como escravos que
tinham menos direito que os europeus. Havia uma consciência coletiva de que os povos
tradicionais eram instrumentos, objetos. Então, houve intensa preocupação, principalmente
após a 2º Guerra Mundial, com relação às relações trabalhistas dessas populações.

A Convenção nº 107 da OIT foi a primeira a tratar das relações trabalhistas dos povos
tradicionais e a intenção foi justamente regular, orientar a contratação desses povos,
demonstrando que possuíam os mesmos direitos que a sociedade ocidental como um todo.

Porém, tal Convenção continha valores integracionistas em seu âmbito que foram
muito criticados pela doutrina. Entendia-se que os povos e comunidades tradicionais seriam
diferentes e precisariam de regulamentação. Além disso, tais povos deveriam ser incluídos
na sociedade ocidental e, consequentemente, suas diferenças e elementos característicos
eram ignorados porque seria melhor para essas comunidades que abdicassem das
características diferenciadas para a integração de uma sociedade hegemônica, sem
diferenças. Ao invés de respeitar e reconhecer a diferença através da busca por políticas e
medidas que de fato pudessem abarcar as diferenças, a Convenção buscava integrar.

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2.2.1 Concepção de interculturalismo

Por sua vez, a Convenção nº 169 da OIT veio impregnada de valores defendendo o
interculturalismo. Ou seja, é reconhecida a existência de culturas diferenciadas, de
comunidades com traços específicos e muito bem delimitados de concepção do mundo. Em
razão disso, esses valores deveriam ser respeitados e uma forma de convivência entre a
sociedade hegemônica e as comunidades tradicionais com o respeito às diferenças buscada.
No estudo da Constituição de 1988, deve ser adotada a concepção do interculturalismo no
tocante às comunidades tradicionais.

 Multiculturalismo x Interculturalismo

Consoante a concepção do multiculturalismo, existem comunidades que são


diferentes e que possuem elementos que as diferenciam. Não há a busca por uma
integração entre a sociedade hegemônica e os povos tradicionais, criando assim as
chamadas “ilhas culturais”. Não busca-se a convivência, a troca de experiências e de
elementos com a preservação de ambas. Pelo contrário, há o reconhecimento de que cada
uma deve ser respeitada em seu espaço, inexistindo a promoção de políticas de convivência.
Esse é o ponto diferencial do interculturalismo.

Com relação às comunidades tradicionais, as correntes mais modernas defendem a


concepção do interculturalismo. Isso porque nessa concepção há a promoção do convívio,
da troca de elementos, da simbiose da sociedade ocidental e das sociedades tradicionais
sem que tais sociedades percam os traços culturais e elementos diferenciadores.1

2.2.2 Algumas premissas

Sobre a proteção dos povos tradicionais há uma realidade legislativa muito ampla.
Porém, a realidade legislativa entra em confronto com a realidade de gestão pública, que é
mínima. Ou seja, há previsão legislativa e uma administração pública que não observa, deixa

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Embora não haja concordância dentro do MPF, a 6ª Câmara tende a seguir a concepção da
necessidade de preservação e respeito à determinadas garantias.
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de observar grande parte de tal previsão, que a interpreta de maneira restritiva ou que
ainda cria institutos que não existem na lei. Esse confronto cria a chamada “brecha de
implementação”.

a) Igualdade Material

A brecha de implementação traz grandes prejuízos para o reconhecimento dos


direitos e garantias que as comunidades tradicionais possuem, evitando a efetivação da
igualdade material.

Ocorre que a sociedade ergueu-se sobre um prisma de valores liberais que são muito
intensos e impregnados administrativamente.

Ex.: Se houver um projeto de grande empreendimento que irá gerar consequências


negativas em relação a alguma área de comunidade tradicional, os valores liberais
relacionados à propriedade acabam por preponderar em relação à crenças daquela
comunidade.

b) Reconhecimento e respeito com as diferenças

Esse pensamento liberal, de igualdade unicamente formal, não abarca a igualdade


material, a efetiva, que possibilita a criação de algumas diferenças para que as tais
diferenças tornem as pessoas diferentes um pouco mais iguais.

Para atingir a igualdade material são necessários meios, políticas, instrumentos que
possam corrigir de fato as distorções. A brecha de implementação não permite o alcance da
igualdade material.

3. Convenção nº 169 da OIT

3.1 Antecedentes históricos e importância

A Convenção nº 107 da OIT antecedeu a Convenção nº 169. Aquela foi importante


por ter inaugurado as preocupações públicas com relação às comunidades tradicionais como
um todo. No entanto, foi muito criticada por ser impregnada de valores integracionistas.

Posteriormente, adveio a Convenção nº 169 da OIT que trata dos povos indígenas e
tribais.

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Tribal é entendido como toda comunidade que, por traço de descendência ou


cultural e histórico, se entende como uma sociedade culturalmente diferenciada. Tal
conceito é muito amplo. Então, aqui são incluídas todas as demais comunidades com traços
comuns culturais, aplicando-se a Convenção nº 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário.

Ex.: Comunidade ribeirinha que historicamente vivia da pesca na qual os homens


eram responsáveis por pescar e as mulheres pela limpeza dos peixes. Em razão de suspensão
administrativa, o seguro defeso2 - que era pago tanto aos homens quanto as mulheres -
passou a ser pago apenas aos pescadores. Como era possível observar a existência de traços
culturais próprios que uniam aquelas pessoas em um determinado modo de vida, tal
comunidade é identificada como tradicional.

Mesmo tendo aderido à Convenção nº 169 da OIT e a internalizado em forma de


Decreto, o Brasil desrespeita as previsões ali contidas, inclusive através de legislação, e
acaba violando preceitos e garantias previstos na Convenção.

Os documentos internacionais que foram recepcionados antes do ingresso do Art. 5º


da CRFB, que tratam de Direitos Humanos (como é o caso da Convenção nº 169 da OIT) e
que não tenham sido recepcionados sem o quórum efetivo de Emenda Constitucional, terão
status supralegal.

A Convenção nº 169, mesmo estando acima das leis, é desrespeitada e o Brasil já


sofreu condenação internacional por desrespeito à Convenção.

Artigo 1o
1. A presente convenção aplica-se:
a) aos povos tribais em países independentes, cujas condições sociais, culturais e
econômicas os distingam de outros setores da coletividade nacional, e que estejam
regidos, total ou parcialmente, por seus próprios costumes ou tradições ou por legislação
especial;
b) aos povos em países independentes, considerados indígenas pelo fato de
descenderem de populações que habitavam o país ou uma região geográfica
pertencente ao país na época da conquista ou da colonização ou do estabelecimento das
atuais fronteiras estatais e que, seja qual for sua situação jurídica, conservam todas as
suas próprias instituições sociais, econômicas, culturais e políticas, ou parte delas.

Da leitura do art. 1º depreendem-se dois critérios amplos de identificação de


comunidades tradicionais, dos povos tribais e indígenas.

A primeira alínea trata especificamente dos povos tribais que compreendem as


pessoas que tem condições sociais, culturais e econômicas que os diferenciam de outros
setores da sociedade. Tais pessoas se unem em um determinado círculo, são diferenciadas

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Seguro Defeso é um benefício pago ao pescador artesanal que fica proibido de exercer a atividade pesqueira durante o período
de defeso de alguma espécie.
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dos demais setores da sociedade, tem seus próprios costumes, suas próprias tradições e que
tem alguma legislação especial que os regrem. Há tanto o critério econômico, quanto o
social e o cultural para os povos que se encaixam nesse caso. A questão dos ribeirinhos se
encaixa aqui.

Por sua vez, a alinea “b” trata especificamente dos indígenas, porque ou eles
descendem da população que habitava determinada região geográfica ou conservam o seu
modo de vida próprio mesmo que parcialmente.

Ambas as alíneas são muito amplas e não estabelecem critérios restritivos


justamente por ser uma forma de tentar corrigir distorções históricas passadas em relação a
esses povos.

A Corte Interamericana de Direitos Humanos proferiu a seguinte decisão sobre o


povo quilombola Samaraka, do Suriname:

“La Corte no encuentra una razón para apartarse de esta jurisprudencia en el presente
caso. Por ello, este Tribunal declara que se debe considerar a los miembros del pueblo
Saramaka como una comunidad tribal y que la jurisprudencia de la Corte respecto del
derecho de propiedad de los pueblos indígenas también es aplicable a los pueblos
tribales dado que comparten características sociales, culturales y económicas distintivas,
incluyendo la relación especial con sus territorios ancestrales, que requiere medidas
especiales conforme al derecho internacional de los derechos humanos a fin de
garantizar la supervivencia física y cultural de dicho pueblo.” (Caso Saramaka Vs.
Suriname, 28/11/2007).1

No caso concreto, foi construída uma hidrelétrica no Suriname que afetava um povo
quilombola. Por não ter ocorrido consulta prévia, alegou-se o desrespeito aos direitos
fundamentais desse povo. A principal defesa do Suriname afirmava que a Convenção nº 169
da OIT trataria apenas de povos indígenas e que os quilombolas não estariam abrangidos
pela Convenção.

No entanto, a decisão afirma que o art. 1º da Convenção é amplo e,


consequentemente, o conceito de tribal alcança todas as comunidades que por traços
específicos, sociais e econômicos, são muito particulares. Portanto, os quilombolas se
encaixam perfeitamente no conceito de povo tradicional, tribal latu sensu, e, estaria
abrangido na Convenção. O Estado do Suriname foi condenado por ter violado os direitos do
povo tribal que está abrangido no âmbito da proteção da Convenção.

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3.2 Pilares da Convenção nº 169 da OIT

A Convenção nº 169 está baseada em dois pilares que representam a totalidade de


sua essência. Consequentemente são igualmente a essência das políticas de proteção das
comunidades tradicionais. Um pilar é o critério de autodeterminação/autoafirmação e o
outro é a consulta prévia.

3.2.1 Critério da autodeterminação ou autoafirmação

“2. A consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá ser considerada como
critério fundamental para determinar os grupos aos que se aplicam as disposições da
presente Convenção.”

O Estado não é competente ou responsável por determinar quais são os grupos que
são tutelados como comunidade tradicional. Essa definição vai além da consciência coletiva
de uma comunidade que se vê unidade por uma determinada situação e abrange a
consciência individual de se sentir incluído no grupo sem a utilização de estereótipos por
parte da comunidade ocidental.

Ex.: Índios que nasceram dentro da comunidade indígena mas são loiros de olhos
claros por descenderem de europeus. Embora o estereótipo seja incompatível com o
comumente associado a um indígena, sua autodeterminação torna-os integrantes daquela
comunidade indígena.

O elemento formador basilar é a autodeterminação ou autoafirmação que a pessoa


tem de si mesmo. É um critério fundamental estabelecido dentro da Convenção.

ENUNCIADO nº 17: As comunidades tradicionais estão inseridas no conceito de povos


tribais da Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho. Criado no XIV
EncontroNacional da 6ªCCR em 5/12/2014.

Tal Enunciado da 6ª Câmara deixa claro que Povos Tribais são sinônimos de
comunidades tradicionais e não pode haver distinção.

- Questões sobre autoafirmação

Quanto as cotas, definiu-se que o melhor sistema para a adoção da política afirmativa
é estabelecer que a pessoa irá autodeclarar ser integrante daquele setor que é beneficiado
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pelas quotas das políticas afirmativas e que não tem como ninguém controlar porque o
espírito sempre dever ser o da autodeterminação.

O outro ponto é relativo à distinção que a União tenta fazer em relação aos povos
tradicionais.

Existe o projeto de construção de uma hidrelétrica em Santarém que irá afetar


drasticamente o modo de vida de comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas locais.

Uma das questões problemáticas é sobre a necessidade de consulta prévia das


comunidades tradicionais afetadas. A União afirma que não realiza consulta prévia ante a
ausência de regulamentação do instituto previsto na Convenção nº 169 da OIT. Afirma
também que ainda que houvesse aplicabilidade de tal instituto, seria realizada apenas com
as comunidades indígenas, vez que a Convenção não seria aplicável aos demais povos
tradicionais. Por fim, há a utilização dos critérios liberais para justificar que só deveria ser
consultado quem realmente tiver sido atingido em um raio de 20 km das obras. É uma
análise que utiliza conceitos liberais considerando apenas as comunidades que teriam bens e
propriedade afetados.

O Suriname foi condenado porque não reconheceu o direito das comunidades


quilombolas de terem a Convenção nº 169 aplicada em seu favor. Agora o Brasil pode
também sofrer uma intervenção justamente porque está afirmando que há necessidade de
regulamentação de algo que já é autoaplicável e limitando algo que não se limita, um
conceito de comunidade tradicional que é extremamente amplo.

Autodeterminação é a consciência pessoal de pertencimento a um determinado


grupo. A consciência individual de identidade, como integrante de um determinado
modelo e modo de vida. Essa consciência é entendida e defendida como um dos maiores
pilares em matéria de comunidade tradicional e de sustentação da Convenção nº 169.

3.2.2 A consulta prévia, livre e informada

O art. 6º da Convenção nº 169 da OIT define que toda medida legislativa ou


administrativa que vá afetar comunidades tradicionais, deve passar inicialmente por uma
consulta prévia, livre e informada daquela comunidade. As consequências e todo o contexto
existente sobre aquele ato deverão ser apresentados previamente.

ARTIGO 6º 1. Na aplicação das disposições da presente Convenção, os governos deverão:


a) consultar os povos interessados, por meio de procedimentos adequados e, em

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particular, de suas instituições representativas, sempre que sejam previstas medidas


legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente; b) criar meios pelos
quais esses povos possam participar livremente, ou pelo menos na mesma me- 19 dida
assegurada aos demais cidadãos, em todos os níveis decisórios de instituições eletivas ou
órgãos administrativos responsáveis por políticas e programas que lhes afetem; c)
estabelecer meios adequados para o pleno desenvolvimento das instituições e iniciativas
pró- prias desses povos e, quando necessário, disponibilizar os recursos necessários para
esse fim. 2. As consultas realizadas em conformidade com o previsto na presente
Convenção deverão ser conduzidas de boa-fé e de uma maneira adequada às
circunstâncias, no sentido de que um acordo ou consentimento em torno das medidas
propostas possa ser alcançado.

Então, deve-se conferir de fato aos indígenas a liberdade e o conhecimento geral


sobre o que vai ocorrer para que possam definir o que querem estabelecer em sua vida.

Essa consulta prévia considera dois elementos muito grandes. O primeiro é a


autodeterminação, porque todo indivíduo que se considere inserido naquela comunidade
deve ser consultado e, o empoderamento, ou seja a possibilidade que aquela comunidade
deve ter de assumir o destino de sua área. Não pode o Estado, a administração pública,
decidir por aquela comunidade.

A consulta prévia é definida como o principal instrumento da Convenção nº 169 e sua


ausência demonstra o desrespeito aos próprios valores democráticos.

É importante ter em mente que o sistema democrático privilegia a vontade da


maioria - que vota e elege seus representantes para que tenha representatividade
adequada. No entanto, a minoria fica sem voz para ser ouvida pela administração, pela
sociedade e pelo poder público.

A minoria não deve ser vista apenas matematicamente, são grupos de minorias que
existem e que não tem voz. Existem diversos grupos, como ribeirinhos, pantaneiros, ciganos,
índios, homoafetivos que vão de encontro à consciência homogênea universal existente e
que é normalmente representada pelos representantes eleitos pela maioria.

Essas minorias sobrevivem através de meios que visam preencher as lacunas


deixadas pela democracia, as chamadas instâncias contramajoritárias. São os locais onde a
minoria terá voz e consegue preencher as lacunas deixadas pelo sistema democrático.

As instâncias podem ser exemplificadas pelas leis de iniciativa popular, pelo amicus
curiae funcionando no processo junto ao STF, pelas audiências públicas e também pela
consulta prévia.
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Então, antes de qualquer ato administrativo para por em prática a alteração


legislativa ou administrativa deve haver consulta. Ela deve ser efetivamente prévia, antes de
qualquer ato. Também deve ser livre, ou seja, a comunidade não pode ser coagida e precisa
ter amplo espaço de decisão. Ademais, a comunidade deve estar informada sobre todas as
consequências decorrentes de sua decisão.

A definição dos sujeitos da consulta prévia, de quem deve ser ouvido, dependerá da
autodeterminação, da consciência individual de que faz parte daquele grupo. Além disso, o
sujeito deve pertencer aos grupos afetados em um conceito liberal e cultural, ou seja, não
apenas de bens ou propriedade, mas que se entendam como afetados.

A forma dessa consulta não é pré-estabelecida. A própria forma da consulta deve ser
trabalhada em conjunto com a comunidade. Não necessariamente a consulta ocorrerá por
forma de audiência pública.3

A União alega que a Convenção nº 169 precisa de regulamentação, além de ignorar


as demais comunidades tradicionais considerando apenas as comunidades indígenas.

Nesse prisma, existem dois tipos de consultas. A consulta emancipatória e a consulta


restritiva. A consulta restritiva é a que vem sendo adotada pelo poder público, no sentido de
querer utilizar apenas o conceito de patrimônio para verificar quem será afetado, de usar
um conceito restritivo de comunidades tradicionais incluindo apenas os indígenas como tal.

No entanto, é necessário partir para uma consulta emancipatória que escute a


opinião dos sujeitos efetivamente, de maneira ampla, de uma forma que haja realmente
discussão e que as opiniões decorrentes da consulta efetivamente gerem a adoção de
medidas mitigadoras e políticas que possam amenizar os danos que possam vir a ser sofridos
pela comunidade.

Conforme o Enunciado nº 15 da 6ª CCR, o EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental/


Relatório de Impacto Ambiental) não depende da área ser formalmente reconhecida.

ENUNCIADO nº 15: O estudo dos impactos de um empreendimento sobre os povos


indígenas e quilombolas não depende de demarcação formal das respectivas terras.

Ou seja, mesmo que a área não seja formalmente terra indígena, haverá a
necessidade de um EIA/RIMA específico e que verifique no caso os danos efetivos e a
realização de consulta prévia.

3
No site da PR-Pará, em Santarém os Procuradores formaram em conjunto com a comunidade um
protocolo sobre a consulta prévia. Essa forma definida deve ser adotada pela administração pública.

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4.Índios

Índios são todos aqueles povos que já habitavam o território nacional antes da
chegada e colonização realizada pelos portugueses. Legalmente, estão definidos no art. 231
da Constituição Federal.

Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças
e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam,
competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

A Constituição Federal estabeleceu o reconhecimento dos indígenas, bem como de


sua organização, seus costumes, suas línguas, crenças e tradições e dos direitos originários
sobre as terras que ocupam tradicionalmente. É da União a competência para a demarcação
das terras indígenas, assim como a propriedade de tais terras, com usufruto vitalício dos
indígenas.

A primeira questão problemática é que as áreas indígenas sequer são propriedades


dos índios. Há um estudo antropológico para verificar quais são as terras que historicamente
os índios ocupam e quais eles precisam. O índio tem uma relação especial com a terra que
vai muito além da simples propriedade. Os índios se veem como uma continuidade da terra.

Ex.: É vedada a remoção de indígenas porque eles se consideram índios justamente


por estarem naquela terra, cultuam aquela área justamente porque foi ali onde viveram seus
ancestrais. Toda sua vida, família e origens foram desenvolvidas naquele local.

Outra questão problemática é que a terra indígena não necessariamente precisa ser
contínua, podendo ser demarcada em núcleos. Deve haver a análise de fato do local que o
índio precisa para desenvolver sua cultura, não pode haver uma análise limitadora apenas ao
local de habitação e pesca.

O usufruto é vitalício dos indígenas e em qualquer tipo de projeto ou situação que


passe por meio de tais terras indígenas há necessidade de compensação ambiental ou
pagamento para os indígenas que estão sofrendo com aquela situação.

Uma grande discussão é relacionada à defesa da autonomia indígena. No momento


em que o art. 231 da CRFB foi elaborado, o pensamento era patriarcal. Ou seja, os indígenas
eram vistos como incapazes de cuidar das suas terras, das suas áreas e, por tal razão,
precisavam da tutela do Estado.

Esse é um pensamento muito criticado porque não se deve conceder uma


paternalidade estatal excessiva aos indígenas sem possibilitar-lhes o usufruto de fato da
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terra. Os indígenas não são incapazes e por isso não é correto utilizar os termos “índio
integrado” e “índio não integrado”. Deve-se partir para uma doutrina que de fato reconheça
a autonomia dos indígenas e os auxilie na defesa de seus direitos, de suas áreas e na
reclamação das garantias a que eles fazem jus.

Para além da Constituição Federal, tem-se o Estatuto do Índio que foi totalmente
revogado doutrinariamente em termos de posterior recepção da CRFB. O Estatuto traz
justamente os conceitos abomináveis de índio incapaz, integrado e não integrado. No
entanto, ainda está em vigor e deve ser estudado.4

4.1 Saúde indígena

A saúde indígena, atualmente, é um subsistema do SUS, é um subsistema de saúde


pública específico para a matéria indígena.

Foi criado em 1967, funcionava dentro da FUNAI, com as chamadas Equipes Volantes
de Saúde. Foi o começo de uma tentativa de especialização para o tratamento de saúde
indígena. Após muito tempo, foi criada a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), que
é divida em:

a) Distritos Sanitários de Saúde Indígena- DSEI (Ligados ao Ministério da Saúde, à


FUNASA);

b) Conselhos Distritais de Saúde Indígena e;

Tais conselhos funcionam com representantes indígenas e representantes da SESAI e


a ideia era de tentar aproximar índios do Estado com relação ao tema de saúde, uma espécie
de iniciativa popular

c) Casa de Saúde Indígena (CASAI) – existentes nas cidades, é geralmente o lugar que
dá apoio para que os indígenas para que tenham acesso à saúde.

A FUNAI está sucateada, sem verba, sem concurso público e, do mesmo modo está a
saúde indígena.

4
A professora indica que o estudo do Estatuto seja realizado conforme o livro do Edilson Vitorelli.
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Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

O presente material constitui resumo elaborado por equipe de monitores a partir da aula ministrada
pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

 Críticas à atual criação do INSI (Instituto Nacional de Saúde Indígena).

No site da 6ª Câmara existe uma carta assinada pela procuradora Débora Duprat,
criticando a criação do INSI por diversos fatores5.

Primeiramente porque o INSI é a uma pessoa Jurídica de Direito Privado na forma de


Serviço Autônomo e, a partir daí, fica a questão sobre a incidência da Jurisdição Federal
nesse caso. Do mesmo modo, há a questão da opinião dos indígenas que não foi considerada
para a criação de um instituto de saúde dos indígenas.

É importante ler essa carta para o entender os argumentos e fundamentos. Há


também uma cartilha sobre Saúde Indígena no site do Grupo de Trabalho de Populações
Indígenas e Comunidades Tradicionais cuja leitura é muito importante6.

Ademais, existe bastante discussão sobre quem são as pessoas que podem ser
atendidas pelo subsistema de saúde indígena. Isso porque, vários índios saíram de suas
terras e foram para a cidade, porém continuam se vendo como índios.

Não há unanimidade na definição sobre qual instituto irá atender esses “índios
urbanos”. Alguns afirmam que será a SESAI - considerando a preservação da ideia de que
esses índios pertencem à uma comunidade tradicional e, portanto, deve o Sistema Público
de Saúde respeitar essa determinação. Há também quem defenda que esses índios iriam
apenas aumentar o número caótico do sistema da SESAI e o fato de já estarem vivendo no
meio urbano retira-lhes a necessidade de tratamento particularmente indígena.

5
http://www.mpf.mp.br/atuacao-tematica/ccr6/dados-da-atuacao/grupos-de-trabalho/gt-
saude/docs/docs_documentos_gt/nota-insi.pdf
6
http://www.mpf.mp.br/atuacao-tematica/ccr6/dados-da-atuacao/grupos-de-trabalho/gt-saude/docs/cartilha-sobre-saude-
indigena-cimi-1/cartilha-sobre-saude-indigena-cimi/view
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pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

4.2 Educação indígena

É outro ponto muito importante. A Convenção nº 169 definiu que nas comunidades
tradicionais, devem ser ensinadas tanto a sua língua materna quanto a língua nacional.

Não se busca a promoção de valores integracionistas (de anular as diferenças) mas


sim fazer a interculturalidade, uma simbiose entre elementos culturais distintos, que é
justamente a língua. O maior patrimônio de um povo é o reconhecimento de suas origens, a
sua língua. Dentro da Convenção nº 169 a língua é muito importante.

Assim, a educação indígena deve ser diferenciada, não sendo possível a utilização do
plano básico utilizado para todas as escolas no Brasil. Faltam inclusive profissionais no
mercado que sejam aptos a abarcar as diferenciações. A Convenção busca incentivar a
contratação dos próprios indígenas de forma a possibilitar o ensino indígena como um todo,
a língua materna, as lendas, as histórias e todos os traços culturais pertinentes.

Também é complicada a questão da alimentação escolar. O fornecimento de


alimentos praticamente exclusivos da sociedade ocidental é errado. Deve-se buscar a
promoção do acesso aos alimentos típicos da comunidade.

Outro problema é com relação à possibilidade de contratação de professores


indígenas sem concurso público. De um lado há a regra constitucional de vedação a
contratação de servidor público sem concurso público e de outro uma escola indígena que
precisa de índios dando aula sobre a língua materna, ensinando para as crianças da
comunidade sobre a sua língua.

Enquanto não houver a possibilidade de adequação de um concurso público que de


fato cubra e que seja atento ao perfil das comunidades tradicionais, pode haver a
contratação de professores indígenas para que lecionem em escolas indígenas como
temporários, até o tempo do poder público poder se regulamentar.

É interessante o caso da Lei Complementar nº 578/2010 do Estado de Rondônia que


trata do Magistério indígena, criando a “Carreira de Professor Indígena e de Técnico
Administrativo Educacional nas Escolas Indígenas do Estadode Rondônia.” A Lei regulamenta
o funcionamento do concurso público para essas carreiras, os conhecimentos necessários, o
perfil da prova e etc.

Outro caso é o incentivo de criação de cursos superiores específicos para indígenas,


como o curso superior de magistério para professores indígenas, de forma a qualificar os
professores para dar aula. Do mesmo modo, cursos técnicos-administrativos para tentar

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pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

qualificar as pessoas para que possam fazer a gestão da sua área sem a necessidade de
interferência de um branco para regulamentar.

No Município de Paragominas no Pará foi feito um projeto de concurso público para


professores indígenas.

O Estado deve procurar meios para se adequar ao que a Convenção nº 169 reclama
quando vem conclamar pela necessidade de proteção da língua materna tanto quanto o
ensino da língua nacional.7

4.3 Regime de Terras

O Caso da Raposa Serra do Sol tratava da demarcação não contínua de terra indígena
(TI) onde haveria necessidade de convivência e de retirada em alguns pontos de brancos de
áreas indígenas. É o procedimento chamado de desintrução que consiste na retirada de
brancos de terras indígenas.

Foi ajuizada uma Ação Popular relacionada à necessidade da demarcação contínua ou


não das terras indígenas. A questão chegou ao STF que definiu uma série de condicionantes
aptas a verificação no caso concreto do convívio de áreas indígena, com área de proteção
ambiental, com área particular.

No caso da Raposa Serra do Sol, definiu-se que quando houver convívio entre
comunidade indígena e uma unidade de conservação no mesmo lugar, o responsável por
gerir o local é o ICMBio com pequeno auxílio da FUNAI. Assim, a Polícia Federal ou até a
Militar tem livre circulação, não precisam de autorização dos indígenas para entrar no local.

Essas condicionantes violaram frontalmente os direitos das comunidades tradicionais


com relação às suas terras. Considera-se quel há a possibilidade de convivência entre uma
unidade de conservação com comunidades indígenas. Isso porque essas comunidades não
tem uma mentalidade predatória. No entanto, grande parte da doutrina defende que a essa
área deve ser gerida pela FUNAI e não pelo ICMBio. Não se poderia haver uma relativização
da necessária autorização dos indígenas para que a polícia entrasse em suas terras.

Foi um caso muito criticado que ocasionou a propositura de inúmeras ações em


diversas outras áreas pelo Brasil, que eram de convívio de área particular com áreas

7
A Educação Indígena também é tema de um Grupo de Trabalho do MPF.
Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

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pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

indígenas, nas quais era pedida a aplicação das condicionantes do caso Raposa Serra do Sol
como se tais condicionantes tivessem feito coisa julgada erga omnes.

O STF definiu que essas condicionantes não fazem coisas julgada para outras
situações, apenas para o Caso Raposa Serra do Sol.

Na prática, o que vem ocorrendo é a aplicação das condicionantes como se fosse


coisa julgada em outros casos concretos, inclusive pelo STF. São condicionantes que
afrontam o direito ao regime de terras que os indígenas fazem jus.

ENUNCIADO nº 11: É possível o pagamento de indenização aos ocupantes de terras


indígenas (possuidores ou não de títulos) com base no princípio da proteção à confiança
legítima. O cabimento e os limites de aplicação desse princípio serão analisados
casuisticamente.

Em uma área indígena onde moram brancos é necessário fazer a desintrusão. Como
a área indígena é da União e não há usucapião, o próprio MPF tem um enunciado interno
afirmando que esses possuidores de justo título ou não serão indenizados. Essa indenização
realmente ocorre no caso concreto ainda que seja baseada na confiança legítima, na boa-fé,
e não tenha qualquer previsão legal.

4.3.1 Revisão de demarcação

Existem diversas terras indígenas que foram demarcadas há muito tempo. O STF
definiu que é possível rever a demarcação de terras indígenas desde que dentro dos cinco
anos seguintes ao ato, com base na autotutela administrativa.

Ocorre que muitas áreas indígenas já foram demarcadas há muitos anos. Por isso,
considera-se possível a desapropriação da área que não foi reconhecida como área indígena
para que possa efetivamente concretizar a demarcação daquele local. O ponto crítico é que
para o MPF, para a 6ª Câmara, a desapropriação é um dever, pois a União demarcou
equivocadamente. Para a União, a desapropriação está dentro da discricionariedade
administrativa e não é um dever. Isso ainda não foi definido pelo STF, apenas foi
reconhecida a possibilidade da desapropriação e da revisão dentro dos cinco anos
posteriores ao ato.

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Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

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jurisprudência dos Tribunais.

4.3.2 Teoria do Fato Indígena x Teoria do Indigenato

A Teoria do Fato Indígena é a teoria aplicada pelo STF, pelo judiciário em geral, e
define que só deve ser reconhecida a proteção e demarcação da área indígena naquelas
áreas que já estavam ocupadas na época da promulgação da CRFB de 1988. Essa teoria criou
um limite temporal e é criticada por ter ignorado a ocupação tradicional, bem como as áreas
de fato que os indígenas precisavam para desenvolver a sua cultura, ficando atrelada a um
critério temporal.

Tal teoria sofre uma mitigação pelo chamado esbulho renitente. São comunidades
que eram de uma determinada área, mas foram expulsas daquele local e impedidas de
voltar na época do advento da Constituição. É uma tentativa de humanização da Teoria do
Fato Indígena. Então, só é terra indígena aquela que estava ocupada na época da
promulgação da CRFB, mas se a comunidade comprovar que era ligada em uma determinada
localidade, foi expulsa e impedida de voltar para aquele local, ainda assim haverá proteção
constitucional.

A Teoria do Indigenato também é conhecida como Posse Imemorial e define que a


área indígena é toda aquela que foi ocupada ou que venha a ser ocupada pelos indígenas.
Toda aquela que a comunidade dependeu ou depende culturalmente. Por ser muito ampla e
imprecisa há uma insegurança jurídica muito grande sobre o que vem a ser a área indígena
de fato.

O ideal nessa questão é ficar em um meio termo, não adotando nenhum dos
extremos e realizando estudos antropológicos para definir as áreas que aquela comunidade
realmente precisa para viver e se desenvolver.

4.3.3 Situações de Dupla Afetação

Quando há uma Unidade de Conservação e uma Terra Indígena. Há possibilidade de


convivência, inclusive com um mosaico de proteção onde aquela área será duplamente
protegida. Como os propósitos finais de fato serão a proteção da terra e do meio ambiente,
não haveria necessidade de expulsão da comunidade indígena de uma unidade de
conservação.

A questão mais criticada nesse ponto é a decisão proferida no Caso Raposa Serra do
Sol que colocou sob responsabilidade do ICMBio uma área de dupla afetação.
Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

O presente material constitui resumo elaborado por equipe de monitores a partir da aula ministrada
pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

5. Quilombolas

É outra comunidade tradicional muito presente no Brasil. Os quilombos eram


unidades de resistência ao sistema escravocrata no Brasil. Muitos negros foram trazidos para
o Brasil como escravos. Desses, muitos fugiam e se uniam em quilombos, criando sua
comunidade para poder sobreviver e para lutar contra o sistema escravocrata.

Uma questão importante é que os quilombos que se concentraram no Nordeste e no


Sudeste eram quilombos de resistência que lutavam efetivamente. Por sua vez, os
quilombos que se instalaram na região Norte normalmente eram de sobrevivência. Isso
porque, na região Norte, a terra não era tão propícia para a plantação comum no Nordeste e
Sudeste. Muitas pessoas que vieram para o Norte tentar estabelecer suas plantações
desistiam e largavam os escravos aqui.

Assim, os escravos se reuniam em grupos para tentar sobreviver nessa área estranha.
Tanto os quilombos de resistência quanto os de sobrevivência eram uma forma de
sobrevivência de povos que foram escravizados em uma terra estranha.

ENUNCIADO nº 19: O MPF, dentre outros legitimados, tem atribuição para atuar
judicial e extrajudicialmente em casos envolvendo direitos de quilombolas e demais
comunidades tradicionais, sendo a competência jurisdicional da justiça federal. Tal
atribuição se funda no artigo 6º, inciso VII, alínea “c”, e artigo 5º, inciso III, alínea “c”, da
Lei Complementar nº 75/93, no fato de que a tutela de tais interesses corresponde à
proteção e promoção do patrimônio cultural nacional (artigos 215 e 216 da
Constituição); envolve políticas públicas federais, bem como o cumprimento dos tratados
internacionais de direitos humanos, notadamente da Convenção nº 169 da OIT. Criado
no XIV EncontroNacional da 6ªCCR em 5/12/2014.

Apesar da intensa discussão sobre se o trabalho com relação às comunidades


quilombolas é estadual ou federal, a orientação interna do MPF é a de que é de sua
atribuição cuidar das comunidades tradicionais, seja pelo fato de serem tuteladas por
Convenção Internacional, seja por tais comunidades promoverem a proteção do patrimônio
cultural nacional.

ENUNCIADO nº 27: Os direitos territoriais dos povos quilombolas e outros povos e


comunidades tradicionais gozam da mesma hierarquia dos direitos dos povos indígenas,
pois ambos desfrutam de estatura constitucional. Em casos de conflito, é necessário
buscar a harmonização entre estes direitos, consideradas as especificidades de cada
situação. Criado no XIV Encontro Nacional da 6ªCCR em 5/12/2014.

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Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

O presente material constitui resumo elaborado por equipe de monitores a partir da aula ministrada
pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

O STJ recentemente definiu que a competência cível em matéria quilombola é da


Justiça Federal, com o argumento de que quem cuida efetivamente da titulação e da análise
de terras quilombolas é o INCRA e, em razão da presença de uma autarquia federal, a
competência é da Justiça Federal. Então, é pacífica a competência da Justiça Federal e do
MPF.

Ao contrário da terra indígena, a terra quilombola é propriedade definitiva dos


quilombolas e é de obrigação do Estado a emissão dos títulos respectivos.

Art. 68 do ADCT: "Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam
ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-
lhes os títulos respectivos"

O art. 68 do ADCT é autorregulamentável, tem aplicabilidade direta e trata de


direito originário. O STF ainda não se posicionou sobre a auto aplicabilidade do art. 68 do
ADCT e tal questão ainda é bastante discutida.

Essa propriedade é emitida em forma de título coletivo. A comunidade quilombola


monta uma associação na forma da lei civil que é registrada em cartório e o título da terra,
de propriedade efetiva, é outorgado em nome da associação. Então, não pode haver venda
de lote individual, fracionamento, porque é um título coletivo emitido em nome da
comunidade quilombola.

Observação: Existe a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3239 em face do


Decreto nº 4.887/2003, que regulamenta o procedimento para identificação,
reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por
remanescentes de comunidades dos quilombos. Quem cuida dessa ADI é a Fundação
Palmares. Antes do Decreto, havia a necessidade de estudo e comprovação certificada de
que a comunidade de fato era remanescente de escravos e quilombos o que era uma
afronta à autodeterminação daqueles indivíduos.

A ADI argumenta basicamente que o Art. 68 do ADCT não é autorregulamentável,


também que há um provável vício de iniciativa e que um Decreto não poderia regulamentar
norma constitucional.

Observação2.:

Lei N. 13.043 de 2014: Art. 82 isenta as terras quilombolas da cobrança do Imposto


Territorial Rural – ITR e garante o perdão de dívidas de ITR já cobradas e as já
registradas como dívida ativa.

Por muito tempo, as terras eram conferidas à associação da comunidade quilombola


e acabava ocorrendo o acúmulo de ITR. No entanto, os integrantes não tinham meios para
Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

O presente material constitui resumo elaborado por equipe de monitores a partir da aula ministrada
pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

pagar o imposto. A Lei nº 13.043 resolveu a questão do ITR. Porém, a questão do IPTU
continua pendente. Como é matéria tributária, não pode a União regulamentar uma matéria
da esfera de outro ente. Muitas comunidades quilombolas estão localizadas em área
urbana.8

Questão 5 (28CPR)
Dentre os enunciados abaixo, estão corretos:
I- A interculturalidade significa, em sua forma mais geral, contato e intercâmbio entre
culturas em condições de igualdade. Tal contato e intercâmbio não devem ser pensados
apenas em termos étnicos, mas também a partir da relação, comunicação e
aprendizagem permanente entre pessoas, grupos, conhecimentos, valores, tradições
lógicas e racionalidades distintas.
A ideia de interculturalidade é a de realizar uma simbiose entre as culturas. É uma
questão que vai além da convivência, abrangendo a aprendizagem com respeito entre
valores distintos.
II- A multiculturalidade é um termo principalmente descritivo e basicamente se refere a
multiplicidade de culturas dentro de um determinado espaço;
Existe uma critica para a questão do multiculturalismo vez que há apenas o
entendimento da existência de culturas diferentes, sem contato entre elas.
III- A essencialização de identidades refere-se a uma tendência de ressaltar diferenças
étnicas, de gênero, de orientação sexual, entre outras, como se fossem identidades
monolíticas, homogêneas, estáticas e com fronteiras sempre definidas;
Essa é uma teoria trabalhada no livro do Sarmento. Essencialização de identidades
basicamente reconhece que existem características que são estáticas, não havendo a
ideia de intercâmbio ou contato. É a questão do diálogo das fontes trazido para o direito
constitucional, para os chamados jogos de linguagem.
IV- A noção de tolerância como eixo de problema multicultural oculta a permanência de
desigualdades sociais que não permitem aos diversos grupos, relacionar-se
equitativamente e participar ativamente na sociedade.
A noção de tolerância não considera que os grupos que se toleram são diversos e
acaba apagando a necessidade de corrigir as diferenças através de políticas afirmativas
de forma a reduzir as desigualdades de oportunidades.
a) I e III
b) I e IV
c) I, III e IV
d) todos estão corretos

Questão 7 (28CPR)
Assinale a alternativa incorreta:
a) As ações afirmativas têm natureza dúplice, pois se prestam, de um lado, a assegurar
igualdade de oportunidades e, de outro, a promover o pluralismoe a diversidade nos
ambientes em que se instalam;
b) Os direitos concedidos aos povos indígenas pela Constituição de 1988 têm em conta
as suas respectivas tradições culturais, não alcançando indivíduos e grupos indígenas
considerados “aculturados”, ou seja, que perderam a sua cultura autêntica;

8
http://6ccr.pgr.mpf.mp.br/documentos-e-publicacoes/artigos/docs_artigos/tributacao-e-direitos-fundamentais-2013-a-
questao-da-intributabilidade-das-terras-ocupadas-pelos-remanescentes-de-quilombos
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Índios, Quilombolas e Povos Tradicionais

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pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros doutrinários e na
jurisprudência dos Tribunais.

Está incorreta. A CRFB não distingue índio de índio aculturado. Se o índio se vê como
membro daquela comunidade, não pode o legislador ou o operador do direito fazer
distinção.
c) A demarcação de terras indígenas deve ser precedida de trabalho antropológico, que
revele a organização social e espacial desses grupos, bem como projete o seu
crescimento de modo a assegurar os direitos das gerações futuras;
A demarcação deve levar em consideração a relação do índio com a terra.
d) a despeito de situada no artigo 68 da ADCT, a norma ali inscrita tem propósitos
permanentes, é de natureza prospectiva e alcança comunidades situadas no presente.

Observação3.: O Brasil foi notificado e responderá junto à Comissão Interamericana


de Direitos Humanos por violações de direitos humanos relacionados à Hidrelétrica de Belo
Monte no que tange às comunidades tradicionais.

Observação4.: O tema de etnocídio é muito importante e é bem explorado na ação


proposta pela PRM de Altamira.