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Notas de Aula: Cálculo e Equações Diferenciais 1

1. FUNÇÕES DE VÁRIAS VARIÁVEIS


1.1. REVISÃO: FUNÇÕES MATEMÁTICAS
Funções matemáticas são relações entre dois parâmetros ou entre dois conjuntos. Elas servem
para descrever como determinada grandeza se comporta em relação a outra. Em física, podemos
citar o exemplo de um objeto em queda livre que cai de determinada altura. Sabemos que a
velocidade do objeto aumenta gradativamente conforme o tempo
vai passando. Ou seja, quanto mais alto o lugar de onde o objeto
for lançado, mais tempo ele terá de queda e maior será a
velocidade alcançada.
Se desprezarmos o atrito com o ar, podemos descrever os
valores da velocidade do objeto em função do tempo:
𝑽(𝒕) = 𝑽𝟎 + 𝒈 ∙ 𝒕, onde V(t) é a velocidade calculada em função do
tempo t, V0 é a velocidade inicial (que pode ser zero) e g é a
aceleração da gravidade. A função matemática neste caso é usada
para calcular o valor da velocidade em cada segundo de tempo
decorrido após a soltura do objeto. Vamos relembrar como
funciona.
Exemplo 1:
Um objeto cai de determinada altura durante 10 segundos.
Considerando que ele partiu do repouso e que a aceleração da
gravidade é de 10 m/s², mostre a evolução da velocidade em
função do tempo. Desconsidere o atrito com ar.
Para resolver este problema a função 𝑽(𝒕) = 𝑽𝟎 + 𝒈 ∙ 𝒕 para
determinar o valor da velocidade a cada segundo de tempo
decorrido. Os valores são apresentados em m/s e km/h na tabela
abaixo (para converter basta multiplicar por 3,6). Ao lado está o
gráfico desta função.

tempo velocidade velocidade


0 s 0 m/s 0 km/h
1 s 10 m/s 36 km/h
2 s 20 m/s 72 km/h
3 s 30 m/s 108 km/h
4 s 40 m/s 144 km/h
5 s 50 m/s 180 km/h
6 s 60 m/s 216 km/h
7 s 70 m/s 252 km/h
8 s 80 m/s 288 km/h
9 s 90 m/s 324 km/h
10 s 100 m/s 360 km/h

Esta é uma aplicação prática de uma função matemática. Observe que há uma lei que
relaciona a velocidade ao tempo decorrido. Esta lei diz que para cada segundo decorrido desde o
início da queda, o objeto tem sua velocidade aumentada em 10 m/s ou 36 km/h. Veja que através
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da função matemática, também foi possível elaborar um gráfico de V(t) × t. Note que o desenho
formado através da função é uma reta de inclinação positiva (inclinada para cima).

1.1.1. Domínio e Imagem de uma função


Podemos dizer ainda que a função matemática que relacionou os valores do conjunto numérico
que representa o tempo com os valores do conjunto numérico que representa a velocidade.

Neste exemplo, o conjunto numérico que representa o tempo é chamado de Domínio da


Função. Perceba que a velocidade depende do tempo decorrido, ou seja, o tempo está “mandando”
na velocidade, ou ainda, o tempo está “dominando” os valores de velocidade. Podemos ainda dizer
que o domínio desta função pertence ao conjunto dos valores reais positivos, já que o tempo anterior
à queda não foi considerado, ou seja, neste caso não pode haver valores negativos de tempo.
Podemos escrever isso com uma simbologia matemática:
𝐷 = {𝑡 ∈ ℝ|𝑡 ≥ 0} ou 𝐷 = {𝑡 ∈ ℝ+ }
Já o conjunto numérico dos valores da velocidade é chamado de Imagem da Função. São os
valores “visualizados” através da função. Veja que neste caso, a velocidade também não será
negativa, tendo em vista que o objeto foi “solto” e não jogado para cima. Não hou nenhuma inversão
na trajetória, por isso teremos apenas velocidades positivas. Assim, temos a seguinte escrita
simbólica:
𝐼 = {𝑉(𝑡) ∈ ℝ|𝑉(𝑡) ≥ 0} ou 𝐼 = {𝑉(𝑡) ∈ ℝ+ }
Exercícios:
Lembrou? Agora faça você uma tabela de valores, esboce o gráfico das funções dadas,
determine o domínio e a imagem e classifique as funções como: Algébricas de 1º, 2º, etc.,
Trigonométricas, Logarítmicas, Inversas ou Exponenciais.
1) 𝑓(𝑥) = 4 + 2𝑥

2) 𝑦(𝑥) = 𝑥 2 − 4𝑥
3) 𝑦 = sen 𝑥

4) 𝑦(𝑡) = cos −1 𝑡
5) 𝑦 = 2𝑒 𝑥

1.2. FUNÇÕES DE VÁRIAS VARIÁVEIS: INTRODUÇÃO


As funções que possuem mais de uma variável, são funções que possuem uma variável
dependente e mais de uma variável independente.
Nas funções trabalhadas até agora, tínhamos uma variável independente, geralmente o x, e
uma variável dependente y, neste caso y=f(x). Isto significa que o é o valor da variável y depende
do valor da variável x. Por exemplo, a função 𝑦 = 2𝑥² + 4𝑥: para sabermos o valor de y, temos que
atribuir valores para x, tal como x=2, assim, 𝑦 = 𝑓(2) = 2(2)2 + 4(2) = 16. Ou seja, atribuímos um
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valor qualquer para x, de forma independente, e encontramos o valor y que depende daquele valor
de x especificamente.
Agora, iremos estudar situações que uma variável depende de duas ou mais variáveis
independentes. Isto acontece quando, por exemplo, uma variável z depende não só de um valor de
x, mas também de um valor de z. Neste caso, a invés do gráfico da função ser uma curva no plano,
teríamos um gráfico de uma superfície no espaço.

Assim, teremos que atribuir dois valores independentes para x e para z afim de saber qual é o
valor de y correspondente.
Exemplo 2:
𝑦 = 𝑓(𝑥, 𝑧) = 𝑥 2 + 𝑧 2
Para x=1 e z=1 ⇒ 𝑦 = 𝑓(1,1) = 12 + 12 = 2

Para x=3 e z=4 ⇒ 𝑦 = 𝑓(3,4) = 32 + 42 = 9 + 16 = 25

Para x=5 e z=0 ⇒ 𝑦 = 𝑓(5,0) = 52 + 02 = 25 + 0 = 25

Para x=0 e z=-5 ⇒ 𝑦 = 𝑓(0, −5) = 02 + (−5)2 = 0 + 25 = 25


Neste exemplo podemos observar que podemos ter o mesmo valor da variável dependente,
para várias combinações das variáveis independentes.
Quando trabalhávamos com funções de apenas uma variável, geralmente a variável
dependente era y e x a variável independente. Contudo esta não era uma regra fixa e eventualmente
calculava-se x em função de y [x=f (y)].Nas funções de duas ou mais variáveis, também não existe
uma forma fixa e podemos escolher z em função de x e y [z=f (x , y)], ou x em função de y e z
[x=f (y , z)], além de y em função de x e z [y=f (x , z)] como demonstrado no exemplo.
Além das funções de duas variáveis, com em z sendo função de x e y, podemos ter funções de
três ou mais variáveis independentes, como uma função 𝑤 = 𝑓(𝑥, 𝑦, 𝑧), ou ainda, 𝑣 = 𝑓(𝑤, 𝑥, 𝑦, 𝑧) e
assim por diante.

1.2.1. Domínio da Função de Várias Variáveis


O domínio de uma função é o conjunto dos valores das variáveis independentes que podem
ser usados para calcular o valor da variável dependente. Ou seja, o domínio de uma função são,
por exemplo, todos os valores de x e y que eu posso usar para calcular z numa função z=f (x , y),
sem que haja alguma inexistência de valor, como nos casos de divisão por zero ou raízes de
números negativos.
Assim, o domínio de uma função de 2 variáveis estará contido no plano ℝ² e uma função de 3
variáveis estará contida no espaço ℝ³ e assim por diante. Lembre-se que quando tínhamos funções
de apenas uma variável o domínio era ℝ.
𝑓: 𝐷 ⊂ ℝ2 → ℝ
(Lê-se: o domínio da função f está contido no ℝ² em ℝ)
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Exemplo 3:
1) 𝑧 = 𝑓(𝑥, 𝑦) = 𝑥 2 + 𝑦 2 , 𝐷 = ℝ2
1
2) 𝑧 = 𝑓(𝑥, 𝑦) = 𝑥 2 +𝑦 2, 𝐷 = ℝ2 − {(0,0)}

Neste exemplo, temos uma restrição no domínio da função, que é o ponto (x,y)=(0,0), pois
substituindo estes valores na função dada teríamos uma divisão por zero, que não existe. Ou seja,
o domínio desta função é todo o plano ℝ², menos o ponto (0,0)
3) 𝑤 = 𝑓(𝑥, 𝑦, 𝑧) = sen(𝑥𝑦𝑧 2 ) + 𝑥 3 , 𝐷 = ℝ3
3
4) 𝑧 = , 𝐷 = ℝ2 − {(𝑥, 𝑦)|𝑦 ≠ 2𝑥 − 1}
2𝑥−𝑦−1

Neste exemplo, novamente a restrição no domínio é o denominador que não poder ser igual a
zero, porém agora, isto pode acontecer com várias combinações de x e y. Então teremos que fazer
a seguinte análise: 2𝑥 − 𝑦 − 1 ≠ 0 e isolando o y teremos: 𝑦 ≠ 2𝑥 − 1. Por isso, o domínio desta
função está contido no ℝ², exceto nos pontos em que 𝑦 = 2𝑥 − 1.

1.2.2. Conjunto imagem


São os valores que são obtidos através da função. São os valores que se encontram no
contradomínio, que é essencialmente o conjunto dos números Reais ℝ. A imagem é o intervalo do
contradomínio que efetivamente atingido pela função.
Exemplo 4:
1) 𝑧 = 𝑓(𝑥, 𝑦) = 𝑥 2 + 𝑦 2 , 𝐼 = ℝ+ (conjunto dos Reais positivos)
1
2) 𝑧 = 𝑓(𝑥, 𝑦) = 𝑥 2 +𝑦 2, 𝐼 = ℝ∗+ (conjunto dos Reais positivos exceto o zero)

3) 𝑤 = 𝑓(𝑥, 𝑦, 𝑧) = sen(𝑥𝑦𝑧 2 ) + 𝑥 3 , 𝐼 = ℝ (conjunto dos Reais sem restrição)


Função Limitada:
Uma função será limitada, se seu conjunto imagem é um conjunto limitado em ℝ.
Exemplo 5:
1) 𝑓(𝑥, 𝑦) = sen(𝑥𝑦), 𝐼 = [−1,1] (A imagem vai de -1 até 1)
𝑥2
2) 𝑓(𝑥, 𝑦) = 𝑥 2 +𝑦2 , 𝐼 = [0,1] (A imagem vai de 0 até 1)

1.2.3. Gráfico de uma função de várias variáveis


Já vimos o exemplo de um gráfico de uma função de duas variáveis em que a figura não era
apenas uma curva no plano, mas sim uma superfície do espaço. Contudo, em funções com mais
de duas variáveis não é possível estabelecer um gráfico que seja visível, pois teríamos que fazer
um gráfico em 4 dimensões ou mais. A ideia deste gráfico é apenas teórica.
Mas nas funções de apenas duas variáveis, o
gráfico é tridimensional baseado nos eixos x, y e z,
e assim podemos plotá-lo.
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Quando tratávamos de gráficos no plano, os eixos x e y dividiam o plano em quatro regiões


chamadas de quadrantes, onde o 1º quadrante estava na região positiva de x e y:

Agora nos gráficos espaciais, os eixos x, y e z dividem o espaço em 8 regiões chamadas de


octantes, em que o 1º quadrante está na região positiva de x, y e z:

Para localizar um ponto neste gráfico, precisamos de 3 coordenadas. Por exemplo (2,3,2):

Exemplos 6: gráficos:
𝑧 = 𝑥2 + 𝑦2 𝑧=4

E o que acontece se fizermos a intersecção entre estes dois gráficos?


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Obtemos uma intersecção do gráfico 𝑧 = 𝑥 2 + 𝑦 2 com o plano 𝑧 = 4 e o resultado será uma


circunferência.

Veja que se igualarmos as funções acima teremos


𝑥 + 𝑦 2 = 4 e esta é a função que descreve uma
2

circunferência de raio R = 2, por isso o que vemos ao juntar


o gráfico das duas funções é justamente uma
circunferência de raio 2 na altura do plano z = 4.

Desenho de um gráfico 3D
Desenhar o gráfico de uma função de duas variáveis (em 3 dimensões) assemelha-se ao
desenho de um objeto em perspectiva. Para isso é preciso conhecer o formato básico da figura que
se pretende desenhar. No desenho de objetos, desenha-se a perspectiva a partir de suas vistas
ortográficas (frontal, lateral, superior). O desenho de gráficos tridimensionais o processo é
semelhante, pois o melhor caminho é enxergar as projeções da imagem nos planos cartesianos.
Para conseguir estas projeções, basta “zerar” a variável do plano em questão e observar o
comportamento das outras duas.
Exemplo 7:
Desenhar o gráfico da função 𝑧 = 4 − 𝑥 2 − 𝑦 2 .
Para 𝑧 = 0 estamos no plano xy. Veja que ao “zerar” a variável z, a equação a função passa a
ser uma equação de x e y
Para 𝑧 = 0 ⇒0 = 4 − 𝑥 2 − 𝑦 2

𝑥2 + 𝑦2 = 4

𝒙𝟐 + 𝒚𝟐 = 𝟐𝟐
Note que a equação acima é a equação de uma circunferência de raio zero, conforme
mostramos nos gráficos planificado e em perspectiva abaixo:

O passo seguinte é determinar a intersecção do gráfico com os planos zy e zx. Para isso,
vamos zerar, respectivamente as variáveis x e y:
Para 𝑥 = 0 estamos no plano zy

𝑥 = 0 ⇒ 𝑧 = 4 − 02 − 𝑦 2

Isolando a variável z, teremos z em função de y ⇒ 𝑧 = 4 − 𝑦 2 , cujo gráfico é uma parábola:


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Para 𝑦 = 0 estamos no plano zx

𝑦 = 0 ⇒ 𝑧 = 4 − 𝑥 2 − 02

Isolando a variável z, teremos z em função de x ⇒ 𝑧 = 4 − 𝑥 2 , cujo gráfico é outra parábola:

Para desenhar este gráfico, é necessário juntar todas estas figuras em uma só. Então teremos
a figura abaixo desenhada à esquerda. Obviamente que é necessária uma certa destreza para fazer
um bom desenho. Ao lado está o mesmo gráfico construído com a ajuda do software Geogebra,
disponível em www.geogebra.org/classic :

O nome deste gráfico é chamado de paraboloide de revolução.


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Exemplo 8:
Outros exemplos de Gráficos:
𝑧 = sen 𝑥 𝑧 = cos 𝑥 + cos 𝑦

𝑧 = |𝑥𝑦| 𝑧 = ln(𝑥 2 + 𝑦 2 )

Exercícios:
𝑥+𝑦
1) Seja a função 𝑧 = 𝑥−𝑦 encontre o valor de z nos seguintes pontos (x , y):

a) f (-3, 4) c) f (x+1, y-1)


b) f (1/2 , 1/3) d) f (-x, y) – f (x, -y)
2) Encontre o domínio das seguintes funções:

a) 𝑓(𝑥, 𝑦) = √16 − 𝑥 2 − 𝑦 2
𝑥+𝑦
b) 𝑧 = 𝑥−𝑦

c) 𝑧 = ln 𝑥𝑦
3) Esboce o gráfico das seguintes funções:
a) 𝑧 = −2𝑥
4 4
b) 𝑧 = 4 − 5 𝑥 − 3 𝑦

c) 𝑧 = 𝑦 2

d) 𝑧 = 4𝑥 2 + 9𝑦 2