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O Evangelho Segundo

LUCAS

Introdução
1. Título - Os manuscritos mais antigos cie Lucas traziam o título: “Segundo Lucas”.
Os manuscritos posteriores eram intitulados como “O evangelho segundo Lucas”, ou “O santo
evangelho segundo Lucas”.
2. Autoria - O consenso antigo e unânime da tradição cristã aponta Lucas como
autor do evangelho que leva seu nome. Em História Eclesiástica (iii.4.6) Eusébio (c. 260-c.
340 d.C.) designa especificamente Lucas como autor deste evangelho. Um século antes,
lertuliano (c. 160-c. 220 d.C.) mencionou Paulo como o “iluminador” de Lucas, isto é,
aquele que o encorajou e lhe forneceu grande parte da informação contida nos seus escri­
tos. Por volta de 185 d.C., Irincu escreveu: “Lucas, seguidor de Paulo, colocou num livro
o evangelho que foi pregado por ele.” O famoso Fragmento Muratoriano, uma porção de
um documento escrito no final do 2° século, concorda com Irineu, declarando que o ter­
ceiro evangelho foi escrito por Lucas, o médico, um companheiro de Paulo. A tradição mais
antiga, desta forma, favorece unanimemente Lucas como autor do evangelho que leva seu
nome. Não há evidência que aponte a qualquer outro autor, a não ser Lucas.
Lucas e Atos podem ser considerados como os volumes 1 e 2 de uma obra que apro­
priadamente poderia ser intitulada “A origem e o desenvolvimento inicial do cristianismo”.
A introdução ao livro de Atos (At 1:1) claramente aponta à autoria comum dos dois livros.
O estilo literário e a expressão são claramente os mesmos em ambos os livros, que foram
dedicados à mesma pessoa, Teófilo (ver com. de Lc 1:3). As seções no livro de Atos em
que o autor usa o pronome pessoal “nós” indicam que ele foi companheiro íntimo de
Paulo, principalmente durante seus últimos anos de ministério. Desde Trôade, parece
que o autor esteve associado a Paulo durante os primeiros dias do evangelho na Grécia
(At 16:10-18), na visita final à Palestina (At 20:5-21:18) e que o acompanhou na viagem
a Roma (At 27:1—28:16). Em Colossenses 4:14 e Filemom 23 e 24, Lucas, como colabo­
rador de Paulo, envia saudações àqueles a quem essas epístolas são endereçadas. Quase
no final de seu último aprisionamento em Roma, Paulo escreveu a Timóteo: “Somente
Lucas está comigo” (2Tm 4:11). Os outros companheiros do apóstolo foram enviados em
missões a outras igrejas ou o abandonaram. Em meio às angústias desses últimos dias,
Paulo deve ter sentido uma profunda apreciação pelo terno e competente ministério de «
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um homem como o médico amado” (Cl 4:14). Este homem, evidentemente, foi o autor
de Atos e do evangelho que leva seu nome.
O contexto de Colossenses 4:11 a 14 parece indicar que Lucas não era judeu,
mas gentio, porque ele não é alistado entre os homens da circuncisão, mas com
outros que eram conhecidos como gentios. O livro de Lucas é geralmente conside­
rado um dos mais literários do N I e, em muitos aspectos, muito próximo do estilo
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COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

dos grandes escritores gregos. Isto é especialmente verdade a respeito da introdu­


ção a Lucas (Lc 1:1-4). „
Eusébio (ibid.) descreve Lucas como “antioquiano por raça e médico por prohssao .
Ele era, possivelmente, nativo de Antioquia, e alguns creem que escreveu dali. Outros
têm sugerido Roma como o local da escrita. Lucas e Paulo são os dois contribuintes mais
prolíficos do NT. O local e a maneira da morte de Lucas são desconhecidos, embora
a tradição declare que Lucas foi martirizado na Grécia, explicando que ele foi cravado
numa-oliveira. _ . ,
Estudiosos conservadores geralmente datam o evangelho de Lucas não muito depois de
63 d.C., pelas seguintes razões: O livro, aparentemente, foi escrito antes de Atos (ver At 1:1).
O final abrupto de Atos geralmente é considerado como evidência que este livro foi escrito
durante a época do primeiro aprisionamento de Paulo em Roma, em aproximadamente 61-63
d.C., possivelmente logo depois de sua chegada naquela cidade. A explicação mais simples
para o final abrupto é que Lucas não escreveu mais porque, na época, não havia mais nada
a dizer. É improvável que o julgamento, libertação, nova detenção, condenação e execução
de Paulo teriam sido omitidos do registro de Atos se esses eventos já tivessem ocorrido na
época da composição do livro. Não há evidência de que esses eventos fizeram parte do texto
original de Atos ou que foram perdidos do texto original algum tempo depois. Em vista des­
ses fatos é seguro afirmar que Atos foi escrito por volta de 63 d.C., e o evangelho de Lucas,
ainda mais cedo (ver At 1:1), não se pode dizer quantos anos antes (sobre a cronologia dos
escritos dos evangelhos, ver p. 165-167; sobre as várias teorias a respeito da origem dos evan­
gelhos, ver p. 163-165).
3. Contexto histórico — Sobre um breve esboço do contexto histórico da vida e mis­
são de Jesus, ver p. 273; para uma discussão mais abrangente, ver p. 27-55.
4. Tema - Mateus apresenta Jesus como o grande Mestre, o intérprete da verdade
divina. Marcos O apresenta como o Homem de ação e enfatiza Seus milagres como mani­
festação do poder divino atestando Sua Messianidade. Lucas mostra Jesus em íntimo
contato com as necessidades das pessoas, enfatizando o aspecto humano de Sua natu­
reza, e O apresenta como o amigo da humanidade. João apresenta Jesus como o divino
Filho de Deus.
Acredita-se que Mateus tenha sido escrito essencialmente para leitores judeus, e Marcos,
para os de origem latina. Pensa-se que Lucas foi escrito especialmente para leitores gre­
gos. Sua expressão sugere que ele se dirigiu às pessoas educadas e cultas de seus dias.
Evidentemente, ele era um homem inteligente e culto, familiarizado com o estilo literário
de sua época. Isso é evidente em seus prefácios em Lucas e Atos, suas datações de eventos
em termos do mandato de vários funcionários governamentais, bem como o uso de referên­
cias e de fontes de informação em que ele confiava.
► Como Mateus traça a genealogia de Jesus até o fundador da nação judaica, Lucas traça
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a descendência de Jesus até Adão, o pai de toda a humanidade. Mais que qualquer outro
evangelista, Lucas toma nota dos incidentes que revelam o interesse de Jesus no ministé­
rio pelos gentios. Mais que qualquer outro escritor evangélico, ele se refere aos centuriões
romanos, sempre sob uma luz favorável. A visão de mundo de Lucas também é clara em
seu registro dos apelos de Paulo aos gentios (ver At 14:15-17; 17:22-31). Em Lucas, dificil­
mente há um traço de exclusividade judaica, que pode ser detectada ocasional mente em
Mateus e Marcos.
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LUCAS 1:1

Uma evidência adicional de que Lucas foi o escritor do evangelho que leva seu nome
pode ser encontrada nos termos médicos utilizados com frequência no livro (Lc 4:38; 5:12;
8:43; etc.). Esses termos indicam que o autor tinha conhecimento médico (ver Cl 4:14).
5. Esboço. Em vista do fato de que um esboço cronológico e completo do evangelho de
Lucas está disponível nas p. 184-195, o esboço apresentado aqui cobre apenas as maiores
fases da vida e do ministério de Jesus.

I. Jesus enquanto bebê; a infância e juventude, 1:1-2:52.


II. Preparação para o ministério, outono, 27 d.C., 3:1-4:13.
III. Ministério na Galileia, Páscoa a Páscoa, 29-30 d.C., 4:14-9:17.
A. Início do ministério na Galileia, 4:14-41.
B. Primeira viagem missionária pela Galileia, 4:12-5:16.
C. Ministério em Cafarnaum, 5:17-6:16.
D. O sermão do monte, 6:17-49.
E. Segunda viagem missionária pela Galileia, 7:1-8:56.
F. Terceira viagem missionária pela Galileia, 9:1-17.
IV. Recuo do ministério público, primavera a outono, 30 d.C., 9:18-50.
V. Ministério na Pereia, outono a primavera, 30-31 d.C., 9:51-19:27.
A. Ministério em Samaria e na Pereia, 9:51-10:24.
B. Ensinando por parábolas, 10:25—18:14.
C. A última jornada a Jerusalém, 18:15-19:27.
VI. Encerramento do ministério em Jerusalém, Páscoa, 31 d.C., 19:28-23:56.
A. Conflito com os escribas e fariseus, 19:28-21:4.
B. O discurso no monte das Oliveiras, 21:5-38.
C. Prisão e julgamento de Jesus, 22:1-23:25.
D. Crucifixão e sepultamento de Jesus, 23:26-56.
VII. Ressurreição e aparições subsequentes, 24:1-53.

Capítulo 1
1 O prefácio de Lucas a seu evangelho como um todo. 5 As concepções de João
Batista e 26 de Cristo. 39 As profecias de Isabel e Maria a respeito de Cristo.
57 O nascimento e a circuncisão de João. 67 A profecia
de Zacarias a respeito de Cristo e 76 de João.

1 Visto que muitos houve que empreenderam dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma ex­
uma narração coordenada dos fatos que entre nós posição em ordem,
se realizaram, 4 para que tenhas plena certeza das verdades
2 conforme nos transmitiram os que desde em que foste instruído.
o princípio foram deles testemunhas oculares e 5 Nos dias de Herodes, rei da Judeia, houve
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► ministros da palavra, um sacerdote chamado Zacarias, do turno de


3 igualmente a mim me pareceu bem, depois Abias. Sua mulher era das filhas de Arão e se
de acurada investigação de tudo desde sua origem, chamava Isabel.

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1:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

6 Ambos eram justos diante de Deus, viven­ 22 Mas, saindo ele, não lhes podia falar;
do irrepreensivelmente em todos os preceitos e então, entenderam que tivera uma visão no san­
mandamentos do Senhor. tuário. E expressava-se por acenos e permane­
7 E não tinham filhos, porque Isabel era es­ cia mudo.
téril, sendo eles avançados em dias. 23 Sucedeu que, terminados os dias de seu
8 Ora, aconteceu que, exercendo ele diante ministério, voltou para casa.
de Deus o sacerdócio na ordem do seu turno, 24 Passados esses dias, Isabel, sua mu­
coube-lhe por sorte, lher, concebeu e ocultou-se por cinco meses,
9 segundo o costume sacerdotal, entrar no dizendo:
santuário do Senhor para queimar o incenso; 25 Assim me fez o Senhor, contemplando-
10 e, durante esse tempo, toda a multidão me, para anular o meu opróbrio perante os
do povo permanecia da parte de fora, orando. homens.
11 E eis que lhe apareceu um anjo do 26 No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado,
Senhor, cm pé, à direita do altar do incenso. da parte de Deus, para uma cidade da Galilcia,
12 chamada Nazaré,
Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-
se dele o temor. 27a uma virgem desposada com certo homem
13 Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem
temas, porque a tua oração foi ouvida; c Isabel, chamava-se Maria.
tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás 28 E, entrando o anjo aonde ela estava,
o nome de João. disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor
14 Em ti haverá prazer e alegria, e muitos é contigo.
se regozijarão com o seu nascimento. 29 Ela, porém, ao ouvir esta palavra, per-
15 Pois ele será grande diante do Senhor, turbou-se muito e pôs-se a pensar no que sig­
não beberá vinho nem bebida forte e será cheio nificaria esta saudação.
do Espírito Santo, já do ventre materno. 30 Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas;
16 E converterá muitos dos filhos de Israel porque achaste graça diante de Deus.
ao Senhor, seu Deus. 31 Eis que conceberás c darás à luz um
17 E irá adiante do Senhor no espírito e filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus.
poder de Elias, para converter o coração dos 32 Este será grande e será chamado Filho
pais aos filhos, converter os desobedientes à do Altíssimo; Deus, o Senhor, Lhe dará o trono
prudência dos justos e habilitar para o Senhor de Davi, seu pai;
um povo preparado. 33 Ele reinará para sempre sobre a casa de
18 Então, perguntou Zacarias ao anjo: Jacó, e o Seu reinado não terá fim.
Como saberei isto? Pois cu sou velho, e minha 34 Então, disse Maria ao anjo: Como será
mulher, avançada em dias. isto, pois não tenho relação com homem algum?
19 Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Gabriel, 35 Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti
que assisto diante de Deus, e fui enviado para o Espírito Santo, c o poder do Altíssimo te en­
falar-te e trazer-te estas boas-novas. volverá com a sua sombra; por isso, também
20 Todavia, ficarás mudo e não poderás falaro ente santo que há de nascer será chamado
até ao dia em que estas coisas venbam a realizar- Filho de Deus.
se; porquanto não acreditaste nas minhas pala­ 36 E Isabel, tua parenta, igualmente con­
vras, as quais, a seu tempo, se cumprirão. cebeu um filho na sua velhice, sendo este já o
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21 O povo estava esperando a Zacarias sexto mês para aquela que diziam ser estéril. «
c admirava-se de que tanto se demorasse no 37 Porque para Deus não haverá impossí­
santuário. veis em todas as Suas promessas.

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LUCAS 1:1

38 Então, disse Maria: Aqui está a serva do 56 Maria permaneceu cerca de três meses
Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua com Isabel e voltou para casa.
palavra. E o anjo se ausentou dela. 57 A Isabel cumpriu-se o tempo de dar à
39 Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi luz, e teve um filho.
apressadamente à região montanhosa, a uma 58 Ouviram os seus vizinhos e parentes que
cidade de Judá, o Senhor usara de grande misericórdia para com
40 entrou na casa de Zacarias e saudou ela e participaram do seu regozijo.
Isabel. 59 Sucedeu que, no oitavo dia, foram cir­
41 Ouvindo esta a saudação de Maria, a cuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome
criança lhe estremeceu no ventre; então, Isabel dc seu pai, Zacarias.
ficou possuída do Espírito Santo. 60 De modo nenhum! Respondeu sua mãe.
42 E exclamou em alta voz: Bendita és tu Pelo contrário, ele deve ser chamado João.
entre as mulheres, e bendito o fruto do teu 61 Disseram-lhe: Ninguém há na tua paren­
ventre! tela que tenha este nome.
43 E de onde me provém que me venha vi­ 62 E perguntaram, por acenos, ao pai do
sitar a mãe do meu Senhor? menino que nome queria que lhe dessem.
44 Pois, logo que me chegou aos ouvidos a 63 Então, pedindo ele uma tabuinha, escre­
voz da tua saudação, a criança estremeceu de veu: João é o seu nome. E todos se admiraram.
alegria dentro de mim. 64 Imediatamente, a boca se lhe abriu, e,
45 Bem-aventurada a que creu, porque desimpedida a língua, falava louvando a Deus.
serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas 65 Sucedeu que todos os seus vizinhos fi­
da parte do Senhor. caram possuídos de temor, e por toda a região
46 Então, disse Maria: A minha alma en­ montanhosa da Judeia foram divulgadas estas
grandece ao Senhor, coisas.
47 e o meu espírito se alegrou em Deus, 66 Todos os que as ouviram guardavam-nas
meu Salvador, no coração, dizendo: Que virá a ser, pois, este
48 porque contemplou na humildade da Sua menino? E a mão do Senhor estava com ele.
serva. Pois, desde agora, todas as gerações me 67 Zacarias, seu pai, cheio do Espírito
considerarão bem-aventurada, Santo, profetizou, dizendo:
49 porque o Poderoso me fez grandes coi­ 68 Bendito seja o Senhor, Deus de Israel,
sas. Santo é o Seu nome. porque visitou e redimiu o Seu povo,
50 A Sua misericórdia vai de geração cm ge­ 69 e nos suscitou plena e poderosa salvação
ração sobre os que O temem. na casa de Davi, Seu servo,
51 Agiu com o Seu braço valorosamente; 70 como prometera, desde a antiguidade,
dispersou os que, no coração, alimentavam pen­ por boca dos Seus santos profetas,
samentos soberbos. 71 para nos libertar dos nossos inimigos e
52 Derribou do seu trono os poderosos e das mãos de todos os que nos odeiam;
exaltou os humildes. 72 para usar de misericórdia com os nossos
53 Encheu de bens os famintos e despediu pais e lembrar-Se da Sua santa aliança
vazios os ricos. 73 e do juramento que fez a Abraão, o nosso
54 Amparou a Israel, Seu servo, a fim de pai,
lembrar-Se da Sua misericórdia 74 de conceder-nos que, livres das mãos de
55 a favor dc Abraão e de sua descendên­ inimigos, O adorássemos sem temor,
cia, para sempre, como prometera aos nos­ 75 em santidade e justiça perante Ele, todos
sos pais. os nossos dias.

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1:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

76 Tu, menino, serás chamado profeta do das alturas,

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Altíssimo, porque precederás o Senhor, prepa- 79 para alumiar os que jazem nas trevas e ^
rando-Lhe os caminhos, na sombra da morte, e dirigir os nossos pés pelo
77 para dar ao Seu povo conhecimento da caminho da paz.
salvação, no redimi-lo dos seus pecados, 80 O menino crescia e se fortalecia em es­
78 graças à entranhável misericórdia de pírito. E viveu nos desertos até ao dia em que
nosso Deus, pela qual nos visitará o sol nascente havia de manifestar-se a Israel.

1. Visto que. [Prefácio, Lc 1:1-4] Os que os escritores a quem ele está se referindo
v. 1 a 4, que constituem o prefácio de Lucas prosseguiram por si mesmos, sem a orienta­
a seu evangelho, estão num esplêndido koinê ção do Espírito Santo. No entanto, é claro,
literário, isto é, a “[linguagem] comum” da a partir do uso de epicheireõ no papiro, que
fala grega no mundo romano. Esta introdu­ tal conclusão é injustificável e que Lucas
ção está de acordo com os melhores mode­ não tece comentários a nenhum dos auto­
los da literatura grega. Ela é polida, graciosa res anteriores. Eles tinham boas intenções,
e modesta (sobre uma transição de estilo, e os relatos deles não foram rejeitados como
ver com. do v. 5). fonte material histórica, embora as pessoas
A semelhança desta introdução com a do não fossem necessariamente divinamente
livro de Atos (At 1:1, 2), unida ao fato de que inspiradas, como aconteceu com Lucas. Ele
Atos retoma a narrativa no ponto em que o considera esses escritores numa perspectiva
evangelho dc Lucas a deixou (ver Lc 24:50-53),favorável e, de fato, se inclui entre eles, com
sugere que Lucas pretendia que os dois livros a expressão “igualmente a mim” (v. 3).
formassem uma história da igreja cristã pri­ Narração. Do gr. diêgêsis, uma “narra­
mitiva em dois volumes. tiva”. Ela é composta por duas palavras gre­
Muitos. Não há como dizer se Lucas gas que significam, literalmente, “liderar o
inclui Mateus e Marcos em sua referência a caminho através”.
“muitos”, embora por várias razões pensa-se Coordenada. Do gr. anatassomai, "com­
que pelo menos Marcos e, possivelmente, pilar”, “arranjar”, “compor”. A ideia de ordem
Mateus, já tivessem sido escritos (ver p. 165- cronológica ou combinação não é neces­
167). “Muitos” indica mais de dois e é prová­ sariamente indicada (comparar com o gr.
vel que o termo, neste verso, inclua algumas •pathexês; ver com. do v. 3). Esses termos
outras histórias escritas além dos evangelhos. podem sugerir que os relatos dos escritores
Lucas não poderia ter em mente os evange­ evangélicos anteriores estavam incompletos,
lhos apócrifos que existem hoje, porque eles mas de modo algum indica que eles eram
não foram escritos senão muitos anos depois. imprecisos.
Parece que pelo menos alguns dos escrito­ 2. Transmitiram. Do gr. paradidõmi,
res anteriores foram “testemunhas oculares” “entregar”, “transmitir” ou “enviar”. Isto é, as
das coisas que eles registraram e podem, por­ “testemunhas oculares e ministros”. O pro­
tanto, ter pertencido aos doze ou aos setenta nome implícito no verbo (eles) também pode
(ver com. do v. 2). se referir aos “muitos” do v. 1. Neste versí­
Empreenderam. Do gr. epicheireõ, lite­ culo, refere-se simplesmente à transmissão
ralmente, “colocar as mãos para”; por isso, de informação de uma geração ou grupo de
“realizar” ou “tentar”. Alguns comentaristas pessoas para outro(a) (ver lCo 11:23; 15:3;
entendem que a declaração de Lucas indica 2Tm 2:2). Aqueles que “receberam” a verdade

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LUCAS 1:3

deveriam “transmiti-la” a outros. Paulo e ele registrou do testemunho de outros. Lucas


Lucas eram, por assim dizer, a segunda gera­ foi um historiador que partiu em busca das
ção de cristãos, e “receberam” o que eles pas­ fontes originais, mas ele foi muito mais que
saram a outros. isso, pois atuou como um historiador inspi­
Os que. Em outras palavras, aqueles que rado por Deus (2Tm 3:16; 2Pe 1:21).
“transmitiram” as narrativas eram as “tes­ Fica claro, a partir da experiência de
temunhas oculares”, e não aqueles que as Lucas, que o processo de inspiração fun­
receberam. ciona de um modo consistente com a ope­
Desde o princípio. Isto é, do início do ração natural das faculdades mentais e não
ministério público de Jesus, embora algumas à parte delas [para uma análise mais apro­
das “testemunhas oculares” também podem fundada, ver vol. 9, p. 26-66]. Trata-se de
ter conseguido relatar circunstâncias ligadas um escritor inspirado que foi dirigido pelo
à infância de João Batista e de Jesus. Espírito Santo para empreender um estudo
Testemunhas oculares. Do gr. autop- diligente das fontes materiais escritas e orais
tai, “aqueles que veem com seus próprios disponíveis sobre a vida de Cristo e, então,
olhos”. João se referiu a si mesmo como uma combiná-las numa narrativa conectada à
testemunha ocular (Jo 1:14; 21:24; ljo 1:1,2). informação assim reunida (para considera­
lodos os doze, os setenta discípulos e as ção adicional sobre como o Espírito Santo
mulheres que acompanharam e ministraram guia o instrumento humano na utilização dos
a Jesus e Seus discípulos foram testemunhas documentos históricos existentes, ver Francis
oculares, mais ou menos, “desde o início”. D. Nichol, Ellen G. White and Her Critics,
Em contraste, Lucas, Paulo e Timóteo p. 413-422).
podiam ser chamados “testemunhas audi­ 3. A mim me pareceu bem. Pareceu
tivas”, porque o conhecimento deles acerca apropriado a Lucas compor um relato autên­
da vida e do ministério de Jesus era derivado tico, acurado e completo da vida de Cristo,
de outros. Essa aparente desvantagem, no talvez tendo em mente registrar alguns even­
entanto, de forma alguma diminui o valor do tos que pudessem ter sido omitidos em regis­
testemunho deles, porque receberam a infor­ tros anteriores, escritos por “muitos” (ver com.
mação por meio de testemunhas oculares e do v. 1). Essas palavras revelam o modo em
por meio de revelação divina (ICo 15:3-7; que pelo menos alguns dos escritores bíbli­
G1 1:11, 12). cos foram dirigidos por Deus para preparar
A modéstia manifestada neste versículo o registro inspirado. A impressão transmi­
por Lucas é um excelente testemunho em tida à mente de Lucas pelo Espírito Santo fez
favor da confiabilidade e validade do evan­ que lhe parecesse apropriado e desejável uma
gelho que leva seu nome. Ele foi cuidadoso determinada maneira de atuar. No registro
ao afirmar a verdade exata e não estabeleceu do concílio de Jerusalém, em que foi conside­
nenhuma pretensão de ser uma “testemunha rada a admissão dos gentios na igreja cristã,
ocular”, como seria de se esperar de um falsá­ Lucas cita os apóstolos, dizendo que estes
rio. O próprio Lucas declara que sua própria haviam escrito aos crentes de Antioquia o que
compreensão dos fatos a respeito da vida e lhes parecia hem (ver At 15:25). Os irmãos se
do ministério de Cristo se originou dos rela­ aconselharam mutuamente, mas suas delibe­
tos das testemunhas oculares. Assim, parece rações foram guiadas pelo Espírito Santo, e
que o papel do Espírito Santo, no caso de eles explicaram confiantemente que “pare­
Lucas, não era tanto transmitir a informa­ ceu bom ao Espírito Santo e a nós" (v. 28).
ção original como garantir a exatidão do que Assim ocorreu com Lucas: o Espírito Santo

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1:4 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

o impeliu a escrever. No entanto, quando Teófilo. Literalmente, “amigo de Deus”.


ele escreveu, foi de vontade própria, guiado Há pouca evidência para apoiar a explicação
por Deus (sobre o modo pelo qual o Espírito popular de que o nome Teófilo não repre­
Santo guiou os vários escritores bíblicos, ver sentava uma pessoa, mas um nome geral
Ellen G. White, Material Suplementar sobre usado por Lucas para os cristãos. Além disso,
2Pe 1:21). o título “excelentíssimo” parece indicar uma
Depois de acurada investigação. pessoa real. Teófilo foi, possivelmente, um
Literalmente, “tendo buscado acurada­ converso gentio, como indica seu nome grego.
mente”. A segunda razão de Lucas para Em ordem. Do gr. kathexês, “um após

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escrever foi o desejo de transmitir a outros os outro” ou “consecutivamente” (ver com. do <
benefícios que obteve por meio do estudo da v. 1). O evangelho de Mateus consiste, em
vida e dos ensinos de Jesus. Aparentemente, grande parte, dos discursos de Jesus arran­
Lucas começou pelo início e investigou tudo. jados em tópicos, enquanto Marcos lida com
Ele mostra sua narrativa evangélica como os eventos da vida de Jesus, agrupando-os de
uma apresentação sistemática e acurada da acordo com o tipo. O arranjo geral de Mateus
história de Jesus. Essas são características e Marcos é cronológico, mas a sequência
da verdadeira erudição. Enquanto Mateus cronológica não é o principal objetivo deles.
enfatiza os ensinos de Jesus, e Marcos, os Eles rearranjaram a ordem de vários inciden­
incidentes de Sua vida ministerial, Lucas tes cm harmonia com o propósito de cada
combina os dois elementos de modo mais evangelho. Lucas, por outro lado, segue uma
completo e sistemático que o dos outros ordem cronológica bastante rigorosa. Mateus
evangelistas. A declaração de Lucas a res­ c Marcos não atentaram a esse critério (ver
peito de sua “acurada investigação” não é vã p. 178-180).
presunção; 43 das 179 seções da narrativa 4. Conheças (ARC). Do gr. epiginõskõ,
sinótica ocorrem apenas em seu evangelho “conhecer completamente”. Isto é, Teófilo
(verp. 178-180). conheceria mais do que já sabia sobre as
Desde sua origem. Isto é, da vida de “verdades” nas quais ele havia sido “ins­
Jesus. Como um explorador, Lucas traçou truído”.
o fluxo dos eventos desde o início e seguiu Certeza. Do gr. asphaleia, que não
o fluxo bem de perto por todo o seu curso. falhará, de duas palavras s-phallõ, “camba­
Consequentemente, ele apresenta as cir­ lear”, “cair”, e o prefixo a, “não”. Há “certeza”
cunstâncias que cercaram o nascimento e a quanto aos fatos da fé cristã e aquele que crê
infância de Jesus com mais detalhes que os neles estará firme e seguro contra o erro.
outros evangelistas. Apenas Lucas registra Foste instruído. Do gr. katêcheõ, “ins­
cinco dos seis eventos antes do nascimento truir” ou “ensinar oralmente”; literalmente,
de Jesus (ver p. 184-186). “parecer sobre”.
Excelentíssimo. Pronome de trata­ Katêcheõ é a origem da palavra portu­
mento usado com frequência com relação a guesa “catequese”. E traduzida como “infor­
oficiais do alto governo, comparável ao atual mado” (At 21:21) e “instruído” (At 18:25;
“sua excelência”. O mesmo termo é usado Cl 6:6). Esta palavra pode indicar que Teófilo
para se referir aos procuradores romanos tinha, até aquele momento, recebido ape­
da Judeia (At 23:26; 24:3; 26:25). É notável nas instrução oral, como a que precedia o
encontrar um homem, aparentemente um batismo. E possível que ele fosse um dos con­
alto funcionário, aceitando o cristianismo versos de Lucas, alguém a quem Lucas “cate­
nesse período inicial. quizou”. Ou pode ser que Lucas escreveu
734
LUCAS 1:5

para refutar informações falsas contra o e opressão para o povo judeu, apesar de o rei
cristianismo. ter publicamente aderido à religião judaica. «

670
5. Nos dias. [Zacarias e Isabel, Lc 1:5-7. Seu caráter dissoluto, mais ou menos típico
Ver mapa, p. 211; gráfico, p. 224]. A data­ na época em que ele viveu, é descrito em
ção pelos anos de reinado era muito comum forte contraste com o caráter de Zacarias.
na literatura grega. Ao iniciar sua narrativa, Judeia. Escrevendo primeiramente aos
Lucas deixa o estilo literário koinê dos v. 1 leitores não palestinos, Lucas parece utili­
a 4, com sua linguagem elegante, e se volta zar o nome “Judeia” como um termo geral
para um estilo hebraico na forma, que faz para toda a Palestina (Lc 6:17; 7:17; At 10:37).
lembrar narrativas do AT, como a do nas­ Zacarias. Do heb. Zekaryah, “Yahweh
cimento de Samuel. Na verdade, Lucas 1:5 lembra” ou “Yahweh tem lembrado”. Este
a 2:52 talvez sejam os mais “hebraicos” de nome foi utilizado pelo filho de Joiada
todos os escritos de Lucas. Revelam as mar­ (2Cr 24:20), pelo profeta Zacarias e por mui­
cas características de Lucas como autor. tos outros.
Diferentemente de outros evangelistas, Do turno de Abias. Davi dividiu o ser­
Lucas relata detalhes de natureza íntima. viço sacerdotal cm 24 turnos (lCr 24:1-18;
Ele informa, por exemplo, que Maria “guar­ 2Cr 8:14), dos quais o turno de Abias (ou
dava todas estas palavras, meditando-as no Abia) era o oitavo (lCr 24:10). Dezesseis
coração” (Lc 2:19). Em vista disso e pelo fato turnos eram cobertos pelos descenden­
de que outros escritores dos evangelhos tive­ tes de Eleazar e oito eram dirigidos pelos
ram pouco a dizer sobre esses aspectos, é descendentes de Itamar, ambos filhos de
possível que a informação registrada neste Arão. Apenas quatro turnos foram repre­
versículo possa não ter sido de conhecimento sentados pelos sacerdotes que retornaram
geral entre os cristãos dos primeiros anos da de Babilônia depois do cativeiro, e Abias
igreja apostólica. não estava entre esses (ver com. de Ed 2:36).
Visto que Lucas se refere a muitas fon­ Mas os que retornaram foram divididos
tes de informação orais e escritas (ver com. em 21 ou 22 turnos (expandidos para 24
dos v. 1-3), alguns sugerem que ele pode ter no tempo do NT), e foram-lhes atribuídos
sido informado sobre os eventos da inlân- os nomes dos turnos originais (ver com. de
cia de Jesus pela própria Maria. Parece que Ne 12:1). Segundo Josefo, esperava-se que
a narrativa é apresentada do ponto de vista cada turno de sacerdotes servisse por uma
dc Maria, assim como Mateus apresenta a semana, de sábado a sábado (Antiguidades,
narrativa do nascimento de Jesus do ponto vii.14.7 [365, 366]), semestralmente. Na
de vista de José (Mt 1). Festa dos Tabernáculos, esperava-se que os
A seção do nascimento (Lc 1:5—2:52) sacerdotes de todos os 24 turnos estivessem
consiste de sete partes: (1) O anúncio do presentes. As tentativas para se determinar a
nascimento de João Batista (Lc 1:5-25); época do ano em que ocorreu o turno de ser­
(2) o anúncio do nascimento de Jesus (v. 26- viço de Abias, baseadas no turno de serviço
38); (3) a visita de Maria a Isabel (v. 39-56); na época em que os romanos destruíram o
(4) o nascimento dc João Batista (v. 57-80); templo, em 70 d.C., são aparentemente de
(5) o nascimento de Jesus (Lc 2:1-20); (6) a pouco ou nenhum valor, no que diz respeito
circuncisão e a apresentação de Jesus (v. 20- à datação da narrativa de Lucas.
38); e (7) a infância de Jesus (v. 39-52). Isabel. Do heb. ‘Elisheba’, significando
Herodes. Ver p. 26-30; gráficos, p. 28, “meu Deus jurou” ou “meu Deus é abundân­
231. O reinado de Herodes foi de crueldade cia”, o nome da esposa de Arão (Ex 6:23).

735
1:6 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTÍSTA

6. Justos. Aparentemente, Zacarias e Cristo iniciasse Seu ministério sacerdotal


Isabel pertenciam ao pequeno grupo que (Hb 9:10, 11). Em outras palavras, Zacarias
avidamente estudava as profecias e aguar­ e Isabel se propuseram a obedecer a Deus,
dava a vinda do Messias (DTN, 44, 47, 98). buscando a salvação através dos meios pre­
Entre os judeus, o termo “justo” chegou a vistos e, como resultado, foram considerados

671
ter um sentido técnico, referindo-se àqueles como “justos diante de Deus”.
que observavam estritamente a lei ritual e as 7. Não tinham filhos. Entre os povos
tradições rabínicas. E evidente, no entanto, orientais a falta de filhos sempre era vista
que, em relação a Zacarias e Isabel, a justiça como uma grande aflição. Geralmente, os
era muito mais que conformidade externa judeus consideravam a falta de filhos como
à lei. Eles não eram meros legalistas, mas punição divina para o pecado (ver com. de
conscientes e exemplares em seu firme pro­ Lv 20:20). Entre os judeus, bem como entre
pósito de adorar a Deus “em espírito e em os povos orientais de hoje, a falta de filhos é
verdade” (Jo 4:24). Outros membros deste considerada motivo suficiente para a poliga­
pequeno e seleto círculo que aguardava a mia e o concubinato, e é aceita como razão
vinda do Messias eram José e Maria (ver jurídica suficiente para o divórcio.
com. de Mt 1:16-19), bem como Simeão e Com frequência homens escolhidos antes
Ana (ver com. de Lc 2:25, 26, 38). do nascimento para realizar uma grande
Diante de Deus. Antes de sua conver­ tarefa para Deus nasceram a despeito da
são, Paulo considerava ter a “justiça que há idade ou esterilidade por parte de seus pais
na lei” (Fp 3:6; ver At 23:1). Mas a conversão (ver Gn 11:30; 17:17; 18:11; 25:21; 30:22-24;
trouxe a ele a percepção de que tal “justiça” ISm 1:2, 8, 11). Para o ser humano, muitas
não tinha valor (ver Rm 2:24, 25; lTm 1:15). coisas são impossíveis, mas “para Deus não
No caso de Zacarias e Isabel, no entanto, haverá impossíveis” (Lc 1:37). Muitas vezes,
a “justiça” deles excedia a dos escribas e fari­ Deus leva as pessoas a se darem conta de sua
seus (Mt 5:20), que faziam suas boas obras própria fraqueza para que elas valorizem Seu
para serem vistos (Mt 6:1, 5). Zacarias e poder quando a libertação ocorre. No caso
Isabel eram justos “diante de Deus”. Eram de Isabel, houve uma razão dupla para não
nobres sucessores a heróis da fé como Noé esperar filhos, porque além da esterilidade,
(Gn 6:9; 7:1; Hb 11:7), Abraão (Hb 11:8), Jó ela tinha idade avançada.
(Jó 1:8; 2:3) e Daniel (Dn 5:11, 12; 10:11), Avançados em dias. A expressão vem
aprovados pela justiça do Céu (ver Ez 14:14). de um idiomatismo hebraico característico
Preceitos e mandamentos. Nos dias (ver Gn 24:1; Js 13:1), que quer dizer apenas
de Zacarias e Isabel isto significava viver em “avançado em idade”.
harmonia com a lei moral e a lei de Moisés. 8. Aconteceu que. [Predições refe­
Uma vez que todos os homens “pecaram rentes a João Batista, Lc 1:8-23. Ver mapa,
e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23; ver p. 211; gráfico, p. 224]. Do gr. egeneto, de
também ljo 3:4), todos têm necessidade de ginomai, “tornar” ou “estar”. A expressão,
que alguém os liberte da morte, que é a pena­ quando ocorre no início de uma seção narra­
lidade da desobediência (Rm 6:23; 7:24). tiva como neste verso, é o equivalente grego
O Libertador é ninguém mais que Cristo da fórmula heb. wayehi, “aconteceu que”,
Jesus (Lc 7:25-8:4). Mas até que o Salvador muito comum no AT. A expressão é consis­
viesse ao mundo, Deus ordenou um sistema tentemente omitida em algumas traduções
de sacrifícios (Hb 9:1), que Ele impôs “até ao modernas, visto que o sentido é claro e com­
tempo oportuno de reforma”, isto é, até que pleto sem ela.

736
LUCAS 1:10

Seu turno. Ver com. do v. 5. dos pecados de Israel e pela vinda do Messias
Coube-lhe por sorte. Do gr. lagchanõ, (DTN, 99).
“conseguir por sorte”. Devido ao grande O privilégio de oficiar no altar de ouro em
número de sacerdotes, nem todos podiam favor de Israel era considerado uma grande
oficiar em qualquer serviço. Por esse motivo, honra, e Zacarias era digno dela em todos os
as sortes eram lançadas para se determinar aspectos. Esse privilégio normalmente era
quem participaria a cada manhã e tarde. dado a cada sacerdote apenas uma vez na
Segundo a tradição judaica, os sacerdotes vida, e era um grande momento. Geralmente,
ficavam num semicírculo e cada um levan­ nenhum sacerdote poderia oficiar no altar
tava um ou mais dedos para serem contados. mais que uma vez, e é possível que alguns
Dizendo algum número, tal como 70, o “pre­ deles nunca teriam essa oportunidade.
sidente” começava contando e continuava até O sacerdote escolhido por sorte para
que o número selecionado indicasse quem oferecer o incenso selecionava dois compa­
foi escolhido. A primeira sorte determinava nheiros sacerdotes para auxiliá-lo: um para
quem purificaria o altar de ofertas queima­ remover as brasas antigas do altar, e o outro,
das e prepararia o sacrifício; e a segunda, para colocar novas brasas, tiradas do altar
quem deveria oferecer o sacrifício e purifi­ de ofertas queimadas. Esses dois sacerdo­
car o candelabro e o altar de incenso. A ter­ tes saíam do lugar santo depois que termi­
ceira sorte, que determinava quem ofereceria navam suas tarefas, e o sacerdote escolhido
o incenso, era a mais importante. A quarta por sorte arranjava o incenso sobre as bra­
sorte determinava quem queimaria as par­ sas enquanto intercedia por Israel. Ao subir a
tes do sacrifício no altar e realizaria a parte nuvem de incenso, ela enchia o lugar santo e
final do serviço. Lançar sortes de manhã se passava por cima do véu para o lugar santís­

672
aplicava também ao serviço da noite, exceto simo. O altar de incenso ficava diante do véu, «
que a sorte fosse lançada mais uma vez para e, embora situado no lugar santo, parece ter
a queima de incenso. sido considerado como pertencendo ao lugar
9. Para queimar o incenso. A queima santíssimo (ver com. de Hh 9:4). O altar de
do incenso era considerada a parte mais ouro era “um altar de intercessão perpétua”
importante e sagrada dos serviços diários (PP, 353), porque dia e noite o santo incenso
matutinos e vespertinos. Esses momentos difundia sua fragrância por todos os sagra­
de adoração, nos quais um cordeiro era ofe­ dos arredores do templo (PP, 348).
recido (Ex 29:38-42) para a oferta queimada, 10. Multidão. Do gr. plêthos, uma pala­
eram conhecidos como “oferta queimada” ou vra favorita de Lucas, que a utilizou 25 vezes,
“sacrifício” da manhã e da tarde (2Cr 31:3; Ed em comparação com as sete vezes que os
9:4, 5) ou como a “hora do incenso’’ (Lc 1:10, demais escritores do NT a utilizaram jun­
ARC; ver Ex 30:7, 8). Eram momentos de tos. Alguns comentaristas sugeriram que
oração para todos os israelitas, quer para Zacarias estava oficiando no culto matutino;
os que estavam presentes no serviço, quer outros creem que oficiava no culto vesper­
para os que estavam em casa ou em terras tino. No tempo de Cristo, o sacrifício matu­
estrangeiras. Como o incenso subia do altar tino era oferecido aproximadamente às nove
de ouro, as orações de Israel subiam com ele horas e o vespertino, às 15 horas. Nos dois
até Deus (Ap 8:3, 4; ver com. de SI 141:2) períodos, uma multidão considerável se reu­
por eles mesmos e por sua nação, em con­ nia (ver At 2:6, 15). Talvez os idosos e pie­
sagração diária (PP, 352, 353). Nesse ser­ dosos Simeão e Ana (ver com. de Lc 2:25,
viço o sacerdote oficiante orava pelo perdão 36) estavam misturados e despercebidos no
737
1:11 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENT1STA

grupo de adoradores dessa reunião, e eleva­ tempo para o aparecimento do Messias estava
ram os pensamentos em oração pela vinda próximo. Por muitos anos, ele tinha orado
do Messias. pela concretização da esperança de Israel,
Fora. Isto é, Fora do santuário, mas den­ e então Gabriel lhe assegurou que o cum­
tro dos pátios sagrados do templo. primento dessas profecias estava próximo
11. Eis que lhe apareceu. A partir do (ver DTN, 98). Outros creem que a "oração”
registro, parece que a aparição do anjo não ouvida foi a anterior, em que Zacarias pediu
foi apenas em visão, mas realmente visível por um filho. Nos anos anteriores, Zacarias
às percepções normais dos sentidos. orou por um filho (ver Gn 15:1, 2; 25:21;
Anjo do Senhor. Lste era o anjo Gabriel 30:22; iSm 1:10, 11; etc.). Não c provável,
(ver com. do v. 19), que mais de cinco séculos como sugerem alguns comentaristas, que
antes tinha aparecido a Daniel para anunciar Zacarias orasse por um filho naquela oca­
o tempo da vinda do Messias (Dn 9:21, 25). sião, porque sua resposta ao anjo (Lc 1:18)
Então, com a proximidade da vinda do indica que ele já tinha desistido da esperança
Senhor, Gabriel surge para anunciar o nas­ de ter um filho.
cimento do profeta que prepararia o povo João. Do gr. Iõannês, do heb. Yochanan,
para a vinda do Prometido. ou Yehochanan, significando "Yahweh é gra­
À direita. Do altar. Este era o lado sul, cioso". Várias pessoas tiveram esse nome
a posição considerada do ponto de vista do (ver 2Rs 25:23; iCr 3:15; 26:3; 2Cr 17:15;
altar que está com a frente para o leste. Ed 10:6, 28; Ne 12:13; Jr 40:8).
O lado direito era geralmente uma posição 14. Em ti haverá prazer e alegria. Os
de honra (ver Mt 25:33; At 7:55, 56; Hb 1:3; v. 14 a 18 estão na forma métrica caracterís­
etc.), e Zacarias deveria ter reconhecido a tica da poesia hebraica, em que há ritmo e
posição como uma indicação de favor, mas repetição, em vez de medida e som. O nas­
não o fez (DTN, 97, 98; ver PP, 351). cimento de um filho a Isabel traria alegria
12. Apoderou-se dele o temor. A rea­ a Zacarias, mas essa alegria se tornaria em
ção do idoso sacerdote dificilmente poderia alegria para todos que prestassem atenção à
ser considerada inesperada ou pouco natural mensagem do filho e fossem "para o Senhor
(ver Jz. 6:22; 13:22; Lc 2:9; 9:34; At 19:17). um povo preparado" (v. 17; Lc 2:32).
13. Não temas. Geralmente, estas 15. Será grande. Na estima do Céu,
são as primeiras palavras dos seres celes­ não é riqueza, posição, nobre descendência
tiais quando se dirigem aos seres humanos ou dons intelectuais que constituem gran­
(Gn 15:1; 21:17; Lc 1:30; 2:10). Os anjos estão deza. Deus valoriza a dignidade moral e apre­
constantemente trabalhando para remover cia os atributos do amor e da pureza. João era
673

o temor do coração de homens e mulheres grande “aos olhos do Senhor" (ver Mt 11:11), «
consagrados (ver Hh 1:14; 2:15) e para subs­ em contraste com Herodes, “grande” à vista
tituí-lo pela “paz de Deus, que excede todo dos homens que anseiam por posição, riqueza
o entendimento” (Fp 4:7). A perfeita com­ e poder. João foi um grande servo de seus
preensão de Deus e o amor por Ele remo­ companheiros; Herodes foi um grande tirano
vem todo temor do coração (ver Mt 6:30-34; sobre eles. João viveu para os outros; Herodes
IJo 4:18). viveu apenas para si. João foi grande do
Foi ouvida. Alguns creem que foi ouvida mesmo modo como Elias foi grande, em con­
a oração de Zacarias pela vinda do Messias. verter “muitos dos filhos de Israel ao Senhor,
Por meio do estudo das profecias, principal- seu Deus” (Lc 1:16). Herodes foi grande do
mente as de Daniel, Zacarias sabia que o mesmo modo que Ninrode o foi (ver com. de

738
LUCAS 1:16

Gn 10:9-12), em levar pessoas a duvidar e a Cheio do Espírito Santo. Em vez de


se opor a Deus (Gn 10:9, 10; ver Lc 11:2-4; bebida forte (ver Ef 5:18). Quando os após­
ver p. 27-30; ver com. de Mt 11:13, 14). tolos estavam “cheios do Espírito Santo” no
Vinho. Do gr. uinus (ver com. seguinte). Pentecostes (At 2:4, 15-17), foram acusa­
Bebida forte. Do gr. sikera, uma pala­ dos de estar “embriagados” (At 2:13). Com
vra emprestada do aramaico shikra’ e do heb. aqueles a quem Deus escolheu para Seu ser­
shekar (ver com. de Nm 28:7). Shekar pode viço não deve haver dúvida quanto ao tipo
ser vinho ou alguma bebida intoxicante como de estímulo que os move à ação. O estímulo
o vinho, caso seja feita de cevada ou des­ de tipo inferior exclui o de natureza supe­
tilada de mel ou tâmaras. A raiz do verbo rior. João devia ser iluminado, santificado
hebraico significa “beberão máximo”, “beber e guiado pela influência do Espírito Santo.
até a hilaridade” ou “estar bêbado”. Alguns Em seu evangelho e no livro de Atos, Lucas
comentaristas têm pensado que o uso que menciona o Espírito Santo mais de 50 vezes,
Lucas faz destes dois termos oinos, “vinho”, muito mais do que os outros evangelistas jun­
e sikera, "bebida forte”, indica que bebidas tos, que fizeram 13 referências a Ele.
intoxicantes feitas de uvas não estão incluí­ Já do ventre materno. A existência
das no termo sikera. Mas essa distinção não de João foi devida à vontade e ao poder de
é justificada porque: (1) sikera é apenas uma Deus, não do ser humano. Ele veio ao mundo
transliteração grega do heb. shekar, que inclui com a missão de sua vida já designada, e
todas as bebidas intoxicantes; (2) a forma deveria ser dedicado a Deus desde o princí­
poética dos v. 14 a 17 não justifica uma dis­ pio. Eoi possível ao Espírito Santo “encher”
tinção quanto à classificação entre “vinho” e João desde o nascimento, pois o Espírito pri­
“bebida forte”, assim como ocorre entre “ale­ meiro “encheu” a mãe de João, Isabel, diri­
gria” e “regozijo", no v. 14. Quando falamos gindo sua vida. Durante os primeiros anos
em trabalhar com “poder e princípio” não nos das crianças, os pais estão no lugar de Deus
referimos a duas fontes de poder separadas e para eles (PP, 308). “Felizes são os pais cuja
distintas; apenas nos referimos ao exercício vida é um verdadeiro reflexo da Divindade”
de todas as forças. Do mesmo modo, Lucas (PR, 245). Foi por meio do Espírito Santo que
ou melhor, o anjo Gabriel, usa os dois ter­ Maria recebeu sabedoria para cooperar com
mos simplesmente para enfatizar a exclusão os agentes celestiais no desenvolvimento e
de qualquer coisa intoxicante. educação de Jesus (DTN, 69). As mães, hoje,
Como Sansão (Jz 13:4, 5) e Samuel (ver que escolhem viver em comunhão com Deus
com. de lSm 1:22), João Batista era nazi- podem esperar que o divino Espírito Santo
reu de nascimento (DTN, 102). Em todos molde seus pequenos filhos, "já desde os pri­
os momentos, um nazireu (ver com. de meiros momentos” (DTN, 512). Desta forma,
Gn 49:26; Nm 6:2) deveria manter os apeti­ nossas crianças, como João Batista, podem
tes e paixões sob estrita sujeição ao princí­ desfrutar o feliz privilégio de ser “cheios do
pio (ver com. de Jz 13:5). A importante tarefa Espírito Santo” (ver com. de Lc 2:52).
atribuída a João Batista, exigia força mental 16. Converterá muitos. Isto é, por
e discernimento espiritual, para que ele per­ meio do arrependimento. O batismo de
manecesse como um exemplo diante do povo João era um “batismo de arrependimento”
de sua época. De modo semelhante, aque­ (Lc 3:3; ver também Mc 1:4; At 13:24;
les que participam na tarefa de proclamar 19:4). Arrependimento, ou conversão do
a segunda vinda de Cristo devem purificar pecado, era a parte mais importante de sua
sua vida “assim como Ele é puro” (IJo 3:3). mensagem. Os seres humanos precisam se

739
1:17 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

arrepender caso queiram estar preparados de 2Rs 1:8). Ambos os profetas sofreram per­
para o dia do Senhor (Lc 1:17) e para entrar seguição (ver lRs 18:10; 19:2; Mt 14:10).
em Seu reino (ver Mt 3:2; 4:17; 10:7). A obra As profecias a respeito do precursor do
► de joão era persuadir as pessoas a abando­ Messias foram tão notavelmente cumpri­
674

nar seus pecados e exortá-las a buscar ao das em João Batista que o povo e seus líde­
Senhor, seu Deus. Essa era a obra que Elias res reconheceram a semelhança entre João
realizava (ver com. de lRs 18:37). A narra­ e Elias (ver Jo 1:19-21). Mesmo depois da
tiva do AT termina (ver Ml 3:1; 4:5, 6) e a do morte de João, sacerdotes, escribas e anciãos
NT começa com o tema dos “filhos de Israel ’ não negaram que João tinha sido um profeta
voltando “ao Senhor, seu Deus” (ver Lc 1:16). (Mt 21:24-27; Mc 11:29-33; Lc 20:3-7). Nem
17. Irá adiante do Senhor. Como o cruel Uerodes ousou tirar a vida de João até
profetizado especificamente por Isaías (ver que as circunstâncias aparentemente o leva­
com. de Is 40:3-5) e Malaquias (ver com. ram a executá-lo (Mt 14:3-11; Mc 6:17-28;
de Ml 3:1). Essa é a tarefa atribuída à igreja DTN, 222). João negou ser Elias em pes­
remanescente hoje. soa (Jo 1:21), mas Jesus afirmou que João
Nos v. 16 e 17 encontra-se uma pérola veio em cumprimento das profecias da vinda
da verdade. Nos v. 16 e 17 Lucas afirma que de Elias (Mt 11:9-14; 17:10-13). Esse fato foi
joão Batista converteria muitos dos filhos de totalmente compreendido pelos discípulos
Israel ao Senhor, e então segue imediata­ (Mt 17:13).
mente com o comentário: “Ele [joão Batista] A obra de Elias e João Batista é necessá­
irá diante d Ele” [obviamente o Messias, mas ria hoje. Nestes dias de corrupção moral e
também o “Senhor, seu Deus”, do v. 16]. cegueira espiritual há necessidade de vozes
É evidente que Lucas aponta à divindade que corajosamente proclamem a vinda do
do Messias, mesmo que de forma indireta. Senhor a toda a Terra. O chamado dessa hora
No espírito e poder de Elias. A intré­ é para homens e mulheres que ordenarão
pida coragem de Elias em dias de aposta­ suas vidas como fez João e o Elias da anti­
sia e crise (ver lRs 17:1; 18:1-19, 36-40) guidade, e que convidarão outros a fazer o
fez do profeta um símbolo de completa mesmo. Há a necessidade de uma obra de
reforma e lealdade a Deus. Uma obra simi­ reforma sincera, não apenas fora da igreja,
lar era necessária a fim de converter o mas dentro dela. Deus convida a todos que
coração das pessoas à fé de seus pais (ver O amam e O servem para irem “no espírito
jo 8:56; IPe 1:10, 11). A obra de João Batista e poder de Elias" (T3, 61).
como precursor do Messias tinha sido pre­ Coração dos pais. O contexto neste
vista pelos profetas (ver Is 40:1-11; Ml 3:1; versículo e em Malaquias 4:5 e 6 sugere o
4:5, 6), como sabiam aqueles que estuda­ emprego de uma linguagem figurada. A men­
vam as profecias. Até os escribas reconhe­ sagem de Gabriel foi dada na forma literá­
ceram que “Elias deveria vir primeiro”, antes ria da poesia hebraica, em que o ritmo do
da vinda do Messias (Mt 17:10; Mc 9:11, 12). pensamento é usado em vez da métrica (ver
Sua mensagem era de reforma e arrependi­ vol. 3, p. 1-13). Os “filhos de Israel” deveriam
mento (ver Mt 3:1-10). João se assemelhava ter voltado para o “Senhor, seu Deus”, o Pai
a Elias não apenas na obra que ele deveria celestial deles (Lc 1:16); os “desobedientes”,
fazer e na coragem com que deveria procla­ para a “prudência dos justos” (v. 17). A obra
mar a verdade (ver lRs 21:17-24; Mt 3:7-10), de Elias era converter o coração dos desobe­
mas até mesmo em seu modo de vida e em dientes filhos de Israel em sua geração para
sua aparência externa (ver Mt 3:4; ver com. a sabedoria do justo Pai celestial, chamando

740
LUCAS 1:18

a atenção para as experiências de seus “pais” devido em grande parte ao ministério de João
(ver lCo 10:11). Esta foi a obra que Elias rea­ Batista, houve alguns que estavam prontos
lizou (ver lRs 18:36, 37). Como descenden­ para recebê-Lo. Da mesma forma, somos
tes espirituais de nosso pai Abraão (G1 3:29) aconselhados a estar “prontos” (Mt 24:44),
deveríamos, em fé, volver nosso coração para porque aqueles que estiverem “prontos”
Deus (Hb 11:8-13, 39, 40) e sempre lembrar irão com Cristo para as bodas (Mt 25:10).
o modo pelo qual Ele conduziu os “pais” no O cristão que mantém acesa a esperança
passado (ver LS, 196). do retorno do Senhor em seu coração
A declaração de Malaquias, citada neste é que estará “preparado para o Senhor”
versículo por Lucas, também tem sido expli- quando Ele vier (ver Hb 9:28; 2Pe 3:11, 12;
► cada literalmente como aplicada à respon­ ljo 3:3).
675

sabilidade paterna de educar os filhos “na 18. Como saberei isto? A promessa
disciplina e na admoestação do Senhor” parecia muito boa para ser verdade! Não há
(Ef 6:4). Um dos primeiros resultados da dúvidas de que, por anos, Zacarias orou por
verdadeira conversão é o fortalecimento dos um filho (ver com. de Lc 1:13) e quando sua
laços familiares. A reforma genuína sempre oração estava prestes a ser respondida, sua fé
faz isso. O lar certamente está incluso na não foi suficientemente grande para aceitar
obra de reforma descrita neste verso, como a resposta. Quantas vezes as pessoas veem
sendo um importante aspecto para levan­ dificuldades no modo do cumprimento das
tar “para o Senhor um povo preparado” (ver promessas de Deus, esquecendo que “para
com. do v. 15). Deus não haverá impossíveis” (Lc 1:37).
Prudência. Do gr. phronêsis, “compreen­ Assim foi com Sara (ver Gn 18:11, 12), com
são”, “intenção”. A “prudência” da qual o anjo Moisés (ver Ex 4:1, 10, 13), com Gideão (ver
fala é do tipo que leva a pessoa a se converter Jz 6:15-17, 36-40) e com os crentes que ora­
da desobediência para a obediência, da injus­ ram na casa de Maria em prol da libertação
tiça para a justiça. Essa transformação ocorre de Pedro (ver At 12:14-16). Até Abraão, que
não tanto em resultado de conhecimento “nãoduvidou, por incredulidade, da promessa
intelectual, mas de uma mudança de mente de Deus” (Rm 4:20), sentiu a necessidade de
(ver Rm 12:2) que acompanha a mudança de evidência tangível sobre a qual estabelecer
coração (ver Ez 11:19; 18:31; 36:26). É ape­ sua fé (ver Gn 15:8; 17:17).
nas quando a pessoa ama a Deus que ela Eu sou velho. A idade de aposentadoria
deseja obedecê-Lo (Jo 14:15; 15:10). Quando para os levitas era de 50 anos (ver com. de
as afeições são postas “nas coisas lá do alto” Nm 8:24). No entanto, os sacerdotes se apo­
(Cl 3:2), a verdadeira “prudência” se apodera sentavam do serviço ativo apenas quando a
do coração e da vida. idade ou a doença os impossibilitava fisica­
Um povo preparado. As pessoas dos mente para ministrar no altar. Abraão e Sara
dias de Noé não estavam preparadas para o foram descritos como “avançados em idade”
dilúvio (Lc 17:27), nem as pessoas de Sodoma quando tinham 99 e 89 anos, respectiva­
estavam preparadas para a destruição que mente (Gn 18:11). Por volta de 92 anos de
atingiu aquela cidade. Os filhos de Israel idade, Josué foi chamado de “idoso, entrado
que deixaram o Egito não estavam prepara­ em dias” (ver com. de Js 13:1), embora ele
dos para entrar na terra prometida (Hb 3:19). tenha vivido até os 110 anos (Js 24:29). Foi
O povo dos dias de Cristo não estava pre­ dito que Davi era “velho e entrado em dias”
parado para encontrá-Lo e, portanto, “não (lRs 1:1), na época de sua morte, no seu
O receberam” (ver Jo 1:11). No entanto, 71° ano (2Sm 5:4, 5). E seguro concluir que

741
1:19 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Zacarias tinha entre 60 e 70 anos de idade, ele também se associou com outras pessoas.
talvez próximo à última. Foi justamente ele quem atuou no palácio
Avançada em dias. Ver com. do v. 7. persa para influenciar Ciro e Dario a emi­
19. Gabriel. Do gr. Gabriel, do heb. tirem o decreto autorizando a reconstrução
Gabriel, significando “homem de Deus”. do templo (Dn 10:13, 20; 11:1). Ele é o anjo
A palavra hebraica usada para “homem” é da profecia que foi comissionado pelo Céu
geber, indicando um “homem forte”. para organizar os assuntos dos seres huma­
Gabriel ocupa a posição da qual Lúcifer nos em harmonia com a vontade de Deus.
caiu (DTN, 693; GC, 493) e está próximo, Segundo a tradição judaica, Gabriel é o
cm honra e posição, ao próprio Cristo (DTN, anjo do juízo e um dos quatro arcanjos que
98, 99, 234; Dn 10:21). Foi Gabriel que apa­ possuem acesso à presença divina perma­
receu a Daniel (Dn 8:16; 9:21) para anunciar nentemente.
a vinda do “Ungido”, o “Príncipe” (Dn 9:25). Trazer-te estas boas-novas. Do gr.
Nos tempos do NT, ele apareceu a Zacarias euaggelizõ, “proclamar boas novas” ou “anun­
(Lc 1:19), a Maria (v. 26, 27) e, possivelmente, ciar boas-novas” (ver com. de Lc 2:10).
a José (ver com. de Mt 1:20). Foi Gabriel 20. Ficarás mudo. Zacarias expres­
quem fortaleceu a Cristo no Getsêmani sou dúvida na palavra do anjo. Então, ele
(DTN, 693), que interveio entre Ele e a mul­ recebeu um sinal de confirmação que tam­
tidão (DTN, 694), que abriu a tumba e cha­ bém era uma penalidade pela descrença.
mou o Salvador (DTN, 779, 780). Gabriel Sua falta de fé trouxe juízo e bênção. Sua
também foi um dos dois anjos que acompa­ descrença foi curada imediata e completa­
nhou a Cristo durante Sua vida (DTN, 793) mente. Simultaneamente, sua aflição foi
e apareceu aos discípulos no monte das um meio de atrair a atenção do povo para
Oliveiras enquanto Cristo ascendia ao Céu o anúncio do nascimento do precursor do
(DTN, 832; cf. 780). Foi Gabriel que apare­ Messias. A condição de Zacarias não ape­
ceu a João em Patmos (DTN, 99; ver com. de nas atraiu a atenção da multidão reunida no
► Ap 1:1) e que falou de si mesmo como “con­ pátio do templo (v. 22) como lhe deu a opor­
676

servo teu, [conservo] dos teus irmãos, os pro­ tunidade de comunicar o que ele tinha visto
fetas” (Ap 22:9). e ouvido (DTN, 99) de uma forma que eles
Assisto diante. Esta expressão é utili­ nunca esqueceriam.
zada no AT para os altos oficiais que minis­ Em alguns aspectos, a experiência de
travam no palácio (IBs 10:8; 12:6; Pv 22:29; Zacarias é semelhante à de Ezequiel no que
Dn 1:19). Por meio desta simples declaração se refere a ficar mudo (ver Ez 3:26) e perma­
que revela a honrada posição que ele ocupa necer assim (Lc 24:27) até o cumprimento
no Céu, Gabriel apresenta-se a Zacarias de sua mensagem (Lc 33:22).
como um representante de Deus. Diz-se dos Não acreditaste. Embora não fosse fácil
anjos que eles “veem incessantemente a face” para Abraão compreender a realidade da pro­
do Pai celeste (Mt 18:10). messa divina de que seu próprio filho deve­
Gabriel é, por assim dizer, o “primeiro ria ser seu herdeiro (ver Gn 15:2, 3; 17:17,
ministro” do Céu, o líder da hoste angélica 18), ele estava pronto para acolher a palavra
“para serviço a favor dos que hão de her­ do Senhor (ver Gn 15:6). Ele tinha uma fé
dar a salvação” (Hb 1:14). Ele é, num sen­ forte e “não duvidou, por incredulidade, da
tido especial, o embaixador celestial nesta promessa de Deus” (ver Rm 4:19-22). Parece
terra (DTN, 99). Gabriel não manteve comu­ que Zacarias, embora “justo” e "irrepreensí­
nhão apenas com pessoas justas na terra; vel” diante de Deus (Lc 1:6), não estava à

742
LUCAS 1:24

altura cie Abraão quando chegou o tempo 23. Ministério. Do gr. leitourgia, uma
de exercer a fé. palavra grega comum denotando “serviço
21. Estava esperando. Zacarias per­ público”. Na LXX, leitourgia é extraída do
maneceu sozinho no lugar santo mais ministério do sacerdote em favor da congre­
tempo do que o normal. A tradição exigia gação. O termo é usado em Hebreus 8:6 e
que o sacerdote que oferecia incenso nas 9:21 para o “ministério” de Cristo no san­
horas de oração matutinas e vespertinas tuário celestial.
não deveria prolongar sua permanência no Cada “turno” de sacerdotes se mantinha
lugar santo, temendo que as pessoas tives­ no plantão do templo de sábado a sábado.
sem oportunidade para a ansiedade. Além Segundo a tradição judaica, era costume
disso, o povo não ficava livre para sair até que o grupo de sacerdotes aposentados ofe­
que o sacerdote oficiante saísse para pro­ recesse o incenso matutino no dia de sábado,
nunciar a bênção de Arão (ver Nm 6:23-26). c o grupo que chegava oferecia o incenso ves­
Segundo o Talmude, o oferecimento de pertino. Portanto, o turno de Abias, ao qual
incenso no altar de ouro deveria ser feito Zacarias pertencia (ver com. do v. 5), perma­
com rapidez. neceu no seu posto até o sábado seguinte.
22. Não lhes podia falar. Quando Zacarias pode ter considerado que sua expe­
o sacerdote oficiante saía do lugar santo riência com o anjo justificava sua aposenta­
depois de oferecer incenso, esperava-se que doria precoce e o retorno para casa. Mas ele
ele levantasse as mãos e pronunciasse uma escolheu permanecer em seu posto desig­
bênção sobre a multidão expectante. nado até ser liberado do serviço. O texto do
Tivera uma visão. Quando Zacarias v. 23 indica fortemente que ainda restavam
saiu, seu rosto brilhava com a glória dc Deus vários dias de seu prazo de dever, e que, por­
(DTN, 99). Sua aparência, dc certo modo, tanto, a aparição do anjo não ocorreu no dia
era uma bênção silenciosa, porque a fórmula de sábado.
da bênção incluía as palavras: "o Senhoií Voltou para casa. Na “região monta­
faça resplandecer o rosto sobre ti" (Nm 6:25) nhosa” da Judeia (v. 39). Das oito cidades
e “o Senhor sobre ti levante o rosto” (Nm da Judeia atribuídas por Josué aos sacerdo­
6:26). A primeira representava a benevolên­ tes (ver com. de Js 21:9; cf. lCr 6:57-59),
cia de Deus, e a segunda, Seu dom de paz. Hebrom e Hilem (Holom) parecem se qua­
Sem dúvida, muitos dentre os adoradores lificar melhor para a localização na “região
reunidos pensaram em Moisés ao retornar montanhosa”. Não se sabe se Hilem foi
do monte Sinai (ver Êx 34:29, 30, 35). reconstruída depois do cativeiro e se as cida­
Expressava-se por acenos. Melhor des originalmente atribuídas aos sacerdotes
seria, “ele continuou acenando”, isto é, por Josué eram deles no tempo de Cristo (ver
fazendo gestos num esforço de explicar ao com. de Lc 1:39).
povo o que tinha acontecido. Eventualmente, 24. Ocultou-se. [A felicidade de Isabel,
e talvez escrevendo enquanto gesticulava, ele Lc 1:24, 25. Ver mapa, p. 211; gráfico, p. 224J.
conseguiu comunicar-lhes o que tinha visto A razão de Isabel se ocultar por cinco meses
677

► e ouvido (DTN, 99). de gravidez não está clara. Nenhum costume


Mudo. Do gr. k&phos, “embotado” ou judaico poderia ter exigido dela agir assim e
"opaco”. Isto poderia se referir à fala, à audi­ o contexto indica que ela fez isso voluntaria­
ção ou a ambos. A narrativa parece indicar mente. Alguns comentaristas sugerem que
que Zacarias se tornou surdo e mudo (ver ela permaneceu em casa até que ficasse evi­
com. do v. 62). dente que seu “opróbrio” (ver com. do v. 25)

743
1:25 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

fora removido. Outros pensam que a men­ passadas numa localidade sobre a qual não
ção de um período de cinco meses é inse­ há registros históricos disponíveis. Numa
rida simplesmente em antecipação da visita pequena comunidade, Jesus estava livre
de Maria no sexto mês. Pode ser, no entanto, da influência rabínica dos grandes cen­
que, em antecipação da vida dedicada que tros judaicos, bem como da cultura grega
João viveria como nazireu (ver com. do v. 15), pagã que permeava a “Galileia dos gentios”
Isabel procurou se retirar dos contatos cos­ (Mt 4:15). A atitude frequente dos judeus
tumeiros com a sociedade e refletir e estu­ com relação a Nazaré é refletida na resposta
dar para a responsabilidade de educar um incisiva de Natanael a Filipe: “De Nazaré
filho a quem tão importante tarefa como a pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1:46) e dos

678
de João seria confiada. Esse motivo estaria fariseus a Nicodemos: “Examina e verás que «
em perfeita harmonia com o caráter de Isabel da Galileia não se levanta profeta” (Jo 7:52;
(ver v. 6). ver fotos, p. 549).
25. Opróbrio. Isto é, a infelicidade de O fato de Lucas situar Maria e José
não ter filhos, segundo os judeus, era a maior como vivendo em Nazaré e especificamente
desgraça que poderia sobrevir a uma mulher chamá-la de “sua cidade” (Lc 2:39) é evidên­
(Gn 30:1; lSm 1:5-8; ver com. de Lc 1:7). cia da exatidão histórica da narrativa evan­
Acreditava-se que a esterilidade era um cas­ gélica. Tivesse ele ou outros de quem ele
tigo de Deus (ver Gn 16:2; 30:1, 2; lSm 1:5, recebeu informação (v. 1-3) inventado a his­
6), e a oração era, em tais circunstâncias, tória, e teriam procurado situar Maria e José
feita para buscar Seu favor (ver Gn 25:21; em Belém durante toda a narrativa da con­
lSm 1:10-12), para que Ele Se “lembrasse” cepção e do nascimento de Cristo, em vez de
dos que foram assim afligidos. Quando a situá-los numa cidade da Galileia, em vista da
concepção ocorria depois de orações desse reputação desfavorável da Galileia, em geral,
tipo, dizia-se que Deus havia se lembrado e de Nazaré, em particular. O fato de Mateus
deles (ver Gn 30:22; lSm 1:19). Por todas as não mencionar Nazaré em conexão com os
Escrituras acredita-se que os filhos são uma eventos anteriores ao nascimento de Jesus
bênção concedida por Deus (ver Gn 33:5; (ver Mt 1:18-25) atesta igualmente a natureza
48:4; Êx 23:26; Js 24:3; SI 113:9; 127:3; independente da evidência registrada nos dois
128:3). Em contraste, entre as nações pagãs, evangelhos. Tivesse havido conluio entre os
os filhos eram normalmente expostos ou ofe­ vários escritores dos evangelhos, com inten­
recidos como sacrifício aos deuses. ção de enganar, eles teriam tomado muito
26. No sexto mês. [Predito o nasci­ cuidado para pelo menos dar aos seus relatos
mento de Jesus, Lc 1:26-38. Ver mapa, p. 211; a aparência de semelhança superficial, o que
gráfico, p. 224j. Isto é, o sexto mês depois não é o caso. A nota explicativa de Lucas de
da aparição de Gabriel a Zacarias (v. 11) e a que Nazaré era “uma cidade da Galileia” pode
concepção de Isabel (v. 24), como especifica­ evidenciar, como alguns creem, que Lucas
mente declarada pelo anjo (ver v. 36). escreveu para não residentes na Palestina,
Gabriel. Ver com. dos v. 11, 19. que não estariam familiarizados com uma
Nazaré. Uma obscura cidade galileia cidade tão desconhecida.
não mencionada no AT nem no Talmude, 27. Uma virgem. Ver com. de Mt 1:23.
nem incluída por Josefo na lista de 204 O fato de Lucas não mencionar os pais de
cidades da Galileia (ver com. de Mt 2:23). Maria ao apresentar um relato tão deta­
A infância e juventude de Jesus, um período lhado das circunstâncias do nascimento
sobre o qual as Escrituras são silentes, foram de Jesus sugere que eles poderiam estar
744
LUCAS 1:27

mortos na época e que Maria poderia estar (ver com. de Lc 2:51). O fato de, na cruz,
morando com alguns de seus parentes (ver Jesus ter confiado o cuidado de Sua mãe a
DTN, 144, 145). Quase sem exceção, os João (Jo 19:26, 27) é uma evidência convin­
escritores judeus identificavam aqueles de cente de que a morte de José ocorreu antes
quem falavam como filhos e filhas de deter­ daquela época.
minadas pessoas citadas. Casa de Davi. Isto é, da família real
Desposada. Ver com. de Mt 1:18. (ver com. de Mt 1:1, 20). As opiniões diver­
A sequência de eventos neste versículo gem quanto à possibilidade de a expressão
é digna de nota. O anjo fez o anúncio do '‘da casa de Davi”, neste versículo, se refe­
nascimento de Jesus depois do noivado de rir a Maria ou a José. A repetição da pala­
Maria. Se ela fosse informada que geraria vra ‘Virgem” na última oração do versículo
uma criança quando não havia planos de indica que a frase em questão se refere a José
casamento, isso a angustiaria muito. Por em vez de Maria. De qualquer maneira, a
outro lado, se o anúncio tivesse sido depois descendência davídica de José é claramente
do seu casamento com José, até mesmo declarada em Lucas 2:4. No entanto, Maria
Maria e José teriam considerado Jesus como também era da casa de Davi (ver com. de
seu filho. Atestar o nascimento virginal teria Mt 1:16; Lc 1:32; DTN, 44). Por intermé­
sido difícil, senão impossível. A intenciona­ dio de Maria, Jesus literalmente “segundo
lidade na sequência de eventos testifica do a carne, veio da descendência de Davi”
plano divino e da providência soberana de (Rm 1:3). Em Lucas 1:32 e 69 está claro
Deus. Se José estava pronto para se divor­ que Maria era descendente de Davi. Essas
ciar de Maria ao ouvir que ela estava grá­ e outras declarações das Escrituras perde­

679
vida (Mt 1:18, 19), e se foi impedido de o riam muito de sua força e sentido se Maria «
fazer pela revelação de Deus (v. 20, 24), pos­ não pudesse afirmar que Davi era seu ante­
sivelmente teria sido muito mais difícil har­ passado. A referência no v. 36 a Isabel como
monizá-lo com a ideia do casamento, se ela “prima” (ARC) não serve de base para a ideia
já estivesse grávida (v. 19). O planejamento de que Maria era da tribo de Levi (ver com.
divino facilitou ao máximo a situação para do v. 36). Tanto Maria quanto José eram de
Maria e José. Maria era de fato uma vir­ descendência real, assim como Zacarias e
gem, mas ela estava noiva. Deus já havia Isabel eram de linhagem sacerdotal (v. 5).
providenciado a ela um ajudante e prote­ Maria. Ver com. de Mt 1:16. Lucas apre­
tor antes de lhe anunciar o esperado nasci­ senta a narrativa do nascimento de Jesus do
mento de Jesus. ponto de vista de Maria, fato que alguns
José. Ver com. de Mt 1:18. Pouco se comentaristas consideram uma indicação
sabe de José além de sua descendência daví- de que Lucas ouviu pessoalmente a história
dica (Mt 1:6-16), sua pobreza (ver com. de dos lábios dela ou de alguém que falou com
Lc 2:24), seu ofício (Mt 13:55), o fato de ela (ver com. dos v. 1-3). Os muitos detalhes
ele ter quatro filhos (Mt 12:46; 13:55, 56; e a requintada beleza da narrativa de Lucas
DTN, 87) e que ele morreu antes que Jesus sugerem familiaridade com os latos, seja por
iniciasse Seu ministério (ver DTN, 145). contato direto com pessoas que os testemu­
O último evento registrado de José ocor­ nharam (v. 2) ou por inspiração. Sendo que
reu quando Jesus tinha 12 anos (Lc 2:51). consultou testemunhas oculares (Lc 1:2), é
A ausência de qualquer referência adicional possível que os dois fatores estavam envol­
a José atesta a possibilidade de que ele mor­ vidos: o relato de uma testemunha ocular,
reu antes que Jesus iniciasse Seu ministério garantido, naturalmente, pela inspiração.

745
1:28 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

28. Alegra-te [...]! Do gr. chaire, uma “mãe”. Apenas a chamou de “mulher”, um
forma comum de saudação na antiguidade título de respeito (ver com. de Jo 19:26).
(ver Mt 28:9) que expressava estima e boa Nenhum escritor do NT atribui a ela algum
vontade. A palavra assim traduzida é a forma mérito extraordinário ou influência diante
imperativa do verbo chairõ, “regozijar” ou “ser de Deus.
agradecido”. Esta forma de saudação pode A exaltação católica de Maria não tem
ser comparada com a saudação: “Paz seja con­ base na Escritura. Está fundada completa­
vosco” (Lc 24:36; etc.), uma forma comum de mente sobre as lendas fantásticas dos evan­
saudação no Oriente atualmente, bem como gelhos apócrifos, aos quais até os católicos
nos tempos antigos. negam um lugar no cânon sagrado. Nos pri­
Muito favorecida! Literalmente, "do­ meiros séculos cristãos, essas lendas foram
tada com graça”. Esta expressão designa combinadas com mitos pagãos a respeito da
Maria como quem recebia o favor divino Rainha dos Céus oriental (ver Jr 7:18; 44:17,
ou a graça, não a despenseira dele. A frase 18; etc.), consorte dos deuses e da Magna
plena gratia, da versão latina Vulgata, é tra­ Mater ou Grande Mãe, da Ásia Menor.
duzida como “cheia de graça” por Wyclif, O conceito católico de Maria como a “Mãe
Tyndale e por vários tradutores católicos. de Deus” é basicamente pouco mais que esta
Se essa frase for tomada para indicar que divindade feminina pagã vestida na termi­
Maria foi, a partir daquele momento, uma nologia cristã, transformada em dogma no
despenseira da graça divina, em vez de alvo Concílio de Efeso, em 431 d.C. Efeso, foi o
dessa graça, essa afirmação contrariaria a lar de Diana, do gr. Artemis; não a virgem
declaração do anjo. Gabriel não a dotou de deusa grega Artemis, mas uma deusa mãe
mérito pessoal para ser distribuído a ou­ asiática algumas vezes identilicada com a
tros. O que o anjo outorgou a Maria está "Grande Mãe”. Segundo a tradição, Maria
disponível a todos os crentes em Cristo. passou seus últimos anos em Efeso, no lar
A mesma palavra grega para o verbo dotar é do apóstolo João.
utilizada em Efésios 1:6, em que Paulo de­ As palavras da saudação do anjo têm sido
clara: “Ele |o Pai] nos concedeu” (literal- pervertidas pela igreja católica numa ora­
mente, dotou-nos] gratuitamente em Cristo ção endereçada a Maria como intercessora.
- não “em Maria”. A mãe de Jesus foi ape­ Segundo a Catholic Encyclopedia, ela é com­
nas “muito favorecida”, como o anjo expli­ posta (1) das palavras do anjo, com a adição
cou, porque o Senhor estava com ela. Maria (antes de 1184) das (2) palavras iniciais da
achou graça diante de Deus (Lc 1:30) e foi saudação inspirada de Isabel a Maria, encon­
literalmente “dotada com graça”. trada no v. 42; na adição posterior (em 1493)
Em nenhuma outra parte da Bíblia de (3) um pedido por oração; e ainda (4) uma
Maria é chamada “abençoada”, exceto última adição, feita em 1495 e incluída no
por Isabel (v. 42), por uma mulher desco­ catecismo do Concílio de Trento, com a
680

nhecida (Lc 11:27) e pela declaração que lorma completa reconhecida oficialmente <
Jesus fez pessoalmente a seguir para reti­ no Breviário Romano de 1568. Assim, cons­
ficar isso (v. 28). Ele sempre tratou Sua truída artificialmente, a Ave Maria é tradu­
mãe com cortesia e consideração (ver com. zida como segue:
de Jo 2:4), mas nunca a exaltou acima de [1] Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor
outros que ouviram e creram nEIe (Mt é convosco.
12:48, 49). Na cruz, Ele não Se referiu a [2] Bendita sois vós entre as mulheres,
ela como a “Mãe de Deus” ou mesmo como e Bendito é o Fruto do vosso ventre, Jesus!
746
LUCAS 1:32

[31 Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por radical de chairõ, “regozijar” (ver com. do
nós, pecadores, v. 28), palavra muito usada pelos primeiros
[4] Agora e na hora de nossa morte. cristãos. Deus Se deleitou ao encontrar em
Amém! Maria alguém que se aproximava bastante
Está contigo. A palavra “está" tem sido do ideal divino.
acrescentada pelos tradutores, já que no 31. Conceberás. A redação do v. 31 se
grego ela geralmente é compreendida em vez assemelha um pouco com Gênesis 16:11,
de expressa. Talvez “seja contigo” seja pre­ em que foi feita uma promessa semelhante
ferível a “está contigo”. Essa era uma forma a I lagar. O anjo anunciou o cumprimento da
comum de saudação nos tempos do AT (ver promessa feita a Eva (ver com. de Gn 3:15).
Jz 6:12; Rt 2:4). Como o Rei do universo poderia e con­
Abençoada és tu entre as mulheres. descenderia em ser feito “carne" (Jo 1:14),
Evidências textuais favorecem (ef. p. 136) ser “nascido de mulher" (G1 4:4), “em seme­
a omissão desta frase. Ela é declarada, no lhança de homens” (Fp 2:7), é um mistério
entanto, no v. 42 (ver com. do v. 42). insondável e incompreensível que a Bíblia
29. Perturbou-se. Do gr. diatarassõ, não revela. Com que temor e reverência o
“agitar grandemente” ou “perturbar-se gran­ Céu deve ter observado o Filho de Deus "des­
demente”. Maria estava perplexa com a cer do trono do Universo" (DTN, 23), partir
súbita e inesperada aparição do anjo, mas das cortes de glória e condescender em tomar
ainda mais pela alta honra expressada na sobre Si a humanidade, ser feito "em todas as
extraordinária saudação que o anjo lhe fez. coisas (...) semelhante aos irmãos” (Hb 2:17),
Ela estava “perturbada”, mas se manteve humilhar-Se e ser “reconhecido em figura
serena. humana” (Fp 2:7; ver com. de Fp 2:7, 8; ver
Pôs-se a pensar. Embora “perturbada”, também Nota Adicional a João 1).
Maria procurou pensar no que estava ocor­ Com temor e reverência também deve­
rendo e descobrir a razão para esta expe­ mos contemplar o amor incomparável de
riência incomum. Sob tais circunstâncias, Deus ao doar Seu único Filho para tomar
muitas pessoas perderiam, momentanea­ nossa natureza (jo 3:16). Por Sua humilha­
mente, a capacidade de raciocínio. Maria ção Cristo “ligoLi-Se à humanidade por um
parece ter sido não apenas uma donzela vir­ laço que jamais se partirá” (DTN, 25). Neste
tuosa e devota, mas alguém de inteligência maravilhoso dom, o caráter de Deus per­
notável. Ela não apenas tinha uma familia­ manece em completo contraste com o cará­
ridade incomum com as Escrituras, como ter do maligno que, embora um ser criado,
também refletia sobre o sentido das várias desejou se exaltar e ser como o Altíssimo
experiências que a vida lhe proveu (ver (ls 14:14).
Le 2:19, 51). Ao contrário de Zacarias, que Chamarás pelo nome. Ver com. de
temeu (Lc 1:12), Maria parece ter mantido Mt 1:21.
a presença de espírito. 32. Este será grande. Há uma notável
30. Não temas. Ver v. 29; ver com. do semelhança entre os v. 32 e 33 e Tsaías 9:6
v. 13. Dirigindo-se a ela como “Maria”, o anjo e 7; um texto é uma clara reflexão do outro.
revelou que conhecia a personalidade dela. Seis meses antes Gabriel disse a Zacarias
Esta e a declaração seguinte foram designa­ que João seria “grande” (Lc 1:15).
das a inspirar confiança. Chamado. Neste verso, tem o sentido
Graça. Do gr. charis, “graça,” gcralmcnte de “reconhecido” ou “conhecido”, como em
considerada como originada do mesmo Mateus 21:13. A divina filiação de Cristo
747
1:33 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

foi anunciada por Deus aos anjos celestiais indicação foi dada acerca do papel de Cristo
(Hb 1:5, 6), confessada por Seus discípulos como o sofredor. Neste versículo, por exem­
(Mt 16:16; Jo 16:30) e pelos escritores do NT plo, Gabriel olha para frente, ao glorioso
(Rm 1:4; Hb 4:14; ljo 5:5; etc.). clímax do plano da salvação, passando por
Filho do Altíssimo. Ver v. 35. No cima de qualquer referência à crucifixão.
► batismo, o Pai declarou que Jesus era Seu Talvez o regozijo no Céu pelo nascimento
681

Filho (Lc 3:22). A mesma declaração foi do Salvador, bem como daqueles poucos
feita novamente, poucos meses antes da na terra que O reconheceram e receberam,
crucifixão (Mt 17:5). Todos os que fazem lez parecer impróprio mencionar a cruz que
“o que é agradável diante dEle” (Hb 13:21) precederia a coroação. O próprio Senhor,
têm o privilégio de ser chamados “filhos do “o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual,
Altíssimo” (Lc 6:35; ver com. dejo 1:1-3; ver em troca da alegria que Lhe estava proposta,
Nota Adicional a João 1). suportou a cruz, não fazendo caso da igno­
O trono. Segundo o profeta Isaías, mínia, e está assentado à destra do trono
o Príncipe da Paz deveria sentar sobre o trono de Deus” (Hb 12:2). Com que frequência
de Davi para administrar Seu reino (Is 9:6, 7). os profetas do AT elevaram olhos inspira­
O “trono” representa o reino eterno de Cristo, dos da angústia trazida pelo pecado para a
não uma restauração do reino literal de Davi glória final do universo purificado de todos
no mundo atual, como está evidente em todo os traços do mal!
o NT (ver Jo 18:36; etc.; ver com. de Lc 4:19). Casa de Jacó. Isto é, os descendentes
Davi, Seu pai. Ver com. de Mt 1:1, 16, de Jacó. No sentido espiritual, estes incluem
20; Lc 1:27. A descendência literal de Jesus todos os que creem em Cristo, quer sejam
da linhagem de Davi é claramente afir­ judeus ou gentios (Rm 2:25-29; Cl 3:26-29;
mada tanto no AP como no NT (SI 132:11; IPe 2:9, 10; etc.).
At 2:30; Rm 1:3). Mesmo os inimigos de Não terá fim. Literalmente, “pelas eras”
Cristo não negaram que o Messias deveria (ver com. de Mt 13:39). Os homens san­
ser “filho de Davi” (Lc 20:41-44). O glorioso tos da antiguidade olharam adiante para o
reino de Davi se tornou, para o profeta, um tempo quando as coisas transitórias da Terra
símbolo único da vinda do reino messiânico dariam lugar às realidades eternas. Os rei­
(Is 9:6, 7; cf. 2Sm 7:13; SI 2:6, 7; 132:11; ver nos da terra que, do ponto de vista humano,
vol. 4, p. 17, 18). geralmente parecem se elevar majestosa­
A expressão “Davi, seu pai” é significa­ mente um após o outro, desaparecem como
tiva. Jesus poderia ter sido o Filho de Davi casas de gelo sob o sol de verão. As pessoas
como o Filho de José, ou de Maria, ou de lutam por permanência e segurança; mas
ambos. Maria obviamente compreendeu que essas coisas nunca serão alcançadas até que
o anjo quis dizer que a concepção de Jesus Cristo estabeleça Seu reino, o qual nunca
seria apenas pelo Espírito Santo (v. 34, 35). será destruído (Dn 2:44), que “não passará”
A declaração do anjo em apontar a Davi (Dn 7:14), que será eterno (Mq 4:7; ver com.
como o “pai” de Jesus poderia ser entendida de SI 145:13). A promessa do Pai de que o
como significando que a própria Maria era reino de Seu filho deveria ser “para todo
descendente de Davi (ver com. de Mt 1:16; o sempre” (Hb 1:8) não era desconhecida
cf. DTN, 44). aos judeus dos dias de Cristo (SI 45:6, 7;
33. Ele reinará. L digno de nota. que, cf. Jo 12:34).
nas mensagens angélicas e proféticas dadas 34. Como será isto [...]? O contexto
com relação ao nascimento de Cristo, pouca indica que Maria creu resolutamente no
748
LUCAS 1:35

anúncio do anjo. Numa fé simples, ela per­ Mc 9:39; etc.). Neste verso, o “poder do
guntou como ocorreria o futuro milagre. Altíssimo” é paralelo ao “Santo Espírito”,
Não tenho relação. Isto é, relação não significando, entretanto, que o Espírito
sexual. Maria poderia perguntar como uma Santo é apenas a expressão do poder divino,
donzela pura, afirmando sua virgindade (ver mas que Ele é o agente por meio do qual o
com. de Mt 1:23). O modo dela de expressar poder divino é exercido. As palavras do anjo
esse fato é o idiomatismo hebraico comum foram ditas no estilo hebraico poético, em
para a castidade pré-marital (ver Gn 19:8; que há um ritmo de pensamento, em vez de
Jz 11:39; etc.). Como Ele faz conosco hoje, rima e métrica (ver Lc 1:32, 33, 35; ver tam­
Deus primeiro deixou Maria se tornar bém vol. 3, p. 8).
completamente consciente do fato de que Filho de Deus. Neste versículo, o anjo
o evento antecipado estava além do poder Gabriel afirma a divindade de Jesus Cristo,
humano, que era impossível do ponto de ainda que a divindade seja inseparável de
vista humano antes de apresentar a ela os Sua humanidade. O Filho de Maria seria o
meios pelos quais isso ocorreria. É assim Filho de Deus porque a concepção ocorreu
que Deus nos leva a apreciar Seu poder e pelo “poder do Altíssimo”.
bondade e nos ensina a ter confiança nElc Desta passagem e de outras nas
► e em Suas promessas. Escrituras alguns concluíram que o título
682

A tentativa de ler um voto de virgindade Filho de Deus foi aplicado primeiramente


perpétua nessas palavras de Maria é comple­ a Cristo na encarnação. Outros concluí­
tamente injustificada (ver com. de Mt 1:25). ram que o título é descritivo da relação
Permanecer virgem perpetuamente era pré-encarnada de Cristo com o Pai. Outros
geralmente considerado pelos judeus como ainda consideram o termo Filho de Deus
uma reprovação, não uma virtude. A inca­ como adequadamente usado para o Cristo
pacidade de gerar filhos era sempre ocasião pré-encarnado, num sentido proléptico,
de desgosto e remorso por parte da esposa ou em ligação com Seu papel no plano da
(ver Gn 30:1; iSm 1:4-7; etc.). A ideia de que salvação. Os escritores e editores deste
ela permaneceu sempre virgem surgiu nos Comentário, no entanto, não creem que
séculos posteriores, possivelmente de um as Escrituras apoiam algum desses pon­
sentido pervertido do que constitui a vir­ tos de vista em linguagem clara e inequí­
tude. Acreditar dessa forma indica que o lar, voca. Assim, falar dogmaticamente sobre
uma instituição divinamente ordenada, não o assunto seria ir além do que Deus tem
representa o ideal supremo da vida social revelado. Neste versículo, o silêncio vale
(ver com. de Mt 19:3-12). ouro.
35. O Espírito Santo. Ver com. de Os vários nomes e títulos dados a Cristo
Mt 1:18, 20. na Escritura são designados a auxiliar na
Descerá sobre ti. Uma expressão geral- compreensão Sua relação conosco nos vários
mente usada para descrever a recepção do aspectos de Sua obra salvífica. Alguns erro­
poder do Espírito Santo (Jz 6:34; ISm 10:6; neamente aplicam esses nomes relativos à
16:13). obra salvadora de Cristo em relação a Suas
Poder. Do gr. dynamis, "força” ou “habi­ absolutas e eternas relações com seres sem
lidade” enquanto contrastada com exousia, pecado do universo. Fazer isso pode levar
“poder”, no sentido de autoridade. Dynamis à falácia de aceitar a linguagem humana
é normalmente usada nos evangelhos para se como uma completa e adequada expressão
referir aos milagres de Cristo (Mt 11:20-23; do mistério divino.

749
1:36 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

As Escrituras apontam para a ressurrei­ a conhecer a Deus como “Pai nosso” (Mt 6:9)
ção como um evento que confirma o título e entendamos o que Deus pensa de nós (ver
Filho de Deus. O salmista escreveu: “Tu és com. de Mt 6:9). “Cristo nos ensina a diri­
Meu Filho; Eu, hoje, Te gerei” (SI 2:7). Paulo girmo-nos a Ele por um nome novo [...]
cita esta “promessa feita a nossos pais” e Concede-nos o privilégio de chamar o infi­
acrescenta imediatamente que "Deus a cum­ nito Deus de nosso Pai ”, como “um sinal de
priu plenamente a nós, seus filhos, ressus­ nosso amor e confiança para com Ele e um
citando a Jesus” (At 13:32, 33; cf. Mt 28:18; penhor de Sua consideração e parentesco
Rm 1:4; Fp 2:8-10; FIb 1:5-8). conosco” (PJ, 141, 142; ver também PJ, 388).
Jesus raramente Se referiu a Si próprio De Cristo, Deus diz: “Eu Lhe serei Pai, e
pelo título “Filho de Deus” (Jo 9:35-37; Ele Me será Filho” (FIb 1:5). E daquele que,
10:36), embora Ele frequentemente indi­ pela fé, é adotado na família celestial como
casse a relação entre Ele e o Pai (Mt 11:27; filho do Pai, Deus diz novamente: “Eu lhe
Lc 10:21; Jo 5:18-23; 10:30; 14:28; etc.). serei Deus, e ele Me será filho" (Ap 21:7).
Antes de “descer do trono do Universo” (ver Aquele que "é nascido de Deus”, o apóstolo
DTN, 23; PP, 64), Cristo era “igual a Deus" João afirma, “vence o mundo” porque Cristo
(Fp 2:6), “um com o Pai” (DTN, 19; ver tam­ venceu, e “não vive em pecado” (ljo 5:4, 18).
bém Jo 10:30). Na encarnação, Ele volun­ O grande objetivo do plano da salvação é
tariamente Se humilhou e assumiu uma levar “muitos filhos à glória" (FIb 2:10;
posição subordinada ao Pai (Fp 2:7; Hb 2:9). cf. ljo 3:1, 2; ver Nota Adicional a João I;
Várias declarações de Cristo enquanto esteve ver também com. de Mt 16:16-20; Mc 2:10;
na Terra testif icam de Sua renúncia voluntá­ Lc 2:49).
ria e temporária de prerrogativas, embora não 36. Parenta. Do gr. suggenis, “parenta”.
de natureza, à divindade (Fp 2:6-8), como Suggenis não significa necessariamente
quando Ele disse: “O Pai é maior que Eu” “prima” (ARC), porque a palavra grega não
(Jo 14:28) ou "O Filho nada pode fazer de indica o grau de parentesco. A lei fez provisão
Si mesmo” (Jo 5:19; ver com. de Lc 2:49). para casamentos entre as tribos (ver com. de
O Pai confirmou a filiação de Cristo Nm 36:6), e os membros das tribos de Levi e
em Seu nascimento (Lc 1:35; FIb 1:5, 6), de Judá geral mente casavam entre si. Isabel
► no batismo (Lc 3:22), na transfiguração era da tribo de Levi (ver com. de Lc 1:5);
683

(Lc 9:35) e novamente na ressurreição Maria, de Judá (ver com. dos v. 27, 32). Se
(SI 2:7; At 13:32, 33; Rm 1:4). João Batista Maria era de Judá, parece que o pai de Maria
também testemunhou dEle como “Filho de também seria de Judá, e é possível que a
Deus” (Jo 1:34) e os doze O reconheceram ligação de Maria e Isabel fosse por meio da
como tal (Mt 14:33; 16:16). Mesmo os espí­ mãe dela ou da mãe de Isabel. A palavra
ritos maus admitiram que Ele era o Filho “prima” foi usada primeiramente na tradu­
de Deus (Mc 3:11; 5:7). Depois de curar ção de Wyclif, quando a palavra não tinha
o homem que nasceu cego, Cristo testifi­ o significado específico que tem agora. Não
cou diante dos líderes que Ele era o “Filho há um termo exato no grego, hebraico ou
de Deus” (Jo 10:35-37). Foi Sua afirmação aramaico para denotar o que descrevemos
de ser o “Filho de Deus” que finalmente como uma “prima”. Uma má compreensão
trouxe sobre Ele a condenação e a morte do problema tem levado alguns comentaris­
(Lc 22:70, 71). tas à conjectura de que Jesus seria descen­
Cristo Se referiu a Deus como “Meu dente tanto de Levi como de judá. Não há,
Pai” (Mt 16:17). Ele deseja que aprendamos no entanto, evidência para indicar que Maria

750
LUCAS 1:39

não era descendente direta de Davi (ver com. vontade dela de encontrar Isabel. Maria aca­
do v. 27). bara de ouvir um dos maiores segredos dos
Na sua velhice. Ver com. do v. 7. tempos eternos (ver Rm 16:25) e deve ter
37. Não haverá impossíveis. O pen­ sentido um desejo intenso de conversar a
samento deste versículo é manifestado respeito com alguém que a compreendesse.
repetidamente por toda a Escritura. A Abraão Ninguém estaria em melhor situação para
foi feita a pergunta: “Acaso, para o Senhor entendê-la do que Isabel, que, segundo o
há coisa demasiadamente difícil?” (Gn 18:14; anjo, experimentava em si mesma um mila­
ver com. ali). Por meio de Isaías, Deus pro­ gre. Além disso, os anos de devoção de Isabel
clamou: “Assim será a palavra que sair da à vontade de Deus conforme as Escrituras a
Minha boca: não voltará para Mim vazia” capacitariam não apenas a ouvir com simpa­
(Ts 55:11). tia, mas a dar orientações e conselhos valio­
38. Aqui está a serva. Não um imperativo, sos a Maria, uma jovem que se deparava com
mas uma expressão de submissão à vontade de problemas e responsabilidades maiores (ver
Deus. O assunto foi resolvido por Maria as­ com. do v. 7). Maria não viajou para desco­
sim que ficou claro para ela qual era a vontade brir se o que o anjo dissera era verdade, mas
de Deus. Em seguida, ela recebeu informação porque creu nas palavras dele.
suficiente para habilitá-la a realizar sua parte A amizade de alguém que compreende
de modo inteligente. nossos sentimentos é um dos tesouros mais
Que se cumpra em mim. Maria se preciosos da vida. O valor da amizade e da
expressa ainda num espírito manso e sub­ comunhão cristã está além de qualquer ava­
misso. A delicadeza, simplicidade, pureza e liação. Os pais e as mães em Israel, em
dignidade naturais com que Lucas relata a particular, têm uma obrigação solene de
história evidencia a marca do fato histórico, compartilhar sua experiência a respeito da
não de origem imaginativa. Os esforços de vontade e dos caminhos de Deus com os
alguns para envergonhá-la, e de outros, para mais jovens. Esses jovens, como Maria, bus­
deificá-la são igualmente injustificados pelos cam conselho dos mais experientes para defi­
fatos da Escritura. nir um plano de ação que trará alegria a seu
39. Dispondo-se Maria. [Maria visita a coração e sucesso a seus empreendimentos.
Isabel, Lc 1:39-45. Ver mapa, p. 211]. A visita Nenhum cristão deve estar muito ocupado
de Maria ao lar de Isabel ocorreu quase ime­ que não possa se relacionar com aqueles que
diatamente após o anúncio do nascimento necessitam de auxílio, se ele tiver condição
de Jesus, porque o anúncio foi dado no sexto de ajudá-los.
mês da gravidez de Isabel, e Maria permane­ Uma cidade de judá. Segundo a tra­
ceu com ela por três meses (ver Lc 1:26, 56). dição, esta era a cidade de Hebrom, a prin­
Além disso, Maria viajou “apressadamente”. cipal dentre nove cidades atribuídas aos
Naqueles dias. Isto é, logo depois do sacerdotes nas tribos de Simeão e “Judá”
anúncio do nascimento de Jesus. (ver Js 21:13-16; lCr 6:57-59). Este foi o
À região montanhosa. Ver com. do primeiro território que Abraão possuiu cm
v. 23. O relevo montanhoso de Judá estendia- Canaã (ver Gn 23:17-19) e ali Davi foi ungido
► se de Jerusalém, ao norte, até Hebrom, ao rei (ver 2Sm 2:1, 4). Alguns sugerem que
684

sul (ver Js 21:11). “Judá” deve ser uma variação ortográfica no


Apressadamente. Neste versículo, a hebraico para “Jutá” (Js 15:55; 21:16), outra
expressão parece se referir não tanto à rapidez cidade sacerdotal aproximadamente oito
com que Maria empreendeu a viagem, mas à quilômetros ao sul de Hebrom. No entanto,
751
1:40 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

essa identificação não é sustentada por qual­ 45. Bem-aventurada a que creu. Isto
quer evidência escriturística, histórica ou é, Maria, que neste versículo é parabenizada

685
arqueológica. Além disso, Lucas se refere por sua fé e pela grande honra que lhe fora -«
a Nazaré como “uma cidade da Galileia” concedida. Talvez Isabel estivesse pensando
(Lc 1:26), e parece mais provável que a expres­na descrença de seu esposo e na evidência
são paralela, “uma cidade de Judá” fizesse de do desfavor divino que resultou disso. Deus
Judá uma província e não uma cidade. é honrado e agradado quando Seus filhos
40. Saudou Isabel. Maria e Isabel ime­ aceitam Suas promessas numa fé humilde e
diatamente se viram unidas por um laço incondicional. “Bem-aventurados os que não
comum de simpatia. Estava evidente para viram e creram” (Jo 20:29).
Maria que o sinal dado pelo anjo (v. 36) era Que. Do gr. hoti, que possui dois signi­
de fato verdadeiro, e isso confirmou sua fé. ficados básicos: “que” ou “porque”. Os dois
Além disso, Zacarias ainda não falava e, sua significados fazem sentido neste versículo.
mudez que se prolongava por seis meses, 46. Disse Maria. [O cântico de Maria,
confirmava a aparição do anjo a ele e servia Lc 1:46-56. Ver mapa, p. 211]. O dom de pro­
como uma reprovação contínua a sua inicial fecia agora parece recair sobre Maria, que
falta de fé. fala calma e majestosamente. Todas as ideias,
41. Estremeceu. Do gr. skirtaõ, a até mesmo suas próprias palavras, refletem
mesma palavra encontrada na LXX com rela­ o que os homens inspirados escreveram no
ção a Jacó e Esaú antes do nascimento deles passado. O cântico de Maria (v. 46-55) é con­
(Gn 25:22). Os movimentos uterinos de um siderado um dos hinos mais sublimes de toda
bebê são muito comuns; mas, nesta ocasião a literatura sacra, um poema lírico de requin­
Isabel, por inspiração, corretamente inter­ tada beleza e digno de Davi, o antepassado
pretou o movimento (Lc 1:41-43) como tendo dela. Ele está permeado com um espírito de
mais que um sentido comum. humilde adoração e gratidão, e glorifica o
Isabel ficou possuída. Nesta ocasião, poder, a santidade e a misericórdia de Deus.
foi Isabel quem “ficou possuída do Espírito Ele expressa a emoção e a experiência pes­
Santo”. O anjo contou a Maria sobre Isabel soal dela enquanto meditava na mensagem
(v. 36), mas até esse momento Isabel apa­ do anjo Gabriel.
rentemente não sabia nada sobre o ocorrido O cântico de Maria é frequentemente
com Maria. designado Magnificat, “engrandece”, a partir
42. Bendita. Do gr. eulogeõ, “aben­ de sua primeira palavra na Vulgata Latina.
çoar”, derivado de eu, “bem”, e logos, “pala­ A primeira metade da canção está relacio­
vra”. “Bendita és tu” é uma expressão baseada nada à gratidão pessoal de Maria (v. 46-50); a
no costume do AT (ver jz 5:24; Rt 3:10). segunda está ligada ao agradecimento nacio­
43. Meu Senhor. No coração de Isabel nal (v. 51-55). Este cântico revela o caráter de
não havia inveja de Maria, mas apenas Deus e enfatiza Sua graça (v. 48), onipotên­
humildade e alegria. Uma confissão de fé cia (v. 49, 51), santidade (v. 49), misericórdia
semelhante foi feita mais tarde por Pedro (v. 50), justiça (v. 52, 53) e fidelidade (v. 54,
(Mt 16:16), algo que lhe ocorreu por revela­ 55). A qualidade poética do cântico se torna
ção. Paulo declarou que somente por meio mais impressionante quando é impressa em
do Espírito Santo uma pessoa pode dizer que forma poética. O cântico está dividido em
Jesus é o Senhor (ICo 12:3). quatro estrofes, como se segue:
44. De alegria. Figura de linguagem, 1. (v. 46-48) Nestes versículos, Maria
atribuindo esta emoção ao feto. pensa primeiramente em si mesma, em seus

752
LUCAS 1:48

sentimentos de adoração e santa alegria. Ela validade na afirmação que alguns têm feito
foi escolhida e honrada acima das demais de que há diferença entre “alma” no v. 46
mulheres e se admira de que Deus a tenha e “espírito” no v. 47. Nas duas declarações,
levado em consideração e passado de largo Maria está apenas se referindo a sua aprecia­
as outras. Ela está ciente de que nada a reco­ ção mental, emocional e espiritual da honra
mendaria a Deus. concedida a ela como mãe do Messias.
2. (v. 49, 50) Nesta estrofe, Maria glo­ Engrandece. Do gr. megalunõ, “fazer
rifica o poder, a santidade e a misericórdia [ou declarar] grande”, “exaltar” ou “enal­
de Deus. tecer”. As pessoas nada podem fazer para
3. (v. 51-53) Estes versículos apresentam aprimorar a grandeza e majestade de Deus,
um nítido contraste entre os valores de cará­ mas com uma melhor compreensão do ca­
ter exaltados por Deus e pelo ser humano. ráter, da vontade e dos caminhos de Deus
A concepção de Deus a respeito do que cons­ elas deveriam estar conscientes, como
titui a verdadeira grandeza é a antítese do Maria, de uma revelação mais gloriosa.
que o ser humano tem em consideração. “Engrandecer” ao Senhor significa declarar
4. (v. 54, 55) O cântico de Maria termina Sua grandeza.
com uma nota de gratidão pela fidelidade 47. Em Deus, meu Salvador. Como
eterna de Deus a Seu povo escolhido. qualquer outro ser humano, Maria neces­

686
O cântico de Maria tem sido comparado sitava de salvação. Nunca lhe ocorreu que-*
ao de Ana (ver ISm 2:1-10), que foi uma ora­ ela nascera sem pecado, como argumentam
ção de gratidão por Samuel. Ambos exalam alguns, em desacordo com as Escrituras.
fé e alegre adoração, mas o de Maria reflete, Os escritores do AT falam da “Rocha” da
talvez, um conceito mais elevado sohre sua salvação (Dt 32:15; SI 95:1), do “Deus”
Deus. As palavras foram extraídas do melhor da sua salvação (SI 24:5) e com frequência
que os profetas haviam escrito. O cântico se referem a Deus como “Salvador” (Is 63:8;
de Maria é também uma reminiscência do etc.).
cântico de Moisés (ver Ex 15), do cântico de 48. Porque contemplou. Ao coração
Débora e Baraque (ver Jz 5) e é semelhante humilde é maravilhoso que Deus, que guia
em espírito aos Salmos 113 e 126, entre as órbitas celestiais através do espaço infi­
outros. Uma evidência textual (cf. p. 146) nito, condescenda em habitar com o “con­
atribui este cântico a Isabel e não a Maria. trito e abatido de espírito” (ver Is 57:15). Ele
Indiscutivelmente, porém, este cântico foi não apenas observa nossa baixa condição de
de Maria. pecado, mas tem empregado, para nossa sal­
O cântico de Maria reflete o pensamento vação, recursos celestiais ilimitados.
das seguintes passagens do AT: Lc 1:46 (1 Sm Humildade. Do gr. ta-peinõsis, “baixeza”,
2:1; SI 103:1); v. 47 (ISm 2:1); v. 48 (Gn 30:13;“baixa condição" ou “humilhação”. A pala­
ISm 1:11); V. 49 (Dt 10:21; SI 111:9); v. 50 vra se refere à modesta condição social de
(SI 103:17); v. 51 (SI 89:10); v. 52 (ISm 2:7-10;Maria e não ao seu espírito de humildade.
Jó 5:11; 12:19); v. 53 (ISm 2:5; SI 107:9); v. 54 No entanto, mesmo em sua “baixa condi­
(SI 98:3; is 41:8); e v. 55 (2Sm 22:51; Mq 7:20).ção” Maria “encontrou favor diante de Deus”,
A minha alma. Em vista do fato de e isso foi mais valioso para ela do que todos
que o alegre cântico de Maria é poético na os tesouros c toda honra e respeito que o
forma, e porque a poesia hebraica consiste mundo podia lhe oferecer.
essencialmente em repetição de pensamento Considerarão bem-aventurada. Isto
com palavras diferentes, parece haver pouca é, pensariam nela como feliz e honrada.

753
1:49 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Lia expressou um pensamento semelhante na correspondente depreciação dos outros.


no nascimento cie Aser (ver Gn 30:13). Não admira que as Escrituras declarem:
49. Santo é o Seu nome. Expressão "A soberba precede a ruína, e a altivez do
de um pensamento independente dos ante­ espírito, a queda” (Pv 16:18). Jesus disse:
riores e posteriores. A declaração de Maria “Pois todo o que se exalta será humilhado;
reflete a reverência e o temor com relação ao e o que se humilha será exaltado” (Lc 14:11).
nome sagrado de Deus, Yahweh (ver com. de A humildade é o oposto do orgulho e é a
Êx 3:14, 15; cf. vol. 1, p. 149-151). Mais tarde, característica mais valiosa aos olhos de Deus
os cristãos consideraram o nome de Jesus com (ver com. do v. 48).
reverência semelhante, embora sem medo de 52. Poderosos. Do gr. dynastai, “prín­
usá-lo respeitosamente (ver At 3:6; 4:10; etc.). cipes” ou “potentados”, a origem da palavra
50. A Sua misericórdia. Esto é, o amor “dinastia”. A palavra dynastai é derivada de
e o favor abundantes de Deus, concedidos dynamai, “ser capaz", “ser poderoso”, daí a
mesmo quando menos merecidos. Tem-se palavra “dinamite”. Neste versículo, a refe­
observado que a graça afasta o erro, e a mise­ rência é, particularmente, aos opressores.
ricórdia remove a miséria do pecado. Talvez Maria tivesse em mente o cruel tirano
Os que O temem. Expressão hebraica Herodes, que assassinou milhares de judeus,
típica para piedade, comum em todo o AT. bem como seus parentes mais próximos (ver
O temor também é utilizado no NT no sen­ p. 26-30). A literatura judaica contempo­
tido de reverência piedosa (At 10:2, 22, 35; rânea também revela o lato de que o povo
Cl 3:22; Ap 14:7; 15:4), embora a mesma comum com frequência sofreu intensamente
palavra também seja usada para medo e com a opressão econômica.
pânico (Mt 21:46; Mc 11:32; Lc 12:4). Humildes. Do gr. tapeinoi, “|os] humil­
51. Valorosamente. Outra expressão des” ou “[os] simples”; a forma adjetiva grega
tipicamente hebraica. O “braço” é símbolo de do substantivo traduzido como “humildade”
poder (ver Êx 6:6; SI 10:15; 136:12). A palavra(ver com. do v. 48). No tempo devido, Deus
“valorosamente” ou “fortaleceu” é utilizada faz justiça aos que têm sido oprimidos.
pelos autores gregos, como neste versículo, 53. Bens. Possivelmente, tanto o ali­
para denotar a vitória sobre os inimigos. mento literal como o espiritual (ver com. de
Pensamentos. Do gr. dianoia, “mente” Mt 5:6). 687

ou “compreensão”; isto é, discernimento inte­ Os ricos. Como regra geral, os que «


lectual ou compreensão moral. Dianoia se acumularam grande riqueza o fizeram opri­
refere à faculdade do pensamento, especial­ mindo seus vizinhos e foram consequen­
mente à compreensão moral. temente qualificados pelos pobres como
Soberbos. Ou, "os arrogantes”. Deus os pessoas más. Ao passo que, em certo sen­
confunde, como se eles tivessem sido espa­ tido, a riqueza passou a ser encarada como
lhados e seus planos, interrompidos por um sinal de favor divino, principalmente por
vendaval. O orgulho é a essência do pecado. aqueles que a possuíam, ela era identifi­
Foi o orgulho no coração de Lucifer que oca­ cada com a impiedade pelos oprimidos.
sionou a rebelião no Céu (ver Is 14:12-14). Em contraste, as pessoas pobres, que nor­
Um falso senso de orgulho deixa seu pos­ malmente não tinham como oprimir nin­
suidor, por um tempo, fora do alcance do guém, se achavam justas. Esse conceito
auxílio que Deus poderia lhe dar. Nada é de riqueza e pobreza é refletido na pará­
mais ofensivo a Deus que o orgulho, que con­ bola de Cristo sobre o rico e o mendigo
siste essencialmente na exaltação própria e (Lc 16:19-31).
754
LUCAS L59

54. Servo. Do gr. pais, “filho” ou "servo”. de que essa data está baseada numa tradição
Como povo escolhido de Deus, Israel com muito antiga, pode haver motivo para pen­
frequência é mencionado no AT como sar que ela representasse o período aproxi­
Seu “servo” (ver com. de Is 41:8; ver vol. 4, mado do nascimento. Mais tarde, a igreja em
p. 30-35). Alexandria mudou a celebração para 24 de
55. Como prometera. Referência às junho (data escolhida arbitrariamente seis
promessas de Deus repetidas muitas vezes meses antes de 25 de dezembro) a fim de
(ver Gn 22:17, 18; Dt 7:12-14; Mq 7:20; etc.). estar em harmonia com a prática das igrejas
Neste versículo, é feita uma referência espe­ latinas e gregas.
cial à misericórdia e ao auxílio de Deus exer­ Com 23 de abril como a possível data
cidos em favor de Seu povo escolhido de para o nascimento de João Batista, o nasci­
geração em geração (Lc 1:54). mento de Jesus teria sido por volta de 19 de
Sua descendência. Isto é, os descen­ outubro (ver p. 236-239; ver com. de Mt 2:1).
dentes de Abraão. Deve-se notar que esse cálculo está baseado
56. Maria permaneceu. E possível que apenas numa antiga tradição cujo valor é
Maria tenha ficado com Isabel até depois desconhecido.
do nascimento de João, embora a narrativa 58. Participaram do seu regozijo. Os
de Lucas pareça sugerir que ela saiu antes vizinhos de Isabel estavam felizes com ela.
disso. Parece uma total contradição que Algumas traduções dizem “a felicitaram”,
Maria saísse na época que Isabel mais pre­ o que certamente fizeram seus amigos e
cisaria de seu auxílio terno e compreensivo. parentes; mas a declaração dc Lucas neste
É possível que, neste versículo, Lucas men­ versículo não se preocupa tanto com felici­
cione a partida de Maria neste ponto para tações, mas com o genuíno sentimento de
completar a porção da narrativa relacionada compreensão por parte dos amigos de Isabel
à visita de Maria a Isabel. Outro exemplo (cf. Lc 15:6, 9; ICo 12:26).
dessa técnica literária, comum tanto no AT Um interesse genuíno nas alegrias e tris­
como no NT, ocorre em Lucas 3:20 e 21, tezas dos outros é uma virtude cristã fun­
em que o aprisionamento de João é apre­ damental. Ela é, na verdade, a base em que
sentado no registro anterior ao batismo de repousam todos os relacionamentos saudá­
Jesus, embora ele realmente tenha ocorrido veis. Essa preocupação com o bem-estar
depois. O fato de Maria não ser mencionada alheio é o resultado prático da operação da
pelo nome em Lucas 1:57 e 58 não indica, lei de Deus no coração — do tipo de amor que
de modo algum, que ela não participou no cumpre a lei (Mt 22:39, 40; Rm 13:10). Uma
episódio relatado aqui. pessoa não pode ser seguidora do Mestre a
Voltou para casa. L possível que os menos que esteja pronta e disposta a ale­
eventos de Mateus 1:18 a 25 (a aparição do grar-se com os que se alegram e chorar
anjo a José e o casamento dele) tenham ocor­ com os que choram (Rm 12:15; ver com. de
rido logo depois do retorno de Maria do lar Mt 5:43-48).
de Isabel para Nazaré. 59. No oitavo dia. Entre os hebreus era
57. Cumpriu-se o tempo. [O nasci­ costume administrar o rito de circuncisão no
mento de João Batista, Lc 1:57-66. Ver mapa, oitavo dia; isto é, quando a criança tinha sete
p. 211; grálico, p. 224). Nada se sabe sobre dias segundo a nossa contagem de tempo
a época do ano em que João nasceu. Diz-se (Gn 17:10-14; 21:4; ver com. de Lc 17:10, 11).
que a antiga igreja de Alexandria celebrava A circuncisão representava a admissão da 4
688

este evento em 23 de abril. Em vista do fato criança à relação da aliança. Sua importância

755
1:60 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

é comprovada pela exigência de sua realiza­ sentiam que nenhuma objeção seria levan­
ção (Lv 12:3). A circuncisão até ocorria no tada ao honrarem dessa forma a Zacarias e
sábado (Jo 7:22, 23; cf. Fp 3:5) e marcava os lhe mostrar respeito. O fato de que Zacarias,
judeus do sexo masculino como membros nesta época, estava surdo e mudo (ver com.
do povo escolhido na teocracia. Deus tomou de 1:62) parece tê-lo eliminado da discus­
Abraão e seus descendentes como uma raça, são e da decisão.
e os descendentes de Abraão foram consi­ 60. Respondeu sua mãe. Evidente­
derados automaticamente como súditos da mente Zacarias informou Isabel das instru­
teocracia. João não tinha escolha; era um ções do anjo sobre o nome da criança (ver
israelita, e os israelitas eram a nação esco­ v. 13). Não há evidência de que Isabel falou
lhida de Deus. A descendência abraâmica, aqui por inspiração.
no entanto, não assegurava salvação, como 61. Parentela. Do gr. suggeneia (ver
se evidencia nas repetidas declarações das com. do v. 36). Não havia precedentes fami­
Escrituras Sagradas (ver Lc 3:8; Jo 8:33-39; liares para o nome João. Geralmente o pri­
Rm 2:25-29; 9:4-8; G1 3:7, 9, 16, 29); assim, meiro filho perpetuava o nome do pai ou, com
nenhum judeu poderia entrar no relaciona­ mais frequência, o nome do avô. Esse cos­
mento da aliança sem se submeter a esse rito, tume mostrava respeito pelas gerações ante­
que deus ordenou a Israel. riores e servia para identificar a pessoa que
Como a circuncisão era um sinal do rela­ tinha o nome da família à qual ela pertencia.
cionamento de aliança do Israel literal com 62. Por acenos. O tempo verbal no
Deus, assim é o batismo para os cristãos (ver grego indica esforços repetidos para conver­
Cl 2:10-12; ver com. de Gn 17:10), os des­ sar com Zacarias.
cendentes espirituais de Abraão (G1 3:7, 9, 63. Uma tabuinha. Do gr. ■pinakidion,
27-29). O povo escolhido de Deus não se “uma pequena tábua”; “uma tábua para escre­
torna herdeiro da promessa com base na ver”. Se esta tábua de escrever não era uma
descendência física, mas pela fé pessoal em peça de acessório comum nos lares judeus,
Cristo para salvar do poder e da penalidade é provável que a condição de Zacarias tor­
do pecado (ver At 2:38; 3:19; 8:36, 37). nou seu uso necessário em seu lar durante o
Dar-lhe o nome. A palavra grega pode período de aflição (ver com. do v. 62).
ser interpretada como significando que eles Escreveu. Um idiomatismo tipicamente
lhe dariam nome ou que começariam a lhe hebraico usado para introduzir uma citação
dar o nome de seu pai. Os amigos e paren­ direta (ver 2Rs 10:6).
tes se reuniram para se alegrar com Zacarias João. Ver com. dos v. 13, 60. Zacarias
e Isabel. Eles aparentemente tomaram a ini­ escreveu, literalmente: “João, é o seu nome”.
ciativa nos eventos do dia. Alguns deles, A questão não foi aberta para mais discus­
sem dúvida, eram membros do sacerdócio, sões.
e um deles administrou o rito da circunci­ Todos se admiraram. Possivelmente
são. Podemos imaginar a discussão entre eles não tanto por causa da escolha de um
acerca do nome e para chegar a um acordo nome, pois Zacarias concordou com Isabel
com Zacarias. Há precedente no AT de ami­ em dar esse nome ao filho deles (ver com.
gos e parentes participando na escolha do dos v. 22, 62). Alguns comentaristas, apoia­
nome da criança (ver Rt 4:17). Ao propor dar dos por pelo menos um manuscrito antigo
o nome do pai à criança, os que se reuni­ (Beza), unem essa declaração e a declara­
ram na casa de Zacarias e Isabel estavam ção seguinte, isto é, o desimpedimento da
seguindo um procedimento costumeiro e língua de Zacarias (v. 64), em vez de Ugá-la

756
LUCAS L68

à declaração anterior. Isso pode ter ocorrido, p. 211; gráfico, p. 224]. O inspirado “cân­
mas é certo que Zacarias começou a falar tico de Zacarias" (v. 68-79), como geralmente
“imediatamente” após ter escrito o nome é conhecido, algumas vezes é chamado de
“João” (v. 64). Naquele mesmo instante, sua Benedictus, “bendito”, pois é a primeira pala­
fala e sua audição foram restauradas (ver vra na Vulgata Latina do v. 68. A referên­
com. do v. 62). O Códice de Beza e os antigos cia do v. 64 à fala de Zacarias e ao louvor a
689

► manuscritos latinos possuem frases dos v. 63 Deus possivelmente antecipam essas pala­
e 64 numa ordem diferente: “Imediatamente vras. O cântico de Zacarias é sacerdotal no
sua língua foi desimpedida, e todos se mara­ teor e apropriado a um filho de Arão, assim
vilharam, e sua boca foi aberta.” como o cântico de Maria é régio e apropriado
64. Desimpedida. A dificuldade física a uma filha de Davi. As frases sugerem que
de Zacarias foi removida. Esse milagre, ocor­ Zacarias passou o tempo anterior ao nasci­
rendo quando se deu nome à criança, serviu mento de João em estudo diligente do que os
para confirmar o nascimento de João como o profetas escreveram sobre o Messias e sobre
cumprimento da visão no templo. a obra de Seu precursor.
Louvando a Deus. Foi apropriado que O hino inteiro é tipicamente hebraico e
as primeiras palavras de Zacarias fossem messiânico. Ele é um cântico de louvor a
de louvor a Deus. Enquanto suas últimas Deus, em antecipação do iminente cumpri­
palavras tinham expressado dúvidas (v. 18), mento das promessas relativas ao Messias e
suas primeiras palavras foram uma expressão Seu reino. Divide-se em duas grandes seções:
de fé. Isso indicaria que os meses de silên­ a primeira consiste em três estrofes (v. 68,
cio resultaram em grande benefício espiri­ 69; 70-72; 73-75) essencialmente relaciona­
tual. Com todas as outras vozes silenciadas das com a missão do Messias, e a segunda,
e esperando em quietude e humildade diante em duas estrofes (v. 76, 77; 78, 79) relaciona­
de Deus, Zacarias descobriu que “o silêncio das à obra do precursor do Messias. O con­
da alma” tornou “mais distinta a voz de Deus” teúdo e a fraseologia do bino denotam um
(ver DTN, 363). conhecimento íntimo das Escrituras do AT,
65. Temor. Não terror, mas profundo principalmente dos profetas: v. 68 (SI 41:13;
temor e reverência religiosos (ver com. do 72:18; 106:48), v. 69 (lSm 2:10; SI 132:17),
v. 30). v. 71 (SI 23:5), v. 72 (SI 105:8; 106:45), v. 73
Região montanhosa. Isto é, a região ao (Êx 2:24; SI 105:9; Jr 11:5; Mq 7:20), v. 76
redor do lar dc Zacarias e Isabel (ver com. (Ml 3:1; cf. Is 40:3) e v. 79 (Is 42:7; SI 107:10;
dos v. 23, 39). cf. Is 9:1, 2). Além dessas referências mais
Divulgadas. Isto indica conversa con­ ou menos diretas, há muitas alusões ao AT.
tínua entre o povo sobre este assunto. 68. Senhor, Deus de Israel. Este é o
66. A mão do Senhor. Expressão título divino da aliança, e a utilização dele
usada figurativamente neste versículo para indica um reconhecimento e um desejo do
a providência divina. No NT, esta expres­ cumprimento de todas as promessas inclu­
são é peculiar a Lucas (ver At 11:21; 13:11), sas na aliança.
embora ela ocorra frequentemente no AT Visitou. Do gr. episkeptomai, “inspecio­
(Jz 2:15; lRs 18:46; etc.). Outros escritores nar”, “examinar”, no sentido de observar a
do NT utilizam a expressão “mão do Senhor” questão a fim de auxiliar. Em Mateus 25:36 a
(cf. lPe 5:6; Rm 10:21). mesma palavra é usada para visitar uma pes­
67. Cheio do Espírito Santo. [O cân­ soa aprisionada, não tanto no sentido de fazer
tico de Zacarias, Lc 1:67-80. Ver mapa, uma visita social mas para tentar socorrê-la.
757
1:69 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Aqui, Zacarias prevê o cumprimento das que, sem livramento do pecado pessoal, não
promessas messiânicas feitas a seu povo de poderia haver livramento dos inimigos da
geração em geração. Isso foi signif icativo em nação. Eles se concentravam nas recompen­
vista do fato de que, então (por aproximada­ sas do reto proceder enquanto se esqueciam
mente quatro séculos), as vozes dos profetas de fazer o bem (ver vol. 4, p. 13-20).
canônicos cessaram. A maioria do povo dizia 69. Um chifre (KJV). Uma metáfora
no coração: “Prolongue-se o tempo e não se comum do AT para designar força e poder (a
cumpra a profecia” (Ez 12:22). Deus visita ARA diz “poderosa”; ver lSm 2:10; ver com.
Seu povo, não em juízo, mas em misericór­ de 2Sm 22:3), baseado no fato de que a força
dia, para livrá-lo e redimi-lo. de combate de animais com chifres, como
Redimiu o Seu povo. Estas palavras touros e carneiros, está em seus chifres. Essa
constituem um anúncio implícito de que o explicação também pode ser uma referên­
Redentor logo surgiria, “para [...] dar a Sua cia aos capacetes dos guerreiros, em muitos
vida em resgate por muitos” (Mt 20:28). casos, adornados com chifres. Desta forma,
Como é frequente nas profecias do AT, “chifre” representa coisas como sucesso pes­
Zacarias fala de um evento futuro como soal (SI 92:9, 10), o poder das nações (ver
se ele já tivesse ocorrido (ver vol. 1, p. 2-4). com. de Dn 8:21) e até a força divina -
► As promessas de Deus são tão certas que “a força da minha salvação" (SI 18:2). Aqui,
690

Zacarias falava do plano da redenção como o “chifre” se refere ao próprio Messias.


um fato realizado. Na casa. Isto é, a dinastia da família.
Israel não foi apenas um grupo de pes­ Como prometido, o Messias seria descen­
soas em necessidade de salvação do pecado dente de Davi (ver com. de Mt 1:1).
(Lc 1:68, 77), mas também uma nação, um Servo. Do gr. pais, “criança" ou “servo”
“povo escolhido”, precisando de livramento (ver com. do v. 54).
dos inimigos (v. 71). Nas gerações passadas, 70. Seus santos profetas. Todos os pro­
Deus com frequência libertara os israelitas fetas da antiguidade deram testemunho de
dos inimigos de sua nação, tais como Egito, Cristo (ver Lc 24:25, 27, 44; Jo 5:39; At 3:21)
Midiã, Filístia, Assíria e Babilônia. Na ver­ e “indagaram e inquiriram” diligentemente
dade, o estabelecimento do reino messiânico para entender o que o “Espírito de Cristo,
como anunciado pelo profeta Daniel (Dn que neles estava”, significava (IPe 1:10, II).
2:44; 7:14, 18; 12:1) vislumbrou a libertação Desde a antiguidade. Esta expres­
completa e permanente de todos os inimi­ são é característica de Lucas (ver At 3:21;
gos. No entanto, no plano de Deus, a liberta­ 15:18). A primeira profecia de um Redentor
ção do pecado deve preceder a libertação das foi feita no jardim do Éden quando o ser
nações circunvizinhas. O orgulho nacional humano pecou (ver Gn 3:15). Enoque falou
levou os judeus a pensar na salvação quase para o povo de sua geração sobre o Messias
que exclusivamente cm termos de liberta­ (Jd 14, 15) e, a todas as gerações, Deus enviou
ção de inimigos externos e a negligenciar a pessoas inspiradas para testemunhar da cer­
necessidade de livramento de inimigos inter­ teza da salvação. Todos deram testemunho
nos ocultos. O conceito popular do Messias de Cristo (ver At 3:21; IPe 1:10-12).
como um salvador político não foi realmente 71. Libertar dos nossos inimigos.
uma questão de erro; foi, em parte, um caso Em resultado da transgressão, Israel serviu a
de ênfase equivocada (ver DTN, 30, 235), sucessivos povos estrangeiros: Egito, Assíria,
porque o AT está repleto de predições das Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma. O morti­
glórias messiânicas. Os judeus esqueceram ficante jugo de escravidão de Roma pesava

758
LUCAS 1:76

sobre eles. Para haver certeza, era necessá­ 74. Adorássemos sem temor. O con­
ria a libertação das nações inimigas antes texto atribui o temor principalmente aos “ini­
do estabelecimento do eterno reino messiâ­ migos”, isto é, da tirania de conquistadores
nico (ver com. do v. 74). Na verdade, a obra pagãos cujo exercício de poder arbitrário e
do Messias culminaria no estabelecimento cruel era muitas vezes um impedimento à
de Seu reino (ver Dn 2:44; 12:1; Mt 25:31-34; adoração e ao serviço a Deus. No nascimento
vol. 4, p. 16, 17). Neste ínterim, o “reino de de João e de Jesus, César e Herodes foram os
Deus” deveria ser estabelecido no coração principais inimigos do povo judeu (ver com.
(ver Lc 17:20, 21). Primeiramente, deveria de Lc 1:5; Mt 2:1). É possível também que
haver livramento do poder do pecado (ver Zacarias se referisse ao temor que enche o
Mt 1:21), e isso possibilitaria o livramento coração e impregna a vida daqueles que não
do salário do pecado, a morte (ver Jo 3:16; conhecem “a paz de Deus, que excede todo
Rm 6:23). Só então os seres humanos conse­ o entendimento” (Fp 4:7). É o temor dos mis­
guiriam desfrutar o reino eterno que Cristo térios das forças desconhecidas que controla
veio estabelecer (ver com. de Mt 4:17; 5:2; o destino das pessoas, bem como o temor do
ver vol. 4, p. 16, 17). grande dia do juízo.
72. Misericórdia. A misericórdia de 75. Em santidade e justiça. Ver
Deus, num certo sentido, guardada “em Ef 4:24. Esses dois termos podem ser con­
silêncio nos tempos eternos”, seria por fim siderados inclusivos “dos deveres de todo
manifesta (Rm 16:25, 26). Por inúmeras gera­ homem” (ver Ec 12:13), de tudo que Deus
ções aqueles “que jaziam nas trevas e na som­ exige dele (ver Mq 6:8).
bra da morte” esperavam pela misericórdia Todos os nossos dias. Aqueles que
encarnada de Deus para dirigir seus “pés servem a Deus “em santidade e justiça” podem
pelo caminho da paz” (Lc 1:79). estar confiantes no futuro. índependente-
Sua santa aliança. A “aliança eterna” rnente das incertezas e vicissitudes da vida,
como revelada a Adão e Eva no jardim do eles podem desfrutar paz e segurança de
Éden, a Noé, depois do dilúvio, a Abraão mente e corpo. Em meio a conflitos e tumul­
► e sua descendência e aos fiéis de todas as tos, eles vivem, por assim dizer, na presença
691

eras (ver Gn 9:16; 17:19; Lv 24:8; Hb 13:20). de Deus e respiram a pura e revigorante
A principal referência é feita à aliança atmosfera celeste.
entregue a Abraão e aos seus descendentes 76. Profeta do Altíssimo. Neste ver­
(Gn 15:18; 17:4-7). sículo, começa a maior seção do cântico de
73. Do juramento. O “juramento” aqui Zacarias. Da benevolência do Senhor, na
mencionado foi dado por Deus em confir­ primeira seção, os pensamentos de Zacarias
mação de Sua aliança com Abraão (ver passam a seu filho recém-nascido, João, que
Gn 22:16-18; Hb 6:13-18). Esta é uma das era o precursor do Messias, o prometido
duas “coisas imutáveis, nas quais é impossí­ mensageiro do Senhor. Jesus é apropriada­
vel que Deus minta” (Hb 6:18), a outra é a mente chamado “Filho do Altíssimo” (v. 32)
promessa que o juramento confirma. Ao dar e João, “profeta do Altíssimo”. Cristo testi­
a Abraão um juramento, Deus empregou um ficou que João era "muito mais que profeta”
costume humano para assegurar a Abraão a (Mt 11:9); na verdade, ele era, num sentido,
certeza de Sua promessa. A aliança eterna, o o maior de todos os profetas (ver com. de
plano da salvação, nos dá hoje “forte alento” Lc 1:15, 17).
e é como “âncora da alma, segura e firme” Precederás o Senhor. As específicas
(Hb 6:18, 19). predições de Isaías (40:3) e de Malaquias (3:1)
759
1:77 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

foram, mais tarde, declaradas por joão como Ap 7:2; 16:12; etc.). Entre os antigos povos
se referindo a ele (ver Jo 1:23; cf. Mt 11:10; do Oriente, bem como entre os orientais da
Lc 3:4). “O Senhor” é, evidentemente, o atualidade, o leste é o ponto cardeal da bús­
Messias, e Cristo é identificado, neste caso sola que indica posição de honra e respeito.
pelo menos, com Yahweh do AT (Is 40:3; ver Alguns comentaristas têm relacionado a
vol. 1, p. 150). palavra anatolê, ao surgimento do “Renovo”,
Preparando-Lhe os caminhos. Esta que nasceria das “raízes” de Davi (ver
foi a tarefa de João Batista. Ele deveria pre­ Is 11:1-4; Jr 23:5). E verdade que a palavra
parar o coração e a mente do povo para o anatolê pode ser usada dessa forma; na ver­
Messias, ao promover interesse nas profecias dade, ela é utilizada nesse sentido na LXX
a respeito dEle, ao afirmar que o tempo para (jr 23:5). No entanto, o contexto de Lucas
o cumprimento dessas profecias chegara, e 1:78 e 79 deixa claro que Zacarias, nestes
ao convidar ao “arrependimento” por meio versículos, se refere ao nascer do sol, em vez
do qual as pessoas podem se qualificar para do crescimento de uma planta. Malaquias
a cidadania no reino do Messias. fala de Cristo como “o sol da justiça” (Ml 4:2;
77. Conhecimento da salvação. Faz ver DTN, 22, 463, 464).
parte da natureza das coisas que o conhe­ Visitou (ARC). A evidência textual
cimento preceda a crença, porque “como (cf. p. 136) favorece a variante “visitará”
[...] invocarão Aquele em quem não cre­ (ARA: ver com. do v. 68).
ram'?” (Rm 10:14). A fé em Jesus exige uma 79. Alumiar. A linguagem deste ver­
compreensão inteligente dos fatos e prin­ sículo está claramente baseada na profe­
cípios fundamentais do plano da salvação. cia messiânica de Isaías 9:2. A luz sempre
Para crer, a pessoa deve ter algo para crer, foi um símbolo da presença divina (DTN,
e o grande objetivo do ministério de João 464), dAquele “que habita em luz inacessí­
foi lançar uma base firme para a crença de vel” (lTm 6:16; ver com. de Gn 3:24; Lc 1:78).
que Jesus de Nazaré era, de fato, o Messias Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo; quem
prometido, “o Filho de Deus”, “o Cordeiro Me segue não andará nas trevas; pelo contrá­
de Deus” (jo 1:34, 36). É o Messias quem rio, terá a luz da vida” (Jo 8:12; ver Lc 12:36).
possibilita a remissão de pecados (ver Mt Nosso Salvador é “a verdadeira luz, que, vinda
1:21; 26:28); foi Seu precursor quem trouxe ao mundo, ilumina a todo homem” (jo 1:9).
o conhecimento do pecado. Lucas torna evi­ Mateus aplica as palavras de Isaías 9:1 e 2 a
dente que a “salvação” de que ele fala é sal­ Cristo (Lc 4:14-16). A alegria da salvação per­
vação pessoal, em vez de salvação política tence àqueles que andam na luz (ljo 1:7), por­
da nação. É pela falta do conhecimento que que o caminho deles é “como a luz da aurora,
salva que as pessoas são “destruídas”, não que vai brilhando mais e mais até ser dia per­
por não ter ouvido sobre isso, mas por ter feito” (Pv 4:18; ver com. de Jo 1:4-9).
► rejeitado (ver Os 4:6). Jazem nas trevas. Aqueles que figura­
692

78. Entranhável misericórdia. Ver damente jazem nas trevas, evidentemente


Fp 2:1; Cl 3:12. Os gregos consideravam as agem assim porque não veem por onde
“entranhas” (o abdômen) como o centro das andam. Precisam da “luz” para guiar seus
emoções: ira, ansiedade, compaixão e amor. pés “no caminho da paz”. As pessoas jaziam
Sol nascente. Do gr. anatolê, “sair [do sol desconsoladas, esperando com olhos ane­
ou estrelas]” ou “leste”, isto é, o local do nas­ lantes a vinda da Luz da vida, cuja chegada
cer do sol. O termo é normalmente usado no dissiparia as trevas e tornaria claro o misté­
NT no último sentido (ver Mt 2:1; 8:11; 24:27; rio do futuro (ver DTN, 32). Por 4 mil anos,
760
LUCAS 1:80

os céus estavam escuros sob as nuvens do foi feita a respeito do menino Samuel (ver
pecado e da morte e, por séculos, nenhuma ISm 2:26).
estrela profética havia surgido nas trevas para E se fortalecia em espírito. Isto é,
guiar os peregrinos na busca pelo Príncipe em percepção intelectual e moral (ver ISm
da Paz (ver DTN, 31). Também nos encon­ 2:26; Lc 2:40, 52). O desenvolvimento simé­
tramos desconsolados, com a vida vazia e trico da força física, mental e moral é bem
incompleta, a menos que a Estrela da Alva ilustrado na vida de João, porque seus pais
surja em nosso coração e derrame a luz do o criaram “na disciplina e na admoestação
dia eterno em nossa vida (ver 2Pe 1:19). do Senhor” (Ef 6:4). De modo semelhante,
Sombra da morte. Ver com. de SI 23:4. é nosso privilégio hoje viver em comunhão
A sentença de morte é imposta sobre todas com Deus porque “também nós podemos
as pessoas como resultado do pecado (ver esperar que o Espírito divino molde nossos
Rm 6:23). Mas “assim como, em Adão, todos pequenos já desde os primeiros momentos”
morrem, assim também todos serão vivifica­ (DTN, 512; ver com. de Lc 1:15, 24; 2:52).
dos em Cristo” (ICo 15:22). "Os remidos do Desertos. Os “desertos” em que João pas­
Senhor, os que Ele resgatou da mão do ini­ sava a maior parte do tempo “até ao dia em
migo”, “andaram errantes pelo deserto, por que havia de manifestar-se" são geralmente
ermos caminhos”, e jaziam “nas trevas e nas conhecidos como os desertos da Judeia (ver
sombras da morte”, mas Ele “conduziu-os Mt 3:1; etc.). Esta região semiárida, selvagem,
pelo caminho direito” (SI 107:2, 4, 10, 7). acidentada e despovoada ficava entre o Mar
Dirigir os nossos pés. Zacarias se Morto e o cume dos planaltos montanho­
incluía entre aqueles cujos pés o Messias sos do sul da Palestina e constitui as encos­
“guiaria (...) ao caminho de paz”. tas orientais da cordilheira. Possivelmente esta
Caminho da paz. Isto é, o caminho foi a região onde Cristo mais tarde jejuou por
da salvação, o caminho pelo qual aqueles 40 dias e meditou em Sua missão. O deserto
cujo pecado os tem transformado em ini­ de Judá estava próximo a Hebrom, o possível
migos de Deus podem uma vez mais estar lar de Zacarias e Isabel (ver com. de Lc 1:23,
em paz com Ele (Rm 5:1, 10; 2Co 5:18; Ef 39). Embora alguns essênios, uma seita rígida
2:16). Cristo, o Príncipe da Paz, conseguiu e asceta do judaísmo, mantivessem colônias
isso, fazendo “propiciação pelos pecados do isoladas nesta área deserta, não há evidência
povo” (Hb 2:17). “Deus estava em Cristo histórica para o ponto de vista de que João se
reconciliando consigo o mundo” (2Co 5:19). tornou um essênio (ver com. de Mt 3:4). O lar
“Grande paz têm os que amam a Tua Lei” do profeta Amós foi na vizinhança de Tecoa,
(SI 119:165). Cristo veio para que pudesse dar uma pequena cidade situada próximo às fron­
paz a nós, como o mundo não conhece e não teiras desta área desértica (ver com. de Am 1:1).
pode oferecer (Jo 14:27). Esta “paz de Deus, Em anos posteriores, João fez por si mesmo
que excede todo o entendimento, guardará” o voto de nazireu, realizado por seus pais em
nosso “coração” e nossa “mente em Cristo seu favor por ocasião do nascimento dele
Jesus” (Fp 4:7). Quando Cristo entra no cora­ (DTN, 102). E possível que seus pais, que já
ção é sempre com as palavras: “ Paz seja con­ eram idosos quando ele nasceu (ver com. do
vosco!” (Lc 24:36). Dessa forma termina o v. 7), haviam morrido quando João ainda era
§► cântico de Zacarias (ver com. de Jo 14:27). jovem. Parece, também, que ele assumiu a sua
80. O menino crescia. Essencialmente residência na solidão do deserto, não muito
uma referência ao crescimento físico tempo depois. A solidão foi para João um mes­
(cf. Lc 2:40, 52). Uma declaração semelhante tre superior ao melhor rabino que Jerusalém
761
1:80 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

poderia oferecer, e o deserto foi uma mais meditação acerca da vontade e dos caminhos
bem equipada sala de aula do que o palácio de Deus, como revelados em Sua Palavra e
de Hcrodes ou os átrios do templo. As esco­ em Seu trato providencial conosco. A menos
las rabínicas o teriam incapacitado para sua que encontremos tempo para escapar do
tarefa (DTN, 101). Assim como apenas as ruído do mundo e nos apeguemos a Deus,
águas conseguem refletir as estrelas, ape­ aguardando em silêncio diante dEie, nunca
nas um coração não perturbado pelas ondas ouviremos o “cicio tranquilo e suave” que
e redemoinhos deste mundo consegue refle­ fala à mente (DTN, 330-331; cf. lRs 19:12).
tir perfeitamente a luz da “Estrela” que proce­ Deveria ser nosso propósito passar cada vez
deu “de Jacó” (Nm 24:17). João escolheu comomenos tempo com as coisas da Terra e devo­
seu lar um local onde todas as demais vozes tar cada vez mais tempo para caminhar com
que não fossem a de Deus foram silenciadas Deus como fez Enoque. Como João, precisa­
e onde ele podia em quietude esperar diante mos colocar nossa afeição nas “coisas lá do
do Senhor. Foi ali, na solidão do deserto, que alto, não nas que são aqui da terra” (Cl 3:2).
o silêncio de sua alma tornou mais distinta Manifestar-se. Do gr. anadeixis, “apon­
a voz de Deus (ver DTN, 363). Ali ele levou tar” ou “uma manifestação pública”. A pala­
uma vida relativamente isolada até que che­ vra anadeixis é usada com frequência pelos
gou a hora de assumir seu ministério público. escritores clássicos nos discursos de posse
Assim como o deserto foi a grande sala de pessoas nomeadas para cargos públicos
de aula de Deus para educar líderes como e também na dedicação de templos. Lucas
Moisés, Amós e João Batista, assim tam­ usa o verbo relacionado, anadeiknumi, com
bém as vicissitudes do deserto da vida podem referência à nomeação dos setenta (Lc 10:1).
proporcionar excelentes oportunidades para João era de descendência sacerdotal e como
colocar a pessoa em harmonia com o Céu. estipulado pela lei de Moisés, um sacerdote
A tranquilidade que vem com uma visão deveria iniciar seu ministério na idade apro­
das coisas invisíveis é o preparo necessário ximada de 30 anos (ver com. de Nm 4:3).
para aqueles a quem Deus escolhe hoje Ê possível que João se “manifestou” quando
para preparar o caminho para a vinda de tinha 30 anos, assim como Jesus quando ini­
Jesus. A vida moderna não é propícia para a ciou Seu ministério (ver com. de Lc 3:23). <
694

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

5-23 - DTN, 97-99 17-DTN, 101; PE, 155, 64-66 — DTN, 99


6, 8, 9, 11 - DTN, 97 259; T3, 61; 65 - DTN, 97
13 - DTN, 231 T6, 233 67 - DTN, 100
13-15 - Te, 292 20 - DTN, 99; PE, 24 72-74 - DTN, 103
13-19-DTN, 98 22, 23 - DTN, 99 76 - DTN, 97
14, 15-CRA, 225; 32, 33 - DTN, 81; 76-79-DTN, 100
CBV, 379 GC, 416; PP, 755 76-80-CPPE, 445;
15-DTN, 100, 149, 219; 35 - DTN, 24 EEC, 448
MCI I, 329; Te, 91, 269; 38 - DTN, 98 78, 79 - CBV, 423
T3, 62 46, 47 - T7, 87 79 - T9, 60, 64
15-17-CPPE, 445; 53 - DTN, 268; CBV, 75 80-DTN, 100, 101;
FEC, 447 57-80-DTN, 99-103 T8, 221, 331

762
LUCAS 2:1

Capítulo 2
1 César Augusto lança imposto sobre todo o império romano. 6 O nascimento de
Cristo. 8 Um anjo anuncia o nascimento aos pastores. 13 Há louvores a Deus
pelo nascimento. 21 Cristo é circuncidado. 22 Maria é purificada.
28 Simeão e Ana profetizam de Cristo. 40 Ele cresce em sabedoria,
46 fala no templo aos doutores e 51 é obediente aos pais.

1 Naqueles dias, foi publicado um decreto de 15 E, ausentando-se deles os anjos para o


César Augusto, convocando toda a população do céu, diziam os pastores uns aos outros: Vamos
império para recensear-se. até Belém e vejamos os acontecimentos que o
2 Este, o primeiro recenseamento, foi feito Senhor nos deu a conhecer.
quando Quirino era governador da Síria. 16Foram apressadamente e acharam Maria
3 Todos iam alistar-se, cada um à sua pró­ e José e a criança deitada na manjedoura.
pria cidade. 17E, vendo-o, divulgaram o que lhes tinha
4 José também subiu da Galileia, da cida­ sido dito a respeito deste menino.
de de Nazaré, para a Judeia, à cidade de Davi, 18 Todos os que ouviram se admiraram das
chamada Belém, por ser ele da casa e família coisas referidas pelos pastores.
de Davi, 19 Maria, porém, guardava todas estas pala
5 a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, vras, meditando-as no coração.
que estava grávida. 20 Voltaram, então, os pastores glorificando
6 Estando eles ali, aconteceu completarem- e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvi­
se-lhe os dias, do e visto, como lhes fora anunciado.
7 e ela deu à luz o seu filho primogênito, en- 21 Completados oito dias para ser circuncida­
faixoLi-o c o deitou numa manjedoura, porque não do o menino, deram-Lhe o nome de Jesus, como -<s§
havia lugar para eles na hospedaria. Lhe chamara o anjo, antes de ser concebido.
8 Havia, naquela mesma região, pastores que 22 Passados os dias da purificação deles se­
viviam nos campos e guardavam o seu rebanhogundo a Lei de Moisés, levaram-No a Jerusalém
durante as vigílias da noite. para O apresentarem ao Senhor,
9 E um anjo do Senhor desceu aonde eles es­ 23 conforme o que está escrito na Lei do Se
tavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles;Todo primogênito ao Senhor será consagrado;
c ficaram tomados de grande temor. 24 e para oferecer um sacrifício, segundo o
10 O anjo, porém, lhes disse: Não temais;
que está
eis escrito na referida Lei: Um par de rolas
aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que ou o dois pombinhos.
será para todo o povo: 25 Havia em Jerusalém um homem chama­
11 é que hoje vos nasceu, na cidade dedo Davi,
Simeão; homem este justo e piedoso que es­
o Salvador, que é Cristo, o Senhor. perava a consolação de Israel; e o Espírito Santo
12 E isto vos servirá de sinal: encontrareis estava sobre ele.
uma criança envolta em faixas e deitada em 26 Revelara-lhe o Espírito Santo que não pas­
manjedoura. saria pela morte antes de ver o Cristo do Senhor.
13E, subitamente, apareceu com o anjo uma 27 Movido pelo Espírito, foi ao templo; e,
multidão da milícia celestial, louvando a Deus quando os pais trouxeram o menino Jesus para
e dizendo: fazerem com Ele o que a Lei ordenava,
14 Glória a Deus nas maiores alturas, e paz 28 Simeão o tomou nos braços e louvou a
na terra entre os homens, a quem Ele quer bem.Deus, dizendo:

763
2:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

29 Agora, Senhor, podes despedir em paz o 41 Ora, anualmente iam Seus pais a Jerusa­
Teu servo, segundo a Tua palavra; lém, para a Festa da Páscoa.
30 porque os meus olhos já viram a Tua 42 Quando Ele atingiu os doze anos, subi­
salvação, ram a Jerusalém, segundo o costume da festa.
31a qual preparaste diante de todos os povos: 43 Terminados os dias da festa, ao regressa­
32 luz para revelação aos gentios, e para gló­rem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém,
ria do Teu povo de Israel. sem que Seus pais o soubessem.
33 E estavam o pai e a mãe do menino admi­ 44 Pensando, porém, estar Ele entre os com­
rados do que dEle se dizia. panheiros de viagem, foram caminho de um dia
34 Simeão os abençoou e disse a Maria, mãee, então, passaram a procurá-Lo entre os paren­
do menino: Eis que este menino está destina­ tes e os conhecidos;
do tanto para ruína como para levantamento de 45 e, não O tendo encontrado, voltaram a
muitos em Israel e para ser alvo de contradição Jerusalém à Sua procura.
35 (também uma espada traspassará a tua 46 Três dias depois, O acharam no templo,
própria alma), para que se manifestem os pen­ assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e
samentos de muitos corações. interrogando-os.
36 Havia uma profetisa, chamada Ana, filha 47 E todos os que O ouviam muito se admi­
de Fanuel, da tribo de Aser, avançada em dias, ravam da Sua inteligência e das Suas respostas.
que vivera com seu marido sete anos desde que 48 Logo que Seus pais O viram, ficaram ma­
se casara ravilhados; e Sua mãe Lhe disse: Filho, por que
37 e que era viúva de oitenta e quatro anos. fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, es­
Esta não deixava o templo, mas adorava noite etamos à Tua procura.
dia cm jejuns e orações. 49 Ele lhes respondeu: Por que Me procurá­
38 E, chegando naquela hora, dava graças a veis? Não sabíeis que Me cumpria estar na casa
Deus e falava a respeito do menino a todos os que de Meu Pai?
esperavam a redenção de Jerusalém. 50 Não compreenderam, porém, as palavras
39 Cumpridas todas as ordenanças segundo que lhes dissera.
a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a 51 E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes
sua cidade de Nazaré. submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas
40 Crescia o menino e Se fortalecia, enchendo-coisas no coração.
Sc de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre 52 E crescia Jesus em sabedoria, estatura e
Ele. graça, diante de Deus e dos homens.

1. Naqueles dias. fO nascimento de devia ter se enganado. Mais recentemente,


696

Jesus Cristo, Lc 2:1-7 = Mt 1:18-25. Ver no entanto, papiros e inscrições têm tra-«
mapa, p. 211; gráficos, p. 224, 231J. Isto é, zido apoio para a narrativa de Lucas em
logo depois do nascimento de João Batista. cada fato essencial declarado nos v. 1 a 3.
Jesus nasceu aproximadamente seis meses A partir dos registros oficiais de Augusto
depois de João (ver Lc 1:26, 56, 57). (Res Gestae Divi Augusti, i.8), sabe-se que
Um decreto. Este decreto foi emitido ele realizou pelo menos três levantamentos
em Roma (DTN, 44). Em vista do fato de gerais do império romano durante seu rei­
que nenhum historiador secular da época nado, em 28 a.C., 8 a.C., e 14 d.C. Nenhum
menciona este decreto, a erudição crítica dos três parece coincidir com o que Lucas
há muito tempo considerava que Lucas se refere, mas é completamente possível
764
LUCAS 2:3

que a tensa situação política na Palestina 2. Primeiro. Do gr. prõtos, palavra algu­
e a severa resistência judaica à tributação mas vezes usada quando poderia ser espe­
retardaram a execução do edito real nessa rado o gr. proteros, “mais cedo” (ver jo 1:15,
parte do império. Na verdade, houve levan­ 30; 15:18; ljo 4:19; etc.). É possível, embora
tamentos similares, ou censos, em outras gramaticalmente difícil, que a palavra prõtos
partes do império que não foram realiza­ seja usada neste sentido aqui. Lucas usa a
dos nos períodos mencionados acima, como forma adverbial prõton para indicar que algo
por exemplo, o censo de 12 a.C., na Gália. aconteceu primeiramente, no sentido de
E digno de nota que nenhum crítico pagão “antes” ou anterior a outra coisa (ver Lc 6:42;
ou judeu, como Celso e Porfírio, contestou 9:59; 21:9; etc.).
a precisão de Lucas neste ponto. Até mesmo Seja como for, não é possível duvidar que
por aqueles que não aceitam Lucas como um Lucas esteja correto em afirmar que um
escritor inspirado, ele é reconhecido como alistamento ou tributação de todo o impé­
um historiador capaz e confiável (ver com. rio romano ocorreu sob Augusto. Assim,
de Lc 1:1-4). Não é provável que um escritor Lucas está justificado como um historia­
tão cuidadoso seria negligente e se abriria dor preciso. Ao comentar sobre o v. 2, o
às críticas por desvirtuar fatos contemporâ­ International Critical Commentary men­
neos hem conhecidos (ver p. 238, 239; grá­ ciona: “A precisão de Lucas é tal que deve­
ficos, p. 224, 225, 231). mos exigir prova muito forte antes de rejeitar
César Augusto. Imperador de Roma de qualquer declaração de sua autoria como um
28 a.C. a 14 d.C. (verp. 24-26, 235; gráficos, erro inquestionável.”
p. 225, 231). Otaviano, que adotou o título de Quirino. Sentio Saturnino foi governador
Augusto, era sobrinho-neto de Júlio César, da província romana da Síria, de 9 a 6 a.C.
que foi assassinado em 44 a.C. Um decreto e foi sucedido por Quintilio Varo, que con­
emitido sob sua autoridade parecia ter sua tinuou no ofício até algum tempo depois da
sanção mesmo se não fosse emitido por ele morte de Herodes, em abril de 4 a.C. Cirênio
pessoalmente. (Quirino) exerceu o cargo em 6 d.C. (Josefo,
Mundo (ARC). Do gr. oikoumenê, o Antiguidades, xviii.1.1), embora não se saiba
“mundo habitado”, mais apropriadamente o quanto tempo ele serviu na Síria (ver p. 238).
“mundo civilizado”, como distinto do mundo 3. Cada um à sua própria cidade.
bárbaro ou não romano. Vários escrito­ Entre os romanos possivelmente teria sido
res romanos como Políbio e Plutarco usam suficiente para cada pessoa se registrar
oikoumenê nesse sentido. na cidade onde residia na época, em vez
Recensear-se. Do gr. apographõ, “anu­ de na cidade de seu antigo lar. Sabe-se que
lar”, “copiar”, “registrar" ou “se inscrever” o costumeiro “alistamento” romano por cida­
(ver DTN, 44, em que é usada a palavra des nem sempre era seguido nas províncias.
“alistamento”). A palavra apographõ não é Por exemplo, os gauleses foram alistados por
apropriadamente usada para cobrança de tribos. Um decreto existente autorizando um
impostos, mas para o que chamaríamos hoje censo romano no Egito exigia que as pes­
de um censo. Nos tempos antigos, no entanto, soas se registrassem no local de origem (ver
um censo normalmente incluía o registro de referência bibliográfica de George Bradford
propriedade bem como dos nomes e era leito Caird, p. 266, 267). Em vista do fato de que
normalmentc como a base para a imposição a genealogia tribal significava muito para os
de um imposto sobre a propriedade. O termo judeus, é provável que LIerodes, o Grande,
pode indicar tributação. decidiu sobre o “alistamento” por tribos

765
2:4 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

como o melhor procedimento para a região. então, ambos eram estrangeiros, “desabri­
De qualquer forma, esta informação indica gados”, “não eram reconhecidos nem honra­
que Herodes foi o instrumento pelo qual dos” (DTN, 44).
o decreto romano foi executado na Judeia. Esposa. Evidências textuais favorecem
Esta informação também vindica a confia­ (cf. p. 136) a omissão desta palavra. Maria
bilidade do relato de Lucas. possivelmente não teria viajado com José
4. José também subiu. As Escrituras a menos que eles fossem casados. Mateus
mantêm silêncio quanto ao fato de José indica que José casou com Maria imediata­
§► e Maria estarem cientes de que a profe­ mente depois de o anjo instruí-lo a se casar
cia apontava Belém como o local onde o com ela (Mt 1:24), ou seja, antes da viagem
Messias deveria nascer (ver com. do v. 5). a Belém (ver com. de Lc 2:1).
Lucas apenas indica o cumprimento, com 6. Completarem-se-lhe os dias. Isto
o decreto de Augusto, informando sobre o é, segundo a promessa do anjo a Maria
motivo da viagem. (Lc 1:31). Isso ocorreu aproximadamente
Cidade de Davi. Assim chamada por­ seis meses após o nascimento de João Batista
que foi o antigo lar de Davi (ver lSm 17:12, (Lc 1:36, 39, 56, 57; ver com. de Lc 1:39).
58), seu cidadão mais ilustre. O ano exato e a época do ano do nascimento
Belém. Ver com. de Gn 35:19; Mt 2:1. de Cristo não são conhecidos (sobre o ano,
A cidade está oito quilômetros ao sul de ver p. 236-239; sobre a época do ano, ver
Jerusalém e tem uma parcela de sua popu­ com. de Lc 1:57; 2:8).
lação constituída por árabes cristãos. Seu 7. Primogênito. Do gr. prõtotokos (ver
nome atual é Beit Lahm. com. de Mt 1:18, 25; cf. com. de Lc 1:35).
Da casa e família. Embora a decla­ Não há evidência direta se Maria teve outro
ração neste versículo se aplique exclusiva- filho após o nascimento de Jesus (ver com.
mente a José, é evidente que Maria também de Mt 1:25), embora o fato de Jesus, na cruz,
era da "casa e família" de Davi (ver com. de ter entregado Sua mãe aos cuidados de João
Mt 1:16, 18; Lc 1:27; cf. DTN, 44). torna improvável que ela tenha tido outros
5. Com Maria. Não se informa o filhos que estivessem vivos na época (ver
motivo que levou Maria a acompanhar com. de Jo 19:26).
José. Nenhuma lei romana ou judaica exi­ Enfaixou-o. As crianças hebreias, ao
gia que ela viajasse. Segundo a lei romana, nascer, eram lavadas em água, esfregadas
a mulher deveria pagar o imposto do censo, com sal e envolvidas em faixas (ver com.
mas não precisava estar presente. Pode ser de Ez 16:4), que eram tiras de tecido que
que Maria, sabendo que o nascimento de seu enrolavam livremente o tronco e os mem­
filho estava próximo, soubesse também que bros do bebê. Segundo o costume, o bebê
a profecia apontava Belém como o local de era posto diagonalmente numa peça qua­
seu nascimento (Mq 5:2), e intencionalmente drada de tecido; duas pontas eram dobradas
acompanhou José. Eles podem ter proposto sobre seu corpo, uma ponta sobre seus pés,
estabelecer residência em Belém (ver DTN, e a outra, por baixo da cabeça. Esse arranjo
66). Novamente, pode ser que sua ida foi era mantido por mãos que seguravam frou­
ditada pelo Espírito Santo. O fato de eles xamente o exterior.
não conseguirem encontrar um local de hos­ Numa manjedoura. Nenhum lugar
pedagem em Belém pode indicar que não mais humilde poderia ter sido achado para
possuíam propriedade ali. Em Lucas 2:39, deitar o bebê Jesus; ninguém pode dizer que
Nazaré é chamada "sua cidade”. Em Belém, iniciou a vida de um modo mais renegado.

766
LUCAS 2:8

Pobres em riquezas deste mundo (ver com. verdade as encontrarão (ver Mt 7:7; Hb 9:28).
do v. 24), José e Maria eram ricos na fé. Uma Não importa quão humilde é nossa condição
tradição, que se originou alguns séculos social, o mais importante é acalentar no cora­
mais tarde, situa o local da natividade numa ção a “bendita esperança” (Tt 2:13).
caverna na vizinhança de Belém. O local, Os líderes de Israel, desleais à sua
no entanto, era um “rústico rancho” onde crença, foram passados ao largo em favor de
os “animais” eram abrigados (DTN, 44). um grupo de pastores humildes e devotos.
Pensa-se que o boi e o jumento normalmente Mesmo quando os sacerdotes e rabinos em
introduzidos nas ilustrações da natividade Jerusalém ouviram o relato da visita dos anjos
pelos artistas foram sugeridos por Isaías 1:3. aos pastores, eles recusaram crer. Ao contrá­
Não havia lugar. Pela simples razão de rio dos pastores, eles não foram a Belém para
a hospedaria já estar repleta de hóspedes. investigar, e qualificaram o relatório como
Não é indicado nenhum pensamento de falta um delírio (ver DTN, 63).
de hospitalidade por parte do administra­ Viviam. Se o costume estava sendo
dor da hospedaria. L possível que a grande seguido, os pastores viviam nos campos dia
maioria dos judeus residentes na Palestina e noite. Isso indica claramente que a esta­
naquela época fosse descendente de Judá, ção daquela ocasião era depois das chuvas
Benjamim ou Levi. Por isso, as acomodações de abril e antes das de novembro (ver vol. 2,
por toda a Judeia estavam lotadas. p. 92, 94), o período em que as ovelhas eram
Hospedaria. Do gr. kataluma, “um mantidas cm campo aberto. Os invernos
local de hospedagem” ou “uma pousada”. eram frios e chuvosos nas regiões monta­
Possivelmente um pequeno caravançarai nhosas da Judeia, e se fosse esse o caso, os
oriental, que normalmente é constituído de pastores teriam procurado abrigo das for­
quartos de frente a uma varanda coberta tes chuvas de inverno, tanto para si mes­
► ao redor de um pátio central. Os viajantes mos como para os rebanhos. Considerando
869

poderiam ficar em um dos quartos ou ocupar todas as evidências a respeito da época do


poucos metros quadrados atribuídos a eles nascimento de Cristo, parece que situar o
no piso da varanda coberta. Os animais e a nascimento no outono preencheria melhor
bagagem dos viajantes deveriam ser manti­ o padrão cronológico do contexto. Isso não
dos no pátio. significa, no entanto, excluir a possibili­
8. Pastores. [Os anjos e os pastores, dade de que o nascimento tenha ocorrido
Lc 2:8-20. Ver mapa, p. 211]. Homens sim­ em algum outro período do ano (ver com.
ples e devotos, os pastores passavam as horas de Lc 1:57).
silenciosas da noite conversando sobre o Foi só no 4o século da era cristã que
A4essias prometido e orando por Sua vinda o dia 25 de dezembro passou a ser obser­
(ver DTN, 47). Aparentemente, eles estavam vado como aniversário de Cristo. Segundo
entre o pequeno grupo de fiéis que aguar­ o calendário Juliano, esta era a data do
davam pela “consolação de Israel" (v. 25) solstício de inverno, quando o Sol se volta
e “esperavam a redenção de Jerusalém” em direção ao norte. Nas regiões pagãs,
(v. 38; ver eom. de Mt 1:18; Le 2:25, 26, 38). essa época era marcada pelas celebrações
É sempre a tais pessoas que o Céu comunica festivas, conhecidas entre os romanos como
a luz e a verdade. a Saturnália, realizadas cm honra a várias
Apenas aqueles que “têm fome e sede de divindades solares. Na igreja ocidental é que
justiça” podem esperar ser “fartos” (Mt 5:6). o nascimento de Cristo foi primeiramente
Apenas aqueles que buscam por luz e associado ao feriado pagão.

767
2:9 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Guardavam. Literalmente “observa­ as “boas-novas” ou “boas notícias”, o “evan­


vam vigilantes”, o plural possivelmente indi­ gelho” do amor redentor.
cando que os pastores se revezavam. Esses Para todo o povo. Segundo a comissão
campos eram os mesmos onde Davi guar­ apostólica, os discípulos deveriam ensinar a
dava os rebanhos de seu pai (ver DTN, 47). “todas as nações” o evangelho da salvação
Nas proximidades de Belém estava “a torre (Mt 28:19).
de Éder”, literalmente, “a torre do reba­ 11. Cidade de Davi. Ver com. do v. 4.
nho” (ver com. de Gn 35:21; cf. Mq 4:8). Cristo nasceu no momento (ver G1 4:4) e no
Segundo a tradição, os rebanhos destina­ local certos (ver com. de Mq 5:2).
dos ao sacrifício no templo em Jerusalém Salvador. Do gr. sõtêr, título que con­
eram reunidos ali. Pode ser que os pasto­ tém a mesma ideia que o nome de Jesus (ver
res a quem os anjos apareceram estavam com. de Mt 1:1, 21).
“guardando” os rebanhos já separados para Cristo, o Senhor. Não mais vestido
esse propósito. com a glória celeste, mas “envolto em faixas”
9. Um anjo. A importante missão de (v. 7, 12), o filho de Maria era ainda assim,
anunciar o nascimento do Messias estaria “Cristo, o Senhor” (cf. Hb 1:6). O título
mais apropriadamente confiada ao líder da identifica Cristo com “o Senhor” dos tem­
hoste angélica, Gabriel (ver DTN, 780; ver pos do AT (ver PP, 366; DTN, 52; ver com.
com. de Lc 1:19). de Lc 1:76), e seria equivalente à expressão
Desceu aonde eles estavam. Talvez Yahweh Messias (ver com. de Mt 1:1; ver
o anjo estivesse acima dos pastores a uma vol. 1, p. 150).
discreta altura. E possível que o primeiro 12. De sinal. A evidência textual favo­
vislumbre deles tenha sido sua aparição aos rece (cf. p. 136) a variante “o sinal”. Como
pastores. usado nas Escrituras, um “sinal” não é neces­
Glória. Do gr. doxa, neste versículo, sariamente miraculoso (ver com. de Is 7:14).
essencialmente “esplendor”, talvez compa­ O “sinal” dado aos pastores era um meio
rável com o que mais tarde se manifestou de identificação. O nascimento do Bebê
no monte da transfiguração (Lc 9:31,32; ver de Belém seria o oposto do que os pastores
com. de Rm 3:23). esperavam, em vista de suas exaltadas ideias
Grande temor. Como pode se consi­ a respeito do Messias.
derar natural numa ocasião em que o véu Envolta em faixas. Ver com. do v. 7.
entre seres humanos e o mundo invisível é 13. Subitamente. Uma multidão incon­
retirado. Nos tempos do AT, as pessoas às tável de anjos se reuniu acima das montanhas
quais os anjos apareciam, algumas vezes, de Belém, aguardando o anúncio angélico do
pensavam neles como mensageiros da morte nascimento do Salvador.
(Jz 6:22, 13:21, 22). Este anjo veio anunciar Milícia. Do gr. stratia, “exército", “hoste"
livramento e alegria (ver Lc 2:10). ou “bando”, um termo militar comum, refe-
10. Não temais. Ver com. de Lc 1:13. rindo-se, neste versículo, às fileiras do exér­
Boa-nova. Do gr. euaggelizõ, “procla­ cito angelical (ver com. de SI 24:10; Js 5:14).
mar boas-novas” ou “anunciar boas- novas”. 14. Glória a Deus. O plano da salvação
As palavras “evangelista”, “evangelizar” e foi originado em Deus, e é justo que os anjos
“evangelismo” são derivadas dessa palavra e os seres humanos atribuam glória e louvor
699

► grega. E nesse sentido que os escritores evan­ a Ele. Nesse cântico dos anjos, "glória” é poe­
gélicos são chamados “evangelistas”. Desde ticamente harmonizada com “paz”, “Deus”
seu início, à cristandade foram anunciadas é harmonizado com “homens” e “alturas” é
768
LUCAS 2:22

harmonizada com “terra”. O plano da salva­ pastores alcançou os ouvidos dos sacerdotes,
ção reconcilia Deus e seres humanos, tra­ anciãos e rabinos em Jerusalém - mas eles
zendo, assim, paz aos seres humanos e glória trataram o ocorrido como indigno de nota
a Deus. A paz pode ocorrer apenas quando a (DTN, 62). Esses líderes sentiam que cer­
vontade de Deus é feita “assim na terra como tamente Deus não os passaria de largo, eles,
no Céu” (Mt 6:10). os líderes religiosos da nação, em benefício
Boa vontade para com os homens! de um inculto bando de pastores insignifi­
(ARC). Evidências textuais (cf. p. 136) cantes, a seu ver (ver com. de Mt 2:4). Todos
favorecem a variante “paz na terra entre aqueles em cujo coração Cristo nascer hoje
os homens de boa vontade”, isto é, pessoas compartilharão, como os pastores, as boas-
que estão bem dispostas para com Deus novas com outras pessoas.
e os semelhantes (ver com. de Mq 6:8; 19. Guardava. Maria guardava os inci-«

700
Mt 22:36-40). Em alguns manuscritos, a dentes vivamente na memória. No entanto,
referência é à expressa “boa vontade” de Deus ao contrário dos pastores, ela não saiu con­
para com os seres humanos; de acordo com tando a todos que encontrava sobre as mara­
outros manuscritos, é a efetiva “boa vontade” vilhosas coisas que lhe aconteceram.
de Deus operando nos seres humanos. Meditando-as. Literalmente, “as reu­
Cristo é a “boa vontade” de Deus encar­ niu”. Maria meditava sobre os vários acon­
nada. Ele é o “Príncipe da Paz” (Is 9:6), tecimentos ligados ao nascimento de Cristo,
Aquele que proclamou: “Deixo-vos a paz, a comparando uns com os outros para melhor
Minha paz vos dou; [...] Não se turbe o vosso compreender o significado de tudo. Ela não
coração, nem se atemorize” (Jo 14:27). Em apenas lembrava vividamente as palavras de
consequência da Sua vinda é nosso privilé­ Gabriel a ela, mas as comparava com o relato
gio termos “paz com Deus por meio de nosso dos pastores.
Senhor Jesus Cristo” (Rm 5:1). “Ele é a nossa 21. Oito dias. [A circuncisão de Jesus,
paz” (Ef 2:14). Esta é a “paz de Deus” que Lc 2:21]. isto é, no oitavo dia, incluindo o dia
“guardará o vosso coração e a vossa mente do nascimento (ver com. de Lc 1:59).
em Cristo Jesus” (Fp 4:7). Circuncidado. Para Abraão, “o sinal da
15. E aconteceu que (ARC). Ver com. circuncisão” foi “um selo” de “justiça” por
de Lc 1:8. sua “fé” (Rm 4:11). A circuncisão represen­
Vamos. Não restou dúvida na mente dos tava a admissão aos privilégios e responsa­
pastores quanto à veracidade da mensagem de bilidades do relacionamento de aliança; era
Gabriel. Eles agiram imediatamente. Há um um compromisso de obediência. Cristo, o
contraste entre a crença deles e a hesitação Autor da aliança e de seu sinal visível - o rito
de Zacarias (ver com. de Lc 1:18, 20). da circuncisão (PP, 373, 396) - submeteu-Se
16. Apressadamente. Os pastores não ao rito, e assim veio sob os termos da aliança
estariam satisfeitos até que vissem por si representada por este. Ele nasceu “sob a lei"
mesmos o “sinal” prometido, confirmando (G1 4:4) e submeteu-Se às suas exigências.
as palavras do anjo. O nome de Jesus. Ver com. de Mt 1:1.
17. Divulgaram. Era impossível aos Os meninos recebiam o nome na circunci­
pastores esconder a luz que fora derra­ são (ver Lc 1:59-66). O anjo Gabriel infor­
mada em seu coração, assim como o sol mou Maria e José que o nome da criança
não cessa seu brilho. As boas-novas eram seria Jesus (Mt 1:21; Lc 1:31).
boas demais para guardarem para si mes­ 22. Os dias da purificação (ARC).
mos. Afinal, o relato da visita dos anjos aos [A apresentação de Jesus no templo,

769
2:23 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Lc 2:22-24. Ver mapa, p. 212], Evidências da promessa divina de dar Seu Primogênito
textuais (cf. p. 136) favorecem a variante para redimir o ser humano e em memória
“purificação deles” (ARA). A palavra “deles” e gratidão pela libertação dos primogênitos
poderia se referir a Jesus e Maria ou a José na época do êxodo (ver com. de Ex 13:2, 12;
e Maria. Se a palavra “deles” incluir Jesus, Nm 3:12, 13). O recém-nascido deveria ser
é possível que seja no sentido de Sua dedi­ resgatado, ou comprado de volta, por meio
cação no templo estar intimamente ligada de pagamento em dinheiro, uma quantia
com a purificação dela. Se incluir José, é estipulada de cinco siclos (Nm 18:15, 16).
possível que seja no sentido de, como líder Essa quantia representava aproximadamente
do lar, ele ser o responsável pelo cumpri­ 20 denários romanos, ou era equivalente ao
mento dos rituais exigidos para Maria. salário de 20 dias de um trabalhador (ver
Parece mais natural ter os pronomes “deles" p. 37).
e “eles” (incluindo José) como se referindo 23. Conforme o que está escrito. Ver
às mesmas pessoas. A lei levítica estipulava Êx 13:2, 12, 15.
que o tempo de “impureza” da mãe se tivesse Todo primogênito. Ver com. do v. 22.
um menino era de 40 dias, se tivesse uma 24. Um sacrifício. Pela “purificação”
menina, era de 80 dias (ver com. de Lv 12). de Maria (ver com. do v. 22).
Durante esse período ela deveria permane­ Um par de rolas. Uma espécie de
cer em casa e não deveria participar das prá­ pombo. Estivessem José e Maria em circuns­
ticas religiosas públicas. Era a mãe, e não a tâncias mais favoráveis e teriam trazido um
criança, que precisava de “purificação”. A cordeiro para o sacrifício (ver Lv 12:6). Em
mãe e a criança deveriam comparecer ao vez disso, trouxeram a oferta dos pobres: uma
templo para a “purificação” de um e apresen­ ave era para o sacrifício, e a outra, para a
tação do outro. Houve uma finalidade dupla oferta pelo pecado (ver Lv 12:8; ver com. de
que levou José, Maria e Jesus a Jerusalém Lv 1:14; 5:7). =
nessa ocasião, numa distância de cerca de 25. Simeão. [O cântico de Simeão,
oito quilômetros. A ida ao templo ocorreu Lc 2:25-35]. E infundada uma tradição que
antes da visita dos magos, porque, depois identifica esse santo idoso com o rabino
disso, José e Maria não se atreveriam a visi­ Simeão, filho de Hillel e pai de Gamaliel.
tar Jerusalém. Além disso, deixaram Belém O rabino Simeão se tornou presidente do
e foram ao Egito quase que imediatamente Sinédrio em 13 d.C., 17 ou 18 anos depois do
após a visita dos magos (ver Mt 2:12-15). nascimento de Jesus. No entanto, o Simeão
Segundo a Lei de Moisés. Nascido de Lucas 2 já era idoso (v. 26, 29), como indi­
“sob a lei” (G1 4:4), Cristo obedeceu às leis cado pelo fato de que lhe foi dada a certeza
que Ele mesmo deu a Moisés 1.500 anos de que viveria para ver o Messias.
antes (PP, 366, 373; ver com. de Lc 2:21). Justo e piedoso. Simeão era “piedoso”,
Como substituto do ser humano, foi necessá­ ou piedoso de coração, com relação a seus
rio que Cristo Se “conformasse com a lei em deveres para com Deus, e “justo” em sua con­
cada particular” (DTN, 50). E interessante duta para com seus companheiros (ver com.
observar que a palavra "lei” ocorre cinco vezes de Mq 6:8; Mt 22:36-40).
neste capítulo (v. 22, 23, 24, 27, 39) e apenas Esperava. Simeão pertencia ao grupo
quatro vezes no restante do livro de Lucas. dos humildes e devotos pesquisadores das
Para O apresentarem. Iodo menino Escrituras, assim como Zacarias e Isabel
recém-nascido deveria ser consagrado (Lc 1:6, 67), José (Mt 1:19), Maria (Lc 1:28),
ao Senhor. Isso era feito em reconhecimento os pastores (DTN, 47), Ana (Lc 2:37), os
770
LUCAS 2:29

magos (Mt 2:11; DTN, 59), José de Arimateia Não tendo aproveitado a luz já revelada, ele
(Mc 15:43) e poucos outros (2:38). Foi a esses estava despreparado para maior luz.
fiéis que procuravam pelo Messias que o 28. Louvou a Deus. Comparar com
Céu deu a conhecer a chegada de Cristo Lc 1:64. Sohre o significado da expressão
(cf. Hh 9:28). É nosso privilégio hoje pro­ “louvar a Deus" no AT, ver com. de SI 63:4.
curar “a bendita esperança e a manifestação 29. Senhor. Do gr. despotês, significando
da glória do nosso grande Deus e Salvador “governante absoluto”. A palavra despotês
Cristo Jesus” (Tt 2:13). em si mesma originalmente não indica se
A consolação de Israel. Esta expres­ o “governante absoluto” era bom ou mal. No
são fazia parte de uma fórmula de oração entanto, é perigoso colocar poder absoluto
judaica comum: “Que eu possa ver a conso­ nas mãos de qualquer ser humano. O cará­
lação de Israel”, quer dizer, “Que eu viva para ter de uma pessoa é logo revelado pelo uso do
ver o Messias”. A expressão “consolação de poder, a extensão de sua impiedade é reve­
Israel” reflete várias proíecias messiânicas lada no nível do abuso de poder. Sendo a
do AT sobre o “conforto” da esperança mes­ natureza humana o que é, poder absoluto
siânica (ver ís 12:1; 40:1; 49:13; 51:3; 61:2; normalmente tende a realçar o mal em uma
66:13; etc.). pessoa em vez de realçar o bem; por isso,
26. Não passaria pela morte. Em as palavras “déspota”, “despótico” e “des­
todas as épocas, os piedosos têm entesou­ potismo”, derivadas de despotês, refletem o
rado a expectativa de viver para ver o cumpri­ uso do poder tirânico e mau. Mas o uso de
mento da esperança messiânica. Deus propôs despotês com relação a Deus apresenta uma
que essa esperança deve brilhar no coração ideia diferente. Deus, como “Governante
de Seus fiéis porque, mais que qualquer outra absoluto”, refletiria em Seu governo a per­
coisa, ela leva as pessoas a santificar a vida feição absoluta de Seu caráter. Despotês é
(ver ljo 3:2, 3). No entanto, os piedosos nos uma palavra raramente usada para o Senhor
dias de Si meão tinham a certeza profética de (At 4:24; Jd 4; Ap 6:10); em vez disso, é
que sua geração veria o Messias. usada para “dono” de escravos (lTm 6:1, 2;
O Cristo do Senhor. Ou, “o Ungido 2Tm 2:21; Tt 2:9; lPe 2:18). A palavra usual
do Senhor” (ver com. de Mt 1:1), um título do NT para Senhor ou senhor é kudos, que
judaico pré-cristão para o Messias. apenas denota um superior sem especificar
27. Movido pelo Espírito. Sendo o grau de superioridade. Com frequência,
"justo e piedoso” (v. 25), Simeão andara a palavra kudos era usada apenas como um
na luz com a qual o Céu iluminava, até o título de respeito, como "senhor”.
momento, seu caminho, então seus olhos Nos v. 29 e 30, Simeão fala do que o
foram abertos para uma luz maior. Quão Messias significa para ele pessoalmente; nos
diferente foi com o sacerdote que momen­ v. 31 e 32 seus pensamentos se voltam para o
taneamente segurou o bebê Jesus nos braços que o Messias significa para todas as pessoas.
(ver DTN, 52)! Como muitos companhei­ Podes despedir. Simeão realizou seu
ros sacerdotes, ele estudou as Escrituras ohjctivo. Viveu para ver o Salvador esperado.
em vão (ver DTN, 30), principalmente por Não havia outro desejo ou exigência de sua
causa da indisposição para viver pelos prin­ parte, e ele estava pronto para terminar seu
cípios ali revelados (ver Os 4:6). Em con­ serviço e descansar (ver com. do v. 26).
sequência, seus olhos espirituais estavam Em paz. Simeão realizou o desejo de seu
completamente cegos quando ele foi levado coração e, pela fé, viu no bebê Jesus o cum­
face a face com a Luz da vida (ver Jo 1:7-l 1). primento das promessas messiânicas do AT.
771
2:30 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

No coração de todas as pessoas há um vazio mas porque Deus julgou adequado torná-
que não pode ser preenchido, um anseio que los Seus embaixadores especiais de luz e
não pode ser saciado, a não ser por Jesus. verdade (ver Dt 7:7, 8). O progenitor deles,
Não deveríamos descansar até que também Abraão, era um sincero investigador da ver­
víssemos pela fé, como Simeão, “o Cristo dade e, como tal, submetia-se à orienta­
do Senhor”. ção divina. O Senhor está constantemente
30. Salvação. Do gr. sõtêrion (ver com. pronto a trabalhar com aqueles que estão
do v. 11). Na LXX, a palavra sõtêrion é geral­ dispostos a ser liderados por Ele. A vanta­
mente usada para o heb. shelem, “uma oferta gem especial dos judeus como nação con­
dc gratidão” ou “uma oferta de paz” (ver sistia principalmente no fato de que eles
vol. 1, p. 754). deveriam ser recipientes, guardiões e arau­
31. Preparaste. Ou, “aprontaste”. tos da verdade (ver Rm 3:1, 2; 9:4, 5).
Todos os povos. Lucas novamente Povo. Do gr. laos, um termo que os escri­
observa o apelo universal da mensagem evan­ tores do NT consistentemente aplicam a seu
gélica (ver vol. 4, p. 15-17). próprio povo, tanto a judeus como a cristãos.
32. Luz. Ver com. de Lc 1:78, 79. A palavra “gentios” é da raiz ethnos, “uma mul­
Para revelação. O “véu que está posto tidão que vive junta”, portanto, “uma nação”.
sobre todas as nações” (Is 25:7) seria removido No NT, a palavra ethnos é consistentemente
(ver Is 60:1-3). traduzida como “nação” ou “gentio”.
Aos gentios. Desde os tempos anti­ 33. José (ARC). Evidências textuais
gos, o povo hebreu foi instruído a respeito (cf. p. 136) favorecem a variante “pai” (ARA).
de seu papel como representante do verda­ Isso não indica necessariamente negação
deiro Deus diante das nações da Terra. Este do nascimento virginal, fato que Lucas
fato vital foi claramente indicado na primeira expôs clara e inequivocamente (Lc 1:26-35;
promessa feita a Abraão (Gn 12:3) e, mais cf. Mt 1:18-25). Lucas poderia estar pen­
tarde, repetida a Isaque (Gn 26:4) e a Jacó sando em José no sentido legítimo e popu­
(Cn 28:14). A mesma verdade foi mais cla­ lar, não no sentido físico e literal (ver com.
ramente anunciada a Israel como o povo que de Mt 1:21, 24). Como esposo de Maria,
saiu do Egito e se preparou para entrar na José se tornou o pai de Jesus no momento
terra prometida (ver Dt 4:6-8; 28:10; etc.). em que nasceu. Daí em diante, ou pelo
De geração em geração, os profetas sem­ menos da época do alistamento no templo,
pre mantiveram diante do povo o alcance José era visto como tal (ver Lc 3:23; 4:22; Jo
mundial de sua missão sagrada (ver SI 98:3; 6:42). A primeira das tarefas de José, nesse
Is 42:6; 49:6; 53:10; 56:6, 7; 60:1-3; 61:9; papel como pai legítimo, era dar nome ao
62:2; Zc 2:11; 8:22; etc.). Cristo repetida­ filho (ver Mt 1:21). Mais tarde, por orienta­
mente assinalou que Sua missão incluía gen­ ção divina, José representou esse papel (ver
tios e judeus (ver Mt 12:18, 21; Jo 12:32; etc; Mt 2:13, 19-22). A própria Maria chamou
ver vol. 4, p. 13-17). José de pai (Lc 2:48), por isso não é inade­
Para glória. Aos judeus foram dados pri­ quado chamá-lo dessa forma. Também no
vilégios muito superiores aos de qualquer v. 27, Lucas inclui José como um dos “pais"
outro povo, para que se tornassem represen­ de Jesus, certamente não no sentido literal,
tantes aptos do verdadeiro Deus diante das ainda que num sentido popular seja comple­
nações da terra (ver vol. 4, p. 15-17). A esco­ tamente apropriado (ver DTN, 82).
lha celeste não recaiu sobre eles por serem Admirados. Não no sentido de surpresa,
mais sábios ou melhores do que outros povos, porque o anjo já tinha aparecido a José
772
LUCAS 2:36

(Mt 1:20) e a Maria (Lc 1:26, 27) com uma pequena espada romana. A palavra rhom­
£=► mensagem similar. Além disso, Isabel se diri­phaia é utilizada na LXX para a espada de
giu a Maria com palavras obviamente inspira­ Golias. Presumivelmente, a rhomphaia era
das (v. 41-45). José e Maria também ouviram uma arma mais temível que a machaira, e ela
o relato dos pastores (Lc 2:20). A admira­ é usada neste versículo figuradamente para
ção deles crescia a cada evidência conse­ descrever a tristeza que traspassou o coração
cutiva da messianidade do pequeno Jesus, de Maria na cruz (ver Jo 19:25; DTN, 744,
como as profecias haviam descrito de modo 752). Assim, o primeiro prenúncio da pai­
claro a tarefa designada a Ele por Seu Pai xão de Cristo, reflete as profecias de Isaías
no Céu. Talvez eles também tenham ficado 52:14; e 53:12. Essas misteriosas palavras de
surpresos que um estranho reconhecesse o Simeão passaram pela mente de Maria como
grande segredo. um presságio assustador e sinistro do que
34. Disse a Maria. Parece que Simeão, estava por vir. Além disso, o fato da decla­
pelo Espírito Santo, compreendeu o fato do ração de Simeão ter sido dirigida a Maria
nascimento virginal. Ele parece ter ignorado parece indicar que José não testemunharia
José completamente. a cena no Calvário.
Para ruína como para levantamento. Tua própria alma. Como todos os outros
Cristo falou de Si mesmo como “a pedra que judeus, Maria esperava que Jesus reinasse
os construtores rejeitaram” (Mt 21:42; ver gloriosamente sobre o trono terreno de Davi
com. de SI 118:22). “Precisamos cair sobre a (cf. Lc 1:32). A expectativa compartilhada
Rocha e despedaçar-nos, antes de poder ser pelos discípulos de Cristo poderia apenas tor­
elevados em Cristo” (DTN, 57). Cristo é o nar o desapontamento da cruz mais amargo.
grande ímã de todos os tempos, atraindo a No entanto Deus, em Sua misericórdia, deu-
Si aqueles que são humildes e contritos de lhe esta indicação sobre o que esperar.
coração. Alguns, como Mateus, Zaqueu e Manifestem. Literalmente, “desco­
Maria Madalena - normalmente conside­ berto” ou “desvendado”.
rados como “publicanos e pecadores” - sen­ 36. Ana. [A profetisa Ana, Lc 2:36-38].
tiam-se estranhamente atraídos ao Médico Do gr. Hanna, do heb. Channah (ver com. de
que poderia restaurar por completo suas ISm 1:2). Esta venerável idosa tem o mesmo
vidas quebrantadas. Outros, como os escri­ nome da mãe de Samuel, o fundador das
bas e fariseus, que pensavam não necessi­ escolas dos profetas. Segundo os evangelhos
tar do Médico celestial, foram afastados do apócrifos e uma tradição mais tarde adotada
Salvador por sua dureza de coração. pela igreja, Maria foi educada no templo sob
Sinal (ARC). Do gr. sêmeion, “um sinal”, a tutela e orientação de Ana, que suposta­
“uma marca” ou "um símbolo”. Como repre­ mente seria sua mãe. Isso é pura ficção.
sentante celestial, Cristo é o símbolo da Nada há neste versículo que indique que as
salvação. Ele é um símbolo vivo, ou teste­ duas mulheres tivessem se encontrado ante­
munha, do amor do Pai, do que Sua missão riormente. A presença permanente de Ana
na Terra oferece evidências irrefutáveis (ver no templo testemunha do amor com que ela
Jo 3:16; DTN, 19). servia ao Senhor. O detalhe biográfico com
35. Espada. Do gr. rhomphaia, palavra que Lucas fala de uma personagem bíblica
usada para descrever uma grande espada, desconhecida como Ana testifica da quali­
tal como a longa espada da Trácia, e que dade histórica de seu relato.
deve ser diferenciada do termo comum para Uma profetisa. O dom de profecia de
espada no NT, machaira, que descreve a tempos em tempos foi outorgado a mulheres

773
2:37 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

piedosas, assim como a homens piedosos. Noite e dia. Possivelmente, uma refe­
Entre as profetisas estiveram mulheres como rência às horas de culto matutino e vesper­
Miriã (Êx 15:20), Déhora (Jz 4:4), a esposa tino. Ana frequentava fielmente os horários
de lsaías (is 8:3), Hulda (2Rs 22:14) e tam­ de culto matutino e vespertino. Sua vida era
bém as quatro filhas donzelas de Filipe absorvida no serviço de Deus; ela não tinha
(At 21:9). outros interesses. Paulo elogia uma vida
Avançada em dias. Ana tinha, no assim como a mais apropriada a alguém que
mínimo, 84 anos de idade (ver com. do v. 37), é “verdadeiramente viúva” (ver lTm 5:5).
mas poderia estar acima dos 100 anos. 38. Naquela hora. Isto é, quando
37. Oitenta e quatro anos. E um tantoSimeão estava falando. Ao ouvir o inspirado
incerto a partir do grego se os 84 anos se testemunho de Simeão a respeito de Jesus,
referem à idade de Ana ou à sua viuvez. o coração de Ana foi tocado com o vislum­
Os comentaristas estão divididos sobre a bre do Messias, ao encontrar aquele bebê
questão. Algumas versões bíblicas aplicam (ver DTN, 55; cf. Mt 16:17). Desta forma,
► o período à sua idade, e outras, à sua viu­ na dedicação, duas testemunhas inspiradas
704

vez. A tradução da ARA, “e que era viúva confirmaram o que Maria e José já sabiam
de oitenta e quatro anos”, reflete a ambígua a respeito da criança.
fraseologia original. Os detalhes apresenta­ Dava graças. O verbo grego usado neste
dos e o texto utilizado parecem indicar que versículo indica gratidão ou louvor “retri­
os 84 anos se referem mais provavelmente ao buído" em apreciação por um dom ou favor
período de viuvez de Ana. Se Ana se casou recebido. E evidente que Lucas se refere ao
aos 15 anos, ficou casada por 7 anos, e per­ louvor de Ana apenas como uma expressão
maneceu viúva por 84 anos e estaria com 106 de alegria ao ver o Messias.
anos de idade. Isso seria perfeitamente pos­ Falava. De acordo com a força do
sível, embora a idade de 84 anos também a tempo verbal grego, “continuou falando”
tornasse “avançada em dias”. seria a melhor tradução. Até então, ela havia
Não deixava. Alguns compreenderam falado de profecias que apontavam para
que isso significava que à Ana, como pen­ a vinda do Messias. Por fim, ela poderia
sionista do templo, tinha sido designado um falar por experiência pessoal, que o Messias
local adjacente aos recintos do templo, tal­ tinha vindo.
vez com outras viúvas, e que, em troca, ela A todos os que esperavam. Esta
devotava seu tempo a ensinar as jovens que expressão enigmática revela que havia um
iam ao templo para receber instrução reli­ pequeno e sincero grupo de pessoas que
giosa. Não se sabe se havia provisão para estudavam as profecias e estavam cientes
isto nos dias de Cristo. Outros pensam que de que havia chegado “a plenitude do tempo"
ela “não deixava o templo” no mesmo sen­ (G1 4:4; cf. Dn 9:24-27; DTN, 34, 35; ver
tido em que os discípulos, após a ascen­ com. de Lc 2:25).
são, “estavam sempre no templo, louvando Em Jerusalém (ARC). Evidências tex­
a Deus” (ver Lc 24:53; At 2:46). É evidente tuais (cf. p. 136) favorecem a variante “de
que, neste último exemplo, Lucas não quis Jerusalém” (ARA; ver com. de “consolação
dizer que eles residiam no templo, mas que de Israel”, v. 25).
mantinham uma frequência regular aos ser­ 39. Cumpridas todas as ordenanças.
viços religiosos no templo, além de testemu­ [O menino Jesus em Nazaré, Lc 2:39, 40 =
nhar diante das pessoas que se reuniam ali Mt 2:19-23. Comentário principal: Lc. Ver
(ver At 3:1; 5:12, 20, 21, 25, 42; etc.). mapa, p. 212]. Jesus nasceu “sob a lei” (G14:4),

774
LUCAS 2:41

como um judeu e, consequentemente, cum­ ocorre com todas as pessoas (ver com. do
priu todas as exigências da “lei do Senhor”, v. 52), exceto que nenhuma deficiência preju­
como as leis levíticas pertinentes à purifica­ dicou seu processo de crescimento. Esse pro­
ção e à apresentação (Lc 2:22-24) são chama­ cesso de crescimento claramente comprova a
das aqui. Embora dadas a Israel pelas mãos de verdadeira humanidade de Jesus, como Sua
Moisés, essas leis foram originadas em Deus perfeição comprova Sua divindade.
(ver Dt 5:31-33). Somente os dez mandamen­ E Se fortalecia. As mesmas expres­
tos foram dados diretamente por Deus ao povo sões, “crescia’’ e “fortalecia”, são usadas para
(ver Dt 5:22). o desenvolvimento de João Batista (Lc 1:80).
Voltaram. Lucas não menciona a Tanto João quanto Jesus eram saudáveis e
visita dos magos nem a fuga para o Egito, vigorosos.
duas situações que precederam o retorno Em espírito (ARC). Evidências tex­
à Galileia (ver Mt 2:1-23). Uma omissão tuais (cf. p. 136) favorecem a omissão des­
semelhante de detalhe narrativo ocorre em tas palavras (cf. ARA). A expressão se refere
Atos 9:26, em que Lucas indica que Saulo ao desenvolvimento de uma personalidade
saiu imediatamente de Damasco e foi para simétrica.
Jerusalém. No entanto, fica evidente em Enchendo-se de sabedoria. O pro­
Gálatas 1:17 e 18 que houve um intervalo cesso de crescimento mental acompanhou
de três anos antes que Paulo retornasse a o ritmo do crescimento físico. Esta expres­
Jerusalém. E natural que a visita dos magos são resume o desenvolvimento intelectual,
tenha ocorrido em sequência à dedicação no moral e espiritual da criança (ver com. do
templo, porque seria inconcebível que José v. 52).
levasse Maria c Jesus para Jerusalém depois Graça. Ou, “favor", isto é, a aprovação de
de ser avisado para fugir para o Egito a fim Deus (ver com. do v. 52). Ver o testemunho
de escapar de Herodes. Quando a família direto do Pai no batismo de Cristo (Lc 3:22).
► retornou a Nazaré, Herodes estava morto e 41. Iam Seus pais. [O menino Jesus no
705

seu filho Arquelau governava em seu lugar meio dos doutores, Lc 2:41-52. Ver mapa,
(ver Mt 2:19-23). Arquelau reinou de 4 a.C. p. 212; gráfico, p. 224J. A referência neste
a 6 d.C. Assim, o retorno a Nazaré deve versículo a José como um dos “pais” de Jesus
ter ocorrido dentro desse período, possivel­ de modo algum nega o nascimento virginal,
mente pouco depois do início do reinado já relatado por Lucas muito explicitamente
de Arquelau. (Lc 1:31-35). Durante a infância, Jesus teve
Nazaré. Ver com. de Mt 2:23. o cuidado e a proteção paternais de José (ver
40. Crescia o menino. Esta passagem com. de Mt 1:24) e, mesmo quando adulto,
cobre a infância de Jesus, até que ele com­ continuou submisso a ele, como todo jovem
pletasse 12 anos de idade (v. 42), como os deve ser a seu pai (ver Lc 2:51). No v. 48,
v. 51 e 52 cobrem Sua juventude e início da Maria fala a Jesus sobre José como seu pai.
vida adulta. O desenvolvimento da natureza A Jerusalém. O tempo verbal grego mos­
humana e da personalidade de Jesus Cristo tra que José c Maria estavam acostumados
continuou de modo normal, exceto que Ele a ir a Jerusalém com o propósito de partici­
jamais cedeu ao pecado. Viveu como uma par das festas religiosas anuais (ver com. de
criança e um jovem normais vivem no círculo Lv 23:2). No caso de José, era exigido por lei
familiar. Passou por todos esses anos como que ele comparecesse às três grandes festas
qualquer ser humano, na medida em que o (ver com. de Êx 23:14-17; Dt 16:16). O fato
crescimento físico, mental, espiritual e social de Maria acompanhá-lo costumeiramente
775
2:42 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

testifica de sua devoção às coisas espirituais, responsáveis por observar os mandamentos


pois o comparecimento por parte das mulhe­ na idade de 13 anos, isto é, ao término do
res, embora recomendado, não era exigido. 12° ano. Se o nascimento de Jesus ocorreu
A Festa da Páscoa. A primeira das três no outono de 5 a.C., como parece provável
grandes festas anuais, sendo as outras duas (ver p. 238), Seu 12° ano, segundo o cômputo
a do Pentecostes e a dos Tabernáculos (ver judaico, seria do outono de 7 d.C. ao outono
com. de Êx 23:14-17; Lv 23:2). Comemorando de 8 d.C., e Sua primeira Páscoa seria a do
o livramento dos hebreus da opressão egíp­ ano seguinte, 9 d.C (ver gráfico, p. 224).
cia, a festa da Páscoa era uma lembrança Subiram. Ver com. do v. 41. Na época
impressionante da sucessão de eventos dra­ de Cristo, os judeus viajavam entre a Galileia
máticos por meio dos quais Deus fez de Israel e Samaria evitando, quando possível, a rota
uma nação independente. A importância da mais direta através de Samaria, por causa da
Páscoa para o povo hebreu é confirmada pelo hostilidade entre judeus e samaritanos (ver
fato de eles normalmente comparecerem à DTN, 487). E possível, portanto, que Jesus
festa mesmo que fosse impossível estar em e Seus pais tenham feito essa viagem pelo
Jerusalém para as demais. Era o ápice do ano caminho do vale do Jordão, que era uma rota
religioso, porque sem esses acontecimentos alternativa. Tendo doze anos, Jesus partici­
eles teriam permanecido escravos dos egíp­ pava da Páscoa pela primeira vez. Esta tam­
cios. Não apenas isso, mas a Páscoa tipifi­ bém foi, possivelmente, sua primeira visita a
cava o Messias (ver ICo 5:7), a esperança de Jerusalém desde a dedicação, sendo Sua pri­
uma vinda que unia a nação e a preservava meira visita ao templo (ver DTN, 78).
de geração em geração. Segundo o costume. A observância fiel
42. Doze anos. Segundo o cálculo de todas as exigências da lei era uma caracte­
judeu, Jesus seria considerado como tendo rística de José e Maria (ver com. de Mt 1:19;
12 anos quando completasse o 11° aniver­ Lc 2:21-24).
sário (ver com. de Gn 5:32; Mt 2:16) e teria 43. Terminados os dias. O cordeiro
“doze anos” até o 12° aniversário. Ao com­ pascal normalmente era morto no final da
pletar o 12° ano, um menino judeu era con­ tarde de 14 de nisã, e comido após o pôr
firmado como um “filho da lei” (DTN, 75) do sol na mesma noite, no dia 15 (ver Nota
e se tornava pessoalmente obrigado a obser­ Adicional 1 a Mateus 26). O dia 15 tam­
var as várias ordenanças religiosas. O 12° ano bém era o primeiro dia da festa dos Pães
marcava a transição da infância para a juven­ Asmos, que durava até o 21° dia, sendo que
tude. Com três anos, os meninos judeus o dia 15 e o dia 21 de nisã eram celebra­
recebiam as vestes com borlas prescritas dos como sábados, independente dos dias
pela lei de Moisés (ver com. de Nm 15:38-41; da semana em que eles caíssem (ver com.
Dt 22:12) e, com cinco anos, esperava- de Êx 12:16; Lv 23:6, 7). No dia 16, o molho
se que memorizassem porções da Lei. No movido era apresentado diante do Senhor.
final do 12° ano, eles deveriam usar o tefi- As cerimônias do 14° dia ao 16° dia da festa
lim ou filactério (ver com. de Ex 13:9) nas eram consideradas as mais importantes, e no
► horas de orações — como exigido pela tradi­ 17° dia permitia-se que os participantes da
706

ção rahínica, embora não pela lei de Moisés. festa retornassem para casa, caso quisessem.
Jesus nunca obedeceu a essa tradição (ver Uma circunstância narrada por Lucas (ver
DTN, 84; cf. Mt 23:5). Segundo a Mishnah com. do v. 46) tem levado muitos comentaris­
(.Aboth, 5.21, ed. Soncino, Talmude, p. 75), os tas a pensar que Maria e José partiram nesse
meninos hebreus se tornavam pessoalmente período permitido. No entanto, a devoção

776
LUCAS 2:44

com que eles observavam as exigências da Deveria se permitir aos jovens que façam
lei ritual (ver com. do v. 41, 42) pode tê-los suas próprias escolhas e ajam independen­
levado a permanecer durante toda a festa, em temente de seus pais tão logo demonstrem
vez de o tempo mínimo exigido pelos rabinos a capacidade de agir inteligentemente. Há
poucos quadros mais patéticos do que o de <

707
(ver gráfico, p. 230).
Permaneceu [...] Jesus. A natureza um jovem à beira da maturidade, mas ainda
obediente de Cristo, mesmo quando criança, sujeito aos pais pelas limitações de esco­
deu motivos abundantes para José e Maria lha e de ação mais apropriadas à infância.
confiarem nEle. “Seu espírito era ativo e Ninguém estará menos preparado para assu­
penetrante, com uma reflexão e sabedoria mir as responsabilidades que acompanham a
além de Sua idade” (DTN, 68, 69), o que maturidade. Simultaneamente, a juventude
não tornava Sua obediência cega, mas inteli­ deveria ser ensinada a valorizar e considerar
gente. Mesmo enquanto criança, Jesus sem­ seriamente o conselho e a exortação de seus
pre era atencioso e se antecipava aos desejos pais e, ao longo da vida, procurar se benefi­
de seus pais (DTN, 80). Ele parecia sempre ciar da sabedoria e da experiência dos outros
saber o que fazer e era fiel nisso; e, naquela (ver com. do v. 51).
ocasião, Maria e José tinham como certo que Menino. Do gr. pais, “um menino” ou
Ele se comportaria como sempre. “um rapaz”. No v. 40, a palavra traduzida
Após esta visita a Jerusalém, Jesus, como “menino” é derivada de paidon, a forma
pela primeira vez, percebeu que Ele era, diminutiva de pais.
num sentido único, o Filho de Deus (ver Seus pais. Ver com. do v. 41.
DTN, 75, 78), e as implicações de Sua mis­ 44. Pensando. Jesus nunca deu um
são terrestre começaram a surgir em Sua motivo válido para que seus pais se afli­
mente. Ele sinceramente ansiava por uma gissem. Eles imaginaram que Ele estivesse
compreensão mais clara da natureza de Sua familiarizado com seus planos para retor­
obra e permaneceu no templo, o lar terrestre nar com os companheiros, e que Ele sabia a
de Seu Pai celestial (ver Jo 2:16), para comun­ hora da partida.
gar mais com Ele. Companheiros. Do gr. sunodia, “um
O período da juventude foi estabelecido grupo de viajantes” ou “uma caravana”, deri­
por Deus como a época quando as crianças vado da palavra sun, “junto a", e da pala­
aprendem a pensar e a agir por si mesmas e vra kudos, “uma estrada” ou “um caminho”.
a aceitar responsabilidades por suas escolhas. Para desfrutar companheirismo e proteção,
Quanto mais jovens, eles são em grande parte os participantes das várias festas anuais em
dependentes de seus pais nessas questões; Jerusalém costumavam viajar em grandes
mas quando o período da juventude chega grupos. Frequentemente, todos os que par­
ao fim, espera-se que eles tenham assumido tiam de uma vila ou cidade planejavam via­
a função da maturidade. Desde o princípio, jar juntos, cm caravanas. Na agitação da
os pais deveriam procurar desenvolver em saída de uma grande caravana, seria difícil
seus filhos a habilidade de escolher inteligen­ para José e Maria confirmarem com todos
temente e sentir sua responsabilidade pes­ os seus parentes e amigos se sabiam onde
soal. Contudo, na fase em que a infância se Jesus estava. Além disso, como fazia parte
mescla imperceptivelmente com a juventude, do costume que as mulheres viajassem num
os pais devem promover o amadurecimento grupo à frente dos homens, é possível que
à medida que os filhos estejam qualifica­ José e Maria tivessem se separado pouco
dos para aceitar as novas responsabilidades. depois que iniciaram a viagem, e cada um
777
2:46 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

deles pensou que Jesus estivesse com o recintos sagrados que o circundavam. O edi­
outro. fício do templo é normalmente designado
Caminho de um dia. Num grupo como pela palavra grega naos. Uma escola rabí-
este, a viagem de volta para Nazaré se prolon­ nica era dirigida num dos terraços ou num
gava por dias (ver com. do v. 42). O primeiro dos salões da área do templo, principalmente
dia de viagem, caso seguissem o caminho do nas épocas festivas.
Jordão, os levaria não muito longe de Jerico, Assentado. A postura de um aprendiz
a 24 km de Jerusalém. (ver At 22:3).
Procurá-Lo. Eles O procuraram persis­ Doutores. Literalmente, “professo­
tentemente por todo lugar. Pode-se imagi­ res”, isto é, rabinos ou escribas instruídos
nar a crescente ansiedade de José e Maria nos escritos sagrados e na tradição oral (ver
ao iniciar a busca no fim do dia, depois de p. 43). Notável entre os “doutores” da geração
um “caminho de um dia”, e continuaram a anterior foi Hillcl, o ancião, fundador de uma
procurar entre os parentes e amigos por todo influente escola do pensamento judeu. Não
o local de acampamento da caravana. Essa menos ilustre foi Shammai, um mestre mais
busca deve tê-los conduzido noite adentro. conservador da lei judaica. Os “doutores” em
Mas seus esforços foram em vão. Jesus não destaque nos dias de Cristo foram Gamaliel,
foi encontrado. o professor de Saulo (ver At 22:3), Simeão,
46. Três dias depois. Isto é, desde o filho e sucessor de Hillel, Nicodemos (ver
tempo quando eles perceberam que Jesus com. de jo 3:1, 10) e, possivelmente, José de

708
não estava na caravana. Com certeza, ao Arimateia (ver com. de Mt 27:57). Um ou «
José e Maria se levantarem cedo na manhã talvez mais de um desses homens, conheci­
seguinte para voltar a Jerusalém, seu cora­ dos como ativos professores da lei, podem ter
ção se encheu com terríveis pressentimentos, estado presentes nessa ocasião. Era costume,
pois relembraram das tentativas de Herodes principalmente nos sábados e nos dias fes­
para tirar Sua vida. Se tivessem voltado desde tivos, encontrar esses homens sentados em
Jerico (ver com. do v. 44), teria sido preciso bancos no terraço do templo e seus pupilos
subir a íngreme estrada para Jerusalém, de sentados ao redor deles. Alguns comentaris­
mais de 900 metros. Tendo refeito os pas­ tas têm sugerido que a menção aos "douto­
sos até Jerusalém, passaram as poucas horas res” neste versículo indica que a Festa dos
restantes desse segundo dia procurando por Pães Asmos ainda estava ocorrendo e que
Jesus, mas em vão. Esse dia de busca foi José e Maria haviam saído antes, como per­
tão improdutivo quanto o anterior. No dia mitido pelo costume (ver com. de Lc 2:43).
seguinte reiniciaram as buscas. Sua tristeza Ouvindo-os. Isto é, Jesus ouvia a expo­
e aflição se transformaram em alegria e rego­ sição que eles faziam da Escritura e da tra­
zijo quando, finalmente, ouviram a voz de dição, prestando atenção às perguntas deles
Jesus entre os adoradores no templo. Segundo e às respostas que davam às Suas perguntas.
o cômputo judaico, esse dia em que encon­ O modo habitual rabínico de instrução era
traram a Jesus no templo seria o terceiro (ver por meio de perguntas, respostas e discussão.
DTN, 81). Por esse sistema de cômputo inclu­ Interrogando-os. Isto é, como um
sivo, os primeiros e os últimos dias de um aprendiz sincero e respeitoso. Maria e José
período de tempo estão inclusos no cálculo esperavam que, nesta visita a Jerusalém,
do tempo decorrido (ver p. 246-248). Jesus entrasse em contato com os reve­
Templo. Do gr. hieron, todo o complexo renciados e instruídos rabinos, que Ele
do templo, incluindo os pátios ou salões dos aprendesse a respeitá-los e a obedecer às
778
LUCAS 2:48

exigências rabínicas. No entanto, logo ficou Sua inteligência. Isto é, das Escrituras,
evidente que a compreensão de Jesus acerca principal mente das profecias que apontavam
das profecias excedia à dos rabinos. Suas para a vinda do Messias, a missão de Israel às
perguntas inteligentes abriam seus olhos nações e o estabelecimento do reino messiâ­
para verdades negligenciadas com relação à nico. Sua compreensão da Palavra de Deus
missão do Messias e os cumprimentos pro­ não era obscurecida pelas explicações tor­
féticos contemporâneos que provavam que tuosas e enganosas utilizadas pelos rabi­
a aparição do Messias estava às portas (ver nos e anciãos. Jesus estava familiarizado
DTN 78, 80; cf. 30, 55, 212, 234, 257). não apenas com a letra, mas com o espírito
Dentre esses eventos estava o aconteci­ das Escrituras. Ele não Se importava com a
mento de 6 d.C., quando o governador local interpretação rabínica. Nenhum erro con­
Arquelau foi deposto, e a Judeia, pela pri­ fundia Seu pensamento.
meira vez, foi organizada como uma província Respostas. Esses professores venerá­
governada diretamente por um procurador veis fizeram muitas perguntas a Jesus, num
romano sujeito ao governador da Síria. Nos esforço de sondar a profundidade de Sua
consecutivos impérios estrangeiros, a Judeia compreensão das Escrituras, e ficaram intri­
considerou-se um estado submisso, mas com gados com Suas respostas claras e lógicas,
"governo local" feito por príncipes judeus ou todas baseadas nas Escrituras. Se, como um
sacerdotes (Zorobabcl, Esdras, Neemias e, menino “ignorante”, Jesus possuía tão pro-
posteriormente, os sumos sacerdotes), pelos I unda compreensão da Lei e dos Profetas,
reis-sacerdotes macabeus e, mesmo sob pensaram os mestres de Israel, o que Ele
Roma, pelo rei Merodes local. Então, esta poderia Se tornar se fosse treinado por suas
nova ação deve ter levado muitos a perce­ mãos? Como um professor de canto percebe
ber que, pela segura palavra da profecia, o as possibilidades latentes numa voz natural-
Messias logo deveria aparecer. Séculos antes, mente bela, mas sem treino, eles vislumbra­
o profeta escreveu: “O cetro não se arredará ram em Jesus o maior professor que Israel já
de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até tinha conhecido.
que venha Silo” (ver com. de Gn 49:10; ver 48. Logo que Seus pais O viram.
DTN, 34, 103, 104). Maria e José ficaram “maravilhados” com a
47. Admiravam. Os líderes religio­ porção da conversa que ouviram entre Jesus
sos não conseguiam explicar o lato de uma e os doutores da Lei. Contudo, mais do que
criança que, ao que eles bem sabiam, não isso, eles se maravilharam com a aparência
tinha frequentado as escolas dos rabinos (ver de Jesus. "Havia em Seu rosto uma luz que
DTN, 80; ver com. de Jo 7:15), compreen­ os levou a meditar. A divindade estava irra­
desse profundamente as profecias como diando através da humanidade” (DTN, 81)
Jesus compreendia. Deus era Seu professor, pela primeira vez, em testemunho da ver­
por meio dos preceitos de Maria, por meio dade de que o Filho do Homem não era outro
do estudo individual dos escritos proféticos senão o Filho de Deus (ver com. de Mt 1:1;
e, naquele momento, por meio da impressão Nota Adicional a João 1).
da verdade direta a Seu coração, enquanto Teu pai e eu. Esta é a última vez, em
Ele meditava nos átrios do templo (ver DTN, toda a narrativa do evangelho que José é men­
70, 78). Em contrapartida, o ensino dos rabi­ cionado como “pai" de Jesus. Uma vez que
nos tendia a obscurecer em vez de clarificar Jesus estava ciente do relacionamento com
a verdade; a encorajar a ignorância, cm vez Seu Pai celestial, era apropriado que Seu
de transmitir conhecimento (ver DTN, 69). “pai” terrestre desaparecesse da narrativa
779
2:49 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

do evangelho (ver com. do v. 51). O silêncio Jesus (v. 48). Jesus não negou diretamente
das Escrituras a respeito de José, desta época essa relação, mas afirmou claramente que
em diante, sugere que ele não viveu para ver Deus, no Céu, era Seu Pai. Pela primeira
o início do ministério público de Cristo (ver vez na terra, Jesus compreendeu e procla­
DTN, 145; para uma referência a José como mou Sua filiação divina. E digno de nota
o “pai” de Jesus, ver com. do v. 33). que essas primeiras palavras registradas de
49. Por que Me procuráveis? As pala­Jesus afirmam Sua divindade. Em Seu cora­
vras de Jesus não refletem aborrecimento ção nasceu uma compreensão do mistério de
porque Seus pais estavam preocupados com Sua missão na terra (DTN, 82), mas Seus
Ele, mas uma surpresa inocente de que eles pais “não compreenderam, porém, as pala­
tivessem passado por dificuldades e ansie­ vras que lhes dissera” (v. 50).
dade para encontrá-Lo. Por que eles tive­ Antes de Cristo vir a este mundo, o
ram dificuldades em encontrar Seu filho? plano para Sua vida “jazia perante Ele, per­
Onde mais, em Jerusalém, eles deveriam feito em todos os seus detalhes” (DTN, 147).
esperar encontrá-Lo, senão no templo? Eles Como a época estabelecida para a encar­
conheciam Seu interesse e devoção às coi­ nação (G1 4:4; DTN, 31), “cada evento em
sas espirituais. E por que eles estariam Sua obra tinha seu momento determinado”
“aflitos” e “ansiosos” por causa dEle? Ele já (DTN, 451). Mesmo assim, quando Ele veio
havia lhes dado motivo para preocupação? à Terra, foi guiado passo a passo, enquanto
Ele apenas permaneceu no templo quando andou entre os homens, pela vontade do
eles partiram. Ali, onde eles O deixaram (ver Pai, revelada a Ele dia a dia (DTN, 147;
DTN, 78), eles deveriam esperar encontrá- sobre a vida de oração de Jesus, através da
Lo novamente. Além disso, Ele não tugiu qual era instruído por Deus, ver com. de
deles; eles saíram sem Ele. A culpa foi de Mc 1:35; 3:13).
Seus pais, e eles não deveriam tê-Lo censu­ Repetidas vezes, Jesus expressou o pen­
rado. A conscientização de Jesus quanto a samento: “O Meu tempo ainda não che­
Sua relação com Seu Pai celestial não dimi­ gou” (Jo 7:6, 8); mas, na última Páscoa, Ele
nuiu Seu senso do dever para com Seus pais disse: “Meu tempo está próximo” (Mt 26:18).
terrestres (ver v. 51). É nosso privilégio viver uma vida entregue
Não sabíeis [...]? Verdadeiramente, diariamente ao Pai, como Cristo o fez, e ser
“eles não sabiam” (v. 50). guiados para cumprir nossa parte no grande
Que Me cumpria estar. Literalmente, plano (DTN, 209; ver Jo 15:10).
“é necessário que Eu esteja” ou “cabe a Durante todos os dias da eternidade, o
Mim estar”. Jesus era sempre fiel ao dever. Senhor Jesus foi igual ao Pai (ver com. de Jo
Ele lidava sempre com Suas tarefas fiel- 1:1-3), mas, no período da encarnação, Ele
mente. Enquanto criança, Jesus já estava aceitou uma função subordinada ao Pai (ver
consciente do destino que Lhe aguardava, Nota Adicional a João 1; ver com. de Lc 1:31,
não por Sua própria vontade, mas pela von­ 35; Jo 1:14). Então, com a idade de 12 anos,
tade do Pai celestial (ver Mt 7:21; 26:39; Ele Se conscientizou pela primeira vez de
Jo 4:34). Sua filiação ao Pai celestial e de Sua função
Na casa de Meu Pai. Literalmente, como um homem entre os homens.
“nas [coisas] de Meu Pai", uma expressão 50. Não compreenderam. "Não sa­
que poderia se referir tanto aos “negócios” bíeis?”, Jesus perguntou a Seus pais, mas
de Seu pai como Sua “casa”. Maria aca­ eles “não compreenderam” Sua negação im­
bara de se referir a José como o “pai” de plícita de José e Sua afirmação de Deus

780
LUCAS 2:52

como Seu Pai. Maria “sabia que negara Seu e espiritual (ver Ed, 13). A meta a que Ele
parentesco com José, e declarara Sua fi­ aspirava era refletir perfeitamente o cará­
liação de Deus” (DTN, 82), mas ela não ter de Seu Pai celestial. Aqui estava a per­
compreendeu a importância de Suas pala- feita humanidade, restaurada à imagem de
► vras, principalmente no que se aplicava à Deus. Trinta anos de constante preparo pre­
710

obra de Sua vida. A partir desse período, cederam um breve ministério de três anos e
Seu plano de ação foi um mistério aos Seus meio. A declaração do v. 40 se refere princi­
pais (DTN, 89). A palavra “eles”, neste ver­ palmente à infância de Jesus, e a declaração
sículo, refere-se a Maria e a José. Se mesmo do v. 52, à Sua juventude e ao início da idade
“eles” não compreenderam, o mesmo seria adulta. Declarações semelhantes foram fei­
verdadeiro acerca dos doutores da Lei e ou­ tas a respeito da juventude de Samuel
tras pessoas presentes. (ISm 2:26) e de João Batista (Lc 1:80).
51. Submisso. Ou, “obediente”. Embora As lendas supersticiosas a respeito da
claramente negando a filiação a José, Jesus, infância e juventude de Jesus, registradas nos
no entanto, de modo obediente Se submetia a evangelhos apócrifos dos primeiros séculos
ele, como se espera que um filho se submeta cristãos, apresentam-se em contraste com a
a seu pai enquanto permaneça sob o mesmo dignidade e beleza simples e o poder irre­
teto. Nos 18 anos seguintes, antes que Ele dei­ sistível da narrativa bíblica (ilustrações des­
xasse o lar, Jesus percebeu que era o Filho de tes relatos lendários podem ser conferidas
Deus, ainda que durante esses 18 anos tenha na obra apócrifa, 1 Infância 7:1-35; 13:1-13;
se mantido como um filho obediente aos Seus 15:1-7; 16:1-16; 18:1-19). Jesus não realizou
guardiões terrestres. Como Filho de Deus, Ele milagres antes do tempo em que assumiu
poderia ter-Se considerado isento da jurisdi­ Seu ministério público (cf. DTN, 72, 74, 92).
ção paterna, mas, como um exemplo a todos Sabedoria. Do gr. sophia, “inteligência
os jovens, Ele foi “obediente” aos pais huma­ ampla e plena”; isto é, excelência mental no
nos. Fica, portanto, evidente que a resposta sentido mais pleno (ver com. de Lc 1:17).
de Jesus no v. 49 não foi, de modo algum, Sophia inclui não apenas o conhecimento,
uma rejeição à autoridade de José e Maria. mas a habilidade e o julgamento para aplicar
Durante esses 18 anos, Jesus Se tor­ tal conhecimento às circunstâncias e situa­
nou conhecido entre os Seus concidadãos ções da vida. E importante reconhecer que
como “o carpinteiro” de Nazaré (Mc 6:3) e “o Jesus não nasceu com conhecimento, com­
filho do carpinteiro” (Mt 13:55). Em algum preensão e sabedoria completos, nem foi
momento desses 18 anos José morreu, por­ dotado com eles de modo sobrenatural. Ele
que, no final desse período, fala-Se da "car­ “crescia” em sabedoria. “Toda criança pode
pintaria que fora de José” (DTN, 109, 145). adquirir conhecimento como Jesus o adqui­
Em Lucas 2:51 encontramos a última refe­ riu” (DTN, 70).
rência indireta da Escritura a José na nar­ Estatura. Jesus Se envolveu na mais
rativa da vida de Cristo (ver com. do v. 48). elevada forma de exercício, o exercício útil,
Guardava. Do gr. diatêreõ, “guardar cui­ o único que confere força física verdadeira e
dadosamente”. Maria guardou esses “dizeres” desenvolve plenamente as faculdades. Este
ou “coisas” e os conservou vívidos na memó­ exercício O treinou para suportar Sua par­
ria (ver com. do v. 19). cela dos fardos da vida; foi um benefício a
52. E crescia Jesus. A infância e juven­ Ele c uma bênção aos demais (DTN, 72).
tude de Jesus foram anos de desenvolvimento Graça, diante de Deus. Desde o pri­
harmonioso de Sua capacidade íísica, mental meiro despontar da inteligência, Jesus cresceu

781
2:52 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

constantemente em graça espiritual e no perguntar: “Como pode suceder istor”


conhecimento da verdade. Ele crescia (cf. Jo 3:9).
em força moral e compreensão por meio Em primeiro lugar: “Jesus aceitou a huma­
do tempo passado em solidão na natu­ nidade quando a raça havia sido enfraquecida
reza, principalmente nas primeiras horas por 4 mil anos de pecado. Como qualquer
da manhã, meditando, pesquisando as filho de Adão, aceitou os resultados da ope­
Escrituras e buscando a Seu Pai em ora­ ração da grande lei da hereditariedade”
ção (ver DTN, 90). Em Nazaré, proverbial (DTN, 49). A Ele foi permitido “que enfren­
por sua iniquidade mesmo naquela gera­ tasse os perigos da vida cm comum com
ção, Ele sempre esteve exposto à tenta­ toda a alma humana, combatesse o combate
ção e tinha que estar constantemente em como qualquer filho da humanidade o tem de
guarda para preservar Sua pureza de cará­ fazer, com risco de fracasso e ruína eterna”
ter (DTN, 71, 116). (DTN, 49). Em segundo lugar, o menino
No final dos preparativos para o ministé­ Jesus não foi dotado sobrenaturalmente com
rio, o Pai testemunhou dEle: “Tu és o Meu sabedoria acima de outras crianças normais.
► Filho amado, em Ti Me comprazo” (Lc 3:22). Ele pensava, falava e agia com a sabedoria de
711

Ele foi um exemplo vivo do que significa ser uma criança (DTN, 70, 71; PJ, 83). “Mas, em
perfeito "como perfeito é o vosso Pai celeste” cada fase de Seu desenvolvimento, era per­
(Mt 5:48; DTN, 72; sobre o modo como Jesus feito, com a graça simples e natural de uma
lidava com as tentações, ver com. de Mt 4:1- vida inocente” (PJ, 83). Em terceiro lugar,
11; 26:38-41; Lc 2:40; Hb 2:17; Ellen G. o ambiente em que Jesus cresceu, a notória
White, Material Suplementar sobre Lc 2:40). impiedade de Nazaré, sujeitou-O “a todos os
E dos homens. Ouanto à personali­ conflitos que nós outros temos de enfrentar”
dade, Jesus era conhecido pela amabili­ (DTN, 71; cf. 116). Ainda assim na infância
dade singular do caráter (DTN, 68, 254), e juventude Sua vida não foi marcada por um
pela paciência que nada conseguia per­ único pensamento ou ato errado (DTN, 88).
turbar (DTN, 68, 69), pela graça de uma E em grande parte pelo ensino e
cortesia altruísta (DTN, 69), pelo tato e exemplo dos pais que o caráter dos filhos
o bom humor (DTN, 73, 87), pela simpa­ é determinado. Quando os filhos são
tia e ternura (DTN, 74), pelo recato juve­ privilegiados em ver na vida de seus pais um
nil e pela graça (DTN, 80). Desde a reflexo da ternura, da justiça e da paciência
infância, Seu único propósito na vida era de Deus, eles O conhecerão como Ele é
abençoar os outros (DTN, 70, 90, 92), e (PP, 308). O cultivo do amor, da confiança
Suas mãos estavam sempre dispostas a e da obediência aos pais terrestres prepara
servir (DTN, 86). Ele realizou perfeita­ as crianças para amar, confiar e obedecer
mente as tarefas de um filho, irmão, ao Pai celestial (ver PR, 245; T4, 337; ver
amigo e cidadão (DTN, 72, 82). com. de Mt 1:16). Se os pais forem humilde­
O perfeito desenvolvimento do caráter mente ao Salvador, desejando ser guiados por
de Jesus, sem pecado, desde a infância até Ele na educação de seus filhos, a eles é pro­
a idade adulta talvez seja o fato mais mara­ metida graça para moldar o caráter de seus
vilhoso de toda a Sua vida. Isso supera toda filhos, assim como Maria moldou o caráter
imaginação. E em vista das garantias de do menino Jesus (ver DTN, 69; cf. 512).
que Ele não desfrutou de oportunidades Os pais que gostariam de ver o caráter de
que Deus não esteja disposto a proporcio­ Jesus refletido em seus filhos aproveitarão a
nar a nossos filhos (DTN, 70), podemos riqueza dos conselhos inspirados disponíveis
782
LUCAS 2:52

sobre esse assunto importante e os aplicarão “ordenarão” seus filhos e seu lar (ver com.
diligente e pacientemente no círculo fami­ de Gn 18:19) com bondade, paciência e com­
liar (ver PJ, 80-89, 325-365; DTN, 68-74, preensão (ver Ef 6:4; Cl 3:21), ainda que com
84-92; CBV, 349-394). Como Abraão, eles firmeza (ver com. de Pv 13:24; 19:18).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1-20-DTN, 43-49 DTN, 55; EEC, 448 42- 47 - T6, 75


7-11 - DTN, 47 32 - DTN, 465; 43- 45 - DTN, 80
8,9- CBV, 477 GC, 315 46, 47 - Ev, 140; FEC, 400
10- Ev, 387 34 - DTN, 231 46-49 - DTN, 81
10, 11 - DTN, 231; Te, 284 34, 35 - DTN, 55, 56; 48, 49-OE, 111;
10-14-GC, 314; MCH, 363 T4, 55 CBV, 19
12-14 - PE, 153 35 - DTN, 145 49 - PJ, 283; DTN, 146,
14-AA, 579; DTN, 48, 36, 38 - DTN, 55, 231 486; FEC, 392
308, 803; GC, 46; OE, 39, 40 - PP, 592 51 - FEC, 142, 393; T3,
283, 469; PP, 65; 40- LA, 290, 507; OC, 187, 566; T5, 42
Te, 284; T6, 421; 205, 345; PJ, 83; CPPE, 51, 52-FEC, 438;

712
T8, 139 141, 147, 178; DTN, 68; MCH, 299
18-20 - DTN, 48 Ed, 78; FEC, 392, 418, 52-LA, 290, 297; OC, 187,
21-38-DTN, 50-58 438, 443; CBV, 400; 205; PJ, 83; CPPE, 141,
22, 24 - DTN, 50 MCH, 298; Mj, 78; 260, 446; DTN, 68, 74;
25-GC, 315 T8, 223 FEC, 392, 400, 448;
25, 26-DTN, 55 41, 42- DTN, 75 CBV, 349; MCH, 298;
29-32-CPPE, 446; 41- 51 - DTN, 75-83 Tl, 339

Capítulo 3
/ A pregação e o batismo de João; 15 seu testemunho de Cristo. 20 Herodes
aprisiona João. 21 Cristo é batizado e recebe o testemunho do Céu.
23 A idade e a genealogia de Cristo a partir de José.

1 No décimo quinto ano do reinado de 4 conforme está escrito no livro das palavras
Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governa­ do profeta Isaías: Voz do que clama no deser­
dor da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, to: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as
seu irmão Filipe, tetrarca da região da Itureia e Suas veredas.
Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilene, 5 Todo vale será aterrado, e nivelados todos os
2 sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás, veio montes e outeiros; os caminhos tortuosos serão
a palavra de Deus a João, filho dc Zacarias, no retificados, e os escabrosos, aplanados;
deserto. 6 e toda carne verá a salvação de Deus.
3 Ele percorreu toda a circunvizinhança do 7 Dizia ele, pois, às multidões que saíam para
Jordão, pregando batismo dc arrependimento serem batizadas: Raça de víboras, quem vos in­
para remissão de pecados, duziu a fugir da ira vindoura?

783
3:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

8 Produzi, pois, frutos dignos de arrependi­ 22 e o Espírito Santo desceu sobre Ele em
mento e não comeceis a dizer entre vós mesmos: forma corpórea como pomba; e ouviu-se uma
Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo voz do céu: Tu és o Meu Filho amado, em Ti Me
que destas pedras Deus pode suscitar filhos a comprazo.
Abraão. 23 Ora, tinha Jesus cerca de trinta anos ao

713
9 E também já está posto o machado à raiz começar o Seu ministério. Era, como se cuidava, «
das árvores; toda árvore, pois, que não produz filho de José, filho de Eli;
bom fruto é cortada e lançada ao fogo. 24 Eli, filho de Matate, Matate, filho de Levi,
10 Então, as multidões o interrogavam, di­ Levi, filho de Melqui, este, filho de Janai, filho
zendo: Que havemos, pois, de fazer? de José;
11 Respondeu-lhes: Quem tiver duas túnicas, 25 José, filho de Matatias, Matatias, filho de
reparta com quem não tem; e quem tiver comi­ Amós, Amós, filho de Naum, este, filho de Esli,
da, faça o mesmo. filho de Nagai;
12 Foram também publicanos para serem ba­ 26 Nagai, filho de Maate, Maate, filho de
tizados e perguntaram-lhe: Mestre, que have­ Matatias, Matatias, filho de Semei, este, filho
mos de fazer? de José, filho de Jodá;
13 Respondeu-lhes: Não cobreis mais do que 27 Jodá, filho de Joanã, Joanã, filho de Rcsa,
o estipulado. Resa, filho de Zorobabel, este, de Salatiel, filho
14 Também soldados lhe perguntaram: E nós, de Neri;
que faremos? E ele lhes disse: A ninguém mal­ 28 Neri, filho de Melqui, Melqui, filho de Adi,
trateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos Adi, filho de Cosã, este, de Elmadã, filho de Er;
com o vosso soldo. 29 Er, filho de Josué, Josué, filho de Eliézer,
15 Estando o povo na expectativa, e discor­ Eliézer, filho de Jorim, este, de Matate, filho de
rendo todos no seu íntimo a respeito de João, se Levi;
não seria ele, porventura, o próprio Cristo, 30 Levi, filho de Simeão, Simeão, filho de
16 disse João a todos: Eu, na verdade, vos ba­ Judá, Judá, filho de José, este, filho de Jonã, filho
tizo com água, mas vem o que é mais poderoso de Eliaquim;
do que eu, do qual não sou digno de desatar-Lhe 31 Eliaquim, filho de Meleá, Meleá, filho
as correias das sandálias; Ele vos batizará com o de Mená, Mená, filho de Matatá, este, filho de
Espírito Santo e com fogo. Natã, filho de Davi;
17 A sua pá, Ele a tem na mão, para limpar 32 Davi, filho de Jessé, Jessé, filho de Obede,
completamente a Sua eira e recolher o trigo no Obede, filho de Boaz, este, filho de Salá, filho
Seu celeiro; porém queimará a palha em fogo de Naassom;
inextinguível. 33 Naassom, filho de Aminadabe,
18 Assim, pois, com muitas outras exortações Aminadabe, filho de Admim, Admim, filho de
anunciava o evangelho ao povo; Arni, Arni, filho de Esrom, este, filho de Perez,
19 mas Herodes, o tetrarca, sendo repreen­ filho de Judá;
dido por ele, por causa de Herodias, mulher de 34 Judá, filho de Jacó, Jacó, filho de Isaque,
seu irmão, e por todas as maldades que o mesmo Isaque, filho de Abraão, este, filho de Tera, filho
Herodes havia feito, de Naor;
20 acrescentou ainda sobre todas a de lançar 35 Naor, filho de Serugue, Serugue, filho de
João no cárcere. Ragaú, Ragaú, filho de Faleque, este, filho de
21 E aconteceu que, ao ser todo o povo bati­ Ébcr, filho de Salá;
zado, também o foi Jesus; e, estando Ele a orar, 36 Salá, filho de Cainã, Cainã, filho de
o céu se abriu, Arfaxade, Arfaxade, filho de Sem, este, filho

784
LUCAS 3:1

de Noé, filho de Lameque; filho de Maalalel, filho de Cainã;


37 Lameque, filho de Metusalém, Metusalém, 38 Cainã, filho de Enos, Enos, filho de Sete,
filho de Enoque, Enoque, filho de Jarede, este, e este, filho de Adão, filho de Deus.

1. Décimo quinto ano. [A pregação Outro processo pelo qual alguns têm
de João Batista, Le 3:1-14 = Mt 3:1-10 = buscado determinar o início do ministério
Mc 1:2-5. Comentário principal: Mt e Lc. de Cristo está baseado em João 2:13 e 20,
Ver gráfico 3, p. 225], Nos tempos antigos, que situa a primeira Páscoa de Seu minis­
era costume datar os eventos pelos anos de tério público no 46° ano do templo (sobre
governo de um rei ou pelos nomes dos ofi­ essa questão, ver p. 239, 240; a respeito da
ciais sob os quais estes eventos ocorreram. expressão, “cerca de trinta anos”, ver com.
Não havia cronologia universal compará­ de Lc 3:23).
vel de alguma forma à que utilizamos hoje. Tibério César. Ver p. 243, 244. Exceto
Embora, em alguns aspectos, os seis pontos pela menção de Augusto em Lucas 2:1, as
de observação histórica que Lucas dá aqui referências a “César” em todos os evange­
presenteiem os estudantes bíblicos com um lhos sempre se aplicam a Tibério César.
problema cronológico hoje, eles, inegavel­ Tibério era conhecido por muitas campa­
mente, marcam Lucas como um historiador nhas militares bem-sucedidas antes de sua

714
que teve muito cuidado para ser rigoroso e nomeação como governador militar das pro- «
preciso (ver com. de Lc 1:1-4) e, desta forma, víncias, sendo aclamado o “primeiro soldado
testificam da confiabilidade de sua narrativa do Império”. Ele foi conhecido pela disciplina
evangélica. A principal dificuldade cronoló­ estrita, indulgência na tributação e econo­
gica apresentada neste versículo repousa na mia rígida cm administração. Ele encora­
correspondência do “décimo quinto ano do jou o comércio e as comunicações. O lago
reinado de Tibério César” com outras datas da Ca li leia foi renomeado como o mar de
cronológicas disponíveis sobre a vida de Tiberíades (Jo 6:1; etc.), em sua honra (ver
Cristo e com a datação da era cristã (sobre gráficos 3, 11, p. 225, 231).
este problema, ver p. 240-245). Pôncio Pilatos. O quinto na sucessão
Embora Lucas geralmente tenha sido de procuradores indicados por Roma depois
considerado um gentio, parece que ele pode da deposição e do banimento de Arquelau, em
estar utilizando, neste versículo, a fórmula 6 d.C. (ver com. de Mt 2:22). Pilatos sucedeu
de cômputo cronológico corrente entre Valério Grato, em 26 d.C., e foi destituído por
os judeus. Com base num ano de outono Tibério, em 36 d.C., por má conduta no cargo
a outono e de um sistema de ano da não (ver p. 54-56; ver gráficos 3, 11, p. 225, 231).
ascensão para calcular os anos de reinado Governador. Um “governador” ou pro­
(ver vol. 2, p. 119-123), o primeiro ano de curador era um administrador de origem
Tibério seria considerado como terminado no nobre, indicado pelo imperador como “gover­
outono de 14 d.C. Consequentemente, seu nador” de uma subdivisão de uma província.
“décimo quinto ano” se iniciaria no outono Nesta época, a Judeia era uma subdivisão da
de 27 d.C. e continuaria até o outono de província romana da Síria (ver p. 53, 54; ver
28 d.C. O batismo de Jesus ocorreu durante com. de Mt 27:2).
o outono de 27 d.C. e, assim, muito cedo Herodes. Isto é, Herodes Antipas (ver
durante o “décimo quinto ano” de Tibério com. de Mt 2:22), indicado por seu pai
(ver DTN, 233). Herodes, o Grande, como tetrarca da Galileia

785
3:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

e Pereia. A nomeação foi confirmada mais Hermom, nomeando-a assim, em honra a


tarde por Augusto. Sua mãe era uma sama- Tibério César e a si mesmo (Antiguidades,
ritana. Este foi o Herodes que se casou com xviii.2.1; Guerra dos Judeus, ii.9.1 [168]). Ele
a sobrinha, Herodias, esposa de seu meio reconstruiu a cidade de Betsaida Julias, que
irmão (ver gráfico, p. 28), uma união à qual ele nomeou em honra à filha de Augusto.
os judeus se opunham e pela qual Antipas A última cidade, na extremidade norte do
foi repreendido por João Batista (Lc 3:19, 20). lago da Galileia, foi o lar de Pedro, André e
Jesus apropriadamente o caracterizou como Filipe (ver Jo 1:44; 12:21). Filipe governou
“essa raposa” (Lc 13:31, 32) e Se referiu a sua por 37 anos, de 4 a.C. a 34 d.C. (ver gráfi­
má influência como o “fermento de Herodes cos 3, 11; p. 225, 231).
(Mc 8:15). Foi a Herodes Antipas que Jesus Ttureia. Região a nordeste do lago da
foi enviado por Pilatos durante o progresso Galileia e a leste de Cesareia de Filipe.
de Seu julgamento (Lc 23:7-15). O nome Alguns pensam que o nome é derivado de
Antipas é a forma contraída de Antipater, o Jetur, filho de Ismael (ver Gn 25:15; ver
nome dado por seu avô. Embora apenas um mapa, p. 327).
tetrarca, ele praticamente governou como rei Traconites. Uma região largamente
desde a morte de seu pai, Herodes, o Grande, estendida a leste da Itureia. O nome é evi-
até que foi deposto em 39 d.C. (josefo, dentemente derivado do gr. trachus, signifi­
Antiguidades, xvii.ll, 4; Guerra dos Judeus, cando uma área “acidentada” ou “pedregosa”,
ii.6.3 (94, 95]). Parece que lhe foi permitido que descreve essa região. Seus soldados eram
o título de rei como cortesia (Mc 6:14; ver famosos por ter sido arqueiros habilidosos.
p. 51-53; gráficos 3, 11, p. 225, 231; mapa, Lisânias. Os críticos da Bíblia há muito
P- 327). apontaram a menção de Lucas a “Lisânias,
Tetrarca da Galileia. Em suas moedas, tetrarca de Abilene”, como um erro crono­
Antipas refere-se a si mesmo pelo título de lógico grosseiro. Observaram que o único
“tetrarca”. A princípio, um “tetrarca” era o governador com esse nome nas proximi­
governador da quarta parte dc uma província dades era filho de Ptolomeu, um rei (não
e, mais tarde, de uma subdivisão de uma pro­ um tetrarca), cuja capital foi Cálcis, na
víncia. Por fim, o termo foi usado para desig­ Celessíria, não em Abilene, e que reinou de
nar qualquer governante que tivesse menos 40 a 36 a.C. Embora se deva admitir que
hierarquia que um rei. não há confirmação histórica específica da
Filipe. Herodes Filipe, filho de Herodes, declaração de Lucas, várias referências indi­
o Grande (ver gráfico, p. 28) e, possivel­ retas a Lisânias correspondem ao Lisânias
mente, o mais justo e sensato de todos de Lucas, em vez do filho de Ptolomeu, e são
715

os filhos dc Herodes, o Grande (Josefo, fortemente a favor de Lucas. Josefo se refere ◄


Antiguidades, xvii.4.6). Ele se casou com a “Abila de Lisânias” (Antiguidades, xix.5.1) e
Salomé, a filha de Herodias e Herodes ao tetrarca de Lisânias (Antiguidades, xx.7.1;
Filipe I, não muito depois do incidente regis­ Guerra dos Judeus, ii.11.5 [215]; 12.8 [247]).
trado em Marcos 6:22 a 25 (Antiguidades, Uma medalha foi encontrada designando um
xvii.5.4). Filipe foi o primeiro dos Herodes certo Lisânias como “tetrarca e sumo sacer­
a ter imagens de Augusto e Tibério impres­ dote”. Uma inscrição prova que o primeiro
sas em suas moedas. Isso os judeus conside­ Lisânias, filho de Ptolomeu, deixou filhos,
ravam idolatria, contudo, para Filipe, seus um dos quais pode ter sido o Lisânias que
súditos eram quase todos pagãos. Ele recons­ Lucas menciona. Outra inscrição da época
truiu a Cesareia de Filipe ao pé do monte de Tibério fala de um “tetrarca Lisânias”.

786
LUCAS 3:3

Comentando sobre um suposto erro de e indeciso (ver Jo 11:49, 50; DTN, 539, 540,
Lucas, o International Critical Commentary 703; ver gráficos, 1, 3, p. 224, 225).
observa que ‘‘tal erro é improvável; e a única João. Ver com. de Mt 3:1. Apenas Lucas
dificuldade acerca da declaração de Lucas designa João como o filho de Zacarias (ver
é que não temos evidências incontestáveis Lc 1:67). Aparentemente, a data cronoló­
deste tetrarca Lisânias gica de Mateus 3:1 se aplica à época quando
Abilene. Um distrito entre Damasco e “a palavra de Deus veio a João", significando
as montanhas do Antilíbano. o tempo quando Deus o chamou para sua
2. Sumos sacerdotes. Caifás, oficial- obra e lhe deu a “palavra” específica, ou men­
mente sumo sacerdote, e Anás, deposto pelos sagem, que deveria proclamar. João pode ter
romanos, ainda popularmente honrado como iniciado seu ministério por volta da Páscoa
sumo sacerdote (ver Jo 18:13, 24; At 4:6). de 27 d.C. (ver gráfico, p. 227).
Originalmente, o ofício do sumo sacerdote No deserto. Ver com. de Mt 3:1. Os
havia sido hereditário e vitalício, mas, sob três evangelhos sinóticos referem-se ao
os governos herodiano e romano, os sumos fato de que João estava “no deserto”, com
sacerdotes eram normal mente eleitos e o objetivo de enfatizar que ele evitava luga­
depostos numa rápida sucessão. Um deles res onde as pessoas se ajuntavam natural­
manteve o ofício por apenas um dia. Desde mente. A “palavra de Deus” possivelmente
a ascensão de Herodes, o Grande, em 37 veio a João no deserto da judeia, onde ele
a.C., até a queda de Jerusalém, em 70 d.C., passou grande parte de sua juventude e
28 pessoas mantiveram o sagrado ofício, seu início da vida adulta (ver com. de Lc 1:80),
prazo médio de ofício sendo, assim, de pouco mas ele, na realidade, começou a pregar e
mais que três anos c meio. batizar na Pereia, do outro lado de Jericó
Anás. Nomeado sumo sacerdote por (Jo 10:40; DTN, 132; ver com. de Lc 1:80;
Quiri no, governador da Síria, em 6 ou 7 Jo 1:28).
d.C.; deposto cm 14 ou 15 d.C. por Valério 3. Circunvizinhança. Do gr. ■perichõros,
Grato (Josefo, Antiguidades, xviii.2.2), que “uma região em redor” (ver com. de Mt 3:1, 5).
precedeu Pilatos como procurador da Judeia. João começou a pregar e a batizar em Betábara
Anás teve cinco filhos, cada um se tornou (Betânia), “além do Jordão” (Jo 10:40). Mais
sumo sacerdote, como também seu genro, tarde, ele é mencionado como estando pró­
Caifás. O ofício foi mantido pelos membros ximo a Salim (ver com. de Jo 3:23). A maior
de sua família intermitentemente por cerca parte de seu ministério foi conduzida no
de 50 anos depois que ele próprio foi deposto. deserto (DTN, 220).
Embora ele não mais servisse como sumo Pregando. Do gr. kêrussõ, "proclamar".
sacerdote durante o ministério de Jesus, João proclamava o valor e a necessidade do
ainda era considerado o legítimo sumo sacer­ batismo e do abandono do pecado (ver com.
dote pela maioria de seus contemporâneos de Mt 3:2, 6) como um preparo necessário
(ver At 4:6). para a vinda do Messias e de Seu reino.
Caifás. Cenro de Anás. Eleito sumo Batismo de arrependimento. Ver com.
sacerdote por Valério Grato, cm aproxima­ de Mt 3:2, 6; cf. Is 1:16. O “arrependimento”
damente 18 ou 19 d.C., ele continuou no ofí­ como pregado por João incluía mais que a
cio até por volta de 36 d.C. Foi oficialmente confissão de pecados passados (ver SI 32:1).
o sumo sacerdote durante todo o ministério Como evidenciam suas palavras de exorta­
de Jesus. Era um saduceu orgulhoso e cruel, ção (Lc 3:9-14), o “arrependimento” deveria
autoritário e intolerante, mas de caráter fraco ser seguido por uma nova vida em que os
787
3:4 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

princípios da justiça já revelados na Escritura o ouviam, recolhidos de vários sermões (ver


deveriam ser praticados (cf. Mq 6:8). com. do v. 18).
Remissão. Do gr. aphesis, “libertação” ou Multidões. Do gr. ochloi, “multidão” ou
“perdão”; literalmente, “mandar embora” “povo”.
► ou “uma demissão”. O arrependimento, a Saíam. Ver com. de Mt 3:5.
716

confissão e, consequentemente, o perdão, Para serem batizadas. Ver com. de


deveriam preceder o batismo, e eram as pri­ Mt 3:6.
meiras medidas adotadas no preparo do Raça. Do gr. gennêmata, neste contexto,
“caminho do Senhor”, “endireitar as veredas”, “raça”. Estas palavras foram dirigidas espe­
em aterrar os “vales” e nivelar as “montanhas” cificamente aos fariseus e saduceus (ver
do caráter (Lc 3:4, 5; cf. Mt 3:6). Lucas usa a com. de Mt 3:7). A imagem gráfica empre­
palavra aphesis com mais frequência que os gada por João em sua pregação enfatizando
demais escritores neotestamentários juntos. o que é familiar, as cenas diárias do campo,
4. Caminho. Literalmente, “trilhas ba­ faz lembrar as mensagens de profetas do AT
tidas”. como Joel e Amós e as parábolas de Cristo.
5. Todo vale. Isto é, cada abismo ou Observe a rápida sucessão de figuras de lin­
barranco, todo lugar difícil na estrada. guagem: operários reparando uma estrada,
Apenas Lucas dentre os evangelhos acres­ uma raça de víboras, frutos, um machado
centa os detalhes dos v. 5 e 6, citado de posto à raiz de uma árvore, um escravo
Isaías 40:4 e 5. O trabalho descrito neste removendo as sandálias de seu mestre, um
versículo é uma ilustração adequada da batismo de fogo, a eira com a pá de joeirar, a
transformação de caráter que acompanha a pilha crescente de grãos e o joio jogado para
conversão genuína. As alturas do orgulho e o lado pelo vento.
do poder humanos deveriam ser derrubadas Quem vos induziu [...]? Com esta
(DTN, 215; ver com. de Mt 3:3). pergunta contundente, o profeta do deserto
6. Verá a salvação. Isaías 40:5, de questionou os motivos dos fariseus e sadu­
que Lucas faz a citação, traduz: “A glória ceus. Seus motivos e ideais eram estra­
do Senhor se manifestará, e toda a carne nhos aos princípios do reino celestial. Neste
a verá.” Mediante a contemplação de Jesus estado de espírito, eles não seriam mais bem
como um infante no templo, Simeão excla­ recebidos no reino que uma raça de víboras
mou: “Os meus olhos já viram a Tua salva­ na eira em époea de colheita (ver Lc 3:17;
ção” (Lc 2:30). Jesus veio à Terra para revelar cf. com. de Mt 3:7).
a glória do caráter divino, e isto é como con­ Ira vindoura. Ver com. de Mt 3:7;
templarmos “a glória do Senhor” que nos cf. Lc 3:18.
transforma “de glória em glória, na Sua pró­ 8. Produzi. Ver com. de Mt 3:8.
pria imagem” (2Co 3:18). Pai. No grego, a palavra traduzida como
7. Dizia ele. Literalmente, “ele conti­ “pai” está na posição enfática.
nuou dizendo” ou “costumava dizer”, sig­ 9. Já está posto o machado. Ver com.
nificando que João falava repetidamente, de Mt 3:10.
enfatizando o mesmo tema. Desta forma, o 10. Então, [...] o interrogavam. Lite­
relato de Lucas acerca da pregação de João ralmente, “continuavam perguntando”. Depois
não deve ser tomado como se referindo a de cada discurso, as pessoas perguntavam
um sermão em especial, preparado para uma individualmente como aplicar os princípios
ocasião determinada, mas como uma síntese aos próprios problemas. A cada um João dava
dos pontos que impressionaram aqueles que o conselho adequado (ver v. 10-14).

788
LUCAS 3:13

Que havemos, pois, de fazer? As pala­ fosse coletado, e que se desse garantia até
vras de João Batista, inspiradas pelo Espírito que o montante fosse pago. Esses telõnai
Santo, agitaram os corações até que o povo normalmente seguiam a prática de sub­
estivesse ávido para fazer algo para prepa­ dividir, entre os subcontratantes, a área
rar-se para “a ira vindoura” (v. 7) e para o atribuída a eles, ou de contratar represen­
reino de Deus (v. 4). Um sermão que não tantes para fazer o trabalho efetivo de cole­
comove as pessoas para alguma resposta tar impostos. No NT, os “publicanos” eram
positiva falhou em seu propósito. João era os representantes que coletavam os impostos
um evangelista poderoso. Depois do apelo do povo e eram, com raras exceções, judeus.
às pessoas para se prepararem para a vinda Como representantes de um conquista­
do Senhor, eles pediram informação especí­ dor pagão, os coletores de impostos eram,
fica quanto ao que deveriam fazer. Em res­ para o povo, a lembrança mais dolorosa do
posta, João salientou aos indivíduos, ou aos baixo nível ao qual a nação judaica havia
grupos, os pecados que os assediavam, indi­ caído. Somando-se à vergonha de terem os
cando, assim, por onde cada pessoa deve­ “publicanos” entre si, estava a prática ines-
ria começar. Josefo escreveu que João “era crupulosa seguida por quase todos eles, de
um bom homem, e ordenava aos judeus despojar o povo de cada centavo exigido pela
que exercessem a virtude, a justiça de uns lei ou mesmo por um soldado romano. Um
para com os outros, a devoção sincera para judeu que se tornava um “publicano” era
com Deus e então, viessem para o batismo” visto como um traidor de Israel, um lacaio
(.Antiguidades, xviii.5.2). dos odiados romanos. Se estava errado, do
11. Túnicas. Do gr. chitõnes, “túnicas”, ponto de vista judeu, pagar imposto, muito
as vestes internas usadas sobre a pele, distin­ pior deveria ter sido coletar impostos! Um
tas de himatia, “capas” ou “mantos”, as vestes “publicano” era banido da sociedade judaica
-► externas usadas sobre as chitõnes, as "túni­ e excomungado da sinagoga. Era visto e tra­
cas” ou “camisas”. tado como um cão pagão, e tolerado apenas
Reparta. Literalmente, “distribua”. porque o poder de Roma estava por trás dele
Comida. Do gr. hrõmata, alimentos em (ver com. de Mc 2:14; ver p. 53, 54).
geral, sem distinção de origem vegetal ou Mestre. Literalmente, “professor”. Como
animal. Cristo, João não apenas pregava, ele tam­
12. Publicanos. Do gr. telõnai, “cole­ bém ensinava.
tores de impostos”, chamados pelos romanos 13. Não cobreis mais. João e Cristo
de publicani. A palavra telõnai é originada não condenaram a cobrança de imposto
do radical telos, “imposto” e da palavra como profissão. Jesus foi "amigo" de cobra­
õneomai, “comprar”, desta forma, literal­ dores de impostos (ver Mt 11:19) e se uniu
mente, “compradores de impostos”. Em vez a eles em ocasiões sociais (ver Mt 9:10-13).
de ter empregados regulares do governo, No entanto, Jesus e João exigiram equidade,
nomeados como funcionários das receitas, honestidade e bondade daqueles dentre essa
os romanos leiloavam o privilégio de cole­ classe que solicitaram a cidadania no reino
tar os rendimentos dentro de uma cidade ou celeste.
província. Apenas os homens ricos conse­ Estipulado. Eles deveriam cobrar tanto
guiam fazer lances no leilão, porque se exi­ quanto fosse exigido deles, inclusive uma
gia daqueles que adquiriam o privilégio que taxa razoável por seu trabalho. No entanto,
pagassem um valor estipulado ao tesouro não havia lugar para ladrões e pessoas cruéis
real, independente de quanto realmente no reino celestial.

789
3:21 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

para a prisão cie João. É improvável que 23. Ao começar. [A genealogia de Jesus
Herodes anunciasse como seu motivo para Cristo, Lc 3:23-38 = Mt 1:1-16. Comentário
agir assim a questão particular de Herodias, principal: Mt e Lc]. Do gr. archomai, “ini­
o que os judeus, como um todo, desaprova­ ciar” (ver Mt 4:17; Mc 4:1; Lc 3:8; At 1:1, 22;
vam (ver DTN, 214). 10:37). Um problema surge em conexão com
Cárcere. Segundo Josefo (Antiguidades, a forma utilizada neste versículo, archome­
xviii.5.2) esta foi a fortaleza de Macaeros, nos. Não está claro se archomenos se refere ao
na Pereia, a leste do Mar Morto. O sítio de “início" do 30° ano da vida de Jesus ou ao iní­
Macaeros foi descoberto em 1807, e as ruínas cio de Seu ministério. A tradução de Tyndale
das masmorras ainda podem ser vistas. No da primeira parte de Lucas 3:23 diz: "Jesus
entanto, em vista da sequência dos eventos tinha cerca de trinta anos quando iniciou”.
em Marcos 6:17 a 30 (cf. DTN, 222), certos A Bíblia de Cranmer, de 1539, adotou uma
eruditos pensam que a celebração de aniver­ nova tradução: “O próprio Jesus começava
sário pode ter sido realizada em Tiberíades a ser de quase trinta anos” (como na ARC).
e, por esse motivo, questionam a exatidão da Sendo que o contexto (v. 1-22) diz respeito
declaração de Josefo. ao batismo de Jesus, com o qual Seu minis­
21. Todo o povo. [O batismo de Jesus, tério público se iniciou, muitos concluíram
Lc 3:21-22 = Mt 3:13-17 = Mc 1:9-11 = que archomenos deve se referir a Seu minis­
Jo 1:32-34. Comentário principal: Mt]. Uma tério (ver com. de Mc 1:1; cf. At 1:22; 10:37,
figura comum de hipérbole judaica que, pos­ 38). Eles, consequentemente, acrescentaram
sivelmente, neste versículo, significava incluir expressões como “ensinar" ou “seu ministé­
a maioria daqueles que o ouviam. Fariseus e rio” (ARA) depois de archomenos (ver com.
saduceus rejeitavam o batismo (Lc 7:30, 33; de Lc 1:57; 2:42).
Mt 21:25, 32). Cerca de trinta anos. Lucas não se
Estando Ele a orar. Apenas Lucas comprometeu quanto a idade precisa de
registra que Jesus orou ao sair do rio. E ade­ Jesus na época de Seu batismo; em vez disso,
quado que Lucas, que tão frequentemente enfatizou o fato de que Ele tinha “cerca de
menciona Jesus no ato de orar, observe esse trinta anos". Até aqui, como indica a decla­
detalhe aqui. ração de Lucas, pode ser um ou dois anos a
22. Em forma corpórea. Apenas Lucas mais ou a menos da referência precisa a 30.
qualifica a pomba dessa forma. Entre os judeus, a idade de 30 anos era geral­
Meu Filho amado. Ver com. de Mt 3:17. mente considerada como a época quando um
O Códice Bezae acrescenta: “hoje Eu Te homem alcançava a completa maturidade e
gerei”. Embora neste versículo se afirme a estaria, consequentemente, qualificado para
real divindade de Jesus, Lucas prossegue, as responsabilidades da vida pública (ver grá­
imediatamente, para provar Sua real huma­ ficos 1, 3, p. 224, 225).
nidade (v. 23-38). Mateus inicia seu relato Se o nascimento de Jesus ocorreu no
da história evangélica ao apresentar a genea­ outono de 5 a.C., como parece provável (ver <
logia de Jesus (ver com. de Mt 1:1); Lucas com. de Lc 2:6, 8), Seu 30” ano, pelo método
reserva sua genealogia para o momento de cálculo judeu (ver com. de Lc 2:42), teria
quando Jesus assumiu Sua missão. Moisés, começado no outono de 25 d.C. e termi­
de modo semelhante, apresenta sua própria nado no outono de 26 d.C. (ver com. do v. 1).
linhagem depois de registrar sua primeira Esse fato está em plena harmonia com a
aparição pública como porta-voz de Deus e declaração mais ou menos generalizada de
líder de Israel (ver Ex 6:16-20). Lucas, de que Jesus tinha “cerca” de 30 anos,
LUCAS 3:23

e com todos os dados cronológicos conhe­ identifica Salatiel como filho de Jeconias;
cidos relacionados à vida de Cristo. Parece Lucas o alista como filho de Neri.
então que neste versículo, Lucas não está 4. Mateus identifica José como filho de
fazendo uma declaração cronológica precisa, Jacó; Lucas o identifica como filho de Heli.
mas apenas observando que Jesus atingiu a A princípio, essas diferenças parecem
idade madura na época de Seu batismo e do constituir importantes discrepâncias entre
início de Seu ministério público. as listas de Mateus e Lucas. O problema é
Como se cuidava. Jesus era “consi­ ainda mais complicado pelo fato de que abso­
derado juridicamente” ou “cria-se popular­ lutamente nada é conhecido a respeito de 60
mente” ser filho de José (ver Jo 8:41). Nos das 64 pessoas citadas nas duas listas, e que
registros oficiais no templo em Jerusalém, a informação a respeito das outras quatro
Jesus foi registrado como o primogênito de pessoas é escassa. Essa falta de informação
Maria e José (ver Lc 2:21; DTN, 52). A ação torna praticamente impossível uma conci­
rápida de José quando orientado pelo anjo a liação positiva entre as diferenças das duas
tomar Maria como sua esposa, sem dúvida, listas. Felizmente, sabe-se o suficiente dos
protegeu tanto o bom nome dela quanto o antigos costumes judaicos, seu modo de pen­
da Criança (ver com. de Mt 1:24). Segundo sar e de expressar, para fornecer uma expli­
os registros oficiais e diante da lei, Jesus era cação plausível de cada ponto de diferença,
filho de José. e assim, demonstrar que as discrepâncias
Filho. Sobre a importância da genealogia podem ser consideradas aparentes em vez
de Jesus para os tempos do NT, ver com. de de reais. Os vários pontos de diferença serão
Mt 1:1. A genealogia, como apresentada por considerados em ordem:
Lucas, difere em muitos aspectos importan­ 1. Como observado, Mateus nomeia 26
tes da genealogia apresentada por Mateus, gerações, numa média de 37 anos cada uma,
e essas diferenças confrontam os modernos para o período desde a morte de Davi até o nas­
leitores da Bíblia com o que é, reconhecida­ cimento de Cristo; Lucas apresenta 41 gera­
mente, um problema com muitas dificulda­ ções, numa média de 24 anos cada. Segundo
des. Esse problema consiste, essencialmente, a cronologia seguida por este Comentário,
no fato de que, embora as duas listas genea­ Davi morreu em 971 a.C. (ver vol. 2, p. 62,
lógicas tenham por finalidade apresentar a 126, 127) e Cristo nasceu em 5 a.C. (ver
linhagem de José, elas diferem entre si não p. 239), um intervalo de aproximadamente
apenas quanto à quantidade de antepassa­ 966 anos. Em parte, é possível explicar a
dos alistados num dado período de tempo, grande diferença entre as 26 e as 41 gerações
mas também quanto a quem foram esses ao se supor que cada antepassado de Jesus na
antepassados. Os principais pontos diver­ linhagem traçada por Lucas era, em média,
gentes entre as duas listas podem ser expres­ 13 anos mais novo por ocasião do nascimento
sos como segue: de seu sucessor do que na média da linhagem
1. Lucas alista 41 descendentes de Davide que
Mateus. Mas a diferença é muito grande
foram antepassados de Jesus; Mateus alista 26. para ser explicada inteiramente apenas deste
2. Exceto por Salatiel, Zorobabel e José, modo. Em vista do fato de que Mateus cla­
o esposo de Maria, as duas listas são com­ ramente omitiu pelo menos quatro ligações
pletamente diferentes quanto aos descen­ genealógicas durante aquela parte dos 966
dentes de Davi. anos em que uma comparação com listas
3. As duas genealogias convergem breve­ do AT podem ser feitas (ver com. de Mt 1:8,
mente em Salatiel e Zorobabel, mas Mateus 11, 17), é plenamente possível que ele possa

793
3:24 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

ter omitido pelo menos 11 ligações genealó­ etc., eram normalmente usados para incluir
gicas dos mais desconhecidos períodos entre um relacionamento mais distante do que
os Testamentos. Pode-se observar, também, indicam as palavras em português (ver com.
que um prazo médio de 24 anos entre o nas­ de Gn 29:12; Nm 10:29; Dt 15:2; lCr 2:7).
cimento de um homem e de seu sucessor é Por isso, “filho”, por exemplo, como usado na
muito mais provável do que 37 anos. Essa Bíblia, pode denotar relacionamento por nas­
► observação tende a confirmar as 37 gerações cimento biológico (atual ou distante), por
721

de Lucas e a probabilidade de que Mateus adoção, pelo casamento levirato (ver com.
chegou a 24 pela omissão intencional de de Dt 25:5-9), ou apenas pelo caráter (ver
cerca de 15 nomes de sua lista (ver com. de 2Tm 1:2).
Mt 1:8, II, 17). Filho de Eli. Obviamente, José, o esposo
2. Com exceção de Salatiel, Zorobabel e de Maria, não poderia ser o filho literal de
José, o esposo de Maria, as listas genealógi­ Eli, como neste versículo, e de Jacó, como
cas apresentadas por Mateus e Lucas traçam em Mateus 1:16. Duas explicações plausí­
a linhagem de Jesus a Davi por meio de duas veis foram propostas, cada uma delas está
linhagens completamente diferentes. De Davi em plena harmonia com conhecidos cos­
ao cativeiro babilónico, Mateus segue a linha­ tumes judaicos. Segundo uma das explica­
gem dos monarcas da família real, e admitimos ções, as duas listas apresentam a linhagem
que o mesmo se aplica aos nomes alistados de José, uma com a descendência sanguí­
do cativeiro cm diante (ver com. de Mt 1:17). nea e a outra por meio da adoção ou do casa­
Lucas, aparentemente, segue o ramo da linha­ mento levirato. Segundo a outra explicação,
gem real, dos que não reinaram, até Natã, Mateus apresenta os antepassados de José e
outro filho de Davi com Bate-Seba (lCr 3:5; Lucas apresenta os antepassados de Maria,
ver com. de Lc 3:31). O casamento entre as por meio do pai dela.
tribos dentro dos limites da família real facil­ Aqueles que consideram as duas listas
mente representa que os descendentes de como representando a linhagem de José expli­
Cristo podem ser traçados até Davi por meio cam que uma lista apresenta os descendentes
da linhagem de duas famílias distintas. Isso sanguíneos reais, e a outra, os descenden­
não explica o fato de duas linhagens serem tes por adoção dentro de uma linhagem fami­
apresentadas (ver n° 4, abaixo). liar relacionada. Se José era literalmente o
3. Sobre uma discussão do problema “filho de Jacó”, como em Mateus, ele deve ter-
apresentado pela convergência das duas lis­ se tornado “filho de Eli” de outra forma que
tas em Salatiel e Zorobabel, depois de quem não seja o sentido literal. Se Eli não tivesse
elas novamente divergem, ver com. do v. 27. herdeiro natural, poderia ter adotado José, por
4. Ver abaixo sob os subtítulos: “De José’’ meio de quem, segundo o costume judaico,
e “Filho de Eli”. as duas linhagens poderiam ser preservadas.
De José. Como Mateus (ver com. de De acordo com a segunda explicação, Maria
Mt 1:16), Lucas evita afirmar que Jesus era foi a única filha de Eli e, ao se casar com ela,
o filho de José. A ressalva “como se cuidava” José se tornou o filho legítimo e herdeiro de
não apenas indica a ausência de relaciona­ Eli, em harmonia com as provisões da lei do
mento sanguíneo direto, mas sugere, tam­ casamento de levirato, como dada no tempo
bém, que jurídica e popularmente Jesus era de Moisés (ver com. de Dt 25:5-9; Mt 22:24).
considerado o filho de José. 24. Matate. Ver com. de Mt 1:15. Nada
Entre o povo hebreu, os termos para “pai” mais se sabe a respeito das pessoas citadas
e “filho”, “mãe” e “filha”, “irmão” e “irmã”, desde Matate (Lc 3:24) até Rcsa (v. 27) além
794
LUCAS 3:36

de que são antepassados de Jesus. Eles não pertinente à sua lista genealógica (ver com.
são mencionados novamente na Bíblia, de Lc 3:36).
devido ao fato de o cânon do AT não se esten­ Neri. As pessoas mencionadas de
der muito além do retorno dos judeus do cati­ Neri, no v. 27, até Matatá, no v. 31, não são
veiro babilónico. mencionadas novamente na Bíblia. O período
27. Zorobabel. Lucas denomina coberto por esse grupo volta ao passado e se
Zorobabel como filho de Salatiel, e Salatiel, estende do cativeiro babilónico até o reino
como filho de Neri. Mateus também designa dividido de Salomão.
Zorobabel como filho de Salatiel, mas deno­ 31. Natã. Este foi filho de Davi e Bate-
mina Salatiel como filho de Jeconias (ver Seba, nascido em Jerusalém (ver com. de
com. de Mt 1:12). Embora possa ter havido 2Sm 5:14).
mais de um Zorobabel durante esse período Davi. Ver com. de Mt 1:1, 6; sobre os
(o nome possivelmente signifique “um dis­ nomes de Davi a Abraão alistados em Lucas
paro de Babilônia” ou “gerado em Babilônia”) 3:31 a 34, ver com. de Mt 1:2-6.
com um pai chamado Salatiel, tal possibili­ 34. Tera. Pai de Abraão (ver com. de
dade é quase universalmente desconside­ Gn 11:26-32). A diferença na grafia dos
rada. Dessa forma, o problema levantado nomes de Tera a Maalalel (Maleleel) é devido
neste versículo é comum às duas teorias ao fato de que no AT esses nomes foram
gerais desenvolvidas para explicar as dife- t ransi iterados para o português diretamente
► renças entre as duas listas genealógicas (ver do hebraico, enquanto, no NT, eles foram
722

com. de Lc 3:23). transi iterados do grego, que, por sua vez,


Várias soluções ao problema do paren­ haviam sido transliterados do hebraico.
tesco de Salatiel têm sido propostas. Alguns Naor. Avô de Abraão (ver com. de
sugerem que Salatiel era filho literal de Gn 11:22).
Neri, mas “filho” de Jeconias [Jeoiaquim; 35. Serugue. Bisavô de Abraão (ver com.
ver com. de lCr 3:16] por adoção. Outros de Gn 11:20).
sugerem que Salatiel, embora filho de Neri, Ragaú. isto é, Beú (ver com. de Gn 11:18).
se tornou o sucessor legítimo de Jeconias, Faleque. Isto é, Pelegue (ver com. de
possivelmente devido à extinção da família Gn 11:16).
de Jeconias (ver com. de Jr 22:30), ou por Éber. Ver com. de Gn 10:21; 11:14.
alguma outra razão. Ainda outros sugerem Salá. Ver com. de Gn 11:13.
que uma filha de Jeconias se casou com 36. Cainã. O nome Cainã ocorre neste
Neri, e que Salatiel foi, assim, filho de Neri versículo c na LXX de Gênesis 11:12 e 13
e neto de Jeconias, mas chamado “filho” de e 1 Crônicas 1:18, mas não ocorre no texto
Jeconias de acordo com o costume judaico. massorético. O fato de a transi iteração grega
Quanto ao parentesco de Zorobabel, tanto desses nomes hebraicos em Lucas 3:34 a 38
Lucas como Mateus o denominam filho ser idêntica à da LXX em Gênesis 5:5 a 32;
de Salatiel (Sealtiel; ver Ed 3:2; 5:2; Ne e 11:10 a 24 indica que Lucas possivelmente,
12:1; Ag 1:1), embora o texto massorético de seguiu a LXX nesta porção de sua genealo­
1 Crônicas 3:19 chame Zorobabel de filho gia. Essa possibilidade é confirmada pelo fato
de Pedaías (ver com. de lCr 3:19; Ed 2:2). adicional de Lucas incluir Cainã neste ver­
No entanto, a LXX de 1 Crônicas 3:19 sículo, entre Salá e Arfaxade.
alista Salatiel como pai de Zorobabel, e é Arfaxade. Ver com. de Gn 10:22; 11:12.
evidente que Lucas, neste versículo, segue Sem. O segundo filho de Noé (ver com.
a LXX sempre que ela provê informação de Gn 5:32; 11:10, 11).

795
3:37 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Noé. Ver com. de Gn 5:29. Adão. Para o sentido do nome, ver com.
Lameque. Ver com. de Gn 5:25. de Gn 1:26; 3:17; Nm 24:3. Lucas começa
37. Metusalém. Ver com. de Gn 4:18; sua genealogia com o nascimento sobrenatu­
5:25. ral do segundo ou “último Adão” (ICo 15:45)
Enoque. Ver com. de Gn 5:22, 24. e a termina com uma referência à criação do
Jarede. Ver com. de Gn 4:18. primeiro Adão.
Maalalel. Ver com. de Gn 4:18. Filho de Deus. Lucas, neste versículo,
Cainã. Ver Gn 5:9. Este patriarca, filho afirma sua fé em Deus como o Criador do
de Enos, não deve ser confundido com o ser humano e o Autor da vida, o único que
Cainã de Lucas 3:36, que não é mencio­ “a todos dá vida, respiração e tudo mais; de
nado no texto massorético do AT (ver com. um só fez toda a raça humana” (At 17:25, 26).
do v. 36). No início, o ser humano foi criado à imagem
38. Enos. Ver com. de Gn 4:26. de Deus. Por meio da fé em Jesus Cristo
Sete. O terceiro filho de Adão e Eva (ver nosso privilégio é ser criados novamente à

723
com. de Gn 4:25). Sua semelhança (ver 2Co 5:17).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1-18-DTN, 97-108 13-DTN, 553 22- PE, 153, 156


7-PR, 140 19-PE, 154 23- T4, 109
10, 11 - DTN, 107 21, 22-DTN, 109-113 38-Ed, 33, 130; PP, 45

Capítulo 4
1 A tentação e o jejum de Cristo. 13 Ele vence o diabo e 14 começa a pregar.
16 O povo de Nazaré se admira de Suas palavras. 33 Ele cura um
endemoniado, 38 a sogra de Pedro e 40 outros enfermos.
41 Os demônios reconhecem a Cristo e são expulsos.
43 Ele prega em todas as cidades.

1 Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do autoridade e a glória destes reinos, porque ela
Jordão e foi guiado pelo mesmo Espírito, no me foi entregue, e a dou a quem eu quiser.
deserto, 7 Portanto, se prostrado me adorares, toda
2 durante quarenta dias, sendo tentado pelo será Tua.
diabo. Nada comeu naqueles dias, ao fim dos 8 Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Ao
quais teve fome. Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele darás culto.
3 Disse-Lhe, então, o diabo: Se és o Filho de 9 Então, O levou a Jerusalém, e O colocou
Deus, manda que esta pedra se transforme em pão. sobre o pináculo do templo, e disse: Se és o Filho
4 Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Não de Deus, atira-Te daqui abaixo;
só de pão viverá o homem. 10 porque está escrito: Aos seus anjos orde­
5 E, elevando-O, mostrou-Lhe, num momen­ nará a teu respeito que te guardem;
to, todos os reinos do mundo. 11 e: Eles te susterão nas suas mãos, para não
6 Disse-Lhe o diabo: Dar-Te-ei toda esta tropeçares nalguma pedra.

796
LUCAS 4:1

12 Respondcu-lhe Jesus: Dito está: Não ten­ 28 Iodos na sinagoga, ouvindo estas coisas,
tarás o Senhor, teu Deus. se encheram de ira.
13 Passadas que foram as tentações de toda 29 E, levantando-se, expulsaram-No da ci­
sorte, apartou-se d Ele o diabo, até momento dade c O levaram até ao cimo do monte sobre
oportuno. o qual estava edilicada, para, de lá, O precipi­
14 Então, Jesus, no poder do Espírito, regres­ tarem abaixo.
sou para a Galileia, e a Sua fama correu por toda 30 Jesus, porém, passando por entre eles,
a circunvizinhança. retirou-Se.
15 E ensinava nas sinagogas, sendo glorifi­ 31 E desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia,
cado por todos. e os ensinava no sábado.
16 Indo para Nazaré, onde fora criado, en­ 32 E muito se maravilhavam da Sua doutri­
trou, num sábado, na sinagoga, segundo o Seu na, porque a Sua palavra era com autoridade.
costume, e levantou-Se para ler. 33 Achava-se na sinagoga um homem pos­
17 Então, Lhe deram o livro do profeta sesso de um espírito de demônio imundo, e bra­
Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde es­ dou em alta voz:
tava escrito: 34 Ah! Que temos nós contigo, Jesus
18 O Espírito do Senhor está sobre Mim, pelo Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem
que Me ungiu para evangelizar os pobres; en- és: o Santo de Deus!
viou-Me para proclamar libertação aos cativos 35 Mas Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-
e restauração da vista aos cegos, para pôr em li­ te e sai deste homem. O demônio, depois de o
berdade os oprimidos, ter lançado por terra no meio de todos, saiu dele
19 e apregoar o ano aceitável do Senhor. sem lhe fazer mal.
20 Tendo fechado o livro, devolveu-o ao as­ 36 lodos ficaram grandemente admirados
sistente e sentou-Se; e todos na sinagoga tinham e comentavam entre si, dizendo: Que palavra é
os olhos fitos nEle. esta, pois, com autoridade e poder, ordena aos
21 Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se espíritos imundos, e eles saem?
cumpriu a Escritura que acabais de ouvir. 37 E a Sua fama corria por todos os lugares
22 Todos Lhe davam testemunho, e se mara­ da circunvizinhança.
vilhavam das palavras de graça que Lhe saíam dos 38 Deixando Ele a sinagoga, foi para a casa
lábios, e perguntavam: Não é este o filho de José? de Simão. Ora, a sogra de Simão achava-se enfer­
23 Disse-lhes Jesus: Sem dúvida, citar-Me- ma, com febre muito alta; e rogaram-Lhe por ela.
eis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; 39 Inclinando-Se Ele para ela, repreendeu
tudo o que ouvimos ter-se dado em Cafarnaum, a febre, e esta a deixou; e logo se levantou, pas­
faze-o também aqui na Tua terra. sando a servi-los.
40 Ao pôr do sol, todos os que tinham
724

► 24 E prosseguiu: De fato, vos afirmo que ne­


nhum profeta é bem recebido na sua própria terra. enfermos de diferentes moléstias Lhos tra­
25 Na verdade vos digo que muitas viúvas ziam; e Ele os curava, impondo as mãos sobre
havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu cada um.
se fechou por três anos e seis meses, reinando 41 Também de muitos saíam demônios, gri­
grande fome em toda a terra; tando e dizendo: Tu és o Filho de Deus! Ele,
26 e a nenhuma delas foi Elias enviado, senão porém, os repreendia para que não falassem,
a uma viúva de Sarepta de Sidom. pois sabiam ser Ele o Cristo.
27 Havia também muitos leprosos em Israel 42 Sendo dia, saiu e foi para um lugar de­
nos dias do profeta Eliseu, e nenhum deles foi serto; as multidões O procuravam, e foram até
purificado, senão Naamã, o siro. junto dEle, e instavam para que não os deixasse.

797
4:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

43 Ele, porém, lhes disse: É necessário que Eu outras cidades, pois para isso é que fui enviado,
anuncie o evangelho do reino de Deus também às 44 E pregava nas sinagogas da Judeia.

1. Cheio do Espírito Santo. (A ten­ “Dar-iè-ei [...] porque ela me foi entregue
tação de Jesus, Lc 4:1-13 = Mt 4:1-11 = [...] Tua, se prostrado me adorares”, etc.
Me 1:12, 13. Comentário principal: Mt]. Uma Pode-se quase ver a gesticulação enfática
referência ao recebimento do Espírito Santo de Satanás enquanto faz esta proposta.
no momento do batismo (ver Lc 3:21, 22). 10. Que Te guardem. Do gr. dia-phulassõ,
Guiado. O tempo verbal grego indica “guardar-te cuidadosamente” (ver com. de
que a condução do Espírito Santo neste ver­ Mt 4:6).
sículo não se limitou à viagem ao deserto, 13. Tentações de toda sorte. Lite­
mas continuou durante Sua permanência ali. ralmente, “todas as tentações” (ver com. de
2. Quarenta dias. Mateus deixa claro Mt 4:11).
que as três maiores tentações ocorreram no Até momento oportuno. Isto é, até o
final dos 40 dias (ver com. de Mt 4:2, 3), tempo conveniente, quando outra oportu­
um fato evidente também a partir de Lucas nidade se apresentasse. Desde os primeiros
4:2. Quando Jesus entrou no deserto, estava anos, Cristo foi continuamente atacado pelo
rodeado pela glória do Pai e, quando a gló­ tentador (DTN, 71, 116).
ria partiu, Ele foi deixado sozinho para lutar 14. Poder. [Jesus volta para a Galileia
com a tentação (DTN, 118). As tentações de e principia a Sua missão, Lc 4:14, 15 =
Satanás continuaram durante todos os 40 Mt 4:12-17 = Mc 1:14, 15. Comentário prin­
dias de jejum de Jesus. As três menciona­ cipal: Mt]. De dynamis, “poder”, termo grego
das nos v. 3 a 13 representaram o clímax das do qual deriva a palavra “dinamite” (ver com.
tentações, no final do período (ver SP2, 90). de Lc 1:35). O Espírito Santo foi o agente ativo
3. Esta pedra. Talvez Satanás tenha tanto na criação (ver Gn 1:2) como na recria­
salientado uma pedra em especial, cujo for­ ção (ver Jo 3:5). O reino de Deus viria “com
mato lembrava o liso e redondo pão oriental poder” (ver Mc 9:1). O poder do Espírito Santo
(ver com. de Mt 4:3). encobriu Maria no momento da encarnação
5. Momento. Do gr. stigmê, de stizõ, (ver Lc 1:35). Por meio do Espírito Santo,
literalmente, “tatuar"; isto é, “picar” ou “per­ ela recebeu sabedoria para cooperar com o
furar”, portanto, “um ponto de tempo”. Céu no desenvolvimento do caráter de Jesus
Poderíamos dizer, “num segundo” ou “num (DTN, 69). Mas, no momento de Seu batismo,
tique do relógio”, ou “no piscar de um olho” o Espírito Santo desceu sobre Cristo de uma
(versão de Tyndale). forma especial, e encheu-O com poder divino
6. Ela me foi entregue. Isto é, por para a realização de Sua missão (ver com. de
Adão quando ele pecou. Depois da Queda, Jo 3:34). Mais tarde, aos discípulos foi pro­
Satanás denominou a si mesmo o “príncipe” metido “poder, ao descer sobre vós o Espírito
deste mundo (DTN, 114), esquecendo-se Santo” — poder para serem testemunhas da
]$► que Adão mantinha o título apenas em vir­ gloriosa mensagem de um Salvador crucifi­
tude da obediência ao Criador. Satanás insi­ cado e ressurreto (ver At 1:8; cf. Lc 2:1-4).
nuou que Adão o escolheu como soberano e Fama. Do gr. phêmê, “relato” ou “fama”;
como seu representante no Céu. Neste ver­ de phêmi, “dizer”. A “fama” de uma pessoa
sículo, a ênfase feita pelo grego aos prono­ consiste no que é dito sobre ela. A “fama”
mes, devido a suas posições, é reveladora: de Jesus crescia à medida que as notícias a
798
LUCAS 4:16

respeito dEle se espalhavam pelos comen­ primavera de 30 d.C., Jesus fez Sua última
tários feitos “por toda a circunvizinhança”. (DTN, 241) visita a Nazaré. A primeira
15. E ensinava. Segundo o grego, “Ele visita está registrada nos v. 16 a 30 (quanto à
continuou ensinando”. O ensino era o modo segunda, ver com. de Mc 6:1-6). Em Nazaré
costumeiro com o qual Jesus transmitia a ainda moravam a mãe, os irmãos e irmãs de
verdade. Na definição atual, a pregação é Jesus (DTN, 236), que, sem dúvida, esta­
uma apresentação mais formal da verdade; vam entre os adoradores na sinagoga, nesse
o ensino, menos formal. O ensino tende a sábado, em especial.
ser mais eficaz do que a pregação, pois os Criado. Ver com. de Mt 2:23; Lc 2:51, 52.
ouvintes são participantes, enquanto na pre­ Num sábado. A simples declaração de
gação eles são passivos. De vez cm quando, Lucas de que Jesus frequentava as reuniões
Jesus proferia discursos mais formais, tais sagradas da sinagoga no dia de sábado, o qual
como o Sermão do Monte e o sermão do Pão ele especifica como o sétimo dia da semana
da Vida. No entanto, mesmo a respeito do (Lc 23:56-24:1), deixa claro o dever do cris­
Sermão do Monte, o relato declara: “E Ele tão que ama seu Mestre e quer seguir Seus
passou a ensiná-los, dizendo” (Mt 5:2). Feliz passos (ver Jo 14:15; IPe 2:21). O fato de
é o pregador que consegue dar à sua prega­ Cristo pessoalmente ter observado o mesmo
ção a qualidade adicional do ensino. dia da semana que os demais judeus obser­
Nas sinagogas. Isto é, as sinagogas da vavam é evidência de que a contagem do
Galileia (sobre a sinagoga e seus serviços, tempo não havia sido perdida desde o Sinai,
ver p. 44-46). Lucas, possivelmente, tenha ou mesmo desde a criação.
mencionado o ensino de Jesus na sina­ Cristo é “Senhor também do sábado"
goga, a fim de antecipar o episódio seguinte (Mc 2:28); isto é, Ele o fez (Gn 2:1-3;
(v. 16-30). Logo após o incidente na sinagoga cf. Mc 2:27) e o reivindica como Seu dia. Seu
em Nazaré, ele relata outro episódio ocor­ exemplo ao observá-lo é um modelo perfeito
rido na sinagoga em Cafarnaum (v. 31-37) e para o cristão, tanto com relação ao tempo
observa mais uma vez que Jesus “pregava nas como quanto à maneira de observá-lo. Além
sinagogas da Galileia” (v. 44, ARC). disso, não há dúvida de que a semana como
Glorificado. Ou, "honrado”, “louvado”. temos boje se manteve em sequência inin­
A Galileia era um campo mais favorável à terrupta desde o tempo de Jesus. Também
obra do Salvador do que a Judeia (DTN, 232). aprendemos que observar o sétimo dia da
Para onde Jesus ia, “grande multidão O ouvia semana é guardar o sábado como Cristo
com prazer” (Mc 12:37). o fez. Desde aquela época, há milhões de
16. Para Nazaré. [Jesus prega em judeus espalhados por todo o mundo civili­
Nazaré. É rejeitado pelos Seus, Lc 4:16-30 = zado, e seria impossível que todos eles, simul­
Mt 13:54-58 = Mc 6:1-4. Ver mapa, p. 215; taneamente, cometessem o mesmo erro ao
gráficos, p. 226-228; ver Nota Adicional a calcular o sétimo dia da semana.
Lucas 4]. Esta foi a primeira visita de Cristo Na sinagoga. Sobre a antiga sinagoga e
a Nazaré, desde que Ele deixou a carpinta­ seus serviços, ver p. 44-46; sobre as ruínas
ria no outono de 27 d.C. para Se dedicar ao de uma sinagoga em Cafarnaum, ver com. de
ministério público (DTN, 236). Este seria, João 6:59.
possivelmente, o final da primavera de 29 Seu costume. Literalmente, “segundo
726

d.C., e quase metade do período de Seu o que era costumeiro a Ele”. Cristo tinha o <
ministério público já havia se passado. Um hábito de frequentar as reuniões regulares
ano mais tarde, possivelmente no início da da sinagoga aos sábados. A esta sinagoga em

799
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Nazaré, Ele havia sido regularmente convi­ como também lia bem em hebraico - naquela
dado na juventude, para ler os Profetas, e época, uma linguagem quase morta, exceto
Ele extraía lições de Seu profundo conhe­ nas reuniões religiosas. A lição para o dia era
cimento das Escrituras, as quais comoviam sempre lida em hebraico.
o coração dos adoradores (DTN, 74; cf. 70). Isaías. Sabe-se que, na época de Cristo,
Jesus utilizava a oportunidade proporcio­ a pessoa a quem era pedido que lesse a lição
nada pelo ajuntamento de pessoas nas sina­ dos Profetas e pregasse o sermão poderia
gogas da judeia e Galileia para ensiná-las (ver escolher a seção a ser lida. Jesus especifi­
Mt 4:23; 12:9; 13:54; Mc 1:21; 6:2; jo 18:20; camente pediu o rolo do profeta Isaías (ver
etc.; ver com. de Lc 4:15), assim como Paulo Nota Adicional a Lucas 4).
o fez, mais tarde, em terras estrangeiras Abrindo. Pode-se mencionar evidência
(At 13:14, 15, 42). textual (cf. p. 136) para a variante “desdo­
Levantou-Se. A reverência pela Palavra brou” ou “desenrolou”.
escrita exigia que aquele que a lesse publi­ Livro. Do gr. biblion, “um livro” ou “um
camente permanecesse em pé. A Lei e os rolo”. A palavra portuguesa “Bíblia” vem desta
Profetas eram lidos dessa forma, mas não os palavra. Este “livro” era um rolo (ver p. 99, 100).
Escritos, que não desfrutavam de reconhe­ Achou o lugar. Jesus continuou desen­
cimento semelhante (ver p. 45, 46; ver tam­ rolando o rolo do cilindro até que Ele encon­
bém vol. 1, p. 13). trou a passagem que desejava ler, ao mesmo
Para ler. Do gr. anaginõskõ, um termo tempo em que enrolava, com a outra mão, «

727
comum no NT para a leitura pública das a porção já lida (ver a ilustração do rolo de
Escrituras (ver At 13:27; 15:21; Cl 4:16; lTs Isaías, do Mar Morto, vol. 1, p. 9). Isaías 61:1
5:27), mas que também pode se referir à e 2 estava quase no final do rolo.
leitura particular (ver Mt 24:15; Lc 10:26; Onde estava escrito. A citação feita por
At 8:28). Era de se esperar o pedido para Lucas concorda com a LXX de Isaías 61:1,
que Jesus lesse as Escrituras e pregasse um 2a, exceto pela omissão da frase, em mui­
sermão quando retornasse a Nazaré - uma tos manuscritos antigos, “para curar os que­
tarefa que qualquer israelita qualificado, brantados de coração" e a inserção da frase
mesmo aqueles com pouca idade, poderia ser “pôr em liberdade os oprimidos”, por meio
chamado a realizar. Com frequência, Ele foi da paráfrase de Isaías 58:6. Lucas possivel­
solicitado a ler, quando criança (DTN, 74), mente tinha diante de si a LXX de seus dias
e Sua reputação como pregador na Judeia (ver enquanto escrevia (ver com. de Lc 3:36). Era
Jo 3:26; DTN, 181) deixou Seus concidadãos uma prática judaica comum unir várias pas­
ansiosos para ouvir o que Ele tinha a dizer. sagens das Escrituras (ver com. de Mc 1:2).
Esperava-se que aquele que lia a seleção dos 18. Espírito do Senhor. Sobre o papel
Profetas fizesse o sermão. do Espírito Santo no ministério terrestre de
17. Então, Lhe deram. Isto é, pelo Jesus, ver com. de Mt 3:16; 4:1.
diácono ou chazzan, cujo dever era tirar os Está sobre Mim. O Espírito Santo veio
rolos sagrados da arca e entregá-los ao leitor, sobre Jesus na época de Seu batismo para
e retorná-los à arca após a leitura (ver p. 44). capacitá-Lo ao Seu ministério terrestre (ver
Dessa forma, em harmonia com o ritual da Lc 3:21, 22; Jo 1:32; At 10:38).
sinagoga, o chazzan tirou da arca o rolo dos Ungiu. Do gr. chriõ, de onde deriva o
Profetas, removeu a cobertura e o entregou, título de “Cristo”, o ungido (ver com. de
fechado, a Jesus. E evidente que Jesus não Mt 1:1). No contexto messiânico, esta pas­
apenas falava a linguagem comum do povo, sagem pode ser traduzida desta forma:
800
LUCAS 4:18

“Ele Me fez o Cristo’’ ou “Ele Me fez o há pouca utilidade em pregar o evangelho


Messias” (ver com. de Is 61:1). a alguém, a não ser àqueles que sentem
Evangelizar. Ver com. de Mc 1:1. necessidade de algo mais que este mundo
Os pobres. Os pobres estavam à mercê tem a oferecer (cf. Ap 3:17, 18). Os que são
de funcionários inescrupulosos, empresá­ ricos na fé, que ouvem e praticam a men­
rios e vizinhos. Além disso, cria-se que o sagem do evangelho (ver com. de Mt 7:24),
sofrimento dos pobres era devido à maldi­ serão os “herdeiros do reino” (ver Tg 2:5).
ção de Deus - que seu estado infeliz era Este é o “tesouro” que, no Céu, é levado em
culpa deles próprios. Poucos simpatizavam consideração (ver Lc 12:21, 33; 18:22).
com eles em sua situação infeliz. O amor Quebrantados do coração (ARC).
de Jesus pelos pobres era uma das grandes Inclui os que sofrem grande desaponta­
evidências de Sua messianidade; a este res­ mento, mas se refere principalmente aos
peito, Ele chamou a atenção de João Batista “quebrantados do coração” e arrependidos
quando este estava abatido na prisão (ver pelo pecado. Os “quebrantados do cora­
Mt 11:5). Aqueles que possuem poucos bens ção” podem ser comparados aos que “cho­
deste mundo normalmente estão cônscios de ram’’ pelo pecado, isto é, aqueles que estão
suas necessidades e de sua dependência de com o coração contrito (ver com. de Mt 5:4;
Deus e, assim, estão frequentemente susce­ cf. Rm 7:24). Jesus veio para curar os cora­
tíveis à pregação do evangelho. O evangelho ções quebrantados.
de Jesus significa auxílio para os pobres, luz Cativos. Isto não se refere aos cativos
para os ignorantes, alívio da angústia para literais, mas aos que têm sido cativos de
os sofredores e libertação para os escravos Satanás no corpo, na mente e no espírito
do pecado. (ver Rm 6:16). Jesus não libertou João Batista
Qualquer pessoa que tivesse interesse em da prisão. Esses “cativos” são “espíritos” que
aliviar os pobres era considerada justa, e os definham na “prisão” de Satanás (ver IPe
atos de caridade se tornaram sinônimo de 3:19), pegos no “laço do diabo” e “tendo sido
justiça (ver com. de At 10:2-4; etc.). Com feitos cativos por ele para cumprirem a sua
frequência, os atos de caridade eram pratica­ vontade” (2Tm 2:26).
dos não pelo interesse solidário em ajudar os Cegos. Não apenas os cegos literais, mas
pobres, mas por um desejo de obter a justiça também os cegos espirituais (ver Mt 15:14;
728

(ver com. de Mt 6:1-4; Jo 12:5). No entanto, 23:16-19, 26; Jo 9:39-41).


a preocupação genuína e compreensiva pelos Pôr em liberdade. Uma paráfrase de
sentimentos e necessidades de nossos seme­ Isaías 58:6 (ver com. de Lc 4:17). Na lei­
lhantes é uma das melhores evidências da tura dos Profetas era permitido saltar de uma
“religião pura” (ver Tg 1:27), de conversão passagem a outra, o que não ocorria na lei­
sincera (ljo 3:10, 14), do amor de Deus (ver tura da Lei.
ljo 3:17-19; 4:21) e de prontidão para entrar Os oprimidos. A Escritura citada fala
no reino celestial (ver Mt 25:34-46). em deixar “os oprimidos saírem livres”, nova­
Talvez Jesus também estivesse pen­ mente no sentido espiritual. A mesma pala­
sando nos “humildes de espírito” (ver com. vra hebraica traduzida por “oprimidos” em
de Mt 5:3) — os que possuem necessidades Isaías 58:6 é apresentada como “esmagará"
espirituais, não materiais. Cristo prome­ em Isaías 42:3, onde está profetizado de
teu os recursos infinitos do reino celestial Cristo: “não esmagará a cana quebrada”. Em
aos “humildes de espírito”, aqueles que sen­ Isaías 42:4 a palavra é traduzida como “que­
tem sua necessidade espiritual. Na verdade, brará”. Jesus veio para libertar as pessoas

801
4:19 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

dos fardos pesados do pecado e das opres­ outros e, possivelmente, surpreenderam-se


sivas restrições rabínicas colocadas sobre os quando Jesus não mencionou isso. Quando,
judeus (ver Mt 23:4; cf. Lc 11:28-30). em Seu sermão, Jesus exaltou a fé dos pagãos,
19. Ano aceitável. Isto é, a era do evan­ indicando a falta de fé dos judeus, o público
gelho, quando os que sentem necessidade ficou fora de si, cheio de ressentimento e
espiritual (os humildes de espírito), os que fúria (ver v. 25-29; sobre os falsos conceitos
tem coração contrito (os quebrantados do dos judeus com relação ao reino messiânico,
coração), os que têm sido cativos do pecado ver com. de Mt 3:7; 4:9; 5:2, 3; Lc 1:68; sobre
e cegos para as coisas espirituais e os que a verdadeira natureza do reino, ver com. de
têm sido feridos e esmagados pelo maligno Mt 3:2, 3; 4:17; 5:2, 3; Mc 3:14).
podem esperar libertação do pecado. O “ano 20. Tendo fechado o livro. Isto é,
aceitável do Senhor" lembra o ano do jubi­ enrolando o livro de Isaías em seu cilindro
leu, quando os escravos eram libertados, os (ver com. do v. 17).
débitos eram cancelados e as terras herda­ Assistente. Do gr. hu-pêretês, literal­
das eram devolvidas aos proprietários origi­ mente, “remador”, portanto, qualquer um
nais (ver com. de Lv 25:10, 15, 24). que sirva com as mãos, “um servo”. Neste
Neste ponto, Jesus concluiu a leitura de versículo, Lucas se refere ao chazzan, ou diá­
Isaías 61:1 e 2. A frase seguinte, que era o cono, que devolve o rolo à arca (ver com.
clímax da passagem para o judeu patriota - do v. 17).
"o dia da vingança do nosso Deus” - Ele não Sentou-Se. O costume exigia que o ora­
leu. Os judeus ingenuamente criam que a dor ficasse em pé para a leitura pública da
salvação era para eles, e a retribuição, para Lei e dos Profetas. Mas, para o sermão, que
os gentios (ver SI 79:6). A ideia judaica de que seguia a leitura, o orador se sentava num
a salvação era uma questão de nacionalidade lugar especial, algumas vezes chamado
em vez de uma submissão pessoal a Deus, “a cadeira de Moisés”. Esta cadeira ficava
cegou o povo para a verdadeira natureza da numa plataforma elevada, próximo ao púl­
missão de Cristo e os levou a rejeitá-Lo. Eles pito. Com frequência, Cristo Se assentava
esperavam que o Messias aparecesse como enquanto pregava e ensinava (ver Mt 5:1;
um príncipe poderoso à frente de um exér­ Mc 4:1; Lc 5:3; Jo 8:2), um costume tam­
cito numeroso, para derrotar os opresso­ bém seguido, pelo menos ocasionalmente,
res e colocar o mundo sob o poder de Israel pelos Seus discípulos (ver At 16:13; ver p. 45).
(DTN, 30, 236). Fitos. Sem dúvida, havia uma atmos­
Este equívoco fundamental ergue-se do fera de suspense induzida pela atenção con­
fato de que os judeus deliberadamente negli­ centrada (ver At 6:15; 10:4; etc.) e por uma
genciaram as profecias que falavam de um expressão de seriedade no rosto de Jesus.
Messias sofredor e aplicaram erradamente Um efeito semelhante foi produzido nas duas
as que apontavam à glória de Sua segunda purificações do templo (ver DTN, 157, 158,
vinda (DTN, 30). Foi a opinião orgulhosa, 591; ver com. de Lc 2:48). A atmosfera pare­
preconceituosa e preconcebida que os levou cia vibrar com expectativa.
a este estado de cegueira espiritual (ver 21. Passou [...] a dizer-lhes. Jesus
DTN, 65, 212, 242). Estavam cegos ao fato popularmente era considerado um rabino ou
de não considerar a quantidade de luz bri­ professor (ver Jo 1:38, 49; 3:2; 6:25). Era de se
lhando sobre uma pessoa, mas o uso dessa esperar que, como um rabino visitante, fosse
luz. Gostavam de pensar na ideia que o jul­ solicitado que Ele fizesse o sermão, princi­
gamento de Deus estava reservado para os palmente em vista do fato de que Nazaré
802
LUCAS 4:23

era Sua cidade natal e que nesta sinagoga


729

de Lc 2:33, 41; 3:23). A mãe de Jesus, os


Ele havia lido as Escrituras enquanto era irmãos e as irmãs ainda moravam em Nazaré
um rapaz (ver com. de Lc 4:16). E evidente (ver Mt 13:54-56; DTN, 236) e, sem dúvida,
que Lucas fez um esboço dos comentários estavam presentes. Enquanto as pessoas pen­
de Cristo nesta ocasião, selecionando os que savam consigo mesmas: “Não é este o filho
produziram o efeito registrado no v. 22 e a de José?”, seus olhares naturalmente se volta­
violenta reação dos v. 28 e 29. vam em direção a esses membros da família
Hoje. Este comunicado conscienti­ de Jesus. Pode-se apenas especular quanto
zou as pessoas de que Jesus as considerava aos pensamentos de Maria numa ocasião
pobres, quebrantadas de coração, cativas, como essa (ver Lc 2:34, 35, 51).
cegas e oprimidas (DTN, 237). Repetidas 23. Sem dúvida. Do gr. pantõs, “por com­
vezes durante Seu ministério Jesus fez cita­ pleto”, “por todos os meios” ou “sem dúvida”.
ções dos profetas do AT e declarou: “Hoje A palavra pantõs é usada para enfatizar
se cumpriu esta Escritura em vossos ouvi­ afirmações ou negações (ver At 18:21; Rm 3:9).
dos” (DTN, 242). Assim como Jesus lia os rostos e corações da
A Escritura. Os críticos que afirmam audiência, Ele bem conhecia os pensamentos
despreocupadamente que Jesus nunca pen­ que os perturbavam. Sua tentativa de revelar
sou em Si mesmo como o Messias da pro­ aos ouvintes sua verdadeira atitude e condi­
fecia do AT fariam bem em ponderar essa ção (ver Lc 4:23-27) os enfureceu ainda mais
declaração. Nos dias de Cristo, os judeus e os levou a atentar contra Sua vida. Jesus com
compreendiam ísaías 61:1 e 2 como uma frequência deixava claro que lia os pensamen­
clara profecia messiânica. tos das pessoas e, desse modo, evidenciava
22. Todos Lhe davam testemunho. Sua divindade (ver com. de Lc 2:48).
O povo de Nazaré ouviu relatos do poder que Médico, cura-te a ti mesmo. Este,
acompanhava a pregação de Jesus durante aparentemente, era um provérbio popular.
o período de Seu ministério na Judeia (ver A versão hebraica do provérbio diz: “Médico,
com. de Mt 4:12). Então, eles próprios esta­ cura sua própria imperfeição.” Em formas
vam sob o encanto da pregação e sabiam que variáveis, o mesmo pensamento foi expresso
os relatos não foram exagerados. pelos gregos e outros povos antigos, como
Palavras de graça. Muito mais foi sarcasmo sobre o tratamento malsucedido.
falado além do que se registrou neste ver­ Foi essa parte do discurso de Jesus (v. 23-27)
sículo. A fluência das palavras graciosas e que evidenciou que Ele lia os pensamentos
cativantes encantou o povo. secretos (DTN, 238; comparar com a zom­
Não é este [...]? A forma da pergunta baria semelhante lançada sobre Ele na cruz;
no grego indica que os questionadores espe­ ver Mt 27:42).
ravam uma resposta afirmativa. A pergunta Os comentaristas não concordam quanto
deles não expressava incerteza, mas admi­ ao significado preciso, pretendido por Jesus,
ração. Os anos de convivência com Jesus os acerca do provérbio transmitido a Sua audiên­
levaram a considerá-Lo como um homem cia. Alguns têm sugerido que Ele interpre­
comum, como eles próprios, talvez não tão tava os pensamentos deles como significando:
imperfeito. Eles recusavam crer que Jesus, a “Você tem mostrado muitos sinais de cura
quem conheciam tão bem, tosse o Prometido, e milagres relacionados a outros [signifi­
e que a falta de fé os deixava perplexos. cando o povo de Cafarnaum], agora mostre
Filho de José. Jesus era normalmente um sinal em favor de Si mesmo [isto é, ao
considerado como “filho de José” (ver com. povo de Nazaré]. Você afirma ser o Messias

803
4:24 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

da profecia; deixe-nos ver alguns milagres”. 25. Três anos e seis meses. A respeito
Essa exigência por “sinais” geralmente era da duração da fome, ver com. de lRs 18:1
lançada sobre Jesus, mesmo que Ele nunca (cf. Tg 5:17).
a cumprisse (ver Mt 12:38, 39; Mc 8:11, 12; 26. E a nenhuma delas. Deus não
Jo 6:30-32). pode fazer nada pelos que têm o coração
Essa exigência silenciosa deixa claro que endurecido e são incrédulos, que não sen­
Jesus não realizou milagres durante Sua tem sua necessidade (ver com. de Mt 5:3).
infância e juventude, como reivindicam os Nossa permanência diante de Deus não é
evangelhos apócrifos (ver com. de Lc 2:52). determinada pela quantidade de luz que
O povo de Nazaré pediu que Ele construísse temos, mas pelo uso que fazemos dela
Sua reputação em Nazaré, como se disses- (DTN, 239). É interessante notar que Lucas,
► sem: “Demonstre aqui quem você é.” que escreveu principalmente para leitores
730

Ter-se dado em Cafarnaum. Muitos gentios, é o único que registra esses comen­
comentaristas consideraram a referência aos tários de Jesus nos quais elogia os crentes
milagres em Cafarnaum como prova de que gentios e condena os incrédulos israelitas.
este episódio ocorreu mais tarde no minis­ Uma viúva. Ver lRs 17:8-24.
tério de Cristo na Galileia, e que o relato de Sarepta. Isto é, Zarefate, uma cidade no
Lucas acerca da visita a Nazaré corresponde litoral, próxima à moderna Tsarafand, 24 km
ao relato do mesmo episódio registrado ao norte de Tiro. Cristo relacionou o episódio
em Mateus 13:54 a 58 e Marcos 6:1 a 6. aqui mencionado como Sua primeira ilustra­
No entanto, esta conclusão é injustificada, ção da verdade que Ele procurava transmi­
em vista do fato de que o filho de um nobre tir ao citar o provérbio do v. 23. A falta de té
foi curado em Cafarnaum (embora Jesus esti­ dos cidadãos de Nazaré impediu que Jesus
vesse em Caná nessa época) e por a cidade realizasse milagres ali (Mc 6:5, 6). Não que
ter sido agitada por esse episódio (DTN, Ele fosse incapaz de realizá-los, mas porque
200). A cura do filho do nobre ocorreu vários estavam despreparados para receber as bên­
meses antes dessa visita a Nazaré (ver com. çãos que Ele desejava lhes outorgar.
de Jo 4:53; ver gráficos, p. 227, 228). Além 27. Muitos leprosos. Jesus concede
disso, o povo da Galileia ouviu relatos dos uma iluminação adicional ao provérbio citado
milagres de Jesus na judeia (ver Jo 4:44, 45; no v. 23 (sobre a narrativa da cura de Naamã,
DTN, 196). Fica evidente que o ministério ver 2Rs 5:1-19). Alguns dos “muitos leprosos
formal em Cafarnaum ainda não havia se [...] em Israel" aos quais Jesus Se referiu são
iniciado (ver com. de Mt 4:12, 13), embora mencionados em 2 Reis 7:3.
Jesus já tivesse visitado rapidamente a cidade 28. Ouvindo. O povo de Nazaré não
(ver Lc 4:14, 15; Jo 2:12; ver Nota Adicional foi lento para compreender a aplicação das
a Lucas 4). palavras de Jesus. Eles entenderam clara­
24. De fato. Do gr. amen, “certamente” mente a posição que Ele defendia. Talvez
ou “verdadeiramente” (ver com. de Gn 15:6; eles tenham se lembrado de alguns episó­
Dt 7:9; Mt 5:18). dios da infância e juventude do Salvador,
Nenhum profeta. Jesus foi a Sua cidade quando a lealdade de Jesus ao que é certo
natal, e seus conterrâneos não O receberam silenciosamente condenava a conduta errô­
(cf. Jo 1:11). O orgulho proibiu que reconhe­ nea deles (DTN, 89). A repreensão implí­
cessem a pessoa do Messias no carpinteiro cita do Senhor caiu pesadamente sobre
a quem conheceram desde a tenra infância seus corações relutantes. Conscientes, por
(DTN, 237). um instante, de seu caráter falho e de sua

804
LUCAS 4:31

necessidade do verdadeiro arrependimento 30. Passando por entre eles. Os anjos


e conversão, o coração deles se rebelou (ver O cobriram e O levaram a um local seguro,
Rm 8:7). O orgulho e o preconceito obs­ como fizeram noutra ocasião (cf. Jo 8:59),
cureceram a mente hesitante para a luz da como regularmente protegeram as teste­
verdade que por um momento adentrou na munhas celestiais em todas as épocas (ver
alma fraca. DTN, 240). Assim foi com Ló (ver Gn 19:10,
Todos [...] se encheram de ira. Cons­ 11) e com Eliseu (ver 2Rs 6:17, 18) e assim
cientes de que as palavras de Jesus os descre­ tem ocorrido nos tempos atuais. Jesus pas­
via perfeitamente, eles não desejavam mais sou “pelo meio" da multidão protegido pelos
ouvi-Lo. Para aceitá-Lo, deveriam admi­ santos anjos (ver DTN, 240). Por várias
tir que não eram melhores que os pagãos, vezes, aqueles que se inclinaram a tirar
a quem consideravam como cães. Os habi­ a vida de Jesus foram impedidos de rea­
tantes de Nazaré não estavam dispostos a lizar suas más intenções (ver Jo 7:44-46;
humilhar o coração. Quão diferentes as pala­ 10:31-39), porque a obra dEIe ainda não
vras de Jesus eram das “palavras aprazíveis” estava completa, “ainda não era chegada a
que eles estavam acostumados a ouvir (ver Sua hora” (ver Jo 7:30).
com. de Is 30:10)! Aparentemente, o povo Retirou-Se. Como já mencionado, esta
de Nazaré preferia permanecer pobre, cego visita a Nazaré, a primeira desde o batismo
e em servidão (ver Lc 4:18). Embora tives­ de Cristo, possivelmente tenha ocorrido no
sem sido tocados, sua consciência culpada se final da primavera ou no início do verão de
ergueu rapidamente para silenciar as pene­ 29 d.C. (ver com. do v. 16). A visita seguinte,
trantes palavras da verdade. O forte orgu­ e última, à cidade, ocorreu aproximadamente
lho nacional se ressentiu do pensamento de um ano depois, no início da primavera de 30
que as bênçãos do evangelho deveriam estar d.C., não muito antes da Páscoa (ver com.
disponíveis aos pagãos e, em seu preconceito de Mc 6:1-6).
";> irracional, estavam prontos a assassinar o 31. Desceu. [A cura de um ende-
Príncipe da vida (ver At 3:15). moniado em Cafarnaum, Lc 4:31-37 =
29. Levantando-se. O povo de Nazaré Mc 1:21-28. Comentário principal: Mc]. Do
parou de ouvir antes que Jesus parasse de falar.vilarejo de Nazaré, no alto das colinas, até
Eles “não O receberam” (Jo 1:11). O assassi­ Cafarnaum, cerca de 32 km distante do mar
nato estava no coração deles, mesmo no dia de da Galileia, é literalmente uma “descida” de
sábado, e eles estavam prontos a destruí-Lo. 349 m acima do nível do mar para 209 m
Cimo do monte. Literalmente, a abaixo dele. E possível que Maria e outros
“sobrancelha do monte”, isto é, uma proe­ membros da família tenham acompanhado
minência ou projeção do monte. O chamado a Cristo.
Monte da Precipitação, o local tradicional Cidade da Galileia. Possivelmente,
desse evento, está localizado fora de Nazaré, uma explicação adicionada por Lucas para
acima dos limites permitidos para uma via­ benefício de seus leitores, pois nem todos
gem em dia de sábado. E mais provável que estavam familiarizados com a geografia da
o povo O tenha levado a um penhasco de Palestina (ver p. 727, 728).
calcário de 9 ou 12 m de altura no extremo E os ensinava. De acordo com o texto
sudoeste da cidade, visível do convento grego, “continuou a ensiná-los”, o que envol­
Maronita. via certo período. O ensino começou na sina­
Sobre o qual. Sobre o monte, não em goga de Cafarnaum e, possivelmente, tenha
sua extremidade. se concentrado ali.
805
4:32 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

No sábado. Como era a prática do 39. Inclinando-Se Ele para ela.


Senhor (ver com. do v. 16). Como um médico faria.
32. Muito se maravilharam. A admi­ 41. Demônios. Ver Nota Adicional a
ração era a reação habitual ao ensino de Jesus Marcos 1.
(ver Mt 7:28, 29; 13:54; Mc 6:2). Tu és o Filho de Deus! Esta é uma
declaração mais definida que a declaração <

ZÍL
Autoridade. Do gr. exousia (ver com. de
Lc 1:35; sobre o modo impressionante cia fala que o outro endemoniado fez, mais cedo
de Jesus, ver DTN, 237, 253-255). nesse dia (ver v. 34).
33. Na sinagoga. Talvez esta fosse a Repreendia. Ou, “não os permitia”. Jesus
sinagoga construída por um oficial romano passou imediatamente a silenciá-los, talvez
para o povo de Cafarnaum (ver Lc 7:5). porque o testemunho poderia ser entendido
Demônio. Ver Nota Adicional a Mar­ como significando que Ele estava em aliança
cos 1. com os demônios (ver com. de Mc 3:11).
34. Ah! Do gr. ea, considerado por alguns O Cristo. Ou, o Messias. O artigo defi­
como o imperativo de eaõ, “deixar’, ‘permi­ nido faz da palavra um título em vez de um
tir"; no entanto, é mais provável ser apenas a nome pessoal (ver com. de Mt 1:1).
interjeição ea, uma exclamação de surpresa 42. Sendo dia. [Jesus vai a um lugar
ou desaprovação, ira ou desânimo. deserto, Lc 4:42-44 = Mc 1:35-39. Comen­
35. Sem lhe fazer mal. Como seria de se tário principal: Mc].
esperar (ver com. de Mc 1:26). Apenas Lucas, Deserto. Do gr. erêmos (ver com. de
o médico, registra esse detalhe significativo. Lc 1:80).
38. Deixando Ele. [A cura da sogra de Instavam. Isto é, eles queriam impedir
Pedro; Muitas outras curas, Lc 4:38-41 = que Jesus os deixasse, aparentemente fazendo
Mt 8:14-17 = Mc 1:29-34. Comentário prin­ o que podiam para dificultar Sua partida.
cipal: Mc]. 44. Galileia (ARC). As evidências tex­
Achava-se. Do gr. suneckõ, “manter tuais se dividem (cf. p. 136) entre esta e a
junto" ou talvez “apegar”, neste versículo. variante “Judeia” (ARA). Lucas parece ter
Febre muito alta. Esta frase tam­ usado o termo “Judeia” como equivalente
bém pode ter sido um termo médico. De a “Palestina". Uma vez que Lucas escreveu
acordo com determinadas fontes, a medi­ a gentios não palestinos, ele pode ter con­
cina grega dividia as febres em duas clas­ siderado o termo “Judeia” (ARA) mais sig­
ses: “grande” e “pequena”, isto é, febre “alta" nificativo para eles e mais exato para seus
e febre “baixa”. propósitos (ver p. 727, 728).

NOTA ADICIONAL A LUCAS 4

Há divergência quanto a primeira rejeição em Nazaré ter ocorrido antes ou depois da


Páscoa de 29 d.C. Segundo um ponto de vista, esta visita a Nazaré e os episódios transcor­
ridos até completar a primeira viagem pela Galileia ocorreram antes da Páscoa. Chega-se
a esta conclusão, comparando-se a viagem de Cristo da Judeia para a Galileia, mencionada
em Mateus 4:12 e Marcos 1:14 (por causa do aprisionamento de João Batista), com Sua via­
gem mencionada em João 4:1 a 3 (que resultou da contenda entre os discípulos de Jesus e
os de João).
Lm apoio a essa referência, foi feita: (1) uma afirmação por Albert Ten Eyck Olmstead
(Jesus in the Light of History, 281), atribuindo a leitura de Cristo de Isaias 61:1 a 3 nessa ocasião
806
LUCAS

ao Seder 62d do ciclo trienal de leituras da sinagoga da Lei e dos Profetas, cujo Seder, ele
declara, foi lido em 18 de dezembro de 28 d.C.; (2) afirmado que, de outro modo, haveria um
silêncio singular por parte dos escritores sinóticos com relação aos episódios entre as Páscoas
de 28 e 29 d.C., quando comparados ao relato completo dos episódios entre as Páscoas de
29 e 30 d.C.; e (3) enfatizado o silêncio de Lucas a respeito da presença dos discípulos com
Jesus na época dessa visita a Nazaré. Argumenta-se que, depois do encontro com o nobre
em Caná, Jesus foi sozinho a Nazaré, tendo enviado Seus discípulos a Cafarnaum para que
não testemunhassem Sua rejeição em Nazaré (ver gráficos, p. 227, 228).
Há dificuldades com relação a esse ponto de vista:
1. A declaração de Olmstead de que Jesus leu Isaías 61:1 a 3 porque esta era a leitura
regular do ciclo trienal para aquele sábado específico está baseada numa lista do ciclo trie­
nal de leituras, datada aproximadamente em 600 d.C., e encontrada no genizah (um depósito
para rolos desgastados) da sinagoga de Fustat, no Cairo. Sabe-se que um ciclo trienal foi uti­
lizado uma vez na Palestina, mas não há evidência de que trechos dos Profetas fossem utili­
zados nas leituras sabáticas nas sinagogas, antes da destruição do templo, em 70 d.C. Além
disso, Olmstead cita Jacob Mann {The Bible as Bead and Preached in the Old Synagogue, 481,
569, 573), em apoio ao uso de Isaías 61:1 a 3 como a leitura dos Profetas para o 62° Seder,
sendo que Mann conclui que a leitura de Isaías 61:1 a 3 não foi a leitura do ciclo trienal
dos Profetas para o 62° Seder, muito tempo depois do período do NT (p. 511- 519). O argu­
mento de que o 62° Seder do ciclo trienal fornece uma base válida para datar a primeira
rejeição em Nazaré, desta forma, permanece sem confirmação. Além disso, segundo Lllen
White (SP2, 110), “no término do serviço”, depois da leitura usual dos profetas (ver p. 45)
e da exortação pelo ancião, "Jesus levantou-Se com calma e dignidade, c pediu-lhes que Lhe
trouxessem o livro do profeta Isaías”. Aparentemente, Ele próprio fez a seleção (ver p. 45, 46;
referência bibliográfica de Olmstead, 265).
2. O argumento dc que o silêncio dos escritores sinóticos requer a atribuição dos epi- «£
sódios no ministério da Galileia entre a primeira rejeição em Nazaré e a primeira viagem
à Galileia, inclusive até a Páscoa de 28-29 d.C. é, na melhor das hipóteses, um argumento
para o silêncio e, como tal, não é convincente. João é tão silencioso sobre o ministério na
Galileia quanto os autores dos sinóticos são silenciosos sobre o ministério na Judeia. Tanto
quanto sabemos, nenhum dos autores sinóticos loi testemunha ocular do ministério na Judeia.
Possivelmente, o fato de que o ministério na Judeia tenha sido improdutivo em comparação
com o ministério na Galileia (ver DTN, 194, 232), levou os escritores sinóticos a ver pouco
sentido num extenso relato do período anterior (ver com. de Lc 4:23).
3. A terceira controvérsia também está baseada no argumento do silêncio, portanto,
é inconclusiva. Assim, à primeira vista, não há evidência positiva.
Os motivos para atribuir a primeira rejeição em Nazaré à primavera de 29 d.C., depois
da Páscoa, são os seguintes:
1. João diz claramente que a saída da Judeia para a Galileia, relatada por ele em João
4:1 a 3 ocorreu em resultado da contenda entre os discípulos de João Batista e os de Jesus
(ver Jo 3:25-36; 4:1, 2), e indica fortemente que João não estava na prisão na época em
que ocorreu essa contenda (Jo 3:23-26). Se João estivesse aprisionado e sua obra tivesse
sido interrompida, porque haveria contenda quanto ao fato de que “Jesus fazia e bati­
zava mais discípulos que João” (Jo 4:1)? Ele não poderia estar batizando caso estivesse na
prisão, e os discípulos dificilmente teriam iniciado a discussão sobre quem era o maior
807
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

(Jo 3:23, 26, 30; cf. jo 4:1). De acordo com o Desejado de Todas as Nações, 179, quando
“os discípulos de João foram ter com ele com suas queixas" [...] a missão deste pare­
ceu prestes a findar-se, e ainda lhe seria “possível prejudicar a obra de Cristo”, se qui­
sesse. João ainda pregava e batizava. Na prisão, Ele pouco podia fazer para “prejudicar a
obra de Cristo”. Por essas razões, parece difícil igualar a saída nos sinóticos (de Mt 4:12;
Mc 1:14) com a de João 4:1 a 3. O relato inspirado ligou a viagem anterior de Jesus ape­
nas ao aprisionamento de João, enquanto a segunda está relacionada à controvérsia entre
os dois grupos de discípulos.
2. A saída de Jesus, relatada nos sinóticos (de Mt 4:12; Mc 1:14) e o início do ministé­
rio na Galileia são especificamente situados por Ellen White (DTN, 231, 232; MDC, 2)
depois dos episódios de João 5, que ocorreram na Páscoa de 29 d.C. À luz dessas refe­
rências do Espírito do Profecia, a saída mencionada pelos sinóticos pode ser equiparada
com a mencionada em João 4:1 a 3 apenas se a primeira rejeição em Nazaré, o início do
ministério em Cafarnaum, o chamado junto ao mar e a primeira viagem à Galileia não
forem considerados como parte do ministério na Galileia.
3. Jesus novamente Se referiu à mensagem de Isaías 61:1 a 3 poucas semanas mais tarde,
na sinagoga em Cafarnaum (DTN, 255), e parece ter empregado palavras semelhantes às
que utilizou em Nazaré, em várias ocasiões posteriores (ver DTN, 237; cf. 242). Assim,
parece que a leitura de Isaías 61:1 a 3, em Nazaré, e o sermão baseado nesta passagem
foram escolhidos pelo próprio Jesus (ver p. 45; SP2, 110), e que Ele normalmente pregava
sobre esse texto para estabelecer a natureza e os objetivos de Seu ministério.
Parece, portanto, preferível atribuir a primeira rejeição em Nazaré ao final da primavera
de 29 d.C. (ver p. 181, 244, 245; gráficos, p. 226).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1-4-Te, 285 16-27-AA, 416 22 - EEC, 472


1-13-DTN, 114-123 16-30-DTN, 236-243 23-27 - DTN, 238
2 -T2, 202; T3, 486 18 -PJ, 158; CM, 162; 25 - GC, 323
3- PE, 155; Te, 275 DTN, 428, 500, 823; 27 - PR, 253
4- PE, 155; Te, 276 Ed, 113; Ev, 581; GC, 28-30 - DTN, 240
5- 8-PE, 157 20, 327; CBV, 423, 443; 29, 30-PE, 159
5-13-DTN, 124-131 CC, 11; T6, 225; T8, 32- DTN, 253, 355, 453;
6, 7-DTN, 129 308; BS, 78 Ed, 81; GC, 346
7- T5, 481 18, 19-PJ, 417; DTN, 33- 36-GC, 515
8- DTN, 130; CC, 51 358; PR, 718; T3, 388; 35 - CBV, 91
10-12- PE, 156 T8, 134 36-GC, 516
16, 17-DTN, 236 18-22 - DTN, 237 38 - DTN, 259; CBV, 29
16-19-BS, 170 21 - DTN, 242 43-CBV, 31
LUCAS 5:1

Capítulo 5
1 Dentro do barco de Pedro, Cristo ensina ao povo. 4 Após a pesca miraculosa,
Ele chama Pedro e seus companheiros para serem pescadores de homens.
12 Ele purifica o leproso, 16 ora no deserto, 18 cura um paralítico,
27 chama Mateus, o publicano, e 29 come com pecadores.
34 Cristo prediz as aflições dos apóstolos depois de Sua
ascensão e 36 profere a parábola sobre odres
velhos e vestes desgastadas.

1 Aconteceu que, ao apertá-Lo a multidão rosto cm terra, suplicou-Lhe: Senhor, Se quise­


para ouvir a palavra de Deus, estava Ele junto res, podes purificar-me.
ao lago de Genesaré; 13 E Ele, estendendo a mão, tocou-lhe, di­
2 e viu dois barcos junto à praia do lago; mas zendo: Quero, fica limpo! E, no mesmo instan­
os pescadores, havendo desembarcado, lavavam te, lhe desapareceu a lepra.
as redes. 14 Ordenou-lhe Jesus que a ninguém o dis­
3 Entrando em um dos barcos, que era o de sesse, mas vai, disse, mostra-te ao sacerdote e ofe­
Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia;rece, pela tua purificação, o sacrifício que Moisés
e, assentando-Se, ensinava do barco as multidões. determinou, para servir de testemunho ao povo.
4 Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze- 15 Porém o que se dizia a Seu respeito cada
te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar. vez mais se divulgava, e grandes multidões
5 Respondeu-Lhe Simão: Mestre, havendo afluíam para O ouvirem e serem curadas de suas
trabalhado toda a noite, nada apanhamos, mas enfermidades.
sob a Tua palavra lançarei as redes. 16 Ele, porém, Se retirava para lugares soli­
6 Isto fazendo, apanharam grande quantidade tários e orava.
de peixes; e rompiam-se-lhes as redes. 17 Ora, aconteceu que, num daqueles dias,
7 Então, fizeram sinais aos companheiros do estava Ele ensinando, e achavam-se ali assenta­
outro barco, para que fossem ajudá-los. E foram dos fariseus e mestres da Lei, vindos de todas
e encheram ambos os barcos, a ponto de quase as aldeias da Galileia, da Judeia e de Jerusalém.
irem a pique. E o poder do Senhor estava com Ele para curar.
8 Vendo isto, Simão Pedro prostrou-se aos pés 18 Vieram, então, uns homens trazendo em
de Jesus, dizendo: Senhor, retira-Te de mim, por­ um leito um paralítico; e procuravam introduzi-lo
que sou pecador. e pô-lo diante de Jesus.
9 Pois, à vista da pesca que fizeram, a admi­ 19 E, não achando por onde introduzi-lo por
ração se apoderou dele e de todos os seus com­ causa da multidão, subindo ao eirado, o desce­
panheiros, ram no leito, por entre os ladrilhos, para o meio,
10 bem como dc Tiago c João, filhos de diante de Jesus.
Zebedeu, que eram seus sócios. Disse Jesus a 20 Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico:
735

Simão: Não temas; doravante serás pescador de Homem, estão perdoados os teus pecados.
homens. 21 E os escribas e fariseus arrazoavam, di­
11 E, arrastando eles os barcos sobre a praia, zendo: Quem é este que diz blasfêmias? Quem
deixando tudo, O seguiram. pode perdoar pecados, senão Deus?
12 Aconteceu que, estando Ele numa das ci­ 22 Jesus, porém, conhecendo-lhes os pen­
dades, veio à Sua presença um homem cober­ samentos, disse-lhes: Que arrazoais em vosso
to de lepra; ao ver a Jesus, prostrando-se com o coração?

809
5:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

23 Qual é mais fácil, dizer: Estão perdoados precisam de médico, e sim os doentes.
os teus pecados ou: Levanta-te e anda? 32 Não vim chamar justos, e sim pecadores,
24 Mas, para que saibais que o Filho do ao arrependimento.
Homem tem sobre a terra autoridade para per­ 33 Disseram-Lhe eles: Os discípulos de
doar pecados - disse ao paralítico: Eu te orde­ João e bem assim os dos fariseus frequentemen­
no: Levanta-te, toma o leu leito e vai para casa. te jejuam e fazem orações; os Teus, entretanto,
25 Imediatamente, se levantou diante deles comem e bebem.
e, tomando o leito cm que permanecera deitado, 34 Jesus, porém, lhes disse: Podeis fazer je­
voltou para casa, glorificando a Deus. juar os convidados para o casamento, enquanto
26 Todos ficaram atônitos, davam glória a está com eles o noivo?
Deus e, possuídos de temor, diziam: Hoje, vimos 35 Dias virão, contudo, em que lhes será tira­
prodígios. do o noivo; naqueles dias, sim, jejuarão.
27 Passadas estas coisas, saindo, viu um pu- 36 Também lhes disse uma parábola:
blicano, chamado Levi, assentado na coletoria, Ninguém tira um pedaço de veste nova e o põe
e disse-lhe: Segue-Me! em veste velha; pois rasgará a nova, e o remendo
28 Ele se levantou e, deixando tudo, o seguiu.da nova não se ajustará à velha.
29 Então, Lhe ofereceu Levi um grande ban­ 37 E ninguém põe vinho novo em odres ve­
quete em sua casa; e numerosos publicanos e ou­ lhos, pois o vinho novo romperá os odres; entor­
tros estavam com eles à mesa. nar-se-á o vinho, e os odres se estragarão.
30 Os fariseus e seus escribas murmuravam 38 Pelo contrário, vinho novo deve ser posto
contra os discípulos de Jesus, perguntando: Porqueem odres novos [c ambos se conservam].
comeis e bebeis com os publicanos e pecadores? 39 E ninguém, tendo bebido o vinho velho,
31 Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não prefere o novo; porque diz: O velho é excelente.

1. Aconteceu que. [A pesca maravi­ diferentes do mesmo evento. No entanto,


lhosa, Lc 5:1-11 = Mt 4:18-22 = Mc 1:16-20. um estudo cuidadoso do contexto exclui essa
Comentário principal: Lc. Ver mapa, p. 215; possibilidade (ver também DTN, 809-817).
gráfico, p. 228; sobre os milagres, verp. 204- Era ainda bem de cedo de manhã, quando
210]. Lucas relata, fora da ordem natural, Jesus caminhava junto ao mar, e as pessoas
o chamado de Pedro, André, Tiago e João já se aglomeravam em torno dEle. Esse fato
no lago da Galileia. Cronologicamente, esta testemunha Sua “fama” ou popularidade,
narrativa (v. 1-11) diz respeito a um trecho mesmo antes dos eventos milagrosos que
entre os v. 32 e 33 de Lucas 4 (ver com. de ocorreriam num dia de sábado (Lc 4:31-41).
Mt 4:23). A razão para Lucas situá-lo assim, Palavra de Deus. isto é, conforme defi­
evidentemente, é o desejo de agrupar os dois nida na pregação e no ensino de Jesus. Suas
casos da sinagoga, um em Nazaré (Lc 4:16- palavras eram graciosas (ver Lc 4:22), reple­
30) e outro em Cafarnaum (v. 31-37), e unir tas de poder vitalizante (ver Jo 6:63, 68), e
o chamado dos discípulos (Lc 5:1-11) com o o povo ansiava por elas. Devem ter se emo­
relato da primeira viagem de pregação pela cionado enquanto ouviam Aquele que era
Galileia (v. 12-15). a Palavra de Deus encarnada (ver com. de
Apertá-Lo. Em vista das semelhan­ Jo 1:1-3).
ças entre o episódio deste versículo c o rela­ Lago. Do gr. limnê, "um tanque de água”.
tado em João 21:1 a 17, alguns comentaristas Lucas, cujas viagens o familiarizaram profun­
concluíram que os dois relatos são versões damente com o mar Mediterrâneo, nunca fala
810
LUCAS 5:5

da Galileia como um “mar” (do gr. thalassa), isto é, deixando-as prontas para a pescaria
► mas consistentemente usa o termo limnê,
736

seguinte. Se os termos “cuidando” e “conser­


“lago”. Os demais escritores evangélicos, no tando’’ forem considerados em seus aspec­
entanto, sempre o chamam thalassa, “mar”. tos gerais, não há discrepância nas várias
Genesaré. Nas proximidades estava a narrativas (ver Nota Adicional a Mateus 3;
fértil planície de Genesaré, que possivel­ cf. com. de Mc 5:2; 10:46; Lc 7:3; ver Nota
mente dera nome ao lago (ver Mt 14:34; Adicional a Lucas 7).
Mc 6:53). A planície, situada entre as coli­ 3. O de Simão. Isto é, de Simão Pedro
nas e o lago, com Cafarnaum ao norte e (ver v. 8; sobre Pedro e sua relação com os
Magdala ao sul, é agora chamada el-Ghu- outros membros do grupo ocupados no cui­
weir. A planície cohre uma área de aproxi­ dado de suas redes, ver com. de Mc 3:16).
madamente 5 km de comprimento e 2,4 km Assentando-Se. Era costume dos pro­
de largura. Devido ao seu clima subtropi­ fessores assentarem-se para dar suas aulas.
cal, produz nozes, figos, azeitonas e uvas. Isto ocorria tanto nas escolas rabínicas
O lago de Genesaré era chamado de mar quanto na instrução pública dada pelos
de Quinerete nos tempos do AT (Nm 34:11; rabinos nos pátios do templo em Jerusalém.
Js 12:3; etc.). No tempo de Cristo, o mar Os instrutores nas sinagogas também se
da Galileia (ou lago de Genesaré) margeava sentavam enquanto ensinavam (ver com. de
o distrito mais rico e famoso da Palestina. Lc 4:20).
A Galileia foi povoada principalmente por 4. Lançai. Do gr. chalaõ, termo usado
judeus, ainda que a uma grande distância de para descrever a descida de eargas ou botes.
Jerusalém, a capital do judaísmo (ver com. Em Atos 27:17, a palavra é usada no sentido
de Lc 2:42, 44). A região estava um pouco de “arriaram os aparelhos” e no v. 30, para
afastada do preconceito e da animosidade “arriar o bote". A palavra também é usada
do judaísmo e, em muitos aspectos, foi o para se referir a Paulo, quando “desceu” da
ambiente ideal para Cristo realizar Sua obra. muralha de Damasco num cesto (At 9:25;
2. Barcos. Ou, “botes”. Um dos bar­ 2Co 11:33).
cos mencionados neste versículo pertencia 5. Mestre. Do gr. epistatês, literal mente,
a Pedro e André; o outro, a Tiago e João. "aquele que está acima [de outro]”; portanto,
Os pescadores. Literal mente, “gente do “um supervisor” ou "superintendente”. Lucas
mar”. Os quatro pescadores logo se torna­ é o único escritor sinótico que usa esta pala­
riam pescadores de homens. Gom Zehedeu vra para Jesus. A palavra mais comum, usada
e dois ou mais “empregados” (ver Mc 1:20), por Lucas e os outros evangelhos é didaska-
tinham acabado de retornar da pescaria los, literal mente, “professor” (ver com. de
noturna. Jo 1:32). Pedro era, na realidade, o epistatês
Lavavam as redes. Isto é, antes de ou “superintendente” da empresa pesqueira
pendurá-las para seear. A expressão “lan­ conduzida pelos dois pares de irmãos c seus
çavam as redes" (ver Mt 4:18; Mc 1:16) empregados (ver com. de Mc 3:16).
significa apenas que os homens estavam Trabalhado toda a noite. Durante o
pescando, e pode ser considerada como des­ dia, os peixes viam as redes espalhadas pelas
crevendo qualquer estágio de seu ofício. claras águas do lago da Galileia. O único
Cuidar das redes era tão importante momento favorável para a pesca era à noite.
como utilizá-las para pegar os peixes. Nada apanhamos. Nas águas do lago
Outras pessoas do grupo estavam “con­ da Galileia, os peixes eram abundantes c a
sertando” as redes (ver Mt 4:21; Mc 1:19), pesca era a ocupação comum daquela região.
811
5:6 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTTSTA

Deve ter sido uma experiência bastante inco- muito tempo antes: “Todas estas coisas me
mum voltar sem pescar nada. Poderíamos sobrevêm”! (Gn 42:36). No entanto, a expe­
supor que o mesmo poder que poucos minu­ riência desencorajadora da noite estava pres­
tos mais tarde forneceu abundância de pei­ tes a ser seguida de outra que confirmaria
xes tornou infrutíferos os diligentes esforços a Pedro, o pescador, a evidência conclusiva
da noite? Os esforços feitos por nossas pró­ da divindade de Cristo. De modo similar, no
prias forças algumas vezes se mostram com­ ministério de Jesus, as experiências desen-
pletamente infrutíferos, porque os resultados corajadoras da Judeia e de Nazaré estavam
desejados podem ser assegurados apenas por prestes a dar lugar aos gloriosos sucessos da
meio da cooperação com um poder mais alto. Galileia. Logo as multidões pressionariam
No entanto, às vezes, como parece ter sido o Jesus de modo que Ele necessitaria, às vezes,
caso neste versículo, Deus interfere em nos­ esconder-Se a fim de Se alimentar e dormir.
sos planos e esforços a fim de tornar mais 6. Isto fazendo. Isto é, Pedro e André.
evidente e significativa a necessidade de Tiago e João aparentemente continuaram
cooperar com Ele. a consertar suas redes na margem do lago
Mas. A pescaria foi a atividade de Pedro, (ver v. 7).
► talvez, desde a infância. Ele havia sido bem- Grande quantidade. Horas antes, não
737

sucedido até ali, porque um grupo se asso­ haviam conseguido pescar nada; porém,
ciou a ele nos negócios. Como pescador naquele momento em que cooperavam com
experiente, Pedro pensava que seu conheci­ Jesus, o sucesso excedeu as expectativas. Do
mento sobre pesca era superior ao de Cristo, mesmo modo como Cristo, enquanto vivendo
que era carpinteiro. No entanto, por amor ao como um homem entre homens, nada fez de
Mestre e numa confiança baseada no que Si mesmo (ver Jo 5:19, 30; 8:28), assim tam­
tinha visto Jesus fazer, Pedro e seus compa­ bém aqueles que O seguiram se tornariam
nheiros atenderam ao pedido de Cristo. De pescadores de homens e deveriam aprender
qualquer modo, nada poderia ser-lhes pior que, sem Ele, nada poderiam fazer (jo 15:5).
que a noite anterior. Apenas quando o poder divino combina-se
Lembrando os esforços infrutíferos da com o esforço humano, principalmente na
noite anterior, Pedro e seus companheiros obra de pescar homens, os resultados podem
pescadores estavam desencorajados. Durante ser eficientes e permanentes. Uma grande
as longas vigílias da noite, ele, bem como seus quantidade de peixe foi pescada em circuns­
companheiros, refletiram no destino de João tâncias semelhantes, aproximadamente um
Batista, que definhava na prisão havia seis ano e meio depois (ver Jo 21:11).
meses (ver com. de Lc 3:20). Possivelmente, Rompiam-se. Pedro e André estavam
eles também notavam que Cristo não conse­ em risco de perder sua grande pescaria.
guira ganhar a confiança e o apoio dos líderes O fato de a rede começar a romper indica
judeus durante o último ano, quando a maio­ que essa pescaria era incomum em qual­
ria de Seus esforços concentrou-se na Judeia. quer período, principalmente de dia. Aqui
Talvez eles também se lembrassem da expe­ estava uma evidência do poder divino que
riência então recente em Nazaré, em que não seria questionada, evidência que impres­
os próprios concidadãos de Cristo tentaram sionou outros pescadores ao longo da praia.
matá-Lo. Exaustos com o trabalho infrutí­ 7. Fizeram sinais. Possivelmente,
fero, o coração deles os torturava e, tentados Pedro e André estariam muito longe para
pela descrença, Pedro e seus companhei­ serem ouvidos, ainda que não estivessem fora
ros, estavam prontos a exclamar, como Jacó da vista.
812
LUCAS 5:10

Companheiros. Do gr. metochoi, lite­ Apenas aqueles que têm fome e sede de
ralmente, “[aquele que] compartilha”. A refe­ justiça serão fartos (ver com. de Mt 5:3, 6).
rência é a Tiago e João (ver v. 10). A palavra Despertou-se em Pedro, talvez pela pri­
metochoi também é traduzida como “parti­ meira vez, um profundo senso de sua
cipantes” (Hb 3:1, 14; 12:8), em referência à necessidade espiritual.
nossa parceria com Cristo. 9. Admiração se apoderou dele. Lite­
8. Vendo isto, Simão Pedro. Como ralmente, “a admiração o envolveu” ou “a per­
pescador experiente e, possivelmente, tendo plexidade o envolveu”. A alegria da grandeza
passado a maior parte de sua vida na ocupa­ da pesca desvanecia à medida que Pedro e
ção naquelas águas, Pedro rapidamente con­ seus companheiros viam, mais claramente,
cluiu que havia ocorrido um milagre. Pedro a evidência material do poder divino, a invi­
pensava que conhecia os peixes da Galileia, sível verdade da qual o milagre dava um tes­
mas até os peixes de seu lago estavam sujei­ temunho silencioso.
tos a Jesus. Por fim, ele também estava 10. Bem como de Tiago. Os três com­
pronto a obedecer à convocação do Mestre panheiros de Pedro são mencionados nomi­
pescador de homens (ver com. dos v. 6, 9). nalmente. Já havia sido feita uma referência a
Prostrou-se. Isto é, enquanto os bar­ eles no v. 9 como “todos os que estavam com
cos ainda estavam no lago e os outros esta­ Ele”. Lucas, desta forma, enfatiza o fato de
vam segurando o conteúdo das redes. Cristo que os quatro homens responderam de modo
ainda estava no barco de Simão (ver v. 3). semelhante ao milagre e valorizaram seu sig­
Senhor. Do gr. kurios, um título que nificado. O fato de que tanto neste versículo
Lucas aplica a Jesus em seu evangelho (ver como em outros Tiago seja mencionado antes
com. de Lc 2:29). de seu irmão sugere que ele era o primogê­
Retira-Te de mim. Sobre a consciên­ nito (ver DTN, 292).
cia de Pedro pesou fortemente o reconheci­ Zebedeu. Ver com. de Mt 4:21.
mento de sua indignidade em estar associado Sócios. Do gr. koinõnoi, “associados” ou
a Jesus. No entanto, Ele se agarrou a Cristo, “companheiros”. A palavra koinõnoi denota
testemunhando que suas palavras refletiam uma associação mais estreita que a palavra
um senso de profunda indignidade em vez metochoi (ver com. do v. 7).
de real desejo de estar separado de Jesus (ver A Simão. Ver Mt 4:18-22; ver com. de
DTN, 246). Mc 1:16. Embora Jesus Se dirigisse prin­
Sou pecador. Na presença de um cipalmente a Simão, que foi o primeiro a
policial, um ladrão naturalmente se sente compreender o significado do milagre e res­
desconfortável, mesmo que o policial não ponder a ele, os outros souberam que eles
conheça seus atos criminosos. Quanto também estavam incluídos (ver Lc 5:11).
mais, então, um pecador sentiria vergonha Pescador. Do gr. zõgreõ, derivado
e indignidade na presença de um Salvador da palavra zõos, “vivo” ou "vivente” e de
perfeito! Esse senso de indignidade é a pri­ agreuõ, “pegar”; portanto, “pegar vivo" ou
meira reação no coração humano quando “capturar”. O Mestre pescador, naquele
Deus, por meio de Seu Espírito, começa momento, estava “pegando’’ a Pedro,
Sua obra de transformar a vida e o cará­ André, Tiago e João. O milagre foi como
ter. Assim foi com Isaías quando, em uma rede. Seu propósito ao "pescar” qua­
visão, foi levado diante da presença divina tro homens “vivos” era que eles, por sua
(Is 6:5). Deus nada pode fazer pela pes­ vez, “pescariam” outras pessoas “vivas”.
soa que não sente necessidade de salvação. A ilustração não é inteiramente nova,
813
5:11 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

pois muito tempo antes desse episódio o iniciaram uma vida mais rica c abundante

739
profeta Jeremias usou linguagem seme­ (ver Mt 10:39). Tomaram a cruz do serviço
lhante (ver Jr 16:16). Pedro, André, Tiago e e seguiram os passos de Jesus (ver com. de
|oão foram, nesse momento, pegos na rede Mc 3:14).
do evangelho; não havia escapatória; na Como Paulo, poucos anos depois, eles
verdade, não havia o desejo de escapar (ver estavam prontos a considerar como perda
com. de Lc 5:8, 9). todas as posses terrenas, porque conside­
Que contraste! Durante toda a vida eles ravam “a excelência do conhecimento de
pescaram peixes, que morriam em resultado Cristo Jesus” de valor infinitamente maior.
da captura; a partir de então, deveriam alcan­ As coisas que antes pareciam valiosas já não
çar homens, para que tivessem “vida [...] em tinham valor. A partir de então, seu destino
abundância” (Jo 10:10; cf. Lc 19:10). era aprender de Jesus, associar-se com Ele
11. Deixando tudo. Os quatro compa­ em Seus sofrimentos e compartilhar com
nheiros estavam em posse da maior pesca que todas as pessoas o conhecimento do poder
já haviam levado para a praia. No momento de Sua ressurreição (ver Fp 3:8-10). Tendo
de maior sucesso material, abandonaram seu encontrado a Pérola de grande preço, des­
empreendimento (ver DTN, 273). Mesmo cartaram todas as posses e os interesses ter­
em vista do alto significado do milagre, essa renos e investiram todo seu capital físico e
atitude deve ter exigido uma medida real de intelectual na causa do reino de Deus (ver
fé para deixar a ocupação que escolheram e Mt 13:45, 46).
seguir um meio de subsistência incerto como Deixando tudo, O seguiram. Até
seguidores de um professor itinerante que, então, pelo menos três dos quatro (Pedro,
até então, tivera pouco sucesso (DTN, 245). André e João) tinham acompanhado a Jesus.
No entanto, na provisão da abundância de O chamado que receberam no Jordão dois
peixes, Jesus evidenciou Seu poder para outonos antes foi para reconhecer a Jesus
suprir as necessidades de Seus seguidores como o Messias, o Cordeiro de Deus, que
e, em fé humilde, eles creram. viera para tirar o pecado do mundo (ver com.
Da parte dos discípulos não houve a de jo 1:35-50). Então, foram chamados a unir
menor hesitação. A decisão para dissolver sua vida e destino com os dEle, não ape­
a parceria bem-sucedida como pescadores, nas como crentes, mas como aprendizes e
em prol de uma parceria maior com Jesus obreiros. Antes disso, nenhum deles havia
como pescadores de homens, foi feita ins­ se unido a Jesus plena e permanentemente
tantânea e inteligentemente. Eles não pre­ (DTN, 246). Eram discípulos em período
cisaram de tempo para pensar que as coisas parcial, os interesses estavam divididos
acabaram, não precisaram de tempo para entre esta vida e a celestial. Dali em diante,
suprir as necessidades de suas famílias o tempo e os talentos deles seriam dedicados
(cf. Mt 8:19-22). Eles se lançaram ao lago em tempo integral à obra de Cristo. Os qua­
como pescadores comuns; quando retorna­ tro homens seguiram a Jesus não porque fos­
ram à praia, lançaram-se pela fé no “mar” para sem muito preguiçosos para sobreviver com o
o qual Cristo então os chamava, para pescar trabalho de suas mãos ou porque o trabalho
homens. Durante toda a noite, eles procura­ físico não havia sido bem-sucedido, mas por
ram em vão encontrar o que se propuseram causa de suas profundas convicções. Como
para sustentar sua vida; então, por amor a os outros a quem Cristo chamou, eles esta­
Cristo, estavam dispostos a perder tudo o vam profissionalmente ativos, até serem con­
que a vida tinha a oferecer e, agindo assim, vocados a abandonar tudo e segui-Lo.

814
LUCAS 5:17

Nenhum dos quatro homens teria sido 17. Num daqueles dias. [A cura de
considerado pelas pessoas cultas da nação um paralítico em Cafarnaum, Le 5:17-26 =
como possuindo qualif icações suficientes Mt 9:1-8 = Mc 2:1-12. Comentário principal:
para se tornar professor. Eram humildes e Mc]. Literal mente, “num dos dias”.
iletrados, mas esses mesmos traços foram Fariseus. A primeira menção desta fac­
os pré-requisitos ao discipulado. O fato ção religiosa no evangelho de Lucas (ver
de não serem educados nos falsos ensinos p. 39, 40).
dos rabinos facilitou o aprendizado das Mestres. Literalmente, “professores”
lições necessárias para torná-los obrei­ (ver p. 39, 40; ver com. de Mc 1:22). A pa­
ros qualificados na edificação do reino lavra portuguesa para “doutores” significa
celestial (ver com. de Me 3:15). Embora, originalmente “professor”; na verdade, como
às vezes, fossem lentos para aprender a palavra “doutrina” ou “ensino”, origina-se
as lições que Jesus procurava lhes ensi­ da palavra latina doctor, “professor”. A apli­
nar, eram sinceramente dedicados a Ele. cação do termo “doutor” a um médico é
O amor divino pouco a pouco transformou um uso atual da palavra. Nos evangelhos,
seu coração e a mente, na medida em que os “doutores da lei” normalmente são cha­
eles se rendiam a Cristo. Quando saíram mados de "escribas" (ver p. 39, 40). Esses
do período de treinamento, não eram mais homens se preocupavam principalmente
incultos e iletrados; eram homens pers­ com a exposição das leis escritas e orais da
picazes e de bom-senso. Eram tão pare­ nação e com a aplicação dessas leis à vida. «g
cidos com Jesus, que as outras pessoas Muitos deles eram fariseus, porque se inte­
percebiam que haviam estado com Ele ressavam especialmente nos detalhes da lei.
(ver At 4:13). Todas as aldeias. Segundo Josefo,
A utilidade na causa de Deus não havia aproximadamente 200 cidades e
depende tanto de intelecto brilhante corno aldeias na Galileia. Lucas usa de hipérbole
da devoção a Cristo e da tarefa que se tem e pode se referir, cm especial, às aldeias
em mãos. Com certeza, a influência de visitadas por Cristo na recente viagem
uma pessoa com grandes talentos e inteli­ pela Galileia. Sem dúvidas, onde quer que
gência superior normalmente será sentida Jesus fosse, os professores da lei procura­
num círculo mais amplo, se esses talentos vam se opôr e impedir Sua exposição da
forem consagrados a Deus (ver PJ, 333). lei, e parece terem reunido em Cafarnaum
E ainda, Deus pode prescindir mais facil­ para se aconselhar com os líderes da Judeia
mente dessas capacidades do que de um e de Jerusalém quanto ao plano de ação que
coração amoroso, uma mente ensinável e deveriam seguir com relação ao sentimento
mãos dispostas. O mais importante no ser­ popular a favor de Cristo. Tinham a finali­
viço a Deus é que o eu seja posto de lado dade de criticar e acusar a Cristo (ver com.
para dar lugar à obra do Espírito Santo no de Mc 2:6).
coração (ver DTN, 250). Jerusalém. O fato de Lucas mencionar
12. Numa das cidades. [A cura de um Jerusalém especificamente, além da Judeia, é
leproso, Lc 5:12-16 = Ml 8:1-4 = Mc 1:40-45. evidência de que estava familiarizado com a
Comentário principal: Mc]. prática judaica de considerar Jerusalém como
Coberto de lepra. Lucas, médico, é um distrito separado da Judeia (ver também
o único evangelista a notar o estágio avan­ At 1:8; 10:39). A cidade estava numa área
çado da doença. Essa condição tornou a metropolitana, fora da jurisdição política da
cura ainda mais notável. judeia (ver com. de Le 4:44).
815
5:26 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

O poder do Senhor. Isto é, cio Espírito Publicanos e pecadores. No grego,


Santo (ver DTN, 143, 268). um artigo definido no singular define as
Estava com Ele para curar. A men­ duas palavras, colocando, assim, os dois
ção particular da presença do Espírito Santo grupos numa única categoria. Do ponto de
nesta ocasião não indica que Cristo possuía vista dos fariseus, não havia diferença entre
poder de cura intermitente. Lucas chama a eles. Um “publicano” automaticamente era
atenção para o fato, em antecipação ao mila­ um “pecador”, em virtude de ser um coletor
gre relatado em seguida. de impostos (ver com. de Lc 3:12).
26. Prodígios. Do gr. paradoxa, do 33. Frequentemente jejuam. [Do
radical para, significando neste versículo jejum, Lc 5:33-39 = Mt 9:14-17 = Mc 2:18-22.
“contrário a”, e doxa, "opinião [popular]”, Comentário principal: Mc].
significando, consequentemente, “inespe­ 36. Ninguém põe (KJV). Evidências
rado” ou “inacreditável”. A palavra “para­ textuais (cf. p. 136) favorecem o acréscimo
doxo” é originada dessa palavra grega e tem do verbo “rasgar” ou “tirar”, para modificar a
um sentido semelhante. Dos três escrito­ leitura: “Ninguém tira um pedaço de veste
res sinóticos, apenas Lucas menciona os nova e [o] põe em veste velha” (ARA).
três aspectos da reação do povo ao mila­ Rasgará a nova. A evidência textual
gre: admiração, temor e gratidão a Deus comprova (cf. p. 136) a leitura “pois ras­
(ver p. 204, 205). gará a nova” (ARA). A nova veste é rasgada
27. Passadas estas coisas. [A vocação (devido ao material de remendo ter sido reti­
de Levi, Lc 5:27, 28 = Mt 9:9 = Mc 2:13, 14. rado dela), e a velha não é melhorada subs­
Comentário principal: Mc]. tancialmente (por um remendo de material
Viu. Do gr. theaomai, “contemplar”, “ver diferente ter sido costurado nela).
com atenção”. Cristo observava Mateus aten­ Não se ajustará. Ou, “não combinará”.
tamente, como se lesse seu caráter. Apenas Lucas nota esse fato adicional, isto
28. Deixando tudo. Apenas Lucas é, que o remendo é de material diferente da
registra esse detalhe da narrativa. Mateus veste antiga, e que, dessa forma, a aparên­
não retornou, na verdade, nem poderia cia fica prejudicada.
retornar a seu trabalho em regime parcial, 39. Ninguém. Apenas Lucas registra
como Pedro, André e João fizeram durante o este comentário adicional de Cristo.
primeiro ano e meio depois de encontrarem O velho é excelente. As evidências tex­
a Cristo no Jordão (ver com. de Jo 1:35-45). tuais se divididem (cf. p. 136) entre esta e
29. Um grande banquete. [Jesus come a tradução “o velho é bom”, isto é, o velho
com pecadores, Lc 5:29-32 = Mt 9:10-13 = é suave ou agradável. Quem está acostu­
Mc 2:15-17. Comentário principal: Mc]. mado ao vinho velho o considera mais suave,
Literalmente, “uma grande recepção”. Lucas quando comparado ao novo e, assim, mais
utiliza a mesma palavra grega novamente em agradável. Cristo diz que uma pessoa acos­
14:13, e estas são as duas únicas ocorrências tumada ao vinho velho acha que ele é agra­
do termo no NT. dável ao paladar; isto lhe convém e é o
30. Murmuravam. Do gr. gogguzõ, uma bastante. Ela não mudará seus hábitos anti­
palavra que imita o arrulho de pombas, que gos. Esta parábola ilustra o profundo precon­
parecem discutir entre si. ceito dos fariseus.

816
LUCAS

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1-3 - DTN, 244 15-CS, 527 27, 28 - PJ, 393;


1-11 - DTN, 244-251 15, 16-DTN, 362 CBV, 479
4-Ev, 60, 371; FEC, 121; 17 - DTN, 267; CBV, 75 27-39 - DTN, 272-280
CBV, 200; T7, 61 17- 20 - DTN, 268 28 - DTN, 273
4, 5 - DTN, 245 18- 20-CBV, 73-75 29 - DTN, 274
6-11-DTN, 246 20 - DTN, 270; T7, 96 31-PJ, 158; FEC, 275;
8 - MDC, 7 21 - TM, 71; T8, 202 34 - DTN, 277
12-DTN, 266 26 - DTN, 270; CBV, 79; 36, 37 - DTN, 278
12-28-DTN, 262-271 T6, 437 39 - DTN, 279

Capítulo 6
1 Cristo reprova a cegueira dos fariseus acerca do sábado, por meio da Escritura,
da razão e do milagre. 13 Ele escolhe os doze; 17 cura os enfermos; e 20 prega
diante do povo, sobre as bênçãos e maldições. 27 O amor aos
inimigos e 46 a obediência e atenção à Palavra.

1 Aconteceu que, num sábado, passando 9 Então, disse Jesus a eles: Que vos parece?
Jesus pelas searas, os Seus discípulos colhiam E lícito, no sábado, fazer o bem ou o mal? Salvar
e comiam espigas, debulhando-as com as mãos. a vida ou deixá-la perecer?
2 E alguns dos fariseus lhes disseram: Por 10 E, fitando todos ao redor, disse ao homem:
que fazeis o que não é lícito aos sábados? Estende a mão. Ele assim o fez, e a mão lhe foi
3 Respondeu-lhes Jesus: Nem ao menos ten­ restaurada.
des lido o que fez Davi, quando teve fome, ele c 11 Mas eles se encheram de furor e discutiam
seus companheiros? entre si quanto ao que fariam a Jesus.
4 Como entrou na casa de Deus, tomou, e 12 Naqueles dias, retirou-Se para o monte,
comeu os pães da proposição, e os deu aos que a fim de orar, e passou a noite orando a Deus.
com ele estavam, pães que não lhes era lícito 13 E, quando amanheceu, chamou a Si os
comer, mas exclusivamente aos sacerdotes? Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos
5 E acrescentou-lhes: O Filho do Homem é quais deu também o nome de apóstolos:
Senhor do sábado. 14 Simão, a quem acrescentou o nome de
6 Sucedeu que, em outro sábado, entrou Ele Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe
na sinagoga e ensinava. Ora, achava-se ali um e Bartolomeu;
homem cuja mão direita estava ressequida. 15 Mateus c Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e
7 Os escribas e os fariseus observavam-No, Simão, chamado Zelote;
procurando ver se Ele faria uma cura no sábado, 16 Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes,
a fim de acharem de que O acusar. que se tornou traidor.
8 Mas Ele, conhecendo-lhes os pensamentos, 17 E, descendo com eles, parou numa planu­
disse ao homem da mão ressequida: Levanta-te ra onde se encontravam muitos discípulos Seus
e vem para o meio; e ele, levantando-se, perma­ e grande multidão do povo, de toda a Judeia, de
neceu de pé. Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sidom,

817
6:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

18 que vieram para O ouvirem e serem cura- 34 E, se emprestais àqueles de quem esperais
dos de suas enfermidades; também os atormenta­ receber, qual é a vossa recompensa? Também os
dos por espíritos imundos eram curados. pecadores emprestam aos pecadores, para rece­
19 E todos da multidão procuravam tocá-Lo, berem outro tanto.
porque dEle saía poder; e curava todos. 35 Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o
20 Então, olhando Ele para os Seus discípu­ bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga;
los, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, será grande o vosso galardão, e sereis filhos do
porque vosso é o reino de Deus. Altíssimo. Pois Ele é benigno até para com os
21 Bem-aventurados vós, os que agora ten­ ingratos e maus.
des fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados 36 Sede misericordiosos, como também é mi­
vós, os que agora chorais, porque haveis de rir. sericordioso vosso Pai.
22 Bem-aventurados sois quando os ho­ 37 Não julgueis e não sereis julgados; não
mens vos odiarem e quando vos expulsarem da condeneis e não sereis condenados; perdoai e
sua companhia, vos injuriarem e rejeitarem o sereis perdoados;
vosso nome como indigno, por causa do Eilho 38 dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalca­
do Homem. da, sacudida, transbordante, generosamente vos
23 Regozijai-vos naquele dia e exultai, por­ darão; porque com a medida com que tiverdes
que grande é o vosso galardão no céu; pois dessa medido vos medirão também.
forma procederam seus pais com os profetas. 39 Propôs-lhes também uma parábola: Pode,
24 Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a porventura, um cego guiar a outro cego? Não cai­
vossa consolação. rão ambos no barranco?
25 Ai de vós, os que estais agora fartos! 40 O discípulo não está acima do seu mes­
Porque vireis a ter fome. Ai de vós, os que agora tre; todo aquele, porém, que for bem instruído
rides! Porque haveis de lamentar c chorar. será como o seu mestre.
26 Ai de vós, quando todos vos louvarem! 41 Por que vês tu o argueiro no olho de teu
Porque assim procederam seus pais com os fal­ irmão, porém não reparas na trave que está no
sos profetas. teu próprio?
27 Digo-vos, porém, a vós outros que me 42 Como poderás dizer a teu irmão: Deixa,
ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos irmão, que eu tire o argueiro do teu olho, não vendo
que vos odeiam; tu mesmo a trave que está no teu? I Tipócrita, tira pri­
28 bendizei aos que vos maldizem, orai pelos meiro a trave do teu olho e, então, verás claramente
que vos caluniam. para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão.
29 Ao que te bate numa face, oferece-lhe tam­ 43 Não há árvore boa que de mau fruto; nem
bém a outra; e, ao que tirar a tua capa, deixa-o tampouco árvore má que dê bom fruto.
levar também a túnica; 44 Porquanto cada árvore é conhecida pelo
30 dá a todo o que te pede; e, se alguém levar seu próprio fruto. Porque não se colhem figos de
o que é teu, não entres em demanda. espinheiros, nem dos abrolhos se vindimam uvas.
31 Como quereis que os homens vos façam, 45 O homem bom do bom tesouro do coração
assim fazei-o vós também a eles. tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal;
32 Se amais os que vos amam, qual é a vossa porque a boca fala do que está cheio o coração.
recompensa? Porque até os pecadores amam aos 46 Por que Me chamais Senhor, Senhor,
que os amam. e não fazeis o que vos mando?
33 Se fizerdes o bem aos que vos fazem o 47 Todo aquele que vem a Mim, e ouve as
bem, qual é a vossa recompensa? Até os peca­ Minhas palavras, e as pratica, Eu vos mostrarei
dores fazem isso. a quem é semelhante.

818
LUCAS 6:7

48 É semelhante a um homem que, edifican­ 49 Mas o que ouve e não pratica é semelhan­
do uma casa, cavou, abriu profunda vala e lan­ te a um homem que edificou uma casa sobre a
çou o alicerce sobre a rocha; e, vindo a enchente, terra sem alicerces, e, arrojando-se o rio contra
arrojou-se o rio contra aquela casa e não a pôde ela, logo desabou; e aconteceu que foi grande a
abalar, por ter sido bem construída. ruína daquela casa. ■*£

1. Num sábado. [Jesus é Senhor do Mc 3:1-6. Comentário principal: Mc e Lc.


sábado, Lc 6:1-5 = Mt 12:1-8 = Mc 2:23-28. Ver mapa, p. 215; sobre os milagres, ver
Comentário principal: Mc]. Do gr. sabbaton p. 204-210], As Escrituras não fornecem indí­
deuteroprõton, literalmente, “o segundo pri­ cios a respeito da configuração cronológica
meiro sábado”. O significado preciso desta do episódio dos v. 6 a 11. Pode-se concluir,
expressão é incerto. A evidência textual a partir de Mateus 12:9 isoladamente, que a
(cf. p. 136) favorece a tradução “um sábado”. cura da mão ressequida ocorreu no mesmo
Alguns tradutores pensam que a relevân­ sábado do episódio na seara, mas Lucas
cia da evidência favorece a tradução mais deixa claro que ocorreu “em outro sábado”.
curta, enquanto outros mantêm a tradução Além disso, Jesus e Seus discípulos estavam
mais longa. Deuteroprõtos não ocorre mais a caminho de casa, voltando da sinagoga,
na Bíblia, nem na literatura grega antiga. enquanto passavam pela seara (DTN, 284),
Alguns conjecturaram que pode significar ao passo que estão na sinagoga nesta oca­
o segundo sábado depois da Páscoa; outros, sião (ver Mt 12:9). Parece que todos os três
que foi o primeiro sábado de um segundo escritores sinóticos agruparam determinados
ano numa série de anos sabáticos; outros, episódios de conflito entre Jesus e os líderes
que foi o segundo sábado numa série de judeus em ordem temática, não cronológica,
sábados no calendário ritual; outros, que para enfatizar a crescente oposição dos
apenas distingue o sábado mencionado escribas e fariseus para com Jesus e Sua obra
neste versículo dos sábados anteriores de (ver p. 178-180, 276).
Lucas 4:16 e 31. Nenhuma dessas sugestões Ensinava. Apenas Lucas registra que
parece ter evidências a seu favor. Talvez seja Jesus fez o que chamamos de sermão (ver
melhor admitir que não se sabe qual ideia com. do v. 4:16, 17, 20, 21).
esta palavra transmite. Mão direita. Apenas Lucas, com a visão
5. E acrescentou-lhes. O Códice dc profissional de um médico, observa esse
Beza coloca o v. 5 imediatamente depois do detalhe. Não se sabe se era apenas a mão
10 e substitui uma inserção curiosa e incom­ ou se a mão e o braço estavam atrofiados ou
patível neste versículo: “No mesmo dia, con­ paralisados. A palavra grega traduzida neste
templando o trabalho de alguém no sábado, versículo como “mão” pode também incluir
disse-lhe: ‘Homem, se você sabe o que está o braço, e assim é utilizada pelos escritores
fazendo, você é feliz, mas, se você não sabe, gregos. Esse foi o quinto encontro de Cristo
você é maldito e um transgressor da lei!"’ com os escribas e fariseus registrado desde
Essa evidente interpolação, embora interes­ o início de Seu ministério na Galileia (ver
sante, não tem valor na exegese bíblica. Ela com. de Mc 2:24).
foi feita na tentativa de fornecer apoio cscri- 7. Os escribas e os fariseus. Ver p. 39,
turístico para a guarda do domingo. 40, 43. E possível que houvesse escribas e
6. Em outro sábado. [O homem da fariseus em qualquer sinagoga grande e
mão ressequida, Lc 6:6-11 = Mt 12:9-14 = em qualquer sábado; é possível que alguns
819
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

dos presentes, pelo menos, frequentassem a Vem para o meio. O homem deveria
sinagoga como espias, com o propósito especí­ se levantar e mudar de posição, para que
fico de observar a Jesus e informar o que Ele todos na sinagoga o vissem facilmente.
fazia e dizia (ver com. de Mc 2:6). É bem provável que estivesse assentado na
Observavam-No. De acordo com o última fileira, num canto, ou talvez atrás de
grego, “continuaram observando”. Os homens uma coluna. Por outro lado, Jesus possivel­
que observavam tão atentamente a Jesus esta­ mente estaria na frente da sinagoga e con­
vam presentes para esse propósito específico. vidou o homem a se aproximar de onde Ele
Na verdade, os espiões continuaram a seguir Se encontrava. Em flagrante contraste com
os passos de Jesus por todo o restante de Seu a sinceridade, franqueza e abertura de Jesus
ministério na Calileia. estavam as astutas e deselegantes tentativas
Cura no sábado. Comparar com a ocultas dos escribas e fariseus para espioná-
cura do endemoniado na sinagoga em Lo e para preparar armadilhas contra Ele.
Cafarnaum (ver Mc 1:21-28), a cura do para­ 9. Que vos parece? De acordo com
lítico no tanque de Betesda (ver Jo 5:1-16), o relato de Mateus, parece que os fariseus
o cego no tanque de Siloé (ver Jo 9:1-7), a já tinham levantado a questão da cura no
mulher enferma por 18 anos (ver Lc 13:10-17) sábado (ver Mt 12:10).
e o homem hidrópico (ver Lc 14:1-6). Além É lícito [...]? Ver com. de Mc 2:24.
desses milagres públicos no sábado, Cristo Novamente, as leis rabínicas se mostraram
também curou a sogra de Pedro na casa dela em conflito com as necessidades humanas.
(ver Mc 1:29-31). Juntamente com a cura Aqueles que, hoje, afirmam que Jesus não
do homem da mão ressequida, esses sete considerou a lei de Deus, em outras palavras,
milagres de cura foram realizados no dia que por preceito e exemplo Ele Se afastou
► de sábado. Assim, dos aproximadamente 20 das reivindicações do quarto mandamento,
744

casos específicos de cura mencionados nos unem-se aos escribas e fariseus e comparti­
evangelhos, um terço ocorreu no sábado (ver lham do espírito deles. No final de Sua vida
p. 207-209; ver com. de Jo 5:16). terrestre, Jesus afirmou que guardara todos
Acharem. Os escribas e fariseus estavam os mandamentos de Seu Pai (ver Jo 15:10).
empenhados em descobrir como interromper Fazer o bem ou o mal? Neste caso,
o ministério de Cristo; estavam determina­ no sentido de trazer benefício ou dano. De
dos a encontrar algo para acusá-Lo. acordo com o relato de Mateus, os escribas e
8. Conhecendo-lhes os pensamentos. fariseus dirigiram a questão primeiramente a
Ver com. de Mc 2:8. Com os espias O per­ Jesus, para saber se era lícito curar no sábado
seguindo, Jesus não teria dificuldade para (Mt 12:10). Os regulamentos rabínicos dis­
determinar a direção dos pensamentos deles tinguiam cuidadosamente os casos de enfer­
com respeito a qualquer coisa que fizesse. midades crônicas e os casos que envolviam
A presença deles os entregou; e, como se perigo de morte. Para ser mais preciso, cer­
não bastasse, a expressão facial deles dizia tas doenças eram indicadas como mais gra­
o mesmo. Isso não equivale a dizer, como ves, e os que padeciam com elas poderiam
fazem alguns críticos, que Jesus não tinha receber auxílio de acordo com a necessidade.
poderes sobrenaturais para ler o pensamento No sábado eram feitos poucos preparativos
das pessoas. Houve vários casos em que Ele para aliviar a dor que não envolviam doença
demonstrou compreensão sobrenatural dos grave, ou para auxiliar os que sofriam havia
processos de pensamento de várias pessoas muito tempo, como a pessoa que Jesus estava
(ver Jo 8:6-9; 13:21-30; DTN, 461, 655). prestes a curar. E possível que, em geral, a lei

820
LUCAS 6:1 1

fosse interpretada liberalmente, e que as pes­ um animal o que não estavam dispostos a
soas que sofriam com muitas outras doenças fazer por um ser humano (ver Mt 12:11, 12).
recebiam cuidados no sábado (sobre os prin­ Alguns deles deixariam uma pessoa sofrer,
cípios rabínicos para cuidados aos doentes no mas salvariam um animal do sofrimento,
sábado, ver Mishnah, Shabbath, 14.4; 22.6, para que não resultasse em perda financeira
ed. Soncino, Talmude, p. 539, 540, 747). ao proprietário. Somente um falso conceito
Salvar a vida [...]? De acordo com de Deus poderia levar a uma regulamenta­
outra máxima judaica, recusar fazer o ção para o sábado que valorizava menos a
bem seria causar dano, negligenciar cui­ vida humana do que a dos animais.
dar da vida seria tirá-la. Mas a vida deste 10. Fitando todos ao redor. LIavendo
homem não estava em perigo, e o ato de declarado nitidamente o princípio envolvido,
curar poderia ser postergado até que se Jesus fez uma pausa para dar tempo para
passasse o sábado. No entanto, Jesus afir­ que Suas palavras surtissem efeito. Seu
mou que não era errado fazer o bem no olhar penetrante percorreu lentamente o
sábado. Do ponto de vista de Jesus, deixar público expectante, para reforçar a lição e
passar a oportunidade de trazer alívio ao dirigi-la ao coração dos amigos e inimigos.
sofredor seria fazer o mal. Os escribas e Enquanto Ele purificava o templo, Seu olhar
fariseus pensavam nas regras mesquinhas dominava a assembleia com uma sensação
que seriam violadas; Jesus dirigia a atenção de temor, acusando os presentes diante do
aos princípios fundamentais envolvidos. tribunal da justiça divina, diante dAquele
Não salvar uma vida seria tirá-la; não fazer que fez o sábado e que os julgaria no último
o que melhora a vida, seria reduzi-la (ver dia (ver DTN, 158; cf. 590). Todos os olhos
Tg 4:17). Esse princípio era uma extensão estavam fixos em Jesus e no homem pró­
do sexto mandamento, como esclarecido ximo a Ele. O princípio foi nitidamente
por Cristo no Sermão do Monte (ver com. declarado; Jesus estava prestes a quebrar
de Mt 5:21-24), e o sexto mandamento o impressivo silêncio, agindo em harmonia
não conflitava com o quarto. Jesus disse com o princípio.
que o sábado foi "estabelecido por causa Estende a mão. Jesus solicita ao homem
do homem” (Mc 2:27), e os atos de mise­ que faça o que, até aquele momento, ele não
ricórdia aos necessitados estavam inteira­ conseguia fazer, e o homem estendeu a mão.
mente de acordo com esses objetivos. Dessa forma, o homem evidenciou sua fé
► Os escribas e fariseus matavam, no no poder de Jesus; ele obedeceu à ordem
743

íntimo. A acusação deles era parte de uma dAquele que também ordenava a observân­
conspiração para tirar a vida de Jesus (ver cia do sábado, e ficou curado. A coopera­
com. de Lc 6:11; cf. At 3:15) que, "conhe- ção do esforço humano com o poder divino
cendo-lhes os pensamentos”, sabia que é sempre essencial; seja no contexto das coi­
conspiravam para destruí-Lo (ver Lc 6:8). sas físicas ou espirituais. Sem essa coopera­
Talvez Jesus tivesse esse quadro em mente ção não há cura física nem espiritual.
quando falou sobre destruir a vida, e pro­ 11. Furor. Do gr. anoia, literalmente,
curou dirigir-lhes a atenção ao fato de que "uma falta de sentido”, do prefixo negativo
a malícia os tornava verdadeiros transgres­ a, e da palavra nous, "mente”; consequente­
sores do sábado. mente, “raiva sem sentido”. Aqueles homens
Mateus acrescenta a significativa ilus­ estavam “fora de si”. Do ponto de vista dos
tração por meio da qual Cristo chamou fariseus, esta foi a quinta ofensa de Jesus
a atenção para o fato de eles fazerem por contra a lei rabínica desde o início de Seu

821
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

ministério na Galileia (ver com. de Mc 2:24). 5:3-5, 10), com exceção de uma vez em que
Seus inimigos estavam enfurecidos; a fúria o chamou de Simão Pedro (Lc 5:8). A par­
deles assemelhava-se à insanidade. O mesmo tir deste ponto, ele é chamado de Pedro (Lc
espírito que possuiu o endemoniado (ver 8:45, 51; 9:20, 28, 32, 33; 12:41; etc.).
Nota Adicional a Marcos 1) endureceu o 16. Que se tornou traidor. Nesta
coração deles. época, Judas não era um traidor de fato, ape­
Discutiam. Eles não conseguiam se con­ nas potencialmente. Quando foi escolhido,
ter e explodiam em ira enquanto discutiam não manifestou tendência à traição. Ele
o que fazer. O dilema repousava no fato de não percebeu que determinados traços de
que Jesus enunciou um princípio que eles caráter, errados e latentes, caso acalentados,
não podiam negar, e que o povo tomava par­ o levariam ao vergonhoso clímax de sua vida
tido ao lado de Jesus. De acordo com Marcos, (ver com. de Mc 3:19).
parece que eles nem mesmo esperaram o 17. Descendo. [Jesus cura muitos enfer­
término da reunião, mas saíram antes que mos, Lc 6:17-19 = Mt 4:23-25 = Mc 1:35-39.
a assembleia se dispersasse, para discutir o Comentário principal: Mc], isto é, do monte
assunto (ver com. de Lc 3:6). onde Cristo passou a noite orando antes da
Quanto ao que fariam. Mais cedo, na escolha e ordenação dos doze (ver com. de
primavera do mesmo ano, 29 d.C., o Sinédrio Mc 3:13).
determinou tirar a vida de Jesus e colocar Planura. Literalmente, "um local plano”,
espias para segui-Lo e relatar tudo o que Ele talvez nos montes para onde Jesus levou a
dissesse e fizesse (ver DTN, 213; Jo 5:18; multidão (ver DTN, 298; ver com. de Mt 5:1).
ver com. dc Mc 2:6). A decisão já tinha sido 19. Procuravam tocá-Lo. Ver com. de
tomada, e restava apenas uma questão quanto Mc 3:10.
ao modo como realizariam a obra com uma Poder. Do gr. dynamis (ver com. de
aparência de legalidade. As reações do povo Lc 1:35). O verbo auxiliar traduzido como
e dos líderes eram surpreendentemente opos­ "saía” é melhor interpretado como “estava
tas. A inveja, a maldade e o ódio dos escribas saindo”. A ênfase reside no fato de que o
e fariseus aumentavam em proporção direta poder continuava saindo dEle, irradiando
à crescente onda de popularidade da obra sempre que houvesse necessidade. “O pró­
de Cristo na Galileia. Pressentindo o perigo prio ar estava eletrizado com poder espiri­
iminente, um pouco mais tarde, Sua mãe e tual” (Robertson). Assim deveria ocorrer com
Seus irmãos insistiram para que Ele inter­ os representantes de Cristo na atualidade.
rompesse Seu ministério por causa da opo­ 20. Então. [As bem-aventuranças,
sição que despertava (ver com. de Mt 12:46). Lc 6:20-49 = Mt 5:1-8:1. Comentário prin­
12. Naqueles dias. [A escolha dos doze cipal: Mt]. Ver com. de Mt 5:2.
apóstolos. Os seus nomes, Lc 6:12-16 = Bem-aventurados. Lucas registra quatro
Mt 10:1-4 = Mc 3:13-19. Comentário prin­ das oito bem-aventuranças apresentadas por
cipal: Mc]. Isto é, não muito depois da Mateus (ver com. de Mt 5:3). Em acréscimo
experiência registrada nos v. 6 a 11. às quatro bem-aventuranças, Lucas menciona
Orar. Lucas parece ter-se impressionado quatro ais equivalentes (ver Lc 6:24-26).
com a vida de oração de Jesus, c faz refe­ Vós, os pobres. Lucas parece aplicar
rência a ela com mais frequência do que os as bem-aventuranças de modo mais lite­
ral, ou material, que Mateus (ver com. de
746

► outros evangelistas (ver com. de Mc 3:13).


14. Simão. Até este ponto do relato, Mt 5:3). Essa literalidade se torna ainda
Lucas se refere a Pedro como Simão (Lc 4:38; mais evidente à luz dos ais anexos (ver com.

822
LUCAS 6:30

de Lc 6:24). Não obstante, o relato breve etc.), embora o Salvador buscasse levar a
e literal das bem-aventuranças, feito por salvação a todas as classes sociais, tanto
Lucas, deveria ser lido à luz do sermão mais ricos como pobres. Na verdade, compara­
completo e específico, como registrado por tivamente poucas pessoas da classe rica
Mateus. O forte contraste entre pobreza, se tornaram amigas de Jesus, sendo que
fome e perseguição, “agora”, e a futura con­ Nicodemos e José de Arimateia são notá­
dição de bênção (ver v. 21, etc.) pode, num veis cxccçõcs. Jesus estava preocupado em
primeiro momento, conduzir a um viés mate­ levar as pessoas a entesourar no Céu e não
rialista das palavras de Cristo. Contudo, no na terra (ver Mt 6:33, 34; Lc 12:13-33), à<

747
contexto do sermão como um todo (ver com. fim de que o coração delas estivesse mais
dc Mt 5:2), torna-se claro que não é este o intimamente ligado a Deus. Em muitos
caso. Cristo está apenas contrastando a con­ casos, a riqueza provou ser uma insuperá­
dição daqueles que buscam o reino com a vel barreira ao Espírito (ver Mc 10:23, 25;
condição deles depois de adentrarem nele. Lc 18:24, 25).
22. Quando vos expulsarem. Consi­ Tendes. Do gr. apechõ. Como ilustrado
derado por alguns como uma referência à pelos papiros, esse termo pode indicar, num
excomunhão da sinagoga (ver Jo 9:22, 34; contexto como este, pagamento integral.
12:42; 16:2). A excomunhão poderia ser per­ Consolação. Do gr. paraklêsis, signifi­
manente, envolvendo a exclusão plena do cando aqui consolo ou satisfação que advém
judaísmo para sempre, ou temporária. Na de uma condição feliz (ver com. dc Mt 5:4).
época de Cristo, a excomunhão temporária 25. Fartos. Isto é, saciados com as boas
se estendia por um período de trinta dias, coisas da vida (cf. Lc 16:19-31).
durante o qual a pessoa “expulsa” era privada 26. Todos vos louvarem! Precisamente
de participar dos ritos religiosos e de se apro­ o oposto de “vos injuriarem” (v. 22). Aqui está
ximar de outra pessoa a uma distância de dois outro paradoxo que enfatiza a grande dife­
metros. A excomunhão indicava contamina­ rença entre o cristianismo e o mundo, entre
ção religiosa e social, ou impureza (ver: Tal- os ideais de ambos. As pessoas normalmcnte
mude de Jerusalém, Mo’ed Katan, 3.81.c.50, “falam bem” daqueles que possuem riqueza
citado em Strack e Billerbeck, Kommentar ou poder, bem eomo daqueles que estão em
zum Neuen Testament, vol. 4, p. 299). posição de retribuir a lisonja.
Rejeitarem o vosso nome. Isto é, des- Assim procederam seus pais. Com­
cartá-lo com desdém. Essa rejeição se refere parar este comportamento aos maus-tratos
à circulação de calúnias (ver IPe 4:14). que os antepassados deles deram aos profe­
Filho do Homem. Ver com. de Mc 2:10. tas do Senhor (v. 23).
24. Ai de vós. O contraste entre bên­ 27. Digo-vos, porém. Ver com. de
çãos e ais parece ter sido um artifício lite­ Mt 5:22.
rário característico dos judeus, originado, Amai os vossos inimigos. Ver com. de
possivelmente, com as bênçãos e maldições Mt 5:43, 44.
de Deuteronômio (Dt 27, 28; comparar com 28. Bendizei aos que vos maldizem.
Mt 23). Ver com. de Mt 5:43.
Ricos. O pouco valor que Jesus dava às Orai pelos que vos caluniam. Ver
coisas materiais (ver com. de Mt 5:3) alie­ com. de Mt 5:43, 44.
nava as afeições da classe social que con­ 29. Ao que te bate. Ver com. de Mt 5:39.
siderava a riqueza e o prestígio como os 30. Dá a todo o que te pede. O tempo
principais objetivos da vida (ver Mt 6:1-6; verbal dos verbos gregos traduzidos como

823
6:31 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

"dá”, "tirar” e “pede" expressam ações repeti­ Evidências textuais (cf. p. 136) favorecem
das ou habituais. O conselho "dá a todo o que a tradução “não desesperar de ninguém”,
te pede” não significa dar-lhe tudo o que ele embora também haja apoio para a tradução
pedir e também não requer que alguém dê “não desesperar de nada”. Os comentaris­
algo toda vez que lhe pedirem. Como a forma tas geralmente sugerem “nunca desespere”
verbal deixa claro, e como o conteúdo ver­ como a melhor tradução, ou “não desistir de
bal de todo o Sermão do Monte evidencia, nada por desespero”. No entanto, o contraste
Cristo quer dizer que o ato de doar deveria aqui parece exigir uma frase oposta a “espe­
se tornar um hábito. O conselho de Cristo rais receber” (v. 34), e, consequentemente,
não quer dizer que um cristão é obrigado há alguma justificativa para a tradução “sem
a doar indiscriminadamente, a despeito da esperar nenhuma paga”. Há evidências tex­
necessidade. Ele terá um espírito generoso, tuais (cf. p. 136) para a tradução "não desa­
pronto e grato a doar de acordo com a neces­ pontando a nenhum homem”. A tradução da
sidade representada pelo pedido e sua habi­ KJV está baseada na Vulgata, que interpreta:
lidade pessoal de satisfazer a necessidade “por este motivo, não espere nada”. Em conso­
(ver com. de Mt 5:42). Em geral, um cris­ nância com a Vulgata, a Igreja Católica proi­
tão responderá favoravelmente aos pedidos biu, por séculos, o empréstimo de dinheiro
de auxílio, não relutante, como fazem os a juros e, como resultado, os judeus se tor­
de coração não regenerado. Ele estará dis­ naram os grandes credores e banqueiros da
posto a cooperar com outros, em vez de se Europa (sobre os princípios bíblicos com rela­
opor a eles. ção ao empréstimo de dinheiro a juros, ver
31. Como quereis. Ver com. de Mt 7:12. com. de Êx 22:25).
32. Amais os que vos amam. Ver com. O contexto de Lucas 6:30 a 35 deixa claro
de Mt 5:43-47. que Cristo não Se refere, aqui, a juros sobre

748
Pecadores. De acordo com os judeus, empréstimos, mas ao grande princípio de que «
um “pecador” era alguém que não conhecia os cristãos deveriam ser doadores (v. 30), tra­
a lei plenamente ou conhecia e não a obe­ tar aos outros com equidade (v. 31), lazer o
decia. Todos os gentios eram, dessa forma, bem (v. 31, 35) e amar aos outros (v. 32) -
pecadores, juntamente com os que, den­ sem calcular com antecedência a probabili­
tre os judeus, cobravam impostos, se pros­ dade de obter de volta a mesma quantia ou
tituíam, etc. além dela. Os cristãos devem ajudar mesmo
33. Fizerdes o bem. Ver com. de em casos aparentemente sem esperança.
Mt 5:44-46. A palavra apelpizõ é utilizada na literatura
34. Emprestais àqueles. Mateus não grega para o desespero médico de um caso
relata o tipo de empréstimo que, neste ver­ sem esperança. O auxílio deve estar baseado
sículo, se refere a transações comerciais em na necessidade, não na expectativa de obter
que o dinheiro é emprestado com juros. retorno do investimento em boas obras.
Para receberem outro tanto. Isto O cristão nunca deve se “cansar de fazer o
é, receber o capital e, com ele, os juros bem” (cf. G1 6:9), nem deveria sentir que seu
estipulados. trabalho é “em vão” (ICo 15:58).
35. Amai, porém, os vossos inimigos. Vosso galardão. Cristo destacou que
Ver com. de Mt 5:44-46. haverá recompensas para o viver correto, não
Esperar. Do gr. a-pelpizõ, que ocorre uni­ primariamente como incentivos. Por outro
camente aqui no NT. Na literatura grega, ela lado, se corretamente compreendidas, elas
significa “desesperar" ou “ceder ao desespero”. são incentivos adequados para demonstrar

824
LUCAS 6:40

que, embora as pessoas não apreciem os ele­ indignas e desinteressadas desperta nelas
vados princípios pelos quais atuam os cida­ o desejo de escapar da prisão do pecado e,
dãos do reino celestial, Deus os conhece e finalmente, produz uma transformação no
aprecia. Ele dará fim ao reino do pecado e caráter.
recomporá as coisas deste mundo em har­ 36. Misericordiosos. Ou, “compassi­
monia com os princípios pelos quais Seus vos”. O grau de merecimento que o próximo
“filhos” suportam a injustiça no mundo pode ter ou não, de modo algum determina
atual. Nossa maior motivação não é ter uma a atitude e as ações do cristão para com
vida melhor a fim de adquirir determinadas ele. A força motriz para esse estilo de vida
recompensas, embora elas tenham seu lugar, repousa na filiação do cristão a Deus por
mas viver corretamente em reconhecimento meio de Cristo, cujo amor o “constrange” ou
de que, por si só, isso é uma vida melhor. Um controla (ver 2Co 5:14).
cristão encontra satisfação total em viver em 37. Não julgueis. Ver com. de Mt 7:1, 2.
harmonia com os grandes princípios eternos Perdoai. Ver com. de Mt 6:14, 15.
do reino celestial. 38. Regaço (ACF). Do gr. kolpos.
Filhos. A semelhança moral entre eles O peito ou a dobra feita na peça de vestuá­
e Deus demonstra que são Seus filhos por­ rio externo, ajustando-a no cinto, fazendo
que pensam, falam e vivem em harmonia uma cavidade ou bolso (ver Ex 4:6; SI 79:12;
com Seus princípios (ver com. de iMt 5:45). Pv 6:27; Jr 32:18; ver com. de SI 65:6).
Do Altíssimo. Do gr. Hupsistos. A expres­ Com a medida com que tiverdes
são “filhos do Altíssimo” de Lucas é equiva­ medido. Ver com. de Mt 7:2.
lente à expressão “filhos do vosso Pai”, em 39. Propôs-lhes também. Este ver­
Mateus 5:45. O equivalente hebraico da pala­ sículo geralmente é considerado como a
vra Hupsistos é ‘Elyon (ver com. de Gn 14:18; marca inicial da segunda seção do Sermão do
Nm 24:16). Monte, como relatado por Lucas. Das ilus­
Os ingratos. Cristo não está tão preo­ trações utilizadas neste sermão, contadas por
cupado com o fato de essas pessoas não Mateus e Lucas, dezesseis podem ser clas­
expressarem apreciação pela bondade de­ sificadas como “parábolas”, embora apenas
monstrada a elas pelos cidadãos do reino ce­ esta seja assim designada (sobre a definição
lestial, quanto está preocupado com a atitude de parábolas, ver p. 197-199).
básica dos ingratos. Apesar disso, Deus ainda Pode, porventura, um cego guiar
é bondoso com eles, e os filhos de Deus na [...]"? No grego, a forma da pergunta indica
Terra, aqueles que se assemelham ao Pai ce­ que se espera uma resposta negativa. Um
lestial no caráter, agirão do mesmo modo (ver cego não é um guia adequado para outro cego.
com. de Jo 8:44). Não cairão [...]? Neste versículo, a
Maus. No grego, o artigo definido “os” forma da pergunta no grego indica que se
não é repetido. Lê-se, literalmente, a frase espera uma resposta afirmativa. E certo que
completa: “aos indelicados e maus”. Os “inde­ resultará em algum infortúnio.
licados” e “maus” são tratados neste versículo Barranco. Preferivelmente, "poço”.
como um único grupo, e não como dois gru­ 40. O discípulo. Isto é, o aprendiz
pos separados. A bondade que Deus oferece não está acima do professor. Esta frase é
se baseia em Sua própria benevolência como semelhante ao provérbio em que a corrente
749

doador, e não em qualquer benevolência por de água não se eleva acima do nível de sua «
parte dos beneficiários. Acontece, às vezes, nascente. Os chineses têm um provérbio com
que a benevolência oferecida às pessoas mais o sentido de que “o estudante não sobressai

825
6:41 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

ao seu professor”. Nesse relacionamento con­ fala educadamente ao que tem um argueiro
textuai do v. 39, o provérbio acerca do estu­ no seu, como se oferecendo para lhe fazer
dante e seu professor equipara o “mestre” um favor. Ele pretende ser um “irmão”
com o cego que tenta liderar ou instruir a ao homem, quando na realidade, é um
outro cego, e o “discípulo”, com o liderado. “hipócrita”.
Ou seja, aqueles que posam como professo­ Hipócrita. Ver com. de Mt 7:5.
res devem ter clara visão dos assuntos sobre 44. Conhecida. Ver com. de Mt 7:16.
os quais se propõem a instruir. A menos que 45. O homem bom. Ver com. de
ajam assim, atingirão um baixo padrão. Mt 7:12, 16.
Essa “parábola” ilustra a mesma lição 46. Senhor, Senhor. Ver com. de
demonstrada na metáfora dos v. 41 e 42, Mt 7:21, 22.
acerca do homem que se propôs tirar o cisco 47. Todo aquele que vem a Mim. Isto
do olho de seu irmão quando havia uma trave é, “Quem quiser ser Meu discípulo”, como
no próprio olho. Um homem deve se enxergar os doze escolhidos mais cedo naquele dia,
plenamente antes que possa ser de alguma que se sentavam perto de Cristo (ver com.
ajuda para outros. de Mt 5:1).
Perfeito (ARC). Do gr. katartizõ, “pre­ 48. Edificando uma casa. Ver com.
parar", “treinar”, “equipar cuidadosamente”. de Mt 7:24, 25.
A palavra também é usada como um termo Abriu profunda vala. Literalmente,
médico para descrever a fixação de um osso “escavou e desceu cm profundidade”.
ou de uma articulação óssea. Não a pôde abalar. Isto é, não foi
Será como o seu mestre. Isto é, não intenso o bastante para abalá-la.
será melhor que seu mestre (cl. v. 39). Lançou o alicerce sobre a rocha.
41. Argueiro. Ver com. de Mt 7:3. Pode-se citar evidência textual importante
Reparas. Do gr. katanoeõ, literalmente, (cl. p. 136) para a tradução "bem construída”
“fixar a mente sobre”, “considerar atenta­ (ARA).
mente” ou “perceber”. 49. Ouve e não pratica. Ver com. de
42. Deixa [...] que eu tire. Ver com. Mt 7:26.
de Mt 7:4. O homem com a trave no olho Desabou. Ver com. de Mt 7:27).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

3,4- DTN, 285 22, 23-Tl, 285; T2, 491 36 - CM, 164; T6, 284
12-DTN, 292, 362; Ev, 24 -T2, 492 38-AA, 345; PJ, 86, 374;
663; OE, 256; T2, 202; 26 - GC, 144; T8, 124; T2, CM, 36, 50; DTN, 249,
T3, 322, 379; T4, 373, 491 371; Ed, 103, 140; EEC,
528; T5, 385 31 -OC, 260; CES, 178; 338; MDC, 20; CBV,
12, 13-MDC, 4 Ed, 292 208; PR, 234
12-16-DTN, 290-297 35-DTN, 311; MDC, 73, 43 - MDC, 127
16 - GC, 43 76; CBV, 208 48-T4, 117
17-19 - DTN, 298; MDC, 4 35, 36 - CBV, 423; T8, 286 48, 49 - DTN, 599

826
LUCAS 7:1

Capítulo 7
1 Cristo constata a grande fé de um centurião; 10 cura seu servo, estando este
ausente; 11 ressuscita o filho da viúva de Nairn; 19 responde aos mensageiros
de João com a declaração de Seus milagres e 24 testemunha ao povo
sobre João Batista. 30 Ele censura os judeus descrentes e
36 mostra que é amigo e salvador dos pecadores.

750
1 Tendo Jesus concluído todas as Suas pa­ 14 Chegando-Se, tocou o esquife e, parando
lavras dirigidas ao povo, entrou em Cafarnaum. os que o conduziam, disse: Jovem, Eu te mando:
2 E o servo dc um centurião, a quem este levanta-te!
muito estimava, estava doente, quase à morte. 15 Sentou-se o que estivera morto e passou
3 Tendo ouvido falar a respeito dc Jesus, en- a falar; e Jesus o restituiu a sua mãe.
viou-Lhe alguns anciãos dos judeus, pedindo- 16 Todos ficaram possuídos de temor e glo­
Lhe que viesse curar o seu servo. rificavam a Deus, dizendo: Grande profeta se
4 Estes, chegando-se a Jesus, com instân­ levantou entre nós; e: Deus visitou o Seu povo.
cia Lhe suplicaram, dizendo: Ele é digno de que 17 Esta notícia a respeito dele divulgou-se
Lhe faças isto; por toda a Judeia e por toda a circunvizinhança.
5 porque c amigo do nosso povo, e ele mesmo 18 Todas estas coisas foram referidas a João
nos edificou a sinagoga. pelos seus discípulos. E João, chamando dois
6 Então, Jesus foi com eles. E, já perto da deles,
casa, o centurião cnviou-Lhe amigos para Lhe 19 enviou-os ao Senhor para perguntar: Es
dizer: Senhor, não Te incomodes, porque não sou Tu aquele que estava para vir ou havemos de es­
digno de que entres em minha casa. perar outro?
7 Por isso, eu mesmo não mc julguei digno 20 Quando os homens chegaram junto dElc,
de ir ter contigo; porém manda com uma pala­ disseram: João Batista enviou-nos para Te per­
vra, e o meu rapaz será curado. guntar: Es dli aquele que eslava para vir ou es­
8 Porque também cu sou homem sujeito à peraremos outro?
autoridade, e tenho soldados às minhas ordens, 21 Naquela mesma hora, curou Jesus muitos
e digo a este: vai, c ele vai; e a outro: vem, e ele dc moléstias, e de flagelos, c de espíritos malig­
vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. nos; e deu vista a muitos cegos.
9 Ouvidas estas palavras, admirou-Se Jesus 22 Então, Jesus lhes respondeu: Ide e anun­
dele e, voltando-Se para o povo que O acompa­ ciai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem,
nhava, disse: Afirmo-vos que nem mesmo cm os coxos andam, os leprosos são purificados, os
Israel achei fé como esta. surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos
10 E, voltando para casa os que foram envia­ pobres, anuncia-se-lhes o evangelho.
dos, encontraram curado o servo. 23 E bem-aventurado é aquele que não achar
11 Em dia subsequente, dirigia-se Jesus a em Mim motivo de tropeço.
uma cidade chamada Nairn, e iam com Ele os 24 Tendo-se retirado os mensageiros, pas­
Seus discípulos e numerosa multidão. sou Jesus a dizer ao povo a respeito de João:
12 Como Se aproximasse da porta da cida­ Que saístes a ver no deserto? Um caniço agita­
de, eis que saía o enterro do filho único de uma do pelo vento?
viúva; e grande multidão da cidade ia com ela. 25 Que saístes a ver? Um homem vestido de
13 Vendo-a, o Senhor Se compadeceu dela e roupas finas? Os que se vestem bem e vivem no
lhe disse: Não chores! luxo assistem nos palácios dos reis.

827
7:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

26 Sim, que saístes a ver? Um profeta? Sim,com os próprios cabelos; e beijava-Lhe os pés e
Eu vos digo, e muito mais que profeta. os ungia com o unguento.
27 Este é aquele de quem está escrito: Eis 39 Ao ver isto, o fariseu que o convidara disse
aí envio diante da Tua face o Meu mensageiro, consigo mesmo: Se este fora profeta, bem sabe­
o qual preparará o Teu caminho diante de Ti. ria quem e qual é a mulher que Lhe tocou, por­
28 E Eu vos digo: entre os nascidos de mu­ que é pecadora.
lher, ninguém é maior do que João; mas o menor 40 Dirigiu-Se Jesus ao fariseu e lhe disse:
no reino de Deus é maior do que ele. Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respon­
29 Todo o povo que O ouviu e até os publica-deu: Dize-a, Mestre.
nos reconheceram a justiça de Deus, tendo sido 41 Certo credor tinha dois devedores: um lhe
batizados com o batismo de João; devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta.
30 mas os fariseus e os intérpretes da Lei re­ 42 Não tendo nenhum dos dois com que
jeitaram, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus, pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, por­
não tendo sido batizados por ele. tanto, o amará mais?
31A que, pois, compararei os homens da pre­ 43 Respondeu-Lhe Simão: Suponho que
sente geração, e a que são eles semelhantes? aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe:
32 São semelhantes a meninos que, sentadosjulgaste bem.
na praça, gritam uns para os outros: Nós vos to­ 44 E, voltando-Se para a mulher, disse a
camos flauta, e não dançastes; entoamos lamen­Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa,
tações, e não chorastes. e não Me deste água para os pés; esta, porém,
► 33 Pois veio João Batista, não comendo pão,regou os Meus pés com lágrimas e os enxugou
751

nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demônio! com os seus cabelos.


34 Veio o Filho do Homem, comendo e be­ 45 Não Me deste ósculo; ela, entretanto,
bendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de desde que entrei não cessa de Me beijar os pés.
vinho, amigo de publicanos e pecadores! 46 Não Me ungiste a cabeça com óleo, mas
35 Mas a sabedoria é justificada por todos esta, com bálsamo, ungiu os Meus pés.
os seus filhos. 47 Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus
36 Convidou-O um dos fariseus para que muitos pecados, porque ela muito amou; mas
fosse jantar com ele. Jesus, entrando na casa do aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama.
fariseu, tomou lugar à mesa. 48 Então, disse à mulher: Perdoados são os
37 E eis que uma mulher da cidade, peca­ teus pecados.
dora, sabendo que ele estava à mesa na casa 49 Os que estavam com Ele à mesa começa­
do fariseu, levou um vaso de alabastro com ram a dizer entre si: Quem é este que até per­
unguento; doa pecados?
38 e, estando por detrás, aos Seus pés, cho­ 50 Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te sal­
rando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava vai-te em paz.
vou;

1. Tendo. [A cura do servo de um cen-mesmo dia. Lucas 7:1 faz a transição do local
turião, Lc 7:1-10 = Mt 8:5-13. Comentário onde foi apresentado o Sermão do Monte,
principal: Lc. Ver mapa, p. 216; gráfico, p. para o local onde o servo do centurião foi
228; sobre milagres, ver p. 204-210]. Ou, curado. Textos de transição de sequências
“depois” (ARC). Os eventos dos v. 1 a 10 em Lucas são comuns (ver Lc 4:30, 37,
ocorreram depois do Sermão do Monte (ver 44; 5:11, 16, 26; 6:11; etc.). Possivelmente,
com. de Mt 8:2) e podem ter ocorrido no este era o final do verão de 29 d.C. (ver

828
LUCAS 7:3

MDC, 2, 45; ver com. de Mt 5:1), talvez, é traduzida como “digno”, (Lc 14:8) "honrai”
no fim da tarde. (Fp 2:29) e “preciosa” (IPe 2:4, 6). O vocá­
Suas palavras. Especificamente, o bulo entimos ocorre nos papiros em referên­
Sermão do Monte (Lc 6:20-49; cf. Mt 7:28). cia aos soldados cujo tempo de serviço era
Ao povo. Ou, “aos ouvidos”, isto é, “à longo e honrado. Este “servo” era muito esti­
audiência”. mado pelo centurião, por certo pelo valoroso
Entrou em Cafarnaum. Evidente­ serviço que prestava. O termo pode ou não
mente, após o Sermão do Monte, como indicar afeição pessoal, mas, neste caso, o
indica o contexto (ver DTN, 316). Cafar­ centurião era “ternamente afeiçoado” a seu
naum foi o centro do ministério de Cristo servo (DTN, 315).
(ver com. de Mt 4:13). Parece que a delega­ Estava doente. Ver com. de Mt 4:24.
ção de anciãos com o pedido do centurião A paralisia comum não é normalmente tão
encontrou Jesus quando Ele retornava para dolorosa como indicam as palavras “sofrendo
a cidade. horrivelmente” (Mt 8:6). Assim, tem-se suge­
O relato paralelo em Mateus 8:5 a 13 rido que a dor aguda e a paralisia do escravo
parece ter várias diferenças, mas uma com­ coexistiam com alguma doença semelhante
paração entre os dois evidencia que não há à febre reumática.
discrepâncias. Os dois relatos são versões 3. Tendo ouvido falar. O conheci­
do mesmo acontecimento. As conversas são mento que o centurião tinha de Jesus se limi­
praticamente idênticas, e diferenças ocor­ tava aos relatos que ouvia acerca das grandes
rem principalmente nas seções narrativas. obras do Salvador. Ele não vira Jesus, até
Nos dois casos, o ponto central é a grande aquele momento (DTN, 315).
fé do centurião, um gentio (ver com. de Lc Anciãos. Estes homens poderiam ser os
7:9). A raridade do milagre é o fato de a pes­ principais cidadãos da cidade, ou o conse­
soa beneficiada não estar diante de Cristo, lho de anciãos da sinagoga local (ver p. 44),
no momento da cura. ou desempenhavam as duas funções. Em
2. Servo. Do gr. doulos, literalmente, vista da cortesia do centurião (ver v. 5), ele
"um escravo” ou “um servo cativo”. mantinha boas relações com os “anciãos”, a
De um centurião. Do gr. hekaton- despeito de ser um gentio, e não um judeu.
tarchos, que quer dizer “comandante de Consciente da costumeira atitude dos judeus
cem [homens]”; isto é, um capitão de um para com os gentios (ver com. de Mt 7:6), o
► grupo do exército romano, chamado “cen­ centurião não sabia como Jesus responderia
752

túria”. O número de soldados de uma cen­ ao pedido de alguém que não pertencia a Seu
túria variava de 50 a 100. Este centurião, povo. O centurião pode ter tido experiências
em especial, era responsável por um grupo desagradáveis com líderes judeus anterior­
de soldados romanos a serviço de Herodes mente e temia ser rejeitado. De forma tipica­
Antipas, tetrarca da Galileia. Como se evi­ mente oriental, o procedimento correto seria
denciou no decurso da narrativa (ver com. fazer arranjos por meio de um intermediá­
dos v. 5, 6, 9), o centurião não era um pro­ rio que estivesse em condições de conseguir
sélito judeu. Todos os centuriões mencio­ o que de outra forma poderia ser recusado.
nados no NT parecem ter sido homens de Possivelmente, os “anciãos” pertencessem
caráter louvável (Mc 15:39, 44, 45; Lc 23:47; à sinagoga que Jesus frequentava quando
At 10:22; 22:26; 23:17, 23, 24; 24:23; 27:43). estava em Cafarnaum (ver com. de Le 4:16).
Estimava. Do gr. entimos, “em honra”, A diferença mais evidente entre os rela­
“honrado” ou “estimado”. A palavra entimos tos de Mateus e Lucas ocorre neste ponto
829
7:4 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

da narrativa. Lucas registra que o centurião própria indignidade é uma recomendação do


enviou duas delegações, os “anciãos” (v. 3) mais alto nível diante de Deus. No entanto,
e os “amigos” (v. 6), enquanto Mateus não com o centurião, parece que esta apreciação
faz menção alguma. O último fala apenas de sua condição social diante de Jesus era
do próprio centurião indo a Jesus (Mt 8:5). mais que humildade. Embora cresse no ver­
É possível que Mateus, tendo em mente dadeiro Deus, o centurião não era ainda um
que as delegações, na realidade, falavam prosélito e, de acordo com o ponto de vista
em nome do centurião, simplifica seu relato judaico, ainda era um pagão e, assim, não
apresentando as palavras dos mensageiros qualificado para participar das reuniões reli­
em favor do centurião como se fossem ditas, giosas (ver com. dos v. 2, 5). Verdadeiramente
pessoalmente, por ele. Hoje, assim como humilde de coração diante de Deus e cons­
nos tempos antigos, diz-se normalmente ciente de sua situação aos olhos dos judeus,
que uma autoridade fez algo que foi feito ele procurou evitar embaraçar Jesus, obri-
por seus subordinados. Diz-se, por exem­ gando-o a entrar num lar gentio. Na melhor
plo, que Pilatos açoitou a Jesus (Jo 19:1). das hipóteses, isso seria repulsivo a um
No entanto, os açoites foram aplicados por judeu devoto e o tornaria impuro cerimo-
um subordinado, cumprindo ordens de nialmente (ver Jo 18:28). Um judeu convo­
Pilatos. Evidentemente, as duas delegações, cado pela ordem direta de um oficial romano
os “anciãos” e os “amigos”, se aproximaram seria obrigado a cumpri-la, pois a recusa
de Jesus; mas, quando fieou evidente que seria interpretada como resistência a uma
Ele continuava a caminho do lar do centu­ autoridade constituída legalmente. O pie­
rião, este veio pessoalmente e, ao encontrar doso e humilde centurião procurou poupar
Jesus, repetiu praticamente a mesma men­ Jesus desta situação e evitou embaraçá-Lo.
sagem que enviara por meio dos “anciãos” e A humildade do centurião era real e prática
dos “amigos”. Além disso, Lucas tinha moti­ (ver com. de Lc 7:6).
vos especiais para mencionar qualquer ato De que lhe faças isto. Evidências tex­
amistoso da parte dos líderes de Israel para tuais apoiam (cf. p. 136) a variante “você
com Jesus (ver Nota Adicional a Lucas 7; ver [Jesus] deveria fazer isto”.
com. de Lc 5:2). 5. E amigo do nosso povo. E era, à
Pedindo. Ou, “solicitando”. vista disto, “digno” aos olhos dos anciãos (ver
Curar. Do gr. diasõzõ, “levar em segu­ com. do v. 4). Parece que o centurião era um
rança até”, “salvar”. O centurião desejava que “prosélito da porta”, alguém que cria no ver­
Jesus conduzisse seu fiel servo em segurança dadeiro Deus e nos princípios da fé judaica,
em meio à doença. mas não aceitava a circuncisão, o sinal da
4. Com instância. Do gr. spoudaiõs, aliança (ver com. de Gn 17:10, 11), nem pra­
“intensamente” ou “com urgência”. A ques­ ticava o ritual cerimonial da religião judaica.
tão era que o homem estava “prestes a mor­ E dito que, durante o primeiro século d.C.,
rer", e havia pouco tempo. houve milhares de gentios por todo o impé­
Suplicaram. Do gr. pamkaleõ, palavra rio romano que se tornaram “prosélitos da
mais forte que a utilizada no v. 3, que sig- porta”. Eles aprenderam a admirar e respei­
nifica apenas “pedir” ou “solicitar” (ver com. tar a adoração pura dos judeus e foram con­
do v. 3). vencidos da superioridade dessa adoração
É digno. O centurião, a seus próprios em relação à praticada pelos pagãos. Muitos
olhos, sentia-se indigno (v. 6,7). Aos olhos dos desses prosélitos, mais tarde, se tornaram
“anciãos”, ele era “digno” (v. 4). A percepção dajudeus com direitos plenos (ver p. 49, 50).

830
LUCAS

A sinagoga. Possivelmente a sinagoga pelo ser humano. É raro um líder ser es­
onde esses mensageiros serviam como timado igualmente por amigos e inimigos, <

754
“anciãos”. Pode ter sido a sinagoga que por pessoas de partidos ou ideais diferentes.
Cristo frequentou enquanto permaneceu em E raro um professor ser honrado por seus es­
Cafarnaum e onde iniciou Seu ministério. tudantes, tanto os que recebem notas baixas
O pronome “ele” é enfático: possivelmente o quanto os bem avaliados. E raro um pastor
centurião tenha construído esta sinagoga com apreciado por todos os segmentos em sua
seu dinheiro. De acordo com uma inscrição congregação.
do 2o século, certo oficial pagão do Egito auxi­ Telhado (ARC). Do gr. stegê, “uma
liou os judeus na edificação de uma sinagoga cobertura”.
em Atribis. Outros casos similares já foram 7. Digno. Ver com. dos v. 4, 6. Talvez os
registrados. cuidados por parte do centurião, que erro­
6. Foi. De acordo com o grego, "estavaneamente pressupôs a atitude de Jesus para
prosseguindo”. Ele não os acompanhou todo com os gentios (ver com. do v. 4), é que o
o caminho até a casa do centurião, como a impediram de solicitar pessoalmente a boa
narrativa evidencia (ver Lc 7:7; cf. Mt 8:5). vontade de Jesus e mesmo de se apresentar
Amigos. Esta segunda delegação pode diante dEIe. No entanto, ele foi até Jesus,
ter sido composta de romanos, talvez com­ e os v. 7 e 8 iniormam o que ele disse ao
panheiros pessoais do centurião. E evidente Senhor (ver DTN, 316).
que Jesus continuou andando rumo a casa Com uma palavra. O centurião consi­
do centurião, a despeito da declaração dos derava a ordem de Jesus com relação à cura
representantes acerca de sua indignidade, do servo como suficiente para realizar o que
porque o próprio centurião saiu ao encon­ ele pedia. Foi esta atitude que assinalou a
tro d Ele (DTN, 316). Sendo que a segunda extensão de sua fé. Ao contrário do nobre
delegação encontrou Jesus “já perto da casa” de Cafarnaum, um ano antes, o centurião
e que Jesus ainda Se aproximou depois de não exigiu nem esperou por "sinais e maravi­
receber a segunda delegação, o centurião lhas" para fortalecer sua confiança no poder
deve ter encontrado Jesus bem próximo de de Jesus (ver com. de jo 4:48).
seu lar. Será curado. Como o leproso cuja
Não sou digno. Ver com. do v. 4. Em­ grande fé o levou a exclamar: “se quiseres,
bora o centurião declarasse sua indignida­ podes purificar-me” (Mt 8:2), o centurião
de, depois Jesus disse a respeito dele: “Nem parecia perceber que tudo o que era neces­
mesmo em Israel achei fé como esta” (v. 9). sário era Jesus querer que o servo fosse liber­
A notável fé deste suposto pagão o tornou tado da doença.
mais digno à vista do Céu do que qualquer 8. Também eu. O centurião reconhe­
compatriota de Jesus. E muito interessante ceu, do que ouviu, que Jesus representava
comprovar que Jesus e os líderes judeus, fre­ a autoridade e o poder celestiais do mesmo
quentemente em completo desacordo, afir­ modo que ele, um oficial do exército, repre­
massem ambos, a dignidade de um gentio. sentava o poder e a autoridade de Roma.
E claro que os motivos deles não eram os Soldados às minhas ordens. Como o
mesmos: os “anciãos" aprovavam as obras do centurião era um representante do governo
centurião, Jesus aprovou sua fé. Talvez es­ romano, e prestava obediência às suas ordens,
teja implícito que, quando a fé e as obras os soldados a seu comando reconheciam sua
estão mescladas na vida, uma pessoa pode autoridade e o obedeciam. Ele sabia receber
ser altamente estimada tanto por Deus como e dar ordens, e via que estas ordens eram

831
7:9 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

755
cumpridas. Uma palavra de seus superiores Nem mesmo em Israel. Lucas omite o <
assegurava sua obediência, assim como uma comentário de Cristo, registrado em Mateus
palavra dele assegurava a obediência de seus 8:11 e 12, a respeito da grande reunião dos
subordinados. Tendo já aprendido a reconhe­ gentios no reino celestial, mas registra uma
cer o verdadeiro Deus como governante do declaração semelhante em outra ocasião
Céu e da Terra, o centurião então reconhe­ (Lc 13:28, 29). Paulo, posteriormente, expres­
cia a Jesus como o representante de Deus. sou a mesma verdade de modo semelhante
Ele sabia da cura do filho do nobre, ocorrida (ver Rm 9:7, 8; 11:15, 17, 25). É digno de
no ano anterior (ver Jo 4:46-53), e deve ter nota que nos dois exemplos de cura, realiza­
ouvido acerca dos muitos milagres que Jesus dos a pedido de gentios, o registrado aqui e
realizara desde que tornou Cafarnaum no o da filha da mulher siro-fenícia (Mt 15:21-
centro de Seu ministério na Galileia. Como 28), a cura ocorreu, não apenas como recom­
no caso do nobre (Jo 4:50), uma palavra pensa de “grande fé”, mas à distância.
de Jesus seria suficiente, e a cura poderia Consequentemente, houve pouco contato
ser realizada à distância. Como no caso do com os gentios. Talvez isso pode ter sido uma
leproso, a pergunta na mente do centurião concessão aos preconceitos dos discípulos. Era
era se Jesus desejaria atender ao pedido (ver essencial, no preparo para a obra do evangelho
com. de Mc 1:40). O leproso era um pária da em todo o mundo, que Jesus demonstrasse a
sociedade por causa de sua doença. De modo eligihilidade dos gentios para compartilhar os
semelhante, o centurião, possivelmente, sen­ benefícios do reino que Ele veio estabelecer,
tia que não era socialmente aceitável aos mas não era essencial que o Senhor saísse do
judeus por causa de sua condição religiosa. caminho desnecessariamente para ofender a
9. Admirou-Se. Do gr. thaumazõ, “admi­ sensibilidade judaica pelo contato social com
rar” ou “maravilhar”. A fé do centurião, de os gentios. Agir diferentemente do que Ele fez
que uma palavra de Jesus seria suficiente, teria suscitado o preconceito judaico e dificul­
era extraordinária em si mesma. O fato de tado a missão. Um ministro, embora livre de
o centurião nunca antes ter visto ou con­ preconceito, pode achar necessário levar em
versado com Jesus tornou sua fé ainda mais conta os preconceitos dos outros, ao minis­
notável, principalmente em vista da lentidão trar às pessoas.
dos judeus e mesmo dos próprios discípulos Fé como esta. Ver com. do v. 8. A gran­
para exercer fé (Mt 6:30; 8:26; 16:8; ver Mc de fé do centurião é o clímax da narrativa.
4:40; Lc 8:25; 12:28; 17:6). Mas o fato de o O elogio de Cristo a ele pode ser conside­
centurião ser oficialmente, da perspectiva rado como indicando sua completa conver­
judaica, um gentio fez sua fé parecer grande, são, naquele momento ou posteriormente.
quase inacreditável. Um ano depois, Jesus O fato de que Cristo “não encontrou” fé
elogiou a mulher siro-fenícia por sua grande dessa magnitude, indica um ministério an­
fé (ver Mt 15:28), e ela também pertencia terior cobrindo um considerável período (ver
aos gentios (cf. Lc 4:24-27). com. do v. 1).
Povo que O acompanhava. Com toda 10. Os que foram enviados. Possivel­
certeza, esta foi a multidão que ouviu, tal­ mente incluindo os “anciãos” e os “amigos”,
vez naquele mesmo dia, o Sermão do Monte ou pelo menos os últimos. Eles não precisa­
(ver com. de Mt 8:1; Lc 7:1). Em caso afir­ ram ir muito longe (ver com. do v. 6) e pude­
mativo, este milagre confirmaria as palavras ram verificar o milagre imediatamente.
de Jesus e deixaria uma vívida impressão na Curado. Do gr. hugiainõ, “estar saudável”,
mente do povo. um termo médico comum (cf. Lc 5:31; 3Jo 2).

832
LUCAS 7:12

Enfermo (ARC). Evidências textuais “muita gente” acompanhou Jesus em Sua via­
(cf. p. 136) apoiam a omissão desta palavra. gem além de Nairn.
11. Em dia subsequente. [A ressur­ Depois do milagre em Nairn, chegou o
reição do filho da viúva de Nairn, Lc 7:11- dia do ministério em algum lugar ao longo da
17. Ver mapa, p. 216; gráfico, p. 228; sobre costa ocidental do lago da Galileia, durante
milagres, ver p. 204-210], As evidências tex­ o qual Cristo proferiu as parábolas registra­
tuais se dividem (cf. p. 136) entre esta e a das em Mateus 13. Aquela noite, enquanto
variante “pouco depois” (ARC). Alguns eru­ Cristo e os discípulos atravessavam o lago,
ditos consideram que a variante usada pela ergueu-se a grande tormenta (ver com. de
ARA está mais de acordo com o estilo nor­ Mt 8:23-27) e, na manhã seguinte, ocorreu
malmente empregado por Lucas. o encontro com os endemoniados gadarenos
Dirigia-Se Jesus. Desta forma (ver com. de Mc 5:1-20). Mais tarde, naquele
começa a segunda grande viagem mis­ dia, Jesus retornou a Cafarnaum para parti­
sionária pelas cidades e vilas da Galileia, cipar da festa no lar de Mateus (Mc 2:15-17;
possivelmente durante o início do outono ver DTN, 342), curou a mulher que tocou na
de 29 d.C. (ver com. de Mt 4:12; 5:1; orla de Sua veste e ressuscitou a filha de Jairo
Mc 1:39). A segunda viagem começou (ver com. de Mc 5:21-43). Assim, na segunda
em Cafarnaum, a sede de Jesus durante viagem, Jesus demonstrou Seu poder sobre
Seu ministério na Galileia (ver com. de a morte, sobre os elementos da natureza
Mt 4:13), poucos dias depois da esco­ e sobre os espíritos maus; e, nas séries de
lha dos doze discípulos e da pregação do parábolas, estabeleceu os princípios do reino a

756
Sermão do Monte (ver com. de Mt 5:1; celestial e sua operação entre os seres huma­
Lc 7:1). A primeira viagem foi realizada nos. Nesta viagem, os doze, como Seus auxi­
mais cedo, durante o mesmo verão (ver liares, receberam um treinamento de valor
com. de Mt 4:23; Mc 1:39; 2:1; Lc 4:16). inestimável em métodos de evangelismo, um
Tendo Jesus formalmente inaugurado o treinamento que logo, na terceira viagem,
reino da graça divina, com a indicação dos teriam a oportunidade de colocar em prática.
doze (ver com. de Mt 5:1), e tendo procla­ Nairn. Esta cidade não é mencionada
mado a lei fundamental e o propósito do em outro lugar, seja na Bíblia ou em fontes
reino no Sermão do Monte, então empreen­ seculares, mas, normalmente, é identificada
deu Sua segunda viagem pela Galileia com a moderna Nein, nas encostas do norte
para demonstrar, por preceito e exemplo, de uma montanha com vista para a vasta
a natureza de Seu reino e a extensão dos planície de Esdraelom, ao norte. Nein está
benefícios à humanidade. cerca de 40 km a sudoeste do sítio da antiga
Assim como na primeira viagem (ver com. Cafarnaum, e 8,5 km a sudeste de Nazaré.
de Mc 1:39, 40), é evidente que apenas os Há apenas um acesso à vila, ao longo de um
episódios mais significativos e impressivos caminho íngreme e rochoso (ver DTN, 318) a
são registrados pelos evangelhos (cf. Jo 20:30, leste. Também a leste da vila está um antigo
31; 21:25). A primeira vila mencionada nesta cemitério de tumbas cavadas na rocha, ainda
viagem é Nairn, embora Jesus possivelmente em uso hoje.
tenha ministrado às necessidades do povo e 12. Como Se Aproximasse. O cemi­
ensinado em outras vilas ao longo do cami­ tério local fica 800 m a leste de Nairn, ao
nho. Não se sabe se Ele tomou uma rota lado da única estrada para a vila (ver com.
direta ou mais sinuosa, embora a última do v. 11). Os túmulos de pedra talhada ainda
pareça mais provável. Não está claro se essa permanecem ao lado da estrada, a cerca de

833
7:13 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

dez minutos de caminhada. Isso marca a parassem. De acordo com a lei de Moisés,
primeira ocasião, na narrativa evangélica, qualquer contato com cadáver, mesmo o
quando o Senhor da vida fica lace a face com toque em um esquife, trazia contamina­
a morte e triunfa sobre ela. ção cerimonial por sete dias (ver com. de
Único. Do gr. monogenês, “único” ou Nm 19:11). Mas, para Jesus, que não conhe­
“único de uma espécie” (ver com. de jo 1:14). cia o pecado nem a contaminação, e que era
Viúva. O fato de a mulher ser viúva e de a Fonte da vida, não poderia haver contami­
esse ser seu único filho tornava a situação nação por causa do contato com a morte.
extremamente comovente. Eu te mando. No grego, a palavra “te” é
Grande multidão da cidade. Eviden­ enfática: “A ti Eu digo, levante!” A mãe, Jesus
temente, a adversidade extrema da viúva disse apenas “não chore”. Ele tinha o direito
tocou o coração dos moradores, e muitos, se dc mandar que ela não chorasse mais, por­
não a maioria, acompanharam-na ao local que tinha o poder de repreender a morte, a
do enterro. A simpatia deles foi encontrada causa do choro dela.
pela simpatia do grande doador da vida. 15. Restituiu. Literalmente, "deu”. Na
13. O Senhor. Este é um dos poucos morte, a mãe viúva perdera seu filho, e ela
exemplos em que os evangelhos falam de não linha meios para reclamá-lo. Então, o
Jesus como “Senhor”. doador da vida veio e restaurou o filho à mãe
Compadeceu. O amor e a piedade de (ver sobre a restauração do filho lunático ao
Jesus frequentemente são mencionados seu pai, cm Lc 9:42).
como motivos para a realização de milagres 16. Todos ficaram possuídos de te­
(ver Mt 14:14; 15:32; 20:34; Mc 1:41; 8:2; mor. Ou, “todos temeram".
etc.). Nenhuma solicitação saiu dos lábios Glorificavam a Deus. De acordo com
da mulher e, tanto quanto se sabe, nenhum o texto grego, eles continuaram a louvar a
pedido se ergueu em seu coração. Mas em Deus. Quando o povo se recobrou do medo,
simpatia pela humanidade sofredora, Jesus a atitude seguinte foi de louvar a Deus.
respondeu a oração não pronunciada, assim Grande profeta. Esta experiência lem­
como Ele o faz frequentemente. brou ao povo episódios semelhantes em
Não chores! Ou, "pare de chorar”. tempos antigos. Ali estava uma evidência
A viúva tinha razão suficiente para sua pro­ incontestável de poder divino; e o povo con­
funda tristeza. No entanto, Jesus estava pres­ cluiu que o agente humano por meio de
tes a dar-lhe motivos para a maior alegria quem ele foi manifestado deveria ser um
possível, e não era necessário que ela conti­ “profeta” (ver sobre a promessa messiânica,
nuasse chorando, a não ser que derramasse em Dt 18:15; e a reação dos judeus a João,
lágrimas de alegria. De modo semelhante, em Jo 1:21; e, mais tarde, a Jesus, em Jo 6:14;
antes de ressuscitar Lázaro, Jesus procurou cf. Jo 4:19; 7:40).
inspirar esperança e confiança nas pessoas Todo cristão que lamenta a perda de um
envolvidas (ver Jo 11:23-27). ente querido encontra consolo na compai­
757

14. Tocou o esquife. O esquife, um xão que Jesus sentiu pela viúva de Nairn (ver «
caixão aberto com o corpo envolto em com. do v. 13), e tem o privilégio do conforto
linho, era levado à frente do cortejo fúne­ no fato de que o mesmo Jesus ainda “vela ao
bre (ver DTN, 318). Nos tempos bíblicos, pé de todo enlutado, à beira de um esquife”
um “esquife” era feito de vime (ver com. de (DTN, 319). Aquele que tem nas mãos as
Mc 6:43). O toque de Jesus no caixão era chaves da morte e da sepultura (Ap 1:18) um
um sinal, aos que o carregavam, para que dia quebrará as cadeias que prendem Seus

834
LUCAS 7:19

amados e os libertará para sempre das gar­ 19. Enviou-os ao Senhor. João enviou
ras do grande inimigo da raça humana (ver os dois homens a Jesus na esperança de que
iCo 15:26; 2Tm 1:10). uma entrevista pessoal com Jesus confir­
17. Notícia. Ou, “palavra”, “relatório”. As masse a íé desses discípulos, de que eles
notícias do ocorrido se espalharam por toda trariam uma mensagem que fortaleceria
a região vizinha. a fé dos demais, e que ele receberia uma
Judeia. Com este termo, Lucas se refere mensagem pessoal para clarificar seu pró­
a toda a Palestina, inclusive a Caldeia e a prio pensamento. Sc João estava na fortaleza
Pereia, hem como o que normalmente se de Macaeros, no lado oriental do Mar Morto
conhece como judeia (ver com. de Lc 1:5). (ver com. de Lc 3:20), os dois mensageiros
18. Discípulos de João. [João envia possivelmente seguiriam a estrada através
mensageiros a Jesus, Lc 7:18-23 = Mt 11:2-6. do vale do Jordão e, uma vez na Caldeia,
Comentário principal: Lc. Ver mapa, p. 216J. poderiam facilmente descobrir onde Jesus
Perplexos, os discípulos de João contaram a estaria naquele momento. Eles devem ter
ele os “rumores” de todas as obras maravi­ caminhado, pelo menos, 120 km em cada
lhosas de Jesus. A inserção desta declaração direção, e devem ter passado cerca dc três
neste ponto sugere que foi especificamente dias em cada caminho. Isso significa cjue
o relato da ressurreição do jovem, em Nairn, levaram pelo menos uma semana completa,
que levou João a enviar alguns de seus contando o dia que passaram com Jesus, por­
discípulos a Jesus para interrogá-Lo (ver que, sem dúvida, não viajaram no sábado.
v. 19). Nesta época, João estava aprisionado Es Tu [...]? No grego, a palavra “tu" é
por cerca de seis meses, e permaneceria ali enfática.
por outros seis meses antes de ser executado Aquele que estava para vir. Do gr. ho
(ver com. de Mt 4:12; Lc 3:19, 20). erchomenos, que geralmente era utilizada
Dois deles. Literalmcnte, “certos dois como uma expressão messiânica, talvez
de seus discípulos”. A questão a respeito baseada originalmente no Salmo 118:26 (ver
da messianidade de Jesus se originou com também Mt 3:11; 21:9; Mc 11:9; Lc 19:38;
os discípulos de João, não com João (ver ver com. de Jo 6:14; 11:27). A expressão ho
DTN, 214, 215). João estava perturbado por erchomenos também é utilizada para Cristo
causa dc eles acalentarem descrença em com referencia à Sua segunda vinda (ver
relação ao testemunho que o próprio João Mt 23:39; Lc 13:35; Hb 10:37; Ap 1:4, 8).
dera de que Jesus era, de fato, o Prometido Deus permite que sobrevenham momen­
(ver DTN, 216). Se os discípulos do Batista tos de perplexidade mesmo a Seus servos
duvidavam de sua mensagem, como esperar mais dignos e confiáveis, a fim de fortale­
que os outros acreditariam? Havia algumas cer sua fé e confiança. As vezes, quando é
coisas que João não compreendia, como a necessário para o desenvolvimento do caráter
verdadeira natureza do reino messiânico e ou para o hem da causa de Deus na terra, Ele
por que Jesus não fez nada para libertá-lo os permite passar por experiências que pare­
da prisão. No entanto, a despeito das dúvi­ cem sugerir que os esqueceu. Assim ocorreu
das o perturbarem, ele não renunciou à sua com Jesus enquanto pendia na cruz (ver Mt
fé em Jesus como o Cristo (ver DTN, 216; 27:46; DTN, 753, 754) e com Jó (ver Jó 1:21;
cf. v. 24). O desapontamento e a ansiedade 13:15). Mesmo Elias, o protótipo de João
perturbavam a mente do prisioneiro solitá­ Batista (ver com. de Ml 4:5; Mt 17:10), teve
rio, mas ele se absteve de comentar essas seus momentos de desencorajamento (ver
perplexidades pessoais com seus discípulos. lRs 19:4). À vista disso, pode-se facilmente

835
7:20 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

entender que a experiência de João na pri­ um grupo de discípulos e sair pelo país ensi­
são por cerca de um ano foi, na misericor­ nando e curando as pessoas (ver DTN, 215).
diosa providência de Deus, permitida como João foi atormentado com dúvidas quanto
meio de encorajar os incontáveis milhares de ao fato de Jesus ser o Messias, porque Ele
► outros que, em anos posteriores, sofreriam o não estava em conformidade com o conceito
758

martírio (ver DTN, 224). Sabendo que a fé popular de como seria o Messias e o que ele
de João não vacilaria (ver lCo 10:13), Deus faria quando chegasse. Seria esta a pergunta
fortaleceu o profeta para suportar. Inabalável de João, reformulada: “Você é a espécie de
até o fim, aprisionado e diante da morte, João Messias que esperamos?”
permaneceu como “uma lâmpada que ardia 20. Enviou-nos. Os dois mensageiros
e iluminava” (Jo 5:35). Sua força moral e desconheciam o fato de serem enviados,
paciência iluminam o escuro caminho dos principalmente, para benefício próprio (ver
mártires de Jesus através dos séculos. com. do v. 19). João possivelmente também
É apropriado indagar como João conse­ desejava prepará-los para transferirem as
guiu dizer “Convém que Ele cresça e que eu afeições e o serviço a Jesus. E certo que esses
diminua” (Jo 3:30) e como conseguiu aceitar, homens estavam entre os discípulos de Jesus
sem murmurar, os meses solitários no cár­ que, cerca de seis meses mais tarde, lança­
cere e ainda a morte pelas mãos de Eíerodes. ram sua sorte com Cristo (ver DTN, 361).
O segredo residia no “toque do amor divino 21. Naquela mesma hora. Os dois
[que] o transformara” (DTN, 179); seu cora­ mensageiros encontraram Jesus em meio
ção era correto. Ele se dispôs a ser fiel à à multidão, em algum lugar na Galileia.
missão, apesar de, em certa medida, não Os que sofriam com várias doenças abriam
compreender a natureza do reino de Cristo, caminho por entre a multidão até onde o
o que era compartilhado por seus contem­ Mestre Se encontrava (ver DTN, 216).
porâneos (DTN, 215). Mesmo os discípulos Cumprimentando os discípulos de João res­
de Jesus, depois da ressurreição, pensavam peitosamente, Jesus evitou responder à per­
que Ele estava prestes a estabelecer Seu gunta deles e tranquilamente dcdicou-Sc à
reino glorioso na Terra (At 1:6; cf. Mt 24:3). obra de curar.
Cristo disse aos fariseus: “Não vem o reino O método de Cristo em responder a per­
de Deus com visível aparência”, “porque o gunta formulada pelos dois mensageiros,
reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17:20, como todos os Seus demais métodos, é de
21). Quantas vezes a perplexidade se ergue a grande importância aos ministros e profes­
partir de uma má compreensão da profecia sores. Ele poderia ter dado, na ocasião, uma
bíblica! As opiniões preconceituosas dos dis­ resposta teológica clara e prática, apoiada por
cípulos, a despeito do que o Senhor tentou diversas citações dos profetas, o que não foi
lhes ensinar, tornou a morte e o sepulta- o caso. Havia “um caminho sobremodo exce­
mento dEle em experiências muito amar­ lente” (ICo 12:31) que era, ao mesmo tempo,
gas (DTN, 412, 772, 796). A experiência mais impressivo e com resultados permanen­
dos discípulos pode ser uma lição para que tes. 13 digno de nota que a suprema evidência
se estude diligentemente as mensagens que que Cristo ofereceu de Sua divindade foi
Deus envia a respeito do momento de crise a perfeita adaptação de Seu ministério à
que está porvir (GC, 594, 598; TM, 116). necessidade dos sofredores e da humanidade
Outro. O que Jesus disse e fez (Seus ser­ perdida (ver DTN, 217; cf. 406, 407).
mões e milagres) não era exatamente o que Cristo nem sempre utilizou o método
João esperava. Jesus parecia feliz ao reunir empregado com os discípulos de joão. Em

836
LUCAS 7:22

ocasião posterior, depois de Sua ressurrei­ e disse-lhes para levarem uma mensagem que
ção, Ele ocultou Sua identidade aos dois seria suficiente para responder às perguntas
discípulos a caminho de Emaús, para diri­ de João e de seus discípulos (ver DTN, 217).
gir a visão espiritual deles ao fato de que os Todas as dúvidas foram sanadas, apesar de
eventos ligados à Sua morte e ressurreição haver aspectos do reino de Cristo que não
cumpriam a profecia. Sua instrução prática foram completa mente compreendidos.
nas Escrituras forneceu, nesse exemplo, uma Anunciai a João. A resposta de Cristo à
evidência mais forte para que Seus seguido­ pergunta dos dois discípulos de João é uma
res mantivessem a fé (ver DTN, 799). paráfrase de Isaías 61:1, uma passagem reco­
Os dois mensageiros de João ouviram nhecida pelos judeus dos dias de Cristo como
“rumores” ou “relatos” do ministério de Jesus indiscutivelmente messiânica (ver com. de
(v. 17, 18); então, viram por si mesmos, e Lc 4:18-21). Não poderia ser dada resposta
não poderiam duvidar da veracidade do que mais impressiva.
► ouviram. O método de Cristo de responder- Cristo não mencionou o “dia da vin­
759

lhes, também ilustra outro princípio impor­ gança” em Nazaré ou nesta ocasião (ver ls
tante do ensino da verdade: Ele apresentou a 61:2; Lc 4:19). Na mensagem dirigida a João,
evidência e deixou que os discípulos de João Jesus também não falou nada sobre “liber­
chegassem às suas próprias conclusões. Ele dade” aos “cativos” (Is 61:1). Tal referência
não dogmatizou nem os pressionou a tomar poderia facilmente ser mal compreendida e,
Sua palavra como uma resposta e declarar talvez, teria avivado uma falsa esperança em
que qualquer um que dissesse algo contrário João quanto à libertação da prisão. Indicada
estaria em erro. A mente deles foi deixada na resposta de Cristo, estava a explicação
completamente livre para julgar a ques­ silenciosa de que Ele não viera destruir os
tão, com base no que a profecia dizia que pecadores (ver Lc 9:56; Jo 3:17; 12:47), mas
o Messias faria (ver com. do v. 22), e o que restaurá-los física, mental e espiritualmente.
Ele próprio estava fazendo (v. 21). Ele veio “para que tenham vida e a tenham
Moléstias, e de flagelos. Ver com. de em abundância” (Jo 10:10). A resposta de
Mt 4:23; Mc 3:10. Jesus à pergunta de João, “Es Tu aquele
Espíritos malignos. E importante notar que estava para vir”?, seria, por assim dizer:
que Lucas, o médico, distingue cuidadosa­ “Sim, mas não sou o tipo de Messias que se
mente os que estão possuídos por demônios esperava.”
daqueles cuja aflição está limitada ao corpo. Vistes e ouvistes. Não há melhor
Esse fato exclui a possibilidade de ele ter mis­ testemunho do que o ocular. Cristo tornou
turado as duas situações, como alguns decla­ os dois mensageiros em testemunhas ocula­
raram (ver Lc 6:17, 18; 7:2; 8:27-36; ver Nota res da obra que Ele estava realizando pela
Adicional a Marcos 1). vida das pessoas (cf. Lc 1:2; Jo 1:14; 2Pe 1:16;
Deu. Do gr. charizomai, “fazer um favor” IJo 1:1, 2).
ou “dar bondosamente”; do radical charis, Aos pobres. O povo comum, os iletra­
“graça” ou “favor” (ver com. de Lc 1:30). dos camponeses e os trabalhadores, rece­
Quando Jesus restaurou a saúde de outras biam pouca atenção dos arrogantes fariseus
pessoas, Sua ação não foi superficial ou e dos eruditos rabinos. A atenção deles, em
mecânica; em vez disso, foi uma expressão de grande parte, estava reservada para pessoas
simpatia e de Seu grande amor pelas pessoas. ricas e influentes. O “povo comum”, de cora­
22. Jesus lhes respondeu. Perto do ção aberto e fé simples, era atraído a Cristo
final do dia, Jesus Se dirigiu aos dois homens e “O ouvia com prazer” (Mc 12:37). Entre os
837
7:23 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

judeus dos dias de Cristo, frequentemente 29. Todo o povo. Alguns veem os v. 29
“os pobres” não eram apenas pouco favore­ e 30 como um comentário de Lucas, em vez
cidos quanto aos bens materiais, eram tam­ de parte do discurso de Cristo sobre João
bém oprimidos e afligidos pelos homens Batista. Uma interpolação desta ampli­
de poder e influência (ver com. de Mt 5:3; tude, porém, seria incomum para Lucas.
ver p. 43). Não há razão para Cristo não ter feito esta
Evangelho. Ou, “boas-novas” (ver com. declaração.
de Mc 1:1). Que o ouviu. Isto é, ouviu João Batista.
23. Bem-aventurado. Ou, “feliz” (ver Publicanos. Ver com. de Lc 3:12.
com. de Mt 5:3). Na graciosa forma de bên­ Justificaram (ARC). Do gr. dikaioõ, sig­
ção, ainda que em palavras muito claras para nificando, neste versículo, “reconheceram
João e os discípulos que levaram a mensa­ a justiça de Deus” (ARA). O povo "justifi­
gem a ele, Jesus deu uma branda repreensão cou a Deus” respondendo à mensagem divina
(ver DTN, 218). A bênção, seguida da pará­ por meio de João Batista. Eles reconheceram
frase de Isaías 61:1 (ver com. de Lc 7:22), que João pregava a verdade e que, como pro­
era tudo o que Cristo diria, pessoal mente, feta, tinha o direito de lhes fazer algumas
ao profeta aprisionado. Esta bênção foi a exigências.
resposta de Cristo ao silencioso anseio do Batizados. Ver com. de Mt 3:6. A acei­
coração de João por uma palavra pessoal de tação do batismo pelas mãos de João era um
conforto e ânimo (ver DTN, 217). Até onde reconhecimento público de que Deus falava
vai o relato dos evangelhos, este foi o último por meio dele.
contato entre Jesus e João. Batismo de João. Ver com. de Mt 3:6.
Motivo de tropeço. Do gr. skandalizõ, O batismo cristão foi padronizado pelo
“levar a tropeçar", consequentemente, batismo de João (ver Jo 3:22, 23; Jo 4:1, 2).
“escandalizar” (ver com. de Mt 5:29). Muitos No entanto, a igreja cristã primitiva reco­
judeus do tempo de Cristo “tropeçaram na nheceu que apenas o batismo de João não
pedra de tropeço” ou na “rocha de escândalo era suficiente (ver At 18:25; 19:1-5). Seu
► [do gr. skandalon, um objeto de tropeço]”, batismo era, essencial mente, um símbolo
760

que era Jesus (Rm 9:32, 33), como o profeta de arrependimento, por isso era chamado
Isaías previu (ver com. de Is 8:14). Ele “veio assim (Mc 1:4; etc.). O batismo cristão tipi­
para o que era Seu, mas os Seus não O rece­ fica o arrependimento (At 2:38) e a crença
beram” (Jo 1:11; DTN, 30, 213, 391-394). em Jesus Cristo como o Filho de Deus
Algumas vezes, até os discípulos de Cristo se (At 8:36, 37), além da recepção do Espírito
“escandalizaram” por causa dEle (ver D TN, Santo (At 10:44-48; 19:1-6). Na verdade,
380), e por ter se "escandalizado” acerca de João predisse que Jesus “batizaria” com o
Jesus é que Judas O traiu (DTN, 719). Os Espírito Santo (ver Mt 3:11; cf. At 11:16).
discípulos foram “escandalizados” na noite Isso não significa que o batismo de João não
da traição, e todos eles “deixando-O, fugi­ tinha a aprovação do Espírito Santo.
ram” (Mt 26:31, 56). 30. Fariseus. Ver p. 39, 40.
24. Passou Jesus. [Jesus dá teste­ Intérpretes da Lei. Ver com. de Mc
munho de João, Lc 7:24-35 = Mt 11:7-19. 1:22; 2:16. Estes homens eram “doutores da
Comentário principal: Mt]. lei”, no sentido de que eram estudantes e
25. Roupas finas. Isto é, vestido com expositores da lei judaica.
roupas magníficas. Quanto a si mesmos. Ou, “para si mes­
Palácios dos reis. Ou, “palácios”. mos”, “a respeito de si mesmos”.

838
LUCAS 7:38

Desígnio cie Deus. A cada grupo que ia 37. Uma mulher. Maria de Betânia,
a João para ser batizado, o profeta descrevia também conhecida como Maria Madalena
detalhadamente o que precisava ser feito para (ver Nota Adicional a Lucas 7).
produzir “frutos dignos de arrependimento” Alabastro. Uma pedra relativamente
(ver com. de Mt 3:7, 8; Lc 3:10-14). Ainda macia que pode ser esculpida em forma de
que alguns líderes religiosos fossem batizados, copos, caixas, vasos ou frascos. Os antigos
poucos deles aceitaram o rito pelas mãos de frascos de unguentos normalmente eram
João. Eles recusavam admitir que eram peca­ esculpidos em calcário cinza claro translúcido.
dores e que necessitavam de arrependimento Unguento. O “unguento" comum da
(ver com. de Mt 3:6). Uma vez que o batismo Palestina era o óleo de oliva ao qual eram
de João significava arrependimento, um passo acrescentadas especiarias ou outros ingre­
para o qual não sentiam necessidade, os líderes dientes aromáticos. O “unguento” de Maria
não foram “batizados por ele”. era um “preciosíssimo” perfume de nardo (ver
31. E disse o Senhor (ARC). Evidências Mc 14:3; Jo 12:3), possivelmente extraído das
textuais apoiam (cf. p. 136) a omissão des­ perfumadas raízes de Nardostachys jatamansi.
tas palavras, que ocorrem na Vulgata e em Esta planta cresce nas alturas das montanhas
manuscritos gregos posteriores. Sugere-se do Himalaia e, em tempos antigos, era utili­
que a inserção indica que os v. 29 e 30 não zada como perfume e medicação (ver com.
foram palavras de Jesus, mas um comentário de Ct 1:12). Se o “unguento" de Maria era
editorial de Lucas (ver com. do v. 29). das montanhas ao norte da índia, não é de
36. Um dos fariseus. |A pecadora admirar que fosse considerado “preciosíssimo”
que ungiu os pés de Jesus, Lc 7:36-50 = (Jo 12:3, 5). Foi estimado em cerca de 300
Mt 26:6-13 = Mc 14:3-9 = Jo 12:1-9. Comen­ denários romanos (Mc 14:5; ver p. 37). Deve-se
tário principal: Mt e Lc. Ver mapa, p. 221; grá­lembrar que esta quantia equivaleria ao salá­
fico, p. 230; Nota Adicional a Lucas 7]. Jesus rio de 300 dias de trabalho para um traba­
curou Simão de lepra (Mt 26:6; DTN, 557); lhador daquele tempo (ver com. de Mt 20:2).
e ele, desejando expressar gratidão, preparou Um presente tão valioso, digno dos monarcas
uma festa e chamou a Jesus como convidado terrestres, representava grande sacrifício pes­
de honra. Essa festa ocorreu em Betânia, no soal da parte de Maria (ver DTN, 559, 564).
dia anterior à entrada triunfal de Cristo cm 38. Estando por detrás, aos Seus
Jerusalém (DTN, 557; cf. 617, 618), menos pés. Os convidados da festa deveriam
de uma semana antes da crucifixão. Além remover as sandálias antes de se alimentar
disso, Lázaro, que fora ressuscitado havia e se reclinarem sobre o lado esquerdo nos
menos de dois meses, durante a última sofás colocados em três lados da mesa, com
parte do inverno de 30-31 d.C. (ver com. de o cotovelo esquerdo descansando sobre a
Jo 11:1), estava entre os convidados de honra, mesa, e os pés, na extremidade inferior do
juntamente com Jesus (DTN, 557). Jesus sofá, longe da mesa (ver com. de Mc 2:15).
graciosamente aceitou a hospitalidade do Esta disposição tornou relativamente sim­
fariseu e do publicano (ver Lc 5:29; 19:5; ples para Maria “ungir” os pés de Jesus sem
cf. Lc 11:37; 14:1). ser observada, até que o aroma do unguento
Tomou lugar à mesa. Literalmente, perfumado enchesse a sala.
“reclinou-se là mesa|” (ver com. de Mc 2:15). Regava. Literalmente, “molhava” ou
Simão estava de um lado de Jesus, e Lázaro, “umedecia”.
do outro, quando os convidados se reclina­ Com suas lágrimas. Maria não plane­
vam para participar da refeição (D TN, 558). jou derramar lágrimas de alegria e gratidão

839
7:39 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTTSTA

nos pés de Jesus. Enquanto ela se ajoelhou 41. Certo credor. Sobre as parábo­
para aplicar o unguento, as lágrimas corre­ las, ver p. 197-204. Isto é, “certo [profis­

762
ram, apesar de tentar contê-las, e caíram nos sional] emprestador [de dinheiro a juros]”. 4
pés dEle antes que ela aplicasse o unguento. Esta breve parábola diz respeito à gratidão
Com os próprios cabelos. Considerava- pelas bênçãos da salvação. Evidentemente,
se vergonhoso para uma mulher soltar os cabe­ a parábola se baseia no princípio fundamen­
los em público. No entanto, sem uma toalha tal de que a apreciação de uma pessoa pelas
para essa necessidade aparentemente impre­ bênçãos recebidas é diretamente proporcio­
vista, ela utilizou os cabelos. nal ao senso de necessidade em relação a
Beijava-lhe. De acordo com o texto essas bênçãos. Apenas aquele que chega a
grego, ela beijou várias vezes (ver v. 45). Em sentir seu total desamparo diante de Deus
algumas regiões orientais, tanto hoje como está no estado de espírito correto para apre­
na Antiguidade, o beijo é um modo comum ciar o que Deus faz por ele, quer nas coisas
de saudação (ver com. de Mt 26:49). Abraçar materiais quer nas espirituais. Aquele que
os pés de outra pessoa e beijá-los era uma res­ não sente a necessidade do auxílio divino
peitosa e perfeitamente adequada demons­ confia na capacidade e nos recursos pró­
tração de muita consideração (ver com. de prios e depende destes para encontrar solu­
Mt 28:9). ção para os problemas que enfrenta. E por
E os ungia. Ver com. de Mt 6:17. Isto é, essa razão que Deus geralmente permite que
depois da explosão emocional. Seus filhos terrenos esgotem seus próprios
39. Disse consigo mesmo. Simão estava recursos antes de lhes conceder auxílio
reclinado próximo a Jesus e seria uma das pri­ divino. Se Ele intervem antes que se cons­
meiras pessoas à mesa a sentir o perfume e cientizem da absoluta incapacidade, eles não
notar o que estava ocorrendo. Como um anfi­ apreciam realmente as bênçãos concedidas,
trião cortês, nada disse. No entanto, silencio­ seu caráter permanece imperfeito e eles con­
samente sentenciou a Jesus por permitir o ato tinuam confiando nos próprios meios e habi­
de gratidão sem reclamar com a mulher. lidades para lidar com os problemas.
Profeta. Evidências textuais apoiam Assim foi com Simão. Apesar de Jesus
(cf. p. 136) a variante “o profeta”, isto é, o tê-lo curado de lepra e ele “desejara mos­
Profeta predito por Moisés (ver com. de trar sua gratidão” (ver DTN, 557; Mt 26:6),
Dt 18:15; Jo 1:21). Segundo o texto grego, a era uma gratidão de homem para homem, não
esta altura, Simão concluiu que Jesus não era uma gratidão de homem para com o infinito
um profeta, ou Ele saberia que tipo de mulher Deus. O caráter deles “não estava transfor­
era Maria. mado; permaneciam sem mudança seus
Qual é. Ou, “que tipo”. Simão não se princípios” (DTN, 557); resumindo, ele não
lembrou de que Jesus conhecia muito bem estava convertido. Por isso, o objetivo fun­
que “tipo” de mulher era Maria. Simão sabia damental de Cristo, ao curar a lepra física,
pouco sobre o que ocorrera a Maria desde a era curá-lo da lepra do pecado, o que ainda
época em que ele a humilhou (DTN, 566), não tinha ocorrido. A atitude de Simão para
uma circunstância que tende a confirmar a com Jesus foi semelhante à de Nicodemos,
sugestão (ver Nota Adicional a Lucas 7) de reconhecendo que Jesus era “Mestre vindo
que Maria deixou Betânia para proteger a si da parte de Deus”, mas deixando de reco­
e à sua família do constrangimento. nhecer sua necessidade pessoal de “nas­
40. E lhe disse. Isto é, respondendo ao cer de novo” (ver com. de Jo 3:2, 3). Ambos
pensamento ou à pergunta silente de Simão. eram, nesse estágio da experiência religiosa
840
LUCAS 7:48

pessoal, ouvintes do tipo de solo “rochoso” presença de outros que consideravam ter
(ver com. de Mt 13:5). razão válida para desprezá-la e ignorá-la.
Quinhentos denários. Isto é, 500 dená- Não Me deste água. Segundo o texto
rios romanos (ver p. 37), que seriam quase grego, em cada caso: a água (v. 44), o beijo
dois quilos de prata. Um denário era o salário (v. 45) e o óleo (v. 46), a palavra em si ocupa
de um dia de trabalho (ver com. de Mt 20:2). o primeiro lugar para enfatizar, como “água
42. Não tendo [...] com que pagar. não me destes”, etc. Não se sabe por que <

763
O tamanho do débito não fez diferença Simão não forneceu água a seus convidados.
quanto à condição financeira dos dois deve­ E duvidoso que ele convidasse um grupo de
dores. Ambos eram incapazes de pagar o que pessoas para compartilhar a hospitalidade de
deviam. Mas havia uma ampla diferença na seu lar e de sua mesa e negasse a elas essas
apreciação deles quanto ao cancelamento do atenções menores. Parece, em vez disto, que
debito com o credor. O homem com o menor o contraste que Cristo delineia, neste versí­
encargo (50 denários) acharia fácil ganhar culo, entre Simão e Maria não é tanto de
dinheiro para quitar o débito, ao contrário um dever omitido e de um dever realizado,
do outro. O que devia 500 denários roma­ mas um favor negligenciado e um favor con­
nos (ver com. do v. 41) estava tão endividado cedido. Simão foi hospitaleiro, mas poderia
que tinha pouca esperança de quitação. Para fazer mais do que isso. A atitude de gratidão
os dois, chegaria a hora de saldar a dívida, e de Maria foi tomada, não como obrigação,
não restaria alternativa a não ser a escravidão mas como expressão de um coração trans-
(ver com. de Mt 18:25). bordante de amor e devoção.
43. Suponho. A resposta era óbvia, como 45. Não cessa. Do gr. dialeipõ, “ser
foi o caso de muitas das parábolas e lições de intermitente”. Isto denota repetição em vez
Jesus. Em alguns exemplos, aqueles a quem de ação contínua.
foram dirigidos estavam relutantes e, em 46. Óleo. Do gr. elaion, normalmente
outros, prontos para reconhecer a lição tão “óleo de oliva”. Simão não ungiu Jesus nem
claramente demonstrada (Mt 21:31, 41, 45; com o óleo mais comum da Palestina. Em con­
ver Lc 10:36, 37). trapartida, Maria utilizou "unguento”, muron,
A quem mais perdoou. Ver com. do o mais caro que o dinheiro poderia comprar
v. 42. Simão pronunciou julgamento sobre si (ver com. do v. 37). Este contraste se refletiu
mesmo. Com tato, o Salvador levou o orgu­ na atitude do coração de cada um deles. A hos­
lhoso fariseu a perceber que seu pecado, a pitalidade de Simão era insignificante compa­
sedução de Maria, era maior do que o pecado rada à gratidão ilimitada de Maria.
dela, assim como 500 denários valiam mais 47. Perdoados. O amor a Cristo leva ao
que 50 (DTN, 566, 567). perdão, pois o amor por Ele induz à contrição e
44. Voltando-se para a mulher. à confissão. O amor que Maria sentia por Cristo
Apesar de Cristo se voltar para Maria era resultado do perdão já concedido a ela antes
enquanto falava, Suas palavras eram diri­ desta ocasião (ver Nota Adicional a Lucas 7).
gidas a Simão. Esse fato pode indicar que Simão amava pouco a Cristo, pois seus peca­
Jesus queria dizer que Sua declaração era dos não foram perdoados. Como Nicodemos
uma repreensão a Simão e uma expressão (ver com. de Jo 3:3-7), ele não se considerava
de gratidão a Maria pela bondade praticada. um pecador em necessidade do perdão divino.
Essa homenagem teve mais significado para 48. Perdoados são. Literalmente, “foram
Maria do que uma palavra dita a ela sozi­ perdoados”. Maria já havia recebido o perdão
nha mais tarde, porque Jesus a honrou na pelos seus pecados.
841
7:49 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

49. Até. Do gr. kai, “e”, "também". Neste perdão, porque “sem fé é impossível agradar a
versículo, “até”. Deus” (Hb 11:6). Um senso de necessidade e
50. A tua fé te salvou. A fé sempre de dependência de Cristo deve acompanhar
deve se erguer para requerer as bênçãos do a fé (ver com. de Mt 5:3; Lc 5:8).

NOTA ADICIONAL A LUCAS 7

Muitos comentaristas acreditam que o episódio relatado em Lucas 7 não deveria ser
identificado com a festa mencionada pelos outros evangelhos. Algumas das razões mais
importantes para essa ideia, são: (1) a dúvida de que Maria de Betânia tenha sido a perso­
nagem descrita por Lucas, uma vez que o que é registrado em outras partes dos evangelhos
a respeito de Maria de Betânia parece contrariar tal identificação; (2) a suspeita de que um
fariseu, que vivesse a apenas três quilômetros de Jerusalém, a menos de uma semana da
crucifixão, hospedasse Jesus publicamente, quando ele mesmo duvidava da messianidade
de Jesus; e (3) as aparentemente irreconciliáveis diferenças entre o relato em Lucas e dos
outros evangelhos que pesariam mais que os pontos de semelhança.
Essas dificuldades, deve-se admitir, não podem ser ignoradas. Entretanto, nenhuma con­
clusão baseada nelas é tão convincente quanto aparenta à primeira vista. Pode-se ver isso
nas considerações a seguir:
1. João identifica Maria, a irmã de Marta e Lázaro, como aquela que ungiu os pés de
Jesus, e seu relato do episódio é, evidentemente, paralelo ao de Mateus e Marcos que, como
Lucas, não a mencionam pelo nome. Pode ser que a mulher, uma cristã devota, ainda fosse
viva quando os evangelhos sinóticos foram escritos. Os três evangelistas sinóticos, apesar
de entender que a narrativa deveria ser incluída no relato evangélico, podem ter decidido,
por ética cristã, não mencionar o nome dela. João, no entanto, pode não ter tido essa preo­
cupação, visto que escreveu seu evangelho várias décadas mais tarde (ver p. 168, 169) e,
► desta forma, muitos anos depois da morte da mulher. E importante notar que João, o único
764

a mencionar Maria, é também o único a omitir o nome de Simão.


Lucas (10:39, 42) e João (11:1, 2, 19, 20, 28, 31, 32, 45; 12:3) mencionam e identificam uma
Maria de Betânia. Maria, conhecida como Maria Madalena (possivelmente “de Magdala”,
uma cidade no litoral oeste do Mar da Galileia [ver Mt 15:39; DTN, 405]), é listada entre as
mulheres que acompanhavam Jesus na segunda viagem à Galileia (ver Lc 8:1-3) e mencionada
pelos quatro evangelhos em ligação com a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus
(Mt 27:56, 61; 28:1; Mc 15:40, 47; 16:1,9; Lc 24:10; Jo 19:25; 20:1, 11, 16, 18). Algum tempo
antes da segunda viagem à Galileia, Jesus expulsou sete demônios dela (Lc 8:2; cf. Mc 16:9).
Se Maria de Betânia deixou o lar em resultado de sua vida vergonhosa, ela teria encon­
trado um lar em Magdala, talvez com amigos e parentes que vivessem ali. A maioria dos
regist ros de episódios do ministério de Jesus na Galileia ocorreu nas proximidades da planí­
cie de Genesaré, onde Magdala estava localizada, e pode ser que, numa das primeiras visitas
de Jesus a Magdala, Ele a tenha libertado da possessão demoníaca. Depois de acompanhar
Jesus na segunda viagem à Galileia, ela teria retornado transformada a Betânia, e feito dali
seu lar novamente. Esta possibilidade não prova que Maria de Betânia e Maria de Magdala
sejam a mesma pessoa, entretanto, mostra como isso poderia ter acontecido. Toda a infor­
mação sobre o tema, apresentada no relato evangélico, pode ser facilmente compreendida
em harmonia com essa explicação.
842
LUCAS

2. Não é válido o argumento que, próximo ao final de Seu ministério, Jesus não tivesse
amigos entre os líderes de Israel. Nicodemos, "um dos principais dos judeus" (Jo 3:1), ousa­
damente assumiu partido ao lado de Jesus num concílio dc sumos sacerdotes e fariseus (ver
Jo 7:45-53). Sua influência nessa ocasião (a Festa dos Tabernáculos, 30 d.C., aproximada­
mente seis meses antes da crucifixão) é evidente pelo fato de que seu conselho prevaleceu,
e o grupo se dispersou sem realizar seu objetivo (ver Jo 7:53; DTN, 460). Na crucifixão,
quando as pessoas temiam ser conhecidas como seguidoras de Jesus, quando “os discípu­
los todos, deixando-O, fugiram” (Mt 26:56) e quando Pedro, Seu defensor mais fervoroso,
O negou repetidamente (Mt 26:69-75), José de Arimateia, outro “honrado” membro do con­
selho (ver com. de Mc 15:43), publicamente providenciou um local para sepultar Jesus e, com
Nicodemos, ahertamente supervisionou o enterro (ver Mt 27:57-60; jo 19:38-40). Muitos
"homens influentes” creram em Jesus nesse momento, mas não O “confessavam” por temer
a excomunhão (Jo 12:42; ver DTN, 539, 699). Contudo, depois da ressurreição, muitos deles
se tornaram cristãos (ver At 6:7).
3. Os supostos pontos de diferença entre os vários relatos não são tão grandes eomo apa­
rentam nem tornam os relatos mutuamente excludentes. Apenas Lucas menciona o anfi­
trião dc Jesus, nessa ocasião, como um fariseu. No entanto, isso não é de se estranhar,
porque havia muitos fariseus, e foi uma questão dc escolha por parte do escritor identificar
um homem com um fariseu. Somente Lucas cita outras duas ocasiões em que Cristo jan­
tou no lar de um fariseu (Lc 11:37; 14:1). Evidentemente, Lucas considerou a associação de
Cristo com os fariseus numa base social e amigável como um lato digno de observação, o
que explicaria a descrição do anfitrião como um fariseu.
Não é de estranhar que Lucas se detenha sobre a reação de Si mão ao acontecimento,
enquanto os outros evangelhos nada declaram sobre esse aspecto, enfatizando apenas a rea­
ção de Judas. Se Lucas tinha um motivo para introduzir a narrativa nesse ponto do relato,
em vez de colocá-la no final do ministério de Cristo, como o fazem os demais, ele dificil­
mente relataria a atitude de judas e a lição que Cristo procurou lhe ensinar; agir dessa
forma seria inadequado a essa altura dos acontecimentos. Isso teria mostrado Judas num
papel que ele ainda não tinha assumido abertamente; e o relato, como apresentado pelos
outros três evangelhos num momento posterior da narrativa deles, apenas confundiria o 765

leitor de Lucas no momento em que ele insere a história (ver p. 178, 180).
Há vários detalhes da narrativa de Lucas em harmonia com um ou mais dos outros
três evangelhos: (1) Todos concordam que a ocasião era uma festa. (2) Todos concordam
que a pessoa que ungiu Jesus era uma mulher. (3) Os três sinóticos concordam que o
“unguento” estava num recipiente de alabastro; João não menciona o recipiente. (4) Lucas
e Mateus não mencionam o tipo de “unguento”, no entanto, Marcos e João declaram
que era "nardo puro”. (5) Lucas e João mencionam a unção dos pés de Jesus. (6) Lucas
e João mencionam o fato de Maria utilizar seus cabelos como toalha para secar os pés
de Jesus. (7) Os três evangelhos sinóticos indicam o nome do anfitrião como Simão.
Embora essas semelhanças não provem, necessariamente, que o episódio de Lucas seja
o mesmo relatado pelos outros três evangelistas, elas reforçam o grau de probabilidade
dessa conclusão.
Supondo que a lesta no lar de um fariseu, que Lucas registra, seja idêntica à festa no
lar de Simão, em Betânia, duas perguntas exigem resposta: (1) por que Lucas inseriu a
história tão cedo em sua narrativa, tão distante da configuração cronológica real? (2) Por
843
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

que seu relato é tão diferente dos outros três evangelhos em alguns aspectos importan­
tes? O contexto em Lucas fornece uma resposta convincente e plenamente satisfatória a
essas perguntas.
Lucas escreve, principalmente, a cristãos gentios não palestinos (ver p. 727, 728). Tendo
mencionado constantemente a oposição dos líderes judeus a Cristo (Lc 5:17, 21, 30, 33; 6:2,
7, 11; etc.), Lucas temia que leitores gentios entendidos questionassem: Como se esperaria
crer em Cristo se todos os líderes de Sua própria nação, os mais qualificados a avaliar Suas
reivindicações, O rejeitavam? Isso possivelmente explique por que apenas Lucas, entre os
quatro evangelhos, mencionou três ocasiões específicas em que Jesus jantou no lar de um
fariseu (Lc 7:36; 11:37; 14:1), bem como outros exemplos de aparente simpatia entre Jesus
e alguns líderes judeus (ver com. de Lc 7:3).
O contexto imediato do relato de Lucas sobre a festa na casa de Simão esclarece o
motivo pelo qual ele inseriu a história nesse ponto da narrativa. Ele acabara de registrar
que os líderes rejeitaram a mensagem de João Batista e de Jesus (ver v. 30-35), nem todos
os líderes, mas a grande maioria. Para esse fim, nesse exato ponto de sua narrativa de
Cristo, Lucas estaria mais propenso a destacar que alguns dos líderes eram simpáticos a
Ele. Além disso, é neste mesmo capítulo que Lucas relata a mediação cordial de alguns
“anciãos dos judeus” (v. 3). Imediatamente depois desse episódio, Lucas apresenta as cir­
cunstâncias que antecederam a própria confissão de Cristo de que os líderes de Israel
rejeitaram a João e a Cristo (v. 11-35). A simpatia de alguns dos líderes mencionados ime­
diatamente antes e depois dos v. 11 a 35 pode ter sido planejada por Lucas para dissipar
qualquer suspeita por parte de seus leitores de que Cristo poderia não ser o Messias por­
que Sua própria nação O rejeitara.
Partindo do pressuposto de que por essa razão Lucas inseriu o relato da festa de Simão
nesse momento inicial da narrativa do evangelho, e não em sua configuração cronológica
real, torna-se claro o motivo para a grande diferença entre o relato de Lucas e o dos outros
três evangelistas. Assim, não há ocasião no relato de Lucas para a reação de Judas nem para
as referências à iminente morte de Cristo. O tema principal era a atitude de Simão como um
dos líderes de Israel. Para os outros três evangelistas, é a atitude de Judas que tem impor­
tância no contexto em que eles narram o evento. O relato da reação de Judas e o da reação
de Simão não são mutuamente excludentes, mas complementares, e não se contradizem,
mesmo que os dois fossem apresentados por um ou mais dos evangelhos.
A festa na casa de Simão, narrada por Lucas, é claramente identificada, em O Desejado
de Todas as Nações, com a festa no lar de Simão, em Betânia, como o fazem os outros evan-
► gelhos (DTN, 557-563). Simão, de Betânia, também é identificado com o Simão da nar­
766

rativa de Lucas (DTN, 557, 558, 566). Além disso, a mulher anônima do relato de Lucas
é identificada com Maria, de Betânia (DTN, 558-560, 566) e com Maria Madalena, de
quem Jesus expeliu sete demônios (DTN, 568). Ainda, o próprio Simão é declarado ser
aquele que levara Maria ao pecado algum tempo antes (DTN, 566). Simão já professava
fé em Jesus como profeta, reconheceu-O como mestre enviado de Deus e esperava que
Ele fosse o Messias (DTN, 557; cf. Jo 3:1, 2). No entanto, ele ainda não O tinha aceitado
como Salvador, e esse acontecimento se tornou um momento decisivo para sua salvação
(DTN, 567, 568).

844
LUCAS

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

I- 17 -DTN, 315-320 16, 17-DTN, 319 39-43 - DTN, 566


4, 5 - CBV, 65 19-28-DTN, 214-225 43 - CC, 36; T2, 75
4-7 - CBV, 63 21-23-DTN, 217 44, 45 - DTN, 567
4-9-DTN, 316 23 - DTN, 218 47- P], 211; DTN, 567;
5, 6 - DTN, 317 30 - DTN, 595 FEC, 275;
II- 15 - DTN, 318 36-50 - DTN, 557-568 CBV, 182
14 - DTN, 320 38 - DTN, 559 48 - PP, 754

Capítulo 8
3 Mulheres que servem a Cristo com seus hens. 4 Depois de pregar em diversos
lugares, Cristo propõe a parábola do semeador e 16 da candeia. 21 Ele
declara quem são Sua mãe e Seus irmãos, 22 repreende os ventos e
26 expidsa uma legião de demônios para uma manada de porcos.
37 Ele é rejeitado pelos gadarenos, 43 cura a mulher com
fluxo sanguíneo e 49 ressuscita a filha de Jairo.

1 Aconteceu, depois disto, que andava 9 E os Seus discípulos O interrogaram, di­


Jesus de cidade em cidade e de aldeia em al­ zendo: Que parábola é esta?
deia, pregando e anunciando o evangelho do 10 Respondeu-lhes Jesus: A vós outros é
reino de Deus, e os doze iam com Ele, dado conhecer os mistérios do reino de Deus;
2 e também algumas mulheres que haviam aos demais, fala-se por parábolas, para que,
sido curadas de espíritos malignos e de enfer­ vendo, não vejam; e, ouvindo, não entendam.
midades: Maria, chamada Madalena, da qual 11 Este é o sentido da parábola: a semen­
saíram sete demônios; te é a palavra de Deus.
3 e Joana, mulher de Cuza, procurador de 12 A que caiu à beira do caminho são os
Herodes, Suzana e muitas outras, as quais Lhe que a ouviram; vem, a seguir, o diabo e arre­
prestavam assistência com os seus bens. bata-lhes do coração a palavra, para não su­
4 Afluindo uma grande multidão e vindo ceder que, crendo, sejam salvos.
ter com Ele gente de todas as cidades, disse 13 A que caiu sobre a pedra são os que, ou­
Jesus por parábola: vindo a palavra, a recebem com alegria; estes
5 Eis que o semeador saiu a semear. E, ao não têm raiz, creem apenas por algum tempo
semear, uma parte caiu à beira do caminho; foi e, na hora da provação, se desviam.
pisada, e as aves do céu a comeram. 14 A que caiu entre espinhos são os que
6 Outra caiu sobre a pedra; e, tendo cres­ ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufo­
cido, secou por falta de umidade. cados com os cuidados, riquezas e deleites
7 Outra caiu no meio dos espinhos; e estes, da vida; os seus frutos não chegam a ama­
ao crescerem com ela, a sufocaram. durecer.
8 Outra, afinal, caiu em boa terra; cres­ 15 A que caiu na boa terra são os que,
ceu e produziu a cento por um. Dizendo isto, tendo ouvido de bom e reto coração, retem a
767

clamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. palavra; estes frutificam com perseverança. 4

845
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

16 Ninguém, depois de acender uma candeia, apoderara dele. E, emhora procurassem conscr-
a cobre com um vaso ou a põe debaixo de uma vá-lo preso com cadeias e grilhões, tudo despeda­
cama; pelo contrário, coloca-a sobre um velador,çava e era impelido pelo demônio para o deserto.
a fim de que os que entram vejam a luz. 30 Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome?
17 Respondeu
Nada há oculto, que não haja de manifes- ele: Legião, porque tinham entrado
tar-se, nem escondido, que não venha a ser co­ nele muitos demônios.
nhecido e revelado. 31 Rogavam-Lhe que não os mandasse sair
18 Vede, pois, como ouvis; porque ao que para o abismo.
tiver, se lhe dará; e ao que não tiver, até aquilo 32 Ora, andava ali, pastando no monte, uma
que julga ter lhe será tirado. grande manada de porcos; rogaram-Lhe que
19 Vieram ter com Ele Sua mãe e Seus ir­ lhes permitisse entrar naqueles porcos. E Jesus
mãos c não podiam aproximar-se por causa da o permitiu.
concorrência de povo. 33 Tendo os demônios saído do homem,
20 E Lhe comunicaram: Tua mãe e Teus ir­ ram nos porcos, e a manada precipitou-se despe­
mãos estão lá fora e querem ver-Te. nhadeiro abaixo, para dentro do lago, e se afogou.
21 Ele, porém, lhes respondeu: Minha mãe 34 Os porqueiros, vendo o que acontecera,
c Meus irmãos são aqueles que ouvem a palavrafugiram e foram anunciá-lo na cidade c pelos
de Deus e a praticam. campos.
22 Aconteceu que, num daqueles dias, entrou 35 Então, saiu o povo para ver o que se pas­
Ele num barco em companhia dos Seus discípu­sara, e foram ter com Jesus. De fato, acharam o
los e disse-lhes: Passemos para a outra margemhomem de quem saíram os demônios, vestido,
do lago; e partiram. em perfeito juízo, assentado aos pés de Jesus; e
23 Enquanto navegavam, Ele adormeceu. E ficaram dominados de terror.
sobreveio uma tempestade de vento no lago, cor­ 36 E algumas pessoas que tinham presen­
rendo eles o perigo de soçobrar. ciado os fatos contaram-lhes também como fora
24 Chegando-se a Ele, despertaram-No di­ salvo o endemoninhado.
zendo: Mestre, Mestre, estamos perecendo! 37 Todo o povo da circunvizinhança dos ge-
Despertando-Se Jesus, repreendeu o vento e a rasenos rogou-Lhe que Se retirasse deles, pois
fúria da água. Tudo cessou, e veio a bonança. estavam possuídos de grande medo. E Jesus, to­
25 Então, lhes disse: Onde está a vossa fé? mando de novo o barco, voltou.
Eles, possuídos de temor e admiração, diziam uns 38 O homem de quem tinham saído os de­
aos outros: Quem é este que até aos ventos e às mônios rogou-Lhe que o deixasse estar com Ele;
ondas repreende, e Lhe obedecem? Jesus, porém, o despediu, dizendo:
26 Então, rumaram para a terra dos gerase- 39 Volta para casa e conta aos teus tudo o
nos, fronteira da Galileia. que Deus fez por ti. Então, foi ele anunciando
27 Logo ao desembarcar, veio da cidade ao por toda a cidade todas as coisas que Jesus lhe
Seu encontro um homem possesso de demôniostinha feito.
que, havia muito, não se vestia, nem habitava em 40 Ao regressar Jesus, a multidão o recebeu
casa alguma, porém vivia nos sepulcros. com alegria, porque todos o estavam esperando.
28 E, quando viu a Jesus, prostrou-se dian­ 41 Eis que veio um homem chamado Jairo, que
te dEle, exclamando e dizendo em alta voz: Queera chefe da sinagoga, e, prostrando-se aos pés de
tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Jesus, Lhe suplicou que chegasse até a sua casa.
Rogo-Te que não me atormentes. 42 Pois tinha uma filha única de uns doze
29 Porque Jesus ordenara ao espírito imun­ anos, que estava à morte. Enquanto Ele ia, as
do que saísse do homem, pois muitas vezes se multidões ü apertavam.

846
LUCAS

43 Certa mulher que, havia doze anos, vinha 49 Falava Ele ainda, quando veio uma pes­
solrendo de uma hemorragia, e a quem ninguém soa da casa do chefe da sinagoga, dizendo: Tua
tinha podido curar e que gastara com os médicos filha já está morta, não incomodes mais o Mestre.
todos os seus haveres, 50 Mas Jesus, ouvindo isto, lhe disse: Não
44 veio por trás d Ele e Lhe tocou na orla da temas, crê somente, e ela será salva.
veste, e logo se lhe estancou a hemorragia. 51 Tendo chegado à casa, a ninguém permitiu
768

► 45 Mas Jesus disse: Quem Me tocou? Como que entrasse com Ele, senão Pedro, João, Tiago e
lodos negassem, Pedro com seus companheiros bem assim o pai e a mãe da menina.
disse: Mestre, as multidões Tc apertam e Te opri­ 52 E todos choravam e a pranteavam. Mas Ele
mem e dizes: Quem Me tocou? disse: Não choreis; ela não está morta, mas dorme.
46 Contudo, Jesus insistiu: Alguém Me 53 E riam-se dEle, porque sabiam que ela
tocou, porque senti que de Mim saiu poder. estava morta.
47 Vendo a mulher que não podia ocultar- 54 Entretanto, Ele, tomando-a pela mão,
se, aproximou-se trêmula e, prostrando-se dian­ disse-lhe, em voz alta: Menina, levanta-te!
te d Ele, declarou, à vista de todo o povo, a causa 55 Voltou-lhe o espírito, ela imediatamente se
por que Lhe havia tocado e como imediatamen­ levantou, e Ele mandou que lhe dessem de comer.
te fora curada. 56 Seus pais ficaram maravilhados, mas Ele
48 Então, lhe disse: Filha, a tua fé te salvou; lhes advertiu que a ninguém contassem o que
vai-te em paz. havia acontecido.

1. Depois disto. [ As mulheres que assis­ Anunciando o evangelho. Ver com. de


tiam Jesus, Lc 8:1 -3 = Mt 9:35. Comentário Mc 1:1; Lc 1:19.
principal: Lc. Ver mapa, p. 216; gráfico, Reino de Deus. Ver com. de Mt 3:2;
p. 228|. Do gr. kathexês, “um após o outro” 4:17. Durante a primeira parte do ministério
ou “consecutivamente” (ver com. dc Lc 1:3). na Galileia, Jesus proclamou: “Está próximo
Neste versículo, o escritor não se refere à o reino dos céus" (ver Mt 4:17; Mc 1:15). No
narrativa de Lucas 7:36 a 50 como anterior entanto, entre a primeira e a segunda viagem,
ao que ele está prestes a relatar, mas a seu Ele estabeleceu Seu reino formalmcntc (ver
relato do ministério na Galileia iniciado em com. de Mt 5:1; Mc 3:13). Então, Ele saía
Lucas 4:14. Os v. 1 a 3 deste cap. 8 descre­ para proclamar o estabelecimento do reino
vem toda a segunda viagem à Galileia, um e para demonstrar seus benefícios às pessoas
evento que já tinha sido relatado (Lc 7:11-17), (ver com. de Lc 7:11).
e o aborda de modo geral (sobre os even­ Os doze. Na primeira viagem à Galileia,
tos ligados à segunda viagem à Galileia, ver Jesus levou todos os discípulos com Ele (ver
com. de Mt 5:1; Lc 7:11). A segunda viagem com. de Mc 1:39); na terceira viagem, Ele
à Galileia ocupou a maior parte, senão todo os enviou de dois em dois e saiu com outros
o início do outono de 29 d.C. discípulos (ver com. de Mt 9:36).
Andava. Do gr. diodeuõ, “viajar através de”. 2. Algumas mulheres. Uma das carac­
De cidade em cidade e de aldeia em terísticas do evangelho de Lucas são as fre­
aldeia. Havia mais de 200 cidades, vilas e quentes referências ao ministério de Cristo
vilarejos na Galileia, e seria difícil, se não para com as mulheres da Palestina e a atua­
impossível, visitar todas elas, mesmo que ção dc algumas delas em Seu favor. Essa
brevemente, durante as poucas semanas situação era uma novidade, porque o papel
dedicadas a esse itinerário missionário. da mulher judia na vida pública era pouco

847
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

significativo, embora em exemplos isola­ necessário Se esconder das multidões (ver


dos, profetas como Eliseu tenham servido a Mc 1:45; 4:36; 6:31) para descansar. Essas
mulheres e tenham sido auxiliados por elas. várias circunstâncias criaram uma oportuni­
Lucas é o único evangelista a registrar dade para as mulheres que passaram a crer
muitos dos detalhes do início da vida de Jesus em Cristo e assisti-Lo em Sua obra.
e, geralmente, ele o faz do ponto de vista das Haviam sido curadas. Isto é, antes da
mulheres mais preocupadas: Maria, Isabel segunda viagem à Galileia.
e Ana. Em outras situações, ele menciona Espíritos malignos. Maria Madalena,
também a viúva de Naim, a mulher na festa dentre outras, foi libertada de demônios.
de Simão, as mulheres citadas neste versí­ Enfermidades. Do gr. astheneiai, “fra­
culo, Marta e certa mulher incapacitada, quezas”, “debilidades”, “doenças”.
► bem como a filha de jairo e a mulher invá­ Maria, chamada Madalena. Ver Nota
769

lida curada na mesma ocasião. No livro de Adicional a Lucas 7. As narrativas sinóti-


Atos, ele menciona Safira, Priscila, Drusila, cas sempre mencionam Maria Madalena
Berenice, Tabita, Roda, Lídia e várias em primeiro lugar, quando seu nome é alis­
outras mulheres. É como se Lucas dissesse tado junto a outras mulheres (ver Mt 27:56,
que o evangelho do reino dos céus era para 61; 28:1; Mc 15:40, 47; 16:1; Lc 24:10). Esse
homens e mulheres, e que a parte delas na fato testifica da intensa devoção dela a Jesus.
proclamação era tão importante quanto a dos A gratidão de Maria Madalena não era ape­
homens. Nos movimentos de caráter estrita­ nas emocional (ver com. de Lc 7:38, 44), mas
mente religioso, como o dos fariseus, sadu- intensamente prática. Esta Maria é chamada
ceus e outros, as mulheres parecem não ter Madalena para distingui-la de outras Marias.
desempenhado papel algum. Elas não rece­ O nome Maria ocorre frequentemente no
beram nem transmitiram nenhum benefí­ NT e deriva-se do nome hebraico “Miriã”,
cio direto. no AT (ver com. de Mt 1:16). A designa­
Com a segunda viagem à Galileia, o ção Madalena possivelmente indique que
alcance do ministério de Cristo expandiu-se Maria vivia na cidade de Magdala (ver com.
rapidamente, e o grupo de pessoas que então O de Mt 15:39) quando Cristo a encontrou e
acompanhava cresceu muito em comparação libertou do poder dos demônios.
com o grupo que esteve na primeira viagem. 3. Joana. Nada se sabe desta mulher
Essa situação envolveu gastos e trabalho con­ além do que é mencionado neste versículo
sideráveis, a fim de prover alimento e manter e em Lucas 24:10, em que seu nome ocorre
as roupas limpas e restauradas. Cristo nunca novamente junto ao de Maria Madalena.
realizou milagres em benefício próprio (ver Sendo esposa do procurador de Herodes,
com. de Mt 4:6); agir dessa forma seria con­ ela deve ter sido uma pessoa rica e influente.
trário ao Seu propósito. No que concerne às Cuza. Nada mais se sabe sobre este
necessidades materiais, Jesus e os discípu­ homem. Um procurador mantinha posição
los mantinham o princípio de que “digno é importante na família a qual ele servia (ver
o trabalhador do seu alimento” (Mt 10:10). com. de Mt 20:8).
Além disso, as multidões que se aglome­ Suzana. O nome significa “lírio”. Nada
ravam em torno de Jesus e dos discípulos mais se sabe sobre esta mulher. Os hebreus
nesses meses de grande expectativa geral­ ocasionalmente escolhiam nomes de flores
mente lhes davam pouco ou nenhum tempo e árvores para suas filhas.
para se alimentarem ou para dormir (ver As quais lhe prestavam assistência.
Mc 3:7-12, 20). Às vezes, o Salvador achava Evidências textuais favorecem (cf. p. 136) a
848
LUCAS

variante “lhes prestavam", incluindo, assim, 18. Vede. Ver com. de Mt 11:15; 13:13.
os discípulos, principalmente os doze (v. 1), Ao que tiver. Ver com. de Mt 13:12; ver
além de Jesus. também Mt 25:29; Mc 4:25; Lc 6:38; 19:26.
Com seus bens. Isto é, “as coisas que A verdade declarada neste versículo é expla­
lhes pertenciam”. Jesus e Seus discípulos nada por Cristo em várias ocasiões, no iní­
mantinham os recursos numa bolsa comum cio e no final de Seu ministério.
(ver com. de Jo 13:29; cf. Lc 12:6), e parece 19. Vieram ter com Ele. [A família de
que essas discípulas ajudavam a evitar que Jesus, Lc 8:19-21 = Mt 12:46-50 = Mc 3:31-
a bolsa ficasse vazia. Pode-se dizer que esse 35. Comentário principal: Mt].
grupo de mulheres devotas constituiu a pri­ 22. Num daqueles dias. [Jesus acalma
meira sociedade missionária feminina da uma tempestade, Lc 8:22-25 = Mt 8:23-27
igreja cristã. = Mc 4:35-41. Comentário principal: Mt].
4. Afluindo uma grande multi­ 23. Sobreveio uma tempestade. Ver
dão. [A parábola do semeador, Lc 8:4-15 = com. Mc 4:37.
Mt 13:1-23 = Mc 4:1-20. Comentário prin­ 24. Mestre. Do gr. epistatês (ver com.
cipal: Mt]. de Lc 5:5).
11. A palavra de Deus. Isto é, a palavra 26. Os gerasenos. [A cura do ende-
que vem de Deus, ou a palavra dita por Deus. moniado geraseno; Os gerasenos rejeitam a
16. Acender uma candeia. [A pará­ Jesus, Lc 8:26-39 = Mt 8:28-34 = Mc 5:1-20.
bola da candeia, Lc 8:16-18 = Mc 4:21-25]. Comentário principal: Mc].
Ver com. de Mt 5:14-16. Apenas Marcos e 31. Abismo. Do gr. abussos, “um abismo”
Lucas registram esta parábola como parte do (ver com. de Mc 5:10).
Ao regressar Jesus. [O pedido
770

► sermão à beira-mar (Lc 8:4-18; ver Mc 4:1- 40.


34). Possivelmente, o motivo de Mateus não de Jairo; A cura de uma mulher enferma;
incluí-la, seja que ele já tinha mencionado o A ressurreição da filha de Jairo, Lc 8:40-56 =
uso do mesmo tema por Cristo como parte Mt 9:18-25 = Mc 5:21-43. Comentário prin­
do Sermão do Monte (ver Mt 5:14-16). Mais cipal: Mc],
tarde, Lucas repete a parábola de Cristo, 42. Filha única. Do gr. monogenês,
essencialmente a mesma (ver Lc 11:33), “único" (ver com. de Jo 1:14; cf. com. de
com uma aplicação diferente das duas apre­ Lc 1:35). É digno de nota que dois dentre
sentações anteriores do tema. Certas lições três exemplos do uso que Lucas faz de
registradas aqui por Lucas também foram monogenês estejam relacionados com casos
repetidas por Cristo em outras ocasiões (ver de ressurreição: o filho da viúva de Nairn
com. de Lc 8:17, 18). (ver com. de Lc 7:12) e a filha de Jairo.
17. Nada há oculto. Ver Mt 10:26; O terceiro exemplo de monogenês em Lucas
Mc 4:22; Lc 12:22. A lição que Cristo está ligado à cura do jovem possesso (ver
tira da parábola da candeia difere da lição Lc 9:38). Na mente de um oriental, um filho
extraída com relação ao mesmo tema no único ou filha única é a única chance de se
Sermão do Monte. Aqui, Cristo é o portador preservar o nome da família; e, assim, é por­
da luz do triunfo para dispersar as trevas da tador de grande responsabilidade. A morte
mente das pessoas em relação a Deus e ao desse filho ou filha era vista como especial­
reino dos céus (ver com. de Mt 13:11). Não mente trágica. Os israelitas consideravam
há “mistério" ou “segredo" importante para esse acontecimento como uma tragédia para
a salvação que esteja escondido daqueles a família, que se extinguiria (ver com. de
que “prestam atenção" e "ouvem” (Lc 8:18). Dt 25:6).

849
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

43. Gastara [...] os seus haveres. Evi­ “respirar”. Todo uso da palavra para designar
dencias textuais (cf. p. 136) apoiam a omis­ seres possuidores de inteligência é uma I igura
são desta frase. Alguns concluíram que a de linguagem conhecida como sinédoque, por
ética profissional de Lucas, como médico, o meio da qual uma coisa é mencionada por
levou a evitar o que Marcos relatou, a saber, nomear uma de suas partes, normalmente
que os médicos pioraram o caso em vez de a parte que lhe é mais característica. Nada
melhorá-lo (ver Mc 5:26). há inerente a pneuma para que seja enten­
45. E dizes: Quem Me tocou? Evi­ dida como entidade supostamente consciente
dências textuais (cf. p. 136) apoiam a omis­ capaz de existir separadamente do corpo.
são destas palavras. Elas ocorrem na Vulgata O uso da palavra em relação ao ser humano
latina e foram transferidas para a ARA (entre no NT não indica tal conceito. Esse con­
colchetes). ceito está baseado exclusivamente nas opi­
54. Pondo-os todos fora (ACF). Evi­ niões preconcebidas dos que, a priori, creem
dências textuais (cf. p. 136) apoiam a omissão que a entidade consciente sobrevive ao corpo,
destas palavras. No entanto, a autenticidade na morte, e que impõem essa opinião precon­
delas cm Marcos 5:40 é indiscutível. cebida a palavras como “espírito” e “alma”.
55. Espírito. Do gr. pneuma, “vento”, A palavra equivalente a pneuma no AT é a
“sopro”, “espírito”, da raiz pneõ, “soprar” ou heb. ruach (ver com. de Nm 5:14). «3í

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

I - Ev, 52 T4, 286, 391 40-56 - DTN, 342-348


4-15-PJ, 33-61 15 - PJ, 58, 60 45, 46 - DTN, 344;
5 - PJ, 43 18-SC, 91; T5, 694 CBV, 60
II -Ed, 104, 253; PJ, 41 22-39 - DTN, 333-341 48 - DTN, 347;
14-PJ, 51, 53; 24 - DTN, 334 CBV, 61, 122
T3, 384; 28, 35 - DTN, 338 50 - DTN, 343

Capítulo 9
1 Cristo envia os apóstolos para operar milagres e pregar. 7 Herodes deseja ver a
Cristo. 11 Cristo alimenta cinco mil pessoas, 18 pergunta qual a opinião do
mundo a respeito dEle, prediz Sua paixão e 23 propõe a todos o modelo
de Sua paciência. 28 A transfiguração. 37 Ele cura um lunático,
43 novamente prediz a paixão aos discípidos e 46 ordena a
humildade, 51 mansidão e renúncia de vingança.
57 Condições para seguir a Cristo.

1 Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes 3 E disse-lhes: Nada leveis para o caminho:
poder e autoridade sobre todos os demônios, c nem bordão, nem alforje, nem pão, nem dinhei­
para efetuarem curas. ro; nem deveis ter duas túnicas.
2 Também os enviou a pregar o reino de Deus 4 Na casa em que entrardes, ali permane­
e a curar os enfermos. cei e dali saireis.

850
LUCAS 9:1

5 E onde quer que não vos reeeberem, ao sair­ 19 Responderam eles: João Batista, mas ou­
des daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés tros, Elias; e ainda outros dizem que ressurgiu
em testemunho contra eles. um dos antigos profetas.
6 Então, saindo, percorriam todas as aldeias, 20 Mas vós, perguntou Ele, quem dizeis que
anunciando o evangelho e efetuando curas por Eu sou? Então, falou Pedro e disse: Es o Cristo
toda parte. de Deus.
7 Ora, o tctrarca Hcrodcs soube de tudo o 21 Ele, porém, advertindo-os, mandou que a
que se passava e ficou perplexo, porque alguns ninguém declarassem tal coisa,
diziam: João ressuscitou dentre os mortos; 22 dizendo: E necessário que o Filho do
8 outros: Elias apareceu; e outros: RessurgiuHomem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos
um dos antigos profetas. anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos es­
9 Hcrodcs, porém, disse: Eu mandei decapi­cribas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite. 4

772
tar a João; quem é, pois, este a respeito do qual 23 Dizia a todos: Se alguém quer vir após
tenho ouvido tais coisas? E se esforçava por vê-Lo.
Mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua
10 Ao regressarem, os apóstolos relataram cruz c siga-Me.
a Jesus tudo o que tinham feito. E, levando-os 24 Pois quem quiser salvar a sua vida per­
consigo, retirou-Se à parte para uma cidade cha­dê-la-á; quem perder a vida por Minha causa,
mada Betsaida. esse a salvará.
11 Mas as multidões, ao saberem, seguiram- 25 Que aproveita ao homem ganhar o mundo
nO. Acolhendo-as, falava-lhes a respeito do reinointeiro, se vier a perder-se ou a causar dano a si
de Deus e socorria os que tinham necessidade mesmo?
de cura. 26 Porque qualquer que de Mim e das
12Mas o dia começava a declinar. Então, seMinhas palavras se envergonhar, dele Se enver­
aproximaram os doze e Lhe disseram: Despedegonhará o Filho do Homem, quando vier na Sua
a multidão, para que, indo às aldeias e campos glória e na do Pai e dos santos anjos.
circunvizinhos, se hospedem e achem alimento; 27 Verdadeiramente, vos digo: alguns há dos
pois estamos aqui em lugar deserto. que aqui se encontram que, de maneira nenhuma,
13 Ele, porém, lhes disse: Dai-lhes vóspassarão
mesmospela morte até que vejam o reino de Deus.
de comer. Responderam eles: Não temos mais que 28 Cerca de oito dias depois de proferidas
cinco pães c dois peixes, salvo se nós mesmos for­
estas palavras, tomando consigo a Pedro, João e
mos comprar comida para todo este povo. Tiago, subiu ao monte com o propósito de orar.
14Porque estavam ali cerca de cinco mil ho­ 29 E aconteceu que, enquanto Ele orava, a
mens. Então, disse aos Seus discípulos: Fazei-osaparência do Seu rosto se transfigurou e Suas
sentar-se em grupos de cinquenta. vestes resplandeceram de brancura.
15 Eles atenderam, acomodando a Lodos. 30 Eis que dois varões falavam com Ele:
16 E, tomando os cinco pães e os dois Moisés
peixes, e Elias,
erguendo os olhos para o céu, os abençoou, par­ 31 os quais apareceram em glória e falavam
tiu e deu aos discípulos para que os distribuís­ da Sua partida, que Ele estava para cumprir em
sem entre o povo. Jerusalém.
17 Todos comeram e se fartaram; e dos peda­32 Pedro e seus companheiros achavam-se
ços que ainda sobejaram foram recolhidos doze premidos de sono; mas, conservando-se acorda­
cestos. dos, viram a Sua glória e os dois varões que com
18 Estando Ele orando à parte, achavam-se Ele estavam.
presentes os discípulos, a quem perguntou: 33 Ao se retirarem estes de Jesus, disse-Lhe
Quem dizem as multidões que sou Eu? Pedro: Mestre, bom é estarmos aqui; então,
851
9:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

façamos três tendas: uma será Tua, outra, de 48 e lhes disse: Quem receber esta criança
Moisés, e outra, de Elias, não sabendo, porém, cm Meu nome a Mim Me recebe; e quem rece­
o que dizia. ber a Mim recebe aquele que Me enviou; por­
34 Enquanto assim falava, veio uma nuvem que aquele que entre vós for o menor de todos,
e os envolveu; e encheram-se de medo ao entra­ esse é que é grande.
rem na nuvem. 49 Falou João e disse: Mestre, vimos certo
35 E dela veio uma voz, dizendo: Este é o homem que, em Teu nome, expelia demônios e
Meu Filho, o Meu eleito; a Ele ouvi. lho proibimos, porque não segue conosco.
36 Depois daquela voz, achou-Se Jesus sozi­ 50 Mas Jesus lhe disse: Não proibais; pois
nho. Eles calaram-se e, naqueles dias, a ninguém quem não é contra vós outros é por vós.
contaram coisa alguma do que tinham visto. 51 E aconteceu que, ao se completarem os
37 No dia seguinte, ao descerem eles do dias em que devia Ele ser assunto ao Céu, ma­
monte, veio ao encontro de Jesus grande multidão. nifestou, no semblante, a intrépida resolução de
38 E eis que, dentre a multidão, surgiu um ir para Jerusalém
homem, dizendo em alta voz: Mestre, suplico-Te 52 e enviou mensageiros que O antecedes­
que vejas meu filho, porque é o único; sem. Indo eles, entraram numa aldeia de sama-
39 um espírito se apodera dele, e, de repente, ritanos para Lhe preparar pousada.
o menino grita, e o espírito o atira por terra, con­ 53 Mas não O receberam, porque o aspec­
vulsiona-o até espumar; e dificilmente o deixa, to dEle era de quem, decisivamente, ia para
depois de o ter quebrantado. Jerusalém.
40 Roguei aos Teus discípulos que o expelis­ 54 Vendo isto, os discípulos Tiago e João per­
sem, mas eles não puderam. guntaram: Senhor, queres que mandemos descer
41 Respondeu Jesus: Ó geração incrédula e fogo do céu para os consumir?
perversa! Até quando estarei convosco e vos so­ 55 Jesus, porém, voltando-Se os repreendeu e
frerei'? Traze o teu filho. disse: Vós não sabeis de que espírito sois.
42 Quando se ia aproximando, o demônio o 56 Pois o Filho do Homem não veio para des­
atirou no chão e o convulsionou; mas Jesus re­ truir as almas dos homens, mas para salvá-las.

773
preendeu o espírito imundo, curou o menino e o E seguiram para outra aldeia.
entregou a seu pai. 57 Indo eles caminho fora, alguém Lhe disse:
43 E todos ficaram maravilhados ante a Seguir-Te-ei para onde quer que fores.
majestade de Deus. Como todos se maravi­ 58 Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm
lhassem de quanto Jesus fazia, disse aos Seus seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho
discípulos: do Homem não tem onde reclinar a cabeça.
44 Fixai nos vossos ouvidos as seguintes pa­ 59 A outro disse Jesus: Segue-Me! Ele,
lavras: o Filho do Homem está para ser entregue porém, respondeu: Permite-Me ir primeiro se­
nas mãos dos homens. pultar meu pai.
45 Eles, porém, não entendiam isto, e foi-lhes 60 Mas Jesus insistiu: Deixa aos mortos o se­
encoberto para que o não compreendessem; e te­ pultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e
miam interrogá-Lo a este respeito. prega o reino de Deus.
46 Levantou-se entre eles uma discussão 61 Outro Lhe disse: Seguir-Te-ei, Senhor;
sobre qual deles seria o maior. mas deixa-me primeiro despedir-me dos de casa.
47 Mas Jesus, sabendo o que se lhes passava 62 Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que,
no coração, tomou uma criança, colocou-a junto tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto
a Si para o reino de Deus.

852
LUCAS 9:37

1. Convocado os doze. [As instruções descrito como a “grande omissão’' de Lucas.


para os doze, Lc 9:1-6 = Mt 10:1, 5-15 = Nestes versículos, Lucas omite tudo o que
Mc 6:7-13. Comentário principal: Mt], Sobre está registrado em Mateus 14:22 a 16:12;
a escolha dos doze, ver com. de Mc 3:13-19. Marcos 6:45 a 8:26; e João 6:25 a 7:1; isto
7. O tetrarca Herodes. [Herodes e João é, Jesus caminhando sobre o lago, o ser­
Batista, Lc 9:7-9 = Mt 14:1-12 = Mc 6:14-29. mão do Pão da Vida, as discussões com
Comentário principal: Mc]. os fariseus, o retiro para a Fenícia, a cura
Perplexo. Do gr. diaporeõ, “estar com­ do surdo-mudo, a alimentação das quatro
pletamente perdido” (cf. com. de Mc 6:20). mil pessoas e a cura do cego de Betsaida.
9. Eu mandei decapitar a João. Ver Para equilibrar essa “grande omissão”,
Mc 6:17-29. Lucas faz o que é chamado algumas vezes
E se esforçava por vê-Lo. Literalmente, de a “grande inserção”, que consiste aqui
“procurava vê-Lo”. Era mais que um desejo, dos eventos de Lucas 9:51 a 18:14. Quase
por parte de Herodes; ele realmente pro­ nenhum deles ocorre nos outros evangelhos
curava uma oportunidade adequada para (ver com. de Lc 9:51).
ter uma entrevista com Jesus sem, como 22. Filho do Homem. Sobre o contexto
ele pressentia, comprometer sua dignidade do relato dos v. 22 a 27, ver com. de Mt 16:21;
como rei. Herodes parece que teve esse tipo sobre as críticas, ver com. de Mt 16:21-28.
de entrevista com João Batista (ver DTN, 28. Oito dias depois. [A transfigura­
214, 222, 223) e, evidentemente, não via ção, Lc 9:28-36 = Mt 17:1-8 = Mc 9:2-8.
motivo para não ter uma entrevista com Comentário principal: Mt]. Sobre a conta­
Jesus. No entanto, como Nicodemos (ver gem dos “oito dias”, ver p. 245-248.
DTN, 168), Herodes entendia que seria 29. A aparência. Literalmente, “a apa­
humilhante a alguém de sua alta posição ir rência de Seu rosto tornou-se diferente”.
a Jesus abertamente. Poderia parecer que ele Resplandeceram. Isto é, “brilharam"
estava levando a sério as afirmações de Jesus ou “cintilaram”.
e que procurava conselho dEle. Herodes 31. Partida. Do gr. êxodos, “partida”; dos
sabia como Herodias reagiria a esse tipo de radicais ex, “fora de”, e hodos, “caminho” (ver
comentário. Por fim, ele teve uma oportuni­ Hb 11:22; 2Pe 1:15). Este evento é uma refe­
dade de ver Jesus face a face (ver Lc 23:8), rência ao que aguardava Jesus.
mas então o orgulho ferido voltou-o contra 32. Acordados. Os discípulos estavam
o Salvador. sonolentos, em resultado do cansaço da via­
10. Ao regressarem. [A primeira mul­ gem, da subida pela montanha e da hora
tiplicação de pães e peixes, Lc 9:10-17 = avançada (ver com. de Mt 17:1).
Mt 14:13-21 = Mc 6:30-44 = Jo 6:1-13. 33. Mestre. Do gr. epistatês (ver com.
Comentário principal: Mc]. de Lc 5:5).
12. Declinar. Do gr. klinõ, “dobrar”, 35. O Meu Filho, o Meu eleito.
“prostrar-se”, “inclinar-se” (ver com. de Mc Evidências textuais (cf. p. 136) favorecem a
variante “meu Filho eleito”.
774

2:15). Palavras como “declinar”, “inclinar”,


“reclinar” e “clínica” são derivadas de klinõ. 37. No dia seguinte. [A cura de um
18. Orando à parte. [A confissão jovem possesso, Lc 9:37-43a = Mt 17:14-20 =
de Pedro. Jesus prediz a própria morte, Mc 9:14-29. Comentário principal: Mc].
Lc 9:18-22 = Mt 16:13-21 = Mc 8:27-31. Apenas Lucas menciona especificamente
Comentário principal: Mt]. Entre os que a cura do menino ocorreu no dia seguinte
v. 17 e 18 ocorre o que, algumas vezes, é à transfiguração.

853
9:38 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

38. Único. Do gr. monogenes (ver com. grandeza definida por Jesus, é possível a
de Lc 7:12; 8:42; Jo 1:14). todos serem “grandes” (ver com. de Mt 5:5).
39. De repente. Do gr. exaiphnês, “ines­ 51. Ao se completarem os dias. [Os
peradamente” ou “repentinamente”. samaritanos não recebem Jesus, Lc 9:51-56.
Convulsiona-o. Do gr. sparassõ, “con­ Ver mapa, p. 219; gráficos 5, 7, p. 226,
vulsionar” (ver com. dc Mc 1:26). 228]. Ver com. de Lc 2:49. O ministério
43. Majestade. Do gr. megaleiotês, dc Cristo rapidamente chegava ao final. A
“majestade”, “grandeza” ou “magnificência”. cruz estava, nesse momento, cerca de seis
Como todos se maravilhassem. [Dc meses adiante.
novo prediz Jesus a Sua morte, Lc 9:43b-45 = A seção de Lucas que se inicia em 9:51
Mt 17:22, 23 = Mc 9:30-32. Comentário e continua até 18:14 é chamada algumas
principal: Mc]. O restante do v. 43, que vezes de a “grande inserção” ou a “grande
começou com estas palavras, deveria ser interpolação”, devido ao fato de esta parte do
incluído no v. 44, como parte do que vem a livro (quase um terço) registrar material que
seguir. Como está, a divisão do versículo obs­ não ocorre nos demais evangelhos. Os outros
curece a transição de pensamento. evangelhos fazem silêncio quase completo
44. Fixai nos vossos ouvidos. [De a respeito desta fase do ministério de Jesus
novo prediz Jesus a Sua morte, Mt 17:22, (ver com. de Lc 9:18).
23 = Mc 9:30-32] Uma figura de linguagem Ser assunto ao Céu. Do gr. analamhanõ,
que significa apenas “não esquecer”. “iniciar algo novo”. Este é o verbo utilizado
45. E foi-lhes encoberto. Não porque normalmente em relação à ascensão de Cristo
Jesus desejasse que isto ocorresse, porque (ver At 1:2, 11, 22; lTm 3:16; cf. Lc 24:50, 51).
em várias ocasiões Ele Se esforçou para Manifestou, no semblante. I odas as
clarificar o assunto, que foi encoberto por ocorrências na vida missionária de Cristo,
causa da recusa deles em compreender (ver desde a primeira até a última, aconteceram
com. de Mc 9:32). Eles não desejavam com­ como cumprimento de um plano preexis­
preender e, por isso, não compreenderam tente, antes da vinda dEle à Terra, e cada
(ver com. de Mt 13:13). evento ocorreu em seu tempo determinado
Para que o não compreendessem. (ver com. dc Lc 2:49). Repetidas vezes, Jesus
O termo gr. hina, “para que”, como utilizado disse que Seu “tempo” ou Sua "hora’’ ainda
aqui, indica resultado em vez de propósito: não havia chegado (ver Jo 2:4; 7:6, 8; etc.).
“em consequência de que”, em vez de “a Ele refez, essa declaração antes da então
fim de que”. Uma boa ilustração do uso da recente Festa dos Tabernáculos (ver com. de
palavra hina para indicar resultado em vez Jo 7:6), em relação ao momento de Ele “ir a
de propósito ocorre em 1 Tessalonicenses Jerusalém” e ser “recebido no alto”. Em Sua
5:4 (cf. Rm 11:11; G1 5:17; Lc 1:43; Jo 6:7). última saída da Galileia, Jesus estava cons­
46. Levantou-se entre eles uma dis­ ciente e intencionalmente indo para a cruz
cussão. [O maior no reino dos céus. Jesus (ver com. de Mc 10:32). Um sentimento seme­
ensina a tolerância e a caridade, Lc 9:46-50 = lhante moveu Paulo em sua última viagem a
Mt 18:1-5 = Mc 9:33-37. Comentário princi­ Jerusalém (ver At 20:22-24; cf. 2Tm 4:6-8).
pal: Mt e Mc]. Jesus sabia o que estava por vir e não fez
48. Em Meu nome. Uma expressão esforço algum para evitá-lo ou adiá-lo (ver
característica de Lucas (Lc 21:8; At 4:17, com. de Mt 19:1).
18; 5:28, 40; 15:14; etc.). Ir para Jerusalém. Desde o momento
Grande. De acordo com a definição de em que Jesus partiu da Galileia pela última

854
LUCAS 9:55

vez, os evangelhos consideram que Ele estava ver com. de 2Rs 17:23-41; sobre experiências
a caminho de Jerusalém, para cumprir o que posteriores entre eles, ver Ne 4:1-8; 6:1-14).
O aguardava ali (verLc 9:51, 53; 13:22; 17:11; Quem, decisivamente, ia para Jeru­
18:31; 19:11, 28). Durante esse tempo, Jesus salém. Literalmente, “indo para Jerusalém”.
entrava e saía da Judeia, mas passou pouco Passar por Samaria até a Judeia, como geral­
tempo em Jerusalém ou na Judeia a fim de mente faziam os judeus da Galileia, com o
que a crise não fosse precipitada antes do objetivo de adorar a Deus em Jerusalém,
tempo. Muitos meses foram envolvidos nesta indicava a inferioridade da religião samari-
última, sinuosa e lenta (DTN, 485, 495) via­ tana e era, desta forma, tido como insulto
gem a Jerusalém. pelos samaritanos.
52. Enviou mensageiros. Aqui, espcci- 54. Tiago e João. Ver com. de Mc 3:17.
ficamente, Tiago e João (verLc 54; DTN, 487). Estes dois irmãos foram os mensagei­
► Nesta ocasião, parece que os mensageiros ros enviados adiante para fazer os arranjos
775

saíram primeiro para prover as acomoda­ (ver DTN, 487) e o áspero tratamento que
ções para pernoitar. No entanto, esta tam­ receberam dos aldeões feriu seu coração.
bém pode ser uma referência à publicidade Tiago e João eram de temperamento agres­
que Jesus procurava, num esforço para cha­ sivo, característica que, no início, levou Cristo
mar a atenção de todo o Israel para Si, em a chamá-los de “filhos do trovão” (ver com.
antecipação de Sua iminente crucifixão (ver de Mc 3:17). Não muito antes, João tomara
DTN, 485). Este foi o propósito específico para si a responsabilidade de uma repreensão
de Jesus posteriormente, ao enviar os setenta severa a quem ele considerava um inimigo (ver
(ver com. de Lc 10:1). com. de Mc 9:38-41).
Aldeia de samaritanos. A menor rota Mandemos descer fogo. À vista do
entre a Galileia e a judeia passava através monte Carmelo (ver DTN, 487), os pensa­
das montanhas de Samaria. Dois anos antes, mentos dos discípulos naturalmente se volta­
Jesus tomara a mesma rota em direção ao ram às severas medidas tomadas pelo profeta
norte da Judeia para a Galileia (ver com. de Elias ao lidar com o povo impenitente de
Jo 4:3, 4). Com frequência, principal mente seus dias (ver lRs 18:17-46). Talvez eles se
nas ocasiões de festas, quando multidões iam lembrassem, também, da ocasião quando
a Jerusalém, os judeus preferiam a rota mais Elias mandou que caísse fogo do céu para
longa através do vale do Jordão, para evitar destruir alguns inimigos declarados de Deus
contato com os samaritanos. No entanto, o (ver com. de 2Rs 1:10, 13).
próprio Jesus dedicou uma fatia do restante Como Elias também fez? (ARC).
de Seu ministério à região de Samaria (ver Evidências textuais (cf. p. 136) apoiam a
com. de Jo 11:54); e foi às cidades e aldeias de omissão destas palavras. Mas é possível que
Samaria às quais os setenta foram enviados isto estivesse na mente de Tiago e João.
primeiro (ver DTN, 488). Em vista de que eles 55. Repreendeu. O impulso mani­
deveriam ir, de dois em dois, "em cada cidade festado por Tiago e João era totalmente
e lugar aonde Ele estava para ir” (Lc 10:1), o alheio à vontade de Cristo e resultaria ape­
Senhor deve ter visitado pessoalmente algu­ nas no entrave da obra do evangelho. Jesus
mas regiões importantes de Samaria. havia pouco alertara os discípulos con­
53. Não O receberam. Eles recusaram a tra dificultar a obra dos que eram simpá­
Jesus uma noite de hospedagem (DTN, 487). ticos a Ele (v. 49, 50); então aconselhou-os
Havia um ódio atroz entre judeus e samarita­ a não punirem os que se mostrassem hos­
nos (ver Jo 4:9; sobre a origem dos samaritanos,tis. O espírito de vingança não é de Cristo.
855
9:56 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Qualquer tentativa para coagir os que agem Jesus dirigiu este conselho se ofereceu para
de modo diferente a nossas ideias é evidência segui-Lo. Neste verso, Jesus ordenou que o
do espírito de Satanás, não de Cristo (Dl N, homem O seguisse.
487). O espírito de preconceito e intolerância 60. Tu, porém, vai e prega. A ênfase
religiosa é ofensivo aos olhos de Deus, espe­ parece ter sido: “Se você não está espiritual­
cialmente quando manifestado por aqueles mente morto, seu objetivo é ir e pregar o
que professam amá-Lo e servi-Lo. reino de Deus. Deixe o sepultamento dos
Vós não sabeis. Evidências textuais que estão fisicamente mortos para quem está
(cf. p. 136) apoiam a omissão da última sen­ espiritualmente morto.”
tença do v. 55 e da primeira do v. 56. No 61. Deixa-me primeiro. Esta des­
entanto, a verdade aqui expressa está em har­ culpa indica hesitação e indecisão, talvez
monia com outras declarações dos evange­ até mesmo indisposição para fazer o sacri­
lhos (ver Lc 19:10; etc.; ver também Mt 5:17). fício exigido.
56. Outra aldeia. Possivelmente outra Despedir-me. Este pedido envolvia mais
aldeia samaritana, alguma que fosse mais que um breve retorno ao lar. De acordo com
amistosa. Neste versículo, Cristo proveu um o costume oriental, poderia levar meses ou
exemplo da advertência feita anteriormente mesmo anos para arranjar as coisas em casa.
aos discípulos (ver Mt 10:22-24). Alguns Faltavam apenas cerca de seis meses para que
sugeriram que esta poderia ser a aldeia de o ministério de Jesus terminasse e, se este
Sicar ou outra em suas proximidades, cujos discípulo em perspectiva planejava seguir a
habitantes ouviram a Cristo em ocasião ante- Jesus, tinha que agir sem demora. Em pouco
► rior e foram amigáveis (ver Jo 4:39-42). tempo, seria tarde demais. Ele então pro­
776

57. E aconteceu que (ARC). [Jesus pôs deixar Jesus para despedir-se dos anti­
põe à prova os que queriam segui-Lo, Lc gos amigos, e eles poderiam convencê-lo a
9:57-62. Cf. com. de Mt 8:18-22; 16:24, 25; não voltar mais. As exigências de Deus têm
Lc 14:25-33]. Os v. 57 a 62 normalmente primazia sobre as das pessoas, mesmo das
são vistos como paralelos a Mateus 8:19 a mais íntimas (ver Mt 12:48, 49; 19:29). Talvez
22, com base no que Mateus e Lucas inse­ o homem quisesse aproveitar mais uma aven­
riram na narrativa em diferentes momentos tura da vida antes de abandonar tudo e seguir
em seus respectivos registros. No entanto, a Jesus. As circunstâncias eram muito dife­
esta explicação não é convincente. Há moti­ rentes, neste verso, de quando Eliseu foi
vos para considerar as narrativas de Mateus chamado para seguir a Elias. A resposta de
8:19 a 22 e Lucas 9:57 a 62 como relatos de Eliseu foi imediata; a despedida dos parentes
episódios separados e distintos (ver com. de foi rápida (ver com. de lRs 19:20).
Mt 8:19). Cada narrativa está adequada ao Dos de casa. Seus parentes poderiam
seu próprio cenário e contexto. tentar dissuadi-lo, assim como a mãe e os
Indo eles caminho fora. Em Mateus irmãos de Jesus procuraram desviá-Lo de
8:19 a 22 se diz que Jesus e os discípulos Seu dever (ver com. de Mt 12:46).
estavam a ponto de entrar no barco para atra­ 62. Olha para trás. Aquele que “olha
vessar o lago. Neste versículo, eles estavam para trás” não está concentrado na tarefa em
"no caminho”, isto é, fazendo a viagem por questão. Ele é, na melhor das hipóteses, um
terra. Na verdade, eles estavam a caminho de obreiro indiferente (ver com. de Mt 6:24; Lc
Jerusalém (ver com. de Mt 19:1; cf. Lc 9:51). 14:26-28). Jesus manifestou “no semblante,
59. A outro disse Jesus. No relato a intrépida resolução de ir para Jerusalém”
paralelo em Mateus, o homem a quem (Lc 9:51), e todos que desejavam segui-Lo

856
LUCAS 10:1

deveriam necessariamente ser firmes em sua digno para Deus deve fazer sua tarefa de
decisão (cf. Jo 11:16). Entretanto, quando o todo o coração, com atenção ininterrupta.
tempo de prova sobreveio aos doze, todos O provérbio do v. 62 já era conhecido
eles “deixando-O, fugiram” (Mt 26:56). No havia séculos em várias regiões do antigo
decorrer do tempo, porém, todos retorna­ Oriente Médio. Hesíodo, um poeta grego do
ram, exceto Judas. Devoção absoluta e inte­ 8° século a.C., escreveu: ‘Aquele que deseja
gral é essencial ao verdadeiro discipulado. arar sulcos retos não deve olhar ao redor”
Aquele que deseja realizar um trabalho (Os Trabalhos e os Dias, ii.60).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1-6-DTN, 349-358 28-36-DTN, 419-425 53- 56 - DTN, 487; T2,


2 - CPPE, 465; MCH, 226 32 - DTN, 420 566
6 - CPPE, 465 35 - PE, 164; PR, 227 54- HR, 268
7-10 - DTN, 359-363 37-45 - DTN, 426-431 54-56 -AA, 541; GC, 570
10-17-DTN, 364-371 41 - DTN, 428 55, 56 -San, 59
13-PR, 243 43 - DTN, 429 56-PJ, 212; DTN, 582;
18-27-DTN, 410-418 46-48 - DTN, 432-442 CBV, 19

777
23-CBV, 198; TM, 127, 49-T5, 461 58 - CBV, 197 <
178; T6, 248, 249, 449; 51, 52-DTN, 486 59-62-T3, 500
T9, 166, 186 51- 53-AA, 540 60 -T2, 541
26 -AA, 33; PR, 720 52- 54 -San, 58 62 - PR 222, 225; T6, 148

Capítulo 10
1 Cristo envia setenta discípulos para fazer milagres e pregar; 17 exorta-os a serem
humildes e a alegrarem-se. 21 Agradece ao Pai Sua salvação e 23 magnifica o
estado feliz da igreja. 25 Ensina ao intérprete da lei como obter a
vida eterna; 41 repreende Marta e elogia Maria, sua irmã.

1 Depois disto, o Senhor designou outros se­ tudo: Paz seja nesta casa!
tenta; e os enviou de dois em dois, para que O 6 Se houver ali um filho da paz, repousará
precedessem em cada cidade e lugar aonde Ele sobre ele a vossa paz; se não houver, ela volta­
estava para ir. rá sohre vós.
2 E lhes fez a seguinte advertência: A seara é 7 Permanecei na mesma casa, comendo e be­
grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, bendo do que eles tiverem; porque digno é o tra­
pois, ao Senhor da seara que mande trabalhado­ balhador do seu salário. Não andeis a mudar de
res para a Sua seara. casa em casa.
3 Ide! Eis que Eu vos envio como cordeiros 8 Quando entrardes numa cidade e ali vos re­
para o meio de lobos. ceberem, comei do que vos for oferecido.
4 Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandá­ 9 Curai os enfermos que nela houver e
lias; e a ninguém saudeis pelo caminho. anunciai-lhes: Avós outros está próximo o reino
5 Ao entrardes numa casa, dizei antes de de Deus.

857
10:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

10 Quando, porém, entrardes numa cidade e 25 E eis que certo homem, intérprete da Lei, se
não vos receberem, saí pelas ruas e clamai: levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-
11 Até o pó da vossa cidade, que se nos pegou Lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
aos pés, sacudimos contra vós outros. Não obs­ 26 Então, Jesus lhe perguntou: Que está es­
tante, sabei que está próximo o reino de Deus. crito na Lei? Como interpretas?
12 Digo-vos que, naquele dia, haverá menos 27 A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu
rigor para Sodoma do que para aquela cidade. Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma,
13 Ai de ti, Cora7.im! Ai de ti, Betsaida! de todas as tuas forças e de Lodo o teu entendi­
Porque, se em Tiro e em Sidom, se tivessem ope­ mento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
rado os milagres que em vós se fizeram, há muito 28 Então, Jesus lhe disse: Respondeste cor­
que elas se teriam arrependido, assentadas em retamente; faze isto e viverás.
pano de saco e cinza. 29 Ele, porém, querendo justificar-se, per­
14 Contudo, no Juízo, haverá menos rigor guntou a Jesus: Quem é o meu próximo?
para Tiro e Sidom do que para vós outras. 30 Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem
15 Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em
até ao céu? Descerás até ao inlerno. mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe
16 Quem vos der ouvidos ouve-Mc a Mim; roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, re­
e quem vos rejeitar a Mim Me rejeita; quem, tiraram-se, deixando-o semimorto.
porém, Me rejeitar rejeita Aquele que Me enviou. 31 Casual mente, descia um sacerdote por
17 Então, regressaram os setenta, possuídos aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de
de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demô­ largo.
nios se nos submetem pelo Teu nome! 32 Semelhantemente, um levita descia por
18 Mas Ele lhes disse: Eu via Satanás cain­ aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo.
do do céu como um relâmpago. 33 Certo samaritano, que seguia o seu cami­
19 Eis aí vos dei autoridade para pisardes ser­ nho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-
pentes e escorpiões e sobre todo o poder do ini­ se dele.
migo, e nada, absolutamente, vos causará dano. 34 E, chegando-se, pensou-lhe os ferimen­
20 Não obstante, alegrai-vos, não porque os tos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-
espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso o sohrc o seu próprio animal, levou-o para uma
nome está arrolado nos céus. hospedaria e tratou dele.
21 Naquela hora, exultou Jesus no Espírito 35 No dia seguinte, tirou dois denários e os
Santo e exclamou: Graças Te dou, ó Pai, Senhor entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste
do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu
aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeni­ to indenizarei quando voltar.
nos. Sim, ó Pai, porque assim foi do Teu agrado. 36 Qual destes três te parece ter sido o próxi­
22 Tudo Me foi entregue por Meu Pai. mo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?
Ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai; e 37 Respondeu-Lhe o intérprete da Lei: O que
também ninguém sabe quem é o Pai, senão o usou de misericórdia para com ele. Então, lhe
F ilho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. disse: Vai e procede tu de igual modo.
23 E, voltando-Se para os Seus discípulos, 38 Indo eles de caminho, entrou Jesus num
778

► disse-lhes particularmente: Bem-aventurados os povoado. E certa mulher, chamada Marta, hos-


olhos que veem as coisas que vós vedes. pcdou-O na sua casa.
24 Pois Eu vos afirmo que muitos profetas e 39 Tinha ela uma irmã, chamada Maria, e
reis quiseram ver o que vedes e não viram; e ouvir esta quedava-se assentada aos pés do Senhor a
o que ouvis e não o ouviram. ouvir-Lhe os ensinamentos.

858
LUCAS 10:3

40 Marta agitava-se de um lado para outro, 41 Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta!


ocupada em muitos serviços. Então, se aproximou Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas.
de Jesus e disse: Senhor, não Te importas de que 42 Entretanto, pouco é necessário ou mesmo
minha irmã tenha deixado que eu fique a servir uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte,
sozinhal1 Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me. e esta não lhe será tirada.

1. Outros setenta. [A missão dos 17:14; 19:22; ver também a missão dos dois
setenta, Lc 10:1-12. Cf. com. de Mt 9:36- discípulos de João, em Lc 7:19).
11:1. Ver mapa, p. 219; gráfico, p. 228]. Ou, Para que O precedessem. Esta expe­
“setenta outros”; isto é, os setenta eram um dição missionária traz as marcas de uma
acréscimo aos doze, e não a outros “setenta” campanha evangelística organizada cuidado­
anteriormente indicados. A palavra “ainda" samente. O fato de os setenta serem enviados
(ARC) parece uma referência à missão dos a algumas localidades selecionadas significa
doze no ano anterior (sobre a época e as cir­ que Jesus planejou Seu tempo e determinou
cunstâncias da missão dos setenta, ver com. com antecipação aonde iria durante os meses
de Mt 19:1). Há evidências textuais (cf. p. que Lhe restavam (ver com. de Lc 2:49).
136) para a variante “setenta e dois”. O fato Os setenta foram primeiramente às cidade
de os setenta não serem mencionados nova­ e aldeias de Samaria. Isso indica que |esus
mente indica uma eleição temporária. Parece deve ter conduzido um ministério amplo ali
que a eleição ocorreu na Pereia, e os setenta durante o inverno de 30-31 d.C. A atitude
foram enviados primeiramente à região de amigável de Jesus para com o povo de Samaria
Samaria (ver DTN, 488). Eles acompanha­ manifestada na ocasião da visita à mulher de
ram Jesus na terceira viagem à Calileia, Sicar e Seu ministério pelo povo daquela
quando os doze saíram em missão, de dois vizinhança (ver Jo 4:5-42) deve ter contribuído
em dois (ver DTN, 488). para quebrar o preconceito. Aquela visita ocor­
Há uma interessante comparação: Houve reu dois anos antes, possivelmente durante o
12 patriarcas; houve também 12 discípulos inverno de 28-29 d.C. Na ocasião, “muitos” já
(cf. Ap 7:4-8; 21:12, 14). Moisés elegeu 70 tinham crido nEle (Jo 4:39, 41). O ministé­
homens para auxiliá-lo a julgar Israel (ver rio dos setenta ao povo samaritano prepararia
Nm 11:16-25); Jesus também elegeu 70 os discípulos para os labores futuros naquela
para auxiliá-Lo. Segundo a tradição judaica, região (ver At 1:8). Depois da ressurreição,
baseada numa lista de descendentes de Noé um notável êxito acompanhou o trabalho dos
em Gênesis 10, houve 70 nações no mundo. apóstolos ali (ver DTN, 488).
O Sinédrio era constituído de 70 membros, 2. Seara. A maioria das instruções que
além de seu presidente. Desta forma, o Jesus deu aos setenta era semelhante às ins­
número 70 tinha papel importante no pensa­ truções dadas anteriormente aos doze. Não
mento judaico. Os motivos pelos quais Jesus se sabe se a narrativa mais curta em Lucas é
escolheu os setenta, e se Ele conferiu algum um relato abreviado do que Jesus mencionou
significado a esse número, não são revela­ nesta ocasião, ou se as instruções realmente
dos; e a especulação a respeito disso é inútil. foram mais breves que as apresentadas aos
Dois em dois. Assim como os doze (ver doze (sobre essas instruções, ver com. de
com. de Mc 6:7). Este costume parece ter­ Mt 9:37, 38; 10:7-16).
-se tornado comum na obra missionária da
779

3. Ide! Ver com. de Mt 10:5, 6. Jesus


igreja apostólica (ver At 13:2; 15:27, 39, 40; disse anteriormente: “Ainda tenho outras
859
10:4 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

ovelhas, não deste aprisco” (Jo 10:16). Neste seja proibido nas Escrituras. Deve-se lem­
momento, Ele enviou os setenta para encon­ brar que os setenta não entrariam em lares
trar algumas dessas ovelhas perdidas. gentios, onde seria servido alimento proi­
Como cordeiros. Mateus 10:16 traduz bido, apenas entrariam em lares de judeus e
“como ovelhas” (cf. Jo 21:15-17). samaritanos, e ambos eram rigorosos quanto
4. Não leveis bolsa. Sobre a instrução às disposições do Pentateuco acerca de ali­
aos doze, ver com. de Mt 10:9, 10. mentos puros e impuros (ver com. de Lv 11).
Alforje. Do gr. pêra, "um saco de couro”, 9. Reino de Deus. Ver com. de Mt 3:2;
geralmente utilizado pelos viajantes para 4:17; 5:2; 4:19. A mensagem dos doze (ver
guardar roupas ou provisões, possivelmente Mt 10:7) foi a mesma de João Batista (Mt 3:2)

780
também um saco utilizado pelos pobres. e do próprio Jesus (Mc 1:15). «
Sandálias. No v. 7, Jesus explicou por 13. Corazim. [Ai das cidades impeni­
que os proibiu de levar estes itens, conside­ tentes, Lc 10:13-16 = Mt 11:20-24]. Ver com.
rados necessários pelos viajantes. de Mt 11:21-24. Como prelúdio aos comen­
A ninguém saudeis pelo caminho. tários que fez em Lucas 10:16, Jesus men­
Os setenta deveriam reservar as saudações ciona algumas cidades que rejeitaram Sua
para os lares que visitariam (ver Lc 10:5; ver mensagem.
com. de 2Rs 4:29). Ainda hoje as saudações Pano de saco. Do gr. sakkus, "um saco”
orientais são complicadas e longas. Restava ou “um pano grosso [feito de pelos]”; possi­
pouco tempo de vida ao Salvador e a missão velmente do heb. saq (ver com. de Gn 42:25;
dos setenta deveria ser realizada com rapidez. Et 4:1).
Eles foram enviados para proclamar “o reino 15. Elevar-te-ás, porventura, até ao
de Deus”, que exigia pressa (Lc 10:9; sobre a céu? Ver sobre que espírito motivou Satanás
obra dos setenta, ver com. de Mt 3:3; Lc 3:5). (Is 14:13-15).
5. Paz. Uma forma comum de sauda­ Inferno. Do gr. hadês, “sepultura” ou
ção oriental (ver com. de Jr 6:14; Mt 10:13). “morte”; isto é, o reino dos mortos (ver com.
6. Filho da paz. Um hebraísmo típico, de Mt 11:23; 16:18; cf. Is 14:15). As pessoas
que descrevia o líder de uma família como não serão condenadas no grande dia do jul­
um homem agradável, pronto a receber e gamento final porque creram no erro, mas
hospedar. porque negligenciaram as oportunidades for­
7. Na mesma casa. Ver com. de necidas pelo Céu para conhecer o que é a
Mt. 10:11. verdade (ver DTN, 490).
O trabalhador. Ver com. de Mt 10:10; 16. Quem vos der ouvidos. Ver com.
cf. Dt 25:4. Este dito de Jesus é um dos pou­ de Mt 10:40.
cos aos quais Paulo se refere diretamente 17. Regressaram os setenta. [O regres­
(ver ITm 5:18). so dos setenta, Lc 10:17-20]. Ver o retorno
De casa em casa. Ver com. de Mt 10:11. dos doze (ver com. de Mc 6:30).
8. Comei do que vos for oferecido. Alegria. A missão deles foi bem-sucedida.
Os discípulos não deveriam ser comilões, Demônios se nos submetem. Até
solicitando alimento que o anfitrião não onde vai o relato, Jesus não comissionou
oferecesse; ou exigentes, rejeitando comer especificamente os setenta para expulsar
o que ele propiciava. A exortação de Jesus demônios (ver v. 9), assim como ocorreu com
aos setenta é, às vezes, interpretada como o doze (Mt 10:1). No entanto, este aspecto
permissão para comer o que for disponibili­ do ministério parece ter impressionado muito
zado pelo anfitrião, mesmo que o alimento os setenta.
860
LUCAS 10:25

Pelo Teu nome! Ver com. de Mt 10:18, Espírito Santo. Evidências textuais
40. Repletos de alegria, os setenta reconhe­ (cf. p. 136) apoiam a variante “o Espírito
ceram que foi o poder de Jesus operando por Santo”.
meio deles que possibilitou o sucesso. 22. Quiser revelar. Isto é, “desejar” ou
18. Via. Do gr. theõreõ, "olhar”, “contem­ “escolher” revelar (ver com. de Mt 11:27).
plar”, “observar”, normalmente indicando a 23. Bem-aventurados. Do gr. maka-
contemplação calma, intencional e contínua rios, “felizes” ou “bem-sucedidos” (ver com.
de um objeto (cf. jo 2:23; 4:19). de Mt 5:3).
Satanás. Do gr. Satanas, do heb. satan, 25. Intérprete da Lei. [O bom sarna-
“adversário”. ritano, Lc 10:25-37. Sobre as parábolas, ver
Caindo do céu. Ver ls 14:12-15; Jo 12:31, p. 197-204], Jesus estava em Sua última via­
32; Ap 12:7-9, 12. Satanás era um inimigo gem da Galileia para Jerusalém (ver com.
conquistado. Nesta declaração, Jesus olhava de Mt 19:1). A narrativa indica que o evento
adiante, para a crucifixão, quando o poder de ocorreu em Jericó. O cenário envolvendo o
Satanás seria desfeito (ver DTN, 679, 758; samaritano e a vítima de assalto teria ocor­
cf. 687). Ele também viu o tempo quando o rido havia pouco (ver DTN, 499).
pecado e os pecadores não mais existiriam. ímediatamente após o encontro com o
Os setenta testemunharam a expulsão de intérprete da Lei e a narração do caso do
Satanás da vida de muitas pessoas; Jesus bom samaritano, Jesus foi para Betânia, par­
“viu" sua completa queda. tindo de Jericó (ver DTN, 525). E possível
Um relâmpago. Como uma luz ofus­ que Ele estivesse a caminho para participar
cante que pisca e repentinamente se extingue. da Festa de Dedicação, em Jerusalém (ver
19. Autoridade para pisardes. Sobre com. de Mt 19:1; cf. Jo 10:22-38), após a qual
a repetição desta promessa, ver Mc 16:18; e Ele retornaria para a Pereia (ver Jo 10:39, 40).
sobre seu cumprimento, ver At 28:3-5. Imediatamente após a saída dEle para a
Poder do inimigo. A palavra traduzida Pereia (v. 39, 40), João relata a ressurreição
neste versículo como “poder” é dynamis, em de Lázaro (Jo 11:1-46). «òo
comparação com exousia, “autoridade”, que Pôr Jesus à prova. A pergunta do intér­
foi dada aos setenta (ver com. de Lc 1:35). prete da Lei a Jesus foi cuidadosamente estru­
Satanás tinha certo dynamis sobre o qual os turada pelos líderes religiosos (ver DTN, 497).
discípulos deviam exercer exousia (ver com. Mestre. Literalmente, “professor”. Como
de Mt 10:1). profissional do ensino da Lei, o intérprete
Nada, absolutamente, vos causará conironta Jesus com um problema que os
dano. No grego, há uma negação tripla, que próprios escribas discutiam longamente.
fortalece a declaração. Que farei [...]? A pergunta revela que o
20. Alegrai-vos, não porque. A habi­ conceito de justiça do intérprete era equivo­
lidade de operar milagres não assegura, cado. Para ele, bem como para a maioria dos
em si mesma, a vida eterna de alguém (ver judeus da época, obter a salvação era uma
Mt 7:22, 23). questão essencial mente de fazer as coisas
Arrolado nos céus. No livro da vida (ver prescritas pelos escribas. Desta forma, ele
Fp 4:3; Ap 20:12, 15; 21:27; 22:19), em que considerava que a pessoa poderia obter a sal­
são inscritos os candidatos ao reino de Deus. vação pelas obras. No grego, a ênfase é colo­
21. Naquela hora. [Jesus, o Salvador cada sobre a palavra “fazer”.
dos humildes, Lc 10:21-24 = Mt 11:25-27]. Eterna. Do gr. aiõnios (ver com. de
Isto é, o momento do retorno dos setenta. Mt 13:39).

861
10:26 COMEN TÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

26. Como interpretas? Era o ofício do Levítico 19:18, em que o “próximo” sig­
intérprete saber a resposta a esta pergunta. nifica “um companheiro israelita”. Jesus
Ele era professor da lei judaica e, como tal, estende a definição para incluir os sama-
era apropriado que lhe fosse concedida ritanos e, assim, os não judeus (ver com.
oportunidade para a resposta. A pergunta de Lc 10:36).
de Jesus não indica necessariamente uma 28. Respondeste corretamente. Mais
repreensão. Dar oportunidade a outro de res­ tarde, quando Jesus respondeu da mesma
ponder a própria pergunta era uma cortesia. forma à pergunta de outro intérprete da Lei,
27. Amarás. O intérprete da Lei cita o entrevistador O elogiou com as palavras:
Deuteronômio 6:5 (cf. Lc 11:13). Mais tarde, “Mestre, e com verdade disseste” (Mc 12:32).
Jesus respondeu da mesma forma a mesma A resposta de Cristo ultrapassou o aglome­
pergunta feita por outro intérprete da Lei (ver rado de comentários orais e escritos da Lei,
Mt 22:36-38). As palavras de Deuteronômio e mesmo todos os preceitos específicos da
6:5 eram citadas por todo judeu devoto de própria Lei. Cada preceito "da lei”, no sen­
manhã e de tarde como parte do shemá (ver tido mais amplo de “Lei” (ver com. de Pv 3:1)
p. 45), e eram também utilizadas nos lilac - bem como no sentido mais específico dos dez
térios (ver com. de Êx 13:9). Os judeus que mandamentos, é uma expressão, extensão e
possuíam uma visão do sentido intrínseco aplicação do princípio do “amor” (ver com. de
da “lei” (ver com. de Dt 31:9; Pv 3:1) sabiam Lc 10:27). A forma da resposta do intérprete
que suas normas não eram arbitrárias, mas da Lei estava plenamente correta; faltava a
baseadas em princípios fundamentais do visão espiritual na aplicação desse princípio à
direito que poderiam adequadamente ser sua vida (ver com. de Mt 5:17-22). Lie conhe­
resumidos na ordem "amarás”. cia a letra da lei, mas não seu espírito. Esse
Amar a Deus no sentido indicado neste conhecimento vem apenas quando os prin­
versículo quer dizer dedicar o ser completo a cípios da lei são aplicados à vida (ver com.
Seu serviço: as afeições, a vida, a força física dejo 7:17).
e o intelecto. Este tipo de “amor” é "o cumpri­ Faze isto. Literalmente, “continue fazendo
mento da lei” (Rm 13:10), é o tipo de “amor” isto”; ou seja, aplicar esses princípios à vida e
em que uma pessoa permanece quando, pela continuar aplicando-os. O problema era que
graça de Cristo, decide “guardar” os “man­ esse homem, como o jovem rico, achava que
damentos” de Cristo (Jo 14:15; 15:9, 10). Na guardava todas essas coisas desde a juventude
verdade, Deus enviou Seu Filho ao mundo (ver Mt 19:20); mas, ao mesmo tempo, perce­
com o propósito específico de possibilitar- bia que algo ainda faltava em sua vida espiri­
nos guardar “a lei” neste sentido. E desta tual. A justiça legal nunca satisfaz plenamente,
forma que “a justiça da lei” será “cumprida porque há algo vital faltando até que o amor
em nós” (cf. Rm 8:3, 4). Aquele que verda­ de Deus assuma o eontrole da vida (ver 2Co
deiramente “conhece” a Deus guardará “Seus 5:14). Apenas uma pessoa submissa à influên­
mandamentos” porque o “amor” de Deus é cia de tal amor (ver com. de Lc 10:27) pode
“aperfeiçoado” nele (IJo 2:4-6; ver com. de verdadeiramente guardar o espírito da lei (ver
Mt 5:48). Rm 8:3, 4).
Coração. Utilizado aqui no sentido de Viverás. Isto é, no pleno sentido da pala­
782

“inclinação”, “desejo”, “mente”. vra, tanto aqui como na vida futura (ver com. «
Alma. Ver com. de Mt 10:28. de Jo 10:10). No entanto, o contexto mostra
Próximo. Do gr. plêsion (ver com. que Jesus Se refere principalmente à vida
do v. 36). Aqui o intérprete da Lei cita eterna (ver Mt 19:16, 17; Lc 10:25).

862
LUCAS 10:33

29. Querendo. Isto é, o intérprete da A determinada altura, o Wâdi Qelt estreita-


Lei “desejou” ou “decidiu" se justificar diante se num desfiladeiro rochoso que é refúgio de
da audiência. ladrões desde tempos remotos. Toda a região,
Justificar-se. Como o jovem rico com suas muitas cavernas e rochas, provê um
(Mt 19:16-22), o intérprete da Lei não estava esconderijo oportuno para bandidos.
satisfeito com o conceito farisaico de jus­ Roubarem. Esse bando de salteadores
tiça (ver DTN, 497). Como o jovem rico, era extremamente perverso.
ele estava consciente de uma carência em Ferimentos. Talvez porque ele tentou
sua vida que, intuitivamente, ele pressentia resistir.
que Jesus preencheria. Como Nicodemos 31. Casualmente. Ou, “por coincidência”.
(ver com. de Jo 3:2, 3), ele relutava admi­ Descia. Isto é, de Jerusalém para Jericó
tir o fato, até para si mesmo. Portanto, em (ver com. do v. 30).
parte como um meio de negar sua convicção Um sacerdote. O sacerdote e o levita
interna, ele passou a “justificar-se”, fazendo retornavam de seu período de serviço no
parecer cjue havia dificuldades maiores templo (PJ, 382; cf. com. de Lc 1:5, 9, 23).
em real mente amar os companheiros (ver Passou de largo. Como se não tivesse
DTN, 498). visto; na verdade, porque não se importava.
Quem é o meu próximo? Ver com. de A hipocrisia tinha se tornado uma capa,
Mt 5:43. No grego, a ênfase recai sobre o como se fosse para proteger o egoísmo da
pronome. O propósito desta pergunta era inconveniência. O viajante infeliz, nu e
fugir da convicção e vindicar-se (DTN, 498). ferido (ver v. 30, 34) estava sujo e coberto
Quando uma pessoa faz perguntas sutis das de sangue. Se este desafortunado indivíduo
quais sabe ou deveria saber a resposta, é evi­ estivesse morto, tocá-lo significaria contami­
dente que ela está convicta (cf. Jo 4:18-20); nação ritual tanto para o sacerdote quanto
mas, por alguma razão, lança desculpas para para o levita (ver Nm 19:11-22). Além disso,
não fazer o que a consciência lhe diz que ele poderia ser um samaritano ou um gen­
deve fazer. No pensamento do intérprete da tio. E, sob tais circunstâncias, era ilícito ao
Lei, pagãos e samaritanos estavam excluídos sacerdote tocar o cadáver de alguém, mesmo
da categoria “próximo”. A pergunta dele tinha de um parente próximo (ver Lv 21:1-4).
que ver com qual dos companheiros israeli­ Muitas desculpas passaram pela mente des­
tas ele deveria considerar como “próximos”. ses homens enquanto procuravam justificar
30. Certo homem. Este foi um epi­ sua conduta.
sódio real (DTN, 499), que era notícia cm 32. Vendo-o. O levita parece ter sido um
Jericó, o lar do sacerdote e do levita envol­ pouco mais consciente que o sacerdote, ou
vidos no incidente (ver com. dos v. 25, 31). apenas mais curioso. Pelo menos ele desceu
Esses dois homens estavam presentes nesta até o local onde estava o homem, antes de
ocasião (DTN, 499). seguir seu caminho (ver DTN, 499).
Descia de Jerusalém. “Descia” é a 33. Certo samaritano. O fato de o
palavra correta para descrever a descida de samaritano estar viajando no que para ele era
Jerusalém, aproximadamente 790 m acima um distrito estrangeiro, tornou sua atitude
do nível do mar, para Jericó, cerca de 210 m misericordiosa ainda mais notável. Nesse
abaixo do nível do mar. A rota principal de distrito seria provável que o desafortunado
Jerusalém para Jericó seguia o Wâdi Qek, viajante fosse um judeu, membro da etnia
através de uma porção de colinas desabi­ que acalentava a mais profunda inimizade
tadas, estéreis e áridas do deserto de Judá. contra os samaritanos. O samaritano sabia

863
10:34 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

bem que se ele fosse a vítima ferida repou­ responsabilidade pelo estranho. Ele pode­
sando ao lado da estrada, não poderia espe­ ria ter racionalizado que o incidente era na
rar miserieórdia de qualquer judeu comum. Judeia, que o homem seria um judeu e que
No entanto, o samaritano, arriscando-se aos ele, um samaritano, estava livre da respon­
ataques dos salteadores, decidiu auxiliar a sabilidade. Mas, não o fez. O interesse do
pobre vítima. samaritano era além do momentâneo; ele
De modo real, a misericórdia demons- fez mais do que o esperado. O interesse
£► trada pelo samaritano reflete o espírito que dele no estranho continuou além da obri­
moveu o Filho de Deus a vir a esta Terra res­ gação mínima que se esperava de qualquer
gatar o ser humano. Deus não era obrigado transeunte.
a resgatar a humanidade caída. Ele poderia Quando voltar. Possivelmente, na via­
ter passado de largo pelos pecadores, como gem de volta. A confiança que o hospedeiro
o sacerdote e o levita ignoraram o viajante parece ter no samaritano indica que este
na estrada para Jericó. Mas o Senhor estava último era um negociante que frequente­
disposto a ser “tratado como nós merecíamos, mente passava por Jericó e era conhecido.
para que pudéssemos receber o tratamento a 36. Próximo. Do gr. plêsion, literal-
que Ele tinha direito” (DTN, 25). mente, “[alguém] próximo". O sacerdote, o
34. Ferimentos. Do gr. traumata, de levita e o samaritano tinham estado “próxi­
onde se originam as palavras “trauma”, “trau­ mos” ao infeliz viajante na hora da necessi­
matismo”, etc. dade, ainda que apenas um deles tenha agido
Óleo e vinho. Remédios caseiros comuns como um “próximo”. Ser um bom “próximo”
da antiga Palestina. Algumas vezes os dois não é tanto uma questão de proximidade
eram misturados e utilizados como pomada. quanto de vontade de carregar os fardos uns
Uma hospedaria. Do gr. pandocheion, dos outros. Ser bom próximo é a expressão
dos radicais pas, “todos”, e dechomai, “rece­ prática do princípio do amor pelo semelhante
ber”. Um pandocheion era bastante grande (ver com. do v. 27).
em contraste com o menos pretensioso kata- 37. Usou. Do gr. poieõ, literalmente,
luma (ver com. de Lc 2:7). A hospedaria para “fazer” (cf. v. 25). Sob tais circunstâncias,
onde o samaritano levou o desafortunado os meros pensamentos não tinham valor; o
viajante era dentro ou nas proximidades de que contou foram as obras. O intérprete da
Jericó, para onde ele viajava, e a primeira Lei percebeu o ponto crucial da parábola,
cidade a que ele chegou. que era uma resposta efetiva a sua pergunta
35. Dois denários. Isto é, dois dená- (ver v. 29). Nesta narrativa da vida real, Jesus
rios romanos, equivalentes ao salário de dois rejeitou todo o sofisma legalista sobre quem
dias (ver p. 37). deve ser o “próximo” de uma pessoa (ver com.
Hospedeiro. Do gr. pandocheus, “um do v. 29). O “próximo” de uma pessoa é sim­
hospedeiro”; isto é, alguém que administra plesmente quem necessita de seu auxílio.
um pandocheion (ver com. do v. 34). O verdadeiro bom “próximo” salvou a vida
Eu to indenizarei. O texto grego enfa­ de um dos companheiros do intérprete da
tiza a palavra “eu”. Os “dois denários” eram Lei, possivelmente um de seus amigos pes­
apenas um pagamento inicial. Certamente soais. Ele nada encontrou para criticar na
seriam necessários muitos dias antes que o resposta de Jesus à sua pergunta. Ele reco­
viajante ferido se recuperasse o suficiente nheceu, no íntimo, que a definição de Jesus
para continuar sua jornada (ver v. 30). Em de “próximo” era a única verdadeira. Como
vista disso, o bom samaritano assumiu total um intérprete da Lei, ele conseguia apreciar

864
LUCAS 10:41

mais plenamente que outros na audiência a 39. Maria. Ver Nota Adicional a Lucas 7.
profunda compreensão de Jesus acerca do Marta era responsável pelo lar e tinha por
verdadeiro significado da lei (ver com. dos v. natureza uma mente prática. Por sua vez,
26-28); como professor, ele deve ter apreciado Maria era mais preocupada com as coisas
o modo lúcido com que Jesus tratou sua per­ espirituais. Marta “pensava” nas necessida­
gunta. De qualquer forma, seu preconceito des diárias do lar (ver com. de Mt 6:25-34),
contra Jesus foi removido (ver PJ, 380). enquanto Maria buscava “primeiro o reino
Vai e procede tu. No grego, a ênfase de Deus e sua justiça” (Mt 6:33). Embora
está no pronome. A palavra “fazer” vem do não mencionado nesta ocasião, Lázaro, o
gr. poieõ, a mesma traduzida como “usou” na irmão de Marta e Maria, era um dos cons­
resposta do intérprete da Lei a Jesus. O intér­ tantes amigos de Jesus e discípulo leal (ver
prete disse: “o que usou de misericórdia”; DTN, 524).
Jesus respondeu: “vai e procede tu de igual Aos pés do Senhor. “Sentar” aos “pés”
modo”. Em outras palavras, se você deseja de alguém não se refere tanto à questão de
conhecer o verdadeiro bom “próximo”, vá assumir alguma postura, mas ser aprendiz,
e modele sua conduta pela do Tamaritano. embora as duas ideias possam ter sido verda­
Tal é a natureza da verdadeira religião (ver deiras aqui (ver At 22:3; cf. Dt 33:3).
Mq 6:8; Tg 1:27). Nossos semelhantes pre­ 40. Ocupada. Marta estava “ocupada”
cisam sentir o aperto de “uma mão cálida” ou “demasiadamente ocupada” com a pres­
e a amizade de “um coração cheio de ter­ são de muitos detalhes necessários à hospi­
nura” (PJ, 388). Deus “permite que tenhamos talidade aos convidados.
contato com o sofrimento e a calamidade Senhor, não Te importas [...]? Marta
para nos tirar de nosso egoísmo” (PJ, 388). sabia, de experiências passadas, que nada
E para nosso hem eterno ser, na prática, o conseguiria ao apelar diretamente a Maria.
► verdadeiro bom “próximo” onde quer que hajaComo Jesus influenciava muito a Maria, tal­
784

oportunidade (cf. Hb 13:2). vez Sua influência serviria no que ela pró­
38. Num povoado. [Marta e Maria, pria fracassara. Houve também um homem
Lc 10:38-42. Ver mapa, p. 220]. Embora que apelou a Jesus para persuadir seu irmão
Lucas não cite aqui, esse “povoado” era a dividir a herança familiar (ver Lc 12:13, 14).
Betânia (ver Jo 11:1), e esta foi a primeira Ao apelar a Jesus, Marta não apenas enver­
visita de Jesus ali (ver DTN, 525). Ele aca­ gonhou Maria, como indiretamente censu­
bara de chegar pelo Wâdi Qelt, saindo de rou a Jesus. O problema real, indicava ela,
Jericó (DTN, 525; ver com. de Lc 10:30), não repousava no fato de que Ele “não Se impor­
muito tempo depois do evento relatado nos tava” com a situação ou não tinha intenção
v. 25 a 37 (ver com. do v. 25). Depois disso, de fazer nada a respeito, porque Ele Se agra­
Jesus frequentemente visitava o lar de Maria, dava mais em que Maria O ouvisse do que
Marta e Lázaro (ver DTN, 524), pelo menos auxiliando no preparo da refeição.
há duas outras visitas registradas (Jo 11:17; 41. Marta, Marta. A repetição do nome
12:1-3), mas Ele pode tê-los visitado várias indica afeição e, algumas vezes, preocupação
vezes (ver Mt 21:17; Mc 11:1, 11; Lc 19:29). (ver Lc 22:31; At 9:4).
Marta. A respeito de um breve esboço Andas inquieta. Do gr. merimnaõ, “estar
do caráter de Marta, ver com. do v. 41. Marta ansioso”, “estar turbado [com cuidados]” ou
era a mais velha das duas irmãs e aquela “cuidar de”. A palavra merimnaõ se refere à
que administrava os assuntos do lar. Ela era distração mental, interior, que era a verdadeira
aquela que “O hospedara em seu lar”. causa da impaciência de Marta com Maria.

865
J 0:42 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

No Sermão do Monte, Jesus fez uma adver­ calmo e devocional de sua irmã Maria (ver
tência contra esse tipo de atitude (ali, a pala­ DTN, 525). Ela não aprendera a lição dada
vra merimnaõ é traduzida como “não andeis em Mateus 6:33, de dar prioridade ao reino
ansiosos”; ver Mt 6:25, 28, 31, 34). Aqueles de Deus, e um papel subordinado às coisas
que se tornam seguidores de Jesus evitarão materiais (ver com. dos v. 24-34).
a ansiedade que moveu Marta em seu petu­ Escolheu a boa parte. Em resultado de
lante apelo a Jesus. suas próprias experiências, Maria aprendeu
Preocupas. Uma referência ao com­ a lição que sua irmã Marta precisava cap­
portamento externo de Marta, em contraste tar (ver Nota Adicional a Lucas 7). Alguns
com seus sentimentos interiores. Ela estava consideram a expressão “boa parte” como
“ansiosa” internamente e, assim, “preo­ sendo um jogo de palavras, em que Jesus

785
cupada” externamente. Se apenas buscás­ faz referência ao melhor prato na mesa. <
semos cultivar aquela compostura interior “A boa parte”, a “única coisa” necessária para
de que Marta tanto precisava, evitaríamos Marta, era uma profunda preocupação pelo
muita ansiedade desnecessária. conhecimento do reino de Deus.
Muitas coisas. A hospitalidade simples Não lhe será tirada. As coisas mate­
seria suficiente para Jesus; Ele não exigia coi­ riais em que Marta se interessava seriam tira­
sas elaboradas. das (ver Lc 12:13-21; 16:25, 26). Maria estava
42. Uma só coisa. Ver Lc 18:22, “ainda acumulando “tesouro inextinguível nos céus,
te falta uma coisa”. Marta era diligente, onde não chega o ladrão, nem a traça con­
rápida e enérgica, mas faltava a ela o espírito some” (Lc 12:33; ver com. de Mt 6:19-21).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1 - DTN, 488; Ev, 58, 72 25-28 - PJ, 377; DTN, 497; 29- 37 -T3, 512; T4, 226; BS,
1-24-DTN, 485-496 FEC, 419; T5, 359 42-49
2 - OE, 27; CBV, 58; MJ, 23; 25-30 - BS, 43 30- 32 - DTN, 499
Ti, 368, 473; T2, 116 25-37 - PJ, 376-389; DTN, 30-37-T8, 59
3 - DTN, 353 497-505; T3, 523; T4, 57 31, 32-T3, 530
5 - DTN, 351 26 - PJ, 39; CBV, 21 33, 34-T3, 531
7 - Ev, 493; T5, 374; T8, 142 27-PJ, 49; CM, 212, 296; 33-35 -T6, 276
8, 9-CBV, 139; MS, 253 CPPE, 403; Ed, 16, 228; 33-37 - DTN, 503
9 - CPPE, 465; Ev, 52; MS, FEC, 436; PR, 82; PP, 36, 37-PJ, 380; MDC, 42;
249; T4, 225 305; TM, 439; T2, 45, MCH, 188, 232
10-15-DTN, 489 153, 168, 170; T3, 246, 37 - DTN, 504
10-16-T4, 197 546; T4, 50, 224, 226, 38- 42 - DTN, 524-536; T6,
16 -Tl, 360; T3, 450 228, 353, 521; T5, 428; 118
17-CBV, 139 T6, 103, 303, 447, 477; 39 - CPPE, 442; MS, 332;
17-19 _ DTN, 490; CBV, 94 T8, 64, 139, 164; T9, 212 TM, 223, 343; T5, 367;
19-MDC, 119 27, 28 - Ev, 242 T9, 38
20 - DTN, 493; GC, 481 28 - DTN, 498, 504; T3, 534 39- 42 - TM, 346
21, 22-DTN, 494 29 - PJ, 376, 389; DTN, 503; 39, 42 - FEC, 132; CBV,
25 - DTN, 504 MCH, 232; T6, 294 458; T8, 319
25, 26 - GC, 598 29-35 - PJ, 379 40- 42-DTN, 525; BS, 154

866
LUCAS 11:1

Capítulo 11
1 Cristo ensina a orar e 11 assegura que Deus deseja dar-nos boas coisas. 14 Ele
expulsa um demônio mudo e repreende os blasfemos fariseus. 28 Mostra
quem é abençoado, 29 prega ao povo e 37 repreende a aparência
exterior de santidade nos fariseus, escribas e intérpretes da lei.

1 De uma feita, estava Jesus orando em certo o demônio, o mudo passou a falar; e as multidões
lugar; quando terminou, um dos Seus discípulos se admiravam.
Lhe pediu: Senhor, cnsina-nos a orar como tam­ 15 Mas alguns dentre eles diziam: Ora, Ele
bém João ensinou aos seus discípulos. expele os demônios pelo poder de Belzebu, o
2 Então, Ele os ensinou: Quando orardes, maioral dos demônios.
dizei: Pai, santificado seja o Teu nome; venha 16 E outros, tentando-O, pediam dEle um
o Teu reino; sinal do céu.
3 o pão nosso cotidiano dá-nos de dia em dia; 17 E, sabendo Ele o que se lhes passava pelo
4 perdoa-nos os nossos pecados, pois também espírito, disse-lhes: Todo reino dividido contra
nós perdoamos a todo o que nos deve; e não nos si mesmo ficará deserto, e casa sobre casa cairá.
deixes cair cm tentação. 18 Se também Satanás estiver dividido con­
5 Disse-lhes ainda Jesus: Qual dentre vós, tra si mesmo, como subsistirá o seu reino? Isto,
tendo um amigo, e este for procurá-lo à meia-noi­ porque dizeis que Eu expulso os demônios por
te c lhe disser: Amigo, empresta-mc três pães, Belzebu.
6 pois um meu amigo, chegando de viagem, 19 E, se Eu expulso os demônios por Belzebu,
procurou-me, e eu nada tenho que lhe oferecer. por quem os expulsam vossos filhos? Por isso, eles
7 E o outro lhe responda lá de dentro, dizen­ mesmos serão os vossos juízes.
do: Não me importunes; a porta já está fechada, 20 Se, porém, Eu expulso os demônios pelo
e os meus filhos comigo também já estão deita­ dedo de Deus, certamente, é chegado o reino de
dos. Não posso levantar-me para tos dar; Deus sobre vós.
8 digo-vos que, se não se levantar para dar- 21 Quando o valente, bem armado, guarda
lhos por ser seu amigo, todavia, o fará por causa a sua própria casa, licam em segurança todos
da importunação e lhe dará tudo o de que tiver os seus bens.
necessidade. 22 Sobrevindo, porém, um mais valente do
9 Por isso, vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á; bus­ que ele, vence-o, tira-lhe a armadura em que con­
cai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. fiava c lhe divide os despojos.
786

► 10 Pois todo o que pede recebe; o que busca 23 Quem não é por Mim é contra Mim; e
encontra; e a quem bate, abrir-se-lhe-á. quem comigo não ajunta espalha.
11 Qual dentre vós é o pai que, se o filho lhe 24 Quando o espírito imundo sai do homem,
pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir um anda por lugares áridos, procurando repouso; e,
peixe, lhe dará em lugar de peixe uma cobra? não o achando, diz: Voltarei para minha casa,
12 Ou, se lhe pedir um ovo lhe dará um donde saí.
escorpião? 25 E, tendo voltado, a encontra varrida e
13 Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas ornamentada.
dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celes­ 26 Então, vai e leva consigo outros sete espí­
tial dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedirem?ritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali;
14 De outra feita, estava Jesus expelindo um e o último estado daquele homem se torna pior
demônio que era mudo. E aconteceu que, ao sair do que o primeiro.

867
11:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

27 Ora, aconteceu que, ao dizer Jesus estas 40 Insensatos! Quem fez o exterior não é o
palavras, uma mulher, que estava entre a multi­ mesmo que fez o interior?
dão, exclamou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela 41 Antes, dai esmola do que tiverdes, e tudo
que Te concebeu, e os seios que Te amamentaram! vos será limpo.
28 Ele, porém, respondeu: Antes, bem-aven­ 42 Mas ai de vós, fariseus! Porque dais o dízimo
turados são os que ouvem a palavra de Deus e a da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças e des­
guardam! prezais a justiça e o amor de Deus; devíeis, porém,
29 Como afluíssem as multidões, passou Jesus fazer estas coisas, sem omitir aquelas.

787
a dizer: Esta é geração perversa! Pede sinal; mas ne­ 43 Ai de vós, fariseus! Porque gostais da pri- «
nhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. meira cadeira nas sinagogas e das saudações nas
30 Porque, assim como Jonas foi sinal para praças.
os ninivitas, o Filho do Homem o será para esta 44 Ai de vós que sois como as sepulturas invisí­
geração. veis, sobre as quais os homens passam sem o saber!
31 A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com 45 Então, respondendo um dos intérpretes da
os homens desta geração e os condenará; porque Lei, disse a Jesus: Mestre, dizendo estas coisas,
veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria também nos ofendes a nós outros!
de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que 46 Mas Ele respondeu: Ai de vós também, in­
Salomão. térpretes da Lei! Porque sobrecarregais os homens
32 Ninivitas sc levantarão, no Juízo, com esta com fardos superiores às suas forças, mas vós mes­
geração e a condenarão; porque se arrependeram mos nem com um dedo os tocais.
com a pregação de Jonas. E eis aqui está quem é 47 Ai de vós! Porque edificais os túmulos dos
maior do que jonas. profetas que vossos pais assassinaram.
33 Ninguém, depois de acender uma candeia, 48 Assim, sois testemunhas e aprovais com
a põe cm lugar escondido, nem debaixo do alquei­ cumplicidade as obras dos vossos pais; porque
re, mas no velador, a fim de que os que entram eles mataram os profetas, e vós lhes edificais os
vejam a luz. túmulos.
34 São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; 49 Por isso, também disse a sabedoria de Deus:
se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, e a alguns deles
luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo fica­ matarão e a outros perseguirão,
rá cm trevas. 50 para que desta geração se peçam contas
35 Repara, pois, que a luz que há em ti não do sangue dos profetas, derramado desde a fun­
sejam trevas. dação do mundo;
36 Se, portanto, todo o teu corpo for lumino­ 51 desde o sangue de Abel até ao de Zacarias,
so, sem ter qualquer parte em trevas, será todo que foi assassinado entre o altar e a casa de Deus.
resplandecente como a candeia quando te ilumi­ Sim, Eu vos afirmo, contas serão pedidas a esta
na em plena luz. geração.
37 Ao falar Jesus estas palavras, um fariseu O 52 Ai de vós, intérpretes da Lei! Porque tomas­
convidou para ir comer com ele; então, entrando, tes a chave da ciência; contudo, vós mesmos não
tomou lugar à mesa. entrastes e impedistes os que estavam entrando.
38 O fariseu, porém, admirou-se ao ver que 53 Saindo Jesus dali, passaram os escribas e fa­
Jesus não Se lavara primeiro, antes de comer. riseus a argui-Lo com veemência, procurando con-
39 O Senhor, porém, lhe disse: Vós, fariseus, fundi-Lo a respeito de muitos assuntos,
limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso 54 com o intuito de tirar das Suas próprias pa­
interior está cheio de rapina e perversidade. lavras motivos para O acusar.

868
LUCAS 11:7

1. Estava Jesus orando. [A oração Como também João ensinou. Nada


dominical, Lc 11:1-4 = Mt 6:9-15]. Lucas mais se diz nas Escrituras acerca de João
nada registra acerca do tempo e local deste ensinar seus discípulos a orar. Naturalmente,
evento. Se ele estiver seguindo uma sequên­ os discípulos de João, ao se unirem aos de
cia cronológica, o evento pode ter ocorrido Jesus (ver com. de Mc 6:29), relatavam as coi­
logo depois da visita a Betânia (Lc 10:38-42). sas que aprenderam de seu mestre anterior.
Nesse caso, pode ter ocorrido próximo da 2. Dizei. Esta oração pode ser adequa­
visita de Jesus a Jerusalém para a Festa damente chamada de a Oração do Discípulo,
da Dedicação, quando houve uma tentativa porque, de modo geral, não seria o tipo de
de apedrejá-Lo (DTN, 470; ver com. de oração que Jesus fazia. Por exemplo, Jesus ◄

788
Lc 17:1; Jo 10:22, 31, 33). O incidente pode não tinha necessidade de orar pelo per­
ter ocorrido em Jerusalém, ou em algum dão dos pecados (sobre a oração ensinada
lugar da Pereia (sobre os eventos dessa época, por Jesus em ocasião anterior, ver com. de
ver com. de Mt 19:1). A hora pode ter sido Mt 6:9-13; ver PJ, 140).
de manhã, o momento usual em que Jesus Pai. Um novo nome pelo qual Jesus
orava deste modo (PJ, 139). Nessa ocasião, ensinou as pessoas a se dirigirem a Deus,
os discípulos estiveram ausentes por pouco a fim de fortalecer a fé e imprimir nelas a
tempo (PJ, 140), talvez em missão (ver com. ideia do íntimo relacionamento que se pode
de Lc 10:1), ou para uma breve visita a seus desfrutar em companheirismo com Deus
lares (ver DTN, 259; sobre a vida de oração (PJ, 141, 142).
de Jesus, ver com. de Mc 1:35; 3:13). 5. Qual dentre vós. [A parábola do
Ensina-nos a orar. Os discípulos fica­ amigo importuno, Lc 11:5-8]. Jesus extraiu
ram impressionados ao ouvir como Jesus diversas lições desta parábola (ver com. do
orava, falando com o Pai celestial, como a v. 8; sobre as circunstâncias envolvidas, ver
um amigo. A oração dEle era diferente das com. do v. 1; e sobre as parábolas e os prin­
preces dos líderes religiosos da época, na ver­ cípios para sua interpretação, ver p. 197-204).
dade, diferente de tudo o que tinham ouvido. A meia-noite. No Oriente, muitas via­
A prece formal, expressa em frases prontas e gens durante o verão ocorrem à noite. Por
aparentemente dirigidas a um Deus impes­ outro lado, pode ser que este visitante (v. 6)
soal e distante, não tem a vitalidade que se atrasou na viagem.
deveria caracterizar a oração. Eles pensa­ 6. Um meu amigo. Um importante
vam que, se orassem como Jesus, sua efi­ detalhe na narrativa é que o homem não
cácia como discípulos seria ampliada. Uma pede para si mesmo, mas para um amigo
vez que Jesus os ensinou a orar por pre­ em necessidade (ver com. do v. 8).
ceito (Mt 6:7-15) e exemplo (Lc 9:29), pode Eu nada tenho. O fato de o homem não
ser que, nessa ocasião, o pedido tenha sido ter nada explica porque ele pediu ajuda à
de discípulos que não estiveram com Jesus meia-noite. A consciência de que não pode­
em ocasiões semelhantes anteriormente. mos fazer nada de nós mesmos (Jo 15:5)
O termo “discípulos” não precisa ser confi­ deveria de modo semelhante, levar-nos à
nado aos doze. Pode ter sido feito por alguns Fonte de alimento espiritual (ver Jo 6:27-
dos setenta. Em harmonia com o pedido 58). À vezes, aqueles que desejam levar os
“ensina-nos a orar”, Jesus respondeu com amigos a Cristo sentem que lhes falta o pão
uma oração modelo, para ilustrar o espírito celestial que desejam compartilhar.
de súplica e um pouco de exortação à fide­ 7. Não me importunes. Isto não era
lidade e diligência na oração (Lc 11:2-13). por mesquinhez; a aversão ao incômodo
869
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

conduziu às palavras: “Não me importunes.” Mt 7:7, 11. A oração não é para persuadir
Mas, uma vez que ele já havia sido importu­ Deus acerca de nossa vontade a respeito de
nado a sair da cama, abasteceu o visitante uma questão; às vezes, é para descobrir a
com o pão de que necessitava (v. 8). vontade dEle a respeito dessa questão. Ele
Deus não é como o ser humano que se conhece as necessidades antes de pedirmos;
irrita ao ser importunado. Ele é um Pai gene­ mais que isso, Ele sabe o que é melhor. Por
roso, amoroso e solícito (ver v. 9-13). A relu­ outro lado, o ser humano geralmente tem
tância do amigo em se levantar para suprir uma consciência vaga de suas próprias neces­
a necessidade do próximo de modo algum sidades. Com frequência, pensa que precisa
representa a Deus (ver v. 13). A lição da pará­ de coisas que não são necessárias e que até
bola não é de comparação, mas de contraste. podem ser prejudiciais. Às vezes, sequer está
Fechada. Como se dissesse: “Está fe­ consciente de suas maiores necessidades
chada e permanecerá fechada.” Tornar uma (cf. PJ, 145). A oração pode levar a vontade
porta segura, nos tempos antigos, não era e, desta forma, a vida, a estar em harmonia
uma tarefa simples. com a vontade de Deus (ver PJ, 143). A ora­
Comigo também já estão deitados. ção é o meio divinamente indicado para edu­
Em muitas regiões do Oriente, ainda hoje, car os desejos. Não é o verdadeiro propósito

789
os membros da família dormem juntos em da oração operar uma mudança em Deus, <
um quarto, geralmente sobre um “colchão de mas operar uma mudança em nós, para que
palha” no assoalho, ou elevam plataformas desejemos “tanto o querer como o realizar,
no modelo de camas. Um membro da família segundo a Sua boa vontade” (Fp 2:13).
que se levanta, facilmente acorda os demais. Ao suplicante sincero Deus enviará uma
Não posso. Na verdade, atender ao resposta a cada pedido pronunciado com
pedido do amigo era apenas uma questão humildade e fé. Ele pode dizer “sim”, “não”
de disposição, não de capacidade. ou “espere”. Algumas respostas podem ser
8. Importunação. Do gr. anaideia, lite- adiadas porque uma mudança deve ocorrer
ralmentc, “falta de vergonha” ou “atrevi­ na pessoa antes que Deus possa respondê-la
mento”. Várias vezes o líder do lar repeliu (ver DTN, 200). Há condições definidas para
os chamados urgentes do visitante à meia- a oração ser respondida; e, se parece haver
noite (ver PJ, 143), mas o visitante não acei­ demora, deve-se perguntar se a dificuldade
taria um “não” como resposta. “Há na fé não está com o suplicante. E um insulto ser
genuína, firmeza, constância de princípio, e impaciente quando as condições humanas
estabilidade de propósito, que nem o tempo que possibilitam a oração ser atendida não
nem fadigas podem enfraquecer” (PJ, 147). são cumpridas.
Novamente, a parábola ensina por contraste A lição central da parábola é a constân­
e não por comparação (ver com. do v. 7). cia na oração. A parábola também define
Deus não está indisposto a conceder o que o tipo de pedidos para os quais o Senhor
é bom. Não é preciso que O convençamos a aconselha perseverança: orações cujo obje­
fazer algo que de outro modo não estaria dis­ tivo é o bem dos semelhantes e a exten­
posto a fazer. Deus conhece nossas necessi­ são do reino de Deus. “Tudo quanto Cristo
dades, é plenamente capaz de supri-las e está recebeu de Deus podemos nós possuir tam­
disposto a fazer “infinitamente mais do que bém” (PJ, 149). A inconstância na oração não
tudo quanto pedimos ou pensamos” (Ef 3:20). agrada a Deus, “em quem não pode existir
9. Pedi. [Jesus incita a orar, Lc 11:9-13 = variação ou sombra de mudança” (Tg 1:17).
Mt 7:7-12]. Sobre os v. 9-13, ver com. de Aquele que é inconstante na oração não

870
LUCAS 11:37

espera, na verdade, algo de Deus. “O que concedessem honra especial a Maria, esta
duvida” não deve supor “que alcançará do teria sido uma oportunidade ideal para
Senhor alguma coisa” (Tg 1:6, 7). tanto. Ele também não aprovou cordial­
14. Expelindo um demônio. [A cura mente o que foi dito, como fez quando Pedro
de um endemoniado mudo. A blasfêmia dos O reconheceu como o Filho de Deus (ver
fariseus. Jesus Se defende, Lc 11:14-23 = com. de Mt 16:17). Nas Escrituras, o reco­
Mt 12:22-32 = Mc 3:20-30. Comentário prin­ nhecimento da divindade de Jesus é essen­
cipal: Mt]. Quando se compara o evento e as cial, enquanto a ideia de se prestar honra a
falas subsequentes, narrados aqui por Lucas, Maria não é sequer insinuada (ver com. de
com a passagem paralela em Mateus, fica Mt 1:18, 25; 12:48, 50; Lc 1:28, 47). Jesus
evidente que Lucas não está seguindo uma parece negar qualquer importância especial
ordem estritamente cronológica. O evento atribuída a Maria, por parte dos cristãos (ver
relatado por Mateus ocorreu quase um ano e Mt 12:46-50).
meio antes do tempo indicado pelo contexto 29. Geração perversa. [O sinal de
do registro de Lucas (ver com. de Mt 12:22; Jonas, Lc 11:29-32 = Mt 12:38-42]. Sobre
Lc 11:1). A semelhança entre os dois relatos os v. 29-32, ver com. de Mt 12:38-42. Não há
(exceto Lc 11:16, 27, 28) contraria a ideia de consenso se este é o mesmo evento registrado
que o registro de Lucas seja de um evento em Mateus 12:38 a 42, ou se é um incidente
diferente, ligado ao ministério na Pereia (ver posterior ligado ao ministério na Pereia (ver
com. de v. 1). Se dois eventos são descri­ DTN, 488; ver com. de Lc 11:1, 33).
tos, nesse caso, eles seriam quase idênticos, 33. Acender uma candeia. [A parábola

790
inclusive a discussão subsequente. da candeia, Lc 11:33-36 = Mt 6:22-23]. Ver*
16. E outros, tentando-O. Ver com. com. de Mt 5:15. Lucas já havia registrado
de Mt 12:38-42; 16:1. um discurso de Cristo sobre uma lâmpada
24. O espírito imundo. [A estratégia e sua luz em ligação com o sermão à beira-
de Satanás, Lc 11:24-26 = Mt 12:43-45], Ver mar (ver com. de Lc 8:16). Isso sugere que
com. de Mt 12:43-45. esse evento (Lc 11:33-36) teria ocorrido pos­
27. Uma mulher. [A exclamação de teriormente, durante o ministério na Pereia.
uma mulher, Lc 11:27-28]. Ela era "da comu­ Jesus repetiu muito de Seus ensinos iniciais
nidade”, isto é, pertencia ao grupo que ouvira durante esse período (ver DTN, 488). Isso
a discussão anterior. Além disso, a expressão pode indicar que os v. 14 a 32 tratam de
“estas palavras” liga o evento dos v. 27 e 28 à eventos ocorridos na Pereia (ver com. dos
discussão anterior. Neste ponto da narração, v. 14, 29).
Mateus fala a respeito da mãe e dos irmãos 37. Um fariseu. | Jesus censura os fari­
de Jesus (Mt 12:46), um incidente que Lucas seus, Lc 11:37-44], Ver com. de Mt 23:1-39;
relata em 8:19 a 21. Pode ser que a chegada Lc 20:45-47. O evento narrado nos v. 37 a 54
deles impeliu esta mulher a lazer a declara­ parece distinto do mencionado em Mateus
ção registrada aqui. 23:1 a 39 e Lucas 20:45 a 47. As palavras
28. Antes. Jesus não contradisse o elo­ “ao falar” (Lc 11:37) estão intimamente liga­
gio da mulher a Maria; como qualquer boa das ao restante do capítulo em que estão
mãe ela era merecedora de honra. Em vez inseridas. Nessa ocasião, Jesus estava jan­
disto, Jesus salientou a impropriedade do tando no lar de um fariseu, enquanto na
conceito da mulher acerca do reino dos Céus. outra Ele estava no pátio do templo em
Ele não aprovou nem desaprovou o que ela Jerusalém (ver com. de Mt 23:38; 24:1). Este
disse. Se Jesus pretendesse que os cristãos incidente ocorreu “poucos meses” antes do

871
11:38 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

final do ministério de Jesus (PJ, 253; ver correspondente ao substantivo aphrosune,


«1»
com. de Lc 12:1). loucura .
A argumentação da Alta Crítica de que 41. Antes, dai esmola. Ver Lc 12:33.
Lucas utiliza diversas fontes conforme as O significado do v. 41 é obscuro. A expres­
encontrava, arranjando-as conforme lhe são ta enonta, traduzida como “do que tiver­
aprazia, sem compreender a ligação delas des”, não ocorre em outro lugar no NT, e o
com outros eventos da vida de Jesus, não que Jesus quis dizer é incerto. O texto grego
tem fundamento. Em geral, os pregadores parece favorecer a tradução da NTLH: “o que
utilizam um mesmo sermão com algumas está dentro”, isto é, “dentro” do “copo” e do
variações em ocasiões diferentes, e não há “prato”, ou “dentro” dos próprios fariseus (ver
problema em se pensar que Jesus tenha agido V. 39). Se Jesus Se referia a “copo” e “prato”, Ele
da mesma forma na apresentação de Suas estaria sugerindo que a generosidade para com
mensagens. Na realidade, seria estranho se, os pobres é mais eficaz contra a contamina­
no ensino de aldeia em aldeia e de distrito ção do que a purificação cerimonial dos reci­
em distrito, Ele nunca repetisse as mesmas pientes em que o alimento é colocado. Caso
verdades gerais. A semelhança verbal entre Se referisse aos próprios fariseus, Ele esta­
discursos que, como o contexto revela, foram ria dizendo que a generosidade e o cuidado
apresentados em diferentes momentos tam­ pelos pobres é mais eficaz para a limpeza do
bém não é algo estranho. Às vezes, as pala­ coração do que a preocupação com minúcias
vras de Lucas são semelhantes às de outros da tradição (ver com. de Mc 7:7; ver o conse- «js
escritores, mesmo no registro de diferentes lho de Jesus ao jovem rico, em Lc 18:22, 23).
incidentes na vida de Cristo. Contudo, isso E tudo vos será limpo. Ver com. de
não é razão para se negar a inspiração divina Mc 7:19. O sentido aqui é: “você será puro aos
de seu relato. Além disso, é preciso lem­ olhos de Deus”; e, quando esta condição pre­
brar que os evangelhos nem sempre seguem dominar, nada mais deverá causar preocupa­
uma ordem cronológica na apresentação ção. No entanto, alguns consideram estas
das narrativas (ver Ellen White, Material palavras como uma ironia: “Você será puro
Suplementar sobre 2Pe 1:21). [aos próprios olhos]”, quando der esmolas.
Comer com ele. Sobre os costumes 42. Ai de vós. Ver com. de Mt 23:13.
judaicos à mesa, ver com. de Mc 2:15. Da hortelã, da arruda. Ver com. de
38. Admirou-se. Ver com. de Mt 22:4; Mt 23:23.
sobre o rito de lavar as mãos, ver com. de Mc 43. Primeira cadeira. Ver com. de
7:1-8; sobre os ensinos de Jesus sobre o tema, Mt 23:6.
ver com. de Mc 7:9-23. 44. Escribas e fariseus, hipócritas!
39. Limpais o exterior. Ver com. de (ARC). Evidências textuais (cf. p. 136) ates­
Mt 23:25. tam a omissão destas palavras (sobre os escri­
Rapina. Do gr. harpage, “rapina”, “saque”, bas e fariseus, ver p. 39, 40; sobre a palavra
“pilhagem”, “roubo” ou “assalto”. Em Hebreus“hipócritas”, ver com. de Mt 6:2).
10:34, a palavra harpagê é traduzida como Sepulturas invisíveis. O tempo apaga
“espólio”. A forma adjetiva, harpax, é utilizadatoda evidência externa das sepulturas, e
para lobos “devoradores” (ver com. de Mt 7:15)sobre elas as pessoas podem passar “sem
e para “roubadores” (ver Lc 18:11; lCo 5:10; o saber”. O contato com os mortos causava
6: 10) . contaminação ritual.
40. Insensatos. Do gr. aphrones, “insensa­ 45. Um dos intérpretes da lei.
tos” ou “tolos”. A palavra apkrõn é um adjetivo [Ai dos intérpretes da Lei! Lc 11:45-52],
872
LUCAS 11:54

Este detalhe característico da narrativa de 50. Desta geração. Ver com. de


Lucas não ocorre no registro de Mateus Mt 12:39; 23:36; 24:34.
23:27. Os “intérpretes da lei” eram os “escri­ Dos profetas. Ver com. de Mt 23:35, 36.
bas”. Escrevendo para gentios, que talvez não Fundação do mundo. Ver Mt 13:35;
entendessem o significado hebraico técnico 25:34; Ap 13:8.
da palavra “escriba”, Lucas substitui o termo 52. Chave da ciência. Ver com. de
por “intérprete da lei”. Mt 23:13. A “chave da ciência” é a que abre
Também nos ofendes. A maioria dos a porta do conhecimento da salvação, como
escribas eram fariseus. Os fariseus consti­ este contexto e o de Mateus 23:13 o indi­
tuíam uma seita, e os escribas ou “intérpre­ cam (sobre o uso da palavra “chaves”, ver
tes da lei” eram os expositores profissionais com. de Mt 16:19).
da lei. No relato de Mateus 23, Jesus Se 53. Dizendo-lhes Ele isso (ARC).
dirige aos fariseus e escribas desde o [O plano para tirar a vida de Jesus, Lc 11:53-
princípio. Esta é outra indicação de que 54], Evidências textuais favorecem (cf. p.
Lucas registra, neste versículo, um inci­ 136) a variante “saindo Jesus dali” (ARA).
dente ocorrido em outra ocasião, diferente Os escribas e fariseus. Sobre os
do mencionado em Mateus, a despeito de escribas e fariseus, ver p. 39, 40; sobre
semelhanças entre os dois relatos (ver com. o empenho deles para impedir a obra
do v. 37). de Jesus, ver com. de Mt 4:12; Mc 2:24;
46. Sobrecarregais os homens. Ver Lc 6:6, 7, 11; etc.
com. de Mt 23:4. 54. Motivos para O acusar. Evidências
47. Edificai os túmulos. Ver com. de textuais favorecem (cf. p. 136) a omissão
Mt 23:29, 30. desta frase. Durante dois anos, espias do
49. Sabedoria de Deus. Ver com. de Sinédrio perseguiram os passos de Jesus na
Mt 23:34. O próprio Jesus é “a sabedoria Galileia e na Judeia (DTN, 213; ver com. do
de Deus” encarnada (ICo 1:24, 30), mas é v. 53). A esta altura, eles estavam mais ati­
duvidoso que Jesus Se refira a Si mesmo. vos ainda. Mas os espias nada ouviram que
E mais provável que Ele quisesse dizer “Deus pudesse ser interpretado contra Ele, exceto
em Sua sabedoria”. Não há conhecimento de com deliberada distorção e deturpação (ver
um livro que tenha este título. com. de Mt 26:59-63).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1 -PJ, 140; MDC, 103; 9, 10 - CS, 380 28 - FEC, 339; T4, 60


T9, 278 9-13-PJ, 141; TM, 381 35 - PR, 83; T3, 59,
1-13-PJ, 139-149 11, 12-PE, 21; Tl, 71 65
4- MDC, 113 11-13-CPPE, 242 37-52-TM, 76
5, 6 - T2, 28 13-AA, 50; FEC, 434, 537; 42-PE, 166; T2, 85
5- 8 - PJ, 140 GC, 477; MDC, 132; 52-TM, 109; T3, 441;
7-9 - DTN, 495
792

Tl, 120; T5, 157; T8, 22 T5, 728


9 - PJ, 147; T7, 214 21 -T5, 309; T6, 407 54 - PJ, 22; TM, 108

873
12:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Capítulo 12
J Cristo exorta Seus discípulos a evitar a hipocrisia e a não sentir temor de pregar Sua
doutrina. 13 Alerta o povo a cuidar com a avareza, por meio da parábola do
rico que ampliou os celeiros. 22 Sobre a preocupação com as coisas materiais,
31 o reino de Deus, 33 o dar esmolas e 36 estar pronto para receber o Senhor
quando Ele vier. 41 Os ministros de Cristo devem cumprir suas
responsabilidades e 49 não se surpreender com a perseguição.
54 As pessoas devem aproveitar o tempo de graça,
58 porque terrível é morrer ir reconciliado.

1 Posto que miríades de pessoas se aglome­ preocupeis quanto ao modo por que responde­
raram, a ponto de uns aos outros se atropelarem, reis, nem quanto às coisas que tiverdes de falar.
passou Jesus a dizer, antes de tudo, aos Seus dis­ 12 Porque o Espírito Santo vos ensinará, na­
cípulos: Acautelai-vos do fermento dos fariseus, quela mesma hora, as coisas que deveis dizer.
que é a hipocrisia. 13 Nesse ponto, um homem que estava no
2 Nada há encoberto que não venha a ser re­ meio da multidão Lhe falou: Mestre, ordena a
velado; e oculto que não venha a ser conhecido. meu irmão que reparta comigo a herança.
3 Porque tudo o que dissestes às escuras será 14 Mas Jesus lhe respondeu: Homem, quem
ouvido em plena luz; e o que dissestes aos ouvidos Me constituiu juiz ou partidor entre vós?
no interior da casa será proclamado dos eirados. 15 Então, lhes recomendou: Tende cuidado e
4 Digo-vos, pois, amigos Meus: não temais os guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque
que matam o corpo e, depois disso, nada mais a vida de um homem não consiste na abundân­
podem fazer. cia dos bens que ele possui.
5 Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis 16 E lhes proferiu ainda uma parábola, di­
temer: temei aquele que, depois de matar, tem zendo: O campo de um homem rico produziu
poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a com abundância.
esse deveis temer. 17 E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que
6 Não se vendem cinco pardais por dois farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos?
asses? Entretanto, nenhum deles está em esque­ 18 E disse: Farei isto: destruirei os meus ce­
cimento diante de Deus. leiros, reconstruí-los-ei maiores e aí recolherei
7 Ate os cabelos da vossa cabeça estão todos todo o meu produto e todos os meus bens.
contados. Não temais! Bem mais valeis do que 19 Então, direi à minha alma: tens cm de­
muitos pardais. pósito muitos bens para muitos anos; descansa,
8 Digo-vos ainda: todo aquele que Me con­ come, bebe e regala-te.
fessar diante dos homens, também o Filho do 20 Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te
Homem o confessará diante dos anjos de Deus; pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para
9 mas o que Me negar diante dos homens quem será?
será negado diante dos anjos de Deus. 21 Assim é o que entesoura para si mesmo e
10 Todo aquele que proferir uma palavra não é rico para com Deus.
contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoa­ 22 A seguir, dirigiu-Sc Jesus a Seus discípu­
do; mas, para o que blasfemar contra o Espírito los, dizendo: Por isso, Eu vos advirto: não andeis
Santo, não haverá perdão. ansiosos pela vossa vida, , quanto ao que haveis
11 Quando vos levarem às sinagogas e pe­ de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que
rante os governadores e as autoridades, não vos haveis de vestir.

874
LUCAS 12:1

23 Porque a vida é mais do que o alimento, e 39 Sabei, porém, isto: se o pai de família sou­
o corpo, mais do que as vestes. besse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria c
24 Observai os corvos, os quais não semeiam, não deixaria arrombar a sua casa.
nem ceifam, não têm despensa nem celeiros; to­ 40 Ficai também vós apercebidos, porque, à
davia, Deus os sustenta. Quanto mais valeis do hora em que não cuidais, o Filho do Homem virá.
que as aves! 41 Então, Pedro perguntou: Senhor, proferes
25 Qual de vós, por ansioso que esteja, pode esta parábola para nós ou também para todos?
acrescentar um côvado ao curso da sua vida? 42 Disse o Senhor: Quem é, pois, o mordomo
26 Se, portanto, nada podeis fazer quanto às liei e prudente, a quem o senhor confiará os seus
coisas mínimas, por que andais ansiosos pelas conservos para dar-lhes o sustento a seu tempo?
outras? 43 Bem-aventurado aquele servo a quem seu
27 Observai os lírios; eles não fiam, nem senhor, quando vier, achar fazendo assim.
tecem. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, 44 Verdadeiramente, vos digo que lhe confia­
em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. rá todos os seus bens.
28 Ora, se Deus veste assim a erva que hoje 45 Mas, se aquele servo disser consigo mesmo:
793

► está no campo c amanhã é lançada no forno, quan­ Meu senhor tarda em vir, e passar a espan­
to mais tratando-se de vós, homens de pequena fé! car os criados e as criadas, a comer, a beber e a
29 Não andeis, pois, a indagar o que haveis de embriagar-se,
comer ou beber e não vos entregueis a inquietações. 46 virá o senhor daquele servo, em dia cm que
30 Porque os gentios de todo o mundo c que não o espera e em hora que não sabe, e castigá-lo-á,
procuram estas coisas; mas vosso Pai sabe que ne­ lançando-lhe a sorte com os infiéis.
cessitais delas. 47 Aquele servo, porém, que conheceu a vonta­
31 Buscai, antes de tudo, o Seu reino, e estas de de seu senhor c não se aprontou, nem fez segun­
coisas vos serão acrescentadas. do a sua vontade será punido com muitos açoites.
32 Não temais, ó pequenino rebanho; porque 48 Aquele, porém, que não soube a vontade do
vosso Pai Se agradou em dar-vos o Seu reino. seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará
33 Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado,
para vós outros bolsas que não desgastem, tesou­ muito lhe será exigido; c àquele a quem muito se
ro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, confia, muito mais lhe pedirão.
nem a traça consome, 49 Eu vim para lançar fogo sobre a terra c bem
34 porque, onde está o vosso tesouro, aí esta­ quisera que já estivesse a arder.
rá também o vosso coração. 50 Tenho, porém, um batismo com o qual hei
35 Cingido esteja o vosso corpo, e acesas, as de ser batizado; e quanto Me angustio até que o
vossas candeias. mesmo se realize!
36 Sede vós semelhantes a homens que 51 Supondes que vim para dar paz à terra? Não,
esperam pelo seu senhor, ao voltar ele das festas de Eu vo-lo alirmo; antes, divisão.
casamento; para que, quando vier e bater à porta, 52 Porque, daqui em diante, estarão cinco di­
logo lha abram. vididos numa casa: três contra dois, e dois con­
37 Bem-aventurados aqueles servos a quem o tra três.
senhor, quando vier, os encontre vigilantes; em ver­ 53 Estarão divididos: pai contra filho, filho con­
dade vos afirmo que ele há de cingir-se, dar-lhes tra pai; mãe contra filha, filha contra mãe; sogra
lugar à mesa e, aproximando-se, os servirá. contra nora, c nora contra sogra.
38 Quer ele venha na segunda vigília, quer 54 Disse também às multidões: Quando
na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim vedes aparecer uma nuvem no poente, logo di­
os achar. zeis que vem chuva, e assim acontece;

875
12:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

55 e, quando vedes soprar o vento sul, dizeis 58 Quando fores com o teu adversário ao ma­
que haverá calor, e assim acontece. gistrado, esforça-te para te livrares desse adver­
56 Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto sário no caminho; para que não suceda que ele
da terra c do céu e, entretanto, não sabeis dis­ te arraste ao juiz, o juiz te entregue ao meirinho
cernir esta época? e o meirinho te recolha à prisão.
57 E por que não julgais também por vós mes­ 59 Digo-te que não sairás dali enquanto não

794
mos o que é justo? pagares o último centavo.

1. Entretanto (ARC). [O fermento dos viram o fermento dos fariseus em ação (ver
fariseus. Algumas admoestações, Lc 12:1- Lc 11:37-54).
12]. Em ocasiões anteriores Jesus tinha pro­ Hipocrisia. Antes, Jesus tinha definido
ferido a maioria dos conselhos registrados o “fermento” dos fariseus como a “doutrina”
em Lucas 12 (ver DTN, 408, 488; Lc 12:2- deles (ver Mt 16:12), isto é, o que professa­
9, 51-53 é semelhante a Mt 10:26-36; vam crer e o que ensinavam. Neste versí­
Lc 12:22-34, 57-59 é idêntico a Mt 6:25-34, culo, o termo “fermento” é aplicado ao modo
19-21; 5:25, 26; Lc 12:39-46 é análogo a de vida deles. Na teoria (“doutrina”) e na
Mt 24:43-51; e Lc 12:54-56 tem as mes­ prática (“hipocrisia”), por preceito e exem­
mas características de Mt 16:2, 3). Mesmo plo, a influência dos fariseus distanciava as
assim, este capítulo deve ser, em sua tota­ pessoas de Deus e da verdade (sobre a pala­
lidade, um discurso apresentado logo após vra “hipócrita”, ver com. de Mt 6:2; 23:13).
a visita ao lar do fariseu (Lc 11), como 2. Nada há encoberto. Sobre os v. 2-9,
sugere a conjunção “entretanto” (ARC; ver ver com. de Mt 10:27-33.
com. de Lc 11:53, 54). Restavam poucos 3. Interior. Literalmente, “câmaras [inte­
meses para o término do ministério terres­ riores]”, onde os bens eram armazenados.
tre de Jesus (PJ, 253). O tema do cap. 12 5. Inferno. Do gr. geena (ver com. de
de Lucas é a sinceridade e a devoção que Mt 5:22; Jr 19:2).
caracterizariam o verdadeiro seguidor de 6. Cinco pardais. Em Mateus 10:29,
Jesus, em contraste com a hipocrisia dos dois pardais são vendidos por um “asse”.
fariseus. Asses. Do gr. assaria (ver p. 37; ver com.
Miríades de pessoas. Do gr. muria- de Mt 10:29).
des, literalmente, “dez milhares”; portanto, 8. Confessar. Literalmente, “concordar
no uso geral, qualquer número grande (ver com” e “reconhecer”.
At 21:20). A palavra “miríade” origina-se do 10. Uma palavra contra. Ver com. de
radical murias (plural, muriades). Mt 12:32.
Uns aos outros se atropelarem. Um Filho do Homem. Ver com. de Mt 1:1;
detalhe que enfatiza a extensão da multidão. Mc 2:10.
Antes de tudo. O discurso seguinte 11. Os governadores e as autorida­
foi dirigido aos discípulos, mas também se des. Literalmente, “líderes e autoridades"
destinava às “miríades” de pessoas. As pala­ (sobre os v. 11, 12, ver com. de Mt 10:19, 20).
vras “antes de tudo” não devem ser ligadas a 13. Um homem. [Jesus reprova a ava­
“acautelai-vos”, mas a "passou Jesus a dizer reza, Lc 12:13-21]. A respeito das parábolas,
aos Seus discípulos”. ver p. 197-204], Isto é, alguém da “multi­
Acautelai-vos. Ver com. de Mt 16:5-9. dão” (ver v. 1) que aguardava Cristo na rua,
No incidente no lar do fariseu, os discípulos fora da casa do fariseu que o hospedava (ver

876
LUCAS 12:15

Lc 11:37). Este homem que se dirigiu a Jesus 15. Avareza. Do gr. pleonexia (ver com.
tinha ouvido as acusações contra os escri­ de Mc 7:22). A avareza pode ser definida
bas e fariseus (ver Lc 11:39-52; PJ, 253) e o como afeição indevida às coisas materiais,
conselho aos discípulos sobre o compareei- especialmente as que pertencem a outrem.
mento diante de magistrados (ver Lc 12:11; O homem que se dirigiu a Cristo não neces­
cf. PJ, 252). Ele concluiu que se Jesus falasse sitava de mais riquezas; ele precisava que a
com seu irmão com a mesma autoridade, ele avareza fosse tirada de seu coração, após o
não se atreveria a fazer diferentemente do que as riquezas seriam de pouco valor para
que Jesus ordenasse. Ele imaginou o evan­ ele. Como sempre, Jesus foi à raiz da questão
gelho do reino apenas como um meio de pro­ e propôs uma solução que excluiria proble­
mover interesses egoístas (comparar com a mas semelhantes no futuro. Ele não apresen­
atitude do mago Simão, em At 8:9-24). tou soluções temporárias como as propostas
Multidão. Do gr. ochlos, traduzido como pelo denominado evangelho social. A maior
“pessoas”, no v. 1 (sobre a cronologia deste necessidade das pessoas não é de salário
incidente, ver com. do v. 1). ou lucros maiores. Elas precisam de uma
Ordena a meu irmão. Os dois irmãos mudança de coração e mente que as levará
eram ambiciosos; do contrário, haveria pouca a buscar primeiro o reino de Deus e Sua jus­
possibilidade de briga entre eles. tiça, em plena confiança de que as necessi­
Reparta comigo a herança. De acordo dades da vida “serão acrescentadas” (ver com.
com a lei mosaica de herança, o irmão mais de Mt 6:33).
velho recebia duas partes dos bens do pai, Abundância dos bens. Ver com. de
e os demais, uma parte cada um (ver com. Mt 6:24-34. O apego aos bens materiais é a
de Dt 21:17). Talvez fosse o irmão mais novo raiz dos grandes problemas do mundo. Ele
que apelava a Jesus e contestava que o irmão está na base de grande parte das filosofias
mais velho recebesse a porção dobrada desig­ políticas e econômicas, sendo, assim, res­
nada por lei. ponsável pela maioria dos conflitos nacio­
14. Homem. Esta forma de tratamento nais e de classes. A insatisfação com o que
► indica rigor ou severidade (ver Lc 22:58, 60; se possui gera o desejo de ter mais e con­
795

Rm 2:1; 9:20). duz à exploração dos outros. Em vez disso,


Juiz ou partidor. O reino que Jesus pro­ deve-se trabalhar honestamente. A avareza
clamou “não era deste mundo” (ver Jo 18:36). é a causa de muitos dos problemas mun­
Ele não comissionou os discípulos como diais insolúveis.
agentes de justiça social, importante como O pedido do homem a Jesus foi induzido
ela o seja, e em nenhum momento fez qual­ pelo mesmo espírito que leva empregado­
quer tentativa para agir judicialmente entre res a buscar mais rendimentos, a despeito
as pessoas (ver Jo 8:3-11). Como os profetas dos meios pelos quais serão assegurados, e
antigos (Mq 6:8; etc.), Jesus estabeleceu os que leva trabalhadores a exigir salário cres­
princípios que regeriam os relacionamentos cente à revelia da contribuição deles para
(ver com. de Mt 5:38-47; 6:14, 15; 7:1-6, 12; a produção da riqueza e da capacidade do
22:39; etc.), mas deixou a administração da empregador para pagá-los. Esse é o espírito
justiça civil às autoridades civis nomeadas. que leva grupos a garantir legislação favorá­
Ele não Se desviou dessa norma, e os que vel a si mesmos sem se preocupar como tal
falam em Seu nome fazem bem em seguir legislação afetará outros grupos; e que leva
Seu exemplo neste e em outros aspectos uma nação a impor sua vontade sobre outros
(PJ, 254). povos, independentemente das necessidades
877
12:16 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

destes últimos. Este espírito arruina lares e Não tenho onde. Esta percepção deve­
leva à delinquência. ria levar o homem a pensar nas pessoas que
Jesus exortou a ver as coisas materiais na necessitavam das coisas que Deus lhe outor­
perspectiva correta e a subordiná-las às coi­ gara em abundância. No entanto, os interes­
sas de valor eterno (ver com. de Mt 6:24-34; ses egoístas o fizeram cego às necessidades
Jo 6:27). Contrariamente à opinião da maio­ dos semelhantes (ver com. de Lc 16:19-31).
ria, ter mais “coisas” não traz necessaria­ Recolher. Literalmente, “reunir”.
mente mais felicidade. A felicidade depende 18. Meu produto. Os pronomes pos­
não de “coisas”, mas da realização pessoal sessivos revelam seu caráter: “meus frutos”,
que inclui a relação com Deus (ver com. de "meus celeiros”, “meus bens”, "minha alma
Ec 2:1-11). (cf. Os 2:5). Os pensamentos dele eram
16. Uma parábola. Sobre as parábolas todos sobre si mesmo. Ele não percebia que
e os princípios de sua interpretação, ver p. “quem se compadece do pobre ao S e n h o r
197-204. Esta parábola, relatada apenas por empresta” (Pv 19:17).
Lucas, ilustra o princípio do v. 15, de que 19. Alma. Ver com. de Mt 10:28.
as “coisas” materiais não são o objetivo final Descansa. Ele construiu uma fortuna
da vida (ver também com. de Mt 19:16-22). e estava pronto para se aposentar. Então, se
Campo. O homem planta a semente e entregaria ao consumo das boas coisas da
cuida dela, mas é Deus quem a faz crescer vida, sem pensar mais em produção.
(ver com. de Mc 4:26-29; ver lCo 3:6, 7). Come, bebe e regala-te. O homem
Deus é quem envia o sol e a chuva (ver com. estava certo de que tinha o bastante até ao
de Mt 5:45) e abençoa os esforços huma­ fim da vida e que passaria os dias vivendo dis­
nos com “estações frutíferas” (ver At 14:17). solutamente, como o filho pródigo num país
Antes que entrasse na terra prometida, distante, esquecendo-se de Deus e dos seme­
Deus advertiu Israel a não esquecer que é lhantes (ver com. de Lc 15:13; ef. Ee 8:15).
► Ele que dá “força para adquirir riquezas” 20. Louco. Ver com. de Lc 11:40. Jesus
796

(ver Dt 8:11-18). Contudo, o ser humano é não disse que Deus proferiu estas palavras
propenso a tomar sobre si o crédito do que ao “louco” nem que o conscientizou disso.
Deus lhe concede, dizendo: “A minha força Também não disse que a conversa entre o
e o poder do meu braço me adquiriram estas rico e o “pai Abraão” (Lc 16:24-31) tenha
riquezas” (Dt 8:17). Aquele cujo coração ocorrido. Nos dois exemplos, o diálogo é ima­
não é grato a Deus se torna “nulo” em seus ginado para efeito ilustrativo. O interesse é
“raciocínios”, e o “coração insensato” será no ensino da parábola, não em seus detalhes
“obscurecido” (ver Rm 1:21). O que é sábio (ver também a conversa entre as árvores da
aos próprios olhos torna-se louco aos olhos floresta, em Jz 9:8-15).
de Deus (ver Rm 1:22). Se ele persiste em Tua alma. Literal mente, “eles estão exi­
tal procedimento, finalmente rejeita a Deus gindo tua alma de ti”. Alguns sugerem que o
e se entrega à busca da felicidade material pronome implícito “eles” é um circunlóquio
e do prazer físico (ver Rm 1:23-32); torna- rabínico para evitar o uso do nome divino
se mais amigo dos prazeres que amigo de (ver com. de Lc 15:7). Outros se referem ao
Deus (2Tm 3:4). pronome com relação aos “destruidores” (ver
17. Arrazoava consigo mesmo. Isto Jó 33:22).
é, considerou a questão sob vários pontos 21. Entesoura para si mesmo. Toda
de vista e deu ao assunto o que lhe parecia pessoa que pensa e planeja só para si mesma
uma conclusão lógica. não tem bom senso à vista de Deus (ver com.
878
LUCAS 12:50

de Lc 11:40). O evangelho do reino deve tirar 38. Segunda vigília. Entre as 21 h e


os pensamentos dos seres humanos de si 24h (ver com. de Mt 14:25).
mesmos e direcioná-los a Deus e aos seme­ Terceira. De meia-noite às 3h da manhã.
lhantes (ver com. de Lc 12:15). 39. Pai de família. Do gr. oikodespotês,
Para com Deus. isto é, aos olhos de “dono da casa” (ver com. de Lc 2:29; ver com.
Deus. O "louco” não possui tesouro arma­ de Pv 7:19).
zenado no Céu (ver com. de Mt 6:19-23). Arrombar. As casas orientais eram fei­
22. Dizendo. [A ansiosa solicitude pela tas de paredes de barro, e o modo mais fácil
vida, Le 12:22-34 = Mt 6:25-34], Tendo de um ladrão entrar seria fazendo um buraco
respondido ao homem que O interrompeu, na parede (cf. Ez 12:5, 12).
Jesus retoma o discurso à multidão e aos dis­ 41. Pedro perguntou. Como de cos­
cípulos (ver com. dos v. 1, 13; sobre Lc 12:22- tume, Pedro age por iniciativa própria como
34, ver com. de Mt 6:19-21, 25-33). o porta-voz dos doze (ver com. de Mt 14:28;
Não andeis ansiosos. Literal mente, 16:16; 17:14).
“não sejam ansiosos” ou “não tenham pen­ Ou também para todos. Os doze dis­
samentos [ansiosos]” (ver com. de Mt 6:25). cípulos e a multidão estavam presentes
23. Alimento. Do gr. trophê, “nutri­ (ver com. do v. 1), e Pedro perguntou se a
ção”, “alimento”, “mantimento” (ver com. de admoestação de Jesus sobre vigilância tinha
Mt 3:4). uma aplicação especial aos discípulos como
25. Acrescentar um côvado. Ver com.“servos” do “mestre” na parábola, ou se era
de Mt 6:27. aplicada à multidão em geral.
29. Não andeis. No grego, “vós” é 42. O mordomo fiel e prudente.
enfatizado. Sobre os v. 42-46, ver com. de Mt 24:45-51.
33. Bolsas. Do gr. ballantia (ver Lc 10:4). 47. Conheceu a vontade de seu
35. Cingido esteja o vosso corpo. senhor. Ver com. de Mt 7:21-27. Deus mede
[A parábola do servo vigilante, Lc 12:35- a responsabilidade de uma pessoa por seu
48; sobre as parábolas, ver p. 197-204]. Isto conhecimento do dever, inclusive das ver­
é, esteja preparado para agir (ver com. de dades que ela deveria saber, mas não apro­
SI 65:6). A vigilância é a tônica desta pará­ veitou (ver Ez 3:18-21; 18:2-32; 33:12-20;
bola. Aqui, pela primeira vez, Jesus ensi­ Lc 23:34; Jo 15:22; lTm 1:13; Tg 4:17).
nou a respeito de Sua segunda vinda. Já se 49. Lançar fogo. [Jesus traz fogo e dis­
vislumbrava o final de Seu ministério ter­ sensão à terra, Lc 12:49-53]. O grego enfa­
restre. Por isso, Ele procura preparar as pes­ tiza “fogo”. Ver com. de Mt 10:34-36.
soas para Sua ascensão e Seu retorno em E bem quisera. O significado do res­
poder e glória. A ênfase da parábola está tante do v. 49 não está claro. Uma tradução
no viver eorretamente em vista do retorno possível seria: “Bem quisera que já estivesse
797

► do Mestre. a arder” (ARA).


36. Esperam. Não ociosos, mas vigi­ 50. Tenho, porém, um batismo.
lantes e em preparo diligente (ver a parábola Não o batismo de Jesus pelas mãos de
das dez virgens, em Mt 25:1-12). João, que então já fazia mais de três anos,
37. Bem-aventurados. Ou, “felizes” mas o “batismo” de Sua morte (ver com. de
(ver com. de Mt 5:3). Mt 3:11). A palavra “batismo”, quando uti­
Em verdade. Ver com. de Mt 5:18. lizada figuradamente como neste caso, sig­
Cingir-se. Ver com. do SI 65:6. Isto é, nifica ser “imerso” em circunstâncias em
por causa da fidelidade e lealdade ao Senhor. que a pessoa fica face a face com a morte,

879
12:54 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

como se fosse imerso em água por um tempo Arraste. Literalmente, “arrastar [violen-
considerável. tamente]”.
54. Quando vedes aparecer uma Ao meirinho. Aquele a quem a multa
nuvem. [Os sinais dos tempos, Lc 12:54-59]. deveria ser paga. Incapacidade de pagamento
Sobre os v. 54-56, ver com. de Mt 16:2, 3. significava aprisionamento (sobre o costume
57. Não julgais. Sobre os v. 57-59, ver de aprisionamento por débito, ver com. de
com. de Mt 5:25, 26. Mt 18:25).
58. Adversário. Do gr. antidikos, “opo­ 59. Centavo. Do gr. lepton, uma
nente [em um processo judicial]”, “inimigo” moeda de bronze bem pequena (ver p. 37;
ou “adversário”. cf. Lc 21:2).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1 - PJ, 96; DTN, 408 20, 21 - PJ, 258 33, 34-OE, 341; T5, 465
1-7 - Ev, 237 21 - T2, 196, 233, 246, 280, 33-40 -T6, 453
2 - CBV, 486 681; T3, 546; T4, 386; 35- AA, 55; Ev, 473; FEC,
3-7 - PE, 28 T5, 262 366; MCH, 217; T6, 116;
6, 7 - T4, 564 22-26 - Ev, 237 T9, 48, 61, 133, 148
8, 9-T5, 437 23 - OC, 366; Ed, 200 36- GC, 427
11 -FEC, 202 24-OC, 58; Ed, 117 36, 37-PE, 19, 55; T2, 195
13-PJ, 253; T9, 216 27-CC, 68 36- 38 -T2, 192
13- 21 - PJ, 252-259 27-31 - Ev, 238 37- DTN, 634; Tl, 69; T5,
14- T9, 217 30 - MDC, 99 485; T9, 287
14- 21 - PJ, 254 32- 34 - DTN, 496 42 - DTN, 634; Ev, 345,
15 - PJ, 259; PP, 496; T3, 33- CS, 18; PJ, 370, 374; 373, 432; TM, 149; T2,
547; T4, 82 CM, 40, 86, 114, 126, 557, 642; T6, 75, 78
15- 21 -T3, 545 151; Ed, 145; PE, 57, 95; 47-PJ, 353; T2, 251; T4,
15- 23-T2, 662 FEC, 210; CBV, 216; 249; T5, 160
16- 21 -T2, 199; T3, 154, 401 TM, 395; Tl, 169, 175, 47, 48-CM, 137; Tl, 133;
17- 21 - T5, 260 176, 192, 197; T2, 242, T8, 96
18, 19 - PJ, 256 280, 676, 681; T3, 90, 48 - AA, 337; PJ, 265, 362;
19-CM, 232; T6, 452 402, 546; T5, 152, 259, Ev, 563; PP, 420, 528;
20 - PJ, 343; CM, 142; 734; T6, 258; T7, 291, HR, 168; TM, 454; Tl,
798

PP, 668 295; T8, 35; T9, 131 170; T3, 392; T7, 200

880
LUCAS 13:1

Capítulo 13
1 Cristo prega o arrependimento. 6 A figueira sem fruto não permanece. 11 Ele cura
uma enferma e 18 fala do poder da palavra no coração dos escolhidos.
24 Ele exorta a entrar pela porta estreita e 31 reprova
Herodes e Jerusalém.

1 Naquela mesma ocasião, chegando alguns, Seis dias há em que se deve trabalhar; vinde,
falavam a Jesus a respeito dos galileus cujo san­ pois, nesses dias para serdes curados e não no
gue Pilatos misturara com os sacrifícios que os sábado.
mesmos realizavam. 15 Disse-lhe, porém, o Senhor: Hipócritas,
2 Ele, porém, lhes disse: Pensais que esses cada um de vós não desprende da manjedoura,
galileus eram mais pecadores do que todos os no sábado, o seu boi ou o seu jumento, para le­
outros galileus, por terem padecido estas coisas? vá-lo a beber?
3 Não eram, Eu vo-lo afirmo; se, porém, não 16 Por que motivo não se devia livrar deste
vos arrependerdes, todos igualmcnte perecereis. cativeiro, cm dia de sábado, esta filha de Abraão,
4 Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?
desabou a torre de Siloé e os matou eram mais cul­ 17 Tendo Ele dito estas palavras, todos os
pados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Seus adversários se envergonharam. Entretanto,
5 Não eram, Eu vo-lo afirmo; mas, se não o povo se alegrava por todos os gloriosos feitos
vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. que Jesus realizava.
6 Então, Jesus proferiu a seguinte parábola: 18 E dizia: A que é semelhante o reino de
Certo homem tinha uma figueira plantada na sua Deus, e a que o compararei?
vinha e, vindo procurar fruto nela, não achou. 19 E semelhante a um grão de mostarda que
7 Pelo que disse ao viticultor: Há três anos um homem plantou na sua horta; e cresceu e
venho procurar fruto nesta figueira e não acho; fez-se árvore; e as aves do céu aninharam-se nos
podes cortá-la; para que está ela ainda ocupan­ seus ramos.
do inutilmente a terra? 20 Disse mais: A que compararei o reino de
8 Ele, porém, respondeu: Senhor, deixa-a Deus?
ainda este ano, até que eu escave ao redor dela e 21 E semelhante ao fermento que uma mu­
lhe ponha estrume. lher tomou e escondeu em três medidas de fari­
9 Se vier a dar fruto, bem está; se não, man­ nha, até ficar tudo levedado.
darás cortá-la. 22 Passava Jesus por cidades e aldeias, ensi­
10 Ora, ensinava Jesus no sábado numa das nando e caminhando para Jerusalém.
sinagogas. 23 E alguém Lhe perguntou: Senhor, são pou­
799

11 E veio ali uma mulher possessa de um es­ cos os que são salvos? «
pírito de enfermidade, havia já dezoito anos; an­ 24 Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar
dava ela encurvada, sem de modo algum poder pela porta estreita, pois Eu vos digo que muitos
endireitar-se. procurarão entrar e não poderão.
12 Vendo-a Jesus, chamou-a e disse-lhe: 25 Quando o dono da casa se tiver levantado
Mulher, estás livre da tua enfermidade; c fechado a porta, e vós, do lado de fora, come­
13 e, impondo-lhe as mãos, ela imediatamen­ çardes a bater, dizendo: Senhor, abre-nos a porta,
te se endireitou e dava glória a Deus. ele vos responderá: Não sei donde sois.
14 O chefe da sinagoga, indignado de ver 26 Então, direis: Comíamos e bebíamos na
que Jesus curava no sábado, disse à multidão: tua presença, e ensinavas em nossas ruas.

881
13:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

27 Mas ele vos dirá: Não sei donde vós sois; 32 Ele, porém, lhes respondeu: Ide dizer a
apartai-vos de mim, vós todos os que praticais essa raposa que, hoje e amanhã, expulso demô­
iniquidades. nios e curo enfermos c, no terceiro dia, terminarei.
28 Ali haverá choro e ranger de dentes, 33 Importa, contudo, caminhar hoje, ama­
quando virdes, no reino de Deus, Abraão, nhã e depois, porque não se espera que um pro­
Isaque, Jacó e todos os profetas, mas vós, lan­ feta morra fora de Jerusalém.
çados fora. 34 Jerusalém, Jerusalém, que matas os profe­
29 Muitos virão do Oriente e do Ocidente, tas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas
do Norte e do Sul e tomarão lugares à mesa no vez.es quis Eu reunir teus filhos como a galinha
reino de Deus. ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas,
30 Contudo, há últimos que virão a ser pri­ c vós não o quisestes!
meiros, e primeiros que serão últimos. 35 Eis que a vossa casa vos ficará deserta.
31 Naquela mesma hora, alguns fariseus vie­ E em verdade vos digo que não mais Me vereis
ram para dizer-Lhe: Retira-Te e vai-Te daqui, por­ até que venhais a dizer: Bendito o que vem em
que Herodes quer matar-Te. nome do Senhor!

1. Naquela mesma ocasião. [A morte Misturara. Eles foram mortos enquanto


dos galileus e a queda da torre de Siloé, ofereciam sacrifícios.
Lc 13:1-5. Acerca das parábolas, ver p. 197- 2. Mais pecadores do que todos. Esta
204]. Uma linguagem comum em Lucas, advertência indica que o massacre era consi­
indicando relação direta com a seção ante­ derado pelos mensageiros e pelo público ao
rior (ver com. de Lc 12:1). A ocasião era, pos­ redor de Jesus como um juízo divino sobre
sivelmente, o inverno de 30-31 d.C. Jesus os que perderam a vida (cf. Jó 4:7; 8:4, 20;
falava sobre os sinais dos tempos. 22:5; jo 9:1, 2). Jesus negou enfaticamente
Chegando alguns. Ou, “estavam pre­ tal conclusão. Sempre que surgia uma opor­
sentes” (ABC). O massacre já havia aconte­ tunidade conveniente, Jesus repelia a crença
cido (PJ, 212, 213) e pode ser que as pessoas popular de que o sofrimento é um castigo
que conversavam com Cristo davam a notí­ específico pelo pecado. A tentação de pen­
cia do incidente. sar em um acidente ou desgraça como um
Falavam a Jesus. Não se sabe quem “ato de Deus” provém de Satanás, que busca
eram estas pessoas nem o motivo porque nar­ fazer com que as pessoas considerem a Deus
ravam o acontecimento. Poderia haver moti­ como um Pai cruel e severo.
vos ocultos. 3. Arrependerdes. Segundo o texto
Dos galileus. Este massacre específico grego, “arrepender e continuar se arrepen­
não é mencionado por nenhum outro escritor dendo”. O castigo será iníligido no último
além de Lucas, embora Joscfo se refira a grande dia do juízo. Jesus não condenou
vários massacres semelhantes por parte de Pilatos, nem os galileus. Se algum dos judeus
Pilatos e outros administradores da provín­ esperava extrair dEle uma denúncia da cruel­
cia da Judeia (Antiguidades, xvii.9.3; xviii.3.2; dade de Pilatos, ficou desapontado. Em toda
XX. 5.3; Guerra dos Judeus, ii.2.5; 9.4 [30; 175- experiência da vida, o cristão pode apren­

177]). Um massacre dos adoradores samari- der como andar diante de Deus de modo
tanos no monte Gerizim, poucos anos mais mais perfeito, com um coração humilde.
tarde, em 36 d.C., levou à rejeição de Pilatos Desapontamento, infortúnio e calamidade,
800

por César (Antiguidades, xviii, 4.1, 2). caso testemunhados ou experimentados,«

882
LUCAS 13:10

podem ensinar, ao humilde e receptivo filho que poderia ser produtivo. A nação judaica
de Deus, preciosas lições que não seriam chegou ao ponto em que não era apenas inú­
aprendidas de outro modo. til no cumprimento do papel que Deus lhe
4. Torre cie Siloé. Possivelmente ligada designara; ela se transformara num obstáculo
ao tanque de Siloé, e parte do sistema de for­ à realização do plano de salvação (PJ, 215;
talezas de Jerusalém (sobre o tanque de Siloé, ver vol. 4, p. 17-20).
ver vol. 1, p. 101; vol. 2, p. 71; e com. de 2Rs 8. Deixa-a ainda. Tem-se sugerido que
20:20; Ne 3:15; Jo 9:7). os "três anos” (v. 7) figuradamente seriam os
Mais culpados. Do gr. opheiletai, lite­ três primeiros anos inclusivos do ministério
ralmente, “devedores”; portanto, utilizado de Jesus. O ano em questão seria o da graça
neste versículo no sentido de “infratores”; depois dos “três anos”, porque já haviam se
não hamartõloi, “pecadores”, como no v. 2 passado mais de três anos desde o batismo de
(ef. Mt 6:12; Le 7:41). Jesus (ver com. de Mt 4:12), e faltavam pou­
5. Arrependerdes. Ver com. do v. 3. cos meses para a crucifixão (ver com. de Lc
6. A seguinte parábola. [A parábola 13:1). A misericórdia de Deus ainda aguar­
da figueira estéril, Lc 13:6-9). Sobre as pará­ dava e apelava à nação judaica para se arre­
bolas e os princípios para sua interpretação, pender e aceitar Jesus como o Messias. No
ver p. 197-204. Ao transmitir esta parábola, entanto, relacionada à ampliação de miseri­
Jesus pretendia mostrar o relacionamento córdia estava a advertência implícita de que
entre a misericórdia e a justiça divinas (PJ, aquela oportunidade seria a última.
212). Além disso, a longanimidade de Deus Escave ao redor dela e lhe ponha
é demonstrada em relação à necessidade de estrume. O “viticultor” (ver com. do v. 7)
arrependimento oportuno da parte do ser havia cuidado da árvore tanto quanto das
humano. demais. No entanto, nesta última tentativa
Uma figueira. A figueira ilustra a ver­ para auxiliá-la a frutificar, ele parece fazer
dade de que Deus ama inclusive os improdu­ mais do que antes (ver Is 5:1-4; ver com. de
tivos, mas que Sua misericórdia pode, afinal, Mt 21:37).
esgotar-se. A figueira seria cortada a menos 9. Se vier a dar fruto, bem está.
que desse fruto (cf. Ts 5:1-7). Num sentido A expressão “hem está” foi acrescentada.
geral, a figueira representa cada pessoa e, O grego representa uma figura de lingua­
num sentido especial, a nação judaica. gem incomum, a aposiopese, em que há uma
Na sua vinha. E comum ter figueiras súbita ruptura no pensamento. Nada se fala
junto a vides nos jardins da Palestina. sobre o resultado do experimento.
Não achou. Ver com. de Mc 11:13. 10. Ensinava. [A cura de uma enferma,
7. Viticultor. Literalmente, “trabalha­ Lc 13:10-17. Sobre os milagres, ver p. 204-
dor da videira”. 210], Isto deve ter ocorrido na Pereia, pou­
Há três anos. Três anos haviam se pas­ cos meses antes da crucifixão (ver com. do
sado desde que a árvore já deveria estar v. 1). Este é o último evento em que Jesus
produzindo. O proprietário dera ampla opor­ ensina numa sinagoga (sobre a sinagoga e
tunidade para ela frutificar. seus serviços, ver p. 44, 45). Numa ocasião
Cortá-la. Literalmente, “tirá-la do meio” anterior, Jesus fora contestado pelas autori­
das videiras. dades por curar numa sinagoga no sábado
Ainda ocupando. O grego acrescenta (ver com. de Mc 3:1-6; sobre outras experiên­
“também”. Em outras palavras, além de não cias em sinagogas, ver Lc 4:16-30; Me 1:21-
frutificar, a árvore também ocupava espaço 28; sobre outro incidente de cura no sábado,
883
13:11 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

ver Jo 9:1-14; para uma lista de milagres no povo favorecido. Este argumento apelaria à
sábado, ver p. 207-209). multidão e silenciaria o chefe da sinagoga
Sábado. Embora o grego seja plural, em (ver v. 17), apesar de não convencê-lo de que
harmonia com o uso judaico comum, o sen­ estava errado.
tido é singular: este foi um sábado especial. Satanás trazia presa. Isaías 61:1 a 3 diz
11. Encurvada. Do gr. sugkuptõ, “cur- que o Messias livraria os cativos de Satanás.
õ^var-se” ou “dobrar-se”, como sob um peso. Neste versículo, Jesus Se refere a Satanás
A palavra também é usada como um termo como o responsável por todas as doenças.
médico para a curvatura dorsal. 17. O povo se alegrava. O interesse de
12. Estás livre. Isto é, libertada para Jesus no caso da mulher foi uma repreensão
permanecer livre. implícita ao chefe da sinagoga, que nada fez
13. Impondo-lhe as mãos. Ver com. de por ela durante os 18 anos de “enfermidade”.
Mc 1:31; 7:33; cf. Lc 4:40; 5:13; 8:54; 22:51. Ele olhou para Jesus “indignado” (v. 14); mas
14. O chefe. Ver p. 44; ver com. de o povo, com alegria.
Mc 5:22. 18.0 reino de Deus. [A parábola do grão
Disse. O chefe da sinagoga respondeu de mostarda, Lc 13:18-19 = Mt 13:31, 32 =
(do gr. ayohrinomai) ou reagiu indignado à Mc 4:30-32. Cf. com. de Mt 13:31-33. Sobre
situação criada pela cura da mulher enferma as parábolas, ver p. 197-2041. Ver com. de
(ver com. de Le 14:3). Mt 3:2; 5:2, 3; Mc 3:14; Lc 4:19.
À multidão. O chefe da sinagoga estava 19. Um grão de mostarda. Neste ver­
furioso com Jesus, mas hesitava em acusá-Lo sículo, Cristo repete uma das parábolas que
pessoalmente; assim, ele dirigiu suas obser­ utilizou no lago da Caldeia, quase um ano
vações à multidão. e meio antes (ver DTN, 488; ver com. de
Seis dias há. De acordo com os regu­ Mt 13:31, 32).
lamentos rabínicos, os casos de urgência 20. Disse. [A parábola do fermento,
poderiam receber uma atenção mínima no Le 13:20, 21 = Mt 13:33]. Uma parábola que
sábado, mas não os casos crônicos. E pos­ Jesus utilizou em várias ocasiões (ver com.
sível que essa mulher frequentasse aquela de Mt 13:33).
sinagoga durante os 18 anos de sua “enfer­ 22. Caminhando para Jerusalém.
midade”, e o caso dela não era classificado [A porta estreita, Lc 13:22-30]. Ver com. de
como urgente. Portanto, ela poderia espe­ Mt 19:1. Não se sabe se esta jornada foi parte
rar até que o sábado findasse (ver com. de da longa viagem da Galileia a Jerusalém,
Mc 1:32, 33; 3:1-6; Jo 5:16). através de Samaria e Pereia, ou de outra
15. Hipócritas. Evidências textuais viagem mais tarde, da Pereia a Jerusalém.
(cf. p. 136) favorecem a variante plural “hipó­ A partida definitiva da Galileia deve ter
critas”. Jesus incluiu tanto o chefe da sina­ ocorrido algum tempo antes, e esta seria
goga como todos os que concordaram com uma viagem separada. Apesar de Jesus Se
ele (sobre a palavra traduzida por “hipócri­ concentrar na Pereia e em Samaria, durante
tas”, ver com. de Mt 7:5; 6:2). os últimos seis meses de Seu ministério, Ele
Manjedoura. No NT, a palavra grega visitou Betânia e Jerusalém em várias oca­
ocorre apenas neste versículo e em Lucas 2:7, siões, mesmo que brevemente, por causa da
12 e 16 (ver com. de Lc 2:7). animosidade dos líderes judeus (ver com. de
16. Esta filha de Abraão. Como ser Lc 9:51).
humano, ela era infinitamente mais valiosa 23. Alguém Lhe perguntou. A identi­
que um animal e pertencia também a um dade da pessoa é desconhecida.

884
LUCAS 13:31

São poucos os que são salvos? Diz-se 29. Virão do Oriente. Neste versículo,
que esta era uma pergunta teológica, teó­ Jesus cita palavras de Isaías 49:12, texto refe­
rica e abstrata que os rabinos se deleitavam rente ao ajuntamento dos gentios à família
em discutir. de Deus (vervol. 4, p. 13-17).
24. Esforçai-vos. Do gr. agõnizomai, Tomarão lugares. Literalmente, “recli­
relacionado ao substantivo agõn, “disputa”, narão”, a postura comum em festas (ver com.
“julgamento”, “luta”, e ao substantivo agonia, de Mc 2:15). Tomar lugar na festa do reino
“medo”, “angústia”, “agonia”. Agõnizomai ori­ messiânico era um modo judaico comum de
ginalmente se referia ao esforço para obter se referir às alegrias desse reino (ver com. de
o prêmio em uma competição esportiva, Lc 14:15; cf. Ap 19:9).
802

► e daí surgiu o significado geral de “lutar” 30. Primeiros que serão últimos.
ou “empenhar-se”. A palavra é utilizada Jesus repetiu esta declaração em várias
algumas vezes no NT para os esforços dos ocasiões (ver Mt 19:30; 20:16) como uma
cristãos em se qualificarem para entrar no advertência aos que se consideravam segu­
reino dos céus (ICo 9:25; Cl 1:29). É tam­ ros em ser admitidos no reino do Messias,
bém traduzida como “combate” (lTm 6:12), baseados na filiação a Abraão. Os que
com relação ao combate da fé (ver 2Tm 4:7), tinham mais chances de entrar não apro­
e “empenhar-se” (Jo 18:36; ver com. de veitaram as oportunidades (ver vol. 4, p.
Mt 7:13, 14). 13-17) e até mesmo menosprezaram as van­
Jesus não respondeu à pergunta do tagens concedidas a eles (ver com. de Lc
homem diretamente (v. 23). Em vez disso, 14:18-24). Os gentios, a quem os judeus
Sua resposta apontou para o que deveria ser desprezavam e consideravam indignos e
uma preocupação legítima do crente: não inelegíveis para o reino, em muitos casos,
quantos serão salvos, mas se nós mesmos obteriam lugar à mesa messiânica, porque
seremos salvos. Na parábola da semente de aproveitariam melhor as oportunidades do
mostarda, Jesus ensinou que muitos entra­ que os judeus.
riam no reino (ver com. de Mt 13:31, 32) 31. Naquele mesmo dia (ARC).
e, na parábola do fermento, Ele enfatizou a [A mensagem de Jesus a Herodes. O lamento
influência transformadora do evangelho, que sobre Jerusalém, Lc 13:31-35 - Mt 23:37-39].
prepara para o reino (ver com. de Mt 13:33). Evidências textuais favorecem (cf. p. 136) a
25. Fechado a porta. Ver com. de variante “naquela mesma hora” (ARA). Lucas
Mt 25:1-13; sobre “fechar a porta”, ver com. usa esta expressão para indicar uma proxi­
de Mt 25:7. midade de tempo com a narrativa anterior
Não sei donde sois. Ver com. de (sobre as circunstâncias deste evento, ver
Mt 7:23; 25:12. com. do v. 1).
26. Ensinavas em nossas ruas. Ver Fariseus. Ver p. 39, 40. Os fariseus,
com. de Mt 7:22. como classe, se tornaram então inimigos
27. Apartai-vos de mim. Ver com. de declarados de Jesus e estavam decididos por
Mt 7:23. Sua morte (ver com. de Mt 19:3; 20:18, 19).
Vós que praticais iniquidade. Ver Vai-Te daqui. Este incidente ocorreu no
com. de Mt 7:21-28. domínio de Herodes Antipas, que incluía a
28. Choro e ranger de dentes. Ver Galileia e a Pereia (ver com. de Lc 3:1). Visto
com. de Mt 8:12; 13:42. que Jesus, deixara a Galileia várias semanas
Vós, lançados fora. Ver com. de antes (ver com. de Mt 19:1, 2), deveria estar
Mt 22:11-14; cf. Lc 16:22, 23. na Pereia.

885
13:32 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Herodes quer matar-Te. Aproximada­ Sou consumado (ARC). Do gr. teleioõ,


mente um ano antes, Herodes tirara a vida “terminar”, “completar”, “aperfeiçoar” ou
de João Batista (ver com. de Mc 6:14-29). “fazer cessar” (ver com. de Mt 5:48). Jesus
Considerando o temor que Herodes tinha Se refere à proximidade de Sua morte, que
de Jesus (ver com. de Mt 14:1, 2) e seu seria “perfeita”, isto é, Seu ministério ter­
desejo de vê-Lo (ver Le 23:8), é improvável restre estaria “terminado” (cf. ARA). Jesus
que ele planejasse a morte de Jesus. Os fari­ foi “aperfeiçoado” por meio do sofrimento
seus usaram isso para tentar amedrontar (Hb 2:10; cf. Hb 5:9). Em Sua oração inter-
Jesus, a fim de tirá-Lo da Pereia e conduzi- cessória, antes de entrar no jardim do
Lo à Judeia, onde poderiam prendê-Lo. Por Getsêmani, Jesus declarou: “consumando
cerca de dois anos os líderes judeus trama­ [do gr. teleioõ] a obra que Mc confiaste para
ram a morte de Jesus (ver DTN, 213, 401; fazer” (Jo 17:4; sobre o plano preestabelecido
Jo 11:53, 54, 57; ver com. de Mt 15:21), e os para a vida de Jesus, ver com. de Lc 2:49).
judeus já haviam tentado apedrejá-Lo duas 33. Importa, contudo, caminhar
vezes (ver Jo 8:59; 10:31; 11:8). hoje. Ver com. de Lc 2:49. Ele deveria conti­
32. Essa raposa. Enfatizando mais a astú­ nuar a obra indicada e não interromperia Seu
cia de Herodes do que sua avidez (ver p. 51, 52).ministério por causa de Herodes. O dia é o
Hoje e amanhã. A hora de Jesus ainda tempo costumeiro para caminhar e trabalhar.
não era chegada; ainda havia trabalho a Morra fora de Jerusalém. Isto é, um
realizar. profeta não poderia morrer fora de Jerusalém.
803

No terceiro dia. Este é um claro exem­ Jesus não quer dizer que Jerusalém não esta­
plo do costume oriental de cálculo inclusivo. ria sem um profeta, mas que Jerusalém era a
O “terceiro” dia de acordo com o cálculo cidade que matava os profetas, como expli­
judaico seria “o dia seguinte”, de manhã cou logo a seguir (v. 34). Ele não estava
(v. 33); os ocidentais diriam ser o segundo preocupado com Sua segurança enquanto
dia (sobre o cálculo inclusivo, ver p. 246-248; trabalhava no território sob jurisdição de
vol. 1, p. 160). Neste versículo, Cristo falava Herodes e sabia muito bem que seria morto
de quando Seu ministério terreno termina­ em Jerusalém.
ria. Aquela hora, embora não no futuro ime­ 34. Jerusalém, Jerusalém. Sobre os
diato, não estava longe. v. 34, 35, ver com. de Mt 23:37-39.

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1-9- Pj, 212-218 185, 352, 612 MCH, 340; PR, 84;
2, 3 - FJ, 213 7, 8-T2, 421 Tl, 127, 484; T2, 446,
5 - Ev, 179 7-9-T4, 188 480; T3, 527; T4, 218;
6 - DTN, 584; T3 534 8 - PJ, 215 T5, 17; T8, 65
6, 7- FJ, 214; DTN, 495; 9 - PJ, 216, 218 25 - Ed, 264; FEC, 355
T5, 250 18, 19-FJ, 76-79 26, 27-FJ, 412; DTN, 825
6- 9 - DTN, 584; T7, 200 20, 21 - PJ, 95-102 34, 35 - FJ, 237; MDC, 151;
7- SC, 89; FJ, 218; GC, 23 - T2, 294 T4, 487
27, 601; T2, 89; T3, 191; 24 - FJ, 280; CFPE, 366; 35 - DTN, 242; PE, 292;
T4, 317, 385; T5, 81, 139, FEC, 124; MDC, 141; T5, 126

886
LUCAS 14:1

Capítulo 14
2 Cristo cura o hidrópico no sábado, 7 ensina a humildade e 12 o dever de proteger
os pobres. 15 Com a parábola da grande ceia, mostra que pessoas mundanas que
desprezam a palavra de Deus serão excluídas do Céu. 25 Os discípulos devem
pesar as responsabilidades para que não se apartem dEle envergonhados e
34 se tornem inúteis, como o sal que perde o sabor.

1 Aconteceu que, ao entrar Ele num sábado 14 e serás bem-aventurado, pelo fato de não
na casa de um dos principais fariseus para comer terem eles com que recompensar-te; a tua re­
pão, eis que O estavam observando. compensa, porém, tu a receberás na ressurrei­
2 Ora, diante dEle se achava um homem ção dos justos.
hidrópico. 15 Ora, ouvindo tais palavras, um dos que
3 Então, Jesus, dirigindo-Se aos intérpretes estavam com Ele à mesa, disse-Lhe: Bem-
da Lei e aos fariseus, perguntou-lhes: E ou não aventurado aquele que comer pão no reino de
é lícito curar no sábado? Deus.
4 Eles, porém, nada disseram. E, tomando-o, 16 Ele, porém, respondeu: Certo homem deu
o curou e o despediu. uma grande ceia e convidou muitos.
5 A seguir, lhes perguntou: Qual de vós, se 17 Á hora da ceia, enviou o seu servo para
o filho ou o boi cair num poço, não o tirará logo, avisar aos convidados: Vinde, porque tudo já está
mesmo em dia de sábado? preparado.
804

► 6 A isto nada puderam responder. 18 Não obstante, todos, à uma, começaram


7 Reparando como os convidados escolhiam a escusar-se. Disse o primeiro: Comprei um
os primeiros lugares, propôs-lhes uma parábola: campo e preciso ir vê-lo; rogo-te que me tenhas
8 Quando por alguém lores convidado para por escusado.
um casamento, não procures o primeiro lugar; 19 Outro disse: Comprei cinco juntas de hois
para não suceder que, havendo um convidado e vou experimentá-las; rogo-te que me tenhas
mais digno do que tu, por escusado.
9 vindo aquele que te convidou c também a 20 E outro disse: Casei-me e, por isso, não
ele, te diga: Dá o lugar a este. Então, irás, enver­ posso ir.
gonhado, ocupar o último lugar. 21 Voltando o servo, tudo contou ao seu se­
10 Pelo contrário, quando fores convidado, nhor. Então, irado, o dono da casa disse ao seu
vai tomar o último lugar; para que, quando vier servo: Sai depressa para as ruas e becos da cida­
o que te convidou, te diga: Amigo, senta-te mais de e traze para aqui os pobres, os aleijados, os
para cima. Ser-te-á isto uma honra diante de cegos e os coxos.
todos os mais convivas. 22 Depois, lhe disse o servo: Senhor, feito
11 Pois todo o que se exalta será humilhado; está como mandaste, e ainda há lugar.
e o que se humilha será exaltado. 23 Respondeu-lhe o senhor: Sai pelos cami­
12 Disse também ao que O havia convidado: nhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que
Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides fique cheia a minha casa.
os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus paren­ 24 Porque vos declaro que nenhum daqueles
tes, nem vizinhos ricos; para não suceder que eles, homens que foram convidados provará a minha
por sua vez, te convidem e sejas recompensado. ceia.
13 Antes, ao dares um banquete, convida os 25 Crandes multidões O acompanhavam, e
pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; Ele, voltando-Se, lhes disse:

887
14:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENT1STA

26 Se alguém vem a Mim e não aborrece a 31 Ou qual é o rei que, indo para combater
seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e outro rei, não se assenta primeiro para calcular
irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser se com dez mil homens poderá enfrentar o que
Meu discípulo. vem contra ele com vinte mil?
27 E qualquer que não tomar a sua cruz e vier 32 Caso contrário, estando o outro ainda
após Mim não pode ser Meu discípulo. longe, envia-lhe uma embaixada, pedindo con­
28 Pois qual de vós, pretendendo construir dições de paz.
uma torre, não se assenta primeiro para cal­ 33 Assim, pois, todo aquele que dentre vós
cular a despesa e verificar se tem os meios para não renuncia a tudo quanto tem não pode ser
a concluir? Meu discípulo.
29 Para não suceder que, tendo lançado os 34 O sal é certamente bom; caso, porém, se
alicerces e não a podendo acabar, todos os que a torne insípido, como restaurar-lhe o sabor?
virem zombem dele, 35 Nem presta para a terra, nem mesmo para
30 dizendo: Este homem começou a cons­ o monturo; lançam-no fora. Quem tem ouvidos
truir e não pôde acabar. para ouvir, ouça.

1. Ao entrar Ele [...] na casa. [A cura Comer pão. Uma expressão idiomática
de um hidrópico, Lc 14:1-6. Sobre os mila­ judaica que significa “jantar”.
gres, ver p. 204-210; sobre as parábolas, ver Eis que O estavam observando. Havia
p. 197-204]. Não há evidências quanto ao espias nesta ocasião (ver com. de Lc 11:54),
tempo e local deste evento, exceto que o vigiando com intenção maligna (ver com. de
contexto em Lucas indica que pode ter sido Lc 6:7). Não se sabe se os espias combina­
na Pereia, entre a Festa da Dedicação, no ram para que o homem “hidrópico” estivesse
inverno de 30-31 d.C., e a Páscoa, na pri­ presente. No entanto, eles viram em ocasiões
mavera seguinte. anteriores que Jesus não hesitava em curar
Sábado. Devia ser comum entre os no sábado, violando a tradição legal. Assim,
judeus da época de Cristo receber alguém eles presumiram que Ele curaria novamente.
no sábado. O alimento era preparado no dia De modo geral, sete exemplos de cura no
anterior e mantido aquecido, ou era ingerido sábado são relatados nos evangelhos, e esta
frio. Era considerado ilícito acender fogo no é a sétima e última (ver Le 4:33-36, 39; 6:6-
sábado (ver com. de Êx 16:23; 35:3); assim, 10; 13:10-17; 14:2-4; Jo 5:5-10; 9:1-14).
todo alimento deveria ser preparado no dia 2. Hidrópico. Do gr. hudrõpikos, um
anterior (ver com. de Êx 16:23). Uma festa termo médico comum derivado da pala­
para a qual se convidavam amigos era vista vra grega hudõr, “água”, e que descreve a
como um tipo das bênçãos da vida eterna doença da pessoa que possui um acúmulo
(ver com. de Lc 14:15; cf. Pj, 219). excessivo de líquido nos tecidos do corpo.
Um dos principais fariseus. Ver oca- A palavra ocorre apenas no grego bíblico.
g^sião anterior em que Jesus aceitou o con­ Este é o único exemplo relatado de um caso
vite de um fariseu para jantar (Lc 11:37-54). como este chamando a atenção de Jesus.
A narrativa atual indica que o anfitrião Ele pode ter ido até lá por vontade própria,
de Jesus nesta ocasião era um rabino rico na esperança de ser curado, embora o relato
e influente. Não há registro de que Jesus não declare que ele tenha se apresentado a
recusou a um convite, fosse de um fariseu ou Jesus para ser curado. L possível que alguns
de um publieano (ver com. de Mc 2:15-17). dos fariseus presentes tenham feito arranjos

888
LUCAS 14:11

para que o homem doente estivesse ali, a Poço. Do gr. phrear, “poço" ou o “eixo de
fim de prenderem Jesus por curar no sábado. um poço ou cisterna”.
A cura ocorreu antes de os convidados toma­ 6. Nada puderam responder. Os críti­
rem lugar à mesa (ver v. 7). cos ficaram na defensiva. Eles não queriam
3. Jesus respondeu (KJV). Jesus não admitir que davam mais importância a um
“respondeu” (do gr. apokrinomai) no sentido boi ou a um jumento do que a uma pessoa. 4

806
de replicar a alguma pergunta dirigida a Ele. 7. Lugares. [Os primeiros lugares,
Ele estava “respondendo” aos pensamentos Lc 14:7-14]. Ou, “lugares reclináveis”. Sobre
dos fariseus, que observavam para ver o que os costumes na festa judaica, ver com. de
Ele faria. A utilização do verbo “responder” Mc 2:15-17. Segundo oTalmude, os lugares
neste sentido é comum no hebraico (ver com. de honra ficavam próximos ao anfitrião. Em
de Lc 13:14). outra festa, entre outras coisas, Jesus repro­
Aos intérpretes da lei e aos fariseus. vou os escribas e fariseus por procurarem os
No grego, há apenas um artigo definido para lugares de honra (ver Mt 23:6).
as duas palavras, indicando que eles são tra­ Uma parábola. Uma “parábola” não
tados como um só grupo (cf. Lc 7:30, em que era exatamente uma narrativa, poderia ser
o artigo definido ocorre duas vezes no grego; apenas um provérbio conciso (ver p. 197-
sobre os “intérpretes da lei” e “fariseus”, ver 200). Esta “parábola” foi baseada na obser­
p. 39, 40, 43). vação imediata dos convidados sentando-se
É lícito [...]? Evidências textuais à mesa. Ele “reparou” como os convidados
(cf. p. 136) favorecem o acréscimo “ou não”. “escolhiam” os assentos de honra. Uma con­
4. Porém, nada disseram. A con­ trovérsia semelhante a esta parece ter ocor­
versa cessou; eles se recusaram a respon­ rido entre os discípulos na última Ceia (ver
der. Percebendo que nada conseguiriam, com. de Lc 22:24).
refugiaram-se no silêncio. Os fariseus não 8. Um casamento. Isto é, “uma festa
ousaram dizer que era “ilícito” porque os de casamento”, como evidencia o contexto.
regulamentos rabínicos pareciam proibir a 9. Vindo aquele que te convidou. Ou,
cura num caso como este, nem se atreveram “o anfitrião”.
a dizer que não era. Lucas parece gostar de A ele. O convidado honrado.
ocasiões em que os inimigos de Cristo “nada Ultimo lugar. Todos os lugares interme­
disseram” ou foram silenciados (Lc 20:26; diários foram ocupados, e não restou outro.
At 15:12; 22:2). 10. Senta. Ou, “reclina”.
Tomando-o. Isto é, “apoderando-se Honra. Ou, "respeito”.
dele”. De todos os mais. Evidências textuais
Despediu. Do gr. apolitõ, “libertar”, (cf. p. 136) favorecem esta variante em vez
"soltar”, “deixar ir” ou “despedir". Este fato de “dos que” (ARC).
parece ter ocorrido antes do início da refei­ 11. Todo o que se exalta. Jesus repete
ção (ver v. 7). Talvez Jesus tenha procurado um provérbio que utilizou frequentemente
proteger o homem do constrangimento que de uma forma ou outra (ver Mt 18:4; 23:12;
os líderes judeus havia pouco tempo eolo- Lc 18:14; etc.). O princípio enunciado aqui
caram sobre outra pessoa curada no sábado atinge a raiz do orgulho, o desejo de exal­
(ver Jo 9). tar-se na opinião dos outros; e o orgulho,
5. Filho. As evidências textuais se por sua vez, junto ao egoísmo, é a raiz de
dividem (cf. p. 136) entre esta variante e todo pecado. Jesus deu o supremo exemplo
“jumento” (ARC). de humildade (ver Is 52:13, 14; Fp 2:6-10).
889
14:12 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Humilhado. Este é um axioma: a pes­ de Mt 22:1-14. A respeito das parábolas, ver


soa, cujo principal objetivo na vida é a pro­ p. 197-204]. Sobre as circunstâncias desta
moção dos próprios interesses, normalmente declaração, ver com. do v. 1.
encontra outra que a obriga a ocupar um Bem-aventurado. Ou, “feliz” (ver com.
lugar mais humilde. de Mt 5:3). A recomendação desagradável
Exaltado. Inversamente, a pessoa que que Jesus fez nos v. 12 a 14 levou a esta ten­
esquece os próprios interesses e faz de sua tativa de voltar a conversa para temas mais
ocupação encorajar e auxiliar outros é nor­ agradáveis (ver PJ, 221). A referência de
malmente a que as outras têm prazer em Jesus à ressurreição (v. 14) sugeriu ao fari­
homenagear. A humildade é o passaporte seu uma piedosa declaração que ele então
para a exaltação no reino celestial, ao passo proferiu. O homem se deleitava em visuali­
que o desejo de se exaltar é uma barreira à zar a recompensa do reto proceder, mas con­
entrada no reino (cf. Is 14:12-15; Fp 2:5-8). siderava desagradável a ideia do agir correto.
12. Jantar. Do gr. ariston, originalmente Ele ansiava desfrutar os privilégios do reino
significava a primeira refeição ou o café da celestial, mas não queria as responsabilida­
manhã. No entanto, foi usado posterior­ des envolvidas. Ele relutava em concordar
mente para a refeição do meio-dia. com as condições de entrada no reino, mas

807
Ceia. Do gr. deipnun, normalmente se parecia não ter dúvida de que lhe seria con- <
refere à refeição noturna. cedido um lugar de honra na grande Ceia.
Não convides os teus amigos. Comer pão. Isto é, “refeição” (ver com.
Segundo o grego, o pensamento pode ser do v. 1). No uso idiomático judaico, "comer
resumido como: “Não se habitue a convi­ pão no reino de Deus” signiiicava desíru-
dar apenas seus amigos.” Jesus não exclui tar a bem-aventurança celestial (cf. Is 25:6;
a hospedagem de amigos, mas adverte con­ Lc 13:29). A declaração do fariseu estava
tra os motivos egoístas que levam muitos a correta, mas o espírito com que foi feita e
hospedar apenas aqueles de quem esperam o motivo que a estimulou estavam com­
cortesia semelhante. Jesus encorajou a hos­ pletamente errados. O interlocutor estava
pitalidade baseada no interesse genuíno em convicto de receber um convite (sobre o sig­
satisfazer as necessidades dos semelhantes. nificado da expressão “reino de Deus”, ver
Ele salientou que esse tipo de hospitalidade, com. de Ml 5:2, 3; Mc 3:14; Lc 4:19).
embora não dê recompensa na vida atual, 16. Uma grande ceia. Jesus fala das
será recompensada na vida futura. abundantes bênçãos do reino celestial com o
Por sua vez. Isto é, em retribuição ao símbolo de uma grande festa, que era comum
convite anterior. aos ouvintes (ver com. do v. 15). Ele não con­
13. Convida os pobres. Segundo a testou a declaração do fariseu (v. 15), mas
lei mosaica, este era um dever (ver com. de colocou em dúvida a sinceridade de quem
Dt 14:29). Quem estava em necessidade não a fez. O fariseu era um dos que, naquele
deveria ser esquecido. momento, rejeitava o convite do evangelho
14. Recompensar. Literalmente, “recom­ (ver com. dos v. 18, 24).
pensar” ou “reembolsar”. Há muitas semelhanças entre esta pará­
Dos justos. A “menção da ressurreição bola e a da festa de casamento do filho do rei
dos justos” indica uma ressurreição seme­ (ver Mt 22:1-14), mas há também diferenças.
lhante dos “injustos” (ver Jo 5:29; At 24:15). As circunstâncias em que as duas parábo­
15. Um dos que estavam. [A pará­ las foram propostas também são diferentes.
bola da grande ceia, Lc 14:15-24. Cf. com. A parábola de Lucas 14 foi apresentada no

890
LUCAS 14:21

lar de um fariseu, enquanto a de Mateus 22 mais os interesses temporais do que as coi­


foi proferida no contexto da tentativa de apri­ sas eternas (ver Mt 6:33).
sionar Jesus (ver Mt 21:46). Nas culturas orientais, recusar um con­
Convidou muitos. Isto representa o pri­ vite, exceto quando é impossível aceitá-lo,
meiro convite à festa do evangelho, o convite é considerado rejeição da amizade. Entre
aos judeus em todo o período do AT (ver vol. alguns árabes, recusar um convite na época
4, p. 13-20). Refere-se especificamente aos do lembrete (ver com. do v. 17), depois de
repetidos apelos divinos a Israel por meio dos ter aceitado o convite original, é conside­
profetas (cf. com. do v. 21-23). rado como uma declaração de hostilidade.
17. Enviou o seu servo. O próprio Por outro lado, aceitar um convite c partici­
Jesus pode ser considerado como o “servo” par da festa indica amizade.
enviado para proclamar que “tudo já está Comprei um campo. Mesmo se aceita
preparado”. Nas culturas orientais, ainda é ao pé da letra, a desculpa era inconsistente
costume enviar um mensageiro pouco tempo - a compra já havia sido feita. Certamente
antes do início da festa, para lembrar os con­ o comprador examinava o campo antes de
vidados. No caso de o convidado ter esque­ fechar o negócio.
cido o convite, ou não saber quando deveria 19. Cinco juntas de bois. Novamente,
comparecer, esse lembrete concederia tempo a compra já fora efetuada. O comprador pla­
para se preparar para a ocasião e chegar ao nejava apenas confirmar o bom negócio cjue
local designado para o banquete. No Oriente, lizera, tareia cjue poderia ser postergada caso
onde se presta menos atenção a calendários c ele desejasse participar da festa.
relógios do que nas culturas ocidentais, esse 20. Não posso ir. O homem que deu-«!
lembrete é de valor prático, a fim de se evi­ esta desculpa parece ter sido ainda mais
tar constrangimento tanto ao anfitrião como rude que os demais. Enquanto os outros
aos convidados. pediram para serem dispensados, este infor­
18. Todos, à uma. Isto dá a impressão mou categoricamente ao servo: “Não posso
de que os convidados conspiraram ir.” Alguns reconhecem que este homem
para insultar o benevolente anfitrião. baseava sua recusa em certas isenções de
Naturalmente, foram convidadas mais de obrigações militares e tarefas civis, conce­
três pessoas para a festa (ver v. 16). As des­ didas durante o primeiro ano da vida mari­
culpas que Jesus enumera exemplificam o tal (ver com. de Dt 24:5). Por isso, ele disse:
que o servo ouviu por onde passou. Houve “Não posso ir.” No entanto, essa lei não o
outra amostragem semelhante de casos isentava do convívio social, e qualquer ten­
em que estavam envolvidas mais de três tativa para fingir que agiu de acordo com
pessoas (ver Lc 19:16-21). tal lei seria um falso pretexto. A desculpa
Começaram. Cada convidado em deste homem era, na verdade, pior do que a
perspectiva inventou seu pretexto, porque dos anteriores.
nenhum deles tinha uma justificativa acei­ 21. Irado. À medida que o servo relatava
tável. O motivo real, em cada caso, era que o uma a uma as desculpas, a ira do anfitrião
convidado estava mais interessado em outra aumentava. A princípio, os homens acei­
coisa qualquer, algo que ele poderia postergar taram o convite e, apoiado na confirma­
se quisesse ir à festa. As desculpas indicavam ção deles, o anfitrião preparou a festa. No
também que não havia apreciação pela hospi­ entanto, uma vez que os preparativos termi­
talidade e amizade do anfitrião. Os que rejei­ naram e o alimento estava pronto, parecia
taram o convite do evangelho valorizaram haver uma conspiração para envergonhá-lo

891
14:22 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

(ver com. cio v. 18). Além disso, ele fizera Os pobres, os aleijados. Os judeus
gastos consideráveis. criam que as pessoas que sofriam financeira
Deus, que prepara a festa celestial, não ou fisicamente não tinham o favor de Deus
Se “indigna” da mesma forma que os seres e, por isso, essas classes eram desprezadas e
humanos. Mesmo assim, em vista de tudo negligenciadas (ver com. de Mc 1:40; 2:10).
que Ele fez para prover as bênçãos da sal­ Supostamente, Deus os teria abandonado,
vação, as pessoas que desprezam o convite e a sociedade também os considerava como
e o favor divino entristecem o Pai celestial. rejeitados. Nesta parábola, Jesus nega que
Todos os recursos celestiais foram investidos tais pessoas fossem desprezadas por Deus
na obra de salvação, e o mínimo que as pes­ e declara que elas não devem ser despreza­
soas podem fazer é valorizar e aceitar o que das por seus semelhantes, mesmo quando
Deus preparou. os sofrimentos se devem aos próprios erros
Sai depressa. E evidente que o anfitrião ou imprudência. As pessoas atingidas pela
não desejava ver desperdiçados os caros man­ pobreza e as deficientes fisicamente pare­
timentos. Se os melhores amigos dele esco­ cem representar, neste versículo, principal­
lheram não aproveitar os símbolos de sua boa mente os que são moral e espiritualmente
vontade, ele de bom grado convidaria estra­ arruinados. Eles não possuíam boas obras
nhos para os usufruir. Essa atitude está em para oferecer a Deus em troca das bênçãos
harmonia com o conselho que Jesus deu um da salvação.
pouco antes desta parábola (ver os v. 12-14), o 22. E ainda há lugar. O servo per­
qual pareceu desagradável aos convidados da cebe que o anfitrião desejava que todos os
festa, da qual Jesus então participava, e que lugares em seu banquete fossem preenchi­
também levou um deles a mudar de assunto dos. O mesmo ocorre na festa do evangelho.
(ver com. do v. 15). Deus não criou a terra “em vão” (ver com. de
Ruas e becos. Isto é, as ruas princi­ Is 45:18), como um deserto vazio, mas desig­
pais e as secundárias ou becos. O convite nou que ela fosse habitada como o lar eterno
do evangelho fora dado primeiramente aos de uma raça humana feliz. Embora o pecado
judeus, representados neste versículo como tenha adiado o cumprimento desse propósito
os moradores de uma “cidade”. Os principais divino por um tempo, ele será finalmente
cidadãos da cidade, que recusaram o con­ alcançado (ver PP, 67). A cada pessoa que
vite, eram os líderes judeus, alguns dos quais nasce é concedida a oportunidade de partici­
estavam reunidos com Jesus na festa na casa par da festa do evangelho e habitar para sem­
809

de um fariseu (ver com. do v. 1). Os convi­ pre na terra renovada. Esta parábola indica 4
dados que recusaram o convite representa­ claramente que a mesma oportunidade rejei­
vam a aristocracia religiosa de Israel. Então, o tada por uma pessoa será avidamente aceita
benevolente anfitrião se volta de seus amigos por outra (cf. Ap 3:11).
escolhidos para os estranhos da “cidade”, os 23. Caminhos e atalhos. Os convi­
negligenciados e, muitas vezes, desprezados dados para a festa do evangelho foram os
pela sociedade. Estes estranhos residiam na judeus (ver com. dos v. 16, 21). Deus os cha­
mesma “cidade” que os convidados e, assim, mou primeiro, não porque os amava mais,
eram judeus. No entanto, alguns deles eram nem porque eram mais dignos, mas para que
publicanos e pecadores, homens e mulheres a compartilhassem os sagrados privilégios con­
quem os aristocratas religiosos consideravam fiados a eles (ver vol. 4, p. 12-25).
como párias. Apesar disso, estavam famintos Jesus esteve na companhia de publica­
e sedentos do evangelho (ver com. de Mt 5:6). nos e pecadores, os párias da sociedade,
892
LUCAS 14:24

para consternação dos líderes judeus (ver Gom as palavras “obriga a todos a entrar",
com. de Mc 2:15-17). Durante o ministério Jesus apenas enfatiza a urgência do convite
na Galileia, Ele trabalhou muito por esses, e a força irresistível da graça divina. Amor e
os espiritualmente “pobres” e “aleijados”, bondade devem constituir a força irresistível
nas “ruas e becos” da Galileia (ver com. de (ver PJ, 235). A palavra anagkazõ é utilizada
Lc 14:21). No entanto, quando o povo gali- com este mesmo sentido com relação à oca­
leu O rejeitou na primavera de 30 d.C. (ver sião quando Jesus “obrigou” os discípulos a
com. de Mt 15:21; jo 6:66), Jesus ministrou entrar no barco (Mt 14:22). Há uma grande
aos gentios, aos samaritanos e aos judeus (ver diferença entre o apelo insistente que Jesus
com. de Mt 15:21). No entanto, transmitir o tinha cm mente e o constrangimento que
convite do evangelho aos que estavam “nos muitos cristãos consideraram adequado nos
caminhos e atalhos” refere-se principalmente séculos passados e que alguns utilizariam
à evangelização dos gentios depois da rejei­ na atualidade, caso tivessem oportunidade.
ção final do evangelho por parte dos judeus, A parábola demonstra que a força física
como nação, uma rejeição que culminou não foi utilizada em momento algum para
no apedrejamento de Estêvão (ver vol. 4, conseguir convidados para a festa. Se fosse
p. 20-23; At 1:8). Os “caminhos e atalhos” propósito do anfitrião utilizá-la, ele o teria
da parábola correspondem ao lado externo da feito com o primeiro grupo de convidados.
“cidade” e, portanto, representam as regiões Os convites para a festa do evangelho têm
não judaicas, ou os gentios (ver com. de Lc as palavras: “quem quiser” (Ap 22:17). Esta
14:21). Na evangelização do mundo, quando parábola não sanciona a teoria da persegui­
se depararam com a oposição de seus próprios ção religiosa como meio de levar pessoas
concidadãos, os apóstolos se voltaram para os a Cristo. Qualquer utilização de força ou
gentios (At 13:46-48; cf. Rm 1:16; 2:9). perseguição em questão de religião é uma
Obriga. Do gr. anagkazõ, “constran­ política não inspirada por Cristo.
ger” ou “compelir”, por força ou persuasão. Para que fique cheia a minha casa.
Alguns consideraram que esta declaração Ver com. do v. 22. O anfitrião convidou “mui­
justifica a utilização da força para conver­ tas” pessoas (ver v. 16). Além disso, quando o
ter pessoas a Cristo. O fato de Jesus não servo saiu pelas ruas e becos da cidade, não
recorrer à força para compelir pessoas a conseguiu encontrar pessoas suficientes para
crer nEle, nem instruir os discípulos a agir encher o salão de festa (ver v. 22).
dessa forma, e de a igreja apostólica nunca 24. Nenhum daqueles homens. Esta
constranger pessoas evidencia que Jesus exclusão contundente dos convidados iniciais
não pretendia que tal interpretação fosse é por ordem do anfitrião da parábola. Mas
dada às Suas palavras. Por preceito e exem­ isso não significa que o Céu exclui alguém
plo, o Senhor constantemente aconselhava arbitrariamente. O anfitrião da história sim­
os discípulos a evitar controvérsia e retalia­ plesmente cancela o convite original que fora
ção pelas injustiças (ver com. de Mt 5:43-47; recusado. Sua casa então fica “cheia” (v. 23)
018

6:14, 15; 7:1-5, 12; etc.), tanto como indiví­ e não há mais espaço. Mas, no reino ceies- «
duos quanto como arautos oficiais do evan­ tial, há espaço abundante para quem dese­
gelho (ver com. de Mt 10:14; 15:21; 16:13; jar entrar (ver com. do v. 22).
26:51, 52; Lc 9:55). Os discípulos não deve­ Jesus não ensina nesta parábola que as
riam perseguir outras pessoas (Lc 9:54-56) e posses terrenas são necessariamente incom­
deveriam suportar a perseguição com mansi­ patíveis com o reino celestial, mas que
dão (ver com. de Mt 5:10-12; 10:18-24, 28). a afeição exagerada pelos bens materiais

893
14:25 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

desqualifica a pessoa para o Céu - na ver­ Novamente, as multidões se aglomeraram ao


dade, tira-lhe o desejo pelas coisas divinas. redor de Cristo, como durante Seu ministé­
Ninguém pode “servir a dois senhores” (ver rio público na Galileia (ver com. de Mt 5:1;
com. de Mt 6:19-24). Os que investem os Mc 1:28, 37, 44, 45; 2:2, 4; 3:6-10; etc.).
melhores esforços para acumular posses ou Nestas circunstâncias, rumo ao final de
desfrutar prazeres terrenos ficarão de fora Seu ministério, também parece ter havido
porque a afeição do coração está nas coisas uma convicção crescente na mente de mui­
terrenas e não nas celestiais (cf. Mt 6:25-34). tos de que Ele estava prestes a Se procla­
A cobiça pelos bens materiais finalmente mar o líder de Israel numa revolta contra
elimina o anseio pela salvação (ver com. Roma (ver com. de Mt 19:1, 2; 21:5, 9-11).
de Lc 12:15-21). Quando pessoas cobiço­ Embora muitos O seguissem com sinceri­
sas são chamadas a partilhar sua riqueza dade, a maioria o fazia devido à curiosidade
acumulada, elas vão embora “tristes” (ver com. ou por motivos egoístas.
de Mt 19:21, 22). É “difícil" para “um rico Voltando-Se. Enquanto a multidão
entrar no reino dos Céus” (Mt 19:23, ARC) seguia Jesus, um dia Ele parou, olhou
pela simples razão de que, em geral, ele não diretamente para as pessoas e proferiu os
deseja entrar. princípios relatados nos v. 26 a 35. Muitos
Nenhum [...] provará a minha ceia. dos que seguiam o Mestre eram um obs­
Isto é, no caso de eles mudarem de ideia táculo e não um auxílio à Sua causa. Jesus
mais tarde. A salvação consiste no con­ aconselhou todos a pensar no que estavam
vite que Deus estende e na aceitação do fazendo.
ser humano. Ambos se complementam. 26. Se alguém vem. Jesus então apre­
As Escrituras constantemente retratam a sentou quatro princípios: (1) o discipulado
mudança de ideia por parte daqueles que envolve tomar a cruz, v. 26 e 27; (2) o custo
recusaram a graça de Deus quando for tarde do discipulado deve ser considerado cui-
demais, isto é, quando o chamado do evan­ dadosamente, v. 28 a 32; (3) as ambições
gelho não mais soar (ver Jr 8:20; Mt 25:11, pessoais e posses materiais devem ser colo­
12; Lc 13:25). Esse chamado será finalmente cadas no altar do sacrifício, v. 33; e (4) o
retirado, não por causa de um limite à mise­ espírito de sacrifício deve ser permanente,
ricórdia de Deus, mas porque os que foram v. 34 e 35.
excluídos terão tomado uma decisão con­ Aborrece. O emprego que a Escritura
clusiva e final. Se mudarem de ideia depois, faz deste verbo deixa claro que isto não é
essa mudança apenas refletirá a percepção “aborrecer” no sentido costumeiro. Na Bíblia,
deles de que fizeram a escolha errada, e não “aborrecer” normalmente deve ser com­
significa que eles repentinamente adquiri­ preendido apenas como uma típica hipér­
ram um desejo genuíno de viver em obe­ bole oriental que significa “amar menos” (ver
diência a Deus. Dt 21:15-17). Este fato é visto claramente na
25. Grandes multidões O acompa­ passagem paralela onde Jesus diz: “Quem
nhavam. [O serviço de Cristo exige abne­ ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim
gação, Lc 14:25-33. Sobre as parábolas, não é digno de Mim” (Mt 10:37). Esta hipér­
ver p. 197-204]. Não há um registro claro bole é utilizada para tornar vívido ao segui­
acerca do tempo, local ou das circunstân­ dor de Cristo que, em todo o tempo, ele deve
cias em que o conselho desta seção foi dado. dar o primeiro lugar em sua vida ao reino dos
Possivelmente, a época foi bem antes de 31 céus. Com relação às posses materiais, nova­
d.C., e o local, a Pereia (ver com. do v. 1). mente o princípio que rege é uma questão
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LUCAS 14:35

do que se coloca em primeiro lugar (ver com. está disposto a percorrer todo o caminho não
de Mt 6:19-34). deveria começar.
Não pode ser Meu discípulo. A ques­ 29. Zombem dele. A falta de previsão
tão não é “não será”, e sim “não pode”. Aquelesdeste sujeito incorre não apenas em falha,
cujos interesses pessoais prevalecem sobre a mas também no constrangimento pessoal.
lealdade a Cristo e a devoção a Seu serviço 30. Este homem. Algumas vezes, o pro­
considerarão impossível atender às exigências nome “este” é usado para manifestar desprezo
«► divinas. Em todos os momentos e circunstân­ ou sarcasmo em relação a uma pessoa (ver
cias, o chamado do reino deve ter prioridade. com. de Lc 15:2).
O serviço de Jesus exige renúncia completa e 31. Qual é o rei [...]? Sobre o signi­
permanente (sobre os v. 26, 27, ver com. de ficado desta parábola e sua relação com o
Mt 10:37, 38). discurso como um todo, ver com. do v. 28.
27. Tomar a sua cruz. Ou, "tomar sua A ilustração anterior procede do mundo
própria cruz” (ver com. de Mt 10:38, 39). empresarial; esta, proveniente do mundo
A execução por crucifixão foi introduzida político, ilustra a mesma verdade.
na Palestina por Antíoco Epifânio (Josefo, Vinte mil. Embora a desvantagem esteja
Antiguidades, xii.5.4 [256]). para o rei com 10 mil, pode haver outros fato­
28. Qual de vós [...]? As parábo­ res que neutralizem a superioridade numé­
las gêmeas dos v. 28 a 32 constituem uma rica do inimigo e façam da expectativa de
advertência quanto a assumir as responsa­ vitória uma possibilidade.
bilidades do discipulado de forma leviana. 32. Condições de paz. Ou, “termos
Aqueles que inicialmente aceitaram o con­ de paz”.
vite para a festa e mudaram de ideia quando 33. Assim, pois. Como de costume,
surgiram outros interesses não refletiram Jesus claramente afirma a lição que pre­
seriamente quanto ao convite. Essas duas tende ensinar com a parábola. O discipulado
parábolas se aplicam especificamente a tais envolve depor sobre o altar tudo o que a pes­
pessoas. soa tem na vida: planos, ambições, amigos,
Torre. Uma “torre” pode ser uma estru­ parentes, posses, riquezas; tudo que possa
tura grande e dispendiosa (cf. Lc 13:4) interferir no serviço para o reino dos céus
ou uma estrutura simples, feita de ramos (cf. Lc 9:61, 62). Essa foi a experiência do
(cf. Mt 21:33). Neste versículo, refere-se à apóstolo Paulo (ver Fp 3:8-10).
primeira. Talvez houvesse um exemplo das 34. O sal é certamente bom. [Os dis­
situações apresentadas na parábola na vila cípulos, sal da terra, Lc 14:34, 35 = Mt 5:13 =
em que Jesus estava ensinando. Mc 9:50]. Sobre os v. 34, 35, ver com. de
Calcular a despesa. Não há sentido Mt 5:13; cf. Mc 9:50. Neste versículo, o sabor
em iniciar algo que não se possa concluir. do “sal” representa o espírito de devoção.
Tal projeto absorve tempo e energia sem pro­ Jesus declara que, sem o espírito de devo­
duzir recompensas equivalentes. O “custo” ção, o discipulado não tem significado.
do discipulado é a renúncia completa e per­ 35. Quem tem ouvidos. Ver com. de
manente das ambições terrenas. Quem não Mt 11:15.

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