Você está na página 1de 31

ENSINO A DISTÂNCIA

História
Licenciatura em

OFICINA DE HISTÓRIA IV

Angela Ribeiro Ferreira


Elizabeth Johansen

pONTA gROSSA / pr
2010
CRÉDITOS
Universidade Estadual de Ponta Grossa
João Carlos Gomes
Reitor

Carlos Luciano Sant’ana Vargas


Vice-Reitor

Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância


Leide Mara Schmidt - Coordenadora Geral Colaboradores em Informática
Cleide Aparecida Faria Rodrigues – Coordenadora Pedagógica Carlos Alberto Volpi
Carmen Silvia Simão Carneiro
Sistema Universidade Aberta do Brasil Adilson de Oliveira Pimenta Júnior
Hermínia Regina Bugeste Marinho – Coordenadora Geral Juscelino Izidoro de Oliveira Júnior
Cleide Aparecida Faria Rodrigues – Coordenadora Adjunta Osvaldo Reis Júnior
Kin Henrique Kurek
Curso de História – Modalidade a Distância Thiago Luiz Dimbarre
Myriam Janet Sacchelli – Coordenadora Thiago Nobuaki Sugahara

Colaboradores Financeiros Colaboradores em EAD


Luiz Antonio Martins Wosiack Dênia Falcão de Bittencourt
Jucimara Roesler
Colaboradores de Planejamento
Silviane Buss Tupich Colaboradores de Publicação
Edson Gil Santos Júnior – Diagramação
Maria Beatriz Ferreira – Revisão
Sozângela Schemim da Matta – Revisão

Colaboradores Operacionais
Edson Luis Marchinski
Joanice de Jesus Küster de Azevedo
João Márcio Duran Inglêz
Maria Clareth Siqueira
Mariná Holzmann Ribas

Todos os direitos reservados ao NUTEAD - Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância -


Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, Paraná, Brasil.

Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Processos Técnicos BICEN/UEPG.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA


Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância - NUTEAD
Av. Gal. Carlos Cavalcanti, 4748 - CEP 84030-900 - Ponta Grossa - PR
Tel.: (42) 3220 3163
www.nutead.uepg.br
2009
Universidade Aberta do Brasil

meio é histórico” representa, para os professores de história, noção


fundamental e determinante na escolha dos espaços para realização de
um estudo do meio”. A autora ainda ressalta que

O importante é saber explorar historicamente qualquer ‘lugar’, fazer um direcionamento


do ‘olhar’ do aluno, levando-o a entender o que são fontes históricas não escritas:
as construções, os telhados das casas, o planejamento urbano, as plantações, os
instrumentos de trabalho, as informações obtidas pela memória oral de pessoas
comuns (2004, p. 280).

Vamos entender, a seguir, como se constituem os patrimônios.

seção 2
Patrimônio, museus e arquivos

Patrimônio
Para iniciar nosso estudo sobre patrimônio devemos, antes de
qualquer coisa, analisá-lo como um conceito interdisciplinar, refletindo
sobre como os diversos campos do conhecimento - Antropologia, História,
Belas Artes, Arquitetura, Educação, entre outros - o utilizam para o
desenvolvimento de suas análises da sociedade. Cada um desses campos se
apropria do conceito para estudar seus objetos específicos, mas ao mesmo
tempo inicia uma relativa aproximação com as outras disciplinas.
O que estamos querendo dizer?
Você é acadêmico do curso de Licenciatura em História e logo
será um professor-pesquisador de História, mas agora está estudando
o conceito de patrimônio não apenas pelo viés histórico - mas também
por uma perspectiva que conjugará tendências teóricas diversas,
pois sabemos que todas essas divisões do conhecimento são criações
humanas. Em outras palavras, a História, a Arquitetura, a Educação, a
Antropologia, a Economia, as Belas Artes, entre outras, são divisões do
pensamento estabelecidas em algum momento, resultantes de processos
em transformação e que continuam em mudança.

16
unidade 1
Oficina de História IV
Voltando ao nosso assunto, é interessante analisar a postura que o
antropólogo Gonçalves (2003, p. 22) apresenta sobre patrimônio:

Muitos são os estudos que afirmam constituir-se essa categoria em fins do século
XVIII, juntamente com os processos de formação dos Estados nacionais, o que é
correto. Omite-se, no entanto, o seu caráter milenar. Ela não é simplesmente uma
invenção moderna. Está presente no mundo clássico e na Idade Média, sendo que
a modernidade ocidental apenas impõe os contornos semânticos específicos que,
assumidos por ela, podemos dizer que a categoria “patrimônio” também se faz
presente nas sociedades tribais.

Mas o que o referido antropólogo quer dizer com contornos


semânticos específicos?
O termo patrimônio está entre as palavras que mais usamos em
nosso cotidiano. Observe. Nós possuímos patrimônios econômicos e
financeiros, por exemplo, o dinheiro que está em nossa carteira; talvez
alguns possuam patrimônios imobiliários, como a casa em que residem.
Porém, esses tipos de patrimônio a que nos referimos (econômico,
financeiro e imobiliário) podem pertencer tanto a uma pessoa como a
uma família, a uma empresa, a um país, revestindo-se, automaticamente,
de outros significados e sentidos.
Também usamos o termo patrimônio quando nos referimos a
patrimônios culturais, etnográficos, genéticos, arquitetônicos, históricos,
ecológicos, artísticos, sem falar nos intangíveis, que veremos em maior
detalhe nas próximas unidades. Pensando dessa forma, podemos observar
que não existe limite para a qualificação da palavra patrimônio.
De acordo com Canani (2005, p.164), “o conceito de patrimônio (...)
pode ser entendido como um conjunto de bens, materiais ou não, direitos,
ações, posse e tudo o mais que pertença a uma pessoa.” Analisando
o conceito dessa forma, percebemos que o patrimônio relaciona-se
diretamente com a ideia de propriedade, seja ela individual ou coletiva.
Etimologicamente falando, propriedade relaciona-se com a ideia
de herança, isto é, “algo a ser deixado ou transmitido para as futuras
gerações” (CANANI, 2005, p. 165).
Vamos fazer uma pausa e analisar todas essas informações.
Conforme a autora acima citada, o patrimônio pode tanto ser
material, como uma construção (por exemplo: o Cristo Redentor, no Rio de
Janeiro), mas também pode ser imaterial, como o conhecimento para se

17
unidade 1
Universidade Aberta do Brasil

realizar uma determinada comida (o pão de queijo mineiro, por exemplo)


ou uma dança (exemplo: a Congada, no interior de Goiás).

Cristo Redentor, Rio de Janeiro (RJ).


Fonte: disponível em http://www.colorfotos.com.br/rio_de/imagens.htm

Congada realizada na cidade de Catalão, interior de Goiás.


Fonte: disponível em http://img245.imageshack.us/img245/1412/congocatalo.jpg

Aprofundando um pouco mais a nossa análise, é possível


compreender que o patrimônio é uma noção de valor, que pode ser
individual ou coletiva. Ou seja, o que tem valor para mim (esse valor pode
ser financeiro, mas também pode ser afetivo) é o meu patrimônio, que
eu deixo de herança para os meus descendentes. Por outro lado, existem
patrimônios que são valorizados não apenas por mim, mas por grande
parte dos habitantes da minha cidade, do meu estado, do meu país. Esses
patrimônios são reconhecidos como representativos daquela comunidade
em especial.
Em seu texto, Gonçalves (2003, p. 23) afirma que nós podemos
transitar de uma cultura para outra a partir do conceito de patrimônio,

18
unidade 1
Oficina de História IV
sempre tomando o cuidado de observar que não existem modelos corretos
e excludentes. Ou seja, o que é reconhecido como patrimônio em uma
comunidade, não necessariamente o será em outra, onde os valores são
diferentes. De acordo com alguns estudos contemporâneos, comunidades
constituem um objeto como seu patrimônio pela sua função utilitária, por
exemplo, uma igreja. Já outros grupamentos humanos constituem seu
patrimônio por sua natureza moral, religiosa, mágica, jurídica, estética,
política, psicológica, ou econômica.
Assim sendo, o patrimônio é um artefato cultural inventado que adquire
significados no processo de sua construção, ou seja, no processo cotidiano
de vida dos grupamentos humanos. As sociedades criam simultaneamente
seu espaço e seu tempo; por consequência, suas ações e objetos são melhor
compreendidos a partir do conhecimento desses aspectos. Para exemplificar
tal posicionamento apresentamos a seguinte citação:

Chartres é feita de pedra e vidro, mas não é apenas pedra e vidro, é uma catedral,
e não somente uma catedral, mas uma catedral particular, construída num tempo
particular por certos membros de uma sociedade particular. Para compreender o que
isso significa, para perceber o que isso é exatamente, você precisa conhecer mais
do que as propriedades genéricas da pedra e do vidro e bem mais do que é comum
a todas as catedrais. Você precisa compreender também – e, em minha opinião, da
forma mais crítica – os conceitos específicos das relações entre Deus, o homem e a
arquitetura que ela incorpora, uma vez que foram eles que governaram a sua criação.
Não é diferente com os homens; eles também, até o último deles, são artefatos
culturais. (GEERTZ, 1978, p.63, apud KERSTEN, 2000, p. 29).

Sendo um artefato cultural inventado, o mesmo patrimônio pode


envolver aspectos distintos, por exemplo, uma festividade realizada a
gerações em uma determinada cidade. Para que a festa ocorra, elementos são
construídos e constituídos como patrimônio, como a culinária, a arquitetura,
a música, a dança, os rituais (religiosos ou não), as regras (jurídicas ou não), a
moralidade etc., existindo todos em função dessa festividade em especial. De
acordo com essa visão antropológica, a ênfase do conceito de patrimônio está
nas relações sociais e não necessariamente nos objetos em si ou nas técnicas
utilizadas para sua confecção.
Talvez você esteja se perguntando: quem escolhe ou institui algo como
patrimônio representativo de uma comunidade?
O historiador Ulpiano de Menezes analisa a cidade como um grande
patrimônio a céu aberto e, nesse sentido, se questiona: “Qual cidade vamos

19
unidade 1
Universidade Aberta do Brasil

preservar? A cidade dos antepassados, dos heróis fundadores (e dos vilões),


dos donos do poder, de ontem e de hoje? Ou conforme a fonte de informação,
a cidade dos eruditos e dos historiadores, dos poetas oficiais, dos urbanistas,
dos tecnocratas planejadores? Dos habitantes? Quais? Dos homens da rua e
daqueles que com suas mãos a constrói, simples instrumento?” (MENEZES,
1992, apud GIOVANAZ, 2007, p. 236).
Observado por esse prisma, percebemos que o patrimônio possui
uma conotação ideológica, pois é constituído a partir de elementos, fatos ou
situações escolhidos do passado com o objetivo de redesenhar um quadro
que remeta à cultura comum, ou seja, onde todos se reconheçam. A ação
de criar um patrimônio estabelece uma continuidade temporal, conferindo
existência física a uma determinada história.
Atualmente, tornou-se mais comum o uso do conceito de patrimônio
cultural, que registra as manifestações significativas presentes nas relações
sociais, independentemente de quais relações sejam, assim como de quais
pessoas participam dela. Dessa forma, permite o que Cury (2006, p.28)
classifica como fundamental, visto que “patrimônio é um conceito universal,
de domínio de todos, entendendo que todos temos direito ao nosso próprio
patrimônio e compromisso de defesa do patrimônio de outros”.
Vale sublinhar que essas diferentes formas de se apresentar o conceito
de patrimônio não se excluem, mas se complementam e permitem um
aprofundamento na forma de análise de um patrimônio em destaque.
Na sequência de nossos estudos, veremos duas instituições de
preservação fundamentais para o resgate e manutenção do patrimônio
cultural de uma comunidade: o museu e o arquivo.

Museus

Vista do Museu Paulista, também conhecido como Museu do Ipiranga, São Paulo (SP) Fonte:
disponível em http://www.encontraipiranga.com.br/imgs/imagens-ipiranga/museu-2-ipiranga.jpg

20
unidade 1
UNIDADE II
Oficina de História IV
Patrimônio:
Uma categoria de análise

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
■■ Compreender as linhas gerais das discussões contemporâneas sobre

patrimônio.

■■ Estudar as relações entre as demandas sociais por orientação histórica e a

produção de registros históricos e monumentos.

■■ Analisar as transformações ocorridas nas políticas patrimoniais desenvolvidas

no Brasil durante o século XX.

ROTEIRO DE ESTUDOS
■■ SEÇÃO 1 - História do patrimônio histórico e cultural

■■ SEÇÃO 2 - Políticas patrimoniais no Brasil

31
unidade 1
Universidade Aberta do Brasil

PARA INÍCIO DE CONVERSA


Pêndula
Vão demolir o casarão da esquina:
a casa antiga, ornada de volutas,
folhas de acanto na fachada, em frisos,
a sacada uma renda em ferro azul,
e a cascata de mármore da escada.
Móveis de estilo nos salões, galas de outrora,
grandes espelhos, porcelanas, alabastros.
Pêndula preguiçosa a demorar o tempo.
Gotas de luz do carrilhão cantando as horas.
No casarão vazio, os fantasmas
dos que viveram no aconchego da lareira,
dos que dançaram sob a luz dos candelabros
e usaram linhos e baixelas e cristais
e finos gestos de olvidada cortesia.

Helena Kolody

Ao pensarmos em patrimônio, devemos buscar a riqueza da


diversidade como a apresentada pela poetisa acima. Ou seja, não limite
seu entendimento acreditando que patrimônio restringe-se apenas à
materialidade, àquilo que pode ser visto e tocado. O conceito abrange
muito mais que isso. Ao estudarmos patrimônio, veremos que ele também
é composto pelas vivências, pelas práticas sociais, pelas construções
cotidianas materiais e imateriais, de uma multiplicidade de tipos que
compõem uma mesma sociedade. No entanto, nesta unidade você verá
que nem sempre essa foi a explicação mais usual. Da mesma forma, o
Brasil possuiu políticas patrimoniais distintas no decorrer dos séculos XX
e XXI, e, para que tenhamos condições de perceber as transformações
ocorridas, faz-se necessário um estudo mais cuidadoso. Portanto, vamos
ao trabalho e bom estudo!

seção 1
História do patrimônio histórico e cultural

32
unidade 2
Oficina de História IV
Como vimos na unidade anterior, compreender o significado do
conceito de patrimônio e sua contribuição para o entendimento das
características de um grupamento social é um desafio interdisciplinar.
No entanto, entendê-lo é cada vez mais uma necessidade presente,
pois as sociedades atuais, por mais que possuam um elevado grau
de intercomunicação - seja pela presença da televisão, do telefone e
principalmente da internet, o que pode provocar relativa “uniformidade”
cultural - diferenciam-se entre si pelo processo histórico em que vivem
ou ao qual foram submetidas.
Pensar em que cada comunidade contemporânea se diferencia
das outras nos permite contextualizar o patrimônio de cada uma em seus
processos sociais, ou seja, “como dinâmicas dramatizações da experiência
coletiva, sobre a qual cada grupo social manifesta o que deseja situar
como perene e eterno” (DAMATTA, 1979 apud KERSTEN, 2000, p. 15-
16). Dessa forma, rompe-se com o senso comum que define patrimônio
apenas como um conjunto imutável de objetos, edificações e documentos,
agregando-se como contribuição o entendimento dos sentidos atribuídos
para a construção de um patrimônio a partir de suas orientações culturais,
políticas, cronológicas, artísticas ou históricas. De acordo com Kersten
(2000, p. 29-30), pela narrativa

os fatos não são apenas descritos tal como realmente aconteceram, mas vão sendo
reconstruídos sob um conjunto plural de pontos de vista apreendidos de múltiplas
maneiras. Esta reconstrução subordina-se às condições culturais vivenciadas no
presente, tecendo uma rede de significados, com diferentes conotações, que se
delineiam por meio de um determinado discurso histórico. Esta rede de significados
não é uma simples escolha arbitrária; ela organiza o valor social do bem patrimonial
e depende, fundamentalmente, dos juízos de valor que a ele são acoplados. Estes
juízos irão determinar que sua valorização não seja definida apenas a partir de
características físicas, mas que sua maior ou menor importância seja considerada
dentro de um complexo quadro de referências.

Mas o que a autora quer dizer com essa citação?


Quando uma casa ou um conjunto arquitetônico, ou então
uma coleção de documentos são escolhidos e passam pelo ritual do
tombamento, evitando a degradação física, ou seja, evitando desaparecer,
não expressam apenas a sua materialidade, como se fossem feitos de pedra
e cal, ou fossem escritos por alguém importante em um momento específico.
Transformam-se em patrimônio representativo daquela comunidade em

33
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

especial, pois possuem um valor que transcende a matéria, visto que se


sustentam em referenciais histórico-culturais vivenciados e sentidos.
Para compreendermos o conceito de patrimônio é interessante buscar
seus significados iniciais, sua etimologia. Segundo Kersten (2000, p.
32), os fundamentos da noção de patrimônio remontam ao século XVI,
como uso do termo grego mnémeïon, que significa a memória que provém
do objeto. Ou seja, ao ver, ler, tocar algo em especial, a pessoa ativaria
sua memória individual ou coletiva, trazendo para o presente algum
tipo de conhecimento sobre o passado. No decorrer do século XVII, esse
termo passou a ser utilizado paralelamente à palavra de origem latina
monumentum, que representa uma obra específica do passado, ou então,
uma edificação comemorativa.
Observe que, com o passar do tempo, outros sentidos são agregados
ao significado de patrimônio, pois inicialmente qualquer objeto poderia
ser utilizado como capaz de acionar a memória; já no século seguinte
esse objeto não poderia ser qualquer um, mas deveria ser criado com um
objetivo especial: comemorar algo. Dessa forma, sua significação passou
de um senso restrito para uma definição mais abrangente, tornando-
se digno de conservação. Sendo assim, representaria o que de melhor
aquela comunidade em especial produziu, fato esse que viria justificar a
sua preservação para as gerações futuras.
Por outro lado, para Funari (2006, p. 11) o conceito de patrimônio
surgiu a partir do termo latino patrimonium, que se referia a tudo o que
pertencia ao pai, ou seja, o que poderia ser transmitido por testamento.
Dessa forma, o conceito surgiu no âmbito privado do direito de propriedade
e era exercido pela elite patriarcal romana, pois se considerava que, como
a maioria da população não possuía escravos, também não era possuidora
de patrimonium. Já com a difusão do cristianismo, em especial na Idade
Média, além do caráter aristocrático do patrimônio, acrescentou-se outro:
o religioso. “O culto aos santos e a valorização das relíquias deram às
pessoas comuns um sentido de patrimônio muito próprio e que, como
veremos, de certa forma permanece entre nós: a valorização tanto dos
lugares e objetos como dos rituais coletivos” (FUNARI, 2006, p.12).
Observe que esse patrimônio continuava a ser eletista, pois a
catedral até poderia ser um patrimônio coletivo, mas com certeza era
aristocrático, visto que era a sede do bispado. Essa situação nos leva a

34
unidade 2
Oficina de História IV
analisar que o que a grande maioria da população produzia ainda não
era visto como merecedor de reconhecimento social, portanto ainda não
era patrimonium.
Dando continuidade à sua construção histórica do conceito de
patrimônio, Funari (2006, p. 15) afirma que a criação dos Estados Nacionais
Modernos foi fundamental para desencadear uma transformação nesse
conceito, pois, por exemplo, após a Revolução Francesa, a República precisava
criar uma categoria social que até então não existia: a dos cidadãos.
Fornecendo meios e instrumentos para que essa nova condição social
(cidadãos) compartilhasse valores e costumes, para que tivesse um solo e
uma origem supostamente comuns, buscava-se promover a imposição de
uma identidade, que a partir daquele momento seria nacional.
É interessante observar, por esse prisma, que os Estados Nacionais
surgiram a partir da “invenção” de um conjunto de cidadãos que deveriam
compartilhar uma língua, uma origem histórica, uma cultura e um
território. No entanto, não se deve esquecer que a cultura nacional não
pode existir sem suas bases materiais, ou seja, seu patrimônio nacional.

A noção de patrimônio, incorporando a idéia de herança aliada à de patrimônio


arquitetural, começou a ser formada na Europa a partir do século XVIII. O primeiro
país europeu a estabelecer uma legislação específica, com base nessa concepção,
foi a França após 1834. (KERSTEN, 2000, p.32).

Observe que o patrimônio a que Funari e Kersten se referem não


era mais o patrimônio privado, como o dos romanos, nem tampouco o
religioso, como o das tradições medievais. Era o patrimônio de um povo,
com uma língua única, uma origem forjada e contada pela história e um
território.
Assim, a partir da Revolução Francesa se desenvolveu uma
sensibilidade diferenciada em relação aos monumentos destinados a
evocar a memória, impedindo o esquecimento dos feitos do passado.
Nesse contexto se implementaram as primeiras ações políticas (leis) com
o intuito de conservar os bens que demonstrassem o poder e a grandeza
da nação. O bem referendava uma leitura da história, visto que era um
testemunho irrepreensível das etapas evolutivas da atividade humana.
Essa compreensão caminhava junto ao entendimento da história centrada

35
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

em fatos singulares e excepcionais, ou seja, pautada nos grandes


acontecimentos, capaz de demonstrar o aprimoramento dessas ações
humanas em direção à civilização, ao progresso (ZANIRATO, 2006).
Nesse momento é que se encontra a associação da palavra patrimônio
com o adjetivo histórico – patrimônio histórico –, tendo por base o conceito
de monumento histórico utilizado na Europa a partir da segunda metade
do século XIX. São edificações (palácios, catedrais, pontes) e objetos de
arte (esculturas, quadros, afrescos) criados com o intuito de representarem a
grandeza (militar ou econômica) e a superioridade cultural de um dado país,
sendo, portanto, necessária a sua manutenção como uma herança coletiva.
No contexto da Revolução Industrial como um processo irreversível,
ou seja, com a constante transformação que se processou em todos os
âmbitos da vida humana, desde as novas “caras” que as cidades adquirem
(bairros industriais, bairros comerciais, bairros operários) até os objetos
criados para auxiliarem as atividades cotidianas (objetos domésticos, de
comunicação, de transporte), tornou-se necessário guardar o passado, que
era rapidamente esquecido. Portanto, era fundamental proteger o patrimônio
histórico, revivendo e mantendo no presente aspectos do passado.
Mas o que era digno de ser preservado, ou seja, o que poderia ser
classificado como patrimônio histórico?
Cada vez mais o conceito de patrimônio adquire contornos claros, não
necessariamente democráticos, alcançando condições para representar
toda a diversidade de uma mesma coletividade. Todavia, assume também
a competência para designar elementos comuns representativos dessa
comunidade, do Estado ou da nação. Obviamente, como todo conceito é
uma construção humana que expressa as características de um dado grupo
em uma época em particular, não é o conceito de patrimônio que é capaz
de escolher os ícones que representarão um momento: nesse contexto do
século XIX, são as elites (intelectuais, políticas, econômicas, religiosas)
que elegerão o que pode ser classificado como patrimônio histórico.
Ao associar edificações, monumentos comemorativos e outros
símbolos que representam a glória da nação com o conceito de
patrimônio, observa-se que este se recobre de uma conotação
ideológica, pois propõe reescrever e reinterpretar o passado e a
tradição da comunidade com base em fatos, situações e elementos
pinçados do passado. Dessa forma, busca-se redesenhar a força, ou

36
unidade 2
Oficina de História IV
seja, impor uma cultura/passado comum para toda uma sociedade.
Nos últimos semestres você tem estudado historiografia. De forma
simplista poderíamos dizer que são diversas as maneiras de se escrever a
História, cada uma delas com um objetivo em destaque, que representa
uma determinada época. Pensando por esse prisma, podemos analisar
a construção do conceito de patrimônio também como representativo
de diferentes épocas, ou seja, com um objetivo inicial bem específico,
uma vez que, ao selecionar elementos, monumentos ou espaços do
passado, buscava-se criar/impor uma continuidade temporal. Tudo o que
não se encaixava nessa continuidade era excluído, não fazia parte do
passado glorioso e reconhecido como tal. Portanto, não era patrimônio
histórico. Dessa forma, somente o que se associava a conquistas (como,
por exemplo, monumentos edificados para celebrar uma vitória militar)
recebia o reconhecimento como patrimônio histórico.

O grave risco dessa noção de patrimônio é permitir supor a existência de cidades, bairros
ou construções a-históricas. Imagine-se daqui a alguns anos em sala de aula, trabalhando com seus
alunos esse entendimento excludente de patrimônio. É provável que muitas crianças e jovens não
consigam se reconhecer como participantes dessa história, pois não se veem como atores sociais
desse discurso histórico. É provável que compreendam o patrimônio apenas como um espetáculo
externo às suas experiências cotidianas. Portanto, ao refletirmos sobre o ensino de história é preciso
pensar nos incontáveis patrimônios que professores e alunos vivenciam de múltiplas formas, desde
suas identidades étnicas até o fato de representarem uma rica diversidade social. Todos nós temos
direito à memória, ao acesso à cultura e à liberdade de criar.

Voltando à questão da construção de um patrimônio nacional


capaz de representar toda a população, podemos exemplificar com o que A sigla IPHAN significa
Instituto do Patrimônio
temos preservado como patrimônio brasileiro. Como são essencialmente Histórico e Artístico
mantidos elementos arquitetônicos de “pedra e cal” da elite toda, qualquer Nacional. Estudaremos
com maiores detalhes
forma de construção diferenciada (madeira, terra socada, palha) não pode sua criação e atuação na
ser reconhecida como representante da população brasileira. Segundo sociedade brasileira um
pouco mais à frente.
FENELON, no Brasil a preservação do patrimônio está presa a um círculo
vicioso, pois ocorre “a predominância do Estado na escolha do que deve ser
preservado; e dentro do Estado, a predominância do IPHAN; no IPHAN,

37
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

a predominância da arquitetura; e, na arquitetura, a predominância do


barroco; no barroco, a predominância do Estado português colonizador”
(SILVA, 1998). São igrejas, capelas, quartéis, fortes, cadeias, palácios,
casas de câmaras, imponentes casarões que foram listados, restaurados e
postos à visitação pública, como símbolos do passado da nação. Sob essa
perspectiva o patrimônio preservado refere-se à história dos vencedores,
ou seja, a história seria contada a partir de tal ponto de vista.
Mas, e o restante da população?
O barroco foi uma Atualmente, não se compreende o patrimônio histórico como capaz
tendência artística que de representar apenas uma pequena parcela da sociedade, mas sim de
surgiu na Itália do século
XVII e se espalhou por demonstrar toda a riqueza dessa mesma sociedade a partir da proteção de
outros países. Valorizava elementos culturais de diversos segmentos que a compõem. Por exemplo,
as cores, as sombras
e a luz, apresentando aqui na região sul do Brasil as construções em madeira simbolizam a
em destaque os presença imigrante e por isso é importante para nós a sua preservação.
contrastes, os conflitos,
as irregularidades e a Sendo assim, o que era classificado como patrimônio histórico no século
opulência de formas e XIX não necessariamente o é atualmente, visto que as significações
materiais.
conceituais não são imutáveis, muito pelo contrário, estão em constantes
modificações.
Entendeu agora por que falamos que o patrimônio possui uma
conotação ideológica?
Analisando-o como uma forma de instituir uma leitura do passado,
objetos, monumentos ou documentos seriam capazes de conferir uma
Atualmente, a lista do
Patrimônio da Humanidade
existência física a uma determinada história, ou seja, “ter-se-ia a sensação
é formada por 890 bens de sentir, ver e ouvir os ecos do passado inscritos nos bens patrimoniais”
de caráter cultural, natural
e misto espalhados por
(KERSTEN, 2000, p. 45). Se apenas construções da elite forem preservadas,
148 países. Caso você a leitura do passado será parcial. Buscando relativizar uma possível leitura
queira saber mais sobre
esse assunto, além das
parcial, desenvolveu-se a noção de patrimônio cultural.
ações contemporâneas da No decorrer de muitas discussões realizadas durante o século XX,
UNESCO nesse campo
de preservação, acesse o
em especial após a destruição de diversas construções importantes para a
seguinte site: Europa pós-segunda guerra mundial, algumas instituições e organizações
http://translate.
googleusercontent
internacionais, como a UNESCO, instituíram em 1972 a categoria de
.com/translate_c?hl=pt- Patrimônio da Humanidade. Seu objetivo era desenvolver abordagens
BR&langpair=en|pt&u=
http://whc.unesco.org/en/
mais abrangentes e menos restritivas de cultura, reconhecendo que
list&rurl determinados elementos criados por sociedades e culturas particulares
=translate.google.com.br
&usg=ALkJrhj2pY_
também eram importantes para toda a humanidade. Isso significava
zVvOBe9oYqlTpYFVlVostLA que independentemente das diferenças tecnológicas (por exemplo: o

38
unidade 2
Oficina de História IV
material utilizado para sua confecção) e valorativas, o bem representava
aspectos econômicos, religiosos, políticos, artísticos ou qualquer outro
reconhecido como importante por quem o criou. Dessa forma, deveria ser
compreendido como uma herança mundial comum.
Porém, você não deve pensar que de um dia para o outro a
UNESCO criou a categoria de Patrimônio da Humanidade e todos os
países a aceitaram, passando a cuidar de sua herança cultural. Tudo
ocorreu de forma gradativa e processual.
Assim como vimos com relação ao conceito de História, o conceito
de Cultura também passou por transformações de entendimento
conforme os anos passavam, representando correntes teóricas
específicas e as características políticas, econômicas, artísticas dentre
tantas de uma época em especial. Essas modificações conceituais
também repercutiam na compreensão dos bens classificados
como patrimônios. Prova disso foi a organização da Conferência
Internacional de Atenas, em 1931, com o objetivo de alertar os países
da necessidade de salvaguardar seus bens patrimoniais, ressaltando
que essa preocupação deveria extrapolar as fronteiras nacionais,
ou seja, determinados patrimônios deveriam ser preservados, pois
representavam transformações culturais significativas para todos. O
resultado desse evento foi a publicação da Carta de Atenas, primeiro
documento oficial internacional que tratava da proteção dos bens de
interesse histórico e artístico mundial.
A Carta de Veneza e a Declaração de Amsterdã, resultantes dos
congressos organizados pela UNESCO e realizados, respectivamente,
em 1964 e 1975, propuseram novos parâmetros de análise para o assunto
do patrimônio. Apresentaram a ampliação do conceito de monumento,
aconselhando a preservação de obras vistas como mais simples, mas
que também possuíam significação cultural e interesse histórico.
Com estes textos inaugurou-se uma abordagem que buscava integrar
o patrimônio à vida social, ou seja, recomendava o envolvimento da
população nos processos de preservação ao mesmo tempo em que
responsabilizava o poder público municipal para elaborar programas
de conservação e aplicar recursos financeiros nessa área (FUNARI,
2006, p.33).
Na sequência, outros textos foram criados, sempre tentando

39
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

articular e regular medidas de tutela (proteção para que o bem não fosse
totalmente destruído) e ação internacional, elaborando textos jurídicos
e recomendações sobre a conservação do patrimônio, independente
do país e de qual patrimônio. Esse trabalho resultou, em 1972, na
assinatura de um tratado internacional conhecido como Convenção
sobre a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural, criando a
Lista do Patrimônio Mundial ou Patrimônio da Humanidade.
Por mais que conceitualmente a proteção de bens patrimoniais
da humanidade tenha evoluído consideravelmente, na prática ainda
é possível perceber o predomínio da Europa e da América do Norte
como regiões que representam mais da metade dos sítios listados
pela UNESCO, demonstrando ainda o predomínio do interesse de
preservação e valorização do patrimônio dessas elites.
No entanto, independentemente da situação acima, ao se
aceitar o diálogo entre diferentes culturas abriu-se a possibilidade
de se reconhecer que, apesar das profundas divergências existentes
entre os povos e suas culturas, é possível estabelecer parâmetros e
critérios comuns de preservação. O termo patrimônio estava assim
teoricamente ligado ao conceito de cultura. No entanto, é interessante
perceber que as diferenças culturais não se referiam exclusivamente
a países distintos, mas também ao reconhecimento da existência de
diversos grupos e interesses sociais no interior de um único país, antes
preteridos em benefício da nacionalidade. Podemos entender, então,
que gradativamente foi construído e aceito o conceito de Patrimônio
Cultural.
De um discurso patrimonial que se referia exclusivamente aos
grandes monumentos do passado, representativos de fatos importantes
de um povo ou nação, avançou-se para uma concepção de patrimônio
como conjunto dos bens culturais que incorporou as dimensões
testemunhais do cotidiano, referentes às identidades coletivas.
Patrimônios de valor regional ou municipal, de comunidades como as
dos indígenas, ou representativos das mulheres, de grupos religiosos
ou esportivos passaram a ser defendidos como bens patrimoniais.
Portanto, a diversidade humana e ambiental foi considerada com um
valor universal a ser promovido.
Analisando esse aspecto, Funari (2006, p. 36) afirma:

40
unidade 2
Oficina de História IV
Somente na década de 1980 foi consolidada entre os especialistas uma acepção
ampliada do conceito de patrimônio, compreendido não só por produções de artistas
ou intelectuais reconhecidos, mas estendido às criações anônimas, oriundas da alma
popular. As urgências sociais e a carência crônica de recursos dos diversos países
da América Latina não dissimularam a importância da preservação de bens materiais
e não-materiais que expressassem a criatividade de seus povos, das crenças, dos
lugares, dos monumentos históricos e das produções artísticas e científicas. Seguindo
essa linha, asseverou-se que o apreço pelo patrimônio cultural estimulava os povos
a salvaguardar sua soberania e independência e, por conseguinte, reafirmava sua
identidade.

Observe que esse autor não defende a proposta de patrimônio


apresentada à época dos Estados Nacionais, ou seja, uma proposta
inventada e imposta. Nesse momento, a produção classificada como
popular e anônima é aquela que realmente configura a capacidade cultural
criativa de uma comunidade, capaz até de salvaguardar sua soberania,
pois é o que torna os componentes dessa comunidade diferentes dos
demais. Em outras palavras, é esse patrimônio cultural que reafirma a
sua identidade.

Vamos parar um pouquinho e analisar toda essa discussão pela ótica do ensino de história. Ao
valorizarmos o respeito às diferentes formas de cultura, entendendo-as como portadoras de identidades
significativas e ricas, permitiremos que nosso aluno seja capaz de compreender o mundo como composto
por lugares e agentes sociais múltiplos. Dessa forma ele conseguirá, inclusive, reconhecer-se como
membro participante e não apenas como espectador do patrimônio cultural de sua comunidade. Assim,
poderá entender que o processo educacional não ocorre apenas em espaços formais (escolas, bibliotecas,
museus), mas também fora deles, ou seja, no seu cotidiano de sobrevivência. Por exemplo: na presença
da benzedeira do bairro com suas práticas religiosas, nas brincadeiras comuns que ainda ocorrem na rua
ou nos campinhos, nas relações construídas pelos operários de uma determinada fábrica.

Segundo Kersten (2000, p. 33), essa nova proposta trouxe para o


centro das discussões teórico-metodológicas a característica do patrimônio
como de produção humana em sua totalidade, ou seja, estabeleceu uma
relação dialógica entre edificações, documentos, acervos, modos de
fazer e eventos de outras culturas, que até aquele momento sequer eram
considerados pelas políticas de preservação de seus próprios países.

41
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

Nessa condição não se aceitava mais o patrimônio como apenas


representativo de determinados segmentos da sociedade, pois ele
deve ter a função de demonstrar a multiplicidade de elementos que
compõem qualquer comunidade, muitas vezes com interesses distintos e
conflitantes. Sendo assim, arquiteturas diferentes, danças, gastronomias,
cantigas, tradições, ritmos, expressões de arte, documentos e sítios
arqueológicos passaram a ser reconhecidos e valorizados pelas suas
próprias comunidades e também pelos organismos governamentais
locais, estaduais, nacionais ou internacionais.
Sob esse enfoque, o patrimônio e as ações em sua defesa passaram
a ser vistos como construções sociais historicamente edificadas. Ou
seja, “a ação preservacionista não incide sobre a cultura em si, mas,
seletivamente, sobre seus suportes materiais e simbólicos produzidos e
reproduzidos por grupos humanos” (KERSTEN, 2000, p. 33). São, por
exemplo, moinhos, estações de trem e mercados públicos, além das
práticas sociais desenvolvidas em seu seio, que devem ser preservados;
expressões, práticas, representações, técnicas e conhecimentos agora
também são reconhecidos como bens patrimoniais.
Essa nova categoria de patrimônio, que a partir de então poderia
ser material e imaterial, compreende o Patrimônio Cultural como
manifestações ou testemunhos significativos da cultura humana que são
importantes para a formação e manutenção da identidade cultural de uma
dada comunidade. A salvaguarda de determinados recursos naturais,
associada ao uso desses recursos pelos conhecimentos tradicionais, é
fundamental para a garantia de uma vida digna para certos grupamentos
humanos. É o que acontece, por exemplo, com a preservação da região
amazônica, de onde diversas comunidades extraem, através de seus
métodos extrativistas não predatórios, desenvolvidos há gerações, fontes
naturais para sua sobrevivência.
Outro exemplo pode ser a Procissão do Fogaréu, que se realiza
durante a Semana Santa na cidade de Goiás (também chamada de Goiás
Velho), que fica no Estado de Goiás (GO). O IPHAN reconhece como
patrimônio cultural as igrejas, ruas e praças da cidade; no entanto, por
mais que o evento ocorra apenas uma vez ao ano, a procissão - com seus
rituais, indumentária, cantos e formas específicas de participação da
comunidade local - confere à cidade um significado particular, que lhe

42
unidade 2
Oficina de História IV
é próprio, pois é específico de lá. Em outras palavras, esse significado é
indissociável da identidade de Goiás enquanto cidade, enquanto espaço
de sociabilidade (FONSECA, 2003, p. 57).

seção 2
Políticas patrimoniais no Brasil

Para melhor compreender a construção das primeiras políticas


patrimoniais no Brasil e as modificações nelas ocorridas com o passar
dos anos, é interessante analisar em separado o instrumento jurídico que
transforma o bem, material ou imaterial, em um bem patrimonial, isto é,
o processo de tombamento.
Kersten (2000) afirma que esse processo deve ser visto como um
ritual, pois além de possuir diversos momentos ou fases, modifica a
essência do bem, agregando qualidades e significados que até então
ele não possuía. Mantido, o patrimônio permite que uma determinada
história seja recontada a partir de fragmentos preservados, visto que o
bem pertencendo ao passado e ao presente ao mesmo tempo consegue
trazer para a atualidade o testemunho de uma época passada.
Genericamente, o ato de preservar pode ser compreendido como todo
aquele que busca a conservação de bens reconhecidos como referenciais.
Por outro lado, a invenção do patrimônio constitui uma forma de reforço da
memória de um grupo que, possuindo autoridade e poder, coloca-se no papel
de guardião dessa memória, que passa a ser veiculada como coletiva.
Observe que o ato de preservar, oficializado pelo processo de
tombamento, tanto pode impor uma memória de elite como uma memória
popular, já que ambas representam determinados setores da sociedade e
não a sua totalidade, o que de fato seria impossível!
Mas, então, onde está a diferença?
A diferença é que atualmente a memória das práticas populares
possui o direito de ser reconhecida como memória coletiva e conquistou
a condição de ser preservada pelas políticas oficiais de preservação.

43
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

Voltando para o aspecto legal do processo, cabe ao governo federal


proteger bens considerados importantes nacionalmente em qualquer
parte do território. Já os estados e os municípios possuem o direito de
proteger bens de interesse regional e local. Portanto, o ato jurídico de
tombamento pode ocorrer em nível federal, estadual e/ou municipal,
inclusive pode acontecer de forma conjunta, ou seja, um mesmo bem
pode ser tombado pelo município em que se encontra, assim como pelo
estado e pela união.

O ato legislativo do tombamento vincula-se ao termo tombar, herança do direito


português, usado como sinônimo de demarcação no Código de Processo Civil luso,
desde 1876. Semanticamente significa inventário, arrolamento, registro. No Brasil, o
termo tombo foi assimilado como designando o registro, o arquivo e a catalogação de
documentos públicos ou históricos. Como ato administrativo, o tombamento declara
ou reconhece valor histórico, artístico, paisagístico, arqueológico, bibliográfico, cultural
ou científico, a bens que passam a ser preservados e reconhecidos como patrimônio
nacional. (KERSTEN, 2000, p. 52)

De acordo com a legislação contemporânea, tombar significa


inscrever determinado bem em um Livro do Tombo, tornando-o inalienável,
ou seja, em termos jurídicos, significa uma restrição parcial no direito de
propriedade privada. Por mais que o proprietário mantenha a posse e o
direito de usufruir o bem tombado (vendendo-o ou transferindo-o por
herança, por exemplo), terá que observar determinadas regras, evitando a
descaracterização. Esse cuidado deve ser sempre tomado, pois desde que
haja o tombamento, qualquer forma de modificação pode ser vista como
uma agressão ao interesse público e social que o objeto representa.
No Brasil um bem tombado em nível federal pode ser registrado nos
seguintes Livros do Tombo:
Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico;
Livro do Tombo Histórico;
Livro do Tombo de Belas Artes;
Livro do Tombo de Artes Aplicadas;
Livro de Registro dos Saberes;
Livro de Registro de Celebrações;
Livro de Registros das Formas de Expressão;
Livro de Registro dos Lugares.

44
unidade 2
Oficina de História IV
Você observou que os quatro primeiros se chamam Livro do Tombo e os
quatro últimos se chamam Livro de Registro?
Isso ocorre porque os primeiros tratam de bens essencialmente
materiais, e os últimos foram criados não para congelar bens imateriais, mas
para registrá-los e, então, desenvolver políticas específicas para garantir a
sua preservação.
Após o conhecimento básico sobre o processo de tombamento, seus
efeitos legais e sua estrutura de registro, é fundamental analisar as políticas
patrimoniais desenvolvidas no Brasil a partir do século XX.
Por mais que a primeira lei federal que discorre especificamente sobre
patrimônio no Brasil tenha sido aprovada em 1937, Kersten (2000) afirma que
as primeiras preocupações em preservar bens ocorreram após 1808, com a
chegada da Família Real Portuguesa. Obviamente essa preocupação voltava-
se para bens arquitetônicos, também chamados de patrimônio de pedra e cal,
oriundos da colonização portuguesa. Aqueles que representavam os povos
indígenas e os diferentes grupos étnicos que formavam a população escrava
foram ignorados.
No decorrer do século XIX, o registro do interesse com os bens
patrimoniais voltou-se às iniciativas de colecionadores individuais, que
montavam suas coleções com obras de valor histórico ou artístico criadas
por europeus. Por esse motivo, acreditava-se que tais obras possuíam grande
valor.
Com a República, modificações no campo do patrimônio começaram
a ocorrer de forma acelerada, referindo-se tanto ao crescimento das cidades,
que adquiriam novas feições, como às transformações sociais provocadas por
uma série de fatores: rapidez nas comunicações, desenvolvimento técnico
de diversos setores, recente fim da escravidão, chegada de grandes levas de
imigrantes europeus.
O interessante em se estudar esse momento é pensarmos que todas essas
transformações sociais conviviam de forma geralmente conflituosa com uma
sociedade alicerçada em posicionamentos ainda coloniais, principalmente
quando o assunto tratado era o patrimônio.
Embora as primeiras preocupações com a discussão sobre a identidade
nacional tenham ocorrido nas décadas finais do século XIX, foi somente a
partir das décadas de 1920 e 1930 que elas assumiram a forma de discurso
oficial sobre o que começou a ser chamado de patrimônio histórico brasileiro.

45
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

Prova desse interesse foi o primeiro anteprojeto de lei que tratava da


preservação de patrimônios. Apresentado ao Congresso Nacional em 1920,
pela Sociedade Brasileira de Belas-Artes, tratava da defesa do patrimônio
artístico, em especial o arqueológico, defendia sua desapropriação e
desconsiderava completamente os bens históricos. No decorrer da década de
1920 diversos anteprojetos chegaram a tramitar no Congresso Nacional, mas
todos foram infrutíferos, pois esbarravam na Constituição Federal, que não
previa restrições ao direito de propriedade.
Você lembra do que nós acabamos de estudar sobre a propriedade de
um bem tombado? Pois bem, nas primeiras décadas do século XX não existia
nenhuma legislação que restringisse o direito de propriedade privada. Por mais
que estados como Minas Gerais, Bahia e Pernambuco se preocupassem com
a saída de obras de arte classificadas como tradicionais (leia-se arte barroca),
não conseguiam criar leis que protegessem seus patrimônios estaduais, visto
que a lei maior do país nada tratava sobre o assunto.
É interessante nós estudarmos esse contexto, pois, mesmo não
conseguindo transformar os anteprojetos em leis aprovadas pelo Congresso
Nacional, teremos conhecimento da conjuntura que culminou com a criação
do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em 1937.
Por fazer parte do processo de criação do SPHAN, é muito importante
conhecermos a participação de vanguarda do modernista Mário de
Andrade.

Mário de Andrade foi poeta, ro-


mancista, crítico de arte, musicólogo,
professor universitário, ensaísta e apren-
diz de etnógrafo. Preocupava-se em en-
tender as especificidades do país, suas
condições locais e regionais. Para isso,
a partir de 1924 realizou diversas via-
gens pelo interior do país, conhecidas
como “viagens de descoberta do Brasil”,
algumas em companhia de outros mo-
dernistas, como: Oswald de Andrade,
Tarsila do Amaral, Blaise Cendrars, en-
tre outros. O objetivo dessas viagens era Mário de Andrade

46
unidade 2
Oficina de História IV
ter contato com as origens do que passou a ser conhecido como
civilização artística e histórica do Brasil. O abandono das cons-
truções coloniais mineiras e das obras de Aleijadinho incentivou
Mário a lutar pela preservação do que ele começou a classificar
como patrimônio histórico brasileiro. Por mais que suas viagens
se restringissem a conhecer os padrões culturais das regiões nor-
te e nordeste, desconsiderando o sul europeu como também per-
tencente à cultura brasileira, Mário de Andrade é considerado
de vanguarda, pois ele percebeu e valorizou como nossa grande
riqueza a existência da diversidade de culturas que compõem o
Brasil. Observe que esse posicionamento vai muito à frente do
que era entendido como patrimônio brasileiro até então, ou seja,
da herança arquitetônica colonial portuguesa, porque ele buscou
resgatar o imaginário local, vocábulos, lendas, cantos, culinária,
magia, cultos religiosos e expressões artísticas de índios e ne-
gros do norte e nordeste, que até essa época eram completamen-
te desconsiderados. Hoje, nós podemos dizer que o modernista já
defendia a existência de patrimônios materiais e imateriais.
Por possuir esse entendimento de cultura brasileira é que
Mário foi convidado a participar do Departamento de Cultura do
Município de São Paulo, em 1935. Não se restringindo somente
a São Paulo, mas buscando reconhecer cada nuance de nossa
nacionalidade e estudando a multiplicidade cultural em suas
diversas manifestações, tanto eruditas como populares, entendia
que somente assim o país seria reconhecido pelos brasileiros
e estrangeiros como possuidor de uma cultura digna de ser
estudada e preservada. É possível observar tal posicionamento
de Mário de Andrade na seguinte citação a respeito da Igreja
Matriz de Itu:

É possível que o teto da Carmo fuja muito aos cânones da decoração européia. Porém,
menos que imaginar por isso deficiência, não seria mais lógico olhar uma obra assim
por olhos que não estejam facetados à européia? (...) Porque antes de salientarmos a
deficiência, não salientaríamos a originalidade! (...) Se o teto da Matriz de Itu nos atrai
logo, familiarizados com essa tradição erudita européia a que ele mais docilmente se
afaz, parece a este Assistente que o teto da Carmo terá mais valia tanto nacional como
internacional. Porque apresenta formas mais representativas de nós, mais originais,
mais contribuidoras (ANDRADE, 1981, p. 126, apud KARSTEN, 2000, p. 76).

47
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

Observe que Mário de Andrade defende que todo monumento


de arte é ao mesmo tempo histórico, pois representa uma fase da arte.
Do mesmo modo, um monumento histórico também é artístico, pois
representa a estética de determinada época e as relações sociais que a
tornaram possível.
No contexto da Revolução de 1930, as autoridades e diversos
intelectuais brasileiros estavam atentos com o que ocorria no panorama
internacional, pois muitas discussões giravam em torno da regulamentação,
conservação e restauração de monumentos. Tais atitudes apontavam para
a necessidade de se criarem critérios internacionais que servissem como
referência para ações futuras sobre preservação. Decorrente dessas
preocupações, o governo federal tomou a iniciativa de, em 1933, transformar
a cidade de Ouro Preto (MG) em monumento nacional.
Sem sombra de dúvidas, essa foi a primeira ação política oficial que
previa a preservação do patrimônio nacional. Pouco tempo depois (1936),
Mário de Andrade foi convidado pelo Ministro da Educação e Saúde Pública,
Gustavo Capanema, para redigir um anteprojeto de lei que previsse a criação
de um serviço nacional que se preocupasse com os bens patrimoniais. Em
seu texto, o bem imóvel aparecia como apenas uma das possibilidades de
ser inventariado, pois priorizava aspectos não materiais da cultura, como o
saber e o fazer das comunidades. Seu interesse focava-se na preservação da
diversidade cultural existente no país, buscando equacionar as diferenças
existentes entre o erudito e o popular.
Como a sua preocupação central era relacionada à arte, Mário
sugeriu o nome Serviço do Patrimônio Artístico Nacional – SPAN para o
serviço cujo anteprojeto redigira. É interessante lembrar que para Mário de
Andrade “arte é uma palavra geral, que, nesse seu sentido geral, significa
a habilidade com que o engenho humano se utiliza da ciência, das coisas e
dos fatos” (GIOVANAZ, 2002, p. 213).

Vamos analisar o que o intelectual quis dizer com isso?


Tudo o que o homem produz é arte. Assim, a forma como ele cozinha, como diz as palavras,
como constrói uma casa, como dança, como realiza suas celebrações é arte. Todas essas ações podem
se modificar conforme a região estudada ou o momento cronológico (tempo); em outras palavras, elas
variam conforme o contexto histórico. Dessa forma, história e arte caminham juntas, por isso, para Mário
o patrimônio era artístico e histórico ao mesmo tempo.

48
unidade 2
Oficina de História IV
No entanto, o caráter inovador das propostas apresentadas por Mário
de Andrade em seu anteprojeto não chegou a se efetivar. O Decreto-lei
nº 25, de 30 de novembro de 1937, elaborado pelo jurista Rodrigo Mello
Franco de Andrade, criou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (SPHAN). Esse decreto-lei, que até hoje rege a preservação
patrimonial e os tombamentos em nossa legislação, tornou-se um
instrumento legal que possibilitou a desapropriação dos bens tombados,
mas não necessariamente preocupou-se com a preservação da diversidade
cultural estudada por Mário.
Em seu Art. 1º, o Decreto-lei nº 25 /1937 define o que constitui o
patrimônio cultural, histórico e artístico nacional:

Art. 1º - Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto de bens móveis


e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por
sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional
valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. (Disponível em: http://
www.planalto.gov.br/ccIVIL_03/Decreto-Lei/Del0025.htm)

Observe que o referido decreto-lei apresenta a existência de um


conjunto de bens dispersos pelo país, mas que somente poderia ser
considerado como representativo caso se enquadrasse nos critérios
estabelecidos. Dessa forma, fica evidente um determinado conceito
de história: fatos memoráveis ou personalidades importantes. Assim,
os primeiros trinta anos de existência do SPHAN foram marcados por
uma perspectiva conservadora do patrimônio e da história brasileira,
priorizando a preservação dos bens de pedra e cal da arquitetura colonial
barroca.
De acordo com Kersten (2000, p. 91), Mário de Andrade propunha
uma política de preservação, já o Decreto-lei nº 25 criou instrumentos
legais. Porém, uma efetiva política de preservação é muito mais abrangente
do que apenas a restrição de direitos individuais à propriedade. Isso
significa que, para se pensar em preservação de patrimônio, é necessário
não só um respaldo legal, mas principalmente um entendimento amplo
do significado de patrimônio, reconhecendo-se a existência e o direito de
manutenção das diversidades culturais encontradas no país.
Após a morte de Rodrigo Mello Franco de Andrade, em 1969, o
SPHAN passou por uma reestruturação e transformou-se em IPHAN

49
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

(Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), retornando ao seu


nome anterior em 1979. No entanto, manteve-se fiel às antigas diretrizes
estabelecidas. A pequena modificação cogitada versou sobre a inclusão
de matérias relacionadas ao estudo do patrimônio nacional nos currículos
do ensino fundamental, médio e superior, que não vingou.
Por outro lado, internacionalmente as discussões sobre o assunto
evoluíram muito: o conceito de patrimônio cultural da humanidade era
defendido; a manutenção das populações em seus locais de origem permitia
pensar o patrimônio arquitetônico em parceria com o planejamento
urbano; as discussões sobre cultura e memória pretendiam preservar a
diversidade sociocultural de diversas populações.
Conceitualmente, somente a partir de 1979 é que o patrimônio
nacional brasileiro começou a ser defendido de uma forma mais ampla, ou
seja, quando o arquiteto Aloísio Magalhães assumiu a direção do SPHAN
e propôs recuperar o projeto original de Mário de Andrade, desenvolvendo
ações que buscassem preservar a heterogeneidade cultural da nação e a
sua pluralidade social. Devido a essas ações, Magalhães passou a ser
conhecido como renovador das políticas culturais no Brasil.
Entendendo que uma política patrimonial nacional não deveria se
fixar apenas no belo e no velho, mas preservar os elementos básicos de
nossa identidade cultural, o citado arquiteto propôs uma concepção mais
abrangente:

A nossa realidade é riquíssima, a nossa realidade é inclusive desconhecida. É como


se o Brasil fosse um espaço imenso, muito rico, e como se um tapete velho roçado,
um tapete europeu cheio de bolor e poeira, tentasse cobrir e abafar este espaço.
É preciso levantar este tapete, tentar entender o que se passa por baixo. É dessa
realidade que devemos nos aproximar, entendendo, tendo sobre ela uma certa noção.
(MAGALHÃES, 1985, p. 42).

Magalhães justificava a necessidade de preservar manifestações


culturais espontâneas e populares, porque estas poderiam ser portadoras de
soluções sociais e econômicas para um país jovem e pobre como o Brasil.
Você lembra quando estávamos estudando na seção anterior o
conceito de patrimônio cultural?
Em certo momento nós levantamos a seguinte questão: “A
salvaguarda de determinados recursos naturais, associada ao uso

50
unidade 2
Oficina de História IV
desses recursos a partir de conhecimentos tradicionais, é fundamental
para a garantia de uma vida digna para certos grupamentos humanos”.
Ou seja, Aloísio Magalhães apontava que o fazer popular possuía um
relevante papel cultural.
Em outras palavras, a concepção que se defende atualmente
sobre patrimônio respalda-se tanto nos posicionamentos apresentados
no anteprojeto de Mário de Andrade na década de 1930, como nos
posicionamentos recuperados e defendidos por Aloísio Magalhães, no
início da década de 1980.
Durante a direção de Magalhães o SPHAN não apenas protegeu
monumentos isolados, como construções particulares, igrejas ou prédios
da administração pública, mas, começou a priorizar a preservação de
espaços de convívio, restaurando, por exemplo, mercados públicos,
estações de trem e outros espaços populares.
Devido à morte prematura de Magalhães e ao conturbado
momento político que o Brasil vivenciou nas décadas de 1980 e 90, as
ações oficiais que tratavam da preservação não apenas do patrimônio
de pedra e cal, mas que buscavam representar a diversidade do
país, praticamente estagnaram. No entanto, isso não significou
que discussões não tenham ocorrido no âmbito acadêmico e entre
muitos funcionários do poder público. Prova disso foram algumas
ações isoladas que o IPHAN (voltou a ser instituto) conseguiu
implementar.
Nesse momento, a instituição deu um grande passo no processo
de democratização da política nacional de preservação, quando tombou
em 1986 o Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho na cidade de
Salvador (BA), um dos templos mais antigos de culto religioso negro
no Brasil. Registrado no Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico
e no Livro Histórico, representou uma quebra de paradigmas, pois a
tradição anterior privilegiava apenas os monumentos representativos
do culto católico e nesse caso, além das edificações, também foram
tombados objetos sagrados, bem como a vegetação ritual do entorno.
(FUNARI, 2006, p. 49-50)
Por mais que poucas ações tenham se concretizado nessa época,
a Constituição de 1988 marcou um interessante avanço, pois em seu
texto se afirma:

51
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material


e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à
identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira, nos quais se incluem:
I – as formas de expressão;
II – os modos de criar, fazer e viver;
III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às
manifestações artístico-culturais;
V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico,
paleontológico, ecológico e científico.
(Disponível em
http://www.senado.gov.br/sf/legislacao/const/con1988/CON1988_05.10.1988/
art_216_.htm)

O texto constitucional abriu as portas para o reconhecimento oficial


da rica diversidade cultural brasileira, ampliando o entendimento do
conceito de patrimônio. Tal atitude impulsionou a criação de um novo
instrumento de preservação no país: o Registro de Bens Culturais de
Para conhecer na Natureza Imaterial, Decreto nº 3.551.
íntegra o Decreto nº
3.551, de 04/08/2000,
Posteriormente a esse decreto se instituiu o Programa Nacional do
visite o site http://www. Patrimônio Imaterial (PNPI), para viabilizar projetos de identificação,
planalto.gov.br/ccivil_03/
Decreto/D3551.htm.
reconhecimento, salvaguarda e promoção da dimensão imaterial do
patrimônio cultural. É um programa de fomento que busca estabelecer
parcerias com instituições dos governos federal, estadual e municipal,
universidades, organizações nãogovernamentais, agências de
desenvolvimento e organizações privadas ligadas à cultura, à pesquisa e
ao financiamento para o desenvolvimento de ações de preservação.
Atualmente, no Brasil ainda há muito por se fazer quanto ao
patrimônio; por outro lado, é interessante ressaltar que cada vez mais
a coletividade participa de ações preservacionistas em sintonia com
conhecimentos artísticos, antropológicos, históricos e sociológicos
orientados por especialistas. De acordo com Funari (2006, p. 55), “esse
esforço, articulado com o estímulo à responsabilidade coletiva, contribuirá
para consolidar políticas de inclusão social, reabilitação e sustentabilidade
do patrimônio em nosso país”.
Mesmo tendo consciência do avanço no campo da preservação
da memória social conquistada com a promulgação de leis e decretos
específicos sobre o assunto, não podemos ignorar que ainda se mantém
viva a triste realidade da escolha dos bens dignos de se tornarem perenes

52
unidade 2
Oficina de História IV
em oposição àqueles condenados à destruição e ao esquecimento.
Como resolver essa contenda? Só o processo democrático, em que
se respeitem os anseios da comunidade integrando os marcos identitários
reconhecidos pela própria comunidade, pode num futuro nos dizer se
esse foi o melhor caminho escolhido.

Nesta unidade você estudou o conceito de patrimônio a partir de diversas óticas,


verificando tanto a etimologia da palavra quanto as transformações de sentido que lhe
foram imputadas com o passar dos séculos. É fundamental compreender todas essas
modificações, pois representam épocas distintas, isto é, discursos históricos específicos, o
que nos permite compreender que perfil a memória oficial pode assumir, ao mesmo tempo
em que se percebe o que pode ou não ser aceito como patrimônio.
Essas discussões não foram restritas ao Brasil, mas pertinentes a diversos países,
demonstrando uma preocupação mundial com relação à preservação de padrões culturais distintos.
Mesmo tendo sido o primeiro país da América do Sul a possuir uma legislação específica versando
sobre a preservação de seu patrimônio nacional, o Brasil ainda possui um longo caminho a trilhar. A
diferença fundamental é que atualmente o país possui uma legislação bem mais abrangente que a
promulgada em 1937. Possui uma política pública sobre seu patrimônio apresentada de forma inclusiva,
reconhecendo o direito à memória de grupos até poucos anos atrás sequer reconhecidos como agentes
históricos.
Na próxima unidade você estudará não mais um conceito, mas uma instituição que possui
íntima relação com o que já estudamos: o Museu. Até lá!

1 – Sugestões de leitura:
FONSECA, M. C. L. Para além da pedra e cal: por uma concepção ampla de patrimônio cultural. In:
ABREU, R. & CHAGAS, M. (Orgs.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A,
2003.
LEMOS, C. A. C. O que é patrimônio histórico. São Paulo: Brasiliense, 2006.

2 – Sugestão de filme:
Hey Arnold! O filme. (2002)
Direção: Tuck Tucker.
Gênero: animação infantil.
Um industrial sem coração tem um plano diabólico: deitar abaixo o bairro de Arnold e construir
um enorme centro comercial. Com o tempo a esgotar-se, alguém tem de resolver a situação. E esse
alguém é Arnold. Com a ajuda de Helga e de Gerald, o seu melhor amigo, Arnold está decidido a provar
qual é o verdadeiro significado do progresso, além de encontrar novas alegrias no velho bairro a que
ele chama “casa”.

3 – Sugestões de sites:
– Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - http://www.iphan.gov.br
– Site da UNESCO - http://translate.googleusercontent.com/translate_c?hl=ptBR&lan

53
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

gpair=en|pt&u=http://whc.unesco.org/en/list&rurl=translate.google.com.br&usg=ALkJrhj2pY_
zVvOBe9oYqlTpYFVlVostLA
– Site das ações culturais da UNESCO no Brasil - http://www.unesco.org/pt/brasilia/culture/
– Organização das Cidades do Patrimônio Mundial - http://www.ovpm.org/index.
php?newlang=SPA

1 - Depois do estudo desenvolvido nesta unidade sobre o conceito de patrimônio − estudo esse
que vai desde as origens de tal conceito até a acepção contemporânea − procure no site da UNESCO
a relação dos bens brasileiros que fazem parte da Lista do Patrimônio Mundial. Após encontrá-los,
construa um texto analisando-os a partir do que se compreende atualmente como patrimônio cultural.

2 - Pesquise se sua cidade possui algum órgão municipal que promova a preservação do
patrimônio local. Construa um texto apresentando o histórico desse órgão e suas ações atuais. Caso
sua cidade não possua nenhum órgão com essa finalidade, pesquise no site da Secretaria Estadual de
Cultura do seu estado se existe um órgão com tal função. Se existir, apresente-o.

3 - Procure no site do IPHAN a relação dos bens imateriais já registrados, localize-os


geograficamente e escolha no mínimo três (03) representantes para analisá-los a partir do que
estudamos nesta unidade.

54
unidade 2

Você também pode gostar