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A SOCIOLOGIA DA MUDANÇA SOCIAL – PIOTR ZTOMPKA

CAPÍTULO I

A metáfora orgânica: abordagem clássica da mudança social


Uma distinção persegue o pensamento sociológico até nossos dias, trata-se de um “pecado original”
que recai sobre o pai da sociologia Augusto Comte, tendo dividido seu sistema teórico em duas partes: a
“estática social” e a “dinâmica social”. Posteriormente, subjacente a essa distinção, Hebert Spencer formulou
uma metáfora da sociedade e organismo biológico. Dessa forma, o primeiro conceito (“estática social”) foi
concebido como estudo da anatomia da sociedade, com suas partes constituintes e organização; ao segundo
conceito (“dinâmica social”) coíbe o papel de se concentrar nos processos de operação, em que tais processos
produzem o desenvolvimento da sociedade, que é assimilado ao crescimento orgânico. Além disso, há
também outra distinção, que esteve no cerne da linguagem sociológica, adotada também por Hebert Spencer,
sendo: “estruturas”1 e “função”, as primeiras indicam totalidades sociais, um sistema total e o segundo o modo
de funcionalidade e organização desse sistema total.
De acordo com Ztompka, o legado dessas ideias foi a oposição de dois tipos de procedimentos adotados
por Augusto Comte: as leis de coexistência (“razão por que os fenômenos sociais invariavelmente aparecem
juntos”) e as leis de sucessão (“razão por que certos fenômenos sociais invariavelmente precedem ou sucedem
outros”). Essas ideias podem ser encontradas em diversas pesquisas sociológicas sob diversos rótulos, como:
o “estudo sincrônico”, através da perspectiva atemporal e estática da observação da sociedade, e o “estudo
diacrônico”, no qual é renconhecido o fluxo do tempo da sociedade e suas contínuas mudanças sociais.
Então, o moderno estudo da mudança social, que é feito através dos “estudos diacrônicos”, herdou a
metáfora orgânica da sociedade, mas não diretamente de Spencer e Comte, mas sim de uma escola sociológica
influente do século XX, conhecida como teoria dos sistemas, teoria funcional ou estrutural-funcionalista,
tendo como teórico mor Talcott Parsons. Foi o “modelo sistêmico” que uniu e generalizou as ideias típicas do
organicismo. Muitos dos conceitos de mudança social, de acordo com o teórico, advém desse modelo, porém,
recentemente, esse modelo tem sido questionado por uma abordagem morfogênica, processual da sociedade.
O modelo sistêmico: a criação do conceito de mudança social
A ideia de sistema pode ser resumida como “uma totalidade complexa constituída de múltiplos
elementos ligados por certas interrelações e separados do ambiente por um limite” (p.27). De acordo com os
teóricos sistêmicos, dentre eles, Parsons, a noção de sistema pode ser generalizada, aplicada inclusive aos
diferentes níveis sociais (macro - sistema como um todo, meso - nível de estados-nação e alianças políticas
regionais e micro - associações, comunidades regionais, etc.). Desta forma, considera-se como mudança social
aquela que ocorre dentro do sistema social ou que o abrange, correspondendo à diferença entre vários estados
sucessivos de um mesmo sistema. A noção de mudança social pode ser resumida em três pontos: 1) diferenças
2) em instantes diversos 3) entre estados de um mesmo sistema social.

1
O problema que surge ao falarmos de “estruturas” reside no perigo de cristalizar certos momentos ou mesmo processos, pois assim
como o próprio concito, a sociedade não é uma coisa enrijecida, se trata de um conceito analítico, um conjunto de padrões de
interação (a capacidade de reproduzir esses padrões). “Estruturas” não são coisas palpáveis, mas elementos que canalizam, suportam
e direcionam essas interações. Por este motivo, quando falamos em sociedades, o ideal seria pensar em processos de agrupamento
e estruturação, sempre destacando essa ideia de fluxo e movimento, uma vez que as mudanças ocorrem através de processos.
Os elementos componentes de um sistema são: 1) elementos fundamentais, como o número e variedade
dos indivíduos; 2) inter-relações entre elementos, como os vínculos e interações sociais; 3) função dos
elementos no sistema como um todo, como os papéis sociais e socio-ocupacionais dos indivíduos; 4) fronteira,
como critérios de inclusão/exclusão; 5) subsistemas, como variedade de subdivisões; 6) o meio ambiente,
como as condições naturais. É através das complexas interações que emergem todas as características globais
do sistema, equilíbrio e desequilíbrio, por exemplo. Às vezes, as mudanças do sistema são apenas parciais e
adaptativas; neste caso, são mudanças no sistema, que não gera uma modificação global do sistema. Quando
a mudança ocorre de maneira geral, atingindo todos os aspectos do sistema, como uma revolução, é uma
mudança do sistema. A maioria dos autores enfatizam que para ser crucial, a mudança tem que ocorrer nas
estruturas dos relacionamentos, laços e organizações dos componentes da sociedade pois essas mudanças, com
frequência, levam a mudança da sociedade como um todo, já que sinalizam o esqueleto sobre o qual a
sociedade se funda.
As mudanças podem ocorrer e se manifestar nos níveis micro, meso e macro. A questão central vem a
ser o modo como as mudanças nesses níveis ocorrem e se inter-relacionam. “A mudança social é mediada por
protagonistas individuais. Por isso, as teorias da mudança social devem mostrar o modo como as
macrovariáveis afetam os motivos e as escolhas individuais, e, reciprocamente, como essas escolhas afetam
as macrovaráveis.” (Hermes)
Feixes de mudanças: a crescente complexidade dos conceitos dinâmicos
A mudança social2 abrange os mais simples fatores, no entanto, mudanças simples raramente aparecem
isoladas. Pensando nisso, a sociologia elaborou conceitos para lidar com essas ligações. O mais importante
deles é a ideia de “processo social”, que descreve uma sequência de mudanças inter-relacionadas. Esse
conceito denota 1) uma pluralidade de mudanças 2) referentes ao mesmo sistema 3) e relações causais
recíprocas 4) em sequência temporal. Dos processos sociais, duas formas específicas 3 se destacam: uma é o
“desenvolvimento social”, que descreve o desdobramento de alguma potencialidade inerente ao sistema. A
noção de desenvolvimento social possui três características: 1) é direcional, onde nenhum estado do sistema
se repete em nenhum outro estágio, 2) em qualquer instante posterior, representa o nível é mais alto das
propriedades e 3) é estimulado pelas tendências imanentes, internas, endógenas do sistema. O outro conceito
é o de ciclo social, onde o processo não é mais direcional, mas também não é fortuito . Esse ciclo social possui
duas características: 1) segue um padrão circular, ou seja, o estado do sistema pode se repetir em outro estágio
ou ele próprio é uma réplica do que aconteceu no passado, e 2) essa repetição é uma tendência imanente do
sistema, onde a natureza do sistema possui esse processo ondulatório, oscilatório específico.
Outro conceito, discutível, porém influente na sociologia é o conceito de “progresso social”, que acaba
por adicionar uma dimensão valorativa, axiológica à noção de desenvolvimento social, afastando-se de noções
neutras, estritamente acadêmicas. A noção de progresso social: 1) é direcional e 2) leva o sistema a se
aproximar do estado aperfeiçoado desejável. Dessa forma, a noção de progesso social está atrelada à ideia de
algum autor ou a uma visão de mundo.

2A ideia de mudança social é relativa a diferença entre dois momentos, o que envolve uma comparação de determinado objeto em
pelo menos dois momentos distintos. Essa colocação está vinculada a uma percepção histórica, relativa a tempo e lugar.
O modelo alternativo: o campo social dinâmico
Duas tendências intelectuais ganham força frente à dúvida dos modelos orgânicos-sistêmicos da
sociedade, bem como à dicotomia entre estática e dinâmica social: 1) a percepção de sociedade em movimento;
2) o não-tratamento da sociedade enquanto objeto (reificação) - como coisa social. As primeiras sujetões, de
que tais abordagenas adotadas acima são falsas, vêm das ciências naturais: de que a mudança é inerente à
natureza das coisas. “Para a sociologia, a sociedade deveria ser concebida não como um estado constante,
mas como processo (...) a sociedade existe somente na medida em que, e somente enquanto, algo acontece
nela, ações são praticadas, mudanças ocorrem, processos continuam a se operar” (p. 34).
A vida social é dinâmica, por isso se rejeita a validade de estudos sincrônicos e se aceita a afirmação
de uma perspectiva diacrônica. Desse modo, a sociedade é vista como um campo flexível das relações sociais.
A realidade é um campo interpessoal: uma rede de laços entre o ser humano e o meio social. Abandona-se,
portanto, a rigidez com que a sociedade era observada, e passa-se a compreender as mudanças como parte de
um movimento inerente ao funcionamento social. A unidade de análise sociológica nessa perspectiva é o
“evento”, compreendido aqui como qualquer estado momentâneo do campo social (ou de seus segmentos).
Existem quatro aspectos do campo interindividual: 1) ideal, 2) normativo, 3) interativo e 4) de oportunidades.
Nestes campos, os indivíduos são ligados por meio de relacionamentos sociais, mas por quê são ligados?
Existem quatro tramas que emergem e se aglutinam: 1) ideias, 2) regras, 3) ações e 4) interesses. As dimensões
das ideias constituem a dimensão ideal do campos, a consciência social; regras contribuem para formação da
normatividade, das instituições sociais;; as ações para a “organização” - dimensão interativa do campos; a dos
interesses para as “hierarquias sociais”. Juntas, essas dimensões representam o “campo sociocultural” - tecido
social. A verdadeira complexidade da vida social pode ser compreendida se observarmos dois pontos: 1) os
processos nos quatro níveis não se dão independentemente, são inter-relacionado por várias dimensões inter-
cruzadas 2) existem diferentes graus de complexidade: macro, meso e micro.
Assim, nesse campo sociocultural fluido, 1) a noção de “mudança social” significa a diferença de
estados no campo social no tempo, 2) o “processo social” significa uma sequência de eventos, 3)
“desenvolvimento social” significa diferenciação, expansão, cristalização e articulação do campo social em
suas várias dimensões e 4) o “progresso social” significa qualquer desenvolvimento benéfico relativo a algum
ponto de vista axiológico. A principal diferença com o modelo sistêmico é a conceituação de mudança e
processo social como verdadeiramente contínuos, jamais discretos, fragmentados, separados.
As variedades de processos sociais: uma tipologia
Nós não podemos limitar as nossas concepções apenas ao modelo sistêmico ou ao modelo de campo
social, pois modelos são representações cognitivas, e, como tais, devem ser julgados por sua eficácia,
fertilidade e poder heurístico. Para tanto, podemos adotar, na visão de Ztompka, uma visão eclética e obter o
aparato conceitual básico para as duas concepções de mudança social. Para nos orientarmos no domínio da
mudança sociais, é necessário introduzir seis tipologias dos processos sociais.
1. A forma que assume o processo: os processos podem ser de dois tipos, direcionais (irreversíveis e
cumulativos) - cada estágio é diferente do estágio anterior e incorpora seus efetios, esses estágios
anteriores forcenem pré-requisitos para os estágios posteriores, como, por exemplo, o desenvolvimento
de uma cidade, podendo ser graduais (lineares) ou (multi)lineares - saltos qualitativos; e não-
direcionais (estes são fluidos), que tanto podem ser aleatórios (não possui um padrão) ou oscilatórios
(cíclicos se a repetição for aparente).
2. Efeitos do processo: alguns processos resultam na emergência de novas condições (morfogênese), por
exemplo, mobilização de movimentos sociais, novos grupos sociais e partidos políticos, estando na
origem de todas as realizações sociais, civilizacionais, culturais, etc.; outros não provocam mudanças
radicais - sem inovações fundamentais (transmutações simples); outros mantém a
estabilidade/manutenção das condições sociais (reprodução simples, um exemplo é a socialização. Há
também processos que alteram um sistema quantitativamente, para mais (reprodução ampliada), um
exemplo é o aumento demográfico, ou para menos (reprodução contraída), um exemplo é a exploração
desenfreada dos recursos naturais; e que alteram sua constituição qualitativa básica (transformação).
3. Consciência social: tem relação com a consciência que as pessoas têm das mudanças e seus resultados
nas pessoas envolvidas4. 1) Os processos sociais podem ser reconhecidos, previstos e pretendidos; 2)
podem não ser reconhecidos, previstos ou pretendidos, nessse caso, a própria mudança e seus efeitos
surgem como surpreendentes; 3) podem ser reconhecidos, previstos e até pretendidos, mas seus efeitos
são contrários ao desejado., conhecido como “processo bumerangue”.
4. Força propulsora por trás do processo: diz respeito à origem das causas da mudança. Processos
endógenos ou exógenos são relativos ao nível de análise à temporalidade (algumas mudanças podem
ser consideradas endógenas a partir do nível macro, mas exógenas a partir do micro; ou, o tempo de
duração ou análise do processo pode indicar mudança quanto ao fator de propulsão), por isso,
geralmente, adota-se a explicação multicausal.
5. Nível de realidade: macroprocessos (grandes, abrangentes e longos – longue dureé); mesoprocessos
e microprocessos.
6. Amplitude temporal.

4Para Merton, os efeitos das mudanças e processos sociais poderiam ser percebidos ou não. Para isso, ele usa os
conceitos de manifestos (vistos) e latentes (ignorados).