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JURISPRUDÊNCIA DIREITO ADMINISTRATIVO

SERVIDORES PÚBLICOS
A acumulação de cargos públicos de profissionais da área de saúde, prevista no art. 37,
XVI, da CF/88, não se sujeita ao limite de 60 horas semanais previsto em norma
infraconstitucional, pois inexiste tal requisito na Constituição Federal.
O único requisito estabelecido para a acumulação é a compatibilidade de horários no
exercício das funções, cujo cumprimento deverá ser aferido pela administração pública.
STF. 1ª Turma. RE 1176440/DF, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 9/4/2019
(Info 937).
STF. 2ª Turma. RMS 34257 AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em
29/06/2018.
STJ. 1ª Seção. REsp 1767955/RJ, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 27/03/2019 (Info
646).
É possível que a pessoa acumule mais de um cargo ou emprego público?
REGRA: NÃO. A CF/88 proíbe a acumulação remunerada de cargos ou empregos
públicos.
EXCEÇÕES: a própria CF/88 prevê exceções a essa regra. Veja o que dispõe o art. 37,
XVI:
XVI - é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quando houver
compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no inciso XI:
a) a de dois cargos de professor;
b) a de um cargo de professor com outro técnico ou científico;
c) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões
regulamentadas;
No caso dos servidores públicos federais, importante mencionar que o tema foi
regulamentado pela Lei nº 8.112/90:
Art. 118. Ressalvados os casos previstos na Constituição, é vedada a acumulação
remunerada de cargos públicos.
(...)
§ 2º A acumulação de cargos, ainda que lícita, fica condicionada à comprovação da
compatibilidade de horários.
Parecer-AGU nº GQ-145/98*
Com o objetivo de disciplinar a matéria, a Advocacia Geral da União (AGU) emitiu, em
1998, o parecer nº GQ-145, vinculante, afirmando que o servidor somente poderia
acumular cargos se houver compatibilidade de horário e desde que a jornada máxima
não ultrapasse 60 horas semanais.
Assim, para a AGU, mesmo que existisse compatibilidade de horários, se a jornada
semanal ficasse acima de 60 horas, a acumulação não seria permitida, considerando
que o servidor estaria muito cansado e isso atrapalharia seu desempenho funcional, em
prejuízo ao princípio constitucional da eficiência.
* Obs: esse parecer foi revogado em abril/2019.
Os servidores não concordaram com este entendimento e recorreram à Justiça
para que pudessem manter a acumulação de cargos mesmo se a jornada semanal
for superior a 60 horas. A jurisprudência acolhe o pedido dos servidores? É
possível que o servidor acumule dois cargos públicos mesmo que a soma das
jornadas ultrapasse 60 horas semanais?
SIM. É possível a acumulação de cargos mesmo que a jornada semanal ultrapasse 60h:
A acumulação de cargos públicos de profissionais da área de saúde, prevista no
art. 37, XVI, da CF/88, não se sujeita ao limite de 60 horas semanais previsto em
norma infraconstitucional, pois inexiste tal requisito na Constituição Federal.
O único requisito estabelecido para a acumulação é a compatibilidade de horários
no exercício das funções, cujo cumprimento deverá ser aferido pela
administração pública.
STF. 1ª Turma. RE 1176440/DF, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 9/4/2019
(Info 937).
STF. 2ª Turma. RMS 34257 AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em
29/06/2018.
STJ. 1ª Seção. REsp 1767955/RJ, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 27/03/2019.
O fundamento é constitucional.
Ora, a Constituição Federal em nenhum momento exigiu que a jornada semanal dos
dois cargos fosse de até 60 horas. O único requisito estabelecido pela CF/88 para a
acumulação é a compatibilidade de horários no exercício das funções, cujo cumprimento
deverá ser aferido pela administração pública.
Logo, essa exigência feita por norma infraconstitucional de que a jornada seja de até 60
horas está além daquilo que a Constituição impôs, sendo, portanto, indevida.
Assim, quando houver compatibilidade de horários, a existência de norma
infraconstitucional limitadora de jornada semanal de trabalho não constitui óbice ao
reconhecimento da cumulação de cargos prevista no art. 37, XVI, da Constituição
Federal.
Posição do TCU
A jurisprudência atual do TCU é no sentido de que a questão da incompatibilidade de
horários entre os cargos acumuláveis deve ser estudada caso a caso, sem a limitação
objetiva de 60 horas semanais.
Nesse sentido: Acórdãos 1.338/2011-TCU-Plenário, de relatoria do Ministro Augusto
Nardes, e 1.168/2012-TCU-Plenário, de relatoria do Ministro José Jorge.
Como o tema já foi cobrado em concursos:
(Juiz Federal Substituto - TRF2 - IBFC - 2018) É lícita a acumulação de dois cargos
privativos da área de saúde, bastando a demonstração concreta da compatibilidade de
horários, mesmo que a soma das horas semanais trabalhadas ultrapasse o limite de
jornada estipulado em ato administrativo (CERTO)
Revogação do Parecer-AGU nº GQ-145/98
Em abril de 2019, a AGU exarou novo parecer revogando o Parecer-AGU nº GQ-145/98.
A nova posição institucional da AGU é a seguinte:
É inválida a regulamentação administrativa que impõe limitação de carga horária
semanal como empecilho para a acumulação de cargos públicos.

A expressão "Procuradores", contida na parte final do inciso XI do art. 37 da Constituição


da República, compreende os procuradores municipais, uma vez que estes se inserem
nas funções essenciais à Justiça, estando, portanto, submetidos ao teto de 90,25%
(noventa inteiros e vinte e cinco centésimos por cento) do subsídio mensal, em espécie,
dos ministros do STF.
STF. Plenário. RE 663696/MG, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 28/2/2019 (Info 932).
Teto remuneratório
A CF/88 prevê, em seu art. 37, XI, o chamado “teto remuneratório”, ou seja, o valor
máximo que os agentes públicos podem receber no país. O objetivo do constituinte foi
o de evitar que alguns agentes públicos recebessem os chamados “supersalários”, que
são incompatíveis com o serviço público.
Além de um teto geral (nacional), o dispositivo constitucional prevê limites específicos
para o âmbito dos Estados e Municípios (chamados de subtetos).
O teto geral do serviço público no Brasil é o subsídio dos Ministros do STF que,
atualmente, está em R$ 39.293,32 (bruto), conforme prevê a Lei nº 13.752/2018.
A quem se aplica o teto?
O teto é aplicado aos agentes públicos independentemente do tipo de vínculo:
estatutário, celetista, temporário, comissionado, político.
O teto vale também para a Administração direta e indireta?
• Agentes públicos da administração direta: SEMPRE
• Agentes públicos das autarquias e fundações: SEMPRE
• Empregados públicos das empresas públicas e sociedades de economia mista: o teto
somente se aplica se a empresa pública ou a sociedade de economia mista receber
recursos da União, dos Estados, do DF ou dos Municípios para pagamento de despesas
de pessoal ou de custeio em geral (art. 37, § 9º).
Quais as parcelas incluídas nesse limite?
Regra: o teto abrange todas as espécies remuneratórias e todas as parcelas integrantes
do valor total percebido, incluídas as vantagens pessoais ou quaisquer outras.
Exceções:
Estão fora do teto as seguintes verbas:
a) parcelas de caráter indenizatório previstas em lei (§ 11 do art. 37);
b) verbas que correspondam aos direitos sociais previstos no art. 7º c/c o art. 39, § 3º
da CF/88, tais como 13º salário, 1/3 constitucional de férias etc.;
c) quantias recebidas pelo servidor a título de abono de permanência em serviço (§ 19
do art. 40);
d) remuneração em caso de acumulação legítima de cargos públicos (STF RE
612975/MT). Ex.: se determinado Ministro do STF for também professor da UnB, ele irá
receber seu subsídio integral como Ministro e mais a remuneração decorrente do
magistério. Nesse caso, o teto seria considerado especificamente para cada cargo,
sendo permitido que ele recebesse acima do limite previsto no art. 37, XI da CF/88, se
considerarmos seus ganhos globais.
Os proventos recebidos pelo agente público aposentado também estão
submetidos ao teto?
SIM. A redação do art. 37, XI, menciona expressamente os proventos.
Redação do inciso XI
A redação do inciso XI do art. 37 é muito grande e um pouco confusa:
A partir da sua interpretação, podemos construir a seguinte tabela:
Teto NACIONAL: subsídio dos Ministros do STF
Ninguém poderá receber acima desse valor; as Constituições estaduais e leis
orgânicas podem fixar subtetos para Estados/DF e Municípios; tais subtetos
também deverão respeitar o teto nacional.
Subteto
Subteto
Subteto nos Estados/DF nos
na União
Municípios
Subsídio Existem duas opções: Subsídio do
dos
Opção 1 (subtetos diferentes para cada um dos Poderes): Prefeito
Ministros
Executivo: subsídio do Governador.
do STF
Legislativo: subsídio dos Deputados Estaduais.
Judiciário (inclui MP, Defensoria e Procuradoria):
subsídio dos Desembargadores do TJ, limitado a
90,25% do subsídio mensal, em espécie, dos Ministros
do STF.*

Opção 2 (subteto único para todos os Poderes): o valor


máximo seria o subsídio dos Desembargadores do TJ,
limitado a 90,25% do subsídio mensal, em espécie, dos
Ministros do STF.*

O subsídio dos Deputados Estaduais/Distritais seguirá


regras próprias (§ 2º do art. 27), não estando sujeito ao
subsídio dos Desembargadores mesmo que se adote
esta 2ª opção.

Vale ressaltar que quem define se o Estado-membro


adotará subtetos diferentes ou único é a Constituição
estadual.

* A CF/88 dá a entender que o subsídio dos


Desembargadores e dos juízes estaduais não poderia
ser maior que 90,25% do subsídio do Ministro do STF. O
STF, contudo, declarou que esta interpretação é
inconstitucional (STF ADI 3.854). O teto para os
Desembargadores e juízes estaduais é 100% do
subsídio dos Ministros do STF, ou seja, eles podem, em
tese, receber o mesmo que os Ministros do STF. Vale
ressaltar, no entanto, que o limite de 90,25% do subsídio
dos Ministros do STF aplica-se sim para os servidores
do Poder Judiciário estadual (na opção 1) e para os
servidores dos três Poderes estaduais (na opção 2).
Membros do MP, Defensoria Pública e Procuradoria
O legislador constituinte decidiu que os membros do Ministério Público, da Defensoria
Pública e da Procuradoria, para fins de teto remuneratório, não deveriam estar
submetidos aos limites impostos aos servidores do Poder Executivo.
Explicando melhor. Conforme vimos na opção 1 do quadro acima, a remuneração dos
servidores do Poder Executivo está limitada ao subsídio do Governador (esse é o
subteto dos servidores do Executivo).
O inciso XI do art. 37 disse, contudo, o seguinte: o subsídio dos membros do MP, da
Defensoria Pública e da Procuradoria não precisa respeitar o teto imposto ao Poder
Executivo. Os membros dessas três carreiras deverão estar vinculados ao teto imposto
ao Poder Judiciário. Em outras palavras, como essas três funções são também
essenciais à Justiça, para fins de teto remuneratório, o inciso XI decidiu vinculá-losà
Magistratura.
Assim, o teto para o membro do MP estadual, para o Defensor Público estadual e para
os Procuradoresé o subsidio dos Desembargadores do TJ, limitado a 90,25% do
subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do STF. É o que prevê a parte final do inciso
XI. Veja:
Art. 37 (...)
XI –(...)aplicando-se como limite, nos Municípios, o subsídio do Prefeito, e nos Estados
e no Distrito Federal, o subsídio mensal do Governador no âmbito do Poder Executivo,
o subsídio dos Deputados Estaduais e Distritais no âmbito do Poder Legislativo e o
subsidio dos Desembargadores do Tribunal de Justiça, limitado a noventa inteiros e
vinte e cinco centésimos por cento do subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do
Supremo Tribunal Federal, no âmbito do Poder Judiciário, aplicável este limite aos
membros do Ministério Público, aos Procuradores e aos Defensores Públicos; (Redação
dada pela Emenda Constitucional nº 41/2003)
Essa regra do inciso XI que diz que o teto dos Procuradores é o do Poder
Judiciário, aplica-se também aos Procuradores do Município?
A interpretação puramente literal não resolve a dúvida, havendo argumentos para as
duas soluções:
• Argumento favorável à aplicação aos Procuradores do Município: o fato de o inciso XI
utilizar uma expressão genérica “Procuradores”, não restringindo aos Procuradores do
Estado e do DF.
• Argumento contrário: o fato de essa regra estar na parte em que o inciso está tratando
do teto nos Estados-membros.
Diante dessa polêmica, o STF foi chamado a dar a resposta ao tema. O que decidiu
a Corte? Essa regra do inciso XI que diz que o teto dos Procuradores é o do Poder
Judiciário, aplica-se também aos Procuradores do Município?
SIM.
A expressão “Procuradores”, contida na parte final do inciso XI do art. 37 da
Constituição da República, compreende os procuradores municipais, uma vez
que estes se inserem nas funções essenciais à Justiça, estando, portanto,
submetidos ao teto de noventa inteiros e vinte e cinco centésimos por cento do
subsídio mensal, em espécie, dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
STF. Plenário. RE 663696/MG, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 28/2/2019 (Info 932).
O termo “Procuradores”, na axiologia do STF, engloba:
• os Procuradores do Estado e do DF;
• os procuradores autárquicos (que ainda existam validamente);
• assim como os procuradores municipais.
É indiscutível que os Procuradores Municipais integram a categoria da advocacia
pública a que a Constituição denomina de “funções essenciais à Justiça” e, quanto ao
teto remuneratório, devem estar sujeitos ao subsídio dos desembargadores dos
tribunais de justiça estaduais.
Assim, é inconstitucional a hermenêutica que exclua da categoria “Procuradores” os
“defensores dos municípios” *, que desempenham idênticas atribuições dos
procuradores congêneres no âmbito da União, dos Estados e do Distrito Federal.
Desse modo, não haveria fundamento para referido discrímen (discriminação) entre os
procuradores.
Ao assim proceder, os procuradores municipais estariam sujeitos às mais diversas
contingências políticas, distantes do subteto de 90,25% do subsídio mensal, em
espécie, dos ministros do STF.
Assim, o teto dos Procuradores Municipais não é o subsídio do Prefeito, mas sim o teto
de 90,25% do subsídio mensal dos Ministros do STF.
* “defensores dos municípios”: essa expressão foi utilizada no voto do Min. Fux no
sentido de “advogados” (“procuradores”) dos municípios. Não tem nada a ver com
Defensoria Pública municipal que, segundo a maioria da doutrina, não pode existir.
Essa decisão do STF significa que os Procuradores do Município devem receber,
obrigatoriamente, 90,25% dosubsídio mensal, em espécie, dos ministros do STF?
NÃO. O constituinte não obriga que os Municípios estipulem como subsídio dos
Procuradores do Munípio o valor de 90,25% do subsídio mensal, em espécie, dos ministros
do STF. Trata-se de um teto (e não de um piso).
Logo, talvez, em Municípios pequenos do interior do Estado, com baixa arrecadação,
esse valor seja alto, o que não se verifica, por outro lado, em grandes capitais.
A definição do subsídio dos Procuradores Municipais é feita por meio de lei cujo projeto
é de iniciativa privativa do Prefeito, nos termos do art. 61, §1º, II, “c”, da CF/88.
Dessa forma, cabe ao Prefeito avaliar politicamente, diante das circunstâncias
orçamentárias e da sua política de recursos humanos, a conveniência de permitir que
um procurador de município receba mais do que o chefe do Poder Executivo municipal.
Tabela atualizada
Diante dessa importante decisão do STF, podemos atualizar a tabela do teto
remuneratório:
Teto NACIONAL: subsídio dos Ministros do STF
Ninguém poderá receber acima desse valor; as Constituições estaduais e leis
orgânicas podem fixar subtetos para Estados/DF e Municípios; tais subtetos
também deverão respeitar o teto nacional.
Subteto
Subteto
Subteto nos Estados/DF nos
na União
Municípios
Subsídio Existem duas opções: Subsídio do
dos
Opção 1 (subtetos diferentes para cada um dos Poderes): Prefeito
Ministros
Executivo: subsídio do Governador.
do STF Legislativo: subsídio dos Deputados Estaduais. Obs: os
procu-
Judiciário (inclui MP, Defensoria e Procuradoria):
radores
subsídio dos Desembargadores do TJ, limitado a
munici-pais
90,25% do subsídio mensal, em espécie, dos Ministros
estão sub-
do STF.*
metidos ao
teto de
Opção 2 (subteto único para todos os Poderes): o valor 90,25% do
máximo seria o subsídio dos Desembargadores do TJ, subsídio
limitado a 90,25% do subsídio mensal, em espécie, dos men-sal, em
Ministros do STF.* espécie, dos
ministros do
STF.
O subsídio dos Deputados Estaduais/Distritais seguirá
regras próprias (§ 2º do art. 27), não estando sujeito ao
subsídio dos Desembargadores mesmo que se adote
esta 2ª opção.

Vale ressaltar que quem define se o Estado-membro


adotará subtetos diferentes ou único é a Constituição
estadual.

* A CF/88 dá a entender que o subsídio dos


Desembargadores e dos juízes estaduais não poderia ser
maior que 90,25% do subsídio do Ministro do STF. O STF,
contudo, declarou que esta interpretação é inconstitucional
(STF ADI 3.854). O teto para os Desembargadores e juízes
estaduais é 100% do subsídio dos Ministros do STF, ou
seja, eles podem, em tese, receber o mesmo que os
Ministros do STF. Vale ressaltar, no entanto, que o limite
de 90,25% do subsídio dos Ministros do STF aplica-se sim
para os servidores do Poder Judiciário estadual (na opção
1) e para os servidores dos três Poderes estaduais (na
opção 2).

Concursados e organizados em carreira


Apesar de não ter constado na tese fixada, no voto do Relator foi feita menção a um
aspecto muito importante. Para o Ministro Luiz Fux, essa equiparação entre o teto dos
Procuradores do Estado/DF com os Procuradores Municipais somente é permitida se,
naquele Município, os Procuradores forem concursados e organizados em carreira.
Assim, pelo voto do Relator, não seria admitido o teto de 90,25% dos Ministros do STF
para advogados contratados, sem concurso público, para o exercício de funções de
defesa jurídica do Município.
Essa ressalva também foi feita pelo Min. Gilmar Mendes:
“Apesar de a Constituição não fazer menção expressa aos procuradores municipais, há
que se reconhecer que, quando organizados em carreira, também exercem a atribuição
de advogados públicos, realizando as atividades congêneres àquelas desempenhadas
pelos advogados da União e pelos procuradores federais, estaduais e distritais,
prestando consultoria jurídica e representando judicial e extrajudicialmente a
municipalidade”.
Espero que essa informação conste expressamente na ementa porque se trata de algo
de elevado interesse público.
Ganha força a tese de concurso para as Procuradorias Municipais
Existe uma polêmica se a CF/88 exige ou não que os Municípios tenham Procuradorias
Municipais, organizadas em carreira, mediante concurso público, para o desempenho
das funções de representação judicial e consultoria jurídica.
Há, inclusive, uma PEC tramitando para incluir as Procuradorias Municipais no art. 132
da CF/88.
A conclusão do STF no RE 663696/MG, ao equiparar as Procuradorias Municipais às
Procuradorias do Estado/DF, reforça a tese de que os Municípios devem ter
Procuradorias Municipais, organizadas em carreira mediante concurso público.
Esperamos que seja esse o entendimento a prevalecer.

A Lei nº 12.855/2013, que instituiu a Indenização por Trabalho em Localidade


Estratégica, é norma de eficácia condicionada à prévia regulamentação, para definição
das localidades consideradas estratégicas, para fins de pagamento da referida
vantagem.
STJ. 1ª Seção. REsp 1617086-PR, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em
28/11/2018 (recurso repetitivo) (Info 641).

Não deve ser determinada a devolução de valores recebidos de boa-fé por servidor
público, percebidos a título precário no período em que liminar produziu efeitos.
É desnecessária a devolução dos valores recebidos por liminar revogada, em razão de
mudança de jurisprudência. Também é descabida a restituição de valores recebidos
indevidamente, circunstâncias em que o servidor público atuou de boa-fé.
STF. 1ª Turma. MS 32185/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 13/11/2018 (Info
923).
Imagine a seguinte situação hipotética:
João, servidor público federal aposentado, impetrou mandado de segurança pedindo
que não fosse descontada de seus proventos uma gratificação que é paga aos
servidores da ativa.
Na época, a jurisprudência entendia que essa gratificação era realmente devida aos
aposentados.
Em razão disso, foi concedida a medida liminar e, por força dessa decisão provisória,
João passou a receber R$ 2 mil a mais todos os meses na sua aposentadoria.
Essa situação durou 2 anos. Isso porque, quando o Tribunal foi julgar o mérito do
mandado de segurança, a jurisprudência já havia se alterado, passando a entender que
a gratificação pedida era, de fato, exclusiva dos servidores da ativa.
Diante disso, o Tribunal reconheceu que João não tinha direito líquido e certo ao
recebimento da gratificação, negou a segurança e revogou a liminar outrora concedida.
A União pediu, então, que João fosse condenado a devolver os valores que recebeu ao
longo dos 2 anos por força da decisão liminar que foi revogada. Segundo a Fazenda
Pública, a devolução é imposta pelo art. 46, § 3º da Lei nº 8.112/90:
Art. 46 (...)
§ 3º Na hipótese de valores recebidos em decorrência de cumprimento a decisão liminar,
a tutela antecipada ou a sentença que venha a ser revogada ou rescindida, serão eles
atualizados até a data da reposição.
O pedido da União deverá ser acolhido? João terá que devolver os valores
relativos aos 2 anos que recebeu por força da medida liminar posteriormente
revogada?
NÃO.
É desnecessária a devolução dos valores recebidos por liminar revogada, em
razão de mudança de jurisprudência. Também é descabida a restituição de valores
recebidos indevidamente, circunstâncias em que o servidor público atuou de boa-
fé.
Essa orientação ampara-se na confiança legítima que o beneficiário da decisão
tem no sentido de que a sua pretensão será acolhida.
Assim, os princípios da boa-fé e da segurança jurídica afastam o dever de
restituição de parcelas recebidas por ordem liminar revogada.
STF. 1ª Turma. MS 32.185/DF ED, Redator do acórdão Min. Roberto Barroso, julgado em
13/11/2018 (Info 923).
Veja outros precedentes no mesmo sentido:
(...) 1. Quando da publicação da decisão que deferiu o pedido de medida liminar, a
jurisprudência hegemônica do Supremo Tribunal Federal era no sentido de que a glosa,
pelo TCU, de percentuais pagos em virtude de decisões judiciais transitadas em julgado
importava em afronta à garantia prevista no art. 5º, XXXVI, da Magna Carta. Esse
contexto, sem dúvida, alimentou no impetrante justificada expectativa por provimento
final favorável, ou seja, pela concessão da ordem, com a confirmação da liminar
deferida.
2. Houve, contudo, alteração da jurisprudência desta Suprema Corte, que passou a
rechaçar a tese de afronta à coisa julgada, ao fundamento de que o Tribunal de Contas
da União, em casos como o presente, apenas identifica o exaurimento da eficácia de
comandos judiciais transitados em julgado, ante a superveniência de alterações
legislativas que promovem reestruturações remuneratórias e absorvem parcelas
judicialmente reconhecidas.
3. A mudança jurisprudencial solapou projeção razoavelmente nutrida pelo impetrante
e descortinou cenário suscetível de afastar, de modo pontual e excepcional,
considerados os princípios da boa-fé, da segurança jurídica e da proteção da confiança,
a regra do art. 46, § 3º, da Lei nº 8.112/1990. (...)
STF. 1ª Turma. MS 30556 AgR, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 26/05/2017.
(...) 3. Desnecessidade de restituição das parcelas recebidas por força de medida liminar
deferida com fundamento em jurisprudência consolidada do Supremo Tribunal Federal,
cassada em virtude da recente mudança de entendimento. Projeção do postulado da
confiança assentada pelo plenário deste Supremo Tribunal no julgamento do mandado
de segurança n. 25.430 (...)
STF. 2ª Turma. MS 26132 AgR, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 18/11/2016.
(...) Quando do julgamento do MS 25.430, o Supremo Tribunal Federal assentou, por 10
votos a 1, que as verbas recebidas em virtude de liminar deferida por este Tribunal não
terão que ser devolvidas por ocasião do julgamento final do mandado de segurança, em
função dos princípios da boa-fé e da segurança jurídica e tendo em conta expressiva
mudança de jurisprudência relativamente à eventual ofensa à coisa julgada de parcela
vencimental incorporada à remuneração por força de decisão judicial. (...)
STF. 1ª Turma. MS 31543 AgR, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 14/10/2016.
O STJ possui o mesmo entendimento acima exposto?
NÃO. O STJ, sem enfrentar expressamente o tema referente à mudança na
jurisprudência, em regra, afirma que é devida a devolução. Confira:
Se o servidor público recebe valores por força de decisão judicial posteriormente
revogada, tal quantia poderá ser exigida pela Administração Pública?
SIM. É devida a restituição ao erário dos valores de natureza alimentar pagos pela
Administração Pública a servidores públicos em cumprimento a decisão judicial precária
posteriormente revogada.
O STJ entende que, neste caso, não se pode falar em boa-fé do servidor, considerando
que ele sabia que poderia haver alteração da decisão que tinha caráter precário
(provisório).
STJ. 1ª Seção. EAREsp 58.820-AL, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em
8/10/2014.

O servidor público recebe valores por sentença judicial transitada em julgado.


Posteriormente, esta sentença é desconstituída em ação rescisória. O servidor deverá
devolver as quantias percebidas?
NÃO. A jurisprudência do STJ firmou o entendimento no sentido de que não é devida a
restituição dos valores que, por força de decisão transitada em julgado, foram recebidos
de boa-fé, ainda que posteriormente tal decisão tenha sido desconstituída em ação
rescisória (STJ. 1ª Turma. AgRg no AREsp 2.447/RJ, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima,
julgado em 17/04/2012).
O entendimento consolidado segundo o qual é legítimo o desconto de valores pagos em
razão do cumprimento de decisão judicial precária, posteriormente revogada, não tem
aplicação neste caso porque aqui o pagamento decorreu de sentença judicial definitiva, que
só depois foi desconstituída em ação rescisória.
STJ. 1ª Turma. AgRg no AREsp 463.279/RJ, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em
02/09/2014.
DOD PLUS
Outros entendimentos jurisprudenciais que são importantes sobre o tema:
Servidor público que recebe, administrativamente, valores que, posteriormente,
se mostram indevidos, é obrigado a restituir a quantia?
As quantias percebidas pelos servidores em razão de decisão administrativa dispensam a
restituição quando:
a) auferidas de boa-fé;
b) há ocorrência de errônea interpretação da Lei pela Administração;
c) ínsito o caráter alimentício das parcelas percebidas, e
d) constatar-se o pagamento por iniciativa da Administração Pública, sem participação
dos servidores.
STF. 1ª Turma. MS 33976 AgR, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 24/11/2017.
Servidor que recebe indevidamente valores por meio de decisão administrativa
(posição do STJ não exige esses mesmos requisitos do STF)
Se o servidor público recebe valores por força de decisão administrativa posteriormente
revogada, tal quantia poderá ser exigida de volta pela Administração Pública?
NÃO. É incabível a restituição ao erário dos valores recebidos de boa-fé pelo servidor
público em decorrência de errônea ou inadequada interpretação da lei por parte da
Administração Pública.
Em virtude do princípio da legítima confiança, o servidor público, em regra, tem a justa
expectativa de que são legais os valores pagos pela Administração Pública, porque
jungida à legalidade estrita.
Assim, diante da ausência da comprovação da má-fé no recebimento dos valores pagos
indevidamente por erro de direito da Administração, não se pode efetuar qualquer
desconto na remuneração do servidor público, a título de reposição ao erário.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.244.182-PB, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 10/10/2012
(recurso repetitivo).
Súmula 249 do TCU: É dispensada a reposição de importâncias indevidamente
percebidas, de boa-fé, por servidores ativos e inativos, e pensionistas, em virtude de erro
escusável de interpretação de lei por parte do órgão/entidade, ou por parte de autoridade
legalmente investida em função de orientação e supervisão, à vista da presunção de
legalidade do ato administrativo e do caráter alimentar das parcelas salariais.
Súmula 34-AGU: Não estão sujeitos à repetição os valores recebidos de boa-fé pelo
servidor público, em decorrência de errônea ou inadequada interpretação da lei por
parte da Administração Pública.
Servidor que recebe indevidamente valores em decorrência de erro operacional
da Administração
A 1ª Seção do STJ, no julgamento do Recurso Especial Representativo da Controvérsia
1.244.182/PB, firmou o entendimento de que não é devida a restituição de valores pagos
a servidor público de boa-fé, por força de interpretação errônea ou má aplicação da lei
por parte da Administração.
O mesmo entendimento tem sido aplicado pelo STJ nos casos de mero equívoco
operacional da Administração Pública.
Assim, não é devida a devolução de verba paga indevidamente a servidor em decorrência
de erro operacional da Administração Pública, quando se constata que o recebimento pelo
beneficiado se deu de boa-fé.
STJ. 1ª Turma. AgRg no REsp 1447354/PE, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho,
julgado em 16/09/2014.
STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1560973/RN, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em
05/04/2016.
Restituição à Administração Pública de proventos depositados a servidor público
falecido
Os herdeiros devem restituir os proventos que, por erro operacional da Administração
Pública, continuaram sendo depositados em conta de servidor público após o seu
falecimento.
STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1.387.971-DF, Rel. Min. Mauro Campbell Marques,
julgado em 15/3/2016 (Info 579).
Quadro-resumo
SITUAÇÃO TERÁ QUE
DEVOLVER?
1) Servidor recebe por decisão ADMINISTRATIVA depois NÃO
revogada
2) Servidor que recebe indevidamente valores em NÃO
decorrência de erro operacional da Administração
3) Servidor recebe por decisão JUDICIAL não definitiva SIM
depois reformada
(posição do STJ)
4) Servidor recebe por decisão JUDICIAL não definitiva NÃO
depois reformada (obs: a reforma da liminar foi decorrência
(posição do STF)
de mudança na jurisprudência).
4) Servidor recebe por sentença TRANSITADA EM NÃO
JULGADO e que posteriormente é rescindida
5) Herdeiro que recebe indevidamente proventos do servidor SIM
aposentado depois que ele morreu

Incide o teto remuneratório constitucional aos substitutos interinos de serventias


extrajudiciais.
STF. 2ª Turma. MS 29039/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 13/11/2018 (Info
923).
Serventias extrajudiciais
Os cartórios ou serventias extrajudiciais praticam atividades extrajudiciais (fora do
processo judicial) e que são necessárias para garantir a publicidade, autenticidade,
segurança e eficácia dos atos jurídicos.
Ex: a propriedade do bem imóvel somente é transmitida, por ato entre vivos, com o
registro no cartório extrajudicial de Registro de Imóveis (art. 1.227 do Código Civil).
As serventias extrajudiciais são os cartórios de Tabelionato de Notas, de Protesto, de
Registro de Imóveis, de Registro de Pessoas Naturais etc.
Os titulares das serventias extrajudiciais são chamados de notários (tabeliães) e
registradores.
Apesar de serem aprovados em concurso, eles não são servidores públicos nem
ocupam cargos públicos. São considerados particulares em colaboração com o Poder
Público.
Os notários e registradores não são remunerados por recursos públicos. São
remunerados unicamente pelos emolumentos cobrados dos usuários dos serviços. A
Constituição Federal determinou que esses serviços extrajudiciais seriam exercidos em
caráter privado:
Art. 236. Os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por
delegação do Poder Público.
Os rendimentos dos titulares de serventias extrajudiciais estão limitados ao teto
do funcionalismo público (art. 37, XI, da CF/88)?
NÃO. Como vimos acima, os titulares de serventias extrajudiciais não são servidores
públicos, não ocupam cargos nem recebem remuneração paga pela Administração
Pública. Eles são remunerados pelo próprio particular que se utiliza dos serviços do
cartório. Por essas razões, os notários e registradores não estão limitados ao teto
previsto no art. 37, XI, da CF/88, que somente se aplica aos servidores públicos (em
sentido amplo). Os titulares de serventias extrajudiciais podem receber acima do teto.
CNJ e fiscalização dos cartórios
As serventias extrajudiciais são fiscalizadas pelo Poder Judiciário estadual, estando
vinculadas aos Tribunais de Justiça. Nesse sentido, veja o que determina o § 1º do art.
236 da CF/88:
Art. 236 (...)
§ 1º Lei regulará as atividades, disciplinará a responsabilidade civil e criminal dos
notários, dos oficiais de registro e de seus prepostos, e definirá a fiscalização de seus
atos pelo Poder Judiciário.
O CNJ é o órgão correicional máximo do Poder Judiciário e, por essa razão, fiscaliza
também as serventias extrajudiciais. Existe, inclusive, previsão expressa no art. 103-B
da CF/88:
Art. 103-B (...)
§ 4º Compete ao Conselho o controle da atuação administrativa e financeira do Poder
Judiciário e do cumprimento dos deveres funcionais dos juízes, cabendo-lhe, além de
outras atribuições que lhe forem conferidas pelo Estatuto da Magistratura:
(...)
III - receber e conhecer das reclamações contra membros ou órgãos do Poder Judiciário,
inclusive contra seus serviços auxiliares, serventias e órgãos prestadores de serviços
notariais e de registro que atuem por delegação do poder público ou oficializados, sem
prejuízo da competência disciplinar e correicional dos tribunais, podendo avocar
processos disciplinares em curso e determinar a remoção, a disponibilidade ou a
aposentadoria com subsídios ou proventos proporcionais ao tempo de serviço e aplicar
outras sanções administrativas, assegurada ampla defesa;
Fiscalização do CNJ em relação aos concursos públicos e a figura dos interinos
Desde 2009, o CNJ tem intensificado a fiscalização sobre as serventias extrajudiciais a fim
de verificar se os seus titulares estão na função ou não por força de concurso público,
conforme determina o art. 236 da CF/88.
Em diversos casos, o Conselho identificou titulares que assumiram a função após a
CF/88, sem concurso público. Por conta disso, o CNJ afastou diversos notários e
registradores dos cartórios e determinou que os Tribunais de Justiça fizessem concurso
público.
Ocorre que, enquanto tais concursos não são realizados, alguém precisa, interinamente,
exercer as funções notariais e registrais no lugar do titular que foi afastado.
Assim, o titular (que estava sem concurso) é afastado e o Tribunal de Justiça deve
designar um “interino” para exercer as funções na respectiva serventia.
O que fez, contudo, o Corregedor Nacional de Justiça: determinou que substitutos que
respondem interinamente pelas atividades da serventia estão sujeitos ao teto
remuneratório previsto no art. 37, XI, da CF/88.
A Associação dos Notários e Registradores do Brasil (ANOREG) impetrou mandado de
segurança contra essa determinação do Corregedor Nacional alegando, entre outros
argumentos, que os substitutos/interinos também são particulares em colaboração com
o Poder Público e, por isso, não lhes é aplicável o teto disposto no art. 37, IX, da CF/88.
O que o STF decidiu? Os substitutos interinos dos cartórios extrajudiciais devem
receber limitado ao teto? O teto se aplica a eles?
SIM.
Incide o teto remuneratório constitucional aos substitutos interinos de serventias
extrajudiciais.
STF. 2ª Turma. MS 29.039/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 13/11/2018 (Info
923).

O titular interino não pode ser equiparado ao titular da serventia, considerando que ele
não preenche os requisitos para tanto. Assim, ele está atuando como um preposto do
Poder Público e, nessa condição, deve submeter-se aos limites remuneratórios
previstos para os agentes públicos.
Esse é a posição pacífica de ambas as Turmas do STF:
O titular interino não atua como delegado do serviço notarial e de registro porque não
preenche os requisitos para tanto; age, em verdade, como preposto do Poder Público
e, nessa condição, deve-se submeter aos limites remuneratórios previstos para os
agentes estatais, não se lhe aplicando o regime remuneratório previsto para os
delegados do serviço público extrajudicial (art. 28 da Lei nº 8.935/1994). STF. 1ª Turma.
MS 30180 AgR, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 21/10/2014.
Aplica-se a quem detém interinamente a serventia extrajudicial a limitação do teto
prevista no art. 37, XI, da Constituição.
STF. 2ª Turma. MS 29083 ED-ED-AgR, Rel. Min. Teori Zavascki, Rel. p/ Acórdão Min.
Dias Toffoli, julgado em 16/05/2017.

É constitucional a previsão legal que assegure, na hipótese de transferência ex officio


de servidor, a matrícula em instituição pública, se inexistir instituição congênere à de
origem.
Ex: Paulo é servidor público federal, lotado em Recife (PE), onde faz faculdade de
Medicina em uma universidade particular. Ele é transferido, de ofício, para Rio Branco
(AC). Suponhamos, hipoteticamente, que, em Rio Branco, as universidades privadas lá
existentes não possuem o curso de medicina. Neste caso, Paulo teria direito a uma vaga
no curso de Medicina da universidade pública.
Fundamento legal: art. 1º da Lei nº 9.536/97.
STF. Plenário. RE 601580/RS, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 19/9/2018
(repercussão geral) (Info 916).
Imagine a seguinte situação hipotética:
Paulo é servidor público federal, lotado em Recife (PE), onde faz faculdade de Medicina
em uma universidade particular. Ele é transferido, de ofício, para Rio Branco (AC).
Em virtude dessa transferência, Paulo terá direito a uma vaga no curso de
Medicina em uma universidade em Rio Branco (AC)?
SIM. Isso é chamado de transferência ex officio, sendo um direito assegurado pela Lei
nº 9.536/97, que regulamentou o parágrafo único do art. 49, parágrafo único, da Lei nº
9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação):
Lei nº 9.394/96
Art. 49. As instituições de educação superior aceitarão a transferência de alunos
regulares, para cursos afins, na hipótese de existência de vagas, e mediante processo
seletivo.
Parágrafo único. As transferências ex officio dar-se-ão na forma da lei.
Lei nº 9.536/97
Art. 1º A transferência ex officio a que se refere o parágrafo único do art. 49 da Lei nº
9.394, de 20 de dezembro de 1996, será efetivada, entre instituições vinculadas a
qualquer sistema de ensino, em qualquer época do ano e independente da existência
de vaga, quando se tratar de servidor público federal civil ou militar estudante, ou seu
dependente estudante, se requerida em razão de comprovada remoção ou
transferência de ofício, que acarrete mudança de domicílio para o município onde se
situe a instituição recebedora, ou para localidade mais próxima desta.
Parágrafo único. A regra do caput não se aplica quando o interessado na transferência
se deslocar para assumir cargo efetivo em razão de concurso público, cargo
comissionado ou função de confiança.
Em qualquer época do ano e independente da existência de vaga
Não é preciso que o servidor aguarde o início do semestre e, mesmo que não haja vaga
na turma, ele ficará como sobressalente.
Dependentes
Têm direito à matrícula, em estabelecimentos de ensino congêneres, não apenas os
servidores públicos como também seus dependentes.
Essa prerrogativa abrange servidores da Administração indireta?
SIM. A lei amplia o conceito de “servidor público” a fim de alcançar não apenas os
vinculados à Administração direta, como também os que exercem suas atividades em
entidades da Administração Pública indireta, uma vez que a finalidade da norma é o
interesse público.
Assim, os empregados das entidades da Administração Indireta, dentre elas as
empresas públicas e sociedades de economia mista, são considerados servidores
públicos em sentido amplo e, portanto, têm direito ao benefício previsto na Lei nº
9.536/97.
STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1218810/RS, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em
15/02/2011.
STF. 2ª Turma. RE 495325 AgR, Rel. Min. Ellen Gracie, julgado em 12/04/2011.
Esse direito abrange também servidores estaduais e municipais?
O art. 1º da Lei nº 9.536/97 fala apenas em “servidores federais”. No entanto, a
jurisprudência do STJ firmou entendimento de que a prerrogativa legal de transferência
de aluno ou dependente concedida a servidor público federal estende-se também a
servidores estaduais, municipais e do Distrito Federal, nos casos de transferência de
ofício, e entre estabelecimentos de ensino congêneres.
STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1267223/RS, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em
13/09/2011.
Mas é possível que um servidor estadual ou municipal seja transferido ex officio?
SIM. Isso é possível tanto dentro do mesmo Estado como também (mais raramente)
para outro Estado da Federação.
Ex: um servidor estadual que é transferido ex officio de um Município do interior para a
capital, ou vice-versa.
Ex2: um servidor do Município de São Paulo (SP) é transferido ex officio da capital
paulista para Brasília (DF), onde a Administração Pública mantém um escritório de
representação para cuidar dos assuntos municipais na capital federal.
Não abrange transferências “a pedido”
A prerrogativa conferida pela Lei nº 9.536/97 deve ser interpretada de forma restritiva e,
portanto, não contempla as transferências “a pedido” do próprio servidor.
STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1626826/PE, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em
21/03/2017.
Assunção em cargo público, nomeação para cargo em comissão e designação
para função de confiança
A prerrogativa da transferência ex officio não se aplica quando o interessado na
transferência se deslocar para outra localidade com o objetivo de assumir:
• cargo efetivo em razão de concurso público. Ex: o pai do estudante de Medicina passou
em um concurso para morar em outro Estado.
• cargo comissionado; ou
• função de confiança.
Posse de membro do MP como Desembargador e transferência universitária de
dependente
O filho do membro do MPT nomeado para o cargo de Desembargador Federal na vaga
do quinto constitucional tem direito de ser transferido para a Universidade do local para
onde se mudou?
SIM. O filho de membro do Ministério Público do Trabalho tem, em razão da mudança
de domicílio de seu pai para tomar posse no cargo de Desembargador Federal do
Trabalho, direito a ser transferido para instituição de ensino superior congênere, nos
termos do art. 49 da Lei nº 9.394/96, c/c art. 1º da Lei nº 9.536/97.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.536.723-RS, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 13/10/2015
(Info 571).
Requisito da congeneridade
Em 2005, o STF, ao julgar uma ADI proposta contra a Lei nº 9.536/97, deu interpretação
conforme ao art. 1º desta Lei e afirmou o seguinte:
Essa previsão de transferência obrigatória para outra faculdade somente pode ser
considerada constitucional se a instituição de destino for congênere à de origem.
Congênere = algo que é do mesmo gênero (tipo), ou seja, algo similar.
Isso significa que, se o servidor (ou seu dependente) estudava em uma universidade
pública, ele terá direito de se transferir para uma universidade também pública na cidade
de destino.
Por outro lado, se o servidor (ou seu dependente) estudava em uma universidade
privada, ele será transferido para uma universidade também privada.
Em suma, se o servidor público (civil ou militar) que cursa faculdade for transferido, de
ofício, para outra localidade, ele tem direito de ser matriculado em instituição de ensino
superior do local de destino, observado, todavia, o requisito da congeneridade em
relação à instituição de origem.
Veja a ementa do julgado:
A constitucionalidade do artigo 1º da Lei nº 9.536/97, viabilizador da transferência de
alunos, pressupõe a observância da natureza jurídica do estabelecimento educacional
de origem, a congeneridade das instituições envolvidas - de privada para privada, de
pública para pública -, mostrando-se inconstitucional interpretação que resulte na
mesclagem - de privada para pública.
STF. Plenário. ADI 3324, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 16/12/2004.
Voltando ao nosso exemplo:
Seguindo esse requisito da congeneridade, a vaga de Paulo não será em uma
universidade pública.
Isso porque Paulo estudava em Recife em uma universidade particular. Logo, ao ser
transferido para Rio Branco, deverá fazer o curso superior em uma faculdade também
particular.
A regra da congeneridade fala:
• Se o servidor estudava em uma instituição pública, será matriculado em uma instituição
pública na localidade de destino.
• Se fazia o curso em uma instituição privada, sua matrícula será efetividade em uma
instituição privada.
Até aí, tudo bem. Mas... e se a instituição congênere da localidade de destino não
oferecer o curso que era feito pelo servidor em seu antigo domicílio?
Suponhamos, hipoteticamente, que, em Rio Branco, as universidades privadas lá
existentes não possuem o curso de medicina. O que fazer neste caso?
Diante desses casos concretos, a jurisprudência dos TRFs e do STJ criou uma exceção
ao requisito da congeneridade.
Passou-se a dizer o seguinte: se não houver curso correspondente em estabelecimento
congênere no local da nova residência ou em suas imediações, deverá ser assegurada
a matrícula em instituição não congênere.
Assim, em nosso exemplo hipotético, como em Rio Branco não havia uma faculdade
particular de Medicina, Paulo teria direito a uma vaga no curso de Medicina da
universidade pública.
Universidades públicas questionaram essa “exceção”
Essa “exceção” ao requisito da congeneridade começou a ser questionada pelas
Universidades públicas sob a alegação de que isso violaria o princípio da isonomia (art.
5º) e o direito à igualdade de condições para o acesso à escola e à educação (art. 206,
I, da CF/88):
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
Logo, essa exceção seria inconstitucional.
O STF concordou com o argumento das Universidades públicas? Há
inconstitucionalidade?
NÃO.
É constitucional a previsão legal que assegure, na hipótese de transferência ex
officio de servidor, a matrícula em instituição pública, se inexistir instituição
congênere à de origem.
STF. Plenário. RE 601580/RS, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 19/9/2018
(repercussão geral) (Info 916).
O STF, inicialmente, esclareceu que, ao julgar a ADI 3324, ele não examinou os casos
de transferência para cidades em que não havia instituição de ensino congênere.
Em outras palavras, o STF afirmou que, ao julgar a ADI 3324, teria apenas analisado e
fixado a regra geral, mas sem fixar posição para os casos em que a cidade de destino
não tivesse o mesmo curso na faculdade privada. Logo, agora seria o momento de
analisar esta situação.
Se a cidade de destino do servidor não tem um curso congênere na rede privada, deve-
se admitir a matrícula em universidade pública, sob pena de haver uma restrição
desproporcional.
Exigir que a transferência se dê entre instituições de ensino congêneres praticamente
inviabiliza o direito à educação não apenas dos servidores, mas de seus dependentes,
solução que viola o disposto na Lei nº 9.536/97, e exclui, por completo, a fruição de um
direito fundamental. Impedir a matrícula do servidor ou de seus dependentes, em caso
de transferência compulsória, quando inexistir instituição congênere no município,
possivelmente levaria ao trancamento do curso ou sua desistência. Assim, permitir a
matrícula, ante a inviabilidade de um dos direitos em confronto, não se afigura
desproporcional.
Conclusões pessoais:
Para fins de concurso, é muito importante conhecer a literalidade da tese acima exposta
porque é muito provável que seja cobrado exatamente assim na prova.
No entanto, podemos explicar como funciona na prática, criando uma “regra” e uma
“exceção”:
• REGRA: em caso de transferência ex officio de servidor público (civil ou militar), o
servidor (ou seu dependente) terá direito de se matricular em instituição congênere
àquela que estava estudando na origem. Ex: se fazia o curso em uma universidade
pública, terá direito de se matricular em uma instituição pública na cidade para a qual
foi transferido. É o chamado requisito da congeneridade.
• EXCEÇÃO: se no local da nova residência ou em suas imediações não houver o curso
em uma instituição congênere, deverá ser assegurada a matrícula em instituição não
congênere. Ex: o servidor fazia o curso de Medicina em uma universidade privada e no
local de destino não existe faculdade particular que ofereça o curso de Medicina. Neste
caso, como inexiste instituição congênere à de origem, a lei assegura a matrícula em
instituição pública. O STF afirma que essa interpretação da lei é compatível com a
CF/88.
Requisitos
Diante de tudo que foi exposto, podemos assim resumir os requisitos para que se
proceda à transferência entre instituições de ensino superior, na hipótese de remoção
de servidor público no interesse da Administração, o cumprimento de três requisitos
cumulativos:
a) remoção ou transferência do servidor, ex officio, com mudança de domicílio;
b) qualidade de estudante do servidor (civil ou militar) ou de dependente seu; e
c) congeneridade entre as duas instituições envolvidas, salvo se não houver curso
correspondente em estabelecimento congênere no local da nova residência ou em suas
imediações, hipótese na qual deverá ser assegurada a matrícula em instituição não
congênere.

O servidor reintegrado deve ser ressarcido dos vencimentos a que faria jus desde o
desligamento indevido, a fim de restabelecer a situação injustamente desconstituída.
STJ. 2ª Turma. AgInt no AREsp 1285218/CE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques,
julgado em 11/09/2018.
Em 2001, foi editada uma lei estadual criando cargos e organizando a Polícia Civil do
Estado do Amazonas.
Nesta Lei foi previsto que, na estrutura da Polícia Civil, haveria cargos de Delegado de
Polícia e de Comissário de Polícia.
Ainda em 2001, foi realizado um concurso público, com provas específicas para cada
um desses cargos, e os aprovados nomeados e empossados.
Contudo, em 2004, houve duas leis modificando o cargo de Comissário de Polícia.
• a primeira delas afirmou que Comissário de Polícia seria autoridade policial,
juntamente com o Delegado de Polícia, equiparando a remuneração dos dois cargos.
• a segunda lei, transformando o cargo de "Comissário de Polícia" em "Delegado de
Polícia".
Essas duas leis foram impugnadas por meio de ADI.
Em 2015, o STF decidiu que elas são INCONSTITUCIONAIS porque representaram
burla à exigência do concurso público.
As referidas leis fizeram uma espécie de ASCENSÃO FUNCIONAL dos Comissários de
Polícia porque transformaram os ocupantes desses cargos em Delegados de Polícia
sem que eles tivessem feito concurso público para tanto.
No caso concreto, os Ministros entenderam que, quando o cargo de Comissário de
Polícia foi criado, ele possuía diferenças substanciais em relação ao de Delegado de
Polícia, o que impediria a transformação, mesmo sob o argumento de ser medida de
racionalização administrativa.
Foram opostos embargos de declaração contra a decisão.
Em 2018, o STF acolheu os embargos e aceitou modular os efeitos da decisão proferida
na ADI 3415. Além disso, o Tribunal determinou ao Estado do Amazonas que promova,
no prazo máximo de 18 meses, a contar da publicação da ata de julgamento
(07/08/2018), a abertura de concurso público para o cargo de Delegado de Polícia.
O Ministro Relator Alexandre de Moraes afirmou que mais de 70 delegacias de polícia
ficariam sem delegados e que a população amazonense é que sofreria as
consequências.
Além disso, na decisão dos embargos, os Ministros esclareceram que são plenamente
válidos os atos praticados nos cargos de Delegado de Polícia que serão afastados.
STF. Plenário.ADI 3415 ED-segundos/AM, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em
1º/8/2018 (Info 909).

São imprescritíveis as ações de reintegração em cargo público quando o afastamento


se deu em razão de atos de exceção praticados durante o regime militar.
Ex: João era servidor da ALE/PR. Em 1963, João foi demitido em razão de perseguição
política perpetrada na época da ditadura militar. Em 2011, João ajuizou ação ordinária
contra o Estado do Paraná pedindo a sua reintegração ao cargo. Esta pretensão é
considerada imprescritível considerando que envolve a efetivação da dignidade da
pessoa humana.
Vale ressaltar, contudo, que a imprescritibilidade da ação que visa reparar danos
provocados pelos atos de exceção não implica no afastamento da prescrição quinquenal
sobre as parcelas eventualmente devidas ao autor. Não se deve confundir
imprescritibilidade da ação de reintegração com imprescritibilidade dos efeitos
patrimoniais e funcionais dela decorrentes, sob pena de prestigiar a inércia do Autor, o
qual poderia ter buscado seu direito desde a publicação da Constituição da República.
Em outras palavras, o recebimento dos “atrasados” ficará restrito aos últimos 5 anos
contados do pedido.
STJ. 1ª Turma. REsp 1.565.166-PR, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em
26/06/2018 (Info 630).
O art. 4º da Lei nº 11.738/2008 estabelece que os professores deverão cumprir sua
jornada de trabalho da seguinte forma:
• 2/3 da carga horária é para atividades de sala de aula; e
• 1/3 da carga horária pode ser utilizado para atividades extraclasse (ex: preparação das
aulas, reuniões pedagógicas, reuniões com os pais etc.).
Em alguns Estados, a hora-aula do professor não é de 60 minutos, mas sim de 50
minutos (se diurna) ou 45 minutos (se noturna). Esses 10 ou 15 minutos que sobram
como intervalo são considerados como atividades de interação com os educandos (e
não como atividades extraclasse).
Assim, o cômputo dos 10 ou 15 minutos que faltam para que a “hora-aula” complete
efetivamente uma “hora de relógio” não pode ser considerado como tempo de atividade
extraclasse dos profissionais do magistério.
STJ. 2ª Turma. REsp 1569560-RJ, Rel. Min. Herman Benjamin, Rel. Ac. Min. Og
Fernandes, julgado em 21/06/2018 (Info 644).

A Constituição do Estado do Ceará previa que deveria ser assegurado “aos servidores
da administração pública direta, das autarquias e das fundações, isonomia de
vencimentos para cargos de atribuições iguais ou assemelhadas do mesmo Poder ou
entre servidores dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, ressalvadas as
vantagens de caráter individual e as relativas à natureza ou ao local de trabalho.”
O STF decidiu que é inconstitucional a expressão “das autarquias e das fundações”.
Isso porque a equiparação remuneratória entre servidores, a teor da redação originária
do art. 39, § 1º, da CF/88, restringiu-se aos servidores da administração direta, não
mencionando os entes da administração indireta, como o faz a norma impugnada.
Além disso, o dispositivo estadual não foi recepcionado, em sua integralidade, pela
redação atual do art. 39 da Constituição Federal, na forma EC 19/1998.
STF. Plenário. ADI 145/CE, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 20/6/2018 (Info 907).
Essa previsão era incompatível com a redação originária do art. 39, § 1º da CF/88. Isso
porque este dispositivo constitucional afirmava que se deveria assegurar isonomia de
vencimentos apenas para os servidores da administração direta, não se mencionando
os entes da administração indireta. Veja:
Art. 39. (...)
§ 1º - A lei assegurará, aos servidores da administração direta, isonomia de vencimentos
para cargos de atribuições iguais ou assemelhados do mesmo Poder ou entre
servidores dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, ressalvadas as vantagens
de caráter individual e as relativas à natureza ou ao local de trabalho. (Redação
originária).
Após a EC 19/98, não há mais qualquer dúvida de que é proibida a equiparação de
vencimentos entre servidores de cargos diferentes. Veja o que diz o art. 37, XIII, da
CF/88:
Art. 37 (...)
XIII - é vedada a vinculação ou equiparação de quaisquer espécies remuneratórias para
o efeito de remuneração de pessoal do serviço público; (Redação dada pela EC 19/98)
O art. 39, § 1º da CF/88, também alterado pela EC 19/98, não fala mais nada sobre
isonomia de vencimentos:
Art. 39 (...)
§ 1º A fixação dos padrões de vencimento e dos demais componentes do sistema
remuneratório observará: (Redação dada pela EC/98)
I - a natureza, o grau de responsabilidade e a complexidade dos cargos componentes
de cada carreira; (Incluído pela EC 19/98)
II - os requisitos para a investidura; (Incluído pela EC 19/98)
III - as peculiaridades dos cargos. (Incluído pela EC 19/98)

A Constituição do Estado do Ceará prevê que deverá ser assegurada isonomia salarial
para docentes em exercício, com titulação idêntica, respeitando-se o grau de ensino em
que estiverem atuando.
O STF decidiu que essa regra é constitucional e que não ofende o art. 37, XIII, da CF/88.
Isso porque não há, no caso, equiparação salarial de carreiras distintas, considerando
que se trata especificamente da carreira de magistério público e de docentes com
titulação idêntica.
STF. Plenário. ADI 145/CE, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 20/6/2018 (Info 907).

São inconstitucionais os arts. 154, § 2º; 167, XII e XIII, §§ 1º e 2º; e 174, da Constituição
do Estado do Ceará, e os arts. 27 e 28 do seu ADCT. Tais dispositivos tratam de
remuneração e direitos de servidores públicos, que, por não encontrarem similares na
CF/88, somente poderiam ser veiculados por meio de lei de iniciativa do Chefe do Poder
Executivo.
São previsões específicas que não tratam da organização e estruturação do Estado-
membro ou de seus órgãos, mas que versam sobre o regime jurídico de servidores
públicos.
STF. Plenário. ADI 145/CE, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 20/6/2018 (Info 907).

A Constituição do Estado do Ceará previa que o servidor, ao se aposentar, deveria


receber, como proventos, o valor pecuniário correspondente ao padrão de vencimento
imediatamente superior ao da sua classe funcional, e, se já ocupasse o ultimo escalão,
faria jus a uma gratificação adicional de 20% sobre a sua remuneração.
O STF decidiu que essa previsão não era considerada materialmente inconstitucional à
época da edição da Carta, uma vez que a superação da remuneração em atividade era
tolerada na redação original da CF. Porém, essa regra não foi recepcionada pela EC
20/98 que proibiu a superação do patamar remuneratório da atividade e a
impossibilidade de incorporação da remuneração do cargo em comissão para fins de
aposentadoria (art. 40, §§ 2º e 3º, da CF/88).
STF. Plenário. ADI 145/CE, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 20/6/2018 (Info 907).

O Auditor Fiscal do Trabalho, com especialidade em medicina do trabalho, não pode


cumular o exercício do seu cargo com outro da área de saúde.
STJ. 1ª Turma. REsp 1460331-CE, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. Acd. Min.
Gurgel de Faria, julgado em 10/04/2018 (Info 625).
É possível que a pessoa acumule mais de um cargo ou emprego público?
• Em regra: NÃO. A CF/88 proíbe a acumulação remunerada de cargos ou empregos
públicos.
• Exceções: a própria CF/88 prevê exceções a essa regra. Veja o que dispõe o art. 37,
XVI:
Art. 37 (...)
XVI-é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quando houver
compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no inciso XI:
a) a de dois cargos de professor;
b) a de um cargo de professor com outro técnico ou científico;
c) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões
regulamentadas;
Imagine agora a seguinte situação hipotética:
João é Auditor Fiscal do Trabalho, com especialidade em medicina do trabalho.
Vale ressaltar que a Lei nº 10.593/2002 prevê que o cargo de Auditor Fiscal do Trabalho
com especialidade em medicina do trabalho deve ser ocupado por alguém com pós-
graduação em medicina do trabalho. Veja a redação do dispositivo:
Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a reestruturação da Carreira Auditoria do Tesouro Nacional,
de que trata o Decreto-Lei no 2.225, de 10 de janeiro de 1985, que passa a denominar-
se Carreira Auditoria da Receita Federal - ARF, e sobre a organização da Carreira
Auditoria-Fiscal da Previdência Social e da Carreira Auditoria-Fiscal do Trabalho.
(...)
Art. 3º O ingresso nos cargos das Carreiras disciplinadas nesta Lei far-se-á no primeiro
padrão da classe inicial da respectiva tabela de vencimentos, mediante concurso público
de provas ou de provas e títulos, exigindo-se curso superior em nível de graduação
concluído ou habilitação legal equivalente.
§ 1º O concurso referido no caput poderá ser realizado por áreas de especialização.
§ 2º Para investidura no cargo de Auditor-Fiscal do Trabalho, nas áreas de
especialização em segurança e medicina do trabalho, será exigida a comprovação da
respectiva capacitação profissional, em nível de pós-graduação, oficialmente
reconhecida.
João foi aprovado no concurso para exercer o cargo de Médico de um hospital federal.
Surgiu, no entanto, a dúvida se seria possível ele acumular os dois cargos com base no
art. 37, XVI, “c”, da CF/88. Vale ressaltar que há compatibilidade de horários.
O que decidiu o STJ? É possível acumular os dois cargos neste caso?
NÃO.
O Auditor Fiscal do Trabalho, com especialidade em medicina do trabalho, não
pode cumular o exercício do seu cargo com outro da área de saúde.
STJ. 1ª Turma. REsp 1.460.331-CE, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. Acd.
Min. Gurgel de Faria, julgado em 10/04/2018 (Info 625).
As funções do Auditor Fiscal do Trabalho, com especialidade em medicina do trabalho
não se relacionam diretamente à prestação de serviços médicos à população.
Os Auditores Fiscais do Trabalho são agentes do Estado que analisam as condições de
trabalho, as situações das empresas, liberando estas ou fazendo-lhes exigências de
ajustes, funções que não são específicas do cargo de Médico (art. 11 da Lei nº
10.593/2002).
Assim, o fato de haver cargo de Auditor Fiscal, com exigência de pós-graduação na área
de medicina do trabalho não significa que seus ocupantes – obrigatoriamente médicos
– estejam exercendo a medicina propriamente dita. O simples fato de se exigir essa
especialização não faz com que se possa considerar a carreira de Auditor como sendo
igual à de Médico.
O direito à percepção de VPNI não impede a sua eventual absorção pelo subsídio e, do
mesmo modo, não inviabiliza a aplicação do teto constitucional, que inclui a vantagem
de caráter pessoal no cômputo da remuneração do servidor para observância do teto.
STJ. 1ª Turma. RMS 33744-DF, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 05/04/2018
(Info 624).
TETO REMUNERATÓRIO
A CF/88 prevê, em seu art. 37, XI, o chamado “teto remuneratório”, ou seja, o valor
máximo que os agentes públicos podem receber no país. O objetivo do constituinte foi
o de evitar que alguns agentes públicos recebessem os chamados “supersalários”, que
são incompatíveis com o serviço público.
Além de um teto geral (nacional), o dispositivo constitucional prevê limites específicos
para o âmbito dos Estados e Municípios (chamados de subtetos).
O teto geral do serviço público no Brasil é o subsídio dos Ministros do STF que,
atualmente, está em R$ 33.763,00 (bruto).
A quem se aplica o teto?
O teto é aplicado aos agentes públicos independentemente do tipo de vínculo:
estatutário, celetista, temporário, comissionado, político.
O teto vale também para a Administração direta e indireta?
Agentes públicos da administração direta: SEMPRE
Agentes públicos das autarquias e fundações: SEMPRE
Empregados públicos das empresas públicas e sociedades de economia mista:
o teto somente se aplica se a empresa pública ou a sociedade de economia mista
receber recursos da União, dos Estados, do DF ou dos Municípios para pagamento
de despesas de pessoal ou de custeio em geral (art. 37, § 9º).

Quais as parcelas incluídas nesse limite?


Regra: o teto abrange todas as espécies remuneratórias e todas as parcelas integrantes
do valor total percebido, incluídas as vantagens pessoais ou quaisquer outras.
Exceções:
Estão fora do teto as seguintes verbas:
a) parcelas de caráter indenizatório previstas em lei (§ 11 do art. 37);
b) verbas que correspondam aos direitos sociais previstos no art. 7º c/c o art. 39, §
3º da CF/88, tais como 13º salário, 1/3 constitucional de férias etc. (Fernanda
Marinela);
c) quantias recebidas pelo servidor a título de abono de permanência em serviço (§
19 do art. 40);
d) remuneração em caso de acumulação legítima de cargos públicos. O STJ entende
que se o servidor acumular dois cargos públicos nas hipóteses previstas na CF/88,
a remuneração de cada cargo não poderá ser superior ao teto constitucional, sendo
possível, no entanto, que a soma dos dois ultrapasse esse limite (STJ. 2ª T. AgRg
no AgRg no RMS 33.100/DF, Min. Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em
07/05/2013). Ex.: se determinado Ministro do STF for também professor da UnB, ele
irá receber seu subsídio integral como Ministro e mais a remuneração decorrente do
magistério. Nesse caso, o teto seria considerado especificamente para cada cargo,
sendo permitido que ele recebesse acima do limite previsto no art. 37, XI da CF, se
considerarmos seus ganhos globais.
Obs.: esse quadro de exceções é a posição atualmente majoritária.
Os proventos recebidos pelo agente público aposentado também estão
submetidos ao teto?
Sim. A redação do art. 37, XI, menciona expressamente os proventos.
O teto remuneratório existe desde quando?
A redação originária da CF/88 já previa a existência de um teto remuneratório, mas o
dispositivo constitucional não era autoaplicável. Assim, na prática, o teto só foi
implementado com a EC nº 41/2003. Confira a evolução histórica do tema:
Redação original da CF/88: previa, no inciso XI do art. 37, que cada ente da
Federação deveria editar sua própria lei fixando o teto remuneratório dos servidores
públicos. Na prática, o teto não era exigido porque, segundo a jurisprudência, o
inciso XI não era autoaplicável, já que dependia de lei para produzir todos seus
efeitos.
EC 19/98: alterou esse inciso estabelecendo que o teto remuneratório seria um
só para todos os servidores públicos do país, sendo este limite o subsídio mensal
dos Ministros do STF. Na prática, o teto continuava não sendo exigido porque ainda
não havia lei.
EC 41/2003: alterou novamente o inciso XI trazendo duas novidades
importantes: 1) passou a admitir que os Estados e Municípios instituíssem subtetos
estaduais e municipais; 2) previu que, mesmo sem lei regulamentando, o teto
remuneratório deveria ser imediatamente aplicado, utilizando-se como limite o valor
da remuneração recebida, na época, pelo Ministro do STF (art. 8º da EC 41/2003).
EC 47/2005: acrescentou o § 11 ao art. 37 estabelecendo que estão fora do
limite do teto as parcelas de caráter indenizatório previstas em lei.
Dessa forma, na prática, o teto passou a vigorar no Brasil a partir da EC nº 41/2003, que
foi publicada em 31/12/2003. Isso porque, como vimos acima, essa Emenda afirmou
expressamente que, enquanto não houvesse lei regulamentando o inciso XI, o valor do
teto seria a remuneração do Ministro do STF na época.
O primeiro valor do teto remuneratório foi de R$ 19.115,19, remuneração do Ministro do
STF naquele momento.
REMUNERAÇÃO DAS PESSOAS QUE RECEBIAM ACIMA DO TETO
Quando o teto foi finalmente implementado na prática (EC 41/2003), o que
aconteceu com a remuneração das pessoas que recebiam acima do teto que foi
instituído? Essas pessoas tiveram direito adquirido de continuar recebendo
acima do teto?
NÃO. O art. 9º da EC nº 41/2003 determinou que quaisquer remunerações ou proventos
que estivessem sendo recebidos acima do teto deveriam ser imediatamente reduzidos
ao limite fixado, não podendo a pessoa invocar direito adquirido.
Assim, em 01/01/2004, se o servidor público tinha uma remuneração de R$ 25.000,00,
por exemplo, passou a receber apenas R$ 19.115,19.
Obviamente, tal situação gerou reação das pessoas prejudicadas, que recorreram
ao Poder Judiciário questionando a constitucionalidade dessa previsão. O que
decidiu o STF? Era possível aplicar imediatamente o teto previsto na EC nº
41/2003, reduzindo a remuneração de quem ganhava acima desse valor?
SIM. O STF decidiu, em sede de repercussão geral, que o teto fixado pela EC nº 41/2003
é de eficácia imediata e todas as verbas de natureza remuneratória recebidas pelos
servidores públicos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios devem
se submeter a ele, ainda que adquiridas de acordo com regime legal anterior.
A aplicação imediata da EC nº 41/2003 e a redução das remunerações acima do teto
não afrontou o princípio da irredutibilidade nem violou a garantia do direito adquirido.
Em outras palavras, com a EC nº 41/2003, quem recebia acima do teto fixado teve a
sua remuneração reduzida para respeitar o teto. Essa redução foi legítima.
STF. Plenário. RE 609381/GO, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 2/10/2014 (Info
761).

Mas isso não viola o princípio da irredutibilidade da remuneração/proventos?


NÃO. Segundo o STF, a garantia da irredutibilidade de remuneração/proventos não
impede a aplicação imediata do teto. Isso porque o próprio texto constitucional, ao tratar
sobre o princípio da irredutibilidade, ressalva expressamente o inciso XI do art. 37,
deixando claro que é possível a redução da remuneração/proventos para aplicação do
teto. Nesse sentido, confira o art. 37, XV, art. 95, III e art. 128, § 5º, I, “c”.
Nas palavras do Min. Teori Zavascki, ao condicionar a fruição da garantia de
irredutibilidade de vencimentos à observância do teto (art. 37, XI, da CF/88), a
literalidade dos citados dispositivos constitucionais deixa fora de dúvida que o respeito
ao teto representa verdadeira condição de legitimidade para o pagamento das
remunerações no serviço público.
Não há violação ao direito adquirido e ao ato jurídico perfeito?
NÃO. O art. 5º, XXXVI (“a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e
a coisa julgada”), também não pode ser invocado para excepcionar a imposição do teto.
Segundo o STF, a cláusula da irredutibilidade somente pode ser invocada se a
remuneração que estava sendo recebida pelo servidor estava em conformidade com a
CF/88. Desse modo, os vencimentos acima do teto constitucional, ainda que com o
beneplácito de disciplinas normativas anteriores, não estão amparados pela regra da
irredutibilidade.
O pagamento de remunerações superiores ao teto, além de se contrapor aos princípios
da moralidade, da transparência e da austeridade na administração dos gastos com
custeio, representa gravíssima quebra da coerência hierárquica essencial à organização
do serviço público.
O Min. Zavascki lembrou, por fim, que o fato de o art. 9º da EC 41/2003 ser objeto de
ação direta de inconstitucionalidade ainda pendente de apreciação, não impediria,
contudo, que o STF fizesse impor a força normativa do próprio art. 37, XI, da CF, cujo
enunciado seria suficiente para coibir situações inconstitucionais de remuneração
excessiva.
VANTAGENS PESSOAIS TIVERAM QUE FICAR DENTRO DO TETO?
Mesmo após a decisão do STF no RE 609381/GO, alguns servidores continuavam
tentando excluir do teto as vantagens pessoais que haviam adquirido antes da EC
41/2003 (que implementou, na prática, o teto no funcionalismo). Argumentavam
que a garantia da irredutibilidade de vencimentos, modalidade qualificada de
direito adquirido, impediria que as vantagens percebidas antes da vigência da EC
41/2003 fossem por ela alcançadas. O STF acolheu esse argumento? As
vantagens pessoais anteriores à EC 41/2003 estão fora do teto?
NÃO. Computam-se, para efeito de observância do teto remuneratório do art. 37, XI, da
CF/88, também os valores percebidos pelo servidor público anteriormente à vigência da
EC 41/2003 a título de vantagens pessoais.
O art. 37, XI, da CF/88, na redação da EC 41/2003, é expresso ao incluir as vantagens
pessoais ou de qualquer outra natureza para fins de limitação dos ganhos ao teto
remuneratório do serviço público.
A EC 41/2013 não violou a cláusula do direito adquirido, porque o postulado da
irredutibilidade de vencimentos, desde sua redação original, já indicava que deveria ser
respeitado o teto remuneratório (art. 37, XI, da CF/88).
Em outras palavras, a Constituição assegurou a irredutibilidade, mas no mesmo
dispositivo já mencionou que deveria ser respeitado o teto remuneratório.
Assim, a Constituição não só autoriza, como exige, o cômputo, para efeito de incidência
do teto, de adicionais por tempo de serviço, sexta parte, prêmio de produtividade e
gratificações, ainda que qualificados como vantagens de natureza pessoal percebidas
antes do advento da EC 41/2003.
STF. Plenário. RE 606358/SP, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 18/11/2015
(repercussão geral) (Info 808).
E os servidores que receberam vantagens pessoais acima do teto antes dessa
decisão do STF deverão devolver os valores? A Administração Pública poderá
ingressar com ações cobrando o ressarcimento dessas quantias recebidas acima
do teto a título de vantagens pessoais?
NÃO. O STF afirmou que os servidores não estão obrigados a restituir os valores
eventualmente recebidos em excesso e de boa-fé até o dia 18/11/2015 (data da decisão
do STF).
Em todos os julgamentos de recursos extraordinários com repercussão geral
reconhecida o STF elabora uma frase que resume a tese adotada pelo Tribunal. A
tese fixada pela Corte neste caso foi a seguinte:
Computam-se para efeito de observância do teto remuneratório do artigo 37, XI, da
Constituição da República, também os valores percebidos anteriormente à vigência da
EC 41/2003 a título de vantagens pessoais pelo servidor público, dispensada a
restituição de valores eventualmente recebidos em excesso e de boa-fé até o dia
18/11/2015.
STF. Plenário. RE 606358/SP, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 18/11/2015
(repercussão geral) (Info 808).
VPNI
A Vantagem Pessoal Nominalmente Identificável (VPNI) era uma vantagem de caráter
pessoal que era paga a determinados servidores que tinham direito aos antigos
quintos/décimos. Ela foi extinta.
Ocorre que as pessoas que recebiam a VPNI pretendiam continuar recebendo a quantia
indefinidamente e, inclusive, acima do teto, sob o argumento de que foram adquiridas
antes de o teto ser instituído e, portanto, constituiriam direito adquirido.
Essa tese não foi acolhida pela jurisprudência, que entende que a verba que antes era paga
a título de VPNI:
• deve ser absorvida pelo subsídio (o servidor que recebe subsídio não tem direito a
outras parcelas remuneratórias mensais);
• deve estar sujeita ao teto, considerando que as vantagens de caráter pessoal não devem
ultrapassar o teto).
A decisão judicial que concede a servidor público a gratificação de 13,23% prevista na
Lei nº 10.698/2003 afronta a súmula vinculante 37, mesmo que o julgador fundamente
sua decisão no art. 37, X, da CF/88 e no art. 6º da Lei nº 13.317/2016.
Não cabe ao Poder Judiciário, que não tem função legislativa, aumentar vencimentos
de servidores públicos sob o fundamento de isonomia.
STF. 1ª Turma.Rcl 25927 AgR/SE e Rcl 24965 AgR/SE, rel. orig. Min. Marco Aurélio,
red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgados em 31/10/2017 (Info 884).
STF. 1ª Turma. Rcl 24965 AgR/SE, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min.
Alexandre de Moraes, julgado em 28/11/2017 (Info 886).
Pedro e Soraia, casados entre si, são servidores públicos federais lotados em Recife. É
aberta uma vaga em Salvador para o cargo de Pedro. Este concorre no concurso de
remoção e consegue ser removido para a capital baiana.Soraia terá direito de ser
removida junto com Pedro, com fulcro no art. 36, parágrafo único, III, “a”? O servidor
que é transferido de localidade a pedido, após concorrer em concurso de remoção, gera
para seu cônjuge o direito subjetivo de também ser transferido para acompanhá-lo,
independentemente do interesse da Administração?
NÃO. O servidor público federal somente tem direito à remoção prevista no art. 36,
parágrafo único, III, "a", da Lei nº 8.112/90, na hipótese em que o cônjuge/companheiro,
também servidor, tenha sido deslocado de ofício, para atender ao interesse da
Administração (nos moldes do inciso I do mesmo dispositivo legal).
STJ. 1ª Seção.EREsp 1247360-RJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em
22/11/2017 (Info 617).

A justiça comum, federal ou estadual, é competente para julgar a abusividade de greve


de servidores públicos celetistas da Administração pública direta, autarquias e
fundações públicas.
STF. Plenário. RE 846854/SP, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o ac. Min. Alexandre de
Moraes, julgado em 1º/8/2017 (repercussão geral) (Info 871).
Os servidores públicos possuem direito à greve?
SIM. Isso encontra-se previsto no art. 37, VII, da CF/88:
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
VII - o direito de greve será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica;
Quais são os requisitos para que os servidores públicos possam fazer greve?
São requisitos para a deflagração de uma greve no serviço público:
a) tentativa de negociação prévia, direta e pacífica;
b) frustração ou impossibilidade de negociação ou de se estabelecer uma agenda
comum;
c) deflagração após decisão assemblear;
d) comunicação aos interessados, no caso, ao ente da Administração Pública a que a
categoria se encontre vinculada e à população, com antecedência mínima de 72 horas
(uma vez que todo serviço público é atividade essencial);
e) adesão ao movimento por meios pacíficos; e
f) a garantia de que continuarão sendo prestados os serviços indispensáveis ao
atendimento das necessidades dos administrados (usuários ou destinatários dos
serviços) e à sociedade.
Caso os servidores públicos realizem greve, a Administração Pública deverá
descontar da remuneração os dias em que eles ficaram sem trabalhar?
•Regra: SIM. Em regra, a Administração Pública deve fazer o desconto dos dias de
paralisação decorrentes do exercício do direito de greve pelos servidores públicos.
•Exceção: não poderá ser feito o desconto se ficar demonstrado que a greve foi
provocada por conduta ilícita do Poder Público.
Tese que foi fixada pelo STF:
A administração pública deve proceder ao desconto dos dias de paralisação
decorrentes do exercício do direito de greve pelos servidores públicos, em virtude
da suspensão do vínculo funcional que dela decorre. É permitida a compensação
em caso de acordo. O desconto será, contudo, incabível se ficar demonstrado que
a greve foi provocada por conduta ilícita do Poder Público.
STF. Plenário. RE 693456/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 27/10/2016
(repercussão geral) (Info 845).
Suponhamos que ocorra divergência entre os servidores e a Administração Pública
sobre a abusividade da greve realizada e a questão acabe chegando ao Judiciário.
Neste caso, de quem será a competência para decidir se a greve é legal ou não?
Trata-se de competência da Justiça Comum ou da Justiça do Trabalho?
Justiça Comum. No julgamento do MI 708, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em
25/10/2007, o STF já havia definido que a competência para julgar questões relativas à
greve dos servidores públicos é da Justiça Comum.
A Justiça Comum será competente mesmo que se trate de empregado público
(vínculo celetista)?
SIM. A Justiça Comum será competente mesmo que o vínculo do servidor com a
Administração Pública seja regido pela CLT, ou seja, ainda que se trate de empregado
público.
Sobre o tema, o STF fixou a seguinte tese:
A justiça comum, federal ou estadual, é competente para julgar a abusividade de
greve de servidores públicos celetistas da Administração pública direta,
autarquias e fundações públicas.
STF. Plenário. RE 846854/SP, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o ac. Min. Alexandre de
Moraes, julgado em 1º/8/2017 (repercussão geral) (Info 871).
Assim, a Justiça Comum é sempre competente para julgar causa relacionada ao direito
de greve de servidor público, pouco importando se se trata de celetista ou estatutário.
Estadual ou Federal
• Se os servidores públicos que estiverem realizando a greve forem municipais ou
estaduais, a competência será da Justiça Estadual.
• Se os servidores públicos grevistas forem da União, suas autarquias ou fundações, a
competência será da Justiça Federal.
E se a greve abranger mais de um Estado?
• Se a greve for de servidores estaduais ou municipais e estiver restrita a uma unidade
da Federação (um único Estado), a competência será do respectivo Tribunal de Justiça
(por aplicação analógica do art. 6º da Lei nº 7.701/88).
• Se a greve for de servidores federais e estiver restrita a uma única região da Justiça
Federal (ex: greve dos servidores federais de PE, do CE, do RN e da PB): a competência
será do respectivo TRF (neste exemplo, o TRF5) (por aplicação analógica do art. 6º da
Lei nº 7.701/88).
• Se a greve for de âmbito nacional, ou abranger mais de uma região da Justiça Federal,
ou ainda, compreender mais de uma unidade da federação, a competência para o
dissídio de greve será do STJ (por aplicação analógica do art. 2º, I, "a", da Lei nº
7.701/88).

Os dispositivos do art. 4º, caput, e §§ 1º e 2º, da Lei nº 11.738/2008 não amparam a


tese de que a União é parte legítima, perante terceiros particulares, em demandas que
visam à sua responsabilização pela implementação do piso nacional do magistério,
afigurando-se correta a decisão que a exclui da lide e declara a incompetência da
Justiça Federal para processar e julgar o feito ou, em sendo a única parte na lide, que
decreta a extinção da demanda sem resolução do mérito.
STJ. 1ª Seção.REsp 1559965-RS, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 14/6/2017
(recurso repetitivo) (Info 606).

No âmbito da administração pública federal, é vedada a contratação temporária do


mesmo servidor antes de decorridos 24 meses do encerramento do contrato anterior.
Tal regra está prevista no art. 9º, III, da Lei nº 8.745/93:
Art. 9º O pessoal contratado nos termos desta Lei não poderá:
III - ser novamente contratado, com fundamento nesta Lei, antes de decorridos 24 (vinte
e quatro) meses do encerramento de seu contrato anterior, salvo nas hipóteses dos
incisos I e IX do art. 2º desta Lei, mediante prévia autorização, conforme determina o
art. 5º desta Lei.
O STF, ao analisar um caso concreto envolvendo a contratação temporária de
professores, decidiu que essa regra é constitucional e fixou a seguinte tese:
“É compatível com a Constituição Federal a previsão legal que exija o transcurso de 24
(vinte e quatro) meses, contados do término do contrato, antes de nova admissão de
professor temporário anteriormente contratado.”
STF. Plenário. RE 635648/CE, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 14/6/2017
(repercussão geral) (Info 869).
Exceção ao princípio do concurso público
A CF/88 instituiu o “princípio do concurso público”, segundo o qual, em regra, a pessoa
somente pode ser investida em cargo ou emprego público após ser aprovada em
concurso público (art. 37, II).
Esse princípio, que na verdade é uma regra, possui exceções que são estabelecidas no
próprio texto constitucional.
Assim, a CF/88 prevê situações em que o indivíduo poderá ser admitido no serviço
público mesmo sem concurso. Podemos citar como exemplos:
a)cargos em comissão (art. 37, II);
b)servidores temporários (art. 37, IX);
c)cargos eletivos;
d)nomeação de alguns juízes de Tribunais, Desembargadores, Ministros de Tribunais;
e)ex-combatentes (art. 53, I, do ADCT);
f)agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias (art. 198, § 4º).
Vamos estudar agora apenas a hipótese dos servidores temporários (art. 37, IX, da
CF/88).
Redação do art. 37, IX
O art. 37, IX, prevê o seguinte:
IX — a lei estabelecerá os casos de contratação por tempo determinado para atender a
necessidade temporária de excepcional interesse público;
O inciso IX do art. 37 consiste em uma norma constitucional de eficácia limitada,
dependendo, portanto, de lei para produzir todos os seus efeitos. Mais abaixo veremos
que lei é essa.
Servidores temporários
Os servidores que são contratados com base nesse fundamento são chamados de
servidores temporários.
Características
Para ser válida, a contratação com fundamento no inciso IX deve ser...
-feita por tempo determinado (a lei prevê prazos máximos);
-com o objetivo de atender a uma necessidade temporária; e
-que se caracterize como sendo de excepcional interesse público.
Processo seletivo simplificado
A contratação com base no inciso IX ocorre sem a realização de prévio concurso
público.
A lei, no entanto, pode prever critérios e exigências a serem observadas pelo
administrador no momento de contratar. Ex.: a Lei nº 8.745/93, que rege o tema em
nível federal, exige, em regra, que os profissionais a serem contratados sejam
submetidos a uma espécie de processo seletivo simplificado (art. 3º), ou seja, um
procedimento mais simples que o concurso público, por meio do qual, no entanto, seja
possível selecionar os melhores candidatos à função e de maneira impessoal. A
contratação para atender às necessidades decorrentes de calamidade pública, de
emergência ambiental e de emergências em saúde pública prescindirá de processo
seletivo.
Lei de cada ente deverá reger o tema
Repare que o inciso IX fala que LEI estabelecerá os casos de contratação. Não se trata
de uma só lei. O que esse dispositivo está afirmando é que cada ente da Federação
deverá editar a sua própria lei prevendo os casos de contratação por tempo
determinado. Não poderia uma só lei dispor sobre o tema porque é preciso que se
respeite a autonomia administrativa dos entes.
Ex.1: no âmbito federal, a lei que rege o tema é a Lei nº 8.745/93.
Ex.2: em Goiás, quem traz as hipóteses é a Lei estadual nº 13.664/2000.
Ex.3: em Manaus, a contratação por prazo determinado deverá observar a Lei municipal
nº 1.425/2010.
Ao prestar concursos estaduais/municipais, é importante verificar se o edital exige a lei
de contratação por tempo determinado.
A lei de cada ente irá prever as regras sobre essa contratação, ou seja, as hipóteses
em que ela ocorre, seu prazo de duração, direitos e deveres dos servidores, atribuições,
responsabilidades etc. Vale ressaltar que a referida lei não poderá contrariar a moldura
(os limites) que o inciso IX do art. 37 da CF/88 deu ao tema.
Atividades de caráter regular e permanente
No serviço público, há algumas atividades que são regulares e permanentes. Exs.:
servidores das áreas de saúde, educação e segurança pública.
Por outro lado, existem atividades que possuem caráter eventual, temporário ou
excepcional. Ex.: servidores para a realização do censo pelo IBGE.
É possível que, com fundamento no inciso IX, a Administração Pública contrate
servidores temporários para o exercício de atividades de caráter regular e
permanente ou isso somente é permitido para atividades de natureza temporária
(eventual)?
SIM.
O art. 37, IX, da CF/88 autoriza que a Administração Pública contrate pessoas, sem
concurso público, tanto para o desempenho de atividades de caráter eventual,
temporário ou excepcional, como também para o desempenho das funções de
caráter regular e permanente, desde que indispensáveis ao atendimento de
necessidade temporária de excepcional interesse público.
STF. Plenário. ADI 3068, Rel. p/ Ac. Min. Eros Grau, julgado em 25/08/2004.
STF. Plenário. ADI 3247/MA, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 26/3/2014 (Info 740).

A natureza da atividade a ser desempenhada (se permanente ou eventual) não será o


fator determinante para se definir se é possível ou não a contratação de servidor com
base no art. 37, IX, da CF/88.
Para saber se é legítima a contratação com base no art. 37, IX, deverão ser analisados
dois aspectos:
a) a necessidade da contratação deve ser transitória (temporária);
b) deve haver um excepcional interesse público que a justifique.
Ex.1: a atividade de um médico em um Estado possui natureza permanente (regular),
considerando que é dever do ente estadual prestar saúde à população (art. 196 da
CF/88). Em regra, os médicos devem ser selecionados por meio de concurso público.
Ocorre que é possível imaginar situações em que haja uma necessidade temporária de
médicos em número acima do normal e de forma imediata, o que justifica, de forma
excepcional, a contratação desses profissionais sem concurso público, por um prazo
determinado, com base no inciso IX. É o caso de uma epidemia que esteja ocorrendo
em determinada região do Estado, na qual haja a necessidade de médicos especialistas
no tratamento daquela moléstia específica para tentar erradicar o surto. Logo, será
permitida a contratação de tantos médicos quantos sejam necessários para solucionar
aquela demanda (exemplo da Min. Cármem Lúcia).
Ex.2: no caso concreto julgado pelo STF, estava sendo impugnada uma lei do Estado
do Maranhão que permite a contratação, com base no art. 37, IX, da CF/88, de
professores para os ensinos fundamentale médio, desde que não existam candidatos
aprovados em concurso público e devidamente habilitados. A Lei maranhense prevê
que essa contratação deverá ocorrer pelo prazo máximo de 12 meses e o STF conferiu
interpretação conforme para que esse prazo seja contado do último concurso realizado
para a investidura de professores. Desse modo, durante o período de 1 (um) ano,
haveria necessidade temporária que justificaria a contratação sem concurso até que
fosse concluído o certame.
STF. Plenário. ADI 3247/MA, rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 26/3/2014 (Info 740).
Em resumo, mesmo em atividades públicas de natureza permanente, como as
desenvolvidas nas áreas de saúde, educação e segurança pública, é possível, em tese,
a contratação por prazo determinado para suprir uma demanda eventual ou passageira.
Regra do art. 9º, III, da Lei nº 8.745/93
No âmbito da administração pública federal, é vedada a contratação temporária do
mesmo servidor antes de decorridos 24 meses do encerramento do contrato anterior.
Tal regra está prevista no art. 9º, III, da Lei nº 8.745/93:
Art. 9º O pessoal contratado nos termos desta Lei não poderá:
III - ser novamente contratado, com fundamento nesta Lei, antes de decorridos 24 (vinte
e quatro) meses do encerramento de seu contrato anterior, salvo nas hipóteses dos
incisos I e IX do art. 2º desta Lei, mediante prévia autorização, conforme determina o
art. 5º desta Lei.

O STF, ao analisar um caso concreto envolvendo a contratação temporária de


professores, decidiu que essa regra é constitucional e fixou a seguinte tese:
É compatível com a Constituição Federal a previsão legal que exija o transcurso
de 24 (vinte e quatro) meses, contados do término do contrato, antes de nova
admissão de professor temporário anteriormente contratado.
STF. Plenário. RE 635648/CE, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 14/6/2017
(repercussão geral) (Info 869).
A regra do art. 9º, III, da Lei nº 8.745/93 é salutar porque evita que uma função
temporária seja transformada em algo ordinário. Dessa forma, o referido dispositivo é
necessário e adequado para preservar a impessoalidade do concurso público.
Assim, não configura ofensa à isonomia a previsão legal de proibição, por prazo
determinado, de nova contratação de candidato já anteriormente admitido em processo
seletivo simplificado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse
público.
Obs1: apesar de a redação da tese mencionar apenas “admissão de professor”, o certo
é que o art. 9º, III, é constitucional, razão pela qual a vedação existe para outros cargos.
O que o STF fez foi declarar constitucional o art. 9º, III, da Lei nº 8.745/93. Constou a
menção expressa aos professores porque o caso concreto julgado no RE abrangia essa
categoria.
Obs2: vale ressaltar que inúmeras leis estaduais e municipais repetem a redação do art.
9º, III, da Lei nº 8.745/93. Tais leis também são constitucionais.
Obs3: acho interessante que você conheça um precedente sobre o alcance da vedação
contida no art. 9º, III, da Lei nº 8.745/93. Segundo decidiu o STJ:
É possível nova contratação temporária, também com fundamento na Lei nº
8.745/93, precedida por processo seletivo equiparável a concurso público, para
outra função pública e para órgão sem relação de dependência com aquele para
o qual fora contratado anteriormente, ainda que a nova contratação tenha ocorrido
em período inferior a 24 meses do encerramento do contrato temporário anterior.
Ex: Carlos, após ser aprovado em processo seletivo simplificado, foi contratado
temporariamente, com base na Lei nº 8.745/93, para prestar serviços técnicos na
ANATEL. Cinco meses após acabar seu contrato temporário, Carlos participou de
novo processo seletivo simplificado, desta vez para prestar outro tipo de serviço
temporário (também com base na Lei nº 8.745/93), agora para o Ministério da
Saúde. Carlos foi aprovado e, mesmo não tendo se passado 24 meses do último
vínculo, ele tem direito de ser contratado.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.433.037-DF, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 25/2/2014
(Info 540).

A jornada de trabalho do MÉDICO servidor público é de 4 horas diárias e de 20 horas


semanais, nos termos da Lei nº 12.702/2012.
A jornada de trabalho do ODONTÓLOGO servidor público é de 6 horas diárias e de 30
horas semanais, nos termos do DL 2.140/84.
Essas regras acima explicadas não se aplicam no caso de médicos e odontólogos que
ocupem cargo em comissão ou função de confiança, considerando que, neste caso,
terão que cumprir a jornada normal de trabalho.
STF. 2ª Turma.MS 33853/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 13/6/2017 (Info 869).

O Governador da Bahia editou um decreto prevendo que, em caso de greve, deverão


ser adotas as seguintes providências:
a) convocação dos grevistas a reassumirem seus cargos;
b) instauração de processo administrativo disciplinar;
c) desconto em folha de pagamento dos dias de greve;
d) contratação temporária de servidores;
e) exoneração dos ocupantes de cargo de provimento temporário e de função gratificada
que participarem da greve.
O STF decidiu que este Decreto é constitucional.
Trata-se de decreto autônomo que disciplina as consequências — estritamente
administrativas — do ato de greve dos servidores públicos e as providências a serem
adotadas pelos agentes públicos no sentido de dar continuidade aos serviços públicos.
A norma impugnada apenas prevê a instauração de processo administrativo para se
apurar a participação do servidor na greve e as condições em que ela se deu, bem como
o não pagamento dos dias de paralisação, o que está em consonância com a orientação
fixada pelo STF no julgamento do MI 708.
É possível a contratação temporária excepcional (art. 37, IX, da CF/88) prevista no
decreto porque o Poder Público tem o dever constitucional de prestar serviços
essenciais que não podem ser interrompidos, e que a contratação, no caso, é limitada
ao período de duração da greve e apenas para garantir a continuidade dos serviços.
STF. Plenário. ADI 1306/BA, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 13/6/2017 (Info 906).

O servidor público tem direito de continuar recebendo o auxílio-alimentação mesmo


durante o período em que estiver de férias?
1a corrente: SIM. Isso porque as férias são consideradas como período de efetivo
exercício. STJ. 2a Turma. AgRg no REsp 1528084/RS, Rel. Min. Herman Benjamin,
julgado em 06/08/2015.
2a corrente: NÃO. Em virtude de seu caráter indenizatório, o auxílio-alimentação é
devido apenas aos servidores que estejam no efetivo exercício do cargo. STJ. 1a Turma.
RMS 47.664/SP, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 06/06/2017.

Penso que a 1a corrente é majoritária.

Nos casos autorizados constitucionalmente de acumulação de cargos, empregos e


funções, a incidência do art. 37, XI, da Constituição Federal pressupõe consideração de
cada um dos vínculos formalizados, afastada a observância do teto remuneratório
quanto ao somatório dos ganhos do agente público.
Ex: se determinado Ministro do STF for também professor da UnB, ele irá receber seu
subsídio integral como Ministro e mais a remuneração decorrente do magistério. Nesse
caso, o teto seria considerado especificamente para cada cargo, sendo permitido que
ele receba acima do limite previsto no art. 37, XI da CF se considerarmos seus ganhos
globais.
STF. Plenário. RE 612975/MT e RE 602043/MT, Rel. Min. Marco Aurélio, julgados em
26 e 27/4/2017 (repercussão geral) (Info 862).

O exercício do direito de greve, sob qualquer forma ou modalidade, é vedado aos


policiais civis e a todos os servidores públicos que atuem diretamente na área de
segurança pública.
É obrigatória a participação do Poder Público em mediação instaurada pelos órgãos
classistas das carreiras de segurança pública, nos termos do art. 165 do CPC, para
vocalização dos interesses da categoria.
STF. Plenário. ARE 654432/GO, Rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min.
Alexandre de Moraes, julgado em 5/4/2017 (repercussão geral) (Info 860).

São inconstitucionais, por violarem o art. 37, IX, da CF/88, a autorização legislativa
genérica para contratação temporária e a permissão de prorrogação indefinida do prazo
de contratações temporárias.
STF. Plenário. ADI 3662/MT, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 23/3/2017 (Info 858).

O abono de permanência insere-se no conceito de remuneração do cargo efetivo, de


forma a compor a base de cálculo da licença-prêmio não gozada.
STJ. 1ª Turma. REsp 1514673-RS, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 7/3/2017
(Info 600).

O término da incorporação dos 11,98%, ou do índice obtido em cada caso, oriundo das
perdas salariais resultantes da conversão de cruzeiro real em URV, na remuneração do
servidor, deve ocorrer no momento em que a carreira passa por uma restruturação
remuneratória.
STJ. 3ª Seção. EREsp 900311-RN, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 22/2/2017 (Info
598).

Não se aplica a aposentadoria compulsória prevista no art. 40, § 1º, II, da CF aos
titulares de serventias judiciais não estatizadas, desde que não sejam ocupantes de
cargo público efetivo e não recebam remuneração proveniente dos cofres públicos.
STF. Plenário. RE 647827/PR, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 15/2/2017
(repercussão geral) (Info 854).
Serventias judiciais
A Justiça só consegue funcionar se, além do juiz, houver um grupo de pessoas
trabalhando nas questões administrativas e operacionais necessárias à prática dos atos
processuais e ao cumprimento das decisões judiciais.
Em outras palavras, o juiz decide e despacha e, a partir daí, será indispensável o
trabalho de servidores que irão juntar aos autos a decisão, intimar as partes, permitir a
carga do processo etc.
Estas atividades são realizadas em um setor chamado comumente de "cartório" da
Vara. Obs: na Justiça Federal não se utiliza a expressão "cartório", mas sim secretaria
da Vara.
Este "cartório" da Vara é classificado juridicamente como serventia judicial.
Os cartórios ou serventias judiciais praticam, portanto, serviços auxiliares à função
jurisdicional, praticando atos cartorários relacionados com processos judiciais
(protoloco, autuação e tramitação).
Titular da serventia judicial
A serventia judicial possui um dirigente, um "chefe", que coordena e supervisiona o
trabalho dos demais.
Na Justiça Federal este papel é desempenhado por um servidor público, titular de cargo,
chamado diretor de secretaria.
Na Justiça Estadual, o dirigente do cartório judicial é, em geral, denominado de escrivão.
Pode-se dizer que o escrivão é o titular da serventia judicial.
Os titulares de serventias judiciais são servidores públicos? Ocupam cargos
públicos?
Depende. Atualmente, existem três espécies de titulares de serventias judiciais:
a) os titulares de serventias oficializadas, que ocupam cargo ou função pública e são
remunerados exclusivamente pelos cofres públicos;
b) os titulares de serventias não estatizadas, remunerados exclusivamente por custas e
emolumentos; e
c) os titulares de serventias não estatizadas, mas que são remunerados em parte pelos
cofres públicos e em parte por custas e emolumentos.
O cenário acima existe porque antigamente todas as serventias judiciais eram “não
estatizadas” (“particulares”). Isso significa que o titular da serventia judicial era um
particular (que não era servidor nem ocupante de cargo) e que mantinha os custos do
cartório com recursos próprios. Em contrapartida, ele era remunerado com uma parte
das custas e dos emolumentos que o Estado arrecadava. Apenas para você entender
melhor, era como se fossem os atuais titulares de cartórios extrajudiciais, porém
atuando no âmbito de cartórios judiciais.
Em 1977 foi editada uma emenda à Constituição Federal de 1967 obrigando que todas
as serventias judiciais passassem a ser estatizadas, respeitado o direito dos titulares de
serventias “privadas”. Em outras palavras, a EC 7/1977 determinou que os titulares de
serventias não estatizadas poderiam continuar, mas que, ocorrendo a vacância, tais
serventias deveriam ser estatizadas, com a presença de servidores públicos,
remunerados pelos cofres públicos.
A Constituição Federal de 1988 também seguiu o mesmo caminho e previu no art. 31
do ADCT:
Art. 31. Serão estatizadas as serventias do foro judicial, assim definidas em lei,
respeitados os direitos dos atuais titulares.
Desse modo, a grande maioria das atuais serventias judiciais são oficializadas. No
entanto, existem ainda alguns titulares de serventias não estatizadas que permanecem
trabalhando.
Os titulares dessas serventias não estatizadas podem ser remunerados de duas formas:
1) exclusivamente por custas e emolumentos;
2) em parte pelos cofres públicos e em parte por custas e emolumentos.
Vale ressaltar que a vontade do constituinte (desde a EC 7/1977) é a de que as
serventias judiciais sejam estatizadas. Somente se admitiu a permanência das
serventias nas mãos da iniciativa privada por uma questão transitória, a fim de não
prejudicar os direitos dos então titulares. No entanto, trata-se de situação anômala e
que deverá acabar.
Serventias extrajudiciais
Não se pode confundir as serventias judiciais com as extrajudiciais.
Como vimos acima, as serventias judiciais praticam atividades cartorárias necessárias
para que o magistrado possa julgar.
Os cartórios ou serventias extrajudiciais, por sua vez, praticam atividades extrajudiciais
(fora do processo judicial) e que são necessárias para garantir a publicidade,
autenticidade, segurança e eficácia dos atos jurídicos. Ex: a propriedade do bem imóvel
somente é transmitida, por ato entre vivos, com o registro no cartório extrajudicial de
Registro de Imóveis (art. 1.227 do Código Civil).
As serventias extrajudiciais são os cartórios de Tabelionato de Notas, de Protesto, de
Registro de Imóveis, de Registro de Pessoas Naturais etc.
Os titulares das serventias extrajudiciais são chamados de notários (tabeliães) e
registradores. Apesar de serem aprovados em concurso, eles não são servidores
públicos nem ocupam cargos públicos. São considerados particulares em colaboração
com o Poder Público.
Os notários e registradores não são remunerados por recursos públicos. São
remunerados unicamente pelos emolumentos cobrados dos usuários dos serviços. A
Constituição Federal determinou que esses serviços extrajudiciais seriam exercidos em
caráter privado:
Art. 236. Os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por
delegação do Poder Público.
Aposentadoria
No serviço público (regime próprio de previdência) existem três espécies de
aposentadoria:
Aposentadoria por Aposentadoria voluntária Aposentadoria compulsória
invalidez
(art. 40, § 1º, III) (art. 40, § 1º, II)
(art. 40, § 1º, I)
Ocorre quando o servidor Ocorre quando o próprio A CF previu que, atingida
público for acometido por servidor público, mesmo determinada idade, o
uma situação de invalidez tendo condições físicas e servidor público,
permanente, atestada por jurídicas de continuar independentemente de
laudo médico, que ocupando o cargo, decide ainda possuir condições
demonstre que ele está se aposentar. físicas e mentais de
incapacitado de continuar continuar exercendo o
Para que o servidor tenha
trabalhando. cargo, deveria ser
direito à aposentadoria
obrigatoriamente
voluntária, ele deverá
aposentado.
cumprir os requisitos que
estão elencados na Atualmente, a idade da
Constituição. aposentadoria compulsória
é de 75 anos.
A aposentadoria compulsória se aplica aos titulares de serventias
EXTRAJUDICIAIS?
NÃO. O STF já pacificou o entendimento de que a aposentadoria compulsória não se
aplica aos notários e registradores. Isso porque eles não são servidores públicos, não
ocupando cargos públicos. Logo, não há razão para se aplicar a eles a regra do art. 40,
§ 1º, da CF/88, que trata apenas sobre servidores públicos efetivos. Nesse sentido:
(...) 1. O artigo 40, § 1º, inciso II, da Constituição do Brasil, na redação que lhe foi
conferida pela EC 20/98, está restrito aos cargos efetivos da União, dos Estados-
membros , do Distrito Federal e dos Municípios --- incluídas as autarquias e fundações.
2. Os serviços de registros públicos, cartorários e notariais são exercidos em caráter
privado por delegação do Poder Público --- serviço público não-privativo.
3. Os notários e os registradores exercem atividade estatal, entretanto não são titulares
de cargo público efetivo, tampouco ocupam cargo público. Não são servidores públicos,
não lhes alcançando a compulsoriedade imposta pelo mencionado artigo 40 da CB/88 -
-- aposentadoria compulsória aos setenta anos de idade. (...)
STF. Plenário. ADI 2602, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Rel. p/ Acórdão: Min. Eros Grau,
julgado em 24/11/2005.
A aposentadoria compulsória se aplica aos titulares de serventias JUDICIAIS?
Depende:
1) Se for titular de uma serventia judicial oficializada: SIM. Isso porque, neste caso, ele
ocupa cargo ou função pública e é remunerado exclusivamente pelos cofres públicos;
2) Se for titular de uma serventia judicial não estatizada:
2.1) Se for ocupante de cargo público efetivo e receber remuneração proveniente dos
cofres públicos: SIM. Aplica-se a aposentadoria compulsória porque, mesmo
trabalhando em uma serventia não estatizada, ele é servidor público.
2.2) Se não for ocupante de cargo público, não recebendo remuneração proveniente
dos cofres públicos: NÃO. Não sendo ele servidor público, não se aplica o art. 40 da
CF/88.
O STF apreciou este tema sob a sistemática de repercussão geral e fixou a
seguinte tese:
Não se aplica a aposentadoria compulsória prevista no art. 40, § 1º, II, da CF aos
titulares de serventias judiciais não estatizadas, desde que não sejam ocupantes
de cargo público efetivo e não recebam remuneração proveniente dos cofres
públicos.
STF. Plenário. RE 647827/PR, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 15/2/2017
(repercussão geral) (Info 854).
Para o STF, deve se estender aos titulares de serventias judiciais não estatizadas,
remuneradas exclusivamente por custas e emolumentos, o mesmo tratamento conferido
aos titulares das serventias extrajudiciais, tendo em vista que ambas são atividades
privadas em colaboração com o Poder Público.

A redação originária do art. 192, I, da Lei nº 8.112/90 previa que o servidor público
federal, ao se aposentar, deveria receber, como proventos, a remuneração da classe
superior a que pertencia. Esse art. 192 foi revogado em 1997 pela Lei nº 9.527.
Determinado Juiz Federal completou os requisitos para se aposentar em 1994. No
entanto, optou por continuar trabalhando até 2010, quando pediu a aposentadoria.
O STF entendeu que, como ele preencheu os requisitos para se aposentar em 1994, ou
seja, antes da Lei nº 9.527/97, ele teria direito à regra prevista no art. 192, I, da Lei nº
8.112/90.
Logo, ele, ao se aposentar como Juiz Federal, tem direito de receber os proventos como
se fosse Desembargador Federal (classe imediatamente superior àquela em que ele se
encontrava posicionado).
STF. 1ª Turma. MS 32726/DF, rel. orig. Min. Roberto Barroso, red. p/ o ac. Min. Marco
Aurélio, julgado em 7/2/2017 (Info 853).

Os servidores ocupantes de cargo exclusivamente em comissão não se submetem à


regra da aposentadoria compulsória prevista no art. 40, § 1º, II, da CF, a qual atinge
apenas os ocupantes de cargo de provimento efetivo, inexistindo, também, qualquer
idade limite para fins de nomeação a cargo em comissão.
Ressalvados impedimentos de ordem infraconstitucional, não há óbice constitucional a
que o servidor efetivo, aposentado compulsoriamente, permaneça no cargo
comissionado que já desempenhava ou a que seja nomeado para cargo de livre
nomeação e exoneração, uma vez que não se trata de continuidade ou criação de
vínculo efetivo com a Administração.
STF. Plenário. RE 786540/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 15/12/2016
(repercussão geral) (Info 851).

A “teoria do fato consumado" não pode ser aplicada para consolidar remoção de servidor
público destinada a acompanhamento de cônjuge, em hipótese que não se adequa à
legalidade estrita, ainda que tal situação haja perdurado por vários anos em virtude de
decisão liminar não confirmada por ocasião do julgamento de mérito.
Em outras palavras, se a pessoa consegue uma decisão provisória garantindo a ela a
remoção e, posteriormente, esta decisão é revogada, esta remoção terá que ser desfeita
mesmo que já tenha se passado muitos anos.
Não se aplica a "Teoria do Fato Consumado" em relação a atos praticados sob
contestação das pessoas envolvidas, que o reputam irregular e manifestam a existência
da irregularidade nas vias adequadas, ainda que, pela demora no transcurso do
procedimento destinado à apuração da legalidade do ato, este gere efeitos no mundo
concreto.
Verificada ou confirmada a ilegalidade, o ato deve ser desfeito, preservando-se apenas
aquilo que, pela consolidação fática irreversível, não puder ser restituído ao status quo
ante.
Se a Administração Pública, mesmo após a decisão liminar, continuou questionando no
processo a legalidade da remoção do servidor/autor, não se pode aplicar a teoria do fato
consumado, devendo o ato ser desfeito, salvo se tivesse havido uma consolidação fática
irreversível (ou seja, se não fosse mais possível voltar ao "status quo ante").
STJ. Corte Especial. EREsp 1157628-RJ, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 7/12/2016
(Info 598).

Não viola o princípio da isonomia o implemento de regra de transição de aposentadoria


dos servidores integrantes do Serviço Exterior Brasileiro (Lei nº 11.440/2006), como está
previsto no parágrafo único do art. 2º da LC 152/2015, considerando-se as
peculiaridades da carreira, as necessidades do Estado e a ordem constitucional vigente.
STJ. 1ª Seção. MS 22394-DF, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 9/11/2016 (Info
596).
A administração pública deve proceder ao desconto dos dias de paralisação decorrentes
do exercício do direito de greve pelos servidores públicos, em virtude da suspensão do
vínculo funcional que dela decorre. É permitida a compensação em caso de acordo. O
desconto será, contudo, incabível se ficar demonstrado que a greve foi provocada por
conduta ilícita do Poder Público.
STF. Plenário. RE 693456/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 27/10/2016
(repercussão geral) (Info 845).

Não se mostra razoável a possibilidade de desconto em parcela única sobre a


remuneração do servidor público dos dias parados e não compensados provenientes do
exercício do direito de greve.
STJ. 2ª Turma. RMS 49339-SP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 6/10/2016 (Info
592).

O art. 19 do ADCT da CF/88 previu que os servidores públicos que estavam em


exercício há pelo menos 5 anos quando a Constituição Federal foi promulgada,
deveriam ser considerados estáveis, mesmo não tendo sido admitidos por meio de
concurso público. Desse modo, quem ingressou no serviço público, sem concurso, até
05/10/1983 e assim permaneceu, de forma continuada, tornou-se estável com a edição
da CF/88.
É inconstitucional Constituição estadual ou lei estadual que amplie a abrangência do art.
19 do ADCT e preveja estabilidade para servidores públicos admitidos sem concurso
público mesmo após 05/10/1983 (5 anos antes da CF/88).
STF. Plenário. ADI 1241/RN, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 22/09/2016 (Info 840).
Imagine a seguinte situação:
A Lei 6.697/94, do Estado do Rio Grande do Norte, previu que os servidores da
Universidade do Rio Grande do Norte admitidos em caráter temporário, sem concurso
público, entre 8 de janeiro de 1987 a 17 de junho de 1993, tornar-se-iam estáveis e
permaneceriam nos quadros da Instituição.
Essa previsão é compatível com a CF/88?
NÃO. O STF julgou procedente ADI para declarar a inconstitucionalidade dos arts. 1º e
2º da Lei 6.697/94, do Estado do Rio Grande do Norte, por violarem o princípio da ampla
acessibilidade aos cargos públicos por meio de concurso público (art. 37, II, da CF/88).
Art. 19 do ADCT da CF/88
O ADCT da CF/88 previu que os servidores públicos que estavam em exercício há pelo
menos 5 anos quando a Constituição Federal foi promulgada, deveriam ser
considerados estáveis mesmo que não tivessem sido admitidos por meio de concurso
público.
Desse modo, quem ingressou no serviço público, sem concurso, até 05/10/1983 (5 anos
antes da CF/88) e assim permaneceu, de forma continuada, tornou-se estável com a
edição da CF/88.
Trata-se, contudo, de regra excepcional e que somente vigorou para esses casos.
Veja a redação do dispositivo:
Art. 19. Os servidores públicos civis da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios, da administração direta, autárquica e das fundações públicas, em exercício
na data da promulgação da Constituição, há pelo menos cinco anos continuados, e que
não tenham sido admitidos na forma regulada no art. 37, da Constituição, são
considerados estáveis no serviço público.
(...)
§ 2º — O disposto neste artigo não se aplica aos ocupantes de cargos, funções e
empregos de confiança ou em comissão, nem aos que a lei declare de livre exoneração,
cujo tempo de serviço não será computado para os fins do "caput" deste artigo, exceto
se se tratar de servidor.
§ 3º — O disposto neste artigo não se aplica aos professores de nível superior, nos
termos da lei.
Constituições e leis estaduais tentaram ampliar a abrangência do art. 19 do ADCT
Algumas Constituições e leis estaduais, assim como aconteceu com a Lei de RN acima
explicada, tentaram ampliar a abrangência do art. 19 do ADCT prevendo a estabilidade
para servidores admitidos sem concurso público mesmo que admitidos após o prazo
fixado pelo art. 19 do ADCT, ou seja, conferindo estabilidade a quem ingressou mesmo
depois de 05/10/1983.
O STF, contudo, declarou que tais previsões violam a CF/88:
(...) A exigência de concurso público para a investidura em cargo garante o respeito a
vários princípios constitucionais de direito administrativo, entre eles, o da
impessoalidade e o da isonomia. O constituinte, todavia, inseriu no art. 19 do ADCT
norma transitória criando uma estabilidade excepcional para servidores não
concursados da União, Estados, Distrito Federal e dos Municípios que, quando da
promulgação da Carta Federal, contassem com, no mínimo, cinco anos ininterruptos de
serviço público.
2. A jurisprudência desta Corte tem considerado inconstitucionais normas estaduais que
ampliam a exceção à regra da exigência de concurso para o ingresso no serviço público
já estabelecida no ADCT Federal. (...)
STF. Plenário. ADI 100/MG, Rel. Min. Ellen Gracie, julgado em 09/09/2004.
Dessa feita, no caso da Lei do Estado de RN, o STF reiterou o entendimento acima
exposto.
Modulação dos efeitos
O STF decidiu, contudo, modular os efeitos da decisão.
A Lei 6.697/94, do RN, foi declarada inconstitucional. Logo, como consequência dessa
decisão, todos os servidores públicos que estivessem nessa situação deveriam ser
exonerados imediatamente.
Ocorre que o STF entendeu que isso iria gerar graves consequências para o
funcionamento da Administração Pública estadual que, de uma hora para outra, ficaria
privada de centenas de servidores.
Diante disso, a Corte decidiu que a decisão somente teria eficácia a partir de 12 meses
contados da data da publicação da ata de julgamento. Nesse período, haverá tempo
hábil para a realização de concurso público, nomeação e posse de novos servidores,
evitando-se, assim, prejuízo à prestação do serviço público de ensino superior na
URRN.
Além disso, o STF ressalvou dos efeitos da decisão os servidores que já estejam
aposentados e aqueles que, até a data de publicação da ata do julgamento, tenham
preenchido os requisitos para a aposentadoria. Em outras palavras, se a pessoa se
aposentou (ou reuniu os requisitos para se aposentar com base na Lei 6.697/94), ela
terá direito de continuar aposentada (ou se aposentar) mesmo essa lei tendo sido
declarada inconstitucional.
Onde está prevista a possibilidade de modulação dos efeitos da decisão?
No julgamento de ADI, ADC ou ADPF, o art. 27 da Lei nº 9.868/99 prevê expressamente
que o STF poderá modular os efeitos da decisão que julga determinado ato contrário à
CF.
Em outras palavras, a Lei permite que o STF determine que os efeitos da declaração de
inconstitucionalidade somente valham a partir da decisão proferida (ex nunc) ou, ainda,
a partir de determinada data futura (efeitos prospectivos).
Art. 27. Ao declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, e tendo em vista
razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse social, poderá o Supremo
Tribunal Federal, por maioria de dois terços de seus membros, restringir os efeitos
daquela declaração ou decidir que ela só tenha eficácia a partir de seu trânsito em
julgado ou de outro momento que venha a ser fixado.
Mesma regra pode ser encontrada no art. 11, da Lei nº 9.882/99.
Regra: efeitos EX TUNC (retroativos)

Excepcionalmente o STF pode, pelo voto de, no mínimo, 8 Ministros (2/3):


* restringir os efeitos da declaração; ou desde que haja razões
de:
* decidir que ela só tenha eficácia a partir de seu trânsito
em julgado; ou * segurança jurídica ou;
* de outro momento que venha a ser fixado; * excepcional interesse
social.
_________________________________________________________________

Servidor que recebeu auxílio-moradia apresentando declaração falsa de que havia se


mudado para outra cidade terá que ressarcir o erário e devolver os valores recebidos
mesmo que já se tenha passado mais de 5 anos desde a data em que o pagamento foi
autorizado.
STF. 1ª Turma. MS 32569/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, rel. p/ o ac. Min. Edson
Fachin, julgado em 13/09/2016 (Info 839).

A LC 22/2000, do Estado do Ceará, autoriza a contratação de professores, por tempo


determinado, para atender necessidade temporária de excepcional interesse público
nas escolas estaduais. O art. 3º da referida Lei prevê diversas hipóteses nas quais é
possível a referida contratação.
O STF afirmou que, em tese, é possível a contratação temporária por excepcional
interesse público (art. 37, IX, da CF/88) mesmo para atividades permanentes da
Administração (como é o caso de professores). No entanto, o legislador tem o ônus de
especificar, em cada circunstância, os traços de emergencialidade que a justificam.
As alíneas "a, b, c, d, e" preveem a contratação temporária caso o titular se afaste para
gozar de licenças ou para fazer cursos de capacitação. O STF reputou que tais
hipóteses são constitucionais já que elas descrevem situações que são alheias ao
controle da Administração Pública, ou seja, hipóteses que estão fora do controle do
Poder Público e que, se este não tomasse nenhuma atitude, poderia resultar em
desaparelhamento transitório do corpo docente. Logo, para tais situações está
demonstrada a emergencialidade.
A alínea "f" previa que poderia haver a contratação temporária para suprir "outros
afastamentos que repercutam em carência de natureza temporária". O STF entendeu
que esta situação é extremamente genérica, de forma que não cumpre o art. 37, IX, da
CF/88.
O parágrafo único do art. 3º autoriza a contratação temporária para que a Administração
Pública pudesse implementar "projetos educacionais, com vista à erradicação do
analfabetismo, correção do fluxo escolar e qualificação da população cearense". O STF
entendeu que esta previsão também é inconstitucional porque estes são objetivos
corriqueiros (normais, ordinários) da política educacional. Desse modo, esse tipo de
ação não pode ser implementado por meio de contratos episódicos (temporários), já que
não constitui contingência especial a ser atendida.
STF. Plenário. ADI 3721/CE, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 9/6/2016 (Info 829).

Independentemente da categoria profissional, todos os servidores da União, civis e


militares, e os empregados de entidades paraestatais de natureza autárquica que
operam, de forma habitual, diretamente com raios X e substâncias radioativas, próximo
às fontes de irradiação, têm o direito à redução da duração máxima da jornada de
trabalho de 40 para 24 horas semanais prevista no art. 1º da Lei nº 1.234/50.
Vale ressaltar que a Lei nº 1.234/50 não foi revogada pela Lei nº 8.112/90, pois esta
mesma excepciona as hipóteses estabelecidas em leis especiais.
STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 1569119-SP, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em
7/4/2016 (Info 581).

A 1ª Seção do STJ, no julgamento do Recurso Especial Representativo da Controvérsia


1.244.182/PB, firmou o entendimento de que não é devida a restituição de valores pagos
a servidor público de boa-fé, por força de interpretação errônea ou má aplicação da lei
por parte da Administração.
O mesmo entendimento tem sido aplicado pelo STJ nos casos de mero equívoco
operacional da Administração Pública.
Assim, para o STJ, não é devida a devolução de verba paga indevidamente a servidor
em decorrência de erro operacional da Administração Pública, quando se constata que
o recebimento pelo beneficiado se deu de boa-fé.
STJ. 1ª Turma. AgRg no REsp 1447354/PE, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho,
julgado em 16/09/2014.
STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1560973/RN, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em
05/04/2016.

Lei estadual de 2007 fixou aumento na remuneração dos servidores públicos estaduais.
A Lei entrou em vigor na data de sua publicação, mas estabeleceu que os efeitos
financeiros desse aumento seriam contados somente a partir do primeiro dia do ano
seguinte.
Ocorre que, antes que chegasse a data prevista como início do reajuste, a referida Lei
foi revogada por uma outra.
O STF entendeu que esta Lei revogadora é inconstitucional por violar o direito adquirido
(art. 5º, XXXVI, da CF/88) e o princípio da irredutibilidade dos vencimentos (art. 37, XV).
A Lei que concedeu o reajuste entrou em vigor na data de sua publicação. Apenas os
efeitos financeiros é que foram postergados para o dia 1º/1/2008.
No momento em que a Lei entrou em vigor, os servidores passaram a ter direito
adquirido ao reajuste, ainda que os efeitos financeiros somente fossem em data futura.
STF. Plenário. ADI 4013/TO, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 31/3/2016 (Info 819).

Os herdeiros devem restituir os proventos que, por erro operacional da Administração


Pública, continuaram sendo depositados em conta de servidor público após o seu
falecimento.
STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1387971-DF, Rel. Min. Mauro Campbell Marques,
julgado em 15/3/2016 (Info 579)
É possível a acumulação de um cargo público de professor com outro de intérprete e
tradutor da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS).
STJ. 2ª Turma. REsp 1569547-RN, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 15/12/2015
(Info 575).

Cargo técnico "é aquele que requer conhecimento específico na área de atuação do
profissional, com habilitação específica de grau universitário ou profissionalizante de 2º
grau" (STJ. 2ª Turma. RMS 42.392/AC, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em
10/02/2015). É aquele que exige da pessoa um conjunto de atribuições ligadas ao
conhecimento específico de uma área do saber.
Segundo já decidiu o STJ, somente se pode considerar que um cargo tem natureza
técnica se ele exigir, no desempenho de suas atribuições, a aplicação de conhecimentos
especializados de alguma área do saber.
STJ. 2ª Turma. REsp 1569547-RN, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 15/12/2015
(Info 575).

No julgamento da ADI 3819, o STF declarou inconstitucional lei estadual, posterior à


CF/88, que transformou ocupantes de determinado cargo público em Defensores
Públicos. Entendeu-se que houve violação ao princípio do concurso público.
Os servidores foram, então, exonerados pelo Governador do Estado, mas conseguiram
ser reintegrados por decisão do STJ, que entendeu que, antes da exoneração, deveria
a eles ser garantido devido processo legal, com contraditório e ampla defesa.
O STF, em reclamação, cassou essa decisão do STJ por entender que ela contrariou a
autoridade da decisão proferida pelo STF no julgamento da ADI 3.819/MG.
STF. 2ª Turma. Rcl 16950/MG, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 1º/12/2015 (Info
810).

Não há garantia à continuidade de recebimento de adicional por tempo de serviço em


percentual superior àquele previsto em legislação posterior sob o fundamento de direito
adquirido.
STF. Plenário. MS 22423/RS, rel. orig. Min. Eros Grau, red. p/ o acórdão Min. Gilmar
Mendes, julgado em 26/11/2015 (Info 809).

A justiça comum é competente para processar e julgar causas em que se discuta a


validade de vínculo jurídico-administrativo entre o poder público e servidores
temporários.
Dito de outra forma: a Justiça competente para julgar litígios envolvendo servidores
temporários (art. 37, IX, da CF/88) e a Administração Pública é a JUSTIÇA COMUM
(estadual ou federal).
A competência NÃO é da Justiça do Trabalho, ainda que o autor da ação alegue que
houve desvirtuamento do vínculo e mesmo que ele formule os seus pedidos baseados
na CLT ou na lei do FGTS.
STF. Plenário. Rcl 4351 MC-AgR/PE, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min.
Dias Toffoli, julgado em 11/11/2015 (Info 807).
Alguns servidores continuavam tentando excluir do teto as vantagens pessoais que
haviam adquirido antes da EC 41/2003 (que implementou, na prática, o teto no
funcionalismo). Argumentavam que a garantia da irredutibilidade de vencimentos,
modalidade qualificada de direito adquirido, impediria que as vantagens percebidas
antes da vigência da EC 41/2003 fossem por ela alcançadas. O STF acolheu esse
argumento? As vantagens pessoais anteriores à EC 41/2003 estão fora do teto?
NÃO. Computam-se para efeito de observância do teto remuneratório do artigo 37, XI,
da Constituição da República, também os valores percebidos anteriormente à vigência
da EC 41/2003 a título de vantagens pessoais pelo servidor público, dispensada a
restituição de valores eventualmente recebidos em excesso e de boa-fé até o dia
18/11/2015.
STF. Plenário. RE 606358/SP, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 18/11/2015
(repercussão geral) (Info 808).

Em 2001, foi editada uma lei estadual criando cargos e organizando a Polícia Civil de
determinado Estado. Nesta Lei foi previsto que, na estrutura da Polícia Civil, haveria
cargos de Delegado de Polícia e de Comissário de Polícia.
Ainda em 2001, foi realizado um concurso público, com provas específicas para cada
um desses cargos, e os aprovados nomeados e empossados.
Contudo, em 2004, houve duas leis modificando o cargo de Comissário de Polícia.
• a primeira delas afirmou que Comissário de Polícia seria autoridade policial,
juntamente com o Delegado de Polícia, equiparando a remuneração dos dois cargos.
• a segunda lei, transformando o cargo de "Comissário de Polícia" em "Delegado de
Polícia".
Essas duas leis foram impugnadas por meio de ADI e o STF decidiu que elas são
INCONSTITUCIONAIS porque representaram burla à exigência do concurso público.
As referidas leis fizeram uma espécie de ASCENSÃO FUNCIONAL dos Comissários de
Polícia porque transformaram os ocupantes desses cargos em Delegados de Polícia
sem que eles tivessem feito concurso público para tanto.
No caso concreto, os Ministros entenderam que, quando o cargo de Comissário de
Polícia foi criado, ele possuía diferenças substanciais em relação ao de Delegado de
Polícia, o que impediria a transformação mesmo sob o argumento de ser medida de
racionalização administrativa.
STF. Plenário. ADI 3415/AM, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 24/9/2015 (Info 800).

Maria, servidora pública, estava grávida. A criança nasceu em março/2015. A partir daí,
ela começou a usufruir a licença-maternidade (que é de 180 dias). Em setembro/2015,
a servidora retornou ao trabalho. Quando voltou a trabalhar, Maria foi até o
departamento de recursos humanos do órgão e explicou o seguinte para a diretora do
setor: "minhas férias estavam marcadas para julho/2015. Ocorre que neste período eu
estava de licença-maternidade. Logo, minhas férias foram interrompidas e eu quero
agora remarcar esse período de férias referente a julho/2015 para dezembro/2015." O
pedido de Maria poderá ser aceito?
NÃO. A Lei nº 8.112/90 não assegura à servidora pública o direito de usufruir, em
momento posterior, os dias de férias já gozados em período coincidente com o da
licença à gestante.
Ao contrário do que afirma Maria, houve sim o gozo das férias, ainda que ao mesmo
tempo em que ela fazia jus à licença-maternidade, visto que a referida licença não é
causa interruptiva das férias.
STJ. 2ª Turma. AgRg no RMS 39563-PE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado
em 6/8/2015 (Info 566).
O Ministério da Saúde autorizou a contratação de 200 profissionais para a Agência
Nacional de Saúde Suplementar — ANS. O sindicato dos servidores públicos impetrou
MS contra este ato alegando que os servidores estavam sendo contratados para a
análise de processos administrativos do órgão, o que não é uma atividade temporária,
mas sim permanente e, portanto, não se enquadraria no art. 37, IX, da CF/88, devendo
ser desempenhada por servidores estatutários da autarquia. O MS foi julgado
improcedente.
Segundo decidiu o STJ, admite-se a contratação por tempo determinado para atender
a necessidade temporária de excepcional interesse público (art. 37, IX, da CF/88), ainda
que para o exercício de atividades permanentes do órgão ou entidade.
Na situação analisada, as contratações temporárias se faziam necessárias em
decorrência do crescente número de demandas e do enorme passivo de procedimentos
administrativos que estavam parados junto à ANS. Ademais, o quadro de pessoal da
agência já estava completo, inexistindo, portanto, cargos vagos para a realização de
concurso público.
STJ. 1ª Seção. MS 20335-DF, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 22/4/2015 (Info
560).

Algumas Constituições estaduais preveem que a pessoa que tiver exercido o cargo de
Governador do Estado fará jus, após deixar o mandato, a um subsídio mensal e vitalício.
Alguns chamam isso de representação, outros de pensão vitalícia e outros de pensão
civil. A previsão desse pagamento é compatível com a CF/88?
NÃO. Essa regra fere o princípio da isonomia. Não há uma justificativa razoável para
que seja prevista genericamente a concessão da “pensão” para ex-governadores,
configurando um tratamento privilegiado sem haver fundamento legítimo.
STF. Plenário. ADI 4552 MC/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 9/4/2015 (Info
780).

Maria é empregada pública federal aposentada. Como se aposentou cedo e ainda está
cheia de vitalidade, ela decide que deseja continuar trabalhando e, por isso, se inscreve
no processo seletivo aberto pelo Ministério do Meio Ambiente para contratar servidores
temporários.
A empregada pública aposentada poderá ser contratada e receber, ao mesmo tempo,
os proventos da aposentadoria e também a remuneração proveniente do serviço
temporário?
SIM. É possível a cumulação de proventos de aposentadoria de emprego público com
remuneração proveniente de exercício de “cargo” temporário.
O § 3º do art. 118 da Lei 8.112/90 proíbe apenas a acumulação de proventos de
aposentadoria com remuneração de cargo ou emprego público efetivo.
Os servidores temporários contratados sob o regime do art. 37, IX, não estão vinculados
a um cargo ou emprego público, exercendo apenas uma função administrativa
temporária (função autônoma, justamente por não estar vinculada a cargo ou emprego).
Além disso, ainda que se considere que isso é um “cargo” público, não se trata de cargo
público efetivo, já que as pessoas são selecionadas mediante processo seletivo
simplificado e irão exercer essa função por um prazo determinado, não possuindo direito
à estabilidade.
Em suma, não é cargo; mas mesmo que fosse, não seria cargo efetivo.
Ademais, a aposentadoria da interessada se deu pelo Regime Geral de Previdência
Social — RGPS (ela era empregada pública), não se lhe aplicando, portanto, o disposto
no § 10 do art. 37 da CF/88, segundo o qual “É vedada a percepção simultânea de
proventos de aposentadoria decorrentes do art. 40 ou dos arts. 42 e 142 com a
remuneração de cargo, emprego ou função pública, ressalvados os cargos acumuláveis
na forma desta Constituição, os cargos eletivos e os cargos em comissão declarados
em lei de livre nomeação e exoneração”. Isso porque a aposentadoria dos empregados
públicos, concedida no regime do RGPS, é disciplinada não pelo art. 40 da CF/88, mas
sim pelo art. 201. Logo, não se pode atribuir interpretação extensiva em prejuízo do
empregado público aposentado pelo RGPS.
STJ. 2ª Turma. REsp 1298503-DF, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 7/4/2015
(Info 559).

É nula a contratação de pessoal pela Administração Pública sem a observância de


prévia aprovação em concurso público, razão pela qual não gera quaisquer efeitos
jurídicos válidos em relação aos empregados eventualmente contratados, ressalvados
os direitos à percepção dos salários referentes ao período trabalhado e, nos termos do
art. 19-A da Lei 8.036/90, ao levantamento dos depósitos efetuados no Fundo de
Garantia do Tempo de Serviço — FGTS.
Neste julgado, o STF declarou que o art. 19-A da Lei 8.036/90 é CONSTITUCIONAL.
STF. Plenário. ADI 3127/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 26/3/2015 (Info 779).

Lei do Estado da Bahia fixava um teto remuneratório exclusivo para os servidores do


Poder Judiciário.
O STF entendeu que essa lei é inconstitucional.
O teto para o funcionalismo estadual somente pode ser fixado por meio de emenda à
Constituição estadual, não sendo permitido mediante lei estadual.
Além disso, a Constituição do Estado da Bahia adotou subteto único (§ 12º do art. 37
da CF/88) e a lei viola a sistemática escolhida porque fixou um teto apenas para os
servidores do Poder Judiciário, excluindo-o para os demais Poderes.
STF. Plenário. ADI 4900/DF, rel. orig. Min. Teori Zavascki, red. p/ o acórdão Min.
Roberto Barroso, julgado em 11/2/2015 (Info 774).

CONCURSO PÚBLICO
É constitucional a remarcação de curso de formação para o cargo de agente
penitenciário feminino de candidata que esteja lactante à época de sua realização,
independentemente da previsão expressa em edital do concurso público.
STJ. 1ª Turma. RMS 52622-MG, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 26/03/2019 (Info
645).

É inconstitucional lei que preveja a possibilidade de o indivíduo aprovado no concurso


público ingressar imediatamente no último padrão da classe mais elevada da carreira.
Essa disposição afronta os princípios da igualdade e da impessoalidade, os quais regem
o concurso público.
Por essa razão, o STF declarou a inconstitucionalidade do § 1º do art. 18 da Lei nº
8.691/93.
STF. Plenário. ADI 1240/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 28/2/2019 (Info 932).

É constitucional a remarcação do teste de aptidão física de candidata que esteja grávida


à época de sua realização, independentemente da previsão expressa em edital do
concurso público.
STF. Plenário. RE 1058333/PR, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 21/11/2018 (repercussão
geral).
Em regra, não produzem fato consumado a posse e o exercício em cargo público
decorrentes de decisão judicial tomada à base de cognição não-exauriente.
Em outras palavras, não se aplica a teoria do fato consumado para candidatos que
assumiram o cargo público por força de decisão judicial provisória posteriormente
revista. Trata-se do entendimento firmado no RE 608482/RN (Tema 476).
A situação é diferente, contudo, se a pessoa, após permanecer vários anos no cargo,
conseguiu a concessão de aposentadoria. Neste caso, em razão do elevado grau de
estabilidade da situação jurídica, o princípio da proteção da confiança legítima incide
com maior intensidade. Trata-se de uma excepcionalidade que autoriza a distinção
(distinguish) quanto ao leading case do RE 608482/RN (Tema 476).
STF. 1ª Turma. RE 740029 AgR/DF, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em
14/8/2018 (Info 911).

Quando o exercício do cargo foi amparado por decisões judiciais precárias e o servidor
se aposentou, antes do julgamento final do mandado de segurança, por tempo de
contribuição durante esse exercício e após legítima contribuição ao sistema, a
denegação posterior da segurança que inicialmente permitira ao servidor prosseguir no
certame não pode ocasionar a cassação da aposentadoria.
STJ. 1ª Seção. MS 20558-DF, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 22/2/2017 (Info
600).

Em concurso público, o teste de capacidade física somente pode ser exigido se:
a) houver previsão na lei que criou o cargo (não pode ser previsto apenas no edital do
certame);
b) tiver relação (razoabilidade) com as funções do cargo;
c) estiver pautado em critérios objetivos;
d) for passível de recurso.
STJ. 1ª Turma. AgInt nos EDcl no RMS 56.200/PE, Rel. Min. Regina Helena Costa,
julgado em 07/08/2018.
STJ. 2ª Turma. AgRg no RMS 39.181/BA, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em
11/11/2014.
STJ. 6ª Turma. RMS 26.927/RO, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
04/08/2011.

O candidato aprovado em concurso público fora do número de vagas tem direito


subjetivo à nomeação caso surjam novas vagas durante o prazo de validade do certame,
haja manifestação inequívoca da administração sobre a necessidade de seu provimento
e não tenha restrição orçamentária.
STJ. 1ª Seção. MS 22.813-DF, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 13/06/2018 (Info
630).

É razoável, dada a natureza e as peculiaridades do cargo, exigir-se altura mínima para


o ingresso em carreira militar, devendo esse requisito, contudo, encontrar previsão legal
e não apenas editalícia.
A jurisprudência dos Tribunais Superiores é pacífica no sentido de que é constitucional
a exigência de altura mínima para o ingresso em carreiras militares, desde que haja
previsão legal específica.
Somente lei formal pode impor condições para o preenchimento de cargos, empregos
ou funções públicas.
STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 1590450/PE, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em
19/10/2017.
STF. 2ª Turma. ARE 1073375 AgR, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 23/03/2018.

Não fere direitos dos candidatos a disposição do edital do certame que prevê limites
mínimo e máximo de idade para o ingresso na carreira militar, em razão da atividade
peculiar nela exercida, desde que tal limitação esteja prevista em legislação específica.
STJ. 1ª Turma. AgInt no RMS 51864/SE, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em
21/03/2017.

Exemplo: determinado concurso cobrou questão envolvendo o entendimento do STJ


acerca do inquérito policial. O candidato se insurgiu contra isso afirmando que o edital
não previa a exigência dos entendimentos dos Tribunais Superiores.
O STJ considerou válida a pergunta. Isso porque o edital do concurso previa o
conhecimento dos candidatos sobre o tema “Inquérito Policial”.
O fato de o edital não fazer menção expressa que exigiria do candidato o conhecimento
acerca do entendimento dos Tribunais Superiores não é, por si só, óbice que impeça a
banca examinadora de promover a cobrança de assuntos de forma multidisciplinar. Os
concursos, não raras vezes, exigem dos candidatos a capacidade de examinar a matéria
sob o ponto de vista de um sistema de normas, diplomas e posicionamentos
jurisprudenciais que se relacionam entre si.
STJ. 1ª Turma. AgInt no RMS 50769/BA, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado
em 01/03/2018.

É válida a realização do exame psicotécnico em concursos públicos desde que


cumpridos os seguintes requisitos:
a) o exame precisa estar previsto em lei e no edital;
b) deverão ser adotados critérios objetivos no teste;
c) o resultado deve ser público com a possibilidade de o candidato prejudicado
apresentar recurso.

Se exame psicotécnico não adotou critérios objetivos ou não permitia a possibilidade de


recurso, a providência correta não será a simples aprovação do candidato outrora
reprovado, mas sim a realização de nova avaliação pautada por critérios objetivos e
assegurada a ampla defesa.
É incabível a providência de se determinar a posse candidato no cargo, pois não se
pode suplantar a fase do concurso relativa ao exame psicotécnico, para garantir
judicialmente a nomeação do candidato. Nessa hipótese, deve ser realizado novo
exame, compatível com as deficiências do candidato, bem como que atenda aos
critérios de objetividade, cientificidade e possibilidade de recurso.
STJ. 2ª Turma. AgInt no RMS 51809/RS, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em
01/03/2018.
É desnecessária a formação de litisconsórcio necessário em situação na qual se discuta
situação pessoal de eliminação de candidato em determinada fase de concurso público.
Assim, caso um candidato proponha ação judicial questionando sua eliminação do
concurso, é dispensável a citação dos demais concursados como litisconsortes
necessários, pois os candidatos, mesmo aprovados, não titularizariam direito líquido e
certo à nomeação, mas tão somente expectativa de direito.
STJ. 2ª Turma. AREsp 1182113/RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em
12/12/2017.
STJ. 2ª Turma. AgInt no AREsp 1028930/PE, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em
28/11/2017.

ATENÇÃO:
Como regra, o STJ entende que, na ação judicial que questiona a validade de cláusula
do edital do concurso público ou alega a nulidade de ato de classificação ou de
eliminação de candidato, não é necessária formação de litisconsórcio necessário entre
os candidatos. Isso porque ausente a comunhão de interesses, na medida em que
eventual direito à nomeação constituiria simples expectativa de direito.
No entanto, se a ação a providência judicial almejada pelo autor resultar no atingimento
de direito de terceiro, aí sim será necessária a citação desses terceiros (demais
candidatos) para que possam defender seus interesses.
Ex: se o autor da ação pretende a vaga de um indivíduo que já está nomeado em
empossado.
STJ. 2ª Turma. RMS 55.622/SP, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em
21/11/2017.

O STF, em sede de repercussão geral, fixou a seguinte tese:


Na hipótese de posse em cargo público determinada por decisão judicial, o servidor não
faz jus à indenização, sob fundamento de que deveria ter sido investido em momento
anterior, salvo situação de arbitrariedade flagrante.
STF. Plenário. RE 724347/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min.
Roberto Barroso, julgado em 26/2/2015 (repercussão geral) (Info 775).

Esse entendimento do STF aplica-se mesmo que o erro tenha sido reconhecido
administrativamente pelo Poder Público (e não por decisão judicial).
Assim, a nomeação tardia de candidatos aprovados em concurso público não gera
direito à indenização, ainda que a demora tenha origem em erro reconhecido pela
própria Administração Pública.
STJ. 1ª Turma.REsp 1238344-MG, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 30/11/2017 (Info
617).

Somente depois de expirado o prazo de validade do concurso, e não havendo a


nomeação regular do candidato classificado, é que haverá o termo inicial do prazo
decadencial para a ação de mandado de segurança.
STJ. 2ª Turma. RMS 55464/RJ, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em
21/11/2017.
STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1417814/SC, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em
11/09/2018.

O encerramento do concurso público não acarreta a perda do objeto da ação


mandamental na qual se discute suposta ilegalidade praticada em etapa do certame.
STJ. 2ª Turma. REsp 1681156/SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 03/10/2017.

A desistência de candidatos melhor classificados em concurso público convola a mera


expectativa em direito líquido e certo, garantindo a nomeação dos candidatos que
passarem a constar dentro do número de vagas previstas no edital.
STJ. 1ª Turma.RMS 53506-DF, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 26/09/2017
(Info 612).
STJ. 2ª Turma. RMS 52251/PR, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em
05/09/2017.
STF. 1ª Turma. ARE 1058317 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 01/12/2017.
A simples alteração na ordem de aplicação das provas de teste físico em concurso
público, desde que anunciada com antecedência e aplicada igualmente a todos, não
viola direito líquido e certo dos candidatos inscritos.
Ex: o edital inicial dizia que, no dia da prova de esforço físico, o teste de equilíbrio seria
o primeiro e a corrida o último; depois foi publicado um novo edital alterando a ordem.
STJ. 1ª Turma.RMS 36064-MT, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 13/6/2017 (Info
608).

A nomeação tardia de candidatos aprovados em concurso público, por meio de ato


judicial, à qual atribuída eficácia retroativa, não gera direito às promoções ou
progressões funcionais que alcançariam se houvesse ocorrido, a tempo e modo, a
nomeação.
STF. Plenário. RE 629392 RG/MT, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 8/6/2017
(repercussão geral) (Info 868).

O STJ entendeu que um candidato aprovado para o concurso de agente penitenciário


não deveria tomar ser nomeado e tomar posse porque contra ela existem 11 boletins de
ocorrência, sendo 5 relacionados com lesão corporal, 3 de crime de ameaça, 2
ocorrências de estelionato e, ainda, 1 referente ao crime de porte ilegal de armas.
Apesar de não haver condenação com trânsito em julgado, entendeu-se que a sua
nomeação representaria ofensa aos valores morais e éticos que devem ser almejados
pela Administração Pública.
STJ. 1ª Turma. RMS 35.016/RS, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em
06/06/2017.
O STF, em recurso extraordinário com repercussão geral reconhecida, firmou a seguinte
tese: "Não compete ao Poder Judiciário, no controle de legalidade, substituir banca
examinadora para avaliar respostas dadas pelos candidatos e notas a elas atribuídas"
(RE 632.853).
Do voto condutor do mencionado acórdão, percebe-se que a tese nele constante buscou
esclarecer que o Poder Judiciário não pode avaliar as respostas dadas pelo candidato
e as notas a eles atribuídas se for necessário apreciar o conteúdo das questões ou os
critérios utilizados na correção, exceto se flagrante a ilegalidade.
Ao analisar uma prova para o cargo de assessor do MPRS, o STJ decidiu anular uma
das questões discursivas pelo fato de que ela possuía um grave erro no enunciado, o
que prejudicou o candidato na elaboração de sua resposta.
No enunciado da questão constou a expressão “permissão de saída”, mas na verdade
o examinador queria saber sobre a “saída temporária”, tanto que a resposta padrão do
gabarito envolvia este segundo instituto. Houve, portanto, uma troca dos conceitos.
A própria comissão examinadora reconheceu que houve o erro no enunciado, mas
afirmou que isso não atrapalhou os candidatos e, por isso, manteve as notas.
O STJ, contudo, não concordou com isso e anulou a questão. Se a própria banca
examinadora reconhece o erro na formulação da questão, não se pode fechar os olhos
para tal constatação ao simplório argumento de que referido erro não influiria na análise
do enunciado pelo candidato.
Vale ressaltar que o STJ afirmou que esta anulação não contraria o que decidiu o STF
no julgamento do RE 632.853 por duas razões:
1) o candidato não está buscando que o Poder Judiciário reexamine o conteúdo da
questão ou o critério de correção para decidir se a resposta dada por ele está ou não
correta. Em outras palavras, não se quer que recorrija a prova. O que o impetrante
pretende é que seja reconhecido que o enunciado da questão apresenta um erro grave
insuperável.
2) o STF decidiu que, em regra, não é possível a anulação de questões de concurso,
salvo se houver ilegalidade a permitir a atuação do Poder Judiciário. Em outras palavras,
existe uma “exceção” à tese fixada no RE 632.853. E, no presente caso, estamos diante
de uma flagrante ilegalidade da banca examinadora.
STJ. 2ª Turma. RMS 49896-RS, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 20/4/2017 (Info
603).

A banca examinadora do certame, por ocasião da divulgação dos resultados das provas,
deve demonstrar, de forma clara e transparente, que os critérios de avaliação previstos
no edital foram devidamente considerados, sob pena de nulidade da avaliação.
As informações constantes dos espelhos de provas subjetivas representam a motivação
do ato administrativo, consistente na atribuição de nota ao candidato.
Essa motivação deve ser apresentada anteriormente ou concomitante à prática do ato
administrativo, pois caso se permita a motivação posterior, isso pode dar ensejo para
que se fabriquem, forjem ou criem motivações.
Não é legítima a conduta da banca examinadora de divulgar o espelho de provas com
a motivação das notas após ser contestada na via judicial ou administrativa.
Destaque-se também que não há fundamentação válida se a banca apenas divulga
critérios muito subjetivos e a nota global dos candidatos, desacompanhados do padrão
de resposta e das notas atribuídas para cada um dos critérios adotados.
STJ. 2ª Turma. RMS 49896-RS, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 20/4/2017 (Info
603).

Obs: existe precedente em sentido contrário. Veja:


O objetivo dos certames públicos de provas ou provas e títulos, previstos nos incisos I
a IV do art. 37 da Constituição Federal para ingresso no serviço público, é assegurar a
observância do princípio constitucional da isonomia, razão pela qual a divulgação, ainda
que a posteriori, dos critérios de correção das provas dissertativas não viola, só por si,
o princípio da igualdade, desde que os mesmos parâmetros sejam uniforme e
indistintamente aplicados a todos os candidatos.
STJ. 1ª Turma. AgInt no RMS 51.969/MS, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em
08/08/2017.

Não é compatível com o regime constitucional de acesso aos cargos públicos a


manutenção no cargo, sob fundamento de fato consumado, de candidato não aprovado
que nele tomou posse em decorrência de execução provisória de medida liminar ou
outro provimento judicial de natureza precária, supervenientemente revogado ou
modificado. Igualmente incabível, em casos tais, invocar o princípio da segurança
jurídica ou o da proteção da confiança legítima.
A posse ou o exercício em cargo público por força de decisão judicial de caráter
provisório não implica a manutenção, em definitivo, do candidato que não atende a
exigência de prévia aprovação em concurso público (art. 37, II, da CF/88), valor
constitucional que prepondera sobre o interesse individual do candidato, que não pode
invocar, na hipótese, o princípio da proteção da confiança legítima, pois conhece a
precariedade da medida judicial.
Em suma, não se aplica a teoria do fato consumado para candidatos que assumiram o
cargo público por força de decisão judicial provisória posteriormente revista.
STF. Plenário. RE 608482/RN, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 7/8/2014
(repercussão geral) (Info 753).

O STJ possui o mesmo entendimento: STJ. 1ª Turma. AgRg no AREsp 474423/RS, Rel.
Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 04/04/2017.

Obs: a situação será diferente se o servidor se aposentou antes do fim do processo:


STJ. 1ª Seção. MS 20.558-DF, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 22/2/2017 (Info
600).

Em ação ordinária na qual se discute a eliminação de candidato em concurso público –


em razão da subjetividade dos critérios de avaliação de exame psicotécnico previstos
no edital – a legitimidade passiva será da entidade responsável pela elaboração do
certame.
Ex: o Estado do ES abriu concurso para agente penitenciário. O CESPE foi contratado
para realizar as provas. João inscreveu-se no certame e foi aprovado nas provas
teóricas, tendo sido, contudo, reprovado no exame psicotécnico. Diante disso, João quer
ajuizar ação ordinária questionando os critérios de avaliação do exame psicotécnico
previstos no edital sob o argumento de que eles eram subjetivos. Essa ação terá que
ser proposta contra o Estado do ES (e não contra o CESPE).
STJ. 1ª Turma. REsp 1425594-ES, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 7/3/2017
(Info 600).

O art. 236, § 3º, da CF é uma norma constitucional autoaplicável. Logo, mesmo antes
da edição da Lei nº 8.935/94, ela já tinha plena eficácia e o concurso público era
obrigatório como condição não apenas para ingresso na atividade notarial e de registro,
como também nos casos de remoção ou permuta.
As normas estaduais que admitem a remoção na atividade notarial e de registro
independentemente de prévio concurso público são incompatíveis com o art. 236, § 3º,
da Constituição, razão pela qual não foram por essa recepcionadas.
O prazo decadencial de 5 anos, de que trata o art. 54 da Lei nº 9.784/99, não se aplica
à revisão de atos de delegação de serventias extrajudiciais editados após a CF/88, sem
o atendimento das exigências prescritas no seu art. 236. Assim, se uma pessoa assumiu
uma serventia notarial ou registral sem concurso público após a CF/88, este ato poderá
ser anulado mesmo que já se tenham passado mais de 5 anos.
A decisão que anula o ato de investidura em serventia notarial e registral sem concurso
público não viola o direito adquirido nem a segurança jurídica.
STF. 1ª Turma. MS 29415/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Luiz Fux,
julgado em 27/09/2016 (Info 841).

Editais de concurso público não podem estabelecer restrição a pessoas com tatuagem,
salvo situações excepcionais em razão de conteúdo que viole valores constitucionais.
STF. Plenário. RE 898450/SP, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 17/8/2016 (repercussão
geral) (Info 835).

Determinado candidato foi aprovado fora do número de vagas. Todos os aprovados


dentro do número de vagas foram nomeados e empossados. Durante o prazo de
validade do concurso, um servidor se aposentou, mas não houve autorização do
Ministério do Planejamento para que o órgão federal fizesse o provimento desta vaga.
Um mês após o fim do prazo de validade do concurso, a Administração Pública abriu
novo concurso para este cargo.
O STF entendeu que este candidato não possui direito líquido e certo à nomeação
porque:
* foi aprovado fora do número de vagas previsto no edital; e
* o prazo de validade do concurso em que ele foi aprovado expirou antes da abertura
do novo certame.
* realmente surgiu uma vaga decorrente da aposentadoria, mas não houve
manifestação do órgão competente se havia disponibilidade orçamentária para que este
cargo fosse imediatamente provido.
O mero surgimento de vagas ou a abertura de novo concurso para o mesmo cargo não
gera direito subjetivo à nomeação do candidato aprovado fora do número de vagas,
cabendo a ele demonstrar, de forma inequívoca, que houve preterição arbitrária e
imotivada por parte da administração pública. No caso concreto, o STF entendeu que
isso não ficou comprovado.
Assim, para o Tribunal, a situação não se enquadra nas hipóteses previstas no RE
837311/PI.
STF. 1ª Turma. RMS 31478/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min.
Edson Fachin, julgado em 9/8/2016 (Info 834).

Ainda que o requisito da idade mínima de 18 anos conste em lei e no edital de concurso
público, é possível que o candidato menor de idade aprovado no concurso tome posse
no cargo de auxiliar de biblioteca no caso em que ele, possuindo 17 anos e 10 meses
na data da sua posse, já havia sido emancipado voluntariamente por seus pais há 4
meses.
STJ. 2ª Turma. REsp 1462659-RS, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 1º/12/2015
(Info 576).

Não compete ao Poder Judiciário, no controle de legalidade, substituir banca


examinadora para avaliar respostas dadas pelos candidatos e notas a elas atribuídas.
Excepcionalmente, é permitido ao Judiciário juízo de compatibilidade do conteúdo das
questões do concurso com o previsto no edital do certame.
STF. Plenário. RE 632853, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 23/04/2015
(repercussão geral) (Info 782)

Determinada candidata impetrou mandado de segurança questionando três questões


da prova objetiva do concurso para Procurador da República. As questões impugnadas
foram formuladas da seguinte forma: eram apresentadas quatro afirmações; após essas
assertivas, existiam quatro alternativas; a letra “A” dizia: “apenas uma está correta”; letra
“B”: “duas estão corretas”; letra “C”: “três estão corretas”; letra “D”: “todas estão
corretas”.
Segundo a autora, essa forma de questão objetiva estaria em desacordo com as
Resoluções do CNMP e do CNJ sobre concursos públicos.
O STF concordou com a tese da impetrante? Essa forma de questão objetiva violou a
resolução do CNMP?
NÃO. Apesar de as referidas questões apresentarem realmente uma estrutura objetiva
diversa das demais perguntas normalmente feitas em prova objetiva, isso não significa
qualquer nulidade, sendo apenas uma forma de dificultar o nível da prova igualmente a
todos os candidatos e condizente com o objetivo de um concurso destinado a medir
conhecimentos de vários tipos, ou seja, não só jurídicos, mas também lógicos e
gramaticais.
Ademais, entendeu-se que não se poderia invocar a Resolução 57/2009 do CNJ porque,
embora o CNJ e o CNMP possuam estruturas semelhantes e mesma origem
constitucional, são órgãos autônomos, de forma que o CNMP disciplinou o tema na
forma que entendeu melhor e não vedou esse tipo de questão.
STF. 1ª Turma. MS 31323 AgR/DF, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 17/3/2015 (Info
778).
O candidato que teve postergada a assunção em cargo por conta de ato ilegal da
Administração tem direito a receber a remuneração retroativa?
Regra: NÃO. Não cabe indenização a servidor empossado por decisão judicial sob o
argumento de que houve demora na nomeação. Dito de outro modo, a nomeação tardia
a cargo público em decorrência de decisão judicial não gera direito à indenização.
Exceção: será devida indenização se ficar demonstrado, no caso concreto, que o
servidor não foi nomeado logo por conta de uma situação de arbitrariedade flagrante.
Nas exatas palavras do STF: “Na hipótese de posse em cargo público determinada por
decisão judicial, o servidor não faz jus à indenização, sob fundamento de que deveria
ter sido investido em momento anterior, salvo situação de arbitrariedade flagrante.”
STF. Plenário. RE 724347/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min.
Roberto Barroso, julgado em 26/2/2015 (repercussão geral) (Info 775).

A nomeação tardia a cargo público em decorrência de decisão judicial NÃO gera direito
à indenização.
STJ. 6ª Turma. AgRg nos EDcl nos EDcl no RMS 30.054-SP, Rel. Min. Og Fernandes,
julgado em 19/2/2013 (Info 515).
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
Súmula 634-STJ: Ao particular aplica-se o mesmo regime prescricional previsto na lei
de improbidade administrativa para os agentes públicos.
Importante.
Aprovada em 12/06/2019, DJe 17/06/2019.
Para entendermos bem a súmula vou dividir o estudo em duas partes. Primeiramente,
iremos verificar quem é o “particular” na prática do ato de improbidade administrativa e,
em seguida, vamos analisar os aspectos da prescrição nas ações de improbidade.

QUEM RESPONDE PELO ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA?

1) AGENTES PÚBLICOS (art. 2º da Lei)


SUJEITO ATIVO
Conceito amplo que abrange todo aquele que exerce,
Sujeito ativo do ato é...
ainda que transitoriamente ou sem remuneração, por
- a pessoa física ou eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer
outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo,
- a pessoa jurídica que
emprego ou função nas entidades mencionadas no artigo
- pratica o ato de anterior.
improbidade
administrativa; 2) TERCEIROS (art. 3º)
- concorre para a sua Terceiro é...
prática;
- a pessoa física ou jurídica que,
- ou dele se beneficia.
- mesmo não sendo agente público,
- induziu ou concorreu para a prática do ato de
Pode ser de duas improbidade
espécies:
- ou dele se beneficiou direta ou indiretamente.
1) agentes públicos;
Terceiro, portanto, é o particular que participa do ato de
2) terceiros. improbidade administrativa juntamente com o agente
público.

Desse modo, quando a súmula fala em “particular”, ela está se referindo ao “terceiro”
acima explicado.
Prescrição
Se um direito é violado, o titular deste direito passa a ter a pretensão de buscar
judicialmente a reparação do dano (de forma específica ou pelo equivalente em
dinheiro).
Essa pretensão, contudo, deve ser exercida dentro de um prazo previsto na lei.
Esgotado esse prazo, extingue-se a pretensão. A extinção dessa pretensão pelo
decurso do prazo é chamada de prescrição.
Isso está previsto no art. 189 do Código Civil, valendo, como regra geral:
Art. 189. Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela
prescrição, nos prazos a que aludem os arts. 205 e 206.
A prescrição tem como fundamentos a pacificação social e a segurança jurídica. Se não
existisse prazo para o titular do direito exercer a sua pretensão, todas as relações
jurídicas seriam sempre marcadas pela incerteza e instabilidade, considerando que um
fato ocorrido há anos ou mesmo décadas poderia ser questionado.
A prescrição está presente nos diversos ramos do Direito, inclusive no Direito
Administrativo.
Prescrição e atos de improbidade administrativa
Os atos de improbidade administrativa, assim como ocorre com as infrações penais,
também estão sujeitos a prazos prescricionais.
Logo, caso os legitimados ativos demorem muito tempo para ajuizar a ação de
improbidade administrativa contra o responsável pelo ato ímprobo, haverá a prescrição e
a consequente perda da pretensão punitiva.
Qual é o prazo prescricional para a propositura de ações de improbidade
administrativa?
Como regra, 5 anos. Isso está previsto no art. 23 da Lei nº 8.429/92. Confira o texto
legal:
Art. 23. As ações destinadas a levar a efeitos as sanções previstas nesta lei podem ser
propostas:
I - até cinco anos após o término do exercício de mandato, de cargo em comissão ou de
função de confiança;
II - dentro do prazo prescricional previsto em lei específica para faltas disciplinares
puníveis com demissão a bem do serviço público, nos casos de exercício de cargo
efetivo ou emprego.
III - até cinco anos da data da apresentação à administração pública da prestação de
contas final pelas entidades referidas no parágrafo único do art. 1o desta Lei.
Para facilitar o entendimento do texto legal, veja esta tabela com as principais regras
sobre o termo inicial da prescrição nos atos de improbidade administrativa:

PRESCRIÇÃO NAS AÇÕES DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA


O prazo para ajuizar a
Se o ato de improbidade O início da contagem
ação contra esse
for imputado contra... desse prazo será...
sujeito será de...
Agente público com vínculo O primeiro dia após o fim
Até 5 anos
TEMPORÁRIO do vínculo.
(mandato, cargo em
comissão ou de função de
confiança)
O prazo e o início da contagem serão os mesmos que
são previstos no estatuto do servidor para prescrição
Agente público com de faltas disciplinares puníveis com demissão.
vínculo PERMANENTE
Ex.: na Lei nº 8.112/90, em regra, o prazo prescricional
(cargo efetivo ou é de 5 anos, contado da data em que o fato se tornou
conhecido (salvo se a infração for também crime).
emprego público)
Lei estaduais e municipais podem trazer regra
diferente.

Em caso de atos de improbidade praticados contra o patrimônio das entidades referidas


no parágrafo único do art. 1º da LIA, o prazo prescricional será de 5 anos, contado de
sua prestação de contas final à Administração Pública.
E no caso dos terceiros (particulares)? Qual é o prazo prescricional das ações de
improbidade com relação aos particulares (chamados pela lei de “terceiros”)?
O art. 23 da Lei nº 8.429/92 falhou ao não prever expressamente regras de prescrição
para o terceiro (particular) que participa do ato de improbidade administrativa em
conjunto com o agente público.
Diante disso, a doutrina majoritária defende que o prazo deverá ser o mesmo previsto
para o agente público que praticou, em conjunto, o ato de improbidade administrativa.
Assim, as regras de prescrição em improbidade administrativa aplicáveis aos
particulares que participam do ato ímprobo são as mesmas do agente público também
envolvido.
É a posição, por exemplo, de Emerson Garcia e Rogério Pacheco Alves. Foi também o
entendimento acolhido pelo STJ:
(...) II - A teor do art. 3º da LIA, “As disposições desta lei são aplicáveis, no que couber,
àquele que, mesmo não sendo agente público, induza ou concorra para a prática do ato
de improbidade ou dele se beneficie sob qualquer forma direta ou indireta”. Portanto, as
regras da Lei de Improbidade, por força do preceituado nos seus arts. 2º e 3º, alcançam
também os particulares que, de qualquer forma, tenham concorrido para o ato acoimado
de ímprobo.
III - Logo, não têm os particulares que concorreram, “em tese”, para a prática do ato
ímprobo o direito à contagem individualizada dos prazos prescricionais, aplicando-se a
eles os prazos e termos iniciais previstos na LIA. (...)
STJ. 2ª Turma. REsp 1789492/PR, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 16/05/2019.
Aplica-se aos particulares, réus em ação de improbidade, a mesma sistemática cabível
aos agentes públicos, prevista no art. 23, I e II, da Lei nº 8.429/92, para fins de fixação
do termo inicial da prescrição.
STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1159035 MG, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em
21/11/2013.
Depois de vários julgados no mesmo sentido, o STJ editou a súmula 634 espelhando
esse entendimento.
Hipótese de imprescritibilidade: ressarcimento ao erário em casos de atos de
improbidade praticados dolosamente
A Lei nº 8.429/92 prevê, em seu art. 12, uma lista de sanções que podem ser aplicadas
às pessoas condenadas por ato de improbidade administrativa. São elas:
• perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente;
• perda da função pública;
• suspensão dos direitos políticos;
• multa civil; e
• proibição de contratar com o poder público ou receber benefícios ou incentivos fiscais
ou creditícios;
• ressarcimento integral do dano.
Uma das sanções acima é imprescritível: o ressarcimento integral do dano. O
fundamento para isso está na parte final do § 5º do art. 37 da CF/88:
Art. 37 (...)
§ 4º - Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos
políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao
erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível.
§ 5º A lei estabelecerá os prazos de prescrição para ilícitos praticados por qualquer agente,
servidor ou não, que causem prejuízos ao erário, ressalvadas as respectivas ações de
ressarcimento.
Vale ressaltar, no entanto, que o STF fez uma “exigência” a mais que não está explícita
no art. 37, § 5º da CF/88. O Supremo afirmou que somente são imprescritíveis as ações
de ressarcimento envolvendo atos de improbidade administrativa praticados
DOLOSAMENTE.
Assim, se o ato de improbidade administrativa causou prejuízo ao erário, mas foi praticado
com CULPA, então, neste caso, a ação de ressarcimento será prescritível e deverá ser
proposta no prazo do art. 23 da LIA.
A tese fixada pelo STF foi a seguinte:
São imprescritíveis as ações de ressarcimento ao erário fundadas na prática de ato
doloso tipificado na Lei de Improbidade Administrativa.
STF. Plenário. RE 852475/SP, Rel. orig. Min. Alexandre de Moraes, Rel. para acórdão
Min. Edson Fachin, julgado em 08/08/2018 (Info 910).

O que acontece se, no momento do trânsito em julgado, o condenado ocupa cargo


diferente daquele que exercia na prática do ato?
Se o agente público tiver mudado de cargo, ele poderá perder aquele que atualmente
ocupa? Ex: em 2012, João, na época Vereador, praticou um ato de improbidade
administrativa; o MP ajuizou ação de improbidade contra ele; em 2018, a sentença
transitou em julgado condenando João à perda da função pública; ocorre que João é
atualmente Deputado Estadual; ele perderá o cargo de Deputado?
1ª corrente: NÃO. É a posição da 1ª Turma do STJ.
O condenado só perde a função pública que ele utilizou para a prática do ato de
improbidade.
As normas que descrevem infrações administrativas e cominam penalidades constituem
matéria de legalidade estrita, não podendo sofrer interpretação extensiva.
Assim, a sanção de perda da função pública prevista no art. 12 da Lei nº 8.429/92 não
pode atingir cargo público diverso daquele que serviu de instrumento para a prática da
conduta ilícita.
STJ. 1ª Turma. REsp 1766149/RJ, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 08/11/2018.
2ª corrente: SIM. É a posição da 2ª Turma do STJ e da doutrina majoritária.
A sanção de perda da função pública visa a extirpar da Administração Pública aquele
que exibiu inidoneidade (ou inabilitação) moral e desvio ético para o exercício da função
pública, abrangendo qualquer atividade que o agente esteja exercendo no momento do
trânsito em julgado da condenação.
STJ. 2ª Turma. RMS 32378/SP, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 05/05/2015.
Improbidade administrativa
Improbidade administrativa é...
- um ato praticado pelo agente público,
- com ou sem a participação de um particular,
- e que gera enriquecimento ilícito,
- causa prejuízo ao erário ou
- atenta contra os princípios da Administração Pública.
Previsão constitucional
Existem quatro dispositivos na CF/88 que versam sobre o tema: art. 14, § 9º; art. 15, V;
art. 37, § 4º; art. 85, V. Deve-se mencionar ainda o art. 97, § 10, III, do ADCT.
Para fins de direito administrativo, a previsão mais importante é a do art. 37, § 4º:
Art. 37 (...)
§ 4º Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos
políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao
erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível.
Sanções decorrentes do ato de improbidade administrativa previstas na Lei
A Lei nº 8.429/92 disciplina os aspectos materiais e processuais decorrentes do ato de
improbidade administrativa.
Esta Lei prevê, em seu art. 12, que o indivíduo condenado por ato de improbidade
administrativa poderá receber as seguintes sanções:
• perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio;
• perda da função pública;
• suspensão dos direitos políticos;
• proibição de contratar com o poder público ou receber benefícios;
• proibição de receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios;
• multa civil;
• ressarcimento integral do dano.
Veja a redação do art. 12:
Art. 12. Independentemente das sanções penais, civis e administrativas previstas na
legislação específica, está o responsável pelo ato de improbidade sujeito às seguintes
cominações, que podem ser aplicadas isolada ou cumulativamente, de acordo com a
gravidade do fato:
I - na hipótese do art. 9°, perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao
patrimônio, ressarcimento integral do dano, quando houver, perda da função pública,
suspensão dos direitos políticos de oito a dez anos, pagamento de multa civil de até três
vezes o valor do acréscimo patrimonial e proibição de contratar com o Poder Público ou
receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que
por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de dez anos;
II - na hipótese do art. 10, ressarcimento integral do dano, perda dos bens ou valores
acrescidos ilicitamente ao patrimônio, se concorrer esta circunstância, perda da função
pública, suspensão dos direitos políticos de cinco a oito anos, pagamento de multa civil
de até duas vezes o valor do dano e proibição de contratar com o Poder Público ou
receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que
por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de cinco
anos;
III - na hipótese do art. 11, ressarcimento integral do dano, se houver, perda da função
pública, suspensão dos direitos políticos de três a cinco anos, pagamento de multa civil
de até cem vezes o valor da remuneração percebida pelo agente e proibição de
contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios,
direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio
majoritário, pelo prazo de três anos.
IV - na hipótese prevista no art. 10-A, perda da função pública, suspensão dos direitos
políticos de 5 (cinco) a 8 (oito) anos e multa civil de até 3 (três) vezes o valor do benefício
financeiro ou tributário concedido.
A Lei nº 8.429/92 poderia prever outras sanções além daquelas fixadas no art. 37,
§ 4º da CF/88?
SIM. O rol de sanções trazido pelo § 4º do art. 37 da CF/88 é exemplificativo. Desse
modo, é constitucional a ampliação das sanções realizada pela Lei nº 8.429/92.
Sanções dependem do tipo de ato de improbidade
Vale ressaltar que as sanções aplicadas irão variar de acordo com o tipo de ato de
improbidade administrativa que foi praticado.
Assim, por exemplo, se o agente foi condenado pelo art. 9º da Lei de Improbidade, terá
seus direitos políticos suspensos pelo prazo de 8 a 10 anos. Por outro lado, se praticou
o art. 10 ou art. 10-A da Lei, essa suspensão será de 5 a 8 anos. Por fim, no caso do
art. 11, a suspensão será de 3 a 5 anos.
O juiz é obrigado a aplicar todas as sanções previstas para o tipo?
NÃO. Não se exige que todas as sanções sejam aplicadas cumulativamente. É possível
a incidência cumulativa ou isolada das sanções. Essa opção dependerá da gravidade
do fato e da extensão do dano causado. É a conclusão que se extrai da redação do art.
12:
Art. 12. Independentemente das sanções penais, civis e administrativas previstas na
legislação específica, está o responsável pelo ato de improbidade sujeito às seguintes
cominações, que podem ser aplicadas isolada ou cumulativamente, de acordo com a
gravidade do fato:
(...)
Parágrafo único. Na fixação das penas previstas nesta lei o juiz levará em conta a
extensão do dano causado, assim como o proveito patrimonial obtido pelo agente.
Esse é também o entendimento do STJ:
Cada inciso do art. 12 da Lei 8.429/1992 traz uma pluralidade de sanções, que podem
ser aplicadas cumulativamente ou não.
STJ. 2ª Turma. REsp 1280973/SP, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 17/12/2013.
Assim, o magistrado não está obrigado a aplicar cumulativamente todas as penas
previstas no art. 12 da Lei nº 8.429/92, podendo, mediante adequada fundamentação,
fixá-las e dosá-las segundo a natureza, a gravidade e as consequências da infração
(STJ. 2ª Turma. REsp 1134461/SP, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 03/08/2010).
Pode o magistrado aplicar um sistema misto de sanções, utilizando-se de mais de
um inciso do rol do art. 12 da LIA?
NÃO. Cada inciso do art. 12 da Lei refere-se a uma hipótese de improbidade
administrativa, não tendo a lei autorizado que o juiz faça uma combinação de sanções.
O juiz pode aplicar uma sanção abaixo ou acima dos patamares legais? Ex: o art.
12, III, prevê que, no caso do ato de improbidade do art. 11, a suspensão dos
direitos políticos é de 3 a 5 anos. Pode o magistrado fixar a suspensão em 1 ano,
por exemplo?
NÃO. A sanção deverá obedecer aos parâmetros previstos na lei. Nesse sentido: STJ.
2ª Turma. REsp 1.582.014-CE, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 7/4/2016 (Info
581).
Perda da função pública
Conforme vimos acima, uma das sanções que podem ser cominadas ao sujeito
condenado por ato de improbidade administrativa consiste na “perda da função pública”.
Extensão do termo “função pública”
Quando a Lei fala em “função pública”, isso deve ser interpretado de forma bem ampla,
abrangendo servidores públicos estatutários, servidores ocupantes de cargo em
comissão, empregados públicos, titulares de mandato eletivo etc.
O que acontece se, no momento do trânsito em julgado, o condenado ocupa cargo
diferente daquele que exercia na prática do ato?

Se o agente público tiver mudado de cargo, ele poderá perder aquele que
atualmente ocupa? Ex: em 2012, João, na época Vereador, praticou um ato de
improbidade administrativa; o MP ajuizou ação de improbidade contra ele; em
2018, a sentença transitou em julgado condenando João à perda da função
pública; ocorre que João é atualmente Deputado Estadual; ele perderá o cargo
de Deputado?
SIM
NÃO
Posição da 2ª Turma do STJ
Posição da 1ª Turma do STJ
e da doutrina majoritária
O condenado só perde a função pública O agente perde a função pública que
que ele utilizou para a prática do ato de estiver ocupando no momento do trânsito
improbidade. em julgado, ainda que seja diferente
daquela que ocupava no momento da
prática do ato de improbidade.
As normas que descrevem infrações A sanção de perda da função pública visa
administrativas e cominam penalidades a extirpar da Administração Pública
constituem matéria de legalidade estrita, aquele que exibiu inidoneidade (ou
não podendo sofrer interpretação inabilitação) moral e desvio ético para o
extensiva. exercício da função pública, abrangendo
qualquer atividade que o agente esteja
Assim, a sanção de perda da função
exercendo no momento do trânsito em
pública prevista no art. 12 da Lei nº
julgado da condenação.
8.429/92 não pode atingir cargo público
diverso daquele que serviu de instrumento
para a prática da conduta ilícita.
STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp STJ. 2ª Turma. RMS 32.378/SP,
1423452/SP, Rel. Min. Benedito Rel. Min. Humberto Martins, julgado em
Gonçalves, j. 01/03/2018. 05/05/2015.
STJ. 1ª Turma. REsp 1766149/RJ, Rel. STJ. 2ª Turma. REsp 1.297.021/PR, Rel.
Min. Gurgel de Faria, julgado em Min. Eliana Calmon, DJe 20/11/2013.
08/11/2018.

A nomeação do cônjuge de prefeito para o cargo de Secretário Municipal, por se tratar


de cargo público de natureza política, por si só, não caracteriza ato de improbidade
administrativa.
STF. 2ª Turma. Rcl 22339 AgR/SP, Rel. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Gilmar
Mendes, julgado em 4/9/2018 (Info 914).

Em regra, a proibição da SV 13 não se aplica para cargos públicos de natureza política,


como, por exemplo, Secretário Municipal.
Assim, a jurisprudência do STF, em regra, tem excepcionado a regra sumulada e
garantido a permanência de parentes de autoridades públicas em cargos políticos, sob
o fundamento de que tal prática não configura nepotismo.
Exceção: poderá ficar caracterizado o nepotismo mesmo em se tratando de cargo
político caso fique demonstrada a inequívoca falta de razoabilidade na nomeação por
manifesta ausência de qualificação técnica ou inidoneidade moral do nomeado.
STF. 1ª Turma. Rcl 28024 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 29/05/2018.
São imprescritíveis as ações de ressarcimento ao erário fundadas na prática de ato
doloso tipificado na Lei de Improbidade Administrativa.
STF. Plenário. RE 852475/SP, Rel. orig. Min. Alexandre de Moraes, Rel. para acórdão
Min. Edson Fachin, julgado em 08/08/2018 (repercussão geral) (Info 910).
Prescrição
Se um direito é violado, o titular deste direito passa a ter a pretensão de buscar
judicialmente a reparação do dano (de forma específica ou pelo equivalente em
dinheiro).
Essa pretensão, contudo, deve ser exercida dentro de um prazo previsto na lei.
Esgotado esse prazo, extingue-se a pretensão. A extinção dessa pretensão pelo
decurso do prazo é chamada de prescrição.
Isso está previsto no art. 189 do Código Civil, valendo, como regra geral:
Art. 189. Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela
prescrição, nos prazos a que aludem os arts. 205 e 206.

A prescrição tem como fundamentos a pacificação social e a segurança jurídica. Se não


existisse prazo para o titular do direito exercer a sua pretensão, todas as relações
jurídicas seriam sempre marcadas pela incerteza e instabilidade, considerando que um
fato ocorrido há anos ou mesmo décadas poderia ser questionado.
A prescrição está presente nos diversos ramos do Direito, inclusive no Direito
Administrativo.
Prescrição e atos de improbidade administrativa
Os atos de improbidade administrativa, assim como ocorre com as infrações penais,
também estão sujeitos a prazos prescricionais.
Logo, caso os legitimados ativos demorem muito tempo para ajuizar a ação de
improbidade administrativa contra o responsável pelo ato ímprobo, haverá a prescrição e
a consequente perda da pretensão punitiva.
Qual é o prazo prescricional para a propositura de ações de improbidade
administrativa?
Como regra, 5 anos. Isso está previsto no art. 23 da Lei nº 8.429/92. Confira o texto
legal:
Art. 23. As ações destinadas a levar a efeitos as sanções previstas nesta lei podem ser
propostas:
I - até cinco anos após o término do exercício de mandato, de cargo em comissão ou de
função de confiança;
II - dentro do prazo prescricional previsto em lei específica para faltas disciplinares
puníveis com demissão a bem do serviço público, nos casos de exercício de cargo
efetivo ou emprego.
III - até cinco anos da data da apresentação à administração pública da prestação de
contas final pelas entidades referidas no parágrafo único do art. 1o desta Lei.
Exceção: ressarcimento ao erário em casos de atos de improbidade praticados
dolosamente
A Lei nº 8.429/92 prevê, em seu art. 12, uma lista de sanções que podem ser aplicadas
às pessoas condenadas por ato de improbidade administrativa. São elas:
• perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente;
• perda da função pública;
• suspensão dos direitos políticos;
• multa civil; e
• proibição de contratar com o poder público ou receber benefícios ou incentivos fiscais
ou creditícios;
• ressarcimento integral do dano.
Uma das sanções acima é imprescritível: o ressarcimento integral do dano. O
fundamento para isso está na parte final do § 5º do art. 37 da CF/88:
Art. 37 (...)
§ 4º - Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos
políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao
erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível.
§ 5º A lei estabelecerá os prazos de prescrição para ilícitos praticados por qualquer
agente, servidor ou não, que causem prejuízos ao erário, ressalvadas as respectivas
ações de ressarcimento.
Tese contrária à imprescritibilidade
Apesar da redação do § 5º do art. 37, muitas vozes se levantavam contra a tese da
imprescritibilidade. Argumentavam que a intenção do Poder Constituinte não foi a de
fixar a imprescritibilidade das ações de ressarcimento ao erário.
Segundo essa tese, a correta interpretação dos §§ 4º e 5º do art. 37 deveria ser a
seguinte:
• o constituinte deu um comando ao legislador infraconstitucional: faça uma lei prevendo
atos de improbidade administrativa (§ 4º).
• as sanções para os atos de improbidade são a suspensão dos direitos políticos, a
perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário (§ 4º);
• a lei deverá prever prazos prescricionais para a imposição dessas sanções (§ 5º);
• enquanto não houver lei prevendo quais são os atos de improbidade administrativa,
não poderão ser ajuizadas ações de improbidade administrativa pedindo a aplicação
das sanções previstas no § 4º;
• ficam ressalvadas dessa proibição as ações de ressarcimento (parte final do § 5º), ou
seja, mesmo sem lei expressa, as ações de ressarcimento já poderiam ser propostas.
Desse modo, para essa tese, o que a parte final do § 5º quis dizer foi unicamente que,
mesmo sem Lei de Improbidade Administrativa, poderiam ser ajuizadas ações pedindo
o ressarcimento ao erário. Isso porque o § 5º deve ser interpretado em conjunto com o
§ 4º. Como reforço a esse argumento, alegaram que a Lei de Improbidade somente foi
editada em 1992 (Lei nº 8.429/92). Logo, o objetivo do constituinte foi o de evitar que se
alegasse que o ressarcimento ao erário somente poderia ser exigido com a edição de
lei.
Por fim, argumentavam que a Constituição Federal, quando quis, determinou a
imprescritibilidade de forma expressa. Ex: art. 5º, XLII (racismo) e XLIV (ação de grupos
armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático).
Veja as palavras do Min. Alexandre de Moraes, um dos adeptos dessa tese:
“A preocupação do legislador constituinte foi legítima, pois, em virtude da
exigência do § 4º de edição de lei específica para a definição dos “atos de
improbidade administrativa”, bem como da forma e gradação da aplicação das
sanções de suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a
indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, poderiam surgir dúvidas
sobre a recepção do ordenamento jurídico que, desde a década de 1940,
permitia ações de ressarcimento no caso de improbidade administrativa, apesar
da inexistência de conceituação e de tipificação específica dos denominados
“atos de improbidade administrativa”.
Em outras palavras, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, que
ampliou a possibilidade de sanções por atos de improbidade administrativa, e
em respeito aos princípios da reserva legal e da anterioridade, passou-se a exigir
a edição de lei específica para tipificar as condutas correspondentes a atos de
improbidade administrativa. Nesse momento, houve o justo receio do legislador
constituinte quanto à ocorrência de interpretações que passassem a
impossibilitar ações de ressarcimento ao erário pela prática de atos ilícitos
tradicionalmente entendidos como improbidade administrativa, desde a década
de 1940, mas ainda não tipificados pela nova legislação, que somente foi editada
em 1992.
A ressalva prevista no § 5º do art. 37 da CF não pretendeu estabelecer uma
exceção implícita de imprescritibilidade, mas obrigar constitucionalmente a
recepção das normas legais definidoras dos instrumentos processuais e dos
prazos prescricionais para as ações de ressarcimento do erário, inclusive
referentes a condutas ímprobas, mesmo antes da tipificação legal de
elementares do denominado “ato de improbidade” (Decreto 20.910/1932, Lei
3.164/1957, Lei 3.502/1958, Lei 4.717/1965, Lei 7.347/1985, Decreto-Lei
2.300/1986); mantendo, dessa maneira, até a edição da futura lei e para todos
os atos pretéritos, a ampla possibilidade de ajuizamentos de ações de
ressarcimento.
(...)
Portanto, a ressalva do § 5º do art. 37 permitiu a recepção dos prazos
prescricionais existentes para as ações de ressarcimento decorrentes de graves
condutas de enriquecimento ilícito, por influência ou com abuso de cargo ou
função pública pela legislação então em vigor, até que fosse editada a lei
específica exigida pelo §4º do mesmo artigo; não tendo, portanto, estabelecido
qualquer hipótese implícita de imprescritibilidade.”
O STF concordou com essa tese? O ressarcimento ao erário em caso de atos de
improbidade administrativa também prescreve da mesma forma que as demais
sanções?
NÃO. O STF entendeu que a ação de ressarcimento decorrente de ato doloso de
improbidade é realmente imprescritível.
A regra no ordenamento jurídico é, de fato, a prescritibilidade
A prescrição é um instituto pensado para garantir a estabilização das relações sociais,
sendo, portanto, uma expressão do princípio da segurança jurídica, que faz parte da
estrutura do Estado de Direito.
Prescrição → estabilização das relações sociais → segurança jurídica → Estado de
Direito
Justamente por isso, a regra geral no ordenamento jurídico é a de que as pretensões
devem ser exercidas dentro de um marco temporal limitado. Em outras palavras, a regra
geral é que exista prescrição.
Há, no entanto, algumas exceções explícitas no texto constitucional, nas quais se
reconhece a imprescritibilidade em determinadas situações. É o caso, por exemplo, dos
crimes de racismo (art. 5º, XLII, CF/88) e da ação de grupos armados, civis ou militares,
contra a ordem constitucional e o Estado Democrático (art. 5º, XLIV).
O art. 37, § 5º da CF/88 é uma dessas exceções
Vamos relembrar a redação do art. 37, § 5º:
Art. 37 (...)
§ 5º A lei estabelecerá os prazos de prescrição para ilícitos praticados por qualquer
agente, servidor ou não, que causem prejuízos ao erário, ressalvadas as respectivas
ações de ressarcimento.
Em sua primeira parte, o dispositivo prevê que:
- a lei deverá estabelecer os prazos de prescrição para ilícitos
- praticados por qualquer pessoa (servidor ou não)
- que gerem prejuízo ao erário.
Na segunda parte, o constituinte disse o seguinte: não se aplica o
que eu falei antes para as ações de ressarcimento. O que isso quer dizer? Que a lei não
poderá estabelecer prazos de prescrição para tais ações, sendo elas, portanto,
imprescritíveis.
Assim, o texto constitucional é expresso ao prever a ressalva da imprescritibilidade da
ação de ressarcimento ao erário.
Imprescritibilidade não vale para ressarcimento decorrente de outros ilícitos civis
O § 5º do art. 37 da CF/88 deve ser lido em conjunto com o § 4º, de forma que ele se
refere apenas aos casos de improbidade administrativa.
Se fosse realizada uma interpretação ampla da ressalva final contida no § 5º, isso faria
com que toda e qualquer ação de ressarcimento movida pela Fazenda Pública fosse
imprescritível, o que seria desproporcional.
A prescrição é um instituto importante para se garantir a segurança e estabilidade das
relações jurídicas e da convivência social. É uma forma de se assegurar a ordem e a
paz na sociedade.
Desse modo, a ressalva contida na parte final do § 5º do art. 37 da CF/88 deve ser
interpretada de forma estrita e não se aplica para danos causados ao Poder Público por
força de ilícitos civis.
Foi como decidiu o STF ainda em 2016:
É prescritível a ação de reparação de danos à Fazenda Pública decorrente de ilícito civil.
Dito de outro modo, se o Poder Público sofreu um dano ao erário decorrente de um
ilícito civil e deseja ser ressarcido, ele deverá ajuizar a ação no prazo prescricional
previsto em lei.
STF. Plenário. RE 669069/MG, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 03/02/2016
(repercussão geral).
Ex: João dirigia seu carro quando, por imprudência, acabou batendo no carro de um
órgão público estadual em serviço. Ficou provado, por meio da perícia, que o particular
foi o culpado pelo acidente. O órgão público consertou o veículo, tendo isso custado R$
10 mil. Sete anos depois do acidente, o Estado ajuizou ação de indenização contra João
cobrando os R$ 10 mil gastos com o conserto do automóvel. A defesa de João alegou
que houve prescrição. A alegação da defesa está correta. Isso porque o prejuízo ao
erário não decorreu de um ato de improbidade administrativa, mas foi decorrente de um
ilícito civil. Logo, incide prazo prescricional neste caso.
Desse modo, podemos fazer a seguinte distinção:
Ação de reparação de danos à Fazenda Pública é PRESCRITÍVEL
decorrentes de ilícito civil (STF RE 669069/MG).
é PRESCRITÍVEL
Ação de ressarcimento decorrente de
(devem ser propostas no
ato de improbidade administrativa praticado com CULPA
prazo do art. 23 da LIA).
Ação de ressarcimento decorrente de é IMPRESCRITÍVEL
ato de improbidade administrativa praticado com DOLO (§ 5º do art. 37 da CF/88).

Imprescritibilidade somente vale para atos de improbidade praticados com DOLO


O STF entendeu, portanto, que as ações de ressarcimento ao erário envolvendo atos
de improbidade administrativa são imprescritíveis. No entanto, o Tribunal fez uma
“exigência” a mais que não está explícita no art. 37, § 5º da CF/88.
O Supremo afirmou que somente são imprescritíveis as ações de ressarcimento
envolvendo atos de improbidade administrativa praticados DOLOSAMENTE.
Assim, se o ato de improbidade administrativa causou prejuízo ao erário, mas foi
praticado com CULPA, então, neste caso, a ação de ressarcimento será prescritível e
deverá ser proposta no prazo do art. 23 da LIA.
E existem atos de improbidade administrativa CULPOSOS que causam prejuízo
ao erário?
SIM. Isso é possível, nos termos do art. 10 da Lei nº 8.429/92:
Art. 10. Constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário qualquer
ação ou omissão, dolosa ou culposa, que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação,
malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das entidades referidas no art. 1º
desta lei, e notadamente:
(...)
Vale ressaltar que apenas o art. 10 da Lei nº 8.429/92 admite a prática de ato CULPOSO
de improbidade administrativa. Relembre:
Critério objetivo Critério
subjetivo
Art. 9º — Atos de improbidade que importam enriquecimento
Exige DOLO
ilícito do agente público
Pode ser DOLO
Art. 10 — Atos de improbidade que causam prejuízo ao erário ou, no mínimo,
CULPA
Art. 10-A — Atos de improbidade administrativa decorrentes de
concessão ou aplicação indevida de benefício financeiro ou Exige DOLO
tributário
Art. 11 — Atos de improbidade que atentam contra princípios da
Exige DOLO
administração pública

Tese fixada pelo STF


O STF fixou a seguinte tese para fins de repercussão geral:
São imprescritíveis as ações de ressarcimento ao erário fundadas na prática de
ato doloso tipificado na Lei de Improbidade Administrativa.
STF. Plenário. RE 852475/SP, Rel. orig. Min. Alexandre de Moraes, Rel. para acórdão
Min. Edson Fachin, julgado em 08/08/2018 (Info 910).
Placar
Vale ressaltar que o placar de votação foi bem apertado, com resultado de 6 x 5 em
favor da tese vencedora.
Votaram pela prescritibilidade:
• Alexandre de Moraes
• Dias Toffoli
• Ricardo Lewandowski
• Gilmar Mendes
• Marco Aurélio.
Votaram pela imprescritibilidade:
• Edson Fachin
• Rosa Weber
• Cármen Lúcia
• Celso de Mello
• Luiz Fux
• Roberto Barroso
Uma peculiaridade está no fato de que os Ministros Luiz Fux e Roberto Barroso
inicialmente votaram em favor da prescritibilidade. Ocorre que, uma semana depois,
revisaram o posicionamento e alteraram o entendimento, votando em favor da tese da
imprescritibilidade.

Em regra, para a configuração dos atos de improbidade administrativa previstos no art.


10 da Lei nº 8.429/92 exige-se a presença do efetivo dano ao erário.
Exceção: no caso da conduta descrita no inciso VIII do art. 10, VIII não se exige a
presença do efetivo dano ao erário. Isso porque, neste caso, o dano é presumido (dano
in re ipsa).
STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1542025/MG, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em
05/06/2018.

Art. 10 (...)
VIII - frustrar a licitude de processo licitatório ou de processo seletivo para celebração
de parcerias com entidades sem fins lucrativos, ou dispensá-los indevidamente;

Os agentes políticos, com exceção do Presidente da República, encontram-se sujeitos


a duplo regime sancionatório, de modo que se submetem tanto à responsabilização civil
pelos atos de improbidade administrativa quanto à responsabilização político-
administrativa por crimes de responsabilidade.
O foro especial por prerrogativa de função previsto na Constituição Federal em relação
às infrações penais comuns não é extensível às ações de improbidade administrativa.
STF. Plenário. Pet 3240 AgR/DF, rel. Min. Teori Zavascki, red. p/ o ac. Min. Roberto
Barroso, julgado em 10/5/2018 (Info 901).

Os agentes políticos, com exceção do Presidente da República, encontram-se sujeitos


a duplo regime sancionatório, de modo que se submetem tanto à responsabilização civil
pelos atos de improbidade administrativa quanto à responsabilização político-
administrativa por crimes de responsabilidade.
O foro especial por prerrogativa de função previsto na Constituição Federal em relação
às infrações penais comuns não é extensível às ações de improbidade administrativa.
STF. Plenário. Pet 3240 AgR/DF, rel. Min. Teori Zavascki, red. p/ o ac. Min. Roberto
Barroso, julgado em 10/5/2018 (Info 901).

A ação de improbidade administrativa deve ser processada e julgada nas instâncias


ordinárias, ainda que proposta contra agente político que tenha foro privilegiado no
âmbito penal e nos crimes de responsabilidade.
STJ. Corte Especial. AgRg na Rcl 12514-MT, Rel. Min. Ari Pargendler, julgado em
16/9/2013 (Info 527).

Nas ações de ressarcimento ao erário e improbidade administrativa ajuizadas em face


de eventuais irregularidades praticadas na utilização ou prestação de contas de valores
decorrentes de convênio federal, o simples fato das verbas estarem sujeitas à prestação
de contas perante o Tribunal de Contas da União, por si só, não justifica a competência
da Justiça Federal.
Igualmente, a mera transferência e incorporação ao patrimônio municipal de verba
desviada, no âmbito civil, não pode impor de maneira absoluta a competência da Justiça
Estadual. Se houver manifestação de interesse jurídico por ente federal que justifique a
presença no processo, (v.g. União ou Ministério Público Federal) regularmente
reconhecido pelo Juízo Federal nos termos da Súmula 150/STJ, a competência para
processar e julgar a ação civil de improbidade administrativa será da Justiça Federal.
As Súmulas 208 e 209 do STJ provêm da 3ª Seção do STJ e versam hipóteses de
fixação da competência em matéria penal, em que basta o interesse da União ou de
suas autarquias para deslocar a competência para a Justiça Federal, nos termos do
inciso IV do art. 109 da CF. Logo, não podem ser utilizadas como critério para as
demandas cíveis.
Diante disso, é possível afirmar que a competência cível da Justiça Federal deve ser
definida em razão da presença das pessoas jurídicas de direito público previstas no art.
109, I, da CF/88 na relação processual, seja como autora, ré, assistente ou oponente e
não em razão da natureza da verba federal sujeita à fiscalização do TCU.
Assim, em regra, compete à Justiça Estadual processar e julgar agente público acusado
de desvio de verba recebida em razão de convênio firmado com a ente federal, salvo se
houver a presença das pessoas jurídicas de direito público previstas no art. 109, I, da
CF/88 na relação processual.
STJ. 1ª Seção. CC 142354/BA, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em
23/09/2015.
STJ. 1ª Seção. AgRg no CC 133.619/PA, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em
09/05/2018.

O art. 12 da Lei nº 8.429/92 não prevê a cassação de aposentadoria como sanção.


Mesmo assim, é possível a sua imposição? O indivíduo que praticar ato de improbidade
administrativa poderá receber, como punição, a cassação de sua aposentadoria?
1ª corrente: NÃO. É a posição da 1ª Turma do STJ.
O art. 12 da Lei nº 8.429/92, quando cuida das sanções aplicáveis aos agentes públicos
que cometem atos de improbidade administrativa, não prevê a cassação de
aposentadoria, mas tão só a perda da função pública.
As normas que descrevem infrações administrativas e cominam penalidades constituem
matéria de legalidade estrita, não podendo sofrer interpretação extensiva.
STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1643337/MG, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em
19/04/2018.

2ª corrente: SIM. É a posição da 2ª Turma do STJ.


É possível a aplicação da pena de cassação de aposentadoria, ainda que não haja
previsão expressa na Lei nº 8.429/92. Isso porque se trata de uma decorrência lógica
da perda de cargo público, sanção essa última expressamente prevista no referido texto
legal.
STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 1628455/ES, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em
06/03/2018.

Em caso de ação de improbidade administrativa que envolva dois ou mais réus, o prazo
prescricional de 5 anos previsto no art. 23 da Lei nº 8.429/92 deve ser contado de forma
individual.
O art. 23 é claro no sentido de que o início do prazo prescricional ocorre com o término
do exercício do mandato ou cargo em comissão, sendo tal prazo computado
individualmente, mesmo na hipótese de concurso de agentes, haja vista a própria
natureza subjetiva da pretensão sancionatória e do instituto em tela.
STJ. 2ª Turma. REsp 1230550/PR, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 20/02/2018.

A indisponibilidade prevista na Lei de Improbidade Administrativa pode recair sobre bens


de família.
STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1670672/RJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em
30/11/2017.
STJ. 2ª Turma. EDcl no AgRg no REsp 1351825/BA, Rel. Min. Og Fernandes, julgado
em 22/09/2015.

A sentença que concluir pela carência ou pela improcedência de ação de improbidade


administrativa está sujeita ao reexame necessário, com base na aplicação subsidiária
do CPC e por aplicação analógica da primeira parte do art. 19 da Lei nº 4.717/65.
STJ. 1ª Seção.EREsp 1220667-MG, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 24/5/2017
(Info 607).
É possível a abertura de inquérito civil pelo Ministério Público objetivando a apuração
de ato ímprobo atribuído a magistrado mesmo que já exista concomitante procedimento
disciplinar na Corregedoria do Tribunal acerca dos mesmos fatos, não havendo
usurpação das atribuições da Corregedoria pelo órgão ministerial investigante.
A mera solicitação para que o juiz preste depoimento pessoal nos autos de inquérito
civil instaurado pelo Ministério Público para apuração de suposta conduta ímproba não
viola o disposto no art. 33, IV, da LC nº 35/79 (LOMAN).
STJ. 1ª Turma. RMS 37151-SP, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. para acórdão
Min. Sérgio Kukina, julgado em 7/3/2017 (Info 609).

Em regra, para a configuração dos atos de improbidade administrativa previstos no art.


10 da Lei nº 8.429/92 exige-se a presença do efetivo dano ao erário.
Exceção: no caso da conduta descrita no inciso VIII do art. 10, VIII não se exige a
presença do efetivo dano ao erário. Isso porque, neste caso, o dano é presumido (dano
in re ipsa).
STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1542025/MG, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em
05/06/2018.

Para o STJ, em casos de fracionamento de compras e contratações com o objetivo de


se dispensar ilegalmente o procedimento licitatório, o prejuízo ao erário é considerado
presumido (in re ipsa), na medida em que o Poder Público, por força da conduta ímproba
do administrador, deixa de contratar a melhor proposta, o que gera prejuízos aos cofres
públicos.
STJ. 2ª Turma. REsp 1280321/MG, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em
06/03/2012.

Assim, a indevida dispensa de licitação, por impedir que a administração pública


contrate a melhor proposta, causa dano in re ipsa, descabendo exigir do autor da ação
civil pública prova a respeito do tema.
STJ. 2ª Turma. REsp 817921/SP, Rel. Min. Castro Meira, julgado em 27/11/2012.

Nos casos de contratação irregular decorrente de fraude à licitação, o STJ considera


que o dano é in re ipsa.
STJ. 2ª Turma. AgRg nos EDcl no AREsp 419769/SC, Rel. Min. Herman Benjamin,
julgado em 18/10/2016.
STJ. 1ª Turma. AgRg no REsp 1499706/SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em
02/02/2017.
STJ. 2ª Turma. REsp 1280321/MG, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em
06/03/2012.
STJ. 2ª Turma. REsp 728341/SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 14/03/2017.
Não configura bis in idem a coexistência de título executivo extrajudicial (acórdão do
TCU) e sentença condenatória em ação civil pública de improbidade administrativa que
determinam o ressarcimento ao erário e se referem ao mesmo fato, desde que seja
observada a dedução do valor da obrigação que primeiramente foi executada no
momento da execução do título remanescente.
STJ. 1ª Turma. REsp 1413674-SE, Rel. Min. Olindo Menezes (Desembargador
Convocado do TRF 1ª Região), Rel. para o acórdão Min. Benedito Gonçalves, julgado
em 17/5/2016 (Info 584).

No caso de condenação pela prática de ato de improbidade administrativa que atenta


contra os princípios da administração pública, as penalidades de suspensão dos direitos
políticos e de proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou
incentivos fiscais ou creditícios não podem ser fixadas abaixo de 3 anos, considerando
que este é o mínimo previsto no art. 12, III, da Lei nº 8.429/92.
Não existe autorização na lei para estipular sanções abaixo desse patamar.
STJ. 2ª Turma. REsp 1582014-CE, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 7/4/2016
(Info 581).
Ainda que não haja dano ao erário, é possível a condenação por ato de improbidade
administrativa que importe enriquecimento ilícito (art. 9º da Lei nº 8.429/92), excluindo-
se, contudo, a possibilidade de aplicação da pena de ressarcimento ao erário.
STJ. 1ª Turma. REsp 1412214-PR, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. para
acórdão Min. Benedito Gonçalves, julgado em 8/3/2016 (Info 580).

A condenação pela Justiça Eleitoral ao pagamento de multa por infringência às


disposições contidas na Lei n. 9.504/1997 (Lei das Eleições) não impede a imposição
de nenhuma das sanções previstas na Lei nº 8.429/1992 (Lei de Improbidade
Administrativa), inclusive da multa civil, pelo ato de improbidade decorrente da mesma
conduta.
STJ. 2ª Turma. AgRg no AREsp 606352-SP, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em
15/12/2015 (Info 576).

Recursos cabíveis contra a:


1) sentença que rejeita a inicial da ação de improbidade: cabe APELAÇÃO.
2) decisão que recebe a inicial da ação de improbidade: cabe AGRAVO DE
INSTRUMENTO.
3) decisão que recebe a inicial contra alguns réus e rejeita para os demais: AGRAVO
DE INSTRUMENTO (obs: caso o autor da ação de improbidade interponha apelação
em vez do AI, será possível receber o recurso, com base no princípio da fungibilidade,
desde que não haja má-fé e tenha sido interposto no prazo do recurso correto).
Segundo decidiu o STJ, pode ser conhecida a apelação que, sem má-fé e em prazo
compatível com o previsto para o agravo de instrumento, foi interposta contra decisão
que, em juízo prévio de admissibilidade em ação de improbidade administrativa,
reconheceu a ilegitimidade passiva ad causam de alguns dos réus.
STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1305905-DF, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em
13/10/2015 (Info 574).

A indisponibilidade pode recair sobre bens adquiridos tanto antes quanto depois da
prática do ato de improbidade.
A jurisprudência do STJ abona a possibilidade de que a indisponibilidade, na ação de
improbidade administrativa, recaia sobre bens adquiridos antes do fato descrito na
inicial. A medida se dá como garantia de futura execução em caso de constatação do
ato ímprobo.
STJ. 1ª Turma. REsp 1301695/RS, Rel. Min. Olindo Menezes (Des. Conv. TRF 1ª
Região), julgado em 06/10/2015.
O prazo prescricional em ação de improbidade administrativa movida contra prefeito
reeleito só se inicia após o término do segundo mandato, ainda que tenha havido
descontinuidade entre o primeiro e o segundo mandato em razão da anulação de pleito
eleitoral, com posse provisória do Presidente da Câmara, por determinação da Justiça
Eleitoral, antes da reeleição do prefeito em novas eleições convocadas.
Ex: João foi Prefeito no período jan/2001 a dez/2004 (primeiro mandato). Em 2002 ele
praticou um ato de improbidade administrativa. Em out/2004 concorreu e conseguiu ser
reeleito para um novo mandato (que seria de jan/2005 a dez/2008). Ocorre que não
chegou a tomar posse em 1º de janeiro de 2005, pois teve seu registro de candidatura
cassado em virtude de condenação na Justiça Eleitoral. Tomou posse o Presidente da
Câmara Municipal. O TRE marcou nova eleição para o Município e João foi novamente
eleito, tendo tomado posse em fevereiro de 2006. Desse modo, João ficou fora da
Prefeitura durante 1 ano e 1 mês, período no qual o Município foi comandado pelo
Presidente da Câmara. Em 2008, acabou o segundo mandato de João. O prazo
prescricional quanto à improbidade praticada em 2002 somente se iniciou em dezembro
de 2008 com o término do segundo mandato.
STJ. 2ª Turma. REsp 1414757-RN, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 6/10/2015
(Info 571).

É admissível a concessão de liminar inaudita altera parte para a decretação de


indisponibilidade e sequestro de bens, visando assegurar o resultado útil da tutela
jurisdicional, qual seja, o ressarcimento ao Erário.
Desse modo, o STJ entende que, ante sua natureza acautelatória, a medida de
indisponibilidade de bens em ação de improbidade administrativa pode ser deferida nos
autos da ação principal sem audiência da parte adversa e, portanto, antes da notificação
para defesa prévia (art. 17, § 7º da LIA).
STJ. 1ª Turma. AgRg no AREsp 671281/BA, Rel. Min. Olindo Menezes (Des. Conv. do
TRF 1ª Região), julgado em 03/09/2015.

Segundo decidiu o STJ, as verbas absolutamente impenhoráveis não podem ser objeto
da medida de indisponibilidade na ação de improbidade administrativa. Isso porque,
sendo elas impenhoráveis, não poderão assegurar uma futura execução (STJ. 1ª
Turma. REsp 1164037/RS, Rel. p/ Ac. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em
20/02/2014).
Vale ressaltar que esse entendimento acima exposto (REsp 1164037/RS) é
contraditório com julgados do STJ que afirmam que é possível que a indisponibilidade
recaia sobre bem de família, por exemplo, que, como se sabe, é impenhorável (STJ. 1ª
Turma. AgRg no REsp 1483040/SC, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em
01/09/2015)

A tortura de preso custodiado em delegacia praticada por policial constitui ato de


improbidade administrativa que atenta contra os princípios da administração pública.
STJ. 1ª Seção. REsp 1177910-SE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 26/8/2015
(Info 577).
O estagiário que atua no serviço público, ainda que transitoriamente, remunerado ou
não, está sujeito a responsabilização por ato de improbidade administrativa. Isso porque
o conceito de agente público para fins de improbidade abrange não apenas os
servidores públicos, mas todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem
remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer outra forma
de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função na Administração
Pública.
Além disso, é possível aplicar a lei de improbidade mesmo para quem não é agente
público, mas induza ou concorra para a prática do ato de improbidade ou dele se
beneficie sob qualquer forma, direta ou indireta. É o caso do chamado "terceiro", definido
pelo art. 3º da Lei nº 8.429/92.
STJ. 2ª Turma. REsp 1352035-RS, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 18/8/2015
(Info 568).
Determinado Município ajuizou Ação Civil Pública de Improbidade Administrativa contra
o ex-prefeito da cidade, sob o argumento de que este, enquanto prefeito, firmou
convênio com órgão/entidade federal e recebeu recursos para aplicar em favor da
população e, no entanto, não prestou contas no prazo devido, o que fez com o que o
Município fosse incluído no cadastro negativo da União, estando, portanto,
impossibilitado de receber novos recursos federais.
Esta ação de improbidade administrativa deverá ser julgada pela Justiça Federal ou
Estadual?
• Regra: compete à Justiça Estadual (e não à Justiça Federal) processar e julgar ação
civil pública de improbidade administrativa na qual se apure irregularidades na prestação
de contas, por ex-prefeito, relacionadas a verbas federais transferidas mediante
convênio e incorporadas ao patrimônio municipal.
• Exceção: será de competência da Justiça Federal se a União, autarquia federal,
fundação federal ou empresa pública federal manifestar expressamente interesse de
intervir na causa porque, neste caso, a situação se amoldará no art. 109, I, da CF/88.
STJ. 1ª Seção. CC 131323-TO, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em
25/3/2015 (Info 559).

O membro do Ministério Público pode ser processado e condenado por ato de


improbidade administrativa?
SIM. É pacífico o entendimento de que o Promotor de Justiça (ou Procurador da
República) pode ser processado e condenado por ato de improbidade administrativa,
com fundamento na Lei 8.429/92.
Mesmo gozando de vitaliciedade e a Lei prevendo uma série de condições para a perda
do cargo, o membro do MP, se for réu em uma ação de improbidade administrativa,
poderá ser condenado à perda da função pública? O membro do MP pode ser réu em
uma ação de improbidade de que trata a Lei 8.429/92 e, ao final, ser condenado à perda
do cargo mesmo sem ser adotado o procedimento da Lei 8.625/93 e da LC 75/93?
SIM. O STJ decidiu que é possível, no âmbito de ação civil pública de improbidade
administrativa, a condenação de membro do Ministério Público à pena de perda da
função pública prevista no art. 12 da Lei 8.429/92.
A Lei 8.625/93 (Lei Orgânica Nacional do MP) e a LC 75/93 preveem uma série de
regras para que possa ser ajuizada ação civil pública de perda do cargo contra o
membro do MP. Tais disposições impedem que o membro do MP perca o cargo em
ação de improbidade?
NÃO. Segundo o STJ, o fato de essas leis preverem a garantia da vitaliciedade aos
membros do MP e a necessidade de ação judicial para a aplicação da pena de demissão
não significa que elas proíbam que o membro do MP possa perder o cargo em razão de
sentença proferida na ação civil pública por ato de improbidade administrativa.
Essas leis tratam dos casos em que houve um procedimento administrativo no âmbito
do MP para apuração de fatos imputados contra o Promotor/Procurador e, sendo
verificada qualquer das situações previstas nos incisos do § 1º do art. 38, deverá obter-
se autorização do Conselho Superior para o ajuizamento de ação civil específica.
Desse modo, tais leis não cuidam de improbidade administrativa e, portanto, nada
interferem nas disposições da Lei 8.429/92.
Em outras palavras, existem as ações previstas na LC 75/93 e na Lei 8.625/93, mas
estas não excluem (não impedem) que o membro do MP também seja processado e
condenado pela Lei 8.429/92. Os dois sistemas convivem harmonicamente. Um não
exclui o outro.
Se o membro do MP praticou um ato de improbidade administrativa, ele poderá ser réu
em uma ação civil e perder o cargo? Essa ação deverá ser proposta segundo o rito da
lei da carreira (LC 75/93 / Lei 8.625/93) ou poderá ser proposta nos termos da Lei
8.429/92?
SIM. O membro do MP que praticou ato de improbidade administrativa poderá ser réu
em uma ação civil e perder o cargo. Existem duas hipóteses possíveis:
• Instaurar o processo administrativo de que trata a lei da carreira (LC 75/93: MPU / Lei
8.625/93: MPE) e, ao final, o PGR ou o PGJ ajuizar ação civil de perda do cargo contra
o membro do MP.
• Ser proposta ação de improbidade administrativa, nos termos da Lei 8.429/92. Neste
caso, não existe legitimidade exclusiva do PGR ou PGJ. A ação poderá ser proposta
até mesmo por um Promotor de Justiça (no caso do MPE) ou Procurador da República
(MPF) que atue em 1ª instância.
STJ. 1ª Turma. REsp 1191613-MG, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em
19/3/2015 (Info 560).
A conduta de contratar diretamente serviços técnicos sem demonstrar a singularidade
do objeto contratado e a notória especialização, e com cláusula de remuneração
abusiva, fere o dever do administrador de agir na estrita legalidade e moralidade que
norteiam a Administração Pública, amoldando-se ao ato de improbidade administrativa
tipificado no art. 11 da Lei de Improbidade.
É desnecessário perquirir acerca da comprovação de enriquecimento ilícito do
administrador público ou da caracterização de prejuízo ao Erário.
O dolo está configurado pela manifesta vontade de realizar conduta contrária ao dever
de legalidade, corroborada pelos sucessivos aditamentos contratuais, pois é inequívoca
a obrigatoriedade de formalização de processo para justificar a contratação de serviços
pela Administração Pública sem o procedimento licitatório (hipóteses de dispensa ou
inexigibilidade de licitação).
STJ. 2ª Turma. REsp 1377703/GO, Rel. p/ Acórdão Min. Herman Benjamin, julgado em
03/12/2013.
STJ. 2ª Turma. REsp 1444874/MG, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 03/02/2015.

LEI ANTICORRUPÇÃO
É possível o compartilhamento, para outros órgãos e autoridades públicas, das provas
obtidas no acordo de leniência, desde que sejam respeitados os limites estabelecidos
no acordo em relação aos aderentes.
Assim, por exemplo, se uma empresa celebra acordo de leniência com o MPF aceitando
fornecer provas contra si, estas provas somente poderão ser utilizadas para as sanções
que foram ajustadas no acordo.
No entanto, nada impede que tais provas sejam fornecidas (compartilhadas) para os
órgãos de apuração para que sejam propostas medidas contra as outras pessoas
envolvidas nos ilícitos e que não fizeram parte do acordo.
STF. 2ª Turma. Inq 4420/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 28/8/2018 (Info 913)
Acordo de leniência
A Lei 12.846/2013 prevê a possibilidade de a pessoa jurídica que praticar ato lesivo à
administração pública celebrar um “acordo de leniência” para abrandar a sua punição.
O acordo de leniência é uma espécie de “colaboração premiada”.
Quais são os requisitos para que o acordo seja celebrado?
Para que o acordo de leniência seja celebrado deverão ser preenchidos,
cumulativamente, os seguintes requisitos:
I - a pessoa jurídica seja a primeira a se manifestar sobre seu interesse em cooperar
para a apuração do ato ilícito;
II - a pessoa jurídica cesse completamente seu envolvimento na infração investigada a
partir da data de propositura do acordo;
III - a pessoa jurídica admita sua participação no ilícito e coopere plena e
permanentemente com as investigações e o processo administrativo, comparecendo,
sob suas expensas, sempre que solicitada, a todos os atos processuais, até seu
encerramento.
A colaboração da pessoa jurídica precisa ser eficaz?
SIM. É necessário que a pessoa jurídica colabore efetivamente com as investigações e
com o processo e dessa colaboração deve resultar:
I - a identificação dos demais envolvidos na infração, quando couber; e
II - a obtenção célere de informações e documentos que comprovem o ilícito sob
apuração.
No acordo de leniência serão estipuladas as condições necessárias para que seja
assegurada a efetividade da colaboração e o resultado útil do processo.
O Ministério Público pode celebrar acordo de leniência?
Existe uma polêmica sobre isso. O art. 16, § 10 da Lei nº 12.846/2013 afirma que “a
Controladoria-Geral da União - CGU é o órgão competente para celebrar os acordos de
leniência no âmbito do Poder Executivo federal, bem como no caso de atos lesivos
praticados contra a administração pública estrangeira.”
A posição que prevalece, contudo, é a de que, mesmo no silêncio da Lei, o Ministério
Público pode sim fazer o acordo de leniência porque isso decorre do art. 129 da CF/88.
Cuidado para não confundir
Existe um acordo de leniência que é previsto na Lei nº 12.529/2011. Ele é diferente do
que estamos estudando aqui.
O acordo de leniência da Lei nº 12.529/2011 “é um instrumento de defesa da
concorrência por meio do qual um ou mais agentes que praticaram infração à ordem
econômica cooperam voluntariamente com as investigações em troca de redução da
pena ou até mesmo do perdão total. Trata-se de instituto equivalente à delação
premiada do direito penal." (RAMOS, André Luiz Santa Cruz; GUTERRES, Thiago
Martins. Lei Antitruste. Salvador: Juspodivm, 2015, p. 163).
Feitos os devidos esclarecimentos, imagine a seguinte situação concreta:
Tramitava no Supremo Tribunal Federal um inquérito para apurar suposta propina que
teria sido paga pela construtora ODEBRECHT ao Deputado Federal Rodrigo Garcia, na
época em que ele era Secretário Municipal na cidade de São Paulo (SP).
Vale ressaltar que os elementos informativos (“provas”) que constam neste inquérito
foram fornecidos pela própria ODEBRECHT, que firmou um acordo de leniência com o
Ministério Público Federal.
A Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social de São Paulo soube da
existência desse inquérito e requereu ao STF o compartilhamento das “provas” a fim de
instruir um inquérito civil instaurado para investigar a possível prática de ato de
improbidade por parte de Rodrigo Garcia.
Na prática, isso significa o que? O Promotor de Justiça encaminhou um ofício ao STF
dizendo o seguinte: eu instaurei aqui um inquérito civil contra esse Deputado para apurar
a eventual prática de ato de improbidade administrativa e gostaria de ter acesso integral
aos autos deste inquérito que tramita aí no Supremo para poder utilizar estes elementos
na ação de improbidade que irei propor.
A ODEBRECHT manifestou-se contrariamente ao compartilhamento afirmando o
seguinte: a nossa empresa celebrou um acordo de leniência com o MPF. Se o MP/SP
quer ter acesso ao inteiro teor do inquérito, deverá aderir ao acordo de leniência e, ainda
assim, não poderá utilizar estas provas para ingressar com ação de improbidade em
desfavor da ODEBRECHT. Isso porque as provas fornecidas pela ODEBRECHT no
acordo não podem ser utilizadas contra ela própria.
O STF deferiu o pedido do MP/SP? Houve o compartilhamento das provas?
SIM. Vamos entender com calma.
Provas realmente não podem ser utilizadas contra o colaborador
As provas obtidas com o acordo de leniência ou com o acordo de colaboração premiada
podem ser compartilhadas com outros órgãos e autoridades públicas nacionais e até
estrangeiras. Tais provas podem ser utilizadas por tais autoridades para fins cíveis,
fiscais, administrativos e até mesmo criminais.
No entanto, tais provas NÃO podem ser utilizadas contra os próprios colaboradores para
produzir punições além daquelas pactuadas no acordo.
Em outras palavras, no acordo de leniência, a ODEBRECHT confessou a prática de
ilícitos e apresentou provas contra outras pessoas que também participaram dos fatos.
No próprio acordo já ficaram acertadas as sanções a que ela irá se submeter.
Se uma outra autoridade (ex: MP/SP) pede para utilizar tais provas, isso pode ser
autorizado, mas tais elementos fornecidos não poderão ser utilizados contra a empresa
colaboradora (ODEBRECHT).
Esta ressalva deve ser expressamente comunicada ao destinatário da prova, com a
informação de que se trata de uma limitação intrínseca e subjetiva de validade do uso
da prova, nos termos da Nota Técnica nº 01/2017, da 5ª Câmara de Coordenação e
Revisão do MPF.
Por que funciona assim?
O colaborador aceitou produzir provas contra si mesmo porque isso ficou combinado
segundo os termos do acordo de leniência celebrado com o Estado. Em outras palavras,
o colaborador concordou em confessar porque foi feito um acordo de que ele somente
seria punido de acordo com aquilo que foi combinado.
Assim, a utilização de tais elementos probatórios, produzidos pelo próprio colaborador,
em seu prejuízo, de modo distinto do firmado com a acusação e homologado pelo
Judiciário, é prática abusiva, que viola o direito à não autoincriminação.
Deve-se ressaltar que isso não impede que outras autoridades não aderentes ao acordo
realizem investigações e persecuções distintas (por exemplo, sobre fatos novos ou não
incluídos no acordo), mas veda somente a utilização para esses casos de elementos
probatórios produzidos pelos próprios colaboradores em razão do negócio firmado.
Acordo de leniência previa a não propositura de ações de improbidade contra a
ODEBRECHT
No acordo de leniência em questão, o MPF se comprometeu a não propor, contra os
aderentes (ODEBRECHT e suas demais empresas), qualquer ação de natureza cível
ou penal em relação aos fatos e condutas nele revelados.
Uma das cláusulas previa expressamente que não se poderia utilizar as provas
fornecidas pela construtora para se ajuizar ação de improbidade administrativa contra
ela. Veja:
“d) a não propor qualquer ação de natureza cível ou sancionatória, inclusive ações de
improbidade administrativa, pelos fatos ou condutas revelados em decorrência deste
Acordo de Leniência, contra a COLABORADORA, empresas de seu grupo econômico,
Aderentes, enquanto cumpridas integralmente as cláusula estabelecidas neste Acordo
(...)”
Tudo bem. Até agora entendi... Mas por que o STF autorizou então o
compartilhamento das provas com o MP/SP para a possível ação de improbidade?
Porque o inquérito civil não investiga apenas o Deputado (que, na época, era
Secretário), ou seja, o alvo é um indivíduo que não é abrangido pelo acordo de leniência.
Assim, o STF afirmou o seguinte: eu autorizo o compartilhamento, no entanto, o MP/SP
deverá respeitar os termos do acordo de leniência em relação à empresa colaboradora
(ODEBRECHT).
É interessante fazer a leitura da ementa do julgado:
Penal e Processual Penal. 2. Compartilhamento de provas e acordo de leniência. 3. A
possibilidade de compartilhamento de provas produzidas consensualmente para outras
investigações não incluídas na abrangência do negócio jurídico pode colocar em risco
a sua efetividade e a esfera de direitos dos imputados que consentirem em colaborar
com a persecução estatal. 4. No caso em concreto, o inquérito civil investiga possível
prática de ato que envolve imputado que não é abrangido pelo acordo de leniência em
questão. 5. Contudo, deverão ser respeitados os termos do acordo em relação à
agravante e aos demais aderentes, em caso de eventual prejuízo a tais pessoas. 6.
Nego provimento ao agravo, mantendo a decisão impugnada e o compartilhamento de
provas, observados os limites estabelecidos no acordo de leniência em relação à
agravante e aos demais aderentes.
STF. 2ª Turma. Inq 4420 AgR, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 28/08/2018.